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A Ilha dos Amores

Tudo na paisagem está cheio de sensualidade, favorece o apetite, é um apelo a todos os


sentidos: visão, audição, olfato, paladar, tato. (c. IX, est. 54, 55, 56, 58, 59).

Tr ês fer mos os o ute i r os s e m ostr ava m,


Er gu id os co m s ob er ba gr a c ios a,
Q ue d e gr am ín e o es mal t e s e ad or na va m,
N a f erm os a Il h a, al egr e e d ele it osa.
Clar as f ont es e l í mp idas m ana va m
D o cu me, que a v er dur a t e m v iç osa ;
P or entr e p edr as al v as s e d ir i va
A s on or os a l in fa fu g it iv a.

N u m val e a me no , q ue os out e ir os fe nd e,
Vi nha m as cl ar as á g uas aj u ntar - se,
O nde hua m es a faz e m, q ue s e es ten de
T ão bel a q uan to p o de im ag inar - se.
Ar v or ed o g ent il s o b r e el a pe nde,
Co m o q ue pr o nt o es tá p er a a fe it ar - se,
Ven d o- s e no cr is tal r es pl an de cen te,
Q ue e m s i o es tá p i ntan do pr opr ia men te.

Mil ár v or es es t ão a o céu s ub in do ,
Co m po m os od or ífer os e bel os;
A lar anj e ir a te m n o fr u it o l ind o
A c or que t inh a D af ne n os cab elos .
E nc os ta - s e no chã o , es tá ca in do,
A c i dr e ir a cos pes os amar el o s;
Os fer m os o s l i m ões al i, che ir a nd o,
Es tã o v ir gí neas te ta s i mi tan d o.

Os dõ es q ue dá Po mo na al i Na tur a P o m o na : de u s a do s p o m a r e s
Pr o duz e, d i fer e ntes nos s ab or es,
Se m t e r n eces s i dad e de c ul t ur a,

(... )

As c er e ij as , pur púr e as na pi ntur a,


As a m or as , que o n o me te m d e a mor es,
O po m o q ue da p átr ia Pér s ia ve i o, P o m o - f r u to

(... )

Abr e a r o mã, mos tr a ndo a r u b icu nda


Cor , c om qu e t u, r u bi, teu pr e ç o per des;
E ntr e os br aç os d o ul me ir o está a j ocu nda
Vi de, c os ca ch os r o x os e o utr os ver d es;
E v ós , s e na v os s a á r vor e f ec unda ,
P er as pir am id ais , v i ver q u is er d es,
E ntr e ga i- vos ao da n o q ue cos b ic os
E m vós fa ze m os p á s s ar os in i cos. i n íqu os - pr e ver s os
Desembarcados os navegadores, a atmosfera de sensualidade adensa-se, o erotismo é
despertado: belas deusas, seminuas e astutas, aguardam os navegadores, umas tocando “doces
cítaras”, “algumas harpas e sonoras flautas” (c. IX, est. 64), num jogo de sedução a que os
navegadores não conseguem ficar indiferentes (c. IX, est. 71 e 72).

A est. 83 é um hino à sensualidade: “famintos beijos”, “mimoso choro”, “afagos tão suaves”,
“ ira honesta“, “risinhos alegres” “acompanham” as relações amorosas entre os navegadores e
as ninfas. O Amor é, por conseguinte, o maior prémio a que o homem pode aspirar.

Qual a mensagem que Camões pretende transmitir? Através da união entre navegadores e
ninfas, o humano e o divino equivalem-se: os deuses não existem, o que existe são homens que,
pelo seu valor, se tornam superiores.

O poeta mostra primeiramente, na est. 54, três outeiros, lá em cima, donde a água
límpida das fontes corre alegremente para o vale ameno (est. 55), onde as correntes se
juntam, formando um lago (como uma mesa) sobre o qual o arvoredo se debruça,
refletindo-se também nas águas cristalinas. Sucedem-se depois as árvores de fruto em
geral (mil árvores com pomos...) e algumas em particular, como a laranjeira, a cidreira,
o limoeiro (est.56). Vêm a seguir (est.61) as plantas ornamentais, primeiro em plano
geral, as flores, cujas cores igualam em beleza as da aurora, depois em planos
particulares, as violetas, o lírio, a rosa, a cecém (açucena), a manjerona, o jacinto, as
boninas (est. 62). Finalmente (est. 62-63) surgem os animais, primeiro em plano geral
(as aves no ar, os animais no chão), depois em planos particulares (o cisne, a filomela ou
rouxinol, a lebre, a gazela) e, regressando a um plano geral, o leve passarinho.
Nota-se, portanto, nesta parte do texto, uma disciplinada estruturação das ideias (como
é próprio dos clássicos) e uma gradação ascendente na importância dos seres
enumerados: natureza física (outeiros e vales -> natureza vegetal (árvores e flores) ->
natureza animal (animais aquáticos, aéreos e terrestres). Note-se que os três grandes
planos (físico, vegetal e animal) se continuam em gradação ascendente na segunda
parte do texto, com a intervenção dos navegadores e das deusas (plano humano e plano
divino). O conjunto do texto reflete, pois, a ordem e a harmonia de um cosmos
hierarquicamente organizado: o físico -> o vegetal -> o animal -> o humano -> o divino.
Esta harmonia traduzida na irmanação de mundos diferentes é ainda sugerida pela
animização ou personificação (formosa ilha alegre; sonora linfa fugitiva; arvoredo gentil
pronto para afeitar-se; os formosos limões virgíneas tetas imitando; a fresca rosa bela
que reluz nas faces da donzela; a cândida cecém, das matutinas lágrimas rociada;
pintando estava ali o Zéfiro e a Flora as violas). Esta tentativa de associar o mundo
vegetal ao animal e humano completa-se, na segunda parte do texto, com a associação
do mundo humano ao divino, na exaltante convivência dos navegadores com as ninfas,
contribuindo para a glorificação dos homens, que se tornaram heróis, pela façanha
realizada. Esta visão cósmica do mundo, cujo centro é ocupado pelo homem, o qual,
pelo domínio dos elementos físicos, se tornou igual aos deuses está bem dentro do
espírito renascentista.

O evoluir do assunto, partindo do mundo físico, passando pelo mundo vegetal e


animal, até ao mundo humano, a mudança contínua de planos (dos mais gerais para os
mais particulares), bem como a animização da paisagem mediante personificações, são
processos que dão à mensagem um notável impressionismo. Mas o que dá maior
visualidade à linguagem da primeira parte do texto é a expressividade de certas palavras
(sobretudo adjetivos) e expressões: formosos outeiros com soberba graciosa; de
gramíneo esmalte (metáfora); formosa ilha alegre e deleitosa; claras fontes e límpidas;
verdura viçosa; sonora linfa fugitiva (dupla adjetivação que associa a sensação sonora
ao movimento); vale ameno; claras águas; mesa tão bela quanto pode imaginar-se
(comparação hiperbólica); arvoredo gentil (personificação); o cristal resplandecente
(metáfora - a água é um cristal que está pintando ou refletindo o arvoredo); pomos
odoríferos e belos; a laranjeira tem no fruto lindo a cor que tinha Dafne nos cabelos (a
comparação não hiperboliza apenas a beleza das laranjas, mas também o seu gosto,
pois, assim como os cabelos de Dafne excitavam os desejos do seu amante Apolo,
também a beleza das laranjas excita o nosso paladar); formosos limões virgíneas tetas
imitando; fugace lebre; tímida gazela; leve passarinho. O uso dos tempos verbais
(presente e imperfeito) confere também visualidade à linguagem, pois um e outro
apresentam a ação a decorrer (no presente ou no passado), como se pode observar no
exemplo: a laranjeira tem no fruto lindo a cor que Dafne tinha nos cabelos. Esta sugestão
do fluir do tempo é ainda dada pelo gerúndio e pela perifrástica: vendo-se, está
pintando, estão subindo, está caindo, estão imitando, pintando estava, cantando voam
(aspeto durativo tanto no verbo cantar, como no voar).
Depois da descrição da Ilha, o poeta revela o espanto dos navegadores perante a visão
inesperada das ninfas e das suas reações maliciosas, aparentemente ingénuas, e
descreve a convivência dos nautas com as ninfas.

Nesta segunda parte do texto (64 a 84), nota-se uma nítida sensação de movimento,
dada sobretudo pela mudança de espaços focados. O poeta foca alternadamente os
navegadores e as ninfas, que, no princípio, ocupavam espaços diferentes. Há, portanto,
a sequência alternada de dois planos de descrição: o plano dos navegadores e o plano
das ninfas. Só a partir da est. 70 é que os dois planos se confundem.
Mesmo em cada um dos dois grandes planos focados, há ainda subplanos, isto é,
distinção de espaços menores, sugeridos pelas formas pronominais (deíticas): alguas...
alguas... outras; alguns... outros; de ua... ua; outros... tal; uas... outra... Se um cineasta
fizesse a filmagem destas cenas, teria de estar continuamente a mudar a focagem da
sua objetiva ou usar mesmo várias câmaras. Já se vê, portanto, a razão por que esta
descrição-narração nos dá tão claramente a sensação do movimento. O dinamismo do
texto é ainda conseguido pela intervenção humorística de Veloso: Senhores, caça
estranha é esta ... sigamos estas deusas... E as ninfas provocam uma espécie de jogo das
escondidas com os navegadores, veloces mais que gamos ... fugindo as ninfas vão por
entre os ramos, mais industriosas que ligeiras, sorrindo e gritos dando, se deixam ir dos
galgos alcançando.

Neste movimentado jogo galanteador entre homens e ninfas, é admirável a psicologia


feminina posta aqui à prova, com o objetivo de dar cumprimento à recomendação de
Tétis: que se fizessem primeiro desejadas. Daí o facto de andarem dispersas pela floresta,
como incautas, fingindo que seguiam animais, fugindo por entre os ramos, mas mais
industriosas que ligeiras ... sorrindo e gritos dando, se deixam ir alcançando... Daí
também o facto de se deixarem cair de propósito, de se mostrarem nuas e logo se
cobrirem, para não se revelarem demasiadamente atrevidas. Estas belas divindades
surgem-nos aqui como uma espécie de confluência do sensual com o espiritual, do
humano com o divino.