Você está na página 1de 11

A OBRA FOLHETINESCA DE VISCONDE DE TAUNAY:

O OLHAR FRANCÊS DE UM ROMANCISTA BRASILEIRO

Camylla Lima de Medeiros


a
Profª Dr Kátia Aily Franco de Camargo (Orientadora)
Departamento de Letras – UFRN
RESUMO:
Neste artigo realizamos a análise comparativa das imagens do Brasil
encontradas nos dois romances folhetinescos do autor Visconde de Taunay: Ouro sobre
Azul (1875) e O Encilhamento (1894). Tal estudo está inserido no projeto de pesquisa
Imagens do Brasil: um paralelo entre a Revue des Deux Mondes e os Romances de
Alfredo d’Escragnolle Taunay, no qual buscamos identificar a influência deste
periódico francês nas referidas obras do autor. Para tanto, tomamos como suporte
teórico-metodológico a Imagologia, teoria desenvolvida por Daniel-Henri Pageaux
(1988), a qual está inserida no campo da Literatura Comparada. Por meio desta teoria,
analisamos o imaginário social, o nível textual, as palavras repetidas, a escolha do
vocabulário, os nomes e as características das personagens, os adjetivos e qualquer
outro elemento lingüístico que possamos associar à cultura do país tratado na obra
literária. Para em seguida interpretarmos os resultados dessas leituras e identificar as
razões das escolhas feitas pelo autor, confrontando-as com o imaginário social no qual
ele está inserido. Nossa pesquisa busca ainda abarcar a estrutura do romance em
folhetim presente em ambas as obras, como aliada ao processo de criação destes
romances de Taunay.

Palavras-chave: Ouro sobre Azul; O Encilhamento; Visconde de Taunay; Imagologia.

Este artigo tem como finalidade realizar uma análise comparativa das
imagens do Brasil encontradas nos dois romances folhetinescos do autor Visconde de
Taunay: Ouro sobre Azul e O Encilhamento. Tal estudo está inserido no projeto de
pesquisa Imagens do Brasil: um paralelo entre a Revue des Deux Mondes e os
Romances de Alfredo d’Escragnolle Taunay, no qual buscamos identificar a influência
deste periódico francês nas referidas obras do autor. Para tanto, tomamos como suporte
teórico-metodológico a Imagologia, teoria desenvolvida por Daniel-Henri Pageaux
(1988), a qual está inserida no campo da Literatura Comparada. Nossa pesquisa busca
ainda abarcar a estrutura do romance em folhetim presente em ambas as obras, como
aliada ao processo de criação destes romances de Taunay.
Os estudos imagológicos desenvolvidos por Pageaux iniciam-se com a
publicação da obra Une perspective d’étude en littérature comparée: l’imagerie
culturelle, na qual a imagem do estrangeiro é considerada como fazendo parte do
imaginário social. Assim sendo, a Imagologia analisa as imagens ou representações do
Outro por meio das imagens literárias elaboradas a respeito deste. Nesse sentido,“[...] a
Imagem literária pode ser definida como sendo um conjunto de idéias sobre o
estrangeiro incluídas num processo de literarização e também de socialização, quer
dizer, como elemento cultural que remete à sociedade”. (PAGEAUX, 1988: 57)
De acordo com essa teoria, a imagem é formada pelas representações do
estrangeiro, que, por sua vez, são influenciadas pela ideologia do grupo que as produziu.
Assim, para que se tenha uma imagem é preciso que haja um “Eu” em relação com um
“Outro”, ou seja, a imagem do “Outro” sempre revela, ao menos em parte, a ideologia
do “Eu”.
Outro pressuposto da Imagologia a ser observado é que ela não se atém em
verificar a veracidade da imagem, pois, “sendo representação, a imagem é
necessariamente falsa” (PAGEAUX, 1988: 59). Mas cabe ao comparativista saber quais
as mentalidades e as idéias que sustentam essa imagem, não devendo ele levar em conta
apenas a obra literária, mas também todo o conjunto de influências que estão por trás do
texto. Assim, o pesquisador pode considerar os estudos realizados em campos próximos
ao seu, como o da história, da antropologia, das ciências sociais, dentre outros. Contudo,
isso não significa, como aponta a crítica feita a esta teoria, dar demasiada importância a
outras áreas e deixar à parte o estudo propriamente literário. “Trata-se, de facto, de
situar a reflexão literária numa análise geral que diz respeito à cultura de uma ou de
várias sociedades” (PAGEUX, 1988: 57)
Partindo dessas idéias, a imagem do estrangeiro é analisada como fazendo
parte do imaginário social que, por sua vez, seria o resultado de referências culturais,
seja do autor ou do grupo em que está inserido, as quais sempre podem ser atualizadas,
pois estão ligadas ao passado e ao futuro de um determinado grupo. Contudo, vale
salientar que a imagem não pode ser tida como simples reprodução da realidade social,
pois ela tem sua organização própria, até certo ponto independente do “real” (PAGEUX,
1988).
Além da análise do imaginário social, levamos em consideração o nível
textual, as palavras repetidas, a escolha do vocabulário, os nomes e as características das
personagens, os adjetivos e qualquer outro elemento lingüístico que possamos associar à
cultura do país tratado na obra literária. Em seguida, observamos as condições em que
aparecem as representações do Brasil, analisando o seu espaço, as oposições, as
inclusões e exclusões, a divisão existente entre o Brasil e a França, o Império e a
República, as qualificações diferenciais, nas quais observamos uma cultura superior em
face de uma inferior, entre outros aspectos. Por fim, procuramos interpretar os
resultados dessas leituras e identificar as razões das escolhas feitas pelo autor,
confrontando-as com o imaginário social no qual ele está inserido.
Para melhor compreendermos as escolhas feitas por Taunay na utilização
das imagens que encontramos nos romances é preciso apontar alguns aspectos
importantes sobre a vida e a obra deste autor. Alfredo Maria Adriano d’Escragnolle
Taunay nasceu em 22 de fevereiro de 1843, no Rio de Janeiro, antiga capital do Império
brasileiro. Autor de conhecimento quase enciclopédico, Taunay foi diplomado
engenheiro geógrafo e bacharel em ciências físicas e matemáticas. Lecionou francês,
geologia, mineralogia e botânica, além de ter entrado em contato com a música e as
artes plásticas por influência de sua família de artistas (MARETTI, 2006). Segundo
Candido (2000), esse vasto conhecimento de Taunay lhe rendeu descrições muito
próximas do real, algo que se tornou característico em sua obra.
Taunay se tornou mundialmente conhecido, principalmente, por meio de
duas de suas obras: A Retirada da Laguna (1871) e Inocência (1872). No entanto
escreveu outros romances, como, por exemplo, A Mocidade de Trajano (1871),
Lágrimas do Coração (1872), Ouro sobre Azul (1875), No Declínio (1889) e O
Encilhamento (1894). O autor se caracteriza e se diferencia de outros autores
românticos brasileiros da época pela habilidade com que inseriu experiências pessoais
em suas obras, como é o caso de suas viagens ao interior do país, empreendidas durante
a Guerra do Paraguai (1864 – 1870), as quais trouxeram para as descrições do sertão do
Centro-Sul brasileiro uma fidelidade e verossimilhança singulares. “Daí resultar um
brasileirismo, misto de entusiasmo plástico e consciência dos problemas econômicos e
sociais [...]” (CANDIDO, 2000: 276).
Também atuante na política imperial, exerceu diversos cargos, como, por
exemplo, o de presidente da província de Santa Catarina e o de deputado pela província
de Goiás. A respeito desta sua atuação é importante destacar que ele era defensor da
Monarquia, mostrando-se sempre leal a D. Pedro II, e, apesar de ter sido membro do
Partido Conservador, podemos dizer que algumas de suas propostas eram muito
adiantadas para a época e não condiziam com aquelas defendidas, em geral, pelos
demais integrantes do referido partido. Enquanto seus pares políticos estavam mais
afeitos às idéias tradicionalistas, como, por exemplo, à manutenção do regime
escravista, ele propunha inovações como o casamento civil, a grande naturalização, a
imigração européia, o imposto territorial e a abolição dos escravos. Destas propostas, a
que mais causava polêmica entre seus pares era a questão da imigração européia, a qual
Taunay justifica como forma de solucionar os atrasos causados pela dependência do
trabalho escravo, como vemos na passagem a seguir:

É, além disso, impossível a conveniente evolução moral do liberto, do


agregado, do camarada, do caipira, do capanga, do sertanejo, e do
capoeira, em trabalhador livre, independente e laborioso, sem as lições
do exemplo, sem o estimulo dado praticamente pelas mais adiantadas
raças da Europa, ricas de idéias, ávidos do pacífico gozo das
comodidades que, na vida social da América, proporcionam o suor
cotidiano e a consciência dos deveres e direitos. (TAUNAY apud
MARETTI, 2006: 47)

Esta aparente incoerência de Taunay em defender propostas que não


condiziam com o partido que se dizia fielmente filiado, nos remete, inevitavelmente, à
Revue de Deux Mondes, já que este periódico apresentava, implicitamente, uma
ideologia monarquista, ao mesmo tempo em que defendia a abolição, a imigração, entre
outros temas tidos como adiantados para a época. Há também, outros fatores que nos
confirmam a possível influência da Revue sobre o autor e suas obras, como por
exemplo, o fato de Taunay ter sido seguidor dos ensinamentos de Ferdinand Denis,
autor de artigos publicados por aquele periódico francês (BAREL, 2007).
No periódico supracitado foram publicados vários artigos sobre o Brasil,
elaborados por diversos autores, muitos dos quais eram naturalistas, políticos ou simples
viajantes que, com um olhar europeu, levavam ao conhecimento do público leitor suas
impressões de acordo com seus interesses, alicerçados pelos ideais da Revue. A citação
abaixo apresenta, de maneira resumida, o Brasil publicado pela revista:
Para ser útil à Europa capitalista, no entanto, o Brasil necessitava se
civilizar. Isso significa que a natureza exuberante, freqüentemente
posta em relevo, deveria ser domada, isto é, a agricultura teria que ser
aí introduzida de maneira sistemática, sem destruição de florestas e
esgotamento do solo. Para tanto, era imperioso abolir a escravidão,
portadora de grandes vícios morais e efetivar a colonização do Brasil
com o sangue branco europeu, pois só assim se inculcaria, em sua
gente, a dignidade do trabalho. A intensificação da agricultura exigia,
por um lado, uma melhoria nas vias de transporte, a qual contribuiria,
por sua vez, com a interiorização da civilização. O Brasil era um país
de esperanças; bastava, para fechar esse ciclo, que a população fosse
digna de seu chefe, ilustríssimo imperador Dom Pedro II, pois há anos
ele vinha incitando todos esses feitos. (CAMARGO, 2007: 160)

Uma vez que nosso principal objetivo é o estudo dos romances folhetinescos
de Taunay, trataremos, a partir daqui, das obras a serem analisadas. O primeiro romance
que abordaremos é Ouro sobre Azul, veiculado em 1875, no jornal fluminense O Globo,
originalmente intitulava-se Razão e Coração, mudando, em seguida, para o título que
hoje conhecemos, por agradar mais aos leitores. Nesta primeira edição, o autor o assina
com o pseudônimo de Sylvio Dinarte, e alguns anos mais tarde, em 1897, foi reeditada e
publicada como livro pela Livraria Garnier, após severa correção e melhoramentos
feitos pelo Visconde.
A obra trata, principalmente, da alta sociedade carioca do século XIX,
descrevendo seus costumes e denunciando suas mazelas morais. Narra ainda a história
de Álvaro de Siqueira e sua prima Laura, que devotam um ao outro uma paixão que vai,
aos poucos, sendo revelada ao leitor e também às próprias personagens. Órfã, Laura fora
criada pelo seu tutor Farias Alves, que era, em segredo, seu verdadeiro pai. Porém
Pessoa de Lima descobre tal segredo e tenta obrigar Farias Alves a casar seu filho
Arthur com Laura, sob pena de revelar toda a verdade para a moça, pois pai e filho
estavam interessados na herança que seria deixada à Laura com a morte de Alves. Essa
atitude acabou prejudicando o romance entre Álvaro e sua prima, que estavam cada vez
mais apaixonados. Ao final da narrativa, Pessoa de Lima descobre que Farias Alves é
favorável ao romance de sua filha com Álvaro, ficando indignado com a rejeição de
Arthur. Decide, então, ir à fazenda do pai da moça para desmoralizá-lo. Contudo Pessoa
de Lima sofre uma síncope na estrada de ferro, o que acaba por provocar a sua morte,
falecendo, portanto, sem nunca revelar seu segredo. Desse modo, Álvaro e Laura
puderam se casar como sempre desejaram.
A referida obra se configura, segundo Candido (2000), como um romance
urbano, visto que traz à tona assuntos como a vida na capital e as particularidades da
vida cotidiana burguesa, ao mesmo tempo em que realiza um panorama da vida no
campo, na segunda parte do livro. O romance trabalha, também, com outras temáticas,
como a ascensão social a qualquer preço, a importância do dinheiro, o casamento por
interesse, as intrigas amorosas e as traições, aspectos que são apontados sempre de
maneira crítica pelo autor.
O segundo romance analisado, O Encilhamento, foi publicado originalmente
em folhetim no ano de 1893, no Jornal da Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro. Assim
como Ouro Sobre Azul, o romance trata da alta sociedade fluminense e dos seus
problemas morais. Entretanto nessa obra se destaca o período político vivido no final do
século XIX, o começo da República e a queda financeira da bolsa de valores no período
de 1981-1982, a qual ocasionou a crise de muitos bancos e empresas brasileiras.
Em meio ao descontrole pela busca desenfreada de dinheiro na fase do
encilhamento, Taunay narra a história de Menezes, que, influenciado pelo amigo
Roberto, resolve ceder ao apelo geral e iniciar suas atividades na bolsa a partir da
compra de algumas ações da nova empresa do tão afamado Barão de Lamarim. Apesar
de ser considerado pela sua prudência, Menezes procura o primo Dr. Ferreira Sodré e
investe 1000 $ nas ações do Barão. Contudo tratava-se de um golpe do Lamarim e do
próprio primo de Menezes, que buscavam, a qualquer custo, o enriquecimento rápido.
Em seguida, Menezes se desvencilhou das ações, passando a não mais se envolver nas
“jogatinas” da bolsa. Durante o despencar econômico do país, Menezes mantinha um
romance secreto com a esposa do fidalgo João José Maria Furtado de Souza e Siqueira,
Laura Siqueira. Porém Menezes não encarava com muita seriedade tal romance; na
verdade, estava apaixonado pela jovem Alice, prima de Laura. Alice diferenciava-se
completamente da prima mais velha, visto que era honesta, conhecedora da literatura e
muito recatada. Mas o romance desta com Menezes só se concretiza ao final da
narrativa, pois Alice era impedida de principiar esse relacionamento, já que Roberto,
amigo de Menezes, havia declarado amor pela jovem, sob a ameaça de se suicidar, caso
não fosse correspondido. Nos capítulos finais da obra, Menezes rompe com Laura, que
havia sido flagrada pelo marido, Siqueira, traindo-o com o secretário espanhol. Quanto
a Alice, decide demonstrar estar interessada no personagem principal, resolvendo,
assim, a intriga.
Para Candido (2000), O Encilhamento também está inserido entre os
romances urbanos de Taunay. Mas, diferentemente da primeira obra analisada, esta não
aborda temas como a natureza brasileira ou vida na fazenda. Durante toda a narrativa o
autor se atém aos problemas sociais, tratando da economia e da política do país como
temas principais. A partir de várias comparações entre o governo republicano e o
imperial, o autor demonstra sua resignação com a nova administração do país. É válido
destacar, ainda, que ambos os romances se utilizam de palavras e expressões próprias da
época, entretanto, n’O Encilhamento, o fato de Taunay ter se valido do vocabulário
utilizado na bolsa de valores da década de 1890, pode dificultar ainda mais a
compreensão do leitor contemporâneo.
Podemos encontrar nas duas obras um misto de elementos que caracterizam
os romances-folhetins. De acordo com Tinhorão (1994), existem elementos que são
indispensáveis à constituição desse gênero romanesco, como a presença de um herói,
(representado por Álvaro em Ouro sobre Azul e Menezes em O Encilhamento), o
enredo simples, com desfecho moralizador, a resolução do impasse da narrativa pela
tragédia (crise econômica do Brasil e o flagrante de Laura em O Encilhamento) e a
morte (síncope sofrida por Pessoa de Lima, pai de Arthur, na outra obra), além da
explícita intervenção do autor ao longo de ambos os textos, como vemos nos trechos a
seguir:
Só servem as nossas narrativas, futeis por sem duvida até agora, para
melhor apresentarmos ao leitor, que tem tido tempo e paciencia para
nos acompanhar, aquelles que devem figurar como protagonistas neste
livro, cujo fim não é por sem duvida sério nem instructivo como um
Bouillet ou um tratado de agricultura, mas simplesmente dar uma
pintura quanto possível, fiel, da nossa vida de sociedade, aquem
portanto cabe em grande parte a censura de futilidade. (TAUNAY,
1921: 108).

Basta, porém, basta!


Desviemos os olhos de tão vasto lodaçal, afastemo-nos das pútridas
emanações.
Essa cruel e asquerosa época do encilhamento terá, comtudo, dilatada
repercussão na vida social brasileira, derivando-se della hábitos,
tendências, objectivos e aspirações, de todo ponto contrarios ás
inflexiveis leis economicas e que difficilmente hão de ser
desarraigados do nosso organismo moral (TAUNAY, 1923: 317).

Ainda de acordo com a classificação de Tinhorão (1994), é possível


perceber que, quanto à forma e organização, os romances em questão também
apresentam uma estrutura tipicamente folhetinesca, evidenciada por meio de alguns
caracteres, a saber: descrição da situação dramática (em Ouro sobre Azul, há o amor
impossível de Álvaro e sua prima Laura, e em O Encilhamento temos o amor platônico
de Menezes por Alice); agravamento das tensões (a possibilidade de Laura casar-se com
Arthur, a quem não ama, em Ouro Sobre Azul, enquanto na outra obra, vemos a
confissão de Roberto ao amigo Menezes e a desconfiança de Siqueira de que sua esposa
o está traindo); perspectiva de resolução e suspense (em Ouro sobre Azul, a confissão
do amor de Laura por Álvaro e a aprovação do pai da moça, e em O Encilhamento, a
viajem de Laura e seu Marido para Europa e a manifestação do interesse de Alice por
Menezes, com quem inicia um romance já no último capítulo).
Depois da análise formal, a partir da observação dos traços próprios do
gênero folhetinesco, por meio da qual pudemos evidenciar a organização do romance-
folhetim como fator estruturador das narrativas estudadas, passemos à análise do ponto
de vista imagológico.
A partir da análise imagológica das obras, pudemos abstrair três grandes
imagens em Ouro sobre Azul e duas em O Encilhamento. A primeira delas é a imagem
da natureza, presente somente na primeira obra, destacada pela beleza e, principalmente,
pela sua grandeza imponente. Porém, quando tratamos da forma pela qual cada
personagem se relaciona com essa natureza, observamos uma divisão: de um lado estão
os brasileiros, determinados em defender o seu maior patrimônio; de outro, o
estrangeiro, nostálgico pela civilização singular de seu país. Aspectos que podem ser
observados nos trechos que se seguem:
- não é só isso, respondeu apressadamente Adolfo, não de certo, mas
as palmeiras! Os Grupos de palmeiras! Só...
- Tambem as temos por cá e nesse ponto não cedemos a ninguém,
interrompeu Álvaro com certo assomo patriótico. (TAUNAY, 1921:
31)

- Não é verdade, Mme., perguntou no mais puro francez, que a minha


patria é bella?
A pessoa tão inesperadamente interpellada estremeceu ligeiramente e
voltou-se com rapidez.
- Soberba! respondeu ella, tanta grandeza me esmaga... Não sei o que
sinto, mas devéras tenho vontade de chorar...
[...] – Oh! Disse com arrebatamento Adolfo, sois artista de coração...
Abre-se a vossa alma ardente ás grandes impressões... tudo quanto nos
rodêa é immenso...
- Lisonjeiro, atalhou com melancolico sorriso. (TAUNAY, 1921: 22)

- Voltarei. Tenho tempo de sobra diante de mim para passear a gosto...


E depois devo-lhes dizer uma cousa: esta sua natureza brasileira faz-
me mal aos nervos. Desde que entrei neste porto sinto um abalo, uma
tristeza funda... Quizera já me vêr bem longe d’aqui... (TAUNAY,
1921: 24)

Na primeira passagem observamos o trecho de uma conversa entre Álvaro


de Siqueira e seu amigo Adolfo, na qual se ressalta a singularidade da mata virgem do
nosso país. Nos trechos seguintes encontramos duas passagens nas quais se destaca a
natureza brasileira pela óptica do viajante francês, aqui representada pela personagem
Mme de Sérignan. Podemos encontrar grande semelhança entre o relato da personagem
francesa do romance e as descrições feitas por um oficial inglês, cujo nome não foi
revelado, autor de artigos publicados na Revue des Deux Mondes, mencionada
anteriormente, os quais tratavam da monotonia causada pela grandeza de nossas matas
(CAMARGO, 2007). Em O Encilhamento, também podemos observar a superioridade
da Europa no que diz respeito à civilização: quando Menezes volta da Europa para o
Brasil e encontra a desordem causada pela “jogatina” na bolsa, ilude-se e deixa-se
convencer por Roberto de que deve investir em ações na bolsa, já que sua inocência e
caráter haviam sido conservados do outro lado do Atlântico.
A segunda imagem, encontrada apenas em Ouro sobre Azul, trata do
indígena. Presente em poucos momentos do romance, é possível, porém, observar com
clareza que tal imagem é abordada como sendo a representação do exótico. Vejamos os
fragmentos abaixo:
- Eu ia dizendo outra incoveniencia... isto de viver com selvagens da
Oceania inutilisa um cidadão que tem ainda deveres de sociedade que
cumprir. E os nossos? Perguntou elle.
- Que nossos?
- Indios... são tão interesantes...
- Sinceramente nunca me ocupei com elles.
- pois quanto a mim pretendo conhecel-os de perto. Dizem que ainda
os ha antropophagos lá pelo Espírito-Santo...
- Oh! Se!
- Coitadinhos! Exclamou Adolfo com tom de Orgon no Tartufo. Pois
tenho necessidade de ir a Goyas e Matto-Grosso congraçar com elles.
Entendo-me perfeitamente com os homens primitivos. Nasci para
vagar nas florestas e campos. E que jantares se comem á sombra da
mata-virgem, ao lado de sussurrantes cascatas! Na verdade, esta mesa
é deliciosa, delicadíssima; pois bem, eu a trocava de bom grado por
uma daquellas refeições que eu fazia nas costas da Austrália, sem
menu impresso, está entendido: umas costelletas de Kangurús, filet de
uma espécie de caitetú daquellas paragens a que chamam Bari-utang,
fruta de pão a valer e água a burbulhar dahi a dous passos. Isso era
cousa de chupar os dedos... Oh! Outra incoveniencia. (TAUNAY,
1921: 32)

Por trás da figura do índio está a imagem do bárbaro, do misterioso e


principalmente do ameaçador. Essa mesma representação pode ser encontrada nos
artigos da Revue sempre que se menciona a figura do índio, como por exemplo, nos
artigos de Adolphe d'Assier (CAMARGO, 2007). Por outro lado, não há referência à
figura do indígena em O Encilhamento.
A terceira imagem presente em Ouro sobre Azul é a da sociedade brasileira.
Tal imagem também pode ser encontrada em O Encilhamento, e as representações
existentes, em ambas as obras são muito semelhantes. Nelas, observamos uma
sociedade desprezível, na qual o dinheiro e as relações de interesse têm papel de
destaque. A alta sociedade é representada por uma burguesia fútil, apenas interessada
nas aparências, no enriquecimento fácil e na ascensão social. Sua principal preocupação
era atingir padrões de vida cada vez mais elevados e ganhar dinheiro em demasia,
mesmo que para isso tivesse que se utilizar da corrupção. Mais especificamente em
Ouro sobre Azul, observamos uma forte tendência por parte dos personagens em imitar
os costumes europeus, porém estes se mostram apenas conhecedores de algumas regras
da ética francesa e algumas citações de autores consagrados, mas, na verdade, apenas
escamoteiam o frívolo espírito burguês. Podemos observar tais características nas
passagens a seguir:
[...] nos dourados salões se expandem também a gosto a miséria e a
degradação moral [...].
- Então... a questão é dinheiro, não é? A senhora vende ... o seu corpo.
- Ah” meu sacrifício é atroz!... (TAUNAY, 1921: 180 - 290)

Não se aventava no paiz uma discussão sobre pontos philologicos,


sobre bellas artes ou qualquer matéria scientifica, que como
obrigatório final deixasse de figurar entre outros o nome do
conselheiro Florimundo, pouco mais ou menos nestes termos [...] Do
gabinete de estudos desse tão assignalado personagem contavam-se
cousas do arco da velha. O certo é que nelle só entravam, como
naquelles mysteriosos laboratorios de alchimistas da edade média, o
mestre e a poeira. Nunca uma imprudente vassoura ousára penetrar
naquelle recanto literario e scientifico; nunca um estouvado espanador
toucára nem de leve aquella immensa mesa de trabalho, aquelles
manuscriptos preciosos, aquelles livros de consulta, aquellas estante
cheias de alfarrábios e in-folios.
Carregado de numerosa familia, cujos rebentões só chegavam até a
porta daquelle quarto fechado aos profanos, preenchia o Sr.
Conselheiro Florimundo os deveres da sociedade com o ar de quem
vive acabrunhado por trabalho superior as forças humanas e que o
obrigava a uma alimentação desencadernada, na phrase de Nicoláo
Tolentino.
- Coitado de meu marido, exclamou a Sra. do Sr. Conselheiro
Florimundo em voz dolente, elle dorme em cima dos livros.
E não dizia senão a pura verdade (TAUNAY, 1921: 56 - 57).

Em O Encilhamento, vemos que estes problemas da sociedade brasileira


foram potencializados com a queda do Império, sendo o sistema de governo vigente
causador principal de todos os novos infortúnios. Nessa obra, a República é
representada como sinônimo de rebeldia e destruição, contrapondo-se à imagem da
Monarquia, que é vista como uma “mãe zelosa”, sempre atenta às necessidades do país
e muito prudente na sua forma de agir.
Parecia indeclinavel acabar de uma vez com todas as antigas praticas,
transformar, quanto antes, as velhas tendencias brasileiras de
acautelada morosidade e paciente procrastinação. Ao amanhã de todo
sempre, substituira-se o já e já! Quanto moroso, senão esteril no
natural egoismo, o pesado trabalho da terra, com os seus habitos
arraigados, rotineiros! A industria, sim, eis o legitimo escopo de um
grande povo moderno e que tem de aproveitar todas as lições da
experiencia e da civilização; a industria, democrática nos seus intuitos,
célere nos resultados, a fazer a felicidade dos operarios, a valorisar e
tresdobrar os capitaes dos plutocratas, sempre em avanço e a rogredir,
typo da verdadeira energia americana e a desbancar , com os seus
inúmeros machinismos, que dispensariam quase de todo o auxilio
braçal, tudo quando pudesse haver de melhor e mais aperfeiçoado nos
mercados estrangeiros! (TAUNAY, 1923: 9)

Na passagem acima, o narrador critica a nova maneira de governar. Para ele,


não havia reflexão por parte dos governantes sobre as ações a serem desenvolvidas,
porque o país queria soluções urgentes, como foi o caso da ascensão da indústria, que
ocupou, quase que completamente, o lugar do trabalho braçal. De acordo com a obra, o
novo sistema tinha urgência em extinguir tudo o que poderia lembrar o antigo regime.
Isso fica evidente no fragmento que se segue:
O governo, na entontecedora ancia de tudo destruir, tudo derrubar,
mettido nos escombros da demolição, coberto de caliça e de poeira,
anhelante das glorias da reconstrução no menor prazo, ás carreiras,
sem demora, olhando pouco para a natureza e qualidade dos
elementos e materiaes de que ia se servindo, visando effeitos
immediatos, como que esquecido do futuro e do rigor da logica, a
amontoar premissas de que deviam fatalmente decorrer as mais
perigosas consequencias, o governo, com a faca e o queijo na mão,
promulgava decretos, expedia avisos e mais avisos, consecessões de
todas as espécies, garantias de juros, subvenções, privilegios, favores
sem fim, sem conta, sem plano, e d’hai, outros tantos contrachoques
na bolsa, poderosissima pilha transbordando de electricidade e lethal
pujança, madeiros enormes, impregnados de resina, promptos para
chammejarem, atirados a fogueira immensa, colossal! (TAUNAY,
1923: 5 - 6)

Em O Encilhamento, o sistema bancário brasileiro, baseado no norte-


americano, favorecia a divisão dessa sociedade em dois grupos: os magarefes ou
esfoladores e os esfolados. O primeiro era composto por poucos, interessados em
adquirir grandes vantagens em dinheiro no encilhamento, ao passo que o segundo
constituía-se por aqueles que se prejudicavam com as explorações do primeiro grupo.
Na passagem a seguir, evidencia-se a corrupção que regia o chamado encilhamento:
[...] encilhamento – enorme massa passiva e hypnotisada nas mãos de
quatro ou cinco dezenas de avidos bolsistas, cuja a força principal ou
unica para o embuste residia nos favores e na e na criminosa
complacencia do governo dictatorial. E este, sem ter que prestar
contas a ninguém, nem ver fiscalisação dos seus actos em poder algum
humano, ou acreditava tambem cega e bestialmente no falso e dourado
programa dos manobristas e pretendidos propulsores do progresso
brasileiro, ou nelle fingia simplismente crer, o que mais se aproximava
da verdade. (TAUNAY, 1923: 244 - 245)

Nesse romance, vemos que todos os esforços do povo em ascender


financeiramente foram fracassados. Muitos brasileiros perderam toda sua riqueza
investindo em ações de novas empresas. Os presidentes destas buscavam atingir os
maiores lucros possíveis de maneira injusta, protegendo os seus amigos e prejudicando
os demais acionistas, como explica Roberto ao amigo Menezes, recém chegado da
Europa:
Supuzesse Menezes – simples hypothese – uma empreza constituida
com 50.000 acções. E se apparecessem tomadores para 100, 200, 400
ou 500 mil? Não se admirasse... tudo em que o Lamarim mettia a
mão, era assim [...] Não deveriam, porém, os taes 500.000 sujeitar-se a
uma divisão proporcional?
Quem houvesse assignado só 1.000 ou 2.000, contentar-se-ia, por
muito favor, com 100 ou 200, se não menos.
Que desgosto para aquella pobre gente! Então o homem, o patrão, o
genio, imaginára bellissima combinação, cousa simplíssima, o ovo de
Colombo. Guardava certo numero, supponhamos 20 ou 30.000, para
os amigos do peito e a rodinha de cada um d’estes, livrando-os assim
do vexame da reducção. Ah! n’aquelas não se bulia! Eram sagradas! O
mais ficava para a arraia miuda, que se esfregava para ter a honra de
entrar no tal rateio... uma pouca vergonha, pescadores de sardinhas
(TAUNAY, 1923: 14)!

Além das representações já mencionadas, há outra que ocupa certo destaque


nos dois romances: a representação do branco em detrimento do mestiço. Superior em
beleza, inteligência e integridade, o branco está na pele de todas as personagens de bom
caráter das obras, ao passo que o mestiço é, junto com a Republica, responsável pela
nossa degradação moral. Nas obras, encontramos uma população reconhecida como
bela à medida que apresenta traços típicos dos povos europeus, ficando claro, dessa
maneira, qual padrão é favorecido, como podemos perceber nos trechos abaixo,
retirados de Ouro Sobre Azul, nos quais encontramos a descrição da personagem Álvaro
de Siqueira, e, em seguida, da personagem Idalina:
Era o que se podia chamar um bello typo. Tinha traços delicados,
regulares talvez de mais, nariz bem feito, olhos grandes, serenos, de
brilho, porém um tanto amortecido. Bigode fino sombreava-lhe o
labio superior; a barba era alourada, meio a ingleza. De porte
distincto, mostrava nos menores gestos a esmerada educação de
peifeito cavalheiro. (TAUNAY, 1921: 8 - 9)

Loura, com grande abundancia de cabellos annellados, com olhos


travessos, scintillantes, perscrutadores, boca seductora, vermelha
como rosa em botão, e muita graça em toda a sua delicada pessoa,
devia em qualquer parte do mundo causar sensação. (TAUNAY,
1921: 67)

Abaixo, segue um trecho de O encilhamento, em que podemos evidenciar a


desvalorização do mestiço:
Chegou até a achal-a feia, morena demais, as sombras do rosto
carregadas, fortes, duras, sem aquelles esbatidos suaves e amortecidos,
só proprios da extrema alvura [...] (TAUNAY, 1923: 186).

Por fim, encontramos em ambas as obras, por meio da Imagologia, várias


imagens que se complementam e compõem um Brasil semelhante àquele encontrado na
Revue de Deux Mondes. Em Ouro sobre Azul temos a imagem da monótona e
exuberante natureza brasileira e do assustador e curioso indígena que podemos
reconhecer nos artigos de Adolphe d’Assier e do oficial inglês. Nessa obra, observamos
a imagem de uma sociedade fútil, com uma população que é predominantemente
branca, ou seja, já é europeizada, sem escrúpulos e que se aventura a seguir os costumes
franceses. Em O Encilhamento vemos uma representação semelhante, contudo os
problemas sociais existentes na obra são ainda mais graves, visto que são resultado da
ineficácia e do descontrole do governo Republicano. No decorrer desta obra, podemos
constatar que a queda do Império representa também a queda da nação brasileira.
Assim, vemos, em ambas as narrativas, ora sutilmente, ora com certa evidência, a
imagem do bárbaro em oposição ao civilizado: a incivil sociedade brasileira diante do
exemplo de civilização européia, a grandiosidade do branco sobre a inferioridade do
mestiço ou do indígena e a República selvagem em face do refinado Império.
REFERÊNCIAS:
CAMARGO, Katia Aily Franco de. A Revue des Deux Mondes: intermediária entre
dois mundos. Natal: EDUFRN, 2007.

CANDIDO, Antonio. A Sensibilidade e o Bom Senso do Visconde de Taunay. In:


Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos. 6 ed. Belo Horizonte:
Editora Itatiaia, 2000. p. 275 – 282.

MARETTI, Maria Lidia L. Visconde de Taunay e os fios da memória. São Paulo:


Editora da UNESP, 2006.

PAGEAUX, Daniel-Henri; MACHADO, Álvaro Manuel. Da imagem ao imaginário. In:


Da Literatura Comparada à Teoria da Literatura. Lisboa: Edições 70, 1988.

TAUNAY, Visconde de. O encilhamento. São Paulo: Comp. Melhoramentos de São


Paulo, 1923.

TAUNAY, Visconde de. Ouro sobre Azul. São Paulo: Comp. Melhoramentos de São
Paulo, 1921.

TINHORÃO, José Ramos. Os Romanos em Folhetins no Brasil: 1830 à Atualidade.


São Paulo-SP: Duas Cidades 1994.