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FACUDADE DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS

THALITA IGNÁCIO PETITEMBERTE

O SENHOR DAS MOSCAS


A obra nas visões de Hobbes e Rousseau

Porto Alegre
2017
INTRODUÇÃO

Este trabalho é meio avaliativo da disciplina de Ciência Política, e irá abordar a


obra “O senhor das moscas”, em cima dos ideais sociais de Hobbes e Rousseau,
e os aspectos que podemos encontrar baseados nos dois filósofos dentro do
livro, mostrando os momentos e personagens mais marcantes da obra em cima
da filosofia dos dois;
1. O SENHOR DAS MOSCAS: Uma visão da sociedade da obra.

O livro “O senhor das moscas “ de William Golding (vencedor do Prêmio Nobel


de Literatura de 1983) coloca um grupo de meninos britânicos na média dos 6
aos 12 anos em uma ilha após um acidente aéreo.

Sem uma imagem adulta responsável por eles, os garotos começam um tipo de
sociedade baseada nos princípios que já conheciam de sua rotina antiga, dentre
as crianças o que parecia ser o mais forte com aparência de poder sobre os
outros é elegido como o líder do pequeno grupo, seu nome é Ralph. Ralph está
no grupo dos meninos mais velhos, com cabelos louros e aparência calma além
disso sua forte presença. Outro personagem marcante que exibe a imagem de
um líder totalmente contraria a de Ralph e Jack Merridew, Jack era o líder do
coral da antiga escola que o grupo frequentava, quando o grupo de Jack
encontra com o de Ralph a um tipo de conflito já que ambos possuíam um papel
de liderança naquele momento, porém Ralph recebe o título definitivo do grupo.
A imagem do poder total na obra é representada por uma simples concha branca,
que quando assoprada reproduz o som de chamado para uma “reunião” para
todos os meninos, além disso, quem a possui em mãos detém o direito de fala
no momento dando assim a concha uma imagem de poder do soberano, já que
quem sempre a tinha em sua posse era Ralph.

Outro personagem marcante na história é Porquinho, seu nome verdadeiro não


é mencionado na obra, Porquinho é um menino acima do peso, que usa óculos
e tem asma, mas apesar de sua imagem considerada patética pelos outros
garotos, ele é o detentor de todo o conhecimento, como é citado na própria obra
ele falava em nome da razão, a imagem mais civilizada dentre os meninos,
apesar de sempre ser caçoado ele é o personagem mais importante para o
desenrolar da história, todas as boas ideias vem de Porquinho, ele se torna um
tipo de conselheiro para Ralph, e seus óculos são o único meio de produzir fogo
que os meninos possuem, que servem para eles não apenas como um meio de
cozinhar, mas também como um tipo de sinal de fumaça para qualquer barco
que passasse por perto os perceber. Outro personagem que podemos citar é
Simon, a princípio ele não é um personagem muito destacado na obra, exibe
uma imagem de garoto tímido e sensível, ele também faz parte do grupo dos
meninos mais velhos, é ele que descobre que o “bicho” que os meninos temem
na verdade é o cadáver de um homem de paraquedas preso a uma arvore.
Simon entra em colapso quando os meninos começam a se separar em dois
grupos diferentes, uma tribo selvagem como meninos primitivos, e uma
sociedade que ainda acredita na paz e na ordem, Simon encontra com uma
cabeça de porca que o grupo selvagem deixa de oferenda para o suposto “bicho”
que está na ilha, e começa a delirar conversando com a cabeça repleta de
moscas que começa a ser tratada no livro como O senhor das moscas.
Existem outros personagens marcantes no livro, como os gêmeos Sam e Eric,
apelidados de Sameeric já que ambos viviam em completa sintonia, há também
Roger, que se torna um personagem cruel logo após causar a morte de
Porquinho, os pequenos, entre outros.

A trama tem seu início no acidente de avião que os deixa presos na ilha sem
qualquer tipo de população, civilizada ou não, eles encontram ali um momento
de liberdade, sem país, sem regras, sem responsabilidades, sem alguém para
obedecer, porém, quando se dão conta da situação em que estão, longe dos
familiares e sem nenhum conhecimento de uma vida na selva, há um momento
de desespero, é quando Ralph toma a imagem de líder e utiliza da concha como
símbolo de seu poder, algo que pode ser comparado com a Bastilha que era o
símbolo do poder do Rei Luís XVI, quando ocorre a queda da Bastilha do Rei é
o momento que seu poder se perde também, e seu reinado decaí aos poucos, o
mesmo acontece com a concha, quando Porquinho que é a voz da razão e o
resto de civilização que todos possuíam é morto a concha vai junto com ele, ou
seja a imagem do poder de Ralph e sua consciência racional são perdidas,
podemos definir este como o ápice da história e a morte da inocência e da noção
dos meninos, já que até mesmo Ralph e Sameeric, os últimos que vivam em pró
de voltar a sua antiga vida perdem-se na selvageria e começam a perseguir uns
aos outros, ao comando de Jack o soberano tirano da tribo dos selvagens.

A obra mostra como este grupo decaí de meninos prendados e civilizados para
total selvagens, matando uma porca cheia de filhotes, e dois meninos, mostrando
assim que a sociedade é instável aos olhos do autor, já que para ele sem uma
imagem de soberania, neste caso um adulto os meninos entram em colapso,
ideias que se encaixam em ideais do filosofo Hobbes.

1.1 Hobbes em o Senhor das Moscas:

Hobbes diz em sua obra o “Leviatã” que “os homens amam naturalmente a
liberdade e o domínio sobre os outros”. Os ideais “Hobbesianos” são muito
bem vistos na trama, principalmente em Jack e sua tribo. Jack é consumido
pelo seus ideais ignorando completamente os de Ralph que era o líder do
grupo, Jack apesar de ser apenas uma criança, demonstra ideais violentos e
sanguinários, ele sente prazer na caça, em ver a dor que os porcos
demonstram e seu ganidos no momento em que sua lança perfura sua carne,
além disso Jack não demonstra remorso algum em matar Simon e Porquinho,
seu consciente é totalmente tomado pelo vingança para com Ralph que era a
única imagem de soberano que ele não conseguia ultrapassar, ele invade a
antiga moradia dos meninos atrás dos óculos de porquinho, os ataca sem
sentir pena ou compaixão pelos seus antigos companheiros, se torna um total
selvagem, os outros meninos são tomados pela excitação de viver uma vida
confortável com carne e pintados como guerreiros, e escolhem obedecer Jack,
os únicos a se manterem ao lado de Ralph são Porquinho e os gêmeos Sam e
Eric, além de alguns dos pequenos.

Não é a união de um pequeno número de homens que é capaz de


oferecer essa segurança, por que quando os números são pequenos basta um pequeno
aumento de um ou outro lado para tornar a vantagem da força suficientemente grande para
garantir a vitória, constituindo portanto tal aumento um incitamento á invasão. (HOBBES,
1651, p.142).

Jack e Ralph entram em uma completa disputa por honra, e é por isso que toda
a trama principal entra os dois protagonistas se desenrola, por causa de
orgulho, poder.

Outro dos ideais de Hobbes podem ser vistos no episódio em que Jack sai para
caçar e deixar Roger e outros meninos de guarda para impedir que alguém da
tribo de Ralph entre, para assim proteger seus pertences de invasores, já que
para Hobbes o homem utiliza de qualquer meio para proteger seus pertences.
Temos também as lanças, que são a imagem da espada que Jack possui, seu
grupo é completamente armado com lanças para proteger e também caçar, e
no final do livro são utilizadas também para matar seus semelhantes.

No final do livro, quando o oficial da marinha britânica chega para resgatar os


meninos, alguns dos primeiros aspectos que o narrador descreve são o
uniforme branco da marinha e a arma que o oficial carregava consigo, ou seja,
eram a imagem de soberania que eles tinham no momento, uma imagem de
homem da lei, de farda e armamento, é nesse momento da obra que todos os
meninos largam suas lanças e começam a chorar, mas por quê? A resposta
está na construção psicológica das personagens, os meninos passaram de
simples crianças para tiranos tentando a sobrevivência, sem uma imagem
superior, um comandante capacitado, eles entram em conflito, se tornam
sanguinários, violentos, beirando a loucura, porém com a imagem do adulto
presente eles voltam a ser apenas crianças, prontas para obedecer às ordens
do militar e ir para suas casas, seu desejo súbito que alguns haviam
esquecidos ao desenrolar da trama.

1.2 Rousseau em O senhor das moscas:

Rousseau é um famoso filosofo do século XVII, para ele o homem é


naturalmente bom, é a sociedade que o corrompe, de fato podemos analisar
alguns destes casos na obra de Golding, como os gêmeos Sam e Eric ou
Sameeric, os gêmeos era apoiadores do grupo de Ralph e os últimos a ficarem
ao lado dele, porém, na parte do livro em que o grupo de Ralph vai retomar os
óculos de Porquinho os gêmeos são subjugados por Jack e seus seguidores e
passam a seguir seu novo soberano em um momento de necessidade, e até
entregam a posição de Ralph para seus novos companheiros.

Contudo, voltemos ao início da obra, Rousseau defende que as pessoas


obedecem a si mesmas se unindo por um bem comum, porém, preservando a
sua liberdade, é o que acontece com a sociedade inicial que nos é apresentada
na obra, a pacifica, quando os meninos estão escolhendo um chefe ninguém os
obriga a obedece-lo, ele existe como um jeito de organizar melhor a
sobrevivência, é mais a imagem de liderança do que ela própria, todos
trabalham pelo bem comum, porém fazem o que desejam, os pequenos estão
sempre brincando na “piscina” e os grandes ajudam com a fogueira e com as
cabanas, mas depois saem para brincar ou caçar, ou seja, eles trabalham pelo
bem do grande grupo mas conservando o seus desejos pessoais, essa
primeira versão é chamada por Rousseau de O Estado. Para ele a vontade
geral deve ser absoluta e incontestável, o soberano e o legislador devem criar
leis de acordo com os desejos sociais, sempre pondo o povo acima, quando as
vontades do soberano são postas acima da de seu povo a força chamamos
isso de Despotismo.

Temos um caso claro de Despotismo na obra, a tribo de Jack, já foi comentado


que a tribo de Jack é tirana e violenta com o outro grupo, mas o próprio Jack
também é, ele obriga os outros a caçaram porque considera a parte mais
importante de todas, e depois de suas caçadas ele e seus seguidores fazem
um tipo de “dança” onde eles usam das suas lanças para atacar um dos
colegas que finge ser sua presa, um meio de subjugação leve, mas que mostra
seu poder sobre os outros, pois Jack nunca interpreta a caça nessa “dança”.
Além disso, ele também usa da violência para pegar o que quer, como o fogo
de seu antigo grupo, ou os óculos de porquinho, Jack também demonstra sua
crueldade ao matar uma porca ainda amamentando os filhotes, e a
massacrando vendo total prazer nisso. Podemos então criar uma linha clara
entre as duas imagens da lei na obra, Jack com seu despotismo e Ralph e
Porquinho, com sua democracia baseada no bem do grupo.
CONCLUSÃO

Levanto em conta tudo que foi apresentado nesta análise de “O senhor das
moscas” com embasamento nas obras o “Leviatã” de Thomas Hobbes e “Do
contrato social” de Jean Jacques Rousseau, podemos concluir que a obra de
Golding é um demonstração de uma sociedade que entra em crise sem um
poder soberano regente, mesmo que ele tenha usado da imagem de crianças,
ele mostra que até mesmo jovens inocentes podem ser corrompidos pelo
desejo egoísta do homem, e com a chegada do oficial da marinha que
representa a segurança e a lei eles retornam a seu estado de inocência,
apoiando assim o ideal de Hobbes de que sem um Rei, os homens entram em
conflitos para proteger seus interesses próprios. Podemos perceber também
um pouco das citações Darwinistas na obra, como a sobrevivência do mais
forte, que é levada ao pé da letra pelos personagens ao decorrer da trama.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

GOLDING, William. O senhor das moscas. Rio de Janeiro: Ed. Nova


Fronteira, 2004.

ROUSSEAU, Jean Jacques. Do contrato Social: princípios do direito político.


São Paulo: Ed. Pillares, 2013.

HOBBES, Thomas. Coleção os pensadores: Segunda Parte. São Paulo: Ed.


Cultura, 1973. Cap. 17, p.141-151.