Você está na página 1de 13

Claudia de Moraes Rego

Traço, letra e escrita na / da psicanálise


PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0115571/CA

Tese de Doutorado

Departamento de Psicologia
Programa de Pós-Graduação
em Psicologia Clínica

Rio de Janeiro, janeiro de 2005


PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0115571/CA
Claudia de Moraes Rego

Traço, letra e escrita na / da psicanálise


PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0115571/CA

Tese de Doutorado

Tese apresentada ao Programa de Pós-graduaçâo


em Psicologia da PUC-Rio como requisisto parcial
para obtenção do título de Doutor em Psicologia
Clínica.

Orientadora: Ana Maria Rudge

Rio de Janeiro
Janeiro de 2005
Claudia de Moraes Rego

Traço, letra e escrita na/da psicanálise

Tese apresentada como requisito parcial para


obtenção do grau de Doutor pelo Programa de
Pós-Graduação em Psicologia Clínica do
Departamento de Psicologia do Centro de
Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio.
Aprovada pela Comissão Examinadora abaixo
assinada.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0115571/CA

Profª. Ana Maria Rudge


Orientadora
Departamento de Psicologia - PUC-Rio

Prof. Marcus André Veira


Departamento de Psicologia – Puc-Rio

Prof. Octavio Souza


Departamento de Psicologia – PUC-Rio

Profª Claudia Thereza Guimarães de Lemos


Instituto de Estudos da Linguagem - UNICAMP

Prof. Waldir Beividas


Instituto de Psicologia - UFRJ

Prof. Paulo Fernando Carneiro de Andrade


Coordenador Setorial de Pós-Graduação
e Pesquisa do Centro de Teologia
e Ciências Humanas – PUC-Rio

Rio de Janeiro, / /200 .


Ficha catalográfica

Rego, Claudia de Moraes

Traço, letra e escrita na / da psicanálise / Claudia de


Moraes Rego ; orientadora: Ana Maria Rudge. – Rio de
Janeiro : PUC-Rio, Departamento de Psicologia, 2005.

304 f. ; 30 cm

Tese (doutorado) – Pontifícia Universidade Católica do


PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0115571/CA

Rio de Janeiro, Departamento de Psicologia .

1. Psicologia – Teses. 2. Psicanálise. 3. Traço. 4. Letra.


5. Escrita. 6. Metáfora. 7. Rébus. 8. Ideograma. I. Rudge,
Ana Maria. II. Pontifícia Universidade Católica do Rio de
Janeiro. Departamento de Psicologia . III. Título.

CDD: 150
Agradecimentos

A minha orientadora professora Ana Maria Rudge


Aos colegas do seminário de Psicanálise e Texto da Escola Letra
Freudiana, em especial Analucia Teixeira Ribeiro e Elisabeth Freitas, que
comigo sustentaram, durante os últimos quinze anos, as questões sobre o
traço, a letra e a escrita na psicanálise.
A Ângela Andrade, incansável interlocutora para todas as
questões relativas às escritas chinesa e japonesa.
A Betty Bernardo Fuks, pela leitura atenta.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0115571/CA
Resumo

Os significantes traço, letra e escrita foram importados de seus


campos semânticos para a psicanálise num movimento incialmente
metafórico. É nossa proposta demonstrar que, mais do que uma metáfora,
estes significantes vieram a se constituir em modelos do psíquico de tal
maneira que as letras e escritas “visíveis” passaram a poder ser
entendidas a partir da referência à escrita psíquica. Como segunda
hipótese, encetamos uma operação de extração de uma teoria
psicanalítica da origem da letra e da escrita, e da função da escrita para
os sujeitos, que estaria implícita em Freud e Lacan. Esta denominada
operação de extração, assemelhada à desconstrução derridina, revelou
que o inconsciente (é) uma escrita de traços, o que só pode se escrever
sob rasura uma vez que a verdade está ausente do traço. Por
consequência, a escrita “visível” será sempre encobrimento desta
ausência radical de verdade do traço.
Escrever ou traçar é uma mímica da fundação do sujeito, busca de
reencontrar sua metade sem par, num estreito litoral entre saber e gozo:
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0115571/CA

lituraterra.
Aqueles sujeitos cuja língua é trabalhada pela escrita e que se
sustentam em uma dupla referência à fala e à escrita, ou aqueles outros
que, por determinação estrutural, sustentam melhor o non sense da letra,
contituem um interessante caso para o exame da inanalisabilidade,
devido à sua afinidade com a letra como traço (num caso, o ideograma, e
no outro, lituraterra)
Também de forma não explicita, a psicanálise acompanhou este
movimento. Houve uma psicanálise dominada por um desejo de leitura,
de produção de sentido e há hoje uma psicanálise que se aventura a ficar
do lado do non-sense do traço, onde o desejo do analista é um desejo de
escrita.

Palavras-chave
Traço, letra, escrita, modelo, metáfora, rébus, ideograma,
hieróglifo.
Résumé

Les signifiants trait, lettre et écriture ont été importés par la


psychanalyse de leur champ sémantique d'origine, dans un mouvement
au départ métaphorique. Nous nous proposons de démontrer que, plutôt
qu'une métaphore, ces signifiants en sont venus à constituer des modèles
du psychique, de telle façon que les lettres et les écritures "visibles" ont
pu, dès lors, se faire comprendre à partir de la référence à l'écriture
psychique. Comme seconde hypothèse, nous avons entrepris une
opération d'extraction d'une théorie psychanalytique de l'origine de la lettre
et de l'écriture, ainsi que de la fonction de l'écriture pour les sujets, théorie
qui serait implicite chez Freud et Lacan. Cette opération nommée
extraction, semblable à la déconstruction derridienne, a révélé que
l'inconscient (est) une écriture de traits, qui ne peut s'écrire que sous
rature, étant donné que la vérité est absente du trait. Par conséquent,
l'écriture "visible" sera toujours ce qui recouvre cette absence radicale de
la vérité du trait.
Écrire ou tracer c'est une mimique de la fondation du sujet, à la
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0115571/CA

recherche de sa moitié sans pair, sur un littoral étroit entre savoir et


jouissance: lituraterre.
Ces sujets dont la langue est travaillée par l'écriture et qui se
soutiennent d'une double référence à la parole et à l'écriture, ou bien ceux
qui, de par une détermination structurelle, soutiennent mieux le pas de
sens de la lettre, constituent un cas intéressant pour l'examen de
l'inanalysabilité, en raison de leur affinité avec la lettre en tant que trait
(dans un cas, l'idéogramme, dans l'autre, lituraterre).
D'une façon également non-explicite, la psychanalyse a suivi ce
mouvement. Il y a eu une psychanalyse dominée par un désir de lecture,
de production de sens et il y a aujourd'hui une psychanalyse qui
s'aventure du côté du pas de sens du trait, où le désir de l'analyste est un
désir d'écriture.

Mots-clés
Trait, lettre, écriture, modèle, métaphore, rébus, idéogramme,
hiéroglyphe.
Sumário

Introdução 13
1.1. Hipóteses principais 13
1.2. A operação de extração 14
1.3. Em que consiste a teoria freudiana do traço, da letra e da
escrita? 15

Capítulo 1. Letra e escrita na psicanálise: metáfora ou modelo? 19


1. Metáfora 19
1.1. Concepções acerca da metáfora 21
1.1.1. Aristóteles 21
1.1.2. Derrida 25
1.1.2.1. O próprio e o figurado 28
1.1.2.2. Bachelard: a metáfora construída 32
1.2.2.3. Auto-destruição da metáfora 35
1.1.3. Os filósofos da linguagem 36
1.1.4. Perelman 39
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0115571/CA

1.1.4.1. Superação da analogia ou metáforas mortas 41


1.1.4.2. Superação da metáfora 44
1.1.5. Jacques Lacan e a metáfora 45
1.1.5.1. Introdução 45
1.1.5.2. A metáfora paterna 46
1.1.5.3. Algumas observações 49
2. Modelos 50
2.1. Introdução 50
2.2. O que é um mdelo? 51
2.2.1. Salvando os modelos 52
2.2.2. Tipos de modelos 52
2.3. Discussão sobre o valor da utilização de modelos na
construção científica 54
2.3.1. Modelos e metáforas 56
2.3.2. Modelos em Freud e Lacan: o trabalho de Antonia Soulez 61
3. Conclusões 64

Capítulo 2 : Sobre a história da escrita 65


1. Introdução 65
2. Février e sua Histoire de l’écriture 66
2.1. A escrita chinesa 70
2.2. A escrita japonesa 74
3. A teoria da escrita de I.-L. Gelb 77
3.1. A escrita cuneiforme 83
3.2. A escrita egípcia 84
4. Gérard Pommier: uma teoria psicanalítica da origem da escrita 86
4.1. A origem do monoteísmo e da escrita 88
4.2. A sacralidade da escrita 89
4.3. O atraso na escrita das vogais 91
4.4. As matres lectiones 93
4.5. Questões de fronteiras 93
5. Discussões e conclusões 95
5.1. Definição de escrita, função da escrita e do escrever 95
5.2. História da escrita e evolução da escrita 97
5.3. O rébus 99
5.4. A estilização 101
6. Conclusão 103

Capítulo 3: Freud e a escrita psíquica 104


1. Introdução: Há uma teoria freudiana da escrita? 104
2. Os Modelos de Freud 105
2.1. “Para uma concepção das afasias” 105
2.2. O Projeto 107
2.2.1. A operação de extração 108
2.2.1.1. Barreiras ao contato 108
2.2.1.2. O traço 110
2.2.1.3. A Consciência 111
2.2.1.4. Experiências de satisfação e de dor 114
2.2.1.5. A inibição, o pensamento 116
2.2.1.6. As associações da fala 120
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0115571/CA

2.3. A carta 52 122


2.4. “A Interpretação dos Sonhos” 124
2.4.1. A operação de extração 125
2.4.1.1. O rébus 127
2.4.1.2. Encenabilidade 130
2.4.1.3. O hieróglifo 132
2.4.1.4. Alguns comentários acerca do capítulo VII 134
2.4.1.5. A regressão: a “matéria prima” é o traço 136
2.5. “O Inconsciente” 140
2.5.1. A operação de extração 141
2.5.1.1. A terceira via 142
2.5.1.2. Algums questões 146
2.6. O traço, a bindung e a bahnung em “Além do Princípio do
Prazer” 147
2.6.1. Introdução 147
2.6.2. O traço 149
2.6.3. A compulsão à repetição 151
2.7. O bloco mágico 153
2.7.1. O limite da analogia? 154
2.8. “Moisés e o Monoteísmo” 157
2.8.1. “Saxa loquuntur!” 158
2.8.2. A Concepção de História 160
2.8.3. A ausente verdade do traço 162
2.8.4. Monoteísmo, alfabeto e patriarcado 164
3. Conclusões 166

Capítulo 4: Lacan e a escrita 169


1. Introdução: Há uma teoria lacaniana da letra e da escrita? 169
2. A operação de extração 170
2.1. Tempo zero: O seminário da Carta Roubada 170
2.2. Tempo 1: uma teoria da letra no inconsciente 172
2.3. Tempo 2: uma teoria sobre a origem da letra: o seminário da
Identificação 176
2.3.1. Introdução 176
2.3.2. Amnésia de Lacan 177
2.3.3. A operação de extração 178
2.3.3.1. Letra e traço como essência do significante 180
2.3.3.2. A escrita é uma função latente na linguagem 182
2.3.3.3. Missão escritural do homem? 183
2.3.3.4. Contribuição original de Lacan para uma teoria da origem
da escrita 187
2.3.3.5. Função do signo lido como um objeto 189
2.3.3.6. Ligação da linguagem com o real 190
2.3.4. Algumas conclusões 193
3. Tempo 3: Lituraterra 195
3.1. Introdução 195
3.2. A operação de extração 197
3.2.1. Reviravolta espetacular 197
3.2.2. A lição 6 201
3.2.3. Lituraterra 203
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0115571/CA

3.2.4. A cena lacaniana da escrita 210


3.3. A coisa japonesa 218
3.3.1. As questões 218
3.3.2. Cheng 222
3.3.2.1. O ideograma 223
3.3.2.2. A caligrafia 225
3.3.3. Avanços teóricos 227
3.3.3.1. Novo algoritmo 230
3.3.3.2. Jacques-Allain Miller 233
3.4. Algumas conclusões 237
4. Tempo 4: a escrita como o Um todo só 238
4.1. Introdução 238
4.2. A escrita na fala 239
4.3. O matema: transmitir sem significar 240
4.4. Há do Um 246

Capítulo 5: Derrida e a escrita 249


1. Introdução: a desconstrução do logocentrismo 249
2. Sobre De la gramatologie 250
2.1. O desrecalcamento da escrita 251
2.2. A escrita é a metaforicidade 253
2.3. Lingüística e gramatologia 256
2.4. A gramatologia de Derrida: os principais conceitos 259
2.4.1. O traço derridiano 260
2.4.2. A diferencia 261
2.4.3. O sujeito e a escrita 265
2.5. A gramatologia pode ser uma ciência? Do traço à grafia 267
2.6. Gramatologia e psicanálise 274
2.6.1. Uma topografia de traços e bahnungen 278
2.6.2. A escrita dos sonhos: metafonética, não lingüística e a-lógica 281
2.6.3. O aparelho psíquico como máquina de escrever 285
3. Conclusões 289

Capítulo 6: Conclusões 292


1. Lacan e Derrida 292
1.1. Introdução 292
1.2. Pai e filho? 293
1.3. A virada da palavra para a escrita 295
2. Conclusões 297

Bibliografia 301
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0115571/CA
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0115571/CA

“Pode-se perguntar se, e até onde, eu próprio me acho


convencido da verdade das hipóteses que foram
formuladas nestas páginas. Minha resposta seria que eu
próprio não me acho convencido e que não procuro
persuadir outras pessoas a nelas acreditar ou, mais
precisamente, que não sei até onde nelas acredito. Não
há razão, segundo me parece, para que o fator emocional
da convicção tenha de algum modo de entrar nessa
questão. É certamente possível que nos lancemos por
uma linha de pensamento e que a sigamos aonde quer
que ela leve, por simples curiosidade científica, ou se o
leitor preferir, como um advocatus diaboli, que não se
acha, por esta razão, vendido ao demônio” (Freud, p. 80,
vol. XVII, 1977).