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STUART HALL

DA DIA~~O~A .
ID t N TIDA D t~ t M t D IA ç O t~ eu l TU ~A I~

ORGANIZAÇÃO
LIV SOVIK

TRADUÇÃO
Adelaine La Guardia Resende
Ana Carolina Escosteguy
Cláudia Álvares
Francisco Rüdiger
Sayonara Amaral

Brasília
Belo Horizonte
Representação da
Editora UFMG
UNESCO no Brasil
2003
INSTITUTO DE ARTES
BIBLIOTECA
UNICAMP
"
NOTA~ ~O~H A Dc~CON~T~U~AO
DO I~O~UlA~"

Em primeiro lugar, gostaria de dizer algo sobre as periodi-


zações no estudo da cultura popular. Alguns problemas difíceis
são colocados pela periodização - não a apresento aqui como
uma homenagem aos historiadores. As grandes rupturas são
em grande parte descritivas? Elas surgem em geral de dentro
da própria cultura popular ou de fatores externos que a
invadem? Com quais outros movimentos e periodizações a
"cultura popular" estaria ligada de maneira mais esclarece-
dora? Em seguida, gostaria de lhes contar sobre as dificul-
dades que tenho com o termo "popular". Tenho quase tanta
dificuldade com "popular" quanto tenho com "cultura". Quando
colocamos os dois termos juntos, as dificuldades podem se
tornar tremendas.
No decorrer da longa transição para o capitalismo agrário
e, mais tarde, na formação e no desenvolvimento do capita-
lismo industrial, houve uma luta mais ou menos contínua em
torno da cultura dos trabalhadores, das classes trabalha-
doras e dos pobres. Este fato deve constituir o ponto de
partida para qualquer estudo, tanto da base da cultura popular
quanto de suas transformações. As mudanças no equilíbrio
e nas relações das forças sociais ao longo dessa história se
revelam, freqüentemente, nas lutas em torno da cultura,
tradições e formas de vida das classes populares. O capital
tinha interesse na cultura das classes populares porque a
constituição de uma nova ordem social em torno do capital
~xigia .um processo mais ou menos contínuo, mesmo que as formas que as sobrepõem. É o terreno sobre o qual as
mterrnítente, de reeducação no sentido mais amplo. E a transformações são operada
tradição popular constituía um dos principais locais de
r No estudo da cultura popular, devemos sempre começar
resistênci~ às maneiras pelas quais a "reforma" do povo era
por aqui: com o duplo interesse da cultura popular, o duplo
buscada. E por isso que a jcultura popular tem sido há tanto
movimento de conter e resistir, que inevitavelmente se situa
tempo associada às questões da tradição e das formas tradi- ---
em seu interior.
cionais de vida - e o motivo por que seu "tradicionalismo"
tem sido tão freqüentemente mal interpretado como produto O estudo da cultura popular tem oscilado muito entre esses
de um impulso meramente conservador, retrógrado e anacrô- dois pólos da dialética da contenção/resistência. Algumas
nico. Luta e resistência - mas também, naturalmente, apro- inversões surpreendentes e admiráveis têm ocorrido. Pensem
priação e expropriação. ~a realidade, o que vem ocorrendo na enorme revolução na compreensão histórica que ocorreu
freqüentemente ao longo do tempo é a rápida destruição de quando a história da "sociedade refinada" e da aristocracia
.estilos específicos de vida e sua transformação em algo novo. ~ inglesa do século dezoito foi revirada pelo acréscimo da
r A "transformação cultural" é um eufemismo para o processo história do povo turbulento e ingovernável. As tradições
\ pelo qual algumas formas e práticas culturais são expulsas populares dos trabalhadores pobres, das classes populares
~do centro da vida popular e ativamente marginalizadas. Em e do "povão" do século dezoito parecem, hoje, formações quase
vez de simplesmente "caírem em desuso" através da Longa independentes: toleradas em um estado de equilíbrio perma-
Marcha para a modernização, as coisas foram ativamente nentemente instável, em tempos relativamente pacíficos e
descartadas, para que outras pudessem tomar seus lugares. prósperos; sujeitas a expedições e incursões arbitrárias em
Os magistrados e a policiamento evangélico ocupam ou tempos de pânico e crise. Mas mesmo que formalmente essas
mereciam ocupar um lugar mais "honrado" na história da tenham sido as culturas da gente de "fora das muralhas",
cultura popular. Bem mais importante que a proibição ou a distante da sociedade política e do triângulo do poder, elas
condenação é aquela figura sutil e escorregadia - a "reforma" nunca de fato estiveram fora do campo mais amplo das forças
(com todas as implicações positivas e claras que ela carrega sociais e das relações culturais. Elas não apenas pressio-
hoje). De um jeito ou de outro, "o povo" é freqüentemente o navam constantemente a "sociedade"; mas estavam vincu-
, objeto da "reforma": geralmente, para o seu próprio bem, é ladas a ela através de inúmeras tradições e práticas. Por
\ lógico - "e na melhor das intenções". Atualmente, compre- linhas de "aliança" e por linhas de clivagem. A partir dessas
endemos a luta e a resistência bem melhor do que a reforma e bases culturais, freqüentemente muito distantes das dispo-
a transformação . ..Çontudo, as "transformações" situam-se no sições da lei, do poder e da autoridade, "o povo" constante-
centro do estudo da cultura popular. Quero dizer com isso mente ameaçava eclodir: e quando o fez, invadiu o palco das
o trabalho ativo sobre as tradições e atividades existentes relações clientelistas e de poder com um clamor e um estam-
e sua reconfiguração, para que estas possam sair diferentes. pido ameaçadores - com pífaros e tambores, com laço e
Elas parecem "persistir"; contudo, de um período a outro, efígie, com manifesto e ritual - e freqüentemente com uma
acabam mantendo diferentes relações com as formas de vida disciplina ritual popular surpreendente. Contudo, sem nunca
dos trabalhadores e com as definições que estes conferem às romper os fios do paternalismo, da deferência e do terror
relações estabelecidas uns com os outros, com seus "Outros" e que os aprisionava contínua senão frouxamente. No século
com suas próprias condições de vida. A transformação é a seguinte, nos locais onde as classes "trabalhadoras" e "peri-
chave de um longo processo de "rnoralização" das classes traba- gosas" viviam sem o benefício desta fina distinção que os
lhadoras, de "desmoralização" dos pobres e de "reeducação" reformadores ansiavam por estabelecer (tratava-se de uma
do povo./A cultura popular não é, num sentido "puro", nem distinção cultural, bem como moral e econômica; e uma grande
as tradições populares de resistência a esses processos, nem quantidade de legislação e regulamentação foi projetada para

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operar ~iretamente sobre ela), algumas regiões preservaram bem específica com a grande reestruturação do capital; que
p~r mUlt~ tempo um caráter de enclave virtualmente ímpene- se relacionou de forma peculiar com o resto do mundo;
traveI. FOI necessário quase um século para que os represen- um povo unido pelos mais complexos laços a um conjunto
tantes da "lei, e . da ordem" - a nova polícia - c onquistassem
. variável de relações e condições materiais; que conseguiu
um ponto mirumo de apoio dentro delas. Ao mesmo tempo de alguma forma construir uma "cultura" que permaneceu
a penetração das culturas das massas trabalhadoras e dos intocada pela ideologia dominante mais poderosa - o impe-
po~res urbanos foi mais profunda e mais contínua _ e rialismo popular? Sobretudo por que essa ideologia, contra-
mal,s constantemente "educativa" e reformadora _ naquele riando seu nome, foi tão dirigida para o povo quanto o foi
período do que em qualquer outro desde então. para a mudança de posição da Grã-Bretanha na expansão
~m dos principais obstáculos que se interpõem à periodi- capitalista mundial?
zaçao da cultura popular é a profunda transformação na cultura Pensemos, em relação ao imperialismo popular, sobre a
das classes populares que ocorre entre os anos de 1880 história e as relações entre o povo e um dos principais meios
e 1~20. Há histórias inteiras a serem escritas sobre esse de expressão cultural: a imprensa. Voltando ao deslocamento
?enodo. Embora contenha provavelmente muitos detalhes e à superposição - podemos perceber como a imprensa
mc~rret,~s, =: que o artigo de Gareth Stedman Jones
sobre a_ reformaçao das classes trabalhadoras inglesas" chama
liberal da classe média da metade do século dezenove foi cons-
truída às custas da efetiva destruição e marginalização da
a atençao, para algo fundamental e qualitativamente diferente imprensa local radical da classe trabalhadora. Mas, além desse
nesse pe~lOdo, que se caracterizou por profundas mudanças processo, algo qualitativamente novo ocorre mais para o
estruturaIs. Quanto mais o observamos, mais convencidos final do século dezenove e o começo do século vinte nessa
nos tornamos de que em algum momento desse período se área: a efetiva inserção em massa de uma audiência desen-
II encontra ~ I~a.triz dos fatores e problemas a partir dos quais volvida e madura da classe trabalhadora num novo tipo
a nossa hlstona e nossos dilemas peculiares surgiram. Tudo de imprensa comercial popular. As conseqüências culturais
I
mudou -I não foi apenas uma mudança nas relações de disso foram profundas, embora 7'questão não seja estrita-
força, mas uma reconstituição do próprio terreno da luta polí- mente "cultural". Isso exigiu um reorganização geral da base
I /N- ,
rica .. ao e por acaso que tantas das formas características I de capital e da estrutura da indústria cultural; o atrelamento
I d.aquIl,~ que hoje consideramos como cultura popular "tradi- a uma nova tecnologia e a novos processos de trabalho; o
C1ona~ emergiram sob sua forma especificamente moderna, ou estabelecimento de novas formas de distribuição, que
I I operavam através dos novos mercados culturais de massa.
a partir dela, naquele período. O que se havia feito pelos anos
Mas um dos seus efeitos principais foi a reconstituição das
II 1790. e 1840 e que se estava fazendo pelo século dezoito
precisa ser. feito radicalmente pelo período que poderíamos relações políticas e culturais entre as classes dominantes e
chamar hoje de crise "social imperialista". dominadas: uma mudança intimamente ligada à contenção
da democracia popular na qual "nosso estilo democrático de
O argu~:nto geral apresentado anteriormente é verdadeiro,
vida" hoje parece tão firmemente baseado. Seus resultados
sem restnçoes, para esse período, no que diz respeito à
são palpáveis ainda hoje: uma imprensa popular, que quanto
cultura popular. Não existe um estrato "autêntico" autô-
mais se encolhe mais se torna estridente e virulenta; organi-
nomo e isolado de cultura da classe trabalhadora. A ~1aioria
zada pelo capital "para" as classes trabalhadoras; contudo,
das_formas de recreação popular mais imediatas, por exemplo,
com raízes profundas e influentes na cultura e na linguagem
estao sa~uradas de imperialismo popular. Poderíamos esperar do "João ninguém", "da gente"; com poder suficiente para
outra coisa? Como explicar e o que jazer com a idéia da cultura representar para si mesma esta classe da forma mais tradi-
de um: classe. dominada que, apesar de suas complexas cionalista. Esta é uma fatia da história da "cultura popular"
formaçoes e dIferenCiações internas, manteve uma relação que vale a pena elucidar......,-.

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Naturalmente, não se poderia começar a fazer isso sem
de uma mudança nas relações culturais entre as classes, mas
mencionar muitas das coisas que não aparecem usualmente
do novo relacionamento entre o povo e a concentração e
na discussão da "cultura" .Irata-se da reconstrução do capital
expansão dos novos aparatos culturais. Seria possível hoje
e do aumento dos coletivismos, da formação de um novo tipo
nos propormos a escrever a história da cultura popular sem
de estado "educativo", assim como de uma nova recreação
levar em consideração a monopolização das indústrias culturais,
d~n~a. e música popular. Como uma área de séria investigaçã~
por trás de uma profunda revolução tecnológica? (É lógico
histórica, o estudo da cultura popular é como o estudo da
que nenhuma "revolução tecnológica profunda" pode ser,
história do trabalho e de suas instituições. Declarar um inte-
em sentido algum, "puramente" técnica.) ~crever a história
r~ss~ .nele é corrigir um grande desequilíbrio, é apontar uma
da cultura das classes populares exclusivamente a partir
signifícante omiss~.\Mas, no final, seus resultados são mais
do interior dessas classes, sem compreender como elas
reveladores quando vistos em relação a uma história geral
mais ampla. ' constantemente são mantidas em relação às instituições da
produção cultural dominante, não é viver no século vint$..;
Seleciono este período - entre 1880 e 1920 - porque Essa questão, no século vinte, é muito clara. Mas se aplica
este constitui um dos grandes testes para o interesse atual na igualmente bem para os séculos dezenove e dezoito.
:ultura popular. Sem querer de forma alguma menosprezar o
Importante trabalho histórico já realizado ou que ainda está Fiquemos por aqui, no que diz respeito a "alguns problemas
por se fazer sobre os períodos anteriores, creio que muitas de periodização".
das dificuldades reais (teóricas e empíricas) só serão confron- Em seguida, quero falar um pouco sobre "popular". O
tadas quando começarmos a examinar mais de perto a cultura termo pode ter uma variedade de significados, nem todos
popular em um período que começa a se parecer com o eles úteis. Por exemplo, o significado que mais corresponde
nosso, que apresenta os mesmos tipos de problemas inter- ao senso comum: ~o é "popular" porque as massas o
pretativos, e que é informado pelas mesmas atitudes que escutam, compram, lêem, consomem e parecem apreciá-Io
temos em relação às questões contemporâneas. Tenho imensamente. Esta é a definição comercial ou de "mercado"
restriç~es àquele tipo de interesse na "cultura popular" do termo: aquela que deixa os socialistas de cabelo em pé.
que se Interrompe súbita e repentinamente mais ou menos É corretamente associada à manipulação e ao aviltamento
no momento do declínio do chartismo.' Não é por acaso que da cultura do pov2,:. De certa forma, este significado é exata-
poucos estão trabalhando com a cultura dos anos de 1930. mente o contrário daquele que eu vinha utilizando anterior-
~esconfio que haja algo estranhamente inconveniente, espe- mente. Mas mesmo que o termo seja insatisfatório, tenho duas
cialrnente para os socialistas, no não surgimento de uma restrições a dispensá-Io completamente.
cultura militante, radical e madura da classe trabalhadora Primeiro, se é verdade que, no século vinte, um grande
nos anos 30, quando - para ser franco - a maioria de nós número de pessoas de fato consome e até aprecia os produtos
esperaria que isso acontecesse. Do ponto de vista de uma culturais da nossa moderna indústria cultural, então conclui-se
cultura popular puramente "heróica" ou "autônoma", os anos que um número muito substancial de trabalhadores deve estar
de 1930 são um período um tanto improdutivo. Essa "esteri- incluído entre os receptores desses produtos. Ora, se as formas
lidade" - como a riqueza e a diversidade anteriormente inespe- e relações das quais depende a participação nesse tipo de
radas - não pode ser explica da a partir de dentro da cultura cultura comercialmente fornecida são puramente manipu-
popular apenas.
láveis e aviltantes, então as pessoas que consomem e apreciam
Temos agora que começar a falar não somente das descon- esses produtos devem ser, elas próprias, aviltadas por essas
tinuidades e das mudanças qualitativas, mas também de uma atividades ou viver em um permanente estado de "falsa cons-
fratura muito forte, uma ruptura profunda, especialmente na ciência". Devem ser uns "tolos culturais" que não sabem que
cultura popular do período pós-guerra. Aqui não se trata apenas estão sendo nutridos por um tipo atualizado de ópio do povo.
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definições de nós mesmos de forma a ajustá-Ias mais facil-
Esse julgamento nos faz sentir b d mente às descrições da cultura dominante ou preferencial\ É
denunciarmos os agente d e~, ecentes e satisfeitos por
isso que a concentração do poder cultural - os meios de
massa _ as indústrias :ult~r~i:ntPu~aç~o e da decepção em fazer cultura nas mãos de poucos - realmente significa.
essa visão poderá p d capitalistas. Mas não sei se
er urar por muit Essas definições não têm o poder de encampar nossas mentes;
explicação adequada dos re 1.acionamento I o tempo
1 como
. uma elas não atuam sobre nós como se fôssemos uma tela em
menos como . s eu turais; e muito
uma perspectiva socialí t d brancO. ContudO, elas invadem e retrabalham as contradições
reza da classe trabalhad E ,I~ a a cultura e da natu- internas dos sentimentos e percepções das classes domi-
ora. m ultima análise idéi d
povo como uma força mlntma
,. e purament '. a I ela o nadas; elas, sim, encontram ou abrem um espaço de reco-
uma perspectiva profund . e passiva constitui nhecimento naqueles que a elas respondem. A dominação
amente anti-socialista.
cultural tem efeitos concretos - mesmo que estes não sejam
Em segundo lugar é '1
deixar de atentar para o possive resolver a questão sem todo-poderosos ou todo-abrangentes.p Afirmar que essas
da cultura comercial po;~f:~t~ ~anip~la~or de grande parte formas impostas não nos influenciam equivale a dizer que a
fazer isso, adota dos por cr'(f. xls~~m.inumeros meios de se cultura do povo pode existir como um enclave isolado, fora
popular, que considero :l:~:e~elcals e .teó~ico.s da cultura do circuito de distribuição do poder cultural e das relações
contra posição dessa cult quesuonaveis. /Faz-se a de força cultural. Não acredito nisso. Creio que há uma luta
I íntegra, a autêntica "c ~ra com outr~, cultura "alternativa", contínua e necessariamente irregular e desigual, por parte da
I u d . u ura popular , e sugere s cultura dominante, no sentido de desorganizar e reorganizar
ver adeira" classe trabalhadora e . lá . - e que a
constantemente a cultura popular; para cercá-la e confinar
~ enganada pelos substitutos com:;~~ai: ~s{~~ ISSOfOIr) não
tiva heróica mas não m .t . . uma a terna- suas definições e formas dentro de uma gama mais abrangente
, ' UI o convincente e bl ' de formas dominantes. Há pontos de resistência e também
e que ela ignora as rela _ b . u pro ema basico
poder cultural _ d d .çoe~ a solutamente essenciais do momentos de superação. Esta é a dialética da luta cultural.
e ommaçao e subordina ão ' Na atualidade, essa luta é contínua e ocorre nas linhas com-
aspecto intrínseco das rela - 1 ç - que e um
contrário que na- . çoes eu turais. Quero afirmar o plexas da resistência e da aceitação, da recusa e da capitu-
, o existe uma" lt lação, que transformam o campo da cultura em uma espécie
autêntica e autônoma situada f eu dura popular" íntegra,
relações de poder e d d . o~a o campo de força das de campo de batalha permanente, onde não se obtêm vitórias
e ommaçao cult . E definitivas, mas onde há sempre osições estratégicas a
'lugar, essa alternativa subestima em mui urais. m s.egundo serem conquistadas ou perdidª-s. C'\.
v •••• f...t '3-<'
-"Y"' ~.,..
cultural. Este é um ponto delicad U1t.Oo poder da inserção
abre-se à acusação de ue se e ,o, p.OISao ser apresentado Esta primeira definição, portanto, não serve aos nossos
tação cultural ;0 estuqd d sta apoiando a tese da implan- propósitos, mas pode nos fazer pensar mais profundamente
. o a eu tura l pop 1 f
cando entre esses dois '1 . ., u ar ica se deslo- sobre a complexidade das relações culturais, sobre a reali-
pura ou do total enca PIo os inaceitáveis: da "autonomia" dade do poder cultural e a natureza da implantação cultural.
psu amenjg, Se as formas de cultura popular comercial disponibilizadas
De fato, não acho correto nem vei . não são puramente manipuladoras, é porque, junto com o
qualquer um destes Já que )0 necessidade de apoiar
. ue as pessoas com -- falso apelo, a redução de perspectiva, a trivialização e o
tolos culturais , elas são perfeítI amente capaz unsd nao sao uns
curto-circuito, há também elementos de reconhecimento e
como as realidades da vid d 1 es e reconhecer
identificação, algo que se assemelha a uma recriação de
g~nizadas, reconstruídas Ieare~~;:l:~~:abalhadora ~ão reor-
experiências e atitudes reconhecíveis, às quais as pessoas
sao representadas (ist '
o e, reapresentadas)
Coronation Street? IAs indú s t . 1
pela maneira como
. ~ em,

Igamos,
respondem. ° perigo surge porque tendemos a pensar as
formas culturais como algo inteiro e coerente: ou inteiramente
de retrabalhar e remodelaur nas eu turars tem de fato o poder
constantemente ·1 corrompidas ou inteiramente autênticas, enquanto que elas
sentam; e, pela repetição e seleção. , Impor aqu.I o que repre-
e Implantar tais
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são profundamente contraditórias, jogam com as contradições, oposições não podem ser construídas de forma puramente
em especial quando funcionam no domínio do "populgj;". descritiva, pois, de tempos em tempos, os conteúdos de cada
, A linguagem do jornal Daily Mirror\pão é nem uma construção categoria mudam. O valor cultural das formas populares é
pura do linguajar de Fleet Street, nem é a linguagem que os promovido, sobe na escala cultural - e elas passam para o
leitores trabalhadores realmente falam. É uma espécie alta-
mente complexa de ventriloquismo lingüístico, em que a
brutalidade degradante do jornalismo popular é habilmente
-
lado oposto. Outras coisas deixam de ter um alto valor cultural
e são apropriadas pelo popular, sendo transformadas nesse
processo. O princípio estruturador não consiste dos conteúdos
combinada e entretecida a alguns dos elementos da objetivi- de cada categoria - os quais, insisto, se alterarão de uma
dade e da peculiaridade vívida da linguagem da classe traba- época a outra. ~s consiste das forças e relações que sustentam
lhadora.! Ele não conseguiria sobreviver sem preservar um a distinção e a diferença; em linhas gerais, entre aquilo
pouco de suas raízes vernáculas - no "popularS, Ele não que, em qualquer época, conta como uma atividade ou forma
iria longe se não fosse capaz de remodelar os elementos cultural da elite e o que não co~. Essas categorias perma-
populares em uma espécie de populismo demótico enlatado necem, embora os inventários variem. Além do mais é
e neutralizado. necessário todo um conjunto de instituições e processos in~ti-
tucionais para sustentá-Ias - e para apontar continuamente
A segunda definição do "popular" é mais fácil de se aceitar.
a diferença entre elas. A escola e o sistema ed~cacional são
É mais descritiva ... cultura popular é todas essas coisas que
exemplos de instituições que distinguem a parte valorizada
"o povo" faz ou fez. Esta se aproxima de uma definição
da cultura, a herança cultural, a história a ser transmitida, da
"antropológica" do termo: a cultura, os valores, os costumes
parte "sem valor". O aparato acadêmico e literário é outro
e mentalidades (folkwaysl do "povo". Aquilo que define seu
que distingue certos tipos valorizados de conhecimento de
"modo característico de vida". Tenho duas dificuldades com
outros. O que importa então não é o mero inventário descri-
esta definição também.
tivo - que pode ter o efeito negativo de congelar a cultura
Primeiro, desconfio que ela seja por demais descritiva. Isso popular em um molde descritivo atemporal, mas as relações
é dizer pouco. Na verdade, ela é baseada em um inventário de poder que constantemente pontuam e dividem o domínio
que se expande infinitamente. Quase tudo que "o povo" já da cultura em suas categorias preferenciais e residuqjs,
fez pode ser incluído na lista. Criar pombos ou colecionar
Portanto, opto por uma terceira definição para o termo
selos, patos voadores na parede e anões no jardim. O
"popular", embora esta seja um tanto incômoda. Essa defi-
problema é distinguir essa lista infinita, de uma forma que nTçãô considera, em qualquer época.zâs formas e atividades
não seja descritiva, daquilo que a cultura popular não é.
cujas raízes se situam nas condições sociais e materiais de
Mas a segunda dificuldade é mais importante - e se rela- classes especificas; que estiveram incorporadas nas tradições
ciona a um argumento apresentado anteriormente. Não e práticas populares. Neste sentido, a definição retém aquilo
podemos simplesmente juntar em uma única categoria todas que a definição descritiva tem de valor. Mas vai além, insis-
as coisas que "o povo" faz, sem observar que a verdadeira tindo que o essencial em uma definição de cultura popular
distinção analítica não surge da lista - uma categoria inerte são as relações que colocam a "cultura popular" em uma
de coisas ou atividades - mas da oposição chave: pertence/ tensão contínua (de relacionamento, influência e antago-
não pertence ao povo. Em outras palavras, o princípio estru- nismo) com a cultura dominante'\Trata-se de uma concepção
turador do "popular" neste sentido são as tensões e opo- de cultura que se polariza em torno dessa dialética cultural.
sições entre aquilo que pertence ao domínio central da elite Considera o domínio das formas e atividades culturais como
ou da cultura dominante, e à cultura da "periferia". tessa um campo sempre variável. Em seguida, atenta para as
oposição que constantemente estrutura o domínio da cultura relações que continuamente estruturam esse campo em
na categoria do "popular" e do "não-popular". Mas essas formações dominantes e subordinadas. Observa o processo

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pelo qual essas relações de domínio e subordinação são arti- de valor contraditórios. /0 signo se torna a arena onde se
culadas. Trata-as como um processo: o processo pelo qual desenvolve a luta de classes ... Na verdade, é este entrecruza-
mento dos índices de valor que torna o signo vivo e móvel,
algumas coisas são ativamente preferidas para que outras
capaz de evoluir\.O signo, se subtraído às tensões da luta social,
possam ser destronadas. Em seu centro estão as relações de se posto à margem da luta de classes, irá infalivelmente debi-
força mutáveis e irregulares que definem o campo da cultura litar-se, degenerar-se-á em alegoria e tornar-se-á objeto de estudo
- isto é, a questão da luta cultural e suas muitas formas. dos filólogos ... A classe dominante tende a conferir ao signo
Seu principal foco de atenção é a relação entre a cultura e ideológico um caráter eterno e acima das diferenças de classe,
as questões de hegemonia. ~
-- ,,~
ossa preocupação, nessa definição, não é com a questão
a fim de abafar ou de ocultar a luta dos índices sociais de
valor que aí se trava, a fim de tornar o signo monovalente. Na
realidade, todo signo ideológico vivo tem, como Jano, duas
da "autenticidade" ou da integridade orgânica da cultura faces. Toda crítica viva pode tornar-se elogio, toda verdade
popular. Na verdade, a definição reconhece que quase todas viva não pode deixar de parecer para alguns a maior das
as formas culturais serão contraditórias neste sentido, com- mentiras. Esta dialética interna do signo não se revela inteira-
mente a não ser nas épocas de crise social e de comoção
postas de elementos antagônicos e instáveis. O significado
revolucionária."
de uma forma cultural e seu lugar ou posição no campo
cultural não está inscrito no interior de sua forma. Nem se
aturalmente, a luta cultural assume diversas formas: incor-
pode garantir para sempre sua posição. O símbolo radical ou
poração, distorção, resistência, negociação, recuperação.
slogan deste ano será neutralizado pela moda do ano que
Raymond Williams prestou-nos um grande serviço ao delinear
vem; no ano segtpnte, ele será objeto de uma profunda
alguns desses processos, através de sua distinção entre os
nostalgia cultural. /0 rebelde cantor de música folk amanhã
momentos emergentes, residuais e incorporados. Precisamos
estará na capa da revista do jornal dominical, The Observer.
expandir e desenvolver esse esquema rudimentar. O impor-
O significado de um símbolo cultural é atribuído em parte
tante é observá-lo dinamicamente: como um processo histó-
pelo campo social ao qual está incorporado, pelas práticas
rico. As forças emergentes ressurgem sob velhos disfarces
às quais se articula e é chamado a ressoar. O que importa
históricos; as forças emergentes, apontando para o futuro,
não são os objetos culturais intrínseca ou historicamente
perdem sua força de antecipação e se voltam somente para o
determinados, mas o estado do jogo das relações culturais:
passado; ~ rupturas culturais de hoje podem ser recuperadas
cruamente falando e de uma forma bem simplificada, o que
como suporte para o sistema de valores e os significados
conta é a luta de classes na cultura ou em torno delê..
dominantes de amanhã. A luta continua: mas quase nunca
Quase todo inventário fixo nos enganará. O romance é ocorre no mesmo lugar ou em torno do mesmo significado ou
uma "forma" burguesa? A resposta só pode ser historicamente valor. Parece-me que o processo cultural - o poder cultural
provisória: quando? Quais romances? Para quem? Sob quais - em nossa s~ciedade depende, em primeira instância, dessa
condições? delimitação, sempre em cada época num local diferente, entre
Aquilo que o grande teórico marxista da linguagem, que aquilo que deve ser incorporado à "grande tradição" e o que
utilizou o nome Volochínov, disse uma vez sobre o signo - não deve. As instituições culturais e educacionais, junto com
o elemento chave de todas as práticas significativas - vale as coisas positivas que fazem, também ajudam a disciplinar e
também para as formas culturais: policiar essa frontel!:e...
Isso nos deve fazer pensar novamente sobre aquele termo
Classe social e comunidade semiótica não se confundem. Pelo traiçoeiro da cultura popular: "tradição" .IA
tradição é um
segundo termo entendemos a comunidade que utiliza um único elemento vital da cultura, mas ela tem pouco a ver com a
e mesmo código ideológico de comunicação. Assim, classes mera persistência das velhas formas. Está muito mais relacio-
sociais diferentes servem-se de uma só e mesma língua. Conse-
nada às formas de associação e articulação dos elementos
qüentemente, em todo signo ideológico confrontam-se índices

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J Esses arranjos em uma cultura nacional-popular não possuem momento de sua origem, um significado ou valor fixo e inalte-
uma posição fixa ou determinada, e certamente nenhum signi- rável. A relação entre a posição histórica e o valor estético é
ficado que possa ser arrastado, por assim dizer, no fluxo da uma questão difícil e importante na cultura popular. Mas a
tradição histórica, de forma inalterável. Os elementos da tentativa de elaborar uma estética popular universal, fundada
"tradição" não só podem ser reorganizados para se articular a no momento de origem das formas e práticas culturais, é quase
diferentes práticas e posições e adquirir um novo significado sempre profundamente equivocada. O que poderia ser mais
e relevância.\Com freqüência, também, a luta cultural surge eclético e aleatório do que aquela junção de símbolos mortos
mais inten"Sàmente naquele ponto onde tradições distintas e quinquilharias, roubados dos toucadores de ontem, com
e antagônicas se encontram ou se cruzam. Elas procuram os quais, justo agora, muitos jovens escolhem se enfeitar?
destacar uma forma cultural de sua inserção em uma tradição, Esses símbolos e pedacinhos recolhidos lá e cá são profun-
conferindo-lhe uma nova ressonância ou valência cultural. damente ambíguos. Milhares de causas culturais perdidas
As tradições não se fixam para sempre: certamente não em poderiam ser invocadas através deles. De vez em quando, no
termos de uma posição universal em relação a uma única meio dessas bugigangas, encontramos um signo que, acima
classe. As culturas, concebidas não como "formas de vida", de qualquer outro, deveria ser para sempre fixado - solidifi-
mas como "formas de luta" constantemente se entrecruzam: cado - em seu significado ou conotação cultural: a swastika.
as lutas culturais relevantes surgem nos pontos de inter- No entanto, lá está ele pendendo, meio - mas não inteira-
secção. Pensemos nas formas pelas quais, no século dezoito, mente - separado de sua profunda referência cultural na
uma certa linguagem da legalidade, do constitucionalismo e história do século vinte. Que sentido tem? O que está signifi-
dos "direitos" se tornou um campo de guerra, no ponto de cando? Seu significado é rico, ricamente ambíguo: certamente
intersecção entre duas tradições distintas: entre a "tradição" instável. Esse signo horripilante pode delimitar uma gama de
do "terror e majestade" da pequena nobreza e as tradições da significados, mas não carrega dentro de si a garantia de um
justiça popular. Gramsci, tentando apresentar uma resposta significado único. As ruas estão cheias de garotos que não
a seu próprio questionamento acerca de como/uma nova são "fascistas" só porque usam uma swastika na corrente.
"vontade coletiva" surge e uma cultura nacional-popular é Por outro lado, pode ser que eles até sejam ... Em última
transformada, observou que instância, na política da cultura jovem, o significado deste
signo dependerá muito menos do simbolismo cultural intrín-
o que importa é a crítica à qual os primeiros representantes seco da coisa em si do que do equilíbrio de forças entre,
da nova fase histórica submetem esse complexo ideológico. digamos, a Frente Nacional e a Liga Anti-Nazista ou entre o
/A crítica possibilita um processo de diferenciação e mudança White Rock e o Two Tone Sound.
no peso relativo que os elementos das velhas ideologias
possuíam. O que antes era secundário e subordinado, até Não há garãntia intrínseca ao signo ou à forma cultural.
acidental, é agora considerado primário torna-se o núcleo Tampouco há garantia de que, só porque esteve ligado a
de um novo complexo ideológico e teórico. A antiga vontade alguma luta relevante, ele será sempre a expressão viva de
coletiva se dissolve em seus elementos contraditórios, já que uma classe, de tal forma que, toda vez que lhe dermos a chance,
os subordinados se desenvolvem socialmente.
ele "falará a língua do socialismo". Se as expressões culturais
são associadas ao socialismo, é porque estas foram associadas
Esse é o terreno da cultura nacional-popular e da tradição, a práticas, a formas e organizações de uma luta viva, que
concebido enquanto campo de batalha. conseguiu apropriar aqueles símbolos e conferir-lhes uma
Isso nos alerta contra as abordagens auto-suficientes da conotação socialista. As condições de uma classe não se
cultura popular que, valorizando a "tradição" pela tradição, e encontram permanentemente inscritas na cultura, antes que
tratando-a de uma maneira não histórica, analisam as formas essa luta comece. A luta consiste do sucesso ou fracasso em
culturais populares como se estas contivessem, desde o dar ao "cultural" um índice de valor socialista.

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o termo "popular" guarda relações muito complexas com lá, onde sempre esteve, com sua cultura intocada, suas liber-
o termo "classe". Sabemos disso, mas sempre fazemos o dades e instintos intactos, ainda lutando contra o jugo nor-
possível para nos esquecermos. Falamos de formas especí- mando ou coisa assim; como se, caso pudéssemos "descobri-Io"
ficas de cultura das classes trabalhadoras, mas utilizamos o e trazê-lo de volta à cena, ele pudesse estar de prontidão no
lugar certo e ser computado. A capacidade de constituir
termo mais inclusivo, "cultura popular" para nos referirmos ---
classes e indivíduos enquanto força popular - esta é a natu-
ao campo geral de investigação. É óbvio que o que digo aqui
faria pouco sentido sem uma referência a uma perspectiva de reza da luta política e cultural: transformar as classes divididas
classe ou à luta de classe. Mas também é óbvio que não existe e os povos isolados - divididos e separados pela cultura e
uma relação direta entre uma classe e uma forma ou prática outros fatores - em uma força cultural popular-democrática;
cultural particular. Os termos "classe" e "popular" estão profun- É certo que outras forças também têm interesse em definir
damente relacionados entre si, mas não são absolutamente "o povo" de outra forma: "o povo" que precisa ser mais disci-
intercambiáveis. A razão disso é evidente. Não existem "cul- plinado, melhor governado, mais efetivamente policiado, cuja
turas" inteiramente isoladas e paradigmaticamente fixadas, forma de vida precisa ser protegida das "culturas estran-
numa relação de determinismo histórico, a classes "inteiras" geiras", e daí por diante. Existe um pouco dessas duas alter-
- embora existam formações culturais de classe bem distintas nativas dentro de cada um de nós. Às vezes, podemos ser
e variáveis. As culturas de classe tendem 'se entrecruzar e a constituídos como uma força contra o bloco de poder: esta é
se sobrepor num mesmo campo de luta. O termo "popular" a abertura histórica pela qual se pode construir uma cultura
indica esse relacionamento um tanto deslocado entre a genuinamente popular. Mas, em nossa sociedade, se não
cultura e as classes. Mais precisamente, refere-se à aliança somos constituídos assim, seremos constituídos como o
de classes e forças que constituem as "classes populares". ~ oposto disto: uma força populista eficaz, que diz "sim" para
cultura dos oprimidos, das classes excluídas: esta é a área à o poder. I!;. cultura popular é um dos locais onde a luta a
qual o termo "popular" nos remete. E o lado oposto a isto - favor ou contra a cultura dos poderosos é engajada, é também
o lado do poder cultural de decidir o que pertence e o que o prêmio a ser conquistado ou perdido nessa luta. É a arena
não pertence - não é, por definição, outra classe "inteira", do consentimento e da resistência.\Não é a esfera onde o
mas aquela outra aliança de classes, estratos e forças sociais socialismo ou uma cultura socialista - já formada - pode
que constituem o que não é "o povo" ou as "classes populares": simplesmente ser "expressa". Mas é um dos locais onde o
a cultura do bloco de poder. socialismo pode ser constituído. É por isso que a cultura
O povo versus o bloco do poder: isto, em vez de "classe popular importa. No mais, para falar a verdade, eu não ligo a
contra classe", é a linha central da contradição que polariza mínima para ela.
~
o terreno da cultura. A cultura popular, especialmente, é
organizada em torno da contradição: as forças populares
versus o blQcodo poder. Isto confere ao terreno da luta [In: SAMUEL, Raphael (Ed.). People's History and Socialist
cultural sua própria especificidade. Mas o termo "popular" Theory. London: Routledge and Kegan Paul, 1981.
- e até mesmo o sujeito coletivo ao qual ele deve se referir Tradução de Adelaine La Guardia Resende]
- "o povo" - é altamente problemático. O termo se torna
problemático, digamos, pela capacídadeda Sra. Thatcher de
pronunciar uma frase do tipo: "Temos que limitar o poder
dos sindicatos, porque é isso que o povo quer." Isso me
sugere que, assim como não há um conteúdo fixo para a cate-
goria da "cultura popular", não há um sujeito determinado ao
qual se pode atrelá-Ia - "o povo". "O povo" nem sempre está

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NOTAS

I Movimento pela reforma social, política e democrática, ocorrido na Ingla-


terra entre 1838 e 1848, cujos princípios foram estabelecidos na Carta Patente
do Povo e cujos participantes eram majoritariamente trabalhadores. (N. ela T.)

2Coronation Street - telenovela de grande popularidade,


BBC há anos na Inglaterra. (N. da T.)
exibida pela rede
o ~~O~leMA DA IDeOlOGIA
3 VOLOCHÍNOV, A. Marxism and tbe Pbilosopby of Language [Marxismo e
filosofia da linguagem]. New York: ls.n.l, 1977. o MMXI~MO ~tM GA~ANTIA~

BIBLIOGRAFIA

BA1LEY,Peter. Leisure and Class in Victorian England - 1830-1885.


Londres: [s.n.], 1978.
Nas duas últimas décadas, a teoria marxista tem passado
HALL,Stuart; WHANNEL,Paddy. Tbe Popular Arts. Londres: Phanteon, por um revival surpreendente, porém assimétrico e irregular.
1964. Por um lado, tem constituído o pólo principal da oposição ao
pensamento social "burguês". Por outro lado, muitos jovens
]OHNSON, Richard. Three Problematics: Elements of a Theory of intelectuais atravessam o revival e, após um curto e capitoso
Working-class Culture. 1n: CLARKE,].; CRITCHER, c., ]OHNSON, aprendizado, saem direto pelo outro lado. "Acertam suas
R. (Org.). Working-Class Culture: Studies in History and Theory. contas" com o marxismo e seguem por outros campos e
Londres: [s.n.], 1979. pastagens intelectuais: mas nem tanto. O pós-marxismo
continua sendo uma das maiores e mais vigorosas escolas
MALCOLMSON,R. W. Popular Recreation in English Society - 1700- teóricas da atualidade. Os pós-marxistas utilizam os conceitos
1850. Cambridge: Is.n.l, 1973. marxistas e, ao mesmo tempo, demonstram a inadequação
destes. Aparentemente, eles continuam sentados sobre os
NOWELL-SMITH, G. Gramsci and the National-popular. Screen ombros das próprias teorias que acabaram de destruir em
Education, Spring, 1977.
definitivo. S<?o marxismo não existisse, o "pós-marxismo" teria
que inventá-Io, somente para que os "desconstrucionistas",
STEDMAN]ONES, G. Working-class Culture and Working-class Politics
ao desconstruí-lo de novo, tivessem algo mais a fazer. Tudo
in London - 1870-1890.journal of Social History, Summer, 1974.
isso tem garantido ao marxismo uma curiosa qualidade de
THOMPSON, E. P. Patrician Society, Plebeian CuIture. journal of vida-após-a-morte. Está sempre sendo "transcendido" e "preser-
Social History, Summer, 1974. vado". Não há local mais instrutivo para se observar esse
processo do que o da própria ideologia.
WILLIAMS,Raymond. Radical or Popular. In: CURRAN,]ames (Org.). Não pretendo traçar novamente as reviravoltas dessas
7be Press We Deserve. Londres: [s.n.], 1970. recentes disputas, nem tentar rever a teorização intrincada
que as acompanhou. Em vez disso, pretendo situar os debates
sobre a ideologia no contexto maior da teoria marxista como
um todo. Pretendo também postulá-Io como um problema geral

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