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ÍNDICE

1. Das origens remotas 3


2. Das causas próximas 10

3. A viagem e a chegada no Brasil 17

4. A viagem de Porto Alegre para a Colônia 23

5. A Colônia e a decisão sobre a compra de um lote 30

6. O patriarca encontra sua última morada 42

7. Miguel Leão: as dificuldades e a morte prematura 43

8. André Leão: a fé preservada e o legado 56

9. José Salomão de Leão: a foto de um dos holandeses 62

10. Impressões do autor 91

Referências bibliográficas 93
A SAGA DOS DE LEEUW: DE ROTTERDAM AO RS

Pensar que o homem nasceu sem uma história dentro de si próprio é


uma doença. É absolutamente anormal, porque o homem não nasceu
da noite para o dia. Nasceu num contexto histórico específico, com
qualidades históricas específicas e, portanto, só é completo quando
tem relações com essas coisas. Se um indivíduo cresce sem ligação
com o passado, é como se tivesse nascido sem olhos nem ouvidos e
tentasse perceber o mundo exterior com exatidão. É o mesmo que
mutilá-lo. A Ciência Natural poderá dizer: você não precisa de relações
com o passado, pode varrê-las! Mas isso é uma mutilação do ser
humano. (Trecho de entrevista de Carl Gustav Jung a Richard Evans
concedida em Zurique, Suíça, em agosto de 1957)

1. Das origens remotas


Segundo o livro do Gênesis, que compõe o chamado Antigo Testamento, Deus disse a Abraão
para deixar Haran com a sua família em direção à "terra que eu te indicar". Nessa terra, os seus
descendentes formariam uma grande nação e herdariam uma terra "onde corre leite e mel".

Sendo o povo escolhido de Deus, os Judeus conquistariam a terra prometida de Canaã, uma
terra de fartura, em comparação com a que Abraão deixara para trás. Foi assim que Abraão
deixou a sua vida sedentária para viajar para Canaã. Esta migração é de significado histórico
comparável à epopéia de Moisés, mais tarde, trazendo os judeus de regresso do Egito, através
do Mar Vermelho.

O Islã também considera Abraão (com o nome de Ibrahim) o ancestral dos Árabes, através de
Ismael, Ishmael ou Yishma'el (do hebraico , em árabe ) que foi , de acordo
com a tradição judaico-cristã , o filho mais velho de Abraão, nascido da escrava de Sara, sua
mulher. A escrava , egípcia, chamava-se Agar. No Islã e no Alcorão, Ismael é considerado
profeta e ancestral de todos os árabes.

Abraão era filho de Terah, 20 gerações depois de Adão e 10 depois de Noé, conforme ilustra o
quadro na próxima página, a traduzir a genealogia de Davi, pai de Salomão.
O seu nome original era Abram, uma brincadeira judaica com Ibrim, que significa "Hebreus",
para soar como "Excelso Pai". Abraão foi o primeiro dos patriarcas bíblicos. Mais tarde,
respondeu pelo nome de Abraham (Ibrahim), ( em árabe, em hebraico), que
significa "pai de muitos".

Uma vez que não existe atualmente nenhum relato da sua vida independente das escrituras –
especificamente a do Livro do Gênesis,- é impossível saber se ele foi ou não uma figura
histórica. Não se trata de caso isolado, a convidar a fé diante das dúvidas científicas. Caso
tenha sido, viveu provavelmente entre 2000 a.C. e 1500 a.C. O Judaísmo, o Cristianismo e o
Islã são por vezes agrupados sob a designação de “religiões abraâmicas”, numa referência à
sua suposta descendência comum do patriarca Abraão.

A história de Abraão começa quando o patriarca abandona sua família na cidade de Ur na


Caldéia e segue em direção a Canaã. A região próxima da foz dos rios Tigre e Eufrates no
Golfo Pérsico – rios que nascem nas montanhas da Armênia,- chamava-se Caldéia. Trata-se de
uma vasta planície fértil formada por depósitos do Eufrates e do Tigre, estendendo-se por cerca
de 250 quilômetros ao longo do curso de ambos os rios, com cerca de 60 quilômetros de
largura.

Ainda que na narrativa bíblica Deus prometa uma terra muito fértil, desde sempre a Caldéia fora
uma benção de vida cercada por aridez.. Ou seja, Abraão não abandonaria exatamente um
deserto. A partir daí a Bíblia relata diversas aventuras mais ou menos desconexas envolvendo
Abraão, sua esposa Sara – entre outras mulheres, uma vez que Abraão era polígamo,- e seu
sobrinho Lot, sempre realçando a nobreza do personagem e sua obediência a Deus.

Os episódios mais emblemáticos da narrativa são aqueles que contam como Abraão se sujeitou
ao rei do Egito, que tomou sua mulher como esposa, para are -la de qualquer punição. O
segundo episódio marcante da vida de Abraão ocorreu em sua velhice. Sara, a esposa, já
idosa, ainda não havia lhe dado um filho.

Seu primeiro filho, Ismael ou Ishmael, era filho da concubina Agar. Deus então lhe concedeu
grande graça, e assim nasceu Isaque ou Isaac, a quem Abraão mais amou. Pode-se resumir a
vida do patriarca Abraão da seguinte forma:

(01) Abraão nasceu na cidade de Ur, antiga Mesopotâmia, entre a Arábia e a Pérsia,
aproximadamente 2000 anos antes de Cristo. Foi o primeiro patriarca hebreu, que quer
dizer chefe de uma antiga família do povo hebreu.

(02) Viveu numa época em que as pessoas eram selvagens e ignorantes. Seus
contemporâneos adoravam muitos ídolos e acreditavam que estes faziam inclusive
milagres. Sacrificavam pessoas aos ídolos, queimando-as vivas. are, pai de Abraão,
foi um comerciante de ídolos e toda Sua família era idólatra (adorador de ídolos),
considerando os ídolos como se fossem deuses.
(03) Abraão é qualificado como homem sublime, por suas grandes qualidades: muito amável,
de coração puro, de majestade espiritual, de dignidade e valor, próprios de um
verdadeiro rei. Possuía um grande sentido de retidão e de justiça, que o diferenciava
dos demais, e não participava da crença geral daquela época: a adoração dos ídolos.
Deus escolheu a Abraão e o tornou Seu Mensageiro, para instruir Seu povo e elevar seu
nível de espiritualidade e de cultura. Começou a ensinar a Revelação que lhe veio de
Deus, exortando as pessoas a abandonarem a supersticiosa crença de que os ídolos
eram deuses e a adorar o Deus único e invisível.

(04) Abraão abertamente combateu e procurou destruir todos os ídolos que pôde: "Pôs-se
em luta com seu povo, com sua tribo e até mesmo com sua família", o que lhe atraiu a
inimizade de todos. Furiosos contra ele, fizeram-lhe tremenda oposição, indignados que
estavam contra os novos ensinamentos. A missão de Abraão foi sumamente difícil, pois
teve que convencer as pessoas mostrando a diferença entre o poder dos ídolos de barro
e o poder do verdadeiro e único Deus.

(05) Naquele tempo governava o rei Nimrod, que se opôs cruelmente a Abraão e decidiu
destruir o novo movimento, ordenando que Abraão fosse queimado vivo. Mas Abraão foi
salvo. Triunfou pelo poder de Deus - "apesar de Sua aparente impotência sobre as
forças de Nimrod",- sobre os inimigos, demonstrando firmeza sobrenatural. Decidiram
desterrá-lo, "para que fosse destruído e não restasse nem sombra”.

(06) Deus ordenou a Abraão que deixasse sua pátria e sua família para viver em outra terra
e lhe prometeu grande benção, para ele e toda a sua descendência. Abraão obedeceu e
saiu de Ur com sua esposa Sara e seu sobrinho Lot e partiram para a Terra Santa.
Abraão tinha, então, 75 anos de idade.

(07) Deus transformou esse desterro em glória eterna para ele, porque estabeleceu a
Unidade de Deus (a crença em um só Deus) em meio a uma geração politeísta (crença
em muitos deuses). Como conseqüência de seu desterro, os descendentes de Abraão
tornaram-se poderosos, a Terra Santa lhes foi dada e os ensinamentos de Abraão se
estenderam pelo mundo.

(08) Várias vezes Deus apareceu a Abraão em visões e lhe confirmou a mesma grande
promessa: "Porque toda a terra... darei a ti e à tua descendência como o pó da terra;
que se alguém puder contar o pó da terra, também tua descendência será contada."
Gênesis, 13:15, 16.

(09) "E o levou para fora e lhe disse: Olha agora os céus e conta as estrelas, se as puderes
contar. E lhe disse: Assim será tua descendência." Gênesis, 15:5.

(10) Abraão foi casado três vezes e desses casamentos surgiram três linhas de Mensageiros
de Deus: de Isaac, filho de Sara, descenderam Moisés e Jesus; de Ismael, filho de Agar,
descenderam Maomé e o Báb; e de Cetura descendeu Bahá’u’lláh. Não existe uma
religião que leva o nome de Abraão, porém foi ele quem trouxe a base da crença em um
só Deus, sobre a qual o Judaísmo foi estabelecido mais tarde, por Moisés.
O episódio mais extraordinário transcorre quando Isaac era ainda criança. Deus chamou
Abraão e pediu que ele trouxesse seu filho ao alto de um monte chamado de Moriá ou Moriah,
informando a ele, no meio do caminho, que gostaria que o velho patriarca o sacrificasse, para
mostrar seu amor por Ele. Rembrandt imortalizou a cena em seu quadro “O sacrifício de Isaac”
que pertence ao museu Hermitage de São Petersburgo.

O monte Moriah faz parte hoje de Jerusalém. Teria sido no mesmo local que Salomão muito
mais tarde construiria seu famoso templo, cujas muralhas em ruínas - na verdade um pequeno
trecho,- até hoje são veneradas como o Muro das Lamentações. Acima do muro, na esplanada,
localiza-se o Domo da Rocha, o terceiro lugar mais sagrado para o Islã, onde a fé islâmica
acredita tenha se dado a Viagem Noturna de Maomé. A esplanada abriga o “Haram esh-Sharif”
ou Monte do Templo. A proximidade e a incompreensão humana, eivada de intolerância, tornam
o local fonte de conflitos cuja solução a humanidade ainda não consegue vislumbrar.

O Templo de Salomão - cujo reinado transcorreu entre 970 e 930 a.C.,- teria ocupado por
supremos desígnio e ironia exatamente a esplanada até sua destruição em 586 a.C. pelos
babilônios, em cujo poder os judeus permanecerão exilados até sua libertação em 539 a.C. por
Ciro o Grande.

Dadas tais explicações, retornemos ao sacrifício de Isaac. Mesmo sendo ele o filho amado que
tanto desejara por toda a vida, Abraão não relutou em sacar uma adaga e posicioná-la sobre o
pescoço de seu filho. Deus então mandou um anjo para segurar o punho de Abraão, dizendo
estar satisfeito com sua obediência. Como recompensa, Deus poupou seu filho e prometeu que
sua linhagem produziria uma nação numerosa que governaria toda a terra por onde Abraão
havia caminhado em vida (Canaã, propriamente dita).
A exegese estabelece inúmeros paralelos entre o antigo e o novo testamentos. O novo, crêem
os cristãos, dão sentido ao velho. Pode-se neste momento relembrar duas correlações, quais
sejam o conflito de Abraão com os seus e o sacrifício de Isaac.

Quando Cristo fala


“Aquele que amar seu pai e sua mãe, seu filho ou
sua filha mais do que a mim, não pode ser meu
discípulo. O homem deve ter por inimigo os de sua
própria casa, porque eu vim para separar o esposo
da esposa, o filho e a filha do pai e da mãe. Não
penseis que vim trazer a paz à Terra, vim trazer a
espada: combatei, pois, por mim sem trégua e sem
temor, porque aquele que conservar sua vida
perdê-la-á, e aquele que a tiver perdido por amor a
mim acha-la-á.”

reproduz as dificuldades que Abraão enfrentara porque o novo divide.

O sacrifício de Isaac - não concretizado graças à misericórdia divina porquanto foi substituído
pela morte de um cordeiro,- tem seu paralelo, incompreensível pela razão pura, quando Deus
manda seu próprio filho para morte na Cruz. O Cordeiro de Deus. O próprio Cristo. E não o
poupa.

A longa peregrinação do Patriarca foi cheia de sacrifícios: “Abraão passava verdadeiramente


sobre a Terra como um viajante. A tenda que havia plantado na véspera, ele a dobrava no dia
seguinte, como um exilado que não tem domicílio permanente, e procura sua pátria. Dos
campos de Sichem, desceu rumo ao sul da Palestina, e mesmo para o Egito por causa da fome
que desolava o país de Canaã”.

Voltando do Egito, Abraão fixou-se perto de Betel e “era muito rico em ouro e prata” (Gen. 13,
2). Ora, como seus rebanhos e os de Lot haviam se multiplicado muito, e não havia pastagens
suficientes para eles, Abraão propôs a Lot que se separassem, e generosamente deixou ao
sobrinho que escolhesse a região para estabelecer-se. Lot fixou-se nas férteis pastagens da
região chamada Pentápolis - formada pelas cidades de Sodoma, Gomorra, Adama, Seboim e
Segor – a qual, antes do castigo do Senhor, “era toda regada de água, como o paraíso do
Senhor” (Gen. 13, 10). Abraão foi mais para o Ocidente, habitando o vale de Canaã.

Novamente o Senhor falou a Abraão: “Levanta teus olhos, e olha .... toda a terra que vês, eu a
darei para sempre a ti e à tua posteridade. E multiplicarei tua descendência como o pó da terra.
.... Levanta-te, e percorre o país em todo o seu comprimento; porque eu to hei de dar” (Id. ib.,
14-17). Levantando sua tenda, ele foi fixar-se no vale de Mambré e ali edificou um altar ao
Senhor.

Entretanto Deus, vendo que as cidades que formavam a Pentápolis estavam prevaricando
gravemente com o vício infame, resolveu destruí-las. E o fez saber a Abraão. Travou-se um
diálogo admirável entre Deus e Abraão, no qual este manifestou de todos os modos seu desejo
de salvar as cidades pecadoras da justa ira divina, por causa daqueles habitantes que não
haviam pecado. “Perderá tu o justo com o ímpio? Se houver 50 justos na cidade, perecerão
todos juntos?” argumenta Abraão (Id., 18, 23-24). O Onipotente respondeu-lhe que, se
houvesse 50 justos nas cidades prevaricadoras, por amor deles perdoaria toda a cidade. E
assim foi Abraão abaixando a cifra até chegar a 10 justos. E o Senhor concordou que se
houvesse ao menos 10 justos, por amor deles perdoaria toda a cidade.
Porém, não havia sequer 10 justos em Sodoma: apenas Lot e sua família. Deus, pois,
“condenou a uma total ruína as cidades de Sodoma e de Gomorra, reduzindo-as a cinzas,
pondo-as por exemplo daqueles que venham a viver impiamente; e livrou o justo Lot, oprimido
pelas injúrias e pelo viver luxurioso desses infames” (II Ped, 2, 6-7). Dois anjos mandaram Lot e
sua família sair da cidade antes de a destruir com as outras. E fizeram chover sobre aquelas
cidades enxofre e fogo do céu, não restando delas matéria viva alguma. A esposa de Lot, ao
desobedecer a ordem de não olhar para trás, foi transformada em uma estátua de sal.

O grande mérito do Judaísmo foi o de acreditar num só Deus e o de compreender a infinita


distância entre as criaturas e o Criador. Na história de Jó, que permaneceu estóico e fiel sob
terríveis sofrimentos, mas que no fim e por fim se impacienta, a literatura judaica nos mostra
com sutileza o que pode ser resumido da seguinte forma: Deus está tão acima do homem que
este não pode cometer a leviandade de questioná-lo. A própria forma de denominar Deus revela
a delicadeza dos judeus: Javé, Aquele que é. Deus não é tratado na segunda pessoa. Por
respeito pleno de pudor usa-se a terceira pessoa. «Eu sou Javé, que te fez sair de Ur dos
Caldeus, para te dar esta terra como herança... Nesse dia, Javé estabeleceu uma aliança com
Abraão nestes termos: "À tua descendência darei esta terra, desde o rio do Egipto até ao
grande rio, o Eufrates"» (Gênesis 15, 7.18).

Tribo de Israel (do hebraico ) é o nome dado às unidades tribais patriarcais do Antigo
Povo de Israel e que de acordo com a tradição judaico-cristã teriam se originado dos doze filhos
de Yaacov (Jacó), neto de Abraham (Abraão).

As doze tribos teriam o nome de dez dos filhos de Jacó. As outras duas tribos restantes
receberam os nomes dos filhos de Yossef (José) , abençoados por Yaacov como seus próprios
filhos. Os nomes das tribos são: Rúben, Simeão, Levi, Judá, Zebulom, Issacar, Dã, Gade, Aser,
Naftali, Benjamin, Manassés e Efraim. Apesar desta suposta irmandade as tribos não teriam
sido sempre aliadas, o que ficaria manifesto na cisão do reino após a morte do rei Salomão.
Com a extinção do Reino de Israel ao norte, dez das tribos desapareceriam e a determinação
do seu destino até hoje é objeto de debate. As outras tribos restantes (Judá, Benjamin e Levi)
constituiriam o que hoje chama-se de judeus e serviria de base para sua divisão comunitária
(Yisrael, Levi e Cohen).

Apesar da queda de Jerusalém, os descendentes de Judá, ao serem levados ao exílio no reino


da Babilônia, mantiveram fortes laços culturais entre si. Jeremias profetizara que o exílio duraria
70 anos, e que o povo seria libertado e mandado de volta a Jerusalém ao final deste período; a
fé conjunta na realização da profecia teria mantido a tradição da tribo de Judá intacta, se não
fortalecida. É no período de exílio que surge pela primeira vez de maneira consistente o termo
judeu, referindo-se a todos os membros da tribo de Judá. Ciro, o Grande, enviou os judeus de
volta à Palestina, designando para eles a província de Yehud. Era, em linhas gerais, o mesmo
território do antigo reino de Judá. Os judeus ali habitaram até o século II da Era Cristã. Sua
religião passou a se chamar "judaísmo", a prática religiosa de Judá.

Entre o fim do exílio na Babilônia e a Diáspora, os judeus nutriram forte senso de união e
resistência à dominação estrangeira. Tão forte que mesmo após sua expulsão definitiva da
Palestina pelos romanos, os judeus mantiveram laços entre as distantes comunidades formadas
por toda Ásia, norte da África e Europa. Eram verdadeiras redes através das quais
sobreviveram suas tradições. Durante este período, o termo "judeu", significando um seguidor
da religião judaica, suplantou o significado tribal do termo, e muitos estrangeiros de origem não
semítica se declaravam judeus. De toda forma, através dos judeus e do judaísmo, a tradição da
tribo de Judá sobreviveu até os dias de hoje.
A figura abaixo mostra rolos de pergaminho da Torá – composta pelos primeiros cinco livros da
Bíblia,- cobertos por um manto bordado, com leões, que são símbolos da tribo de Judá.

No livro das revelações, o Leão de Judá é o Messias: "Todavia, um dos anciãos me disse: Não
chores; eis que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete
selos." (Apocalipse 5:4-6).
2. Das causas próximas
A digressão precedente, sobre a história bíblica judaica e dos patriarcas de Israel, lança um
pouco de luz sobre o estofo espiritual de Abraham de Leeuw, o patriarca dos Leão, cuja
existência no Brasil começou na cidade de São Sebastião do Caí. Até hoje não se encontrou
fotos de Abraham, ou algum de seus objetos pessoais, ou uma carta sua. À falta de tais
documentos, impõe-se a pesquisa sobre as origens de Abraham e de sua fé.

Quem era aquele homem que chegaria em 04.09.1858 no porto de Rio Grande, que embarcara
na Antuérpia no navio Monickendam? O pouco que se sabe será compartilhado nas linhas que
se seguem. Navegara por 82 dias entre a Antuérpia - que deixara em 14.06.1858,- e o porto de
Rio Grande. Certamente a travessia do Atlântico não tomou tanto tempo. As caravelas
portuguesas da frota de Cabral levaram 45 dias entre Lisboa e o fundear nos arredores de Porto
Seguro. Viúvo, com cinco filhos, fora na Holanda um artífice, dedicado à fabricação de caixas
para relógios de parede (Horlogekastenmaker). Talento de que não faria uso no Brasil.

Abraham nasceu em Rotterdam no dia 12.11.1813 e portanto tinha 44 anos quando chegou no
Brasil. A foto abaixo, obtida no arquivo público daquela cidade, o Gemeentearchief, revela o
registro de nascimento de Abraham.

Seus pais se chamavam Marcus Isaac De Leeuw – vide sua assinatura no registro acima,- e
Anna Wjjnberg. Casou-se aos 28 anos, em 17.02.1841, com Elizabeth van Wessel, nascida em
12.06.1811, filha de Andries Samson van Wessel e Duifje Gosler, que segundo o site
www.familysearch.org nasceram por volta de 1781 em Vlaardingen ( www.vlaardingen.nl ),
cidade industrial que se encontra nos arredores de Rotterdam.
Abraham e Elizabeth moravam na Pottebakkerssteeg, no bairro Boompjes em Rotterdam, rua
assinalada na figura abaixo, extraída de um mapa de Rotterdam de 1853, pela seta da
esquerda. A seta da direita mostra a localização da sinagoga do Boompjies.

Elizabeth morreu em 24.12.1853, aos 42 anos, de causa desconhecida. Pode-se apenas


especular que tenha havido alguma relação entre sua morte e o parto de gêmeos – Willem e
Israel, que não sobreviveram,- em setembro do mesmo ano. A foto abaixo revela seu registro
de óbito, assinado pelo marido e pelo próprio pai de Elizabeth, Andries Samson van Wessel.
O último dos cinco filhos do casal, Isaac, nascera em 22.11.1850 e portanto perdeu a mãe com
três anos recém completos. O filho mais velho, Andries, nascido em 24.01.1843, tinha apenas
dez anos.

Que desolação deve ter se abatido sobre o lar dos Leeuw, na Pottebakkerssteeg. Abraham, a
quem a viuvez deve ter sido pesado fardo, talvez tenha, cinco anos mais tarde, rumado para o
Brasil até, também, para deixar para trás memórias dolorosas.

Elizabeth foi sepultada no cemitério de Dijkstraat, conforme cópia da página 138 do livro de
registro daquela necrópole.

A figura acima mostra que três dias depois o pequeno Willem era sepultado com sua mãe.
Israel morreria pouco depois. As lápides do cemitério de Dijkstraat, hoje desativado, foram
removidas para o cemitério de Toepad, também em Rotterdam, onde foram realocadas numa
área isolada. Após minuciosa busca, com a ajuda do administrador do cemitério, não
localizamos a lápide de Elizabeth. Pelo menos três são as causas possíveis para a mal
sucedida busca: ou sua lápide é uma daquelas nas quais só há inscrições em hebraico, que
não dominamos, ou a lápide foi danificada ou nunca existiu, quiçá por impedimento econômico.

No Gemeentearchief de Rotterdam está consignado que Machiel foi morar com parentes de sua
mãe, em Vlaardingen, em 16 de abril de 1855. Tinha oito anos. Em 2 de janeiro de 1857
Andries e Marcus juntaram-se a ele. A família de Abraham de alguma forma parecia
desagregar, sob o peso da viuvez. Pela documentação, pelo menos oficialmente, Abraham
permanecia apenas com os filhos menores, Salomon e Isaac.

O domicílio dos Leeuw não poderia ser mais emblemático. Situado numa rua entre o canal
Leuve e o mar, colada no canal cujo nome, Scheepmakers Haven, significa Porto dos
Fabricantes de Barcos, é testemunho seguro da ligação diária dos Leeuw com as águas. Que
atravessariam numa verdadeira epopéia. A acanhada Pottebakkerssteeg tornou-se um capilar,
a estrangular a vida, como se Abraham, empurrado pelo passado e pelas tristes recordações,
não tivesse outro recurso senão lançar-se ao mar. Como não deixar voar a imaginação? Como
não refletir sobre o convite que a linha do horizonte faz para quem a indaga? Como deixar de
supor que o movimento nas águas calmas daquele porto, os semblantes de marujos do mundo
todo e de suas histórias possam ter exercido sobre Abraham atração irrecusável, terminando
por torná-lo um emigrante?
A foto abaixo, de 1883, provavelmente nos permite ter uma boa idéia de como devia ser o bairro
quando os Leeuw o deixaram, ainda que vinte e cinco anos antes.

No site do Jewish Historical Museum de Rotterdam pode-se encontrar um texto deveras


interessante e esclarecedor (www.jhm.nl/netherlands.aspx?ID=138) sobre a presença dos
judeus no Boompjes, cuja tradução parcial livre e não literal segue abaixo:

“ Em 1610 a cidade de Rotterdam emitiu permissões para que um pequeno número de


mercadores judeus portugueses se engajassem no comércio. A permissão garantia
liberdade de culto e o direito de construir uma sinagoga e estabelecer um cemitério. Em
1612 estas provisões foram contestadas pela igreja Remonstrante local. Isto induziu um
número de famílias judias a partir de Rotterdam para Amsterdam. Aqueles judeus que
permaneceram em Rotterdam oravam juntos no sótão de uma casa privada e sepultaram
seus mortos num cemitério em Rubroek, localizado num lugar que tornou-se o Jan van
Loonlaan. Um segundo grupo de judeus portugueses chegou em Rotterdam em 1647.

... Em 1647 o conselho da cidade de Rotterdam concedeu aos judeus locais todos os
direitos de seus pares em Amsterdã. A comunidade judaica de Rotterdam cresceu
rapidamente e logo abriu uma sinagoga numa casa de esquina da Wijnhaven e da
Bierstraat. A comunidade também fundou uma escola para o estudo do Talmude, a
Yeshiva dos Pintos. A escola foi transferida para Amsterdã em 1669. Durante a segunda
metade do século 17 a maioria das principais famílias judias portuguesas em Rotterdam
se engajaram no comércio internacional. Durante as décadas finais do século 17 a
sinagoga da comunidade mudou-se da Wijnhaven para os novos quarteirões do
Scheepmakershaven e então para Boompjes. O cemitério judeu teve sua capacidade
lotada em 1693 e logo depois a comunidade portuguesa abriu dois novos cemitérios um
depois do outro na quadra Crooswijk. O mais novo dos dois, localizado na Oostzeedijk, foi
transferido para a comunidade Ashkenazi de Rotterdam durante o século 17. Os
membros da comunidade judaica portuguesa declinaram nas primeiras décadas do
século 17. Em 1736, a comunidade deixou de existir. Depois disto, os judeus portugueses
que permaneceram em Rotterdam se incorporaram à comunidade Ashkenazi. “
“ Os judeus Ashkenazi haviam chegado em Rotterdam da Alemanha e Polônia durante a
metade do século 17. Por volta de 1660 o seu número era suficientemente grande para
que organizassem uma comunidade por conta deles. Por volta de 1670 os Ashkenazi de
Rotterdam tinham seu próprio rabino, sinagoga e cemitério. A sinagoga, localizada no
Glashaven, foi consagrada em 1674. Nos seus primeiros anos em Rotterdam os judeus
Ashkenazi foram encobertos pelos portugueses. A situação mudou no final do século 18,
quando a comunidade Ashkenazi cresceu em tamanho e a comunidade portuguesa
declinou. No final do século 17 a comunidade Ashkenazi tinha superado sua primeira
sinagoga e, em 1702, a substituiu por uma nova sinagoga próxima. Aquela sinagoga foi
logo substituída pela sinagoga do Boompjes que foi consagrada em 1725. No mesmo ano
a comunidade Ashkenazi publicou seus estatutos. O porão da sinagoga no Boompjes
tinha um salão para celebrações festivas. O açougue kosher da comunidade Ashkenazi
ficava atrás da sinagoga. Em 1784 uma sinagoga anexa foi construída na parte de trás da
sinagoga do Boompjes. .... Naquele tempo, a maioria dos judeus em Rotterdam moravam
nas cercanias da sinagoga do Boompjes. A comunidade Ashkenazi em Rotterdam fundou
uma escola por sua conta em 1737. Também em 1737 a comunidade abriu um novo
cemitério em Dijkstraat onde hoje fica o Kralingen. O cemitério Kralingen foi expandido
várias vezes e permaneceu em uso até a abertura em 1895 de um novo cemitério
localizado em Toepad em Rotterdam.

.... No final do século 18, 2500 judeus moravam em Rotterdam, compreendendo a maior
população judaica na Holanda fora Amsterdã. Naquele tempo, a maioria dos judeus
residentes em Rotterdam trabalhavam como pequenos varejistas ou comerciantes. As
práticas de exclusão de associações locais asseguraram que a situação econômica da
maioria dos cidadãos judeus se mantivesse pobre. A concessão de plenos direitos civis
em 1796 permitiu que esta situação gradualmente mudasse. Esta igualdade civil também
ocasionou conflitos no interior da comunidade judaica. A população judaica de Rotterdam
quadruplicou no correr do século 19. Isto deveu-se principalmente à emergência
econômica de Rotterdam que atraiu muitos judeus para a cidade. Seus números
aumentaram pelos judeus do leste da Europa que emigravam para a América via porto de
Rotterdam, muitos dos quais preferiam ficar a partir. Ainda que a emergência econômica
de Rotterdam atraísse judeus, a pobreza se manteve predominante entre a população
judaica da cidade. Um conselho de seis membros para ajudar os pobres e várias outras
organizações de ajuda foram fundadas pela comunidade para chamar a atenção sobre
esta situação. .... Prioridade foi dada para a educação judaica e a educação das crianças
pobres da comunidade. Os judeus de Rotterdam mantiveram sociedades de
sepultamento, sociedades de ajuda aos doentes, sociedades de ajuda de viagem e
sociedades de ajuda aos órfãos e velhos. “
As gravuras da página anterior mostram o interior da sinagoga do Boompjes por volta de 1850 e
sua fachada em 1790. Tudo indica, pelo texto do Jewish Historical Museum e pelo sepultamento
de Elizabeth em Dijkstraat, que os de Leeuw eram Ashkenazi. Também é legítimo supor que
Abraham, que se manteve judeu até a morte, e seus filhos, tenham freqüentado a sinagoga do
Boompjes e a própria escola judaica ao lado da mesma. A foto abaixo mostra a sinagoga no
início do século XX.

Infelizmente a neutralidade da Holanda na segunda guerra mundial não a isentou de ataques.


Em de maio de 1940 a ilusão de que o país não entraria na guerra caiu, quando mais de
cinqüenta aviões alemães destruíram Rotterdam. O bairro do Boompjes foi particularmente
arrasado, como mostram na página seguinte duas fotos do Scheepmakershaven, de ângulos
muito similares, batidas do Oude Haven, antes e depois do ataque. A arquitetura diante da qual
os de Leeuw por décadas desfilaram em sua Rotterdam desaparecia para sempre.
A cidade até hoje se ressente de um passado que lhe foi arrancado pela barbárie de que só
mesmo o homem parece capaz. Uma vida civilizada reduzida a escombros em poucas horas.

Mais de oitenta anos antes da destruição, os de Leeuw de que descendem os Leão de São
Sebastião do Caí mudariam suas vidas. Cinco anos após a perda da mãe, Andries, com 15
anos, Markus, 13 anos, Machiel, 11 anos, Salomon, 9 anos e Isaac, com 7 anos,
acompanhariam o pai Abraham pelo inóspito das águas, rumo ao desconhecido.
3. A viagem e a chegada no Brasil
Os de Leeuw deixaram a comunidade de Rotterdam em 28 de maio de 1858 conforme registro
encontrado no Gemeentearchief, com destino ao Rio de Janeiro. Como não dispomos de cartas
ou textos familiares que relatem estes dias, plenos certamente da apreensão de deixar para trás
uma história e laços de família, procuramos em livros a ambientação da saga que nos cumpre
investigar. O primeiro deles chama-se Cartas de Imigrantes, de Roger Stoltz [11], editado pela
EST em 1997, cujo mérito maior é trazer a lume os textos de cartas dos próprios imigrantes.

Só Deus sabe de seus padecimentos, desde suas comunidades até o destino final. Eram
tempos de baixa mobilidade e portanto de meios pobres para travessias oceânicas. Os navios
eram à vela. A navegação a vapor era ainda uma novidade e seu uso no Atlântico limitava-se às
linhas entre a Europa e os Estados Unidos. Stoltz publica um relato de um alemão, Ludwig
Dienstbach, que viajou da Alemanha para a América do Sul em 1858:

“ O navio não pára um só momento de balançar. Este eterno balanço. Chuva e


tempestades incessantes. Há oito dias que estou devolvendo todos os comes e bebes
para os peixes, além de ameixas secas tudo me enjoa. ... Dormir? ... o que dormir ... não,
isso não existe, isso não permitem os milhões de percevejos. E isso é somente o começo
de uma viagem marítima longa! Semelhante horrível vida marítima, deverá ser
primeiramente uma escola preparatória para a vida americana! ... eu sofro aqui dores e
tormentos neste nosso calabouço por demais agitado. Ontem foi o pior dia, dia e noite
ventania contrária e o mar assustadoramente agitado; uma corrente pesada de ferro
rompeu-se como um fio de linha; como de outras vezes, eu fui apanhado, três vezes, por
vagalhões jogados contra as paredes do navio e todas as vezes fiquei encharcado até a
pele; as minhas roupas e as de tantos outros tremulam nas escadas de cordas. ... Até
agora não vimos mais nada a não ser o céu e água. ... De agora em diante o calor está
sendo horrendo; o navio está sendo continuamente regado com água do mar, porque de
outro modo o piche escorreria. ... O fato de existir, entre nós habitantes deste navio, um
forte sentimento de igualdade e irmandade, e de se fazer pouca diferença entre homem
ou mulher, se jovem ou velho, se rico ou pobre, se culto ou não, explica-se, porque todos
repartimos os mesmos riscos e todos partilhamos a mesma prisão. “
Os imigrantes deviam seguir algumas regras para embarcar. Os alemães que vieram a partir
de 1824 tinham uma carta-modelo a orientá-los. Cada família tinha direito a caixas ou barris de
roupa, ao peso máximo de 60 Kg cada um, além de algumas camas,poucas, para que o espaço
não superlotasse. Deviam também identificar seus pertences. Durante as primeiras décadas da
nova colonização européia no século 19 os imigrantes eram encaminhados para a Armação da
Praia Grande, hoje Niterói. Após semanas de tediosa espera finalmente seguiam para o porto
de Rio Grande, de onde embarcavam em barcos menores até Porto Alegre. O livro de Stoltz
inclui o relato de um boêmio, Josef Umann, que chegou no Brasil em 1877:
“ Finalmente alcançamos a cidade portuária de Rio Grande. Após dois dias de
permanência na casa dos imigrantes, fomos enviados a Porto Alegre em um pequeno
vapor. Foi novamente uma viagem bastante difícil, através da Lagoa dos Patos. Um vento
muito gelado, acompanhado de chuvas, açoitava o convés onde, por falta de espaço,
ficaram confinados todos os imigrantes.

A maioria de nós sofria de diarréia, principalmente as crianças padeciam bastante.


Quando a noite chegou, tratamos de abrigar o mais possível com roupas e agasalhos as
mulheres e crianças, e acomoda-las da melhor ou pior forma possível no convés da
embarcação. [ ] Eu e mais alguns homens não atingidos pelo enjôo permanecemos
juntos, envoltos em nossos casacos de inverno e nos postamos próximo à caldeira de
vapor, para nos mantermos aquecidos. Foi uma noite tão fria como raramente as há
nesta terra ensolarada. A 29 de junho alcançamos Porto Alegre, e encontramos teto e
assistência na hospedaria dos imigrantes. Os doentes se recuperaram e todos estavam
sinceramente alegres por terem atingido a terra de suas esperanças. “
Outro alemão, Joseph Hörmayer, que aqui chegou em 1863, dá sua receita para a viagem:

“ É bom, para evitar o enjôo ou preparar-se para ele, usar laxativos antes dos embarques e
mesmo durante a viagem prevenir-se contra a prisão de ventre. Quando não se tem o
enjôo, vem uma dor de cabeça forte com afluxo de sangue. O remédio é um chá forte ou
uma infusão de figos secos, que também facilitava o vômito. Depois da doença toma-se,
antes da sopa, um pouco de quinino e de vez em vez coma-se um arenque com vinagre e
sal. Antes de tudo, porém, o imigrante deve procurar distrair-se e movimentar-se tanto
quanto possível.

Tudo piorava, porém, quando as embarcações atingiam a Linha do Equador. Sob calor intenso
e progressão quase nula, o ambiente tornava-se tumultuado. A água doce disponível a bordo,
quente e por vezes fétida, era a única alternativa para que não morressem de sede.

Outro livro bastante instrutivo para que se conheça a realidade do mundo e de nosso país à
época em que Abraham e seus filhos vêm para o Brasil tem como autor Robert Ave-Lallemant e
se intitula Viagem pelo Sul do Brasil no ano de 1858 [1]. Traduzido do original alemão, da edição
de Leipzig em 1859, foi editado pelo Instituto Nacional do Livro, do Ministério da Educação e
Cultura, em 1953.

Lallemant parte da Itália engajado numa viagem científica de circunavegação na real e imperial
fragata austríaca Novara, recomendado que fora por Alexander von Humboldt, segundo ele o “
único mortal que nada tem a invejar a Aristóteles”, tal seu respeito pelo grande naturalista e
explorador alemão, que foi de antropólogo a botânico, de físico a humanista, e que morreria em
Berlim no ano de 1859. O início de sua viagem em nada se assemelha à viagem de um
imigrante. Sua descrição de Gibraltar e da Ilha da Madeira tem interesse para todo aquele que
deseja se familiarizar com as viagens de imigrantes que saíram dos portos mediterrâneos. A
fragata levou 39 dias entre a Ilha da Madeira e uma ilha que identificou como a de Itamaracá.
Mais 49 dias e chegaram em Cabo Frio. Lallemant residira 17 anos no Brasil, para então voltar
à Europa em 1855, e já conhecia muito bem o Rio de Janeiro, mas descreve a cidade, vista do
mar, como se a visse pela primeira vez. Médico e botânico, se demitira da expedição austríaca
e desembarca na capital do Brasil, que então contava com aproximadamente 300 mil almas.
Recebido em Petrópolis pelo Imperador Pedro II, pouco depois, em 16 de fevereiro de 1858, no
paquete Imperatriz, partiu do Forte Villegaignon para o Rio Grande do Sul, com escala prevista
no Desterro, em Santa Catarina.

Após um início pouco auspicioso, com os incômodos de um navio mau e sujo, e os habituais
enjôos que o óleo de rícino da navegação impinge aos que a ela se entregam, no dia 18 de
fevereiro avistaram terra novamente. Era a Ilha de Santa Catarina. Lançaram os ferros mas
naquele dia não puderam desembarcar no Desterro devido à intensa chuva. No dia 20 partiram
novamente. Ao meio-dia do dia 21 avistaram as elevações de Torres. No dia 22 achavam-se à
altura da costa de Rio Grande, de tristes e calvas dunas. Entre o mar de areia e a areia do mar,
como descreve o autor, surgiram dois faróis. A embarcação trocou sinais com um deles e seu
comandante decidiu ancorar porque os 12 palmos de profundidade não bastavam. Queria pelo
menos 13 palmos.

“ Então, numa situação nada invejável, aguardamos os acontecimentos. Mas a princípio


nada sucedeu. Apareceu uma hora depois, por trás das ondas revoltas, um grande barco
à vela, que lançou ferro e parecia não preocupar-se conosco. Quase já nos tínhamos
familiarizado com o pensamento de irmos para Montevidéu, em lugar de Rio Grande,
quando velejou em nossa direção uma catraia capaz de navegar no mar e se pôs ao
nosso lado. Agora seriam postos na catraia passageiros e bagagens, especialmente
algumas mulheres de voz esganiçada e meninos chorões.

“ A barra do Rio Grande é, sem dúvida, uma das mais desagradáveis e mais perigosas que
existem e poucos portos se encontrarão em que, em proporção com os navios entrados,
tenha havido tantos naufrágios como aqui. Fora, no mar, estendem-se os baixios, e em
frente da barra um banco de areia; ao norte ou ao sul desta se acham as passagens,
variáveis, aliás, de local e de profundidade; por vezes ambas as passagens estão más,
sendo necessárias exploração e observação diárias para permitir a entrada do navio ou
adverti-lo de que não pode entrar.

Não nos podia, pois, admirar, mas, apenas assustar um pouco que a nossa catraia,
velejando entre altas ondas, topasse em alguma coisa, pois havíamos escolhido a
passagem mais curta e mais rasa. Em vez disso, ela prosseguiu em águas navegáveis e
aproximou-se da terra.

Vêem-se infelizmente restos e destroços de navios naufragados que se elevam sobre os


baixios. Todavia, pode-se dizer que se é fácil ocorrer um naufrágio na barra do Rio
Grande, por outro lado se consegue sem dificuldade salvar as vidas humanas. O solo é
arenoso; quase todos os navios o roçam na entrada ou na saída, sem por isso
encalharem ou serem danificados. Mas, mesmo quando encalham, a sua perda não é
obra de um minuto ou de poucas horas: tanto que em casos ocorridos com navios de
colonos, todos os emigrantes foram salvos.

O terceiro livro, na verdade uma coincidência notável, é o que mais nos pode ajudar na busca
do entendimento do que possa ter sido a aventura de Abraham e seus filhos. No ano de 1857,
um ano antes portanto da vinda dos Leeuw para o Brasil, uma belga, Marie Barbe Antoinette
Rutgeerts van Langendonck, nascida em 1798, fez a mesma viagem, com o mesmo destino: a
colônia de Santa Maria da Soledade. Isto pouco significaria se esta mulher, então com 58 anos,
não fosse dotada de talento literário e não nos houvesse legado uma bela narrativa no livro
Uma colônia no Brasil [5], publicado na Bélgica em 1862.

Madame Langendonck, como é conhecida, se hospedará em estabelecimento da família


Guimarães em São Sebastião do Caí, antes de deslocar-se para a colônia do Conde Montravel.
A leitura de seu livro é obrigatória para todos aqueles que desejarem mergulhar no clima e no
sofrimento de quem deixava para trás a civilizada Europa em busca do inóspito sul do Brasil, a
maioria iludida por propaganda enganosa de enriquecimento fácil.

Deixemos que Madame van Langendonck nos leve consigo e um de seus filhos, que a
acompanhou na viagem:

“ Creio que, quando me decidi a emigrar para o Brasil, os interesses materiais não eram
mais que o pretexto para ceder à atração do desconhecido, pois eu pensava menos no
que íamos fazer no Brasil, do que naquilo que nós lá iríamos ver.

No dia 30 de Abril de 1857 deixamos a enseada de Antuérpia no brigue “Amanda”


comandado pelo capitão Brotmann, com destino ao Rio Grande do Sul. Para quem nunca
viu um transporte de emigrantes alemães, é impossível fazer uma idéia do que isso seja.

A coberta do navio abrigava cento e cinqüenta indivíduos de todas as idades e dos dois
sexos. Todos colonos livres, isto é, tendo pago sua passagem de seu próprio bolso.
Alguns levaram uma pequena fortuna, quer em numerário, quer em mercadorias, outros
haviam embarcado por conta de suas comunidades. Os primeiros estavam munidos de
amplas provisões alimentares, os segundos, reduzidos às rações de bordo, recebiam
apenas o necessário para não morrer de fome. Todos tinham em comum uma falta de
higiene inominável e hábitos que aos mais indulgentes poderiam parecer de uma
desenvoltura excessiva. “
“ A cabine do capitão, exageradamente pequena, situava-se no mesmo nível da ponte de
comando. Entre as duas haviam isolado, com um tabique, um espaço para nós contendo
duas camas e o lugar necessário para nossas bagagens, de maneira que aí nós nos
sentíamos perfeitamente à vontade.

(...) Ao chegarmos às regiões quentes, porém, sufocávamos na cabine, e éramos


forçados a ir à procura de um pouco de ar sobre a coberta. Aí toda a população do
“Amanda’ mantinha-se permanentemente, e nós não sabíamos onde nos meter. Os
alemães prestavam continuamente entre si o serviço mútuo de tirar um do outro a
vermina que os cobria. O nojo deste espetáculo era atroz, e o capitão, tendo deixado a
popa à disposição de todos, tornou essa cena impossível de ser evitada.

(...) Uma manhã fui acordada por gritos de desespero vindos da coberta; vesti-me às
pressas e fui informar-me do que se passava: esses gritos que cortavam a alma eram
emitidos por uma mãe jovem cujo filho de três meses tinha morrido durante a noite, e que
não queria se separar do pequeno corpo para que este pudesse ser lançado ao mar. O
capitão ordenou que o tomassem à força, coseram-no num pedaço de pano de vela e
jogaram-no por sobre a amurada. O embrulho boiou durante alguns segundos, depois foi
levado por uma vaga. Uma bonita menina de quatro anos morreu também no dia
seguinte; o mar também tragou esse cadáver. Daí a alguns dias um ancião rendeu sua
alma a Deus; coisa triste de dizer, pretende-se que a falta total de cuidados, se não
provocou, ao menos apressou a morte desse pobre homem, que tinha entretanto quatro
filhos consigo.

Mais tarde, com alguns dias de intervalo, nasceram três crianças a bordo. As mulheres
ajudaram-se entre si e tudo se passou a contento. O mais velho em idade do navio
batizou provisoriamente as três pequenas criaturas; uma nascida à altura das costas do
Brasil, desembarcou com plenos direitos de cidadania na sua nova pátria.

Enfim numa quinta-feira, nove de Julho, chegamos diante da barra do Rio Grande do Sul.
Para aliviar o navio, descarregaram-no de toda a água potável, o que não evitou que
encalhasse a proa nas areias da barra. Para o desvencilhar, transportaram da frente para
trás as pesadas correntes das âncoras e toda a ferragem que se achava a bordo.
Ordenou-se aos passageiros que executassem uma marcha de uma ponta da coberta à
outra, até que finalmente o brigue tornou a flutuar, e nós pudemos, com a ajuda do piloto,
entrar no porto.

O aspecto do Rio Grande é triste: do porto não se vê nenhuma vegetação; nada mais que
areia, areia por toda a parte. A cidade é bastante animada, mas desse movimento
mercantil que é simpático unicamente aos traficantes. Poucas ruas são inteiramente
calçadas. O conforto do interior doméstico deixa muito a desejar; a vida lá é cara, e lá se
vive mal.

Um barco a vapor esperava os emigrantes. Em vinte e quatro horas ele nos desembarcou
em Porto Alegre, onde nós fomos recebidos pelo Sr.Conde de Montravel; ...

Abraham e seus filhos saíram da Antuérpia, com destino ao Rio de Janeiro, no navio
Monickendam, conforme cópia do livro de imigração, comandado pelo Capitão Flick. Tentamos
de todas as formas obter uma gravura ou foto desta embarcação. Pesquisamos em inúmeras
instituições holandesas, desde o museu Noordelijk Scheepvaartmuseum em Groningen
(www.noordelijkscheepvaartmuseum.nl), passando pelo Maritiem Museum Rotterdam
(www.maritiemdigitaal.nl) até o Institute for Maritime History ( nihm@mindef.nl ) do Ministério da
Defesa holandês. A busca não foi conclusiva. No site do Museu Marítimo de Rotterdam
encontramos uma pintura de um barco (Link P915) denominado Monnikendam – vide barco
central na figura da próxima página,- construído na cidade de mesmo nome, a
aproximadamente dez quilômetros de Amsterdã.
O barco Monnickendam, com dois mastros, pertenceu a J.G.Boerlage & Co. . Construído em
1825, foi colocado fora de ação, pelo menos na Holanda, em 1851. Assim, ou o barco seguiu
navegando sob outro dono e Abraham veio ao Brasil precisamente nele, ou foi no segundo
Monnickendam, com três mastros, construído no mesmo estaleiro da família Boerlage, ainda
presente na cidade mas afastada da construção naval. Os descendentes dos Boerlage, aliás,
estão a tal ponto afastados de seus ancestrais que os Hakvoort - a família que hoje possui o
maior estaleiro de Monnickendam (www.hakvoort.com), de categoria internacional,- sequer
sabiam que um dia os Boerlage tiveram, como eles, um estaleiro. Igualmente vã foi a busca no
arquivo público da cidade.

O principal argumento contra a hipótese de que a pintura acima possa retratar o barco que nos
interessava é que os barcos para navegação transoceânica normalmente tinham três mastros.
A embarcação acima representada, com dois mastros, destinava-se mais à navegação costeira.

No dia 4 de setembro de 1858 os Leeuw chegaram em Rio Grande. Embarcaram no vapor


Continentista e foram então cadastrados conforme mostra a cópia do livro de imigração. Robert
Lallemant faz menção ao mesmo vapor, no início do segundo volume de seu Viagem pelo Sul
do Brasil no ano de 1858 [2], quando deixava o Rio Grande do Sul:

“ Em São José do Norte, dfronte da cidade do Rio Grande do Sul, estava ancorado, em 22
de maio, o paquete Imperator, da Companhia Brasileira de Navegação a Vapor.
Aguardava os seus passageiros, pois a pouca profundidade da água, apesar de ter uma
milha de largura, não permite ao vapor chegar até a cidade. A uma hora já nos tínhamos
dirigido ao pequeno vapor Continentista, no qual se achava muita gente, uma multidão
que ia despedir-se dos passageiros e outro grande grupo que acompanhava os viajantes
até ao Imperator para amenizar, como um pequeno passeio, a hora iminente da
separação.

Tal cena de despedida é sempre um tanto tumultuária: a bordo do Imperator durou ela
meia hora, até que o Continentista, lindamente ornado de bandeiras, desatracasse e
regressasse, com os que ficavam, para a cidade. “
O vapor Continentista trazia cinqüenta e cinco imigrantes, trinta e nove dos quais eram
holandeses, conforme a foto acima, obtida no Arquivo Histórico do RS. O registro dos Leeuw já
alterava nomes e grafias: Abrahão de Leven, Andréa, Marcos, Miguel, Salomão e Isaac. Como
se vê apenas Isaac teve a grafia preservada. O sobrenome da família foi adulterado e, pior,
Andries foi registrado como mulher.
4. A viagem de Porto Alegre para a Colônia
Lallemant [1] apresenta uma bela descrição de sua chegada em Porto Alegre em 1858 e as
impressões altamente favoráveis que a cidade lhe causou. Tomou em Rio Grande o vapor
Marquês de Olinda, com 215 pés no convés, que descreve como modelo de elegância e
limpeza, cuja grande câmara formava elegante sala de jantar, onde 60 a 80 pessoas podiam
comer ao mesmo tempo com toda a comodidade. Os sofás laterais, rodeados por cortinas,
serviam de cama à noite. Uma tempestade, porém, inquietou a viagem de 16 horas até o fim da
Lagoa dos Patos, perto de Itapoã.
“ Passamos por uma linda ilha, a Ilha das Pombas, e depois por uma elevação coberta de
mato, Ponta Grossa. À distância de várias milhas, sobre uma colina que avança para a
água, defronta-se-nos, na linda paisagem, uma aprazível cidade. Não fora há muito seu
nome, involuntariamente lhe chamaríamos Porto Alegre! Um amável pensamento, uma
graciosa idéia esta Porto Alegre, onde chegamos e ancoramos, partindo do Rio Grande,
depois de uma viagem de 45 milhas geográficas. O largo e tranqüilo rio, a própria amável
cidade, que se estende para o norte, à margem do rio, numa série de bonitas casas de
campo e verdes e viçosos jardins, o espesso matagal do outro lado, através de cujas
densas sombras difìcilmente abrem caminho os regatos afluentes do Guaíba, os
pequenos barcos e canoas que sobem ligeira e tranqüilamente – tudo isso forma um
quadro de graça e encanto que só alguns pintores holandeses, em momentos felizes,
transportaram para a tela. Em terra, é exatamente o mesmo o panorama visto do mar.

Corre ao longo da margem, a Rua da Praia, a principal, larga, regular, mesmo com casas
muito majestosas de até três andares. Paralelamente, a meia altura ou no alto da colina
da cidade, bonitas travessas, cortadas por várias ruas, começadas na Rua da Praia,
sobem a ladeira, de modo que a cidade, apesar de sua posição inclinada na encosta e
sobre o monte, pode classificar-se entre as mais regulares. A melhor das ruas
ascendentes conduz a uma grande praça irregular, onde se acham a igreja matriz, o
palácio da presidência e um teatro recentemente construído. Além, para o sul, o pequeno
edifício da Assembléia. A partir daqui seguem duas ruas, uma à direita e outra à
esquerda. Uma, no alto, leva ao grande hospital e casa de expostos, ainda não
concluído, porém amplo e espaçoso; a outra desce para o rio, a cuja margem se acha a
cadeia pública, construída em estilo mais ou menos de castelo forte e, perto dela, um
imponente arsenal. Além da praça partem alguns caminhos bastante tortuosos para uma
grande planície ou vargem, semeada, aqui e ali, de casas de campo e igrejas, fechando a
região uma cadeia de serras. Do alto da igreja e do teatro, a vista é de rara beleza.

Conforme já observei acima, em Porto Alegre alguns rios largos, o Gravataí, o Rio dos
Sinos, o Caí e o Jacuí ..... se reúnem numa extensa e larga bacia de água doce . o
Guaíba. Das referidas elevações da cidade vêem-se, de um só lance, todo o soberbo
vale, grande parte da bela bacia hidrográfica e as magníficas várzeas que a entremeiam;
avista-se, por milhas de extensão, a formosa paisagem até que, muito ao longe, uma
azulada cadeia de colinas se mescla com o verde indeciso da planície ondulada e a limita
numa união tão suave que poderia crer-se ter a paisagem tomado aqui a suavidade do
elemento líquido.

[ ] A reminiscência nórdica não se restringe ao alto da Cidade de Porto Alegre, de onde


se pode contemplar longa distância. Desce também à parte comercial. Ali em toda parte
se vê gente de raça loura perambulando. A cada momento se vê um nome alemão sobre
as portas das casas e se ouve falar a rude língua alemã do Holstein e do dialeto
pomerânio até ao bávaro renano. Deve haver em Porto Alegre uns três mil alemães, ao
passo que toda a cidade não tem mais de 20.000 habitantes. Do porto fui levado a um
hotel alemão. Fui a outro, o Hotel Comercial, de três andares, mas por trás do nome
brasileiro, era um hotel genuinamente germânico, tão agradavelmente fleumático, tão
ingenuamente lento, que realmente me agradou. O dono era um alemão, que até grego
estudara e viera para o Brasil como soldado. O garção principal o seu antigo sargento; a
criada de quarto uma pomerana de grande estreiteza mental ... “
O texto anterior sugere que Abraham provavelmente não teve dificuldade para comunicar-se,
pelo menos desde sua chegada a Porto Alegre. Além do holandês, muito possivelmente falava
o alemão, língua aliás que não só guarda alguma semelhança com o holandês como com o
ídiche, que um judeu ashkenazi provavelmente falava, o “juedisch-deutsch”, alterado para o
“iidisch-taitsch”.

Assim que chegavam a Porto Alegre os colonos eram destinados às colônias para as quais
haviam sido contratados. Madame van Langendonck também descreve a capital e a viagem
para o Porto do Guimarães, hoje São Sebastião do Caí:

“ Porto Alegre é uma bonita cidade, toda nova, construída sobre um terreno acidentado, perto
da confluência de quatro rios, o que a torna quase uma península. O ar é salubre, as ruas
retas e bem calçadas. O alto comércio de lá é constituído por alemães e portugueses: estes
últimos representam ali os judeus da Europa.

(...) Assim é que depois de dez dias passados em Porto Alegre, o Sr.de Montravel
providenciou para nós e nossas bagagens um bonito lanchão – pequena embarcação com
convés – que se movia, ou por meio de quatro remos, ou com ajuda de varas apoiadas
obliquamente no fundo da água na parte dianteira da pequena embarcação; sobre cada
uma dessas varas um homem apoia com força o ombro esquerdo para dar o empurrão que
transmite à lancha um vigoroso impulso. O rio que carregava nossa barca, nossas pessoas,
nossas bagagens e nossas esperanças era o Jacuí. Quando embarcamos a água estava
tão calma que eu a julguei sem correnteza. O tempo estava soberbo, e segundo todas
probabilidades deveríamos ser entregues daí a dois dias a um oficial de polícia – que ás
suas funções acrescia as atividades de lavrador, lojista e mercador de escravos – pra
sermos levados de lá, por terra, à colônia de Santa Maria da Solidão.

(...) Infelizmente a tempestade não havia dito sua última palavra; durante três outras noites
ainda o trovão ribombou, a chuva caiu torrencialmente, as águas do rio engrossado
transbordaram a perder de vista; uma bonita canoa atada à nossa embarcação foi levada
pela corrente e o capitão teve muito que fazer para impedir que ficássemos ao léu.

(...) Os bateleiros comiam feijão preto, o qual eu não queria nem sequer experimentar. Mais
tarde eu o comi diariamente durante dois anos e acabei por apreciá-lo muito. A lancha
estava ainda munida de diversos rolos de carne seca, mas esses rolos, desfeitos durante o
dia para secar ao sol, eram estendidos sobre o tombadilho e serviam de tapete aos dois
homens que os pisavam com seus pés nus para irem de um ponto a outro da coberta; assim
sendo eu não creio que, mesmo em perigo de morrer de fome, eu me decidisse a me
alimentar dessa carne.

Enfim no décimo dia nós fundeamos não longe da propriedade do major Guimarães. (...) Eu
disse que o major acumulava funções públicas e negócios particulares. Nós fomos
conduzidos primeiro à sua venda. Era uma vasta construção ainda não terminada; suas
lojas estavam amplamente abastecidas de comestíveis, confecções, especiarias, ferragens,
vinhos, licores, óleos, fazendas, drogas, etc... Nós nos espantávamos de ver esse
sortimento enorme de artigos no meio de um deserto, pois com exceção do sítio do major,
não havia outra habitação num raio de diversas léguas. Mas durante o dia inteiro chegavam
cavaleiros à porta, seus animais carregando de cada lado um grande saco de pele, onde
eles guardavam as compras que faziam; sua permanência no balcão era às vezes bastante
demorada, retornavam com a cabeça e a razão confusas por causa das libações de vinho e
de cachaça; assim é que eram obrigados a se entregar à inteligência do seu cavalo para
regressar a seus penates.

Cavalos para nós, mulas para nossa bagagem, estavam à nossa disposição para nos
conduzir à Harmonia, grande propriedade que a sociedade Montravel alugava, para aí ter
provisoriamente seus escritórios e também servir de etapa aos colonos que vinham da
Europa. “
O mau estado das estradas - que tornavam-se verdadeiros pântanos pelas fortes chuvas,- por
vezes forçava os imigrantes a esperar por uma seqüência de dias ensolarados para se porem a
caminho. O mapa abaixo ilustra a localização da colônia Nossa Senhora da Soledade e das
demais terras particulares no rio Caí.

Madame van Langendonck passou ainda dez dias em anexos das lojas dos Guimarães, servida
por negros que lá estavam à espera de quem os comprasse. Era o Brasil Imperial , triste, a
arrastar a chaga da escravidão. Doze anos haviam se passado desde a assinatura do armistício
de Ponche Verde, que selara o fim da guerra dos Farrapos (1835-1845). O então Barão de
Caxias e o general David Canabarro, que substituíra Bento Gonçalves, o subscreveram em 1.
de março de 1845 e sua validade até hoje é contestada. Plena de ideais mas calcada em
interesses antigos, bem como na estagnação geral do país, a revolução não acabara nem
mesmo com a maior das iniqüidades. A liberdade para os escravos que lutaram pela República
não foi cumprida e a maioria dos escravos foi levada para o Rio de Janeiro e vendida a outros
senhores.

A caminho da Harmonia, a escritora hospedou-se na fazenda de um alemão, onde lhe


ofereceram carne seca, toucinho, ovos, frango assado, figos e laranjas. Os hospedeiros
alimentavam-se também de milho e a viajante não deixa de registrar um elogio à laboriosidade
do proprietário “com a persistência que caracteriza seu país”.

No dia seguinte um ex-selvagem, que permanecera até os dezesseis anos na sua tribo, veio
buscá-la. Seu filho Leon já a esperava na Harmonia, onde chegou no anoitecer do segundo dia.
“ Harmonia era uma propriedade imensa, onde ainda se viam os restos de uma serraria. A
casa térrea era espaçosa, mas incômoda e ameaçando ruína, apesar de ter sido
construída há apenas vinte anos. Lá nós ainda estávamos a dois dias de marcha da
colônia onde nós não deveríamos chegar senão depois das chuvas de inverno, isto é,
após ainda uma parada de um mês ou seis semanas.

Empregamos este tempo a nos informar sobre os diferentes modos de desmatamento,


sobre a maneira de se abater as árvores e de queimar a madeira, de plantar o feijão e o
milho (primeiros produtos da terra desmatada na província de São Pedro), enfim sobre o
método de colheita e de como construir uma habitação. “

Pode-se considerar que naquela época os últimos vestígios de civilização, como a conhecemos,
terminavam na Harmonia. Dali por diante a exuberância da mata, as picadas abertas a facão,
choupanas cobertas por ramagens, camas feitas com cipós.

Quando chegou o dia de partir para a Colônia a excêntrica belga quis fazer o trajeto a pé:

“ Enfim! Eu me encontrei em plena mata virgem. As árvores, os enormes cipós, a


vegetação inteira, os pássaros com sua plumagem deslumbrante, tudo era novo para
mim, tudo me maravilhava. No meio dessa jovem, grande, bela e viçosa natureza, o
reconhecimento e o amor pelo Autor dessas maravilhas transbordavam da minha alma.
Nunca eu tinha sentido a presença de Deus como nesse instante, e jamais pensamentos
mais nobres purificaram meu coração.

O sol estava quente; mas seus raios peneirados pela folhagem das árvores tornavam a
temperatura excelente. Nós tivemos que galgar, quase a pique, montanhas que faziam
parte das Cordilheiras. “

A expressão Cordilheiras, usada para descrever a serrania amena que se apresentava no


caminho, não nos deve surpreender: trata-se de um compreensível exagero para uma egressa
da Bélgica, com suas modestas elevações.

“ Essas subidas eram fatigantes, e foi com delícia que nós repousamos, ao entardecer, ao
pé de uma pequena nascente. Nosso guia colocou nossos colchões sobre uma camada
de gravetos, desembrulhou nossas provisões e juntou galhos secos para fazer fogo.

Nós nos aprontamos para comer feijão preto e carne de porco frios, que tinham sido
cozidos pela manhã e fechados em latas. O brasileiro pegou sorrindo nossos alimentos,
colocou-os sobre brasas polvilhadas por cinzas e nos entregou nosso jantar aquecido no
ponto certo.

O tempo estava muito calmo, nenhuma folha se movia; não se via uma nuvem no ar, as
estrelas brilhavam num céu transparente, pareciam olhar, entre as folhas, esses
estranhos hóspedes da floresta.

Um grito, ou antes, um uivo rouco interrompeu de repente o silêncio profundo da noite. O


ruído, apesar de vindo de longe, nos amedrontava. O guia, nesse momento, estava
dando a comer à mula as folhas de palmeira que ele tinha colhido para esse fim. Chamei-
o e fiz-lhe sinal de escutar. – Tigre, disse ele. – Tigre? Repeti tremendo um pouco.

Em parte por gestos, em parte por mau alemão, esse homem assegurou que nós não
tínhamos nada a temer, que nessa época do ano o tigre passava raramente fome, e além
disso, que preferindo ele a mula ao homem, ele agarraria primeiro o animal, caso a
necessidade o trouxesse para nossa vizinhança.

Um ruído diferentemente estranho acordou-nos de manhã. Era a conversa de um bando


de macacos ruços, que assistiam a uma reunião no cume da montanha ao pé da qual nós
tínhamos passado a noite. “
Sua descrição da lida do guia com uma marmita de barro, o café cru, o torrar do café e o seu
triturar, tudo feito em menos de meia hora, causa uma nostalgia de que perdemos o que a vida
pode nos oferecer de mais genuíno: “Então, para nosso maior prazer, ele nos serviu a melhor
infusão de café que eu jamais bebi em minha vida”.

Agarrando-se a arbustos e cipós, atravessando descalços pântanos e riachos, lograram


atravessar o difícil caminho. A família Langendonck era a terceira família que viera para morar
nas quatro léguas quadradas – equivalente a 13068 hectares,- que a sociedade Montravel se
comprometera a povoar em tempo determinado. Junto a um riacho situava-se o rancho em que
Leon dispusera da melhor forma as bagagens que os haviam precedido. O vizinho mais
próximo morava a quilômetros de distância. A falta de vias de comunicação os obrigava a
queimar troncos de belas madeiras, que muito renderiam em marcenarias européias.

“ Os primeiros dias passados nesse rancho sob a influência de um clima admirável, em


família, no centro de u’a mata imensa, onde mil vozes, mil ruídos desconhecidos tinham
um encanto estranho, onde essa natureza nova parece transformar o homem e inspira
piedade pelas mesquinharias da civilização européia – foram tão doces, tão
encantadores, que palavras não saberiam reproduzir essa felicidade.

Evidentemente, se essa medalha não possuísse seu reverso, abandonar uma tal
existência seria absurdo ou um ato de loucura. A felicidade prometida aos eleitos não
podia ultrapassar a nossa. As magnificências de Deus nos rodeavam, nós O adorávamos
nas Suas obras, nós O possuíamos nelas. A liberdade, esse sonho ilusório do velho
mundo, nós a gozávamos na sua mais completa expressão, e as necessidades materiais
eram tão poucas, que não chegavam a nos preocupar. Mas a Sociedade Montravel,
diante da obrigação de cumprir seu contrato com o Governo Brasileiro, tinha pedido
colonos aos agentes de colonização na Europa. Estes lhe expediram não a escória da
gentalha, mas sim os piores dessa escória.

A chegada do primeiro transporte composto inteiramente de alemães pouco nos


interessou. Deram a eles colônias bastante distantes da nossa, para nos preservar de
todo contato com eles.

Infelizmente o mesmo não aconteceu com a segunda leva. Ela nos trouxe belgas,
recrutados nas prisões e nos abrigos de mendigos. “

As experiências narradas transcorreram a menos de um ano da chegada de Abraham, de tal


forma que esta narrativa coloca o leitor na própria realidade que aguardava nosso ancestral. Os
cheiros, a mata, o inóspito, os perigos, o futuro aberto, as esperanças e agruras que se
amalgamaram naquela serrania, plasmando uma gente e uma nova civilização.

É legítimo imaginar que os de Leeuw – que haviam deixado sua Holanda para nunca mais,-
tenham passado por experiências muito semelhantes. Quão atentos eram os olhos do pequeno
Isaac no novo continente? Quão atentos eram os ouvidos dos irmãos mais velhos? Quão
preocupada era a mente de Abraham, a quem cabia conduzir o destino de cinco filhos? Não é
possível pensar neste patriarca sem respeitar sua força, não é possível esquecer que também
ele tinha seu Isaac, não é plausível visitar o passado sem lembrar que era um viúvo, a quem
certamente fazia falta sua metade. Que deixara na Holanda, como quem precisa afastar-se do
palco da dor para reiniciar a vida. Conjugando o verbo esquecer como alicerce de um novo
tempo. Pai de um Salomon, de certa forma aqui chegava para construir um segundo templo.

Deixemos que Madame van Langendonck, da qual lançamos mão pela vez derradeira, nos
transmita o que Abraham deve ter visto quando aqui chegou e desta forma possamos entender
o que o levou a tomar a decisão que tomaria três meses após sua chegada em Porto Alegre.
“ Entre os colonos vindos da Alemanha havia ladrões, incendiários, assassinos. Quase
todos eram indivíduos que haviam passado de quatro a doze anos na prisão e com os
quais receávamos nos encontrar na mata.

Entretanto, é justo que se diga que a Alemanha não envia só bandidos para o Brasil.
Muitos alemães são trabalhadores infatigáveis; nada os assusta e pouca coisa os
desanima. Eles comem bastante, mas não são gulosos. Além disso a ordem e o trabalho
dão inevitavelmente a essa gente um bem estar que eles nunca teriam conseguido na
sua pátria de origem.

Não acontece a mesma coisa com os holandeses. Sem coragem moral e sem forças
físicas, eles tornam-se colonos lamentáveis. A sorte da leva que chegou à colônia de
Montravel foi deplorável. Os agentes de colonização na Holanda haviam espalhado nas
aldeias brochuras dirigidas àqueles que desejavam enriquecer com certeza e depressa.
Aí se dizia que no Brasil todos os riachos tinham um leito de diamantes e pedras
preciosas, que o ouro era encontrado em toda a parte, que lá se juntavam esses valores
a mãos cheias, que a terra produzia sem cultivo e que depois de alguns anos se poderia
de lá regressar carregado de riquezas.

Esta radiante perspectiva seduziu um grande número de famílias aldeãs. Nesse número
encontrava-se um pequeno lavrador, pai de oito filhos, que nunca tinha se afastado de
sua aldeia. Esse infeliz tinha vendido sua bonita casinha, seus móveis e alguns pedaços
de terra para vir buscar no Brasil essa fortuna fabulosa prometida aos colonos. A
fatalidade fez com que essa gente fosse a Antuérpia algumas semanas antes de seu
embarque. Não conhecendo nada da vida na cidade, eles se deixaram levar pelas
seduções de todo o gênero de um porto de mar. O lavrador, munido da soma proveniente
da venda da propriedade onde eles tinham vivido até então sem privações, onde tinham
sido criados seus filhos, e onde o seu trabalho produtivo lhe tinha garantido o pão na
velhice, o lavrador, digo, passava uma grande parte do tempo nessas casas, das quais
um pai de família , que deve pregar com seu exemplo, nunca deverá se aproximar. Ele lá
se arvorou em anfitrião de seus compatriotas, deixava que seus filhos se locupletassem
do seu pequeno tesouro, e os jovens por sua vez não se abstiveram de nenhuma
distração. O dinheiro ia-se rapidamente, e quando a mãe tentava por um fim nessas
despesas loucas, seu marido lhe dizia: Bah! daqui a alguns dias nós embarcamos para o
Brasil, e uma vez lá nós teremos logo juntado, duzentas vezes, talvez, a soma que nós
gastamos aqui.

Ai de mim! Chegados à colônia de Montravel, essa pobre mulher foi logo desiludida,
chegou a ficar doente. Morreu em poucos dias na miserável cabana que seus filhos
tinham construído às pressas, e que não estava ainda inteiramente coberta. A dor do
lavrador foi grande e seu desânimo completo. A discórdia grassou entre ele e seus filhos,
que o abandonaram. Três criancinhas foram as únicas que ficaram com o pai; a última
vez que o vi seu desespero me fez temer o suicídio ou a loucura.

Um outro holandês havia deixado seu emprego de capataz de um grande lavrador, e na


crença das promessas da famosa brochura, ele veio para o Brasil com três filhos e uma
esposa grávida. Quando esse homem se convenceu de que nada era menos certo que
uma colheita de ouro e de pedras preciosas, quando viu que para alimentar sua família
ele não poderia contar a não ser com seu trabalho manual, no começo infinitamente mais
duro do que o que lhe dava para viver na Holanda, tornou-se triste e perdeu toda a
energia. Entretanto, ele tinha a aparência de um homem robusto, possuía uma estatura
alta, só tinha vinte e oito anos de idade e sua fisionomia denotava um caráter resoluto.
Um dia eu o encontrei na floresta: ele estava doente e caminhava lentamente. Parou e
com lágrimas na voz disse-me: - Meu Deus, Madame, o que fiz eu deixando a Holanda
onde eu tinha o meu pão garantido! Nunca eu poderei, sozinho, aqui ganhar a vida para
minha mulher e em breve quatro filhos.

“ Eu me esforcei por levantar seu ânimo, citando-lhe o exemplo de outros colonos que,
partindo do mesmo ponto, tinham conseguido com um trabalho incessante, criar para si
uma grande abastança. Certamente, acrescentei, o desmatamento é um acréscimo de
tarefa, mas a extrema fertilidade do solo compensará este trabalho, que além disso é feito
uma única vez. Acredite-me, Sneider, o ano que vem você estará reconciliado com sua
nova posição.

O infeliz rompeu em soluços: - Eu não verei, disse ele, nem um outro ano, nem mesmo
um outro mês; o engano foi grande demais, eu não resistirei.

No dia seguinte ao anoitecer a febre lhe produziu um delírio que durou três dias, no
quarto dia a esposa de Sneider estava viúva.

(...) Uma terceira família holandesa, atacada de melancolia pela ausência dos tesouros
que a haviam atraído ao Brasil, cruzou os braços e se negou a trabalhar. A mãe e os três
filhos morreram em quinze dias; o pai enterrou-os à entrada da sua cabana e abandonou
a colônia. “
5. A Colônia e a decisão sobre a compra de um lote
O livro de Lallemant [1] fornece informações preciosas sobre fatos, usos e costumes que
presenciou no ano de 1858, quando além de Porto Alegre conheceu a colônia de São Leopoldo,
o Monte Hamburgo, o Rio Cadeia, Taquari, Santa Cruz., Rio Pardo, São Jerônimo, Triunfo,
Santa Maria, todas as sete reduções jesuíticas e inúmeras povoações na fronteira do estado,
como Itaqui, São Borja, Alegrete e Uruguaiana. Informa à página 356 que a população da
Província de São Pedro do Rio Grande do Sul era da ordem de 300 mil indivíduos, dos quais 25
a 30 mil eram estrangeiros e menos de 100 mil eram escravos. Por incrível que pareça, a
proporção de escravos era baixa em relação ao resto do país porque “o veneno da escravidão
negra nela não penetra tão profundamente como no Brasil do centro e mesmo do norte”.

Em todo o volume descreve uma natureza exuberante, com matas abundantes, rios navegáveis
e animais em profusão, como bugios, papagaios, corças, veados, emas, buritis, avestruzes e
tigres, como chamavam um tipo de gato do mato bem crescido.

Nos dá conta que corriam pela Província ouro francês e norteamericano e dólares (patacões)
mexicanos, peruanos e espanhóis, sem que encontrasse papel-moeda brasileiro. A agricultura
nos núcleos de colonização alemã produzia milho, feijão, farinha de mandioca e batata em
abundância. Além disto negociavam-se carne, peles, chifres, artefatos de couro, aves e seus
produtos, mel, frutas, cerveja de boa qualidade, manteiga, queijo, lenha, madeira de construção,
embarcações fluviais, óleos e artigos manufaturados, como esteiras, cestos e cobertas. Havia
navegação fluvial regular entre Porto Alegre e São Leopoldo, onde viviam 12 mil habitantes, 600
dos quais eram artífices. Um pequeno mundo que bastava a si mesmo, sem as complexas
relações de nossos dias.

Os agricultores, em geral, um ano depois do primeiro golpe de machado em árvores de seu lote
já passavam a viver de sua plantação e infelizmente o fogo foi muito empregado para dizimar
matas, deixando uma herança negra de troncos carbonizados

Ainda que encantado pela terra que visita, sempre surpreso favoravelmente pelos resultados da
colonização alemã, Lallemant trai na página 254 a visão do dominador em terra alheia, tradução
de sua desídia pelo trabalhador nativo ou a inércia nas Missões, onde abundava carne e faltava
feijão.
“ Estes inconvenientes, de fato extraordinariamente incômodos, só podem ser remediados
pela imigração em larga escala. Pelo menos a metade das enormes várzeas do rio
Uruguai precisa ser revirada pelo arado e plantada por agriculrores. Em nosso século é
essa a missão da raça anglo-saxônica, germânica do norte. “
Destaca sempre a hospitalidade que encontrou na Província de São Pedro do Rio Grande do
Sul, tendo se hospedado em choças, dormido em catres, jamais conseguindo pagar o que lhe
foi alcançado, mesmo que as mãos que o tenham obsequiado fossem miseráveis. Nas
povoações passou melhor, sobretudo porque portava uma apresentação do Presidente da
Província, hospedando-se na casa de pessoas mais abastadas. Em sua peregrinação pelo
pampa também dormiu muitas noites na sela de seu cavalo, transformada em cama ao relento
das constelações. Rendeu-se à cultura local, que absorvia o jeito europeu e o conquistava:

“ Diante de uma venda muito isolada, fizemos uma pausa para o almoço. Mesmo pela
raridade dessas vendas, nelas se encontra ao meio-dia tôda sorte de gente, em parte
vizinhos distantes ... em parte viajantes. Um viajante europeu é sempre ali, no primeiro
momento, alguma coisa estranha; todos ficam embaraçados diante dele. Mas logo que
ele fala algumas palavras na língua do país e se comporta com simplicidade e decência,
desaparece imediatamente o constrangimento; em menos de um minuto tem-se na boca
o símbolo da paz, da concórdia, do completo entendimento – o mate!

“ Todos os presentes tomaram mate. Não se creia todavia que cada um tivesse sua bomba
e sua cuia próprias; nada disso! Assim perderia o mate toda sua mística significação.
Acontece com a cuia de mate como à tabaqueira. Esta anda de nariz em nariz e aquela
de boca em boca. Primeiro sorveu um pouco um velho capitão. Depois um jovem, um
pardo decente - o nome de mulato não se deve escrever- depois eu, depois o “spahi”
(criado francês que acompanhava Lallemant), depois um mestiço de índio e afinal um
português, todos pela ordem. Não há nisso nenhuma pretensão de precedência, nenhum
senhor e criado; é uma espécie de serviço divino, uma piedosa obra cristã, um
comunismo moral, uma fraternização verdadeiramente nobre, espiritualizada! Todos os
homens se tornam irmãos, tomam mate em comum! “

Jayme Caetano Braun, payador, poeta gaudério maior, sintetiza em seu poema Galpão Nativo a
alma do gaúcho, perpassando gerações, e da cultura a que se renderam mesmo os imigrantes -
transformados em ágeis centauros e sorvedores da infusão do mate,- cujo final reproduzimos
abaixo como uma peça de amor telúrico:

“ Porém te resta um encargo,


velho galpão ancestral,
legendária catedral
de Pátria de pampa largo,
no ritual do mate-amargo
ainda existe cevadura.
és um templo na planura,
de paz, amor e carinho,
prá iluminar o caminho
da grande Pátria futura.

Se não houver campo aberto


lá em cima, quando eu me for,
um galpão acolhedor,
de santa-fé, bem coberto,
um pingo pastando perto,
só de pensar me comovo,
eu juro, pelo meu povo,
nem todo o céu me segura,
retorno a velha planura
prá ser gaúcho de novo.

Encerrando as citações de Robert Avé-Lallemant, transcrevemos a seguir seu comentário um
tanto irônico a respeito do empreendimento Montravel:

“ Com muito maior pompa foi construída a sociedade de colonização Montravel Silveira &
Cia., que prometeu prestar grandes serviços. Montravel é um idoso conde francês, que
em meio século de sua agitada vida parece não ter achado felicidade nem repouso e
quer fazer a felicidade dos outros. Segundo parece, só introduzirá católicos no país. “
Abraham não era um lavrador. Muito menos seus filhos. Como homem urbano, com a atávica
tradição judaica para os negócios, tem-se a tendência de não acreditar que pudesse deixar-se
influenciar por brochuras ou discursos enganosos. Pode-se cogitar, portanto, que talvez desde
a Holanda ele tenha planejado uma alternativa para a agricultura. Fossem as coisas mais duras
que o esperado – e o foram,- Abraham teria como alterar a rota. Não era certamente um
aventureiro, o que foi corroborado pelo encaminhamento dos filhos. Era um homem forte que
tinha enorme responsabilidade e seguramente não a desconhecia. Basta pensar o que poderia
ter sucedido se ele, Abraham, morresse logo depois de chegar ao Brasil? Como teriam reagido
os filhos? O mais velho deles tinha apenas 15 anos. É provável, porém, que Andries e Marcus,
órfãos de mãe, criados no sistema judaico que desde cedo empurra os filhos para a maturidade
– vide significado das cerimônias,- fossem os esteios do pai diante de uma eventual tragédia.
O site judaico Morashá (www.morasha.com.br/conteudo/artigos/artigos_view.asp?a=6&p=0)
confirma a estratégia de amadurecimento dos jovens:

“ A maioridade religiosa, 13 anos para os meninos e 12 anos para as meninas, é a ocasião


de comemorações que marcam esta evolução tão importante na vida do adolescente. Aos
13 anos, o menino judeu é considerado um adulto responsável por seus atos, do ponto de
vista judaico. Bar Mitzvá significa, literalmente, "filho do mandamento". A criança de 13
anos passa a ter as mesmas obrigações religiosas dos adultos, tornando-se responsável
pelos seus atos e transgressões.

Na segunda ou quinta-feira mais próxima a seu aniversário, de acordo com o calendário


hebraico, o jovem comemora com uma festa religiosa, durante a qual cumpre alguns
rituais. Neste dia o jovem coloca o tefilin pela primeira vez, na sinagoga. A partir desta
data, já pode fazer também parte do minian, o quorum mínimo de dez homens, necessário
para a realização de uma reza em comum.
No Shabat do Bar Mitzvá, o jovem é chamado a ler a Torá e conduzir a reza diante de
toda a comunidade. Na reza da manhã, lê parte ou toda a Perashá da semana.
Geralmente os pais organizam uma Seudá, na qual o jovem pronuncia um discurso para
mostrar a sua sensibilidade em entender os comentários dos textos tradicionais.

O Bar Mitzvá é, de várias maneiras, um assunto de família. A escolha do modo de


celebrar a cerimônia depende muito das tradições de cada comunidade. O ritual a ser
seguido, o tipo de comemoração a ser organizado, são assuntos muito discutidos em cada
família judaica. Mas o mais importante de tudo é fazer com que o jovem sinta que é o
centro das atenções naquele dia para seus pais e sua família.

Seus pais lhe transmitem durante toda a sua infância o que consideram de fundamental
importância e as prioridades na vida. Dia após dia, mostram-lhe o caminho a seguir, em
relação ao aspecto moral, prático ou emocional. Os pais guiam o jovem de 13 anos em
sua educação, religião e nos costumes e tradições da sua comunidade. E, se ele tiver a
chance de ter avós, tios e tias, estes também contribuem, com exemplos, para a sua
educação.

A família sempre teve uma grande importância na educação judaica e na transmissão das
tradições. Nos shtetls da Europa Oriental, onde o meio era hostil para os judeus fora dos
guetos, a casa judaica sempre ofereceu um abrigo contra o ódio e as perseguições. As
tradições ensinadas dentro de casa eram, talvez, mais importantes para a formação dos
jovens do que as ensinadas nas escolas ou sinagogas. Enquanto comemorava as festas
judaicas, a família passava os seus valores de uma geração para a outra.

Na época do Templo, o pai conduzia seu filho de 13 anos até o sacerdote, no Templo.
Este, então, dava a bênção para o jovem, assim como conselhos morais. Provavelmente,
a cerimônia de Bar Mitzvá tem aí a sua origem. A Torá, inclusive, chama Levy, filho de
Jacob, de "homem"(ish), pela primeira vez, quando ele completa 13 anos. Depois da
destruição do Templo, os judeus se acostumaram a fazer uma festa em torno do menino
de 13 anos. Os membros da comunidade se reúnem na sinagoga na segunda ou na
quinta-feira que antecede seu aniversário de 13 anos, para ouvir o jovem ler a Torá. Em
seguida, os pais convidam para um kidush e oferecem bebidas refrescantes na sinagoga
e uma refeição mais consistente em casa. O discurso do jovem é um costume muito
antigo e importante, e visa mostrar ao público seu grau de conhecimento da Torá. “

Morando bem perto da Sinagoga do Boompjes, Andries e Marcus Abraham já deveriam ter
cumprido o Bar Mitzvá na Holanda e portanto eram considerados adultos e responsáveis pelos
seus atos ao chegarem na América.
Abraham ficou órfão de pai em 1821, aos sete anos. Tinha a sina dos órfãos, que sabidamente
se atiram mais cedo à liça, empurrados pelo desamparo que só o trabalho pode mitigar. Perdeu
a esposa em 1853 – a sogra morrera seis meses antes,- e perderia o sogro Andries e a mãe
Antje em 1855. Morrera a companheira. Desaparecera uma geração que lhe servia de pano de
fundo e de amparo de solidariedade. Não surpreende que três anos depois tenha revolucionado
sua existência. Viúvo aos quarenta anos, tanto quanto se saiba nunca voltou a se casar. Pode-
se excogitar idilicamente que Elizabeth foi a mulher de sua vida.

A título de curiosidade, deve-se registrar que o nome de três filhos de Abraham homenageavam
os avós: Andries era o nome de seu sogro e seu pai chamava-se Marcus Isaac.

Abraham veio para o Brasil muito antes que se iniciasse a imigração de judeus ao Rio Grande
do Sul, por forma organizada, que deu-se em 1891. Naquela época o barão Maurice de Hirsh,
com a colaboração dos banqueiros e filantropos Rotschild, Goldsmid, Cassel, Macatta,
Goldshimidt, Reinach, Cohen e Philipson fundou a Jewish Colonization Association ou Ica e
ajudou a transferir para o Rio Grande do Sul judeus que sofriam com as perseguições por
religião e raça, principalmente da Rússia czarista.

O barão Hirsh adquiriu terras em Philipson no município de Santa Maria da Boca do Monte e
em Quatro Irmãos, situada onde hoje estão Erechim e Getúlio Vargas. Os grupos coletivos
começaram a chegar ao Estado em 1904 para a Colônia de Philipson (Clarinha Clock – Rio
Grande, um século de História) – vide http://www.visaojudaica.com.br/Junho2005/artigos/7.htm .

Como vimos, Abraham chegou ao porto de Rio Grande em 04.09.1858, junto com outros
imigrantes: lavradores, católicos, holandeses, com destino à Colônia Santa Maria da Soledade.

As passagens marítimas haviam sido financiadas pela empresa colonizadora Montravel &
Silveiro. A Colônia Santa Maria da Soledade integrava parcial ou integralmente os atuais
municípios de São Vendelino, Barão, Bom Princípio e Carlos Barbosa. No site
http://www.ss.esp.br/cgi-bin/imprensa/n6872.asp pode-se ler o texto a seguir transcrito.

“ Em 6 de fevereiro de 1855, o Governo Imperial vendeu uma vasta área de terras ao vice-cônsul
Francês, Conde de Montravel, que por sua vez obrigou-se a colonizá-la em um prazo de 5 anos.
Devido às dificuldades financeiras, Montravel constituiu sociedade e formou a empresa
colonizadora Montravel, Silveiro e Cia. A área adquirida por Montravel foi denominada Colônia
Santa Maria da Soledade.

A mesma foi dividida em 4 distritos, sendo que cada qual recebeu o nome de um dos sócios:
Distrito Montravel, Distrito Silveiro, Distrito Coelho e Distrito Barcellos; este último, corresponde
hoje, aproximadamente à área do município de São Vendelino. Pela miséria e triste condição de
muitos moradores da Prússia (antigo Estado da Alemanha), estes alemães começaram a
colonizar a área. Vieram também para a região, em razoável número, holandeses e suíços. São
Vendelino é resultado do segundo período de colonização Alemã no Estado, período este que
iniciou em 1850 e compreendia um avanço em direção à Serra Gáucha.

Destacava-se porém, quanto ao desenvolvimento, a vila São Vendelino (o então Distrito


Barcellos), o qual mais tarde se torna centro de toda a colônia e sede da primeira paróquia da
região. Nesta data, o Distrito Barcellos, que fazia parte da extinta colônia Santa Maria da
Soledade, passou a se chamar de "São Vendelino". O motivo deste nome certamente é em
função da forte devoção que os imigrantes Alemães católicos tinham pelo santo e pelo fato de
diversos imigrantes terem vindo da cidade "Sant Wendel" no estado de Saarland, na Alemanha
Ocidental. “
Outra fonte básica é o site http://www.terragaucha.com.br/imags_sao_vend.htm com narrativa
muito interessante que reproduzimos abaixo:


Esse pequeno município emancipou-se de Bom Princípio em 1988; autodenomina-se "Pequeno
Paraíso". Disputa com Bom Princípio (seu "município-mãe") e Tupandi ("município-gêmeo") o
título de mais alfabetizado do Brasil. Situa-se no sopé da serra gaúcha e constitui a última
colônia alemã; a partir de 1875, imigrantes italianos começaram a colonizar áreas mais íngremes,
morros acima, que atualmente constituem os municípios de Carlos Barbosa, Garibaldi, Bento
Gonçalves, Farroupilha, Caxias do Sul e outros.

Os antepassados dos vendelinenses provieram principalmente da região alemã de "Sankt


Wendel"; falavam o dialeto franco-alemão, praticado ainda atualmente em muitas famílias das
suas localidades, conhecidos por nomes como Vale Suíço, Linha Francesa e outros; falavam o
alemão, mas de fato eram originários de áreas que hoje pertencem à Suíça, Holanda, da própria
Alemanha principalmente, e de outros países; vieram colonizar esta área do arroio Forromeco
pelos idos de 1855, subindo pela linha São Leopoldo-São José do Hortêncio-Bom Princípio.
Ainda existem casas originais, geralmente construídas em duas partes: uma cozinha e quartos de
dormir; a separação era feita para evitar incêndios. Perto da área central, ainda existe uma
preciosidade: uma cervejaria, construída em 1866, que pertencia a Nicolaus Neis. Na época, na
falta de geladeiras, a cerveja era fabricada em casas frescas e ventiladas, que eram meio-
enterradas no chão.

No município ocorreu uma das histórias mais marcantes da época de colonização alemã, que foi
o rapto da família de Lamberto Versteg, por índios caingangues, que fugiram em direção do
"Campo dos Bugres" (área em que se situa atualmente a cidade de Caxias do Sul), cuja história
ficou conhecida pelo título de "As vítimas do Bugre", ocorrida em 1868; o livro foi escrito em 1924
pelo cônego Matias José Gansweidt, a partir de depoimentos do próprio Lamberto e conterrâneos
seus. Em 1996, várias centenas de descendentes da família se reuniram na localidade de Desvio
Blauth, em Carlos Barbosa-RS, e depois na sede em São Vendelino, vindos de vários Estados
do Brasil, bem como de outros países próximos, para onde migraram. O maior número de
descendentes de Lamberto Versteg estaria vivendo em Arabutã, no Estado de Santa Catarina.

No capítulo IV do livro, o autor relata que "cada vez mais se povoa o vale do Forromeco. Choças
e casas, rodeadas de viçosos plantios, surgem em todos os quadrantes e recantos. Os produtos
da terra sobem em número e qualidade, para o maior gáudio geral. O comércio avulta. Sinal
evidente de que os colonos levam de vencida a natureza; já podem encarar confiantes o futuro.
Em 1864, constroem nestas paragens a primeira capela, de madeira. Dedicada a São Vendelino,
santo que os colonos cultuam aqui, como na antiga pátria. Serve para os ofícios divinos e de aula
para os coloninhos...".

Em janeiro de 1868, Lamberto empreendeu uma rápida viagem para São Sebastião do Caí, para
visitar um amigo e participar dos festejos ("Kerb") na Capela de São Luiz, em Bela Vista, do atual
município de Bom Princípio-RS. Nesse ínterim, sua mulher e seus dois filhos foram raptados por
indígenas, que acampavam no sopé do Morro Canastra (a partir do qual se avista a região de
São Vendelino, e bem ao longe a própria região de Porto Alegre).

Em socorro, os colonos bateram os sinos da capela naquela madrugada, e reuniram 26 homens


para irem ao encalço dos indígenas, que se dirigiram na direção do Campo dos Bugres (atual “
cidade de Caxias do Sul); a expedição foi até lá, onde não os encontrou; os indígenas teriam ido
mais adiante, até a região do atual município de São Marcos; vários anos mais tarde, já tendo
completado 18 anos, o filho Jacó conseguiu fugir das matas para uma fazenda no interior de São
Marcos. Da mulher Valfrida e da filha Lucila não se teve mais notícias.

No mesmo site estão disponíveis fotos de uma casa que teria mais de 140 anos, ou seja, uma
casa construída antes de 1867. Seria legítimo imaginar, portanto, que Abraham pudesse ter
residido em habitação similar à ilustrada na próxima página.
No site da prefeitura de São Vendelino (http://www.saovendelinors.com.br/historia.htm )
buscamos as derradeiras informações a respeito da colonização daquela localidade:

“ No dia seis de fevereiro de 1855, o vice-cônsul francês, Conde Paulo Montravel, conseguiu a
concessão do governo Imperial e comprou uma área de 16 léguas, situada no Forromeco Superior.
Teria o prazo de cinco anos para colonizá-la. Enfrentando dificuldades financeiras, Montravel
instituiu uma empresa colonizadora, juntamente com três sócios, Dr. Israel Soares de Barcelos, Dr.
Dionísio de Oliveira Silveiro e João Coelho Barreto. A área de 16 léguas foi denominada de Colônia
Santa Maria da Soledade, e foi dividida entre seus sócios. Cada lote recebeu a denominação de um
dos sócios, sendo o Distrito Barcelos a atual São Vendelino, o centro da colônia. Portanto, o
município de São Vendelino possui uma história muito mais antiga que muitos outros municípios da
encosta do planalto, uma vez que sua ocupação é decorrente do segundo período de colonização
alemã no Estado, iniciado a partir da segunda metade do século XIX.

Na atualidade, os municípios de São Vendelino e de Barão (Linha General Neto) e uma parte mais
ao sul de Carlos Barbosa (Santa Clara, Santa Luíza e Santo Antônio do Forromeco) comporiam a
colônia fundada por Montravel. Os primeiro habitantes de São Vendelino, segundo José Cândido
de Campos Netto, em seu livro "Montenegro", editado em 1924, são os seguintes nomes: João
Felipe Scheid, Antônio Kossmann, Antônio Ludwig, Nicolau Lermann e Nicolau Neis .

Registros assinalam que, em 1859, havia 1240 pessoas, perfazendo um total de 263 famílias
estabelecidas na Colônia Santa Maria da Soledade. Estes tinham as seguintes nacionalidades: 904
alemães, 81 brasileiros, 201 holandeses, 40 suíços, 13 belgas e 1 francês. Destes, 622 eram
católicos e 618 protestantes. Convém destacar que o plano inicial da empresa era que somente
suíços seriam utilizados na colonização da região, o que demonstra que o plano inicial de de
Montravel acabou não se concretizando. A nova colônia era um mosaico de etnias. “
“ Mas estas terras não eram totalmente desabitadas antes da chegada dos colonos. O território já
se encontrava habitado por portugueses, uma vez que aparecem como donos de lotes nomes
lusos. Além destes, havia os índios. Sentindo-se ameaçados devido à invasão de suas terras, os
índios caingangues, ou "bugres", como eram chamados pelos alemães, atacavam os lotes,
destruindo as plantações, saqueando e matando os colonos.

(...) A falta de estradas para o transporte de mercadorias foi um dos fatores que dificultaram a
fixação do imigrante à nova terra, a sua sobrevivência e principalmente o desenvolvimento
econômico da colônia, uma vez que não pôde ocorrer uma produção em maior escala. Em 1861,
as dificuldades começam a ser superadas e São Vendelino se destaca quanto ao seu
desenvolvimento. Torna-se a sede da primeira paróquia da região. Estavam estabelecidas 1387
pessoas, o equivalente a 291 famílias. Na época, a colônia contava com seis armazéns e outros
estabelecimentos menores, um moinho em funcionamento e mais outro em construção, um
ferreiro, um fabricante de cerveja , um charuteiro, um tecelão, um seleiro, dois marceneiros, três
alfaiates, quatro sapateiros, cinco pedreiros, um tanoeiro e um funileiro.

Devido às dificuldades de ordem financeira, no ano de 1873, o governo imperial rescinde o


convênio com a empresa colonizadora e a colônia é incorporada ao Império. Em 18 de janeiro de
1877, pelo decreto nº 6480, a Colônia Santa Maria da Soledade é emancipada do regime colonial.
Nesta época, o Distrito Barcellos passa a chamar-se de São Vendelino, devido à forte devoção
que os imigrantes alemães católicos tinham ao Santo e pelo fato de diversos imigrantes terem
vindo da cidade de "Sankt Wendel", no Estado de Saarland, na Alemanha.

Em 1879, São Vendelino deixou de ser freguesia e passou a capela curada de Bom Princípio. No
ano de 1883, por ato municipal de Montenegro, é novamente elevada á freguesia e criado o
distrito de São Vendelino.

Houve quem suspeitasse que Abraham pudesse ser o charuteiro mencionado dentre os 1240
habitantes em 1859 mas a hipótese carece de comprovação. A título de curiosidade, o
município atual de São Vendelino, com 38,75 Km2, tem apenas 1855 habitantes, dos quais
63,73% vivem nos limites urbanos.

Para que possamos imaginar um pouco o que se passava naquela época, recorremos a alguns
dados colimados pelo Prof.Mário Gardelin, de Caxias do Sul, apresentados em palestra para os
eventos da Festa da Uva há vários anos atrás:

“ Embora iniciadas no final do século XVIII, as emigrações transoceânicas tomaram vulto nos
séculos XIX e XX. Entre 1840 e 1940 devem ter deixado a Europa cerca de 60 milhões de pessoas,
cerca de 3% da população, em busca de outras oportunidades.
Entre 1820 e 1920 o Brasil recebeu um total de 3.648.382 imigrantes, dentre os quais 131.441
alemães, 80.059 austríacos, 5.421 belgas, 30.503 franceses, 510.514 espanhóis, 19.456 ingleses,
1.388.881 italianos, 1.055.154 portugueses, 105.470 russos, 5.540 suecos, 11.780 suíços, 58.973
turco-árabes e 245.190 de outras nacionalidades.

Como sabemos, a imigração de italianos começou com força plena em 1870 – quando a
unificação do país era ainda recente,- 52% dos quais provinham do Vêneto, 15% do Trentino,
2% da Lombardia e os restantes 31% das demais regiões da Itália.

Como Abraham chegou 12 anos antes do início da imigração italiana, transcrevemos o que o
Prof.Mário Gardelin também menciona acerca da viagem dos imigrantes italianos:

“ Saindo de Porto Alegre, os imigrantes seguiam até São Sebastião do Caí ou Feliz em vapor. Era o
célebre vaporetto. Destes pontos em diante seguiam a pé. As crianças iam em cestões enquanto
os adultos acompanhavam as tropas. O transporte dos imigrantes muitas vezes era feito por
fazendeiros de Cima da Serra (Vila Seca, Criuva e São Francisco de Paula) que vinham até o
Campo dos Bugres para prestar este serviço e eram pagos pelos cofres da Comissão de Terras.

Para os que eram católicos, antes da vinda de padres de ordens religiosas, havia a presença
ativa, nas comunidades rurais, do denominado padre leigo, que coordenava as celebrações nas
capelas. A celebração da missa, a confissão e a participação na eucaristia eram o centro do
estatuto das capelas. Sem a presença do padre não havia confissão, forte pilar da devoção do
imigrante, à qual se ligava a idéia de salvação.

O conceito religioso do imigrante era o de um Deus que recompensa e castiga, por isto o cultivo
da vida sacramental, com missa, confissão e comunhão, que lhe dava a certeza contábil da
salvação, sem a qual não teria sentido o progresso material, fulcro da própria imigração. Mais
tarde a Igreja passaria da pastoral de ‘execução’ a uma pastoral da ‘convicção’ e da ‘filiação’,
substituindo o "Quem pratica será salvo" por "Quem ama a Deus e ao próximo será salvo”.

Cercado por cristãos e alemães Abraham poder-se-ia sentir, quiçá, um peixe fora d´água. Sem
ser lavrador, seguramente sentir-se-ia um estranho no ninho como proprietário de um lote
padrão da Montravel, com 50 hectares, ferramentas rudimentares, subsídio parco e cobrança
das passagens e empréstimos em curto prazo.

Não se pode imaginar Abraham enfiado na mata, enxada à mão, na colheita, numa lida que só
reserva espaço em geral a quem nela cresceu. A quem habituou-se às inerentes dificuldades e
adquiriu a sabedoria no trato das coisas da natureza. Abraham era homem urbano. O porto dos
Guimarães era um limite – já além um tanto de suas identidades culturais, na medida em que
Porto Alegre lhe cairia melhor, como uma Rotterdam de água doce.

Para que se tenha melhor idéia da precariedade da vida e dos perigos no empreendimento da
Montravel, reproduzimos a seguir correspondência que Carlos Gaertner - diretor da Colônia
Santa Maria da Soledade,- enviou para o Conselheiro Presidente da Província em 8 de junho de
1860. Começa relatando que os assaltos são comandados pelo índio João Grande, que
provavelmente pertence à tribo do índio Major Dobble.
Teria Abraham adquirido um lote na Colônia? Para responder a esta indagação, empreendeu-
se minuciosa pesquisa no Arquivo Histórico do RS para descobrir nos livros de registros de
lotes da Colônia Santa Maria da Soledade qual deles pertencera a Abraham, quando o teria
abandonado e a quem o teria vendido. Foram pesquisados os livros dos quatro distritos, com
resultado frustrante: Abraham não fora proprietário de nenhum lote. Mas como? O que teria
acontecido?

Dada a exigüidade de documentos disponíveis fez-se uma tentativa de encontrar algo nos dois
livros de dívidas de colonos, registradas por forma acurada pela companhia Montravel, como
um livro caixa de cada imigrante. No segundo deles encontrou-se o único registro achado até
este momento em que Abraham Marcus de Leeuw é mencionado em documentos da Montravel.

Esta primeira página informa em 14.09.1858 a “Importância de sua passagem e da de sua


família da Europa ao Rio Grande, contrato de 2 de Junho de 1858. Eram 900 francos à taxa de
400 réis o franco, de tal forma que a “Somma” totalizava 360.000 réis.

A reprodução na página seguinte mostra a segunda parte das dívidas. A passagem de todos de
Rio Grande a Porto Alegre custou 57.000 réis enquanto a viagem de Porto Alegre à colônia
custou 27.000 réis.

Em 26 de dezembro o livro registra a cobrança de subsídios recebidos, a pagar em prazo


contratual, juros sobre valores antecipados e a última rubrica é a mais reveladora: “Multa de 300
francos sobre cada uma das 6 pessoas desta família, na forma da décima condição do
contrato”, que traduziam-se em 720.000 réis.

Abraham rompia o contrato, pagava uma multa que significava o dobro da passagem da Europa
ao Brasil, e uma conta total que atingia 1.804.325 réis. E era um homem livre e sem terra.
Como a história dos judeus os ensinou a serem precavidos para mudanças e exílios, talvez
Abraham nem se importasse muito com a não compra e muito provavelmente possuía reservas
para liquidar a dívida e buscar outros meios de sobrevivência.

Esta descoberta induz a idéia de que de fato Abraham nunca sequer tentou a agricultura. Teria
sido charuteiro? Não é possível afirmar que não, mas onde ter-se-ia instalado? Nas terras de
outra família holandesa? Talvez mas isto não parece muito provável.

Teria Abraham analisado a situação geral e percebido que seus talentos seriam mais úteis nas
proximidades do porto dos Guimarães? Talvez. Teria ele adquirido do Governo um lote com 70
hectares por preço inferior ao que pagaria à companhia Montravel? Talvez. Para afirmar
qualquer coisa, porém, será preciso descobrir outras evidências além daquelas encontradas.
Como nos disse o diretor do Arquivo Histórico do RS, quando pegamos documentos antigos,
pela intimidade que só os anos trazem, eles falam conosco. Podemos ouvir sua voz. Na
quietude de um arquivo sentimos que ao pesquisarmos sobre um grupo de imigrantes seu
barco volta a navegar, pode-se sentir o vento da travessia no rosto, os colonos na coberta, o
horizonte sem fim e um oceano de expectativas.

Quando penetram na mata podemos escutar os passos, os sons, o idioma diverso, o cansaço, a
apreensão. Mas não podemos descobrir se Abraham foi, se voltou sobre seus passos, se ficou
aqui ou acolá. Mas é justamente esta uma das fontes de prazer na busca, porque se acredita
que algum dia encontrar-se-á uma evidência, um documento, uma foto ou história perdidas que
corrigirão algumas coisas e confirmarão outras tantas.
6. O patriarca encontra sua última morada
Quando Abraham faleceu, em 1884, criou-se um grande impasse porque não havia cemitério
judaico na região. Acredita-se que o primeiro cemitério similar nas Américas tenha sido criado
durante a ocupação holandesa no nordeste brasileiro, que perdurou entre 1630 e 1654. Um
trabalho da fundação Joaquim Nabuco é fonte de algumas informações interessantes a respeito
(http://www.fundaj.gov.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publication
Code=16&pageCode=300&textCode=7996&date=currentDate).

Até hoje, aliás, a única cidade brasileira que não é capital de estado e possui cemitério judaico
é Campos, no Rio de Janeiro.

Às páginas 178 e 179 do livro São Sebastião do Caí Fase Jesuítica da Paróquia [8], o Padre
Arthur Rabuske reproduz termo de visita pastoral de Dom Cláudio José ao cemitério aos 5 de
novembro de 1892:

“A parte benta do Cemitério tem sido profanada pelo enterramento de um israelita, a


declaramos poluta, e mandamos que se continue a benzer cada sepultura, quando se
tiver de enterrar algum católico; pois que as circunstâncias não permitem por ora de
dar outro remédio à profanação praticada”

Pe.Rabuske menciona por alto a secularização promovida pela Constituição Republicana em


24.02.1892, confiando à autoridade municipal a administração dos cemitérios,- e afirma
suspeitar que o cemitério do Caí se tenha tornado municipal, e portanto público, em 1889.

Somos induzidos a acreditar que o escândalo envolvia exatamente a sepultura de Abraham de


Leeuw, cuja lápide estava longe de ser convencional.

O episódio deve naturalmente ser analisado à luz da realidade de então, prática necessária
para que não se exagere na severidade com fatos que, à época, não poderiam ter outro
desfecho. Sepultar um israelita num cemitério cristão, no século XIX, equivaleria a tentar
sepultar, hoje, num cemitério israelita, um cristão. A confusão não seria menor. Nem a falta de
caridade.

Foram necessárias décadas para que tais situações entrassem no rol das coisas bizarras.
Somos afortunados por termos vivido sob o papado de João Paulo II, autor de afirmação
lapidar:
“Os judeus são os nossos irmãos mais velhos na fé”

Foi assim que o Papa João Paulo II definiu os judeus na Sinagoga de Roma. Na histórica visita
àquela casa da comunidade judaica, o Papa, que então completava 25 anos de pontificado,
rompeu dois mil anos de história de separação, de preconceito, de erros teológicos. O Papa deu
pessoalmente o exemplo a todos os cristãos católicos, de qual seria o novo olhar católico sobre
o povo judeu: o olhar de irmãos.

Desde o pontificado de João XXIII nenhum dos dois Papas manifestara tão explicitamente o
desejo e a necessidade de a Igreja se reaproximar dos judeus e do judaísmo. A reaproximação
da Igreja ao Judaísmo é uma determinação oficial, fundamentada em diversos documentos do
Vaticano. No entanto, em João Paulo II havia algo de especial. Ele tinha uma ligação pessoal
com a comunidade judaica, relação que se traduziu em diversas atitudes do seu pontificado.
João Paulo II foi além dos textos documentais. Foi, ele mesmo, movido pelo coração ao mesmo
tempo humano e santo, buscando maior entendimento com os judeus e o judaísmo.