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III COLÓQUIO SOBRE DROGAS DEMOCRACIA E DIREITOS NA AGENDA POLÍTICO-SOCIAL BRASILEIRA.

JONATAS CARVALHO.

INGOVERNÁVEIS PROFANANDO O DISPOSITIVO DROGAS.

Esta mesa foi pensada, para que de certa maneira, pudéssemos refletir sobre a ideia de governo dos vivos, assim como os “desgovernos”. Melhor dizendo, para refletir como os indivíduos lidam ou reagem aos governos, acima de tudo, os modos específicos de resistência aos processos de subjetivação no âmbito das relações sociais que envolve diversos usos de psicoativos. Quais questões são suscitadas dessas relações de força? Em que medida todos nós somos governáveis? Como selecionamos, se é que selecionamos o que nos governa e o que não? Há os que são impossíveis de se governar?

Muito provavelmente, as coisas não sejam assim tão dicotomizadas, preto no branco. Seria mais sensato, mais precavido, supor que todos nós somos governáveis em certa medida. Estamos aqui nesse momento obedecendo uma certa ordem do discurso, ainda que tenhamos plena consciência dos dispositivos presentes nesse rito, optamos por obedecer. Ao mesmo tempo, todos nós, resistimos a determinadas subjetivações, recusamos certas formas de governo. Se o que acabei de dizer é verdadeiro, todos nós, de uma maneira ou de outra somos ingovernáveis.

Os modos de escapar às subjetivações possuem variações múltiplas, há quem dissimule para não ser governado, há quem pegará em pedras. Em alguns casos, os ingovernáveis se unem contra uma certa forma de governo

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e lutam de modo organizado, como, por exemplo, fazem certos grupos de mulheres quando lhes tentam administrar o próprio corpo, reivindicando o direito de legislar sobre si. Há modos de resistir aos governos que são mais silenciosos que outros, assim como há aqueles mais barulhentos. Como professor na educação básica, tenho diante e mim um enorme laboratório humano composto por pré-adolescentes e adolescentes. Sem medo de errar, mesmo me faltando o dado empírico, ouso afirmar que é no ambiente escolar que encontramos os primeiros exemplos de sujeitos ingovernáveis fora do núcleo familiar. Indivíduos estes, que os professores chamam carinhosamente de pestes, pragas, criaturas monstruosas, bando de indisciplinados.

Esta última palavra está, pois, carregada de sentidos no âmbito escolar. Uma vez que, chamamos os conteúdos escolares como matemática ou história de disciplina, logo o aluno indisciplinado é aquele que não aprende a disciplina? O indisciplinado é aquele que, embora, esteja no ambiente escolar não se sujeita à disciplina. Observe, porém, que a palavra disciplina possui significados que extravasam o conceito de conteúdo ou matéria. Os dicionários definem disciplina como “obediência às regras, aos superiores, a regulamentos”, mas também pode ser definido por “conduta”. Conduta para quê? Para assegurar o bem-estar e o bom funcionamento dos indivíduos nos seus respectivos grupos sociais.

É na escola onde os modos de subjetivações são engendrados com intensidade e abrangência, assim como reforçados. O sistema educacional ainda sustenta o modelo cartesiano, um paradigma em que a educação é uma grande árvore. A árvore filosófica como pensada por Descartes, cuja raiz é a metafísica, o tronco a física e a copa a ética busca produzir um tipo específico de subjetividade; alunos árvores. Mas alunos (conceito este

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utilizado de modo equivocado ainda nos dias de hoje, como alguém, destituído de luz), não são árvores, são rizomas, o rizoma é a resistência ética, política e estética às subjetivações. Tratam-se aqui de linhas, não de formas, diria Deleuze.

São essas linhas emaranhadas que desafiam a disciplina. Um exemplo: o uso do celular em sala de aula. O celular é o maior pesadelo dos educadores dos tempos atuais. E o que se convencionou fazer ante esse temor indiciplinar? Leis proibitivas, regulamentos restritivos, sanções, transformando o professor em um agente policial em sala de aula. Não basta as múltiplas tarefas em sala e fora dela, o professor agora deve estar em plena vigilância, a espreita para flagrar o aluno meliante colocar seus dedos na tela do seu smartfone. As escolas colocadas em xeque por este dispositivo (Agamben diz ter assumido um ódio muito particular por este dispositivo que na Itália recebe o nome íntimo de telefonino ), sem saber o que fazer recorreram a solução autoritária. Ora, o que haverá de ser com toda essa legislação e regulamentação proibitiva? Serão enrijecidas? Serão amenizadas? Ou simplesmente serão soterradas na sua própria ineficácia? A resistência dos ingovernáveis fará emergir novas técnicas e tecnologias para se governar o uso dos celulares em sala de aula? O dispositivo aula está em disputa com o dispositivo celular. O caminho será encontrar modos de conciliá-los sem que com isso a disciplina saia comprometida?

Sem me estender demasiadamente sobre tal questão, que só trouxe aqui para tomá-la como exemplo no que diz respeito aos modos resistências as formas de governo da vida. Achei por bem trazer um exemplo fora do âmbito das drogas para que fique evidenciado que os ingovernáveis estão disseminados em todo o tecido social, assim como os dispositivos. Onde

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houver dispositivo (cujos dicionários traduzem como aquilo que prescreve aquilo que ordena) haverá subjetivações, mas também resistência.

Sabemos que a proibição é a radicalização das tentativas de subjetivações, isto é, sua face mais extremada, todavia nem de longe, a forma mais eficaz. É na construção de um projeto pedagógico abrangente e articulado que o sujeito se constitui como condição sine- qua- non do vir a ser. Os dispositivos são complexos, Deleuze diria que a filosofia dos dispositivos resulta no repúdio aos universais, “o uno, o todo, o verdadeiro, o objeto, o sujeito”, nada disso é universal, antes, são processos singulares de unificação, de totalização, de objetivação e de subjetivação. Cada dispositivo possui sua própria multiplicidade e opera de modo distinto do outro. Caberia aqui perguntar quais seriam as peculiaridades do dispositivo drogas, ou mais, saber por quais redes e relações de poder a droga trilhou para se configurar em dispositivo?

Recorro aqui a uma outra leitura sobre o que vem a ser um dispositivo. Agamben, bem depois de Deleuze, mais precisamente em 2009, confere, ao fazer uma genealogia do dispositivo, uma série de características, a saber: a) elementos históricos, circunscritos em contextos sociais, políticos e culturais específicos; b) encontram-se imbricados a uma economia das relações humanas, dispondo os homens de modo a conduzi-los a um bem. Mas não apenas isto, o dispositivo para Agamben é muito mais que asilos, prisões, quartéis, disciplina… “mas também caneta, a escritura, o cigarro, o telefone celular”. E o que está na raiz de cada dispositivo? Responde o filósofo: o desejo humano de felicidade. A captura e a subjetivação desse desejo em uma esfera separada constitui a potência própria do dispositivo.

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Agamben, coloca uma divisão em que de um lado estão os seres viventes e do outro os dispositivos. O sujeito é, portanto, o resultado do corpo-a-corpo entre os seres viventes e os dispositivos. Podemos dizer então, nesse sentido, que de um lado estão os seres viventes e do outro o dispositivo drogas? Se sim, que tipos de sujeitos resultam desse corpo-a- corpo? Retornando aqui às noções e questões formuladas por Deleuze, perguntaríamos quantos outros dispositivos se interpõem, perpassam estas linhas de sedimentação? Que linhas de fissuras, de fraturas se emaranham nesta relação?

Devemos destruir os dispositivos ou usá-los de modo útil? Agamben diria que nem uma coisa nem outra, e enxerga esta última questão como uma ingenuidade. O que fazer então? A resposta para ele está em uma palavra: profanar. Profanar como? Profanar (PROFANAÇÕES, 2004), termo que o filósofo retira do direito romano, cuja função seria de contraposição a “consagrar” (tornar sagrado), isto é, “saída das coisas do direito humano”, em contrapartida, profanar designa “restituir ao uso livre dos homens”. (p.65). Leitor de Benjamim, dos seus fragmentos póstumos, dentre os quais está “O capitalismo como religião” (1921 texto que permaneceu inédito até 1985). Agamben salienta que será ao longo do sistema capitalista que os dispositivos se multiplicam sem medida. Religião, palavra que em latim é religio , não tem origem, como se difundiu, em religare, (que une divino e humano), mas em relegere, isto é, que dá forma ao sagrado e ao profano. Assim a religião não une deuses e homens, mas distingue de modo adequado, circunscreve o que é divino e o que é humano. Não há religião sem essa separação.

E qual seria o dispositivo que regula, realiza tal separação? O sacrifício. É pelo sacrifício que saímos da esfera do humano (profano) e

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adentramos no sagrado (separado). O que é necessário então para dessacralizar, isto é, como tornar profano o que é sagrado? A resposta de Agamben é a meu ver espantosa devido a sua simplicidade; basta o toque humano. O rito do sacrifício regula e realiza a passagem do sacrificado do mundo humano para o mundo divino, as entranhas do corpo sacrificado (fígado, pulmão, vesícula, coração), são reservados aos deuses, mais as demais partes do corpo podem ser ingeridas pelos homens. A parte consagrada para voltar ao uso comum dos homens, precisa tão somente ser tocada. É por contágio que profanamos.

Pois bem, volto aqui a questão do dispositivo drogas. Este, já muitas vezes e de muitas maneiras, problematizado por muitos aqui presentes. Eu, particularmente comungo da perspectiva da Biopolítica como forma de problematização, a biopolítica é esse modo de gestão em níveis globais da vida e da saúde das populações, que foi, aos poucos, concedendo à medicina o monopólio da aplicação das terapêuticas (veja, Labate & Rodrigues, 2016). Ao conjunto de tecnologias e estratégias da Biopolítica no que se refere as drogas, demos o nome de proibicionismo, o sufixo ‘ismo’ aqui é importante, pois está relacionado com algumas possibilidades de significação linguística dos quais trago aqui três exemplos: sistema político (capitalismo); religião (cristianismo); doença (alcoolismo).

Finalmente, quero concluir, trazendo à memória a obra de arte conceitual de Hélio Oiticica de 1968, cujo sogar dizia “Seja marginal, seja herói”, que eu gostaria aqui, tentar parafrasear, com a ajuda de vocês, quero que me ajudem a criar, algo como “seja profanador, seja (maconheiro)

Eis, pois nossa alternativa mais promissora: Profanar. Pelo toque, pelo contágio, já conseguimos trazer de volta ao uso puramente dos homens

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várias práticas que outrora encontravam-se separadas. Profanamos quando problematizamos o proibicionismo, quando desvendamos o dispositivo drogas. Profanamos toda vez que se publica um artigo antiproibicionista, cada vez que nos reunimos em colóquios, congressos, simpósios. Profanamos a cada marcha da maconha, a cada novo movimento civil que reivindica o uso comum de psicoativos pelos viventes. Profanamos em cada entrevista de mãe cujo filho(a) necessita de um canabinoide, cada vez que um pai denuncia a execução do seu filho negro por acusação de envolvimento com o tráfico, cada vez que alguém resolve cultivar sua erva no quintal ou mesmo em um vaso em baixo de uma lâmpada em um apartamento qualquer…. Quanto mais profanamos mais dessacralizamos o dispositivo drogas. Cabe- nos portanto, fazer crescer os números de profanadores.