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Crise Ambiental ou Crise Civilizatória?

Raul Francisco Magalhães*

Um espectro ronda a Terra... Assim, como tantos outros, parodiando a frase inicial do
Manifesto Comunista de Karl Marx (1988), podemos suscitar neste pequeno texto, que não se
pretende acadêmico, um debate que já toma corpo, quanto ao nosso presente e ao nosso
futuro como sociedade que se pretende civilizada. Quando Marx falou do seu "espectro",
referia-se a uma revolução socialista, que deveria alterar os destinos irracionais de uma
sociedade capitalista, baseadas na exploração de uma classe por outra. Sabemos hoje que,
por hora, o mundo permanece inarredavelmente capitalista, mas sabemos também que não
somente as desigualdades sociais continuam gerando crises, evidenciando a irracionalidade do
modelo da sociedade em que vivemos. Na verdade, podemos dizer que hoje presenciamos um
problema bem mais radical, imposto pela inoderna forma de vida: trata-se da impossibilidade
real de o Planeta continuar a sustentar a sociedade industrial que, para sobreviver, está
superexplorando a natureza, fonte primária de todos os recursos de energia, o que pode levar -
num prazo indeterminado, mas teoricamente possível - ao virtual fim da forma humana de vida.
Esse é o primeiro ponto de um paradoxo com o qual nem os socialistas, nem os
defensores do capitalismo estão preparados para conviver, ou seja, a crise ambiental
nos põe um dilema maior que o da exploração de classes: ela nos mostra que o
problema poderá, caso não seja devidamente enfrentado, representar o verdadeiro fim
da história. Um mundo esgotado na natureza não permitirá vida social, seja ela
capitalista, socialista ou de qualquer outro modelo. Em que
* Professor do Departamento de Ciencias Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora
Educação Ambiental em Perspectiva
Crise Ambiental ou Crise Civilizatória?
medida a civilização se relaciona com o espaço da natureza? Por que a nossa
civilização se afastou tanto de um equilíbrio com o mundo natural? Na raiz
dessas perguntas, podemos encontrar um meio de interpretar o dilema
ambiental, não como tema de uma área específica, mas como a chave para
criticar os impasses da sociedade industrial ou, nos termos deste texto, da crise
civilizatória que vivemos.
O entendimento da vida social como algo específico dos homens e das
mulheres e, de certa forma, desvinculado da natureza é uma das marcas mais
profundas do pensamento dito moderno, ou seja, aquele que emerge a partir do
séc XVII, no mesmo momento histórico em que a antiga sociedade feudal da
Europa era velozmente destruída para dar lugar à grande transformação que
implanta a sociedade capitalista. De fato, naquela época, o progresso técnico
tanto das manufaturas, das engrenagens, barcos, máquinas de guerra quanto
dos meios de comunicação (a imprensa), indicava que a razão humana vivia
uma arrancada sem qualquer limite previsível. O mundo europeu, por meio das
grandes navegações, havia chegado à América, à Africa, ao Extremo Oriente, e
um fato surgia: nenhum dos povos encontrados poderia superar o poder da
técnica e da racionalidade que comandava os integrantes da civilização
ocidental. Na verdade, a descoberta da América mostrava povos considerados
extremamente primitivos, à luz do intelecto europeu, o que colocava o problema
de como os homens conseguiram evoluir daquelas formas primárias de vida
alcançando a civilização e a razão? Essa pergunta, feita pela maioria dos
filósofos sociais da época, encontrou uma resposta singular. Concluíram que os
homens evoluíam sempre na direção de se afastarem da natureza para
desenvolverem todas as suas potencialidades, num meio social exclusivamente
humano, isto é, a sociedade civilizada.
Dessa forma, foi a partir da oposição entre natureza X civilização que se
alicerçou a racionalidade da sociedade moderna, desde seus primórdios. A
observação de tudo ao redor do mundo europeu parecia confirmar essa
premissa: os povos mais próximos da natureza eram os menos civilizados
tecnologicamente e sequer possuíam instituições dedicadas à gestão da vida em
comum, como o Estado. Tornar-se civilizado e,.portanto, racional, implicava
superar tudo quanto era apenas natural; as próprias guerras eram vistas como
emergências do estado natural a perturbar a ordem humana e seriam superadas
num estado de total racionalidade. Em um contexto como esse, filósofos, como
René Descartes, formularam uma proposição que se torna a
chave das relações entre o homem e a natureza até os nossos tempos: a idéia de que a razão permite
aos humanos tornarem-se "senhores e possuidores da natureza" (DESCARTES, R., 1996). Para o clima
intelectual da época, a natureza devia ser compreendida como urna dádiva de Deus, para que nós a
controlássemos e a puséssemos a nosso serviço. A natureza, de tal forma, é para ser usada pelo
homem, é seu instrumento. Em termos mais recentes, é uma fonte de recursos.

Essa concepção, no mundo antigo, comparada ao moderno, apresenta diferenças


muito significativas. Na Antiguidade e no mundo não ocidental, vigorava uma visão da
natureza que poderíamos chamar de mística, ou "encantada". Ali, os fatos da natureza,
rios, árvores, mares, montanhas, oceanos, cavernas, vulcões e todas as suas
manifestações eram percebidos como divindades, em relação às quais se impunha o
devido respeito e adoração. Ninguém ousaria lenhar toda uma floresta sagrada, ou
desviar o curso de um rio santo, ou ainda construir moradias numa montanha
santificada. A natureza se protegia pelos limites mágicos que os homens se impunham.
Por oposição, à razão moderna veio desencantar o universo, e a civilização racional
não precisou mais se deter diante dos espíritos da natureza. Ao contrário, a partir dos
séculos XVII e XVIII, tratava-se de observar o mundo, entender seus mecanismos e,
finalmente; colocá-lo a serviço dos seus decifradores, em vez de adorá-lo.
A Europa assumiu a posição de centro do mundo, e esse saber racionalista foi
entronizado como o ápice de um processo de evolução do pensamento. No século
seguinte, o XIX, a revolução industrial consagraria o triunfo da cientificidade e da
técnica como as formas por excelência de relação da sociedade com o meio natural. A
noção de um mundo pautado pela tecnologia assumiu uma dimensão consensual no
que dizia respeito aos seus ganhos e benefícios para a humanidade. Isso pode ser
notado principalmente na obra dos principais críticos da sociedade de então. Marx
condenava os aspectos sociais do capitalismo, sua iniquidade, mas era, como todos os
homens do século XIX, fascinado pelos maquinismos e pelo projeto técnico da
civilização capitalista. As fábricas que despejavam toneladas de fuligem no ar e
sujavam os rios, naquele momento histórico, só eram ruins pela superexploração do
trabalho humano, pois a natureza existia para ser suprimida por esse trabalho e
transformada em bens sociais. O socialismo precisaria das fábricas e de todas os
recursos técnicos da razão para produzir bens em abundância, como condição de
um sistema socialmente justo. Na verdade, Marx considerava que o capitalismo
tinha uma missão histórica de destruir e submeter as formas sociais ditas
primitivas, para então, num mundo, digamos, "globalizado", ser possível superá-
lo rumo ao mundo socialista. Até esse momento, portanto, não existe razão
alguma para uma crítica do projeto técnico da sociedade industrial. Ele é visto
como "neutro" e necessário à superação das necessidades básicas que afligem
os seres reféns da natureza. Aliás, as tentativas reais de socialismo no século
XX serão todas apologistas da forma industrial de sociedade.
Podemos dizer que a crença na positividade da razão, bem como a crença
na evolução contínua da ciência seguem praticamente sem interrupções até a
primeira Grande Guerra, entre 1914-1918. Se a sociedade industrial havia
gerado as massas urbanas que trabalhavam nos quilométricos parques fabris,
agora a indústria, ou melhor, a razão técnica foi capaz de, mais uma vez, criar o
inédito na história: as mortes em massa (HOBSBAWM, 1995). De fato nenhuma
guerra anterior conseguira produzir tantas vítimas. Os mortos, contados aos
milhões, resultantes de bombardeios aéreos, gases, explosivos ultrapotentes, da
destruição de colheitas e cidades, sublinhavam, talvez pela primeira vez de
forma eloqüente, que a mesma racionalidade técnica que cria o mundo civilizado
moderno é tam- . bém capaz de torná-lo um inferno.
O século XX nasce, portanto, com o estigma de apresentar para a
humanidade os limites daquilo que se julgava ilimitado. A razão científica
finalmente mostrara a contrapartida de sua evolução. Em pouco tempo, uma
guerra ainda maior (1939-1945), continuação clara da primeira, iria reforçar os
mesmos fatos: a ciência a serviço da destruição e milhöes de vítimas superando
novos recordes históricos. No caso dessa guerra, houve um fato que, esse sim,
daria um tom realista ao debate sobre os aspectos destrutivos da sociedade
racionalizada: a bomba atômica. Esse artefato da razão, disputado e produzido
por todas as grandes potências do pós-guerra, trouxe a destruição do mundo
para o horizonte da realidade. Se as bombas dos arsenais nucleares fossem
acionadas, o resultado produzido pelo homem seria mais devastador que
qualquer catástrofe natural. Completa-se aqui o paradoxo da modernidade: a
razão teria salvado a humanidade dos perigos da natureza, protegendo-a com
uma redoma de civilização; descobre-se, entretanto, não sem grande
perplexidade, que tal racionalidade, dita civilizada, é capaz de gerar horrores
impensáveis no plano da natureza, sejam armas nucleares ou campos de
concentração. A partir desse ponto, o ufanismo em torno da ciência e da razão nunca
mais poderia ser o mesmo, embora devamos admitir que esse continua sendo, apesar
de tudo, um dos traços mais profundos da cultura contemporânea.
É nesse clima que, nos anos 60 e 70, floresceram, ainda que de modo esparso,
várias correntes de pensamento, ditas contraculturais, que questionavam a sociedade
capitalista de consumo e argumentavam a necessidade de os seres humanos
retomarem uma relação mais harmônica com a natureza. Tais movimentos, em que
pese sua riqueza em termos de manifestações artísticas, e mesmo da criação de novos
paradigmas sobre felicidade e formas de vida que negavam frontalmente o espírito
tecnificante do capitalismo, foram fortemente combatidos. A situação geopolítica da
“guerra fria", que polarizava os blocos capitalista e soviético, ambos armados com
dispositivos atómicos, não permitiria que movimentos de contestação fossem mais
longe que as praças, pois manter a ordem interna livre de maiores instabilidades era
uma forte necessidade naquele instante. Porém o mundo nunca mais foi o mesmo após
a onda de movimentos sociais dos anos 60 e 70, colocando entre suas inúmeras
questões também o meio ambiente, que já aparecia, naquele tempo, sensível ao
progresso. De fato, os resultados que o capitalismo apresentava, além da opulência
dos países ricos, eram enormes parques industriais poluentes, rios e mares imundos e
uma colossal frota de veículos gerando novidades nas metrópoles, como inversões
térmicas e epidemias de doenças pulmonares. Para as pessoas com uma visão global
do que se passava, ou seja, a compreensão do planeta como um ecossistema, aquilo
parecia o início de um problema bem maior.
O século XX começava aí a mostrar um dado novo de convivência entre o espaço
humano e o natural, pois em nenhum tempo foi impossível a qualquer espécie alterar
tão radicalmente a face do planeta, como ocorreu nos últimos 100 anos e, mais
precisamente, nos últimos 50. E o desenvolvimento industrial, quer capitalista, quer
socialista é, sem dúvida, o principal fator causal. Se a crise ambiental, bem como a
crise do modelo da sociedade industrial, surgem aos nossos olhos contemporâneos
como nítidas há 30 ou 40 anos atrás, o mesmo não se pode dizer da consciência
política desse problema, que ali estava, no máximo, em estado embrionário. Muitos
eventos aconteceriam antes de a natureza entrar no horizonte dos debates polítiCOS.
A história da moderna consciência ecológica e da criação de urna crítica radical
avessa a esse modelo de sociedade começa por um caminho inesperado. Em 1974,
aconteceu mais uma guerra entre os países árabes e o Estado de Israel. Como
represalia ao apoio ocidental a Israel, os árabes, produtores de petróleo, combustível
vital para o funcionamento do mundo moderno, resolveram fundar um cartel, a OPEP, e
elevaram o preço do barril de petróleo para a "estratosfera", passando de 2 para 18
dólares. Esse aumento teve um impacto gigantesco nas grandes economias ocidentais,
principalmente na Europa e no Japão, que dependem do petróleo árabe para geração
de sua energia elétrica. Nessa mesma época, os países europeus resolvem, como
alternativa, incrementar seus programas nucleares para geração de energia. A
resistência crítica e prática a esse processo foi o marco da arrancada da questão
ambiental, como tema político e filosófico.
O surgimento de um movimento antinuclear auxiliou a formação de uma
identidade ecológica a partir de argumentos postos em três níveis: a) o técnico - a
avaliação de que os riscos para a sociedade em caso de acidentes são, enormes,
mesmo consideradas todas as medidas de segurança; b) o econômico - a rentabilidade
de um programa nuclear só é possível mediante grande concentração do poder
econômico, o que coloca esse serviço dentro da lógica dos oligopólios financeiros e
tecnológicos; e finalmente, c) o político - uma sociedade nuclearizada necessita de um
gigantesco aparato policial e virtual controle da vida dos cidadãos, não podendo tolerar
contestações em nome do risco de criar um colapso no sistema de energia (DUPUY,
1980). Inspiradas nessa ótica, grandes manifestações antinucleares ocorreram na
Europa e nos EUA, sendo a maior parte delas reprimida pela polícia no melhor estilo
das ditaduras de então. Pela primeira vez na história, as mobilizações da sociedade
civil não criticavam apenas aspectos sociais da vida, como a exploração de classes,
mas, além disso, um modelo tecnológico de sociedade.
A frente ecológica foi tomando corpo e entrou para a política partidária em
meados dos anos 70 quando surge o partido verde na França e, pouco depois,
outro na Alemanha, ambos conseguindo furar o bloqueio histórico dos 5% do
eleitorado, alcançando assentos nos parlamentos. Mas nem todos os
ecologistas consideravam, ou consideram, ainda, que a via parlamentar seja a
única estrada. Para o movimento ecológico, o que lhe dava um caráter novo era
sua intensa pluralidade ideológica com distintas formas de manifestação, indo do
claro anarquismo, passando por comunidades religiosas que praticam agricultura biológica, até
a citada alternativa parlamentar. nem todas concordando entre si, mas todas discordando do
modelo de sociedade em que vivemos. Tudo isso indicava um fato novo na vida política, que
teve conseqüências duradouras.
É curioso notar que os setores da esquerda tradicional, comunista e socialista,
encararam o movimento ecológico, num primeiro instante, como uma espécie de desvio
revisionista pequeno-burguês, algo como mais uma estratégia conspiratória para
afastar a esquerda do seu verdadeiro papel libertador das desigualdades sociais. Foi,
portanto, no debate com a esquerda tradicional que surgiram as primeiras teorias
consistentes para uma crítica ecológica do mundo moderno.
No plano da ação política, os ecologistas apresentavam traços realmente
desconcertantes para a esquerda tradicional. Primeiramente, sua fé no "fazer",
ou seja, a ação direta dos cidadãos, sem pedir maiores licenças às lideranças
partidárias ou sindicais, ou qualquer outra hierarquia de comando. Um bando de
pessoas podia simplesmente bloquear uma estrada para impedir a passagem de
um carregamento de urânio, ou subir em uma árvore que seria derrubada pela
prefeitura e, com isso, atraíam dois aliados poderosos nos tempos atuais, a
mídia e a opinião pública. Tais métodos de ação direta, uma herança das
influências anarquistas da primeira fase do movimento ecológico, foram se
sofisticando até chegarem às emocionantes e dramáticas aparições de grupos
como o Green Peace, com seus barcos diante de navios baleeiros, o que deu
resultados muito mais rápidos que anos de debate parlamentar. O fato é que
essas pessoas eram e são movidas tanto pela certeza do esgotamento de um
modelo tradicional de sociedade quanto pela urgência de suas ações na
transformação do mundo. Aqui no Brasil, o movimento ecológico não possui
posições tão sólidas quanto na Europa, mas, graças ao trabalho de pioneiros
como José Lutzenberger, autor do Manifesto Ecológico Brasileiro (1976),
formou-se, desde o final dos anos 70, o início de uma consciência ambiental em
alguns círculos de nossa sociedade. Sobretudo os movimentos nacionais em
defesa da Amazônia e da Mata Atlântica cumpriram o papel de aglutinadores da
questão entre nós, embora ainda restrita a uma certa classe média
universitarizada.
A história mostrou, no final do século XX, que os movimentos tradicionais da
esquerda, que sempre clamavam por uma luta de classes como caminho único de
transformação social, perderam o sentido diante de um problema essencialmente
transclassista como a crise ambiental. Podemos dizer, com segurança, que essa crise
e a ação política que a suporta, incorporaram de maneira sui generis a idéia de que o
mundo precisa ser transformado. Podemos mesmo dizer também que vários pontos da
antiga crítica ao capitalismo continuam de pé dentro de uma ótica ecológica.
Tradicionalmente, existem três temas centrais que organizam a crítica ecológica
ao mundo da sociedade industrial. O primeiro tema é o que podemos chamar de
problema gerador de todo o debate. Trata-se da sobrevivência da humanidade, que
cresce a todo instante dentro de um planeta finito em espaços e recursos e que está
sendo aceleradamente devastado. Temos uma Terra só e não há tecnologia para
transferir toda a população, nem mesmo parte dela, para outros planetas no caso de
um colapso global. Afinando nossa análise, vemos pontos que permanecem
preocupantes. Temos um conjunto de países ricos explorando energeticamente o
Planeta numa escala que mostra uma clara relação entre industrialização e
desequilíbrio ambiental. Além da evidente concentração de riqueza e suas conhecidas
conseqüências sociais, vemos um quadro no qual a população dos países ricos se
apropria de quase todas as fontes de proteína disponíveis, deixando ao terceiro mundo
não mais que a quinta parte (DUPUY, 1980). . Considerando-se o problema
demográfico crescente, principalmente nas regiões mais pobres, a projeção de
destruição de áreas ainda hoje preservadas é tristemente realista.
Um dos grandes vilões é, sem dúvida, o modo de vida ocidental e, em particular,
o modelo norte-americano, que se tornou a meta de todos os países em
desenvolvimento, como o Brasil. Não há como imaginar como o atual padrão de
consumo e desperdício de energia do primeiro mundo possa ser generalizado para
todos, porque, aliás, sabemos que essa forma de vida se assenta, ou pelo menos
implica, em nada menos que a manutenção de sociedades não desenvolvidas. A
primitiva idéia de que o capitalismo teria de gerar uma opulência mundial antes de
sucumbir ao processo revolucionário de socialização dessa abundância foi tristemente
refutada pela história. De um lado, não é possível dar shopping centers para todos e,
de outro, é preciso que os que hoje os têm se convençam a mudar seus hábitos, o “que
parece quase irrealista.
Até o início do século XX, o planeta estava praticamente intocado, com a maioria
de suas grandes florestas na América, Asia e Africa preservadas e seus rios limpos. Em
menos de oitenta anos, tudo mudou e hoje praticamente inexiste um ecossistema que
não dependa da ação humana para sobreviver, a começar pelos oceanos. Então
esbarramos, por todos os lados, nos limites físicos do planeta. Eles nos mostram os
limites sociais e éticos da sociedade que criamos.
Essas considerações levam direto ao segundo tema da crítica ecológica, que discute o
fetichismo de um mundo cujo modelo de vida e organização é a sociedade industrial.
Desse ponto de vista, a tradicional dicotomia entre uma economia capitalista ou
socialista perde substância, na medida em que a sociedade industrial traz, como
resultado inevitável, qualquer que seja o modo de gestão político-econômico assumido,
privado ou estatal, a impossibilidade de sua reprodução continuada. Assim, os
ecologistas criticaram a esquerda tradicional por pensarem o socialismo apenas em
termos de modificação do regime de propriedade, sem perceber os efeitos nefastos e
irracionais da forma industrial de vida. Por outras palavras, não é possível aceitar um
projeto de superação do capitalismo por um socialismo que se sustenta na
superexploração da natureza. Evidentemente, não é nada fácil pensar ou executar o
desmonte da sociedade, industrial, porém a crise ecológica ressaltou o fato de que a
utopia de uma sociedade livre e socialmente justa implica o fim da alienação da relação
homem/ natureza, derivada da atual forma de gestão econômica do mundo
industrializado. A busca e a implementação de formas mais racionais e ambientalmente
equilibradas de produção e consumo passam a integrar o caminho de transformação
da sociedade, inclusive nas questões clássicas sobre as desigualdades.
O terceiro tema é um aprofundamento dessas questões relativas a uma
crítica ecológica da técnica e da ciência. De fato, a ciência e a técnica que
movem o mundo capitalista industrial, apesar de serem apresentadas
como ferramentas neutras, que poderiam servir a quaisquer propósitos,
são, na realidade, meios especificamente edificados para esse modelo
histórico de sociedade. Alguém poderia imaginar uma linha de produção de
carros num mundo que não os consumisse freneticamente? As pesquisas
com plantas e animais transgênicos só têm sentido dentro de um padrão
de alimentação dessa sociedade e, certamente, não seriam cogitadas se
não houvesse uma demanda por alimentos com alta rentabilidade
comercial típica do mundo atual. A crítica dos ecologistas é, então, não à
técnica e à ciência enquanto tais, mas ao projeto técnico que caracteriza a
sociedade industrial. As relações de dominação internas da socieda de e
seu progressivo afastamento de um equilíbrio com a natureza dependem hoje de
crescentes investimentos científicos, o que coloca a ciência como detentora
única da verdade e única via capaz de assegurar à humanidade sua
sobrevivência e satisfação das novas necessidades, a todo instante geradas
pelo modelo econômico capitalista. Isso implica, no plano político, que cidadãos
passam a ser desautorizados do direito de decisão sobre as fontes de energia,
de água ou sobre o destino do lixo nas cidades, uma vez que as decisões finais
sempre caberão aos técnicos. No plano simbólico, cria-se um falso conforto para
todos, segundo o qual as melhores decisões técnicas estão sendo tomadas e
que ninguém precisa se ocupar dos problemas a não ser os cientistas e
técnicos. Quando arrasamos um ecossistema para tirar minério, por exemplo, só
nos preocupamos em seguir as medidas estipuladas para o controle oficial dos
órgãos de meio ambiente, pois quaisquer problemas maiores serão resolvidos
tecnicamente no futuro.
. Essa fé na ciência está, sem dúvida, respaldada na suposição de que um homem
pode resolver indefinidamente seus problemas, valendo-se do seu conhecimento. Isso
equivale a dizer que o desenvolvimento econômico e o crescimento das cidades não
precisam ser limitados por nada, a não ser por contingências momentâneas e
superáveis. O debate de quase cinco décadas sobre o destino do lixo nuclear ilustra
claramente esse ponto, pois sua solução, até o momento inviável, é dada como certa
pela retórica que defende a energia atômica.
Bem, o impasse que se coloca para a humanidade hoje é, des um lado, o
crescente número de pessoas que não mais estão dispostas 'à se reger
exclusivamente pelos padrões atuais de consumo e ! tecnificação do planeta e,
de outro lado, ao mesmo tempo, a ampliação constante dos recursos da
produção técnico-científica, recusando-se qualquer limite de natureza política, ou
ética, como o debate sobre clonagem e transgênicos nos mostra de forma
exemplar. Portanto existe uma clara erosão da idéia de uma razão que não
conhece limites, justamente no momento em que todo poder é dado aos
técnicos de laboratório para forjar o admirável (?) mundo novo. Os limites estão
postos pelo debate social sobre se queremos uma tal sociedade, mas estão
postos de forma mais clara pela crise ambiental seguida de nossa incapacidade
de responder a ela com soluções mágicas, como se acreditou no passado.
.... No plano. prático, temos o desafio de pensar e implementar os limites do
crescimento social. Toda a premissa do planejamento urbano, por exemplo,
busca criar condições para viabilizar o crescimento das cidades visto como
inevitável, necessário e intrinsecamente bom, apesar dos conhecidos efeitos
nefastos da vida nas metrópoles. Por que não usar planejamento para pensar
limites do crescimento que garantam a qualidade de vida das cidades? De fato,
nem todas as montanhas têm de ser ocupadas, nem todas as áreas de baixo
adensamento têm de ser rasgadas por avenidas que atraem o crescimento, mas
que acabam por fugir ao próprio planejamento. Os interesses econômicos
ganham imediatamente, mas a sociedade perde em médio prazo. Se podemos
vislumbrar agora que florestas e águas limpas já se tornaram bens escassos,
não há motivo para submeter esses bens à lógica especulativa do momento,
mas sim devemos prepará-los para uma nova modalidade de interação entre os
seres humanos e a natureza, um desafio para o qual não existem manuais.
Cabe a nós inventar o caminho, lendo o código inscrito nos ciclos naturais.
Paradoxalmente, se a razão nos levou a esse impasse, talvez , tenha ela mesma
uma contribuição para solucioná-lo. Não essa ra zão cartesiana, que se afirma pela
contínua dominação do saber sobre os espaços desconhecidos da natureza,
nem mesmo essa cínica razão pós-moderna, que dá por perdido o caminho para
um mundo melhor e aconselha a saída individualista enquanto é tempo. Talvez
uma razão ligada ao seu sentido mais elementar de autonomia e
autoconsciência, como existia em suas origens no pensamento grego. A
autonomia é um estado de equilíbrio do ser, que pressupõe um completo
conhecimento dos seus limites e possibilidades. Assim, trata-se de retomar a
razão que se reconhece integrada a um cosmos o qual, por mais que seja conhecido,
nunca poderá ser dominado por completo, porque, aliás, não se trata de dominá-lo pelo
saber, mas de conhecê-lo para se equilibrar com ele. Esse é o nosso novo passo.