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2.3.

– FORMAÇÕES MODULARES CERTIFICADAS


3279 - Expressão Dramática,
Corporal,
Vocal e Verbal

Formadora:
Paula Rita da Silva Lourenço
(Novembro de 2011)
ÍNDICE

ÍNDICE...........................................................................................................1
INTRODUÇÃO...................................................................................................1

INTRODUÇÃO

As artes são elementos fundamentais para o desenvolvimento da


expressão pessoal, social e cultural do ser humano. São formas de saber que
articulam imaginação, razão e emoção. Elas atravessam as vidas das
pessoas, trazendo novas perspectivas, formas e densidades ao ambiente e à
sociedade em que se vive.
A vivência artística permite a participação em desafios colectivos e
pessoais que contribuem para a construção da identidade pessoal e social,
exprimem e encorpam a identidade nacional, permitem o entendimento das
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tradições de outras culturas e são uma área de eleição no âmbito da
aprendizagem ao longo da vida.
As expressões, dramática, corporal, vocal e verbal são umas das áreas
privilegiadas na educação artística. Estas constituem-se como quatro
vertentes expressivas indispensáveis à formação integral do ser humano,
que têm como finalidade a contribuição para o desenvolvimento integral dos
formandos, preparando-os para o exercício competente e consciente da sua
profissão.
O grande objectivo da elaboração deste Manual é tornar esses
conhecimentos acessíveis, isto é, contribuir seguramente para a divulgação
de medidas que, uma vez postas em prática, permita um percurso evolutivo
por parte do formando, partindo do desenvolvimento das suas próprias
competências expressivas, em direcção ao domínio de métodos e técnicas
indispensáveis à sua acção como profissional.
Este Manual destina-se à comunidade em geral, a todos que
pretendem: desenvolver estratégias que conduzam a uma abordagem
criativa e lúdica das práticas artísticas e que estimulem a autonomia e
interesse pela descoberta; desenvolver estratégias de integração das várias
expressões; desenvolver um repertório de actividades e técnicas que possa
servir de base para futuros progressos; e despertar a consciência para o
valor estético no trabalho a desenvolver com crianças.
Este Manual deve ser utilizado sempre como apoio a toda a formação
que é dada nas sessões teórico-práticas, servindo assim de complemento à
formação.

A EDUCAÇÃO ARTÍSTICA E O SER HUMANO

Cada vez mais a educação deve ser motivadora de saberes, adaptados


à civilização actual, uma vez que são os pilares das competências do futuro
e que permitem ao indivíduo encontrar referências que o tornem autónomo
e capaz de decidir quais os caminhos mais ajustados a percorrer, orientando-
o para projectos de desenvolvimento individual e colectivo.
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Ao longo da vida, o ser humano explora diversas situações, de forma a
actualizar, aprofundar e enriquecer os seus conhecimentos e a adaptar-se ao
mundo que se encontra em mudanças permanentes.
É a partir do conceito de educação ao longo da vida, organizado por
quatro aprendizagens - aprender a conhecer; aprender a fazer; aprender a
viver juntos e aprender a ser - que a UNESCO (1996), através da Comissão
Internacional sobre a Educação para o século XXI, desafia a sociedade e os
agentes educativos a repensar a escola enquanto espaço certificador de
conhecimento, mas também espaço de desenvolvimento de competências
sociais, de partilha de experiências e de reflexão de resultados
A escola deverá promover a criatividade, originalidade, iniciativa e
sentido crítico que potenciem a comunicação e permitam o entusiasmo pelas
suas próprias actividades e lhes facultem perspectivas face às suas opções
pessoais e profissionais. Para tal, importa relevar as actividades artísticas
criativas no sistema de ensino, ao diversificar as suas aprendizagens e criar
modalidades e estratégias que impliquem os vários agentes sociais no
processo educativo.
A nossa sociedade tem vindo a sofrer alterações socioculturais que
implicam a existência de novas atitudes por parte do sistema educativo. Esta
nova realidade existente nas escolas portuguesas, com base na
heterogeneidade social e cultural, deve ser adaptada e transformada de
forma criativa e inovadora. Deste modo, cabe à Educação a missão de fazer
com que todos, sem excepção, façam frutificar os seus talentos e
potencialidades criativas.
Esse projecto deverá dar primazia a políticas educativas que
impliquem a construção e preparação do próprio indivíduo e do
estabelecimento de relações entre os vários agentes sociais, em todo o
mundo.
Para que os indivíduos continuem a ser capazes de criar gerações
aptas e versáteis face à sociedade actual, convém oferecer às crianças e aos
jovens todas as ocasiões possíveis de descoberta e de experimentação -
estética, artística, desportiva, científica, cultural e social.

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O acesso democrático a uma educação básica com qualidade continua
a ser um dos grandes desafios presentes no século XXI, na medida em que
ainda constitui-se como um problema em todos países, até mesmo nas
civilizações industrializadas. É a partir desta fase da educação que os
conteúdos devem desenvolver o gosto por aprender, a sede e alegria de
conhecer e, portanto, o desejo e as possibilidades de ter acesso, mais tarde,
à educação ao longo de toda a vida.
Nesta sociedade contemporânea, que se encontra em permanente
mudança e que promove a inovação a nível económico e social, deve dar
relevância à diversidade de personalidades, ao espírito crítico e de iniciativa,
à imaginação, à criatividade e à autonomia, para que cada indivíduo possua
atributos essenciais para manifestar a sua liberdade humana e não seja
submetido a uma uniformização de comportamentos sociais. Digamos que
este novo século necessita desta variedade de competências e de
personalidades para tornar cada ser humano igualmente fundamental, em
qualquer civilização e, por isso, a escola deverá estimular e aproveitar, em
benefício do desenvolvimento individual dos seus alunos, dos projectos
comuns de cooperação e de construção social interactiva.

EXPRESSÃO DRAMÁTICA
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Segundo a definição clássica, expressão significa “espremer,
reproduzir, expor” por outras palavras, exteriorizar do interior para o
exterior. No caso da Expressão Dramática, trata-se de expressar
sentimentos e ideias, num contexto de jogo, através do uso da linguagem
dramática.
A expressão dramática é um dos recursos mais valiosos e completos
de educação. É uma área artística que abrange quase todos os aspectos
importantes do desenvolvimento da criança. É uma prática que põe em
acção o desenvolvimento do indivíduo aferido na sua totalidade,
favorecendo, através de actividades lúdicas, o desenvolvimento de uma
aprendizagem global (cognitiva, afectiva, sensorial, motora e estética).
Através dela incentiva-se a criação e a observação; possibilitam-se variados
meios de expressão; liberta-se sentimentos; desenvolve-se hábitos, atitudes
e habilidades; desenvolve-se a expressividade a partir da capacidade de
imaginação; aprende-se a improvisar, a usar a representação corporal,
brincando; e, através dela, incentiva-se a utilizar e a coordenar a actividade
motora.
Na expressão dramática, o aluno (re)descobre a incontornabilidade do
jogo dramático nas relações interpessoais e de grupo, progredindo para
formas de expressão para-teatrais como os fantoches, as sombras e as
máscaras e para o domínio dos códigos e convenções teatrais.
As actividades dramáticas permitem que os alunos desenvolvam
progressivamente as possibilidades expressivas do corpo — unindo a
intencionalidade do gesto e/ou a palavra, à expressão, de um sentimento,
ideia ou emoção. Nestas actividades, as crianças desenvolvem acções
ligadas a uma história ou a uma personagem que as colocam perante
problemas a resolver: problemas de observação, de equilíbrio, de controlo
emocional, de afirmação individual, de integração no grupo, de
desenvolvimento de uma ideia e de progressão na acção.

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Pretende-se, fundamentalmente, que as crianças experimentem,
através de diferentes meios, expressar a sua sensibilidade e desenvolver o
seu imaginário.

EXPRESSÃO DRAMÁTICA E O DESENVOLVIMENTO PESSOAL

Como já referido, o objectivo central da expressão dramática consiste


no desenvolvimento natural da criança, a partir de situações da experiência
individual e colectiva, trabalhadas a partir de jogos e improvisações.
Estas actividades devem ser progressivamente complementados por
propostas que contribuam para o desenvolvimento da capacidade de relação
e comunicação com os outros.
No desenrolar das propostas ou projectos desenvolvidos em pequenos
grupos, deve haver espaço para a improvisação.
As crianças gostam de apresentar as suas criações aos companheiros
e aos pais. Estes momentos de partilha são, também, um enriquecimento da
experiência pessoal e do grupo, desde que mantenham o carácter de jogo
lúdico e não se transformem em representações estereotipadas.
Em interacção, as crianças irão desenvolvendo pequenas
improvisações explorando, globalmente, as suas possibilidades expressivas
e utilizando-as para comunicar. A utilização simultânea da dimensão verbal e
gestual ganha, aqui, o seu pleno significado.

Sugestões de actividades I:

•Improvisar palavras, sons, atitudes, gestos e movimentos ligados a


uma acção precisa: em interacção com o outro e em pequeno grupo;
•Improvisar palavras, sons, atitudes, gestos e movimentos,
constituindo sequências de acções — situações recriadas ou imaginadas, a
partir de: objectos um local uma acção personagens um tema;
•Improvisar situações usando diferentes tipos de máscaras;
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•Utilizar diversos tipos de sombras (chinesas,…);
•Inventar, construir e utilizar adereços e cenários;
•Elaborar, previamente, em grupo, os vários momentos do
desenvolvimento de uma situação.

Em expressão dramática, a concretização das actividades é designada


por “jogo dramático” – na sua concepção os elementos voz, espaço, corpo,
tempo, texto e situação dramática, constituem a linguagem dramática. A
utilização destes elementos permite a quem joga, comunicar com os outros
através de papéis, expressando as suas criações do mundo interior, pela
acção corporal e pela produção de uma ficção. O trabalho efectuado no jogo
dramático proporciona momentos de criação, cujos principais objectivos são
a reflexão sobre as emoções e a interpretação do mundo. Para se jogar não
são necessários adereços ou cenários especiais, já que um objecto do
quotidiano pode assumir diversas funções. Sendo uma actividade colectiva,
o ritmo de cada um deve ser respeitado, assim como a disponibilidade para
jogar, uma vez que uma das características do jogo é a receptividade e a
fruição, no desempenho da actividade.

Sugestões de actividades II:

•Exercícios de conhecimento da voz (como respirar, projectar a voz,


timbres de voz, percepção da extensão vocal);
•Leitura expressiva, em voz alta;
•Exercícios de coordenação de formas (improvisação através de
linguagem gestual e corporal);
•Jogo Dramático (interpretação) – dramatização individual e colectiva;
•Jogos de Quebra-Gelo, Integração, Toque/Confiança, Criatividade,
Concentração, Relaxamento e Reflexão;
•Representação de personagens conhecidas e criadas Expressão de
emoções através da representação;
•Criação de histórias.
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Metodologia para Sugestões de Actividades I e II:

As actividades devem ser orientadas de modo a serem desenvolvidas


por todos os alunos, evitando-se, ao máximo, comportamentos passivos ou
desinteressados, ou seja, ausência de colaboração nas actividades, falta de
atenção, entre outros, ou comportamentos que coloquem em causa o bom
funcionamento da sessão, nomeadamente, a perturbação.
A metodologia escolhida não pode ser centrada em ensinamentos,
exposições orais, mas em experiências práticas e vivências através de
actividades lúdicas artísticas, ou seja, jogos expressivos e criativos. O jogo
deve ser um meio privilegiado nas sessões, de modo a fortalecer o processo
de conhecimento e de expressão.

Tipos de jogos dramáticos

•Jogos livres: Têm por objectivo funcionar como abordagem imediata


para a motivação e predisposição para a integração e para o trabalho de
grupo;

•Jogos dirigidos: Como meio de superar as carências individuais,


atrás referidas (e que relembramos algumas: inibição, timidez, receio…), e
do grupo;

•Jogos de improvisação: Mediante o estímulo à improvisação, os


alunos são conduzidos a explorar a imaginação, procurando uma resposta
espontânea perante o inesperado e a desenvolver a “habilidade” para obter
soluções. No final de cada sessão, tenta-se promover pequenos momentos
de reflexão do grupo a respeito dos “caminhos” seguidos, dos problemas
surgidos e das oportunidades de melhoria.

•Jogos do faz-de-conta: São actividades que devem ser propostas


diariamente. Para que isso aconteça, o espaço da sala deve estar organizado
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por áreas que contemplam zonas para a criança brincar, imitando e
reinventando os papéis sociais que observa no seu quotidiano. Exemplos das
brincadeiras de faz-de-conta: “família”, “médico”, “ bombeiros”, etc.

•Jogos de desenvolvimento da imaginação: As crianças, de olhos


fechados, (ou abertos), imaginam situações, lugares (exemplo: reproduzir o
passeio ou a visita efectuada. Como foram, o que viram, etc.)

•Jogos de desenvolvimento de habilidades físicas e vocais: para


estimular as crianças a representarem os movimentos e gestos dos
personagens da história, ou de pessoas, animais ou coisas que observam e
vocalizarem os seus sons, ruídos ou vozes.

•Jogos de desenvolvimento da expressão corporal: Como por


exemplo o jogo da estátua, jogo da máscara muda, jogo de reflexos, etc.

•Jogos de mímica: Podem ser realizados com ou sem música. Por


exemplo, a criança faz a mímica de acções, como coser, martelar, pintar,
etc. e as outras adivinham.

•Dramatização de histórias: É uma actividade que só deve ser


realizada quando as crianças já dominarem os jogos dramáticos mais
simples e se realmente se mostrarem interessadas em representar
determinada história. As histórias escolhidas devem ser bem simples, curtas,
mas com muita acção e o(a) educador(a) deverá exercer a função de
orientador(a) de toda a actividade, começando por relembrar:
· o enredo da história;
· os factos mais importantes e a sua sequência;
· as personagens (suas características físicas e personalidades);
· o local (ou locais) onde se passa a história.
A seguir será necessário decidir quem serão as personagens. Outras
crianças podem transformar-se em objectos do cenário: árvores, flores,
desde que tenham oportunidade de aparecer também na história.
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Depois de tudo combinado, o(a) educador(a) inicia a narrativa, ao
estimular os “artistas” a criarem as suas falas, que ele (a) deve anotar num
bloco. Com dois ou três ensaios, a peça pode ser representada para os pais
ou outros grupos, se esta for a vontade das crianças.
Deverá caber às crianças a preparação das “fantasias” e a criação dos
cenários, o que as levará a realizarem actividades de expressão plástica.
Tudo pode ser feito por elas com papel, lã, fitas, tintas, tesouras, etc.

• Representação com fantoches: É uma das modalidades do teatro


infantil que proporciona o prazer de dar vida e voz a animais e bonecos.
Através de um fantoche pode ser superada uma timidez que dificultava a
comunicação. Podem ser expressos sentimentos antes difíceis de exprimir,
porque o fantoche passa a ser o foco da atenção, em vez da criança que o
manipula.
O processo criativo que envolve a manipulação de fantoches estimula
o desenvolvimento da linguagem e do pensamento e faz com que a criança
aprenda a tomar decisões, a expressar-se, para além de:
· canalizar a imaginação infantil;
· descarregar tensões emocionais;
· resolver conflitos de ordem afectivo - emocional;
· ampliar as experiências;
· ampliar o vocabulário;
· desenvolver a atenção, a observação, a imaginação, a percepção
da relação entre causa e efeito, a percepção do BEM e do MAL, de outros
valores e o interesse por histórias e teatro.
Quando os adultos manipulam os fantoches, têm nas mãos um recurso
mágico de fácil comunicação com a criança.

Tipos de fantoches:
. fantoche de saco de papel,
. fantoche de pano, meia ou massa;
. fantoche de diferentes tipos de bonecos (boneco de dedo, boneco de
vara, bonecos de copos, objectos e elementos da natureza).
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Sugestões para o(a) educador(a):

• Fornecer diferentes tipos de materiais e adereços que as crianças


poderão usar para as brincadeiras de representação de papéis e faz-de-
conta. Poderão fazer os seus próprios adereços – máscaras, chapéus, etc. e
ainda os bilhetes, para a peça.
• Apoiar a brincadeira do faz-de-conta que munda de sítio para sítio. É
comum a brincadeira do faz-de-conta começar na “área da casa”. É
frequente, as crianças, depois de iniciarem as suas brincadeiras, precisarem
de locais adicionais para “irem à escola”, “irem à loja”, etc.
• Observar e ouvir com atenção os elementos da brincadeira do faz-de-
conta (as crianças fazem de conta que são outra pessoa, animais ou
personagens de ficção; usam um objecto como se fosse outro).
• Participar em brincadeiras do faz-de-conta com respeito, atendendo
às “deixas” das crianças. Depois de ter observado e ouvido a brincadeira e
compreendido tanto quanto possível o seu conteúdo e linhas gerais, poderá
juntar-se-lhes, porque as crianças convidam-no(a) certamente, a participar,
podendo apoiar e até enriquecer a brincadeira seguindo o tema e o conteúdo
definido pelas crianças . Assim, poderá dar sugestões, respeitando as
respostas das crianças.
É importante que o(a) educador(a) dê tempo e dinamize contactos e
experiências com o exterior para que a Brincadeira do faz-de-conta das
crianças desabroche e se desenvolva.

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EXPRESSÃO DRAMÁTICA E O DESENVOLVIMENTO
INTEGRAL DA CRIANÇA

"O Homem não é completo senão quando joga" (Schiller)

Piaget advogou uma prática pedagógica e educacional construtivista e


libertadora, na qual a criança constrói o conhecimento a partir da sua
relação e na experiência realizada com o meio, através da observação,
manipulação e interacção com os objectos, pessoas e com o mundo que
edifica, à medida que elabora as suas hipóteses e constrói o seu
conhecimento sobre tudo o que a rodeia. Quando a criança sustenta as suas
hipóteses, cria algo no seu mundo interior, que vai modificar em maior ou
menor grau a estrutura já existente.
Na experiência artística a criança conhece e constrói-se enquanto um
ser integral, face a um mundo repleto de significados e valores, com o qual
se relaciona por meio de todos os seus sentidos, sentimentos e razão.
Piaget defende que o ensino deve centrar-se na actividade da criança,
em que esta deve agir e envolver-se activamente nas várias experiências
com que se defronta, para que a partir de um processo de construção possa
realizar aprendizagens significativas e estimular o seu envolvimento nos
processos de descoberta, com base na sua espontaneidade e motivação,
provenientes de um desejo interior.
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É essencial a realização de um trabalho pedagógico e educacional com
actividades lúdicas, onde estão presentes as áreas artísticas como a
Expressão Dramática, para que possa contribuir de forma expressiva para o
desenvolvimento das habilidades mentais dos alunos, sobretudo subsidiar,
através da relação corpo e movimento, uma melhor qualidade de vida, bem
como a fixação de aspectos importantes das áreas afectivo-emocional e
cognitiva em sala de aula.
A utilização das práticas artísticas promove o desenvolvimento dos
processos psíquicos, dos movimentos, contemplando o domínio do corpo e
da linguagem, bem como a aprendizagem de conteúdos, não só de áreas
específicas mas também das que satisfazem as situações vividas no
quotidiano.
Quanto ao educador, cabe-lhe a organização dos espaços de modo a
permitir a realização de actividades que exijam mobilidade e expansão de
movimentos. O mesmo deve ter em atenção o nível etário e as capacidades
dos seus alunos para seleccionar e deixar à disposição materiais adequados
e motivadores, de forma a favorecer elementos que contribuam para a
criatividade das crianças. Deve estar atento às alterações que surgirão em
função do grau de desenvolvimento da criança, tendo em conta o
conhecimento das características psicofísicas das crianças na idade em que
se encontram, com vista a reflectir sobre quais as actividades que as
mesmas podem desenvolver. Deve alimentar o imaginário das crianças, com
vista a que as actividades sejam mais enriquecedoras, ao mesmo tempo que
se tornam mais complexas.

As pesquisas de Piaget, no domínio da psicologia da criança, sugeriram


um desenvolvimento progressivo do conhecimento, através dos diferentes
estádios, que denominou: sensório-motor, pré-operatório, operações
concretas e operações formais.
Os fundamentos da teoria de Piaget assentam na ideia de que:
• Cada estádio constitui uma sequência estável e definida no processo
de crescimento;

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•Quando uma criança atravessa uma destas etapas numa área do
conhecimento, está, necessariamente, no mesmo estádio nas outras áreas;
•A criança só alcança uma fase quando domina as operações lógicas
da fase anterior, de modo a que o pensamento se desenvolva
progressivamente rumo à complexidade e equilíbrio.

A importância do jogo segundo Piaget:

Para Piaget, o jogo é essencial na vida da criança, pois prevalece a


assimilação de novas informações e a sua acomodação às estruturas
mentais da mesma.
No jogo, a criança apropria-se daquilo que percebe da realidade. Este
autor defende que o jogo não é determinante nas alterações das estruturas,
mas pode transformar a realidade.

Piaget classifica os jogos segundo a sua evolução, em três grandes


estruturas: jogos de exercício, simbólicos e de regras.

Jogo de exercício: A principal característica deste estágio consiste na


obtenção da satisfação das suas necessidades. Com a ampliação dos
esquemas, a criança torna-se cada vez mais consciente das suas
potencialidades, colocando em acção um conjunto de práticas, sem
modificar as estruturas, onde as acções são dirigidas somente para atingir o
seu maior objectivo que é o prazer.
Como exemplo, o bebé mama não apenas para sobreviver, mas porque
descobre o prazer de mamar, à medida que satisfaz a sua fome. É isso que o
faz chupar a chupeta, mesmo que não saia alimento nenhum, esse exercício
dá-lhe um enorme prazer.
O jogo de exercício é essencialmente sensório-motor. Aparece até,
mais ou menos, aos dois anos de idade. Este jogo estará presente em todos
os estágios da nossa vida, inclusive a fase adulta, pois o prazer deve estar
sempre presente em tudo que fazemos.

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Jogo simbólico: Segundo Piaget, estes jogos fazem parte da fase pré-
operatória (dos dois aos sete anos de idade), onde a criança, além do prazer,
começa a utilizar a simbologia. O jogo simbólico permite-lhe a aquisição de
uma linguagem própria, construída a partir de símbolos/imagens mentais,
cuja mutação decorre consoante as suas necessidades, e permite a sua
adaptação ao mundo dos adultos e à complexidade das regras e relações já
existentes.
Como exemplo, a criança tem a possibilidade de vivenciar aspectos da
realidade, muitas vezes difícil de elaborar: a chegada de um irmãozinho, a
mudança de escola ou situações boas como ser um super-homem, imitar a
mãe ou o pai.

Jogo de regras: De acordo com Piaget, este jogo acontece a partir


dos sete anos de idade, no período operatório concreto. A criança aprende a
lidar com as delimitações no espaço e no tempo, o que pode e o que não
pode fazer. Ao invés do símbolo, a regra pressupõe relações sociais, porque
a regra é imposta pelo grupo e a sua falta, significa ficar de fora do jogo.
Como exemplo, lidar com perdas e ganhos, estratégias de acção, tomadas
de decisão, análise dos erros, replanificar as jogadas em função dos
movimentos dos outros. Deixa de haver um chefe e passa a haver uma lei: a
regra. É ela que promove a coesão do grupo que apenas existe com uma
finalidade: a realização de um determinado jogo.

Cada estádio do desenvolvimento descrito por Piaget tem uma


sequência que depende da evolução da criança, do nascimento até ao final
da vida.
Uma fase interliga-se com a outra de forma que o final de uma se
confunda com o começo de outra.
A evolução começa com a fase puramente reflexiva, passando pela
assimilação, pelo simbolismo até chegar à acomodação.

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EXPRESSÃO DRAMÁTICA E A FUNÇÃO SIMBÓLICA

Nas actividades de expressão dramática a criança descobre-se a si


mesma e descobre formas de se relacionar com os outros; o que implica
aprender a lidar com situações sociais. O jogo simbólico é, assim, uma
actividade muito importante.
O "fazer-de-conta" permite vivenciar experiências.

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É igualmente importante que se disponibilizem objectos variados e
possíveis de ser explorados livremente. As situações recriadas podem ser
muito diferentes:
- uma viagem
- uma festa de aniversário
- um almoço especial
- uma ida às compras
- uma conversa telefónica
- ir ao médico
- ir ao cabeleireiro

O educador deve: apresentar sugestões que ampliam as propostas das


crianças. Estas actividades são igualmente importantes no desenvolvimento
da linguagem oral, na aquisição de vocabulário, na melhoria da articulação
das palavras e na construção de frases.
O educador deve proporcionar às crianças as condições para elas
poderem desenvolver todos os aspectos da sua personalidade,
nomeadamente nos campos social, intelectual, físico e emocional, não
obstante a consciência de que existem ritmos diferentes de desenvolvimento
em cada criança que importa respeitar.
A criança entre os 2 e os 3 anos encontra-se num período pré-
conceitual em que começa a encarar os estímulos como representativos de
objectos. Começa a desenvolver-se a função simbólica, que será a base para
a aquisição da linguagem. É hoje conhecida a importância que a primeira
infância tem no correcto desenvolvimento da criança

A brincadeira tem sempre duas funções: uma função lúdica, na qual a


criança encontra prazer ao brincar, e uma função educativa, através da qual
a brincadeira ensina alguma coisa, ajuda a desenvolver o conhecimento da
criança e a sua apreensão do mundo. Para ser auxiliar da aprendizagem,
precisa de conciliar a função lúdica e educativa, sabendo que o facto de
brincar não anula totalmente a dimensão educativa, nem esta se deve
converter na única razão de utilizar o jogo na escola. Tudo isto põe ao
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educador a responsabilidade da planificação e selecção das actividades na
escola.

Como proceder?

Pelo menos, quatro critérios devem ser levados em conta:

- Em primeiro lugar, o valor experimental do jogo, isto é, o que ele


permite à criança desenvolver como experiência, como manipulação;

- Em segundo lugar, o valor da estruturação, contribuição para a


construção e estruturação da personalidade da criança;

- Em terceiro lugar, o valor da relação; de que maneira a brincadeira


permite à criança relacionar-se com os outros e com o meio ambiente;

- Em quarto lugar, o valor lúdico como tal: que prazer, alegrias e


emoções a brincadeira vai causar às crianças que brincam.

A estes critérios deve-se acrescentar a adequação da actividade lúdica


aos gostos, à capacidade das crianças que, por sua vez, devem ser
conciliadas com as aprendizagens que se desejam concretizar.
Dentro de uma metodologia da utilização pedagógica convém respeitar
o nível de desenvolvimento da criança.

Propostas de actividades para as diferentes fases de


desenvolvimento:

Crianças dos 0 aos 2/3 anos


- Brincadeiras, que promovam o desenvolvimento do jogo simbólico;
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- Exploração do seu próprio corpo com fim à comunicação através de
gestos, sons, movimentos e expressões faciais.

Crianças de 3 aos 4 anos


- Brincadeiras que exploram actividades de equilíbrio do corpo como
subir, correr, transportar objectos, etc;
- Exploração activa do meio ambiente, descoberta da novidade e do
mundo exterior;
- Exploração das brincadeiras de imitação e iniciação das actividades
de socialização;
- Intensificação de actividades de grafismo e colagem;
- Jogos do "porquê", para atender à necessidade da curiosidade da
criança.

Crianças de 5 aos 6 anos


- Exploração de jogos para enriquecer o vocabulário;
- Exploração do imaginário: contar e inventar histórias; improvisação e
teatro infantil;
- Jogos de desenvolvimento da memória;
- Brincadeiras de observação de detalhes;
- Actividades de criação de hábitos de respeito às regras;
- Jogos colectivos de intensificação de atitudes e de integração,
visando a adaptação da criança à realidade.

Crianças acima dos 6 anos


- Jogos de concentração, precisão, de resistência e perseverança;
- Brincadeiras de grupo e de desafio;
- Jogos de aperfeiçoamento de habilidades;
- Jogos de classificação e organização;
- “Jogo de exercício”;
- “Jogo de regras”, onde estão inseridos os jogos tradicionais;
- “Jogo simbólico”;
- Jogos dramáticos.
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O jogo dramático
É forma de expressão do real e do imaginário, ganha assim estatuto
privilegiado na formação da criança no que respeita ao desenvolvimento de
parâmetros psico-motores e sócio-afectivos. Não se sujeita a balizas
comportamentais demasiado rígidas, o que flexibiliza e facilita o mundo da
fantasia sem esperar em troca compensações, nem recear insucessos
provocados por reforços positivos ou negativos e evitando aspectos
competitivos ou de mero treino de outro tipo de jogos.
A actividade de jogo dramático descrito não resulta de regras, não
resulta da vontade de produzir uma obra nem de nenhuma expressão
estética determinada. Antes resulta da vontade da criança em exprimir os
seus sentimentos, emoções e interesses face a uma realidade que deseja
viver e reviver através da acção, bem como o desejo de compreensão de
todo esse mundo.
Mas a criança, neste processo de jogo dramático, deseja comunicar
com o outro o que sente. Para sua afirmação e para exteriorização do Eu,
tem necessidade que outro jogue também.
Importa ainda referir que esta actividade necessita de uma matriz
planificadora; necessita igualmente de uma observação sistematizada e de
intervenção.
O jogo dramático atinge o seu expoente máximo no Jardim de Infância.

Função Simbólica e os seus elementos constituintes:

Imitação Diferida – de comportamentos;


Jogo do faz-de-conta – a criança vive a situação como ela quer;
Desenho - A imitação gráfica é feita como a criança pensa que o
mundo é;
Imagem mental - componente da acção (imitação interiorizada);
Linguagem verbal - Capacidade de utilizar signos para representar o
significado do objecto em si; Ainda tem necessidade de fazer um grande

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esforço de acomodação; Componente lúdica: a criança tende a brincar com
as palavras quando as aprende.

EXPRESSÃO CORPORAL

Chaplin, um mestre da linguagem corporal

Charles Chaplin nasceu em Londres, no ano de


1889 e iniciou a sua carreira como mimo. Actores do
cinema mudo, como Chaplin, foram os pioneiros das
técnicas de linguagem corporal. A sua personagem
mais famosa foi The Trump (“O Vagabundo”). Um
mestre da expressão corporal, Chaplin até hoje faz-nos
rir e chorar com suas expressões marcantes.

Assista a alguns dos grandes momentos deste artista singular, no


Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=xoKbDNY0Zwg
http://www.youtube.com/watch?v=IJOuoyoMhj8&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=1mYtNMDFyXQ&feature=related

A linguagem corporal inclui:


- expressão facial;
- movimentos do corpo e gestos (pernas, braços, mãos, cabeça e
busto);
- postura;
- contacto visual;
- tom de voz e velocidade da fala;
- aparência.

Toda a população, de uma forma geral, deveriam realizar uma


abordagem ao nível da Expressão Corporal, de forma a contribuir para um
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desenvolvimento físico e mental mais harmonioso (trabalhando a atenção,
coordenação, imaginação, comunicação, conhecimento do corpo, etc.).
O corpo é significado e expressão, o que imprime vida ao movimento.
É inegável que pelo movimento o homem exteriorizará os seus sentimentos,
uma vez que o ritmo está contido em tudo, e cada movimento que o homem
executa no espaço, expressa o seu ritmo, de maneira pessoal e criativa.
A Expressão Corporal desempenha um papel de extrema importância
para o desenvolvimento integral da criança.
Com esta actividade, os alunos são encorajados a realizar movimentos
com o seu corpo, utilizando uma linguagem corporal muito própria. Esta
permite a realização de uma grande diversidade de exercícios como:
equilíbrios, saltos, posturas, passos, etc. Aperfeiçoa técnicas corporais
básicas, como: saltar, puxar, correr, rolar, trepar, parar, etc.

A esta possibilidade de realizar um amplo número de movimentos,


junta-se a capacidade de expressão do corpo, ou seja, através dos exercícios
o aluno pode comunicar (expressando as suas emoções e sentimentos).
Para além disso, através dos sons (efectuados com ritmos vocais,
batimentos de mãos, etc.) e da música (como suporte da Expressão
Corporal) a criança pode utilizar o corpo para representar ideias e
personagens.
A Expressão Corporal deve ser trabalhada em grupo, através da
realização de exercícios de carácter individual, a pares, três a três e
pequenos grupos, tendo em atenção as capacidades dos alunos e as suas
“limitações”.
É de salientar, que para além de contribuir para uma elevação geral
das capacidades e habilidades motoras do aluno, auxilia o seu a desenvolver
a cooperação, auto-estima, etc.
A música aliada ao movimento desempenha um papel fundamental ao
nível do equilíbrio e desenvolvimento do ser humano, contribuindo para o
seu bem-estar.

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Desta forma, podemos concluir que a Expressão Corporal é uma
actividade que devido às suas características, pode ser praticada com
poucos recursos e em qualquer local (ao ar livre ou em recinto fechado).

As actividades de exploração do corpo, da voz, do espaço e de


objectos, são momentos de enriquecimento das experiências que as
crianças, espontaneamente, concretizam nos seus jogos. Permitem um
maior controlo e desenvolvimento na utilização das suas capacidades de
expressão/comunicação. Ao brincarem a ser seres imaginários, terão
oportunidade, através das diferentes vivências, de se (re)conhecerem
melhor e também melhor conhecerem “o outro”.
Para isto, vão contribuir várias acções, desde as diferentes formas e
atitudes corporais, ao sentido da pessoalidade dos movimentos, à
exploração das diferentes possibilidades vocais, à utilização e adaptação dos
espaços, à transformação imaginária e ao relacionamento com os objectos.
As actividades corporais devem ter uma sequência temporal, isto é, a
criança deve seguir uma determinada ordem para realizar os jogos:
- momento inicial/aquecimento/ritual de entrada;
- desenvolvimento;
- momento final/relaxamento.

A linguagem corporal é uma forma significativa e complexa de


interacção, pois envolve os mais diversos estados emocionais: amor, medo,
tristeza, ódio, etc. Tem contribuído com as práticas pedagógicas, pois
propõe-se a fins educativos pelo emprego do movimento, da liberdade da
expressão e do simbólico.
É então relevante que o educador conheça caminhos que possibilite a
exploração das diversas formas de comunicação corporal da criança, sem
deixar de lado a individualidade, a história e a cultura de cada um.
A linguagem corporal constitui-se como um elemento mediador da
aprendizagem e do desenvolvimento humano. A educação pela expressão é
parte fundamental desse processo especialmente na educação infantil.

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Sugestões de actividades corporais:

- Exploração da mobilidade e imobilidade;


- Criação e exploração de movimentos corporais;
- Exercícios de expressão corporal (equilíbrio, leveza, exactidão, rapidez dos
reflexos, senso de ritmo, mobilidade/imobilidade).

● “Afinal, estamos aqui para jogar...” - Travessia imaginária.


A turma deve estar organizada em jogadores e público.
Os jogadores devem posicionar-se de um lado da área de jogo. Devem
atravessar esta área como se estivessem a:
- andar sobre pregos;
- pisar no gelo;
- andar sobre nuvens;
- caminhar sobre a água;
- escorregar na neve;
- andar sobre o fogo;
- etc.
Os jogadores devem deixar que todo o seu corpo sinta/viva o que há no
chão. No final, perguntar-lhes como se sentiram ao pisar os diferentes
lugares, qual a sua expressão relativamente ao corpo no seu todo, etc.

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EXPRESSÃO VOCAL E VERBAL

A voz é um som produzido pelo homem que o identifica quanto à sua


idade, sexo, raça, nível sociocultural, características de personalidade e de
estado emocional. Revela a nossa identidade, não existindo nenhuma voz
igual a outra no mundo.
A voz, associada aos gestos, às expressões corporais, à postura e à
fala compõe um instrumento poderoso da comunicação humana.
A nossa voz é produzida pela vibração das cordas vocais, som que é
modificado nos ajustes que ocorrem à sua passagem pelas cavidades de
ressonância (laringe, faringe, boca, nariz), onde é ampliado e modificado.
A voz muda ao longo da vida, acompanhando nosso desempenho
biopsicossocial. Por inúmeros factores, incorporamos formas inadequadas de
a produzir e consequentemente a produção da fala, pronunciando mal as
palavras e utilizando muletas verbais que acabam por se transformar em
obstáculos às nossas comunicações.
As pessoas que falam em público devem ter certos cuidados para
preservar a saúde vocal. Muita gente não sabe como a voz é produzida no
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nosso corpo e o que pode fazer para torná-la melhor. Cuidar da voz significa
conhecê-la e usá-la bem; é respeitar o equilíbrio entre o ar que sai do corpo
e a força muscular exercida pelas cordas vocais; é tirar da voz o melhor
rendimento com o mínimo de esforço.
O Homem é o único ser a expressar-se através da fala, em que são
enunciadas as palavras, expressos sentimentos/emoções e transmitidos
ideias/opiniões. Por isso, é considerada como um elemento que pode facilitar
ou dificultar a interacção.

Recursos vocais

Ao que se refere à enunciação de palavras, damos o nome


de expressão verbal. Para tal, é necessário ter em conta a presença dos
seguintes recursos vocais:

Forma como o locutor articula foneticamente a fala. A dicção


DICÇÃO denota a pronúncia clara e precisa na correcta entoação das
palavras de uma Língua.
Modo ou atitude para falar; Cada uma das diferenças verificadas
TOM
nas vozes ou nos sons.
Característica sonora que permite fazer distinção de diversos
TIMBRE instrumentos ou vozes de locutores, mesmo quando o som é
produzido exactamente com o mesmo volume e intensidade.
PRONÚNCI É a forma como é realizada a entoação de uma palavra.
A
INTENSIDA Propriedade ou característica do som; força, amplitude dos sons.
DE
Variações do tom de voz do locutor, através da acentuação ou
ENTOAÇÃ
pausa, na expressão correcta de palavras ou frases durante a
O
produção da fala.
A articulação da voz é o processo através do qual o locutor
ARTICULA
molda os sons vocais realizados pelos lábios, língua, palato mole
ÇÃO
e palato duro, dentes e alvéolos.
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Anatomia do aparelho fonador

Cuidados a ter com a voz

As pessoas devem ter certos cuidados para preservar a saúde vocal.


Muita gente não sabe como a voz é produzida no nosso corpo e o que pode
fazer para torná-la melhor. Cuidar da voz significa conhecê-la e usá-la bem.
Para tal, deve ter em consideração as seguintes recomendações:
- Fale com vigor, entusiasmo e muita presença;
- Articule correctamente as palavras mas não exagere nos movimentos
do rosto e músculos da face;
- Fale sem esforço mas para ser ouvido por toda a plateia;
- Evite falar muito baixo ou muito alto, muito depressa ou devagar;
- Expresse-se com objectividade e clareza;
- Seja sincero e convicto no que diz;
- Desperte o interesse da plateia com bons argumentos, bom
vocabulário;
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- Não tenha medo do silêncio, das pausas. São recursos importantes
para enfatizar o assunto e dar espaço à plateia, para reflectir. A pausa
não é ausência de texto. Serve para valorizar o que veio antes e
preparar o locutor para o que virá a seguir;
- Varie o ritmo da sua apresentação.

Aquecimento vocal

A voz é a grande ferramenta para a comunicação verbal, mas quando


usada de forma inadequada, pode trazer prejuízos na qualidade do trabalho
e problemas de saúde. Para cuidar da sua voz e comunicar correcta e
adequadamente, deverá realizar o aquecimento vocal. Este consiste no uso
de técnicas conducentes à preservação e à resistência da voz do locutor.
O primeiro cuidado que se deve tomar para que a voz adquira a
qualidade desejada consiste em respirar correctamente. Uma respiração
adequada é fundamental para quem usa a palavra. A perda do fôlego
acarreta a diminuição do volume da voz, tornando ininteligível aos ouvintes
o que diz o locutor.

Respiração

A respiração é o principal mecanismo biológico na produção da voz. Os


pulmões produzem o ar, indispensável à produção do som vocal. As duas
fases para o fenómeno da respiração são as seguintes:

1) Inspiração - Entrada do ar para os pulmões, através das fossas


nasais (o nariz);
2) Expiração - Saída do ar dos pulmões. Enquanto o ar sai dos
pulmões, as cordas vocais vibram, emitindo sons. A boca e as fossas
nasais agem como caixas-de-ressonância.

Vamos aprender a respirar:

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Antes de mais, deverá ter uma postura corporal adequada, propícia à
emissão de voz, para a qual existem regras e técnicas próprias. Por norma, e
dependendo do tipo de voz, o corpo deve ter uma forma erecta, tendo em
atenção a boa colocação da cabeça, pescoço e tronco.
- Inspire suavemente pelo nariz, direccione o ar para a região torácica
inferior.
- Encha a região superior do tórax de ar (sem elevar os ombros) e faça
uma pequena pausa de 3 segundos.
- Expire pela boca, relaxando o tórax.
Nota: Pode fazer o mesmo exercício alterando a região superior do
tórax para a do abdómen.

Relaxamento

Vamos aprender exercícios de relaxamento:

Cabeça - Com os olhos fechados, comece por massajar a cabeça com


as pontas dos dedos (lavar a cabeça), ao mesmo tempo elimine todo e
qualquer pensamento. Massaje todo o rosto (amassar o rosto).

Pescoço - Deitar a cabeça sobre um ombro. Depois, lentamente, deite-


a sobre o outro ombro.
Fazer o desenho de meia-lua com a cabeça.

Ombros - Gire um ombro de frente para trás. Faça este movimento 3


vezes.
Faça o mesmo movimento com o outro ombro. Em seguida faça-o com
os dois ombros ao mesmo tempo.

Articulação

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Vamos trabalhar a articulação:

Faça movimentos mastigatórios (imaginando ter aproximadamente 5


pastilhas elásticas).
Provoque um bocejo, produzindo juntamente um som bem relaxado.
Inspire pelo nariz, solte o ar vibrando os lábios, e em seguida produza
“uai”.
Estale a língua.
Faça beicinho alternado com um sorriso de boca fechada.

Os trava-línguas são óptimos recursos para trabalhar a dicção.


Deve produzi-los de forma tranquila e articulada:

“Xuxa, a Sacha fez xixi no chão da sala.


Três pratos de trigo para três tigres tristes.
A aranha arranha a rã, a rã arranha a aranha.
Nem a aranha arranha a rã, nem a rã arranha a aranha.”

“Larga a tia, largatixa!


Lagartixa, larga a tia!
Só no dia que sua tia
Chamar largatixa
De lagartixa”

Dicção

Agora, vamos trabalhar a dicção:

Varie as inflexões das frases seguintes, de acordo com o sentimento


sugerido:
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Orgulho……………………Quem manda aqui sou eu!
Cólera………………………Sai da minha frente!
Reflexão…………………..Vamos ter calma...
Excitação………………….Vamos depressa!
Calma………………………Tem tempo, já vou...
Alvoroço…………………..Incêndio! Fujam rápido!
Tranquilidade…………..Isso é um boato...
Alívio……………………….Graças a Deus!
Amor……………………….Quero-te muito, amor!
Alegria…………………….Como estou contente!

Comando…………………Silêncio!
Pedido……………………..Por favor, silêncio.
Admiração……………….Que maravilha!
Inconsciência…………..O que está feito, está feito.
Ameaça…………………..Se não estudar, será reprovado!
Derrota……………………Perdemos.

Regras gerais para uma boa dicção/pronúncia:

- As palavras devem ser pronunciadas em todas as suas sílabas;


- Observar os sons que têm mais dificuldade em pronunciar, para
exercita-los com mais frequência;
- Exercitar periodicamente a pronúncia, a partir de exercícios de
pronúncia.

A voz é a forma mais comum de comunicação, sendo da maior


importância nas relações sociais e na vida profissional. Só usando a voz de
uma forma correcta e tendo cuidados com a sua utilização é possível manter
uma ‘voz saudável’ durante toda a vida.
Devemos cuidar da nossa voz porque ela é um sinal de saúde. Se ela
não está bem pode indicar que a estamos a usar demasiado ou de uma
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forma errada. Assim, devemos ter alguns cuidados para manter a voz
sempre bonita, limpa e saudável, prevenindo deste modo as alterações e
doenças vocais. Devemos ‘ouvir a nossa voz’, ou melhor, ‘ouvir o que a
nossa voz nos quer dizer’.

CONCLUSÃO

O ensino artístico proporciona uma oportunidade inigualável de


expressão individual, de aprofundamento e incentivo à criatividade, pelo que
o indivíduo tem a possibilidade de experimentar, conhecer os seus limites,
fragilidades e potencialidades. Expressa-se e reinventa-se. Reforça e constrói
a sua auto-estima, criatividade e imaginação.
Através da expressão dramática, corporal, vocal e verbal o indivíduo
exprime sentimentos, ideias e emoções. Não há comunicação sem
expressão.
A grande vantagem, destas expressões, é a possibilidade que em si
encerra de utilizar componentes de várias artes, enriquecendo, portanto, a
aprendizagem e a experimentação. Implica um trabalho sobre o corpo, a
voz, o pensamento / imaginação, o espaço físico, os objectos e os
sentimentos/emoções. Para além disto, pressupõem a construção de sinais e
discursos (verbais ou não), que visam a comunicação e o trabalho em grupo,
e enquadram o indivíduo na sua relação com o Mundo e com a Sociedade.

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A experiência destas expressões com tudo o que a elas estão
associadas, poder-se-á revelar de uma importância crucial no processo de
autoconhecimento, de equilíbrio emocional e psicológico e de respeito pelo
outro.
Falamos, portanto, de um espaço e de uma unidade formativa que se
dedica ao desenvolvimento equilibrado da personalidade da pessoa, visando,
assim, uma educação total.

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