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A Era dos Impérios – Eric Hobsbawm

Capítulo 6 – Bandeiras desfraldadas: nações e nacionalismo

O autor começa o capítulo dizendo que se a ascensão dos partidos da classe


trabalhadora foi um importante subproduto da democratização, a ascensão do nacionalismo
foi outro. A própria palavra “nacionalismo” apareceu pela primeira vez em fins do século XIX,
para descrever grupos de ideólogos de direita na França e na Itália, que brandiam
entusiasticamente a bandeira nacional contra os estrangeiros, os liberais e os socialistas, e a
favor daquela expansão agressiva de seus próprios Estados, que viria a ser tão característica de
tais movimentos. Porém, assim veio a ser utilizada igualmente para todos os movimentos que
consideravam a “causa nacional” como de primordial importância à autodeterminação, ou
seja, para todos que exigiam o direito de formar um Estado independente, designado a algum
grupo nacionalmente definido.

O fenômeno era novo: durante a maior parte do século IX, o nacionalismo fora
identificado com movimentos liberais e radicais, bem como com a tradição da Revolução
Francesa. Em outras partes, porém, o nacionalismo não se identificava necessariamente com
nenhuma das cores do espectro político. Entre os movimentos nacionais que ainda careciam
de Estados próprios encontramos alguns que se identificavam com a direita, outros com a
esquerda, e outros, ainda, indiferentes a ambas.

Quatro aspectos do nacionalismo (que sofreu mutações ao longo dos anos):

1º - surgimento do nacionalismo e do patriotismo, como ideologia encampada pela direita


política. Isto encontraria sua expressão extrema entre as duas guerras, no fascismo, cujos
ancestrais ideológicos aí são encontrados.

2º - pressuposição absolutamente alheia à fase liberal dos movimentos nacionais, de que a


autodeterminação nacional, até e inclusive a formação de Estados soberanos independentes,
aplicava-se não apenas a algumas nações que pudessem demonstrar sua viabilidade
econômica, política e cultural, mas a todo e qualquer grupo que reivindicasse o título de
“nação”.

3º - tendência progressiva para admitir que a “autodeterminação nacional” não podia ser
satisfeita po0r qualquer forma de autonomia inferior à plena independência do Estado.

4º - tendência para definir ma nação em ermos étnicos e especialmente em termos de


linguagem.

A língua como elementos de identificação nacional, usada para agrega as massas m


torno do nacionalismo, de uma causa nacional, seja ela política ou cultural.

As linguagens escritas ligam-se íntima, mas não necessariamente, aos territórios e


instituições. O nacionalismo que estabeleceu a si próprio como versão padronizada da
ideologia e do programa nacional era essencialmente territorial, uma vez que seu modelo
básico era o Estado territorial da Revolução Francesa, ou, de qualquer modo, aquele que mais
se aproximasse de efetivar o controle político sobre um território claramente definido e seus
habitantes, e que estivesse, na prática, disponível.

A nação, porém, estava ligada – e inevitavelmente – àquele fenômeno característico


do século XIX, o “Estado-nação”. Pois, como respeito à política, Pilsudsky estava certo. O
Estado não só fazia a nação, mas precisava fazer nação. Os governos, agora, iam diretamente
alcançar o cidadão no território de sua vida cotidiana, por meio de agentes modestos, mas
onipresentes, desde carteiros e policiais até professores e, em muitos países, empregados da
estrada de ferro. Poderiam requerer o compromisso pessoal ativo deles, e circunstancialmente
mesmo o delas, com o Estado: de fato, o “patriotismo” de todos. As autoridades – numa época
sempre mais democrática, não podendo confiar mais na submissão espontâneas das ordens
sociais aos que lhes eram socialmente superiores, à maneira tradicional, ou na religião
tradicional, como garantia eficaz de obediência social – necessitavam de um modo de ligar os
súditos do Estado contra a subversão e a dissidência. “A nação” era a nova religião cívica dos
Estados. Oferecia m elemento de agregação que ligava todos os cidadãos ao Estado, um modo
de trazer o Estado-nação diretamente a cada m dos cidadãos e um contrapeso aos que
apelavam para outras lealdades acima da lealdade do Estado – para a religião, para a
nacionalidade ou etnia não identificadas com o Estado, e talvez, acima de tudo, para a classe.
Nos Estados constitucionais, quanto mais as massas eram trazidas para a política através das
eleições, tanto maior era o campo em que tais apelos se faziam ouvir.

O que tornava mais indispensável ainda o nacionalismo estatal era, ao mesmo tempo,a
economia de uma era tecnológica e a natureza de sua administração pública e privada, que
exigiam educação elementar em massa ou pelo menos a alfabetização. O século XIX foi a
época em que se rompeu a comunicação oral, à medida que crescia distância entre as
autoridades e os súditos e a migração em massa interpunha dias ou mesmo semanas de
viagem até entre mães e filhos, noivos e noivas. Do ponto de vista do Estado, a escola tinha
ainda outra vantagem essencial: poderia ensinar todas as crianças a serem bons súditos e
cidadãos.

Na parte 2 do capítulo, o autor fala sobre o “nacionalismo dos isolados”:

O nacionalismo de Estado era uma estratégia de dois gumes. À medida que mobilizava
alguns habitantes alienava outros – os que não pertenciam nem desejavam pertencer à nação
identificada com o Estado. Em suma, auxiliava a definir as nacionalidades excluídas da
nacionalidade oficial, por meio da separação de comunidades que, por qualquer motivo,
resistiam à linguagem e à ideologia pública oficial.

Exemplo: Os padres eslovacos nos EUA só falariam eslovaco com outros eslovacos.
Assim é que a “nacionalidade” se tornava uma verdadeira rede e relações pessoais e não uma
comunidade imaginária, simplesmente porque, longe da terra, todo esloveno quando se
encontravam.

Quanto maior a migração dos povos, tanto mais rápido o desenvolvimento das cidades
e da indústria, que lançava as massas desenraizadas umas contra as outras, e tanto maior a
base para a consciência nacional entre os desenraizados. Portanto, no caso de movimentos
nacionais novos, o exílio era com frequência o principal local de incubação. Quando o futuro
presidente Masaryk assinou o acordo que viria a criar um Estado unindo tchecos e eslovacos
(Tchecoslováquia), ele o fez em Pittsburgh, pois a base de massas do nacionalismo organizado
eslovaco encontrava-se na Pensilvânia e não a Eslováquia.

O auxílio mútuo e a proteção aos emigrantes podem ter contribuído para o


crescimento do nacionalismo em suas nações, mas não são suficientes para explicá-lo. Todavia,
na medida em que repousava sobre uma ambígua nostalgia de duas faces pelos velhos
costumes deixados na velha pátria pelos emigrantes, ele possuía algo em comum com a força
que, sem dúvida, impelia o nacionalismo na terra natal, especialmente nas nações menores.
Era o neotradicionalismo, uma reação defensiva e conservadora contra a desintegração da
velha ordem social pela epidemia de modernidade que avançava, pelo capitalismo, pelas
cidades e pela indústria, sem esquecer o socialismo proletário, que era seu resultante lógico.

Para a maioria, porém, o nacionalismo não era o bastante. Isso, paradoxalmente, fica
mais claro precisamente nos movimentos de autodeterminação. Os movimentos que
receberam genuíno apoio de massas, em nossa época – e nem todos s que desejaram
realmente o conseguiram – foram, quase inevitavelmente, aqueles que combinavam a atração
da nacionalidade e da língua com algum interesse ou força mobilizadora mais poderosa, antiga
ou modera. A religião era uma delas. Sem a Igreja Católica, o movimento flamengo e o basco
teriam sido politicamente desprezíveis e ninguém duvida de que o catolicismo deu
consistência e força de massa ao nacionalismo dos irlandeses e poloneses, dirigidos por
governantes de outra religião.