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O BERÇO DA MICRO-HISTÓRIA

DA HISTÓRIA DAS MENTALIDADES


À HISTÓRIA CULTURAL

Se as pesquisas no campo das mentalidades ganharam espa-


ço definitivo nos centros de produção historiográfica de vários
países, o mesmo não se pode dizer da disciplina ou do próprio
conceito de mentalidades, vítimas de um desgaste quase
irreversível em face das inúmeras críticas que se lhes moveram.
Críticas "de fora", isto é, daqueles que rejeitam os temas das
mentalidades ou apontam a sua debilidade explicativa. Críticas
"de dentro", isto é, daqueles que fazem ou fizeram pesquisas
neste campo, porém assimilaram as restrições "externas" e/ou
acrescentaram suas próprias reticências quanto à solidez teórica
das mentalidades.
Disso resultou, em alguns casos, a radicalização das posi-
ções estruturalistas ou neo-estruturalistas, a exemplo do histo-
riador britânico Stuart Clark,22 estudioso da feitiçaria na Época
Moderna. Rejeitando a tradição francesa de estudar as antigas
crenças em práticas mágicas com base em conceitos como "men-
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talidade pré-lógica", Clark afirmou que só é possível estudar a plinaridade, em vez de entendida como diálogo entre disciplinas
feitiçaria a partir dos significados que os próprios atores sociais distintas quanto aos métodos e objetos, pode conduzir a verdadei-
emprestavam às suas religiosidades. Qualquer problematização ros cataclismas teóricos.
externa àqueles significados seria anacrônica e frágil do ponto No caso da história, a aproximação nem sempre criteriosa
de vista antropológico, de sorte que, para ele, a história das men- com a antropologia e a lingüística estimula alguns a recomen-
talidades à moda francesa jamais conseguiu ser "verdadeiramente dar que os historiadores praticamente abandonem o seu ofício
antropológica". É claro que o autor está adotando, como para descrever quer estruturas simbólicas fechadas, quer estru-
paradigma, teorias como as de Clifford Geertz, para quem as turas textuais auto-significantes. No pano de fundo deste ceti-
regras de cada comunidade ou cultura são auto-explicativas, cismo, cabe alguma responsabilidade aos historiadores das men-
cabendo ao investigador tão somente descobri-las e descrevê- talidades que, sem dúvida, se viram a certa altura encantados
las — a famosa thick description (descrição densa), de que trata- com o estruturalismo de Levi-Strauss e com a anti-história
remos adiante. foucaultiana.
Semelhante à inspiração de Clark é a que tem levado alguns Quanto à diluição das fronteiras entre história e literatura,
críticos a negar que a história tenha alguma competência proposta que, no extremo, retira da história a possibilidade de
explicativa ou alguma habilidade especial para produzir um dis- buscar até o verossímil, não resta dúvida de que muitos histo-
curso verdadeiro sobre o real. A inspiração desse neoceticismo riadores das mentalidades também lhe abriram largo caminho.
vem da chamada liguistic turn, dos que se baseiam em modelos Era muito comum na década de 1970 falar-se um tanto impro-
como o de Hayden White, para quem a história não passa de priamente de "retorno da narrativa", opondo-se as "tramas" e
um gênero de narrativa, embora diferente da ficção. "intrigas" da história das mentalidades aos ensaios "totalizantes"
Críticas desse gênero, radicalizando a defesa de uma histó- e "descarnados" seja da história social, seja do marxismo. Basta
ria sem dinâmica, prisioneira de estruturas frias e de uma rede conferir, entre vários exemplos possíveis, certa opinião de
de simbolismos que cabe unicamente descrever, não são de modo Georges Duby publicada no Magazine Littéraire (1977): "Quan-
algum gratuitas. A própria história — e não somente os historia- to aos problemas da 'encenação' do texto historiográfico... eu
dores das mentalidades — abriu o flanco para semelhantes digo que a maneira como organizo os meus textos testemunha
radicalizações ao preconizar, por exemplo, a necessidade de uma em primeiro lugar certa humildade para com a informação, a
investigação histórica interdisciplinar e a inserção da história consciência que tem o historiador de só poder atingir uma par-
no pleno domínio das ciências sociais. Se não resta dúvida de te da realidade e, por conseqüência, de preencher forçosamente
que, por um lado, a interdisciplinaridade contribuiu muitíssi- os vazios com o que imagina."23
mo no século X X para o aperfeiçoamento do saber e da narrati- Seja como for, e longe de negar a importância do simbólico
va historiográficas, por outro lado foi muitas vezes mal com- na história ou a necessidade da imaginação histórica, o fato é
preendida. Levada ao extremo, confundida com transdisci- que a chamada Nova História abriu-se de tal modo a outros
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saberes e questionamentos estruturalistas que, no limite, pôs em das elites "letradas", mas revela especial apreço, tal como a his-
risco a própria legitimidade da disciplina, sobretudo em algumas tória das mentalidades, pelas manifestações das massas anôni-
versões ou "profissões de fé" da história das mentalidades. mas: as festas, as resistências, as crenças heterodoxas. Em resu-
Acuada por críticas de diversos matizes, o grande refúgio mo, a nova história cultural revela uma especial afeição pelo
da história das mentalidades, de seus temas e objetos, foi a cha- informal, sobretudo pelo popular. Nova coincidência, convém
mada história cultural ou nova história cultural, um campo em frisar, entre a história cultural e a das mentalidades: o distan-
geral mais consistente, posto que, em suas principais versões, ciamento em relação à chamada história das idéias, história do
procurou defender a legitimidade do estudo do "mental" sem pensamento formal, da filosofia ou dos "grandes pensadores".
abrir mão da própria história como disciplina específica, bus-
Terceira característica, perfeitamente nítida nas principais
cando corrigir as imperfeições teóricas que marcaram a corren-
versões da moderna história cultural: a sua preocupação em res-
te das mentalidades da década de 1970.
gatar mais explicitamente o papel das classes sociais, da estra-
A primeira característica do que hoje se ¡chama história culA
tificação e do conflito social, o que, se não estava ausente dos
tural reside, justamente, na sua rejeição ao conceito de mentali-
principais trabalhos de história das mentalidades, aparecia de
dades, considerado excessivamente vago, ambíguo e impreciso
modo ambíguo nos textos teóricos da década de 1970.
quanto às relações entre o mental e o todo social. Os "historia-
Quarta característica: a chamada história cultural é uma
dores da cultura" que, diga-se de passagem, parecem sentir-se
história plural, apresentando caminhos alternativos para a in-
mais à vontade em assumir este rótulo no lugar das mentalida-
des, não chegam propriamente a negar a relevância dos estudos vestigação histórica, do que resulta, muitas vezes, uma série
sobre o mental. Não recusam, pelo contrário, a aproximação de desacertos e incongruências igualmente presentes na cor-
com a antropologia, admitem a longa duração e não rejeitam os rente anterior.
temas das mentalidades e do cotidiano. É lícito afirmar, por- Tomemos como exemplo um livro recente, The new cultural
tanto, que a história cultural constitui, em alguns aspectos, um history, coletânea de ensaios organizada nos Estados Unidos por
outro nome para o que na década de 1970 era chamado história -Lvnn Hiintv^A primeira parte da obra tem por título "Mode-
das mentalidades, ao menos no que toca aos temas e objetos. los de história cultural" e se compõe de quatro ensaios, cada
A segunda característica da história cultural decorre, em certa qual dedicado a um modelo possível, no entender dos autores,
medida, da primeira. Ela se apresenta como uma "nova história de história cultural:
cultural", distinta da antiga "história da cultura", disciplina aca-
dêmica ou gênero historiográfico dedicado a estudar as mani- 1. a história da cultura à moda de Foucault;
festações "oficiais" ou "formais" da cultura de determinada so- 2. a história da cultura dos "historiadores", reduzida a uma
ciedade: as artes, a literatura, a filosofia. A chamada nova histó- comparação entre as idéias de E. E Thompson e de Natalie
ria cultural não recusa de modo algum as expressões culturais Davis;
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3. a historia da cultura de inspiração nitidamente antropo- seus estudos: "são estudos de história e não trabalhos de histori-
lógica, limitada, no caso, a uma comparação entre Geertz ador."25 O mesmo se poderia dizer quanto à inclusão de Geertz
e Sahlins; ou Hayden White como modelos possíveis de uma história cul-
4. a historia cultural relacionada à crítica literária e à discus- tural, tratando-se de autores sabidamente questionadores da
são das relações entre historia e literatura, limitando-se o história como forma de conhecimento — fato reconhecido pe-
artigo a comparar Hayden White e Dominick Lacapra. los articulistas que os analisam no livro de Hunt.
O reconhecimento da pluralidade da nova história cultural
Em uma visão de conjunto, o livro comprova a citada deve ser articulado, a meu ver, com as outras três características
pluralidade que caracteriza a chamada nova historia cultural. apontadas anteriormente, que permitem traçar ao menos um
Trata-se de uma coletânea composta de artigos que expõem, perfil de conjunto para o campo de estudos em foco. Vale
didaticamente, as principais idéias dos autores ou "modelos" lembrá-las: 1) recusa do conceito vago de mentalidades; 2) pre-
selecionados. Mas o livro também fornece um testemunho ca- ocupação com o popular; 3) valorização das estratificações e
bal dos desacertos que podem marcar a história cultural, sem dos conflitos socioculturais como objeto de investigação. As-
falar na confessada perplexidade dos autores — a meu ver exa- sim, sem a pretensão de esgotar o assunto, creio ser possível
gerada — com a "ausência de paradigmas" que anda a desnor- selecionar três maneiras distintas de tratar a história cultural
tear a historiografia contemporânea. Se fosse o caso de adotar que, sem prejuízo de outras, permitem distingui-la com algu-
os "modelos" de história cultural tal como apresentados na co- ma nitidez da "antiga" história das mentalidades:
letânea de Hunt, mais não teríamos a dizer senão constatar o
caos teórico deste "novo campo". • a história da cultura praticada pelo italiano Carlo Ginz-
Antes de tudo, salta à vista o ecletismo da proposta, com a burg, notadamente suas noções de cultura popular e de
apresentação de modelos alternativos que nada têm em comum, circularidade cultural presentes quer em trabalhos de re-
quando não se opõem abertamente. Salta à vista igualmente a flexão teórica, quer nas suas pesquisas sobre religiosida-
ausência de Ginzburg entre os autores relevantes da história de, feitiçaria e heresia na Europa quinhentista;
cultural contemporânea, sem falar na pouca atenção dispensa- • a história cultural de Roger Chartier, historiador vincula-
da aos Armales e aos estudos das mentalidades, no mínimo como do, por origem e vocação, à historiografia francesa —
"precursores" da nova história cultural. No mais, o livro apre- particularmente os conceitos de representação e apropria-
senta incongruências notáveis, ao incluir entre os tais "novos" ção expostos em seus estudos sobre "leituras e leitores na
modelos a obra de Foucault, que além de não ser nova contém França do Antigo Regime";
um franco questionamento da história como forma de conhe- • a história da cultura produzida pelo inglês Edward
cimento do real. Afinal, era o próprio Foucault quem dizia de Thompson, especialmente na sua obra sobre movimen-
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tos sociais e cotidiano das "classes populares" na Inglater- por formular uma visão original de cultura popular que não se
ra do século XVIII. confunde com "cultura imposta às classes populares" pelas classes
dominantes (posição de Mandrou), nem exprime o triunfo de
A trajetória de Ginzburg ilustra perfeitamente o percurso uma "cultura original e espontânea" das classes populares sobre
de muitos historiadores que, abandonando o conceito de men- os projetos aculturadores das elites letradas (posição de Genevieve
talidade, migraram para outros campos. No seu primeiro livro, Bolleme, estudiosa da "literatura de cordel" na França).
/ benandanti (1966), entre nós conhecido como Os andarilhos A cultura popular, segundo Ginzburg, se define antes de
do bem, Ginzburg trabalhara com a noção de mentalidades, sen- tudo pela sua oposição à cultura letrada ou oficial das classes
do mesmo um dos pioneiros no estudo da feitiçaria. Mas já no dominantes, o que confirma a preocupação do autor em recu-
pós-escrito de 1972, embora o autor não tenha efetuado modi- perar o conflito de classes em uma dimensão sociocultural. Mas
ficações no corpo da obra, fez questão de marcar posição contra a cultura popular se define também, de outro lado, pelas rela-
aquele conceito, arrependendo-se de ter insistido na "ingenua ções que mantém com a cultura dominante, filtrada pelas clas-
contraposição entre mentalidade coletiva e atitudes individuais". ses subalternas segundo seus próprios valores e condições de
Assumindo precocemente uma crítica às mentalidades que só vida. É a propósito dessa dinâmica entre os níveis culturais po-
frutificaria muito depois, Ginzburg afirmou: "Insistindo nos pular e erudito — pois também a cultura letrada filtra à sua
elementos comuns, homogêneos, da mentalidade de um certo moda os elementos da cultura popular — , que Carlo Ginzburg
período, somos inevitavelmente induzidos a negligenciar as di- propõe o conceito de circularidade cultural.
vergências e os contrastes entre as mentalidades das várias clas- O estudo das idéias de Mennocchio, o moleiro friulano
ses, dos vários grupos sociais, mergulhando tudo em uma men- condenado pelo Santo Ofício, é um exercício teórico interessa-
talidade coletiva indiferenciada e interclassista."26 Ginzburg ter- do em demonstrar o conflito e as relações de classes no plano
minaria prometendo voltar ao assunto em texto futuro sobre a cultural. Não é correto dizer-se, pois, como fizeram alguns crí-
cultura popular no século XVI. ticos do livro, que Ginzburg pretende desvendar a cultura po-
E foi o que ocorreu com a publicação, em 1976, de II pular por meio "de um único exemplo, de um único processo
formaggio e i vermi (O queijo e os vermes),27 livro sobre as idéias inquisitorial". O objeto teórico do livro que o moleiro Me-
de um moleiro friulano condenado como herege pela Inquisição nocchio personifica é não a cultura popular em si, mas o com-
Papal no século XVI. Foi nele que Ginzburg abandonou o plexo processo de circularidade cultural presente em um indiví-
conceito de mentalidade e adotou o de cultura popular, definin- duo que, embora egresso das classes subalternas, sabia ler, e com
do-a como "o conjunto de atitudes, crenças, códigos de com- certeza lera certos textos produzidos no âmbito das classes do-
portamento próprios das classes subalternas em um certo período minantes, filtrando-os através de valores da cultura camponesa.
histórico..." (p. 16). Partindo de uma definição aparentemente A inspiração teórica de Ginzburg veio do marxista Mikhail
empírica, inspirada na antropologia cultural, Ginzburg acaba Bakhtin em seu livro L'oeuvre de François Rabelais et la culture
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populaire au Moyen Age et sous la Renaissance (1965), publicado se distinguir, de antemão, o popular do erudito no plano socio-
na França em 1970. Bakhtin percebeu com brilho a possibili- cultural.28
dade de se resgatar a cultura das classes populares na França Não quer isto dizer que Chartier possua uma visão de cul-
daquele período pela obra de um letrado, percebendo nisso um tura interclassista e vaga, a reeditar o esquema das mentalidades
conflito de classes no plano cultural — e, mais precisamente, a coletivas da década de 1970. Pelo contrário, Chartier discorda
carnavalização da cultura austera das elites no vocabulário da de inúmeros aspectos da história das mentalidades, a exemplo
praça pública e no escárnio popular. Ginzburg procedeu do de seu apego demasiado à longa duração, do quantitativismo,
mesmo modo, embora tenha estudado não um intelectual das do viés psicologizante. Valoriza o dimensionamento da cultura
elites, mas um simples moleiro que sabia 1er. E o historiador em termos de classes sociais, desde que não se procure delimitar
italiano foi além, ao propor abertamente o conceito de cir- as classes em qualquer âmbito externo ao da produção e consu-
cularidade, noção somente implícita em Bakhtin, que se preo- mo culturais. Neste sentido — e isto faz de seu modelo tão
cupava mais com as oposições do que com as interpenetrações original quanto problemático —, Chartier se afasta não só das
culturais entre as classes. mentalidades como da tradição francesa da história social (so-
Modelo distinto do de Ginzburg-Bakhtin é o formulado bretudo de Labrousse, e nem tanto de Febvre e de Bloch). "Este
por Roger Chartier, autor que pertence a uma geração contem- primado quase tirânico do social — afirma Chartier — , que
porânea do declínio das mentalidades na França. Seu relativo define previamente distanciamentos culturais que, depois, só
distanciamento em relação às mentalidades já é notório em seu falta caracterizar, é o sinal mais nítido dessa dependência da
principal livro, Lectures et lecteurs dans la France d'Ancien Régime história cultural relativamente à história social que marca a
(1987), mas é na coletânea A História cultural, reunindo ensaios historiografia francesa do pós-guerra"(idem, p. 45).
escritos entre 1982 e 1988, que vamos encontrar os principais É contra esta "tirania do social" que se insurge Chartier,
ingredientes de seu modelo. Chartier se afasta do modelo ante- defendendo, por outro lado, a necessidade de buscar-se o social
rior à medida que rejeita a visão dicotômica cultura popular/cul- em conexão com as diferentes utilizações do equipamento inte-
tura erudita em favor de uma noção abrangente, mas não ho- lectual disponível (o outillage mental). Para dar conta de sua
mogênea, de cultura. Segundo Chartier, a dicotomia popular/ proposta Chartier propõe um conceito de cultura como práti-
letrado é em tudo problemática, posto que, no caso de Bakhtin, ca, e sugere para o seu estudo as categorias de representação e
é por intermédio de Rabelais (um erudito) que o popular se apropriação.
torna perceptível, ao passo que, no caso de Ginzburg, é por Representação, segundo Chartier, pensada como algo que
um homem do povo" (Mennochio) que se pode perceber os permite "ver uma coisa ausente" ou como "exibição de uma
fragmentos da cultura livresca misturada com ingredientes da presença", é conceito que o autor considera superior ao de men-
tradição oral. O Mennochio de Ginzburg seria o inverso do talidade, dado que permite "articular três modalidades da rela-
Rabelais de Bakhtin e ambos a prova cabal da inviabilidade de ção com o mundo social":
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1. o trabalho de delimitação e classificação das múltiplas contrário, sua formação é a de um historiador marxista, in-
configurações intelectuais, "pelas quais a realidade é con- luindo uma fase de militância partidária, o que faz de seu mo-
traditoriamente construída pelos diferentes grupos"; delo uma espécie de "versão marxista" da história cultural.
2. as "práticas que visam fazer reconhecer uma identidade Com efeito, Thompson pertence a uma linhagem historio-
social, exibir uma maneira própria de estar no mundo, gráfica tipicamente anglo-saxã que nada tem a ver com a "esco-
significar simbolicamente um estatuto e uma posição"; la francesa", seja nas temáticas, seja quanto à formação teórica.
3. as "formas institucionalizadas e objetivadas graças às quais A "escola" de Thompson é a mesma de Georges Rudé, o histo-
uns 'representantes' (instâncias coletivas ou pessoas sin- riador canadense da "multidão" na história das revoluções bur-
guesas, ou de Eric Hobsbawm, historiador das Revoluções in-
gulares) marcam de forma visível e perpetuada a existên-
dustrial e burguesa, do imperialismo e do movimento operário.
cia do grupo, da classe ou da comunidade".29
Pertence, assim, a uma corrente que combina a Social History
britânica e o marxismo. Historiador preocupado com as massas
Se a noção de representação é vista por Chartier como a "pe-
e a identidade da classe trabalhadora no contexto da industria-
dra angular" da nova história cultural, o conceito de apropria-
lização. Companheiro, se assim posso dizê-lo, de Christopher
ção é o seu "centro". Frisando que o seu conceito de apropriação
Hill, estudioso da Revolução Inglesa de 1640, que dedicou um
é diferente do de Foucault (que pensava a apropriação como
importante livro à cultura popular e às "idéias radicais" na In-
um confisco que colocava os discursos fora do alcance dos que
glaterra quinhentista e seiscentista.30
os produziam), Chartier afirma que o objetivo da apropriação é
Autor de obra composta de numerosos livros e artigos,
"uma história social das interpretações, remetidas para as suas
Thompson expôs seu modelo com nitidez em um ensaio hoje
determinações fundamentais" que, insiste o autor, "são sociais,
clássico.31 É nele que o autor se afasta da "tese tradicional" da
institucionais, culturais" (idem, p. 26).
história social britânica, segundo a qual as classes populares se-
O terceiro modelo a ser examinado é o de Edward P. Thomp- riam prisioneiras de uma espécie de paternalismo das classes
son, expresso em sua vasta obra sobre os movimentos sociais na dominantes, e portanto incapazes de construir identidade e va-
Inglaterra setecentista, sobretudo no seu The Making ofthe En- lores próprios. Mas é também nele que Thompson se distancia
glish Working Class, publicado na década de 1960 e traduzido das interpretações convencionais do marxismo anglo-saxônico
no Brasil na década de 1980. A trajetória de Thompson é com- das décadas de 1950 e 1960, para o qual as revoltas e motins
pletamente distinta daquela seguida por Ginzburg ou Chartier, populares do século XVIII seriam manifestações reveladoras da
haja vista a temática de sua obra, voltada para a formação da "falta de consciência" da classe operária em formação. Movi-
classe operária inglesa em meio ao processo de industrialização. mentos pré-políticos, nas palavras de Hobsbawm, uma vez que
Thompson jamais foi um estudioso das mentalidades que mi- se limitavam a reivindicações imediatistas (preços, defesa de
grou para a história cultural, a exemplo de vários autores. Pelo costumes, abastecimento), chegando, quando muito, à destrui-
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ção de máquinas, causadoras de desemprego e símbolo da or- que permitam iluminar a defesa das tradições e a insurgência
dem industrial que se implantava na Inglaterra (a exemplo do social, processos simultâneos de construção de uma identidade
movimento ludistd). popular no campo cultural.
Thompson se afastou em especial da concepção de que a O modelo de Thompson afasta-se do de Ginzburg, no en-
classe operária só se forma totalmente, tornando-se então uma tanto, em pelo menos três pontos importantes. Em primeiro
"classe para si" (e não apenas "em si"), quando atinge plena cons- lugar por motivos genealógicos, uma vez que Thompson parte
ciência de sua exploração no processo capitalista de produção, de um marxismo mais convencional (estudo de ideologias ou
passando então a questionar o sistema com perspectivas revolu- consciência de classe), para um conceito mais elástico e históri-
cionárias e socialistas. Considera que é no processo de luta que co-antropológico de cultura popular, ao passo que Ginzburg
se forja a identidade social das classes populares, e não pela chega ao conceito de cultura popular a partir de Bakhtin e por
difusão dogmática de qualquer doutrina, de sorte que a "classe suas reticências em relação à noção de mentalidades. Em se-
operária" pode perfeitamente adquirir uma dimensão própria gundo lugar, há uma nítida diferença de problemáticas: em
de sua identidade social oposta à ordem burguesa, sem que tal Thompson o que importa é desvendar a identidade sociocultural
identidade assuma necessariamente um caráter revolucionário. das classes subalternas no contexto específico da formação do
É neste sentido que Thompson se lançou ao estudo das resistên- capitalismo, o que faz de sua obra um modelo para o estudo
cias das classes subalternas procurando valorizar atitudes e com- da formação da ordem burguesa na ótica dos "vencidos"; no
portamentos que, aparentemente insignificantes, eram no fun- caso de Ginzburg, é o próprio universo cultural que interessa
do reveladores de uma identidade social em construção. Perce- investigar, sobretudo as resistências do popular, as circula-
beu com brilho que muitas das manifestações populares contra ridades e metamorfoses culturais no limiar da Época Moder-
o horário de trabalho nas fábricas, por exemplo, longe de ser na. Em terceiro lugar, se é verdade que ambos valorizam re-
uma reivindicação imatura dos trabalhadores em favor do ve- cortes de tipo antropológico a exemplo de ritos, crenças, ceri-
lho paternalismo patronal, constituía uma defesa das tradições mônias, o cenário privilegiado por Thompson é a luta coletiva
familiares e comunitárias contra o processo de industrialização das classes populares, ao passo que o de Ginzburg é o da resis-
que, sem dúvida, perturbava a ordem e o cotidiano dos traba- tência e domesticação (ou repressão) da cultura popular na longa
lhadores. O campo teórico da cultura popular em Thompson duração. Quanto às diferenças entre o modelo de Thompson e
valoriza, portanto, a resistência social e a luta de classes em co- o de Chartier, são com efeito enormes. Basta dizer, embora
nexão com as tradições, os ritos e o cotidiano das classes popu- correndo o risco da simplificação, que, se Thompson elege
lares em um contexto histórico de transformação. Vem daí o como pano de fundo histórico e teórico o processo de indus-
apreço do autor pela antropologia, capaz de ancorar interpreta- trialização britânico, Chartier considera que o social só faz
ções verticalizadas de ritos e comportamentos comunitários, bem sentido no mundo das representações, práticas e apropriações
como por microtemas, a exemplo da festa, do charivari e outros culturais.
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GÊNESE D A MICRO-HISTÓRIA por acaso, Giovanni Levi salienta que os historiadores que aderi-
ram à micro-história "em geral tinham suas raízes no marxismo,
O percurso que vimos de reconstituir da historia das men-
em uma orientação política para a esquerda e em um secularismo
talidades à historia cultural é de suma importância para a loca-
radical com pouca inclinação para a metafísica". De todo modo,
lização da gênese da micro-história. Em primeiro lugar porque,
eram historiadores convencidos de que a "pesquisa histórica não
surgida na altura da década de 1980, ela constituiu, em muitos
é uma atividade puramente retórica e estética".33
aspectos, um dos refugios que abrigou as temáticas correntes na
Levi aponta, assim, aspectos cruciais da gênese da micro-
história das mentalidades. À medida que esta começou a dar
história, ao vinculá-la, de certo modo, às motivações que vimos
evidentes sinais de desgaste, em especial diante das críticas quan-
marcar o surgimento da história cultural. Exagera, porém, ao
to à ambigüidade ou fragilidade teórica, muitos autores até en-
sublinhar o background marxista dos historiadores que "aderi-
tão dedicados às mentalidades migraram para o novo campo de
ram, em geral", à micro-história, tendendo a endossar, sem dizê-
estudos. Nesse sentido, como observa Giovanni Levi, o sur-
lo, um tipo de crítica muito genérico à história das mentalida-
gimento da micro-história tem a ver com o debate intelectual e
des — o qual procurei refutar no capítulo anterior. Refiro-me
historiográfico das décadas de 1970 e 1980. Tem a ver, portan-
às críticas muito doutrinárias, tendenciosamente preocupadas
to, com a questão da crise do paradigma marxista e de outros
em enfocar a periferia da história das mentalidades, e não o
modelos de história totalizante e com a "solução" das mentali-
principal dessa historiografia. Mas não resta dúvida de que se o
dades, que cedo se mostrou inconsistente no plano estritamen-
foco da crítica às mentalidades a ser contemplado é o que diz
te teórico-metodológico.
respeito aos textos teóricos — ou à ausência deles — Levi tem
Mas a micro-história possuía, então, uma posição muito
razão. A micro-história, se a situarmos no campo da nova histó-
específica dentro da chamada Nova História:
ria cultural, também partiu da crítica aos excessos de irra-
cionalismo ou psicologismo, à negligência no tocante às hierar-
Não era simplesmente — como adverte Levi — uma questão de
quias e conflitos sociais e à redução do trabalho historiográfico
corrigir aqueles aspectos da historiografia acadêmica que pareciam
à simples descrição textual de fatos registrados na documen-
não mais funcionar. Era mais importante refutar o relativismo, o
tação.
irracionalismo e a redução do trabalho do historiador a uma ativi-
dade puramente retórica, limitada a interpretar os textos e não os No esforço de localização da micro-história na revolução
próprios acontecimentos. 32 historiográfica operada nas últimas décadas do século XX, é
muito importante sublinhar que se a história das mentalidades
Os propósitos da micro-história se moviam, portanto, no sempre foi fundamentalmente, embora não exclusivamente,
campo das críticas à história das mentalidades, em vez de se francesa — herdeira dos Annales — a micro-história, como gê-
confundir com elas e se alinhava, em numerosos aspectos, no nero, surgiu na Itália. Talvez o livro-chave e inspirador da cor-
campo do que veio a ser chamado nova história cultural. Não rente tenha sido o de Ginzburg, O queijo e os vermes, que, como
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vimos, propôs um dos principais modelos de história cultu- Títulos publicados pela coleção Microstorie— 1981-1988
ral, sobretudo no tocante ao conceito de circularidade. Mas AUTOR TÍTULO
considerada como gênero historiográfico, a micro-história
1. Carlo Ginzburg Indagini su Piero. II Battesimo, il ciclo di
surgiu, inicialmente, como título de uma coleção dirigida por Arezzo, la Flagelazzione di Urbino
Carlo Ginzburg e Giovanni Levi, publicada pela editora Einaudi, 2. Edward Thompson Societa patrizia, cultura plebea. O t t o
de Turim, a partir de 1981 —Microstorie — e na linha editorial saggi di antropologia storica sull'
da revista Quaderni Storici, publicada pelo II Molino de Bo- Inghliaterra del Settecento
lonha. 3. Raul Merzario IIpaese stretto. Strategie matrimoniali
nella diocesi di Como (secoli XVI-
A micro-história surgiu, portanto, como uma série editorial XVIII)
italiana, reunindo não só historiadores italianos com textos es- 4. Pietro Marcenaro e Riprendere tempo. Un dialogo con postilla
pecificamente elaborados para a coleção, mas autores ingleses, Vittorio Foa
norte-americanos e franceses cujos textos já publicados, uma 5. Jean-Claude Schmidt II santo levriero. Guinefort guaritore di
vez adequados ao perfil da coleção, foram traduzidos para o bambini
6. Antonio Foscari e I 'armonia e i confliti. La chiesa di San
italiano. Seria exagero, no entanto, afirmar que a micro-histó-
Manfredo Tarufi Francesco delia Vigna nella Venezia
ria, na sua origem, tivesse absoluta clareza de seus propósitos e dei '500
apresentasse uma proposta teórica definida. Surgiu como inicia- 7. Pietro Redondi Galileo eretico
tiva editorial assumindo, de um lado, a legitimidade do "fatia- 8. Franco Ramella Terra e telai. Sistemi di parentela e
mento" da história posto em cena pela Nova História desde a manifattura nel Biellese dell'Ottocento
década de 1970, porém preocupada com uma problematização 9. Natalie Davis II ritorno de Martin Guerre. U n caso de
doppia identitá nella Francia dei
mais nítida — ainda que implícita — do objeto de investiga-
Cinquecento
ção, especialmente quanto às hierarquias e conflitos sociais. Daí 10. Giovanni Levi I'eredita immateriale. Carriera di u n
sua pertinência, em princípio, à chamada nova história cultu- esorcista nel Piemonte del Sicento
ral, bem como a presença de autores marxistas ou com alguma 11. Alessandro Portelli Biografia di una citta. Storia e racconto:
formação marxista, conforme salientou Giovanni Levi em seu Terni, 1830-1985
balanço de 1991. 12. P. Boyer e S. La citta indemoniata. Salem e le origini
Nissembaum sociali di una cacia alie streghe
O mesmo autor salientou, aliás, no citado ensaio, que a 13. Anton Blok La mafia di un villagio siciliano, 1860-
micro-história não surgiu baseada em textos ou manifestos teó- 1960. Imperenditiori, contadini, violenti
ricos, mas se apresentou essencialmente como prática his- 14. Gregory Bateson Naven. Un rituale di travestimento in
toriográfica com referências teóricas variadas e, em certo senti- Nuova Guinea
15. Patrizia Guarnieri L 'ammazzabambini. Legge e scienza in
do, ecléticas. Um ecletismo que se pode comprovar inclusive
un processo toscano di fine Ottocento
no tocante às temáticas, conforme indica o quadro a seguir.
72 O S PROTAGONISTAS A N Ô N I M O S DA H I S T O R I A O BERÇO DA M I C R O ' H I S T Ó R I A 73

Um balanço geral desses primeiros títulos da coleção revela, As semelhanças aparentes com as "velhas" mentalidades da
explicitamente ou nas entrelinhas, aspectos importantes da pro- historiografia francesa podem, contudo, parecer evidentes e
posta encaminhada pela micro-história. Antes de tudo, os auto- sugerir que a micro-história mais não seja do que um outro
res que inauguraram a série, Ginzburg e Thompson, historiado- nome ou uma versão italiana para a história das mentalidades.
res que, como indicamos anteriormente, propuseram, de modos Não faltou, é óbvio, quem aproximasse os dois gêneros, lem-
diferentes, autênticos modelos de história cultural combinando brando, por exemplo, a coleção francesa Archives, datada da
pesquisa empírica com reflexão teórica valorizadora do conflito década de 1970, em meio ao boom das mentalidades. Foi nela
social e mesmo da "luta de classes" no processo histórico. que apareceu o célebre livro de Foucault, Moi, Pierre Rivière...,
Por outro lado, os passos iniciais dessa coleção editorial, com publicado em 1973, estudo sobre um matricida francês que
vocação a se transformar em um gênero ou em uma prática também matou os irmãos etc., além do estudo de Georges Duby
historiográfica, confirmam o ecletismo que nela viu Levi em sobre Joana d'Arc e outros.
seu balanço após dez anos da série. Ecletismo temático, tempo- Na verdade, não há como negar alguma semelhança de âni-
ral e espacial: o pintor Piero de la Francesca, como no caso de mo entre a coleção Archives e a Microstorie, em especial no que
Ginzburg; a formação da classe operária inglesa em perspectiva toca ao recorte particular e mesmo microscópico do objeto, ou
histórico-antropológica, a exemplo do livro de Thompson; a seja, a intenção de verticalizar ao máximo o estudo de um tema
caça às bruxas em Massachussets e os exorcismos na Itália ou personagem muito específico, seja ele célebre ou totalmente
seiscentista, como nos livros, respectivamente, de Nissembaum desconhecido. Basta comparar, para reforçar a analogia, o estu-
& Boyer e de Giovanni Levi; a "biografia" de uma cidade italia- do de Duby sobre Joana d'Arc, na série Archives, e o de Pietro
na, Terni, ao longo de 150 anos; histórias de famílias e parente- Redondi sobre Galileu, na Microstorie — ela, heroína oficial da
las, como nos livros dos italianos Merzario e Ramella e, em história francesa; ele, exemplo de sábio renascentista persegui-
certo sentido, no clássico de Natalie Davis sobre Martin Guerre do pela Inquisição; ambos, portanto, personagens enciclopédi-
ou mesmo no livro sobre a máfia em uma aldeia siciliana ao cos e de importância universal na história do Ocidente. E a
longo de 100 anos. Ecletismo teórico, em boa medida, pois são mesma analogia se poderia estabelecer na outra ponta da escala
vários os "marxismos" veiculados em tais livros, bem como as social, passando-se da celebridade máxima à obscuridade total,
matrizes antropológicas de cada autor. Qualquer tema, portan- com o matricida Pierre Rivière de Foucault, de um lado, e o
to, parece ser passível de um estudo micro-histórico, assim como pároco-exorcista Giovan Battista Chiesa, estudado por Levi.
no caso da história das mentalidades, embora nesta última te- Mas as analogias entre as duas séries, decerto importantes e
nham predominado os estudos de história européia medieval e pertinentes, não vão além disso. A coleção Archives se dedica à
moderna, ao passo que, na micro-história, a abertura se afigure edição crítica de fontes, inéditas ou já utilizadas pelos historia-
maior, alcançando sem hesitar o mundo contemporâneo e mes- dores, sempre precedidas por um ensaio assinado por um expert
mo a história imediata do tempo presente. situando o dossiê e as possibilidades de leitura e interpretação
74 O s PROTAGONISTAS A N Ô N I M O S DA H I S T Ó R I A O BERÇO DA M I C R O - H I S T Ó R I A 75

dos documentos, enquanto a Microstorie é uma série de estudos antes de ser um gênero ou uma corrente historiográfica, assim
monográficos sobre temas particulares. como a coleção Archives. Mas a micro-história acabou se trans-
Menos pertinente seria, a meu ver, assimilar a coleção italia- formando em algo mais que um simples título de uma série
na Microstorie a iniciativas de ocasião, como a série Pequena editorial. Desde seus começos, não obstante os ecletismos já
História, publicada pela editora portuguesa Terramar na déca- mencionados, buscou afirmar-se com "profissões de fé" — di-
da de 1990, reunindo a tradução de livros de diversos tipos. ria Febvre — que permitem inseri-la no cruzamento da história
Alguns dentre eles só podem ser chamados "pequena história" cultural com a história social, porque preocupada com temas
— no sentido de recorte minúsculo de objetos — por equívoco ligados às "representações", sem contudo diluir os contrastes e
grave na iniciativa editorial. Neste caso, figuraria, por exemplo, contradições sociais em um psicologismo anódino e fátuo.
Afirmação da família moderna, de Edward Shorter, livro pio- Definida muitas vezes como prática historiográfica, a micro-
neiro da história da família em perspectiva ampla, publicado história acabaria se afirmando como um gênero de fazer e con-
originalmente em 1975 pela Basic Books, de Nova York. Ou tar a história. Um gênero muito diferente, em aspectos subs-
ainda Amor e sexualidade no Ocidente, assinado por Georges tantivos, do melhor da história das mentalidades à moda fran-
Duby et alii — livro que nada mais é do que a edição, sob a cesa, e isto exatamente por renunciar — vale repetir — à histó-
forma de coletânea, de um número especial da revista L'Histoire, ria total, à história-síntese dos Annales. E um gênero que se de
publicado em 1984. Foi um dos "últimos suspiros" da história fato surgiu no âmbito da história cultural, superou-a — e não
das mentalidades praticada na França, no qual colaboraram Ph. vai aqui nenhum juízo de valor — à medida que, ao longo da
Ariés, Le Goff, Paul Veyne, Alain Corbin, Daniel Roche, enfim última década do século XX, foi capaz de formulações teóricas
o escol da história das mentalidades. Por outro lado, encon- e metodológicas mais nítidas.
tram-se nesta coleção estudos como o já citado livro História E chegado o momento de pôr a micro-história em cena,
das nádegas, de Jean Luc Hennig ou um Segredos de alcova ou A sem esquecer dos bastidores, expor seu estilo, seus recortes pre-
vida nos bordéis de França, ambos de Laure Adler. No caso dessa ferenciais, suas opções conceituais. É da cena e dos bastidores
série petite, o que prevalece é uma espécie de amostragem de da micro-história que tratarão os dois capítulos seguintes.
estudos, ora novos, ora clássicos, que se poderia genericamente
classificar como trabalhos inspirados na Nova História, ora na
linha das mentalidades, ora na da história cultural, quando não
na história social; uns com recortes amplos, outros com temas
minúsculos; muitos deles livros importantes e pioneiros, alguns
totalmente irrelevantes.
De modo que a micro-história — a italiana Microstorie —
surgiu na década de 1980 como iniciativa editorial da Einaudi,
A MICRO-HISTÓRIA EM CENA

ENREDOS MICROSCÓPICOS
Nada seria mais fiel à micro-história do que apresentar sua
face mais nítida por meio da exposição de enredos. Alguns en-
redos ilustrativos de livros típicos, isto é, livros expressivos de
um gênero que privilegia a narrativa como escrita da historia. E
nada seria mais exato do que começar pelo clássico O queijo e os
vermes, de Carlo Ginzburg, livro já bem comentado no capítu-
lo anterior, cujo prefácio à edição italiana (1976) constitui, em-
bora conciso, importante guia metodológico e quase um mani-
festo da nova história cultural em oposição à história das men-
talidades. Mas não é esse tipo de questão que ocupará as pági-
nas seguintes, senão a história de Mennochio e, ato contínuo,
histórias de outros personagens anônimos: o Martin Guerre de
Natalie Davis; a abadessa teatina Benedetta Carlini, estudada
por Judith Brown; o pároco de Santena, Giovan Battista Chiesa,
estudado por Giovanni Levi. Historias algo novelescas, decer-
to, mas que, como adiante tentarei mostrar, situam-se além ou
aquém da ficção.
A M I C R O "HISTÓRIA EM CENA <*- 79
78 O s PROTAGONISTAS A N Ó N I M O S DA HISTORIA

Mennochio, o Herege trajar-se. O único sinal, nessas primeiras linhas, do enredo his-
tórico em que se envolveu Mennochio — um processo inqui-
Apesar do prefacio teórico, o corpo de O queijo e os vermes
sitorial — resume-se à referência de que ele se apresentou ao
se compõe de uma narrativa distribuída em 62 capítulos, urna
vigário-geral para julgamento. Não sendo homem do porte de
forma típica de romance, escapando aos cânones do texto histo-
um Giordano Bruno, sábio julgado pela mesma Inquisição pa-
riográfico convencional, o que já indica muito bem o modelo
pal à mesma época, o Mennochio das primeiras páginas do li-
típico da exposição micro-histórica.
vro de Ginzburg bem poderia ser tomado e lido como persona-
gem ficcional. E, de fato, foi lido por muitos como personagem
Chamava-se Domênico Scandella, conhecido por Mennochio.
de ficção, embora se tratasse de um autêntico moleiro do Friuli
Nascera em 1532 (quando do primeiro processo declarou ter 52
processado pela Inquisição no século XVI.
anos), em Montereale, uma pequena aldeia na colina do Friuli, a
O Capítulo 1 prossegue na construção ou reconstrução do
25 quilômetros de Pordenone, bem protegida das montanhas. Vi-
personagem — depende de quem lê ajuizar qual a palavra mais
veu sempre ali, exceto dois anos de desterro após uma briga (1564-
própria. As dificuldades por que passava, suas misérias, a perda
65), transcorridos em Arba, uma vila não muito distante, e numa
de filhos, o moinho que alugara, os cargos públicos que exerce-
localidade não precisada da Carnia. Era casado e tinha sete filhos;
ra na pobre aldeia de Montereale, seu nível de instrução. Menno-
outros quatro haviam morrido. Declarou ao cónego Gianbattista
chio, embora modesto, havia freqüentado uma das poucas es-
Maro, vigário-geral do inquisidor de Aquiléia e Concórdia, que sua
colas públicas de nível elementar da região, chegando mesmo a
atividade era de moleiro, carpinteiro, marceneiro e outras coisas.
aprender um pouco de latim. Era um grande falastrão, segundo
Mas era principalmente moleiro; usava as vestimentas tradicionais
disseram os que com ele conviviam, sendo dado a tratar de reli-
de moleiro — veste, capa e capuz de li branca. E foi assim, vestido
gião, doutrina, padres, sempre em tom muito crítico. " O que é
de branco, que se apresentou para o julgamento.34
que vocês pensam, que Jesus Cristo nasceu da Virgem Maria?
Assim começa o livro de Ginzburg, cujo primeiro capítulo Não é possível que ela tenha dado à luz e tenha permanecido
— Mennochio — busca traçar o perfil do protagonista. Nenhu- virgem. Pode muito bem ser que ele tenha sido um homem qual-
ma contextualização da Itália na época — ela que, então, não quer de bem ou filho de algum homem de bem." 35 Mennochio
existia como país — senão a localização da aldeia no Friuli. era, pois, muito dado a opiniões heréticas e se dizia que tinha
Nenhuma referência prévia à Inquisição pontifícia, recriada pelo livros proibidos em casa, inclusive a Bíblia em língua vulgar.
papado em 1542, às vésperas do Concílio de Trento. Nenhuma A comunidade de Montereale, se não chegava a molestar ou
referência à Contra-Reforma face à irrupção do protestantismo hostilizar Mennochio por suas opiniões, desaprovava-o. O pá-
na Europa. Nada disso constitui objeto de considerações no roco da aldeia, porém, detestava Mennochio, opinião compar-
primeiro parágrafo do livro, centrado na primeira caracteriza- tilhada, por motivos óbvios, pelo clero local. E foi este pároco,
ção do personagem: seu nome, morada, estado civil, modo de dom Odorico Vorai, o delator do moleiro, que por isso seria
8 0 O S PROTAGONISTAS A N Ô N I M O S DA HISTORIA A M I C R O - H I S T Ó R I A EM CENA 81

convocado e depois preso pelo Santo Ofício. Muitos o acon- também para os que não a conhecem, por meio da narrativa de
selharam a dizer o que eles — inquisidores — "estão queren- casos miúdos.
do saber". Que nao falasse demais, nem tratasse senão do que E assim prossegue a saga de Mennochio, contada nos 62
fosse perguntado. Em 7 de fevereiro de 1584, Mennochio foi capítulos do livro, por meio do qual fica-se sabendo muito so-
submetido a um primeiro interrogatório e não seguiu o con- bre a vida camponesa no norte da Itália quinhentista. A pobre-
selho dos amigos. Loquaz, pôs-se a tratar da criação do mun- za dos camponeses, o papel do moleiro em uma sociedade ar-
do, dos sacramentos, de Deus e do diabo. Suas idéias eram de caica, ainda muito medieval, os lugares de sociabilidade, os va-
tal modo extravagantes que o vigário-geral que pela primeira lores sociais e espirituais. O leitor que pela primeira vez esteja
vez o inquiriu chegou a lhe perguntar se falava sério ou estava lendo um livro sobre esta época, ficará conhecendo os limites
brincando. do catolicismo junto aos rústicos camponeses do lugar, segui-
Mas a coisa era séria. Seriíssima. Ginzburg chega a comen- dores dos sacramentos, é verdade, sabedores dos mandamentos
tar, interferindo no imbróglio, que 100 ou 150 anos depois, de Deus e da Igreja, alguns, capazes de rezar o pai-nosso e a ave-
Mennochio talvez fosse trancado num hospício como tomado maria. Todos concordes em que Maria fora virgem antes, du-
por delírio religioso. Todavia, prossegue, em plena Contra-Re- rante e depois do parto, ou pelo menos sabedores de que disso
forma as modalidades de exclusão eram outras — prevaleciam não se podia duvidar. Vida material, hierarquias sociais, cren-
a identificação e a repressão da heresia. A interferência de Ginz- ças, tudo isso passeia no livro, em meio à narrativa sobre o caso
burg é digna de nota. Sem estardalhaço, sem esmiuçar o senti- inquisitorial contra Mennochio, as diligências ordenadas pelo
do da Contra-Reforma católica ou expor fatos políticos, insti- tribunal, o depoimento das testemunhas — e tudo tem sua devi-
tucionais, sem expor decisões doutrinárias do Concílio deTrento, da importância no texto de Ginzburg, desde que diretamente
o autor demarca, em uma simples frase, a alteridade no tempo: ligado ao enredo específico do livro. Se de fato sobressai a esfera
o herético do século XVI seria considerado louco se vivesse em religiosa, é porque disso o livro trata e foi nisso que se destacou o
outro tempo. Uma simples frase. Os que pouco ou nada sabem personagem central que, não fosse alfabetizado e falastrão, não
sobre o século XVI, Lutero, a Contra-Reforma ou a Inquisição passaria de mais um moleiro dentre milhares de outros.
terão, ao ler essas páginas, uma idéia vaga, porém clara, do que O livro transporta o leitor da vida camponesa às lúgubres
podia ser considerado heresia no tempo de Mennochio e dos salas da Inquisição, num vaivém permanente, os capítulos con-
perigos que corriam os que as professassem. Os que conhecem tendo flashes do diálogo entre inquisidores e réu, eles tentando
bem o contexto alcançarão, por outro lado, a precisão da com- convencê-lo a reconhecer seus erros e deles abjurar, enquanto
paração feita pelo autor em uma singela frase, inteirados do Mennochio exultava com as próprias palavras, expondo sua
tipo de doutrina que o loquaz Mennochio costumava divulgar cosmogonia fantástica, dizendo que os anjos haviam sido pro-
na sua aldeia. Este, vale dizer, é um traço da micro-história por duzidos a partir da mais perfeita substância do mundo, assim
excelência: buscar expor a história para os que a conhecem e como os vermes nasciam do queijo, e quando apareceram, "re-
82 O S PROTAGONISTAS A N Ô N I M O S DA HISTÓRIA A M I C R O - H I S T Ó R I A HM CENA <*- 83

ceberam vontade, intelecto e memória de Deus, que os aben- pouco mais sobre sua margem de tolerância, pois do primeiro
çoou". Ecos de Dante Alighieri, talvez, que em um dos versos processo Mennochio saiu "reconciliado", embora condenado a
da Divina Comédia falou nos "vermes nascidos para formar usar hábito penitencial perpétuo. Um pouco mais sobre seu
angélica borboleta". rigor contra os relapsos e pertinazes, pois como Mennochio
Enquanto conta a história de Mennochio, de seu tempo, de voltou a "pregar" suas heresias, acabaria novamente processado,
sua aldeia, ou melhor, em meio à narrativa do caso, Ginzburg e desta vez executado na fogueira, pelos idos de 1599, quase no
esmiuça a cosmogonia de Mennochio, nutrida das poucas lei- mesmo ano em que se concluiu o processo contra o ex-frade
turas que fizera na vida, misturadas com a experiência do mun- Giordano Bruno, vítima célebre da Inquisição pontifícia. Uma
do rural, a qual pôde enveredar, nas digressões laterais que o réu coincidência que, nas palavras de Ginzburg, "poderia simboli-
apresentou para os inquisidores, para considerações sobre as zar a dupla batalha, para cima e para baixo, da hierarquia cató-
extravagâncias do mundo, os pigmeus, canibais, monstros de lica naqueles anos, para impor as doutrinas aprovadas pelo
todo tipo. Uma cosmogonia "substancialmente materialista e Concílio de Trento".36
tendencialmente científica". Para se defender das acusações e
demonstrar a licitude de suas idéias, Mennochio recorreu às
mirabilia do livro de Jean de Mandeville — um livro de viagem Martin Guerre, o Impostor
às partes ignotas do mundo, ao Oriente, viagem que Mandeville O retorno de Martin Guerre,37 livro de Natalie Davis publi-
jamais realizara de fato. A situação-limite de um homem como cado em 1983, é daqueles que mais parece um livro de ficção
Mennochio, na fronteira entre a cultura letrada das elites e a do que de história. Comparada ao livro de Ginzburg sobre
experiência de uma cultura popular transmitida oralmente, eis Mennochio, a narrativa de Davis é mais conjectural e especu-
o que, por meio da saga deste moleiro italiano, Ginzburg apre- lativa, são menos freqüentes os parênteses analíticos e a própria
senta para o leitor especializado e interessado no conceito de história é mais miúda. No caso de Ginzburg, o protagonista,
circularidade cultural que o personagem encarna. Mennochio, por mais obscuro que seja à luz de uma história,
Já o leitor menos preocupado com os conceitos, e mais inte- digamos enciclopédica, ao menos foi herege condenado pela
ressado em conhecer a tragédia de um simples moleiro proces- Inquisição por suas idéias desafiadoras. Já o herói de Davis —
sado pela Inquisição no século XVI, decerto alcançará o caráter se é que se pode chamá-lo herói — não passou de um impostor
excepcional de um homem rude que, no entanto, por ter lido que se fez passar pelo marido de uma camponesa de Artigat, no
alguns livros, foi capaz de interpretar os dogmas da Igreja à sua sul da França, mantendo o embuste por cerca de três anos até
maneira. Mais que isso, ousou desafiar os inquisidores com sua ser desmascarado, preso e condenado. Um caso novelesco, com
pertinácia. ares ficcionais, que deu origem ao filme de Daniel Vigne, do
Quanto ao destino de Mennochio, qualquer leitor termina- qual Natalie Davis foi consultora. Mas se trata de um livro de
rá o livro conhecendo um pouco mais sobre a Inquisição. Um história. Micro-história.
8 4 -*> O S PROTAGONISTAS A N Ô N I M O S DA H I S T Ó R I A A m i c r o - h i s t ó r i a em c e n a 85

Ao longo de 12 capítulos, todos com títulos literários ma- peraram no lugar. Sanxi Daguerre e seu irmão, Pierre, cultiva-
gistralmente escritos, Natalie Davis oferece ao leitor um enredo vam trigo, aveia, vinhas e criavam cabras, vacas, carneiros. Ti-
fascinante, onde se misturam amor, ódio, imposturas, conveniên- veram, naturalmente, que se adaptar aos costumes, mudando o
cias. Comédia e tragédia. E, com toda a certeza, transporta o nome Daguerre para simplesmente Guerre, mas conta-nos Davis
leitor ao ambiente camponês da França quinhentista, os modos que não lhes foi difícil a adaptação na aldeia. O imbróglio co-
de viver, os papéis e hierarquias sociais, as crenças populares, as meçou quando o filho único de Sanxi se casou com a filha de
guerras de religião. No mais pleno espírito da micro-história, outra família campônia do lugar, Bertrande de Rols, ao longo da
Natalie Davis inicia o livro sem qualquer contextualização de década de 1530. Casaram-se em idade pouco usual, ele com cer-
tipo convencional e, assim como Ginzburg, só alça vôo para a ca de 14 anos, ela ainda menina — com menos de 12, antes da
história geral quando seu enredo minúsculo assim o exige. Pre- idade pubertária e nubente, segundo rezava o direito eclesiástico.
valece, assim, em clima de suspense, a história de Martin Guerre, Casaram-se, mas não consumaram o matrimônio, fosse por-
a do falso, sobretudo, mas também a do verdadeiro. que a menina não consentia na cópula, fosse porque o rapaz era
O livro se inicia com a decisão da família de Sanxi Daguerre, impotente — sendo esta a versão que acabou se difundindo na
família camponesa da região basca situada em França, de mi- aldeia. Isto porque, durante nada menos que oito anos, Martin
grar para a aldeia de Artigat, no Languedoc. A propósito desse "não conhecera carnalmente" sua esposa, conforme se dizia, o
fato, ponto de partida do enredo, Davis nos fala sobre a vida que fez prosperar a crença de que o casal fora vítima de um
dos camponeses, contrasta a relativa liberdade de que gozavam malefício. Embora Bertrande pudesse requerer a anulação do
os de Artigat em relação aos de outras regiões, expõe o costume casamento — que nesses casos era autorizado pela Igreja — , ela
de ali se partilhar a herança entre os filhos, sem privilégio do se obstinou em permanecer ao lado de Martin. E, de algum
primogênito, informa sobre como ganhavam a vida, uns mais, modo, o malefício se desfez, depois que uma velha apresentou a
outros menos, sobre o comércio de gêneros, as oficinas artesanais, receita curativa. Os padres rezaram quatro missas, deram-lhes a
as pequenas fortunas de poucos, a pobreza de muitos, descor- comer várias hóstias e certos bolos. O casamento se consumou,
tinando uma paisagem camponesa onde os valores comuns não Bertrande engravidou e deu à luz um filho.
diluíam desigualdades e conflitos. Nenhum aspecto da vida cam- Mas tudo indica que Martin não se acostumava com a situa-
ponesa é estranho à curiosidade e ao registro da historiadora, ção, quer a de casado com Bertrande, quer com a própria vida
seja ele econômico, social, jurídico, espiritual. Dizer que o livro em Artigat. Vivia melancólico, desinteressado de tudo, salvo
de Natalie Davis é um exemplo de história das mentalidades ou quando praticava a esgrima e exercícios físicos. "Camponês des-
do cotidiano seria, assim, dizer quase nada, quando não um contente" — título de um dos capítulos do livro — , Martin
equívoco. Guerre abandonou a esposa, o filho, a família e partiu em busca
Os recém-chegados do país basco francês, dotados de al- de outra vida. Acabou na Espanha, onde foi lacaio de um car-
gum recurso, compraram terras, instalaram uma olaria e pros- deal em Burgos e serviu em armas, lutando contra a França
A m i c r o - h i s t ó r i a em c e n a 87
86 O s PROTAGONISTAS A N Ô N I M O S DA HISTÓRIA

pelo rei de Espanha, Felipe II, em 1557. Em uma das batalhas, cúmplice. O maior indício da cumplicidade residiria, talvez, na
levou um tiro de arcabuz e teve a perna amputada. Sobreviveu, inclinação de ambos para o protestantismo, quem sabe, espe-
mas passou a usar uma perna de pau e parecia determinado a cula Davis, porque preferiam "contar sua história a Deus sem
jamais regressar a Artigat. intermediários" — livrando-se da confissão sacramental.
Foi no serviço de armas ou em alguma de suas perambulações O falso Martin prosperou nos negócios, ajudado por
que Martin Guerre decerto conheceu Arnauld Du Tilh, um ra- Bertrande, e, ambicioso, ousou interpelar seu tio sobre os ren-
paz meio desajustado, de uma família camponesa abastada de dimentos da herança que lhe pertencia, e Pierre administrara
Sajas, homem que, como Martin, se enfadava com a vida cam- na sua ausência. Interpelou-o judicialmente no tribunal de Rieux
ponesa. Mas Arnauld era eloqüente, à diferença de Martin, e e ganhou um formidável inimigo. Um inimigo que buscou in-
dado como freqüentador de bordéis, amigo do vinho e de aven- formar-se sobre a vida de Martin no exílio voluntário, dando
turas. Ficaram muito amigos, presume com razão Natalie Davis, asas à sua desconfiança de que era um impostor. Afinal, como
a ponto de Arnauld conhecer com muitos detalhes a vida de esquecera tantas expressões em basco? Como se desinteressara
Martin antes e depois do casamento em Artigat. Conhecia tan- tanto pela esgrima? O rumor sobre o embuste do novo Martin
to de Martin que resolveu tomar seu lugar em Artigat. Eis a ganhou a comunidade, uns achando que Martin era vítima da
origem do falso Martin Guerre. ganância do tio, outros convencidos da impostura.
Regressando após anos de ausência, barbado e um pouco O depoimento de um soldado que conhecia Arnauld e asse-
mais gordo — tinha o apelido de "Pansette" (barriga) — , não
verou sua impostura deu origem à desdita do falso Martin. Pierre
foi de imediato reconhecido. Seu tio Pierre desconfiou desde
Guerre apresentou-se ao juiz de Rieux questionando a identi-
cedo, Bertrande se mostrou perplexa, mas o novo Martin con-
dade do sobrinho, munido de falsos documentos que o faziam
venceu a todos. Falou a Bertrande de certas meias brancas que
representante de Bertrande. Ela, na verdade, jamais tomara
só ela conhecia, mencionou vários episódios familiares ao tio.
qualquer iniciativa no caso, como veio a provar-se depois. O
Em uma época em que não havia retratos de família e os qua-
falso Martin foi preso, submetido a interrogatórios, sendo ou-
dros pintados eram apanágio de nobres, numa sociedade onde
vidas 150 testemunhas, vários que conheciam Arnauld desde a
um simples espelho era peça rara na casa camponesa, não era
infância, muitos que conheciam o verdadeiro Martin, alguns
fácil saber quem era quem depois de muitos anos de ausência.
que conheceram os dois juntos. Mas como provar a identidade
Como os pais de Martin já haviam morrido, a farsa de Arnauld
de alguém, insiste Davis, em uma época em que não existiam
prevaleceu, decerto com a cumplicidade da esposa. Ela mesma
diria, mais tarde, quando a farsa veio a público, que comiam, fotografia, carteiras de identidade ou impressões digitais? Os
bebiam e dormiam juntos, como se fossem casados. E, de fato, retratos pintados eram raros, os registros paroquiais irregula-
tiveram filhos e viveram muito bem durante alguns anos. É res... Os juízes não tinham outro recurso senão o de ouvir teste-
óbvio que Bertrande se afeiçoou ao novo Martin e foi dele munhas e provocar a memória individual dos depoentes, mais
88 O S PROTAGONISTAS ANÔNIMOS DA HISTÓRIA A M I C R O "HISTÓRIA EM CENA 89

avantajada nessa época do que seria no futuro. Bertrande, teste- dade, pois ela pesquisava então aspectos da história econômica
munha-chave, manteve postura a mais ambígua possível, pois italiana na época do Renascimento. Trata-se de livro menos
não queria perder o "novo" marido, ao que parece, nem se ex- conhecido que o de Ginzburg, um clássico da história cultural,
por à condenação de cúmplice. E o falso Martin, brilhando ou de Natalie Davis, outro clássico cujo enredo virou filme, ou
como ator, insistia em que era o verdadeiro, desfiando detalhes mesmo de Giovani Levi, um dos diretores da Microstorie italia-
de sua nova identidade e atacando o tio delator. na. Mas nos livros dedicados à história da sexualidade, especial-
No tribunal de Rieux foi condenado a ser decapitado — mente à sexualidade feminina, Atos impuros é referência obriga-
embora não fosse nobre — e depois esquartejado, sentença da tória, pelo muito que ensina sobre o erotismo das mulheres no
qual recorreu, levando o caso ao tribunal de Toulouse, instância passado, sobretudo — e paradoxalmente — entre aquelas que
superior. E os juízes do recurso estavam mesmo muito inclina- viviam reclusas, fazendo voto de castidade por terem "entrado
dos a suspender a sentença, declarando-o inocente, não fosse o em religião". Por isso mesmo, o livro fornece lições preciosas
inesperado retorno de Martin Guerre. Coxo, manquitolando sobre a imbricação do sagrado com o profano naquele tempo,
com a perna de pau, o verdadeiro Martin Guerre pôs fim ao quer para os que sofriam perseguições por misturar as duas es-
impasse, embora se recordasse menos de sua própria vida de feras, quer para os que estavam encarregados de policiar cons-
que o hábil impostor Arnauld DuTilh. Desmascarado, este aca- ciências e atos.
baria por admitir todas as culpas, elogiando os juízes, pedindo Mas o livro de Brown, como bom exemplo da micro-histó-
perdão a todos, a Bertrande, aos familiares de Martin. Conde- ria, não se preocupa em contextualizar explícita e formalmente,
nado à forca, como plebeu que era, e a ter seu corpo reduzido a seja a história das religiosas na Itália dos séculos XVI e XVII,
cinzas pelo fogo, foi executado em 1600. seja o ambiente eclesiástico no tempo da Contra-Reforma. Os
A vida de Artigat voltou aparentemente ao normal, o verda- quadros gerais pertinentes ao enredo, a exemplo da(s) socie-
deiro Martin com Bertrande outra vez, um perdoando o outro dade^) italiana(s) da época, a vida religiosa, o misticismo, a
pelos erros passados. Tiveram mais filhos, assevera-nos Natalie literatura piedosa, os ditames da Igreja, tudo vem entremeado à
Davis, com evidências de fontes paroquiais. narrativa sobre a vida de Benedetta Carlini de Vellano, que veio
a ser abadessa do convento teatino de Pescia, no início do sécu-
lo XVII. Nos primeiros capítulos, porém, por meio da vida de
Benedetta, a Visionária Lésbica Benedetta, fica-se sabendo muito sobre a condição da mulher
Do mundo camponês à reclusão conventual, eis o cenário no mundo católico tridentino, das filhas de famílias importan-
de ImmodestActs ou, como na tradução brasileira de 1987,Atos tes e abastadas enviadas ao convento sem nenhuma vocação
impuros,38 livro da norte-americana Judith Brown, outro exem- religiosa, embora muitas a tivessem, sem dúvida. Fica-se co-
plo de micro-história. Publicado em 1984, o dossiê que deu nhecendo a economia dos conventos e sua inserção nos circui-
origem ao livro veio às mãos da autora um pouco por casuali- tos comerciais de cada lugar — de Pescia, em particular — pois
9 0 O s PROTAGONISTAS ANÔNIMOS DA HISTÓRIA A M I C R O "HISTÓRIA EM CENA 91

ao contrário do que muitos supõem, os conventos, assim como diziam tocadas pela graça, muitas delas desejosas do reconheci-
os mosteiros, não eram apenas espaço de meditação ou con- mento da Igreja. Judith Brown esclarece com brilho esse afã de
templação religiosa, mas autênticas empresas, na escala da épo- reconhecimento das reclusas da época, muitas delas religiosas
ca, que produziam artesanato e faziam comércio. No caso em convictas, bem como dos cuidados da Igreja nesses casos. Pre-
foco, as moças se sustentavam com os dotes que cada uma leva- venida contra o frenesi místico que ela mesma patrocinava e
va consigo e com a renda proveniente do trabalho com a seda, estimulava, buscava averiguar, nos casos mais rumorosos, a
transformada em linha para a manufatura florentina. As aba- licitude das "visões" beatíficas, sendo que, nos países onde ha-
dessas eram, portanto, gerentes de negócios, além de guias espi- via Inquisição, por vezes o Santo Ofício interferia no assunto.
rituais de reclusas, esposas de Cristo, e assim foi no caso de Era preciso saber se a visão era verdadeiramente provocada pela
Benedetta Carlini. graça e facilitada pelo dom da religiosa ou se não passava de uma
Como no caso dos livros anteriores, também no de Judith armadilha diabólica. Era preciso distinguir, também, se transes
Brown seria vão tentar classificar o livro como exemplo de his- ou visões eram autênticos, fossem divinos, fossem sinais de pos-
tória das mentalidades no "mau sentido", isto é, de unicamente sessão ou se não passavam de embustes da "visionária", interessa-
preocupado com crenças ou comportamentos cotidianos da em granjear fama e prestígio por seus dons excepcionais.
desconectados da sociedade inclusiva e pouco afeitos ao econô- No caso de Benedetta Carlini, os encarregados de ajuizar
mico. Economia e sociedade são decerto esferas que aparecem sobre o caso — núncios do Papa — acabariam por julgá-la
com absoluta nitidez nesse livro, como nos demais, só que — embusteira. Mas o livro só revela isto no final, transcorrendo
vale sublinhar — em escala microscópica. Aparecem sem qual- em clima novelesco de suspense típico da micro-história. Ao
quer pretensão à generalização ou à explicação de conjunto. longo dos capítulos, o leitor acompanha a história da poderosa
Mas é também certo que nele sobressaem a temática da expe- abadessa, de como iniciaram suas visões, do que lhe diziam Cristo
riência mística e da sexualidade, sendo que a maneira como as e a Virgem, de como suas mãos ficaram com os estigmas de
duas esferas se relacionam só se pode perceber pela vida parti- Cristo na cruz, do que trazia marcas evidentes. Transportado
cular dessa notável abadessa. para a atmosfera de um convento italiano no início do século
Benedetta Carlini veio a se destacar no convento a ponto de XVII, assim como o leitor de O nome da Rosa é transportado
ser alçada à condição de abadessa — e o livro esclarece os crité- para o ambiente de um mosteiro medieval — no romance de
rios e os jogos políticos envolvidos em tais promoções. Tornou- Umberto Eco, o leitor de Atos impuros ficará convencido da
se poderosa e autoritária, chegando a provocar ressentimentos importância da experiência mística naquele tempo, seja para
entre as reclusas, algumas ao menos, e quem sabe tomada de religiosos, seja para leigos — pois é claro que a fama de Benedetta
ambição, veio a simular experiências místicas extraordinárias, ultrapassou os muros do convento de Pescia.
nas quais ouvia ou via Cristo, a Virgem e alguns santos. Eis um A investigação ordenada por Roma, de que a autora dá de-
traço comum nas religiosas daquele tempo, mulheres que se talhes informando sobre os aspectos institucionais de uma ave-
A m i c r o - h i s t ó r i a em c e n a 93
92 O S PROTAGONISTAS A N Ô N I M O S DA HISTORIA

riguação de "santidade", pautou-se em grande parte nos rotei- Giovan Battista Chiesa, o Exorcista
ros prescritos por Santa Tereza de Avila, ela que, no século XVI, Vale terminar este panorama de enredos micro-históricos
fora alvo de averiguação similar. Tereza de Ávila prescrevera re- com o livro de Giovanni Levi, não só porque é considerado um
gras para se ajuizar acerca da visão beatífica autêntica, dentre as dos expoentes do género, diretor daMicrostorie juntamente com
quais figuravam: ter o visionário se dedicado à longa oração e Carlo Ginzburg, mas sobretudo porque sua obra oferece ele-
contemplação antes de ter a visão — e não simplesmente tê-la mentos novos para a observação do campo. Publicado em 1985,
no início da reza; o teor das palavras ouvidas do divino Cristo, L'eredita immateriale (A herança imaterial) se compõe de sete
da beatíssima Maria ou dos santos, as quais não podiam ser capítulos com títulos mais convencionais, a exemplo de "Reci-
"desonestas", quer dizer, eróticas; manter-se o religioso humil- procidade e comércio de terras" ou "A definição do poder", des-
de, evitando alardear seus dons e a graça recebida. tacando que seu autor, ao contrário de alguns praticantes da
Benedetta Carlini não preenchia com exatidão as regras pre- micro-história egressos da história das mentalidades ou dedica-
vistas nesse caso, especialmente porque era soberba, mas havia, dos à história cultural, é historiador da economia. Assim, após
por outro lado, sinais que puseram os investigadores em dúvi- uma curta introdução formal em que situa seu objeto no âmbi-
da. O escândalo que se passava no convento veio à tona com o to do estudo das sociedades camponesas do Antigo Regime,
depoimento da freira Benedetta Criveli, acompanhante espe- inicia o livro bem à moda da micro-história, isto é, por meio de
cial da abadessa, mulher semi-analfabeta e ingênua que, argüi- um estilo romanesco:
da pelos núncios, informou que Benedetta Carlini, em alguns
de seus transes, encarnava o anjo Splenditello e começava a falar Não é possível estabelecer com exatidão há quanto tempo Giovan
com voz grossa, beijando-lhe o pescoço, tocando em seus seios Battista Chiesa, pároco vigário de Santena, havia começado a sua
e prometendo-lhe felicidade em voz celestial. O depoimento de atividade de exorcista e curandeiro, mas temos certeza de que havia
Crivelli desmascarou a fama mística de Benedetta Carlini — e menos de um mês que a sua pregação se tinha intensificado e se
por meio dele fica-se sabendo muito sobre como as mulheres tornado sistemática quando recebeu uma injunção escrita do
usavam eróticamente o corpo naquele tempo. canónico Giovan Battista Basso, protonotário apostólico e vigário-
Mas a abadessa, depois desse testemunho, caiu mesmo em gerai do arcebispo de Turim. Ordenavam-lhe que viesse para a ci-
desgraça. O caso vazou e muitas reclusas se apresentaram para dade e parasse com os exorcismos até que obtivesse a permissão do
desqualificar as "visões" de Carlini, havendo quem asseverasse próprio arcebispo. Era o dia 13 de julho de 1697.39
tê-la visto ferir a palma de suas mãos para alegar depois os estig-
mas divinos. Benedetta Carlini perdeu o cargo e foi sentencia- Na primeira frase do livro, a identificação do personagem
da à reclusão perpétua em uma cela do convento. Sua fama de central — o pároco Giovan Battista Chiesa — , seu ofício de
mística não desapareceu, porém, com o despacho do processo. exorcista, do qual parecia abusar, e da pequena comunidade de
Consta que, depois de morta, o povo disputou suas "relíquias". Santena. Além disso, a indicação tão-somente de uma data, o
94 -«s Os PROTAGONISTAS A N Ô N I M O S DA H I S T Ó R I A A m i c r o " h i s t ó r i a em c e n a 95

ano de 1697, quando se iniciou o processo contra Chiesa. É, Giovan Battista Chiesa era, pois, um misto de exorcista,
com efeito, desse processo e dos fatos nele registrados, que tra- taumaturgo e curandeiro, a exemplo de muitos exorcistas da-
ta, sob forma exclusivamente narrativa, o primeiro capítulo do quela época, sobretudo no nível do baixo clero, embora alegas-
livro, intitulado "Os exorcismos em massa: o processo de 1697". se observar as regras de um tal Manuale parochorum et exor-
Acusado de praticar exorcismos irregulares em centenas de cistarum — obra que Levi não logrou encontrar. Fazia seus exor-
pessoas de Santena e de várias localidades circunvizinhas, cismos basicamente por meio de orações e fórmulas contidas
Giovanni Battista trazia minucioso registro de suas atividades, no manual, brandindo um bastão e, ao que parece, tocando
que acabaria confiscado pela justiça eclesiástica, e gozava de violino, além de pendurar bilhetes no pescoço dos animais "en-
enorme prestígio entre os pobres do lugar, os quais ajudava. feitiçados". E evidente que o pároco de Santena adaptava as
Interrogado pela cúpula eclesiástica de Turim, incluindo um regras do manual exorcistarum a práticas e saberes curativos,
reverendíssimo vigário do Santo Ofício, Giovan Battista não reais ou fictícios, de origem popular, transgredindo as regras da
chegou a ser propriamente preso, embora proibido de praticar Igreja nesse assunto, além de praticar exorcismos sem autoriza-
exorcismos, julgado ignorante por seus juízes. ção eclesiástica. As multidões, porém, criam piamente nos seus
De fato, segundo o registro do próprio pároco, somente entre poderes e o seguiam e solicitavam permanentemente, o que Levi
29 de junho e 15 de agosto de 1697, Chiesa tinha cuidado de atribui ao entrelaçamento entre medicina e magia naquele tem-
539 pessoas, mais de 200 por ele descritas como "obsessas", po, bem como ao sentimento generalizado de insegurança e
"vítimas de malefícios", "enfeitiçadas" ou "invadidas por espíri- desamparo das massas rurais na época.
tos imundos". Mais de cem eram aleijados, paralíticos, coxos Inquirido pelos juízes, reconheceu seus erros, foi liberado
ou sofriam de dores ciáticas, e dos restantes, sem considerar os mas voltou, ato contínuo, a praticar exorcismos. No dia se-
98 cujo "malefício" o pároco não identificou, Levi avalia que guinte à sua liberação, exorcizou nada menos que 12 pessoas e,
um estava coberto de sarna, 18 eram cegos, 13 mudos, 5 tísi- após três dias de recesso, retomou freneticamente suas ativida-
cos, 10 hidrópicos, 4 epiléticos, 9 apresentavam tumores nas des: se antes do interrogatório eclesiástico Chiesa exorcizava,
pernas ou braços, 8 sofriam de gota, 3 tinham problemas no em média, seis pessoas por dia, entre 17 de julho e 14 de agosto
baço, 4 no estômago, 3 eram mudos ou gagos, 2 sofriam dos realizou nada menos que 18 atendimentos. Suas curas eram
rins e 2 estavam feridos por arma de fogo. Uma multidão de muitas vezes espetaculares, acorrendo multidões para assisti-las,
pessoas, portanto, com os membros deformados e os sentidos e ele mesmo era um prosélito do exorcismo:
defeituosos, "apoiados em bengalas e muletas", além dos ator-
mentados por males espirituais. Isto sem contar os animais, que Dizia publicamente que Deus havia feito as criaturas perfeitas, que
também deles cuidava Chiesa, a exemplo de cavalos e burros, tinham sido os Demônios e os Espíritos a estragarem-nas e que a
levados por seus donos ao pároco para receberem benzeduras e maior parte delas que sofria de doenças era endemoninhada: sendo
exorcismos. assim, a cada cem pessoas, noventa eram mortas pelas mãos do
A m i c r o - h i s t ó r i a em c e n a 97
96 O s PROTAGONISTAS A N Ô N I M O S DA HISTÓRIA

lo que aconteceu nas famílias e que, graças ao acúmulo de notí-


Demônio e de todos os confins da Terra teriam vindo até ele pes-
cias, se define sempre mais, como fisionomias e acontecimen-
soas oprimidas, para que fossem libertadas.40
tos particulares".41 Verticaliza, porém, considerados a disponi-
bilidade de fontes e o próprio objetivo da pesquisa, a história
Relapso, foi preso em 16 de agosto, e outra vez interrogado,
de algumas famílias, de como alcançaram riqueza e poder em
iniciando-se investigação mais vasta, com a arguição de teste-
Santena, para em seguida, o capítulo terceiro, estudar a reci-
munhas favoráveis e contrárias ao exorcista. Chiesa alegou, em
procidade e o comércio da terra, atento ao entrelaçamento en-
sua defesa, que sempre fizera os exorcismos conforme os precei-
tre estratificação de riqueza e escala de prestígio na sociedade
tos de seu manual; que só tocara violino em seu quarto, sem
local. Trata-se na verdade de capítulo típico de história social e
misturar essa "recreação" com seu ofício; que jamais recebera
econômica dimensionado, porém, em escala minúscula, e pre-
dinheiro por esse serviço; que só desobedecera a proibição de
ocupado não em traçar as linhas gerais da estrutura socioeco-
não mais exorcizar por ser impossível "fugir de tanta gente
nómica da localidade, mas em d escrever, com profusão de deta-
que ali vinha para ser exorcizada". Tornou a pedir perdão pe-
lhes e nomes, a vida material, social e política da comunidade.
los erros, alegou não ambicionar qualquer tipo de glória e, se
fizera os tais exorcismos, fora por caridade. Levi não encontrou A narrativa — sem dúvida analítica, nesse caso — desem-
a sentença acordada pelos juízes nos Registra causarum, nem em boca no capítulo dedicado a Giulio Cesare Chiesa, pai do
qualquer repertório da justiça eclesiástica do arcebispado de Tu- exorcista Giovan Battista — homem que alcançou posição de
rim, mas sugere que o pároco foi suspenso das ordens sacras — máximo prestígio e poder em Santena, não por meio do acúmulo
pena ordinária nesses casos — e teria partido para outra cida- de riqueza ou terras, mas por seus atos, como tabelião, em meio
de onde ninguém o conhecesse. As pesquisas realizadas pelo às crises e aos conflitos que assolaram a região na segunda meta-
historiador em todos os documentos possíveis relacionados a de do século XVII, particularmente entre 1647 e 1690. No
Santena sugerem ter Chiesa simplesmente sumido sem deixar plano geral, as guerras contra França e, no plano local e regio-
rastro. nal, as tensões entre Santena e Chieri, envolvendo disputas de
terras e poder jurisdicional. Eis a "herança imaterial" recebida
A história dos exorcismos de Giovan Battista Chiesa e de
por Giovan Batista, que abraçou a carreira eclesiástica: o prestí-
suas complicações com a justiça eclesiástica do Piemonte é,
gio do pai em um contexto exclusivamente local. Daí, talvez,
porém, ao contrário do que se possa imaginar, apenas o início
suas ambições de prestígio, combinadas à expectativa da comu-
da micro-história de Giovanni Levi. Nos dois capítulos seguin-
nidade, fosse positiva, fosse negativa — e quem sabe alguns
tes, o autor se dedica à reconstituição exaustiva da sociedade
dons curativos. De todo modo, argüido pelos juízes eclesiásti-
local no período de 1672 a 1709, verdadeira prosopografia, no
cos, Giovan Battista afirmou que, dentre as centenas de pessoas
caso uma biografia coletiva da pequena cidade, registrando cer-
que exorcizara, uns se haviam curado, outros não — e, nesse
ca de 32 mil ocorrências nominativas. E como se estivesse, diz
caso, por lhes faltar a fé.
Levi, na praça da aldeia, ouvindo, durante 25 anos, "tudo aqui-
98 O S PROTAGONISTAS A N Ó N I M O S DA H I S T O R I A A m i c r o - h i s t ó r i a EM CENA 99

A historia do exorcista é, como admite o próprio Levi, não tóricos" do século XIX: o romântico, de Michelet; o cômico, de
apenas o objeto da narrativa, mas o pretexto para a reconstituição Ranke; o trágico, emTocqueville, o satírico, em Burckhardt. De-
do ambiente social e cultural da cidade. As últimas palavras do finindo a história como uma escrita situada entre a Metáfora e a
autor revelam, de fato, sua maior ambição com esse estudo de Ironia — nesse último caso o historiador se colocando como
tipo micro-histórico: detentor de uma sabedoria superior à de seu público leitor —
White não chegou a romper completamente as fronteiras entre
Prefiro imaginar que toda essa multidão que passou diante de nós história e ficção, mas pensou a história, antes de tudo, como
tenha contado alguma coisa não somente de si mesma. Espero que um tipo de narrativa sobre determinado fato, personagem, so-
com a sua pobre prática cotidiana tenha contribuído para determi- ciedade ou objeto. Simplificando ao extremo, para White im-
nar, no bem e no mal, o caráter do Estado moderno, as escolhas e porta saber não como a história é, foi, deixou de ser ou poderia
os compromissos das suas classes dominantes.42 ter sido, mas as várias maneiras pelas quais ela é contada.46 Os
vulgarizadores de White foram além, e não vêem qualquer dife-
rença entre a narrativa histórica e a ficcional, uma e outra
ALÉM O U A Q U É M DA FICÇÃO dedicadas ou condenadas a (re) inventar a realidade.
Os quatro exemplos de livros de micro-história até aqui No final da década de 1970, e já no contexto da história das
apresentados põem em cena, antes de tudo, a questão da escrita mentalidades praticada na França e irradiada em outros países,
da história. Foucault já levantara a questão, há décadas, em vá- ficou célebre a polêmica entre Lawrence Stone e Eric Hobsbawn,
rios trabalhos, sugerindo ser o texto historiográfico nada mais o primeiro vaticinando, com profundo mal-estar, o retorno da
que uma formação discursiva, devendo por isso renunciar a narrativa como traço dominante da historiografia produzida e
qualquer pretensão explicativa. Ou, como disse Patrícia O. Brien, por produzir no final do século XX, ao que Hobsbawn respon-
"Focault questionou o próprio princípio explícito em toda a deu questionando, com lucidez, a oposição radical entre narra-
história social: o de que a própria sociedade constitui a realida- tiva e explicação no texto historiográfico, sem deixar de conde-
de a ser estudada".43 Impossível não ver os ecos dessa postura nar, como bom marxista, os "excessos" dos historiadores das
em Michel de Certeau, por exemplo, adepto de umfaire de 1'histoire mentalidades.47
sobretudo direcionado à hermenêutica de textos,44 ou mesmo a A questão sobre o estatuto da escrita historiográfica e sobre
de um Roger Chartier, contrário ao que chama "tirania do social" o papel da narrativa no texto do historiador é de todo pertinen-
— entenda-se da história social — e defensor, na década de 1990, te à delimitação do que vem a ser a micro-história, sobretudo
de que a história só adquire dimensão real e cognoscível no mun- porque ela reivindica, explicitamente, seu apego à narrativa. No
do das apropriações e representações culturais.45 entanto, essas dúvidas e ceticismos quanto à capacidade de o
Em 1973 foi a vez de Hayden White discutir o assunto em historiador reconstituir ou reconstruir realidades históricas por
sua Meta-história, livro dedicado ao estudo dos "realismos his- meio de suas pesquisas e textos, se foi ou é freqüente entre filó-
100 O s PROTAGONISTAS A N Ô N I M O S DA H I S T Ó R I A A m i c r o - h i s t ó r i a hm c e n a 101

sofos, críticos literários e mesmo entre historiadores — como das diligências mandadas fazer pelos inquisidores, nas quais são
alguns dedicados às mentalidades — pouco têm a ver com a argüidas testemunhas em número variado, por vezes sobre um
micro-história. Nenhum dos historiadores — italianos ou de detalhe das acusações contra o réu ou relativo às suas contradi-
outras procedências — dedicados à micro-história renunciou à tas; há os documentos acusatórios dos denunciantes ou mesmo
busca da veracidade dos fatos ou, quando menos, à verossimi- confissões de cúmplices que contêm delações — em regra tras-
lhança deles, sendo este o caso dos exemplos expostos no item ladadas e incluídas no dossiê; há libelos acusatórios, contraditas
anterior — e que se poderiam multiplicar à farta. de procuradores e, sobretudo, documentos relacionados aos
Em todos os livros examinados como modelos de micro- interrogatórios — havendo por vezes inúmeras sessões de in-
história, constata-se, antes de tudo, o cuidado no uso das fon- quirição in genere e in specie, consistindo essas peças na maior
tes e a profusão delas. Em Ginzburg, por exemplo, os dois volu- evidência da relação dialógica estabelecida entre juiz e réu em
mosos processos inquisitoriais, além de documentos ancilares, um processo inquisitorial ou de tipo inquisitorial.
sempre que necessário esclarecer o que Mennochio lera ou po- O mesmo vale, portanto, para o Atos impuros de Judith
dia ter lido e os aspectos do modus faciendi inquisitorial. So- Brown, cuja narrativa da visionária lésbica Benedetta Carlini só
mente historiadores desacostumados à pesquisa e pouco fami- foi possível depois de exaustiva e extensa pesquisa de fontes
liarizados com a documentação inquisitorial são capazes de des- inclusas em um anódino Miscellanea Medicea do Arquivo do
qualificar a pesquisa presente em O queijo e os vermes sob a Estado de Florença, além de outros documentos.
alegação de que o livro tem como base apenas um ou dois pro- No caso de O retorno de Martin Guerre, de fato, Natalie Davis
cessos da Inquisição. não encontrou a documentação primária do processo movido
Um processo da Inquisição, dependendo da heresia ou do contra o impostor, Arnauld du Tilh. Sem dúvida Davis deu
herege em causa, pode alcançar mais de mil fólios manuscritos, vasta munição aos críticos da micro-história, em especial aos
cuja leitura exige conhecimentos paleográficos e pesquisa para- que afirmam ser ela o exemplo máximo de texto historiográfico
lela de tipo filológico e/ou vocabular, considerando as altera- ficcional, ao admitir que, quando não encontrava em fonte
ções de uma mesma língua nos últimos 400 ou 500 anos. Além direta o homem ou mulher que procurava na pesquisa, busca-
disso, o processo inquisitorial não é um prontuário homogêneo va em outras fontes da época e lugar indícios de como teriam
com indicação fria e explícita de informações, senão um dossiê agido. Uma "invenção minha", confessou a autora, embora
complexo, composto de peças variadas. Há documentos admi- ancorada solidamente "às vozes do passado". Na verdade, Na-
nistrativos inerentes à processualística inquisitorial prevista nos talie Davis poderia ter poupado a si e à micro-história dessa
regimentos; há pareceres de funcionários especializados, a exem- provocação, pois se lhe faltou o processo original, sua pesqui-
plo dos qualificadores, no caso de ser necessária a identificação sa esteve solidamente ancorada (como ela diz) em relatos dire-
e refutação de proposições heréticas, nos quais não raro ocor- tamente ligados aos fatos, incluindo o do juiz do processo: o
rem citações eruditas e em latim; há documentos resultantes Arrest Memorable du Parlement de Toulouse, de Jean Coras, pu-
102 O s PROTAGONISTAS A N Ô N I M O S DA HISTORIA A m i c r o - h i s t ó r i a em c e n a 103

blicado em 1561, e o Histoire admirable d'Arnaud Tilye, de ler o artigo de Ginzburg a propósito do livro de Natalie Davis,
Guillaume Le Sueur, editado no mesmo ano — pesquisa que e de sua afirmação provocativa de que por vezes inventara fatos.
abarcou as várias edições das duas obras — sem contar o mar "A investigação e a narração de N. Davis — corrige Ginzburg
de documentos notariais e de outros tipos compulsados nos — não se baseia na contraposição entre verdadeiro' e 'inventa-
arquivos de Artigat, Ariège, Gers, la Gironde, Haute-Garonne, do', mas na integração, sempre assinalada pontualmente, de rea-
Pas-de-Calais, Pyrénées-Atlantiques, Rhône e Archives lidades e possibilidades. " 48 Empenhado em discutir o estatuto
Nationales. da narrativa no texto historiográfico, Ginzburg combate fron-
No caso de Giovanni Levi, a base documentai de sua pes- talmente, em "Provas e possibilidades", os céticos ou relativistas
quisa é verdadeiramente monumental, abrangendo variados ti- que, desde a década de 1970, têm diluído ou procurado diluir
pos de fontes, quer qualitativas — como os interrogatorios de as fronteiras entre a história e a ficção. Assim, adverte que em
Giovan Battista Chiesa depositados no arquivo arquiepiscopal matéria factual — especialmente nela — o rigor do historiador
de Turim — quer fontes seriais — cartoriais ou paroquiais — deve prevalecer, e isto vale tanto para os "grandes" fatos da po-
pesquisadas nos arquivos da paróquia de Santena e no da pre- lítica ou da economia, como para os "pequenos" fatos da vida
feitura de Chieri, sem falar nas fontes compulsadas no Arquivo cotidiana de aldeias ou de "personagens anônimos", isto é, os
de Estado de Turim. não pertencentes ao panteão dos personagens oficiais da histó-
De maneira que são no mínimo imprudentes os críticos da ria. E, para tanto, é necessário pesquisa de fontes, verticalização
micro-história que insistem na cantilena de que nela não há investigativa e ampliação dos corpi documentais, o que não raro
pesquisa ou a pesquisa é baseada em poucos documentos quali- resulta em enorme esforço para acrescentar um detalhe a mais
tativos — usando-se estranhamente o "qualitativo", nesse con- na vida de um personagem, seu tipo físico, seu modo de vestir
texto, para desqualificar ou desmerecer a investigação arqui- ou andar.
vística. O género micro-histórico, pelo contrário, se ancora em A micro-história, na verdade, não inventa fatos, embora es-
uma pesquisa exaustiva de fontes, por vezes muito variadas, o pecule muito, passando ao leitor as dúvidas do historiador e os
que se combina com a exposição narrativa e descritiva dos ca- dilemas miúdos da pesquisa, contribuindo, por meio desse pro-
sos. O fato de não raro a narrativa evitar, propositadamente, a cedimento, para adensar o clima novelesco de muitos enredos.
demonstração empírica e esmiuçada das evidências, privile- Mas se for bem-feita, como todo trabalho de história bem-fei-
giando os resultados por meio de um discurso literário, pode to, a micro-história não inventa nada. Apega-se obsessivamente
muito bem levar a confusões, conduzindo leitores de má vonta- às mínimas evidências que a documentação pode fornecer para
de ou desatentos a concluir que a micro-história transforma a dar vida a personagens esquecidos e desvelar enredos e socieda-
verdadeira história em ficção. des ocultados pela história geral.
Mas nada pode ser mais equivocado que um juízo desse
tipo. Bastaria, não fossem os exemplos expostos e comentados,
A MICRO-HISTÓRIA NOS BASTIDORES

TEXTOS E DEFINIÇÕES
Os capítulos anteriores buscaram demonstrar que, embora
guarde algum parentesco com a história das mentalidades difun-
dida na França das décadas de 1960 e 1970, a micro-história
apresenta trajetória e proposta singulares. À semelhança da histó-
ria das mentalidades, a micro-história se debruçou preferencial-
mente sobre temas deixados à margem, quer pela história con-
vencional ou historicista — apegada aos grandes personagens ou
eventos —, quer pela história social dedicada às estruturas sócio-
econômicas das grandes totalidades — países, épocas, regiões.
Além disso, uma e outra propuseram, de maneiras diferentes,
uma certa "antropologização" da história, no mínimo pela preo-
cupação comum com o regisíEroêtnõgráfico e a busca das alteri-
dades no tempo. Enfim, a valorização da narrativa nos dois casos
foi, desde o início, um ponto de aproximação, do que resultou,
em grande parte, a "popularização" da bibliografia histórica, que
adquiriu visibilidade considerável nas últimas décadas, ultrapas-
sando, em vários países, as muralhas do universo acadêmico.
106 -5§> OÍ PROTAGONISTAS A N Ô N I M O S DA HISTÓRIA

Mas as semelhanças não vão muito além desses pontos,


relembrando a diferença essencial entre os dois campos histo-
riográficos. No caso da melhor bibliografia produzida pelos
"historiadores das mentalidades", os recortes permaneceram
amplos — paraíso, purgatório, medo, feitiçaria, infância —,
analisados em conexão com a história geral das sociedades em
determinadas épocas — sobretudo a Idade Média e a Época
Moderna. Já najnicro jiisiária > ,ppr j e u turno, os recortes privi-
legiados foram sempre minúsculos: a história de indivíduos,
comunidades, pequenos enredos construídos a partir de tramas
aparentemente banais, envolvendo gente comum.
A micro-história, como vimos, surgiu de outras matrizes,
resultando das inquietações dos historiadores italianos, ao lon-
go das décadas de 1970 e 1980, em face da discussão sobre a
"crise dos paradigmas", e particularmente sobre as fragilidades
das mentalidades que alguns praticavam, a começar por Cario
Ginzburg. Em um célebre artigo de 1979, "O nome e o como",
publicada na revista Quaderni Storici, Ginzburg e Cario Poni
discutiram uma série de impasses da historiografia italiana na-
quela altura e abriram caminho para a micro-história. Inquieta-
vam-se com a obstinada resistência da historiografia italiana à
história social à moda francesa, em parte resultante da força do
idealismo crociano, em parte por causa de certa influência do
marxismo gramsciano — e sua adesão, um tanto pragmática, a
certas inovações, como as mentalidades.
Comentando esse percurso, Jacques Revel, historiador fran-
cês, sugeriu, em texto de 1989, que "a organização ao mesmo
tempo hierarquizada e atomizada da universidade italiana se
adaptava mal, até uma época muito recente, a empreitadas co-
letivas e anônimas, adaptadas apenas aos grandes temas da nova
história, mesmo que as incríveis riquezas dos arquivos da pe-
A MICRO-HISTORIA NOS BASTIDORES 107

nínsula tivessem podido oferecer recursos extremamente favo-


ráveis".49 A micro-história surgiu na Itália, portanto, em gran-
de parte como resultado de um mal-estar de um grupo de his-
toriadores do país diante da "dependência de modelos histo-
riográficos importados, sobretudo franceses e anglo-saxões".—
A proposta da micro-história, antes da criação da coleção
Microstorie dirigida por Cario Ginzburg e Giovanni Levi a par-
tir de 1981, começou, assim, a circular de modo informal em
uma série de pequenos artigos publicados nos Quaderni Storici,
um debate até certo ponto silencioso, na década de 1970, tem-
po em que a história das mentalidades à moda francesa se en-
contrava no apogeu. É o caso do artigo de Ginzburg e Poni, "O
nome e o como", de 1979, ou antes dele, o "Microanalisi e
storia sociale", de Edoardo Grendi, este de 1972, sem falar do
que talvez tenha sido o texto-chave de todos esses debates, pu-
blicado em 1979: o artigo de Ginzburg, "Spie. Radiei di un
paradigma indiciário" (Sinais. Raízes de um paradigma indi-
ciário).
Impossível alcançar os pressupostos da micro-história sem
conhecer com alguma profundidade alguns desses textos, bem
como o balanço da micro-história feita por Giovanni Levi, em
1991, em livro organizado por Peter Burke. Um artigo que,
vale repetir, discute os objetivos, alcances e limitações da micro-
história dez anos após o surgimento da série Microstorie. E não
será exagero dizer que a série Microstorie está para a historiografia
italiana — e ocidental — como a revista Annales está para a
historiografia francesa, de Bloch e Febvre à chamada "Nova
História", ou como, em escala menor, a revista Past andPresent
está para a historiografia inglesa ligada à história social de corte
marxista — a de Christopher Hill, Eric Hobsbawn, Perry
Anderson e mesmo E. Thompson.
108 -5§> O Í PROTAGONISTAS A N Ô N I M O S DA HISTÓRIA

No caso da micro-história, paralelamente ao aludido des-


gaste da história das mentalidades na década de 1980 e à ascen-
são da chamada nova história culturalà qual a própria micro-
história de certo modo se vincula (sem com ela se confundir),
acabou por se expandir para além da Itália, atraindo autores
ingleses, como Thompson; norte-americanos, como Natalie
Davis; franceses, como Roger Chartier e Jacques Revel, e espa-
nhóis, como Jaime Contreras, autor de Sotos contra Riquelmes
(1992), estudo microanalítico sobre conflitos familiares e jogos
de interesse envolvendo cristãos-novos e autoridades públicas
no tempo da Inquisição. Alcançou mesmo a Alemanha — país
onde os livros franceses de história das mentalidades custaram a
ser traduzidos —, a julgar pela coletânea publicada na década
de 1990, em Frankfurt, sob a organização de Hans Medick:
Micro-histoire. Neue Pfade in die Sozialgeschichte.
Mas parece ser na França — sempre ela — que a micro-
história tem encontrado o abrigo preferencial, sem contar a Itá-
lia, incluindo a tradução de vários livros de pesquisa publicados
na Microstorie italiana e, sobretudo, a realização de colóquios e
seminários, como o realizado na École des Hautes Études en
Sciences Sociales na década 1990, sob o patrocínio do Ministé-
rio de Pesquisa e Tecnologia francês. Dele resultou o importan-
te livro Jeux d'echelles: la micro-analyse à la experience, publica-
do, sob a organização de Jacques Revel, em 1996, e traduzido
no Brasil pela editora da Fundação Getúlio Vargas com o título
Jogos de escalas: a experiência da micro-história.
Do conjunto desses textos, podemos extrair algumas defini-
ç õ e s gerais acerca da micro-história, que decerto permitem situá-
la como campo específico, distinto da história das mentalida-
des e só em parte classificável no vasto campo da nova história
A MICRO-HISTÓRIA NOS BASTIDORES <3*- 1 0 9

cultural. De todo modo, são definições que permitem compreen-


der — ou ao menos entrever — o campo teórico-metodológico
que chamei aqui "A micro-história nos bastidores", no qual se
inserem os enredos de livros comentados no capítulo anterior
— o da "Micro-história em cena".
Se for o caso de localizar um "texto fundador" da.perspecti-
va micro-histórica este seria provavelmente o "Sinais: raízes de
um paradigma indiciário". 50 É certo quejodos os autores dessa
corrente recusam admitir a existência de um texto inaugural da
micro-história, insistindo em uma gênese discreta e informal,
do ponto de vista teórico, e no caráter "extremamente empírico",
nas galavras de Revel, das abordagens que explicitaram esse cam-
po. Ele mesmo admite, porém, que o Raízes, de Ginzburg, "teve
a ambição de fundar um novo paradigma histórico", "alcançou
ampla repercussão e teve ampla circulação internacional" —
embora não considere que ele permita explicar "a produção
micro-histórica que se seguiu à sua publicação". 51
Seja como for, foi nesse instigante texto que Ginzburg, em
uma linguagem distante dos cânones historiográficos, compa-
rou o trabalho do historiador ao do detetive, como o Sherlock
Holmes de Conan Doyle, que procura refazer a trama que le-
vou a um crime remontando o quebra-cabeça de indícios frag-
mentários. Ou ao do médico, que asculta, os sintomas de seu
paciente, ou mesmo às artes venatórias do caçador primitivo,
que rastreia sua caça por meio de sinais invisíveis. O historiador
seria, assim, por excelência, um p e ^ u i ^ d o r de evidênçi^ peri-
féricas, aparentemente banais, incertas, porém capazes, se reu--
nidas em uma trama lógica, de reconstruir a estrutura e dinâ-
mica de seus objetos. Vem daí a outra célebre comparação que
faz Ginzburg entre o trabalho do historiador e o "método
1 1 0 -5§> OÍ PROTAGONISTAS A N Ô N I M O S DA HISTÓRIA

Morelli" que, na crítica de arte, buscava identificar as falsifica-


ções na periferia dos quadros, nas unhas, nos detalhes minús-
culos da anatomia, nas "vinhetas", enfim, do motivo central —
mais fácil de "copiar" porque fiel, sendo destro o falsário, ao
estilo do pintor copiado.
Cario Ginzburg propôs, nesse artigo, como derivação des-
sas comparações, a história como "ciência do particular", do
caso irrepetível e único, e não como ciêncíacle tipo "galileano",
construída a partir de abstrações e conceitos gerais. Disso de-
- corre uma concepção de história como essencialmente indutiva,
como prática de pesquisa, e não baseada ém modelos hipotéti-
cos-dedutivos, calcada na exaustiva pesquisa documental, na
erudição e no rigor factual. E implica a admissão de que o his-
toriador, debruçado sobre casos particulares para o qual só dis-
põe de evidências fragmentárias ou indiciárias, não pode esca-
par de certo ânimo conjectural ou especulativo, como o Sherlock
do romance policial. Dito de outro modo, não godeevitar cer-
ta dose de subjetivismo — o que não o autorizaria, porém,
segundo Ginzburg, a dar asas à imaginação de modo infrene.
Reside decerto nesses pontos "a ambição de fundar um novo
paradigma historiográfico" que Revel e outros viram nos "Si-
nais" — o que sem dúvida ofereceu uma alternativa teórica dis-
tinta da história-síntese, seja a Bráudeliána, seja a marxista.^
Mas o que interessa, aqui, é menos o modefo gerâl do que a
proposta micro-histórica embutida no texto. Elegendo a pes-
quisa de indícios como método da prática historiográfica, e re-
conhecendo a legitimidade das particularidades como objeto
da história — o que não se deve confundir, repita-se, com re-
cortes monográficos típicos de qualquer pesquisa histórica — o
"paradigma indiciário" abriu caminho para a pesquisa de mi-
crotemas e, mais que isso, para a pesquisa microanalítica.
A MICRO-HISTÓRIA NOS BASTIDORES <3*- 1 1 1

E quando digo microtemas — vale insistir nesse ponto —


refiro-me a estudos exaustivos de comunidades periféricas ou
de personagens sem nenhuma celebridade na História, com
H maiúsculo, e não a temas gerais que estavam no "sótão" da
história e foram resgatadas pelas "mentalidades" — tal como
a história do medo, do purgatório ou da morte no Ocidente. E
quando menciono a microanálise, refiro-me à descrição e inter-
pretação de casos minúsculos e periféricos à luz de uma história
geral, e não à história que, embora debruçada sobre o mental,
busca inserir seus objetos em totalidades explicativas.
Em "O nome e o como" de 1979, Ginzburg foi mais explí-
cito e definiu a análise micro-histórica como bifronte:

Por um lado movendo-se em uma escala reduzida, permite em


muitos casos uma reconstituição do vivido impensável em outros
tipos de historiografia. Por outro lado, propõe-se indagar as estru-
turas invisíveis dentro das quais aquele vivido se articula.52

Uma primeira definição, decerto ainda muito incipiente mas


capaz de explicar o enquadramento teórico das histórias de um
Mennochio — que Ginzburg já havia publicado (1976), de um
Martin Guerre, de um Gian Battista Chiesa. "Outros tipos de
historiografia", como diz Ginzburg, preocupados com deter-
minações gerais ou estruturas e dinâmicas totalizantes, jamais
alcançariam a riqueza e a complexidade desses enredos ou per-
sonagens. Mas Ginzburg também menciona a palavra "estrutu-
ra" nesse trecho, lembrando que os historiadores predominan-
temente têm identificado o conceito à "longa duração". Refere-
se, sem o dizer, à história das mentalidades, da qual a proposta
de uma micro-história se afasta, para propor um conceito de
estrutura como sistema que engloba tanto a sincronia como a
112 -5§> OÍ PROTAGONISTAS A N Ô N I M O S DA HISTÓRIA

diacronia. Tem-se aí, ainda que em esboço, a proposta de uma


atitude claramente "antropologizante" da história, exceto, tal-
vez, pelo discreto descarte da "longa duração", herança da "fri-
aldade" que os historiadores das mentalidades tomaram de
empréstimo à antropologia estrutural. Não resta dúvida de que
a micro-história, se não sepultou, longe disso, o tempo inercial
das estruturas mentais na construção de seus enredos, voltou-se
apaixonadamente para o tempo curto e frenético dos aconteci-
mentos, de preferência banais.
Por isso, Ginzburg afirma sem rodeios:

Propomos definir a micro-história, e a história em geral, como ciên-


cia do vivido: uma definição que procura compreender as razões
tanto dos adeptos como dos adversários da integração da história
nas ciências sociais — e assim irá desagradar a ambos. 53

Descontada a reiterada veleidade de fazer da micro-história


a "verdadeira" história, a micro-história se propõe,_aquL çomo
disciplina interdisciplinar por excelência, quase como uma "an^
tropologiíTKistórica" ou mesmo como "sociologia histórica".
Pode agradar a muitos, como agradou à plêiade de historiado-
res que aderiu à micro-história ou mesmo a alguns antropólo-
gos e sociólogos — que por meio dela "descobriram" a história,
isto é, a capacidade interpretativa que pode fazer o historiador
de comunidades ou sociedades concretas. Mas pode desagradar
a ambos — sugere ironicamente Ginzburg, e com razão, a jul-
gar pelos historiadores e cientistas sociais que criticam ou mes-
mo desqualificam a micro-história.
Quase dez anos depois, em 1991, Giovanni Levi escreveu:

A micro-história é essencialmente uma prática historiográfica em


que suas referências teóricas são variadas e em certo sentido ecléticas.
A MICRO-HISTÓRIA NOS BASTIDORES <3*- 10

O método está de fato relacionado, em primeiro lugar, e antes de


mais nada, aos procedimentos reais detalhados que constituem o
trabalho do historiador, e, assim, a micro-história não pode ser de-
finida em relação às microdimensões de seu objeto de estudo.54

Dez anos depois do surgimento da Microstorie na Itália — e


15 títulos —, Levi reconhece o ecletismo teórico dos micro-
historiadores^ marxistas, neo-historicistas, "annalistes" à moda
francesa etc., mas sublinha a identidade metodológica da pes-
quisa— detalhada, microscópica—, mais definidora dessa "prá-
tica historiográfica" do que a dimensão minúscula do objeto ou
a escolha de um tema banal e miúdo para a investigação. E
reside nessa definição, pouco ambiciosa mas realista, uma das
chaves da micro-história, que será retomada adiante: a redução
da escala de observação.
Foi nesta linha que seguiu Jacques Revel, historiador fran-
cês que chamou ji si a responsabilidade.j[e.difundir_na_França a
micro-história, insistindo nos vínculos que esta mantém com a
história social. Prefaciando o Leredità immateriale, de Levi, que
na França apareceu em 1989 como Le pouvoir au village, afir-
mou com graça que a micro-história não é, como alguns imagi-
nam, um "eco italiano do smallis beautifuU", nem propõe uma
"revolução epistemológica", mas consiste em um método de
investigação e narrativa com forte dimensão experimental, pre-
ocupada em vasculhar as estratégias individuais ou comunitá-
rias de ação em um tempo histórico determinado, buscando
exemplos ou grupos típicos. O fundamental, reafirmaria Revel
em artigo de 1996, reside na microanálise da história. Trata-se
do mesmo caminho adotadcTpor Levi na definição da micro-
história, sendo discutível, porém, sua afirmação de que ela não
propõe, pela microanálise, uma "revolução epistemológica". Os
114 -5§> OÍ PROTAGONISTAS ANÔNIMOS DA HISTÓRIA

enredos expostos no capítulo anterior e o próprio texto de Revel


publicado em 1996 — cujos roteiros metodológicos comenta-
rei adiante — demonstram o quanto a micro-história é revolu-
cionária em termos de pesquisa e narrativa.
Enfim, outro importante historiador italiano da micro-his-
tória, Edoardo Grendi, afirma em artigo de 1994, que, após
circular informalmente em meados da década de 1970, a micro-
história se inscreveu, conscientemente, "em uma evolução te-
mática própria da historiografia italiana...", como uma propos-
ta de "mudança radical da escala de observação". 55 No entanto,
Grendi reconhece a ocorrência paralela, na década de 1960, e
quase sem ressonância, da local history proposta pelo inglês W.
G. Hoskins, que apontava para o estudo da comunidade, "ins-
crita na determinação topográfica e econômica" e a eleição do
"ponto de vista societal" como escala de observação — o que
levou o autor a usar mesmo a expressão microhistory, por ele
mesmo abandonada, depois, em razão de sua hostilidade decla-
rada a fórmulas.
De todo modo, a microhistory parece ter adensado a preocu-
pação crescente de muitos historiadores britânicos por uma his-
tória antropológica das classes populares, com destaque para E.
P. Thomson — o que talvez explique sua parcial adesão à micro-
história italiana. O fato é que, nesta passagem de uma história-
síntese, debruçada sobre a problemática da produção e das tro-
cas, para uma história voltada para as linguagens e representa-
ções — onde se inclui o próprio "pontificado" das mentalida-
des" e o surgimento da micro-história — o ânimo era o de
reconstruir uma "história vista de baixo". Eis uma preocupação
fortíssima, quer da historiografia britânica, em uma perspecti-
va talvez mais sociológica, sem deixar de ser antropológica, quer
da italiana, inicialmente preocupada com o estudo de casos in-
A MICRO-HISTÓRIA NOS BASTIDORES <3*- 1 1 5

dividuais — ambas, porém, decididas a debulhar as potencia-


lidades da pesquisa em arquivo, levando-a às últimas conse-
qüências.
Daí a micro-história se apresentar, para Grendi, em_dugla
dimensão: a social e a cultural — mesmo que a linha divisória
entre ambas "permaneça fugidia e imprecisa". Quanto ao pon-
to de vista de uma micrxthLstária_"cultural!'> poderíamos dida-
ticamente exemplificar c o m o 1'wtoJDqueijo e os vermes,, rese-
nhado no capítulo anterior, cuja centralidade reside na figura
de um obscuro moleiro do Friuli, suas idéias heterodoxas, sua
desdita na Inquisição e, acima de tudo, na potencialidade do
caso para se alcançar distintos níveis de cultura e a circularidade
entre ambos na passagem de uma cultura baseada na oralidade
para outra baseada na escrita. Quanto à micro-história de corte
mais "social", um excelente exemplo seria a Herança imaterial,
de Giovanni Levi, que, não obstante parta da biografia de um
exorcista do baixo clero no Piemonte seiscentista, executa au-
têntica história social em escala microanalítica, preocupada com
as microconflituosidades territoriais e com os "idiomas políti-
cos" em um estudo de comunidade. Nos dois casos, porém, a
exemplo das diversas definições até aqui expostas, sobressai a re-
dução da escala de observação como ponto de partida_mgtOb_
dológico da micro-história, o que a diferencia, explícita e assumi- 1
damente, da história-síntese.
Realizando um balanço, em 1994, das dúvidas, dos desafios e
propostas então colocados pela historiografia, Roger Chartier deu
bem a medida, da. especificidade da micro-história, diferencian-
do-a da história-síntese, bem como do simples estudo de caso:

Radicalmente diferente da monografia tradicional, a micro-histó-


ria pretende construir, a partir de uma situação particular, normal
116 -5§> OÍ PROTAGONISTAS ANÔNIMOS DA HISTÓRIA

porque excepcional, a maneira como os indivíduos produzem o


mundo social, por meio de suas alianças e seus confrontos, através
das dependências que os ligam ou dos conflitos que os opõem. O
objeto da história, portanto, não são, ou não são mais, as estruturas
e os mecanismos que regulam, fora de qualquer controle subjetivo,
as relações sociais, e sim as racionalidades e as estratégias acionadas
pelascomunidades, as parenteías, as famílias, os indivíduoá^

A REDUÇÃO DA ESCALA E SUAS DERIVAÇÕES


Um dos melhores textos para se compreender os procedi-
mentos da micro-história é o já citado artigo de Jacques Revel,
"Microanálise e construção do social", no qual elenca quatro
importantes redefinições na prática historiográfica, todas inter-
ligadas e resultantes da redução da escala de observação.57

• Redefinição dos pressupostos da análise sócio-histórica:

O recurso a sistemas classificatórios com base em critérios explíci-


tos (gerais ou locais) é substituído, na microanálise, pela decisão de
levar em consideração os comportamentos por meio dos quais as
identidades coletivas se constituem e se deformam.

Revel adverte que tal deslocamento não implica descartar as


propriedades objetivas da população estudada, a exemplo de sua
estratificação em classes ou em estratificações de poder, mas de
buscar seus usos na situação concreta. Dito de modo mais sim-
ples, a micro-história não se ocupa em definir a fundo e apriori,
quer na pesquisa, quer na exposição dos casos, o caráter da so-
ciedade na qual se insere o enredo, a comunidade ou o persona-
gem estudado. Mais importante do que o caráter geral da so-
A MICRO-HISTÓRIA NOS BASTIDORES <3*- 1 1 7

ciedade estudada — como no caso da sociedade camponesa de


Antigo Regime, enunciada por Giovanni Levi, por exemplo —
é a teia social concreta onde os atores se movem, exercendo
múltiplos papéis sociais e individuais. Assim, na micro-história
prevalece, no tocante à delimitação do campo social estudado,
procedimentos de nominação dos atores e da caracterização de
perfis individuais no interior de determinado grupo ou classe,,
mais do que a definição geral da classe ou do grupo ao qual
pertence.

• Redefinição da noção de estratégia social:

Levando em conta, em suas análises, uma pluralidade de destinos


particulares, eles (os micro-historiadores) procuram reconstituir um
espaço dos possíveis — em função dos recursos próprios de cada
indivíduo ou de cada grupo no interior de uma configuração dada.

Isto eqüivale a dizer, antes de tudo, que no campo da micro-


história, uma vez que o historiador supervaloriza as escolhas e
atitudes individuais para reconstituir a sociedade estudada em
escala microscópica, importa analisar não apenas os fatos ocor-
ridos, mas os dilemas, os impasses, as incertezas de cada um —
ou, mais comúmèntérdõs personagens centrais. Nisso reside,
enTgrãnde medida, o território "conjectural" ou "especulativo"
de muitos textos da micro-história, cuja narrativa se assemelha,
nesse ponto, a uma narrativa "romanceada" da história. Ela de-
riva, no entanto, dos indícios recolhidos pelo historiador das
múltiplas..po§sibilidades_.de ação de tal ou qual personagem ou
dos múltiplos desfechos de determinado caso. Qual seria, por
exemplo, o destino do falso Martin Guerre, se o verdadeiro Mar-
tin Guerre não aparecesse no tribunal de Toulouse? Por outro
1 1 8 -5§> O Í PROTAGONISTAS ANÔNIMOS DA HISTÓRIA

lado, esta redefinição de estratégia social dos atores implica o


descarte ou a minimização de atitudes modelares derivadas ne-
cessariamente da posição de classe dos indivíduos ou de seu
status político, e abre largo caminho à investigação das
imprevisibilidades.

• Redefinição da noção de contexto:

A originalidade da abordagem micro-històrica parece estar em re-


cusar... um contexto unificado, homogêneo, dentro do qual e em
função do qual os atores determinariam suas escolhas.

Segundo Revel, a micro-história recusa os usos mais con-


vencionais (mais "cômodos e preguiçosos", nas suas palavras)
da noção de contexto, a saber: o uso retórico, no qual o contexto
é uma preliminar ao estudo monográfico, produzindo um "efeito
de realidade em tomo do objeto de pesquisa"; o uso argumen-
tativo, no qual o contexto apresenta as condições gerais, ao lon-
go do trabalho, nos quais a realidade estudada encontra o seu
lugar; o uso interpretativo, no qual retira-se do contexto geral as
razões que explicam situações particulares. A noção de contex-
to, na micro-história, evita o divórcio entre uma realidade
i abrangente (contextual) e a situação particular estudada (tex^
jtual), sugerindo uma idéia de contexto que se limita às múlti-
p l a s experiências, contraditórias e ambíguas, por meio das quais
-"os homens constroem o mundo e suas ações".
De modo que é o enredo em foco — no caso, microscópico
— que deve encerrar o contexto principal do micro-historia-
dor. A redefinição da noção de contexto implica, portanto, para
a micro-história "jam convite para inverter o pr£cedimentojnais
habitual para o historiador; aquele que consiste em partir de
A MICRO-HISTÓRIA NOS BASTIDORES <3*- 1 1 9

um contexto global para situar.e interpretar seu texto". Reside


nesse ponto uma das ambições da micro-história: conseguir ilu-
minar aspectos da história geral, dinâmicas, processos que for-
çosamente escapam a um olhar macro-histórico das sociedades.

• Redefinição da hierarquia das problemáticas históricas:

O trabalho de contextualização múltipla praticado pelos micro-


historiadores... afirma, em primeiro lugar, que cada ator histórico
participa, de maneira próxima ou distante, de processos — e por-
tanto se inscreve em contextos — de dimensões e de níveis varia-
dos, do mais local ao mais global. O que a experiência de um indi-
víduo, de um grupo, de um espaço permite perceber é uma modu-
lação particular da história global. Particular e original, pois o que
o ponto de vista micro-histórico oferece à observação não é uma
versão atenuada ou parcial ou mutilada de realidades macrossociais:
é, e este é o segundo ponto, uma versão diferente.

A multiplicidade de papéis desempenhados pelos protago-


nistas da narrativa micro-histórica, inseridos em múltiplos con-
textos nao-compartimentados, implica, assim, a recusa em
hierarquizá-los. Determinado personagem pode e deve ser vis-
to como pertencente a determinada classe social de alguma al-
deia, situada em uma região de certo país — e neste nível está-
se diante de problemáticas gerais que, de algum modo, se fazem
presentes na construção dos enredos micro-históricos. Mas o
reconhecimento desse pertencimento dos indivíduos a deter-
minada classe social, a uma categoria de ofício ou a determina-
da região em certa época assume tanta importância quanto seu
estado civil, suas sociabilidades, seus talentos e afetos indivi-
duais. Na escala microanalítica, as condições gerais que envol-
1 2 0 -5§> OÍ PROTAGONISTAS ANÔNIMOS DA HISTÓRIA

vem determinada comunidade ou indivíduo se diluem a ponto


de só adquirirem inteligibilidade no enredo miúdo, por meio
do case study. É por esta razão que o recorte microanalítico,
longe de ser simplesmente uma particularidade minúscula de
um todo mais amplo reconhecido pelo pesquisador, constitui,
em grande medida, o resultado de uma opção analítica que opera
em escala reduzida. Uma opção^ue se recusa, portanto, a ver as
totalidades ã priori, e_SÓ as vê quanHo dj[njdas nnparriri11ar
E óbvio que o roteiro metodológico proposto por Revel que
venho de comentar constitui tão-somente um modelo de como
se conduz, preferencialmente, um exercício de microanálise his-
tórica, todo ele resultante da redução de escala.
A micro-história não é, porém, somente uma questão rela-
tiva ao sujeito, no caso o historiador que reduz sua escala de
análise. Nesse sentido, a micro-história não propõe, ao optar
por tal redução, alguma espécie de renúncia à realidade históri-
ca, em favor de tramas pseudo-históricas, "quase históricas" ou
mesmo ficcionais, como dizem alguns de seus críticos. Por ou-
tro lado, também sua legitimidade não está condicionada a ser-
vir de exemplo a alguma interpretação globalizante — esta sim
suposta por alguns como a única realidade possível — embora
muitas vezes ela possa funcionar desse modo, seja para historia-
dores profissionais, seja para leitores interessados na história.
Giovanni Levi complementa bem essa originalidade da pers-
pectiva microanalítica, ao dizer que a escala, seja macrossocial,
seja microssocial, tem sua própria existência na realidade, de
modo que não se trata apenas de o historiador decidir sobre
qual será o ponto de observação, mas também de saber alcan-
çar a existência de universos sociais minúsculos efetivamente
existentes e registrados na documentação arquivística. Prossi-
go com Levi:
A MICRO-HISTÓRIA NOS BASTIDORES <3*- 1 2 1

A idéia de que a escala tem sua própria existência na realidade é


aceita até por aqueles que consideram que a microanálise só opera
através do exemplo, ou seja, como um processo analítico simplifi-
cado — a seleção de um ponto específico da vida real, a partir do
qual se exemplificam conceitos gerais — em vez de funcionar como
um ponto de partida em direção à generalização. O que as dimen-
sões dos mundos sociais de diferentes categorias de pessoas e de
diferentes campos estruturados de relacionamentos demonstram é
a natureza precisa da escala que opera na realidade.58

Se assim é, a micro-história diz respeito ao sujeito — o hisr


toriador que reduz sua escala analítica — e simultaneamente ao
objeto^jnç^caso os enredos e conflitos protagonizados por agen-
tes anônimos da realidade histórica. Quer se goste ou não da
micro-história, não resta dúvida de que ela propõe senão uma
"revolução", ao menos uma evidente inovação epistemológica.

MICROANÁLISE E ANTROPOLOGIA INTERPRETATIVA


A exemplo da história das mentalidades ou da nova história
cultural, em suas diferentes versões, a micro-história se encontra
muito próxima da antropologia, apesar de ter surgido no círculo
dos historiadores. Mas dizer isso é dizer pouco ou quase nada.
No caso da história das mentalidades, pelo menos duas cor-
rentes antropológicas se fizeram presentes. Primeiramente a de
Lévy-Bruhl, desenvolvida em fins do século XIX, difusora do
conceito de "pensamento pré-lógico" ou de "mentalidade pri-
mitiva" para estudar as "sociedades tribais", que marcou pro-
fundamente a obra de Lucien Febvre, nas décadas de 1930 e
1940, e a de muitos historiadores franceses dedicados às men-
talidades. É caso de lembrar, a propósito, a crítica de Stuart
122 -5§> OÍ PROTAGONISTAS ANÔNIMOS DA HISTÓRIA

Clark à competência antropológica dos historiadores franceses


da feitiçaria, exatamente por utilizarem essa antropologia ultra-
passada e, no seu entender, responsável por juízos anacrônicos e
teleológicos.59 A outra corrente é a antropologia estrutural de
Lévi-Strauss, difundida sobretudo nas décadas de 1950 e 1960,
e responsável em grande medida pela visão de estrutura adotada
pelos historiadores franceses. Estrutura relacionada às relações do
homem com o meio — e portanto às condições materiais de
existência — como em Braudel ou no marxismo althusseriano,
ou estrutura relacionada ao campo do mental, como nos histo-
riadores do pós-1968. Mas, de todo modo, tratava-se de um con-
ceito de estrutura embebida de "frialdade", quase imóvel, por
vezes definida como inconsciente, e de várias maneiras relaciona-
da ao conceito de longa duração.
Pois nem a noção de pensamento pré-lógico, nem o estru-
turalismo de Lévi-Strauss marcam os laços que ligam a história
e a antropologia no caso da micro-história, senão, em larga
medida, a antropologia hermenêutica e interpretativa de Clifford
Geertz, difundida na década de 1970, sobretudo após a publi-
cação de A interpretação das culturas, em 1973. 60 Os pressupos-
tos desta antropologia repousam, de maneira muito esquemática,
no relativismo cultural o mais amplo possível — que mais do
que recusar o etnocentrismo desconfia de todo tipo de compa-
ração que possa significar alguma hierarquização entre cultu-
ras. As culturas seriam, assim, universos fechados e auto-ex-
plicativos, cujos significados simbólicos somente fazem sentido
para aqueles que os criaram e teceram. Ao intérprete das cultu-
ras — o observador, o antropólogo — caberia fundamental-
mente descrevê-las, jamais compará-las com outras, muito me-
nos buscar explicações teóricas baseadas em conceitos estranhos
aos códigos do universo cultural estudado.
A MICRO-HISTÓRIA NOS BASTIDORES <3*- 1 2 3

O conceito-chave de Geertz que passou para a historiografia


é o da descrição densa — thick description — derivado da con-
vicção de que o etnógrafo inscreve o discurso social e o anota-.

Ao fazê-lo, ele o transforma de acontecimento passado, que existe


apenas em seu próprio momento de ocorrência, em um relato, que
existe em sua inscrição e que pode ser consultado novamente. 61

Trata-se de uma operação hermenêutica de textos e códigos,


uma decifração que se produz a partir do registro analítico do
observador fiel ao discurso do universo cultural pesquisado.
Assim, a descrição etnográfica ou densa, tal como a entende
Geertz, possui quatro características fundamentais: 62

1. é interpretativa;
2. o que ela interpreta é o fluxo do discurso social;
3. a interpretação consiste "em tentar salvar o dito em um
tal discurso da sua possibilidade de extinguir-se e fixá-lo
em formas pesquisáveis";
4. é microscópica.

A antropologia interpretativa de Geertz — admite-o o pró-


prio Giovanni Levi, que tem muitas reservas a esse respeito —,
tem marcado muito a perspectiva da microanálise histórica. Não
por acaso o modelo hermenêutico de Geertz figura como um
dos paradigmas da nova história cultural oferecidos na coletâ-
nea organizada por Lynn Hunt na década de 1990 — particu-
larmente como modelo possível para estudos de história local
em perspectiva histórico-antropológica. 63 E, de fato, se formos
comparar os pressupostos da antropologia hermenêutica de
Geertz com os procedimentos da micro-história, haveremos de
1 2 4 -5§> OÍ PROTAGONISTAS ANÔNIMOS DA HISTÓRIA

encontrar muitos pontos em comum: o recorte microscópico


do objeto; a recusa em contextualizar globalmente o universo
de pesquisa; a ausência de comparações em favor da descrição
de casos únicos.
É no artigo de Giovanni Levi datado de 1991 que encon-
tramos a melhor avaliação do papel da antropologia herme-
nêutica, especialmente no que toca às advertências que faz o
autor sobre a utilização acrítica da descrição densa. Historiador.
c atento ao econômico e ao social por formação, Levi desconfia,
com boas razões, do relativismo cultural absoluto proposto por
Geertz — relativismo tout court que, levado ao pé da letra, po-
deria conduzir à justificativa de processos históricos eticamente
indefensáveis, tudo em nome da "auto-explicação" e identidade
das sociedades em causa. Discorda, também, do pouco caso em
relação às teorias explicativas, apesar de o próprio Geertz consi-
derar "proveitosa", retoricamente, a busca de leis e conceitos
gerais. Isto porque, alega Levi, embora legitimadas, as teorias
são para Geertz de pouca utilidade, não servindo para "codifi-
car regularidades abstratas", mas para "tornar possível a descri-
ção densa"; "não para generalizar os casos cruzados, mas para
generalizar dentro do seu interior." 64
A partir dessas restrições de princípio, Levi indica duas gran-
des diferenças-entre-a^antropologia interpretativa de Geertz e a
proposta da micro-histéria^y diferenças que, a bem da verdade
e de modo muito singelo, poder-se-ia dizer que diferenciam a
história da antropologia de maneira geral. De todo modo, nes-
sa diferenciação específica, os pontos-chave são: 1. a antropolo-
gia interpretativa "enxerga um significado homogêneo nos si-
nais e símbolos públicos, enquanto a micro-história busca defi-
ni-los e medi-los com referência à multiplicidade das represen-
tações sociais que eles produzem"; 2. "a micro-história não re-
A MICRO-HISTÓRIA NOS BASTIDORES <3*- 1 2 5

jeitou a consideração de diferenciação social da mesma maneira


que a antropologia interpretativa, mas a considera essencial para
se ter uma interpretação tão formal quanto possível das ações,
do comportamento, das estruturas, dos papéis e dos relaciona-
mentos sociais".
Muito bem, fica perfeitamente esclarecido que antropolo-
gia interpretativa e micro-história não são a mesma coisa — e
seria mesmo impossível que fossem sinônimos, no mínimo por-
que os "discursos" exaustiva e densamente interpretados pelos
micro-historiadores são resíduos de um passado morto, profe-
ridos por mortos e não raro por múltiplas mediações, incluin-
do os algozes dos protagonistas. Por outro lado, não resta a
menor dúvida, a meu ver, que se a micro-história exprime al-
gum_tipo. de história antropológica, a antropologia em causa
parece ser a geertziana. Quando menos, sem trocadilho, pela
redução da escala para o nível microscópico; quando muito,
pela recusa da contextualização geral; pelo acanhamento, senão
ausência, de comparações; e pela rejeição assumida de explica-
ções generalizantes. Mas de falta de teoria, apesar do desdém de
Geertz pelo "geral", não se pode acusar seriamente a micro-
história — é o que nos parece evidente.

DA "DESCRIÇÃO DENSA" À NARRATIVA


Já me referi à importância da narrativa na micro-história no
capítulo anterior, buscando demonstrar as fronteiras que a se-
param da narrativa ficcional, uma vez que, apesar da dimensão
conjectural e intuitiva presente nesses textos, eles sempre resul-
tam de pesquisa exaustiva de diversos corpi documentais e re-
constrõim tramas históricas muito concretas. A supervalorização
da narrativa na micro-história não se pode resumir, assim, ao
126 -5§> Oí PROTAGONISTAS A N Ô N I M O S DA HISTÓRIA

"retorno da narrativa" à moda do velho historicismo, como su-


geriu Stone em artigo clássico, no mínimo porque não se reduz
a descrever, em perspectiva geral, as "histórias nacionais" e a co-
locar no proscênio os personagens célebres da História, nem
porque se esforça simplesmente para resolver um problema de
comunicação entre o historiador e seu público, entre a escrita e
a leitura da história.
O fundamento teórico da narrativa de tipo micro-histórico
reside, queira-se ou não, na adoção ou adaptação da "descrição
densa" de Geertz, seja como método de análise das fontes —
qüe funcionam como os "discursos" anotados na pesquisa
etnográfica de campo, seja como fórmula expositiva. O modelo
ideal da exposição micro-histórica consiste, assim, em descre-
ver e interpretar os discursos contidos nas fontes, em perspecti-
va microscópica, tal como proposto por Geertz, com a diferen-
ça deveras importante de que, para o historiador, importa cote-
jar versões do mesmo episódio, sejam as diferentes versões me-
ramente circunstanciais, sejam provenientes da posição social
dos que emitem o discurso, sejam, ainda, resultantes de estraté-
gias concretas que combinem circunstâncias e interesses. Como
afirma Alban Bensa em "Da micro-história a uma antropologia
crítica': 66

A micro-história se apóia no exame das rupturas, das incoerências e


das incompreensóes que surgem nos documentos, conferindo uma
importância considerável às trocas verbais.

A narrativa micro-história não chega, portanto, a renunciar


à explicação — o que, se feito, implicaria a renúncia do histo-
riador, ao menos no plano expositivo, a um de seus deveres de
ofício. Mas, à diferença das demais narrativas históricas — in-
A MICRO-HISTÓRIA NOS BASTIDORES <3*- 1 2 7

cluindo a da história das mentalidades —, a narrativa micro-


histórica evita explicações generalizantes, de modo que o histo-
riador assume, quando muito,, o papel de narrador onisciente de
uma trama. Ancorado em uma pesquisa exaustiva de fontes his-
tóricas, sabedor dos fatos efetivamente ocorridos, bem como
dos que não passaram de possibilidades, o historiador o explica
por meio da narrativa. Ele "remete as propriedades de fenôme-
nos fortemente individualizados às características gerais dos
conjuntos nos quais eles se inserem".67 Conjuntos_ou,.cantextos
que são evidentemente minúsculos, mas que, dependendo do
leitor, de seu background na disciplina, pode iluminar aspectos
da história geral.
A enorme atenção dispensada pelo micro-historiador aos
fatos particulares possíveis, que não raro rivaliza com a análise
dos fatos consumados e registrados nas fontes, é, como vimos,
um ponto que para muitos abala a confiabilidade da micro-
história como texto historiográfico. Já vimos que tal ceticismo
é pouco defensável do ponto de vista da concepção do objeto
micro-histórico, uma vez que não raro ele parte da identifica-
ção de um corpus documental a partir do qual se define a pro-
blemática de investigação. De sorte que a classificação e a aná-
lise dos materiais são etapas simultâneas de um mesmo esforço
decifratório.
Além do mais, como bem lembra Revel no prefácio à He-
rança imaterial de Levi, a idêntica preocupação do micro-histo-
riador com fatos verdadeiros, verossímeis ou presumíveis exi-
bem uma dimensão experimental da micro-história que longe
está de lhe ser exclusiva. Na década de 1970, livros inteiros
foram construídos em perspectiva macro-histórica — e no cam-
po da história econômica — a partir de hipóteses contrafactuais,
como no exemplo bastante conhecido da New Economic History
128 -5§> OÍ PROTAGONISTAS ANÔNIMOS DA HISTÓRIA

norte-americana. O que teria ocorrido com a economia norte-


americana não fosse a expansão das ferrovias no século XIX? —
eis o exemplo famoso dessa corrente. É caso de dizer que a di-
mensão experimental funciona de maneira mais pertinente na
micro-história, a meu ver, do que no plano de uma história
mais geral, onde o lugar de uma hipótese contrafactual pode
resvalar para a puerilidade, quando não para a especulação ab-
surda. No caso^ da micro-história, sendo o enredo minúsculo e
havendo uma trama a desvendar, o método indiciário, considera-
do no seu sentido estrito, apreséntã pòtenciálidades êvidentes.
Se a preocupação com Fatos apenas verossímeis ou
presumíveis é parte integrante e indescartável da micro-histó-
ria, o lugar por vezes exagerado que ela ocupa na narrativa per-
manece como questão em aberto. Os perigos do abuso da
conjectura aparecem, por exemplo, no Martin Guerre de Natalie
Davis:

Como teria feito Arnauld du Tihl para representar tão bem o papel
de Martin Guerre, o verdadeiro marido? Teria havido um acordo
prévio entre os dois? E até que ponto a mulher, Bertrande, teria
sido cúmplice do impostor?

É Cario Ginzburg quem menciona esse elenco de indaga-


ções que brotam do texto de Natalie Davis para afirmar que,
tivesse a autora se limitado a esse tipo de narrativa, não teria
ultrapassado o nível da anedota. 68 Ou, em outras palavras,
estaríamos passando da "descrição densa" para a especulação
desenfreada de tipo novelesco. Mas é certo que o livro de Davis
não se resume a tais inquietações e divagações, embora abuse
um pouco dos "talvez" e dos "possivelmente", em boa parte
porque no caso específico desse livro, a autora não trabalhou
A MICRO-HISTÓRIA NOS BASTIDORES <3*- 1 2 9

com o dossiê judiciário original, senão com as memórias dos


juizes.
De todo modo, indagações ou conjecturas desse tipo, devi-
damente inseridas nos respectivos microcontextos, além de se-
rem absolutamente inevitáveis em uma narrativa microanalítica,
correspondem a dois propósitos essenciais do texto micro-his-
tórico. A primeira tem a ver com a ambição fundamental da
micro-história no sentido de verticalizar situações e processos
que se encontram à margem da história geral ou da perspectiva
macrossocial de análise. A segunda tem a ver com a comunica-
ção entre historiador e leitor.
Giovanni Levi esclarece esta primeira característica essen-
cial da narrativa micro-histórica, decerto derivada da adapta-
ção da "descrição densa" à história:

É a tentativa de demonstrar, através de um relato de fatos sólidos, o


verdadeiro funcionamento de alguns aspectos da sociedade que se-
riam distorcidos pela generalização e pela formalização quantitati-
va usadas independentemente, pois essas operações acentuariam de
uma maneira funcionalista o papel dos sistemas e dos processos
mecanicistas de mudança social.69

Não se trata, pois, de negar os sistemas de regras nem os


processos mecanicistas de mudança por meio da narrativa de
casos singulares, mas de propor, por intermédio dela, um deslo-
camento de foco. Por meio da narrativa amiudada de certo caso,
o que se pretende é exibir a relação entre determinado sistema
de regras ou determinações históricas da sociedade estudada e
as ações individuais: as escolhas que fizeram ou deixaram de
fazer os agentes históricos dentro da margem de liberdade pes-
soal que lhes podia tocar, quer em relação a episódios específi-
130 -5§> OÍ PROTAGONISTAS A N Ô N I M O S DA HISTÓRIA

cos, quer em relação ao quadro normativo do mundo em que


estavam inseridos.
A segunda característica da narrativa micro-histórica, nas
palavras de Levi:

-É aquela de-incorporar ao corpo principal da narrativa os procedimen-


tos da pesquisa em si, as linika^ões docuinentais, as técnicas de persua-
são e as construções interpretativas. Esse método rompe claramente
com a assertiva tradicional, a forma autoritária de discurso adotada
pelos historiadores que apresentam a realidade como objetiva".70

Despreocupada com a generalização e descompromissada


no sentido metodológico — com a explicação geral da socie-
dade estudada, a microanálise se debruça sobre um universo
onde as individualidades e motivações se multiplicam, por
vezes de forma avassaladora, e com isso alarga-se a margem de
imprevisibilidade e de possibilidades de interpretação. É nesse
sentido que, nas palavras de Levi, o jdjscurso macroanalítico
tradicional possui um estilo "autoritário": o historiador ordena
o seu texto de modo a contextualizar seu tema, delimitar seu
objeto, enunciar suas hipóteses e demonstrá-las metodicamen-
te, conferindo inteíigibilidade à história do alto de sua cátedra
de historiador. No caso da micro-história, a narrativa de enre-
dos minúsculos temperada com as dúvidas do próprio historia-
dor, suas conjecturas, os dilemas de seus personagens e seus
impasses pessoais, estabelece uma espécie de horizontalidade
entre o que escreve e o que lê, e entre ambos e os personagens
do enredo.

O processo de pesquisa é explicitamente descrito e as limitações da


evidência documental, a formulação das hipóteses e as linhas de
A MICRO-HISTÓRIA NOS BASTIDORES <3*- 1 3 1

pensamento seguidas não estão mais escondidas dos olhos do não-


iniciado. O leitor é envolvido em uma espécie de diálogo e partici-
pa de todo o processo de construção do argumento histórico.71

Trata-se, sem dúvida, de uma técnica tomadajdej^mprésti-


mo à literatura, capaz de transformar uma pesquisa histórica
em um texto literário, sem que por isso seja ele ficcional. Mas
parece evidente que uma técnica de narrativa como essa só pode
funcionar em um gênero como o micro-histórico, jamais na
monografia explicativa ou didática, muito menos no ensaio geral.
Por outro lado, quanto à recepção, o texto micro-histórico tan-
to pode contribuir para o adensamento do conhecimento his-
tórico de determinada época ou sociedade, caso o leitor alcance
os nexos entre a "história contada no livro" e o quadro normativo
onde ela se insere, como pode ser lido como simples estória,
embora se trate de história com h. Por meio dela, oieitor não-
iniciado jjassará a conhecer mais de perto a experiência vivida,
para usar uma expressão cara aos micro-historiadores.
Há porém uma condição sine qua non para os historiadores
se aventurarem na micro-história, que não pode passar sem re-
gistro. Não me refiro apenas à competência específica nas lides
da pesquisa e do ofício investigativo, nem somente à erudição
que, na micro-história, é muitas vezes uma exigência mais im-
placável do que nas pesquisas macroanalíticas, pois ultrapassa o
conhecimento livresco ou de modelos teoricistas e tende a en-
veredar por cotidianidades e minudências etnográficas dificíli-
mas de alcançar. R ^ f u ^ m e à condição de saber escrever bem,
dominar minimamente a técnica narrativa capaz de estabelecer
a relação dialogai de que fala Levi entre o historiador e o leitor.
A falta desse talento conduzirá — como já conduziu — senão a
livros de história malfeitos, repleto de puerilidades, certamente
132 -5§> OÍ PROTAGONISTAS ANÔNIMOS DA HISTÓRIA

a textos literários paupérrimos — e no caso da micro-história


esse risco é mais grave do que na jiistória convencional^

UMA PALAVRA SOBRE O TEMPO NA MICRO-HISTÓRIA


A questão da temporalidade na micro-histórica assume espe-
cial interesse para a delimitação desse campo, em particular para
diferenciá-lo, uma vez mais, da história das mentalidades, de um
lado, e de outro, da etnografia ou da antropologia em geral.
Diferenciar a micro-história da antropologia, nesse tópico^
é tarefa bem simples, no mínimo porque, como bem lembra
Alban Bensa, "éraro os etnólogos datarem.suas informações de
campo", dando a impressão de que os membros das sociedades
estudadas se exprimam sem se referir a qualquer temporalidade.
Por essa dupla omissão, afirma Bensa, "a etnografia dá a enten-
der que descreve sistemas que resistem ao desgaste do tempo".72
Menos simples é diferenciar a micro-história da história das
mentalidades no tocante à temporalidade. Mas as diferenças
são consideráveis. Na história das mentalidades por assim dizer
clássica, como vimos no primeiro capítulo, çrtempo da história
é o tempo das estruturas, o tempo da longa duração, uma he-
rança braudeliana de certo modo plasmada na antropologia es-
trutural de Lévi-Strauss. A diferença essencial entre a "era
braudeliana" e os historiadores das mentalidades reside em que,
no primeiro caso, as "prisões de longa duração" diziam respeito
sobretudo à vida material, às relações entre o homem e o meio
geográfico, ao passo que os historiadores do mental foram bus-
car os fenômenos de longa duração nas religiosidades, compor-
tamentos, sentimentos coletivos, enfim nos fenômenos do "só-
tão" da história. É como dizia Le Goff, nos idos de 1974: "his-
tória das mentalidades, história da lentidão na história".
A MICRO-HISTÓRIA NOS BASTIDORES <3*- 1 3 3

Vimos também, no mesmo capítulo, como Michel Vovelle,


historiador marxista das mentalidades, advertiu contra os riscos
dessa demasiada "antropologização" da história, de corte estrutu-
ralista, especialmente contra o risco de petrificá-la. Em artigo de
1980 especialmente dedicado à longa duração, Vovelle propôs
compatibilizar o tempo longo das estruturas com o tempo curto
disrupturas, ao que chamou "tempo medianamente longo", ca-
paz de captar as continuidades e as mudanças. Sua proposta visa-
va revalorizar os estudos sobre as crises, em particular sobre as
revoluções — e, mais especialmente ainda, sobre a Revolução
Francesa. Em um momento em que a história das mentalidades
começava a dar os primeiros sinais de desgaste, Vovelle advogou
uma espécie de "retorno" aos grandes temas, quando menos uma
atenção com os momentos de mudança brusca, nos casos dos
estudos típicos de mentalidades, ligados às "representações".
A história das mentalidades talvez não tenha alcançado essa
mediação proposta por Vovelle, sendo o estudo de temas na
longa duração uma de suas marcas mais características. A micro^.
história, por sua vez, talvez tenha conseguido alcançar esta com-
binação dificílima entre o tempo longo das estruturas e o tem-
po curto do acontecimento.
" M a s è preciso frisar, em primeiro lugar, que os acontecimen-
tos da micro-história, em perspectiva de curta duração, longe
estão dos sonhados por Michel Vovelle. Na sua proposta, a busca
da "respiração fina da história" na combinação entre longa dura-
ção e tempo curto reside na pesquisa dos grandes fatos, nos fatos
da história geral, ao passo que a micro-história somente se inte-
ressa por fatos obscuros e minúsculos. Em segundo lugar, a longa
duração e a própria noção de estrutura jamais foram usuais na
linguagem dos micro-historiadores. Em regra, seja em textos teó-
ricos, seja em trabalhos de pesquisa, essa esfera generalizante e
134 -5§> Oí PROTAGONISTAS ANÔNIMOS DA HISTÓRIA

conceituai das sociedades estudadas é referida pela noção de cul-


tura, sistema de regras, sistema normativo. Trata-se, porém, e m cer-
ta medida, do equivalente, no campo da micro-história, daquilo
que os historiadores das mentalidades entendiam por estrutura,
pensada na longa duração secular ou multissecular.
Mas não reside nisso, no sistema normativo de dada socie-
dade ou na dinâmica de seus níveis culturais, o foco da micro-
história — e por isso, fundamentalmente, não se pode dizer que
a micro-história se confunde com a chamada nova história cul-
tural herdeira, com as devidas correções e autocríticas, da his-
tória das mentalidades francesa. O j e m p o da micro-história,
considerada sua inspiração antropológica e sua preocupação
etnográfica, é o tempo das estruturas; mas é também, simulta-
neamente, c o n s i d e r a d o seu propósito fundamental de resgatar"
personagens anônimos, imbróglios aparentemente banais ou si-
tuações-limite de determinada época, o tempo do acontecimen^
toTÉ nesse sentido q u e ' a m e u ver> a micro-história é capaz de
"operar nessa ambivalência temporal que combina o fato especí-
fico, explícito na narrativa, e o sistema geral de códigos e nor-
mas, quase sempre implícito.
AlbanB e n s a dá uma idéia geral dessa combinação de tem-
pos, quando diz:

Os estudos micro-históricos nos dão uma consciência aguda do


tempo curto, aquele que os homens acionam efetivamente em suas
vidas. Em troca, é o peso do tempo longo que é desvendado, por-
que muitas das formas que os atores integram ao seu próprio pre-
sente se encontram em outras épocas e mesmo em outros lugares. 73

O mais interessante dessa citação reside em que ela nos co-


loca diante de um paradoxo, ou seja, a de que o "tempo longo"
A MICRO-HISTÓRIA NOS BASTIDORES <3*- 1 3 5

da micro-história é o que tem a ver com a diacronia, com a


história, enquanto o tempo curto do acontecimento parece res-
valar para o campo da observação sincrônica, "a aguda cons-
ciência do tempo curto", como se o historiador e o leitor pu-
dessem flagrar o que os homens efetivamente faziam em suas
vidas. Se assim é — ou se assim for — temos a sincronia no acon-
tecimento e a diacronia na estrutura ou sistema normativo. A
micro-história faria antropologia pela história e história pela
antropologia. Paradoxo desconcertante, equação impossível.
O certo é que, na micro-história, o que Vovelle propunha
como tempo "medianamente longo" se opera com freqüência
por meio da redução da escala.de observação — e só por meio
dela é que tal ambivalência temporal pode ser freqüente. Nada
de longa duração como rainha da micro-história, à diferença da
história das mentalidades. Nada de grandes fatos, no nível dos
acontecimentos, seja os consagrados pelo historicismo ou por
qualquer história geral.

TEMAS E OBJETOS: PERFIL DOS


ESTUDOS DE CASO MICROANALÍTICOS
Seria cômodo falar dos temas da micro-história adaptando
o que disse Le Goff para a documentação da história das men-
talidades, isto é, tudo pode constituir tema da micro-história,
desde que seja minúsculo, obscuro, aparentemente banal e far-
tamente documentado. Mas não seria esta uma indicação exa-
ta, a começar pelo fato de que não é a natureza dos temas nem
a relevância deles, à luz da história geral, o que define o campo
temático da micro-história.
Calcada na redução da escala de observação, na exploração
exaustiva das fontes, na descrição etnográfica e na preocupação
136 -5§> Oí PROTAGONISTAS ANÔNIMOS DA HISTÓRIA

com a narrativa literária, a micro-história pode se interessar por


temas ou personagens desconhecidos — como era o Mennochio,
antes de Ginzburg — ou por temas bastante célebres, a exem-
plo da possessão de Salem, na Massachussets do século XVII ou
da vida de Galileu, na Itália da Época Moderna. Basta consul-
tar o catálogo da Microstorie italiana para se constatar seu
ecletismo temático e as diferenças de envergadura, entre os te-
mas estudados.
Mas é certo que a micro-história tem seus temas preferenciais
ou tipos de temas mais passíveis de serem estudados em escala
reduzida. Grandes episódios e personagens célebres são, assim,
menos usuais e menos bem-vindos à microanálise que, por sinal,
desde o início se animou com a possibilidade de inverter a histó-
ria e reconstruí-la "a partir de baixo". Assim, pode-se dizer que os
temas mais aptos a uma investigação microanalítica são aqueles
ligados a comunidades específicas — referidos geográfica ou
sociologicamente —, às situações-limite e às biografias.
Essas são dimensões não excludentes nem exclusivas da micro-
história, de sorte que determinada temática, dependendo do tipo
de documentação examinada e da perspectiva do historiador, pode
se inserir em todas elas simultaneamente. É o caso do livro de
Levi sobre o exorcista do Piemonte, que constitui, a um só tem-
po, um estudo sobre a comunidade de Santena no século XVII,
sobre a agitação popular estimulada pela prisão do pároco Giovan
Barrista Chiesa e sobre a trajetória biográfica do próprio indiciado
nos quadros de uma parentela especial do lugar.
De todo modo, se a referência é a espacialidade, a micro-
história busca o local, a aldeia, o bairro, o círculo de vizinhan-
ça, até mesmo a casa, de preferência a região ou mesmo o mu-
nicípio que, em geral, funcionam como as referências gerais
mais nítidas de um estudo microanalítico, como no caso do
A MICRO-HISTÓRIA NOS BASTIDORES <3*- 137

Piemonte, em Giovanni Levi ou, o Languedoc, de Le Roy La-


durie, para mencionar um historiador francês que fez micro-
história sem saber ou sem querer. E claro que rarissimamente o
"nacional" funciona como referência geográfica ou política no
enquadramento de temas micro-históricos, e muito menos os
espaços supranacionais, quer teóricos (o capitalismo, o abso-
lutismo, o sistema ou impérios coloniais), quer geográficos (o
Mediterrâneo, o Atlântico). Se a referência for mais histórico-
sociológica, a micro-história se debruça preferencialmente por
uma comunidade de ofício, grupos de sociabilidade ou de cará-
ter sectário, sempre muito circunscritos e de preferência em
nível local. Estudos de comunidades específicas fornecem, assim,
temas típicos da micro-história.
Outro campo temático preferencial reside nas situações-li-
mite, momentos de ruptura na vida de comunidades provoca-
dos por incidentes de dimensão variada, desde pequenos inci-
dentes individuais a ações coletivas de alcance maior. Nesse úl-
timo caso, serve de exemplo a perseguição inquisitorial aos
albigenses na França — processo inserido no quadro geral da
expansão da Igreja romana e do combate às heresias nos séculos
XIII e X I V — p o r é m examinado no detalhe por Le Roy Ladurie
no estudo microanalítico de Montaillou. Também nessa linha
se insere o estudo microanalítico de Nissembaum e Boyer sobre
a erosão das sociabilidades vicinais e parentais em Salem, na
Massachussets do século XVII, em meio à caça às bruxas que ali
se tornou célebre. Mas a preferência dos estudos microanalíticos
recai sobre episódios que, rotineiros na prática das justiças de
outrora, se tornam situações-limite pelo impacto provocado nas
comunidades: o indiciamento do exorcista de Santena, a prisão
de um moleiro do Friuli pelo Santo Ofício, a impostura de
Arnauld du Tihl, o falso Martin Guerre de Artigat.
1 3 8 -5§> OÍ PROTAGONISTAS ANÔNIMOS DA HISTÓRIA

O estudo dessas situações-limite não raro enveredam pelas


biografias de "protagonistas anônimos", isto é, sem qualquer
celebridade na história geral. Aliás, qualificar o tipo de perso-
nagem da micro-histórica como "anônimo" constitui equívoco
sério, quase uma "heresia" à luz da micro-história, que de certo
modo assume como um de seus pontos de partida metodológicos
%Jbysça a pesquisa onomástica em arquivos notariais
ou paroquiais, visando a reconstituição de famílias, de seus re-
cursos materiais e da vida material dos lugares onde viveram
esses personagens. O fio condutor é o nome, 74 portanta>xolhi-
do em arquivos de fontes nominativas, às quais sesomam,jem
regra, como eixo documental, algum processo judiciário contra
o(s) personagem (ns), central(is).
As biografias microanalíticas podem ser consideradas, as-
sim, como microbiografias, nem tanto pela "obscuridade" dos
biografados, pois a micro-história os traz à luz e os agiganta,
nem mesmo pela miudez dos enredos de que participam, tam-
bém amplificados e colocados no proscênio pela microanálise.
São microbiografias sobretudo pela irregularidade e relativa
pobreza das fontes, não raro lacunosas para um estudo tipica-
mente biográfico. Tratando-se em geral de personagens comuns,
da vida deles só se pode conhecer com alguma profundidade
uma passagem crucial — um delito, por exemplo — consistin-
do o mais em informações analares retiradas da documentação
paroquial e/ou cartorial, por vezes complementada por alguma
) memória ou relato sobre o caso em que o tal se viu envolvido.
Os processos judiciais são muito ricos, decerto, para se alcançar
a imagem que tais indivíduos desfrutavam na comunidade, seus
laços familiares e de sociabilidade, mas a informação decresce à
medida que se recua a pesquisa para o tempo anterior ao clímax
da vida do biografado, e por vezes perde-se totalmente o seu
A MICRO-HISTÓRIA NOS BASTIDORES <3*- 1 3 9

rastro, terminado o imbróglio que sustenta a narrativa. Não se


trata, assim, na micro-história, de biografia tout court, nem po-
deria, dada a natureza social dos personagens.
As biografias realizadas pela micro-história não se confun-
dem, porém, com as chamadas "biografias coletivas", a chama-
da prosopografia — biografia de certos segmentos, membros de
uma corporação etc. — embora possa guardar com elas pontos
em comum, a exemplo da pesquisa de fontes em série de arqui-
vos cartoriais, paroquiais ou corporativos de alguma institui-
ção. Mas não se trata da prosopografia, tal como definida por
Lawrence Stone, 75 seja a qualitativa, dedicada ao estudo de eli-
tes ou grupos específicos de dada sociedade (políticos, cultu-
rais, religiosos), seja a quantitativa, destinada à pesquisa de agre-
gados sociais mais amplos. A prosopografia visada pela micro-
história, alerta Ginzburg, pretende combinar a "ótica não-
elitista" na análise, dos "agregados sociais mais amplos", estu-
dando por exemplo os camponeses, ao enfoque particularizado
de um personagem-chave, desembocando "em uma série de case
studief 7 6 Estudos de caso, convém frisar, que devem exprimir
exemplos individuais de contextos microscópicos, e não estu-
dos de caso, em geral, que constituem evidentemente a regra da
pesquisa monográfica em história.
Pierre Bourdieu, sempre adepto de análises estruturais, cofF\
siderou o gênero biográfico, em artigo célebre, um absurdo cien-j
tífico, frisando sua tendência à diluição dos contextos, da su-j
perfície social e da "pluralidade de campos" de que os indiví-
duos são prisioneiros. 77 JÍlas não é necessariamente esta, ao con-1
trário da biografia convencional, a tendência das biografias]
micro-históricas.
Em artigo específico sobre o gênero biográfico, sem desco-
nhecer os problemas e possíveis ambigüidades da biografia,
140 -5§> OÍ PROTAGONISTAS ANÔNIMOS DA HISTÓRIA

Giovanni Levi a considera um "canal privilegiado pelo qual o


questionamento e as técnicas peculiares da literatura se trans-
mitem à historiografia" no que tange às relações entre história e
narrativa. Por outro lado, ressalta que a fecundidade da biogra-
fia para a pesquisa em história social — longe, portanto, da
biografia à moda historicista —, depende da prática metodo-
lógica do historiador e do tipo de biografia a que se dedique.
Levi propõe uma tipologia da biografia, como gênero, "certa-
mente parcial", diz ele, que visa "lançar luz sobre a complexida-
de irresoluta da perspectiva biográfica":

• A prosopografia e a biografia modal. U m gênero de biogra-


fia que, como vimos, se presta menos aos estudos mi-
croanalíticos, pois nele "as biografias individuais só des-
pertam interesse quando ilustram os comportamentos ou
as aparências ligadas às condições sociais para fins proso-
pográficos". 78 Para Levi, nesse campo não há, propria-
mente, "biografias verídicas", mas utilização de dados bi-
ográficos para fins prosopográficos. A prosopografia foi,
aliás, muito utilizada, lembra Levi, pelos estudos de men-
talidades de tipo quantitativo, preocupados com a "mas-
sa de excluídos", para citar Michel Vovelle. Apesar da preo-
cupação com os "excluídos", esse procedimento proso-
pográfico é mais uma diferença importante entre a micro-
história e certa linha da história das mentalidades.
• Biografia e contexto. Aqui a biografia individualizada con-
serva sua especificidade, sem ser exclusiva ou concentrar
o foco do historiador. "A época, o meio e a ambiência
também são muito valorizados como fatores capazes de
caracterizar uma atmosfera que explicaria a singularidade
das trajetórias." Ela conduz, porém, a ênfases diferentes:
A MICRO-HISTÓRIA NOS BASTIDORES <3*- 1 4 1

permite compreender o que parece inexplicável e descon-


certante à primeira vista, como no caso de Martin Guerre,
ou tende a normalizar comportamentos "que perdem seu
caráter de destino individual à medida que são típicos de
um meio social".79
• Biografia e casos extremos. Nesse caso os contextos históri-
cos são alcançados pelas margens do campo social, por
intermédio da biografia de personagens singulares, a exem-
plo do Mennochio de Ginzburg. A fecundidade da bio-
grafia desses personagens extravagantes em sua própria
época já deu mostra suficiente de seu valor para a micro-
história. Mas também traz riscos, segundo Levi: "traçan-
do-lhe as margens (do contexto social), os casos extremos
aumentam a liberdade de movimento de que podem dis-
por os atores, mas estes perdem quase toda ligação com a
sociedade normal." 80 O risco maior reside, portanto, em
fazer do caso extremo um exemplo típico de determina-
do grupo — o que não faz Ginzburg, evidentemente —
embora a "extravagância" de determinado personagem ou
o caráter extremo de alguma situação muitas vezes seja
historicamente circunstancial, produzido pelas fontes e
pelos agentes históricos que produzem quer o enredo, quer
o próprio personagem.
• Biografia e hermenêutica. É um gênero mais típico da an-
tropologia interpretativa e da história oral — baseada em
arquivos orais — e nele o material biográfico "torna-se
intrinsecamente discursivo". Presta-se menos, assim, à
micro-história.

Portanto, as biografias ligadas à reconstituição de micro-


contextos ou dedicadas a personagens extremos, com todas as
142 -5§> OÍ PROTAGONISTAS ANÔNIMOS DA HISTÓRIA

variantes, limitações de fontes e riscos que contêm, são as que


configuram as opções ideais para a microanálise histórica, sen-
do caso de sublinhar o que constitui quase uma regra.ou,-pela
menos, uma vocação da micro-história: a escolha de persona-
gens populares e desconhecidos para os estudos de caso. E vale
sublinhar um aspecto importante desse popular que, na micro-
história, quase nunca é um indivíduo típico das classes popula-
res ou subalternas, masjima figura intermediária, um "media-
dor cultural".
O fato, porém, é que os personagens célebres, oficiais ou
mesmo rebeldes são menos recomendáveis, quer por serem gran-
des personagens, quer por exigirem do historiador, a priori, a
necessária ampliação da escala de observação — o que contra-
ria frontalmente a metodologia microanalítica. Além disso, a
redução da escala de observação no caso de personagens gran-
diosos — não raro envoltos em "mitologias" de todo tipo —
pode conduzir, aí sim, ao estudo de puerilidades ou aspectos
irrelevantes do caso em foco.
A micro-história se direciona, portanto, quer nos estudos
de comunidades, de situações-limite ou de personagens popula-
res., para aquilo que está na sombra da história. À sombra do
panteão das histórias nacionais ou oficiais. À sombra das mito-
logias, ideologias e religiões.

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