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A FOTOGRAFIA AÉREA E À ARQUEOLOGIA 2010/11

CAPITULO 1

INTRODUÇÃO

BREVE RESENHA HISTÓRICA SOBRE OS PRIMORDIOS DA FOTOGRAFIA


AÉREA

É sabido que o desenvolvimento da fotografia aérea se baseia no desenvolvimento do balonismo


militar, da fotografia propriamente dita, e mais tarde no nascimento da aviação militar já no sec. xx.

Já tinham sido feitas experiências no campo da fotografia com processos ópticos e químicos
antes do sec. IXX, no entanto é a invenção de Louis Daguerre (com a ajuda de Nicéphore Niepce)
que em 1839 marcou o maior avanço no desenvolvimento da fotografia (negativo de Daguerre ou
“Daguerre type”).

Um novo estágio foi alcançado, quando em 1851 o negativo em vidro húmido se tornou sensível
à luz, o que reduziu o tempo de exposição para apenas 2 segundos, mas implicava e existência de
uma câmara escura portátil para uma revelação imediata do negativo.

A primeira fotografia aérea é atribuída a Gaspard Félix Tournachon, que em Outubro de 1858
utilizou um balão de ar quente para tirar uma fotografia à capital Francesa. Infelizmente estas fotos
não sobreviveram ao passar do tempo e actualmente a mais antiga fotografia ainda existente,
documenta Boston e data de 1860.

Em 1871 é atingida uma nova meta na história da fotografia com a invenção do negativo seco
por Richard Maddox, consistindo em placas de vidro revestidas por uma emulsão gelatinosa
composta por diferentes químicos. Estas placas fotográficas eram muito mais sensíveis à luz e
permitiam um tempo de exposição de menos de um segundo. Adicionalmente estas placas podiam
ser reveladas muito mais tarde, não sendo necessário ter presente uma câmara escura portátil.

Devido a estas duas razões a fotografia aérea podia agora começar a ser explorada em larga
escala. É a partir deste ponto que balões e dirigíveis são constantemente utilizados como
plataformas de câmaras de fotografia aérea.

Mas foram os eventos de 17 de Dezembro de 1903 que influenciaram profundamente a história


quer da aviação quer da fotografia aérea. Nesse dia os irmãos Wright fizeram o primeiro voo em
avião a motor, voo esse que durou apenas 12 segundos mas que abriu as portas à aviação moderna.

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É também atribuída a Wilbur Wright a primeira fotografia aérea tirada em avião em 1909,
fotografia essa tirada sobre Itália. A partir desse momento uma nova plataforma fotográfica aérea
seria explorada em todas as suas vertentes sendo então massivamente utilizada durante a primeira
guerra mundial.

A primeira fotografia aérea efectuada em Inglaterra com fins exclusivamente arqueológicos, foi
tirada a Stonehenge pelo Tenente P. H. Sharpe em 1906 utilizando um balão como plataforma
fotográfica, (Deuel 1969). Estas fotos revelam-se importantes porque mostram marcas nos campos
cultivados que culminaram na altura em novas descobertas arqueológicas.

No entanto noutras partes da Europa a fotografia aérea já tende a caminhar nesta direcção. Em
Itália muitos monumentos e sítios arqueológicos foram fotografados no período de 1899-1911 sobre
a direcção de Giacomo Boni.

A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Logo no início da Primeira Grande Guerra, em Agosto de 1914, a esperada guerra de


movimentos estratégicos, rapidamente mudou para uma guerra posicional nas trincheiras
implicando grande número de voos de reconhecimento sendo a fotografia aérea a principal “arma”
utilizada neste campo. A primeira guerra mundial torna-se uma regra chave no desenvolvimento
futuro da fotografia aérea e no aproveitamento da sua aplicação na arqueologia.

A importância da fotografia aérea aplicada a este campo era na altura muito pouco relevante,
mas num dos importantes trabalhos sobre arqueologia aérea “Aerial Archaeology in Britain” (Riley
1996), Derrick Riley diz:

“O início da fotografia aérea arqueológica advém do resultado do ímpeto


dado à aviação durante a primeira grande guerra, e ao crescimento do
número de voos efectuados na altura. Os arqueólogos eram poucos na época,
mas entre eles havia um que tinha sido observador na “Royal Flying Corps”,
O. G. S. Crawford e que se tornou no mais importante pioneiro da fotografia
aérea” (Riley 1996).

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Poder-se-á dizer que o início da fotografia aérea arqueológica foi o resultado do ímpeto dado
à aviação em consequência da primeira guerra mundial e ao grande número de voos efectuados
durante este conflito. Independentemente do grande desenvolvimento do avião da câmara fotográfica
e das técnicas utilizadas nas películas no virar do sec. IXX.

Fig. 1-1: Exemplo de fotografia aérea para fins militares tirada sobre Oosttaveern Wood 1917
(Fonte: Flanders Fields Museum).

OUTROS TEATROS DE GUERRA DA ÉPOCA

Noutros teatros de guerra algumas descobertas arqueológicas importantes foram feitas por
iniciativa dos Franceses, Britânicos e Alemães. Na época uma importante descoberta feita através da
fotografia aérea é atribuída ao alemão Carl Schuchhardt, com fotos das linhas Romanas de Dobrujda
(Roménia) em 1918.

Theodor Wiegand é de entre todos os pioneiros neste campo, bem conhecido pela criação do
“DEUTSCH-TURKISCHEN DENKMALSCHUTZKAMMANDO” (Departamento para a protecção

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de monumentos). Este departamento, que na realidade era uma unidade que fazia parte do exército
Turco baseou todo o seu trabalho na fotografia aérea de sítios arqueológicos, situados
maioritariamente no deserto do Negev, fotografias essas, fornecidas pelo piloto e fotógrafo alemão,
Tenente Falke.

As fotografias aéreas obtidas pelos Ingleses e feitas por G. A. Beazeley, de sítios da


Mesopotâmia tinham uma qualidade superior devido à baixa incidência da artilharia antiaérea ao
contrário do que se passava na frente Oeste.

A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Não há grande dúvida que foi a segunda guerra mundial que providenciou o estímulo para o
desenvolvimento da fotografia aérea de observação. Durante os quatro anos de duração deste
conflito e devido as exigências da guerra, a aviação sofreu um desenvolvimento que se pode
classificar de vertiginoso, assim como as técnicas de reconhecimento aéreo que paralelamente
acompanharam este avanço consequente das necessidades do presente.

A recente história da fotografia aérea pode ser sumariamente referida como sendo a génese
entre a observação aérea militar, (“ver para lá da colina”), o nascimento da fotografia e a
invenção do avião.

Retrospectivamente nota-se a forte associação das campanhas militares e o consequente


progresso da arqueologia aérea.

O INICIO DA OBSERVAÇÃO AÉREA COM FINS ARQUEOLÓGICOS

Num curto período após a Segunda Grande Guerra, o método da fotografia aérea tornou-se
estável, e muitas iniciativas, principalmente no Reino Unido, foram iniciadas. Entre eles o mais
relevante é a observação aérea da Universidade de Cambridge levada a cabo por parte da Royal
Commission on the Historical Monuments of England.

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PORQUÊ O USO DE FOTOGRAFIAS AÉREAS HISTÓRICAS?

È legitimo perguntar, porque nos devemos concentrar no uso da fotografia aérea para fins
arqueológicos? A resposta é simples. As imagens aéreas históricas contêm grande quantidade de
informação que pode ser aplicada em diferentes campos. Estas fotos são uma grande fonte de
informação para a prospecção arqueológica. Não sendo a maioria delas tiradas com fins destinados a
prospecção arqueológica, podemos no entanto detectar marcas no solo ou nas culturas que nos
podem guiar à descoberta de muitos novos sítios.

A maioria destas fotos foi tirada antes da grande expansão das vilas e das cidades e da
implementação da agricultura intensiva. Como resultado é possível fazer um levantamento de sítios
arqueológicos que consequentemente estarão actualmente completamente destruídos. Estas fotos são
também uma excelente fonte de informação para o estudo do desenvolvimento paisagístico, quer
urbano quer rural na Europa.

PORQUÊ O USO DE FOTOGRAFIAS AÉREAS MILITARES HISTÓRICAS?

O uso de fotografias históricas que foram tiradas com fins militares dão-nos as mesmas
vantagens que as que referimos no assunto anterior. Mas se olharmos para as fotos aéreas da
Segunda Guerra Mundial, podemos encontrar literalmente centenas de milhares de fotografias em
diferentes colecções espalhadas pelo mundo inteiro e cuja qualidade é superior às restantes, devido
as avançadas técnicas utilizadas pelos militares.

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Fig.2-1: Exemplo de fotografia aérea tirada durante a Segunda Guerra Mundial sobre Poperinge.
(Pode-se notar a grande diferença de qualidade em relação à fig. anterior.

Pela primeira vez na história da Europa uma batalha tinha sido travada a uma escala industrial.
Ao mesmo nível foram tiradas fotografias aéreas ao longo das várias linhas de frente, criando assim
uma quase completa cobertura de fotografia aérea. Estes factos permitem estudar estas paisagens em
grande pormenor.

Recorrendo ao uso de tecnologia fotogramétrica moderna é já possível “reconstruir” estas


paisagens em 3D.

Se observarmos algumas das fotos aéreas obliquas recentemente tiradas de alguns destes locais
de conflito podemos reconhecer os traços bem visíveis “marcas na agricultura” de sistemas de

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trincheiras em Lichtervelde, Bélgica (Fig. 3-1) ou de uma trincheira nas dunas da costa Belga (Fig.4-
1).

Fig. 3-1: Sistemas de trincheiras em Lichtervelde, Bélgica.

Fig. 4-1: Trincheira nas dunas da costa Belga.

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A fotografia aérea tem sido em larga escala uma fonte inestimável de pesquisa não invasiva na
Europa durante quase um século. O grande número de fotografias tiradas durante e imediatamente
após o final da Segunda Guerra Mundial são só por si um valioso recurso e desde então, começaram
a aparecer os chamados “arqueólogos voadores” tripulando aeronave ligeira e até mesmo
helicópteros. Eles voavam à procura quer de novas ruínas quer de marcas na agricultura que os
levasse à descoberta de novos sítios arqueológicos.

As horas e as estações do ano em que se fazem este tipo de voos depende das
características daquilo que se pretende pesquisar. As marcas na agricultura (crop marks) que são
mais visíveis durante o crescimento das sementeiras. Estruturas arquitectónicas ainda de pé que
requerem fotos tiradas durante a hora do dia em que o sol se encontra com uma inclinação em
relação à linha do horizonte ao ponto de provocar sombra no terreno, consequente das pequenas
deformações do terreno.

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CAPITULO – 2

A FOTOGRAFIA AÉREA CONTEMPORÂNEA

Poder-se-ão considerar dois tipos de fotografia aérea como sendo os principais e os de


maior utilização, os quais designaremos de verticais e oblíquos.

IMAGENS VERTICAIS

Estas são frequentemente tiradas com uma máquina fotográfica fixa montada num avião de
pesquisa aérea, militar ou civil. A aeronave voará a uma altura fixa de maneira a tirar fotos à
vertical do terreno (inclinação inferior a 4º) produzindo fotografias a uma certa escala (normalmente
1:10.000 e 1:25.000 mas também poderão ser de 1:30.000 e 1:50.000).

Verticais Estereoscópicas

Uma das características dos seres humanos, entre outros, é terem a possibilidade de ver aquilo
que os rodeia em três dimensões. A terceira dimensão ou percepção de profundidade, resulta do
facto de se captarem imagens do mesmo objecto, simultaneamente de dois ângulos diferentes. De
facto, através dos nossos dois olhos, captam-se duas imagens ligeiramente diferentes de cada
objecto e essas imagens fundem-se no cérebro numa imagem tridimensional.

A partir de duas imagens sucessivas do mesmo local, recolhidas a partir de pontos diferentes,
com cerca de 60% de sobreposição longitudinal entre si, obtém-se aquilo a que se chama de
estereopar. Quando observadas simultaneamente, e cada uma por um dos olhos do observador,
geram paralaxe estereoscópica que transmite a noção de profundidade (3D) entre pontos de
observação e proporciona a percepção das três dimensões do terreno (relevo), quando visto através
de um estereoscópio, permitindo deste modo fazer observações rigorosas.

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(Estereoscópios são instrumentos ópticos que tornam possível a visão tridimensional das
fotografias aéreas).

Fig. 1-2: Estereoscópio


Fig. 2-2: Estereopar em software para
foto interpretação

Requisitos para visão estereoscópica:

A fim de se conseguir tirar partido da visão estereoscópica é necessário cumprir certas

condicionantes nas imagens observadas. Assim, consideram-se como requisitos para a

visão estereoscópica:

 O estereopar tem de ter a mesma escala;

 O eixo óptico da câmara, no decorrer dos disparos sucessivos, tem de estar no

mesmo plano vertical e ser perpendicular ao plano horizontal de referência do

terreno.

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Fig. 3-2: Exemplo de fotografia vertical simples que mostra uma escombreira de remoção
clandestina de materiais arqueológicos romanos na Quinta da Torre D’aires

IMAGENS OBLÍQUAS

Esta é a forma mais comum de fotografar estruturas arqueológicas e onde a máquina fotográfica
não está fixa. Dependendo do grau de inclinação do eixo óptico, pode obter-se uma perspectiva, ou
seja, uma visão panorâmica do terreno. Esta perspectiva apresenta-nos os objectos de uma forma
mais familiar dado que a nossa visão do mundo é em perspectiva, facilitando assim a sua análise.
Isto resulta numa foto angular tirada a um dado local, é tirada a uma menor altitude e este tipo de
foto produz uma maior detalhe do que na vertical. Este tipo de imagens tem o inconveniente de não
permitir distinguir bem as periferias e carecem de uniformidade de escala. A sua utilização é mais
adequada em aprofundamento de estudos em locais já conhecidos do que na identificação de novos
elementos. Elas não permitem visão estereoscópica e empregam-se como complemento das imagens
verticais anteriormente referidas.

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Fig. 4-2: Exemplo de fotografia obliqua que neste caso mostra a destruição sistemática de solo
arqueológico na Quinta da torre D’aires (Hipotético local da localização da cidade romana de
Balsa).

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CAPITULO 3

A FOTO INTERPRETAÇÃO E A ARQUEOLOGIA

A FOTO INTERPRETAÇÃO

A foto interpretação (analise e interpretação de fotografias), é uma ferramenta que nos ajuda a
examinar as imagens fotográficas do terreno com propósitos diversos, aqui são analisados algumas
das possibilidades de aliar a fotografia aérea à arqueologia. Já foi amplamente demonstrada a
grande utilidade que a fotografia aérea tem para a prospecção arqueológica, mas toda a informação
que é registado no papel fotográfico necessita de ser entendida, para se poder analisar da existência
ou não de sinais no terreno que nos levara a novas descobertas cientificas.

Pode então definir o conceito de foto interpretação como sendo, o acto de examinar imagens
com o fim de identificar objectos, áreas ou fenómenos e ajuizar do seu significado.

As possibilidades de predição de sítios que nos proporciona a interpretação de fotografias aéreas


é uma das características que lhe confere o valor que tem como auxiliar da ciência e pratica
profissional arqueológica.

ELEMENTOS A TER EM CONSIDERAÇÃO AQUANDO DA ELABORAÇÃO DE


UMA FOTOCARTA COM FINS ARQUEOLÓGICOS.

Uma vez delimitada a área de estudo, e antes de proceder a interpretação da fotografia aérea
será oportuno realizar uma investigação bibliográfica das características geológicas e
geomorfológicas da região, assim como fazer uma investigação histórica arqueológica da mesma.
Pois será extremamente importante obter toda a informação possível referente as ocupações
populacionais contemporâneas e passadas, assim como dos sistemas de mobilidade utilizados, das
condições climatéricas, da fauna, da flora, etc.

Ao fim de realizar estes estudos prévios, necessários e essenciais, deve-se passar então ao
estudo concreto de interpretação da fotografia aérea para elaboração da foto carta com fins
arqueológicos. Nesta altura deve-se proceder ao relacionamento de pontos de “mapeamento” das

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fotos relacionando-os directamente com a carta topográfica da região de preferência 1:25.000,


utilizando para este fim as características geofísica do terreno associando os possíveis significados
arqueológicos que cada unidade de interpretação possa ter.

Marcas na agricultura

“Marcas na agricultura” (crop marks) pode ser definido como sendo, a detecção de sinais no
terreno que nos poderá levar à descoberta de infra-estruturas soterrados que não estando visíveis,
implicam alterações de crescimento na vegetação de um dado local. Ou seja, a camada arqueológica
do subsolo causa variações no crescimento das culturas, devido à variação na retenção da humidade
no solo. Antigas valas ou muros soterrados causam uma observável diferença no crescimento e na
cor da vegetação e é mais claramente visível em grandes e homogéneas áreas de cultura.

Nesta foto poderemos detectar um circulo bem impresso no


terreno que demonstra a existência de uma zona circular rica em
nutrientes e humidade e que vai implicar um mais rápido
crescimento da vegetação, (marca de agricultura positiva), ou seja
demonstra a existência de uma antiga vala soterrada, enquanto
muros, estradas ou estruturas mais compactas não conseguem reter
a humidade implicando um crescimento mais lento das culturas aí
semeadas, (marca de agricultura negativa).

O período de visibilidade destas marcas é geralmente de curta


duração, dependendo do tipo de cultura e é mais visível durante o pico do verão (entre Julho e
Agosto).
VALA

MURO OU
PAREDE

Fig. 1-2: Exemplo da diferença de crescimento num campo cultivado

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VALA MURO OU
PAREDE
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Marcas de seca no terreno

Como sugere o nome, “marcas de seca” aparecem durante os períodos de maior calor ou de falta
de precipitação prolongada. Terá de ser o arqueologia a determinar o grau de seca do terreno e a
interpretar a sua morfologia tendo em conta as áreas mais compactas do subsolo que são as que
retêm menor quantidade de humidade, tais como muros, estradas, etc. É possível ver estas marcas
claramente em áreas relvadas como também em áreas cultivadas, entretanto a janela de
oportunidade para ver e identificar estes locais é só durante um período de tempo particularmente
quente.

Sítios de baixo perfil

Um sítio com estruturas que tenham um baixo perfil em relação ao terreno poderá ser facilmente
visível no chão, no entanto pode ser imperceptível através de fotografia aérea, com o solo a
apresentar altos na sua superfície como único sinal de estruturas enterradas. Este tipo de estruturas
normalmente só sobreviverão em áreas que não estiveram sujeito a cultivo, onde são utilizados
regularmente arados e niveladoras. Assim, locais de planalto, terrenos apenas utilizados para o
pastoreio, baldios etc., serão os locais mais indicados para utilizar este tipo de prospecção.

Estes locais não são de fácil detecção através de fotos verticais devido ao ângulo de incidência da
objectiva que não permite ver o ligeiro relevo do terreno.

A luz clara é essencial para melhor se detectar este tipo de sítios. A luz límpida e clara das
manhãs e no Inverno do fim da tarde aplicam ao terreno contrastes de sombra e luz, que facilitam
grandemente a detecção deste tipo de estruturas.

Fortificações, aldeias medievais desertas sulco, limites de aldeamentos são exemplos de


monumentos que ficam mais nítidos depois deste tipo de fotografia aérea.

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A FOTO INTERPRETAÇÃO E A ELABORAÇÃO DE CARTAS


ARQUEOLÓGICAS

A palavra TELEDETECÇÃO é a tradução para português da expressão inglesa remote sensing,


expressão essa com origem nos anos 60’s para designar qualquer método de observação remota da
superfície terrestre onde amplamente se destaca a técnica da fotografia aérea (principal método
existente naquela época). O desenvolvimento da tecnologia espacial permitiu contar com
plataformas de observação espaciais (satélites), dando lugar a uma variante da teledetecção: a
teledetecção por meio de satélite.

Assim a foto interpretação é o ramo da teledetecção que nos ajuda a examinar as imagens
fotográficas do terreno com o propósito de identificar os diferentes componentes naturais de origem
antrópica da paisagem. Com estas técnicas obtemos informações para analisar elementos
geológicos, natureza e uso do solo, tipos de cobertura vegetal; aspectos arqueológicos, existência de
muros, calçadas, etc.

A interpretação de fotografias aéreas aplicadas à arqueologia é um recurso mais que


reconhecido no seio da comunidade arqueológica mundial como de efectivo valor para esta ciência,
mas não é utilizada em Portugal com a frequência que mereceria, apesar da sua grande eficácia e
aplicabilidade em prol das descobertas de novos e valiosos (a nível cientifico) sítios arqueológicos.

A sua grande utilidade deriva principalmente do fácil e económico manejo dos dados em relação
à grande quantidade de informação que pode proporcionar. Os projectos arqueológicos que utilizam
a análise da fotografia aérea incluem nos seus planos a utilização desta técnica com fins variados,
tais como a identificação de sítios arqueológicos, o relevantamento de antigos sítios arqueológicos,
o parcelamento de áreas com fins arqueológicos, etc.

DIFERENÇAS ENTRE IMAGEM DE SATÉLITE E FOTOGRAFIA AÉREA

As Imagens de Satélite permitem:

 Registos discretos (digitais) a duas dimensões (2D);

 Cobrir áreas extensas;

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 Ser processadas directamente por computados sem necessidade de serem


digitalizadas;

 Uma disponibilidade quase directa em/para utilização em Sistemas de

Informação Geográfica (SIG);

 Ser verticais ou oblíquas;

 Ser multi-espectrais (conter informação da energia emitida e da energia reflectida);

 Ser multi-temporais;

 Ser multi-sensoriais.

As Imagens Fotográficas permitem:

 Registos contínuos a duas dimensões (2D);

 Cobrir áreas restritas (dependendo da escala);

 Facilidade em ampliar;

 Efectuar uma análise estereoscópica (ver a 3D);

 Ser digitalizadas para serem processadas por computador;

 Ser verticais ou oblíquas;

 O registo de pequenos objectos e estruturas dificilmente detectáveis pela vista

humana (4 ou 5 linhas por mm) dado o elevado poder de resolução dos filmes

actualmente utilizados em fotografia aérea (várias centenas de linhas por mm).

Tanto as imagens de satélite como as fotografias aéreas:

 Permitem realçar as relações que unem ou perturbam os elementos da paisagem;

 Possibilitam a realização de uma arqueologia da própria paisagem através da

“Lei da Persistência dos Planos”, segundo a qual, nas imagens se conservam as

formas de organização espacial antigas, embora sobrepondo várias delas.

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CAPITULO 4

EXEMPLO DA UTILIZAÇÃO DA FOTOGRAFIA AÉREA NA


DESCOBERTA DE NOVOS SÍTIOS ARQUEOLOGICOS

LOS CASARES DE ARMUÑA

Tomo como um dos muitos exemplos de como a fotografia aérea pode ser útil e esclarecedora
no campo da arqueologia, o sítio romano de “Villa de los Casares” situado na vizinha Espanha
(onde a fotografia aérea para fins arqueológicos é amplamente utilizada) a cerca de 3 km de
Armuña, Segovia.

Este local era já desde a alguns anos referenciado como possível “aglomerado de construções
da época romana”, mas não havendo nada especifico que o provasse foi ficando no esquecimento
até que em Abril de 1989, Alonzo Zamara, Director do Museu de Segóvia, tirou várias fotografias
aéreas onde se apercebiam diferenças de coloração no terreno, algumas hipotéticas construções
confusamente delimitadas, mas sem descobrir nada especifico.

Julio del Olmo efectua o mesmo tipo de voo, (durante o Inverno e a Primavera de 1994-1995)
conseguindo fotografias que aclararam e complementaram as fotografias realizadas 6 anos antes,
permitindo uma leitura (foto interpretação) mais clara do local, fig. 1-4, permitindo assim a
descoberta desta tão arqueologicamente importante Villa Romana.

Villa da época de Teodósio I (379-395), é considerado um dos conjuntos residenciais mais


significativos do Baixo-império Romano em Castela.

Supõe-se que esta villa tenha sido construída numa época de grande intensidade da cultura
cerealífera na zona.

Durante a 2ª campanha de escavações em 2007, foi posto a descoberto um mosaico com nove
metros de comprimento num excelente estado de conservação, fazendo prever a importância dos
achados que futuras escavações poderão trazer à luz do dia.

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Fig. 1 - 4: Vista aérea dos vestígios da “Villa de Los Casares”, em Armuña, Fotografia aérea de
Julio del Olmo Martín, tirada em 1994.

Fig. 2 - 4: Planta da Villa de los Casares. Segundo a obra “La villa de los Casares (Armuña,
Segovia): Propostas de leitura. Congresso Internacional La Hispania de Teodosio. Vol 2, 1997”.

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Fig. 3 - 4: Trabalhos de escavação. Setembro de 2007. Foto: Sonia Llorente

Fig. 4 - 4: Trabalhos de escavação. Mosaico. Setembro de 2007. Foto: Sonia Llorente

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Fig. 5 - 4: Trabalhos de escavação. Mosaico. Setembro de 2007. Foto de Sonia Llorente

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CAPITULO 5

A FOTOGRAFIA AÉREA COMO FERRAMENTA NO CONTROLO


EVOLUTIVO DAS ESCAVAÇÕES ARQUEOLÓGICAS

SÍTIO ARQUEOLÓGICO DE S. MARCOS

Este será um dos muitos exemplos onde se pode observar a evolução (nesta situação específica,
pela negativa) de uma escavação arqueológica através da fotografia aérea. Aqui observamos como
na generalidade muitos dos sítios arqueológicos são “devorados” pelo avanço urbanístico.

Fig. 1– 5 Sítio arqueológico de São Marcos: fotografia aérea (obliqua) das valas abertas
durante a campanha de 1984.

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Fig. 2-5 Sítio arqueológico de São Marcos: levantamento topográfico das


estruturas arqueológicas sobre ortofoto (vertical) da área 2004.

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BIBLIOGRAFÍA

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Útil

BRITISH ARCHAEOLOGICAL JOBS RESOURCE - Aerial Photography and Manual Image


Rectification, a Short Guide.

SANTOS, P. J. L. da S. – Aplicações de Sistemas de Informação Geográfica em Arqueologia.

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