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C a r t a e n v i a d a d a c i d a d e d e S a l v a d o r 1

P J o ã o

e .

d e

A z p i l c u e t a

N a v a r r o 2

 

A i r m ã o s

o s

d a

C o m p a n h i a

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J e s u s

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C o i m b r a

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N ó b r e g a .

p o r q u e

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m e s e s m e

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P o r t o e m

c a r í s s i m o s ,

S e g u r o , e n s i n a r m e

q u e

d e

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d e r r a d e i r a o n d e

m e m e n i n o s

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S e n h o r ,

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D

p a r a a o s

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p r e s e n t e i s s o .

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e n g a n o s

f e i t i c e i r o s

d a r c a s a

n o s

i m p e d i r . q u a t r o

C o m e ç a m a p r e n d e n d o

f i l h o s ,

q u e

o r d e n a m o s

Dali também ia visitar algumas aldeias ao derredor. Uma vez me ia afogando em um rio 3 no qual há pouco tempo se afogou um frade de Santo Antônio

1 x t r a í d o d e P r i m e i r a s C a r t a s d o B r a s i l ( 1 5 5 1 - 1 5 5 5 ) : i n t r o d u ç ã o e

E

n

o t a s

d e

S h e i l a

M o u r a

H u e ,

R i o

d e

J a n e i r o ,

Z a h a r ,

2 0 0 6 ,

p p .

7 7 - 85.

2 J o ã o

d e

A z p i l c u e t a

N a v a r r o

( N a v a r r

a ,

c i .

1 5 2 2

B a h i a ,

1 5 5 7 )

c h e g o u

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o

B r a s i l

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p r i m e i r a

m i s s ã o

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F o i

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q u e

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P o s t e r i o r m e n t e ,

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m e s m o

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p a r a

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t e r r a

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e r a ,

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s e u s

c o l e g a s ,

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1 5 5 3 ,

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p a d r e

N a v a r r o

f e z

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d a

p r i m e i r a

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n o s

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d e

M i n a s

G e r a i s .

 

3 R i o

d o s

F r a d e s ,

n o

m u n i c í p i o

 

d e

P o r t o

s e g u r o ,

q u e

d e s e m b o c a

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T r a n c o s o ,

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p r a i a

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j

u s t a m e n t e

p o r

c a u s a

d o

a f o g a m e n t o

d o

f r a d e

a q u i

c i t a d o .

 

que ia desta mesma capitania pregar no sertão. Passei grande perigo, por ser o rio mui corrente e enganoso de passar. Outra vez íamos eu e Vicente Rodrigues, e levávamos em nossa companhia um língua 4 , e fomos a umas aldeias distantes que ainda não tínhamos visitado. No caminho passamos grande trabalho e perigo por nos ser necessário algumas vezes andar à noite e por matos, porque aqui não há os caminhos de Portugal, e há neles muitas onças e outras feras. Assim, chegamos a uma aldeia onde achamos os gentios todos embriagados, porque aqui têm uma maneira de vinho de raízes que embriaga muito, e quando eles estã o assim bêbados ficam tão brutos e feros que não perdoam a nenhuma pessoa, e, quando não podem mais, põem fogo na casa onde estão os estrangeiros. Com tudo isto, porque chovia muito e íamos mui molhados, nos recolhemos em outra casa para nos enxugar, e daí a pouco vieram com grande fúria, com espadas e outras armas contra nós, mas valeu-nos o língua ser bom, que com boas razões os amansou. E porque Deus ainda não era servido, em amanhecendo, vendo que aquela gente não tinha discrição 5 para vir tão cedo ao conhecimento da fé, nem estava disposta a isto, partimos para outra onde estava um principal dela determinado com toda gente a comer quantos brancos ali viessem a aportar. Contudo, pela misericórdia do Senhor, nos recebeu bem, nos ouviu pelo língua a doutrina cristã, e mostravam ele e todos os demais folgar muito em ouvi-la, mas não ousaram dizê-la por um feiticeiro os persuadir que com aquelas palavras lhes dávamos a morte, e que se o dissessem com suas bocas logo morreriam. Daqueles ministros sói usar o de mônio, temendo ser aqui desterrado, como penso que o vai barruntado. 6

Assim andamos por outras aldeias não sem pouco trabalho e desconsolo por ver tão pouco conhecimento de Deus e gente tão indisposta e incapaz para receber a fé, ainda que com sua rudeza mostrem folgar em ouvi-la e desejos de recebe-la. Também passamos muito perigo em outras partes, assim pelas feras por caminharmos algumas vezes de noite porque de dia por alguns lugares é muito perigoso, acertou-se que eu ficasse atrás uma noite, e a mai or parte andei sozinho, e o língua e Vicente Rodrigues me davam como morto, se não fora por o língua tornar atrás para buscar-me, em grande perigo me veria como também pelos gentios que são mui inclinados a comer carne humana. Contudo, trouxe -nos o Senhor salvos por este caminho, ainda que cansados e magros, mui consolados pelos trabalhos pelo Senhor recebidos.

Dali também íamos às aldeias batizar alguns que estavam para matar e comer, trazendo-os primeiro segundo podia compreender sua capacidade ao conhecimento de nossa santa fé, e concedendo o batismo. Este mal de comerem -se uns aos outros anda mui danado entre eles, e tanto é que há poucos dias falaram a ou ou dois que tinham a engordar para isso se queriam que os resgatassem, e eles dizia que não os vendessem, porque cumpria à sua honra passar por tal morte como valentes capitães. Eles não comem uns aos outros senão por vingança 7 . Tem o demônio muito domínio sobre eles, o qual dizem que algumas vezes lhes aparece

4 I n t é r p r e t e .

5 d e

C a p a c i d a d e

d i s c e r n i r ;

d i s c e r n i m e n t o .

6 s u s p e i t a r ,

B a r r u n t a r :

d e s c o n f i a r ,

c o n j e c t u r a r .

7

D e

f a t o ,

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p o v o s

t u p i s

r e g i a m - s e

p o r

d u a s

l i n h a s

d e

f o r ç a :

g u e r r a

e

visivelmente e lhes bate e os atormenta outras vezes, asperamente. Nosso Senhor os livre de suas mãos.

Nesta capitania encontrei um homem de boa índole, antigo na terra, e que tinha o dom de escrever a língua dos índios , que foi para mim grande consolação, e assim o mais do tempo gastava em dar sermões do velho e novo testamento, mandamentos, pecados mortais e obras de misericórdia, com os artigos da fé, para que os tornasse à língua. Tudo mandarei na primeira embarcação.

Daí fui para a Bahia de Todos os Santos, por ter sido chamado pelo pe. Nóbrega, onde ao presente estou. Alguns dias depois de chegado, ele e eu fomo

s a uma aldeia dos gentios, e procuramos que se juntassem todos, e depois de juntos

lhes fizemos uma prática através de um língua e, quando terminada, lhes ensinamos

a doutrina cristã; o pe. Nóbrega me deu possessão dessa aldeia, para tê -la a meu

cargo. E querendo nos despedir deles, fi -los primeiro benzer-se, e vendo as pedras preciosas que traziam nos beiços e no rosto lhes disse, como rindo, que os estorvam persignar-se, o que eles tomaram a sério, e, sendo de muito valor, jogaram -nas onde nunca mais apareceram, o que muito me consolou. E daí em diante continuei por muito tempo a visita-los, até que um cristão mandou aí fazer uma casa para que nela lhes ensinassem, a qual o pe 8 . entregou ao irmão Vicente para que continuasse a doutrina, e assim nela ensinava, dormia e comia com muita edificação e proveito para os índios.

No dia do Anjo 9 determinou-se que se batizassem muitos, assim homens como mulheres, e quase nos faltavam nomes de santos para dar a cada um o seu. Entre eles batizamos um feiticeiro muito velho e lhe colocamos o nome de Amaro. E assim ordenamos fazer uma procissão com todos juntos, os mais novos pusemos na dianteira, que seriam vinte e cinco, e logo os homens, e as mulheres na traseira, e um menino deles com uma cruz. E assim fomos todos rezando pelo caminho em voz alta o Pater noster, até a cidade.eu ia com os dianteiros, o irmão Vicente com os de trás. De muita edificação isto foi na cidade, e aos demais fez muita devoção, ficando os índios mais firmes e com grandes desejos de ser bons cristãos. Com razão trouxe Deus a isto pelas obras boas que sempre fizeram aos cristãos.

Depois disto, com licença do pe. Nóbrega, fui a outra aldeia, de cento

e cinquenta fogos, 10 e fiz ajuntar os mais moços e lhes fiz a doutrina em sua própria língua, 11 achei alguns aqui mui hábeis e com tal capacidade que bem ensinados e doutrinados podiam fazer muito fruto na gentilidade, para o que temos muita

8

O

p e .

N ó b r e g a .

9 d o

D i a

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c u s t ó d i o

d e

P o r t u g a l ,

t e r c e i r o

d o m i n g o

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j u l h o .

10 m o r a d i a s .

1 5 0

 

11 S e

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P o r t o

S e g u r o

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p e .

N a v a r r o

a i n d a

p r e c i s a v a

 

d o

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d e

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p o u c o

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B a h i a ,

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í n d i o s .

F o i

 

o

p r i m e i r o ,

t

a m b é m ,

a

c o n f e s s a r

s e m

i n t é r p r e t e .

 

necessidade de um colégio nesta Bahia para ensinar os filhos dos índios, já temos alguns, e mais nos dariam se tivéssemos possibilidade de recolhê -los e de sustenta- los, o que, por ser a terra recentemente povoada, ainda não se pode fazer. Está na mão de el rei nosso senhor leva-lo ao cabo e ajudar-nos para que o terminemos, porque já o temos começado e sem sua ajuda parece impossível acaba-lo, e muito mais folgaríamos que ele próprio o mandasse fazer para ficarmos mais livres e desocupados para o espiritual. 12 Este colégio será bom não somente para recolher os filhos dos gentios e dos cristãos, para os ensinar e doutrinar, mas também para a paz e o sossego da terra e proveito da república. Nosso senhor o ordene como for mais a seu serviço e proveito das almas.

Depois de algo introduzidos os desta aldeia na fé, passe i adiante, a outra, e, chegando, me disseram que então haviam acabado de matar uma moça, e

mostraram-me a casa e, entrando nela, percebi que a estavam cozendo para comê-la;

a cabeça estava pendurada em um pau. Comecei-lhes a estranhar e enfear o caso, tão

abominável e contra a natureza. Respondeu-me um deles que, se eu continuasse a falar, outro tanto nos faria, eu não o entendi, senão o língua que levava comigo, ao

qual insisti que falasse o que eu lhe dissesse, mas nunca ousou dizer palavra, e ntão, quando vi aquilo, comecei-lhes a falar do que sabia, e ao final ficaram nossos amigos e nos deram de comer, e depois fui a outras casas, nas quais achei pés, mãos

e cabeças de homens no fumo. Aos donos dessas casas também enfeei muito aquilo e

os persuadi que aborrecessem 13 tão grande mal. Depois nos disseram que todos enterraram as carnes, até a moça que estava sendo cozida, e parece-me que algum

tanto se emendaram, ao menos não vemos mais ao descoberto tais coisas.

Nisto e em coisas semelhantes do serviço de Deus e proveito das almas me ocupava enquanto o pe. Nóbrega aqui esteve, e depois que daqui partiu para Pernambuco, 14 o mesmo que ficou com o ofício dele encomendado. De maneira que quando aqui estou nesta cidade de Salvador, acudo às necessidades espirituais

dos cristãos, que nunca faltam, e daqui acorro às aldeias dos gentios que há ao redor

a

ensinar-lhes a doutrina cristã e fazer cristãos os que estiverem aptos para receber

o

sacramento do batismo.

Depois de o pe. Nóbrega ter partido daqui, me aconteceu, há alguns dias, resgatar um moço e tirá-lo das mãos dos gentios que já estavam para o dividir em pedaços e comer; é muito bonito, dei-lhe o nome de nosso irmão Antônio Criminal 15 que em serviço do Senhor foi morto na Índia, ele na glória queira ser intercessor com Deus para que esta alma se salve e de nós tenha especial memória. E, estando escrevendo esta, um índio me veio buscar, com sua mulher e fi lhos, para que os batizasse, que queriam ser cristãos, mas adiei-lhes o sacramento até serem

12

N o

e n t a n t o ,

f o r a m

o s

p r ó p r i o s

j e s u í t a s

q u e

c o n s t r u í r a m

o

c o l é g i o

d a

B

a h i a .

13 a f a s t a r - s e ,

A

b o r r e c e r :

d i s t a n c i a r - s e .

 

14 ó b r e g a

N

p a r t i u

d a

B a h i a

p a r a

P e r n a m b u c o

n o

d i a

1 6

d e

j u l h o

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1 5 1 ,

t e n d o

c h e g a d o

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d e s t i n o

n o

d i a

2 6

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m e s m o

m ê s .

 

15 p a d r e

O

A n t ô n i o

C r i m i n a l ,

m o r t o

p e l o s

b a d a g a r e s

n a

Í n d i a ,

e m

1 5 4 9 .

E

ra

c o n s i d e r a d o

m á r t i r

p e l o s

m i s s i o n á r i o s

d a

C o m p a n h i a .

 

ensinados na nossa fé. Assim uso com todos, salvo em perigo de morte, tanto por ser necessário serem primeiro instruídos nela como por outras razões , que mais ou menos já devem saber por outras cartas que vos escrevi.

Cristo Nosso Senhor escreva Sua santa vontade em nossos corações para que nesta vida somente a cumpramos.