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DEZ ANOS DE POESIA PORTUGUESA ( RETORNO A MAGEN E A NARRATIVA Cinco tragos espectficos da poesia portuguesa dos dltimos dez anos? Eu escolheria estes cinco Cembora sabendo que tal escolha tem muito de arbitririo). Em primeiro lugar, uma rup- tura com os modelos dominantes de produgio textual: onde tinhamos anteriormente formas estruturais que apostavam na coesio tensa dos blocos de discurso, ou uma afirmagao da metifora, criando universos especificos, ou ainda um prazer do jogo experimental em que as relagdes entre 0 som, 0 sen- tido a imagem se repercutiam, encontramos agora uma fluidez mais dispersa cm que emerge um sentido narrativo dominado pela proliferagao lacunar das imagens. Em segundo lugar, uma polémica entre a versio sacralizante do poeta e do poema (na linha ontolégica de Heidegger) e uma versio desdramatizada da poesia, em que a vocagao bana- lizante € deliberadamente deceptiva acabam por configurar 0 uabalho do texto (na linha terapéutica de Wittgenstein). Em terceiro lugar, a importincia dada a um notivel trabalho de traducdo, que acaba por influenciar a concepeio da poesia. Em quarto lugar, ¢ na linha do que anteriormente se disse, uma relacao mais estreita com os poetas brasileiros (publicacao de Manoel de Barros, de Adélia Prado ou de Ferreira Gullar) ou 2 articulacio com revistas — em particular com Inimigo Rumor, que & uma publicagio luso-brasileira, ¢ Reldmpago. Por fim, tendo em conta os efeitos diferidos do trabalho de tradugio, o desenvolvimento de uma tendéncia intertextual. Neste contexto, poderemos afirmar que 0 movimento da “Poesia 61" (estudado no Brasil com tanta atencao e per néncia por Jorge Fernandes da Silveira) aparece como figuracao de um conjunto clissico: mais textual com Gastio Cruz, mais proximo do surrealismo associado a uma desarticulagio do corpo com Luiza Neto Jorge € mais ligado a uma afirmacio serena da presenga € do puro sim em Fiama Hasse Pais Brandao. Mas houve uma ruptura e uma mutagio — que, prolongando algumas destas linhas mais marcantes, imp3s uma visio de conjunto radicalmente diferente. Ela verificou-se, em primeiro lugar, pela atitude simultaneamente poética € critica (visceralmente polémica) de Joaquim Manuel Magalhies € com a posigao mais lirica © harmoniosa de Joio Miguel Fernandes Jorge. Com Joaquim Manuel Magalhites a poesia detesta aqueles que se comprazem em gostar de poesia, a poesia odeia as stituigdes literirias, a poesia ¢ acima de tudo a dilaceragio dolorosa da prdpria vida. Em poemas de uma forga impressio- nante, Joaquim Manuel Magalhaes fala dos encontros desgar- rados em que a vida se magoa até aos ossos, cla memoria triturada, dos versos que recusam a musicalidade e 0 floreado retorico. A morte € um dos seus temas mais brutais e a doenga desfaz os corpos até 2 abjecgao. Em Joao Miguel Femandes Jorge, oscila-se entre 0 canto da pintura ou dos lugares & 25 narrativas que contam 0 acaso do amor em quadros de meméria esgarcada, feita de vazios € buracos negros. Mas, embora a posig2o deliberadamente polémica sublinhe 0 taco da mudanga radical, outros poetas contribuem para a transfor macao da atmosfera Um deles € Fernando Assis Pacheco. Profundamente conhecedor das literaturas de lingua espanhola, francesa, inglesa e norte-americana, e alema, Assis Pacheco parecia nao acreditar, nao direi na poesia, mas na sua poesia. O que publicava eram brevissimas plaquettes que fazia questo em distribuir aos amigos. Qualquer impulso lirico ou dramatico era sempre travaclo por uma nota irdnica, por uma distragao brincada. Mas a guerra em Africa teve um lugar pungente nos seus poemas. E foi um dos autores que melhor souberam introduzir, nao propriamente o erotismo (era demasiado expli- cito para tal), mas a expressio abertamente pornografica, 130 Qual é a sua palavra de ordem? “Desengancar a alegria / do chato amivel mundo”. E aqui encontramos ja alguns tragos caracteristicos: a palavra inesperada ligada a uma experiéncia rural Cdesengangar’, isto é, “soltar bagos de uva do engago” ¢, ainda por extensao, “comer com sofreguidao”). E depois 0 mundo parece qualificado por um termo de calao que no pertence a esfera do vocabulirio poético. E esta palavra, que € corriqueiramente negativa, surge corrigida por outra modera- damente positiva: “amivel’. Contraponto entre duas expressSes matizadas, sorriso leve, criagao de um espaco propicio 2 alegria. © segundo nome escolhido € 0 de Antonio Franco Alexandre. sem dtivida um dos grandes poetas portugueses, com uma postura densa, complexa por vezes no limite do inteligivel O tema mais intenso de Ant6r Franco Alexandre tem a ver com a velocidade dos corpos: a sua aceleragio (que induz diversos processos de pressio verbal, obrigando a uma preci: pitagio quase ofegante da leitura) ea sua desaceleragio, como se de sabito, por um efeito estrobosc6pico da linguagem (esiro- bosc6pio: aparelho usado na anilise de movimentos perié- dicos, que da a aparéncia de repouso ou de movimento lento. 4 compos em movimento rapido) — ou do amor, ou mesmo do mero encontro dos corpos, tudo entrasse nessa forma de pausa, descanso ou levitac’o, em que : velocidade nao para, mas introduz no interior de si propria uma lentidao impror vel, aguda e dolorosa, frgil e demoradamente breve. A prin- cipal forma de aceleragéo surge na construgao da frase, na forma como os médulos linguisticos se relangam através de um mecanismo de repeti¢ao (retoma-se uma parte da frase ante- rior) e da variacdo amplificante (a nova frase diz qualquer coisa de novo, que alarga o espago coberto pelo discurso). Daqui resulta uma velocidade expansiva que, por vezes, se empolga e precipita até A dimensao césmica: 0 poema calga as botas de sete léguas ¢ da grandes passadas ou voos silen- ciosos sobre o corpo da terra, até tocar 0 fio do infinito — porque o infinito esta j4 no corpo (de) que se partiu Passemos agora para Nuno Jiidice. Com uma ampla pro- dugdo, de inicio ironicamente surreal (o seu primeito livro chamava-se Critica doméstica dos paralelepipedos), 0 poeta cria figuras habitacao na poesia (em grande parte baseadas na tradig20), para, de um modo distanciado © desfocado, 131