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Jairo Gerbase

Jacques Lacan
Seminário 25 - O momento de concluir
1 - aula de 15/11/77 - a tagarelice
Texto estabelecido e traduzido por Jairo Gerbase em 29/02/00

O que tenho a dizer é que a psicanálise deve ser levada a sério embora não seja uma ciência. O
problema, como Karl Popper mostrou com insistência, é que ela não é absolutamente uma ciência
porque é irrefutável. É uma prática, uma prática que durará o que durar. É uma prática de tagarelice.
Nenhuma tagarelice é sem risco. Desde logo, a palavra tagarelice implica alguma coisa, o que quer
dizer que não há mais que frases, ou seja, proposições, que têm conseqüências, como as palavras.
Tagarelice coloca a fala na série de babar ou de praguejar, a reduz a uma espécie de enlameadura.
Isto não impede que a análise tenha conseqüências. Ela diz algo. O que quer dizer, dizer? Dizer
tem a ver com o tempo. A ausência de tempo é uma coisa com a qual se sonha, é o que se chama de
eternidade, e este sonho consiste em imaginar que despertamos. Passamos o tempo a sonhar, não
sonhamos apenas quando dormimos. O inconsciente é exatamente a hipótese de que não sonhamos
apenas quando dormimos.
Gostaria de observar que o que se chama de racionalidade é uma fantasia. Isto é totalmente
observável no começo da ciência. A geometria euclidiana tem todos os caracteres da fantasia. Uma
fantasia não é um sonho, é uma aspiração. A idéia da linha reta, por exemplo, é claramente uma
fantasia. Felizmente saímos disso, isto é, a topologia restituiu o que devemos chamar de trança. A idéia
de proximidade é simplesmente a idéia de consistência, na medida em que nos permitimos dar corpo à
palavra idéia. Isso não é fácil. Há mesmo filósofos gregos que tentaram dar corpo à idéia. Uma idéia
tem corpo, é a palavra que a representa, e a palavra tem uma propriedade muito curiosa, é que ela faz a
coisa [fait la chose]. Gostaria de equivocar e escrever assim: fende a coisa [fêle achose], o que não é um mau
modo de equivocar. Fazer uso da escrita para equivocar pode ser útil, porque temos necessidade do
equívoco, na análise. Ter necessidade do equívoco é a definição da análise, porque, como a palavra
indica, o equívoco aponta imediatamente para o sexo.
O sexo é um dizer. Isso vale quanto pesa. O sexo não define uma relação. Foi o que enunciei
com a fórmula: não há relação sexual. Isto apenas quer dizer que no homem e, sem dúvida, por causa
da existência do significante, o conjunto do que poderia ser a relação sexual, é um conjunto vazio [∅].
[Chegou-se a cogitar isso, aliás não se sabe muito bem como isso se produziu]. A noção de conjunto
vazio é a que convém à relação sexual.
O psicanalista é um retórico. Para continuar a equivocar, diria que ele retorica [rhétifie] o que
implica que ele retifica [rectifie]. Rectus, a palavra latina, equivoca com a retoricação [rhétification].
Tentamos dizer a verdade, mas não é fácil, porque há grandes obstáculos a que se diga, salvo quando
nos enganamos na escolha das palavras. A verdade tem a ver com o real, e o real é duplicado, se assim
podemos dizer, pelo simbólico.
Recebí de Michel Coonaert algo que se chama Knots and links. O que isso quer dizer? Não é
simples. É preciso metalinguar, isto é, traduzir. Jamais se fala de uma língua a não ser em uma outra
língua. Se disse que não há metalinguagem, foi para dizer que a linguagem não existe. Não há senão
suportes múltiplos da linguagem, que se chama de a língua, e o que se espera é que a análise, por uma
suposição, chegue a desfazer pela fala o que foi feito pela fala.
Na ordem do sonho, que se dá o direito de fazer uso da linguagem, há uma rebarba, que é o que
Freud chama de Wunsch. É uma palavra alemã que não se sabe se é um querer nem a quem se dirige.
Desde que se queira dizer, se está obrigado a supor que há um interlocutor, e a partir desse momento,
estamos na magia. Estamos obrigados a saber o que se demanda, mas justamente, o que define a
demanda é que não se demanda jamais senão porque se deseja, isto é, passando pelo que se deseja, e o
que se deseja não se sabe.
Foi exatamente por isso que coloquei em evidência o desejo do analista. O sujeito suposto
saber, com o qual defini a transferência é suposto saber o que? Como operar? Seria demasiado
excessivo dizer que o analista sabe como operar. O que se esperaria é que ele saiba operar
gerbase@svn.com..br
18/02/08
convenientemente, isto é, que se dê conta do alcance das palavras para seu analisante, o que
incontestavelmente ele ignora. De tal maneira que é preciso que eu trace [figura 1.a] o que introduzi sob
a forma do nó borromeano.

figura 1.a decomposição esquemática de Pierre Soury

figura 1.b decomposição esquemática de Pierre Soury

Alguém, que não é outro senão, é preciso que o nomeie, J.B., Jean-Baptiste Lefèvre-Pontalis,
concedeu uma entrevista ao Monde. Teria sido melhor que se abstivesse, pois o que ele disse não vale
nada, dado que disse que meu nó borromeano seria um modo de estrangular o mundo, de sufocá-lo.
Assim se desenha o nó, isto é, aqui se interrompe a corda, porque se projetam as coisas e isso
faz um nó. Lembro que uma vez Soury criticou alguém por ter feito este nó de modo atravessado. Não
sei mais como ele o fez efetivamente, mas digamos que temos aqui o direito [figura 1.a], pois o nó
borromeano tem por propriedade não nomear cada um dos círculos de um modo unívoco. No nó
borromeano [figura 2], pode-se designar cada um dos círculos pelo termo que se quer; é indiferente que
este seja chamado I, R ou S, na condição de não se abusar, isto é, de colocar todas as três letras; assim
teremos sempre o nó borromeano.

figura 2 decomposição esquemática de Pierre Soury

Suponhamos que aqui se designa distintamente o R e o S, ou seja, o Real e o Simbólico, fica


restando o terceiro que é o Imaginário. Se atássemos, tal como aqui está representado, o simbólico com
o real, seria o ideal, porque as palavras fazem acoisa [l'achose] acoisa freudiana, a escarcoisa
[crachose]freudiana, quer dizer, que é justamente com a inadequação das palavras às coisas que temos a
ver, e o que chamei de acoisa freudiana era que as palavras se moldam às coisas, embora seja um fato
que isso não é evidente, que não há nem escarro [crachin], nem escarcoisa, e que a adequação do

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simbólico não faz as coisas a não ser fantasticamente. De modo que, o laço, o anel do simbólico com o
real ou do real com o simbólico não se sustenta, ou seja, que é muito fácil se aperceber que na condição
de flexibilizar a corda do imaginário, o que sucede é exatamente isso, que uma vez passando pelo
simbólico o imaginário não se sustenta, como se pode notar claramente que ele aqui, seja como for,
passa sob o simbólico [figura 1.b]. Notem que aqui ele está livre, isto é, o imaginário sugerido pelo
simbólico se libera.
É exatamente assim que a história da escrita chega a sugerir que não há relação sexual. A análise,
no caso, se consome a si mesmo, ou seja, se fazemos uma abstração sobre a análise, a anulamos. Se
notássemos que não falamos senão aparentemente, ou de parentesco, nos viria a idéia de falar de outra
coisa e exatamente por isso a análise fracassaria, mas é um fato que cada um só fala disso.
A neurose é natural? Ela não é natural, a não ser, na medida em que, em um homem, há um
simbólico, e o fato de que haja um simbólico implica em que um significante novo emerja, um
significante novo ao qual o eu, isto é, a consciência se identificaria. Mas, o que há de próprio ao
significante que chamei pelo nome de S1, é que não há senão uma relação que o defina, a relação que ele
tem com S2:

S1 → S2

É na medida em que o sujeito está dividido entre esse S1 e esse S2, que ele se suporta, de modo
que não se pode dizer que seja um único dos dois significantes que o representa.
A neurose é natural? Seria preciso definir a natureza da natureza. Que pode ser dito da natureza
da natureza? Nada mais que isto: que há alguma coisa que imaginamos que possamos dar conta por
intermédio do orgânico, isto é, pelo fato de que hajam seres vivos. Mas, que hajam seres vivos, não só
não é óbvio como é preciso lucubrar toda uma gênese, ou seja, o que se tem chamado de genes,
seguramente quer dizer alguma coisa, mas isso não é mais que um querer dizer. Não temos, de modo
nenhum, certeza se esse jorro da linhagem é evolução ou criação. A elucubração criacionista não é
melhor que a elucubração evolucionista, porque, de qualquer modo, isso não é mais que uma hipótese.
A lógica se suporta de pouca coisa. Se não acreditamos, de um modo, em suma, gratuito, que as
palavras fazem as coisas, a lógica não tem razão de ser. O que chamei de o retórico que há na análise,
trata-se do analista, não opera senão por sugestão. Ele sugere, isso é próprio do retórico, ele não impõe
de modo algum qualquer coisa que teria consistência, e foi por isso mesmo que designei de Ex-, o que
não se suporta a não ser do que ex-siste.
Como é preciso que o analista opere para ser um retórico conveniente? É aí que chegamos a
uma ambigüidade. O inconsciente, diz-se, não conhece a contradição, e é exatamente por isso que é
preciso que o analista opere por intermédio de alguma coisa que não se baseie na contradição. Ele não
diz que o de que se trata seja verdadeiro ou falso. O que se torna verdadeiro ou falso depende do que se
chama o peso do analista e é nisso que digo que ele é retórico.
A hipótese de que o inconsciente seja uma extrapolação não é absurda e foi por isso que Freud
recorreu ao que se chama a pulsão. A pulsão é alguma coisa que não se sustenta senão ao ser nomeada
e de um modo tal que a puxa, se assim posso dizer, pelos cabelos, isto é, que pressupõe que toda pulsão
é sexual, em virtude de alguma coisa que se pensa existir na criança. Mas, nada indica que alguma coisa
merece ser chamada de pulsão com esta inflexão que a reduz a ser sexual.
O que no sexual importa é o cômico. É quando um homem é mulher que ele ama, isto é, no
momento em que ele aspira por algo que é seu objeto. Em compensação, é a título de homem que ele
deseja, isto é, que se sustenta de alguma coisa que se chama propriamente de ter uma ereção [bander].
A vida não é trágica, ela é cômica, e é no entanto muito curioso que, para designar isto, Freud
não tenha encontrado nada melhor que o complexo de Édipo, isto é, uma tragédia. Não se entende
porque ele não tomou um caminho mais curto, que seria o de designar isso por intermédio de uma
comédia, isso que joga nessa relação que liga o simbólico, o imaginário e o real.
Para que o imaginário se esfole [s’exfolie] temos de reduzi-lo à fantasia. O importante é que a
própria ciência não é mais que uma fantasia e a idéia de um despertar é, para falar propriamente,
impensável.

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