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CENTRO UNIVERSITÁRIO DA FUNDAÇÃO EDUCACIONAL GUAXUPÉ

HENOCH ADONAI TAVARES

A RESPONSABILIDADE CIVIL DOS PROVEDORES DE CONTEÚDO NO CASO DE


DIFAMAÇÃO E DANOS MORAIS EM REDE SOCIAL.

GUAXUPÉ
2016
CENTRO UNIVERSITÁRIO DA FUNDAÇÃO EDUCACIONAL GUAXUPÉ

HENOCH ADONAI TAVARES

A RESPONSABILIDADE CIVIL DOS PROVEDORES DE CONTEÚDO NO CASO DE


DIFAMAÇÃO E DANOS MORAIS EM REDE SOCIAL.

Trabalho apresentado à banca


examinadora do Curso de Graduação
do Centro Universitário Fundação
Educacional Guaxupé, como requisito
à obtenção do grau de Bacharel em
Direito.

GUAXUPÉ-MG
2016
Henoch Adonai Tavares

A RESPONSABILIDADE CIVIL DOS PROVEDORES DE CONTEÚDO NO CASO


DE DIFAMAÇÃO E DANOS MORAIS EM REDE SOCIAL

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao


curso de Direito do Centro Universitário da
Fundação Educacional de Guaxupé/MG, como
requisito parcial para obtenção do título de
Bacharel em Direito.

___________________________________________________________________
Professor Mestre Diogo Paiva (Orientador) - UNIFEG

___________________________________________________________________
Examinador – UNIFEG

___________________________________________________________________
Examinador – UNIFEG

Guaxupé____ de_______________ de 2016.


Dedico a minha família, especialmente a minha
mãe, Celia Maria Martins Tavares, a meu pai,
José Luiz Tavares e minha amada noiva
Andreia Siqueira da Silva e filha Sophia
Ferreira Tavares.
AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente a Deus pela bondade que vem tocando minha vida.
Agradeço a todos amigos, companheiros e colegas desta longa jornada de curso.
Agradeço também aos inertes que não me ajudaram, porém não me atrapalharam.
A minha mãe Célia Maria Martins Tavares pelo imensurável amor e apoio em todos os
momentos.
Ao meu pai José Luiz Tavares, mesmo longe, sei que torce por mim.
A minha filha Sophia Ferreira Tavares por complementar o meu viver.
A minha noiva Andréia Siqueira da Silva pela presença, amor e cumplicidade.
A minha avó Maria Vaz Martins pelo carinho e zelo.
Ao meu Professor Diogo Paiva, pela sabedoria e orientação que foram fundamentais a
conclusão desta monografia.
A todos que de alguma forma contribuíram para a realização deste trabalho.
“Curta os momentos, pois eles são únicos e não voltam mais”
H.A.T.
RESUMO

TAVARES, Henoch Adonai. A responsabilidade civil dos provedores de conteúdo no caso


de difamação e danos morais em rede social. 2016. 46f. Trabalho de conclusão de curso
(graduação em Direito) – Centro Universitário da Fundação Educacional Guaxupé, Guaxupé,
2016.

O presente trabalho possui como fim precípuo realizar uma análise acerca da responsabilidade
civil dos provedores de conteúdo decorrentes de difamação e danos morais perpetrados em
redes sociais. Deste modo, se abordará a responsabilidade por atos próprios dos provedores,
bem como atos praticados por terceiros, determinando casos em que a responsabilização
ocorrerá de forma objetiva e subjetiva. O tema em apreço cuida-se de conteúdo de suma
relevância, haja vista o vasto crescimento de demandas no judiciário concernentes a conflitos e
problemáticas envolvendo o ambiente virtual da internet. Portanto, se analisará a aplicabilidade
do Código de Defesa do Consumidor nas relações entre provedores e usuários do meio social,
e a possível caracterização da relação de consumo. De arremate, se pautará na realização de
uma detida análise jurisprudencial dos Tribunais pátrios com o escopo de demonstrar como o
Poder Judiciário vem se posicionando diante desta problemática contemporânea.

PALAVRAS - CHAVE: Internet. Provedor. Responsabilidade Civil. Relação de Consumo.


Danos Morais. Difamação.
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

CC - Código Civil
CDC – Código de Defesa do Consumidor
CCB/02 - Código Civil Brasileiro de 2002.
CF/88 - Constituição Federal de 1998
CRFB - Constituição da República Federativa do Brasil.
STF - Supremo Tribunal Federal
STJ - Superior Tribunal de Justiça
ABSTRACT

This work has as purpose preciput perform an analysis on the liability of internet service
providers resulting from defamation and moral damages perpetrated on social networks. Thus,
it will address the responsibility for own actions of providers as well as acts committed by third
parties, determining where accountability will occur objectively and subjectively. The topic at
hand care is extremely important content, given the vast growth demands in the judiciary
concerning conflicts and problems involving the internet virtual environment. So if examine
the applicability of the Consumer Protection Code in relations between providers and users of
the social environment, and the possible characterization of the consumption ratio. Tailpiece,
shall be founded on the realization of a detained jurisprudential analysis of patriotic Courts with
the aim of demonstrating how the judiciary is positioning itself on this contemporary issue.

KEYWORDS: Internet. Provider. Civil responsability. Consumer relationship. Moral damages.


Defamation.
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO......................................................................................................... 12

1.1 Breves considerações ................................................................................................... 14

1.2 Importantes Conceitos ................................................................................................. 19

1.2.1 Usuários da Internet .................................................................................................. 19

1.2.2. Provedor de Internet ................................................................................................. 19

1.2.3. Incidência do Código de Defesa do Consumidor nas Relações entre Provedores de

Internet e Usuário Final. .................................................................................................... 22

2 RESPONSABILIDADE CIVIL ...................................................................................... 24

2.1 Breves considerações ................................................................................................... 24

2.2. Evolução Histórica...................................................................................................... 25

2.3. Classificações da Responsabilidade Civil Contemporânea ............................................ 27

2.4. Requisitos e Pressupostos da Responsabilidade Civil ................................................... 29

2.4.1. Elementos essenciais: ............................................................................................... 30

2.4.1.1. Ato ilícito .............................................................................................................. 30

2.4.1.2. Culpa .................................................................................................................... 31

2.4.1.3. Dano..................................................................................................................... 33

2.4.2. Do dano moral ......................................................................................................... 33

2.4.3. Nexo de Causalidade ................................................................................................ 38

2.4.4. Responsabilidade Civil dos Provedores de Internet .................................................... 39

3. DA RESPONSABILIDADE CIVIL DOS PROVEDORES DE CONTEÚDO .................. 41

3.1 Do Marco Civil da Internet .......................................................................................... 45

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS .......................................................................................... 47

REFERÊNCIAS ................................................................................................................ 49
ANEXOS .......................................................................................................................... 52
12

1 INTRODUÇÃO

O Brasil passa por um momento de incertezas na economia, baixo crescimento de


mercado e baixa expansão no que diz respeito à atuação de sua economia e suas empresas no
resto do mundo. Em contraste a esse problema momentâneo, o crescimento expansivo da
utilização de aplicações tecnológicas como as redes sociais e ecommerces. É imprescindível
que certos institutos criados com objetivos de trazer segurança às relações entre consumidores
e prestadores de serviço tenham aplicação plena e pacifica. A responsabilização dos provedores
de conteúdo, em especial quando se trata de redes sociais, na esfera civil, é um desses institutos.
Merece, portanto, estudo mais aprofundado e aplicação específica clara e coerente, em
conformidade com princípios modernos de Direito.

Os prestadores desse tipo de serviço estão sujeitos às ações de seus usuários e às


interpretações jurisprudenciais quando se trata de responsabilização por danos. Sopesar os
direitos dos usuários e dos prestadores de serviço e encontrar uma forma de proteger,
coerentemente, tanto um quanto o outro, é medida que se impõe.

Muito embora já se encontre boa produção bibliográfica e pesquisas a respeito do tema,


procura-se aqui restringir o estudo à hipótese de responsabilidade civil do provedor de conteúdo
por danos decorrentes de publicações difamatórias perpetradas por usuários das redes sociais.
Aborda-se, em especial, a aplicação do Código do Consumidor a essa relação e as soluções
mais modernas e efetivas do problema.

A experiência que se tem até hoje não supre o recente e ainda em formação instituto de
responsabilidade civil por atos praticados nas redes sociais. Situação mais simples é aquela em
que se pretende responsabilizar o usuário pelos atos por ele praticados. Cabe então questionar
qual a forma de se responsabilizar o provedor de conteúdo de reses sociais pelas informações
veiculadas por usuários de seus serviços, consideradas atentatórias à dignidade e à honra de
terceiros, usuários ou não.

Em linhas gerais, é o que se pretende debater no presente estudo. É importante, todavia,


delimitar a discussão. As hipóteses aqui levantadas tocam diversas facetas do direito moderno.
Perpassam discussões quanto à liberdade de expressão, a possibilidade de um provedor de
conteúdo “filtrar” o que se veicula em seus domínios, a necessidade de um provedor desse tipo
de serviço monitorar o que é “postado” pelos usuários, entre tantas outras questões.
13

O presente estudo concentra-se essencialmente, em averiguar a responsabilização de um


provedor de conteúdo nas redes sociais quanto às publicações passiveis de causar danos morais
a sujeitos de direitos, sem deixar de tocar nos demais tópicos que apresentam interesse à matéria
tratada.

O método utilizado foi o dedutivo, realizada precipuamente pesquisa bibliográfica e em


meio eletrônico, prepositórios de jurisprudência, entre outros.

Por primeiro, aborda-se exatamente quais sujeitos estariam protegidos pela


responsabilização dos provedores das redes sociais e pelo Código de Defesa do Consumidor.
Apenas usuários, decorrente da relação de consumo? Ou qualquer sujeito, desde que o ato
difamatório seja cometido por um usuário da rede social? Estariam as pessoas jurídicas também
protegidas por tal regulamentação?

Em seguida, pretende-se estabelecer a natureza da responsabilidade dos provedores de


conteúdo, se objetiva ou subjetiva, e como poderiam ter prestadores de serviço eximir-se da
responsabilização.

Por fim, busca-se apresentar as soluções até hoje encontradas no direito brasileiro e no
direito comparado, para avaliar e ponderar qual poderia ser a medida mais acertada.
14

1.1 Breves considerações

A expansão do acesso à internet no Brasil ocorreu mais recentemente do que em países


da América do Norte e da Europa 1. A relativa demora na popularização dessa ferramenta não
impediu, entretanto, que sua utilização caísse rapidamente no gosto do brasileiro. Dentre os
websites mais utilizados no país estão as chamadas redes sócias ou sites de relacionamento.
Em estudos divulgados em junho de 2013, a empresa de pesquisa de mercado Nielssen
chegou à conclusão de que os brasileiros são os que mais acessam redes sociais no mundo.
Superam os usuários dos Estados Unidos e dos demais países do BRINC (Rússia, Índia e
China) 2.
Assim, é previsível o surgimento de conflitos e de atitudes por parte usuários destes sites
de relacionamento que possam gerar danos morais ou responsabilização civil, seja do usuário,
seja do prestador de serviço.
Como dito, o objetivo principal do presente estudo é a responsabilidade dos provedores
de conteúdo em relação as referidas condutas danosas realizadas pelos usuários.
Para um rápido esboço da estrutura de funcionamento dos servidores e da World Wibe
Web, explica-se diferentes espécies de provedores existentes, em especial os provedores de
conteúdo.
Os provedores de internet são basicamente divididos em 4 tipos 3. Primeiros, os
backbones(“espinhas dorsais”, em tradução livre)são aqueles provedores que fornecem a
estrutura básica da internet, possibilitando a transferência de dados entre as pessoas ao
desmobilizar suas estruturas para outros provedores.
Trata-se, portanto da estrutura física, de hardware (equipamentos e aparelhos) e de
software (programas automatizados), que permite a conexão à internet.
Além desses, há os provedores de acesso, responsáveis por disponibilizar aos
consumidores o acesso à internet, repassando a conectiva comprada dos backbones. Vale
lembrar que hodiernamente esses servidores raramente oferecem exclusivamente o serviço de
acesso, pois geralmente o vedem de forma combinada com e-mail, hospedagem e conteúdo.
Os provedores de hospedagem, por sua vez, fornecem os meios para armazenamento de

1
INTERNET WORDLD STATISTICS (Colombia.). Internet Usage Startistics. 2013. Disponível em
HTTP://www.internetworldstats.com/stats.html.
2
PORTAL G1: Brasil supera EUA e países do Brinc em uso de redes sociais, diz pesquisa. São Paulo, 02 jul. 2013.
Disponivel em: <HTTP://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2013/07/brasil-supera-eua-e-paises-do-brinc-em-uso-
redes-sociais-diz-pesquisa.html>
3
BITTENCOURT, Diego Camilo de. A responsabilidade civil dos provedores de conteúdo na internet. 2010. 66f
TCC(Graduação) – Curso de Direito, Departamento de Faculdade de Ciências Jurídicas.
15

informações em bando de dados que são acessíveis pelos usuários e possibilitam a hospedagem
das páginas da internet.
Por fim, há os provedores de conteúdo, objeto deste estudo. Esse tipo de provedor pode
fornecer os meios para criação e publicação de conteúdo de seus usuários, caracterizando
provedores de conteúdo em sentido estrito, ou ser responsável pela publicação do próprio
conteúdo, os chamados provedores de informação 4.
A finalidade deste trabalhaho é a análise da prestação dos serviços pelos provedores de
conteúdo de redes socias, como Facebook, MySpace, dentre outros. São chamados sites de
relacionamento ou redes sociais. Consistem, grosso modo, em páginas da internet que prestam
um serviço de comunicação bastante amplo. Nelas, os usuários podem publicar informações
nas páginas de outros usuários ou nas suas proprias páginas. Podem ainda citar pessoas de forma
a criar um link para a página o usuário citado ou compartilhar as informações colocadas nas
páginas alheias para criar um link, em sua página, vinculado a tal obrigação. É possivel criar
um bate-papo privado ou em grupo, podem-se sitar páginas coletiva, dentre tantas outras
possibilidades.
Ademais, as informações veiculadas nesses websites podem consistir de texto, imagem
estática, videos, áudio etc.
Tal gama de forma de veiculos proporcinada pela evolução da informática e da
comunição gera situações novas que criam um vasto leque de possiblidades de atos
difamatórios.
Observe-se, por oportuno, que o tipo de serviço aqui estudado é, em especial aquele
prestado por empresas como MySpace e Facebook. Não se ignora, entretanto a existência de
diversos outros tipos de redes sociais, voltados ao mais diversos objetivos, como divulgação
profissional, busca de relacionamentos amoroso, compartilhamento de produtção artistica etc.
Para ilustrar, Sartor e Rosati5 descrevem os sites de redes sociais como um serviço
baseado na Web que permite aos indivíduos construir um perfil público ou “semipúblico” no
sistema da rede social. Permite também especificar uma lista de outros usuários com os quais
dividem uma conexão, examinar e interagir com a própria lista de conexões e com as listas
construidas por outros usuários dentro do sistema. Seriam essas as três precípuas das redes
sociais.

4
LEONARDI, Marcel. Responsabilidade Civil dos Provedores de Serviços de Internet. Ed. Juarez de Oliveira
2005. P.26, apud BITTENCOURT, Diego Camilo de. A responsabilidade civil dos provedores de conteúdo na
internet. 2010. 66f TCC(Graduação) – Curso de Direito, Departamento de Faculdade de Ciências Jurídicas
Universidade Tuitui do Paraná, Curitiba, 2010.
5
SARTOR, Giovanni; ROSATI, Eleonora. Social Networks e Responsabilitá Del Provider.
16

A primeira função, continuam os autores, qual seja, a construção do próprio prefil,


individualiza os aspectos da identidade, porquanto os usuários criem perfis que os representam,
graças à combinação das informções pessoais de várias espécies, tais como atitudes, interesses,
vivências etc. Assim, o usuário pode criar a propria identidade social, ou ainda diversas
identidades, pois disponibliza a alguns usuarios uma parte das informações sobre si, enquanto
reserva outras dados a determinado grupo de conexões 6.
A segunda função, ainda segundo Sartor e Rosati, o compartilhamento de conexões
(contatos, “amigos”), determina o aspecto relacional do sítio werb, pois por meio da estrutura
virtual disponibizada os usuario mantem contato com outras pessoas, contatos que podem
preexistir à relação virtual ou ser criados por meio do proprio serviço. As conexões que o
usuário ostenta indicam, destarte, certos aspectos de sua personalidade 7.
Por fim, a terceira função apresentado pelos autores é o cruzamento e compartilhamento
das informções e das conexões. É a representação do aspecto comunitário.
Entretando, solução dada pelo Superior Tribunal de Justiça é a remoção preventiva,
segundo o qual o provedor deve remover o conteúdo denunciado pelo usuário durante 24horas.
Nesse interim, realizará um juizo de valor acerca do potencial ofensivo da informção e decidirá
mantê-la ou removê-la. Assim, não será reponsabilizado. Não ficou estabelecido o dever de
vigilância prêvia, mas o dever de imediata resposta, sem aguardar pela ordem judical.
Diante do quadro de responsabilização dos provedores de conteúdo das redes sociais
exposto no presente trabalho, conclui-se que o instituto caminha em direção à pacificação e
melhor regulamentação sobre o tema. Entretanto, não obstante o prognóstico otimista, é questão
que carece de discussão atenta e, em virtude da velocidade com que as tecnologias evoluem,
constante revisão e atualização.
Esse tipo de serviço é também chamado de user-generated Web ou user-generated
content. Em tradução livre, é o conteúdo gerado por usuários. Como já exposto, o provedor de
conteúdo funciona como uma estrutura para que o usuário crie e compartilhe o conteúdo. Assim,
não se pode dizer que o provedor de redes sociais é um provedor de informação, porquanto não
apresente conteúdo gerado pela direção do site, senão quase que exclusivamente conteúdo dos
usuários8.

6
Idem, ibidem, p. 1.
7
Idem, ibidem, p. 1.
8 SARTOR e ROSATI, 2012, p. 1.
17

Ocorre que a espécie de página de relacionamento que dá maior possibilidade de


concretização de atos difamatórios é aquela representada por Orkut e Facebook. Não à toa a
jurisprudência atualmente encontrada nos tribunais pátrios versa principalmente sobre essas
duas empresas prestadoras de serviço de redes sociais.
Fernando Daquino apresenta um breve histórico das redes sociais no Brasil e no mundo,
aqui reproduzida de forma ainda mais sintética 9: Os primeiros relatos de serviços que possuem
características de sociabilizar dados surgem no ano de 1969, com o desenvolvimento da
tecnologia dial-up e o lançamento do CompuServe — um serviço comercial de conexão à
internet em nível internacional muito propagado nos EUA. Outro passo importante nessa
evolução foi o envio do primeiro e-mail em 1971, sendo seguido sete anos mais tarde pela
criação do Bulletin Board System (BBS), um sistema criado por dois entusiastas de Chicago
para convidar seus amigos para eventos e realizar anúncios pessoais. Essa tecnologia usava
linhas telefônicas e um modem para transmitir os dados. Os anos seguintes, até o início da
década de 90, foram marcados por um grande avanço na infraestrutura dos recursos de
comunicação. Por exemplo, em 1984 surgiu um serviço chamado Prodigy para desbancar o
CompuServe — feito alcançado uma década depois. Contudo, o fato mais marcante desse
período foi quando a America Online (AOL), em 1985, passou a fornecer ferramentas para que
as pessoas criassem perfis virtuais nos quais podiam descrever a si mesmas e criar comunidades
para troca de informações e discussões sobre os mais variados assuntos. Anos mais tarde (mais
precisamente 1997), a empresa implementou um sistema de mensagens instantâneas, o pioneiro
entre os chats e a inspiração dos “menssengers” que utilizamos agora. O ano de 1994 marca a
quebra de paradigmas e mostra ao mundo os primeiros traços das redes sociais com o
lançamento do GeoCities. O conceito desse serviço era fornecer recursos para que as pessoas
pudessem criar suas próprias páginas na web, sendo categorizadas de acordo com a sua
localização. Ele chegou a ter 38 milhões de usuários, foi adquirido pela Yahoo! cinco anos
depois e foi fechado em 2009.
[...]
Em 2002, nasceram o Fotolog e o Friendster. Esse primeiro produto consistia em
publicações baseadas em fotografias acompanhadas de ideias, sentimentos ou o que mais viesse
à cabeça do internauta. Além disso, era possível seguir as publicações de conhecidos e comentá-
las. O Fotolog ainda existe, tem cerca de 32 milhões de perfis, já veiculou mais de 600 milhões

9 DAQUINO, Fernando. A história das redes socais: como tudo começou. Publicação Online Tecmundo, de 26
nov. 2012. Disponível em: <http://www.tecmundo.com.br/redes-sociais/33036-a-historia-das-redes-sociais-
como-tudo-comecou.htm>. Acesso em: 30 ago. 2013.
18

de fotos e está presente em mais de 200 países. Por sua vez, o Friendster foi o primeiro serviço
a receber 13 o status de “rede social”. Suas funções permitiam que as amizades do mundo real
fossem transportadas para o espaço virtual. Esse meio de comunicação e socialização atingiu 3
milhões de adeptos em apenas três meses — o que significava que 1 a cada 126 internautas da
época possuía uma conta nele.
Em seguida, ao longo de 2003, foram lançados o LinkedIn (voltado para contatos
profissionais) e o MySpace (que foi considerado uma cópia do Friendster). Ambos ainda estão
no ar e com um uma excelente reputação. Atualmente, o LinkedIn conta com mais de 175
milhões de registros (sendo 10 milhões deles brasileiros) e o MySpace marca 25 milhões apenas
nos EUA — embora esse número já tenha sido maior.
Eis que chegamos à época em que as redes sociais caíram no gosto dos internautas e
viraram máquinas de dinheiro. 2004 pode ser considerado o ano das redes sociais, pois nesse
período foram criados o Flickr, o Orkut e o Facebook — algumas das redes sociais mais
populares, incluindo a maior de todas até hoje 10.
O Orkut, atualmente está descontinuado, mas foi durante anos a rede social mais
utilizada pelo público brasileiro. Permitia a criação de comunidades nas quais era possível
compartilhar diversos tipos de mídia e conteúdo. Trazia ainda um serviço de mensagens
instantâneas, tanto privadas quanto públicas.
Em 2004, Mark Zuckerberg criou, dentro do campus da Universidade de Harvard, o
Facebook. A rede social de Zuckerberg tornar-se-ia a mais famosa e abrangente do mundo. O
Facebook ofereceu ao público facilidades no compartilhamento de conteúdo, expandiu as
configurações de privacidades para cada usuário e permitiu sua integração com diversos outros
veículos de mídia, especialmente aqueles que permitem a produção de conteúdo pelo usuário,
como, por exemplo, o Instagram, o YouTube, o Vevo, dentre muitos outros aplicativos de
plataforma online11.
Diante de toda essa gama de possibilidades para usuários interagirem em no ambiente
virtual das redes sociais, muitos direitos ficam à mercê das políticas das empresas prestadoras
desses serviços.
São em geral situações que incidem, dentre outras questões, sobre a privacidade,
divulgação de dados, proteção a marcas e direitos autorais, rastreamento de hábitos online e
associação à publicidade e, especialmente para este estudo, conteúdo difamatório.

10
DAQUINO, 2012.
11 Idem, ibidem.
19

1.2 Importantes Conceitos

1.2.1 Usuários da Internet

Os usuários da internet podem ser pessoas físicas ou jurídicas, que se conectam com a
grande rede, gozando dos serviços, produtos, informações disponibilizadas, razão pela qual, é
considerado como destinatário final.
A Rede Nacional de Pesquisa conceitua usuários da internet como:

Pessoas físicas ou jurídicas que contratam acesso por linha telefônica discada a
computadores e dispositivos mantidos por provedores de acesso. Para as diversas
modalidades de acesso, consulte o Capítulo 4. Não estamos considerando aqui os
funcionários de instituições acadêmicas ou comerciais, ligadas diretamente a Internet,
que têm acesso pleno enquanto no ambiente de trabalho (veja usuários institucionais
adiante). 12

1.2.2. Provedor de Internet

A priori, cumpre mencionar que os Provedores de Internet são responsáveis por fazer a
ligação entre o consumidor e o mundo virtual. Para tanto, é importante destacar que existem
cinco categorias em consonância com as atividades desenvolvidas, quais sejam, provedor de
backbone, provedor de acesso (Internet Service Providers), provedor de conteúdo ou de
informação (content provedes ou information provedes), provedor de hospedagem (hosting
service providers) e provedor de correio eletrônico.
Assim, para uma melhor compreensão do tema, cabe salientar que as categorias
supracitadas consistem em espécie do gênero provedor de serviços de internet. Destarte, se
passa a discorrer brevemente acerca das referidas categorias, uma vez que é salutar diferenciar
cada serviço do provedor, pois somente assim se pode constatar a efetiva responsabilidade pelo
serviço desenvolvido.
Nessa acepção cumpre transcrever o entendimento ilustre de Marcel Leonardi
concernente ao conceito de Provedor de internet:
“É uma pessoa natural ou jurídica que fornece serviços relacionados ao

12
REDE NACIONAL DE PESQUISA Guia do usuário Internet/Brasil, versão 2.0, abril de 1996, documento n.
RNP/RPU/0013D, p. 7/8. Disponível em https://memoria.rnp.br/_arquivo/documentos/rpu0013d.pdf> Acesso em
16 de outubro de 2016.
20

funcionamento da internet, ou por meio dela” 13

Isto posto, se passa a conceituação dos provedores de internet:

Primeiramente, acerca do provedor backbone (“espinha dorsal”), é considerado como o


centro principal que possui a finalidade de sustentar todas as redes de aceso a internet.
A esse respeito, Guilherme Magalhães Martins assevera:

O provedor de backbone oferece conectividade, vendendo acesso à sua infraestrutura


a outras empresas que, por sua vez, repassam o acesso ou hospedagem ao usuário
final, ou simplesmente utilizam a rede para fins institucionais internos. O usuário
final, que utiliza a Internet por meio de um provedor de acesso ou hospedagem,
dificilmente manterá alguma relação negocial com o provedor de backbone.14

No Brasil a Embratel cuida-se da empresa responsável por fazer a interligação de todas


as redes existentes no país.
Assim, o Provedor backbone, possui a função de vender acesso a outras empresas, que
por sua vez venderão a usuários finais e/ou o utilizarão.

Já o Provedor de acesso cuida-se da pessoa jurídica conectada ao servidor backbone,


sendo um servidor de acesso à internet para fornecer serviços, bem como acesso de outros
provedores, na maioria das vezes de pequeno porte, instituições ou usuários individuais.
Para a Rede Nacional de Pesquisa, provedor de acesso é:

O provedor de acesso é aquele que se conecta a um provedor de backbone através de


uma linha de boa qualidade e revende conectividade na sua área de atuação a outros
provedores (usualmente menores), instituições e especialmente a usuários individuais,
através de linhas dedicadas ou mesmo através de linhas telefônicas discadas. 15

13
LEONARDI, Marcel. Responsabilidade Civil dos Provedores de Serviços de Internet. São Paulo: Juarez de
Oliveira, 2005, p.25.
14
MARTINS, Guilherme Magalhães. Responsabilidade civil por acidente de consumo na internet. São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2008. p. 282.
15
REDE NACIONAL DE PESQUISA Guia do usuário Internet/Brasil, versão 2.0, abril de 1996, documento n.
RNP/RPU/0013D, p. 7/8. Disponível em https://memoria.rnp.br/_arquivo/documentos/rpu0013d.pdf> Acesso em
16 de outubro de 2016.
21

Outro provedor a ser analisado trata-se do provedor de correio eletrônico, que funciona
como um serviço acessório, contudo, podem ser comercializados separadamente, mediante
contratos de adesão e onerosos.
Embora existam casos em que é fornecido gratuitamente, porém, na maioria dos casos
a empresa fornece tal serviço ao destinatário final de forma onerosa, e deste modo há a
incidência das Leis Consumeristas.
Já o Provedor de hospedagem, é considerado como uma pessoa jurídica que promove e
oferece o serviço de armazenamento de danos em servidores de acesso remoto, possibilitando
o acesso de terceiros aos respectivos dados, contudo, observando as condições pré-estabelecidas
com o cliente, ora contratante.
Assim, poderá também prestar serviços adicionais, como por exemplo, locação de
equipamentos, registro de nomes de domínio, cópias dos conteúdos dos web sites que realiza
armazenamento, etc.
Em síntese, possui como função hospedar páginas e sites, que serão visitados por
usuários, se restringindo apenas na hospedagem e não alterando o conteúdo das informações
fornecidas pelos sites.

No que se refere ao provedor de conteúdo de informação, o qual se concentra o presente


trabalho, estes são tidos como os intermediários entre editores de conteúdo de um site e o
internauta. Sendo responsáveis por deixar informações no site e sendo responsável pelo
conteúdo ali deixado.
Cabe salientar que os conteúdos disponibilizados podem ser de controle direto ou
próprio, ocorre quando o provedor o disponibiliza, podendo ser também de controle de terceiros
ou indiretos, disponibilizados pelos donos dos sites. Cuida-se esta análise de uma questão
importantíssima, pois é por meio dela que se pode apurar a responsabilidade civil dos
provedores.
Nessa acepção, vale frisar que o provedor de conteúdo realiza um controle prévio sobre
as informações que são publicadas, realizando a seleção do conteúdo a ser publicado, antes de
ser disponibilizado aos usuários.
É importante destacar que somente se configura relação de consumo quando o provedor
de conteúdos desenvolve sua atividade a título oneroso, realizando assim, a comercialização
das informações fornecidas e só sendo disponibilizada mediante pagamento prévio pelo
usuário, que assim obterá seu login e senha para acesso.
22

1.2.3. Incidência do Código de Defesa do Consumidor nas Relações entre Provedores de


Internet e Usuário Final.

O presente trabalho possui como objetivo promover uma análise da responsabilidade


civil dos provedores de internet, em especial aos provedores de conteúdo, em virtude de
difamação e danos morais ocorridos no âmbito virtual. Para tanto, cumpre realizar uma análise
a respeito da caracterização da relação de consumo entre usuários da grande rede e os
provedores de internet.
Assim, sem sobra de dúvidas, pode-se contatar ser relação de consumo há existente entre
provedores e usuários da grande rede, uma vez que estes adquirem e usam serviços oferecidos
como destinatários finais e aqueles atuam como fornecedores de serviços, enquadrando-se
perfeitamente na dicção dos artigos 2º e 3º do CDC, que preceituam o conceito com exatidão o
conceito de consumidores e fornecedores.
Destarte, esta reação de consumo é estabelecida por meio de contrato, onde se dispõem
as obrigações, direitos, regras e restrições de uso. Cabendo aos provedores de internet zelarem
por um serviço seguro que não cause danos aos consumidores.
Cumpre transcrever o entendimento exarado por Bruno Pinheiro Tavares e Francisco
Rogério Moreira Campos:

O serviço pode ser tanto oneroso quanto gratuito. Os contratos estabelecidos são
comumente de adesão, tendo como destinatário final do serviço o usuário, portanto
esses provedores também estão sujeitos ao Código de Defesa do Consumidor.16

Com isso, as tecnologias necessárias são utilizadas pelos provedores, afim de prestar um
serviço adequado aos anseios do consumidor. Devendo também ter conhecimento dos danos
dos usuários, contudo sem praticar censura ou monitoração destes, uma vez que se cuidam de
dados sigilosos, salvo raras exceções ligadas a prática de atos ilícitos.
O artigo 6º, da Lei Consumerista estabelece os direitos fundamentais do consumidor,
elencado entre eles, no seu inciso III, o direito a informações claras, com isso, denota-se que
cabe ao provedor de internet promovê-las, mediante transparência na comercialização de seus
serviços, atendendo também aos princípios da boa fé, lealdade, dentre outros.
De arremate, cumpre salientar que é dever dos provedores resguardar e zelar pela
inviolabilidade da intimidade, imagem e honra dos usuários finais, haja vista que caso não
atenda a estes ditames estará obrigado a responder pelos danos causados, por meio de

16
TAVARES. Bruno Pinheiro. Campos. Francisco Rogério Moreira. Responsabilidade Civil dos Provedores.
Disponível em http://irisbh.com.br/responsabilidade-civil-dos-provedores Acesso em 16 de outubro de 2016.
23

indenização proporcional aos danos matérias e/ou morais suportados pelo consumidor. (art. 5º,
X, CF/88, art. 6º, VI, CDC). Diante de todo o aludido, passa-se no próximo capítulo a uma
análise do instituto da responsabilidade civil, com o escopo de se identificar a caracterização
de ato ilícito passível de indenização e possível responsabilização do provedor de internet por
danos causados aos consumidores da grande rede.
24

2 RESPONSABILIDADE CIVIL

2.1 Breves considerações

O instituto da responsabilidade civil encontra-se regulado no Código Civil de 2002, mais


especificadamente nos artigos 186 e 927 e seguintes, onde é estabelecido de forma precisa que
toda e qualquer pessoa que, na prática de determinada ação ou omissão, acarretar dano a outrem,
pratica ato ilícito e consequentemente possui o dever jurídico de indenizar.
Nesse sentido, relevante se faz enaltecer o conhecimento com o ensinamento de Sérgio
Cavalieri Filho:

Designa o dever que alguém tem de reparar o prejuízo decorrente da violação de um


outro dever jurídico. Em apertada síntese, responsabilidade civil é o dever jurídico
sucessivo que surge para recompor o dano decorrente da violação de um dever jurídico
originário.
Só se cogita, destarte, de responsabilidade civil onde houver violação de um dever
jurídico e dano. Em outras palavras, responsável é a pessoa que deve ressarcir o
prejuízo decorrente da violação de um precedente dever jurídico. E assim é porque a
responsabilidade pressupõe um dever jurídico preexistente, uma obrigação
descumprida.17

Assim sendo, se nota que a responsabilidade civil surge de qualquer atividade tendente
a ocasionar a alguma pessoa, natural ou jurídica, lesão a bem juridicamente protegido,
configurando assim ato ilícito e por isso há o dever de ressarcir os prejuízos causados.
É importante sublinhar que, os danos aptos à reparação são aqueles de cunho jurídico,
embora possam ter aspectos morais, religiosos e sociais. Desta forma, restringe-se a indenização
a infrações que estejam situados nos princípios obrigacionais, não se alcançando outras
responsabilidades atinentes à seara religiosa ou moral, pois atuam apenas na esfera íntima e
individual de cada ser humano. 18
Assim, de acordo com Carlos Roberto Gonçalves:

O campo da moral é mais amplo do que o do direito, pois só se cogita da


responsabilidade jurídica que acarrete dano ao indivíduo ou à coletividade. Neste
caso, o autor da lesão será obrigado a recompor o direito atingido, reparando em
espécie ou em pecúnia o mal causado.
A responsabilidade moral e a religiosa, contudo, atuam no campo da consciência
individual. O homem sente-se moralmente responsável perante sua consciência ou
perante Deus, conforme seja ou não religioso, mas não há nenhuma preocupação com
a existência de prejuízo a terceiro. Como a responsabilidade moral é confinada a
consciência ou ao pecado, e não se exterioriza socialmente, não tem repercussão na

17
CAVARELI FILHO. Sérgio. Programa de Responsabilidade Civil. 9. ed. São Paulo: Atlas. 2010. p. 2.
18
VENOSA. Silvio de Salvo. Direito Civil: Responsabilidade Civil. v. 4. 12. Ed. São Paulo: Atlas. 2012. p. 18.
25

ordem jurídica. Pressupõem o livre arbítrio e a consciência da obrigação. 19

No que tange à classificação da responsabilidade civil, se pode mencionar que esta


divide-se em responsabilidade civil objetiva e subjetiva, contratual e extracontratual, tais
considerações serão explanadas mais adiante.
Ademais, as transgressões condizentes a figurar como dignas de reparação podem ser
tanto a direitos de índole moral quanto de índole patrimonial. Desde que lesionados por conduta
de algum individuo, este tem o dever de recompor as consequências dos seus atos com a
finalidade de alcançar o status quo ante afetado por sua conduta ou se não for mais possível o
alcance deste estado, deve-se procurar ressarcir da maneira mais próxima possível a
recomposição dos danos e amenização dos sofrimentos da vítima.
De acordo com Valéria Sílva Galdino Cardin a distinção destas duas formas de
incidência da responsabilidade civil se dá:

Em relação ao objeto, o dano pode ser patrimonial ou moral. Aquele produz perda ou
deterioração total ou parcial de um bem material, suscetível de valoração pecuniária.
Este provoca no ser humano uma lesão em seus valores mais íntimos, tais como o
sentimento, a honra, a boa fama, a dignidade, o nome, a liberdade etc. O dano moral,
embora não seja suscetível de aferição econômica é ressarcido para compensar a
injustiça sofrida pela vítima, atenuando em parte o sofrimento.20

Nessa acepção, relevante se faz discorrer em seguida acerca da evolução histórica deste
instituto.

2.2. Evolução Histórica

A evolução histórica da responsabilidade civil percorreu um longo e árduo caminho até


atingir a compreensão atual. Mas sua aplicabilidade já ocorre há milênios, porém ao longo do
tempo foi se desenvolvendo mediante modificações em seu campo de incidência o que
possibilitou uma melhor concepção e maior abrangência deste instituto.
O marco inicial ocorreu em Roma com a chamada “vingança privada”, momento em
que vigorava a Lei do Talião, onde a vingança era entendida como defesa, com a resposta do

19
GONÇALVES. Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro: Responsabilidade Civil. v. 4. 4.ed. São Paulo:
Saraiva. 2009. p. 2.
20
CARDIN. Valéria Silva Galdino. Dano Moral no Direito de Família. São Paulo: Saraiva. 2012. p. 18.
26

mal pelo mal e do “olho por olho, dente por dente”. Desta forma, a reação após o dano acontecia
como uma retribuição direta e violenta, bem característica de uma sociedade primitiva. 21
Disto posto, vale destacar que no decorrer desta primeira fase, que era caracterizada pela
não observância da culpa do agente causador do dano, era absolutamente suficiente a ação ou
omissão e o consequente dano suportado pela vítima para que ocorresse a reação imediata
movida por instintos por parte desta. 22
Desta forma, prevalecendo no direito Romano a responsabilidade objetiva, onde havia
o direito de retaliação por parte da vítima que poderia causar ao agente dano idêntico ao que
sofrera, ressalta-se que esta retaliação era autorizada pelo Poder Público. 23
Subsequente a este estágio surgiu a doutrina segundo a qual o patrimônio do devedor ou
ofensor respondia pelos seus atos, assim, afastou-se de vez o entendimento de que a violência
e a vingança seriam as atitudes corretas. Desse modo, o homem começou a consagrar a
compensação dos danos economicamente para se atingir apenas o patrimônio do agente e não
mais sua integridade. Diante destes fatos, surgiram quantificações descritas nos Códigos de
”Ur-Nammu,” de “Manu” e na “Lei das XXII tábuas” e logo em seguida fora proibida
expressamente o ato de fazer justiça com as próprias mãos. 24
Posteriormente, houve a intervenção do legislador, ou seja, passou a ser função estatal
intervir nestas hipóteses de divergências, de modo a assegurar a obrigatoriedade e indicando o
caminho a ser trilhado para recomposição de cunho econômico dos danos sofridos.
Contudo, o divisor de águas da responsabilidade civil, se constitui na “Lex Aquila”, que
estabelece a atual concepção da responsabilidade extracontratual, como também determina a
fundamental apreciação da culpa do agente, para só assim se punir o dano de acordo com a
culpa injusta do autor e independentemente da relação obrigacional preexistente. 25
Assim, a diferenciação de responsabilidade civil e penal, ocorreu com esta importante
interferência estatal nas relações individuais que possuía como finalidade principal a tutela de
toda e qualquer lesão a direitos. Desta maneira, se passou ao entendimento de que na seara
penal as sanções estão completamente ligadas ao “Jus Puniend” do Estado, e as reparações dos
danos civis estão concentrados na esfera privada e só atingindo o patrimônio do agente e apenas
na proporção e extensão do dano causado, e mais, somente da forma determinada pelo Estado. 26

21
VENOSA. Silvio de Salvo. Direito Civil: Responsabilidade Civil. v. 4. 12.ed. São Paulo: Atlas. 2012. p. 18.
22
PANAFIEL. Fernando. Evolução Histórica e Pressupostos da Responsabilidade Civil. Disponível em:
http://www.ambito-juridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=13110. Acesso: 19 de agosto
de 2016.
23
PANAFIEL. Op. Cit.
24
PANAFIEL. Op. Cit.
25
VENOSA. Op. Cit.
26
PANAFIEL. Fernando. Evolução Histórica e Pressupostos da Responsabilidade Civil. Disponível em:
27

Com isso, a responsabilidade extracontratual teve seu fundamento na culpa, que


posteriormente denominou-se como “Aquiliana”, possibilitando quem tivesse seus bens
danificados por outrem conseguir uma reparação em pecúnia.
Segundo ensinamento de Silvio de Salvo Venosa:

Punia-se a conduta que viesse a ocasionar danos. A idéia de culpa é centralizada nesse
intuito de reparação. Em princípio a culpa é punível, traduzida pela imprudência,
negligência e imperícia, ou pelo dolo. Mas modernamente a noção de culpa sofre
profunda transformação e ampliação. 27

No entanto, no decorrer da Idade Média, o direito francês apurou as ideias romanas


concernentes à responsabilidade civil e estabeleceu princípios direcionadores desta. 28
Já o período moderno, de acordo com Silvio Salvo Venosa:

A teoria da reparação dos danos somente começou a ser perfeitamente compreendida


quando os juristas equacionaram que o fundamento da responsabilidade civil situa-se
na quebra do equilíbrio patrimonial provocado pelo dano. Nesse sentido, transferiu-
se o enfoque da culpa, como fenômeno centralizador da indenização, para a noção do
dano.29

Portanto, à responsabilidade civil foi conferida uma nova roupagem, pois se extinguiu
a confusão antes existente entre responsabilidade civil, penal e a vingança particular, como
também instalou a responsabilidade subjetiva como aspecto fundamental para a constatação de
culpa e consequentemente do dever de indenizar, vez que assim se vislumbra a nova forma de
buscar a tutela estatal resultante das evoluções das relações presentes no meio social.

2.3. Classificações da Responsabilidade Civil Contemporânea

O Código Civil de 2002 definiu ato ilícito como sendo toda ação ou omissão voluntária,
eficaz a lesionar direitos e causar prejuízos a outrem. Com isso, decorre a consequente
responsabilidade de quem as praticou de repará-las. No entanto, este instituto comporta
classificações que merecem ser analisadas no presente estudo.
A responsabilidade pode advir de convenção entre as partes ou tão somente de uma

http://www.ambito-juridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=13110. Acesso: 19 de agosto


de 2016.
27
VENOSA. Silvio de Salvo. Direito Civil: Responsabilidade Civil. v. 4. 12.ed. São Paulo: Atlas. 2012. p. 18.
28
VENOSA. Op. Cit.
29
VENOSA. Op. Cit.
28

transgressão de comportamento que viole a lei.


Assim, no que se refere à responsabilidade civil contratual ou extracontratual, parte-se
inicialmente da análise do dever que foi violado, se este encontra-se dentro ou fora de um
negócio jurídico preexistente, pois é o fator determinante a indicar de qual responsabilidade
está se tratando, embora em ambos os casos haja a obrigação de indenizar.30
Quando se está diante de uma obrigação preexistente, oriunda de um contrato ou
negócio jurídico, há a presença da responsabilidade contratual. Portanto, é imprescindível a
prova da existência do inadimplemento de termos ou cláusulas que geraram o dano, como
também do liame que liga a conduta ao resultado. 31
Já a responsabilidade extracontratual ou aquiliana, deriva de uma transgressão de
comportamento ou dever de conduta e inexiste o vínculo contratual. Neste caso, se leva em
conta a conduta e a culpa do indivíduo em sentido amplo. Assim, se deve provar que a ação ou
omissão danosa pautou-se em imprudência, negligência ou imperícia, pois somente com a
demonstração do ilícito surge o dever de indenizar. 32
Outra classificação de suma importância cuida-se da responsabilidade civil objetiva e
subjetiva, a qual passa-se a discorrer neste momento.
A responsabilidade civil objetiva não necessita da comprovação de culpa do agente, pois
o que se analisa é se a potencialidade da atividade desenvolvida por este está apta a causar
danos. 33
Nessa acepção, cumpre mencionar que o Brasil adota a teoria do risco.
Esta modalidade de responsabilidade civil está prevista no § único do art. 927 do CC/02,
que determina que atividade ou conduta do agente que resulte ou exponha a algum perigo, ou
seja, se aprecia a natureza da atividade ou a natureza dos meios adotados, razão pela qual, só é
necessária a comprovação do nexo de causalidade entre a conduta realizada e o resultado danoso
para que ocorra a obrigação indenizatória. 34
Para melhor compreender a teoria do risco, destaca-se o que assevera Silvio de Salvo
Venosa:

A teoria do risco aparece na história do Direito, portanto, com base no exercício de


uma atividade, dentro da ideia de que quem exerce determinada atividade e tira
proveito direto ou indireto dela responde pelos danos que ela causar,
independentemente de culpa sua ou prepostos. O princípio da responsabilidade sem
culpa ancora-se em um princípio de equidade: quem aufere os cômodos de uma

30
VENOSA. Silvio de Salvo. Responsabilidade Civil. v. 4. 12 ed. São Paulo: Atlas. 2012. p. 22.
31
VENOSA. Op. Cit.
32
VENOSA. Op. Cit.
33
VENOSA. Op. Cit. p. 10.
34
VENOSA. Silvio de Salvo. Responsabilidade Civil. v. 4. 12 ed. São Paulo: Atlas. 2012. p. 14-15.
29

situação deve também suportar os incômodos. O exercício de uma atividade que possa
representar um risco obriga por si só a indenizar danos causados por ela. 35

Em suma, haverá a responsabilidade objetiva, nos casos previamente estabelecidos em


lei ou decorrente de atividade de risco. Deste modo, como regra geral, o dever de indenizar
nasce apenas da comprovação do nexo causal, em detrimento da observância de dolo ou culpa.
A responsabilidade civil subjetiva, a seu turno, se traduz na essencial e imprescindível
análise da culpa, pois não há que se falar em obrigação de indenizar sem a efetiva comprovação
deste requisito fundamental.
Nesse contexto, é relevante destacar que o ato ilícito culposo é revestido de imprudência,
negligência ou imperícia, mesmo que não se tenha a intenção direta de causar danos a direitos
alheios há o dever de indenizar, desde que devidamente provada a culpa, já que esta não se
presume.

2.4. Requisitos e Pressupostos da Responsabilidade Civil

Para devida incidência da responsabilidade civil, deve haver a presença incontestável


dos requisitos determinantes de sua existência.
Contudo, não é um conteúdo pacificado na doutrina, pelo fato de existir inúmeras
divergências, pois muitos entendem tratar-se de uma vertente quadripartida, defendendo os
seguintes requisitos: ação ou omissão humana, a ocorrência de um dano patrimonial ou moral,
o nexo causal e a culpa. Já a visão contrária, esta exclui a exigibilidade do requisito culpa. 36
Desta maneira, segundo Sílvio de Salvo Venosa, devem estar presentes quatro
pressupostos para a configuração do dever de indenizar:

” (..)o requisitos para a configuração do dever de indenizar: ação ou omissão


voluntaria, relação de causalidade ou nexo causal dano e finalmente, culpa.” 37

Já em defesa da teoria tripartida, há Pablo Stolze Gagliano e Rodolfo Pamplona Filho,

35
VENOSA. Op. Cit. p. 15.
36
SANTOS. Pablo de Paula Saul. Responsabilidade Civil: Origem e Pressupostos Gerais. Disponível em:
http://www.ambito-juridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=11875. Acesso em: 19 de
agosto de 2016.
37
VENOSA. Silvio de Salvo. Direito Civil: Responsabilidade Civil. v. 7. 17. ed. São Paulo: Saraiva. 2003. p.
13.
30

acreditando que:

A culpa, portanto, não é um elemento essencial, mas sim acidental, pelo que
reiteramos nosso entendimento de que os elementos básicos ou pressupostos gerais da
responsabilidade civil são apenas três: a conduta humana (positiva ou negativa), o
dano ou prejuízo, e o nexo de causalidade.38

Portanto, no presente estudo será adotada a teoria quadripartida, assim, para a


configuração do ato ilícito tendente a lesionar direitos subjetivos de outrem e provocar
consequentemente a obrigação indenizatória, é necessária a presença inquestionável de quatro
elementos essenciais, a saber: o fato lesivo (positivo ou negativo), o dano efetivo, o nexo de
causalidade e a culpa (imprudência, negligência ou imperícia).
Disto posto, passa-se a discorrer acerca dos pressupostos fundamentais da
responsabilidade civil.

2.4.1. Elementos essenciais:

2.4.1.1. Ato ilícito

O ato ilícito consiste em um comportamento contrário ao Ordenamento Jurídico, ou seja,


uma conduta produzida direta ou indiretamente pela vontade, proveniente de uma ação humana
que provoque efeitos jurídicos indesejáveis, causando danos a direitos subjetivos (patrimoniais
ou morais). 39
Deste modo, o ato proveniente da vontade reveste-se inteiramente de ilicitude, pois
transgrede um dever de conduta, considerado correto a uma pacífica convivência social. 40
Sua conceituação legal está descrita no art. 186 do Código Civil de 2002, que descreve
com precisão, sem deixar margem de dúvidas, os pressupostos para sua ocorrência.
Cabe destacar o ensinamento do Ilustre Silvio de Salvo Venosa:

Os atos ilícitos são os que promanam direta ou indiretamente da vontade e ocasionam


efeitos jurídicos, mas contrários ao ordenamento. O ato voluntário é, portanto, o

38
GAGLIANO. Pablo Stolze e PAMPLONA FILHO. Rodolfo. Novo Curso de Direito Civil. São Paulo:Saraiva,
2003, v. 3, p. 29.
39
VENOSA. Silvo de Salvo. Direito Civil: Direito de Família. v. 6. 13. ed. São Paulo: Atlas 2013. p. 24.
40
VENOSA. Op. Cit.
31

primeiro pressuposto da responsabilidade civil. 41

Diante do explanado, se percebe que a conduta antijurídica se constitui em primeiro


passo a propiciar o nascimento da obrigação de indenizar, pois através dela surge o dano a
direitos alheios, que são dignos de devida reparação por quem os causou.

2.4.1.2. Culpa

Inicialmente, é relevante lembrar que não é suficiente para que se caracterize a obrigação
de indenizar apenas a conduta revestida de ilicitude que viole direito alheio e subjetivo. Há a
essencial necessidade de se comprovar que este indivíduo agiu com imprudência, negligência
ou imperícia conforme estabelece o art. 186 do CC/02.
Assim, a culpa pode ser entendida como a inobservância de um dever de conduta que se
esperava ser de conhecimento do agente. Então, se deve ter sempre em mente o modelo do
homem médio, deste modo, se compara a conduta realizada com a conduta aceitável no meio
social em situação idêntica a vivenciada pelo agente. Buscando-se com isso um parâmetro para
se verificar se o indivíduo agiu revestido de imprudência, negligência ou imperícia, pois
somente assim se extrai a reprovabilidade da conduta. Pautando-se no fato de deixar de agir
com a diligência social média que lhe é exigida durante sua existência. 42
José Aguiar Dias, auxiliará no entendimento com sua ilustre explanação:

A culpa é a falta de diligência, na observância de norma de conduta, isto é, o desprezo,


por parte do agente, do esforço necessário para observá-la, com resultado não
objetivado, mas previsível, desde que o agente se detivesse na consideração das
consequências eventuais de sua atitude.43

Desta forma, para se obter a comprovação da culpa inerente à conduta, é necessário


demonstrar a violação ao dever de diligência previamente estabelecido que ignorado
proporciona a ocorrência de um dano previsível, que por sua vez, poderia ter sido evitado se as
medidas necessárias tivessem sido seguidas.
Contudo, na seara civil a culpabilidade ora estudada alcança o dolo e a culpa e a
quantificação da indenização dele proveniente é estipulada de acordo com os danos e prejuízos

41
VENOSA. Op. Cit.
42
VENOSA. Silvo de Salvo. Direito Civil: Direito de Família. v. 6. 13. ed. São Paulo: Atlas 2013. p. 25.
43
DIAS. José de Aguiar. Da Responsabilidade Civil. v. 2. 6. ed. Rio de Janeiro: Forense 1979. p. 136.
32

acarretados.
Nesse sentido, Silvio de Salvo Venosa inteligentemente aduz que:

A culpa em sentido amplo abrange não somente o ato ou conduta intencional, o dolo
(delito, a origem semântica e histórica romana), mas também os atos ou conduta
eivados de negligência, imprudência ou imperícia, qual seja a culpa em sentido estrito
(quase delito). Essa distinção entre dolo e culpa ficou conhecida no Direito Romano,
e assim foi mantida no Código francês e em muitos outros diplomas, como delitos e
quase-delitos. Essa distinção modernamente, já não possui maior importância no
campo da responsabilidade. Para fins de indenização, importa verificar se o agente
agiu com culpa civil, em sentido lato, pois, como regra, a intensidade do dolo ou da
culpa não deve graduar o montante da indenização, embora o presente Código
apresente dispositivo neste sentido (art. 944, parágrafo único). A indenização deve ser
balizada pelo efeito do prejuízo.44

Com isso, se encontra presente a culpa stricto sensu ou aquiliana, que traz em seu bojo
a imprudência, negligência e a imperícia como formas de sua exteriorização.
Cabe transcrever o entendimento de Carlos Roberto Gonçalves, para uma melhor
compreensão:

Pode-se afirmar, que a imprudência é conduta positiva, consistente em uma ação da


qual o agente deveria abster-se, ou em uma conduta precipitada. Por exemplo, o
condutor de um automóvel ingere bebidas alcoólicas antes de dirigir; um médico dá
uma injeção no paciente sem verificar previamente se este é ou não alérgico ao
medicamento.
A negligência consiste em uma conduta omissiva: não tomar as precauções
necessárias, exigidas pela natureza da obrigação e pelas circunstâncias, ao praticar
uma ação. Por exemplo, a pessoa que faz uma queimada e se afasta do campo sem
verificar se o fogo está completamente apagado.
Por fim, imperícia é a incapacidade técnica para o exercício de uma determinada
função, profissão ou arte. Por exemplo um médico que desconhece que determinado
medicamento pode produzir reações alérgicas, não obstante essa eventualidade estar
cientificamente comprovada.45

Diante de todo o aludido, é imprescindível a constatação inequívoca da culpa inerente a


conduta do agente, seja mediante imprudência, imperícia ou negligência, pois se trata de
requisito elementar à devida incidência do dever de indenizar, como eficazmente preceitua o
art. 186 do Código Civil.

44
VENOSA. Op. Cit. p. 26.
45
GONÇALVES. Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro. v. 4: Responsabilidade Civil. 7. ed. São Paulo: Saraiva.
2012.
33

2.4.1.3. Dano

O termo dano advém do latim damno, e consiste no efetivo prejuízo suportado pela
vítima, podendo versar sobre perda ou deterioração de bens, ou seja, danos patrimoniais, como
também à violação de direitos de índole psíquica, moral ou intelectual do indivíduo, surgindo a
figura do dano moral.
Sua real importância centra-se no fato de que somente o ato ilícito não é suficiente para
fazer surgir o dever de indenizar. Por esta razão, é fundamental que este ato tenha proporcionado
um dano, pois nem sempre a inobservância de uma norma de conduta ocasiona prejuízos. 46
Assim, conforme Sílvio de Salvo Venosa:

Trata-se, em última análise, em última análise de interesses que são atingidos


injustamente. O dano ou interesse deve ser atual e certo; não sendo indenizáveis, a
princípio, danos hipotéticos. Sem dano ou sem interesse violado, patrimonial ou
moral, não se corporifica a indenização. A materialização do dano ocorre com a
definição do efetivo prejuízo suportado pela vítima. 47

Com isso, fica nítido que a constatação do dano é imprescindível à existência da


consequente indenização.
Na oportunidade, o presente estudo, por suas peculiaridades, apreciará somente a
incidência de danos na seara moral do indivíduo, vez que, se centra na esfera individual e
psíquica o objeto do estudo em tela, onde as questões relacionadas à indenização estão
intimamente ligadas a danos à personalidade humana. Com isso, passa-se a discorrer acerca dos
danos morais no item subsequente.

2.4.2. Do dano moral

A Constituição Federal de 1988 resguardou expressamente os direitos da personalidade


dos indivíduos em seu art. 5°, incisos V e X, bem como, o Código Civil de 2002, em seu art.
186, assim, a legislação Constitucional e Infraconstitucional estabeleceram o direito à
indenização decorrente de danos no âmbito material e moral. Desta forma, o dano material ou
moral por violação à intimidade, à vida privada, à honra, à imagem e à dignidade da pessoa

46
VENOSA. Silvo de Salvo. Direito Civil: Direito de Família. v. 6. 13. ed. São Paulo: Atlas 2013. p. 37.
47
VENOSA. Op. Cit.
34

humana foram resguardados.48


Deste modo, se pode compreender o dano moral como a ofensa aos direitos da
personalidade, atingindo o indivíduo em sua esfera íntima como pessoa e não lesando seu
patrimônio.49
Para Sílvio de Salvo Venosa:

Dano moral é o prejuízo que afeta o ânimo psíquico, moral e intelectual da vítima.
Sua atuação é dentro dos direitos da personalidade. Nesse campo, o prejuízo transita
pelo imponderável, daí porque aumentam as dificuldades de se estabelecer a justa
recompensa pelo dano. Em muitas situações cuida-se de indenizar o inefável. Não é
também qualquer dissabor comezinho da vida que pode acarretar a indenização. Aqui,
também é importante o critério objetivo do homem médio, o bônus pater famílias: não
se levará em conta o psiquismo do homem excessivamente sensível, que se aborrece
com fatos diuturnos da vida, nem o homem de pouca ou nenhuma sensibilidade, capaz
de resistir sempre às rudezas do destino. Nesse campo, não há formulas seguras para
auxiliar o juiz. Cabe ao magistrado sentir em cada caso o pulsar da sociedade que o
cerca. O sofrimento como contraposição reflexa da alegria é uma constante do
comportamento humano universal. 50

Nessa acepção, Carlos Roberto Gonçalves considera que:

O dano moral não é propriamente a dor, a angústia, o desgosto, a aflição espiritual, a


humilhação, o complexo que sofre a vítima do evento danoso, pois esses estados de
espírito constituem o conteúdo, ou melhor, a consequência do dano. A dor que
experimentam os pais pela morte violenta do filho, o padecimento ou complexo de
quem suporta um dano estético, a humilhação de quem foi publicamente injuriado são
estados de espírito contingentes e variáveis em cada caso, pois cada pessoa sente a
seu modo.51

Nessa linha de raciocínio, Carlos Alberto Bittar expõe que:

(...) os danos morais são lesões sofridas pelas pessoas, físicas ou jurídicas, em certos
aspectos de sua personalidade, em razão de investidas injustas de outrem. São aqueles
que atingem a moralidade e a afetividade da pessoa, causando-lhe constrangimentos,
vexames, dores, enfim sentimentos e sensações negativas. Contrapõem-se aos danos
denominados materiais, que são prejuízos suportados no âmbito patrimonial do
lesado. Conclui-se que o dano consiste na lesão sofrida pela pessoa física em seu foro
íntimo provocado por outrem. Aplica-se a pessoa jurídica também. 52

48
TEIXEIRA. Ana Carolina Brochado. Responsabilidade Civil: Revista Brasileira de Direito de Família. v. 1.
ed. 1. Pouso Alegre: Síntese, IBDFAM 1999. p. 142.
49
GONÇALVES. Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro. v. 4: Responsabilidade Civil. 7. ed. São Paulo: Saraiva.
2012.
50
VENOSA. Silvo de Salvo. Direito Civil: Direito de Família. v. 6. 13. ed. São Paulo: Atlas 2013. p. 46.
51
GONÇALVES. Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro. v. 4: Responsabilidade Civil. 7. ed. São Paulo: Saraiva.
2012.
52
BITTAR. Carlos Alberto. Danos Morais: Critérios e sua fixação. V. 15. São Paulo: Repertório IOB 1993. p.
293.
35

Assim, relevante se faz destacar que, se caracteriza como dano moral, aquele dano apto
a ocasionar ao ofendido um comportamento completamente desconforme com seus atos
cotidianos, ou seja, repercute em seu comportamento psicológico.
Nesse sentido é a compreensão de Sílvio de Salvo Venosa:

O dano moral abrange também e principalmente os direitos da personalidade em geral,


direito à imagem, ao nome, à privacidade, ao próprio corpo etc. Por essas premissas,
não há que se identificar o dano moral exclusivamente como dor física ou psíquica.
Será moral, o dano que ocasionar um distúrbio anormal na vida do indivíduo; uma
inconveniência de comportamento ou, como definimos, um desconforto
comportamental a ser examinado em cada caso. 53

Contudo, a dor moral ainda que não acarrete alterações de ordem psíquica é apta a
acarretar a consequente indenização, pois o dano moral alcança em sentido lato a dor, o
sofrimento, o padecimento moral, não somente o surgimento em variações psíquicas são
indenizáveis. Por isso, o consequente desconforto anormal é passível de indenização. 54
Desta maneira, cumpre salientar que o indivíduo desde o princípio de sua existência
possui bens de índole material e imaterial, razão pela qual, goza de tutela do Estado tanto no
aspecto objetivo quanto subjetivo. Com isso, salienta-se que a seara imaterial do homem requer
uma precisa atenção, pois cuida dos valores mais íntimos do ser, valores estes que são inerentes
a todos devido à própria condição de seres humanos dotados de dignidade humana.
Por estes motivos, todos os direitos concernentes ao homem possuem a devida tutela
constitucional e infraconstitucional, de forma nítida e eficaz à assegurar o direito à devida
indenização por violação a qualquer destes direitos juridicamente tutelados.
Por tais razões, pode-se constatar que o dano à seara moral diz respeito à violação de
bens imensuráveis, irrenunciáveis e personalíssimos, pois são atinentes à individualidade do ser
humano e possuem natureza imaterial. Por este fato, torna-se impossível conversão em pecúnia
de forma imediata, pois há que se verificar primeiramente a extensão do dano sofrido. No
entanto, a condenação possui um conteúdo com o fim satisfatório e não reparatório.
Em consonância com o exposto, Silvio Cavalieri Filho entende que:

Em razão de sua natureza imaterial, o dano moral é insusceptível de avaliação


monetária, podendo apenas ser compensado com a obrigação pecuniária imposta ao
causador do dano, sendo esta mais uma satisfação do que uma indenização. 55

De fato, as indenizações por danos exclusivamente imateriais buscam primordialmente

53
VENOSA. Silvo de Salvo. Direito Civil: Direito de Família. v. 6. 13. ed. São Paulo: Atlas 2013. p. 47.
54
VENOSA. Silvo de Salvo. Op. Cit. p. 49.
55
FILHO. Sérgio Cavalieri. Programa de Responsabilidade Civil. 8 ed. São Paulo: Atlas 2009. p. 80-81.
36

reparar a dignidade humana ora aviltada. Nessa situação a indenização assume caráter de defesa
destes valores inerentes ao ser.
O autor Clayton Reis em sintonia com o raciocínio acima exposto acredita que:

Há componentes de natureza axiológica, se atentarmos para o fato de que o ato de


reparar ou refazer o patrimônio do ofendido não representa apenas um dever funcional
da responsabilidade civil, especialmente no plano das indenizações situadas na esfera
dos danos não patrimoniais. Aqui, o que se repara é a dignidade da pessoa ofendida.
Nesse caso, a indenização assume uma importante função em defesa de novos
valores.56

Contudo, é importante ressaltar que até a promulgação da Constituição Federal de 1988,


havia uma intensa discussão acerca da aplicabilidade da responsabilidade civil, ou seja, do
dever de indenizar no âmbito moral, pois se acreditava que estes danos eram insuscetíveis de
reparação. Porém, após a entrada em vigor da respectiva Constituição, esta consolidou o
entendimento de que estes danos imateriais são passiveis de indenização, assim a discussão
passou a situar-se nos limites e formas de indenização. 57
Tal posicionamento pauta-se na questão incontestável de que nenhum dano ou ofensa
pode ficar sem a competente reparação, pois sua devida satisfação pode minimizar os efeitos
devastadores da conduta danosa.
Antônio Jeová dos Santos, aponta que:

O direito deve colocar instrumentos à disposição de quem sofreu violação para não
permitir nenhuma intromissão indevida ou injusta à pessoa. A consciência de
cidadania e de dignidade pessoal conduzem a uma mais forte auto- estima e
preservação de valores que emergem do ser mesmo do homem. 58

Ainda, mister se faz salientar que há uma dupla função no que tange a indenização por
danos morais. A primeira consiste na função compensatória que surge antes mesmo da
reparatória, desta forma se busca primeiramente satisfazer o ofendido do dano suportado. 59
Há também a função punitiva que pretende reprimir o agente causador do dano pela
conduta danosa realizada. Assim sendo, não se restringe ao mero ressarcimento dos danos como
ocorre na esfera patrimonial.
Nesse sentido, destaca-se que a função compensatória visa neutralizar as consequências
e sofrimentos ocasionados. Já o caráter punitivo é um reflexo daquela e possui uma função

56
REIS. Clayton. Avaliação do Dano Moral. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense 200. p. 101.
57
VENOSA. Silvo de Salvo. Direito Civil: Direito de Família. v. 6. 13. ed. São Paulo: Atlas 2013. p. 313.
58
SANTOS. Antônio Jeová. Dano Moral. 3. ed. São Paulo: Método. 2001. p. 40.
59
VENOSA. Op. Cit. p. 318.
37

secundária de determinar uma pena ao agente, como também de desestímulo da conduta lesiva.
Porém, a função principal da Responsabilidade Civil é sem dúvida sempre a compensação do
dano.
Em suma, Ávio Brasil conclui que:

Diversamente, a sanção do dano moral não se resolve numa indenização propriamente


dita, já que a indenização significa eliminação do prejuízo e das consequências, o que
não é possível quando se trata de dano extrapatrimonial; a sua reparação se faz através
de uma compensação, e não de um ressarcimento, impondo ao ofensor a obrigação de
pagamento de uma certa quantia de dinheiro em favor do ofendido, ao mesmo tempo
que agrava o patrimônio daquele, proporciona a este uma reparação satisfativa. 60

Acrescenta-se, que há a função dissuasória acatada por diversos doutrinadores, revestida


de cunho educativo e pedagógico, visando repercutir de forma direita na sociedade, inibindo os
cidadãos da pratica de novos atos antijurídicos. Assim, quando se vislumbra as consequências
do ato danoso, passa-se a refletir mais a respeito das condutas praticadas no meio social. 61
Nessa linha de entendimento, Cayton Reis:

Não resta dúvida que a função de dissuasão é importante, enquanto seja capaz de
produzir efeitos no espírito lesionador, uma vez que concorre para a mudança do seu
comportamento ofensivo no que tange à pratica de novos atos antijurídicos. Assim,
tendo conhecimento antecipado das consequências que seu ato danoso será capaz de
produzir, bem como dos inevitáveis resultados sobre a sua pessoa e patrimônio, o
agente lesionador avaliará o seu comportamento antissocial de forma a refreá-lo,
evitando novos agravos a outrem.62

De qualquer forma, o magistrado, no instante de fixação do quantum indenizatório, deve


se atentar aos critérios da razoabilidade e proporcionalidade, assim, aponta Silvio de Salvo
Venosa:

De qualquer modo, é evidente que nunca atingiremos a perfeita equivalência entre a


lesão e a indenização, por mais apurada e justa que seja a avaliação do magistrado,
não importando também que existam ou não artigos de lei apontando parâmetros. Em
cada caso deve ser aferido o conceito de razoabilidade. 63

Já para Clayton Reis:

Deverá sopesar que está avaliando não bem patrimonial, que nesse caso apenas
exigiria um raciocínio meramente aritmético, mas valorando os sentimentos das
pessoas, devendo fazê-lo como se fora o seu próprio. A dor, a humilhação, o vexame,

60
BRASIL. Ávio. O Dano Moral no direito brasileiro. Rio de Janeiro: Livraria Jacinto Editora 1944. p. 42.
61
VENOSA. Silvo de Salvo. Direito Civil: Direito de Família. v. 6. 13. ed. São Paulo: Atlas 2013. p. 319.
62
REIS. Clayton. Avaliação do Dano Moral. Rio de Janeiro: Forense 2003. p. 161.
63
VENOSA. Op. Cit. p. 318.
38

a aflição, a angustia, a devassidão da privacidade, o estado emocional de tensão, são


todos sentimentos angustiantes que oprimem e deprimem as pessoas, produzindo
inúmeros reflexos na vida de relações, e por consequência causando imediatas
perturbações na ordem social. 64

Portanto, para a aplicação do quantum indenizatório deverá se levar em conta a busca


de um equilíbrio do caso posto a apreciação, avaliando-se a condição econômica e social dos
envolvidos na divergência para que não ocorra em nenhuma hipótese locupletamento ilícito ou
estabelecimento de valor irrisório. No entanto, se trata de tarefa com elevado grau de
dificuldade, pois há significativa problemática na mensuração do montante da indenização,
pois, como cuida de questões que até a própria vítima considera difícil avaliar a extensão do
dano, imagine terceiros incumbidos desta tarefa de julgar e estabelecer o valor. 65
Nesse diapasão, cabe mencionar que, o dano imaterial para que possa ser comprovado,
poderá recorrer a laudos psicológicos, em certos casos prova testemunhal para que se possa
obter uma proximidade tendente a quantificação do valor ideal, já que para se alcançar tal
proximidade a atividade exercida pelo juiz é puramente discricionária, ao passo que não existem
critérios objetivos preestabelecidos. 66
No que tange à aplicabilidade da indenização por danos morais, como quotidianamente
são aportadas ao judiciário questões referentes à aplicabilidade da responsabilidade civil
decorrente de danos ocorridos no âmbito das relações virtuais, haja vista sua significativa
expansão no decorrer dos últimos anos, o presente trabalho se ateve a explorar esta
problemática.
Assim sendo, cabe frisar que este cenário se constitui em local propício à ocorrência de
determinadas situações que levam à violação de direitos imateriais, devido à grande prevalência
de subjetividade que cerca as relações daí advindas, razão pela qual, se passará em breve a
discorrer a respeito da incidência do instituto da responsabilidade civil neste âmbito.

2.4.3. Nexo de Causalidade

O nexo de causalidade trata-se de pressuposto indispensável à caracterização da


responsabilidade civil, tanto na forma objetiva quanto subjetiva.
Assim, a relação de causalidade se traduz no liame existente entre a conduta ilícita e o

64
REIS. Clayton. Os novos rumos da indenização por dano moral. Rio de Janeiro: Forense 2002 p. 229.
65
VENOSA. Silvo de Salvo. Direito Civil: Direito de Família. v. 6. 13. ed. São Paulo: Atlas 2013. p. 49.
66
VENOSA. Op. Cit.
39

resultado danoso, por isso, sem sua competente comprovação não há que se cogitar a
possibilidade de indenização, pois se encontrará prejudicado o direito ao ressarcimento da
vítima.
Nesse sentido, é pertinente ressaltar que uma das finalidades principais e onde reside a
maior importância deste elemento, está no fato de que, somente através da comprovação de
união dos dois requisitos, a saber: ato ilícito e dano superveniente, é que se atribui a obrigação
de reparar a quem ocasionou o evento danoso.
Como é expressamente exigido pelo Código Civil vigente em seu art. 186, onde
estabelece a obrigação de reparar o dano àquele que por ação ou omissão voluntária infringir o
que é previamente estabelecido nos ditames legais, e, mediante esta ação violar direitos de
outrem e causar danos. Desta forma, se atribui devidamente a responsabilidade de reparação a
quem de fato deu causa ao resultado lesivo. 67
Nesse contexto, Silvio de Salvo Venosa assevera que:

É o liame de ligação que une a conduta do agente ao dano. É por meio do exame da
relação causal que se conclui quem foi o causador do dano. Trata-se de elemento
indispensável. 68

Resta então ressaltar que, a confirmação do vínculo entre a conduta e o resultado trata-
se de tarefa de difícil aferição, pois diversas vezes não se consegue determinar o que e quem
deu origem ao dano, devido ao grau de dificuldade de sua verificação. Por fim, fica evidente
que, após e tão somente com a competente comprovação, nasce a obrigação indenizatória ao
agente causador dos prejuízos.

2.4.4. Responsabilidade Civil dos Provedores de Internet

É sabido, que cada provedor possui a responsabilidade de fornecer aos destinatários


finais uma espécie de serviço. Com isso, a análise do dano suportado é imprescindível para se
constatar qual ou quais são os responsáveis por repará-los.
O instituto da responsabilidade civil possui como fim primordial a reparação dos danos
ocasionados, mas há também o fim secundário que por sua vez se pauta na inibição de condutas
semelhantes.
Deste modo, todo dano causado deve ser reparado, não importando o âmbito em que

67
VENOSA. Silvo de Salvo. Direito Civil: Direito de Família. v. 6. 13. ed. São Paulo: Atlas 2013. p. 53.
68
VENOSA. Op. Cit.
40

fora perpetrado. Assim, no que diz respeito a responsabilidade dos provedores de internet,
deve haver uma análise afim de se verificar qual sujeito causou o dano, para que se possa
encontrar o provedor responsável, havendo a responsabilização individual ou solidária a
depender do caso. Pautando-se a análise em especial ao provedor de acesso.
Ademais, como será minuciosamente demonstrado no próximo capitulo, esses casos
requerem uma análise cuidadosa, pois muitas vezes há a responsabilização sem a apuração de
culpa do agente. Como se passa a expor adiante.
41

3. DA RESPONSABILIDADE CIVIL DOS PROVEDORES DE CONTEÚDO

Enfim, se chega a abordagem do tema principal do presente trabalho, qual seja, a


responsabilidade civil dos provedores de conteúdo, que como já mencionado cuidam de efetuar
a disponibilização das informações na internet, realizando a função essencial de controle
editorial destas informações, razão pela qual, sua responsabilidade é maior e mais relevante que
a dos demais provedores.
Cumpre ressaltar que todos os provedores de serviço de internet devem se atentar a
atender deveres que lhes são impostos para a execução de seus serviços, tais como: o
desenvolvimento de atividades com utilização de tecnologias apropriadas para os fins que se
destinam; o conhecimento e zelo pelo o sigilo e dados de seus usuários; a manutenção das
informações por tempo determinado; a vedação ao monitoramento de dados e conexões em seus
servidores; a vedação a censura e a obrigação de informar em face de eventuais ilícitos
cometidos por usuários. 69
Deste modo, a responsabilidade civil destes provedores em casos de descumprimento
dos supracitados deveres na maioria das vezes é objetiva, uma vez que no desenvolvimento de
suas atividades assumem o risco de lesionarem direitos alheios de índole personalíssima.
Nesse sentido é o entendimento de Sílvio de Salvo Venosa, acerca da responsabilidade
objetiva:

Ao se analisar a teoria do risco, mais precisamente a teoria do risco criado, nessa fase
da responsabilidade civil e pós-modernidade, o que se leva em conta é a
potencialidade de se ocasionar danos, a atividade ou conduta do agente que resulta,
por si só a exposição ao perigo, noção introduzida pelo Código Civil italiano em
1942. 70

Cumpre salientar que, o ato perpetrado pode advir de atos próprios dos provedores, bem
como de terceiros, pois poderá haver a co-responsabilização, nas circunstâncias em que a
identificação ou localização deste terceiro se tornar impossível devido a omissão do provedor,
ou ainda quando o ato danoso deixar de ser prevenido ou interrompido em razão de falha ou
defeito. 71
Nessa acepção, no que se refere especificamente ao provedor de conteúdo, tema central

69
ARAÚJO. Laíss Targino Casullo de. Responsabilidade Civil dos Provedores de Conteúdo de internet.
Disponível em: http://www.ambito-juridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=10422.
Acesso em 25 de setembro de 2016.
70
VENOSA. Silvio de Salvo. Responsabilidade Civil. v. 4. 12 ed. São Paulo: Atlas. 2012. p. 10.
71
ARAÚJO. Op. Cit.
42

do presente estudo, existem casos em que este não desenvolve controle editorial prévio, ou seja,
não desempenha o papel de optar ou não pela disponibilização do conteúdo, assim não haverá
a responsabilização objetiva, por atos de terceiros, exceto, se notificado acerca da ilicitude do
conteúdo publicado, permanecer inerte, não a removendo ou a bloqueando em tempo hábil.
Desta forma, a responsabilização do provedor de conteúdo em uma primeira análise
pauta-se na existência ou não do controle prévio da informação a ser disponibilizada, pois caso
este controle não ocorra a responsabilização recairá unicamente no terceiro, autor do conteúdo,
haja vista que, a função do provedor de conteúdo nestes casos constitui-se exclusivamente em
armazenar o conteúdo para aceso dos demais usuários.
Nesse sentido é o entendimento de Laíss Targilo Casullo de Araújo:

(...)Analisando primordialmente a autoria do ilícito, identifica-se uma divisão


doutrinária que distingue quando o ato lesivo vem a ser provocado pelo próprio
provedor de conteúdo, ou quando se dá por ação de terceiros. Nesse esteio, ocorrendo
dano, quando o conteúdo for próprio do provedor, ou seja, tiver a autoria das notas,
artigos e notícias os quais necessariamente vêm a ser criadas por prepostos da própria
empresa, atuando também como provedor de informação, varia-se o dano e a
obrigação de reparar de acordo com a natureza do conteúdo ilícito, que determinará a
aplicação das respectivas sanções. Nesses casos, os provedores de conteúdo são
diretamente responsáveis pelo teor disponibilizado na rede, motivo pelo qual se aplica
a responsabilidade de forma objetiva, incidindo nas previsões legais do Código Civil
e Código Consumerista, bem como nas legislações específicas às particularidades de
cada ato danoso.72

Nesse diapasão, cumpre ressalvar que, havendo controversas a respeito da ilicitude do


conteúdo publicado na internet e não havendo violação dos termos de serviços previstos em
contrato e estando devidamente cumpridos os deveres inerentes às atividades desenvolvidas
pelos provedores, estes não devem remover a informação de imediato, mas sim aguardarem o
posicionamento do Poder Judiciário, a quem cabe decidir se houve práticas passíveis de lesionar
direitos alheios e determinar conforme o caso as providências necessárias para impedir o
prolongamento das consequências danosas do ato ilícito. 73
Assim, a responsabilidade civil não recairá no provedor que não tenha conhecimento
efetivo que a atividade ou informação divulgada é ilícita. Todavia, nos casos em que o provedor
é cientificado pelo ofendido da ocorrência de exibição de conteúdo ofensivo, o provedor deverá
baixar a página, excluir, etc. Contudo, nos casos em que há divergência de opiniões, quem é
competente para solucionar o impasse é somente o Judiciário. 74

72
ARAÚJO. Op.cit.
73
LEONARDI, Marcel. Responsabilidade civil dos provedores de serviços de Internet. São Paulo: Juarez de
Oliveira, 2005. p. 182.
74
SANTOS, Antônio Jeová. Dano Moral na Internet.São Paulo: Método, 2001, p122-123.
43

Destarte, resta evidente que a responsabilização do provedor de conteúdo deve ser feita
de forma subjetiva, quando o conteúdo disponibilizado não passa por uma análise prévia destes.
Sendo assim, nestes casos deve haver de fato a comprovação da culpa, caracterizada pela
omissão/negligência dos provedores de conteúdo em casos que embora notificados da
existência de conteúdo ofensivo em sua página permanecem inertes quanto a retirada deste.
E é exatamente nesse sentido o entendimento do Superior Tribunal de Justiça no
Julgamento do Recurso Especial, de relatoria do Ministro Paulo de Tarso Sanseverino, in verbis:

RECURSO ESPECIAL. DIREITO CIVIL E DO CONSUMIDOR.


RESPONSABILIDADE CIVIL. INTERNET. PORTAL DE NOTÍCIAS. RELAÇÃO
DE CONSUMO. OFENSAS POSTADAS POR USUÁRIOS. AUSÊNCIA DE
CONTROLE POR PARTE DA EMPRESA JORNALÍSTICA. DEFEITO NA
PRESTAÇÃO DO SERVIÇO. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA PERANTE A
VÍTIMA. VALOR DA INDENIZAÇÃO.
1. Controvérsia acerca da responsabilidade civil da empresa detentora de um portal
eletrônico por ofensas a honra praticadas por seus usuários mediante mensagens e
comentários a uma notícia veiculada.
2. Irresponsabilidade dos provedores de conteúdo, salvo se não providenciassem a
exclusão do conteúdo ofensivo após notificação. Precedentes.
3. Hipótese em que o provedor de conteúdo é empresa jornalística, profissional da
área de comunicação, ensejando a aplicação do Código de Defesa do Consumidor.
4. Necessidade de controle efetivo, prévio ou posterior, das postagens divulgadas
pelos usuários junto a empresa em que é publicada a notícia.
5. Ausência de controle configura defeito de serviço.
6. Responsabilidade solidária da empresa gestora do portal eletrônico perante a vítima
das ofensas.
7. Manutenção do quantum indenizatório a título de danos morais por não se mostrar
exagerado (Súmula 7/STJ).
8. RECURSO ESPECIAL DESPROVIDO. (REsp 1352053/AL, Rel. Ministro Paulo
de Tarso Sanseverino, Terceira Turma, j. 24/03/2015, DJe 30/03/2015). 75

Em consonância com o supratranscrito posicionamento é o entendimento exarado pelo


Ministro Marcos Buzzi, no Julgamento do AgRg no AREsp 495503 / RS, a saber:

AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO (ART.544 CPC) – AÇÃO


INDENIZATÓRIA POR DAN MORAL – CRIAÇÃO DE PERFIL FALSO EM SÍTIO
DE RELACIONAMENTO (ORKUT) – AUSÊNCIA DE RETIRADA IMEDIATA
DO MATERIAL OFENSIVO- DESÍDIA DO RESPONSÁVEL PELA PÁGINA NA
INTERNET – SÚMULA Nº 7 STJ – DECISÃO MONOCRÁTICA NEGANDO
PROVIMENTO AO RECURSO – INSURGÊNCIA DA RÉ.
1. Violação do art. 535, do Código De Processo Civil, não configurada. Acórdão
Estadual que enfrentou todos os aspectos essenciais a resolução da controvérsia.
2. O dano moral decorrente de mensagem com conteúdo ofensivo inseridas no site

75
BRASIL. SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. REsp 495503/RS. Terceira Turma Recursal. Rel. Ministro
24/03/2015. Paulo de Tarso Sanseriano. Disponível em:
http://www.stj.jus.br/SCON/jurisprudencia/toc.jsp?tipo_visualizacao=&livre=dano+moral++e+provedor+de+con
teudo&b=ACOR&p=true&t=JURIDICO&l=10&i=1Acesso em 10 de setembro de 2016.
44

pelo usuário não constitui risco inerente à atividade dos provedores de conteúdo, de
modo que não lhes aplica a responsabilidade civil objetiva prevista no art. 927,
parágrafo único, do CC/02.
Ao ser comunicado de que determinado texto ou imagem possui conteúdo ilícito, deve
o provedor agir de forma enérgica, retirando o material do ar imediatamente, sob pena
de responder solidariamente com o autor direto do dano, em virtude da omissão
praticada.
3. Revela-se inviável o exame da tese fundada na existência de desídia recorrente ao
não retirar o perfil denunciado como falso e com conteúdo ofensivo, porque
demandaria a reanalise de fatos e provas providência vedada a essa Corte, em sede se
recurso especial, nos termos da Súmula 7/STJ.
4. A indenização por danos morais fixada enquanto sintonizada ao princípio da
razoabilidade, não enseja a possibilidade de interposição de recurso especial, dada a
necessidade de exame de elementos de ordem fática, cabendo sua revisão apenas em
casos de manifesta excessividade ou irrisoriedade do valor arbitrado. Incidência da
Súmula 7/STJ.
5. Agravo Regimental desprovido. (AgRg no REsp 495503/RS, Rel. Ministro
MARCOS BUZZI, Quarta Turma, j. 26/05/2015, DJe 01/06/2015). 76

Portanto, para ocorrer a responsabilização do provedor de conteúdo nestes casos, com o


consequente dever de indenizar, a culpa deve ser comprovada, tendo em vista cuidar-se de
responsabilidade civil subjetiva.
Nessa acepção, é sabido que é comum ocorrer a publicação das informações pelo
provedor de conteúdo produzidas por seus usuários ou terceiros, como ocorre em sites de
relacionamento (facebook, instagram, twitter), blogs, fóruns, dentre outros. Assim, nesses
casos, quem de fato possui a autoria das informações publicadas, sejam vídeos, textos, áudios,
imagens, de cunho difamatório tendentes a ocasionar danos psíquicos são pessoas físicas ou
jurídicas que as realizaram. Destarte, o provedor de conteúdo não exerce como de habitual o
controle editorial acerca do material disponibilizado, portanto, não é responsabilizado.
A propósito, acerca da fiscalização prévia do conteúdo postado nos sites pelos usuários,
entende o Superior Tribunal de Justiça:

AGRAVOS REGIMENTAIS NO RECURSO ESPECIAL E NO RECURSO


ADESIVO. CIVIL E CONSUMIDOR. RESPONSABILIDADE CIVIL.
PROVEDOR DE INTERNET. RELAÇÃO DE CONSUMO. INCIDÊNCIA CDC.
PROVEDOR DE CONTEÚDO. FISCALIZAÇÃO PRÉVIA DO TEOR DAS
INFORMAÇÕES POSTADA NOS SITES PELOS USUÁRIOS. DANO MORAL.
RISCO INERENTE AO NEGÓCIO. CIÊNCIA DA EXISTÊNCIA DE CONTEÚDO
ILÍCITO. UTILIZAÇÃO PELO LESADO DE DENÚNCIA DISPONIBILIZADA
PELO PRÓPRIO PROVEDOR. FALHA NA PRESTAÇÃO DO SERVIÇO.
QUANTUM ARBITRADO COM RAZOABILIDADE. SÚMULA 07 E 83/STJ.
AGRAVOS REGIMENTAIS DISPROVIDOS. 77

76
BRASIL. SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. Ag REsp 495503/RS. Quarta Turma Recursal. Rel. Ministro
Marcos Buzzi. 26/05/2015. Disponível em:
http://www.stj.jus.br/SCON/jurisprudencia/toc.jsp?tipo_visualizacao=&livre=dano+moral++e+provedor+de+con
teudo&b=ACOR&p=true&t=JURIDICO&l=10&i=1Acesso em 10 de setembro de 2016.
77
BRASIL. SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. AgRg no REsp 1349961 / MG. Terceira Turma Recursal.
Rel. Ministro Paulo de Tarso Sanseverino. 16/09/2014. Disponível em:
http://www.stj.jus.br/SCON/jurisprudencia/toc.jsp?tipo_visualizacao=&livre=dano+moral++e+provedor+de+con
45

Todavia, caso haja a publicação de conteúdo danoso e sendo o provedor de conteúdo


notificado, e a partir daí realizando a remoção dos perfis em tempo razoável, não se poderá falar
em responsabilidade de reparar o dano por parte do referido provedor, uma vez que não existe
razão para a responsabilização ou co-responsabilização. Destarte, quem deverá reparar o dano
será de fato quem o perpetrou.
Isto posto, resta claro que para se analisar e chegar à conclusão de qual espécie de
responsabilidade civil será aplicada no caso concreto, cabe primeiramente realizar uma análise
da autoria do material disponibilizado, pois como já discorrido anteriormente estas informações
podem ser de cunho próprio do provedor de conteúdo, casos em que exercem a fiscalização
prévia, ou de terceiros, com isso, ocasionará em cada caso uma espécie de responsabilização
distinta.
De arremate, imperioso se faz destacar que os provedores de conteúdo são de fato
prestadores de serviços, de modo que os conflitos envolvendo o indevido uso do meio digital,
devem se atentar aos princípios e ditames estabelecidos pela legislação pátria (Constituição
Federal, Código Civil, Código de Defesa do Consumidor), e especialmente a Lei 12.965/2014,
comumente chamada de “Marco Civil da Internet”, responsável por regular o uso da internet
no Brasil, afim de que os impasses levados a apreciação do Judiciário sejam solucionados, sem
contudo, violar os direitos fundamentais de liberdade, privacidade e informação assegurados
pela Carta Magna de 1988.

3.1 Do Marco Civil da Internet

A lei 12.965/2014, mais conhecida como o Marco Civil da Internet, é responsável pela
regulamentação do uso da internet no Brasil, mediante a previsão de princípios, garantias
direitos e deveres para quem é usuário da rede, como também a determinação de diretrizes para
a atuação do Estado. 78
As primeiras ideias referentes ao Projeto surgiram no ano de 2007, buscando
regulamentar os crimes cibernéticos, denominada de Lei Azeredo, porém muito criticada e
sendo conhecida como AI-5 digital. Contudo, em 2011, o Marco Civil da Internet foi
apresentado como um projeto de lei do Poder Executivo à Câmara dos Deputados, recebendo o

teudo&b=ACOR&p=true&t=JURIDICO&l=10&i=11 Acesso em : 15 de setembro de 2016.


78
WIKIPÉDIA. Marco Civil da Internet. Disponível em
https://pt.wikipedia.org/wiki/Marco_Civil_da_Internet#Responsabilidade_dos_provedores. Acesso em: 20 de
setembro de 2016.
46

nº PL 2126/2011.
E foi exatamente em 25 de março de 2014 que o projeto fora aprovado na Câmara dos
Deputados e no Sanado Federal em 23 de abril de 2014 e por fim, foi sancionado pela Presidente
à época Dilma Rousseff.
Desta forma, cuida a lei de regulamentar o uso e acesso à internet no país, estabelecendo
para tanto temas referentes a neutralidade da rede, privacidade, retenção de dados. Com isso,
estabeleceu precisamente ditames concernentes a responsabilidade civil dos usuários e
provedores de internet, dispondo a respeito das orientações necessárias para se manter o direito
à liberdade de expressão, bem como a transmissão do conhecimento de maneira correta.
No que se refere a responsabilidade civil dos provedores de conteúdo a Lei tratou de
assegurar que os provedores de internet não serão responsabilizados por danos decorrentes de
conteúdo gerados por terceiros (art. 18), assim sendo, estabeleceu também a liberdade de
expressão com o fim de se evitar a censura, estabelecendo em seu artigo 19 que os provedores
de internet somente serão responsabilizados por danos praticados por terceiros, caso não tomem
as providencias cabíveis para tornar indisponível os conteúdos tidos como ilícitos dentro das
peculiaridades da ordem judicial exarada, como prazo, limites técnicos do serviço e etc.
Assim, continua no parágrafo único, do mesmo dispositivo legal determinando que, a
ordem judicial deve elencar de forma clara a identificação específica do conteúdo apontado
como infringente, afim de permitir a localização inequívoca do material, sob pena de ser
considerada nula.
Ademais, com a regulamentação do uso da internet no país, todos os usuários possuem
uma ampla visão acerca das consequências de seus atos praticados no meio virtual, bem como
a garantia de proteção a seus dados pessoais presentes na rede, a privacidade, a liberdade de
expressão, uma vez que a Lei tratou de salvaguardá-las, muito embora, tenha estabelecido
limites a serem observados com o escopo de se obter uma convivência virtual em que o Estado
atua e propicia segurança em todos os aspectos.
47

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente trabalho trouxe à baila o suscitado tema da responsabilidade civil dos


provedores de conteúdo em casos de danos morais perpetrados em redes sociais face as
inúmeras demandas envolvendo este impasse no Judiciário brasileiro. Assim, o estudo em
apreço se pautou em uma sadia discussão acerca da concretização do direito ao pleito
indenizatório ante aos reprováveis danos morais provocados pelo próprio provedor, bem como
por terceiros aos direitos personalíssimos dos usuários da rede.
Nesse contexto, imperioso se faz salientar que, todo o estudo centrou-se em uma análise
pautada no ordenamento jurídico pátrio, como também na jurisprudência dos Tribunais
Superiores, afim de se buscar um melhor entendimento do problemático e inovador tema em
tela.
Há que se ressaltar ainda a significativa evolução que fez exsurgir o advento da Lei
12.965/2014, comumente chamada de “Marco Civil da Internet”, que competentemente
estabeleceu um novo horizonte às perspectivas dos usuários do ambiente virtual, pois inseriu
ao ordenamento jurídico uma nova roupagem condizente com os anseios clamados pela
sociedade, uma vez que regulou o uso da internet no país.
Frisa-se ser finalidade primordial da respectiva Lei preservar e resguardar em todas as
dimensões imagináveis direitos alheios personalíssimos, afim de se evitar que suportem danos
no uso do universo virtual da internet. Desta forma, regulamentou o uso da internet em todo
território nacional, tornando condutas sancionáveis sem, contudo, restringir os direitos
fundamentais como a liberdade de expressão, privacidade e etc.
É de suma relevância salientar que, o ambiente virtual na atualidade é de fato uma
extensão da realidade vivenciada. Destarte, se torna cristalino o entendimento no sentido de que
deve haver a responsabilização dos responsáveis pelos ilícitos praticados nesse meio, haja vista
que a contemporaneidade trouxe a necessidade de se inserir normas e limites nas relações
virtuais, a fim de regulamentar a conduta humana em todos as dimensões em que exista vida
junto ao coletivo.
Isto posto, resta evidente que a utilização indevida de informações no âmbito da internet
enseja indubitavelmente o dever de reparação por parte do responsável. Assim sendo, será
correta a aplicação desta responsabilidade civil aos provedores de conteúdo quando possuírem
o dever de realizar uma análise prévia deste anteriormente a sua disponibilização na rede ou
quando se mantiverem inertes diante de uma determinação judicial que imponha uma obrigação
de fazer, afim de não se prolongar os danos já ocorridos.
48

Com isso, não se sustenta a tese da responsabilidade civil objetiva generalizada, uma
vez que se apresenta equivocada, tendo em vista que a atividade desenvolvida pelos provedores
de conteúdo da internet não pode ser considerada absolutamente pautada na teoria do risco, que
denota o desenvolvimento de uma atividade com demasiada periculosidade e a aplicação
consequente da responsabilização objetiva em todos os casos postos a apreciação.
Cumpre ressaltar que, o progresso da sociedade não permitiu mais ao Estado permanecer
alheio aos acontecimentos e relações virtuais, uma vez que cabe a ele propiciar a todos os
indivíduos a devida segurança jurídica em todos os meios sociais. Denota-se, portanto, que a
evolução da tecnologia requereu do Estado uma ampliação em sua esfera de atuação, de modo
que houvessem diretrizes legais afim de regular, sancionar e repreender condutas tidas como
ilícitas em toda e qualquer forma de relação humana.
No entanto, vale ressalvar que, a difusão sadia do pensamento encontra-se mantida, visto
que, garante aos indivíduos usuários da internet o acesso a informação uteis e de qualidade.
Com isso, o que se pune são condutas reprováveis e ilícitas praticadas na internet. Desta forma,
deve haver um equilíbrio entre a liberdade mantida aos usuários com os limites impostos pela
Lei 12.965/2014 que regula as relações no âmbito virtual, afim de que se mantenham
assegurados os direitos fundamentais de liberdade privacidade, informação e expressão, sem,
contudo, se violar direitos materiais e/ou imateriais.
Diante do explanado, conclui-se como sendo medida mais propicia à manutenção dos
direitos fundamentais assegurados pela Constituição da República Federativa do Brasil, a real
aplicação da responsabilidade civil em casos de danos ocorridos no meio virtual, com o intuito
de conscientização social do incomensurável papel do Estado de regular as relações humanas,
e com isso seja compreendido o real objetivo Estatal ao regular tais atos, que consiste na
preservação dos direitos fundamentais, pautando-se, contudo, na observância dos deveres
advindos com a evolução tecnológica, bem como a proteção de todos as espécies de relações
humanas, pois somente assim todos poderão exercer em plenitude a cidadania que lhes foi
conferida.
49

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BRASIL. SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. REsp 495503/RS. Terceira Turma


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51

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WIKIPÉDIA. Lista de rede sociais. Disponível em:


https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_redes_sociais Acesso em: 24 de outubro de 2015.
52

ANEXOS

Contador de
Nome Descrição/Foco Registro Logótipo
Membros

Voltada para conhecer


Badoo pessoas e expandir o 237 000 000
círculo de amizades

Bebo Rede popular na Inglaterra 22 000 000[1] Aberto

Blaving Rede social da PMovil 150 000 Aberto

Rede social com temática


Blip.fm musical, onde seus usuários Desconhecido Aberto
são tratados como DJs.

Rede social de
Colnect Colecionadores do Mundo Aberto
Inteiro

Rede social voltado a


pessoas que gostam de
CouchSurfing viajar e que gostam de 871 049 Aberto
hospedar viajantes em suas
casas.

Cyworld Coreia do Sul 15 000 000[2] Aberto

É uma rede social


Ello virtual anti-publicitária 1 000 000 Por Convite
(versão beta)
53

Contador de
Nome Descrição/Foco Registro Logótipo
Membros

Fechado
1,5 bilhão de
Maior rede social do para
Facebook usuários
mundo[3][4] menores de
ativos[5]
13 anos

Rede social com foco em


Filmow 115 000 Aberto
filmes e séries

Compartilhamento de
Flickr 4 000 000 Aberto
fotografias

Rede social focada em


Formspring Desconhecido Aberto
perguntas.

Rede social e
Foursquare de microblogging com 10 000 000 Aberto
ênfase na geolocalização

Rede social descentralizada


com ênfase em segurança,
Friendica Desconhecido Aberto
privacidade e comunicação
com outras redes e serviços

Friendster Geral 29 100 000 Aberto

Gaia Online Anime e Jogos 5 000 000 Aberto

Aberto para
Compartilhamento de
Google+ 750 000 000[6] maiores de
Conteúdo.
13 anos[7]

GoPets Bichos de estimação virtuais 500 000 Aberto

Hi5 Geral 50 000 000 Aberto


54

Contador de
Nome Descrição/Foco Registro Logótipo
Membros

Aberto para
Compartilhamento de fotos
Instagram 400 000 000 maiores de
e vídeos
13 anos

imeem Instant messaging Desconhecido Aberto

Rede social voltada para a


música. Forte presença
Last.fm brasileira (mais de 30.000 40 000 000 Aberto
usuários se declaram
brasileiros)[carece de fontes].

Em inglês. É um site para


LinkedIn busca de colegas e ex- 8 500 000 Aberto
colegas de profissão.

LiveJournal Blogging 10 921 263 Aberto

Mingle Geral Desconhecido Por convite

Mixi Apenas em japonês 5 000 000 Por Convite

Rede Social 100% Brasileira Aberto para


Mirtesnet 1 000 000
criada em 2013 todos

MySpace Geral 150 000 000[8] Aberto

Rede Social colaborativa


voltada para o
Moovia Aberto
desenvolvimento de
projetos em equipes.

Rede Social voltada para


Netlog jovens adultos europeus, de 36 000 000 Aberto
idades entre 14 e 24 anos.
55

Contador de
Nome Descrição/Foco Registro Logótipo
Membros

Palco Principal Rede social de música 100 000 Aberto

1 000 000 de
redes sociais
Purevolume Estados Unidos da América criadas com a Aberto
plataforma
NING[9]

Par Perfeito Rede de Relacionamento Aberto

Plataforma virtual para a


ShareTheMusic troca legal e gratuita de Aberto
música.

Skoob Rede social para leitores.

Rede Social para discussão


Skyscrapercity 572 000 Aberto
de temas

Possui Fórum/Galeria. Site


de relacionamento voltado
Sonico para os povos de língua 43 660 000 Aberto
portuguesa, espanhola e
inglesa

Rede social
Twitter 215 000 000 Aberto
de microblogging

Tumblr Rede social (Microblogging) 20 900 000[10] Aberto

Rede social que reúne


voluntários de acordo com
V2V Voluntários Aberto
suas afinidades e
disposições para agir.
56

Contador de
Nome Descrição/Foco Registro Logótipo
Membros

VK Rede social 140 000 000 Aberto

Wallop Rede social da Microsoft Desconhecido Por convite

Rede social colaborativa,


permite compartilhar
Waze informações sobre transito, Desconhecido Aberto
se baseia em localização
geográfica

Rede social para auto-


YuBliss avaliação através de mitos Desconhecido Aberto
modernos e histórias

Rede social para perguntas


Ask.fm e respostas entre seus Desconhecido Aberto
usuários.

Rede social que permite a


produção e
compartilhamento de filmes
com fotos e vídeos do
Stayfilm 65.000 Aberto
usuário. Produção
automática online com trilha
sonora, efeitos e qualidade
de cinema.