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Iom Kipur

“Superar solidão e caminhar em direção à conexão, ao amor e à união,


não é apenas um exercício psicológico ou uma gratificação pessoal.
É na verdade o objetivo da existência, do ser e do vir a ser.
É aquilo que nossas almas buscam”.
Rabino Marc Gafni
Em Iom Kipur, o dia em que esperamos estar preparados para experimentar uma
intimidade maior com D’us, O processo iniciado no mês de Elul atinge seu ápice.

Enquanto que em Rosh HaShana o foco é colocado numa imagem Divina que
julga ,e a ênfase no trabalho de Eetkafya - para reconhecer e interromper velhos
padrões, em Iom Kipur, o foco é colocado numa imagem de D’us que é fonte de
misericórdia e perdão, e a ênfase é dada à Eetchafcha.- o processo de transformar o
mal que há em cada um de nós ( nossas falhas, nossos “pecados” nossas barreiras
internas) 1 , e nos conectarmos com nossa Essência, ou seja , com a centelha
Divina que existe dentro de nós.
Misticamente falando, o “mal” seria o resultado de uma desconexão com nossa
verdadeira Essência.

Iom Kipur nos oferece uma oportunidade de nos reconectarmos com Ela, de nos
distanciarmos temporariamente de nossos apegos materiais, e da pressão e stress
que estamos imersos no nosso dia -a –dia, que naturalmente nos levam a perder
este contato .

Iniciamos o dia mais sagrado do ano rezando o Kol Nidrei, que anuncia que todos
os votos, promessas e compromissos que fizemos deste ano até o próximo devem
ser consideradas nulas.
Embora possa parecer absurdo iniciar este momento de auto- reflexão anulando
tudo que estamos prestes a fazer, esta declaração faz sentido pelo lado místico.
Começamos pelo reconhecimento da limitação das palavras, até mesmo orações,
para expressar a Essência de nosso ser.

Passamos a maior parte do dia em orações, para que possamos ser guiados, ter
suporte e ajuda para nos libertarmos de nossas amarras, do peso de nossas culpas
ocasionadas por nossos “pecados” e nos conectarmos com o sagrado que há em
cada um de nós, a Essência de Vida.
Por esta razão, cada serviço em Iom Kipur (Maariv, Shacharid, Musaf, Mincha, e o
que antecede a Neilá) inclui uma confissão- “Vidui”- na qual nós reconhecemos
1 Como já foi mencionado anteriormente, o pecado, fica representado pela distância que existe entre nossas
intenções e nossas ações,; pela distância entre o ser humano que somos e o que podemos potencialmente ser, pela
distância entre a maneira que cuidamos de nós mesmos e dos outros, e a que gostaríamos de cuidar.

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nossas falhas, imperfeições e clamamos pelo D’us misericordioso (aquele que nos
dirigimos no mês de Elul).

De acordo com a tradição, durante o serviços de Iom Kipur realizados no Santuário


de Grande Templo, os Sacerdotes amarravam um laço vermelho no chifre do bode
expiatório , e simbolicamente transferiam os pecados do povo para o animal. No
final do dia, havia ocorrido um milagre: o laço tinha se transformado de vermelho
como sangue, em branco como neve. O branco representa a purificação que é
resultado deste processo.

Na liturgia, nós repetidamente fazemos referência à essa imagem, como um


símbolo de nossa própria transformação.

A reconexão com a Essência da Vida ficou simbolizada pela entrada do Sumo


Sacerdote (Koen há Gadol- que representa a Essência do nosso povo), no “Kodesh
a Kodashin”, (lugar cuja entrada não era permitida em nenhum outro momento do
ano) , se conectando com a Essência de toda criação. Neste momento, também
pronunciou o YHVH, o nome de D’us que se refere à Essência do Ser; e que
normalmente não pode ser pronunciado .

O tema da união com o Divino em Iom Kipur, é expressa na liturgia através de


uma mudança na recitação da maneira habitual que declaramos que D’us é um.
Normalmente, durante o ano, recitamos dois versos: Shema Israel YHVH Eloheino
YHVH Erhad-- Ouça Israel nosso D’us é Um _ e Baruch Shem Kevod Malchuto
Le’olam Va’ed—Abençoado Seja o nome de D’us para Todo o Sempre.
O primeiro verso refere-se a unificação mística e a experiência de Unicidade
Divina . O segundo verso , refere-se à Presença de D’us no mundo material.
Durante todo o ano, este último é recitado em silêncio, simbolizando que nós só
podemos experimentar esta Presença parcialmente. No entanto, em Iom Kipur nós
temos a experiência direta com esta Presença, e podemos fazer nossa declaração
numa voz regular.

Iom Kipur é descrito na Tora como o Shabat Shabaton .


Como no Shabat, não trabalhamos, e assim nos desidentificamos dos papeis que
desempenhamos como profissionais; não comemos e não bebemos, e assim nos
desidentificamos de nossos papéis de consumistas. ; não tendo atividades sexuais,
nos desidentificamos de nossos papéis femininos e masculinos; não usando couro,
nos desidentificamos de nosso domínio em relação à outras espécies e de nossos
papéis de controladores do universo.
Desta forma, Nos separamos de alguns hábitos e identidades que rigidamente nos
agarramos, máscaras que erradamente nos identificamos, e retornamos à quem
realmente somos .

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Essa experiência de Unidade possibilita uma nova maneira de ser – mais


sintonizado com nossa real natureza. Durante o restante do ano, nós trabalhamos
para integrar esta nova identidade.

“A natureza atinge a perfeição, mas o ser humano não.


É na tentativa de aperfeiçoar-se , de terminar o inacabado,
Que os seres humanos tornam-se também criadores.
É este inacabado que nos permite ser eternamente,
capazes de aprender e crescer”
Eric Hoffer

Cabalisticamente, compreendemos que quando deixamos de fazer o que nos cabe


realizar em relação ao nosso potencial e ao nosso projeto de vida, ficamos sem
acesso à luz do “Infinito”. Quando não conseguimos evitar impulsos destrutivos,
nós impedimos que a luz Infinita possa brilhar dentro de nós.

Através do processo de T’shuva, temos a oportunidade de restabelecer nossa


capacidade de receber a Luz Divina; realizar um reparo à fonte de Luz
No final deste processo, em Iom Kipur, mais iluminados e com mais clareza, nos
tornamos mais capazes de enxergar aquilo que antes a escuridão nos impedia.
O “mal” deixa de ser uma força, mas simplesmente um degrau na jornada de
transformação.
Ao invés de cairmos na armadilha e sermos compelidos a ficar repetindo o
passado, nossa história nos ensina como podemos criar uma forma diferente de
vivermos o nosso futuro .

Finalizamos o dia com esperança. No final do último serviço, a Neilá, momento


em que os portões se fecham , sopramos o shofar, e expressamos nosso otimismo
em relação ao futuro, quando declaramos: “Leshana há ba ah, Ierushalaim”, um
desejo que representa a chegada da era messiânica, de um momento onde todos nós
possamos conviver harmoniosamente num lugar sagrado.

“Quando ultrapassamos as nuvens e ficamos acima delas, todo mundo parece


um paraíso”--- Asleigh Brilliant.

“Se é verdade que nós adquirimos conhecimento antes do nosso nascimento, e o


perdemos no momento que nascemos, mas com o exercício de nossos sentidos
recuperamos o conhecimento que já tivemos antes, suponho que aquilo que
chamamos aprendizado, é a recuperação de nosso próprio conhecimento”.
Plato

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Prática de Reflexão: Refletindo sobre “A Luta para Ser”


Aproveitando Iom Kipur para nos aprimorarmos

“Vocês devem ser pessoas sagradas diante de Mim” (Exodus 22:30).


Reb de Kotzk costumava dizer:
Sagrado como pessoas normais, é o que D’us nos demanda ;
não sagrado como anjos
Não almeje ser mais do que você é; almeje apenas ser tudo que você é.

Tente concentrar sua atenção no ser humano que você é hoje.

 Quanto você se sente


conectado com seus sentimentos mais profundos, com a tua natureza, tuas
características mais genuínas, tua especificidade, tua essência?

 Você se sente livre


para ser espontâneo ,autêntico, ou se esconde por trás de máscaras ficando
distante do seu eu verdadeiro por medo ou vergonha?

 Você está sendo o


ser humano que gostaria de ser, ou se sente distante do seu ideal, do seu
potencial?

 Qual a distância que


existe entre o ser que você é nesse momento, e o que você gostaria de se
tornar?

 Que características
te agradam, te trazem orgulho, você quer cultivar, e quais as que te trazem
insatisfação, vergonha , e você gostaria de poder modificar?

 Será que você se


sente livre para escolher o que quer preservar e o que quer transformar?

 Quanto você se sente


lutando para se tornar um ser humano melhor, e se aproximar do seu ideal?

 C
om o que você está disposto a se comprometer para realizar mudanças?

“Se eu sou eu porque você é você, ou você é você porque eu sou eu,
então eu não sou eu e você não é você.

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Mas se eu sou eu porque eu sou eu, e você é você porque você é você,
Eu sou eu e você é você, e nós podemos conversar.”
Reb Mendel de Kotz

Refletindo sobre “A Luta para Ser”

“Vocês devem ser pessoas sagradas diante de Mim” (Exodus 22:30).


Reb de Kotzk costumava dizer: Sagrado como pessoas normais, é o que
D’us nos demanda ; não sagrado como anjos. Não almeje ser mais do que você é.;
almeje apenas ser tudo que você é.

Tente refletir sobre o ser humano que você é hoje.

Quanto você se sente conectado com seus sentimentos mais profundos, com a tua
essência?

Você se sente livre para ser espontâneo ,autêntico, ou se esconde por trás de
máscaras ficando distante do seu eu verdadeiro por medo ou vergonha?

Você está sendo o ser humano que gostaria de ser, ou se sente distante do seu
ideal?

Qual a distância que existe entre o ser que você é nesse momento, e o que você
gostaria de se tornar?

Quais as características em você que você gosta, se orgulha, quer cultivar, e quais
as que te trazem insatisfação, vergonha , e você gostaria de poder modificar?

Será que você se sente livre para escolher o que quer preservar e o que quer
transformar?

Quanto você se sente lutando para se tornar um ser humano melhor, e se


aproximar do seu ideal?

Quanto você está sintonizado com a centelha Divina que existe no seu interior ?
Quanto ela fica inexpressiva por estar desconectados dela ?

 C
om o que você está disposto a se comprometer para realizar mudanças?

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