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CRÉDITO CONSIGNADO. LEGALIDADE (RESP 728.

563, 2ª
SEÇÃO, STJ, REL. MINISTRO ALDIR PASSARINHO JR.)

CRÉDITO CONSIGNADO. LEGALIDADE (RESP 728.563, 2ª SEÇÃO, STJ,


REL. MINISTRO ALDIR PASSARINHO JR.)
Revista de Direito Bancário e do Mercado de Capitais | vol. 29/2005 | p. 228 - 230 | Jul -
Set / 2005
DTR\2011\2593

Marcus Vinicius Vita Ferreira

Área do Direito: Bancário


Sumário:

O Superior Tribunal de Justiça, pela sua Segunda Seção que cuida das matérias
atinentes ao direito privado, concluiu, na sessão do dia 08.06.2005, o julgamento do
REsp 728.563, interposto pela “Cooperativa de Economia e Crédito Mútuo dos Servidores
Públicos Municipais de Porto Alegre – Cooperpoa” contra Paulo Ricardo do Amaral Elias.

A matéria tratada é de interesse geral e serve como precedente para todas as


instituições financeiras e empresas de crédito. Trata-se do chamado “crédito consignado”
pelo qual o contratante – em geral servidores públicos – adquire empréstimos em
condições especiais, com a cobrança de juros inferiores ao praticado regularmente no
mercado.

O contrato de natureza comutativa e sinalagmática tem por contrapartida o desconto das


parcelas do empréstimo diretamente na folha de pagamento do devedor, o que diminui
substancialmente o risco de inadimplência e, via de conseqüência, permite a oferta de
juros mais baratos.

O recurso especial em questão, tinha por objeto a reforma do acórdão do Tribunal de


Justiça do Rio Grande do Sul que, valendo-se do conceito de cláusula abusiva do CDC
(LGL\1990\40) considerou ilegal o desconto em folha de pagamento das parcelas do
empréstimo.

A tese levada a julgamento na Segunda Seção do Superior Tribunal de Justiça pode ser
assim resumida: o desconto em folha de pagamento das parcelas do empréstimo
acarretaria em penhora de rendas e salários, o que violaria o art. 649, IV, do CPC
(LGL\1973\5) que prevê a impenhorabilidade dos referidos valores ou, a contrario sensu,
o desconto em folha de pagamento constitui-se no fundamento econômico do contrato
de empréstimo, sendo a única garantia de recebimento da instituição financeira e, tendo
sido permitido expressamente pelo devedor, a cláusula seria plenamente válida.

O voto condutor do acórdão foi o do relator do recurso especial, Ministro Aldir Passarinho
Jr. que, de forma clara e objetiva, traçou as diferenças entre o instituto da penhora, que
pressupõe a constrição judicial do bem sem a necessidade de anuência do devedor, com
o contrato de empréstimo, em que, de forma livre e consciente, esse mesmo devedor
permite o desconto das parcelas da dívida na sua folha de pagamento, para com isso se
favorecer com a cobrança de juros substancialmente inferiores ao praticado no mercado.

Estabelecida a diferença entre os institutos da penhora e do contrato de empréstimo, o


voto do Ministro Aldir Passarinho Jr., valendo-se da lição hermenêutica segunda a qual a
interpretação de determinada lei não pode levar ao absurdo ou a contradições, fixou a
premissa de que a hipótese em questão, por versar acerca do chamado “crédito
consignado” ou empréstimo com desconto em folha de pagamento, não se confunde com
a penhora.

Diversamente da penhora, em que o devedor é obrigado a se vergar a uma ordem


judicial de constrição de seus bens, no crédito consignado o devedor não apenas anuiu
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SEÇÃO, STJ, REL. MINISTRO ALDIR PASSARINHO JR.)

com o desconto em folha de pagamento, como também se favoreceu com juros


inferiores.

De acordo com o voto do Ministro Aldir Passarinho Jr., caso o Judiciário declarasse a
ilegalidade da cobrança das parcelas do empréstimo em folha de pagamento, o contrato
por inteiro restaria atingido, já que o seu equilíbrio econômicofinanceiro repousa
exatamente na diminuição do risco de inadimplência para que, em contrapartida, a taxa
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de juros possa ser reduzida, como se infere do voto do Ministro Barros Monteiro:

“Dúvida não paira de que, em relação à cooperativa, é admissível a cláusula que


estabelece o desconto em folha da quantia correspondente à amortização do
empréstimo.

Já com respeito às instituições financeiras, peço vênia para acompanhar a motivação


exposta pelo Sr. Ministro Relator. Penso que se o interessado obtiver o crédito em
condições favoráveis, com vantagens na taxa de juros inferior e no prazo maior para a
liquidação da dívida, sujeita-se ele ao que foi pactuado, não se tratando, portanto, em
princípio, de cláusula abusiva; mormente, no caso em que não se pode falar em infração
ao art. 649, IV, do CPC (LGL\1973\5), pois de penhora aqui não se cuida.

Acompanho o Sr. Ministro relator, inclusive em relação à fundamentação expendida por


S. Exa.”

Com tal fundamentação, a Segunda Seção do STJ, com os votos dos Exmos. Ministros
Aldir Passarinho Jr; Jorge Scartezzini; Barros Monteiro; Humberto Gomes de Barros e
César Rocha, vencidos os Exmos. Ministros Castro Filho e Fátima Nancy Andrigui,
declarou válida e legal a contratação de empréstimo com previsão de amortização do
débito mediante desconto em folha de pagamento.

Deve ainda ser frisado que apesar do recurso ter sido interposto por uma Cooperativa de
Servidores Públicos, a sua aplicação dar-se-á para todas as instituições financeiras, já
que os votos proferidos foram firmes em determinar que a tese jurídica não poderia ser
fracionada no sentido de conferir um tratamento diferenciado às cooperativas em
detrimento das instituições financeiras.

Em todos os votos, restou firmado que o julgamento do REsp 728.563 deu-se na forma
de leading case, e se aplica tanto às cooperativas como às instituições financeiras no
sentido de encerrar, de uma vez por todas, a discussão acerca da legalidade do
denominado “crédito consignado”.

É de se louvar e aplaudir a decisão do Superior Tribunal de Justiça, já que, além de


respeitar o contrato, permitiu com que um empréstimo de juros baixos possa continuar a
ser oferecido pelas instituições de crédito.

1 Divulgado no site do STJ (www.stj.gov.br), em que pese a não publicação do acórdão


proferido nos autos do REsp 728.563.

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