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Manual de
TERAPIA
FAMILIAR

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M489 Manual de terapia familiar [recurso eletrônico] / Luiz Carlos


Osorio e Maria Elizabeth Pascual do Valle (org). – Dados
eletrônicos. – Porto Alegre : Artmed, 2009.

Editado também como livro impresso em 2009.


ISBN 978-85-363-1827-1

1. Terapia familiar - Manual I. Osorio, Luiz Carlos. II. Valle,


Maria Elizabeth Pascual do.

CDU 615.85(035)

Catalogação na publicação: Renata de Souza Borges CRB-10/Prov-021/0

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Manual de
TERAPIA
FAMILIAR

Luiz Carlos Osorio


Maria Elizabeth Pascual do Valle
e colaboradores

Reimpressão

2009

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© Artmed Editora S.A., 2009.

Capa
Alan Heinen, finalizada por Henrique C. Caravantes

Preparação do original
Márcia da Silveira Santos

Leitura final
Carlos Henrique Lucas Lima

Supervisão editorial
Mônica Ballejo Canto

Projeto e editoração
Armazém Digital Editoração Eletrônica – Roberto Vieira

Reservados todos os direitos de publicação, em língua portuguesa, à


ARTMED EDITORA S.A.
Av. Jerônimo de Ornelas, 670 – Santana
90040-340 – Porto Alegre, RS
Fone: (51) 3027-7000 Fax: (51) 3027-7070

É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, no todo ou em parte,


sob quaisquer formas ou por quaisquer meios (eletrônico, mecânico, gravação,
fotocópia, distribuição na Web e outros), sem permissão expressa da Editora.

SÃO PAULO
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Fone: (11) 3665-1100 Fax: (11) 3667-1333

SAC 0800 703-3444

IMPRESSO NO BRASIL
PRINTED IN BRAZIL

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À Mathilde Neder
Pioneira da Terapia Familiar no Brasil

A meus pais
Alcindo e Branquinha
A meus irmãos
Eneida e Gilberto
A meus filhos
Desirée, Pierre e Marcel
A ti Osorio
Minha família

A meus pais
Carlos e Ruth
A minhas irmãs
Maria Helena e Marta
A meus irmãos do coração
Vera Regina e Marcos
A meu filho, nora e netos
Fernando, Denise, Felipe e Rafael
A minha amada
Beth

Por meio dos quais homenageamos as famílias dos demais autores deste livro.

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Autores

Luiz Carlos Osorio (org.).


Médico, com especialização em psiquiatria UFRGS, psicanalista titulado pela IPA,
grupoterapeuta com formação em psicodrama (com Olga Garcia, Argentina) e em terapia
familiar (com Maurizio Andolfi, Itália), consultor de sistemas humanos, fundador e diretor
técnico da GRUPPOS, entidade formadora de grupoterapeutas e terapeutas de famílias
(Florianópolis, SC).
Maria Elizabeth Pascual do Valle (org.).
Médica, psiquiatra, terapeuta de família, mestre em administração (UFRGS), sócia-fundadora e
presidente da Associação Catarinense de Terapia familiar (ACATEF), gestão 2006-2008. Curso
em terapia familiar pela Universidade de Santa Bárbara, Califórnia, EUA. Coordenadora do
curso de pós-graduação em terapia familiar – GRUPPOS (reconhecido pelo MEC).

Adriana Mattos Fráguas do Núcleo de Estudos em Saúde Mental e


Psicóloga. Terapeuta de família, casal e Psicanálise das Configurações Vinculares/
individual. Sócia-fundadora e formadora NESME. Coordenadora da área de Família e
no Sistemas Humanos. Membro APTF. Casal/NESME. Cordenadora e docente do
curso de especialização/NESME.
Adriana Selene Zanonato
Ceneide Maria de Oliveira Cerveny
Psicóloga. Terapeuta familiar e de casais.
Especialista em terapia cognitivo-compor- Professor Doutor do programa de Pós-Gradua-
tamental. Professora e supervisora do Insti- ção em Psicologia Clínica da PUC-SP. Pesquisa-
tuto da família de Porto Alegre – INFAPA. dor. Psicólogo. Terapeuta de família. Docente e
supervisor de cursos de formação em terapia
Alexandre Coimbra Amaral familiar e de casal – PUC – FAMERP – UNIFESP.
Psicólogo. Mestre em psicologia clínica pela Cristiana Mercadante Esper Berthoud
Pontifícia Universidade Católica do Chile.
Psicóloga, pesquisadora e consultora em
Terapeuta familiar, de casal e individual.
avaliação. Pós-doutora pela University of
Diretor e supervisor clínico do Instituto
Minnesota. Doutora pela PUC-SP. Docente na
Humanitas, centro formador de terapeutas
Universidade de Taubaté.
familiares em Salvador, BA. Professor de Pós-
graduação em Psicologia conjugal e familiar Cristina Maria de Souza Brito Dias
da Faculdade Ruy Barbosa (Salvador-BA).
Doutora e mestre em Psicologia pela Universi-
Ana Margarida Tischler Rodrigues da Cunha dade de Brasília. Especialista em terapia
Familiar e de casal. Professora e pesquisadora
Psicóloga. Psicoterapeuta individual, família, da Universidade Católica de Pernambuco.
casal e de grupo/IPAG(SP). Membro efetivo Bolsista de Produtividade em pesquisa CNPq.

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viii | Autores

Cynthia Ladvocat Helena Centeno Hintz


Mestre em Psicologia de família e de casal na Psicóloga. Psicoterapeuta individual, de casal
PUC-Rio. Especialista em geriatria e geronto- e família. Coordenadora do Domus – centro
logia na UFF. Formação na Sociedade de de terapia e família. Presidente da Associação
Psicoterapia de Grupo do Rio de Janeiro. Gaúcha de Terapia Familiar 2002-2004 e
Membro docente da Sociedade Psicanalítica 2006-2008. Vice-presidente da Associação
do Rio de Janeiro. Direção do Instituto Brasileira de Terapia Familiar 2006-2008.
Mosaico. Membro da European Family
Therapy Association. Coordenadora da Helena Maffei Cruz
Comissão de formação da ABRATEF – 2006/ Mestre em Psicologia clínica e terapeuta
2008. familiar. Psicóloga. Socióloga.

Daniela Reis e Silva José Ovidio Copstein Waldemar


Psicóloga clínica e hospitalar. Especialista em Psiquiatra de adultos, adolescentes, famílias e
medicina psicossomática e terapia familiar. casais pela Universidade do Estado de Nova
Mestranda em psicologia clínica – PUC/SP. York e Instituto Ackerman, EUA. Mestre em
Sócia-fundadora e titular da ATEFES-Associa- terapia familiar pela Accademia di Terapia
ção de Terapia Familiar do Espírito Santo. Familiare – Roma, Itália.
Coordenadora do grupo API/ES – Apoio a
perdas irreparáveis Laurice Levy
Mestre em psicologia clínica PUC/RJ. Psicólo-
Dilson Cesar Marum Gusmão ga. Psicanalista (IPA/Associação Internacional
Educador. Psicodramatista. Terapeuta familiar. de Psicanálise). Terapeuta de família, casais,
Arte-Terapeuta. crianças e adolescentes e grupos. Supervisora
pela Núcleo-pesquisas RJ. Didata e docente
Doralice Oliveira Gomes de psicodrama pela FEBRAP (Federação
Psicóloga. Terapeuta comunitária. Brasileira de Psicodrama) e Delphos Espaço
Psico-Social. Professora-supervisora de
Eliete Teixeira Belfort Mattos família. Especialista em psicologia clínica pelo
Terapeuta de família e casal. Assistente CFP. Diretora-adjunta da ATF/Rio (Associação
Social. Co-fundadora, didata, supervisora do de Terapia de Família do Rio de Janeiro)
Sistemas Humanos. biênio 2006-2008.

Elizabeth Polity Liana Fortunato Costa


Psicopedagoga. Terapeuta de casal e família. Doutora em psicologia clínica pela USP.
Doutora em psicologia. Mestre em educação. Psicóloga. Terapeuta conjugal e familiar.
Psicodramatista.
Flávio Lôbo Guimarães
Psicólogo, terapeuta de famílias e casais. Luciana Monteiro Pessina
Mestre em psicologia clínica pela Universida- Psicóloga. Psicoterapeuta. Terapeuta de
de de Brasília, tendo pesquisado, publicado famílias e casais em formação.
artigos científicos e ministrado palestras
sobre os temas da adolescência, família e Luiz Carlos Prado
justiça. Supervisor do estágio em psicologia Médico psiquiatra. Terapeuta de casais e
jurídica e professor na UNIP. Presidente da famílias. Professor e supervisor do Instituto
Associação Regional de Terapia Familiar do da Família de Porto Alegre – INFAPA. Presi-
Centro-Oeste dente da Associação Brasileira de Terapia-
Familiar – ABRATEF (gestão 2006/08).
Gilzacarla Alcântara dos Santos
Bacharel em Psicologia e aluna concluinte da Marcos Naime Pontes
formação em psicologia clínica pela Universi- Médico Psiquiatra. Professor . Formador do
dade Católica de Pernambuco. Sistemas Humanos. Terapeuta de família e casal.

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Autores | ix
Maria Beatriz Rios Ricci UnB. Coordenadora do Programa de
Doutora e Mestre em Serviço Social e Pós- Estudos e Atenção às Dependências Químicas
doutora pela UnB. Especialista em terapia (PRODEQUI/PCL/IP/UnB). Pesquisadora do
familiar, em violência doméstica contra a CNPq em temas como Adolescência, Droga-
criança e o adolescente e em ciência política. dição, Adolescentes em Conflito com a Lei e
Professora-titular da PUC Minas. Sócia-titular Psicologia Jurídica. Doutora em Psicologia
da AMITEF. pela Universidade de Paris XIII. Pós-doutora
em Psicossociologia pela Universidade Paris
Maria Cecilia Veluk Dias Baptista VII. Terapeuta de famílias e adolescentes.
Psicóloga. Pós-graduada em psicologia social.
Maria Gabriela Mantaut Leifert
Psicodramatista – FEBRAP. Professora-super-
visora de psicodrama – FEBRAP. Terapeuta de Psicóloga. Mestre em Psicologia Social (USP).
família. Diretora-presidente do Delphos Espaço Terapeuta de casal e família.
Psico-social/RJ. Coordenadora do curso de
Maria Henriqueta Camarotti
especialização de terapia de casal e família do
Delphos. Membro do conselho deliberativo e Neurologista. Psiquiatra. Mestre em
científico da ABRATEF (2006/2008). psicologia. Psicoterapeuta da Gestalt Terapia.
Terapeuta comunitária. Formadora da terapia
Maria Cecilia Rocha da Silva comunitária no Brasil e no exterior. Diretora
Psicóloga. Psicoterapeuta individual e de de cursos do MismecDF e Diretora de comuni-
grupo (família e casal). Formação em grupo cação da Abratecom.
no Núcleo de Estudos em Saúde Mental e
Maria José Esteves de Vasconcellos
Psicanálise das Configurações Vinculares
(NESME) e no curso Intervenção no campo Mestre em psicologia pela UFMG. Terapeuta,
da família (PUC-SP). Membro efetivo do formadora e pesquisadora da EquipSIS –
NESME onde é docente e membro da área da Equipe Sistêmica, Belo Horizonte. Coordena-
família. dora e Professora do curso de Pós-Graduação,
Especialização em Atendimento Sistêmico de
Maria Cristina Lopes de Almeida Amazonas Famílias e Redes Sociais, da PUC-Minas.
Doutora em psicologia: área de concentração:
Marilda Goldfeder
família e saúde, pela universidade de Deusto,
Espanha. Psicóloga clínica. Psicoterapeuta individual,
de casal e família pela PUCSP. Membro efetivo
Maria Cristina Milanez Werner do NESME. Coordenadora da clínica do
Psicóloga. Sexóloga. Terapeuta de casal e NESME. Docente e membro da área de
família. Presidente do IPHEM (Instituto de família.
Pesquisas Heloisa Marinho). Mestre em
Marilene A. Grandesso
psicologia clínica pela PUCRJ. Doutoranda em
Saúde Mental (estágio probatório) no IPUB/ Doutora em Psicologia clínica. Especialista
UFRJ. Vice-Presidente da ATF-Rio (Associação em terapia familiar e de casal. Terapeuta
de Terapia de Família do Rio de Janeiro) nas comunitária.
gestões 2004-2006 e 2006-2008. Coordena-
dora do ambulatório de terapia familiar e Marilza Terezinha Soares de Souza
sexualidade do GEAL/UFF (em parceria com Psicóloga. Doutora em psicologia clínica
o IPHEM). Membro do CEMEVISCA (Comitê pela PUC/SP. Mestre em saúde mental pela
Municipal de Enfrentamento à Violência Unicamp. Terapeuta familiar com especializa-
Sexual e Comercial contra Crianças e Adoles- ção pelo Chicago Center for Family Health –
centes na Cidade do Rio de Janeiro). USA.

Maria Fátima Olivier Sudbrack Marli Olina de Souza


Professora titular do Departamento de Assistente Social. Psicóloga. Sexóloga. Mestre
Psicologia Clínica, Instituto de Psicologia, em Teologia.

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x | Autores

Nina Vasconcelos de Oliveira Guimarães de Casais (Cogeae), PUC-SP. Terapeuta de


Psicóloga. Terapeuta Sistêmica(família, casal, Família e de Casais.
indivíduo). Mestre em família na sociedade
Rosana Galina
contemporânea (Vesal-BA). Professora e
supervisora de graduação e pós-graduação da Terapeuta de casal e família. Mestre em
Faculdade Ruy Barbosa (BA). Co-diretora do psicologia. Psicodramatista. Membro da
Instituto Humanitas de Pesquisa e Interven- Associação Paulista de Terapia Familiar.
ção em Sistemas Humanos (BA).
Roseli Righetti
Olga Garcia Falceto Psicóloga. Terapeuta familiar. Sócia-fundado-
Psiquiatra da Infância e adolescência – ra e docente do Instituto Familiae.
Philadelphia Child Guidance, Universidade da
Ruth Blay Levisky
Pennsylvania, EUA. Mestre em terapia
familiar – Accademia di Terapia Familiare – Psicóloga. Terapeuta de casal e família.
Roma, Itália. Doutora em clínica médica – Grupo-analista. Doutora em genética humana
programa de pós-graduação em clínica (USP). Membro efetivo do NESME, da
médica da Faculdade de Medicina da UFRGS. Sociedade Internacional de Psicanálise de
Professora-adjunta do departamento de Casal e Família e da Associação Paulista de
psiquiatria e medicina legal da Faculdade de Terapia Familiar.
Medicina da UFRGS. Professora do Instituto
da Família de Porto Alegre.
Sandra Fedullo Colombo
Especialista em terapia familiar e de casal.
Reges Chagas Gomes Professora e formadora no Instituto Sistemas
Terapeuta familiar e de casal. Coordenador e Humanos – Núcleo de estudos e prática
supervisor da Clínica Holon Espaço Dinâmico – sistêmica.
Belo Horizonte/MG. Sócio-fundador e titular
da AMITEF.
Solange Maria Rosset
Psicóloga. Especialista em terapia
Rosa Maria Stefanini Macedo psicodramática, terapia corporal e em
Doutora em Psicologia Clínica. Pós-doutora terapia sistêmica. Psicoterapeuta relacional
em Terapia Familiar. Professora titular do sistêmica, individual, de família, de casal
Programa de Pós-graduação em Psicologia e de grupos. Professora e supervisora de
Clínica, PUC-SP. Coordenadora do Núcleo cursos de especialização e formação
Família e Comunidade, PUC-SP. Coordenadora profissional para terapeutas, em terapia
do Curso de Formação em terapia Familiar e relacional sistêmica.

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Sumário

Apresentação: o porquê deste livro ................................................................................... 15


Luiz Carlos Osorio e Maria Elizabeth Pascual do Valle
Prefácio ............................................................................................................................... 17
Luiz Carlos Prado

parte I

A família: origem e destino das terapias familiares

1. Ciclo vital da família brasileira ..................................................................................... 25


Ceneide Maria de Oliveira Cerveny e Cristiana Mercadante Esper Berthoud

2. Comunidade e família .................................................................................................. 38


Dilson Cesar Marum Gusmão

3. Os impactos da migração para a família: uma temática contemporânea .................. 47


Maria Gabriela Mantaut Leifert

4. Questões de gênero na terapia de família e casal ...................................................... 58


Rosa Maria Stefanini Macedo

5. Conjugalidades interculturais e relações de gênero ................................................... 74


Maria Cristina Lopes de Almeida Amazonas,
Cristina Maria de Souza Brito Dias e Gilzacarla Alcântara dos Santos

p a r t e II

Marcos referenciais teórico-práticos das terapias familiares

6. A terapia familiar no Brasil ........................................................................................... 91


Helena Centeno Hintz e Marli Olina de Souza

7. Desenvolvimentos em terapia familiar: das teorias


às práticas e das práticas às teorias ......................................................................... 104
Marilene A. Grandesso

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12 | Sumário

8. A psicanálise das configurações vinculares e a terapia familiar ............................... 119


Ana Margarida Tischler Rodrigues da Cunha, Maria Cecilia Rocha da Silva,
Marilda Goldfeder e Ruth Blay Levisky

9. O psicodrama e a terapia familiar .............................................................................. 139


Maria Cecilia Veluk Dias Baptista

10. Cibernética e terapia familiar: que relação distinguimos hoje? ................................ 150
Maria José Esteves de Vasconcellos

11. Terapia de casais com enfoque cognitivo-comportamental ...................................... 164


Adriana Selene Zanonato e Luiz Carlos Prado

12. Neurociências e terapia familiar ................................................................................ 184


Maria Elizabeth Pascual do Valle

13. Terapia familiar e resiliência ...................................................................................... 193


Marilza Terezinha Soares de Souza

14. Terapia familiar e educação: conversações que ampliam ........................................ 208


Elizabeth Polity

15. Terapia comunitária: a circularidade nas relações sociais ........................................ 218


Maria Henriqueta Camarotti e Doralice Oliveira Gomes

p a r t e III

Terapias de famílias em distintas configurações familiares

16. Famílias com bebês ................................................................................................... 235


Olga Garcia Falceto e José Ovidio Copstein Waldemar

17. Terapia de famílias com crianças pequenas ............................................................. 247


Helena Maffei Cruz e Roseli Righetti

18. Famílias com adolescentes ....................................................................................... 263


Solange Maria Rosset

19. Famílias com filhos de casamentos anteriores ......................................................... 273


Nina Vasconcelos de Oliveira Guimarães e Alexandre Coimbra Amaral

20. Famílias com filhos adotivos ...................................................................................... 286


Cynthia Ladvocat

21. Famílias com idosos .................................................................................................. 313


Eliete Teixeira Belfort Mattos

p a r t e IV

Terapias de famílias com problemas específicos

22. Disfunções familiares ................................................................................................. 323


Luiz Carlos Osorio

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Sumário | 13
23. Famílias e transtornos alimentares ........................................................................... 334
Adriana Mattos Fráguas

24. Famílias e psicoses ................................................................................................... 343


Marcos Naime Pontes

25. Famílias, adolescência e drogadição ........................................................................ 350


Flávio Lôbo Guimarães, Liana Fortunato Costa, Luciana Monteiro Pessina
e Maria Fátima Olivier Sudbrack

26. Famílias e situações de ofensa sexual ...................................................................... 366


Maria Cristina Milanez Werner

27. Famílias e situações de luto ...................................................................................... 376


Daniela Reis e Silva

parte V

Peculiaridades das terapias de casais

28. O casamento e as relações extraconjugais .............................................................. 401


Luiz Carlos Prado

29. Separação como resultado da difícil arte de negociar .............................................. 416


Rosana Galina

30. Casais recasados ...................................................................................................... 423


Luiz Carlos Osorio e Maria Elizabeth Pascual do Valle

31. Casais homossexuais ................................................................................................ 431


Reges Chagas Gomes

p a r t e VI

A formação do terapeuta de famílias

32. O papel do terapeuta em terapia familiar .................................................................. 443


Sandra Fedullo Colombo

33. A formação do terapeuta de famílias ......................................................................... 462


Cynthia Ladvocat e Maria Beatriz Rios Ricci

34. As questões éticas em terapia familiar ...................................................................... 470


Laurice Levy

Índice ................................................................................................................................ 484

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Apresentação

O PORQUÊ DESTE LIVRO Embora estejam surgindo cada vez


mais publicações nacionais sobre terapia
A terapia familiar no Brasil alcançou sua familiar (artigos em revistas especializadas
maioridade. Há mais de 25 anos, profis- ou livros sobre o tema), elas ainda estão
sionais oriundos de outras vertentes teó- aquém da demanda dos estudiosos da área.
rico-técnicas, como a psicanálise e o psico- Por outro lado, está evidente a falta de uma
drama, ou egressos há pouco de cursos de obra abrangente, na qual uma parcela sig-
graduação, atraídos pelo paradigma sis- nificativa dos mais representativos autores
têmico-cibernético então emergente e sua sobre terapia familiar no país pudesse com-
face clínica – a terapia familiar sistêmica –, por um painel com suas principais con-
foram buscar no exterior capacitação para tribuições. É esta a proposta básica deste
exercê-la. livro.
Desde então, a terapia familiar expan- Junto com a Artmed, que se destaca
diu-se muito, não só no Brasil como também no mercado editorial brasileiro pela publi-
nos demais países ocidentais, ultrapassando cação de obras fundamentais na área das
qualquer expectativa dos pioneiros na área. ciências da saúde, nos propusemos a pu-
Seja na prática clínica, seja na pes- blicar este Manual com o intuito de torná-
quisa acadêmica a evolução da terapia fami- lo uma referência na bibliografia no Brasil
liar no Brasil já a situa na vanguarda da sobre terapia familiar.
especialidade no mundo. Esse reconheci- Para usufruto dos leitores, em suas
mento tem sido expressado nos encontros mãos, uma obra ímpar do pensamento dos
internacionais e nos intercâmbios com pro- terapeutas familiares brasileiros nesta pri-
fissionais de diferentes procedências. meira década do século XXI.

Luiz Carlos Osorio


Maria Elizabeth Pascual do Valle
Organizadores

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Prefácio

Prefaciar o primeiro Manual de terapia fa- migração para as famílias, tomando um


miliar organizado no Brasil é uma grande caso clínico como exemplo e concluindo
honra, mas também um grande desafio. que se deve “ampliar o conhecimento sobre
Aceitei-o consciente de minha responsabi- as explicações psicossociais que os desloca-
lidade diante da difícil tarefa de sintetizar mentos provocam nos indivíduos”. Ainda
um livro dessa relevância, que percorre as nessa parte inicial, Rosa Macedo reflete so-
principais questões da terapia familiar, pen- bre as implicações das questões de gênero
sadas por alguns dos nomes mais repre- nas famílias e na terapia familiar. O capítulo
sentativos de nossa área. Voltado para a intitulado Conjugalidades interculturais e
formação de terapeutas, este Manual de te- relações de gênero, escrito por Maria Cris-
rapia familiar apresenta textos que podem tina Amazonas, Cristina Maria Dias e Gilza-
ser de grande valia para todos que traba- carla Alcântara dos Santos, completa essa
lham com famílias e casais, dentro dos mais primeira parte do livro, abordando as com-
variados enfoques. A maioria de seus au- plexidades dos casamentos entre mulheres
tores são formadores ou pesquisadores em brasileiras e homens estrangeiros. Relatam
terapia familiar – como tal, são especialis- uma pesquisa sobre o tema em que são exa-
tas em lançar sementes de conhecimento minados, entre outras questões, os aspectos
que, no terreno fértil de todos que buscam negativos e positivos desses casamentos.
algum aprendizado ou informação, possam A segunda parte dedica-se aos mar-
brotar e crescer como plantas que alimen- cos referenciais teórico-práticos das tera-
tam e enriquecem. pias familiares. No primeiro capítulo des-
A primeira parte deste Manual está sa divisão, Helena Hintz e Marli Olina de
dedicada à origem e ao destino das tera- Souza fazem um passeio pela história da
pias familiares. No primeiro capítulo, terapia familiar, desde os seus pioneiros até
Ceneide Cerveny e Cristiana Berthoud nossos dias, incluindo um relato dos cami-
abordam o ciclo vital da família brasileira, nhos percorridos pelos terapeutas, institui-
traçando um retrato da família contempo- ções formadoras e associações de terapia
rânea em nosso país e questionando se familiar no Brasil. Em seguida, Marilene
existe uma “outra família” nesse início de Grandesso aborda os desenvolvimentos em
século. Contando histórias muito ricas, terapia familiar, das teorias às práticas e das
Dilson Gusmão examina algumas relações práticas às teorias. Revendo a terapia fa-
entre comunidade e família, ilustrando-as miliar desde sua origem, chega às terapias
com interessantes vinhetas clínicas. Maria narrativas e às abordagens críticas pós-
Gabriela Leifert reflete sobre o impacto da modernas. Segundo a autora, “a prática das

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18 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

terapias ditas pós-modernas envolve um melhor instrumentar-se em seu trabalho


trânsito do terapeuta entre teorias e práti- clínico com famílias. Na sequência, Maria
cas de modo epistemologicamente coeren- Elisabeth do Valle aborda as contribuições
te, de acordo com os meios que se lhe apre- das neurociências para a terapia familiar.
sentem mais úteis e despertem seu entusi- Segundo essa autora, “as novas descobertas
asmo e sua criatividade”. sobre a plasticidade cerebral, neogênese,
Na sequência, colegas da equipe do conectividade neuronal e sobre outros
Núcleo de Estudos em Saúde Mental e Psica- aportes das neurociências nos abrem no-
nálise das Configurações Vinculares – vas perspectivas e novas esperanças” a res-
NESME – expõem e refletem sobre o seu peito de como lidar com situações de vio-
modelo de trabalho com casais e famílias. lência ou de estresse físico e mental.
Esse grupo sugere a substituição do enfo- No capítulo seguinte, Marilza de Sou-
que no indivíduo pelo “olhar dirigido para za reflete sobre terapia familiar e resiliência,
o sistema de interação”, integrando o traba- enfatizando as estratégias preventivas no
lho com um “enfoque grupal que se esten- atendimento familiar. Afirma que as várias
de para incluir a escola, as famílias de ori- escolas de terapia familiar têm evoluído no
gem, as instituições, a cultura”. A psicaná- sentido de entender as adversidades en-
lise das configurações vinculares, segundo frentadas pelas famílias, como eventos
os autores, integra a intra, a inter e a trans- novos da vida. Trabalhando com base na
subjetividade e “lança mão das teorias resiliência e de modo multidisciplinar, o
sistêmicas e de técnicas psicodramáticas”. terapeuta pode, na visão da autora, eliciar
Maria Cecília Baptista aborda as in- os melhores recursos de cada família. Em
tersecções entre o psicodrama e a terapia Terapia familiar e educação, conversas que
familiar, examinando a prática do sociogra- ampliam, Elisabeth Polity examina a histó-
ma de casais e famílias – definido como ria da interação entre escola e família, de-
uma “categoria à parte da terapia indivi- finindo ambas como “sistemas de vínculos
dual e da terapia de grupo”, que trabalha afetivos” que têm em comum o trabalho
com a profundidade dos laços familiares e com a aprendizagem do ser humano. Nes-
de casal. As relações entre a cibernética e a se capítulo, aborda os desafios da educa-
terapia familiar são examinadas por Maria ção em nosso tempo e o lugar do terapeuta
José Vasconcelos, num capítulo que revisa nesse contexto: na escola de hoje, “não
com muita precisão todos os conceitos re- podemos mais nos limitar a exigir que o
lacionados ao tema. Em sua profunda aná- aluno aprenda a matéria sem levar em con-
lise, a autora sugere o termo “novo- ta as questões afetivas e relacionais”. Fi-
paradigmático” como a melhor forma de nalmente, o capítulo escrito por Maria
definir o pensamento sistêmico, no qual Henriqueta Camarotti e Doralice Gomes,
distingue, “além do pressuposto construti- enfoca os enriquecedores aportes da tera-
vista, os pressupostos da complexidade e pia comunitária para a terapia familiar.
da instabilidade do mundo”. Segundo as autoras, a terapia comunitária
No capítulo seguinte, Adriana Zano- permite que as famílias sejam cuidadas sem
nato e Luiz Prado abordam o enfoque cog- perder de vista sua identidade e suas raízes
nitivo-comportamental com casais sob um culturais. Concluem enfatizando que “a
ponto de vista que integra essa abordagem terapia comunitária e a terapia familiar
com a sistêmico-familiar. Postulam que as contribuem mutuamente com a saúde so-
diferentes abordagens são como culturas cial”, ampliando a visão e as alternativas
diversas e que o terapeuta familiar deve de solução.
munir-se do maior número possível delas, A terceira parte trata da terapia fami-
desde que possam ser integradas, para liar em distintas configurações familiares,

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Manual de terapia familiar | 19


iniciando-se com as famílias com bebês, Iniciando pela história da adoção, aborda
enfocadas por Olga Falceto e José Ovídio as questões da infertilidade, das crianças
Waldemar através do relato de uma impor- abandonadas e do vínculo de apego, exa-
tante pesquisa realizada em um bairro da minando vários aspectos da prática da te-
cidade de Porto Alegre. Ilustram o traba- rapia familiar com essas famílias. Conclui
lho com exemplos clínicos e enfatizam al- com uma afirmação muito otimista: “crian-
guns resultados relevantes para os servi- ças e adolescentes que por uma fatalidade
ços públicos de saúde, como a grande inci- foram afastadas de sua família de origem
dência de padrões disfuncionais pais/be- têm o direito de se sentirem verdadeira-
bês e de ausência paterna nessas famílias. mente adotadas e amadas”. O importante
Propõem, a partir disso, sugestões úteis pa- trabalho de Eliete Belford de Mattos sobre
ra que essas distorções possam ser corrigi- as famílias com idoso encerra essa parte da
das, diminuam-se gastos desnecessários e obra. Nesse capítulo, a autora ressalta a
se previnam problemas no desenvolvimen- importância do tema em função do cres-
to psicossocial das crianças. Na sequência, cente número de idosos e examina aspec-
Helena Maffei Cruz e Roseli Righetti nos tos do atendimento familiar nessa etapa do
trazem seu criativo trabalho sobre famílias ciclo vital. Enfatiza como, nos dias de hoje,
com crianças pequenas. Lançando mão da “o indivíduo considerado idoso não está
metáfora da “brinquedoteca”, fazem um mais no fim da vida, tem ainda uma longa
passeio por alguns enfoques importantes caminhada pela frente”.
para o trabalho nessa etapa da família e ilus- A quarta parte desse livro trata da te-
tram com exemplos suas “conversas tera- rapia de famílias com problemas específicos,
pêuticas” com crianças pequenas e seus pais. iniciando-se com Luiz Carlos Osorio, um
Solange Rosset aborda as questões dos organizadores deste livro, que traz um
relativas às famílias com adolescentes, tra- capítulo sobre as disfunções familiares. Nes-
zendo seu enfoque “relacional-sistêmico” se trabalho, destaca alguns temas como o
para abordá-las. Sugere que os pais e fi- divórcio, as rupturas familiares, as disfun-
lhos adolescentes devem ser fortalecidos ções dos vínculos nas famílias rígidas, de-
para lidarem com as dificuldades reais, masiado flexíveis, aglutinadas e dispersas,
“sem ficarem presos nos jogos de culpas, e a difícil condição daquelas com violên-
desculpas, punições e retaliações”. O capí- cia, abuso sexual e abandono. Conclui com
tulo seguinte, escrito por Nina Guimarães a corajosa afirmação de que “é nos lares
e Alexandre Amaral, trata das famílias com que se origina a violência nossa de cada
filhos de casamentos anteriores. Fazendo dia”. Em seguida, Adriana Fráguas aborda
uma revisão do tema desde a viuvez ao o tema das famílias com transtornos ali-
processo de separação, chegam às vicissi- mentares, examinando os conceitos de
tudes das famílias reconstituídas, sobre as anorexia e bulimia, com ênfase na análise
quais tecem importantes reflexões clínicas. de seus contextos familiares. Para traba-
Segundo os autores, “a possibilidade de lhar com essas famílias, sugere que se cons-
refazer a vida afetiva familiar surge como truam contextos colaborativos, espaços
uma redenção da impermanência da esco- relacionais em que “o novo possa emergir
lha conjugal”, e o recasamento pode recu- e transformar as narrativas, impregnadas
perar forças da família, possibilitando ao de culpabilidade, em novas narrativas, que
novo casal trilhar novos caminhos relacio- signifiquem crescimento”.
nais, com a ajuda de terapeutas flexíveis e Marcos Naime Pontes escreve sobre
criativos. famílias com psicoses, enfocando a história
Cynthia Ladvocat nos traz um denso dessas famílias e os esforços terapêuticos
trabalho sobre famílias com filhos adotivos. para abordá-las. Reflete sobre as crenças

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20 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

familiares que engessam tais famílias, ins- A quinta parte do Manual trata das
tando o terapeuta a trabalhar “aberto para pecularidades das terapias de casais, ini-
o desconhecido”, com criatividade e espe- ciando-se por um capítulo de Luiz Carlos
rança, em busca de novos caminhos para Prado sobre o casamento e as relações
essas famílias tão carregadas de dores, as extraconjugais, em que aborda o impacto
quais deverão ser suportadas pelo tera- dessas relações sobre o casamento, ilus-
peuta. Em seguida, o difícil tema famílias, trando o tema através do filme Infiel, de
adolescência e drogadição é abordado pelo Ingmar Bergman. O autor propõe que, nes-
grupo de Brasília – Flávio Guimarães, Liana ses casos, seja realizada uma “radiografia
Fortunato Costa, Luciana Pessina e Maria das relações extraconjugais”, que verifica,
Fátima Sudbrack. Num trabalho denso, através de dez itens, a qualidade desses
examinam o tema com muita profundida- relacionamentos – sua funcionalidade ou
de, enfocando os processos de individuação destrutividade. Conclui afirmando que os
e pseudo-individuação na adolescência, os terapeutas, para melhor trabalharem com
conceitos de margem, desvio e função pa- os cônjuges envolvidos em relacionamen-
terna e a rotulação e construção de signifi- tos extraconjugais, necessitam deixar de
cados. Abordam o trabalho com essas fa- lado alguns preconceitos e crenças para
mílias a partir de um exemplo clínico, pro- trabalhar com isenção e competência a fim
pondo que enfrentemos “os desafios (e os de ajudá-los a tomarem a decisão mais
perigos) de navegar com a família nas on- adequada sobre os complexos desafios que
das da complexidade e da incerteza”, na essas relações trazem em si.
busca de novas e mais eficazes formas de Em A separação como resultado da di-
relacionamentos. fícil arte de renegociar, capítulo escrito por
Maria Cristina Werner examina as Rosana Galina, são examinadas situações
famílias em situações de ofensa sexual, de casais que querem se separar, mas não
redefinindo sua nomenclatura e conceitos. desejam desgastar-se no processo e outros
Aborda a transgeracionalidade e a horizon- que, já desgastados, evitam a separação
talidade das ofensas sexuais, ilustrando para não sofrerem perdas materiais. Con-
com casos clínicos. Sugere que, nesses ca- clui propondo uma parceria com o psico-
sos, trabalhe-se por meio de uma rede de drama para trabalhar essas situações: o
especialistas da saúde, Justiça e escola, psicodrama entra “como um instrumento
todos alicerçados em uma política adequa- que permite concretizar o sentido e o vivi-
da para o enfrentamento desse problema do, auxiliando os casais a perceberem as
tão lesivo a crianças e adolescentes. No ca- distorções entre o real e o idealizado de
pítulo seguinte, Daniela Reis e Silva traz cada um”. Na sequência, o casal Luiz Carlos
seu trabalho sobre famílias e situações de Osorio e Elizabeth Valle, idealizadores e
luto, examinando as dolorosas questões da organizadores deste Manual, abordam um
perda de filhos e de pais, as sofridas doen- tema que conhecem muito bem, seja como
ças prolongadas e o impacto das mortes indivíduos seja como terapeutas: os casais
acidentais nas famílias. Sugere diretrizes recasados. Para trabalhar com essas rela-
para os terapeutas que ajudam famílias no ções, os autores relatam sua experiência
processo de luto, assinalando a importân- nos “laboratórios de relações humanas na
cia de uma mudança de paradigma que família”, que se propõem a buscar “ativar
possibilite trazer para nossa realidade “a a criatividade dos participantes para que
educação para a morte, incluindo as crian- encontrem novos paradigmas de convívio
ças e os adolescentes de uma maneira mais familiar”. No final, refletem sobre as pe-
natural na trama do luto familiar”. culiaridades do atendimento desses casais

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Manual de terapia familiar | 21


através da co-terapia do casal de tera- pia familiar. Nesse trabalho discute algu-
peutas. mas situações éticas que desafiam o tera-
No capítulo sobre casais homosse- peuta familiar e propõe a busca de ajuda
xuais, Reges Chagas Gomes propõe que se- no Código de Ética dos Psicólogos para a
jam superados alguns pré-conceitos sobre solução de alguns impasses mais difíceis.
o tema. Aborda a questão da falta de mo- Numa afirmação corajosa, propõe que “in-
delos para os casais homossexuais, a im- dependentemente de normas, regras, mo-
portância dos projetos comuns, as questões ral ou religião, deveríamos indignar-nos
da visibilidade, dos padrões compulsivos, todas as vezes que presenciamos ou somos
dos filhos e da família de origem. O autor informados de injustiças... e agir quando
ressalva que se deve passar da restrita vi- estiver ao nosso alcance”.
são sexual da homossexualidade para uma Como vemos, este Manual de terapia
“ótica da (des)construção e (re)construção familiar faz uma revisão dos mais relevan-
de relações afetivas”. tes temas de nossa área, sendo uma contri-
Não poderia faltar em um Manual buição valiosa para uma formação sólida
dessa magnitude, uma parte sobre a for- de terapeutas familiares em nosso país.
mação do terapeuta familiar. Para começar, Claro que, para alcançar-se a condição de
Sandra Fedullo Colombo aborda o papel do terapeuta familiar, é necessário mais do que
terapeuta em terapia familiar, enfocando os informação séria e consistente, pois ser
contos como instrumento de construção de terapeuta é, antes de tudo, uma arte. Re-
histórias alternativas. Relata sua experiên- quer capacidades pessoais presentes mais
cia em oficinas sobre o tema das separa- em umas do que em outras pessoas: sensi-
ções, as chegadas e partidas, as dores, os bilidade, para poder deixar-se tocar por
vôos e recomeços, tudo isso enriquecido toda experiência humana; capacidade
por manifestações auto-referentes muito empática, para permitir colocar-se no lu-
tocantes. Segundo a autora, o desafio hu- gar do outro e compreender sua perspec-
mano é “existir com o outro, construir-se tiva; serenidade acompanhada de firmeza,
dentro de uma relação humana e ser um, quando necessário; capacidade de ouvir
singular, indivisível”, o que é fundamen- com o coração e de se expressar com clare-
tal, especialmente para os terapeutas. za; inteligência, em especial a emocional,
Cynthia Ladvocat e Maria Beatriz para ter compreensão e manter o equilí-
Ricci trazem reflexões sobre a formação do brio quando todos ao redor já tenham per-
terapeuta familiar a partir de perguntas que dido o seu; flexibilidade para que possa
foram respondidas por diversos experien- encantar-se com a diversidade das pessoas
tes formadores da área. Diferentes enfo- e de suas diferentes formas de se relacio-
ques são examinados a partir da questão nar e de viver a vida.
“o que é um terapeuta de família?”. As au- Parabéns a todos os autores, em es-
toras revisam a formação autônoma do pecial aos organizadores Luiz Carlos Osorio
terapeuta e os cursos organizados, sua e Elizabeth Valle, e à Artmed, que viabilizou
programação teórica e suas práticas. Fina- esta magnífica edição. Aproveitemos esta
lizando este livro, Laurice Levy enfrenta o obra preciosa que agora está em nossas
complexo tema das questões éticas em tera- mãos.
Luiz Carlos Prado

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parte I
A família: origem e destino
das terapias familiares

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1
Ciclo vital da família brasileira
Ceneide Maria de Oliveira Cerveny
Cristiana Mercadante Esper Berthoud

O CONCEITO DE CICLO VITAL contro de Psicanálise das Configurações


Vinculares e no II Encontro Luso-Brasilei-
Ciclo vital familiar envolve as várias eta- ro de Saúde Mental um trabalho no qual
pas definidas sob alguns critérios pelas mostrava quatro fases do ciclo de vida fa-
quais as famílias passam, da sua constitui- miliar, cada um com suas características
ção em uma geração até a morte dos indi- específicas. Alguns casais propuseram-se a
víduos que a iniciaram (Cerveny, 1997). contar suas vivências. Era o início de uma
Esses critérios podem ser a idade (de pais longa jornada de pesquisas sobre o ciclo
ou filhos), o tempo de união e a entrada e vital em nossa realidade.
saída de membros, considerando-se que Em 1995, a autora ministrava no Pro-
famílias são constituídas sob diferentes grama de Estudos Pós-Graduados em Psi-
configurações. Assim, há o casal tradicio- cologia da PUCSP uma disciplina na área
nal heterossexual, o casal homossexual, o de Família sobre o Ciclo Vital Familiar. En-
casal reconstituído, todos eles passando por tre os autores estudados estavam Monica
etapas com desafios e tarefas específicos McGoldrick e Betty Carter, cuja obra “As
no ciclo de vida familiar. mudanças no ciclo da vida: uma estrutura
É certo que existem diversos ângulos para a terapia familiar” abordava o ciclo vital
sob os quais definimos a instituição família, familiar da classe média americana, no fi-
e a lente escolhida – o ciclo vital – permite nal do século XX e propunha seis estágios:
simultaneamente uma visão panorâmica e
focal, porquanto não é um conceito rígi- 1. o lançamento do jovem adulto solteiro;
do; ao contrário, permite sobreposições e 2. o novo casal;
reconstituições. Esta é uma forma de olhar 3. tornar-se pais;
que tem sido útil não só na orientação prá- 4. o sistema familiar na adolescência;
tica – por exemplo, nas diferentes modali- 5. lançando os filhos e seguindo em frente;
dades de terapia familiar –, mas também 6. a família no estágio tardio da vida.
na interpretação teórica de dados de pes-
quisas e no subsídio de políticas públicas. A fase em que a família ficava nova-
mente reduzida ao casal era denominada
“ninho vazio”.
UM POUCO DE HISTÓRIA No curso da disciplina, questionava-
se a existência do chamado ninho vazio, e
No início da década de 1990, uma das au- um grupo de alunos decidiu ir a campo para
toras deste capítulo apresentou no I En- entrevistar pessoas nessa fase. Um dos cam-

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26 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

pos de pesquisa estava no 3o andar da PUC, 40 anos, preocupam-se com o aspecto físi-
onde funcionava a Universidade da Terceira co; a hierarquia na família fica dissolvida
Idade. Entrevistados desse grupo e de uma entre pais e filhos, e as regras da primeira
amostra de conveniência nos trouxeram fase já não dão conta do bom funciona-
uma surpresa: eles não viviam o ninho va- mento da família. Muitas vezes, acontece
zio, pois seus filhos ainda participavam ati- de só um dos pais adolescer, e, quando isso
vamente de suas vidas por meio de vínculos acontece, o comum é o cônjuge que não
emocionais, econômicos, familiares (como adolesceu ficar com a carga de mais um
cuidadores dos netos), e assim por diante. filho. Nas duas pesquisas, confirmaram-se
Isso levou a autora a questionar a os principais valores e as tarefas da família
vivência de outras fases do ciclo cital de nessa fase e algumas mudanças importan-
nossa realidade e a redefinir sua classifica- tes, como maior abertura ao diálogo entre
ção de ciclo vital que estava muito ligada à pais e filhos e a flexibilização de valores e
sua prática clínica no atendimento de fa- normas de conduta.
mílias. Essa classificação pressupunha qua- A fase madura é a mais longa do ci-
tro estágios pelos quais a família passava, clo vital. Ela compreende a saída dos fi-
não rigidamente determinados: fase de lhos de casa, a entrada de agregados e ne-
aquisição, fase adolescente, fase madura e tos, o início de perdas e de cuidados com a
fase última. geração anterior, o preparo para a aposen-
A fase de aquisição engloba o perío- tadoria e o cuidado com o corpo tendo em
do da união do casal até a entrada dos fi- vista o envelhecimento. Esta é a fase da
lhos na adolescência. O eixo propulsor des- casa cheia, ao contrário do ninho vazio
sa fase são as definições de um modelo pró- americano. Isso poderá mudar daqui uma
prio de família, a aquisição da parenta- ou duas gerações, pois as famílias estão
lidade e dos objetivos comuns. Há 10 anos, cada vez menores; além disso, a chamada
na primeira pesquisa realizada, a conquis- “década perdida na economia brasileira”
ta de segurança, traduzida na aquisição da teve como reflexo grandes dificuldades
casa própria, em planos de saúde e em pou- econômicas para a classe média, mas isso
pança para estudo dos filhos, era o que os já se faz distante, e os adultos jovens estão
casais nessa fase mais desejavam. Na se- tendo maior facilidade para obter indepen-
gunda pesquisa, há seis anos, a qualidade dência econômica e, por conseguinte, in-
de vida era o sonho mais comum. Rede de dependência familiar.
relações, complementação de estudos com A fase última, ampliada pela longevi-
vistas ao crescimento profissional, empre- dade, inicia-se quando o casal volta a ficar
gos com benefícios que incluam a família sozinho. A qualidade e as características
também eram desejos presentes, os quais dessa fase são quase uma consequência de
são de diversas ordens: emocionais, eco- como foram vividas as anteriores. Se o ca-
nômicas, e assim por diante. Não se quer sal tiver a chance de manter um bom pa-
dizer que em outras fases do ciclo vital a drão de vida, ter cuidados, lazer, entre ou-
família não se preocupe com isso, já que tros, esta será uma fase de colheita. Por
faz parte de nossa vida, mas compreende- outro lado, a viuvez talvez seja o fenôme-
mos que o maior número de aquisições está no mais esperado e difícil da fase última.
nessa primeira fase.
A segunda fase denomina-se família
adolescente, nome dado devido ao fato de A HISTÓRIA CONTINUA
na maioria das famílias haver uma tendên-
cia de todos adolescerem. Os pais revivem Cerveny e um grupo de alunos decidiram
a própria adolescência, estão na faixa dos verificar através de uma pesquisa ampla

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Manual de terapia familiar | 27


como era a estrutura e a dinâmica das fa- Natal, a “grande festa” a ser comemo-
mílias paulistas, tendo por base as fases do rada, é um dos valores familiares que mais
ciclo vital descritas. Foram pesquisadas podem ser considerados como conservado-
1500 famílias paulistas de classe média, de res, assim como troca de presentes e refei-
69 cidades do Estado, com o auxilio de 500 ções com todos reunidos como rituais fa-
pesquisadores e com o envolvimento de miliares, além de reunião com parentes aos
cinco Universidades. Muitos dados revela- domingos, morte como tabu e importân-
dos em relação à família na pesquisa ante- cia dos estudos como principal valor a ser
ciparam os do Censo e os de outros Insti- passado à próxima geração. Maior desta-
tutos de Pesquisa no que tange ao tipo de que ao lazer, tanto individual como familiar,
estruturação, dinâmicas, valores, mitos, en- foi uma das mudanças significativas encon-
tre outros. tradas nos dados; em contrapartida, me-
Os dados da pesquisa indicavam que nor valor a manter a virgindade antes do
as famílias ainda eram as mesmas quanto casamento, a ostentar o sobrenome da fa-
à estrutura familiar, com predomínio da mília e seguir a profissão do pai.
religião católica, do casamento como forte A nova etapa era a de consolidar tal
instituição familiar, do marido como pro- classificação, com as características de cada
vedor da família e da mulher sendo res- fase em uma Teoria de Ciclo Vital que foi
ponsável pelas tarefas domésticas. As dife- possível com uma nova pesquisa, agora
renças surgiam quanto ao alto nível de qualitativa, na qual foi analisada a família
escolarização e profissionalização da mu- paulista em profundidade. Foi usada a
lher, e à sua efetiva participação no merca- Metodologia da Teoria Fundamentada nos
do de trabalho e no orçamento familiar, Dados (Grounded Theory Metodology) na
acarretando mudanças adaptativas do ho- elaboração em profundidade de conceitos
mem que acompanha as transformações do teóricos que explicassem os fenômenos
papel da mulher. vivenciados pela família em cada uma das
As características que parecem ter se fases do ciclo, com suas categoria e subcate-
mantido mais estáveis quanto à dinâmica gorias, chegando a um retrato detalhado
familiar são amor e dinheiro como ideal; dela (Cerveny e Berthoud, 2002).
estudo e profissionalização dos filhos como A partir de 2004, surgiu no Grupo Fa-
meta familiar; figura materna com a fun- mília e Comunidade da ANPEPP (Associa-
ção de organizar a casa e dar suporte emo- ção Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação
cional à família; figura paterna com a fun- em Psicologia) a proposta de um levanta-
ção de sustentar economicamente a famí- mento do ciclo vital familiar no Brasil, ago-
lia; função dos filhos como sendo a de tra- ra com o questionário de 1997 ampliado e
balhar e estudar, além da realização afetiva modificado, em 14 capitais brasileiras. A
por meio do casamento. Porém, a dinâmi- pesquisa, ainda em andamento, é coorde-
ca familiar, sem dúvida, é considerada nada por Rosa S. Macedo.
como a que mais mudanças sofreu: mari- Como parte dessa pesquisa, novamen-
do e mulher compartilhando as tarefas te foi retratada a família em São Paulo.
domésticas e os cuidados com os filhos; Estão sendo investigadas 600 famílias, sen-
mulher compartilhando com o marido a do 200 da Capital, 200 do ABCD e 200 do
direção da casa; filhos com maior partici- Vale do Paraíba, praticamente a metade da
pação nas decisões familiares; grande va- população entrevistada em 1996, porém,
lorização do diálogo como propulsor das mais concentrada territorialmente. Das 600
boas relações familiares; diálogo, respeito famílias previstas, foram investigadas até
e afeto permeando as relações entre pais e o momento 416, distribuídas da seguinte
filhos. maneira: 25,1% na Fase de Aquisição,

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28 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

25,4% na Fase Adolescente, 36,5% na Fase como um investimento altamente valori-


Madura e 13% na Fase Última. Esses da- zado e procurado.
dos virão a público ainda em 2008, a fim As metas da família pouco mudaram:
de serem comparados com os de 1997 e de garantir um patrimônio no início do ciclo
ser feita sua leitura qualitativa. É válido vital, educar e formar solidamente os fi-
ressaltar que as análises até então realiza- lhos para a vida profissional e cuidar de
das demonstram tanto mudanças signifi- filhos e netos ao longo dos anos. Os casa-
cativas na dinâmica e no funcionamento mentos acontecem um pouco mais tarde
da família como a conservação de padrões em função de opções profissionais, a mu-
observados há 10 anos, indicando que o lher ainda é sobrecarregada com dupla jor-
sistema familiar é dinâmico, em constante nada de trabalho, e os filhos são em me-
readequação, com imensa capacidade de nor número e, na maioria das vezes, pla-
transformação. nejados.
A maioria dos entrevistados está vi-
vendo em primeira união (aproximada-
mente 70% dos pesquisados), e entre eles HÁ UMA “OUTRA FAMÍLIA”
aproximadamente 20% não formalizaram NESSE INÍCIO DE SÉCULO?
o casamento; 79% vivem em casa própria,
mais da metade tem entre 2 e 3 filhos, e Na última década, assistimos a uma gran-
60% se apresentam como católicos. Em- de revolução em termos de comunicação
bora com índices ligeiramente inferiores motivada pela internet, a mudanças pro-
aos da pesquisa anterior, muitas das famí- fundas no padrão de comportamento se-
lias possuem noras, genros, sogros ou so- xual e de escolha de parceiros entre jovens
gras vivendo na mesma casa. Mais de 80% e adultos jovens, à inserção da mulher em
dos casais estão satisfeitos com a relação, funções e cargos antes ocupados apenas
pois a consideram amorosa e amigável. A por homens, à ampliação das exigências de
vida sexual e a comunicação na família formação profissional para ingresso no
também são satisfatórias. mercado de trabalho e à reorganização da
Em relação a desafios e tarefas em ca- forma como a família se autodefine e como
da uma das fases do ciclo vital, constatou- é vista pelo Estado. Ao contrário de previ-
se que as famílias nitidamente continuam sões alarmistas e pessimistas de alguns
a enfrentar várias demandas ao longo da cientistas sociais ao final do século XX, em
vida e a buscar recursos e formas de reso- vez de se deteriorar ou de se enfraquecer,
lução das dificuldades em suas redes pes- a família, com sua imensa capacidade de
soais e sociais. As maiores preocupações adaptação, vem se transformando sem dei-
dos casais nas Fases de Aquisição e Adoles- xar de cumprir as funções consideradas
cente, sejam recém-formados em primeira estruturadas e definidoras da própria ins-
união ou recasamentos, são a constituição tituição família: sua função biológica de
da família e a união do casal. Companhei- garantir a proteção e o cuidado das novas
rismo e amor são muito valorizados. Já gerações e sua função social de transmis-
para as famílias em Fase Madura e em Fase são de padrões e normas da cultura.
Última, as prioridades são o cuidado mú- Ou seja, não há e nunca haverá uma
tuo, a amizade e o companheirismo. As “nova versão da família brasileira”, já que
maiores dificuldades são conciliar vida certamente teremos sempre uma família
matrimonial e profissional no início do ci- brasileira “mutante”, aquela que se reor-
clo vital, dinheiro e manutenção do status ganiza e se reinventa, produzindo e repro-
familiar ao longo do ciclo e cuidados com duzindo valores, modelos de comporta-
a saúde na Fase Última. O lazer aparece mento e formas de organização.

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Manual de terapia familiar | 29


Apesar de existir muito menos estu- mil aproximadamente para 836 mil) e
dos socioantropológicos e psicológicos do menor crescimento no número de se-
que o necessário para acompanhar de per- parações judiciais no mesmo período
to as mudanças gradativas na estrutura e (de aproximadamente 100 mil em para
na dinâmica de funcionamento das famíli- 103 mil).
as de diferentes níveis sociais e regiões do
país, é importante analisar de forma geral Dados da Pesquisa Nacional por Amos-
a organização familiar à medida que no- tra de Domicílios (PNAD) de 2006:
vas pesquisas censitárias nos mostram o
cenário brasileiro em toda sua complexi-  Famílias com filhos predominam na so-
dade e diversidade. ciedade brasileira: 67,6%.
 Crescimento da proporção de pessoas
que vivem sozinhas, dos casais sem fi-
UM RETRATO DO BRASIL RECENTE lhos, das mulheres sem cônjuge – mas
com filhos – na chefia das famílias, além
Há dados gerais sobre a população brasi- de uma redução da proporção dos ca-
leira que ajudam a compreender as mu- sais com filhos.
danças ocorridas nas famílias. A seguir, são  Número de mulheres que são indicadas
apontados alguns índices interessantes como referência da família aumentou
obtidos nas últimas pesquisas do IBGE, sa- consideravelmente entre 1996 e 2006,
lientando-se ainda que para esse órgão fa- com uma variação de 79%, enquanto,
mília é um grupo cuja definição está limi- no mesmo período, o número de homens
tada pela condição de residência em um “chefes” de família aumentou 25%.
mesmo domicílio. Igualmente, arranjos fa-  A família monoparental feminino tem
miliares onde existam laços de consangui- expressão significativa nas áreas urba-
nidade, dependência econômica e/ou re- nas, principalmente no contexto metro-
sidência em um mesmo domicílio além de politano.
grupos distintos de pessoas que habitam o  Tendência de redução do tamanho da
mesmo local. Assim, “famílias” são pessoas família, que passou de 3,6 pessoas em
que moram sós – “famílias unipessoais” –, 1996 para 3,2 em 2006.
os grupos com até cinco pessoas que vi-  Arranjos unipessoais representaram
vem sob o mesmo teto – mesmo sem vín- 10,7% do total no País.
culos de parentesco, ou seja, “famílias sem  Cerca de 40% dos domicílios, em 2006,
parentesco” –, e os grupos que abrangem estavam ocupados por pessoas com
as famílias com parentesco. mais de 60 anos.
 Preponderância de casamentos entre
 A família: O padrão de família apresen- indivíduos solteiros. Em 2005, 85,9%
tou três principais mudanças nas últi- dos casamentos tiveram esse arranjo.
mas décadas:  A proporção de casamentos entre indi-
1. queda substancial em seu tamanho; víduos divorciados com cônjuges soltei-
2. aumento no número de mulheres ros é crescente. Os percentuais mais ele-
sem cônjuge com filhos; e vados são observados entre homens di-
3. aumento no número daquelas cuja vorciados que se casaram com mulhe-
referência são mulheres. res solteiras,
 Casamentos e separações: Dados do re-  A média de idade masculina para o pri-
gistro civil organizados pelo IBGE mos- meiro casamento foi de 28 anos, en-
tram um crescimento no número de quanto a das mulheres foi de 25 anos
casamentos entre 2002 e 2005 (de 716 em 2005 (no Brasil como um todo).

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30 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

 A responsabilidade pelos filhos foi con- alguns anos maior do que há uma década;
cedida às mulheres em 89,5% dos di- por outro lado, a longevidade permite
vórcios concedidos no Brasil. maior flexibilidade da Fase Última, o que,
 A análise da maternidade por idade re- sem dúvida, exige das famílias reorganiza-
velou um leve aumento da proporção ções em sua dinâmica.
das adolescentes de 15 a 17 anos com Ainda como tendência, embora me-
filhos: 1% nos últimos dez anos. tas, tarefas e desafios principais em cada
 Idosos ocupam significativamente a po- fase do ciclo vital familiar continuem ba-
sição de chefia quando moram com fa- sicamente os mesmos, há uma maior
miliares, e o mais comum é morarem sobreposição entre as fases, tendência que
com seus filhos: 44,5%. se mostra agora bastante acentuada, mas
 O número de domicílios denominados que já havia sido detectado na pesquisa de
“ninhos vazios” – casais sem filhos – 1997. Na ocasião, denominamos como “fa-
cresceu nos últimos 10 anos. Em 1996, mílias em transição” aquelas que viviam
correspondia a 20,1% dos arranjos, pas- simultaneamente mais de uma fase do ciclo
sando a 22,3% em 2006. vital em função de recasamentos, filhos
 O nível de ocupação das mulheres au- com diferentes parceiros, rearranjos na or-
mentou quase 5%, ao passo que para ganização da vida familiar em função de
os homens ocorreu uma redução de cer- entrada, saída ou retorno de alguns mem-
ca de 1% entre 1996 e 2006. bros.

As pesquisas deixam claro algumas


tendências importantes: COMO A FAMÍLIA SE VÊ
E É VISTA NO BRASIL
 A instituição familiar é a forma de or-
ganização básica de nossa vida social: A família segundo o Estado
está menor, organizada por uma mais
de um tipo de laço (consanguíneo, A partir da Constituição Federal de 1988,
afetivo e afinidade). Há mudanças, mas teve início uma crescente transformação na
continua forte como sempre foi. forma pela qual o Estado conceitua e com-
 A figura feminina tem um papel cen- preende a família. A conceituação básica
tral nas mudanças principais: inserção compreende que a família está em evolu-
no mercado de trabalho, chefia de um ção, transformando-se continuamente e
número expressivo de famílias, sendo organizando-se muito mais por laços de
ainda as principais responsáveis pela afeição do que por hierarquias tradicionais.
guarda dos filhos em casos de separa- Em decorrência disso, assistimos a mudan-
ção. Embora mais tardiamente do que ças fundamentais, por exemplo, nas políti-
há uma década, em sua maioria, tor- cas públicas de promoção e assistência, na
nam-se mães. legislação sobre adoção e guarda de filhos.
Em termos subjetivos, a sociedade em ge-
Estas são mudanças significativas do ral demonstra também ter flexibilizado a
ponto de vista da organização familiar ao compreensão do que é, como se estrutura
longo do ciclo vital familiar que notada- e como funciona a família contemporânea.
mente se refletem nas fases de Aquisição e Configurações familiares nem imaginadas
Última. Como tendência, observa-se uma há poucas décadas hoje são cada vez mais
dilatação dessas duas fases: no início, tan- aceitas com maior naturalidade. Sem dú-
to a união como a decisão de ter filhos ocor- vida, em pouco mais de duas décadas, o
rem atualmente em uma faixa de tempo Brasil e o brasileiro comum mudaram suas

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Manual de terapia familiar | 31


expectativas em relação à família, mas sem tegida; por força da conjuntura econômi-
deixarem de ser uma sociedade fundamen- ca e pela profunda desigualdade social pre-
talmente familista. dominante, a família se vê forçada a ser,
ela mesma, fonte de proteção social de seus
A família patriarcal, que nossa legis- membros.
lação civil tomou como modelo, ao
longo do século XX entrou em crise,
culminando com sua derrocada, no A família como lócus
plano jurídico, pelos valores introdu- de proteção social
zidos na Constituição de 1988. A fa-
mília atual está matrizada em um fun-
damento que explica sua função atu-
Não só o Estado, como, evidentemente,
al: a afetividade. Assim, enquanto também a forma como foi se organizando
houver affectio haverá família, unida ao longo do tempo a vida social no Brasil,
por laços de liberdade e responsabili- dependem da família para exercer as fun-
dade, desde que consolidada na sime- ções mais fundamentais na constituição do
tria, na colaboração, na comunhão de indivíduo e do cidadão: prover, cuidar, pro-
vida não-hierarquizada. A família é o teger, transmitir valores e normas.
núcleo natural e fundamental da so-
ciedade e tem direito à proteção da
A centralidade das famílias como fa-
sociedade e do Estado. (Lobo, 1989)
tor de proteção social implica ter pre-
sente seu caráter ativo e participante
Assim, a partir de 1988, a instituição nos processos de mudança em curso
família no Brasil não apenas ganha um sig- e, ao mesmo tempo, suas transforma-
nificado totalmente novo, em especial pela ções internas, sobretudo em suas di-
sua independência de modelos preesta- mensões de sexualidade, procriação e
belecidos e idealizados de uma “família- convivência. (Goldani, 2002, p. 33)
padrão”, como também recebe, por força
de lei, prioridade na garantia de proteção. A família contemporânea brasileira,
A instituição, reconhecidamente base es- notadamente o imenso contingente de fa-
trutural de nossa sociedade, precisa, a par- mílias que vivem em situações de pobreza
tir de então, não só ser respeitada em seu ou com poucos recursos econômicos, é vista
movimento de transformação e flexibilida- como a instituição que deve cuidar seus
de constituinte, como também protegida, membros. Como bem assinalam Carvalho
o que é, sem dúvida, uma verdadeira “re- e Almeida (2003), “(...) importância (da
volução” para nossa sociedade. família) cresce entre as pessoas mais frá-
As atuais políticas públicas elabora- geis... É a família, sobretudo, que pode
das pelos últimos governos no país deno- transmitir-lhes, entre outros aspectos, um
tam claramente a adoção da noção de que patrimônio de ‘defesas internas’.” (Carva-
a família é, sem dúvida, tanto o lócus para lho e Almeida, 2003, p. 109).
a promoção de programas de atenção, pro- Há um movimento no ocidente, rela-
moção e cuidados com os cidadãos, como tivo ao crescimento e à sofisticação do cha-
a depositária de expectativas e responsa- mado “bem-estar social”: muitos países de-
bilidades para prover muitas das necessi- senvolvidos têm aperfeiçoado seus progra-
dades de seus membros – em especial os mas e suas políticas sociais, no sentido de
que demandam maiores cuidados, como as empoderamento cada vez maior do cida-
crianças e idosos, cujas demandas o gover- dão e da família, garantindo que sejam
no não consegue atender integralmente. capazes de atuar como “amortecedores so-
Por força de lei, a família tem que ser pro- ciais”, como dizem os cientistas sociais.

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32 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

No Brasil, embora ainda não tenha- efeitos positivos, destacando a diminuição


mos políticas públicas consolidadas, todas da mortalidade infantil (Ministério da Saú-
as versões de ações sociais dos últimos go- de, 2008).
vernos federais têm deixado claro que o
país caminha no sentido de tentar fortale-
cer sua instituição mais básica – a família – A família “no avesso”:
acreditando que, quanto mais protegida a lócus de agressão e destruição
família estiver, mais protegido estará o ci-
dadão e menos demandas sociais ficarão – Também é necessário ressaltar que a famí-
como vêm sendo há décadas – à mercê de lia é, paradoxalmente, aquela que pode for-
soluções que o Estado não pode e não con- mar ou destruir, dar identidade ou desin-
segue prover. tegrar o indivíduo em formação. Por inú-
Na verdade, estamos longe de ter po- meros fatores que não cabem ser aqui dis-
líticas públicas eficientes para nossas fa- cutidos em profundidade, mas que gosta-
mílias. Porém, algumas iniciativas têm de- ríamos de citar, como a miséria humana
monstrado bom potencial; por exemplo, o instalada em todas as classes sociais pela
Programa de Saúde da Família, modelo em falta de vínculos humanos e pelo excesso
vários Estados do país. Sem dúvida, parti- de individualismo, a situação de favelização
cularmente em nossa área de atuação, e de miséria total em que vivem milhares
muitos atalhos desse caminho já foram de famílias no país, a ineficiência ou
abertos e não há mais volta, como, por inexistência de programas governamentais,
exemplo, o movimento antimanicomial. a inexistência de uma cultura de preven-
Como profissionais da área de famí- ção e promoção da saúde integral do indi-
lia, acompanhamos com muita atenção es- víduo, que assola os profissionais de saú-
ses movimentos, visto que, se por um lado de em geral, muitas famílias não conse-
foram constituídos sobre princípios com os guem cumprir nem minimamente suas fun-
quais comungamos – a família tem que ser ções; ao contrário, desempenham o papel
protegida para poder proteger – por ou- de desumanizar as novas gerações. Só para
tro, depositam na família, já totalmente citar um sério problema, inúmeras pesqui-
sobrecarregada de papéis, funções e indefi- sas retratam as estatísticas assombrosas de
nições, novas e pesadas atribuições. violência doméstica em todas as suas for-
mas (física, moral e psicológica).
Para a sociedade brasileira, a família
A família como lócus é, formalmente, considerada a instituição
de promoção de saúde formadora do indivíduo/cidadão por ex-
celência. Tem de ser protegida socialmen-
Desde 1994, com a criação do programa te e, ao mesmo tempo, proteger aos seus.
de Saúde da Família, o Ministério da Saúde É conceituada de forma flexível, já que no-
faz da família uma parceira para otimizar vas formas de arranjos familiares pouco a
e dinamizar os serviços de promoção e pouco vêm recebendo maior aceitação so-
manutenção da saúde da população. Se- cial e reconhecimento de seus direitos le-
gundo o próprio Ministério, este é um pro- gais. Por outro lado, é também responsa-
jeto dinamizador do SUS, que está na base bilizada por inúmeras mazelas na forma-
conceitual e operacional das diretrizes de ção de seus membros e lamentavelmente
ação no país. Desde sua implantação, inú- ainda pouco amparada efetivamente por
meras pesquisas têm demonstrado seus mecanismos e políticas públicas.

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Manual de terapia familiar | 33


A FAMÍLIA POR ELA MESMA cooperação na tentativa de compreensão
da família em São Paulo.
Os brasileiros, de modo geral, conceituam A meta tem sido “dar voz à família”,
de forma muito positiva a família. Ela é a retratá-la em suas vicissitudes e mostrá-la
instituição mais importante – para o brasi- em uma perspectiva sistêmica, consideran-
leiro, a família está acima da Igreja e do do-a como uma instituição pulsante, sem-
Estado. É valorizada, desejada e, sem dú- pre em mutação. Apesar das profundas
vida, também cobrada e responsabilizada transformações sociais, muitas delas origi-
por sucessos e fracassos em suas funções nadas nas e pelas famílias, em especial as
principais de formar novas gerações de in- da “classe média brasileira”, algumas ca-
divíduos/cidadãos. racterísticas têm se mostrado perenes: o
À família são atribuídas duas quali- brasileiro zela por, deseja e trabalha para
dades essenciais como instituição: espaço a manutenção da instituição que mais va-
de amor incondicional e união, mostrando loriza: a família!
a idealização e a alta expectativa a ela atri- Em 1996, uma pesquisa pioneira rea-
buída, além de ser considerada o espaço lizada pela internet contou com a partici-
natural de referência pessoal e constitui- pação de 480 adolescentes, jovens e adul-
ção de identidade. tos de 11 Estados do país que espontanea-
Os brasileiros sabem que a família mente acessaram o questionário on-line e
está mudando e aceitam suas mudanças expressaram sua opinião sobre o que é fa-
com relativa tranquilidade. Não é, na ver- mília, sua importância e suas funções bási-
dade, a “sociedade” nem a tecnologia que cas (Berthoud, C.M.E. et al., trabalho não-
trazem mudanças à família; ao contrário, publicado). Independentemente de gêne-
é a família que vem se transformando ro e faixa etária, a maioria dos pesquisados
adaptativamente e, apesar da nostalgia ain- considerou a família como a principal ins-
da existente, novas configurações e novas tituição da nossa sociedade, atribuindo a
dinâmicas são consideradas muito mais ela características de lugar de proteção e
como ganhos do que como perdas de um troca de afeto, espaço de aprendizagem e
“padrão de família ideal”. formação pessoal. Mais de 80%, apesar de
Provavelmente, de modo muito mais constatarem defeitos e problemas nas re-
intenso do que em qualquer outra época lações entre familiares, não trocariam de
histórica, o afeto e o diálogo são as re- família e, ainda, pretendiam constituir/já
ferências da família em todas as fases do ci- haviam constituído famílias próprias, ba-
clo vital: o afeto como base de constitui- seando-se nas suas experiências nas famí-
ção/reconstituição dos arranjos familiares lias de origem. Os resultados permitiram
e o diálogo como a qualidade mais dese- concluir a grande importância atribuída à
jável para a manutenção/reorganização família e a necessidade demonstrada de
das relações familiares entre todos os que ela possa continuar cumprindo seus
subsistemas (conjugal, parental e interge- papéis de formar, cuidar e proteger as no-
racional). vas gerações, dando-lhes base de moral
Desde 1996, temos analisado o signi- individual e cidadania.
ficado da família para os brasileiros em inú- Em 1997, publicamos os resultados
meras pesquisas realizadas no NUFAC (Nú- de uma ampla pesquisa sobre ciclo vital da
cleo de Família e Comunidade – PUCSP) e família paulista (já citada), a qual foi pio-
no NPF (Núcleo de Pesquisa da Família – neira em mostrar o quanto a família, inde-
UNITAU), os quais trabalham em estreita pendentemente da fase do ciclo vital que

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34 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

esteja atravessando, é considerada como o Outros institutos renomados no país


lugar de suporte e proteção para a maioria que estudam a família também têm sido
das pessoas. capazes de demonstrar em suas pesquisas
Em 1998, realizamos uma ampla pes- que ela é a instituição sobre a qual se depo-
quisa no interior de São Paulo, com 1.500 sitam as maiores expectativas: das pessoas,
participantes – crianças, adolescentes, da sociedade e do Estado, de forma geral.
adultos e idosos (Berthoud e Oliveira, Uma pesquisa recente realizada pelo
1999). Os resultados mostraram que a fa- Datafolha (2007) analisa as principais mu-
mília é definida por duas características danças na forma de pensar e de se organi-
principais – amor e união – e é considera- zar da família brasileira, por meio da com-
da a mais importante das instituições para paração com pesquisa semelhante realiza-
a maioria dos pesquisados. De modo geral, da pelo mesmo instituto há 10 anos. As
crianças e idosos consideravam como mem- mudanças mais significativas observadas
bros da família indivíduos com vínculos no período foram a maior tolerância das
consanguíneos, enquanto jovens e adultos famílias para a vida sexual dos jovens (so-
incluíam pessoas por afinidade. A maior bretudo em relação à perda de virgindade,
dificuldade atribuída à família foi a falta à gravidez fora do casamento e ao namoro
de diálogo, e a maior qualidade, a união em casa) e em relação à homossexualida-
entre seus membros. de. Em contrapartida, observou-se que o
Em 2000, foram publicados os resul- aborto e o uso de drogas são menos tolera-
tados de uma pesquisa qualitativa realiza- dos do que há 10 anos. E a maior qualida-
da para a compreensão em profundidade de atribuída ao relacionamento de um ca-
da vida em família em casa, fase do ciclo sal foi a fidelidade. Na análise dos valores
vital. A pesquisa, também já citada ante- familiares, constatou-se uma maior valori-
riormente, além de descrever e explicar as zação da família e da religião. Estudo, tra-
características da família, possibilitou mais balho e lazer também foram aspectos bas-
uma vez confirmar que, para a maioria tante valorizados, enquanto o casamento
absoluta dos pesquisados, nenhuma outra e o dinheiro são importantes apenas para
instituição em nossa sociedade substitui a um terço dos pesquisados.
família em suas funções constituidora e
formadora de indivíduos.
Nesta última década, também foi COMO COMPREENDEMOS
muito expressivo o número de dissertações A FAMÍLIA CONTEMPORÂNEA
e teses produzidas pelas universidades, as
quais muito contribuíram para a compre- Os meios de comunicação, o governo e a
ensão da família em nossa realidade. igreja voltaram sua atenção para a família
Nesses mais de 10 anos de estudos, nessa última década. Programas de TV, re-
foi consolidada a convicção de que a famí- portagens e pesquisas estão constantemen-
lia brasileira se vê de uma forma bastante te aparecendo na mídia trazendo à tona,
positiva, possui clareza sobre sua impor- tais mudanças. Muitos pesquisadores es-
tância e sobre suas funções e luta para ga- tão trabalhando para mostrar o perfil, as
rantir que elas sejam cumpridas, apesar de necessidades e os desejos da família.
todas as dificuldades que a vida em famí- No entanto, acreditamos que qual-
lia traz, em especial aos pais e, muito em quer pesquisa sobre a família tem que le-
especial, às mulheres, sobrecarregadas com var em consideração a etapa do Ciclo de
novos papéis decorrentes de todas as trans- Vida pela qual está passando. Um exem-
formações de gênero e de comportamen- plo disso é o dado a seguir, compilado em
tos sociais ocorridas nos últimos anos. uma recente pesquisa do IBGE:

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Manual de terapia familiar | 35


Somente metade dos homens realizam mente. A educação dos filhos, sem dúvida,
afazeres domésticos (51,4%), enquan- aparece em todas as pesquisas como a pri-
to 9 em cada 10 mulheres tinham essa meira preocupação das famílias no Brasil,
atribuição. Para as mulheres, a saída nas fases de Aquisição e Adolescente. Ar-
para o mercado de trabalho não impli-
riscaríamos afirmar que este é o maior ideal
ca deixar o serviço de casa. Pelo con-
da família brasileira desde seus primórdios
trário, a participação das mulheres
ocupadas nesses afazeres é de 92%. e unanimidade em todo território nacio-
(IBGE, 2007) nal. Acreditamos também que a redução
do número de filhos por casal tem relação
Quem são esses homens e essas mu- com esse ideal de educação, além das mu-
lheres? Seu comportamento é o mesmo em danças que atingiram o gênero feminino.
diferentes etapas da vida? Em que momen- É preciso ficar atento também ao fato
to do ciclo vital da família esse comporta- de que só a graduação na universidade não
mento tem maior ou menor significado na garante ao jovem o emprego imediato, e
organização e na constituição da relação muitos necessitam maior especialização
afetiva e familiar? Encontramos em nossa para poder concorrer no mercado de tra-
pesquisa há 10 anos que, no início da vida balho. Isso significa atualmente um ônus
conjugal, ou seja, na Fase de Aquisição, os maior para os pais na Fase Madura, os quais
homens ajudam as mulheres nas tarefas subsidiam por mais tempo a educação dos
domésticas. Nas fases Adolescente e Ma- filhos.
dura, não importando o padrão econômi- Uma ocorrência que está crescendo
co ou o fato de a mulher ser ou não assala- na classe média é a permanência dos fi-
riada, esse mesmo homem afasta-se das lhos na casa dos pais, mesmo tendo eles
atividades domésticas e só retornará a aju- condições de viver com independência. É
dar na Fase Última. Então, os 51,4% dos a “geração canguru”, que começa a ser
homens que realizam as tarefas são aque- objeto de pesquisas. Figueiredo (2008), em
les que estão no início da vida a dois e os sua pesquisa de mestrado, encontrou que
que chegaram à Fase Última. Os 92% das existe uma acomodação do filho que vai
mulheres retratam a situação feminina em ao encontro do desejo dos pais em tê-lo
qualquer uma das fases do ciclo vital. mais tempo.
Outro ponto importante nas pesqui- Uma outra categoria que está apare-
sas com famílias é a grande diferença exis- cendo é a dos filhos bumerangues: aqueles
tente entre as realidades brasileiras. Por um que saem da casa dos pais ou em função
lado, temos as capitais e os grandes cen- do casamento ou em função do trabalho e
tros que são mais atingidos pelas mudan- retornam. Os que se separam, muitas ve-
ças; por outro, temos também as peque- zes, retornam com os filhos, tornando o
nas cidades, onde, apesar dos meios de ninho mais cheio.
comunicação, a estrutura e a dinâmica fa- A migração interna é também um ou-
miliares não mudaram tanto e onde a inci- tro fator que influencia atualmente na dinâ-
dência de divórcios, separações, número mica familiar. Muitas vezes, em função de
de filhos, entre outros, ainda seguem pa- estudo ou trabalho, famílias ou parte delas
drões mais antigos. migram para outras cidades. Temos então
Em fevereiro de 2008, a revista Veja as famílias que se reúnem só nos finais de
mostrou que a família de classe média es- semana ou até em intervalos maiores.
tava priorizando a educação dos filhos, o A preocupação com a saúde aumenta
plano de saúde e uma previdência priva- à medida que aparecem os filhos na Fase
da. São os mesmos dados apresentados na de Aquisição e fica bastante acentuada nas
pesquisa do Datafolha, já citada anterior- Fases Madura e última do ciclo vital. A saú-

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de pública não consegue estabelecer um mas pesquisas já estão sendo feitas para
patamar que atenda regular e eficiente- averiguar como o dinheiro é administrado
mente toda a população. Desse modo é quando ambos trabalham (Guimarães,
necessário recorrer à previdência privada. 2006) e também como é ensinado aos filhos
Da mesma forma, as aposentadorias não o valor do dinheiro (Manfredini, 2007). Em
conseguem dar à família a tranquilidade ambas as situações, os casais têm muita
de poder continuar vivendo sob o mesmo influência do modelo adotado em suas pró-
patamar. A longevidade do brasileiro au- prias famílias de origem, seja para repeti-
menta as despesas com saúde, e o indiví- lo quando ele funcionou, seja para fazer o
duo precisa ter um pecúlio maior para po- oposto daquilo que os pais fizeram.
der pelo menos ter uma vida digna. As mudanças ocorridas nas últimas
A longevidade, a permanência dos fi- décadas que incidiram sobre a estrutura
lhos por mais tempo na casa dos pais, o das famílias tiveram, sem dúvida, uma
maior nível de escolaridade, entre outros influência grande dos meios de comunica-
fatores, formam um panorama que traz ção. Internet, celulares, televisão, entre
mudanças para a formação das famílias. O outros, alteraram valores, criaram novos
casamento entre pessoas muito jovens está rituais, novas formas de relacionamento e
diminuindo, com exceção das situações em também novos conflitos familiares. Os da-
que uma gravidez precoce leva o casal à dos de pesquisa mostram que um ideal da
união. família é o bom diálogo entre seus mem-
A maioria dos casamentos ocorre com bros. No entanto, esses mesmos dados di-
os parceiros na faixa dos 30 anos, após a zem que o maior lazer da família reunida
conclusão dos estudos e a estabilização da é assistir à TV. Entretanto, como diálogo e
vida profissional. A liberação dos costumes TV podem ser conciliados? Como o enor-
e a mudança de alguns valores estão per- me tempo dedicado à internet, por exem-
mitindo aos jovens namorar, e, assim, exis- plo, não só pelos filhos adolescentes, como
te a possibilidade de postergar a união for- também pelos pais, pode interferir na Fase
mal. Nesse caso, há uma implicação maior Adolescente? São estes os novos desafios
para o início da parentalidade, que tam- que a família enfrenta, os quais tem pro-
bém fica postergada. Provavelmente a di- vocado a elaboração de formas criativas de
minuição do número de filhos por casal te- convivência.
nha também relação com esse dado. Ape-
sar dos avanços da reprodução assistida,
muitas mulheres não querem arriscar-se a REFERÊNCIAS
serem mães com idade avançada.
Existe um crescimento expressivo na BERTHOUD, C. M. E.; OLIVEIRA, A. L. What does
classe média de famílias com filho único. the family mean to children, adolescents, adults
and the elderly at the end of the century? A
As investigações feitas sobre essas famílias Brazilian Study. In: THE SECOND International
mostram a influência da rede social para Conference in Advances in Qualitative Method.
esses jovens. A internet funciona como Edmonton: University of Alberta, 1999.
grande facilitadora dessa rede, mas a fa- CARVALHO, I. M. M.; ALMEIDA, P. H. Família e
mília extensa, os amigos, o trabalho e os proteção social. São Paulo Perspec., São Paulo, v.
estudos, e a comunidade também trazem 17, n.2, Apr./June 2003.
a oportunidade de trocas qualitativas para CARTER, B. et al. As mudanças no ciclo de vida
esse filho único. (Salomoni, 2006). familiar: uma estrutura para a terapia familiar. 2.
Em relação ao trabalho, atualmente ed. Porto Alegre: Artmed, 1995. p. 40-50.
os casais jovens de classe média, na Fase CERVENY, C. M. O. (Org.). Família em movimento.
de Aquisição, são de dupla carreira. Algu- 1. ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007. p. 226.

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Manual de terapia familiar | 37


CERVENY, C. M. O.; BERTHOUD, C. M. E. Visitan- MANFREDINI, A. M. N. Pais e filhos: um estudo da
do a família ao longo do ciclo vital. 1. ed. São Pau- educação financeira em famílias na fase de aqui-
lo: Casa do Psicólogo, 2002. p. 200. sição. 2007. 200 f. Dissertação (Mestrado em Psi-
cologia Clínica) – Pontifícia Universidade Católi-
CERVENY, C. M. O. et al. Família e ciclo vital: nos-
ca de São Paulo, São Paulo, 2007.
sa realidade em pesquisa. São Paulo: Casa do Psi-
cólogo, 1997. p. 287. SALOMONI, S. R. Do singular ao plural e do plural
ao singular: a rede de relacionamentos do filho
FIGUEIREDO, M. G. de. Ninho cheio, Geração Can-
único adulto jovem. 2006. 180 f. Dissertação
guru: o impacto da permanência do filho adulto
(Mestrado em Psicologia Clínica) – Pontifícia Uni-
em casa segundo a perspectiva dos pais. 2007.
versidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2006.
Dissertação a ser apresentada em abril de 2007.
(Mestrado em Psicologia Clínica) – Pontifícia Uni- URANI, A. Brasil em números, Rio de Janeiro. IBGE,
versidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2008. v. 5, 1997.
GOLDANI, A. M. Família, gênero e políticas: famí-
lias brasileiras nos anos 90 e seus desafios como
fator de proteção. Revista Brasileira de Estudos de SITES
População, v.19, n.1, jan./jun. 2002.
GUIMARÃES, C. M. B. O meu, o seu e o nosso: o BRASIL. Ministério da Saúde. Departamento de
processo de construção conjunta do “compromis- Atenção Básica. Atenção básica e a saúde da família.
so financeiro” do casal de dupla carreira na fase Disponível em: <http://dtr2004.saude.gov.br/dab/
de aquisição do ciclo vital. 2007. 230 f. Disserta- atencaobasica.php>. Acesso em: 14 jan. 2008.
ção (Mestrado em Psicologia Clínica) – Pontifícia DATAFOLHA. Família fica ainda mais importante
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2007. gente.com.br/upload/materialpesquisa/arq_159.-
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ES- pdf>. Acesso em: 07 out. 2007.
TATÍSTICA (IBGE). Síntese dos indicadores sociais: INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTA-
uma análise das condições de vida da população TÍSTICA (IBGE). IBGE divulga indicadores sociais dos
brasileira. Estudos e Pesquisas: Informação De- últimos dez anos. Disponível em: < http://www.
mográfica e Sócio Econômica, Rio de Janeiro, n. ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noti-
21, 2007. cia_impressao.php?id_noticia=987>. Acesso em:
LOBO, P. L. N. A repersonalização das relações de 28 jul. 2007. Comunicação social de 28 set. 2007.
família. In: BITTAR, C. A. O direito de família e a VEJA. São Paulo: Abril, ed. 1739, 20 fev. 2002. p.
Constituição de 1988. São Paulo: Saraiva,1989. 98-105.

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38 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

2
Comunidade e família
Dilson Cesar Marum Gusmão

INTRODUÇÃO Após muitas reflexões sobre o tema,


re-visitando cada história contada, cada pa-
Se no berço experimentei esta fome lavra pronunciada, perguntamo-nos: o que
humana, ela continua a me acompa- é pertencer?
nhar pela vida afora, como se fosse Pertencimento é o lócus que une in-
um destino. A ponto de meu coração divíduos que pensam em si como membros
se contrair de inveja e desejo quando de uma coletividade em que crenças são
vejo uma freira: ela pertence a Deus.
partilhadas, em uma origem comum, além
Clarice Lispector (2004) de destino comum. Engloba valores éticos,
morais, costumes, memória, dando ao in-
O trabalho desenvolvido com grupos divíduo a possibilidade de sentir-se perten-
de famílias possibilita aos participantes cente àquele lugar, àquela raça. É também
identificar, nomear e compartilhar suas mais que um lugar físico: é a construção
emoções. Nesses momentos, há troca de do espaço simbólico onde o indivíduo bus-
experiências, com histórias compartilhadas ca sua identidade. Marc Augé (1994) assi-
que despertam no indivíduo a percepção nala que o pertencimento é considerado um
de que existem outras formas de ver o Lugar Antropológico, porque é, ao mesmo
mundo. Tal processo é vivido pela equipe tempo, identitário, relacional e histórico.
técnica como um aprendizado que traz Não identificamos nas relações inter-
muita satisfação. pessoais das famílias atendidas nenhum
Muitos aspectos teóricos foram pen- lugar identitário, relacional ou histórico.
sados a partir de encontros com as famí- Ao contrário, encontramos um lugar dia-
lias, e a questão mais citada nas sessões, metralmente oposto. De acordo com Augé,
girou em torno do pertencimento. o espaço que não se define como identi-
Nos relatos, surgiu a denúncia de que tário, nem como relacional e histórico, será
coabitar o mesmo espaço físico e conviver como um “não-lugar”, o qual delineia um
nele não é suficiente para que as pessoas mundo provisório, transitório, superficial,
se conheçam ou para que haja intimidade comprometido com a solidão.
entre elas. As queixas apontam que elas não Diante dessa constatação, o “não-lugar”
conversam entre si, não brincam, não con- defendido por Marc Augé tornou-se nosso
tam histórias. As fronteiras interpessoais tema principal e despertou na equipe muitas
são difusas, o que gera sentimentos de de- inquietações e muitos questionamentos em
sordem, angústia e solidão. O que predo- relação ao futuro das relações humanas, da
mina na relação é o desejo individual e, família, da escola, entre tantos outros. Não
como decorrência, a luta pelo poder. temos respostas, apenas perguntas.

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Manual de terapia familiar | 39


EU, O CONTADOR DE HISTÓRIAS de que há ouro. Persegue homens, e os pre-
feridos acabam deixando a família, sedu-
Das lembranças que tenho de minha infân- zidos por seu encanto. Passeia luminosa
cia, uma é especial, muito distante no tem- pelos ares e pelo céu como uma bola de
po e já um tanto difusa na memória. Em fogo.
um dia de inverno, na calçada em frente à Há lendas de cobras gigantescas (co-
minha casa, minha mãe e outras pessoas mo a sucuri), de almas penadas de serta-
juntavam-se para aquecer-se ao sol e apro- nistas mortos por doença, por flechas, es-
veitavam a oportunidade para colocar em traçalhados por onças e comidos por uru-
dia as novidades. O sol enfraquecido da bu; de homens que, nas noites de bruma,
estação, os dedos dos pés gelados, as pes- subiam e desciam o rio em embarcações
soas conversando, as crianças brincando: misteriosas; de anhumas, aves que habita-
foi assim, em meio a essas conversas, que vam a região desde o início do povoamen-
aprendi a conhecer a alegria da vida, o cho- to e que eram procuradas pelos caboclos –
ro da dor, o sofrimento identificado com o eles, com cada parte, faziam remédios para
outro, a confiar, a compartilhar. Quase tudo todos os males: os esporões e os ossos da
o que sei sobre a família de meu pai escu- perna esquerda eram transformados em
tei nessas situações, depois do almoço, sob amuletos contra estupor, mau-olhado, en-
o sol do meio-dia. Tudo o que sei sobre a venenamento e mordedura de animais.
família da minha mãe aprendi com minha Descobri que as histórias escritas em
avó e com minhas tias. cada vilarejo têm características próprias
Tornei-me contador de histórias ou- e, entre elas, muitas semelhanças. Todos
vindo-as. As pessoas juntam-se e contam possuem, além das lendas, os tipos popu-
umas para outras histórias que aguçam o lares, personagens que vivem na cidade e
imaginário, desafiam o tempo, despertam destacam-se pela popularidade.
lembranças guardadas na memória.
Tornei-me um contador de causos, in-
fluenciado pelas pessoas com quem convi- Os mitos urbanos
vi na infância. Mais tarde, como terapeuta
de família, dessa competência fiz minha Encontrei Maria Quitéria, mulher de esta-
maior ferramenta. tura baixa, vestido rodado, com rendas tal
qual boneca –, cheia de bijuterias, prote-
gendo-se do sol com uma “sombrinha”,
Descobrindo histórias muito maquiada. Não molestava ninguém.
Gregório Mudo, negro muito alto, para ca-
Como contador de histórias, ultrapassei as minhar, segurava as mãos nas costas; ar-
divisas da minha terra e, como os bandei- cado, arrastava os pés. Diziam que fora
rantes, desci o rio Tietê visando a conhe- escravo e haviam-lhe arrancado a língua.
cer as histórias das cidades ribeirinhas e Estrelinha era homem que só saía à noite e
das famílias que lá vivem. São cidades ri- caminhava contando estrelas. Ditinho
cas em contos e lendas, lendas de mães foieiro,1 nas noites de sexta-feira virava
d’água encantadas, que levantavam gran- lobisomem (“muita gente viu”). Alzira
des ondas e atraíam os navegantes ao fun-
do do rio; da mãe do ouro, um mito ligado
ao período do ciclo do ouro que conta a
história de uma mulher que vive debaixo 1 Foieiro: termo empregado na fala caipira, para
da terra e que tem a seu encargo guardar a palavra “folha”. Quem trabalha com folhas
as minas, e onde ela está é prova evidente de zinco.

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40 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

Sucuri, chamada assim porque não tinha Os moradores pouco se conhecem e


os dentes da frente e porque seus enormes criam uma cultura de vida solitária.
caninos saíam para fora da boca, gritava A equipe de profissionais, especialis-
pelas ruas, dizendo que ia casar-se com um tas em assuntos de família e encarregada
rico e conhecido personagem da cidade. de organizar as reuniões, é apaixonada por
Essas cidades pequenas, muitas vezes histórias de vida. De maneira carinhosa,
desconhecidas, serviram de berço a gran- acolhe o sistema familiar e cada indivíduo
des personalidades que ajudaram a fazer a que o compõe; atenta, ouve o que as pes-
história do Brasil. Permitiam que todos se soas têm a dizer e com elas vai tecendo
conhecessem, as grandes personalidades, novas histórias.
os tipos populares e a gente do povo. Po-
rém, as cidades cresceram – o desenvolvi-
mento econômico e industrial modifica, ENCONTRO DE HISTÓRIAS
amplia, e, em muitos lugares, a zona rural
foi sendo substituída pela urbana. Somos contadores de histórias especializa-
A população foi modificando-se não dos em terapia familiar e centramos nossa
apenas pelas mortes e pelos nascimentos atenção na trama das relações familiares.
de seus habitantes, mas também pelos Portanto, nosso olhar desloca-se para a
movimentos de entrada e saída, ou seja, o compreensão da estrutura familiar, para a
fluxo migratório rural-urbano. Antigos cos- comunicação existente entre os membros
tumes da cidade pequena foram sendo desse sistema, para os legados transgera-
substituídos por hábitos que caracterizam cionais, para os mitos familiares e, sobre-
uma cidade grande. tudo, para a cultura e para as crenças pe-
Sua população sentiu-se esmagada culiares a cada família.
por problemas de transportes, poluição, fal- O projeto Refletindo com as Famílias,
ta de segurança, drogas, moradia, segre- desenvolvido no Sistemas Humanos, foi ins-
gação e pelos efeitos da globalização. O pirado e adaptado do modelo criado por
desenho das relações interpessoais urba- H. Peter Laqueur e tem como finalidade a
nas passa a ser delineado por novos e dife- criação de espaços para diálogos que pos-
rentes espaços, impostos pela economia sibilitem o crescimento e que tornem pos-
mundial, o que traz efeitos sobre o padrão síveis as transformações das relações fa-
de sociabilidade dos indivíduos e propicia miliares.
o surgimento de uma nova formação de Os grupos multifamiliares ampliam a
vínculos sociais e familiares. rede de pertencimento e apoio. Nesses en-
Foi, em meio a esse universo de len- contros, as ressonâncias2 (conforme defi-
das e fatos que ouvimos as famílias contar nição de Mony Elkaïm [1988]) entre te-
suas histórias. rapeutas e famílias criam um espaço afetivo

O CONTEXTO 2 “[...] Denomino ressonâncias esses agrupa-


mentos particulares, constituídos pelas interse-
Como saltimbancos, levamos nossos talen- ções dos elementos comuns a diferentes indiví-
tos a diversas localidades, geralmente po- duos ou diferentes sistemas humanos, que sus-
pulosas, com casas simples e com as mes- citam as mútuas construções do real dos mem-
bros do sistema terapêutico. Esses elementos
mas condições sociais. Atrás de cada por- parecem ressoar sob o efeito de um fator co-
ta, ouvimos histórias de vida, muitas vezes mum, um pouco como um corpo que vibra sob
tristes, comoventes, histórias que mostram efeito de uma dada frequência sonora.” (Elkaïm,
força, garra e luta. 1988, p. 320)

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Manual de terapia familiar | 41


de respeito e acolhimento, no qual histó- No final dessas duas etapas, os parti-
rias despertam histórias. cipantes comentam como se sentiram nas
A clínica social do “Sistemas Huma- atividades. Em seguida, com o grupo já
nos” desde 2001 realiza atendimento gra- disponível para o trabalho, perguntamos
tuito às famílias com dificuldades de rela- os motivos que os trouxeram à terapia.
cionamento que não dispõem de recursos Normalmente, surge uma metáfora
financeiros. que o terapeuta atento deverá “fisgar” e
Nos encontros, incentivam-se os par- fazer circular entre os presentes, visando
ticipantes a: a confirmar ou desconfirmar se é o tema
que o grupo gostaria de debater e de de-
 identificar e compartilhar suas emo- senvolver durante a sessão.
ções;
 facilitar a comunicação entre o grupo Exemplo 1: “Cuidar para o leite não der-
familiar; ramar.”
 estimular suas potencialidades;
 compartilhar dificuldades; Essa metáfora foi trazida por uma
 descobrir alternativas e comemorar con- mãe que, acompanhada pelo marido e pela
quistas. filha, ao ser indagada, respondeu: “Viemos
para cuidar para que o leite não derrame.”
Desse modo, são estabelecidas novas Algumas pessoas explicaram como
redes sociais e afetivas de significação e entendiam “o leite derramado”. Para uns,
convivência. é um filho presidiário que se droga, que
Com o objetivo de identificar as ne- assalta, que mata e que morre; para ou-
cessidades das famílias, os terapeutas aco- tros, são filhas que engravidam precoce-
lhem cada uma delas para posterior enca- mente, que abortam, que desaparecem; fi-
minhamento ao grupo multifamiliar, de lhos jurados de morte; mães que perdem o
acordo com as dificuldades, atendimento pátrio poder e que desconhecem o para-
esse que poderá ser unifamiliar. deiro do filho.
Os grupos são compostos de 7 a 10
famílias, e o atendimento (semanal) é reali- Exemplo 2: “Quem tem a chave da casa?”
zado por dois terapeutas e por um inter-
locutor. Esta metáfora foi trazida por uma
Procuramos durante os encontros uma criança cujos pais são separados. Mesmo
aproximação cautelosa, tendo o cuidado de tendo constituído outra família, o pai ain-
não invadir a privacidade das pessoas. Nos- da mantinha em seu poder a chave da casa.
so trabalho multifamiliar não elege um pro- Para a mãe, essa era uma situação cons-
tagonista para trabalhar, mas a metáfora trangedora, uma vez que os filhos, um de
trazida pelo grupo durante as sessões. 8 anos e o mais velho de 12 anos, defen-
O primeiro momento da sessão, de- diam o direito de ele estar com a chave.
nominado Acolhimento, tem como objeti- O tema da sessão foi definir em cada
vo integrar os componentes entre si e com família “quem tem a chave da casa”.
a equipe. No acolhimento, geralmente tra- Trabalhamos com jogos dramáticos,
balhamos com jogos, brincadeiras, cantos envolvendo fadas, duendes, bruxas e mui-
e desenhos. tos super-heróis.
O segundo momento, o Desenvolvi- De acordo com o número de sessões
mento, tem como função coletar, selecionar estabelecido pela equipe, este modelo de
e escolher os assuntos emergentes do grupo, trabalho repete-se ante as necessidades de
com os mesmos recursos do Acolhimento. cada grupo, e, em algumas situações espe-

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42 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

cíficas, além de trabalhar com a família, é ta, tornando-as pouco espontâneas e cria-
desenvolvido o trabalho em outros segmen- tivas, ainda mais a partir da descrença nas
tos da comunidade. Como exemplo, cita- possibilidades de mudanças.
se a maneira como procedemos diante da Entendemos que o sofrimento mani-
constante queixa de aproveitamento e com- festa-se em um ou mais membros da famí-
portamento escolar. lia como mensagem de dor ¯ é o que cha-
Tentamos rever com os pais a impor- mamos sintoma, ou seja, o ponto de parti-
tância dos vínculos afetivos nos primeiros da para a compreensão do drama familiar.
anos de vida, o valor de sua presença na Por circunstâncias da própria vida, cons-
escola e o relacionamento que devem ter tantemente enfrentamos problemas de or-
com a instituição que cuida de seus filhos, dem emocional, e o preconceito em rela-
tornando-os co-responsáveis pelo próprio ção às inquietudes e aos sofrimentos dessa
desenvolvimento. ordem é ainda motivo de vergonha e
Foi enfatizada a importância do en- ocultação.
volvimento da família nas ações da escola, Em uma comunidade visitada, a con-
contribuindo-se com os educadores no sen- versa com os professores trouxe histórias
tido de reconhecer os resultados do traba- interessantes relativas à vida das crianças
lho e de continuar a construção de novas nas famílias. Contam que os alunos levam
propostas educacionais mais adequadas a para a escola a necessidade de falar sobre
cada criança. os conflitos enfrentados em suas casas,
Com os professores, realizamos pales- mostrando a solidão e a vulnerabilidade
tras, cujos temas abordavam a aprendiza- social a que estão expostas as famílias po-
gem por meio da convivência social: bres e desassistidas.
Em nossa experiência, percebeu-se
 vínculos afetivos; que as crianças sentem-se desprotegidas,
 identificação de sentimentos; e, em alguns casos, o lar representa um es-
 amor; paço de privação: filhos que presenciam
 respeito; cenas de violência entre os pais ou entre
 tolerância; vizinhos; crianças que não vão à escola para
 perdão; proteger a mãe do perigo real ou imaginá-
 convívio com a diferença; rio; filhos que precisam de – e não possu-
 valorização do saber social; em – um canto para guardar seus brinque-
 noções básicas de trabalho com grupo; dos, para marcar seu pertencimento; ir-
 comunicação. mãos mais velhos que cuidam de bebês
para que suas mães durmam durante o dia
À medida que as histórias entram em depois de uma longa jornada noturna de
interação com outras pessoas, elas adqui- trabalho. A encoprese é um grito antigo de
rem novos significados, estando-se acres- denúncias não-ouvidas.
cidas novas ideias ou subtraindo-se ele- Conhecemos crianças que não sabem
mentos não mais necessários para o grupo de onde vêm e que se sentem ameaçadas a
no momento. não ir a lugar nenhum. São histórias que
se referem à instabilidade financeira e
emocional, e revelam o afrouxamento dos
A COMUNIDADE E AS REDES SOCIAIS laços afetivos. Essas narrativas que denun-
ciam o drama familiar apontam para um
Participar da dor de quem vive socialmen- lugar onde não é permitido sonhar, brin-
te excluído faz-nos pensar que o sofrimen- car com o imaginário, correr no tempo. Ta-
to das pessoas menos favorecidas aumen- manha é a solidão em que vivem que essa

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Manual de terapia familiar | 43


situação tem propiciado o embrutecimento puderam internalizá-las por terem sido fi-
das relações familiares. lhos de um casal, embora, em cada um
Enxergar a dor do outro é estar com- deles, uma função talvez seja mais eviden-
prometido com sua própria dor; é a renún- te que a outra.
cia de seus interesses e a necessidade de A creche/pré-escola também desem-
ampliar o olhar para além de seus limites. penha as funções materna/paterna, desde
A ferida emocional só pode ser percebida que os profissionais que nela atuam sejam
por pessoas que enxergam com o coração. bem formados, tenham clareza da impor-
Elas percebem a tristeza de um olhar, um tância de suas funções e organizem um
soluço perdido. ambiente acolhedor e seguro para o desen-
volvimento da criança. Da mesma maneira
como se procede no lar, a creche/pré-esco-
A mãe, o bebê, a creche la deve acolher e lidar com os sentimentos
A mãe ou quem cuida é a pessoa por meio de amor, ódio, separações e perdas que
da qual a criança inicia seu contato físico e constantemente são vividos pelas crianças.
emocional com o mundo. Ela comunica ao São muitos os exemplos de situações
bebê seu afeto quando interpreta suas ne- em que a creche/pré-escola reconhece e
cessidades e seus desejos, demonstrando valoriza os sentimentos de seus alunos:
sua capacidade de perceber as necessida-
Mauro é um menino que está na pré-
des, conter os sentimentos do filho com escola e que constantemente é man-
tranquilidade, dando importância e senti- dado à diretoria porque briga muito
do. A relação que a criança vai estabelecer com os colegas e é irrequieto. Sempre
com essas pessoas é muito importante, foi uma criança agitada, mas seu com-
porque servirá de alicerce para todas as portamento piorou a partir da prisão
outras relações que ela desenvolverá du- do pai. Até o dia de nosso atendimen-
rante a sua vida. to, a família não havia conversado com
O nascimento da vida afetiva do bebê ele sobre o assunto.
começa na relação que vai ser estabelecida A professora denunciou ao Con-
com a mãe. Aproximadamente dos 6 meses selho Tutelar que Mauro, 6 anos, che-
gou à escola com vários hematomas,
aos 2 anos de idade, a criança entra em
contando que fora agredido pelo ir-
um processo conhecido por individuação e mão. O Conselho encaminhou a nos-
começa a se reconhecer como pessoa e a so serviço a mãe, o irmão mais velho
identificar os outros. A relação que a crian- e a criança.
ça estabelece com a mãe ou cuidadora de-
fine a afetividade relacional entre elas: po- Ao perguntarmos de que maneira se-
de ser alegre, triste, tranquila, ansiosa, agi- ria possível ajudá-los, o filho mais velho,
tada, instável, estável, e assim por diante. Maurício, respondeu:
O vínculo afetivo entre mãe/bebê vem
modificando-se em função das contingên- Sou fruto de um final de baile, tenho
cias socioeconômicas da atualidade – a ne- 20 anos. Não conheço meu pai, não
cessidade de os pais trabalharem o dia sei quem é, nem o nome dele eu sei.
todo. Minha mãe foi ao baile e, na volta,
calados, ela se entregou a esse ho-
mem. Engravidou. E assim como veio,
Função materna e função paterna partiu e não se sabe pra onde. Dá sam-
ba, não dá?
O homem e a mulher contêm, em si, as Enfim, nasci e, como todo filho de
funções materna/paterna, porque ambos mãe solteira, que necessita trabalhar

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44 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

para se sustentar e sustentar o filho, postura. E o senhor não sabe o pre-


fui entregue à minha avó, que foi mi- conceito que vivemos aqui por isso.
nha mãe. Sinto muita saudade dela. Na rua, até hoje eu escuto: “Olha o
Faleceu há uns 4 anos. gayzão”. Todo mundo pensa que ele
também se aproveitou de mim. Mas
A mãe, Mariana, disse: nunca me tocou. Saio à rua e vejo
muitos olhos em cima de mim.
O Mauro tem 6 anos e é filho do meu
ex-companheiro. Vivi com ele muitos Terapeuta:
anos. Ele não vê o pai desde os 4 anos
de idade, quando foi preso. Ele mexia Por falar em olho, você tem uma man-
com drogas, essas coisas. cha branca no olho. O que foi isso?
Se eu gostava dele? Gostava, era
um homem bom. Maurício:

Maurício: Lutando caratê, descolou a retina e


desse olho estou cego. Gostaria de fa-
Fora o mau exemplo, era legal. Minha lar que bati nele algumas vezes (refe-
mãe contou ao Mauro que seu pai ti- rindo-se ao irmão), mas não vou mais
nha ido trabalhar bem longe para ga- bater. Reconheço que não sou o pai
nhar dinheiro e comprar coisas para dele, nem marido de minha mãe. Vou
ele, mas mentiu. Um dos motivos da embora daqui e tocar minha vida. Pela
prisão é que mexia com drogas, e foi vida da minha mãe passaram quatro
isso que a minha tia, irmã da minha homens: meu pai, o pai do Mauro, eu
mãe, falou ao Mauro. e o Mauro, e ela não tem nenhum.
Todos chegam e partem, e alguns nem
Mauro: se sabe pra onde.

Não foi só isso que ela falou. Não que- Maurício, neste relato, conta-nos que
ro falar. Só falo no ouvido da minha desde seu nascimento é só, sem ninguém.
mãe e ela conta, tenho vergonha. Não tem amigos. Vive com a mãe e com o
irmão, tem muito carinho por ambos, mas
Foi até a mãe e cochichou em seu ou- não se sente pertencendo a esse núcleo.
vido, observando-nos. Mariana observa calada, nem triste
Mariana (assustada): nem alegre, a partida do filho. Parece es-
tar acostumada com as idas e vindas dos
Ele disse que a tia (a irmã) contou que homens em sua vida.
o pai mexia com drogas e passava a
A ideia de criar Mauro sem alguém
mão na bunda das crianças. Eu não
sabia que ela tinha falado isso e que para protegê-la é desesperadora.
ele já sabia disso!. Mauro não encontra nem na mãe nem
em lugar nenhum a continência necessá-
Mauro vai para a escola de manhã e, ria para suas angústias e dúvidas. Todos
à tarde, participa de projeto socioedu- desejam pertencer, mas não encontram
cativo, tendo pouco contato com sua mãe. onde nem como.
Maurício: A primeira visão que se tem de Mauro
é de uma criança agressiva, desobediente,
Hoje tenho 20 anos, e minha mãe quer com problemas na escola; todavia, à medi-
que eu eduque meu irmão. Desde a da que nos aproximamos de sua história e
prisão, as pessoas me falam que ago- da história de sua família, percebemos uma
ra sou o pai dele e me cobram essa mãe angustiada e sofrida e filhos que tam-

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Manual de terapia familiar | 45


bém sofrem, sem saber o que fazer com é difícil saber deles. Saio de manhã
esse sofrimento. Maurício vai embora, e para trabalhar e levo o Jonas até a casa
Mauro bate em quem aparecer na frente. de minha filha para que ela o leve para
Nesse caso, a professora pôde ver seu a escola. Na saída, a outra filha pega
ele e leva para a casa da outra filha.
aluno não só como uma criança perturba-
Aí, essa outra filha tem que sair para
dora, mas como alguém que precisa de aju-
trabalhar, e o Jonas fica lá até a noite,
da, ou seja, ela pôde enxergar além do que brincando, vendo televisão, depois faz
era visível e, com isso, permitiu a ele e a o mesmo caminho de volta.
sua família um trabalho capaz de modifi-
car esse sofrimento.
Jonas:
Tenho certeza de que, no berço, mi-
Minha mãe não queria homem quan-
nha primeira vontade foi a de perten-
do eu nasci, mas eu tenho irmão que
cer. Por motivos que aqui não impor-
mora com ela. Se não gosta de ho-
tam, eu, de algum modo, devia estar
mem, então porque ela ficou com ele?
sentindo que não pertencia a nada e
Eu não gosto dela. Só gosto do meu
a ninguém. Nasci de graça.
pai.
Clarice Lispector (2004)
A vó tem muitas filhas, todas respon-
sáveis, mães dedicadas, filhas zelosas. Aju-
A história de Jonas dam a mãe sempre que podem. Separada,
Eu sou sua avó, ele sabe, mas me cha- D. Maria, 56 anos, trabalha como domés-
ma de mãe. Ele mora comigo e mora- tica, ganha salário mínimo para pagar alu-
mos só nós dois e a filha mais nova. guel e as despesas da casa, além de roupas
Sou separada. Estamos aqui porque e material para o Jonas. Não esconde o
gostaria que o senhor conversasse um carinho especial pelo pai do Jonas e a re-
pouco com ele, para saber por que não pulsa pela nora. Em todos os encontros que
quer mais ficar na escola. Preciso que realizamos, Dona Maria confessava que
ele fique o dia inteiro, tenho que tra- gostaria que Jonas saísse dali convencido
balhar para nos sustentar... Você vai
da necessidade de permanecer na escola.
ficar, né fio... Quantos filhos tenho?...
As duas primeiras são casadas e te-
Um dia, propus brincarmos de caça
nho netos grandes já. Depois vem o ao tesouro. A brincadeira tem por objetivo
pai deste aqui e mais duas depois... propiciar a cada participante o contato com
Como ele ficou comigo?... É que, suas qualidades e com os recursos internos.
quando sua mãe ficou grávida, no exa- Quais os tesouros que possuo?
me acusou que o filho era menino, e Onde estão guardados?
ela disse que não queria menino, que- Dona Maria tinha muitos, mas Jonas
ria menina. Depois que ele nasceu, tinha um, que era a vovó e que estava guar-
saíram do hospital e ficaram em casa dado no coração. A avó não poderia sair
por causa da dieta... Aí quando foram de lá, porque, senão, morreria, e ele não
embora para casa deles deixaram o
queria que ela morresse.
menino comigo e aí ele ficou... Eu con-
to a verdade, sempre contei, a mãe Dona Maria, dos muitos tesouros que
não quis ele mesmo. Hoje meu filho e tinha, escolheu o filho distante e o neto.
minha nora moram em outra cidade, D. Maria:
tiveram mais filhos, têm meninas e
têm filho homem... O Jonas nunca vê O filho casou-se muito cedo, a moça fi-
o pai nem a mãe. Não recebo ajuda cou grávida. Como diz o ditado: “Quem
nenhuma dos dois. Moram em sítio e casa, quer casa” e ele foi embora.

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46 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

Fala muito sobre a tristeza que sente rituais que diferenciam os membros dos
pelo fato de o filho ter ido para tão longe. não-membros.
Descobrimos juntos que a criança era a Diante desse jogo de forças antagô-
compensação da avó, pela ausência do fi- nicas – a necessidade de pertencer e o in-
lho. Por alguma razão, a escola era vista dividualismo – as famílias buscam encon-
por ela como uma ameaça que poderia tam- trar um equilíbrio que lhes permita man-
bém tirar seu neto. Por esse motivo, Jonas ter os laços afetivos nessa nova ordem eco-
não queria ficar na escola, não por pregui- nômica, necessitando utilizar-se das insti-
ça ou má criação, como poderia ser inter- tuições existentes para que seus filhos se-
pretada sua atitude, mas era uma forma jam assistidos. Como terapeutas de famí-
de Jonas tranquilizar a avó de que ele não lias, é necessária atenção a essas mudan-
a abandonaria, não a trocaria pela escola. ças, além de auxílio às instituições que cui-
Nesse caso, também foi possível per- dam de crianças a considerar que o ponto
ceber que o comportamento da criança res- fundamental para a transformação das cre-
pondia a situações emocionais familiares e ches e Escolas municipais de educação in-
que ela não sabia como agir de outra ma- fantil é a formação de professores. A edu-
neira. A instituição foi sensível em não acre- cação infantil não é uma atividade desti-
ditar nessa primeira impressão e buscou nada apenas a compensar a ausência da
ajuda para ambos, avó e neto. família nos cuidados básicos dos filhos, mas
também deve propiciar o desenvolvimen-
to físico, cognitivo e psicológico da crian-
CONSIDERAÇÕES FINAIS ça, tendo por base conhecimentos científi-
cos e metodológicos.
Em virtude das mudanças que ocorrem no É necessário que os professores e cui-
mundo globalizado, no qual todos os po- dadores adotem uma nova concepção da
vos estão interligados por uma vasta teia infância, para que possam desempenhar
de comunicação e vivem em dependência suas funções como uma extensão da famí-
mútua pela necessidade econômica, pre- lia de cada criança.
senciamos o surgimento de uma socieda-
de de perfil consumista e individualista,
marcada por uma economia que atinge REFERÊNCIAS
todas as camadas sociais, modificando o
AUGÉ, M. Não-lugares: introdução a uma antro-
comportamento humano e afetando as re- pologia da supermodernidade. Campinas: Papirus,
lações interpessoais, seja na comunidade, 1994. (Coleção Travessia do Século).
seja na família.
ELKAÏM, M. Panorama das terapias familiares. São
Procuramos também mostrar que o Paulo: Summus, 1998.
pertencimento é um processo de constru-
LAQUEUR, P. H. The father of multiple family the-
ção coletiva em que seus membros parti- rapy: the first model. Disponível em: <http://
lham crenças, valores éticos, o que possi- www.multiplefamilygrouptherapy.com/H%20
bilita aos indivíduos sentirem-se identifi- Peter%20Laqueur%20Model%20Of%20MFGT.
cados com determinado grupo. htm>. Acesso em: 05 maio 2001.
O pertencimento, do ponto de vista LISPECTOR, C. Aprendendo a viver. Rio de Janei-
da cultura, cria códigos, estilos, linguagens, ro: Rocco, 2004.

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Manual de terapia familiar | 47

3
Os impactos da
migração para a família:
uma temática contemporânea
Maria Gabriela Mantaut Leifert

A economia, a técnica, as comunica- cas dos espaços culturais é algo nunca vis-
ções de massa convertidas em instân- to. Sabemos que o encontro com uma cul-
cias planetárias. A transformação in- tura diferente tem fortes implicações na
ternacional da natureza em artifício vida do indivíduo, tornando o cotidiano
uniforme. O homem contemporâneo
vive sem raízes, foi desterrado de si
difícil e complicado.
mesmo. A “pátria universal” do pre- Este capítulo abordará as questões re-
sente é a homogeneidade imposta às lativas ao processo de imigração e seu im-
distintas formas de experiência. Nem pacto na família. Por meio da apresenta-
os indivíduos nem as culturas huma- ção de um caso clínico, tem-se a intenção
nas podem viver sem traumas um pro- de compartilhar algumas considerações
cesso similar. O homem é um ser de sobre o tema, cada vez mais presente no
diferenças. E sua auto-afirmação recla- cotidiano dos atendimentos clínicos, seja
ma o particularismo, o acento próprio.
em consultórios particulares, seja em ins-
Por isso, o sentir-se estrangeiro, uma
nova e radical condição de nomadismo
tituições públicas. Ao se pensar na temática
profundo e generalizado, define a si- família e imigração, alguns questionamen-
tuação da cultura contemporânea. tos surgem:
(José Jiménez, 1994)
 Por que as pessoas imigram e em que
Vivemos em um mundo de mudan- condições?
ças constantes, o acelerado desenvolvimen-  Quais as fases deste processo e que di-
to tecnológico, a crescente internacionali- ficuldades podem surgir?
zação dos mercados, a rapidez da trans-  Qual é a função da rede social no desti-
missão de informações e transporte apro- no e no sucesso do deslocamento?
xima pessoas de diferentes nacionalidades  Ocorrem mudanças nas relações de gê-
e etnias. Compreender esse mundo globa- nero em virtude da inserção em outra
lizado e intercultural e interagir com ele cultura?
representa um dos grandes “desafios” da
atualidade tanto para os indivíduos como Tais questionamentos surgem como
para as famílias. um fio condutor para a imersão na com-
A imigração não é um fenômeno no- plexidade da temática do encontro intercul-
vo, mas a rapidez em que ocorrem as tro- tural e das suas consequências para a fa-

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48 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

mília. O aporte teórico adotado na análise inserção do indivíduo na sociedade am-


dessas questões é uma interlocução entre pliada.
a psicologia intercultural e a teoria sis- No que se refere à motivação, para
têmica. Orozco e Orozco (2003), as famílias que
O encontro com outra cultura acar- imigram espontaneamente o fazem com a
reta esforços tanto do ponto de vista indi- perspectiva de melhorar de vida, seja do
vidual quanto familiar. Portanto, ao estu- ponto de vista econômico, seja do profis-
darmos esse fenômeno, não podemos nos sional. Contudo, o que elas não prevêem é
furtar de explicitar o processo de acultura- que a experiência de imigração pressupõe
ção psicológica. um alto custo afetivo e emocional que pro-
A aculturação psicológica é definida move transformações profundas. Os auto-
por Berry e colaboradores (1992) como o res apontam, sobretudo para o sofrimento
processo que os indivíduos sofrem em res- das crianças, que, na maioria das vezes no
posta às mudanças de contexto cultural. O processo de imigração, ocorre a separação
fenômeno provoca mudanças na cultura de dos pais, e a reunificação familiar talvez
origem de ambos os grupos, ou seja, na so- leve mais tempo que o previsto. Também
ciedade receptora e no grupo em acultura- corroboram com a ideia de que a rede so-
ção. Segundo Berry, em termos psicológi- cial desempenha um papel importante no
cos, as pessoas, em uma circunstância de destino do deslocamento, já que muitos
contato intercultural, demonstram atitudes imigram com a intenção de reunir-se a
tanto de contato intercultural quanto de membros da família que obtiveram suces-
manutenção de sua cultura. Esses aspec- so, como veremos mais adiante no estudo
tos são conhecidos como atitudes de acul- de caso apresentado.
turação, isto é, até que ponto as pessoas A família, ao imigrar, passa por diver-
estão dispostas a entrar em contato (ou sas fases. A seguir, será apresentado um
evitar) a cultura do país hospedeiro; até modelo desenvolvido por Sluzki em 1979
que ponto as pessoas desejam manter (ou que nos parece muito útil, no qual descre-
desistir) de suas identidades culturais. Es- ve as diversas etapas pelos quais a família
sas atitudes de aculturação vão delinear as passa. Ele as denomina estágio do proces-
estratégias de aculturação, entre elas, so de imigração, concluindo que cada es-
integração, assimilação, separação e mar- tágio tem características específicas e exi-
ginalização. ge da família respostas diferentes. São eles:
A integração é a estratégia de acultu- preparação, ato de imigrar, período de
ração mais desejada, na medida em que a supercompensação ou moratória, período
pessoa consegue “unir o melhor dos dois de descompensação ou crise e fenômeno
mundos”, pois mantém características da transgeracional.
sociedade receptora e conserva parte de sua
identidade cultural. A estratégia menos  Preparação: este estágio se refere aos
desejada é a marginalização, pois o indiví- primeiros movimentos concretos feitos
duo não tem interesse em manter contato pela família em relação à imigração, que
com a sociedade local, bem como rejeita envolvem a troca de cartas, requisição
sua cultura de origem. de visto ou outras licenças necessárias.
No que se refere à família, também Nessa etapa, a família vive períodos de
se adota este modelo de compreensão, ten- euforia e tensão.
do o cuidado de perceber que em um mes-  Ato de imigrar: O modo de imigrar va-
mo grupo familiar é possível observar di- ria consideravelmente, já que algumas
ferentes atitudes de aculturação, depen- famílias rompem com elos e a imigra-
dendo da idade, do gênero e do tipo de ção passa a ter um caráter definitivo ou

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Manual de terapia familiar | 49


irrevogável. Outras imigram por “um  Fenômeno transgeracional: Os esforços
tempo”, deixando a possibilidade de re- de adaptação da família vão ser perce-
torno presente. Algumas famílias imi- bidos pela segunda geração, ocorrendo
gram em bloco ou às cegas, sem um co- um choque entre gerações. Por exem-
nhecimento prévio; outras ainda man- plo, as famílias chinesas cujos filhos fo-
dam um membro da família antes para ram socializados na cultura americana
explorar o campo e verificar as possibi- apresentam comportamentos e modos
lidades de emprego e moradia. de pensar diferentes de seus pais. Ocor-
Há também famílias que imigram legal- re então um choque entre gerações, e
mente e mantêm contato com as insti- negociações precisam ser feitas entre a
tuições do “novo” país, enquanto há ou- cultura paterna e a nova cultura adota-
tras que o fazem de forma ilegal, fican- da pelos filhos no país de imigração.
do à margem das instituições da socie-
dade ampliada. Por fim, algumas deci- O caso apresentado a seguir refere-
dem imigrar e outras são obrigadas a se a uma família em busca de aprimora-
fazê-lo, o que modifica consideravel- mento profissional. Na atualidade, com a
mente o modo de adaptação. demanda por crescentes níveis de desenvol-
 Período de supercompensação ou mora- vimento tecnológico, faz-se necessário que
tória: O estresse da imigração não é pe- profissionais procurem buscar pólos edu-
sado nas primeiras semanas ou no pri- cacionais mais desenvolvidos. No quadro
meiro mês da chegada. Nesse período, da América Latina, o Brasil, pela qualidade
se percebem as dissonâncias culturais, de suas instituições de ensino, torna-se um
mas elas não são levadas em conta em país atraente e acessível para desenvolvi-
favor da adaptação familiar. Esta é uma mento intelectual, sendo procurado tanto
fase de moratória, na qual a prioridade por estudantes latino-americanos quanto
da família é compartilhar a sobrevivên- por estudantes africanos. A família aqui
cia e satisfazer as necessidades básicas. apresentada é latino-americana e chegou
 Período de descompensação ou crise: à cidade de São Paulo à procura de desen-
Período de tormenta, repleto de confli- volvimento profissional por meio de apri-
tos, sintomas e dificuldades. As famí- moramento de sua formação acadêmica.
lias que procuram terapia, de modo ge-
ral, estão nessa fase de descompensa-
ção, na qual as regras que funcionavam CONTEXTUALIZANDO
no país de origem já não são efetivas O ATENDIMENTO
na cultura do novo país. A dissociação
feita pelo casal no estágio anterior (ho- O caso foi atendido por mim no Serviço de
mem centrado nas situações presentes Orientação Intercultural, o qual está vin-
e futuras, e a mulher mais centrada no culado a um programa de Pesquisa em Psi-
presente e no passado relacionado ao cologia Social oferecido no Instituto de
país de origem) transforma-se em uma Psicologia da Universidade de São Paulo.
situação catastrófica após seis meses de O projeto é coordenado e supervisionado
imigração, pois o casal passa a vivenciar pela professora Sylvia Dantas DeBiaggi.
de forma diferente seus papéis. A mu- Trata-se de um atendimento em psico-
lher permanece mais ligada ao passado terapia breve para estrangeiros, descenden-
e o homem ao futuro, polarizando os tes de estrangeiros, brasileiros que retorna-
papéis e provocando crise no casal. ram do exterior e pessoas que desejam emi-
Nesse período, podem ocorrer sintomas grar. Os atendimentos aconteceram nas ins-
como depressão e abuso de álcool. talações da Universidade, em um total de

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50 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

12 encontros, iniciados em dezembro de Vivo uma situação difícil no casamen-


2006 e finalizados em agosto de 2007. No to, mas, como mãe, eu queria regres-
início do atendimento, os participantes le- sar, pois poderia perder legalmente
ram e assinaram um consentimento infor- minhas filhas...
mado que os conscientizava do fato de o
atendimento ser para fins de ensino e pes- Ao longo do encontro, relata que não
quisa. Os nomes e as profissões dos parti- se sente satisfeita no casamento e que gos-
cipantes são fictícios a fim de preservar a taria de ter um companheiro mais amigo.
sua identidade. Afirma ser constantemente desqualificada
pelo marido, e as brigas são motivadas prin-
cipalmente pelo modo como Ernesto lida
QUEIXA
com as dificuldades econômicas. O retor-
Ernesto entra em contato com o serviço de no ao Brasil tem por objetivo ficar perto
Orientação Intercultural através de e-mail, das filhas.
pedindo atendimento familiar. Afirma es- Atualmente não toma medicação, e
tar passando por problemas de relaciona- sua depressão melhorou após tratamento.
mento com a esposa e, por isso, encontra- Tem problemas relativos à organização da
se muito preocupado com as filhas, princi- agenda, chega atrasada aos encontros com
palmente a mais velha. Ele é hispano-ame- seus alunos, fato que a prejudica bastante
ricano da região andina e está cursando em seu trabalho. No momento, sua renda
pós-graduação na Universidade de São com as aulas são praticamente a única fonte
Paulo. Sua esposa também é universitária financeira da família, uma vez que a bolsa
e ambos têm duas filhas pequenas. de estudos de Ernesto foi praticamente
cortada. Ela também está bastante preo-
O ATENDIMENTO cupada em como as filhas estão lidando
com as constantes brigas do casal. Combi-
O primeiro contato ocorreu no final do ano, namos, então, que o atendimento seguin-
mas somente Ernesto compareceu, decla- te seria familiar.
rando que sua esposa saiu de casa e que
no momento ele está muito confuso com
toda a situação. Sente-se sobrecarregado UM POUCO DO HISTÓRICO
em relação aos cuidados com suas filhas e
com a conclusão do pós-graduação. No fi-
nal do primeiro encontro combinamos que Ernesto tem 44 anos, é hispano-america-
o próximo ocorreria somente com a pre- no, chegou ao Brasil em 2000 para fazer
sença de sua esposa para decidirmos o ca- um curso de pós-graduação em sua área
minho da terapia familiar, uma vez que, de atuação. Conseguiu a vaga, pois sua
pelo relato de Ernesto, sua esposa também irmã que mora em São Paulo apresentou
está preocupada com as crianças e passou seu currículo na Universidade. Em seu país
por um processo depressivo, chegando a de origem, trabalhava em uma empresa de
fazer uso de medicação. Pelo fato de estar- médio porte, mas as chances de progredir
mos em dezembro, marcamos o próximo sem uma titulação eram pequenas. Como
encontro para fevereiro de 2007. vemos nesse caso, a rede social foi um dos
Ao fazer a consulta com Neide no iní- fatores decisivos na escolha do país de imi-
cio de fevereiro, ela relata que voltou para gração e no sucesso da aceitação dos re-
casa no Natal. Além disso, diz que conver- querimentos para bolsa de estudos.
saram e acharam melhor que ela voltasse; A rede social tem uma importância
no entanto, comenta: fundamental no campo de estudos de mi-

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Manual de terapia familiar | 51


gração para explicar os deslocamentos de sa de estudos em uma escola particular
indivíduos, as distâncias que percorrem e onde ela trabalha. Como foi dito anteri-
seus destinos específicos. As redes favore- ormente, a família tem dificuldades finan-
cem e incentivam esse fenômeno, na me- ceiras para se manter e utiliza fundamen-
dida em que há o enaltecimento dos atra- talmente os serviços e a infra-estrutura da
tivos e das qualidades do país de imigra- Universidade.
ção, oferecendo suporte logístico, social e Ernesto é o segundo filho de vários
emocional ao imigrante recém-chegado irmãos e afirma que desde pequeno sem-
(Portes e Rumbaut, 1990). pre se sentiu muito responsável pela famí-
Em 2001, conseguiu trazer sua espo- lia de origem. Sua família tem uma origem
sa Neide, de 34 anos, para o Brasil, e ela humilde, e poucos conseguiram se desen-
também inicia um curso de pós-graduação. volver profissionalmente. Casou-se aos 34
Ambos sobrevivem com bolsa de estudos. anos. Durante a juventude, teve uma atua-
Ao vir para o Brasil, ela deixa as filhas sob ção política intensa como dirigente estu-
os cuidados de sua mãe, modelo que não dantil por muitos anos. Naquela época, diz
se mostrou eficaz, pois, além de separar a que não procurava parceira, pois achava
família, os pais dela estavam em dificulda- que iria morrer jovem. Essa declaração de
des financeiras, e o casal tinha que man- Ernesto nos remete a uma visão romântica
dar todo o dinheiro para o país de origem. da militância e deixa transparecer o quan-
Aqui começaram a frequentar uma igreja to naquele momento ele estava compro-
metido com o partido. Com o passar do
que os ajudou no inicio da adaptação, e
tempo, diz que a política foi mudando e
por intermédio dela receberam ajuda finan-
parte de seus amigos foram presos. Então
ceira e conseguiram trazer as meninas.
saiu do partido aos 34 anos, conheceu Nei-
Desse modo, tal processo de imigração teve
de e se casou.
três etapas, e demorou dois anos até a fa-
Neide, ao falar sobre a infância, refe-
mília voltar a se encontrar. Para Orozco e
re ser a caçula de uma família de quatro
Orozco (2003), as crianças imigrantes res-
irmãos homens, cresceu em um ambiente
pondem de diferentes maneiras à separa-
humilde, com poucos recursos materiais,
ção de seus pais: para algumas pode ser
no interior do país. Dependente e muito
um processo traumático; para outras pode ligada à sua família de origem, comenta
ser estressante, mas não traumático. O que tinha medo de seu pai pelo seu tempe-
modo de experimentar a separação, as con- ramento forte e autoritário.
dições sociais do lugar de origem e a per- Em relação ao casamento, Neide faz
cepção daquilo que pode ocorrer influen- uma comparação entre Ernesto e seu pai:
ciam na posterior adaptação da criança à
nova realidade. No caso apresentado, as Meu pai bebia e arranjava confusão.
restrições econômicas e a grande depen- Ernesto negociava, encontrava formas
dência das instituições públicas tornaram de dialogar... mais que amor, eu tinha
a vivência da experiência migratória mui- admiração. Fugi de minha família.
to mais complicada para a família, aprofun- Tinha tanto medo de meu pai, tudo
dando as rupturas e as incertezas que na- foi muito rápido, ele foi conhecer
Ernesto dois anos depois. Meu pai não
turalmente esse processo acarreta.
queria que os filhos se casassem. Ele
Ernesto concluiu um de seus cursos
impunha medo e, quando brigava com
em 2002 e na época do atendimento alguém, brigava com todos...
estava concluindo sua segunda titulação.
Neide concluiu seu curso em 2005 e hoje Neide diz que ao vir para o Brasil per-
dá aulas de espanhol. Suas filhas têm bol- cebeu que mudou muito:

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52 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

Fiquei mais agressiva. Hoje posso di- sar de o fato ser trazido de forma tranquila
zer o que quero e, após a separação e com certo humor, é fonte de estresse e
aprendi a me posicionar na hora cer- de desentendimentos, mesmo com a rela-
ta e sinto-me mais ouvida. ção do casal já ter sido bastante trabalha-
da e com maior satisfação conjugal.
Este aspecto foi demonstrado por
QUESTÕES DE GÊNERO DeBiaggi (2002) em seu estudo sobre a
E IMIGRAÇÃO relação dos papéis de gênero e a acultu-
ração de casais brasileiros vivendo nos Es-
A percepção de Neide denota uma mudan- tados Unidos, ao analisar a relação desses
ça na relação de gênero do casal, a qual foi fatores com a satisfação conjugal. O con-
acentuada pela mudança de país e de cul- tato com uma sociedade onde os padrões
tura. Ao longo do processo terapêutico, seu de gênero são mais igualitários, além do
marido se “queixa” da autonomia e da in- ingresso da mulher no mercado de traba-
dependência adquirida pela esposa. Traba- lho com ganhos expressivos, são fontes de
lhamos essas questões enfatizando que a desequilíbrio e promovem mudanças nas
mudança para uma sociedade onde as re- relações de gênero. DeBiaggi (2004), em
lações de gênero são mais igualitárias e a estudo posterior, ao pesquisar os casais que
mulher passa a trabalhar pressupõe uma retornaram ao Brasil, aponta que as mu-
mudança no relacionamento conjugal no danças nas relações de gênero podem cru-
sentido de maior simetria nas relações. zar fronteiras e se manter no retorno. Já a
Ernesto conta que recentemente foram a maior simetria nas tarefas domésticas e nas
uma festa de colegas da Universidade e atribuições familiares é fonte de maior sa-
perceberam que todos os homens eram tisfação conjugal, conforme o relato das
sustentados pelas mulheres: famílias pesquisadas.
Ao longo do processo terapêutico, fica
Todos os homens presentes depen-
evidente a mudança de Neide no que se
diam de suas esposas: era uma festa
refere à sua auto-estima. A cada encontro,
de um colega boliviano casado com
brasileira. Nós dizíamos que éramos mostra-se mais confiante e organizada. À
o grupo de maridos sustentados. medida que se apropria de seus recursos,
vai se tornando mais segura e tendo mais
Ao fazer este comentário, sorri diante sucesso no trabalho. No final do processo
de sua situação e da do grupo. Refere que terapêutico, ela era a principal provedora
são todos homens talentosos que têm pro- da família, o que gerou uma mudança nas
blemas em resolver questões financeiras: relações conjugais do casal. Antes criticada
e desvalorizada pelo marido, hoje, ao
Eu não sou o único caso em que a “trazer dinheiro” para casa, passa a ter mais
mulher consegue ganhar mais... condições de opinar sobre o destino da
família.
Pergunto como sente isto:

Todos comentaram que, quando elas O ATENDIMENTO FAMILIAR


se estressam, trazem à baila o tema
como conflito. Nós brincamos que so- Como o pedido inicial de Ernesto e Neide
mos Superman-Supermantenidos. relacionava-se à preocupação com o bem-
estar das filhas, o terceiro atendimento
Esta mudança de status da mulher contemplou a família. Embora ficasse cla-
acarreta novas negociações no casal. Ape- ra a dificuldade no relacionamento conju-

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Manual de terapia familiar | 53


gal, trabalhamos inicialmente com a de- seus próprios recursos evolutivos, junta-
manda do cliente. É importante ressaltar mente com os adultos, uma ampliação da
que os encontros acontecem em espanhol. história familiar.
Observamos o quanto falar na língua ma- Algumas perguntas são lançadas du-
terna favorece o vínculo com o terapeuta e rante a execução do desenho a título de
a emergência de conteúdos afetivos. input:
Ernesto chega pontualmente à consul-
ta com as filhas. Fala que Neide não poderá  Do que ou de quem mais sentem sau-
comparecer, pois tem que dar uma aula. dade no país de origem?
Uma das queixas recorrentes de Ernesto é  Como se lembra de seu país de origem
que Neide não se ocupa com as crianças (imagem, clima)?
como deveria. Ele se mostra muito tenso  O que lhe marcou na saída e como vê a
no início da sessão; no entanto, para sua sua realidade atual?
surpresa, Neide consegue chegar ao encon-  Que coisas valorizam e rejeitam no país
tro a tempo. de imigração?
Inês tem 9 anos e está cursando a ter-
ceira série. Muito inteligente, reponde sem Acreditamos que para estas famílias
inibições às minhas perguntas. Viviane, 7 tal procedimento tenha um grande im-
anos e meio, cursa a segunda série. Elas pacto, pois revela como cada um processa
chegaram ao Brasil com 3 e 2 anos de ida- a mesma experiência diante de seus pró-
de, respectivamente. O aspecto das crian- prios recursos. Observamos que a ativida-
ças é ótimo. Seus materiais escolares estão de compartilhada aproxima pais e filhos,
impecáveis. Embora a família passe por pois, às vezes, pela primeira vez, eles têm
problemas financeiros graves, as crianças um espaço para demonstrar do que sen-
mostram-se muito bem cuidadas. Ambas tem falta e como percebem seu cotidiano
falam em espanhol e português com de- atual.
senvoltura e de maneira descontraída. Ao iniciar a execução do desenho,
Comento com as meninas que o pai e Viviane conta que vão retornar para seu
a mãe já vieram conversar comigo e que país; pergunto como é isto, e o pai comen-
ambos tinham me falado que as duas eram ta que o visto dele termina no final do ano
muito inteligentes. Depois digo que gosta- e que toda a família é sua dependente. Caso
ria de pedir a elas que fizessem dois dese- Ernesto encontre um trabalho remunera-
nhos: o primeiro sobre o país de origem e do, eles têm intenção de ficar aqui no Bra-
o outro sobre o Brasil. sil. Do contrário, voltarão para seu país.
O desenho sobre o país de origem e o Viviane acha que eles voltarão no final do
país de imigração tem como objetivo tra- mês...O interessante das sessões familiares
zer à tona como cada membro da família é justamente o contraste entre as perspec-
elaborou e elabora a vivência de desloca- tivas temporais dos adultos e das crianças:
mento. Ao lançar mão de uma técnica para o pai, o retorno é uma possibilidade,
projetiva, cria-se um espaço de interação mas para a filha é uma certeza que vai se
não-verbal na tentativa de ampliar as pos- realizar em um curto espaço de tempo. Ao
sibilidades de compreensão daquilo que de- tomar conhecimento dessas fantasias infan-
sejamos investigar e de favorecer a emer- tis, os pais ganham recursos para esclare-
gência de conteúdos afetivos. Para Fedullo cer e tranquilizar as crianças trazendo-as
(2000), na terapia de família com crianças para a realidade, embora saibamos que,
pequenas, é preciso desenvolver uma lin- nesse caso, a criança era porta-voz do de-
guagem comum a todos os membros da sejo materno de voltar rapidamente para
família, para que as crianças teçam, com seu país de origem e para perto de sua pró-

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54 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

pria mãe (avó materna). Isso será analisa- Sobre o Brasil, diz que fez
do mais adiante, ao comentar os trabalhos.
Proponho que coloquemos os dese- alguém segurando uma bandeira ver-
de representa grama, vegetação. Acho
nhos no chão, por pares, e peço para que
que têm estrelas, mas não sei o que
cada um fale sobre eles. Neide inicia co- significam.
mentando o desenho sobre o país de ori-
gem: Pergunto de que sente saudade, e ela
se refere ao clima.
Lá eu era professora. Este é o cami- Ao refletir sobre a resposta, podemos
nho para a minha casa: havia uma pensar que Inês sente saudade do clima
subida montanhas, a árvore de Ála- afetivo de sua terra natal, na medida em
mo, eu sempre subia por aquela rua.
que sua avó foi muito importante no início
Era a casa de meus pais.
de seu desenvolvimento, como vai salien-
Eu pergunto se em seu país tiveram tar sua irmã caçula.
uma casa somente deles (família nuclear). Viviane começa falando muito baixi-
Declara que não: ao se casarem, moraram nho, de forma infantilizada, sobre seu de-
na casa dos sogros; depois, em um quarto senho. Quase não dá para entendê-la. Fala
que era do Ernesto e, por fim, com um ir- sobre o cavalo da avó (materna) e começa
mão dele. Relata: a choramingar...
Neste momento, aponto sua tristeza/
Na realidade eu sinto saudade da casa saudade ao falar sobre o país de origem, e
de meus pais, tudo representa a minha a mãe a pega no colo e afaga. Menciono
família. que a Viviane expressa uma tristeza que
Sobre o Brasil comenta: provavelmente é de todos. Pergunto como
eles costumam lidar com a tristeza. Neide
No desenho do Brasil, coloquei a ve- diz que tem muita dificuldade em fazer a
getação, as árvores, a rotina do cuida- filha se acalmar e que vão voltar logo, que
do das crianças, os horários... coloquei é para ela esquecer. Entretanto, às vezes,
a praça do relógio, pois gosto muito também perde a paciência. Inês diz:
do verde das árvores.

Interessante notar como no desenho Quando minha irmã está assim, ma-
mãe faz a comidinha da vovó Nina, o
do Brasil Neide expressa seu papel de mãe,
que acalma Vivi.
representando a rotina do cuidado com as
filhas. Ao mesmo tempo em que desenha a
Fica muito evidente que parte da tris-
praça do relógio como sendo o lugar de
teza que Viviane expressa também se refe-
que mais gosta, afirma como sendo um dos
re à própria tristeza materna de estar lon-
seus principais problemas a pontualidade
ge de sua própria mãe. Por outro lado,
e a organização de suas tarefas e de seus
Neide não encontra apoio em seu cônjuge,
compromissos familiares e profissionais.
que é muito racional e tem dificuldade em
Inês começa a falar sobre seu desenho:
compreender e acolher a saudade de suas
A lhama, a coruja e os cerros. Gosto filhas e de sua esposa da terra natal. Para
de ver neve, as cavernas. Está nubla- Sluzki (1997), isso acorre porque a família
do, vai cair neve. extensa (pais, avós, tios, primos) é conti-
nente de grande parte das tensões viven-
Ela explica sobre o clima em sua ci- ciadas, e, ao abandonar seu país de ori-
dade, que no inverno é frio e no verão faz gem, o casal experimenta fortes tensões,
calor. Ela gosta de frio e neve. uma vez que eles passam a ter somente

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Manual de terapia familiar | 55


um ao outro como fonte de satisfação de traz à tona questões familiares em relação
necessidades. tanto às negociações conjugais quanto ao
Por exemplo, uma das queixas recor- sustento e aos cuidados com as crianças. A
rentes de Ernesto era o fato de sua esposa terapia breve proporcionou um espaço de
dedicar horas para falar na internet com acolhimento afetivo e de interlocução des-
seus familiares, o que foi motivo de muitas se sofrimento.
discussões entre o casal. Sluzki também
refere que no novo ambiente a necessida-
de insatisfeita pode ser sentida como in- A CONTINUIDADE DO ATENDIMENTO
competência, traição ou abandono pelo
outro parceiro. Fato constatado pela vivên- O atendimento segue contemplando o casal,
cia desse casal, Neide sentia-se incompe- já que ambos percebem a necessidade de
tente como esposa e mãe, e Ernesto sen- ter um espaço para colocar suas diferenças
tia-se traído e abandonado por ela. Ou seja, e ampliar a comunicação de seus interesses
percebe-se como a experiência de desloca- e objetivos tanto pessoais quanto familia-
mento acarreta uma forte tensão e uma res. Enfatizar as competências de ambos foi
cobrança mútua no casal, levando a um decisivo para ampliar a auto-estima e esta-
intenso sofrimento. belecer novos patamares de realizações.
Ernesto fala sobre seu desenho: Ao se sentirem valorizados como pes-
soas e competentes em seus recursos, pu-
Desenhei a rua em que eu moro, no deram começar a traçar tanto do ponto de
pé da montanha, onde é tudo bastan- vista pessoal como familiar um panorama
te desorganizado, muito habitado e mais estruturado e claro em relação a seus
com poucas plantas, eu amo plantas. interesses e a suas potencialidades. Am-
Eu vivia em uma zona pobre, as pes-
pliou-se o diálogo, e o casal passou a ne-
soas são simpáticas, mas não dão va-
lor às casas. A minha casa era uma das gociar de forma mais equilibrada.
mais bonitas. É tudo muito desorgani- Conseguir perceber que talvez o que
zado, falta bom gosto. Eu e meus ir- dificultava o desenvolvimento em relação
mão derrubamos a casa e fizemos uma à sua família nuclear era a lealdade em
nova. As pessoas querem ser umas me- relação às suas respectivas famílias de ori-
lhores que as outras, fazem “sacadas” gem ajudou no processo de diferencia-
para aparecer. ção. Segundo Bowen (1991), pessoas com
maior grau de diferenciação conseguem se-
Sobre o Brasil diz: parar sentimento de pensamento e são ca-
pazes de emoções fortes e de espontanei-
Há mais ordem, respeito às leis de
dade, mas também de contenção e objeti-
trânsito. A cidade é moderna, as mu-
lheres cuidam da estética. As pessoas
vidade, que vem junto com a capacidade
são simples, mas as casas são bonitas. de resistir aos impulsos. No entanto, quan-
No meu país, as pessoas somente que- to mais baixo é o nível de diferenciação,
rem aparecer. mais forte é o apego emocional não-resol-
vido em relação aos próprios pais e mais
Como notamos, a tristeza trazida por intensos são os mecanismos de defesa para
Viviane expressa a dor que toda a família controlar a indiferenciação. Eles eram tão
sente por estar longe de casa, pois tanto “bons filhos” que isso os estava impedindo
Neide quanto Ernesto evidenciam sauda- em seu crescimento pessoal, material e, de
de de suas respectivas famílias de origem alguma forma, os estava impedindo de se-
e apontam esses espaços de interação como rem bons cônjuges e de se valorizarem co-
sendo “sua casa”. O processo de imigração mo bons pais.

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56 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

Viviam em dois mundos, um perten- me ajudaram muito e passei a me sen-


cente a suas origens e outro referente às tir melhor comigo mesmo e a me va-
suas próprias ambições intelectuais e pes- lorizar...”
soais. Parece que não se davam o direito
de ser diferentes de suas famílias de ori- Neide prossegue:
gem, de ter mais ambições intelectuais,
conquistar recursos materiais e, por con- Também achei a tarefa de pensar o
seguinte, ascender socialmente. Estabele- que queríamos para o futuro impor-
tante. As pessoas sem um plano de ação
cer o elo entre mundos é umas das premis-
estão cheias de conflitos, pois não se
sas da terapia intercultural, e, nesse caso, avança sem um plano de ação e sem
essa família teve que literalmente sair de um objetivo claro. Com um plano, cada
seu país de origem para ter acesso à dicoto- um assume sua responsabilidade. Po-
mia interna de lealdades que os impedia demos olhar para nós mesmos sem ter
de sentir-se competentes e realizados. que ficar olhando para o outro. Antes
No oitavo encontro, como tarefa, peço eu me sentia sozinha, achava que o
que reflitam sobre e escrevam individual- Ernesto colocava muita carga sobre
mente seus projetos de futuro – a curto e mim. Agora estou mais tranquila, mais
longo prazo: em que lugar eles se imagi- positiva e com mais confiança. Assu-
nam morando e criando suas filhas, que mi melhor o meu papel de mãe e de
provedora dando aula de espanhol.
tipo de casa gostariam de ter; enfim, que
tipo de vida gostariam de levar. Em princí-
Ao proporcionar um espaço de diá-
pio, comunico que a tarefa é individual,
logo sobre seus projetos de futuro e pedir
mas seria saudável se conversassem a res-
que imaginem o que esperam para si mes-
peito disso a fim de checar se os objetivos
mos e para sua família, possibilitamos tra-
individuais têm pontos de convergência.
balhar a legitimação do desejo de supera-
A tarefa mostrou-se muito eficiente,
ção pessoal, abrindo espaço para o surgi-
pois ambos puderam refletir sobre si mes-
mento de ideias de futuro em que o bem-
mos e sobre seus desejos. Desse modo, fi-
estar material é também contemplado.
zeram tudo individualmente e apenas com-
Nesse sentido, auxiliamos o casal a am-
partilharam suas respostas na sessão. O
pliar o grau de diferenciação em relação
interessante é que tinham muitos pontos
a seus próprios pais, a fim de fortalecer a
de convergência em suas perspectivas de
construção e a valorização da família nu-
futuro. Segue o comentário de ambos so-
clear.
bre o exercício, como sendo uma expe-
riência muito importante no processo como
um todo. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ernesto diz:
A perspectiva deste trabalho é auxiliar as
O que mais me ajudou foi que fala- famílias e os indivíduos a estabelecer elos
mos sobre os problemas e encaminha- com seu contexto social atual, sem perder
mos as soluções. Outra coisa impor- de vista as aquisições conquistadas, na ten-
tante. Planejar e ter estratégias me ser- tativa de construir novas narrativas que
viu bastante, aquela tarefa de pensar lhes permitam integrar as vivências. O in-
no que queríamos para o futuro foi mui-
divíduo ao imigrar ou emigrar entra em
to boa, eu não costumava pensar, ia
fazendo... A Neide tinha razão: eu não
contato com uma multiplicidade de versões
estava lhe dando nenhuma esperan- da realidade e percebe que existem várias
ça, somente apresentava os proble- formas de fazer as mesmas coisas, de um
mas. As suas palavras de valorização simples cumprimento até as normas de re-

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Manual de terapia familiar | 57


lacionamento social adequado. Ele compre- REFERÊNCIAS
ende que as comunicações travadas e as
formas de relacionamento têm uma pro- BERRY, J. et al. Acculturation and culture contact.
funda ligação com o contexto social e cul- In: _________ . Cross-cultural psychology: research and
tural na qual ocorrem. applications. Cambridge: Cambridge University,
A necessidade em ampliar o conheci- 1992.
mento sobre as implicações psicossociais BOWEN, M. De la familia al individuo: la diferen-
que os deslocamentos provocam nos indi- ciación del sí mismo en el sistema familiar. Barce-
lona: Paidós, 1991.
víduos nos parece fundamental, e compre-
ender o aspecto psicológico desse fenôme- COLOMBO, S. F. Em busca do sagrado. In: CRUZ,
H. M. (Org.). Papai, mamãe, você...e eu? Conver-
no entra na pauta dos profissionais de saú-
sações terapêuticas em famílias com crianças peque-
de. Em um país como o nosso, de dimen- nas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000.
sões continentais, com um intenso fluxo
DEBIAGGI, S. D. Changing gender roles: Brazilian
migratório, a habilidade do terapeuta em immigrant families in the U.S. New York: LFB,
ter uma escuta voltada para a cultura do 2002.
paciente se faz necessária. DEBIAGGI, S. D.; PAIVA, G. J. (Org.). Psicologia
Portanto, ao oferecer atendimento e/imigração e cultura. São Paulo: Casa do Psicólo-
clínico para famílias que passam por uma go, 2004.
experiência intercultural, fortalecemos a OROZCO, C. S.; OROZCO, M. M. La infancia de la
ideia da formação de terapeutas cultural- inmigración. Madrid Morata, 2003.
mente competentes. A contribuição da PORTES, A.; RUMBAUT, R. G. Immigrant in Ame-
psicologia intercultural, aliada ao atendi- rica: a portrait. Berkley: University of California,
mento sistêmico, instrumentaliza o pro- 1990.
fissional de forma mais abrangente na SLUZKI, C. E. A rede social na prática sistêmica.
compreensão dos conflitos daqueles que São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997.
sofrem deslocamentos e potencializa a _________ . Migration and family conflict. Family Pro-
psicoterapia na busca por melhores con- cess, v.18, n.4, p. 379-390, 1979.
dições de saúde mental.

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58 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

4
Questões de gênero na
terapia de família e casal
Rosa Maria Stefanini Macedo

As questões de gênero têm uma importân- são e explicação. A questão apresenta uma
cia fundamental na terapia de família e grande complexidade em virtude da pers-
casal por serem um aspecto da identidade pectiva que cada teoria assume para expli-
do homem e da mulher que qualifica seus car seu objetivo de estudo, porque o com-
comportamentos marcados por expectati- portamento de um homem ou de uma
vas transformadas em estereótipos frequen- mulher pode ser estudado tanto do ponto
temente reguladores das relações sociais de vista anatômico, fisiológico, social, como
que se tornam, em consequência, envolvi- das leis que regem seu comportamento e
das de preconceitos. sua dinâmica afetivo-emocional.
De acordo com Maturana (1995), Entretanto, todas essas visões são par-
conhecer é fazer distinções; portanto, é jus- ciais ou dicotômicas quando consideram
tificável a preocupação com a diferença as diferenças entre os sexos, pelo fato de
entre homens e mulheres existentes nas basearem seus estudos em uma visão pa-
ciências biológicas, humanas e sociais, pela radigmática positivista, própria das ciên-
necessidade de conhecer e melhor descre- cias na modernidade (Vasconcelos, 2002;
ver seu objeto de estudo. Capra 1995).
Às ciências biológicas interessam as Esta posição favoreceu a abordagem
diferenças do ponto de vista anatômico e psicológica pautada em conceituações que
fisiológico, e suas descrições são em ter- ressaltam as diferenças, como, por exem-
mos de diferenças entre os sexos quanto à plo, o sexo masculino como modelo do qual
forma e ao funcionamento dos organismos o feminino se distinguiria pela inveja do
de homens e mulheres, ou seja, funções pênis (Freud, 1976) ou pelas diferenças
específicas do organismo feminino ou mas- anatômicas (Erikson, 1972), para citar as
culino relacionados à evolução e à genética. mais lembradas.
Às ciências sociais interessam as dife- Do ponto de vista das teorias do de-
renças sobretudo relacionadas à divisão de senvolvimento também vigorou durante
tarefas e participação social no sistema de muitos anos uma visão normativa baseada
produção, tanto material como cultural, na tipificação sexual, ou seja, como o com-
além de bens materiais e usos, costumes, portamento desde a infância reflete carac-
tradições, poder (hierarquia e autoridade). terísticas da personalidade do homem ou
Nas ciências humanas, nas quais se da mulher.
incluem a psicologia, o interesse recai no Somente a partir dos anos 1970 che-
comportamento humano – sua compreen- gou ao campo de psicologia os questiona-

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Manual de terapia familiar | 59


mentos que começaram a ser feitos pelos humanas, mas a identidade de gênero in-
movimentos feministas, denunciando as troduz a questão social dessa diferença, em
implicações decorrentes dessa concepção uma instância que lhe é anterior: a pessoa,
que tradicionalmente definem, na cultura tal como é concebida em um esquema sim-
ocidental, o lugar de homens e mulheres. bólico particular. Assim, contextualizar sig-
Os protestos começaram justamente nifica escutar a respeito do outro sobre o
por apontar que teorizar sobre personali- mundo social do qual faz parte. É adentrar
dade e comportamento de homens e mu- no espaço alheio, confrontar-se com seu
lheres adotando essa visão tradicional era ponto de vista.
não considerar a inserção das pessoas na Este determinismo, muitas vezes, ser-
vida, na sociedade e, por conseguinte, não viu para explicar as desigualdades entre
considerar o caráter dinâmico que as so- ambos, a partir de diferenças físicas. Da
ciedades possuem e suas mudanças de perspectiva das relações de gênero, o que
ponto de vista econômico, político, cultu- importa é discutir os processos de forma-
ral, organizacional e das relações sociais ção ou construção histórica, linguística e
(Macedo, 2002, 2004, 2006, 2007). social, instituídas nas formações de homens
e mulheres.
FEMINISMO E GÊNERO A categoria gênero vem passando por
diversas transformações, o que lhe possi-
As mudanças sobre a posição de homens e bilita um caráter mais dinâmico. Antes vin-
mulheres tomou maior impulso a partir dos culada a uma variável binária arbitrária,
anos 1960 no exterior e dos anos 1970 no passou a ser compreendida como catego-
Brasil. ria relacional e contextual, na tentativa de
A hierarquia tradicional entre os se- contemplar as complexidades e os confli-
xos vinha sofrendo mudanças com a mo- tos existentes na formação dos sujeitos,
dernização dos países e torna-se evidente incluindo necessariamente o outro lado, os
entre nós com a participação no “movimen- homens, cujas mudanças são pouco consi-
to de mulheres” contra a ditadura militar. deradas (Souza, 1999).
A princípio, o feminismo lutava por Com tantas exigências e modificações
maior igualdade em termos de leis, nas por parte das mulheres, os homens não po-
relações trabalhistas, em uma série de rei- deriam sair ilesos. Se em outros tempos os
vindicações no setor público; no entanto, papéis eram tão bem definidos e as expec-
muito rapidamente essas reivindicações tativas com relação a cada sexo eram cla-
chegaram ao setor privado, no que tange ras, atualmente poderíamos dizer que
às relações interpessoais, subjetivas, tendo estamos em um período social de transição
reflexos não só nas relações sociais e políti- no que diz respeito ao gênero, e, como em
cas da mulher, como também nos costumes toda transição, há instabilidade e confusão
e hábitos cotidianos, em seu lugar na fa- ao desempenhar papéis. As próprias mu-
mília, nas relações com o sexo oposto. lheres encontram-se confusas com relação
A partir dos anos 1990, foi se forman- ao lugar que devem ocupar, mas têm a seu
do uma ideologia feminista que tinha como favor de terem iniciado, elas mesmas, uma
proposta a construção de uma nova subje- luta contra as determinações sociais rela-
tividade feminina e masculina, a qual se tivas a seu papel. No que diz respeito aos
defrontava com conflitos e tensões nas re- homens, as mudanças efetuadas pelas mu-
lações que não se resolviam tão facilmente lheres deixaram marcas e dúvidas quanto
como se desejava. ao futuro deles.
A diferença entre os sexos é um prin- Segundo Nolasco (1993), com o femi-
cípio classificatório de todas as sociedades nismo, o homem foi associado a uma figu-

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ra opressora e tirânica que impediu a as- de homens e mulheres independentemen-


censão profissional da mulher e limitou sua te das características específicas do sexo
saída da cena doméstica. Segundo ele, anatômico, considerando as qualidades
ditas masculinas ou femininas como este-
essa imagem de carrasco de um gêne- reótipos comportamentais assumidos por
ro sobre outro vem gradativamente homens ou mulheres, mas que, em contra-
perdendo espaço e sendo substituída partida, não indicam posição de superiori-
por uma reflexão sobre a condição de dade ou inferioridade na escala social.
vida dos homens (p. 132). Entre as definições de gênero surgidas
destacam-se pela sua propriedade as se-
É neste sentido que Kaufman (1994) guintes:
trabalha, tentando refletir sobre a condi-
ção do homem. Ele se refere às experiên- Conjunto de disposições pelas quais
uma sociedade transforma a sexuali-
cias contraditórias que o poder traz aos ho-
dade de biológica em produtos da ati-
mens, questionando suas implicações. Se-
vidade humana nas quais se satisfa-
gundo ele, existe na vida dos homens uma zem essas necessidades transforma-
estranha combinação de poder e privilé- das. (Rubin em Barbieri, 1990, p.18)
gios, dor e carência de poder. Pelo fato de
serem homens, gozam de poder social e As necessidades transformadas a que
de muitos privilégios, mas segundo pesqui- se refere a autora são as características de
sas (Nolasco, 1993) a maneira como têm masculinidade e feminilidade resultantes
vivido esse mundo de poder causa dor, iso- de como a sociedade rotula os comporta-
lamento e alienação, seja para ele, seja para mentos considerados típicos de homens ou
as mulheres. mulheres. Todavia, nessa definição, não há
Com isso, o panorama atual da dis- vínculos ao sexo biológico, admitindo-se
cussão sobre gênero está caracterizado por que pode haver homens mais femininos ou
um processo de mudança decorrente de mulheres mais masculinas, usando tais ca-
reflexões, por parte de mulheres e de ho- racterísticas não como próprias da nature-
mens, sobre suas condições. za de cada um, mas como simples adjeti-
Enfim, com tantas mudanças em am- vação de comportamentos:
bos os gêneros, é de se esperar que os casais
de hoje passem por diversas dificuldades para Gênero é uma categoria social impos-
se entenderem no que diz respeito aos pa- ta sobre um corpo sexuado. O gênero
é um elemento constitutivo de relações
péis sociais dentro do relacionamento.
sociais fundadas sobre as diferenças
Esses movimentos sociais no mundo percebidas entre os sexos(...), é um
a partir dos anos 1960 evidenciaram uma primeiro modo de dar significado às
mudança que vinha se dando no campo do relações de poder. (Scott, 1990, p.14)
pensamento científico: apontaram que as
diferenças de sexo foram, em decorrência Nesta definição, os sistemas de gêne-
das mudanças socioculturais, transforma- ro e sexo compreendem os conjuntos de
das em desigualdade. Surge então o con- práticas, símbolos, representações, normas,
ceito de gênero, de acordo com uma visão valores sociais que as sociedades elaboram
paradigmática pós-moderna que admite a a partir das diferenças sexuais anatômicas
construção da realidade pelo observador e fisiológicas e que dão sentido aos com-
como parte do observado. portamentos de homens e mulheres.
Desse ponto de vista, gênero é um Percebe-se claramente nessas defini-
conceito de sexo social, e não biológico. ções uma substituição do objetivo, do con-
Ele permite categorizar os comportamentos creto (sexo), por modos de agir, pelo sub-

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Manual de terapia familiar | 61


jetivo (gênero) como resultado da consti- Da concepção tradicional de família,
tuição social efetuada ao longo das trans- matriz de identidade, deriva o seguinte mo-
formações da sociedade pelas pessoas e delo familiar:
pelos grupos que, constituídos como tais
nas relações, atribuíram significados co-  uma estrutura hierarquizada, no in-
muns às suas experiências pela linguagem. terior da qual o marido/pai exerce au-
Portanto, gênero é usado em contras- toridade e poder sobre a esposa e os
te com os termos sexo e diferença sexual filhos;
 a divisão sexual do trabalho bastante
com o propósito explícito de criar um es-
rígida, que separa tarefas e atribuições
paço no qual as diferenças de comporta- masculinas e femininas;
mento entre homens e mulheres, media-  o tipo de vínculo afetivo existente en-
das socialmente, possam ser exploradas tre os cônjuges e entre eles e a prole,
independentemente das diferenças bioló- sendo que neste último caso há maior
gicas (Macedo, 2006). proximidade entre mãe e filhos;
Masculinidade e feminilidade são mo-  o controle da sexualidade e a dupla
dos de agir, desatrelados do sexo, masculi- moral sexual. (Romanelli, 2002)
no ou feminino; são uma categoria da rea-
lidade social chamada gênero. Esse tipo de família, também conhe-
Desse modo, quando se usa a catego- cida como patriarcal, legitima:
ria gênero para falar sobre relações homem
e mulher, está se fazendo referência à am-
pla gama relacional que varia em função Para o Homem Para Mulher
dos contextos em que ocorrem e que im-
plica a ordem social, econômica, política Exercício do poder Submissão
do trabalho e da família. Objetividade Subjetividade
Racionalidade Emotividade
GÊNERO E FAMÍLIA Dificuldade de Afetividade,
envolvimento emocional intimidade
e intimidade
Da mesma forma que as concepções sobre
as diferenças entre homens e mulheres Domínio do espaço Domínio do
transformaram-se, dando origem à concep- público espaço privado,
domesticidade
ção de gênero, o conceito de família, seu
significado, sua estrutura e suas funções Agressividade, Docilidade,
conquista cuidado
também mudaram.
Atualmente se considera família não Paternidade Maternidade
só a estrutura pai, mãe, filhos, mas qual- provedora amorosa e
cuidadosa
quer outro arranjo formado não somente
por consanguinidade e função reprodutora Aventuras Fidelidade
extraconjugais
e heterossexualidade. Também se conside-
ra família uma série de outros arranjos
definidos por seus membros como tal: afe-
to, amizade, afinidade, responsabilidades Esse é, em termos de padrões de com-
compartilhadas, contratos de união civil ou portamento, a expressão de um modelo
religiosa independentemente do sexo dos hegemônico resultante de normas culturais
parceiros, de filhos consanguíneos, de for- condicionais e condicionantes construídas
mação de um casal (família monoparental), através de gerações que produz duas es-
entre outros. truturas psíquicas pré-fixadas desde o nas-

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cimento, de maneira que a do homem se e crenças que motivam e orientam o com-


presta às generalizações, à racionalidade, portamento de cada um.
ao espaço público, e a da mulher, ao domí- Na posição tradicional de gênero, a
nio da corporalidade, do amor, da relação família apresenta os papéis complementa-
com o outro e ao serviço e à submissão res conhecidos: homem provedor, mulher
(Muraro, 1996) cuidadora e dona de casa; mesmo traba-
Esse estado de coisas é historicamen- lhando fora de casa, a responsabilidade
te explicado pelas origens da família atual pelo andamento do lar é dela.
como instituição político, econômica e so- É a organização típica da família há
cial baseada na linhagem e proteção do séculos ocupando nosso imaginário.
patrimônio, transmitido aos homens, e não Mesmo com as transformações sofri-
às mulheres. Assim, foram criadas as leis das, incluindo a da inserção das mulheres
que definiam o casamento, em que a sexua- no mercado de trabalho, essa organização
lidade da mulher era vigiada para garantir ainda é justificada pelas expectativas so-
a legitimidade dos herdeiros. ciais, apesar de, na grande maioria, abri-
Essa estrutura permaneceu com o gar insatisfação, sobretudo das mulheres,
advento do capitalismo porque era adequa- pela sua sobrecarga.
da à sua lógica, isto é, a reprodução que se É comum nessas famílias, quando em
dá no seio da família é uma garantia da terapia, aparecerem problemas colocados
reposição de membros no mercado de tra- em tom queixoso com sensações vagas,
balho, não interrompendo a lógica da pro- sugerindo opressão e atitudes que supõem
dução (Romanelli, 2002). raiva, enquanto nos homens aparecem fre-
quentemente culpas que tentam aliviar por
meio de considerações sobre a pressão do
GÊNERO E TERAPIA trabalho, as exigências de sucesso profissi-
DE FAMÍLIA E CASAL onal e outras mazelas do contexto.
São frequentes sentimentos de desi-
Uma vez estabelecidas as bases episte- gualdade em que as mulheres se sentem
mológicas e paradigmáticas relativas ao ca- desvalorizadas e com menos oportunida-
ráter de construção social dos fenômenos des de realizar atividades na base de suas
vivenciados por homens e mulheres in- escolhas para satisfazê-las pessoalmente.
cluindo gênero e família, há uma contri- O trabalho terapêutico nesses casos
buição rica e muito útil para o terapeuta deve ser pensado em termos de conscien-
de famílias e casais: trata-se de trabalhar tizar o casal sobre as questões de gênero.
com a evolução do conceito de gênero de Há muitas maneiras de fazer isso, de-
acordo com as posições assumidas pelo pendendo do contexto, da situação especí-
casal em relação a ele. fica do casal, da maneira como apresen-
Segundo Breunlin, Schwartz e Mac tam as queixas e como tentam justificar os
Kune-Karre (2000), pode-se observar cin- problemas. Genericamente o que se pode
co posições ao longo da evolução do equi- fazer é questionar as explicações que for-
líbrio em relação ao conceito de gênero no talecem o patriarcado e que indicam ten-
casal: tradicional, consciente de gênero, po- dência ao conformismo, como, por exem-
larizada, em transição e equilibrada. plo: “ Fazer o que, o mundo é dos homens
Conforme a posição em que o casal mesmo!”, ou “Todo mundo que eu conhe-
se encontra, a organização da família e as ço é assim, mas está muito difícil, muito
relações entre seus membros apresentam pesado, tudo eu”. São expressões comuns
características específicas, levando-se em de mulheres, enquanto os homens se quei-
conta que a partir delas se definem valores xam da pressão do trabalho, do estresse,

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Manual de terapia familiar | 63


da falta de tempo para os filhos, para si, O trabalho terapêutico pode ajudá-los
para o esporte, para a academia, entre a ampliar as experiências de desequilíbrio
outros. entre os gêneros, discutindo a exploração
É importante também discutir as mu- e as oportunidades de novos papéis, explo-
danças históricas e culturais. Um bom ins- ração de possibilidades para novos arran-
trumento para isso é o genograma, que jos, contratos, verbalização das mágoas,
permite a comparação dos padrões de re- das queixas.
lação na família desde as gerações passa- Além disso, é importante analisar as
das, as mudanças ocorridas e o inevitável mudanças intergeracionais por meio do
impacto nas relações internas, nos hábitos, genograma, os padrões familiares; enfim,
na convivência, no lazer. os modelos e as heranças.
É preciso trabalhar com os impactos Na posição polarizada, observa-se um
emocionais: do sentimento de desvaloriza- constante e aberto desafio quanto aos pa-
ção e sobrecarga, buscando com o cliente péis de gênero. São claras as divisões na
redefini-los em função de circunstâncias, família, as alianças de gênero (mulheres
intenções, para que não fiquem mudos e unidas, por exemplo) ou coalizões (pai e
cristalizem-se como mágoas. filho contra mãe, por exemplo).
Pode-se questionar a rigidez e as es- É um sistema competitivo organizado
treitezas com que são distribuídos os pa- em torno dessas divisões; homens e mu-
péis de gênero ou das expectativas sobre lheres fazem pressão em direções opostas.
eles e a realização das tarefas. Todas essas Há um misto de raiva, preocupação e
possibilidades têm como fim expandir a medo, como alguém que sente que algo não
conscientização das questões de gênero está bem, mas tem dificuldades em encon-
como algo que foi construído, que não são trar alternativas para o desequilíbrio.
da “natureza” do homem e da mulher ou Há ataques constantes despertando
do casamento e que, assim, podem ser posições defensivas por parte dos acusa-
mudadas. dos, ao mesmo tempo em que aparecem
A segunda posição se refere à ocor- culpas e preocupações, exigências de mu-
rência no casal da consciência de gênero. danças um do outro.
Nessa posição, é frequente o casal se Diminuir a polarização, encorajando
apresentar questionando a distribuição de o diálogo, as conversações, as expectati-
papéis, com clara percepção de que sua vi- vas sobre tarefas e responsabilidades, em
vência é opressora. Em geral, há nesse casal vez de queixas e incomunicabilidade, é o
muita oscilação entre questionamento e objetivo da terapia familiar.
conformismo, dependendo das situações É importante o terapeuta validar ex-
ou da época. Não se sentem confortáveis pectativas de mudanças, encorajar a ex-
na situação, mas não sabem como resol- posição de queixas e acusações para que
vê-la. sejam ouvidas, conhecidas e transforma-
Mais do que oprimidas, as mulheres das em pedidos e acordos. É importante
nesta posição apresentam-se zangadas e, ressignificar as descrições de situações
muitas vezes, agem de forma a compensar muito adversas, buscando envolver as in-
as injustiças de que se sentem vítimas, sen- tenções e a compreensão do outro. Se as
do comuns a restrição de afeto e negação mulheres reconhecem suas mágoas, rea-
de relações sexuais, causando certo temor gem tentando assumir a liderança de for-
de perda afetiva nos homens. Socialmente ma desafiadora.
estão sempre aproveitando oportunidades Deve-se estimular as conversações, as
para questionar os papéis de gênero entre diferentes descrições, buscando evitar as
casais amigos. divisões e a formação de partidos (guerra

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64 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

fria) que alimentam a competição e dispu- É evidente que nesse campo de mu-
ta em que vivem. danças de padrões, como em qualquer situ-
Evidentemente, não se pode dispen- ação pensada sistemicamente, não se pode
sar a discussão das mudanças por meio do esperar transformações em progressão line-
genograma. ar. Isso quer dizer que haverá oscilações,
Se a posição do casal em relação ao recaídas, revisões, re-contratos, como são
gênero estiver em transição, a meta da te- as situações da vida, e circularmente em
rapia seria a amplificação das mudanças função dos contextos e dos feedbacks ocor-
visando ao estabelecimento de uma certa ridos após cada acordo estabelecido.
igualdade, ou melhor, equilíbrio entre as Outro aspecto muito importante é a
ações de cada um. discussão das consequências das mudan-
Embora estejam em conflito, espera- ças nas relações de toda a família, como
se conseguir diminuir ou mesmo eliminar cada membro é afetado.
os desequilíbrios que percebem. Conse- Uma família cujas crenças tradicionais
guem validar os papéis novos que homens sobre o papel do homem e da mulher são
e mulheres estão desempenhando na fa- discutidas e modificadas de acordo com os
mília, embora haja muitas oscilações ain- novos tempos, com as mudanças sociais,
da entre as novas e as velhas crenças. Um poderá receber crítica dos amigos, resistên-
aspecto positivo é que, em geral, conse- cias a seu modo de pensar e agir. Portanto,
guem conversar sobre as coisas boas e as tal família não pode contar com grande su-
ruins das mudanças e verbalizar satisfação porte social, quer da família de origem, quer
ou sentimentos de perda pelo que vêem das famílias de seus pares que são da mes-
mudar nos papéis. Percebe-se uma amplia- ma geração. No entanto, apresenta maior
ção e experimentação de novos papéis. autonomia para se organizar, avaliar con-
Diferentemente das posições anterio- juntamente desequilíbrios, necessidade de
res, os episódios de raiva ou comportamen- mudança, oportunidades e possibilidades.
tos zangados diminuem consideravelmen- Muitas vezes, entretanto, se descobre
te na medida em que conseguem perceber por meio do genograma, indispensável
a que situações estão relacionados tais sen- nesta matéria, como já foi dito, que posi-
timentos, em geral, a algum comportamen- ções femininas igualitárias, são fortemen-
to fora do esperado, algum deslize. Caso te inspiradas e apoiadas por avós que nun-
não sejam capazes de expressar seus senti- ca se conformaram com a submissão a seus
mentos a propósito das diferentes atitudes maridos, que tiveram que aceitar por força
apresentadas pelo outro, o terapeuta en- dos bons costumes. O trabalho terapêutico
contra aí uma oportunidade importantís- não deve dispensar o uso do genograma e,
sima para o trabalho terapêutico. para seu foco na validação, novas expe-
A consciência do desequilíbrio de pa- riências, ampliação de contexto e regras de
péis é fundamental para se estabelecer negociação.
acordos e propiciar uma espontaneidade A posição do casal pode chegar a uma
maior nos relacionamentos familiares, situação equilibrada que supõe a possibili-
menos ressentimentos, menos mágoas dade das famílias vivenciarem uma mutua-
enrustidas e deslocadas para comporta- lidade na medida em que seus membros se
mentos de boicote, ironia, desqualificação, livraram dos condicionamentos que os pa-
entre outros. drões tradicionais lhes impingiram.
Negociar os limites para aceitar com- Isto significa uma democratização
promissos envolve conversações claras so- tanto na tomada de decisões como nos pa-
bre o que cada qual pode aceitar, ceder e drões de interação entre todos os níveis de
está disposto a fazer. relação dos membros da família: marido e

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Manual de terapia familiar | 65


mulher, pai e filho / filha, mãe e filho / ções domésticos diminuíram muito e não
filha – que se tornam capazes de conversar causam satisfação. Nesse período do ciclo
sobre propostas, negociar lideranças e res- vital, afloram então os ressentimentos ao
ponsabilidades em função de cada situa- perceberem o quanto se anularam em fun-
ção, agindo de forma simétrica ou comple- ção dos papéis de gênero que assumiram
mentar conforme seja necessário. em seu casamento.
Esta posição resulta em relações mais Culpar os maridos nesta fase da vida
colaborativas, mas supõe maior confiança não tem sentido. O casal viveu e organi-
e assertividade de cada membro do casal zou a família segundo acordos implícitos
como companheiros, como pais e modelos ou mais ou menos explícitos, apoiados so-
para os filhos, porque só com mais segu- cial e culturalmente. Portanto, ambos fo-
rança da própria posição e confiança em seu ram regidos pela mesma lei, mas só agora
nível de equilíbrio interno e no do outro é elas perceberam o quanto perderam do
possível sair do lugar de raiva e ressenti- ponto de vista de sua individualidade em
mento por se sentir dominado dando lugar favor da conjugalidade e das funções ma-
à negociação que permite a reconciliação ternas e domésticas.
com o antigo agressor. A luta pela domina- A crença arraigada de que o papel da
ção, competição entre o casal, dá lugar a mulher é basicamente cuidar, se levada a
mais diálogo, à alternância de liderança extremos como característica feminina fun-
conforme cada momento, de maneira mais damental, pode ocasionar o detrimento dos
tranquila, sem tensões. Maior equilíbrio, em cuidados consigo mesmo, da atenção aos
consequência, resulta em maior intimidade próprios desejos, da elaboração de planos
do casal, mais segurança pessoal, uma de vida e modos de agir.
complementaridade funcional, cumplicida- Como resultado, colocam-se como
de e uma liderança compartida, e as mu- atrizes
danças são mantidas, as regras de interação
são claras, mantendo-se as atitudes dentro coadjuvantes no casamento, na famí-
e fora da família, pelo que podem enfrentar lia, atuando de acordo com uma
resistência e criticas socialmente. complementaridade rígida que pode
solapar a autonomia e fortalecer o con-
A prática clínica e as pesquisas têm
formismo e a aceitação das condições
mostrado que entre os casais mais jovens de vida, até que estas mudem pelas
há uma apropriação dos conceitos de igual- próprias decorrências evolutivas: filhos
dade entre os gêneros, com algumas mu- crescem, saem de casa, casam-se, for-
danças efetivas, sobretudo quanto à tarefa mam sua família; o marido continua
de educar filhos (participação maior desde envolvido nas atividades de trabalho...
a gestação até os cuidados com o recém-
nascido), embora a responsabilidade pro- Nesse momento, é comum a pergun-
priamente dita ainda continue sendo da ta clássica: “E eu? O que eu faço agora?
mulher. Para onde eu vou?”.
São frequentes também na clínica psi- Esses exemplos ressaltam a importân-
cológica casos de mulheres de meia-idade, cia de se manter o foco nas posições de
com filhos adultos, autônomos, questionan- gênero da família de acordo com as transi-
do os papéis de gênero, em virtude de es- ções que ocorrem em seu ciclo vital.
tarem, nessa altura da vida, dizendo se sen- O terapeuta familiar não pode per-
tir totalmente dispensáveis, sem lugar no der de vista a evolução do conceito de fa-
mundo, sem perspectiva, pois a função de mília e suas transformações históricas para
mãe está totalmente modificada, não pre- compreender como as mudanças de posi-
enche mais o tempo de sua vida, as fun- ção de gênero são uma tarefa complexa e

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66 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

de difícil realização nos dias que correm e ça dos papéis de gênero. Em cada época,
que os estereótipos sociais corresponderam os adolescentes têm visões e posições pró-
à realidade da vida cotidiana. prias quanto a esses papéis e, embora suas
Um olhar retrospectivo na história das crenças sobre o assunto sejam em grande
sociedades evidencia que a maternidade e parte influenciadas pela herança interge-
os cuidados da casa nunca impediram de racional e pelos modelos dos padrões
trabalhar mulheres pobres e de classe mé- relacionais entre os gêneros observados na
dia que necessitam produzir, no primeiro vida de seus pais, questionam as posições
caso, ou complementar a renda, no segun- que não aprovam para si mesmos.
do caso. É por essa razão que essa fase se apre-
Por outro lado, a força do estereótipo senta como excelente oportunidade para
sempre tornou este fato invisível ou colo- fortalecer posições tradicionais ou negociar
cado em segundo plano quando se falavam novas posições. Nas famílias onde há filhos
na responsabilidade social do homem e da de ambos os sexos, o conflito, em geral, é
mulher na família. Nunca, porém, como maior, sobretudo pelo questionamento das
hoje, mulheres conseguem ter uma carrei- meninas, uma vez que, apesar de tudo, o
ra tão ou mais importante do que seus par- mundo ainda é muito mais dos homens que
ceiros. das mulheres, continuando maior o núme-
No entanto, apesar do reconhecimen- ro de restrições para elas.
to público desta mudança em favor de Porém, o que se observa é que o com-
maior igualdade entre homens e mulheres, portamento mais liberal das filhas hoje,
dificilmente ele se reverte para as relações com menos preconceitos quanto às relações
entre o homem e a mulher na família, en- com o sexo oposto, os lugares que frequen-
tre o feminino e o masculino, no compor- tam, as atitudes que tomam, inclusive com
tamento de um e de outro. o pai, têm encorajado muitas mães a assu-
Por esta razão, o trabalho terapêutico mirem mudanças na direção de maior au-
sob a perspectiva de gênero pode se am- tonomia e liberdade pessoal.
pliar ao levar em conta o peso das respon- Na fase dos filhos adultos, as relações
sabilidades do homem e da mulher, va- entre gêneros são bem delicadas, pois, de-
riando conforme a fase do ciclo vital. pendendo da posição de gênero assumida,
Não se pode contestar que na fase de a revisão das relações do casal, o fato de
aquisição (Cerveny, 2002) antes do primei- estarem novamente mais sozinhos, a maior
ro filho, as posições de gênero podem ser independência dos filhos, tudo isso pode
mais flexíveis do que após seu nascimento. ocasionar uma sensação de esvaziamento
É a mulher que gesta, pare, amamen- do casamento, principalmente para a mu-
ta, fica mais próxima do filho, mesmo quan- lher que não tem um projeto próximo (tra-
do trabalha (licença maternidade). Há, no balho, vida social, assistência social volun-
entanto, uma série de outras pequenas coi- tária, etc.). São comum as queixas de indi-
sas que podem ser feitas para complemen- ferença, falta de interesse sexual ou de
tar o trabalho da mãe com o bebê, como, amor, de ambos os lados, apontando ao
por exemplo, levantar à noite quando ele terapeuta a necessidade de trabalhar a his-
chora e tantas outras que podem facilitar, tória do casal, as possibilidades de vida in-
como assumir mais o bebê nos fins de se- teressante que ainda podem viver redefi-
mana para a mãe descansar, fazer compras, nindo seus papéis de gênero com mais li-
entre outras. berdade, desvinculando-os das obrigações
Em compensação, na fase adolescen- de provimento e cuidado dos filhos e cen-
te, ocorre uma excelente oportunidade trando-se mais na vida conjugal, no com-
para discussão, conscientização e mudan- panheirismo para o lazer, os amigos, espa-

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Manual de terapia familiar | 67


ços para atividades pessoais que podem até mada a diferença de poder entre os homens
incluir visitas aos filhos e cuidados aos ne- (provedores) e as mulheres (cuidadoras)
tos de forma prazerosa, e não como obri- é mascarada, ficando invisível a iniqüida-
gação. de do homem se considerar superior à
Na fase última, a genética pesa um mulher, porque é quem se responsabiliza
pouco mais para as mulheres, na medida pelo sustento (Macedo, 2006, 2007).
em que têm maior sobrevida que os ho- Ignorar as diferenças é ser cúmplice
mens, os quais, por consequência, adoecem dessa desigualdade e não considerar a ne-
mais, colocando-as frequentemente como cessária inter-relação família e contexto
cuidadoras no papel principal, embora, que a caracteriza como subsistema do con-
pela fase da vida, elas também necessitem texto social mais amplo no qual se en-
de alguns cuidados a mais do que antes. contra.
Isso não impede, entretanto, que o ca- Dessa forma, o terapeuta familiar co-
sal viva como bons parceiros, com poder labora para manter os status quo, atuando
equilibrado, apoiando-se mutuamente, de forma a mantê-lo inalterado (Hare-
consolando-se das perdas ocasionadas pelo Mustin, 1987, in Macedo, 2006).
envelhecer, testemunhando juntos o cresci- Nas palavras de Goldner (1985), o
mento da família, as realizações dos netos terapeuta só poderá ajudar a família em
e cultivando seus lazeres em conjunto, com termos das relações de gênero se as consi-
os familiares e com os amigos. derarem uma mistura paradoxal entre as-
Ocorre, com frequência, serem nota- pectos hierárquicos e complementares (...)
das a força e a proatividade de algumas que só podem ser compreendidos em um
mulheres depois de se tornarem viúvas, contexto que incorpore as relações políti-
surpreendendo, às vezes, os próprios filhos. cas e sociais entre “homens e mulheres”.
Pode-se dizer que esse fato é sinal de Em termos da abordagem sistêmica
um arranjo, acordos implícitos vividos pelo novo-paradigmática da pós-modernidade
casal para não enfraquecer a imagem do (Vasconcelos, 2002), as questões que se
homem, social e publicamente. referem ao funcionamento da família, co-
Podem mesmo ter mantido a posição mo regras, fronteiras, hierarquia, devem ser
de gênero mais tradicional apenas de fa- vistas entre todos os componentes con-
chada, isto é, com aceitação da mulher para siderando as diferenças de sexo e as ca-
ficar em segundo plano como uma con- racterísticas de feminilidade e masculini-
sequência de suas crenças nos papéis tra- dade não como qualidades que marcam po-
dicionais. sições superiores ou inferiores no sistema
Como se vê, a questão é complexa, (Macedo, 2006).
mas não pode ser ignorada no trabalho A abordagem novo-paradigmática
terapêutico com famílias e casais, quer pela reforça a concepção de construção social
supervalorização como nas teorias psico- da realidade e, nesse sentido, não cabe ra-
dinâmicas e psicanalíticas, quer pela ne- ciocinar em termos de polaridades opos-
gação das diferenças (comum nos primei- tas, com características fixas: homem –
ros modelos de terapia familiar sistêmica) mulher, feminino – masculino.
(Macedo, 2006 e 2007). Considerando a influência do contex-
A supervalorização das diferenças to em que raça, classe social, gênero, reli-
contribui para fortalecer as crenças de que gião, cultura, fase da vida e idade são fato-
a mãe é culpada pelos problemas dos fi- res intervenientes na construção do signi-
lhos, já que elas são as responsáveis por ficado atribuído às ações de cada um, só se
seu cuidado. Desse ponto de vista, a posi- justifica uma postura do profissional com
ção de desigualdade em que foi transfor- flexibilidade para considerar cada situação,

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68 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

com a relatividade que lhe cabe. Assim, as  preocupação – sobretudo com geração
relações entre os gêneros adquirem uma de bens e manutenção da família;
diversidade que não permitem generaliza-  falta de contato com filhos – culpa.
ções atreladas ao sexo como causa de de-
terminados comportamentos.
É claro que tal postura também se Consciente da desigualdade
relaciona com a perspectiva a partir da qual
se fala. Na perspectiva biológica, estão as Nas mulheres:
únicas características fixas responsáveis por
funções diferentes, como a ejaculação no  sentimento de desvalorização e desqua-
homem e a menstruação nas mulheres, lificação;
além das demais características decorren-  dificuldade de expressão da desigual-
tes da diferença estrutural anatômica e fi- dade – insegurança;
siológica entre eles. Em contrapartida, o  dúvida – medo das consequências das
comportamento, as atitudes de homens e mudanças;
mulheres decorrem dos significados que se  maior consciência da própria raiva.
atribuem a eles e podem ser vistos como
mais masculinos ou mais femininos, inde- Nos homens:
pendentemente de serem homem ou mu-
 questionamento das consequências das
lher (Macedo, 2004).
exigências sociais de força e poder;
Um resumo dos prováveis aspectos
 receio de perder apoio emocional femi-
emocionais de diversas fases da posição de
nino;
gênero nos casais pode facilitar a reflexão
 os sentimentos não fluem abertamen-
do terapeuta sobre como poderiam estar se
te – frequente situação tensa nas rela-
sentindo e orientá-lo no trabalho de terapia.
ções homem e mulher.
Aspectos emocionais que devem ser
considerados:
Polarizada
 gênero como categoria social que con-
sidera a desigualdade de poder; Nas mulheres:
 o lugar que cada um, masculino ou femi-
nino, ocupa na sociedade – se é cultural.  conflito interno;
 consciência da opressão – crítica, rai-
Em termos emocionais, é possível per-
va, inflexibilidade ao mesmo tempo;
ceber nas atitudes assumidas por homens
 preocupação e medo da perda;
e mulheres em cada uma das posições des-
 competição pela liderança – perdem o
critas sentimentos e emoções, tais como os
medo e a raiva predomina.
que seguem.
Nos homens:
Tradicional
 estratégias tradicionais de controle;
Nas mulheres:  defensividade – Guerra Fria.

 sentimento de opressão;
 culpa e preocupação; Transição
 possivelmente raiva – não consciente.
 cônjuges menos beligerantes entre si;
Nos homens:  atenuação da raiva;

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Manual de terapia familiar | 69


 reconhecimento de desequilíbrio do opções das mulheres em dirigirem suas
poder; próprias vidas (“compete ao homem
 percepção das diferenças entre uso de patrocinar o destino da mulher”);
padrões antigos e novos;  reconhecimento de que as mulheres
 capacidade de apontar recaídas. têm sido socializadas para assumir a res-
ponsabilidade primordial pelas relações
familiares (recaindo sobre a mulher
Equilibrada toda a culpa, caso a família venha a
Nas mulheres: apresentar problemas);
 reconhecimento dos dilemas e confli-
 arrefecimento da competição por domí- tos de se ter e criar filhos em nossa so-
nio em função da raiva; ciedade (a sobrecarga de ser mãe e cul-
 busca de acordos com os opressores – tivar uma carreira simultaneamente);
Negociação.  reconhecimento dos padrões que divi-
dem as próprias mulheres entre si, re-
Nos homens: metendo-as a competições internas para
protegerem os homens (manejos na re-
 reconhecimento de que não tem direi- lação que confirmem que o poder da
to adquirido de manter monopólio do mulher é somente derivado do poder
poder; do homem);
 reconhecimento da necessidade de equi-  afirmação dos valores e condutas carac-
líbrio; terísticas das mulheres como vincu-
 maior tranquilidade quanto ao receio lação, afetividade e emocionalidade (ter
de abandono; de sustentar todos os atributos da co-
 maior equilíbrio pode resultar em maior nexão emocional, mas sem conotar es-
intimidade no casal – mais segurança sas expressões pejorativamente sob o
pessoal, complementaridade funcional risco da mulher ser rotulada de intrusi-
e liderança compartida. va, controladora);
 reconhecimento e aprovação das possi-
Além dessas questões relacionadas a bilidades fora do casamento e da famí-
estados emocionais, outros aspectos mais lia para a expressão das mulheres (re-
amplos referentes às questões sociocultu- cusa do mito da Sagrada Família que
rais, a crenças e valores devem ser citados enaltece a mulher que se casa, torna-se
para orientar uma ação terapêutica menos mãe, desqualificando quem não fez es-
controversa do ponto de vista tradicional: sas escolhas);
 reconhecimento do princípio básico de
 identificar todas as mensagens e todas que nenhuma intervenção mostra-se
as construções sociais baseadas em gê- neutra para ambos os gêneros, tendo
nero que condicionam a conduta e os mesmo um significado diferente e es-
papéis segundo o sexo anatômico; pecial para homens e mulheres;
 reconhecimento das limitações reais de  reconhecer que as experiências dos ho-
acesso feminino aos recursos sociais e mens não são diferentes das mulheres,
econômicos (episódios de violência do- mas que elas vêm sendo distorcidas pela
méstica, abuso de autoridade e inces- manutenção da ideia de predomínio do
tos intergeracionais perpetuados pela poder do homem;
precariedade da condição feminina);  reconhecer que as exigências de suces-
 reconhecimento da introjeção dos es- so custa aos homens insegurança, medo
tereótipos sexistas que restringem as do fracasso;

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70 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

 reconhecer que as exigências de serem diálogo entre eles (Breunlin, Schwartz,


fortes e corajosos lhes dificulta o desen- Mac Kune-Karrer, 2000).
volvimento da sensibilidade afetiva e Às vezes, uma questão simples para o
expressividade emocional; pai de uma família com filhos em várias
 reconhecer que intimidade, como vi- idades como “Que consequências têm para
venciada pela mulher, no sentido de a família a fato de sua esposa não traba-
algo que atua no interior, muito cordial lhar fora?”, é suficiente para suscitar colo-
e afetuoso, ligado por afeição e con- cações divergentes pelos membros, propi-
fiança, não faz parte da socialização do ciando assim uma percepção do dese-
homem, algo que ele vá exercer ou de- quilíbrio e desencadeando processos refle-
senvolver (Nolasco, 1993). xivos que acabem levando à maior expan-
são dos papéis dos membros daquela fa-
Com todas essas observações em mília.
mente, a postura terapêutica se orienta É importante lembrar que, se a famí-
pelo objetivo de criar nas famílias a cons- lia reagir com atitudes que demonstrem
ciência dos impedimentos experimentados que não desejam discutir o assunto por ser
por todos os seus membros em virtude das conflitivo, o terapeuta deve esperar outra
questões de gênero. Isso implica estabele- oportunidade em que apareçam questões
cer diálogo com os familiares sobre como relacionadas ao desequilíbrio de gênero
percebem essas questões no cotidiano das para voltar à questão.
relações vivenciadas. Questões genéricas, normatizadoras,
É preciso que o terapeuta encontre também oferecem oportunidade para o
modos de avaliar as situações de desequi- terapeuta entrar nas questões de gênero
líbrio entre os gêneros de maneira cuida- quando ele percebe que há na família gran-
dosa e respeitosa para não desqualificar des desequilíbrios, por exemplo, afirmar
suas crenças nem questionar seus valores. que “os pais fazem de tudo para que seus
De modo geral, o trabalho terapêutico filhos tenham boas oportunidades ocupa-
gira em torno da: cionais. Em sua opinião, senhor X, quem
tem mais oportunidades em sua família?”,
 validação da experiência dos casais e “Como o senhor explica isso?”. Em segui-
famílias; da, fazer perguntas envolvendo os outros
 ampliação dos seus contextos; membros presentes sobre sua opinião a
 co-construção dos significados que atri- respeito.
buem aos papéis de gênero, não se es- Nas famílias em que já há uma cons-
quecendo da importância das afirma- ciência de gênero, o trabalho do terapeuta
ções universais; é no sentido de expandir as experiências
 valor das perguntas. conversando sobre como as pessoas da fa-
mília se adaptam às mudanças, ou como
conseguem negociá-las.
SUGESTÕES PARA APLICAÇÃO Pode ser útil dar tarefas para refleti-
rem como a visão dos papéis masculino e
Com as famílias tradicionais, por exemplo, feminino que cada um possui ajuda ou atra-
o papel do terapeuta é facilitar a consciên- palha seus relacionamentos e suas ativida-
cia do desequilíbrio dos gêneros, lembran- des diárias.
do que elas têm membros em estágios di- A partir das observações de cada um,
ferentes quanto à noção de gênero. Ele fazer perguntas reflexivas sobre as con-
precisa explorar com cuidado as posições sequências de mudar: o que seria diferen-
de cada um dos membros e promover o te, que ganhos, que perdas teriam, o que

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Manual de terapia familiar | 71


os atemoriza (“como vêem sua vida daqui relacionar essas queixas com as expectati-
a três anos?”, por exemplo). vas frustradas, sobretudo em relação a pa-
Quando há polarização na família, péis diferentes que foram parte do contra-
por um lado, há maior facilidade para o to inicial do casal, do tipo “vamos ser um
terapeuta perceber as posições de desequi- casal diferente”. Relacionar esses sentimen-
líbrio de gênero; por outro, o clima de guer- tos às posições dominantes na sociedade e
ra fria, a competição pela liderança, a às particularidades do contexto do casal é
defensividade dos homens e conflitos e importante para aliviar a sensação de
medos da perda nas mulheres tornam a opressão e diminuir a raiva produzindo tré-
questão muito complicada. guas na guerra fria.
A principal tarefa do terapeuta é pro- É particularmente útil usar rituais
curar reduzir a polarização validando as como meio de ressignificar suas posições;
diferentes experiências de cada membro da outro tipo de intervenção útil é a solicita-
família. Através do diálogo, desfazer cul- ção de troca de papéis específicos entre os
pas e criar contextos que encorajem a ne- cônjuges dias pares e ímpares. Por exem-
gociação no sentido de buscar soluções plo, em dias pares, ele faz o café e ela vai
para os impasses em que se encontram. fazer os pagamentos. Tais situações sim-
É importante construir em conjunto ples podem levar a uma maneira mais leve
uma narrativa que busque a expansão das de encarar as tarefas diárias com a com-
descrições e a contextualização das expli- preensão de que podem ser feitas pelo ou-
cações. tro – é uma questão de conversar, combi-
Reagir com raiva à confusão causada nar e ver as conveniências para sua execu-
pela troca de seus papéis impede-os de se ção. Essas experiências ajudam muito a
escutarem melhor e percebem que as mu- ampliação de possibilidades e de significa-
danças são possíveis e que estão reagindo dos na medida em que os casais percebem
a uma frustração de expectativas habituais o que pode ser diferente e inclusive desco-
que não têm que ser assim obrigatoriamen- brem com isso novas habilidades pessoais.
te. Por exemplo, dizer ao marido “sua es- Mais uma vez é importante frisar a
posa está questionando se o senhor valori- contribuição que a análise das posições de
za o que ela faz”, aponta que ela está con- gênero trigeracionais pode trazer. É muito
fusa, pois, em parte, está ao mesmo tempo difícil para as novas gerações compreen-
com raiva por não se sentir valorizada e, der as posições de gênero de seus pais e,
em parte, infeliz por querer que reconhe- sobretudo, como elas lhes foram transmi-
cessem o que faz. tidas, tendo em vista a distância entre eles
Esta é uma forma de conscientizar o não só em termos de tempo, mas também
casal da necessidade de diálogo sobre ques- de costumes.
tões que preocupam cada um, que valor Portanto, construir o genograma e por
cada uma delas tem para o outro e colocar meio dele a história familiar, ressaltando os
em termos mais próximos os significados papéis de gênero, facilita enormemente a
das expectativas de cada um, ajudando a compreensão de seu caráter construído so-
criar um espaço de conversação menos cialmente e ajuda a assumir posições
ameaçador. É importante que raiva, quei- despolarizadas nas medida em que elas pas-
xas e reivindicações venham à tona para sam a ser vistas como algo que é aprendido,
serem discutidas, explicitadas, a fim de se- e não da natureza intrínseca de cada um.
rem compreendidas sem subterfúgios, mas Nas famílias em transição, o foco da
com clareza, sem agressividade. terapia é validar a experiência de cada um
O parceiro que não está preparado e ao mesmo tempo ampliar os contextos,
para ouvir pode reagir mal; importante é as descrições e as explicações.

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72 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

As conversações sobre as visões de O desequilíbrio entre os gêneros tem


mundo são menos tensas pelo fato de am- um sério impacto na vida cotidiana da
bos reconhecerem que há desequilíbrio de família e ameaça seu desenvolvimen-
poder e discutirem como ele se dá em seu to, sua integridade e sua viabilidade
como unidade social. (Breunlin,
caso particular.
Schwartz, Mac Kune-Karrer, 2000)
São capazes de avaliar os prós e con-
tras da maneira tradicional de agir e de
No trabalho com famílias, conceitua-
como acham melhor fazer em seu caso.
da como o núcleo social básico e matriz de
A diferença entre essa posição e a
identidade pessoal, ignorar a questão de
equilibrada é principalmente a estabilida-
gênero é deixar a família excluída do pro-
de dessa última e as possibilidades de re-
cesso continuo de adaptação à evolução
caída da anterior, possibilidades que eles
cultural e dos contextos em que está
conseguem perceber, discutir e corrigir.
inserida.
Na posição equilibrada, mais rara-
Em consequência disso, o terapeuta
mente encontrada, há uma possibilidade
não estará, por sua vez, agindo sistemi-
maior de estabelecer acordos e negocia-
camente nem participando da evolução do
ções, porque também o parceiro homem
pensamento para a prática da terapia fa-
está mais consciente dos privilégios que o
miliar que tem uma longa história desde
poder lhe acarreta e reconhece a necessi-
que mudou o foco do indivíduo para as re-
dade de maior equilíbrio com tudo o que
lações familiares.
daí decorre.
Participar das transformações do cam-
Antes de terminar, é importante lem-
po da terapia familiar é sair da posição de
brar que raramente se encontram famílias
neutralidade para a de curiosidade e, so-
em uma única posição de gênero, sobretu-
bretudo, da posição de especialista para co-
do pelo seu caráter múltiplo de pessoas em
construtor de contextos, de novas realida-
várias etapas do ciclo vital.
des, em que a injustiça e o desequilíbrio
Por essa razão, foram apresentadas
exagerado do poder não encontra lugar.
específicas para cada posição a fim de que
o terapeuta possa usá-las de acordo com
seu discernimento e com o lugar em que a REFERÊNCIAS
família esteja, por exemplo: tradicional /
consciente de gênero, polarizada / em tran- BARBIERI, T. Sobre la categoria género: una in-
sição ou consciente de gênero polarizada. troducción teórico metodológica. São Paulo: Prodir,
As descrições apresentadas são des- 1990.
taques de algumas características típicas de BREUNLIN, D. C.; SCHWARTZ, R. C.; MAC KUNE-
cada fase que podem servir de guia e suge- KARRER, B. Metaconceitos: transcendendo os mo-
rir ideias para o terapeuta trabalhar. delos de terapia familiar. 2. ed. Porto Alegre:
Artmed, 2000.
CAPRA, F. O ponto de mutação. 9. ed. São Paulo:
CONSIDERAÇÕES FINAIS Ciltrix, 1995.
CERVENY, C. M. O.; BERTHOUD, C. Visitando a
As questões de gênero não são variáveis família ao longo do ciclo vital. São Paulo: Casa do
mediadoras secundárias, afetando a famí- Psicólogo, 2002.
lia. Elas estão no cerne da construção da ERIKSON, E. Identidade, juventude e crise: Rio de
identidade de todos e parte da construção Janeiro: Zahar, 1972.
da vida familiar em seu sentindo mais pro- GOLDNER, S. Feminism and family therapy. Family
fundo. Process, v. 24, p.31-47, 1985.

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Manual de terapia familiar | 73


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nas: Psy, 1995.
HARE-MUSTIN, R. T.; MARECEK, J. Making a
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74 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

5
Conjugalidades interculturais
e relações de gênero
Maria Cristina Lopes de Almeida Amazonas
Cristina Maria de Souza Brito Dias
Gilzacarla Alcântara dos Santos

Costumo dizer que todo fascínio e toda delo mais tradicional de relação. (Go-
dificuldade de ser casal reside no fato mes, 2003, p. 8)
de o casal encerrar, ao mesmo tempo,
na sua dinâmica, duas individualida- A conjugalidade envolve duas das
des e uma conjugalidade, ou seja, de mais importantes dimensões da vida: ali-
o casal conter dois sujeitos, dois dese- ança e sexualidade. A aliança é uma rela-
jos, duas inserções no mundo, duas ção de troca, tanto dos bens materiais quan-
percepções do mundo, duas histórias to afetivos e simbólicos. Já a sexualidade,
de vida, dois projetos de vida, duas que até aproximadamente o século XVII era
identidades individuais que, na rela- dissociada da vida matrimonial, passa
ção amorosa, convivem com uma
gradativamente, a partir do século XVIII, a
conjugalidade, um desejo conjunto,
ser incorporada a ela e, na sociedade con-
uma história de vida conjugal, um
projeto de vida de casal, uma iden- temporânea, é um dos aspectos mais im-
tidade conjugal (Féres-Carneiro, portantes da relação conjugal. Na atuali-
1998, p.1). dade, não se admite casar sem amor e sem
desejo (Féres-Carneiro, 1998).
A citação de Terezinha Féres-Carnei- A construção de uma conjugalidade
ro (1998) chama a atenção do leitor para demanda um grande investimento por par-
as dificuldades que envolvem qualquer si- te de um casal. São duas histórias de vida
tuação de conjugalidade. O termo conjuga- familiar, distintas, que se encontram; duas
lidade (um neologismo) será empregado tradições diferentes; duas visões de mun-
para falar em um tipo de vínculo afetivo do; sem falar na pluralidade de subjetivi-
resultante da união formal ou consensual dades, tanto por parte da família de um
entre duas pessoas adultas que decidem quanto do outro, que se mesclam. Imagi-
constituir uma família, nem, então, quando essa conjugalidade,
além de lidar com todos esses fatores dife-
por sua forte sugestão de processo e rentes, acrescenta a eles o encontro entre
de dinâmica, de instituição em vias de duas etnias – nacionalidades – também dis-
formação, em vez da solidez e da for- tintas. Crohn (2003, p. 340) afirma:
malidade de termos mais consagra-
dos, como matrimônio e casamento, Etnia, religião, raça, gênero e classe
que poderiam ser associados a um mo- realmente influenciam todos os aspec-

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Manual de terapia familiar | 75


tos por meio dos quais as pessoas en- Há talvez mais nostalgia em torno do
xergam o mundo e o que elas consi- santuário perdido da família do que
deram “normal” ou “anormal”. A cul- em qualquer outra instituição com
tura molda as atitudes com relação ao raízes no passado. Políticos e ativistas
tempo, à família, à alimentação, ao diagnosticam rotineiramente o co-
dinheiro, ao sexo e à monogamia. lapso da vida familiar e clamam por
um retorno à família tradicional.
Uma etnia implica diferenciações so- (Giddens, 2000, p. 63)
cioculturais que se refletem na língua, na
religião, em maneiras de agir e de pensar. No que diz respeito às identidades na-
Se a conjugalidade entre pessoas de um cionais e culturais, os efeitos da globaliza-
mesmo grupo étnico já enfrenta uma série ção também são controversos. Pelo menos
de dificuldades, o que ocorre quando ela três posições podem ser defendidas em re-
se dá entre duas culturas nacionais dife- lação ao tema: a primeira considera que
rentes? É este o tema de nosso trabalho: a os processos globais enfraquecem ou até
conjugalidade heterossexual entre mulhe- mesmo solapam essas identidades, isto é,
res brasileiras e homens estrangeiros, e, ao provocam uma Homogeneização Cultural;
abordá-lo, trataremos das questões relati- a segunda propõe que a pressão resultante
vas às identidades culturais e de gênero. da globalização reforça a resistência e acen-
tua as diferenças por parte das identidades
nacionais; a terceira posição argumenta
A FORMAÇÃO DOS que a tensão entre o local e o global está
VÍNCULOS AFETIVOS E AS longe de simplesmente destruir as identida-
FRONTEIRAS GEOGRÁFICAS des nacionais, e o que está resultando desse
processo são identidades híbridas (Hall,
1999).
Vivemos em um mundo globalizado; as
Para nos ajudar a pensar as conjugali-
distâncias geográficas já não constituem
dades interculturais na modernidade, va-
impedimento para as construções dos
mos ainda lançar mão da distinção entre
vínculos afetivos. Entre todas as mudan-
espaço e lugar feita por Giddens e comen-
ças que o chamado processo de globaliza-
tada por Stuart Hall (1999) nas socieda-
ção vem provocando, destacam-se como
des pré-modernas e modernas.
tendo maior repercussão na vida das pes-
soas a sexualidade, os relacionamentos
afetivos, o casamento e a própria família, O “lugar” é específico, concreto, co-
nhecido, familiar, delimitado: o pon-
que passam a ser atravessados por costu-
to de práticas sociais específicas que
mes e valores também globais (Giddens,
nos moldaram e nos formaram e com
2000). Se, por um lado, isso leva a uma as quais nossas identidades estão es-
aceleração nos processos de transformação treitamente ligadas (…) os lugares
e a uma homogeneização nos costumes, permanecem fixos; é neles que temos
por outro, acirra uma resistência à mudan- “raízes” (…), o espaço pode ser “cru-
ça e potencializa um sentimento nostálgi- zado” em um piscar de olhos – por
co em relação ao passado. A sensação de avião a jato, por fax ou por satélite.
um mundo idealizado, no qual as relações (Hall, 1999, p. 72-73)
conjugais e a própria família pareciam mais
bem estruturadas e ajustadas, tende a se Giddens (1990, citado em Hall, 1999)
acentuar nas pessoas. Hoje a família tor- considera que, nas sociedades pré-moder-
nou-se um locus privilegiado para as lutas nas, lugar e espaço coincidiam, pois as di-
entre a tradição e a modernidade. mensões da vida social, para a maioria da

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76 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

população, eram dominadas pela presen- merecem porque se trata de fenômeno no-
ça e por atividades localizadas. Já a moder- vo, tendo se acentuado a partir dos anos
nidade vai separar, cada vez mais, o espaço 1950. Entre os fatores que a autora levan-
do lugar, pois as relações se dão entre os ta para sua disseminação nos Estados Uni-
ausentes em termos de lugar. Com a revolu- dos estão a maior mobilidade, os avanços
ção das comunicações, os locais são pene- nos meios de transporte e educação, os in-
trados e influenciados por acontecimentos centivos militares e políticos, os efeitos da
distantes deles. As relações vão ocorrer en- luta pelos direitos humanos e contra as res-
tre pessoas que se encontram em espaços trições migratórias. Poderíamos acrescen-
cada vez mais amplos. O céu é o limite! tar ainda os avanços nos meios de comuni-
Esses efeitos estão repercutindo tam- cação, reduzindo as dimensões de espaço
bém sobre a formação dos vínculos afeti- e tempo entre as pessoas. Com isso, indiví-
vos. Não se trata apenas de pessoas de duos de diferentes credos, culturas, nacio-
nacionalidades diferentes que se encon- nalidades e raças têm estabelecido relacio-
tram em espaços e locais reais e/ou vir- namentos passageiros ou duradouros, e,
tuais e terminam por criar laços afetivos; neste último caso, trazendo à tona novos
mesmo as uniões entre casais de igual na- modelos de família e de personalidade que
cionalidade são mantidas, muitas vezes, em se adaptam em um mundo em constante
locais e espaços diferentes, por razões li- transformação. Embora essa seja uma rea-
gadas ao mundo do trabalho. Woodward lidade norte-americana, acreditamos que
(2003, p. 31) afirma: ocorre situação semelhante no Brasil.
Segundo essa autora, a reação a es-
As relações familiares também têm ses casamentos pode se polarizar: de um
mudado, especialmente com o impac- lado, há aqueles que recebem bem essas
to das mudanças na estrutura do em- uniões porque testemunham a crença de
prego. Tem havido mudanças também que o amor transcende fronteiras; por ou-
nas práticas de trabalho e na produ- tro lado, há os que as encaram como ame-
ção e consumo de bens e serviços. É aças à identidade nacional. Contudo, a
igualmente notável a emergência de posição de aceitação tende a se firmar a
novos padrões de vida doméstica, o
par do reconhecimento da resistente natu-
que é indicado pelo crescente núme-
ro de lares chefiados por pais soltei-
reza dos valores étnicos e religiosos.
ros ou por mães solteiras, bem como Entre as motivações que foram elen-
pelas taxas elevadas de divórcio. cadas para que as pessoas se relacionem
afetiva e sexualmente com aquelas de ou-
tras culturas estão a experiência enrique-
Em qualquer uma das situações, es-
cedora e a ampliação da visão de mundo
ses vínculos vão apresentar características
que tal situação oferece. Outra motivação
específicas, e os casais poderão se deparar
constituiria uma forma de escapar da pró-
com facilidades e dificuldades distintas das
pria cultura. Assim, os casamentos intercul-
enfrentadas pelos casais de outras épocas.
turais favorecem um reajuste às caracte-
rísticas indesejáveis atribuídas à cultura de
origem. De qualquer modo, a complemen-
CARACTERÍSTICAS taridade que subsidiou a busca pode aca-
DOS RELACIONAMENTOS bar sendo fonte de problemas futuramen-
INTERCULTURAIS te. E, durante as crises, esses casais care-
cem de rituais e conceitos divididos que
Para Perel (2000), os relacionamentos in- possam ajudá-los a lidar com os aconteci-
terculturais não têm recebido a atenção que mentos (Perel, 2000).

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Manual de terapia familiar | 77


Alguns fatores de estresse presentes lativas ao gênero aparecem como pro-
nos casamentos interculturais, segundo blemas de comunicação ou como pecu-
Hotvedt (2002), dizem respeito aos valo- liaridades da própria personalidade dos
res das famílias de origem, às regras e aos cônjuges.
papéis atribuídos aos filhos, à família ex-
tensa e aos próprios cônjuges. Sabe-se que Neste capítulo, serão abordadas as re-
um importante indicador de sucesso no lações entre casais em que as mulheres são
casamento diz respeito à aceitação da fa- brasileiras e seus cônjuges são de outras
mília de origem. No caso de casamentos nacionalidades. Serão comentados os da-
interculturais, uma das objeções, por par- dos de uma pesquisa que se propôs a estu-
te da família de origem, relaciona-se com dar as modalidades de relacionamentos
o nível social do filho deles, dos netos e da afetivos estabelecidos entre estrangeiros,
própria família. Implícito está o temor de residindo ou não no Brasil, com mulheres
que o filho “desça na escala social”. brasileiras. Nosso objetivo foi compreen-
Perel (2000) acrescentou os seguin- der quais as razões que levam pessoas a
tes aspectos: escolher um/a companheiro/a de outra na-
cionalidade para constituir uma família,
a) Religião: as crenças religiosas são incul- assim como captar a percepção que esses
cadas na infância, os sentimentos reli- sujeitos têm da dinâmica desses relaciona-
giosos e culturais adormecidos podem mentos. Mais especificamente nos interes-
explodir em um ou outro momento da sava a escolha de um estrangeiro por uma
vida do casal, sendo necessário que mulher brasileira. Não se trata aqui do cha-
ambos entendam a força e o significa- mado turismo sexual, embora tivéssemos
do de suas tradições para que haja uma em mente a possibilidade de que alguns
adaptação; desses relacionamentos pudessem ter resul-
b) Criação dos filhos: estes significam a tado, em um primeiro momento, desses
continuidade da família, dos valores e encontros fortuitos. Mas nosso interesse
das tradições. Nos casamentos intercul- recaiu sobre as relações estáveis, incluin-
turais, é preciso sintetizar duas formas do, em alguns casos, a presença de filhos.
de educação em uma só, pois a criança
necessita de socialização constante, da
qual a religião e a cultura fazem parte. MULHERES BRASILEIRAS
Muitas vezes, os casais se deparam na CASADAS COM ESTRANGEIROS:
criação dos filhos com questões relacio- DESENVOLVIMENTO DA PESQUISA
nadas à sua própria socialização, sen-
do necessário que eles reconheçam os A pesquisa que deu origem a este trabalho
conceitos transmitidos em suas respec- foi de natureza qualitativa. Ouvimos dez
tivas culturas de origem e considerem pessoas, sendo cinco homens e cinco mu-
que talvez não precisem escolher entre lheres. A entrevista continha os dados so-
uma ou outra, mas decidir que modelo ciodemográficos do participante e questões
seguir em cada situação que se apre- abertas. Os dados sociodemográficos ser-
senta. Desse modo, “é possível que se viram para caracterizar a amostra.
crie um novo código que integre partes Todas as mulheres eram brasileiras e
de suas respectivas culturas” (Perel, os homens estavam distribuídos entre as
2000, p. 207); seguintes nacionalidades: alemães (três);
c) Gênero: as expectativas relacionadas ao austríaco (um); uruguaio (um). A faixa
gênero também precisam ser conside- etária dos homens estrangeiros que partici-
radas, pois, muitas vezes, questões re- param do estudo variou entre 40 e 67 anos,

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78 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

e a das mulheres brasileiras casadas com am a outros casais vivendo esse tipo de rela-
estes homens variou entre 28 e 55 anos. cionamento.
A escolaridade dos homens era a se-
guinte: dois tinham o nível médio e três
possuíam o nível superior. Quanto às mu- Como se conheceram
lheres, duas eram de nível médio, uma, de
nível superior completo, e a outra tinha Em relação a como aconteceu o encontro
pós-graduação. Esses dados confirmam entre os casais, todos afirmaram que este
outras pesquisas (Crohn, 2003, p. 343) que se deu por acaso. A esse respeito, um deles
demonstram existirem mais mitos do que disse:
realidade quando se pensa que um dos
motivadores mais fortes no casamento Vim passar férias aqui no Nordeste do
intercultural é a mudança de status econô- Brasil e aí me hospedei aqui [pousa-
mico ou e/ou social. O autor afirma: “O da da atual esposa] e comecei a
namorá-la (…) gostei dela e decidi vir
que é incrível é a similaridade nas origens
morar no Brasil, já que ela não ia para
educacionais e de classe dos cônjuges ra- lá, pois é muito apegada à família.
cialmente diferentes”. (H1)1
Todos os participantes tinham mais de
cinco anos de relacionamento na ocasião Um afirmou ainda que eles se conhe-
da entrevista. Entre os homens, três casais ceram através da internet; três responde-
têm filhos de relacionamentos anteriores ram que foi em festas; e um outro, na aca-
com cônjuges da mesma nacionalidade e demia de ginástica.
dois têm filhos do casamento com a brasi- Constata-se que não há diferenças en-
leira. Quanto às mulheres, também três têm tre a forma como estes casais se encontra-
filhos de um casamento anterior e duas têm ram e iniciaram um vínculo amoroso e
filhos com o atual companheiro. outros da mesma nacionalidade. A ideia
Os depoimentos dos entrevistados preconcebida de que os estrangeiros vêm
foram submetidos à Análise de Conteúdo a nosso país unicamente com a intenção
Temática que, segundo Minayo (2004, p. de fazer turismo sexual, nesses casos, não
209), consiste se confirmou.
em descobrir os núcleos de sentido
que compõem uma comunicação cuja As razões que os levaram
presença ou frequência signifiquem al-
a constituir uma família
guma coisa para o objetivo analítico
visado.
Quando os participantes se referiram aos
motivos que os levaram a constituir uma
família, o amor e a busca da felicidade fo-
O QUE ENCONTRAMOS
ram as principais razões apresentadas, tan-
to pelos homens quanto pelas mulheres,
Após cuidadosa leitura das entrevistas, como demonstram as falas a seguir:
emergiram seis temas: como os casais se
conheceram; as razões que os levaram a
constituir uma família; as características 1 Para evitar a identificação de nossos partici-
do/a companheiro/a; os pontos positivos pantes, adotamos a letra H para nos referirmos
de um relacionamento intercultural; os aos homens e M para indicar as mulheres. O
pontos negativos deste tipo de relaciona- número que acompanha cada letra indica o
mento e, por fim, recomendações que fari- participante em questão.

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Manual de terapia familiar | 79


O amor, Deus, a procura da felicidade bém por características de personalidade
e o compromisso de morar junto (…) que ela considera muito importantes na
Pelos valores internos dela e por gos- relação entre um homem e uma mulher:
tar muito do Brasil (H2).
No meu país, os valores relacio-
nam-se a dinheiro e aqui ao amor (…) O sentimento que nos unia e a certe-
as mulheres brasileiras têm muito za de que estaríamos fazendo a coisa
amor para dar (H5). certa. Nunca havia encontrado alguém
Porque gostei dele, por amor mes- que fosse tão amável comigo. Uma
mo (…) A gente fica com o outro não relação de confiança e muito respeito
por causa de um papel, mas porque mútuo. A certeza de um lar estável
quer ficar com o outro. Considero-me (…) O que foi essencial para a minha
casada com ele há cinco anos. Sei que escolha foi o seu ser, e não a sua na-
meu relacionamento com ele é fiel, es- cionalidade. (M2)
tável, verdadeiro (M1).
(…) o que sustenta um relaciona- Além do amor e das características po-
mento é o amor. Se existe amor, então sitivas percebidas nos companheiros, outra
compartilhem isto na relação (M4). razão levou esses casais a buscar o casa-
mento: a possibilidade de o companheiro
Como podemos ver, para além das estrangeiro obter o visto de permanência
questões culturais e de nacionalidade, o no Brasil. Sem esse visto, muitas vezes, eles
casamento continua se baseando nos ide- precisam sair do país para poder retornar,
ais do amor romântico. Os casais justifi- o que acaba ficando muito dispendioso.
cam a construção de um lar com base nos Uma das mulheres entrevistadas disse:
sentimentos de afeto que nutrem um pelo
outro e na busca da felicidade. O amor que sentimos um pelo outro.
Segundo Costa (1998, p. 19), Casamos porque assim ele não iria
gastar mais tanto dinheiro indo e vin-
o amor romântico, quando se estabili- do para o Brasil. Assim, poderíamos
zou como norma de conduta emocio- morar juntos e construir uma casa
nal na Europa, respondeu a anseios de para mim (M4).
autonomia e felicidade pessoais inequi-
vocamente criativos e enriquecedores. Outra alegou também o desejo de ad-
quirir, através do casamento, o visto per-
Mas, o que no final do século XIX, no manente no país de origem do marido, pois
seio da família burguesa, era um elemento assim poderia transitar mais facilmente
de equilíbrio indispensável entre o desejo entre aqui e lá.
de felicidade individual e o compromisso (…) agora vamos nos casar também
com os ideais coletivos, hoje se transformou, para que eu e os meus filhos tenhamos
perdeu o caráter de bem comum e foi o visto permanente. Nós queremos vi-
sitar outros países sem tanta burocra-
hiperinflacionado (…) o amor tornou- cia. No mais, acho que tudo contribuiu
se onipotente, onipresente e oniscien- para que formássemos uma família, ele
te. Deixou de ser um meio de acesso à é engenheiro eletrônico, e eu trabalho
felicidade para tornar-se seu atributo com eletrotécnica, ele me ajuda muito
essencial (Costa, 1998, p. 19). nesta área do trabalho. (M5)

Outra participante foi além. Justifi- A estabilidade no relacionamento e


cou sua escolha por um parceiro estran- no aspecto financeiro, aliada ao fato de o
geiro pelos sentimentos que os unia e tam- indivíduo fora de sua terra se tornar mais

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dependente da companheira, foram os ar- firmou o valor atribuído à família, como


gumentos de uma das participantes para também a importância dada à maternida-
haver constituído um casamento com um de. Ela faz planos de construir uma famí-
estrangeiro. lia, apesar da relutância declarada de seu
companheiro de exercer a paternidade
Estabilidade no relacionamento, pois mais uma vez. Este é outro depoimento que
aqui no Brasil ele não conhece nin- reforça os papéis tradicionalmente atribuí-
guém, e tudo que for resolver vai pre- dos ao gênero feminino. Ela disse:
cisar de mim, e a estabilidade finan-
ceira (M4). Pretendo adotar um filho com ele, já
que não podemos ter um, mesmo que
O isolamento de um sujeito fora de ele não queira, mas eu não vou dei-
sua terra natal, longe dos amigos, é, por xar pra trás um desejo meu de ter um
estranho que isso possa parecer, uma das filho, ele vai ter que escolher, ou fica
razões que deixam algumas dessas mulhe- comigo com um filho, ou a gente aca-
res se sentindo mais confortáveis. Uma ba tudo. (M1)
outra afirmou:
Alguns depoimentos apontam para as
(…) Gosto do estilo de vida deles, são expectativas construídas por estrangeiros
pessoas isoladas. Ele não sai sem mim em torno de mulheres de um país conside-
pra lugar nenhum, pois não tem ami- rado menos desenvolvido que o deles. Esse
gos, e os que tem são os nossos ami- dado assemelha-se aos achados de Kim
gos em comum (M5). (2003, p. 356) a respeito do casamento
entre mulheres asiáticas e militares ame-
ricanos.
Características percebidas
no(a) companheiro(a) Muitos militares americanos que se
basearam na Ásia foram atraídos pela
A valorização do casamento e a importân- aparência externa do comportamen-
to e dos papéis de gênero das mulhe-
cia dada à vida familiar, por parte das bra-
res asiáticas.
sileiras, foram características bastante va-
lorizadas pelos estrangeiros. Segundo a autora, há uma lenda em
torno das mulheres orientais, cultivada
(…) as brasileiras consideram o casa-
através das artes, de que elas provocam
mento de forma mais séria (…) A bra-
sileira é muito melhor na parte domés- um certo fascínio nos homens. Essa lenda
tica, na arrumação, é mais habilido- leva a crer que tais mulheres são abnega-
sa. As alemãs, 30 anos atrás, eram das, dóceis e ansiosas por agradar aos ho-
assim também. As alemãs são mais li- mens. Podemos dizer que isso também se
vres e independentes. Para a brasilei- aplica ao caso da mulher brasileira. Há to-
ra, a parte da casa é mais importante, do um mito em torno de sua sensualidade.
cuida mais; a alemã é mais fria. A bra-
sileira cuida quando o marido está As brasileiras são mais bonitas, cari-
doente. (H4) nhosas, sensuais, a cor de sua pele é
mais atraente; são caseiras e têm um
Os papéis de gênero, tradicionalmen- jeito melhor para levar a vida a dois
te destinados à mulher, aquela que cuida (…) têm bastante humor (H5).
da casa, dos filhos e do marido, foram res-
saltados por este entrevistado. O depoi- Kathryn Woodward (2000, p.14) afir-
mento de uma das esposas não apenas con- ma que

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Manual de terapia familiar | 81


o corpo é um dos locais envolvidos no gerado disputas entre os gêneros. Quem é
estabelecimento das fronteiras que de- mais inteligente: o homem ou a mulher?
finem quem nós somos, servindo de Talvez seja possível pensar que na Europa,
fundamento para a identidade – por de onde se originou a maioria dos estran-
exemplo, para a identidade sexual.
geiros de nossa amostra, na maior parte
dos países, a mulher já construiu uma car-
Os depoimentos de nossos participan-
reira profissional mais sólida e este seja um
tes mostram que o corpo não apenas defi-
dos fatores que a tornam mais independen-
ne as identidades sexuais, mas também
te e fortaleça sua auto-estima, fazendo com
contribui para a formação de identidades
que ela se volte mais para si mesma.
nacionais, ainda que de forma mítica. Des-
Já as mulheres de nossa pesquisa jus-
se modo, a mulher brasileira e as esposas,
tificaram suas escolhas por estrangeiros ba-
em particular, são caracterizadas com base
seadas em características de personalida-
em crenças disseminadas no social, ao lon-
de opostas às que atribuem aos brasileiros:
go de uma trajetória histórica que nos
acompanha durante séculos, de que “a sen- Eles são culturalmente mais rígidos,
sualidade é mais acentuada abaixo da li- o brasileiro é o oposto, sendo flexível
nha do Equador”. Sem dúvida, há também demais. Eles levam tudo a sério e os
que se considerar a situação econômica, de brasileiros, não. Deixamos tudo para
classe e de educação, de boa parte da po- amanhã, para depois (…). Às vezes
pulação, que reforça esses estereótipos. acho que os europeus são neuróticos,
Ao longo do relacionamento, quan- pois querem ser disciplinados em
do o casal se depara com a realidade, es- tudo, tudo tem que tá no lugar certo,
sas expectativas serão frustradas, o que na hora certa, não podem errar… e
mais, primeiro é o trabalho, segundo
pode levar a crises conjugais.
é o trabalho, terceiro é o trabalho… e
Um fator também salientado foi a
as outras coisas vêm depois. (M1)
comparação que todos os participantes fi-
zeram entre as mulheres de seu país e as Esta mulher toma como base, para ca-
brasileiras. Um dos homens, referindo-se racterizar o companheiro, duas identida-
à sua mulher atual, ressaltou sua bondade des culturais: brasileiros versus europeus.
e dedicação, características que ele não Sem dúvida, ao falar da identidade do eu-
reconhece nas mulheres de seu país. ropeu, ela enfatiza características que tam-
bém se baseiam em estereótipos culturais.
Ela é muito bonita, tem um coração Por exemplo, o europeu é rígido, discipli-
muito grande, é boa para mim. No
nado, contido em suas emoções, entre ou-
meu país, a mulher pensa em si e de-
pois nos outros, é egoísta (H3).
tras características. Crohn (2003), em suas
pesquisas, também encontrou resultados
semelhantes. Em seus estudos, os europeus
Neste mesmo sentido, outro partici-
foram percebidos como mais contidos e
pante, falando a respeito das mulheres de
sérios. Seguramente, nem todo europeu
seu lugar de origem, disse:
possui estas características e nem todos os
As mulheres de meu país são mais fri- brasileiros são exatamente o contrário dis-
as, querem ser inteligentes demais so. Essas afirmações são estereotipadas e
(…) são sérias, não sabem sorrir (H5). generalizantes, baseando-se mais em mi-
tos do que na realidade.
Ao comparar as mulheres brasileiras Outra participante confirmou a com-
com as de seu país, este homem enfatizou paração estabelecida entre o estrangeiro e
características que tradicionalmente têm o brasileiro.

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82 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

(…) são mais sinceros, no sentido de ticas que a maior parte das mulheres cos-
serem mais assertivos; são mais pé no tuma admitir como desejáveis em um ho-
chão; são menos superficiais, no sen- mem com quem venham a estabelecer um
tido do consumismo, pois hoje vejo relacionamento amoroso:
que o brasileiro é bem superficial neste
sentido: faz de tudo pela aparência ex-
Ele me compreendia, ele foi muito
terna, seja com a vestimenta, seja com
amável, demonstrou interesse (M3).
o carro ou com a casa que tem (…)
Fidelidade, companheirismo. Ele é
São realmente pais atuantes, que se
um homem muito inteligente, com-
envolvem e se comprometem 100%
preensivo, caseiro e mão aberta (M4).
com a criação dos filhos. Os sabores e
Embora ele seja muito calado,
os dissabores dos cuidados emocionais
muito na dele, me atrai muito a perso-
e instrumentais são divididos de for-
nalidade dele, de homem responsável,
ma muito mais eqüitativa nesta cul-
caseiro, de bom marido, me passa se-
tura do que na nossa. (M2)
gurança, confiança (…) Ele não bebe,
não fuma, é um bom marido (M5).
Nessas comparações, algumas vezes
os brasileiros perdem, noutras ganham, isto
é, nem sempre, ao comparar, as mulheres Aspectos positivos de um
vêem mais qualidades nos homens que vêm relacionamento intercultural
de fora de seu país do que nos de sua terra
natal. Porém, há sempre uma tendência a A respeito do encontro entre duas culturas
construir binarismos, quer estes sejam clas- distintas, Crohn (2003, p. 340) afirma:
sificatórios: características boas e más, de-
sejáveis e indesejáveis, quer sejam pela As normas culturais afetam a manei-
demarcação de fronteiras: nós versus eles. ra como a raiva e a afeição são ex-
Dividir o mundo entre nós e eles significa pressadas, como as crianças são disci-
classificar e, nesse caso, também hierar- plinadas e recompensadas, como os
quizar, valorizar. Silva (2000) afirma que estranhos e os amigos são saudados,
e que papéis os homens e as mulheres
onde existe diferenciação – ou seja, desempenham (…) Nos relaciona-
identidade e diferença – aí está pre- mentos interculturais, normas con-
sente o poder. A diferenciação é o pro- trastantes podem levar um parceiro a
cesso central pelo qual a identidade e descrever como amável um compor-
a diferença são produzidas. tamento que o outro enxerga como
sedutor. O que ele considera um de-
sacordo amigável, ela pode ter abso-
Nesses processos de diferenciação, um luta certeza de ser uma ameaça; quan-
dos lados tem o poder de definir o outro, e do ele diz que visita seus pais fre-
a identidade de um passa a ser a referên- quentemente, pode querer dizer duas
cia a partir da qual o outro irá se consti- vezes por ano, mas para ela raramen-
tuir. Em vez de considerar que somos to- te pode significar duas vezes por se-
dos diferentes, independentemente de na- mana.
cionalidade, raça ou religião, a identidade
é vista como o centro e a diferença, pas- Ao ouvir os depoimentos dos entre-
sando a ser considerada como mero aces- vistados, muitos desses aspectos apontados
sório. pelo autor apareceram, algumas vezes,
Algumas mulheres referiram-se às como pontos positivos de uma união inter-
qualidades do companheiro sem estabele- cultural, e, em outras, como pontos nega-
cer comparações. Enfatizaram caracterís- tivos desses relacionamentos.

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Manual de terapia familiar | 83


Entre os participantes estrangeiros, os aspecto bastante positivo de um relacio-
aspectos positivos foram, além da sensua- namento afetivo intercultural.
lidade da mulher brasileira, a domestici-
dade, conforme já exemplificado anterior- Ter a oportunidade de conhecer um
mente. Todos os depoimentos giram em mundo diferente do seu; saber que as
torno desses dois eixos. Apenas um entre- coisas são diferentes das que você
vistado mencionou o intercâmbio cultural: imaginava. Ver que cada mundo é um
mundo e que tudo, de alguma manei-
“aprendizagem de novos valores” (H2).
ra, deve ser respeitado. Ter a expe-
Já nos depoimentos das mulheres, a riência de outra cultura para poder
ênfase recaiu sobre o intercâmbio cultural. saber valorizar e desvalorizar mais
alguns costumes e regras de seu país.
No casamento com um estrangeiro, a (M2)
gente tem o ponto positivo de ter um
alcance concreto de uma outra cultu- Outra participante disse:
ra, a gente pode ir conhecer o outro
país, temos, através do parceiro, uma Aprendi muita coisa da cultura dele
outra forma de costumes, de valores, que não sabia e entendo que um rela-
de conceitos, de disciplinas. (M1) cionamento com uma pessoa de ou-
tra cultura é um compartilhar de in-
Esta mesma entrevistada chamou a formações (M4).
atenção para o fato de que o intercâmbio
entre culturas tanto pode ser um fator de Estas falas nos remetem ao que Perel
enriquecimento para ambos os cônjuges (2000) apontou como uma das motivações
quanto pode também dificultar a convivên- do casamento intercultural: ampliar a vi-
cia. Ao mesmo tempo, salientou que não se são de mundo e proporcionar uma expe-
trata de perder sua identidade cultural, mas riência enriquecedora.
de abrir-se para o que há de positivo na cul-
tura de seu companheiro e, ao mesmo tem-
po, tentar compreender suas dificuldades Aspectos negativos de um
em relação às diferenças culturais. relacionamento intercultural

(…) Acho interessante este intercâm- De um modo geral, as dificuldades relata-


bio, se cada um puder abrir seus con- das pelos entrevistados estrangeiros são de
ceitos fechados e pegar o lado bom ordem cultural. Eles se referiram aos cos-
que cada um tem e somar, vai ser óti- tumes de seu país de origem, ao modo
mo (…) Tem que ter paciência, se como os familiares se tratam, se visitam,
abrir para a cultura do outro, tentan- entre outros.
do compreender as dificuldades, e aju-
dar o outro que escolhemos pelo me- Família de origem, em primeiro lugar.
nos, no momento, para viver. É tentar Por exemplo, a cultura e os costumes
absorver a cultura do outro, não per- da minha sogra (no início) foram pon-
dendo a sua, a nacionalidade, mas no tos fundamentais para quase deixar o
sentido de aproveitar o que tem de relacionamento há pouco tempo de
bom no outro. (M1) iniciado. Exemplos: ausência de cum-
primentos, de carinho e de diálogo, frie-
Outra entrevistada pontuou a opor- za, sentimento de ser ignorado. (H2)
tunidade de conhecer um outro mundo,
com valores distintos, a possibilidade de Outros salientaram as dificuldades em
comparar as diferenças culturais como um se adaptar às novas regras sociais, ao pró-

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84 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

prio idioma, à organização da sociedade quadro de referência cultural. Há uma au-


na qual passaram a viver. sência de expectativas sólidas que propici-
em o intercâmbio. As expectativas que se
Gosto do Brasil, mas sistema de Ban- apresentam, em geral, são estereotipadas.
co é complicado (…) gente boa e gente A criação de filhos, conforme fora aponta-
não boa. Diferença social muito gran- do por Perel (2000), também pode ser fonte
de. Português difícil. Meu país é mui- de conflitos entre o casal.
to limpo, organizado, colégio para to-
dos (H3).
(…) Europa é diferente. Ela não acei-
tava que eu me encontrasse com mi-
Embora possamos dizer que na amos- nhas filhas e com minha ex-mulher. A
tra investigada não encontramos divergên- brasileira é muito ciumenta (…) A
cias de classe, nem de nível socioeducativo, criação dos filhos é diferente. Têm
os homens entrevistados fizeram referên- menos paciência, ligam TV e deixam
cia a situações que, de fato, acontecem os filhos na frente. A alemã conversa
quando mulheres brasileiras ou de qual- mais, brinca mais. A mãe brasileira é
quer outra nacionalidade, muito pobres, amorosa, mas não mostra, exige que
casam-se com estrangeiros de um poder a criança seja um adulto. Acredito que
aquisitivo maior que o delas. Um dos par- a maior parte da educação é em casa
e não na escola. Eu sou mais paciente
ticipantes disse:
e faço mais coisas por minha filha. A
mãe grita por pequenas coisas. (H4)
Não é o caso de minha mulher, mas as
brasileiras quando se envolvem com
os estrangeiros querem o dinheiro Este entrevistado afirma que não é
todo pra sustentar as famílias delas. apenas sua mulher que se comporta assim.
Isto é muito ruim (H1). Ele disse que já observou outras mães gri-
tando com os filhos no ônibus, na praia,
O idioma é um entrave poderoso ao em lugares diversos. Podemos argumentar
conhecimento do casal. Segundo Kim que, independentemente de esse fato não
(2003, p. 358), corresponder a todas, nem mesmo à maio-
ria das mães brasileiras, até nosso tom de
a idealização dos parceiros dura mais voz pode parecer a um estrangeiro dema-
tempo entre casais cujos membros per- siadamente exagerado e barulhento, prin-
tencem a raças e nações diferentes do cipalmente se esse estrangeiro não é um
que entre casais recém-casados que latino. O mesmo participante acrescentou:
compartilham a mesma língua e a
mesma cultura.
Não quis fazer nada rápido, que- A mulher alemã é mais trabalhadora.
ria conhecer bem. A língua não foi fa- A brasileira trabalha, mas, quando
vorável (…) Brasileiro não tem costu- chega em casa, reclama: “foi duro”,
me de falar outra língua, se falasse “cansativo”. A alemã não reclama. A
uma abria o caminho para falar ou- mulher brasileira precisa muito de
tra. Mesmo na Indonésia se fala in- carinho, de muita demonstração de
glês. Para muitos, a língua é proble- amor. Para a alemã, basta no Natal
ma. Às vezes, não se tem a palavra (risos). (H4)
exata para dizer o que se quer. (H4)
O modo como os brasileiros cuidam
Ainda, segundo Kim (2003), não ape- dos filhos, em contraste com o modo euro-
nas a língua dificulta o conhecimento en- peu de fazê-lo, foi outra dificuldade apon-
tre os parceiros, mas também a falta de um tada por esse participante.

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Manual de terapia familiar | 85


Na Europa, quem é adulto, a mãe não mas até acho que me acomodei, pois
fica em cima. Aqui, filho fica em casa ele sabe falar português mesmo (M4).
até 30 anos. Lá as mães cuidam dos
filhos, e não babás e avós, elas não Apesar de o marido ter aprendido a
saem às festas e outros lugares e dei- falar português, ela ainda se cobra para
xam os filhos com as avós. (H4) aprender seu idioma.
Outra dificuldade para as mulheres
Os depoimentos das mulheres brasi- que têm filhos e vão viver no país do mari-
leiras, assim como os dos homens estran- do é a falta de apoio da família na criação
geiros, giraram, principalmente, em torno dos filhos.
de duas maiores dificuldades: o choque
cultural e a língua. (…) para mim, que sou estrangeira, é
horrível o aspecto da ajuda da família
As dificuldades são muitas porque na criação de meu filho; sou 100%
tudo é bastante diferente (…) As difi- dependente da escola ou da empre-
culdades que vejo mesmo é o choque gada. Se a escola está de férias e a
cultural (…) no relacionamento com empregada falta, o mundo cai em mi-
uma pessoa de outra nacionalidade, nha cabeça porque já sei que não po-
a paciência tem que ser dobrada, a derei trabalhar. Até poderei contar
atenção e o interesse pela cultura do com a ajuda de um dia, mas não peça
outro também tem que existir por mais que isso que, com certeza, meu
ambas as partes. (M1) pedido vai ser negado ou coisa pelo
(…) foram muitas as dificuldades. estilo. (M2)
Tive um choque cultural muito grande
neste sentido, pois sua cultura é bem
diferente da nossa: pessoas muito con- Recomendações que
servadoras, sérias, críticas; com uma
fariam a outros casais
visão realmente muito negativa do fu-
turo, gente que deixa de usufruir o pre-
sente para resguardar o futuro. (M2)
Entre as recomendações feitas pelos parti-
cipantes, encontramos: não se ater às ca-
Quanto à questão do idioma, Kim racterísticas negativas do companheiro,
(2003) afirma que, em geral, quando mu- procurando ver as positivas (cumplicida-
lheres de um país com menor nível de de- de, paciência, compreensão, abertura para
senvolvimento casam-se com homens de a cultura e a família do outro); porém, sem
países mais desenvolvidos, a árdua tarefa perder o próprio referencial. Eis algumas
de aprender um idioma estrangeiro é desig- falas:
nada a ela. É ela que deve tentar se acultu-
Fé em Deus e na própria família, cum-
rar, principalmente quando vai viver no país
plicidade, compromisso, respeito pe-
do marido, mas mesmo quando é ele quem las situações individuais e tolerância
vem viver no seu. As mulheres parecem com as famílias de origem. (H2)
introjetar tal regra, e algumas se empe- (…) se ficar enganchando nas di-
nham para corresponder a ela. “Só a comu- ficuldades…, pois do mesmo jeito que
nicação, tenho que aprender alemão” (M3). os brasileiros têm seus aspectos nega-
Ela não disse que ele tem que apren- tivos, eles também têm e é um saco
der o português, ainda que ambos vivam para cada um aturar. Não vale pensar
no Brasil. Cabe a ela aprender o alemão. que você vai conseguir modificar o
outro, pois não dá. (…) Eu tento ver
Só às vezes sinto dificuldade com seu as coisas boas dele para aprender,
idioma, pois ainda não sei falar bem, como, por exemplo, disciplina, orga-

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86 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

nização, planejamento, isto é bom pra Considerações para a Clínica


mim, pois sou totalmente o oposto
nisso. Eu quero aproveitar as coisas Sabemos que todas as culturas carregam
boas dele. Tem que ter paciência, se consigo histórias, crenças e um jeito pró-
abrir para a cultura do outro, tentan- prio de se posicionar e fazer as coisas. Elas
do compreender as dificuldades e aju-
diferem acerca do que é considerado um
dar o outro que escolhemos, pelo me-
comportamento aceitável ou não, os pa-
nos no momento, para viver. Tentar
absorver a cultura do outro, não per- drões de comunicação, limites e hierarquia.
dendo a sua cultura, sua nacionalida- Pudemos constatar como isso transpareceu
de, mas no sentido de aproveitar o que nas diversas falas que apresentamos no
tem de bom no outro. (M1) decorrer deste capítulo. Por se tratar de um
Que tentem compreender as dife- tema bastante amplo e complexo, não ti-
renças culturais. Que façam valer o vemos a pretensão de esgotá-lo, mas espe-
que considerem essencial, tendo cui- ramos ter contribuído com algumas ques-
dado para não serem anulados na cul- tões que perpassam um relacionamento
tura onde estão inseridos. Ao mesmo entre pessoas de diferentes culturas.
tempo, que sejam universais no senti- Voltando-nos para a clínica, concor-
do de incorporar ou compreender o
damos com Kim (2003), no sentido de que
diferente. (M2)
trabalhar com famílias ou casais envolvi-
dos em diferentes culturas requer que o
A esse respeito, as recomendações dos
terapeuta procure conhecer e se informar
entrevistados aos casais que, como eles,
sobre o contexto em que seus clientes se
constituem relacionamentos de conjugali-
inserem. Isso é recomendável para qual-
dade interculturais condizem com as afir-
quer tipo de atendimento, porém mais ain-
mações de Menezes e Amazonas (2008,
da quando se trata de relacionamentos
p.14), quando tratam do assunto identi-
interculturais. Pode ocorrer o caso em que
dades culturais e hibridismo:
o terapeuta suponha tratar-se de um qua-
dro psicopatológico grave, quando, na ver-
Nenhuma identidade cultural pode,
dade, é uma reação aos estresses desenca-
por si só, moldar as demais, visto que
esses movimentos de cruzamento
deados pelo processo de aculturação.
entre fronteiras produzem identidades Mesmo que o terapeuta esbarre na di-
híbridas e irregulares, vindo a confun- ficuldade de se comunicar na língua dos
dir sua suposta “pureza” e “insolubili- clientes, o fato de adotar uma postura de
dade”. E, exatamente por colocarem interesse, afeto e empatia pode suplantá-
em xeque aqueles processos que ten- la. Eventualmente, pode ser benéfico ou-
dem a conceber as identidades como vir os cônjuges sozinhos para lhes conferir
fundamentalmente separadas em dois importância e, posteriormente, atendê-los
pólos opostos, os hibridismos resultam conjuntamente. No caso de serem trazidas
em um “terceiro espaço”,2 ou em vias
diferentes queixas, é recomendável come-
de fuga.
çar pelas mais práticas e urgentes para
depois enveredar pelas queixas referentes
2 A expressão “terceiro espaço” foi cunhada por ao próprio relacionamento e mesmo as in-
Bhabha (1996) e é citada por Silva (2000). Se- dividuais.
gundo este autor, o “terceiro espaço” introduz Perel (2000) acrescenta que o tera-
uma diferença que possibilita o questionamento
de ambas identidades culturais que se encon- peuta pode ajudar os parceiros a reconhe-
tram em um espaço que não é nem de uma nem cerem suas diferenças, validar as escolhas
de outra, mas um terceiro onde tudo pode ser que fizeram com base na complementari-
questionado. dade e criar uma terceira realidade, consis-

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Manual de terapia familiar | 87


tindo até na implementação de compromis- GIDDENS, A. Mundo em descontrole: o que a glo-
sos assimétricos (que não compreendem a balização está fazendo de nós. Rio de Janeiro:
Record, 2000.
divisão das responsabilidades e recompen-
sas em partes iguais), desde que ajudem a GOMES, P. B. Novas formas de conjugalidade: vi-
conectar os parceiros, especialmente nos são panorâmica da atualidade. In: P. B. GOMES
(Org.). Vínculos amorosos contemporâneos: psico-
momentos de crise ou transição. dinâmica das novas estruturas familiares. São Pau-
Hotvedt (2002), por sua vez, salienta lo: Callis, 2003. p.13-40.
que o terapeuta deve estar consciente da HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade.
importância da condição étnica e da cultu- Rio de Janeiro: DP&A, 1999.
ra na terapia do casal, como também do
HOTVEDT, M. O casamento intercultural, o en-
fato de que a própria terapia de casal é uma contro terapêutico. In: ANDOLFI, M. (Org.). A crise
instituição cultural, adotando, portanto, do casal uma perspectiva sistêmico-relacional. Por-
uma postura crítica em relação a ela. Ele to Alegre: Artmed, 2002. p.153-169.
também deve ter clareza sobre quando KIM, B.-L. C. Casamento de mulheres asiáticas com
deve trabalhar com as diferenças culturais militares americanos: o impacto do gênero e da
e quando minimizá-las. cultura. In: MCGOLDRICK, M. (Org.). Novas abor-
O terapeuta precisa ir além de seus dagens da terapia familiar: raça, cultura e gênero
na prática clínica. São Paulo: Roca, 2003. p.355-
imperativos culturais para reconhecer a ri-
366.
queza de outras culturas e a força dessas
pessoas. Por fim, é necessário que ele fi- MENEZES, T. C.; AMAZONAS, M. C. L. A. Identi-
dades femininas: engendrando espaços e papéis
que atento às questões de racismo, classis- de mulher. Encontro: Revista de Psicologia, 2008.
mo e xenofobia. Artigo submetido.
MINAYO, M. C. O desafio do conhecimento: pes-
quisa qualitativa em saúde. 8. ed. São Paulo:
REFERÊNCIAS Hucitec, 2004.
COSTA, J. F. Sem fraude nem favor: estudos sobre PEREL, E. Uma visão turística do casamento: de-
o amor romântico. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. safios, opções e implicações para a terapia de ca-
sais interculturais. In: PAPP, P. (Org.). Casais em
CROHN, J. Relacionamentos interculturais. In:
perigo: novas diretrizes para terapeutas. Porto Ale-
MCGOLDRICK, M. (Org.). Novas abordagens da
gre: Artmed, 2000. p.192-216.
terapia familiar: raça, cultura e gênero na prática
clínica. São Paulo: Roca, 2003. p.339-354. WOODWARD, K. Identidade e diferença: uma in-
trodução teórica e conceitual. In: SILVA, T. T
FÉRES-CARNEIRO, T. Casamento contemporâneo:
(Org.). Identidade e diferença: a perspectiva de
o difícil convívio da individualidade com a
estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2000. p.7-72.
conjugalidade. Psicologia: Reflexão e Crítica, Por-
to Alegre, v. 11, n.2, p. 1-13, 1998.

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p a r t e II
Marcos referenciais teórico-práticos
das terapias familiares

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6
A terapia familiar no Brasil
Helena Centeno Hintz
Marli Olina de Souza

A terapia de família teve início na metade PIONEIROS DA TERAPIA FAMILIAR


do século passado. Foi algo que encantou
muitos estudiosos, profissionais ávidos por Os primeiros fundamentos da terapia fa-
formas mais abrangentes de entender o in- miliar encontram-se no atendimento do Pe-
divíduo e poder ajudá-lo em seu contexto queno Hans realizado por Freud em 1909.
relacional mais próximo: a família. Inicial- O processo terapêutico ocorreu através do
mente, o foco de estudo de maior expres- pai do menino, criando mudanças signifi-
são foi nos Estados Unidos e em alguns cativas na dinâmica da família. A partir daí,
países da Europa. Logo após, expandiu-se encontram-se muitos estudos apontando a
para vários outros países. necessidade de haver algum tipo de inter-
Ao iniciarmos um estudo sobre o mo- venção na família como forma de apoiar a
vimento da terapia familiar no Brasil, não psicoterapia realizada com as crianças. Ini-
poderíamos deixar de mencionar a forma cialmente a intervenção era realizada com
como ela surgiu. Muito já foi escrito sobre a mãe por estar mais próxima da criança e
a história da terapia familiar, incluindo di- por ser a responsável pelos cuidados in-
ferentes personalidades pioneiras, ideias, fantis. A seguir, o pai e os demais mem-
movimentos ou ações. Certamente o per- bros da família adquiriram a devida impor-
curso da história é amplo, tornando-se di- tância não só com o atendimento infantil,
fícil seu relato sem haver alguma lacuna mas também com qualquer membro da
em sua descrição no tempo. Neste capítu- família que necessitasse de ajuda.
lo, serão nomeados alguns pioneiros que Uma contribuição fundamental para
contribuíram de forma relevante para o de- a terapia de família é o atendimento fami-
senvolvimento da terapia familiar, introdu- liar dos assistentes sociais, os quais desde
zindo estudos significativos para o atendi- o início do século XX tinham como foco de
mento de famílias, desenvolvendo concei- seu trabalho o grupo familiar. Ao atender
tos, pesquisas e técnicas que enriqueceram a pessoa em seu próprio ambiente, os assis-
o tratamento realizado com a família e que tentes sociais, antecedendo a teoria sistê-
de alguma forma influenciaram o pensa- mica, introduziram a perspectiva ecológi-
mento e a prática dos terapeutas no Brasil. ca na terapia familiar (Nichols e Schwartz,
Antes de descrevermos o movimento da 2007). Foi fundamental o trabalho de Mary
terapia entre nós, apontaremos alguns des- Richmond, assistente social, que, em 1917,
ses profissionais, situando de forma sucin- com seu texto Social Diagnoses indicou tra-
ta suas contribuições. tamento para todo o grupo familiar, ino-

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92 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

vando o olhar terapêutico para a família. para estudar comunicação humana. Convi-
Somente bem mais tarde é que a psiquia- dou inicialmente Jay Haley, John Weakland
tria agregou a família nos seus atendimen- e William Fry para trabalharem juntos nes-
tos (Beels, 2002). se projeto. Em 1954, o grupo iniciou o
Um fator relevante para a terapia fa- Project for the Study of Schizophrenia. Don
miliar foi o surgimento do aconselhamento Jackson passa a fazer parte desse grupo
conjugal nos anos 1930 e, consequente- como consultor e supervisor de psicoterapia
mente, da Associação Americana de Con- com esquizofrênicos. Esse estudo tornou-
selheiros Matrimoniais, fundada em 1942. se um dos pilares da teoria sistêmica fami-
Na Inglaterra, ocorreu também um movi- liar. Bateson e seus colaboradores introdu-
mento do qual surgiu o Conselho Nacional ziram o conceito de duplovínculo no conhe-
de Orientação Matrimonial, difundindo-se cido estudo “Toward a Theory of Schizo-
em vários centros de terapia, por várias ci- phrenia”. O duplo vínculo, inicialmente, era
dades do país (Souza, 1997, p. 36). relacionado com as vivências precoces de
Um dos primeiros pioneiros foi Nathan relacionamento do esquizofrênico, mas o
Ackerman, psiquiatra e psicanalista infan- Grupo de Palo Alto chegou ao conhecimen-
til, que, no final da década de 1930, passou to de que é um relacionamento que se apli-
a observar as famílias junto com o paciente ca também às circunstâncias atuais na vida
em sua clínica, em Nova York. Ele afirma- do esquizofrênico, pelo tipo de inter-rela-
va que as famílias deveriam ser vistas como ção que se passa em sua família.
uma “unidade social e emocional”. Descre- Em 1959, Don Jackson fundou o Men-
via o atendimento da família como uma tal Research Institute (MRI), em Palo Alto,
“modalidade de tratamento própria, e não tornando-se seu diretor, no momento em
apenas como uma técnica para tratar de que o movimento da terapia familiar co-
um indivíduo” (Ackerman, 1958, p. 11). meça a ganhar um espaço importante no
A terapia de família passou a se de- campo das terapias, despertando o interes-
senvolver como tal após a Segunda Guer- se de outros profissionais, como Jules
ra Mundial. Mesmo que alguns psiquiatras Riskin, Virginia Satir, Jay Haley, John
reconhecessem a importância da família Weakland, Paul Watzlawick e Janet Beavin.
para seus pacientes, ainda assim, a família Naquele mesmo ano, Virginia Satir muda-
seguidamente era vista como inadequada se para a Califórnia e inicia seu trabalho
para seus pacientes. Ackerman foi um dos no MRI. Ela foi um marco dentro da tera-
primeiros a apontar a importância da fa- pia familiar, trazendo muitas contribuições
mília no processo terapêutico, escrevendo e técnicas enriquecedoras. Em meados de
o livro The psychodynamics of family life, 1960, Virginia Satir deixa o MRI e torna-se
em 1958. O outro foi Christian Midelfort diretora de uma importante unidade para
que, em 1957, publicou o livro The family atendimento familiar nos Estados Unidos.
in psychotherapy (Barker, 1992). Em 1962, Jay Haley vincula-se ao MRI.
Na década de 1950, vários grupos es- Haley e Weakland levaram para o MRI as
tudaram, pesquisaram e trataram esquizo- ideias cibernéticas de Bateson e as ideias
frênicos e suas famílias. Grande parte dos de Milton Erickson, com quem haviam es-
fundamentos da terapia familiar partiu do tudado anteriormente em Phoenix. Esses
interesse que os profissionais mostraram profissionais formaram um grupo bastan-
pelo atendimento de seus pacientes esqui- te criativo e interessado em terapia fami-
zofrênicos nas relações e comunicações liar, comunicação e esquizofrenia. Naque-
trocadas com suas respectivas famílias. la época, o Mental Research Institute re-
Em 1952, Gregory Bateson, em Palo presentava o centro do movimento da te-
Alto, Califórnia, obteve auxílio financeiro rapia familiar. Este grupo, MRI, iniciou um

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Manual de terapia familiar | 93


dos primeiros programas de treinamento to com alguém, mascarando conflitos e im-
oficial em terapia familiar, desenvolvendo pedindo a intimidade – talvez por expe-
algumas das primeiras pesquisas em inte- riências anteriores dolorosas de ansiedade
ração familiar. de separação. Essas famílias não possuem
Entre seus membros, esteve os seguin- relacionamentos mais profundos e impe-
tes autores: Virginia Satir (terapia familiar dem a independência entre seus membros.
conjunta); Watzlawick, Beavin e Jackson Com a pseudo-hostilidade, o relacionamen-
(pragmática da comunicação humana); Jay to emocional aparente, no caso de hostili-
Haley (estratégias em psicoterapia); Carlos dade, é um substituto para um relaciona-
Sluzki (editor da “Family Process”, nos anos mento íntimo e verdadeiro, o qual está
80); James Coyne (usou o modelo para tra- ausente. A comunicação e a percepção real
tar a depressão); Steve de Shazer (criou a ficam prejudicadas. Wynne introduziu tam-
abordagem sobre a focalização da solução). bém a ideia da “cerca de borracha”. É um
Em 1967, o Centro de Terapia Breve limite psicológico para o movimento fami-
do MRI inicia suas atividades sob a direção liar, mantendo os indivíduos de uma família
de Richard Fish. Junto a ele, estavam P. confinados dentro de um sistema (Barker,
Watzlawick, J. Weakland e Arthur Bodin. 1992; Nichols e Schwartz, 2007).
O objetivo de tal Centro era desenvolver Em 1946, Murray Bowen começou
tratamentos breves para doenças psiquiá- seu trabalho clínico na Menninger Clinic
tricas. A terapia breve é focalizada sobre estudando as mães e seus filhos esquizo-
os sintomas que a família traz e limita-se a frênicos. Na época, desenvolveu o concei-
10 sessões (é conhecida como o modelo to de diferenciação do self. Em 1954, Bowen
MRI). Paul Watzlawick, eminente pesqui- ingressou no National Institute of Mental
sador, interessou-se pela comunicação hu- Health (NIMH), onde desenvolveu o con-
mana e psicoterapia interacional. Ele e seus ceito de simbiose mãe-criança, incluindo a
colaboradores escreveram o livro Pragmá- figura paterna. Isso o levou ao conceito de
tica da comunicação humana, importante triângulos – envolver uma terceira pessoa
obra em que estão descritos resultados das com a finalidade de desviar um conflito
pesquisas realizadas por Bateson e sua entre dois membros de uma família. Ele
equipe. trabalhou sobre o conceito de esquizofrenia
Theodore Lidz, em 1941, iniciou es- como um processo que requer três gera-
tudos sobre as famílias de pacientes esqui- ções para ser desenvolvida. Em 1955, de-
zofrênicos em Johns Hopkins Hospital, vido à sua forma de atender as famílias,
Baltimore. Ele introduziu os conceitos de “tornou-se o primeiro a inventar a terapia
cisma conjugal, divisão da família em dois familiar” (Nichols e Schwartz, 2007, p. 48).
grupos antagônicos e desvio conjugal, em Carl Whitaker iniciou a experiência
que um dos parceiros domina a família de com o tratamento de grupos familiares,
forma dramática como consequência de com um interesse especial por esquizofrê-
uma patologia séria em um dos cônjuges nicos e suas famílias, antes de assumir o
(Barker, 1992; Nichols e Schwartz, 2007). Departamento de Psiquiatria de Emory
Lyman Wynne iniciou seus estudos University, Atlanta, em 1946. Ele foi pio-
sobre famílias de esquizofrênicos logo após neiro em introduzir o uso da co-terapia,
juntar-se à equipe do National Institute of acreditando no apoio que um terapeuta
Mental Health (NIMH) em 1952. Ele in- poderia dar ao outro, deixando-os agirem
troduziu os conceitos de pseudomutuali- espontaneamente sem receio de uma con-
dade e pseudo-hostilidade. A pseudomu- tra-transferência que pudesse não ser per-
tualidade acontece quando um indivíduo cebida (Nichols e Schwartz, 2007). Em
sente a necessidade de um relacionamen- 1955, iniciou a prática privada, e ele e seus

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94 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

colaboradores desenvolveram na Atlanta Bateson e Jackson e as ideias estratégicas


Psychiatric Clinic uma forma de psicotera- de Jay Haley.
pia “experiencial”, com técnicas provoca- Em 1976, Jay Haley mudou-se para
tivas no tratamento de indivíduos, casais, Washington, DC, indo trabalhar na Facul-
famílias e grupos. Em seu trabalho, dade de Medicina da University of Mary-
Whitaker deu grande importância à espon- land, além de fundar o Family Therapy
taneidade criativa, mas não à teoria, sen- Institute de Washington, DC, junto com Cloé
do a sua forma de trabalhar denominada Madanes, sua esposa.
terapia do absurdo. Na década de 1970, desenvolvimen-
Ivan Boszormenyi-Nagy, psicanalista tos importantes aconteceram na Europa.
que se tornou terapeuta familiar, fundou a Em Roma, Maurizio Andolfi inicia seu tra-
Eastern Pennsylvania Psychiatri Institute, balho com famílias, e, em 1974, é criada a
Philadelphia, em 1957. Junto com seus Sociedade Italiana de Terapia Familiar.
colegas, J. Framo, D. Rubenstein, G. Spark Andolfi em sua primeira fase seguiu o mo-
e G. Zuk, desenvolveu uma abordagem de delo estrutural de Minuchin e Haley; após
terapia familiar dando especial atenção a sua atenção voltou-se para o enfoque
seu aspecto multi-geracional. Ele propôs o humanístico existencial de C. Whitacker. A
conceito de lealdades invisíveis, sendo co- Academia de Psicoterapia da Família sur-
autor do livro que recebeu esse título. Ele giu em 1992. Andolfi ali aplica a aborda-
foi um dos inúmeros terapeutas que não gem da terapia de família intergeracional.
limitou seu trabalho à família nuclear ou Ele segue o enfoque que a pessoa do tera-
às suas transações atuais. Vínculos multige- peuta é mais importante do que toda a
racionais e o sistema da família ampla co- instrumentação teórico-técnica do profis-
meçaram a ser cada vez mais considerados. sional. É o encontro entre dois sistemas que
Salvador Minuchin, em torno de pensam e se emocionam envolvidos em um
1965, começa a integrar o movimento de trabalho de investigação comum.
terapia familiar. Ele pesquisou famílias de O MRI e o modelo estratégico de
classe social baixa com filhos delinquen- Haley influenciaram os Associados de Mi-
tes, além de trabalhar com elas. O objetivo lão: Mara Selvini Palazzoli, Gianfranco
era o de transformar uma clínica para me- Cecchin, Luigi Boscolo e Giuliana Prata.
ninos de tipo tradicional em um centro de Palazzoli foi uma proeminente psicanalis-
treinamento orientado para a família. S. ta italiana, que estava frustrada com o tra-
Minuchin assume a direção do Philadelphia balho de orientação individual sobre os
Child Guidance Clinic, que, sob sua dire- transtornos alimentares. Ela trabalhou du-
ção, se torna um dos mais famosos centros rante muitos anos com crianças anoréxicas.
de terapia familiar do mundo. Convida para Palazzoli se interessou em estudar os
integrar sua equipe de trabalho a Braulio escritos da equipe de Palo Alto e começou
Montalvo e Bernice Rosman. a desenvolver sua própria abordagem à fa-
Minuchin foi o responsável pelo de- mília.
senvolvimento da escola estrutural de fa- Em 1967, liderou o trabalho de oito
mília. O terapeuta estrutural interessa-se psiquiatras, que originalmente tentaram
em como a família está organizada em aplicar ideias psicanalíticas para trabalha-
subsistemas, nas fronteiras entre estas par- rem com famílias. Mais tarde, aplicaram
tes e nas fronteiras entre a família e a co- as ideias de Bateson, Haley e Watzlawick,
munidade. e, em 1971 – Palazzoli, Boscolo, Cecchin e
Em 1967, Jay Haley deixa Palo Alto e Prata – fundaram o Centro para Estudos
passa a integrar a equipe de S. Minuchin. da Família de Milão, desenvolvendo o Gru-
Minuchin utilizou conceitos sistêmicos de po de Milão.

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Manual de terapia familiar | 95


Em 1980, dividiram-se em Boscolo e mentos circulares; Olga Silverstein – co-
Cecchin, mudando na direção do treina- nhecida pela maestria clínica.
mento, e Palazzoli e Prata, mais interessa- Nas décadas de 1980 e 1990, Harlene
das em pesquisa. Abriram novos centros, Anderson e Harry Goolishian, apoiando-se
com outras equipes, e suas abordagens no construtivismo, introduziram na tera-
também divergiram. pia familiar a ideia de objetividade, isto é,
Os homens tornaram-se muito menos a ideia de que o que percebemos na famí-
estratégicos e mais interessados em mudar o lia é o que a família apresenta. O significa-
sistema de crenças familiares, através de um do em si passou a ser o principal objetivo.
processo de questionamento circular, e as mu- Eles, juntamente com Lynn Hoffman e ou-
lheres seguirem seus interesses em entender tros colaboradores, buscaram para o te-
e interromper os jogos destrutivos que elas rapeuta uma posição de parceria igualitá-
acreditavam destruir severamente as famíli- ria com seus clientes. Tom Andersen, psi-
as que eram capturadas por esses jogos. quiatra norueguês, contribuiu muito ao in-
O Grupo de Milão, por suas caracte- troduzir em seus atendimentos a equipe re-
rísticas próprias, foi considerado como uma flexiva, através da qual ele não escondia
Escola, com uma abordagem distinta das nada de seus clientes, mantendo uma rela-
demais. Na Europa, identificaram-na como ção de igualdade com eles.
terapia sistêmica. Atualmente é designada Kenneth Gergen, enfatizando o poder
como sendo a Escola de Milão, uma vez que da interação social, foi o principal propo-
a terapia estratégica de J. Haley, a terapia nente do construcionismo social. Ele argu-
comunicacional de Virginia Satir, a terapia mentou que “nossas crenças são fluidas e
estrutural de Salvador Minuchin, a terapia flutuam de acordo com mudanças em nos-
estratégica breve do Grupo do MRI, todas so contexto social” (Nichols e Schwartz,
são fundamentadas na teoria sistêmica. 2007, p. 287). Essa visão traz a ideia de
Somando-se a este primeiro desenvol- que todas as verdades são construções so-
vimento dos modelos estratégicos e de ciais e que a terapia é um exercício linguís-
Milão, há outras pessoas que contribuíram tico, devendo ser de colaborativa.
também com os estudos sobre terapia fa- O construcionismo social tornou-se a
miliar. Lynn Hoffman evoluiu como tera- base para a nova abordagem dos anos
peuta paralela desta ramificação sistêmica- 1990, a terapia narrativa. Michael White
estratégica da terapia familiar. foi seu fundador. É australiano, de Ade-
Em 1960, colaborou com Haley e, em laide, e trabalha no Dulwich Centre. White
1977, juntou-se ao Ackerman Institute, em desenvolveu novas ideias
Nova York, que iniciou com o modelo es-
tratégico e, mais tarde, com o modelo de sobre como os problemas afligem os
indivíduos (considerando-os como
Milão. Depois deixou o Ackerman Institute
algo que opera sobre as pessoas, e não
e foi para Amherst, em Massachussets, tro- como algo que elas fazem). (Nichols
cando o modelo de Milão pela terapia de e Schwartz, 2007, p. 336)
segunda ordem, baseada no construcio-
nismo social e nos princípios da narrativa. Outro terapeuta familiar influente foi
O Ackerman Institute tem sido um David Epston, que, entre as várias contri-
incubador dos modelos estratégicos e de buições realizadas, enfatizava que os clien-
Milão: Peggy Papp – força criativa na esco- tes, para manter suas novas narrativas, pre-
la estratégica; Joel Bergman – desenvol- cisavam de comunidades apoiadoras.
veu estratégias para manejar com famílias Entre os brasileiros, é reconhecida a
difíceis; Peggy Penn – elaborou as inova- contribuição de Humberto Maturana, Prê-
ções sobre o Modelo de Milão de questiona- mio Nacional de Ciências Biológicas em

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96 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

1994. Representante da Escola Chilena do Na década de 1970, houve um impor-


pensamento pós-racionalista, seus aportes tante movimento que veio proporcionar o
são, entre outros, o repúdio ao racionalis- interesse pela terapia de casal e de família
mo da “verdade objetiva única”, o papel em nosso meio. Segundo Souza (1997), o
da auto-organização de toda adaptação e cuidado com o grupo familiar e o entendi-
do conhecimento e o envolvimento do co- mento de que a patologia individual pode-
nhecimento do ser integral que desafia a ria estar vinculada a causas diferentes da
dualidade cartesiana, na qual a mente e o origem intrapsíquica levaram à criação de
corpo são observados separadamente. centros de orientação, os quais seguiram o
modelo das Child Guidance, da América do
Norte. A autora relata que a fundação do
O MOVIMENTO DA Centro de Orientação Juvenil – COJ – per-
TERAPIA NO BRASIL tencente, em 1946, ao Departamento Na-
cional da Criança do Ministério da Saúde,
No Brasil a trajetória não foi diferente. Vá- foi uma experiência pioneira. Inicialmente
rios estudos já foram realizados para identi- fazia parte da equipe uma assistente social
ficar como, quando e onde surgiu a terapia
psiquiátrica, responsável pelo trabalho com
familiar. Nosso país é imenso, e muitas são
a família do paciente de psicoterapia indi-
as versões sobre esse questionamento. Cer-
vidual. A equipe era chefiada por uma psi-
tamente todas são verdadeiras se mantiver-
cóloga, fazendo parte da equipe uma psi-
mos apenas um olhar para determinadas
canalista. Assim, há seis décadas, já existia
regiões, talvez as mais conhecidas e/ou
a preocupação de incluir o grupo familiar
centrais. As pesquisas mostram haver uma
no processo de mudança e desenvolver
grande diversidade na formação dos tera-
abordagens diferentes que fossem adequa-
peutas de família. Nos diversos encontros
e congressos sobre terapia familiar, perce- das à nossa cultura.
be-se, através dos trabalhos apresentados No final dessa década, surgem artigos
e das discussões estabelecidas, a ampla ga- referindo-se à terapia familiar como outra
ma de teorias e práticas que fundamentam abordagem a ser considerada nos tratamen-
a formação dos terapeutas. Entretanto, é a tos efetuados. Alguns psicanalistas contri-
abordagem sistêmica que assume um espa- buíram inicialmente com essa prática. Os
ço importante na formação dos terapeutas anos 80 aparecem como um momento de
de família. Ela começa a se tornar mais vi- grande expansão da terapia familiar como
sível quando os profissionais percebem não método terapêutico, possuidora de teoria e
ser viável tratar as ciências por partes iso- prática própria. O que era experiência iso-
ladas. Por conseguinte, a prática clínica lada em boa parte do Brasil passa a ter mais
retoma com maior vigor um olhar mais vozes e práxis para tornar-se acessível a um
abrangente, tratando do organismo como número maior de profissionais e famílias.
um sistema, e não como causa e efeito. Na década de 1970, a terapia de ca-
Ideias semelhantes começaram a sur- sal e família recebeu a influência de vários
gir em vários Estados brasileiros, mostran- grupos religiosos, sob a égide da Pastoral
do que esse era o início de uma nova ten- da Igreja Católica, através dos Encontros
dência, necessitando de um certo tempo de Noivos e Encontros de Casais em Cristo.
para ser aceita, mas importante de ser co- Em 1977, instituiu-se no Brasil a lei do di-
nhecida e aperfeiçoada. Como aconteceu vórcio, contribuindo para o incremento
nos países onde nossos profissionais estu- desses grupos de casais como uma forma
daram, foram sendo fundados centros ou de prevenir a dissolução dos casais e famí-
instituições que se ocuparam com a famí- lias. Aos poucos, a família brasileira come-
lia, e não somente com o indivíduo. çou a procurar atendimento para alcançar

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Manual de terapia familiar | 97


uma melhor qualidade em suas relações mento e Pesquisa do Sistema Familiar –
intrafamiliares. orientação sistêmica e psicodinâmica;
Este movimento da Igreja Católica es-  1979, Porto Alegre – CEAPIA – Centro
tendeu-se pelos vários Estados do país, ser- de Estudos, Atendimento e Pesquisa da
vindo de estímulo para a abertura de cen- Infância e da Adolescência;
tros e instituições onde profissionais tera-  1980, Salvador – COFAM – Centro de
peutas e pesquisadores dedicaram-se a am- Orientação Familiar – inicialmente ori-
pliar o conhecimento da terapia de família, entação psicodinâmica e psicodramá-
além de formar terapeutas de família, aten- tica, incluindo, gradualmente, a abor-
dendo famílias com dificuldades de relacio- dagem sistêmica;
namento. Cidades como Rio de Janeiro,  1982, Fortaleza – CEF – Centro de Es-
São Paulo, Salvador, Fortaleza, Belo Ho- tudos da Família de Fortaleza – orien-
rizonte, Curitiba e Porto Alegre foram tes- tação de etnopsiquiatria e de aborda-
temunhas da formação desses centros de gem sistêmica;
atendimentos, alguns já na década de  1984, Belo Horizonte – INFA – Institu-
1970, outros no início dos anos de 1980. A to da Família de Belo Horizonte – entre
maioria desses centros usava a abordagem vários outros serviços, incluía a terapia
sistêmica. familiar sistêmica;
 1985, Salvador – CEFAC – Centro de
Estudos da Família e Casal – incluía
OS PRIMEIROS ENCONTROS abordagem sistêmica e psicanalítica;
DE TERAPIA FAMILIAR  1986, São Paulo – SEFAM – Sociedade
de Estudos da Família – abordagem
Seguindo-se a cronologia do desenvolvi- sistêmica, com influência especial das
mento da terapia familiar brasileira, per- escolas italianas;
cebe-se um movimento crescente e envol-  1987, Rio de Janeiro – ITF-RJ – Institu-
vente dos profissionais agregando-se em to de Terapia de Família do Rio de Ja-
grupos afins e/ou buscando a integração neiro – abordagem sistêmica (p. 50).
em espaços maiores, onde a sedimentação
e a estrutura da terapia poderiam tornar- A partir desses grupos, muitos outros
se mais sólidas ou definidas. foram se formando pelas diversas cidades
A década de 1980 foi muito significa- do país, incluindo alguns cursos de terapia
tiva para a terapia familiar no Brasil. Sur- de família em universidades.
giu a necessidade de os terapeutas forma-
lizarem um espaço de discussão de ideias  PUCSP – dois cursos de especialização;
e inquietações oriundas de uma prática im-  Universidade Federal de São Paulo/Es-
portante, mas ainda muito precoce no es- cola Paulista de Medicina, Departamen-
tabelecimento de seus fundamentos entre to de Psiquiatria – PROTEF – criação
nós. Segundo Aun (2005), os primeiros do Curso de Terapia de Família em
grupos formados foram: 1998.
 Universidade Federal do Rio de Janei-
 1976, São Paulo – CECAF – Centro de ro – dois programas de especialização,
Estudos do Casal e da Família – orien- um na linha sistêmica e outro na linha
tação psicanalítica; psicanalítica (Aun, 2005, p. 51).
 1976, Curitiba – Núcleo de Psicologia  PUCRS – oferece, em 1978, terapia de
Clínica – terapia familiar sistêmica; família como opção dentro da cadeira
 1978, Brasília – CEFAM – Centro Brasi- de Técnicas Psicoterápicas na gradua-
leiro de Estudos da Família – Atendi- ção da psicologia e, em 1988, o Curso

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de Terapia de Família como Curso de dade nacional, agregando semelhanças e


Extensão Universitária, de orientação diferenças socioculturais das diversas re-
sistêmica. giões brasileiras.
Durante o ano de 1993, os organiza-
Nessa época, iniciaram-se os Encon- dores desse Encontro sob a coordenação
tros de Terapia Familiar. Durante a década de Maria Rita D’Angelo Seixas, devido ao
de 1980, foram realizados em São Paulo grande interesse demonstrado pelos tera-
três Encontros pela Psicologia Clínica da peutas de família de todo o país, resolve-
PUCSP, sob a coordenação de Mathilde ram transformar o IV Encontro no I Con-
Neder e Cléa Palatnik Pilnik. O primeiro gresso Brasileiro de Terapia Familiar. Este
foi em 1982, I Encontro Nacional de Tera- veio a se realizar em julho de 1994, em
pia Familiar, considerado o marco do mo- São Paulo, organizado pela Associação
vimento da terapia familiar entre nós. Logo Paulista de Terapia Familiar – APTF, fun-
em 1984, realizou-se o II Encontro e, em dada em 02 de julho de 1993 em virtude
1986, realizou-se o III Encontro. Neste fi- da necessidade gerada pelo próprio Con-
cou estabelecido que, em 1988, realizar- gresso, sob a presidência de Maria Rita
se-ia, em Salvador, o I Encontro Brasileiro D’Angelo Seixas. O tema do I Congresso
de Terapia Familiar, com a coordenação de foi “Família: Lugar seguro para crescer?”.
Margarida Rêgo. Esse Encontro foi reali- Em 31 de julho de 1994, em uma As-
zado pelos grupos de Salvador, Fortaleza, sembleia realizada no pós-Congresso, os
São Paulo, Brasília, Curitiba, Porto Alegre, sócios fundadores aclamaram a fundação
Belo Horizonte e Rio de Janeiro, e foram da Associação Brasileira de Terapia Fami-
realizadas atividades práticas com atendi- liar – ABRATEF. Nessa ocasião, ficou deci-
mento de famílias ao vivo. dido que os Estados organizariam suas as-
Em fevereiro de 1986, foi realizado sociações regionais. Estas seriam a sede da
um Encontro de Terapia Familiar em Floria- ABRATEF, a qual teria um caráter itine-
nópolis, organizado por Luiz Carlos Osório rante, localizando-se na regional que pro-
e Olga Falceto, com a colaboração de Fran- moveria o congresso brasileiro.
cisco Baptista Neto. Os participantes do A AGATEF, fundada em 01 de outubro
encontro puderam assistir a Andolfi aten- de 1994, foi a primeira sede da ABRATEF,
dendo famílias ao vivo. Nesse Encontro sendo seu primeiro presidente José Ovídeo
participaram terapeutas de P. Alegre, Rio Waldemar. Essa associação realizou o II
de Janeiro, S. Paulo e Florianópolis. Congresso Brasileiro de Terapia Familiar de
O II Encontro Brasileiro de Terapia Fa- 01 a 03 de agosto de 1996, em Gramado,
miliar realizou-se em Belo Horizonte em RS. Nesse Congresso não houve um tema
1990. Neste foram priorizadas as ativida- definido.
des teóricas. Em 1992, em Brasília, foi re- Em 15 de março de 1995 é fundada
alizado o III Encontro Brasileiro de Tera- no Rio de Janeiro a Associação de Terapia
pia Familiar, coordenado por Júlia Bucher, de Família – ATF-RIO.
no qual estiveram presentes instituições O III Congresso Brasileiro de Terapia
formadoras de São Paulo, Porto Alegre, Familiar foi realizado no Rio de Janeiro em
Curitiba, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, julho de 1998. Nesse Congresso, aconteceu
Brasília, Paraíba e Fortaleza. Nessa ocasião, o I Encontro Latino-Americano, sendo am-
ficou acertado que São Paulo seria a sede bos promovidos pela ABRATEF e ATF-RJ. O
do IV Encontro Brasileiro de Terapia Fami- tema do III Congresso foi “O indivíduo, a fa-
liar, ficando decidido que seria fundada a mília e as redes sociais na virada do século”.
Associação Brasileira de Terapia Familiar, A preocupação com a qualificação cien-
proporcionando a criação de uma identi- tífica dos profissionais foi continuamente

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Manual de terapia familiar | 99


crescendo. A demanda destes em busca de central foi “Programa mínimo e qualifica-
formação levou os pioneiros brasileiros a ção mínima do terapeuta de família”,
se organizarem em grupos para oferecer priorizando a epistemologia e a metodo-
um espaço onde pudessem trocar conheci- logia como aspectos articuladores, dando
mentos, dirimir dúvidas e propor uma for- assim coerência e consistência entre a teo-
ma mais organizada de estudar as teorias ria e a prática. O resultado foi a proposta
básicas para tornar-se um terapeuta fami- de haver uma articulação em torno de três
liar. Com essa premissa iniciou-se a orga- eixos: fundamentação articulada com a
nização de Encontros de Formadores Bra- prática; identidade profissional e ética;
sileiros, tendo como prioridade estudar, dis- compromisso com produção de conheci-
cutir e estabelecer critérios mínimos para mento e pesquisa. Foram definidos critérios
o perfil do formador e favorecer a forma- para instituições que desejavam ou que já
ção continuada e o intercâmbio desses for- vinham oferecendo cursos de terapia fa-
madores para uma maior integração, for- miliar, carga horária, tempo de duração,
talecendo o ensino da terapia familiar e o qualificação mínima para ser um terapeuta
atendimento das famílias. familiar e para ser um formador.
Os Encontros de Formadores come- Nesse mesmo ano, em julho, foram
çaram junto com a realização dos Congres- realizados o IV Congresso Brasileiro de Te-
sos Brasileiros, sendo que o I Encontro foi rapia Familiar e II Encontro Latino-Ameri-
no Rio de Janeiro como Pré-Congresso do cano de Terapia Familiar em Brasília. Foi
III Congresso Brasileiro em 1998. Inicial- uma promoção da ABRATEF, junto com a
mente, os Encontros de Formadores acon- Associação Centro-Oeste de Terapia Fami-
teceram anualmente, passando posterior- liar – ACOTEF. O tema foi “A família em
mente a serem realizados a cada dois anos, tempos de transição: justiça social, ética e
intercalando com a realização dos Congres- cidadania”. Pela escolha do tema, percebe-
sos Brasileiros. Desde o I Encontro de For- se uma ênfase nos trabalhos sobre respon-
madores sempre esteve presente a ques- sabilidade social do profissional, uma apro-
tão sobre qual profissional poderia vir a ser ximação com as políticas públicas, amplian-
terapeuta de família. Essa questão sempre do a possibilidade do trabalho do terapeuta
é muito discutida, mas, pela escolha do sis- familiar para um aspecto mais social.
tema de redes que privilegia a não-hierar- Em maio de 2001, a ABRATEF, junta-
quia, não há, até agora, uma definição mente com a Associação Catarinense de Te-
clara. rapia Familiar – ACATEF, criada em 12 de
Em julho de 1999, realizou-se em Sal- dezembro de 1998, promoveram, em
vador, BA, o II Encontro de Formadores pro- Florianópolis, SC, o IV Encontro de For-
movido ABRATEF e pela Associação Regi- madores. Nesse Encontro, o tema conti-
onal de Terapia Familiar – ARTEF-BA. Os nuou sendo a preocupação em relação à
eixos temáticos desse Encontro foram “Cri- teoria e ao currículo do curso de forma-
térios Mínimos dos Cursos de Formação de ção, objetivando discutir a pertinência da
Terapia de Família”, “Critérios para o For- definição de um currículo mínimo igual
mador”, “Quem Pode Ser Terapeuta de Fa- para todas as formações em detrimento da
mília?” e questões para que fosse definido teoria básica de formação acadêmica de
um Código de Ética para a terapia familiar. cada indivíduo. Outro foco de interesse de
O III Encontro de Formadores acon- discussão foi a formação e a prática dos
teceu em junho de 2000, em Curitiba, PR, formadores e supervisores e o trabalho de
promovido pela ABRATEF e pela Associa- self dos alunos.
ção Paranaense de Terapia Familiar – APrTF, Em 2001, de 14 a 17 de novembro,
fundada em dezembro de 1994. O tema Porto Alegre, RS, tornou-se o centro inter-

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100 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

nacional da terapia familiar. A AGATEF, beu-se um movimento de integração dos


juntamente com a International Family profissionais e apresentações de trabalhos
Therapy Association – IFTA, foi sede do XIII junto à população menos favorecida so-
Congresso Internacional de Terapia Fami- cialmente. Observa-se cada vez mais o te-
liar. O tema central foi “Desafios à família rapeuta de família direcionando-se para
no século XXI: teoria, prevenção e terapia”. um trabalho de âmbito social, não se res-
Integrou profissionais de vários países, com tringindo apenas em atender a família em
experiências diversas e ricas, abrindo a pos- seu núcleo mais restrito. Junto a esse even-
sibilidade de se conhecer diferentes formas to, realizou-se o I Encontro de Pesquisado-
de lidar com as famílias, tornando eviden- res, com a finalidade de ser criado um es-
te também a criatividade, a maturidade e paço para que os profissionais pudessem
o conhecimento que o profissional brasi- conversar sobre pesquisa fora do âmbito
leiro já adquiriu no transcorrer dos anos. acadêmico e apresentar pesquisas realiza-
Em abril de 2002, em Angra dos Reis, das em instituições privadas.
RJ, transcorreu o V Encontro de Formado- Em abril de 2005, realizou-se o VII
res, com a proposta de “Vale a pena ver de Encontro de Formadores promovido pela
novo”. O objetivo foi “o que” de nossa ex- ABRATEF e pela AGATEF, em Gramado, RS.
periência passada poderíamos trazer para O tema escolhido foi “Desafios atuais na
discutir no Encontro. O foco principal fi- formação e prática do terapeuta familiar”.
cou sobre “Supervisão e a coerência de cri- Foram discutidas as intervenções clínicas
térios”. nos diversos contextos terapêuticos, o
Em agosto de 2002, Salvador, BA, foi terapeuta de família em sua formação teó-
a sede do V Congresso Brasileiro de Tera- rica e a supervisão na terapia de família.
pia Familiar e III Encontro Latino-Ameri- Em julho de 2006, ocorreu o VII Con-
cano de Terapia Familiar, promovidos pela gresso Brasileiro de Terapia Familiar, em
ABRATEF e ARTEF-BA. O tema foi “Famí- São Paulo, promovido pela ABRATEF e pela
lia com afeto”. As apresentações e a orga- APTF. O tema central foi “Tecendo redes e
nização do Congresso voltaram-se para a construindo pontes entre teorias, práticas
família que busca atendimento, perceben- e contextos”. A escolha do tema aponta
do o terapeuta como possuidor de um pa- para a busca dos fundamentos teóricos que
pel na evolução da terapia, necessitando estão sendo utilizados atualmente na tera-
ser valorizado por isso (Prati et al., subm.) pia familiar. Traz a ideia de amplitude de
O VI Encontro de Formadores acon- conhecimentos, mas todos estando interli-
teceu em maio de 2003, em Alpha-Ville, gados, funcionando como uma rede, flexí-
Nova Lima, MG. Foi promovido pela vel, mas que não deixa se perder, pois ser-
ABRATEF e pela Associação Mineira de ve como apoio norteando o caminho a ser
Terapia Familiar – AMITEF, associação re- trilhado. Devido ao interesse demonstra-
gional fundada em 19 de setembro de do, deu-se continuidade à realização dos
1994. Nesse Encontro, todo o foco do tra- Encontros de Pesquisadores e nessa oca-
balho foi “Cuidando do cuidador”, ou seja, sião, junto ao VII Congresso, ocorreu o II
o terapeuta de família deixando-se cuidar. Encontro de Pesquisadores.
Em julho de 2004, realizou-se em Em agosto de 2007, aconteceu o VIII
Florianópolis, SC, o VI Congresso Brasilei- Encontro de Formadores, em Itaipava, RJ,
ro de Terapia Familiar, promovido pela sendo promovido pela ABRATEF e pela
ABRATEF e pela ACATEF. O tema escolhi- ATF-RIO. O tema centralizou-se em “Os
do foi “O que tu fazes por aí? Diversidades impasses dos formadores em ação – ques-
e abordagens da família brasileira”. Perce- tões éticas e difíceis no contexto da forma-

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Manual de terapia familiar | 101


ção em terapia de família”. Nesse Encon- toras constatam a continuidade da predo-
tro, foram discutidos os preconceitos dos minância da teoria sistêmica (28,25%) e sua
terapeutas de família e as questões éticas e combinação também com outras teorias.
difíceis que o terapeuta pode encontrar no Aparece o termo “integração”. No III Con-
seu dia a dia de trabalho. gresso, a teoria sistêmica predomina
Em agosto de 2008, o VIII Congresso (31,06%). As outras teorias são psicodra-
Brasileiro de Terapia de Família, em Gra- ma, psicanálise, narrativa, construcionismo
mado, RS, promovido pela ABRATEF e pela social e as combinações da sistêmica com
AGATEF, dá continuidade ao que vem se construtivismo, psicodrama, psicanálise,
realizando, Encontro de Formadores bia- existencialismo, cognitiva, junguiana e
nuais e Congressos Brasileiros também construtivismo e construcionismo social.
bianuais. Neste Congresso o tema propos- Aparece, nessa ocasião, a narrativa e a
to é “Diferentes famílias, contextos diver- cognitiva separada do construcionismo so-
sos, múltiplos olhares”, buscando-se as vá- cial e do construtivismo. No V Congresso,
rias formas de olhar as diversidades das a teoria sistêmica continua predominando
pessoas e grupos inseridos em ambientes (24,93%), aparecendo a psicanálise, psico-
diferentes, proporcionando uma riqueza de drama, construcionismo social, junguiana,
sentimentos e possibilidades. bioenergética, e as combinações com a sis-
Esses Congressos e Encontros têm a têmica: construtivismo, psicanálise, psico-
finalidade de proporcionar aos profissio- drama, cognitiva e construtivismo e cons-
nais um espaço de troca de experiências trucionismo social (p. 258-259).
onde cada um possa se enriquecer e con- Observa-se que vários trabalhos de-
tribuir para o enriquecimento o outro. vem propor uma forma de entendimento
Entre Congressos e Encontros de For- e/ou atendimento da família em que utili-
madores, outras associações regionais fo- zem a integração entre teorias. Por esse
ram sendo criadas. São elas: Associação levantamento realizado através dos Con-
Pernambucana de Terapia Familiar – APETEF, gressos até 2005, vemos a diversidade te-
Associação Paraense de Terapia Familiar – órica existente entre os terapeutas de fa-
APATEF e Associação de Terapia Familiar mília, levando-nos a crer que a base teóri-
do Espírito Santo – ATEFES, fundada em ca em suas formações também foi bastan-
29 de novembro de 2002. te diversificada.
Em uma pesquisa realizada, Ponciano Muito pensamos e discutimos como
e Féres-Carneiro (2005) apresentam o le- dar continuidade aos dados que gostaría-
vantamento sobre as teorias que os parti- mos de ressaltar aqui. Todo movimento
cipantes dos Congressos Brasileiros de Te- sempre tem um início para depois correr
rapia Familiar referem em seus resumos. seguindo seu próprio curso. O seu início
Os Congressos relatados foram o I; II; III e foi proporcionado por várias pessoas que,
V, (o IV não foi levantado), todos organi- unidas ou sozinhas, foram ao encontro de
zados pela Associação Brasileira de Tera- novos conhecimentos e de formas diferen-
pia Familiar. No I Congresso há um predo- tes de trabalhar e atender às pessoas que
mínio da teoria sistêmica (33,23%). Apre- buscavam ajuda para enfrentar seus con-
sentam-se várias combinações da teoria flitos e suas dificuldades. Muitos foram os
sistêmica com outras teorias, como constru- pioneiros distribuídos pelas diferentes ci-
tivismo, psicanálise, psicodrama, junguia- dades de nosso imenso país. Como citar
na, construcionismo social. No II Congres- alguns nomes sem deixar de citar outros,
so, uma significativa parte dos resumos não talvez de igual importância. Tarefa impos-
descreve as referências teóricas, mas as au- sível! Entretanto, concluímos que será re-

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102 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

levante nomearmos alguns profissionais lange Maria Rosset, Telma Zugman, Tere-
terapeutas de família que foram para lon- za Christina B. Paulus, Zélia Nascimento
ge aprender com profissionais mais expe- (Rosset, S., 2005, com. ps.).
rientes ou que de longe convidaram pio- Em Santa Catarina temos Dalmo
neiros para aprimorar as sementes da Silveira de Souza, Denise Duque, Francis-
cientificidade, plantando-as em terra fér- co Baptista Neto, Maria Cristina d’Avila de
til. Certamente ficarão lacunas de tempo e Castro, Maria Elizabeth Pascual Valle, Luiz
nomes, mas outros virão que, estando mais Carlos Osório (ACATEF).
distantes desse momento, poderão comple- No Rio Grande do Sul são pioneiros
tar essa história. Alberto Stein, Ana Ibraíma da Cunha, Ana
Foi em algumas cidades do Brasil que Néri Nascimento, Cláudia Deitos Giongo,
a terapia familiar despontou. Iniciando pela Helena Centeno Hintz, Janecy Lopes, José
cidade de Rio de Janeiro, destacamos Ale- Ovídeo Waldemar, Lea Peres Day, Leila
xandre Lins Keusen, Berenice Fialho Suslik, Luiz Carlos Osório, Luiz Carlos Pra-
Moreira, Cynthia Ladvocat, Cynthia Lira, do, Maria Fátima Galarza Rosa, Maria He-
Gilda Maria D´Orsi Archer, Gladis Brum, loisa Fernandes, Maria Inês Santos Rosa,
Laurice Levy, Lia Baptista Carvalho, Lia Maria Theresa Ritter, Marilene Marodin,
Ganc, Lúcia Ferrara, M. Cecilia V. D. Marli Kath Sattler, Marli Olina de Souza,
Baptista, M. Helena L. Bartholo, Miriam Nair Terezinha Gonçalves, Nira Lopes
Felzenszwalb, Miriam Schenker, Moisés Acquaviva, Olga G. Falceto, Olga Tarta-
Groisman, Mônica Corrêa Meyer, Naiara G. kowsky, Rosa Lúcia Severino, Sueli Bruns-
Wiethaeuper, Paulo João Raad, Rosana tein, Suely Teitelbaum, Zelda Svirski Wal-
Rapizo, Tania Luchi, Teresa Cristina C. demar (Wagner, A., 1996, com. ps.).
Diniz, Therezinha Féres-Carneiro (ATF-RIO). Em Minas Gerais são pioneiros Carlos
Em São Paulo, temos como pioneiros Arturo Loza-Molina, Maria Beatriz Couti-
Ada Pellegrini Lemos, Adriana Mattos nho Lourenço de Lima, Maria Beatriz Rios
Fráguas, Almira Rossetti, Amélia Vascon- Ricci, Maria José Esteves de Vasconcellos,
celos, Ana Maria Fonseca Zampiere, Sônia Maria Cerqueira Machado (Ricci, M.
Ceneide Cerveny, Denise Mendes Gomes, B., 2008, com. ps.).
Dílson César Marum Gusmão, Eliete Belfort Na Bahia são pioneiros Ana Maria Cu-
Mattos, Fiorangela Desderio, Flávia nha, Margarida Maria de Carvalho Rêgo,
Stockler, Gilda Maria Franco Montoro, Maria Joaquina Moura Pinto, Vânia Cas-
Helena Maffei Cruz, Jandira Mansur, Janice tilho. Depois vieram Ângela Teixeira, Célia
Rechulsky, Lia Lagrota, Lia Raquel Agpel, Nunes, Gleine Costa, Elda Elbachar, Gisele
Lorival Campos Novo, Marcos Naime Pon- Falcão, Nina Vasconcelos Guimarães, Vera
tes, Maria Amália Vitale, Maria Auxiliadora Minho (Santos, A. N., 2008, com. ps.).
Cori, Maria Elizabeth Mathias, Maria Rita No Ceará encontramos como pionei-
D’Angelo Seixas, Marilene Grandesso, Mô- ros Adalberto Barreto, Carlos Arturo Loza-
nica Galano, Maroli Bonoldi, Mathilde Molina, Mourão Cavalcante (Barreto, A.,
Neder, Regina França, Rosa Maria Macedo, 2008, com. ps.).
Ruy de Mathis, Sandra Fedullo Colombo, Em Pernambuco são pioneiros Cristi-
Silvia Farah, Silvia Rechulsky, Tai Castilho. na Brito Dias e Roberto Faustino de Paula
(Seixas, M. R., com. ps.). (Paula, R. F., 2008, com.ps.).
No Paraná, são pioneiros Mariza Em Brasília são pioneiros Gláucia
Bregola de Carvalho, Rosana Comazzi, Diniz, Ileno Izídio da Costa, Júlia Bucher,
Rosicler Bahr, Silvia Maria Grassano, So- Marcel Nunes de Carvalho, Maria Apareci-

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Manual de terapia familiar | 103


da Penso, Maria do Socorro Pereira Gonçal- REFERÊNCIAS
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tro Amorim e Terezinha Lamounier. Após LIAR. Florianópolis, c2007. Homepage institucional.
Disponível em: <http://www.acatef.com.br>.
vieram Joana D’Arc Cardoso dos Santos Acesso em: 8 mar. 2008.
e Denise de Mendonça Rodrigues (ACOTEF;
ASSOCIAÇÃO DE TERAPIA DE FAMÍLIA DO RIO
Gonçalves, M. S. P., 2008, com. ps.). DE JANEIRO (ATF-RIO). Homepage institucional.
Em Goiás são pioneiros Angela Rio de Janeiro, c2007. Disponível em: <http://
Baiocchi, Célia Ferreira, Elias Miguel www.atfrj.org.br>. Acesso em: 8 mar. 2008.
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Silvestre Vianna, Vanuzia Leal Peres e Vera S. V. Atendimento sistêmico de famílias e redes So-
Lúcia Morselli (Baiocchi, A., 2008, com. ps.). ciais. Belo Horizonte: Ophicina de Arte & Prosa,
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Maria Vello de Magalhães, Marlene Simo- BARKER, P. Basic family therapy. 3rd ed. Oxford:
netti e Roberta Giovannotti (Silva, D. R., Blackwell Scientific, 1992. p. 338.
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Por falar em história, sabemos que ela de família no Brasil: uma visão panorâmica. Psico-
logia: Reflexão e Crítica, v.19, n.2, p. 252-260, 2006.
não termina, posto que se renova e se mul-
tiplica em outros personagens e em novas PRATI, L. E.; COUTO, M. C. P. P.; KOLLER, S. H.
Famílias em vulnerabilidade social: rastreamento
gerações. Atualmente os descendentes da de termos usados por terapeutas de família. Psico-
geração de pioneiros em terapia familiar, logia: Teoria e Pesquisa.
brasileiros ou estrangeiros, oferecem essa MATURANA, H. O sentido do humano. Santiago
herança para seus múltiplos e diversos her- do Chile: Dólmen, 1990. p. 492.
deiros. A história prossegue, e não se pode SOUZA, A. M. N. A família e seu espaço: uma pro-
impedir o crescimento de qualquer fenô- posta de terapia familiar. 2. ed. Rio de Janeiro:
meno da natureza após seu nascimento. Agir, 1997. p. 33.

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104 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

7
Desenvolvimentos em
terapia familiar: das teorias
às práticas e das práticas às teorias
Marilene A. Grandesso

As ciências exatas são uma forma põe acompanhar as mudanças paradig-


monológica de conhecimento: o inte- máticas e evolutivas no exercício de sua
lecto contempla uma coisa e pronun- prática em constante construção, decorren-
cia-se sobre ela. Há um único sujeito: tes tanto do contexto teórico das tradições
aquele que pratica o ato de cognição
em vigor como do exercício da prática clí-
(de contemplação) e fala (pronuncia-
nica, ambas enredadas em um tecido com-
se). Diante dele, há a coisa muda.
Qualquer objeto do conhecimento (in- plexo que vai sendo inevitavelmente cons-
cluindo o homem) pode ser percebi- truído ao se mesclar os fios dos referenciais
do e conhecido a título de coisa. Mas dos terapeutas, suas distintas práticas e
o sujeito como tal não pode ser perce- teorias.
bido e estudado a título de coisa por- Quando penso na dança que um te-
que, como sujeito, não pode, perma- rapeuta faz entre sua prática e o tecido teó-
necendo sujeito, ficar mudo; conse- rico pelo qual pode compreendê-la, inevi-
quentemente, o conhecimento que se tavelmente ouço a voz do saudoso e ir-
tem dele só pode ser dialógico. reverente terapeuta Gianfranco Cecchin no
Bahktin (1992, p. 403) megacongresso de Novos paradigmas: cul-
tura e subjetividade, em 1991, em Buenos
O exercício de uma prática de tera- Aires. Em uma inigualável apresentação
pia envolve sempre um processo reflexivo durante o congresso, Cecchin disse: “Como
entrelaçando teoria e prática de uma for- terapeuta eu ajo e, de tempos em tempos,
ma tal, tão intrinsecamente amalgamada, peço a um epistemólogo para olhar e dizer
que fica difícil, senão impossível e mesmo o que eu faço”. Essa frase tem me acompa-
sem muita utilidade, determinar que ins- nhado desde aquela época, interessada que
tância prevalece sobre a outra. Todo tera- sou na miscigenação entre prática, teoria
peuta, antes mesmo de definir-se como tal, e epistemologia. Essa fala de Cecchin me
pertence a uma tradição que estabelece um faz pensar que, diante da família, a teoria
contexto paradigmático informando suas seria equivalente ao sangue que corre nas
crenças e seus valores, em um tempo e es- veias: está lá, e, embora naquele momen-
paço histórica e localmente situados. Por- to não seja visível como figura, a família e
tanto, traçar os desenvolvimentos de um a criatividade do terapeuta falam mais alto.
campo, como o da terapia familiar, pressu- A história tem mostrado que, desde os

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Manual de terapia familiar | 105


primórdios, a prática da terapia familiar teorias da biologia, da física, da antropolo-
vem sendo desenvolvida, muitas vezes, gia e da filosofia, a partir de onde, em in-
transformando os acasos que surgem nas terlocução com uma multiplicidade de
salas de terapia em oportunidades de or- autores, construiu suas metáforas teóricas
ganização das narrativas que foram cons- (Anderson, 2000; Cecchin, 1992; Gran-
truindo suas abordagens. A serendipidade desso, 1997 e 2006b).
presente na construção de formas de ação Por outro lado, dentro de uma pers-
e de técnicas terapêuticas faz parte de re- pectiva pós-moderna, não-objetivista, teo-
latos dos autores que escreveram como rias são consideradas mais como metáfo-
surgiram novas técnicas ou posturas tera- ras organizadoras do conhecimento e das
pêuticas. Minuchin e Fishman (1990), no práticas de um campo, espécie de lentes
clássico capítulo intitulado “Mais além da temporais mediante as quais construímos
técnica”, citam o poeta Antônio Machado, a realidade (Anderson e Goolishian, 1988;
dizendo que o caminho se constrói ao ca- Grandesso, 2006a). Rosemblat (1994), re-
minhar. A história de como surgiu a práti- ferindo-se aos conceitos teóricos dos dife-
ca do questionamento reflexivo de Karl rentes modelos da terapia familiar, ressal-
Tomm (Tomm, 1985), a equipe reflexiva, ta o que tem sido enfatizado e o que tem
depois chamada de processos reflexivos por sido obscurecido quando usamos determi-
Tom Andersen (Andersen, 1987; 1991) e nadas metáforas para organizar nosso pen-
outros desenvolvimentos ilustram a presen- samento e nossas práticas. Nesse sentido,
ça do acaso e do acidental nos momentos
de inspiração de terapeutas que ousam As metáforas teóricas – família como
colocar em ato suas ideias. um sistema, família como uma cul-
Contudo, o fortalecimento das práti- tura, sistema humano como um siste-
cas da terapia familiar e suas técnicas sem- ma linguístico – estabelecem uma
moldura não só para nossa conceitua-
pre beneficiou-se e valeu-se de teorias. É
lização, como também para o que pro-
inegável o salto qualitativo que a teoria curamos quando trabalhamos com as
geral dos sistemas de Bertalanffy (Berta- famílias [...] como formadores de
lanffy, 1975) e a cibernética de Norbert terapeutas e abordamos a prática clí-
Wiener (Wiener, 1961) ajudaram a cons- nica. (Grandesso, 2006a, p. 143)
truir e impulsionar na prática emergente
de terapia familiar. Ideias de filósofos como As metáforas teóricas da terapia fami-
Foucault (influenciando a terapia narrati- liar, desde as sistêmicas até as hermenêu-
va de Michael White), Derrida (interlocutor ticas, percorrendo o campo dessa prática
para a terapia colaborativa do Galveston já sexagenária, acompanham as mudanças
Institute do Texas), Wittgenstein (para o paradigmáticas que nortearam a produção
pensamento construtivista e construcionis- de conhecimento e as mudanças episte-
ta social na terapia familiar); hermeneutas mológicas vigentes. Muito tem sido escrito
como Gadamer (presente nas ideias cons- sobre esse tema, traçando um recorte bio-
trucionistas sociais e terapia colaborativa); gráfico da terapia familiar, organizado em
cientistas como Prigogine, Maturana, von torno de sua linguagem conceitual, não
Foerster e von Glasersfeld (sustentando sendo este o propósito deste capítulo
desde a cibernética de segunda ordem até (Cecchin, 1992; Sluzki, 1992; Rosenblatt,
as ideias construtivistas em terapia), cons- 1994; Paré, 1995; Grandesso, 1997, 2006a).
troem um fundo narrativo que dá voz e Tomando como referência os dizeres
forma a distintas práticas de terapia fami- de Bakhtin que abrem esse capítulo, o que
liar. Assim, a terapia familiar explorou e, pretendo apresentar a seguir resulta de um
muitas vezes, criativamente mergulhou em recorte construído dialogicamente pela lei-

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106 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

tura que faço dos teóricos e terapeutas que tório interdisciplinar, caracterizando o es-
organizam minha prática, especialmente tudo e as práticas de terapia familiar como
focado no contexto das práticas pós-mo- um empreendimento híbrido que pede pela
dernas. Antes de qualquer coisa, trata-se ampliação do olhar e dos fazeres do
de uma narrativa possível sobre os desen- terapeuta em suas distintas práticas.
volvimentos do campo da terapia familiar, Tendo como seu primeiro salto quali-
tendo o binômio teoria e prática como in- tativo e paradigmático a compreensão do
trinsecamente ligados e interconstituintes indivíduo não mais no âmbito de sua indi-
em uma espiral evolutiva organizada como vidualidade, mas das relações e dos con-
um processo reflexivo (Anderson, 2000; textos em que se inseria, as primeiras abor-
2007a). Essa maneira de conceber o en- dagens de terapia familiar organizadas pela
trelaçamento de teoria e prática segue mais teoria geral dos sistemas de Bertalanffy
uma instância hermenêutica, consideran- (Bertalanffy, 1975) e da Cibernética de
do que, como uma teoria orienta práticas Norbert Wiener (Wiener, 1961) deixaram
e práticas forjam teorias, um terapeuta po- o território do intrapsíquico para se orga-
de tornar-se míope, vendo o que a teoria nizar no contexto do inter-relacional. Pi-
propõe ou usando os mesmos recursos de pocando em distintos lugares, consideran-
sua prática para todas as famílias, portanto, do a evolução da terapia familiar em terri-
obscurecendo a singularidade das famílias tório americano, Anderson (1997) aproxi-
e pessoas, a idiossincrasia de suas palavras ma os pioneiros da terapia familiar a um
e organizações (Anderson, 2007c). grupo de cegos que descreviam um elefan-
te – abriram seus próprios caminhos, se-
guindo as idiossincrasias de suas persona-
TERAPIA FAMILIAR – UMA BREVE lidades singulares, suas formações discipli-
INTRODUÇÃO NA CONSIDERAÇÃO nares, suas hipóteses particulares decorren-
DE UMA PRÁTICA SEXAGENÁRIA tes de suas teorias e experiências clínicas.
De distintos territórios e de distintas de-
Qualquer que seja o recorte que nos propu- mandas por tratamentos, surgiram os pri-
sermos a desenvolver para traçar o cami- meiros modelos de terapia familiar, muito
nho desses 60 anos de prática da terapia mais inspirados pela busca de saídas tera-
familiar, vamos transitar em torno de mu- pêuticas para problemas desafiadores com
danças evolutivas várias, decorrentes tanto populações clínicas não-beneficiadas por
das demandas desafiadoras dos distintos tratamentos convencionais do que por no-
contextos como dos dramas das famílias e vas evoluções conceituais e paradigmáticas
dos indivíduos, sempre conduzida pela em si. Pacientes psicóticos e adolescentes
habilidade inventiva e criativa dos terapeu- delinquentes, entre outros problemas de-
tas em questão. Contudo, uma condição safiadores, levaram os terapeutas da déca-
esteve sempre presente – a diversidade dos da de 1950 a ousarem, ou seja, a quebrar
profissionais envolvidos, caracterizando o os protocolos da prática clínica convencio-
estudo e a prática da terapia familiar como nal para incluir as famílias nos tratamen-
um empreendimento interdisciplinar. Des- tos. Assim se desenvolveram várias abor-
de o pioneiro grupo de Bateson na década dagens, entre as quais a comunicacional,
de 1950 que somava, entre outros, os olha- interacional ou terapia estratégica breve,
res de um antropólogo (Bateson), um psi- estrutural, estratégica, experiencial simbó-
quiatra (Don Jackson), um químico (Wea- lica, intergeracional, sistêmica de Milão,
kland) e um especialista em comunicação tomando como referência o que surgiu no
(Jay Haley), temos seguido por um terri- território americano e que informou a prá-

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Manual de terapia familiar | 107


tica da terapia familiar no Brasil. Pakman Teoria sistêmica e cibernética:
(1994), considerando as distintas manei- um entrelaçamento de teorias
ras de se compreender os problemas, as te- e práticas nos alicerces da
orias da mudança e as distintas práticas terapia familiar sistêmica
terapêuticas dessas abordagens, define-as
como um conjunto de práticas não-unifor- Um primeiro organizador do discurso e da
mes, em contínua evolução, unidas por prática da terapia familiar veio da teoria
noções sistêmico-cibernéticas que se retroa- sistêmica e da cibernética, com ênfase es-
limentam. pecial nos conceitos de sistema, homeos-
As inúmeras abordagens de terapia fa- tase, causalidade circular e retroalimen-
miliar surgiram, portanto, na ausência de tação negativa (em um primeiro momen-
um sistema de crenças compartilhadas, ou to) e retroalimentação positiva (em um
seja, de um paradigma unificador, resul- segundo momento).
tando em evoluções conceituais distintas Compreendendo a família como um
na trilha da busca de descrições e explica- sistema, os pioneiros do campo da terapia
ções para os problemas particulares de cada familiar priorizaram interações e contex-
grupo diante de desafios na prática clíni- tos. Qualquer compreensão do comporta-
ca. Anderson (1997), ao referir-se a esse mento sintomático não postulava um en-
turno evolutivo, considera que na década trelaçamento de mútuas influências entre
de 1950 vivemos um ponto de bifurcação as ações dos membros da família, cuja
em que um grupo de terapeutas teceu sua interdependência levou os terapeutas a
compreensão estendendo suas explicações buscarem teorias para além do âmbito do
psicanalíticas e psicodinâmicas do indiví- indivíduo, considerando a família como um
duo para a família, enquanto outro grupo todo, tanto para compreender o compor-
foi buscar seus conceitos explicativos fora tamento saudável como o disfuncional. O
do campo da saúde mental, aventurando- casamento dos conceitos sistêmicos com os
se pelas ciências sociais, pela engenharia, cibernéticos configurou uma nova posição
filosofia, biologia e física, abrindo um le- epistemológica para trabalhar com famíli-
que de possibilidades que veio a constituir as e compreendê-las como unidade de tra-
as práticas sistêmico-cibernéticas referidas tamento. Esses conceitos teóricos conduzi-
por Pakman (1994) ou o paradigma ram os terapeutas a buscarem a funciona-
unificador sistêmico contextual descrito por lidade dos sintomas, considerados neste
Anderson (1997). primeiro momento da cibernética (que veio
Optando por me deter mais nos de- a ser conhecida como de primeira ciberné-
senvolvimentos recentes da terapia famili- tica no contexto da cibernética de primei-
ar, dentro dos marcos de pensamento pós- ra ordem) como desvios ativados por er-
moderno, apresento a seguir um breve per- ros na organização familiar. O sintoma, de
curso evolutivo do campo, centrado mais acordo com esses organizadores teóricos,
em um alinhamento do pensamento teóri- só poderia ser compreendido no contexto
co que organizou as práticas distintas da da família e, consequentemente, não mais
terapia familiar ao longo desses anos. Cum- no âmbito do indivíduo. Se surgia um sin-
pre lembrar que, além de muito sumário, toma em um de seus membros, isso era
trata-se de um recorte possível não-exclu- compreendido como uma tentativa de
sivo, construído no diálogo com os autores manter a homeostase do sistema familiar
com os quais costumo dialogar e que me diante de dificuldades da família em ma-
ajudaram a pensar o tema desse capítulo nejar pressões oriundas de fatores exter-
entrelaçando teorias e práticas. nos ou das demandas de mudanças pró-

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108 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

prias das transições em seu ciclo evolutivo. vios que afetem seu funcionamento, como
Uma escola representativa desse momen- também dilatar seus modos habituais de
to paradigmático foi a do Mental Research funcionamento, amplificando os desvios,
Institute de Palo Alto, Califórnia, que ini- falando em uma linguagem cibernética,
ciou suas incursões no campo da terapia para, através da morfogênese, garantir sua
familiar com famílias com pacientes por- continuidade por meio de mudanças fun-
tadores de esquizofrenia. cionais, de modo a permitir sua evolução e
Em um segundo momento, decorren- adaptação às novas demandas em um mun-
te especialmente dos avanços no campo da do em constante evolução. Enquanto a
cibernética (que veio a ser conhecido como retroalimentação negativa garantia a ma-
segunda cibernética ainda no contexto da nutenção da organização sistêmica, ou seja,
cibernética de primeira ordem), a compre- uma mudança de primeira ordem que man-
ensão da família e seu funcionamento ga- tinha a organização sistêmica, a retroa-
nhou um novo contexto para se pensar te- limentação positiva favorecia a compreen-
oricamente os problemas e as possibilida- são de como os sistemas mudam para uma
des de intervenção através do conceito de nova organização, ou seja, transcendem
retroalimentação positiva. Apoiados pela suas possibilidades através de mudanças de
afirmação de Maruyama (appud, Hoffman, segunda ordem para um novo patamar
1981) de que a capacidade de sobrevivên- qualitativo. Assim, a prática da terapia
cia dos sistemas vivos dependia não ape- familiar apoiada em noções como a de que
nas da manutenção de sua homeostase, os sistemas humanos se organizam longe
como também de sua capacidade de modi- do equilíbrio, conforme decorreu do tra-
ficar sua estrutura para fazer frente às de- balho de Ilya Prigogine (Prigogine e
mandas do meio, outras práticas e uma Stengers, 1984), desenvolveu técnicas de
nova compreensão se organizaram para a intervenção que visavam favorecer mudan-
terapia familiar. Enquanto no primeiro ças de segunda ordem, promovendo mu-
momento falava-se em morfoestase (ou danças na linha da reorganização da fa-
seja, manutenção da mesma forma atra- mília através de saltos qualitativos para
vés da correção dos desvios em relação ao uma nova organização sistêmica. Na práti-
funcionamento do sistema), nesse segun- ca da terapia familiar, tais conceitos resul-
do momento passa-se também a falar em taram em modelos que tinham como re-
transcendência, representada pelo concei- cursos técnicas desestabilizadoras que ge-
to de morfogênese (a construção de novas ravam crise no sistema para favorecer sua
formas de funcionamento pela mudança na mudança através de suas investidas para
organização sistêmica). Ou seja, do ponto fazer frente aos desvios. Este é o caso, por
de vista teórico, a compreensão que pas- exemplo, da terapia estrutural proposta por
sou a organizar a prática da terapia consi- Minuchin (Minuchin, 1982; Minuchin e
derava que os sistemas vivos, como a famí- Fischman, 1990; Umbarger, 1987).
lia, necessitam ampliar suas possibilidades De uma forma bem geral, os concei-
de modo a garantir sua sobrevivência. O tos teóricos que caracterizaram esse mo-
conceito organizador dessa possibilidade delo de pensamento cujos pilares de sus-
de compreensão foi o de retroalimentação tentação foram sistêmicos e cibernéticos in-
positiva, oferecendo um sistema explicativo fluenciaram de forma marcante tanto a
para as mudanças diante das demandas prática da terapia como a postura do
evolutivas próprias das mudanças no ciclo terapeuta. Novas técnicas de terapia sur-
de vida e das decorrentes dos desafios dos giram para fazer frente à demanda de aba-
contextos. Ou seja, uma família, para so- lar a homeostase familiar organizada pelos
breviver, necessita não apenas corrigir des- sintomas e, assim, promover a mudança,

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Manual de terapia familiar | 109


ou para gerar crise no sistema, conduzin- tica, pela teoria da relatividade de Einstein,
do a família a uma nova organização e a pela biologia do conhecimento de Matura-
um novo funcionamento. O terapeuta as- na, além de questionamentos vindo da fi-
sim orientado desenvolvia sua ação como losofia em geral em torno das ideias de
uma intervenção ativa para ajudar a famí- Wittgenstein, Rorty e dos filósofos da não-
lia a aceitar as exigências das pressões ex- representação – colocaram em dúvida a
teriores, os pontos de transição, as etapas possibilidade de conhecer objetivamente.
de desenvolvimento e a mudança (Ander- Ao se postular a impossibilidade de sepa-
son, 1997). ração entre sujeito e objeto, ou seja, de um
observador se colocar fora do sistema que
observa, um giro paradigmático passou a
A cibernética de segunda ordem – buscar por novos conceitos teóricos e por
novos patamares teóricos e uma novas práticas a eles correlatas. No campo
mudança paradigmática na prática da cibernética, esse avanço resultou em
da terapia familiar sistêmica uma mudança evolutiva conhecida como
cibernética de segunda ordem ou ciber-
A história da terapia familiar sistêmica, em nética dos sistemas observantes, confor-
seu primeiro período de existência de cer- me chamada por von Foerster (1974). Fa-
ca de três décadas, mostrou uma diversi- zendo frente aos vários questionamentos,
dade de abordagens organizada por metá- destacaram-se como fundamentais para a
foras teóricas sistêmico-cibernéticas e prá- prática da terapia familiar os conceitos de
ticas de intervenção definidas pelo tera- auto-organização, auto-referência, reflexi-
peuta.1 Independentemente de suas especi- vidade e autopoiese dos sistemas vivos.
ficidades, essas abordagens tinham em co- Ou seja, os sistemas vivos, como os siste-
mum um terapeuta interventor que, apoia- mas humanos, são capazes de produzir
do em seus diagnósticos sistêmicos, busca- suas próprias mudanças, as quais são
va a solução dos problemas que a família conduzidas e limitadas pela sua organi-
vivia. Do ponto de vista paradigmático, a zação sistêmica, não podendo ser delibera-
prática da terapia familiar sustentava-se damente operadas a partir de qualquer
pelos norteadores do empirismo lógico que lugar externo ao próprio sistema. No cam-
regeu a ciência e as práticas por ela orien- po da terapia familiar, isso resultou em
tadas. A possibilidade de observar fidedig- uma mudança tanto no discurso teórico
namente e intervir deliberadamente sobre como na prática da terapia. A terapia fami-
o sistema tornava a terapia dessa época um liar que se desenvolveu a partir dessa
empreendimento centrado no terapeuta mudança paradigmática que veio a ser
como um especialista. Não só esse tera- conhecida como pós-moderna abandonou
peuta definia o que não ia bem com a fa- as metáforas teóricas de homeostase, des-
mília, como também decidia os caminhos vios, circuitos cibernéticos, retroalimen-
e a direção das mudanças necessárias para tação negativa ou positiva, para inserir-
seu bom funcionamento, vendo a família se no campo da linguagem e do significa-
como uma espécie de servomecanismo. do. Outros conceitos e outras práticas: sis-
Contudo, avanços na ciência, impul- temas linguísticos, narrativa, conversação,
sionados pelas descobertas da física quân- diálogo, significado, histórias, cultura, co-
construção; terapias de segunda ordem
1 Os interessados especificamente neste tema (Hoffman, 1985, 1988); terapias narrati-
podem recorrer ao sub-item “Metáforas sis- vas (White e Epston, 1990; Sluzki, 1992,
têmicas: da cibernética à hermenêutica” de 1998); terapias colaborativas (Anderson
Grandesso (2006a). e Goolishian, 1988).

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110 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

A terapia familiar que seguiu a essa de terapia, vem do pioneiro grupo do MRI,
mudança paradigmática conhecida como na pessoa de Don Jackson, que abriu espa-
pós-moderna se organizou em torno de ço para um importante legado para as prá-
dois referenciais epistemológicos distintos, ticas pós-modernas de terapia – a mudan-
o construtivismo e o construcionismo so- ça da tradição de ensinar ao cliente a lin-
cial.2 Ambos partilham a impossibilidade guagem do terapeuta para ensinar ao tera-
de um lugar privilegiado de acesso a uma peuta a linguagem do cliente (Anderson e
realidade objetiva e a crença na realidade Gehart, 2007). Essa mudança tanto meta-
construída a partir do ato de observação fórica como literal de deixar-se conduzir
que inevitavelmente inclui a pessoa do ob- pelo cliente, aprendendo e falando sua lin-
servador e suas lentes teóricas idiossincrá- guagem, foi central para as novas metáfo-
ticas. No entanto, cumpre lembrar que no ras teóricas que passaram a organizar as
contexto evolutivo da terapia familiar as terapias pós-modernas.
teorias são vistas como marcos referenciais Como acontece em inúmeras situa-
mais ou menos úteis para nossos propósitos ções na história da construção do conheci-
de dar sentido à nossa prática, à compreen- mento e do desenvolvimento das práticas,
são dos dilemas humanos e à mudança nos uma intenção orientadora em uma deter-
contextos de vida da família. Da mesma minada direção e com um determinado
forma, as técnicas são consideradas como propósito acaba construindo um contexto
construção de possibilidades para ação e gerador de uma alternativa não-intencio-
reflexão, derivando seu valor da possibili- nada, mas suficientemente inovadora, cri-
dade de favorecer transformações criativas. ativa e generativa para uma nova aborda-
Portanto, a utilidade das teorias e das téc- gem ou para uma nova compreensão. As-
nicas de terapia passou a ser diretamente sim, desenvolveram-se as abordagens pós-
compreendida pela sua possibilidade de modernas para a terapia, como um salto
oferecer subsídios para a construção de sig- qualitativo, acompanhando as mudanças
nificados organizadores da experiência vi- paradigmáticas que aconteceram nas ciên-
vida pela família e para a evolução do sis- cias em geral, organizando o sistema de
tema terapêutico (Grandesso, 2002). ideias e práticas em uma nova direção.
Tendo em vista os propósitos deste ca- Distintas abordagens de terapia fami-
pítulo, apresento a seguir um panorama do liar situam-se sob os marcos referenciais
campo da terapia familiar nos marcos das da pós-modernidade, entre as quais desta-
práticas da terapia familiar consideradas co as terapias colaborativas de base dialó-
pós-modernas, com ênfase especial na re- gica e as terapias narrativas, além das que
lação entre teorias e práticas. resultaram de mudanças epistemológicas
nas tradicionais terapias estruturais e estra-
tégicas que abraçaram as ideias construti-
DESENVOLVIMENTOS NO CAMPO DA vistas. De acordo com Anderson (1997),
TERAPIA FAMILIAR (TERAPIAS PÓS- as teorias terapêuticas podem ser descri-
MODERNAS): TEORIAS E PRÁTICAS tas, analisadas e comparadas a partir de
três questões básicas:
Uma mudança na dança entre teoria e prá-
tica, alicerce das abordagens pós-modernas 1. a posição do terapeuta – como define
seu papel e seu propósito;
2 Um aprofundamento nessas duas posições 2. o processo de terapia – o que acontece
epistemológicas foge ao alcance deste capítulo. e se entende como devendo acontecer
O leitor interessado encontra uma detalhada para que haja uma mudança terapêu-
apresentação em Grandesso (2006a). tica;

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Manual de terapia familiar | 111


3. o sistema terapêutico – incluindo as me- do uma forma de conversação em que o
tas da terapia e dos participantes no terapeuta e o cliente participam do co-de-
processo. senvolvimento de novos significados, de
novas realidades e de novas narrativas, a
De acordo com essas questões, pode- partir de uma postura terapêutica de ge-
mos dizer que cada teoria influi em como nuíno não-saber.
o terapeuta fala e age e quais suas inten- A terapia colaborativa organizada
ções em seu falar e fazer. Sucintamente, como uma prática de parceria na conver-
considero a seguir como respondem a es- sação entre terapeuta e clientes coloca sua
sas questões algumas das práticas pós-mo- ênfase nos processos reflexivos e na abertu-
dernas da terapia familiar.3 Cumpre lem- ra das palavras para os significados por elas
brar que tal classificação tem um caráter construídos, bem como no processo de
meramente didático, pois uma das con- questionamento como contexto generativo
sequências da era pós-moderna envolve o em relação à mudança. Destacam-se parti-
questionamento de fronteiras rígidas en- cularmente nessa forma de fazer terapêu-
tre disciplinas e práticas, mantida, porém, tico, além de Anderson e Goolishian, o tra-
uma coerência epistemológica. balho de Tom Andersen (Andersen, 1987;
1991; 1995) e o de Peggy Penn, enfati-
zando a importância das diferentes vozes:
ABORDAGENS COLABORATIVAS a que vem da escrita, a que vem dos diálo-
Esta abordagem terapêutica é organizada gos internos, além da que decorre das dis-
em torno da definição dos sistemas huma- tintas conversações (Penn, 1985; 1998;
nos como sistemas linguísticos, geradores 2001). A terapia colaborativa é considera-
de linguagem e significado, organizadores da por seus praticantes mais como uma
e dissolvedores de problemas. A prática “abordagem” ou como “suposições” sobre
dessa terapia define-se como relacional e terapia do que teoria ou modelo. Encon-
dialógica, e, no escopo de sua ação e susten- tramos no escopo dessa prática diferentes
tação teórica, podemos citar nomes como denominações, como terapia colaborativa,
Tom Andersen, Kenneth Gergen, Lynn dialógica, conversacional, construcionista
Hoffman, Lois Holzman, Sheila McNamee, social, relacional e pós-moderna (Anderson
Peggy Penn, Jaakko Seikkula, Lois Shawver, e Gehart, 2007). Do ponto de vista da ação,
Jonh Shotter, Harlene Anderson e Harry os terapeutas colaborativos procuram ater-
Goolishian (Anderson, 2007a). se à forma como os clientes compreendem
Ao compreender o diálogo como uma seus dilemas, a partir de dentro da própria
conversação transformadora, a terapia conversação no momento da terapia e no
apresenta-se como uma conversação de contexto local, mais do que das informa-
duas mãos de trocas colaborativas, na qual ções oriundas de suas pré-compreensões.
o cliente é o especialista (Anderson, 1994, Assim, as perguntas do terapeuta são nor-
1997; Anderson e Goolishian, 1992; 1988; teadas pelo que é dito pelas pessoas, legi-
Goolishian e Winderman, 1988). O proces- timando seu conhecimento a partir de den-
so de terapia é a conversação terapêutica tro da experiência vivida, ou seja, conheci-
em que o terapeuta é um participante ati- mento local de cada pessoa participante do
vo e “arquiteto do diálogo” (Anderson e processo terapêutico.
Goolishian, 1988). O diálogo é considera- Para Anderson (Anderson, 1997;
2000; 2001; 2007a e 2007c), a terapia cola-
borativa é mais uma instância filosófica ou
3 Parte do que apresento a seguir foi publicado uma filosofia de vida do que uma aborda-
em primeira mão em Grandesso (2002). gem informada por uma teoria. Refere-se a

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112 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

[...] “uma forma de estar” em relacio- Winderman, 1986; Anderson e Goolishian,


namento e conversação: uma forma de 1988; Goolishian e Winderman, 1988).
pensar com, de experimentar com, de Nesse sistema organizado pelo problema,
estar em relação com, agir com e respon- cabem tantas distinções de problema quan-
der para as pessoas, que encontramos
tos forem os participantes no processo, co-
em terapia (Anderson, 2007c, p. 43).
locadas nas próprias palavras das pessoas.
Apoiando-se na noção da linguagem Portanto, a terapia colaborativa abandona
e do conhecimento como generativos, sua descrições objetivas, explicações e diagnós-
propriedade inventiva e criativa favorece ticos para referir-se às particularidades das
novos conhecimentos, novas identidades histórias narradas, colocando cada cliente
com maior auto-agência, expertise e futuros como único e especial. Das descrições ge-
possíveis. Colocado como um parceiro néricas e impessoais para as particulares e
conversacional, o terapeuta é aquele que, especiais, Anderson (2007c) ressalta que
especializado em construir contextos de di- a ênfase foi colocada no cliente como pes-
álogo e relacionamentos colaborativos, co- soa, evidenciando, assim, não apenas seu
loca-se em uma atitude de curiosidade ge- lado humano, mas também o do terapeuta
nuína para aprender com o cliente sobre como pessoa, mais do que um técnico.
suas circunstâncias, sustentado pela crença
de que o cliente é o especialista em sua vida.
O processo de conversação que se instala ABORDAGENS NARRATIVAS
como uma via de duas mãos resulta em uma
As práticas narrativas consideram que as
exploração conjunta e em co-desenvolvi-
pessoas vivem suas vidas através de histó-
mento de novas possibilidades.
rias; que as histórias organizam e dão senti-
A postura colaborativa convida o
do à experiência e que os problemas exis-
terapeuta a tornar público seus pensamen-
tem na linguagem, sendo capturados nas
tos e a deixar-se transformar junto com o
histórias dominantes, co-autoriadas nas
cliente, conforme a conversação segue adi-
comunidades linguísticas das pessoas, ten-
ante. Essa postura não se define como uma
do uma dimensão canônica. Ao consultar-
técnica nem visa a produzir técnicas. O
mos a literatura da terapia familiar, encon-
terapeuta colaborativo deixa de lado tam-
tramos várias referências às práticas narra-
bém a busca de intervenções terapêuticas,
tivas, muitas delas misturando-se nos con-
uma vez que a mudança decorre da pró-
textos das práticas colaborativas anterior-
pria conversação. O principal recurso que
mente descritas. Contudo, definidas espe-
o terapeuta leva para o contexto de tera-
cialmente como práticas narrativas, desta-
pia é a si próprio como ser humano, capaz
co duas possibilidades – uma mais conver-
de estar em relação não-hierárquica e a
sustentar e promover uma conversação res- sacional com ênfase nos processos de
peitosa, abrindo espaço e dando as boas- questionamento e outra mais estruturada
vindas para a incerteza e para o inespera- como uma abordagem de conversação
do. A palavra-chave para essa abordagem orientada para um propósito, proposta e
é com – referindo-se a uma busca do tera- desenvolvida pelo grupo de terapeutas li-
peuta por estar com, de conectar-se e es- derados por Michael White e David Epston,
tar em relação com. Uma das grandes ino- do Dulwich Centre de Adelaide, Austrália.
vações teórico-práticas dessa abordagem
foi o conceito de sistema determinado pelo As micropráticas transformativas
problema, contrapondo a noção da tera-
pia familiar tradicional de que o sistema Trata-se de um processo de terapia narra-
cria o problema (Anderson, Goolishian e tiva com ênfase nas micropráticas transfor-

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Manual de terapia familiar | 113


mativas no contexto da conversação que, enredos e os cenários dos acontecimentos
através de um processo de questionamento, narrados, seus corolários morais, éticos e
vem a desestabilizar as narrativas organiza- suas consequências. O processo de questio-
doras dos problemas, dilatando seu hori- namento desenvolvido pelo terapeuta fa-
zonte e sua referência. O resultado de tal vorece a mudança na direção da constru-
processo de questionamento conduz à or- ção de histórias alternativas e preferidas,
ganização de histórias qualitativamente promovendo a transformação das histórias
“melhores” para o sistema, em torno dos nas dimensões de tempo (por exemplo, en-
“estranhos atratores”, fazendo referência tre descrições estáticas e descrições flutuan-
à teoria do caos. Esses atratores caracteri- tes), espaço (por exemplo, entre narrativas
zam-se como opções potenciais que surgem contextuais e narrativas não-contextuais),
nos pontos de bifurcação das histórias de- linha de causalidade (entre narrativas so-
sestabilizadas pela conversação terapêuti- bre causas e narrativas sobre efeitos), con-
ca, conforme podemos ver no trabalho de texto das interações (descrições situadas
Sluzki (1992; 1998). Sluzki considera que em contextos interpessoais e descrições
as narrativas que surgem no contexto das intrapessoais), valores presentes (distintas
terapias organizam-se em torno de temas, atribuições de qualidades a pessoas e acon-
muitos deles podendo ser considerados tecimentos) e na forma narrativa (entre
universais a qualquer que seja a família: descrições na voz ativa e descrições na voz
perdas e luto, gênero, ciclo vital, transgera- passiva). Especificando melhor, se a pes-
cionalidade e famílias de origem, lealdades soa narra suas histórias em uma dimensão
e ética relacional, etnia e cultura, estrutu- de tempo presente, o terapeuta conecta-se
ra e organização da família, entre outros. a esse enredo narrativo, mas gradativa-
De acordo com os pressupostos dessa mente vai dirigir suas perguntas para ou-
prática pós-moderna, diferentes temas e al- tras dimensões de tempo, sobre passado
ternativas podem gerar histórias igualmen- ou futuro; se a narrativa, contudo, descre-
te plausíveis no contexto das conversações ve acontecimentos valendo-se do tempo
terapêuticas e transformadoras. Coerente- passado, o terapeuta vai deslocar suas per-
mente com os princípios do pensamento guntas para o presente ou futuro, e assim
pós-moderno, diferentes temas atendem por diante, em cada uma das dimensões
mais às preferências teóricas do terapeuta citadas. De acordo com a compreensão pre-
e à pertinência aos enredos temáticos das sente nessa prática, as histórias podem ser
famílias em terapia, e não a qualquer va- desestabilizadas conforme possam abrir es-
lor de verdade sobre problemas e soluções. paço para novos olhares em uma coorde-
A habilidade do terapeuta narrativo, de nação na linguagem que convida à explo-
acordo com essa abordagem narrativa, ração de novos horizontes possíveis. Do
envolve colocar-se conectado na escuta ponto de vista técnico, essa prática narra-
aberta para ouvir as histórias que as pes- tiva exige um terapeuta hábil para uma
soas contam sobre seus dilemas e coorde- escuta da estruturação narrativa e para a
nar perguntas e comentários, entrando pela coordenação da linguagem a fim de orga-
porta aberta pela narrativa da família e nizar uma conversação convidativa para a
expandindo o contexto narrativo para ou- construção de novos significados.
tros temas e contextos discursivos.
A partir da estruturação do espaço
terapêutico como um espaço de conversa- A terapia narrativa de Michael White
ção, essa prática narrativa envolve uma
escuta das histórias sobre as experiências Situando-se também sob o guarda-chuva
vividas pelos personagens envolvidos, os da pós-modernidade, a terapia narrativa

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proposta por Michael White e sua equipe sibilidades existenciais (Grandesso, 2002;
do Dulwich Centre de Adelaide, na Aus- 2006b). Partindo do pressuposto teórico de
trália, define-se como um enfoque respei- que a experiência é muito mais rica do que
toso, não-culpabilizador que considera as qualquer possibilidade narrativa (Bruner,
pessoas como especialistas em suas vidas. 1997), o terapeuta procura por aconteci-
Embora apresente diretrizes específicas mentos extraordinários que contradigam
para o terapeuta colocar-se em conversa- as histórias dominantes, apresentando áre-
ção com pessoas, famílias e comunidades, as da vida da pessoa livres da influência
essa terapia narrativa organiza-se também do problema que descrevam um sentido de
dialogicamente em mútua colaboração ação e competência. Ao resgatar a memó-
entre o terapeuta e todos os participantes ria de episódios vividos que contradizem
do processo terapêutico. Os organizadores as histórias dominantes, o terapeuta pro-
temáticos das conversações são dados pe- move uma conversação de reescritura das
las preferências das pessoas consultantes, histórias de identidade, ao incluir nas no-
às quais o terapeuta procura conhecer e se vas narrativas aspectos negligenciados pe-
adaptar. Perguntas sobre o andamento da las histórias dominantes. A reconstrução
conversação, os caminhos que estão sendo narrativa decorrente do trabalho terapêu-
percorridos, caminhos alternativos possí- tico caracteriza esse modelo de terapia
veis e preferidos, permitem ao terapeuta como sendo de reautoria da autobiogra-
orientar-se por um território em que a pes- fia. Considerando-se que as histórias são
soa em terapia coloca-se como cicerone. construídas e legitimadas no mundo da
Os constantes ajustes de rota permitem não vida, o terapeuta narrativo pode fazer-se
só respeitar os interesses das pessoas, como valer de participantes convidados pela pes-
também seus conhecimentos – como insi- soa em terapia, funcionando como teste-
ders – em uma atitude respeitosa e legitima- munhas externas das novas versões de
dora por parte do terapeuta. identidade fora dos domínios do proble-
Esta terapia narrativa enfatiza a des- ma. Pessoas vivas ou mortas que por algu-
construção das histórias dominantes e das ma razão foram referências importantes
práticas subjugadoras do self que, cristali- para a pessoa no passado podem ter res-
zadas nos relatos sobre vidas e identida- gatadas suas vozes, fazendo-se presentes
des, restringem as possibilidades existen- ou imaginadas, através dos processos de
ciais e têm o status de verdades sobre as questionamento, e ajudando não só a cons-
pessoas e suas vidas. Começando pelo truir histórias mais ricas, como também a
mapeamento dos efeitos do problema so- ancorá-las. Assim, considerando a vida
bre a vida da pessoa, as relações, as pers- como se fosse um clube, influenciado pelo
pectivas de futuro e a visão de si mesma, o trabalho da antropóloga cultural Bárbara
terapeuta desenvolve uma conversação es- Myerhoff, que trabalhou com uma prática
pecial que promove o resgate das identi- conhecida como cerimônia de definição,4
dades dos domínios do problema, bem uma prática narrativa nesses moldes favo-
como a memória de que os problemas são
construídos nos contextos das experiências
vividas. A proposta de externalização, si-
4 Bárbara Myerhoff usou a metáfora de cerimô-
tuando a pessoa e o problema como enti-
dades distintas, contribui para desessencia- nia de definição em seu trabalho com uma co-
munidade de judeus idosos, criando um con-
lizar o self, ao tornar conhecidos os con- texto de contar algumas das histórias mais sig-
textos organizadores das narrativas opres- nificativas de suas vidas, como uma forma de
soras das quais as pessoas constroem empo- fortalecer seus projetos de identidade que es-
brecidas visões de si mesmas e restritas pos- tavam em vias de extinção (White, 2004).

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Manual de terapia familiar | 115


rece a abertura para mundos mais ricos ao sequências das diferenças de poder e de
promover a polifonia vinda de diferentes injustiças sociais. O grupo propõe que se
contextos de relação. considere as influências do macrocontex-
Embora essa prática de terapia conte to socioeconômico, político, cultural, étni-
com muitos recursos de conversação – con- co, de gênero e espiritual no microcontexto
versações externalizadoras, conversações familiar. Para esses terapeutas, há signifi-
de reautoria, conversações de reassociação cados preferidos para as narrativas emer-
(do inglês remembering), uso de testemu- gentes, edificados em torno de valores, pro-
nhas externas, rituais terapêuticos, cerimô- movendo a igualdade de gênero, a auto-
nias e documentos – cada processo terapêu- determinação cultural, pertencimento e
tico é único, e, como diz Morgan (2000), espiritualidade. Tal proposta coloca o
muitos são os caminhos possíveis, cheios terapeuta no lugar de um profissional
de bifurcações, idas e vindas, cada passo engajado com a transformação das políti-
conduzindo a um novo horizonte possível cas sociais mais amplas, comprometido
e cada pergunta, a uma nova versão de com uma ética da igualdade e legitimação
vida. da pessoa, o qual encoraja uma metodo-
O trabalho criativo do terapeuta nar- logia de ação/reflexão que considere não
rativo na construção de “mapas narrativos” apenas indivíduos, casais e famílias, como
(White, 2007) exige do terapeuta uma pos- também comunidades, sociedades e países.
tura de escuta atenta e de paciência para Esse grupo neozelandês enfatiza a impor-
as idas e vindas nos andaimes que alicer- tância de o terapeuta perguntar-se cons-
çam e sustentam as novas narrativas. Apoi- tantemente pelos seus valores. A ausência
ado nas ideias de Michel Foucault, White desse questionamento torna a prática da
define o terapeuta narrativo como uma terapia um empreendimento a serviço dos
espécie de ativista sociopolítico que denun- valores dominantes, colocando-se assim
cia práticas culturais colonizadoras que como uma espécie de prática colonizadora.
marginalizam pessoas e comunidades em
nome de discursos normatizadores e domi-
nantes. Todo o trabalho de Michael White, ABORDAGENS ESTRUTURAL E
David Epston, Jill Freedman e Gene Combs ESTRATÉGICA PÓS-MODERNAS
ilustra essa prática de terapia libertadora
(White, 1988, 1991, 1993, 2004, 2007; Redefinidas de acordo com uma epistemo-
White e Epston, 1990; Freedman e Combs, logia construtivista, tais abordagens acom-
1996). panharam a evolução da cibernética de
primeira para a de segunda ordem e po-
dem ser consideradas pós-modernas, des-
ABORDAGENS CRÍTICAS de que, além do uso de uma nova lingua-
PÓS-MODERNAS gem, a postura do terapeuta abandone o
lugar de especialista. Considere-se, neste
Podemos incluir aqui as propostas como a sentido, a terapia centrada nas soluções de
just therapy do grupo do Family Centre da Shazer (Miller e De Shazer, 2000) que,
Nova Zelândia (Waldegrave, 1990; 2000). partindo das exceções em relação à mani-
Charles Waldegrave, Kiwi Tamasese e Wally festação de um problema, inicia um jogo
Campbell organizaram sua abordagem te- de linguagem para a construção de luga-
rapêutica em torno de conceitos de eqüi- res aptos para o encontro de soluções, ba-
dade e justiça social, considerando que seadas na conduta do terapeuta e no uso
muitos dos problemas de saúde mental e de técnicas. Acima de tudo, tais releituras
de relacionamentos decorrem das con- são feitas dentro de uma nova concepção

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epistemológica que redefine a abordagem  A ênfase sobre os significados social-


quanto à noção do conhecimento e a prá- mente construídos na linguagem e nos
tica clínica quanto ao uso das técnicas e ao espaços dialógicos, sendo construídos
papel do terapeuta. nos discursos emergentes e, ao mesmo
tempo, responsáveis por suas transfor-
mações.
TERAPIAS PÓS-MODERNAS:  A crença no diálogo, definido como um
UMA APROXIMAÇÃO cruzamento de perspectivas, como uma
prática social transformadora para to-
Vivemos hoje na terapia familiar a uma dos os envolvidos, independentemente
multiplicidade de abordagens, tantas quan- de seu lugar como terapeuta e cliente.
tos forem os terapeutas em questão. Con-  A ênfase nas práticas de conversação e
tudo, a ausência de um purismo de abor- nos processos de questionamento como
dagens não significa uma anarquia episte- recurso para gerar reflexão e mudan-
mológica se considerarmos os marcos ça, conforme expande os horizontes de
referenciais da pós-modernidade como terapeutas e clientes.
seus denominadores comuns. Uma coerên-  A adoção de postura hermenêutica em
cia epistemológica une as práticas pós- que a compreensão é co-construída
modernas de terapia em torno de alguns intersubjetivamente pelos participantes
pressupostos teóricos comuns que organi- da conversação.
zam a ação dos terapeutas:  A ênfase muito mais no processo do que
no conteúdo das histórias, compreen-
 A consciência de que o terapeuta co- dendo as narrativas como locais e, des-
constrói no sistema terapêutico, em se modo, idiossincráticas.
ação conjunta com a família, a defini-
ção do problema e das possibilidades Refletindo sobre o panorama atual da
de mudança. terapia familiar, podemos considerar que
 A crença de que toda mudança só pode sua consistência decorre de uma episte-
se dar a partir da própria pessoa e da mologia unificadora pós-moderna apoiada
sua organização sistêmica autopoiética, em uma hermenêutica contemporânea
sendo responsabilidade e especialida- construída na intersubjetividade, envolven-
de do terapeuta a organização da con- do a pessoa do terapeuta como co-cons-
versação terapêutica. trutor das realidades com as quais traba-
 A mobilização dos recursos da família, lha. A prática dessas terapias ditas pós-mo-
da comunidade, das redes de pertenci- dernas envolve um trânsito do terapeuta
mento, legitimando o saber local de entre teoria e prática de modo epistemolo-
pessoas e contextos. gicamente coerente, de acordo com os
 Uma concepção não-essencialista de meios que se lhe apresentem mais úteis e
self, compreendido como construído no despertem seu entusiasmo e sua criativi-
contexto das relações e práticas discur- dade como interlocutor qualificado.
sivas. Como uma prática social transforma-
 A visão da pessoa como autora de sua dora, esta terapia organiza-se a partir dos
história e existência, competente para contextos locais e das histórias culturais de
a ação, para o agenciamento de esco- distintas comunidades linguísticas. O res-
lhas a partir de um posicionamento peito pela diversidade e multiplicidade de
auto-reflexivo, moral e ético, podendo contextos com seus saberes locais implica
criar e expandir suas possibilidades uma terapia construída a partir da aceita-
existenciais. ção da responsabilidade relacional do

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Manual de terapia familiar | 117


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ROSENBLATT, P. C. Metaphors of family systems cation in the animal and the machine. Cambridge:
theory: toward new constructions. New York: MIT, 1961. Orig. 1948.
Guilford, 1994.

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Manual de terapia familiar | 119

8
A psicanálise das configurações
vinculares e a terapia familiar
Ana Margarida Tischler Rodrigues da Cunha
Maria Cecilia Rocha da Silva
Marilda Goldfeder
Ruth Blay Levisky

INTRODUÇÃO ca de compreensão da interação dos dife-


rentes tipos de vínculos resultou em uma
Família: é este o grupo específico que pre- confluência de referenciais cuja aplicação
tendemos analisar sob a ótica da psicaná- prática para a abordagem dos vínculos fa-
lise das configurações familiares. Todavia, miliares comporta diferentes “configura-
situar os marcos teóricos práticos de nosso ções” que se organizam a partir da flexibili-
referencial implica articular historicamen- dade inerente ao referencial. Isso é o que
te nossa trajetória como “área de família” permite seu uso para diferentes objetivos
do NESME (Núcleo de Estudos em Saúde e contextos.
Mental e Psicanálise das Configurações Vin- O propósito do capítulo é dar ênfase
culares). Ao mesmo tempo, é colocado o à experiência que a área de família e casal
desafio de acompanhar o desenvolvimen- do NESME tem vivido e que reflete não ape-
to dos conceitos que propiciaram e engen- nas o aumento de interesse pela terapia fa-
draram nosso conhecimento e nossa práti- miliar, mas também a demanda por forma-
ca. Com essa finalidade, tivemos que esco- ção e capacitação de diferentes profissio-
lher entre os vários caminhos possíveis e nais, atuando em diferentes contextos. Em
nos propusemos então a examinar inicial- comum há a busca de instrumentos mais
mente as contribuições psicanalíticas para eficientes, econômicos e rápidos, os quais
a abordagem dos grupos e a mudança de facilitem objetivos preventivos, orientado-
paradigma que implicam, até porque não res, pedagógicos, atuando com equipes
se saltou da psicanálise individual para o multiprofissionais, relações humanas, in-
vértice grupal e deste para o familiar sem ter-institucionais, empresariais, além das
um longo percurso. Nele, outros referen- metas terapêuticas em seu sentido mais
ciais foram sendo usados e assimilados para clássico. Propõe-se ainda a delinear, de mo-
dar conta de um outro objeto de estudo, do geral, o processo terapêutico, com o ob-
ou seja, a família, a qual articula o indiví- jetivo de explicitar temas, técnicas e estraté-
duo, o grupo, a sociedade e a cultura, seja gias. A seguir, caracterizaremos nossa ex-
como produto, seja como produtor de seus periência a partir das diferentes demandas,
vínculos intra, inter e transubjetivos. A bus- as quais deixam clara uma lacuna a ser

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120 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

preenchida e significada e as quais nos têm à grupalidade só serão desenvolvidas e apli-


impulsionado, apontando para um campo cadas durante a Primeira Guerra e depois
potencialmente promissor. dela, favorecidas pelas contribuições das
teorias kleinianas sobre relações de objeto.
Elas trazem luz e compreensão para o re-
DA PSICANÁLISE, AOS VÍNCULOS, lacionamento do sujeito com o objeto e para
À TERAPIA FAMILIAR... as vicissitudes dos mecanismos primitivos
da mente, permitindo com isso o desen-
Psicanálise das configurações vinculares é volvimento de conceitos indispensáveis
o nome que adotamos como representativo para as relações humanas. Vera L. Lamano
da nossa identidade; marca o “parentesco” Calil assim traduz esses conceitos:
com a psicanálise, ao mesmo tempo em que
aponta para o surgimento de outra “famí- Podemos dizer que, enquanto a psi-
lia”. Afinal, de que se trata? Uma nova for- coterapia psicanalítica instintiva en-
ma de psicanálise? Traz novos conceitos? fatiza os instintos e suas vicissitudes,
É uma psicanálise aplicada? Diríamos que a teoria das relações objetais focaliza
faz parte dos desenvolvimentos da própria o relacionamento do indivíduo com o
psicanálise e de transformações, induzidos objeto. Por exemplo, a primeira teo-
ria defende que o objeto é importante
através do estudo e da pesquisa para que
na medida em que é capaz de forne-
pudesse ser dotada de uma estrutura
cer prazer. A segunda diz que o valor
conceitual e metodológica voltada para o do objeto está em sua capacidade de
atendimento em grupo. Conservando os enriquecer os relacionamentos.
fundamentos básicos da teoria psicanalíti-
ca, seu desenvolvimento foi lento, pois as E conclui que
inúmeras e valiosas construções hipotéti-
cas de Freud relativas aos fenômenos gru- a teoria instintiva fornece um elo de
pais permaneceram inertes durante muito ligação com a biologia, enquanto a
tempo. Não poderíamos, assim, deixar de teoria das relações objetais fornece à
partir dos conceitos básicos da psicanálise psicanálise uma ligação com as ciên-
introduzidos por Freud, nos quais o incons- cias sociais. (1987, p. 118)
ciente permeia e dá estrutura aos vínculos
familiares. Freud foi o primeiro a trazer a Influenciados pelas concepções klei-
intersecção da psicanálise com a cultura, nianas e voltados às de Freud sobre grupali-
ou seja, como o indivíduo recebe como dade, autores ingleses como Bion e Foukes
herança aspectos da horda primitiva e e os franceses Kaës e Anzieu passam a ofe-
transmite-os para outras gerações. Ele se recer farta contribuição para a compreen-
preocupou também em entender o funcio- são e para o manejo dos grupos, sempre res-
namento mental do indivíduo no grupo, peitando os princípios básicos psicanalíticos.
assim como as interferências que a massa Apesar das resistências, esse movimento vai
exerce sobre o indivíduo. Compreendeu crescendo, impulsionado também pelas
através do mito de Édipo a base estrutu- mudanças histórico-culturais do pós-guerra.
rante dos processos identificatórios e da Começa a haver, então, por parte de
formação da personalidade do sujeito. Po- psiquiatras, psicólogos, sociólogos e assis-
deríamos dizer que Freud assentou as ba- tentes sociais uma crescente percepção da
ses para a compreensão do mundo mental relação existente entre os distúrbios dos re-
dos indivíduos e também da transmissão lacionamentos humanos e as doenças apre-
cultural. Contudo, suas hipóteses relativas sentadas pelos indivíduos e pela sociedade.

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Manual de terapia familiar | 121


Na Argentina, onde as conjunturas so- duais, articulou a ideia de que o membro
ciais e econômicas tornavam raras as pos- doente de uma família é o emergente, o
sibilidades de atendimento individual, a porta-voz da enfermidade familiar cujo
questão grupal passa a ser considerada por papel é se encarregar como depositário das
estudiosos e profissionais de renome, en- ansiedades e tensões – o depositado do gru-
tre eles, Pichon Rivière, que busca articu- po familiar – o depositante.
lar a psicanálise clássica e a psicologia so- O referencial teórico prático que vai
cial. Pichon amplia o conceito de relação se desenvolvendo na Argentina e no Brasil
de objeto, formulando o conceito de víncu- se amplia com as contribuições da escola
lo no qual se integram as dimensões intra, inglesa, francesa, entre outras. Entre as
inter e transubjetivas. Tais aspectos podem concepções de Bion, destacaremos o con-
ser assim compreendidos: ceito de mentalidade grupal que

 Intra. Como os objetos internalizados alude ao fato de que um grupo adqui-


se relacionam entre si e como se vincu- re uma unidade de pensamento e de
lam mutuamente: consciente e incons- objetivos o qual transcende aos indi-
ciente, pensamentos e sentimentos, par- víduos e se institui como uma entida-
te infantil e parte adulta, etc. de à parte. (Zimermann, D. E., 1995)
 Inter. Diversas formas de como o indi-
víduo se relaciona com os demais. Bion afirma também que
 Trans. Formas como indivíduos e gru-
todo grupo opera sempre em dois ní-
pos se vinculam com normas, leis e va-
veis simultâneos, opostos e interati-
lores; com papéis e funções que desem- vos, embora bem delimitados entre si.
penham no contexto social, econômi- Um nível é o que ele denomina grupo
co, político. Também alude a fantasias de trabalho, e outro é o grupo de pres-
inconscientes compartilhadas, como supostos básicos. (Zimermann, D. E.,
mitos, lendas, contos de fada, folclore, 1995)
etc.
O primeiro está voltado para os as-
As ideias de Pichon apresentadas em pectos conscientes de uma tarefa assumi-
vários textos entre 1950 e 1980 tiveram da por todos os membros do grupo; o se-
ampla repercussão nos meios psicanalíti- gundo funciona nos moldes do processo
cos argentinos e no Brasil, trazendo tam- primário e obedece às leis do inconsciente
bém conceitos importantes para o traba- dinâmico. Os pressupostos básicos opõem-
lho com grupos e os impedimentos emocio- se a todo processo de desenvolvimento,
nais que dificultam a tarefa. Contribuiu promovendo reações defensivas mobiliza-
muito ainda ao propor uma metodologia das pelo ego primitivo contra as ansieda-
de abordagem – os grupos operativos – des psicóticas. Outros conceitos bionianos
aplicável a diferentes propósitos que não estão também inseridos em nossa bagagem
apenas os grupos terapêuticos. Aqui vale teórica com famílias e nos ajudam a en-
lembrar que, para Pichon, a “doença” cons- tender a mente primitiva e o papel dos vín-
titui-se a partir do “estancamento do pro- culos no desenvolvimento. Seu conceito de
cesso de aprendizagem” e que, para ele, réverie enfatiza a importância da qualida-
qualquer processo terapêutico produz de do primeiro vínculo mãe-bebê para o
aprendizagem e qualquer aprendizagem é desenvolvimento da capacidade de pensar,
terapêutica. Ao considerar a família como de conter, de suportar frustração, de con-
pano de fundo para os problemas indivi- fiar, de conhecer, de amar.

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122 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

Ampliando as influências teóricas, imaginária que há uma unidade, al-


não podemos deixar de citar as contribui- guma coisa comum ao grupo.
ções de Winnicott, com conceitos tão sen-
síveis como os de mãe suficientemente boa, Foi do diálogo entre tais referenciais e
a importância da relação mãe-bebê para o as concepções das escolas francesa, inglesa,
desenvolvimento da criatividade, o concei- portuguesa, argentina, que surgiu o NESME,
to de objeto transicional, seus estudos so- e, posteriormente, agregou-se à sua iden-
bre o papel da família e do ambiente na tidade a psicanálise das configurações vin-
constituição e no desenvolvimento dos vín- culares como fruto do contato próximo com
culos precoces. Duas afirmações suas são os argentinos através de leituras, congres-
emblemáticas de sua contribuição: “tudo sos, etc. Tempos depois, ocorreu a diferen-
começa em casa” e “não existe nada como ciação do NESME em áreas, entre as quais
um bebê”, já que ele não pode existir sem a de Família e Casal, a área de Instituição
mais alguém, pois é parte de uma relação. e o CEPPV (Centro de Formação Permanen-
Considera que o laço original entre pais e te em Psicanálise dos Vínculos), nossa insti-
bebê é fonte para todas as ligações subse- tuição de ensino, coerente com as diferen-
quentes e também do desenvolvimento do tes configurações a serem aprofundadas.
sentimento de si mesmo. Por outro lado, o Vários autores e vários trabalhos na
bebê, antes mesmo de nascer, contribui Argentina, no Brasil, em Portugal e na Fran-
para a integração do casal e já tem lugar ça tiveram papel importante em nossa for-
em seu imaginário. Coloca, com isso, a ideia mação, oferecendo os referenciais teóricos
das influências recíprocas. A escola fran- e práticos.
cesa, resgatando ideias de Freud, apro- A psicanálise de casal e família surge
funda-se no problema de aplicar ao grupo como uma ampliação da técnica psicanalíti-
a compreensão do que ocorre no individuo. ca individual e grupal e tem na psicanálise
O conceito de aparelho psíquico grupal, de configurações de vínculos as condições
desenvolvido por Kaës, introduz a ideia de para desenvolver um arsenal teórico que
contemple a especificidade da família como
(...) um sistema de transformação da elo de ligação entre a constituição do su-
energia psíquica individual em ener- jeito biopsicossocial e o contexto mais am-
gia disponível para os vínculos inter- plo: comunidade, sociedade e cultura.
subjetivos e para os grupos em suas
instâncias. Essas transformações são
produtoras de complexos psíquicos
TRABALHANDO COM
próprios do grupo (Kaës, 1997).
OS VÍNCULOS FAMILIARES
Anzieu (1993), também da escola
francesa, destaca a realidade imaginária dos Trabalhar com vínculos do ponto de vista
grupos. Estabelece uma analogia entre o da psicanálise de configurações de víncu-
grupo e o sonho, e desenvolve o conceito los implica considerar a dinâmica conscien-
de ilusão grupal. Diz ele: te/inconsciente no contexto dos fenômenos
intra, inter e transubjetivos.
Assim sendo, o terapeuta que se dedi-
(...) pode-se admitir que toda situa-
ca ao trabalho vincular em qualquer de suas
ção de grupo (grande ou pequeno, de
trabalho ou lazer, de cultura ou ordem configurações precisa reconhecer e discri-
econômica) tem uma representação minar claramente a natureza dos vínculos
imaginária subjacente, comum a vá- que se apresentam. Eles estão sempre pre-
rios membros do grupo. Melhor: é na sentes em qualquer relacionamento e vêm
medida em que há tal representação acompanhados de emoções, ansiedades,

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Manual de terapia familiar | 123


defesas, fantasias inconscientes. Implica engloba tanto o indivíduo como aqueles
ainda considerar o outro real externo. com quem interage e com quem se consti-
tui em uma Gestalt em constante evolu-
ção. Para ele, vínculo é
Vínculo
uma estrutura complexa que inclui um
No dicionário, vem do latim vinculum (atar) sujeito, um objeto e sua mútua repre-
e significa união de uma pessoa ou coisa sentação com processos de comunica-
com outra, pressupondo uma certa dura- ção e aprendizagem. (Pichon Rivière,
bilidade, como uma ligação com nós. 1957)
Entre as inúmeras instituições que se
dedicam a estudar os vínculos, não existe Acrescenta ainda:
um consenso quanto a seu significado.
Quanto a nós, concordamos com Waldemar O vínculo é uma estrutura dinâmica
José Fernandes quando propõe: em contínuo movimento, relacionado
com motivações psicológicas resultan-
Vínculo é a estrutura relacional em do em pautas de conduta que se ex-
que ocorre uma experiência emocio- pressam nos campos psicológicos in-
nal entre duas ou mais pessoas ou terno e externo.
partes da mesma pessoa. Pode ser
intra, inter ou transubjetivo. Suas propostas devem-se ao fato de
conceber o homem como totalidade inte-
Na linguagem psicanalítica, o uso do grada dialeticamente pela mente, pelo cor-
conceito de vínculo é relativamente recen- po e pelo mundo exterior.
te: Bion considera o vínculo como a rela- Janine Puget e Isidoro Berenstein es-
ção entre duas ou mais pessoas em que tão entre os que consideram o vínculo como
ocorre sempre uma experiência emocional
e propõe três modalidades de vínculos: vín- uma estrutura de três termos: temos
culo de Amor (L), de Ódio (H) e de Conhe- dois pólos, ou seja, dois egos e um
cimento (K). Posteriormente, Zimerman conector (componente emocional),
propõe uma quarta modalidade de víncu- que dá conta de ligar a ambos e que
se expressa na comunicação. (Puget e
lo: o de Reconhecimento (R). Bion fala ain-
Berenstein, 1993)
da nos ataques aos vínculos, como uma das
características do funcionamento psicótico
Esses autores chamam de relação in-
da personalidade que levariam à falta do
trasubjetiva aos registros no mundo inter-
desenvolvimento da simbolização, da co-
no de objetos parciais ou totais com os quais
municação, da criatividade e do pensamen-
o ego mantém diferentes tipos de conexão.
to em geral. Em qualquer grupo, o campo
Reservam o termo vínculo para quando há
dinâmico processa-se em dois planos:
a presença de um referencial externo. Por-
1. grupo de trabalho; e tanto, em relação ao trabalho com víncu-
2. grupo de suposto básico, regidos por los, o outro real externo terá que ser inexo-
desejos reprimidos, ansiedades e defe- ravelmente considerado.
sas apoiados na interferência de fato- O vínculo é estabelecido a partir de
res inconscientes (que são de natureza um contrato inconsciente que configura
extremamente primitiva, ligadas às re- uma nova organização com base em com-
lações de objetos parciais). plementariedade e simetria, segundo um
mecanismo de delegação cujo suporte são
Também Pichon Rivière refere-se ao as expectativas, as necessidades e as cren-
vínculo como uma estrutura dinâmica que ças irracionais de cada um que compõem

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124 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

a fantasia básica comum ao grupo todo. O ciações e manifestações que gravitam em


mecanismo dessa delegação é a identifi- torno de uma ansiedade básica comum.
cação projetiva e seu veículo, a comuni- Considera-se que os cônjuges e os de-
cação. mais membros de uma família possuem um
A identificação projetiva, conceito-cha- mundo interno compartilhado, o que im-
ve para a abordagem psicanalítica da inte- plica a ideia de fantasias inconscientes co-
ração e da psicologia interpessoal, é o pro- muns a todos. Na terapia familiar, são os
cesso pelo qual os impulsos e partes do mecanismos de defesa e a transferência
mundo interno são cindidos e projetados comum que deverão ser trabalhadas pelo
em uma fantasia, em um objeto; é um me- terapeuta. Tais fantasias geram ansiedades
canismo de defesa que influencia funda- que induzem os membros da família a usa-
mentalmente a relação com os objetos. Daí rem mecanismos complementares para li-
a importância de seu reconhecimento na dar com elas, e, na terapia, os membros
terapia familiar. poderão recuperar partes cindidas e depo-
Posteriormente, o conceito foi amplia- sitadas em outro membro através de inter-
do e a identificação projetiva, vista como pretações ou de perguntas que facilitem o
recurso para: resgate do sentido e o significado de suas
trocas.
1. defesa (negar e repudiar aspectos in- O conceito que dá suporte à concep-
desejáveis do eu); ção de fantasias compartilhadas é o de ma-
2. modo de comunicação; triz, o qual diz respeito ao conceito de co-
3. forma primitiva de relações objetais; municação. Para Foulkes, que desenvolveu
4. caminho que leva à mudança psicoló- esse conceito, o homem é sempre visto em
gica (na dependência de uma relação sua rede de comunicação agindo em dois
continente). níveis: inconsciente e consciente. Diz ele:

Mas o que seria uma fantasia básica Matriz é a hipotética trama de comu-
comum? nicação e de relação em um dado gru-
Quando as pessoas se reúnem, há coi- po. É o termo comum a todos os mem-
sas inevitáveis que sempre ocorrem: for- bros do qual dependem em definitivo
ma-se um campo grupal dinâmico em que o significado e a importância de tudo
gravitam fantasias, ansiedades, identifica- que acontece no grupo. (Foulkes;
ções, papéis, etc. Ocorre interação afetiva Anthony, 1967)
múltipla e variada.
Cada um dos integrantes projeta, en- Waldemar José Fernandes (2003)
tão, suas fantasias inconscientes sobre os propõe chamar essa matriz relacional in-
demais, relacionando-se com eles segun- terna de matriz vincular, que é introjetada
do essas projeções que se evidenciam atra- a partir da relação mãe-bebê. Assim, pen-
vés da delegação e da assunção de papéis. samos que as pessoas se relacionam a par-
Através do porta-voz, as fantasias se mani- tir de matrizes vinculares, que são modelos
festam e produzem o que é característico de vínculos que vão sendo introjetados
do grupo: o fenômeno da ressonância que desde o nascimento a partir dos modelos
vai se propagando em um nível não-explí- externos, inicialmente os pais. A matriz vin-
cito, mas que produz um tema comum a cular básica é a matriz edípica. Matrizes
todos, embora com roupagens diferentes. vinculares são configuradas como fantasias
A ressonância consiste no fato de a inconscientes. Há ainda um tipo de conhe-
mensagem de cada indivíduo ir ressoando cimento grupal que é transmitido filogene-
no inconsciente alheio, produzindo asso- ticamente através das gerações.

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Manual de terapia familiar | 125


O casal constrói um contrato incons- fantasia, eram vistas a partir do indivíduo,
ciente, no qual cada um traz consigo suas e o modelo de compreensão causal era li-
heranças familiares que vão sendo ressigni- near. Assim, algo acontece com o paciente
ficadas e transformadas ao longo do tem- por causa das más companhias, de seus
po e das vivências. Os sujeitos tendem a professores, de uma experiência na infân-
buscar um outro para se vincular na expec- cia...; com isso, as teorias explicativas eram
tativa inconsciente de alcançar um outro lineares: para que B surja, A deve aparecer
ideal, a projeção de seus desejos (Blay antes.
Levisky, 2003). Algumas experiências emo- Uma mudança de paradigma surge
cionais são representadas e se transformam quando consideramos que a unidade a ser
em história; outras não são simbolizadas e observada são as relações entre os indiví-
podem passar para outras gerações. A pers- duos; quer dizer, o vínculo e seus proces-
pectiva transgeracional abre espaço para sos de interação. Aí se inclui o conceito de
pensar formas de atuação que podem ser a interdependência, reciprocidade e retroali-
expressão de fantasmas transgeracionais mentação, cujo postulado é que B influi
operacionalizados em termos vincular e sobre A que, por sua vez, afeta B, em um
que revelam uma intenção de busca de sig- círculo de acontecimentos mutuamente
nificado, de representatividade, de nome- transformadores. Essa visão introduz uma
ação e de elaboração da pré-historia vincu- complexidade de influências recíprocas; é
lar. Essa pré-história leva a compreender o um modelo circular, próprio da teoria
sujeito como herdeiro de múltiplas experi- sistêmica que nos ajuda a pensar o que
ências ancestrais, as quais são transmiti- ocorre em todos os grupos. Correspondem
das de geração em geração. As heranças ainda às mudanças de ótica, introduzidas
não se escolhem, elas existem e se insta- pela teoria kleiniana das relações objetais.
lam à nossa revelia em nosso mundo in- Do ponto de vista da terapia sistêmica, a
terno, podendo levar o sujeito a ser um comunicação afeta o comportamento, de-
prisioneiro de uma história que não é to- finindo os padrões de interação no siste-
talmente sua. Afetos, representações, fan- ma familiar.
tasias, idealizações, valores, mecanismos
defensivos, mitos, processos identificató-
rios são transmitidos e garantem o tipo de Axiomas básicos da
qualidade vincular. Nem sempre o que é teoria da comunicação
transmitido é representado na mente do
sujeito, mas pode reaparecer em outras ge- 1. Impossível não comunicar.
rações (Piva, 2006). 2. Toda comunicação tem aspectos refe-
renciais de conteúdo e aspectos cona-
tivos, vinculares, que classificam os re-
Comunicação ferenciais; é a metacomunicação.
3. A natureza de uma comunicação depen-
Se no conceito de vínculo obrigatori-
de da pontuação das sequências comu-
amente ocorre experiência emocional, nicativas entre os indivíduos comuni-
podemos dizer que no vínculo as par- cantes.
tes envolvidas estão sempre em comu- 4. Os seres humanos se comunicam tanto
nicação. digital como analogicamente. Na comu-
nicação analógica, temos gestos, forma
Tradicionalmente, a doença, as difi- de vestir, olhar, etc., de origem arcaica;
culdades de aprendizagem ou problemas a forma digital seria a comunicação
de comunicação, assim como a mente e a mais evoluída.

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126 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

5. Todos os intercâmbios comunicativos de se colocar espacialmente ou pelo uso


são ou simétricos (baseados na igual- do tempo; tudo isso dá elementos para a
dade) ou complementares, baseados na compreensão do conteúdo verbal e outras
diferença. A saúde se apoiaria na al- vezes o contradizem. Identificar os duplos
ternância de padrões simétricos e com- vínculos, ou seja, o uso da metacomunica-
plementares e na sua adequação e con- ção, é de grande importância para a com-
gruência. preensão do funcionamento familiar. Em
relação às famílias, é bom ressaltar que,
A teoria da comunicação, baseada nas em função dos vínculos preexistentes en-
pesquisas desenvolvidas por Bateson, Jay tre seus membros, existe um padrão de
Haley, Don Jackson e Weakland é uma di- comunicação já estabelecido que precisa
mensão fundamental da teoria sistêmica ser compreendido.
familiar. Seu desenvolvimento e sua apli- É através da comunicação que pode-
cação na clínica tiveram influência signifi- mos perceber os vínculos (de ódio (H),
cativa também nas demais abordagens. A amor (L), conhecimento (K) e de reconhe-
partir dos estudos sobre padrões comuni- cimento (R) – vínculo de reconhecimento
cativos nas famílias esquizofrênicas, che- proposto por Davi Zimermann).
gou-se ao conceito de duplo vínculo e à Comunicar significa tornar único, co-
ênfase no fato de que quando duas ou mais mum. O líder formal do grupo também se
pessoas interagem, elas constantemente re- comunica: por palavras ou pelo setting que
forçam e estimulam o que está sendo dito, organiza o espaço físico do grupo, os ho-
o que é feito de tal forma, que o padrão de rários, pagamento e regras de funciona-
comunicação dos participantes de uma mento que estejam de acordo com os ob-
interação define o relacionamento entre jetivos do grupo e com suas especificida-
eles. Por duplo vinculo, Bateson se refere des. Mas vale lembrar que é alvo de in-
às mensagens em que o emissor envia co- tensas identificações projetivas, o que de-
municações incongruentes em relação aos manda uma formação cuidadosa baseada
níveis de informação e metacomunicativo, no clássico triângulo teoria, supervisão,
de tal forma que o receptor fica em um análise individual ou coletiva. O coorde-
impasse ou em uma armadilha, sem saída. nador ou terapeuta está nos dois pólos da
Por exemplo, a mãe que diz para o filho comunicação; portanto, sujeito aos mes-
caçula: “Você pode escolher entre a blusa mos processos, seja como receptor, seja
verde ou preta que comprei, só que já dei como emissor de mensagens, atividade
a preta para seu irmão”. Ela o leva a acre- que inexoravelmente implica os níveis
ditar que poderia ter escolha ao mesmo consciente e inconsciente.
tempo em que se contradiz. Os referenciais para a compreensão
As metamensagens congruentes são do funcionamento dos grupos em geral e
aquelas em que duas ou mais mensagens do grupo familiar especificamente são vá-
são emitidas ao longo de diferentes níveis, rios. Luiz Carlos Osorio esquematiza as
sem que nenhuma delas contradiga seria- disfunções na vida familiar em:
mente a outra. Já a metamensagem incon-
gruente é aquela em que duas ou mais  distúrbios da estrutura familiar: relati-
mensagens emitidas ao longo de diferen- vos à separação do casal e a cisões intra
tes níveis entram em contradição. e intergeracionais;
Observar a comunicação revela mui-  distúrbios dos vínculos familiares: rigi-
tas coisas, e ela não se dá apenas pela pa- dez ou lassidão;
lavra, mas também por gestos, postura,  distúrbios de identidade do grupo fa-
olhar, mímica, maneira de se vestir, forma miliar: famílias aglutinadas e dispersas;

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Manual de terapia familiar | 127


 distúrbios do comportamento intrafa- representação da palavra, na longa, com-
miliar: violência, perversões sexuais, plicada e incerta busca da “coincidência”
abandonos, abuso de poder (Osorio e que corresponde a uma ilusão e no desen-
Valle, 2002, p. 80). contro inevitável.
Segundo eles, teríamos então:
Virgínia Satir, terapeuta da linha sis-
têmica que trabalha com a comunicação, 1. vínculo adesivo ou narcisista dual;
pensa a tarefa terapêutica como “ensinar 2. vínculo de posse: possuído-possessivo;
uma nova linguagem” por meio da qual os 3. vínculo de controle (controlado-contro-
membros envolvidos sejam capazes de: lador) ou de terceridade limitada;
4. vínculo amoroso (ser amado-amar) ou
 checar suas percepções com o outro; de terceridade ampliada (Puget e Be-
 enxergar a percepção do outro sobre si renstein, 1994).
mesmo;
 confessar seus medos e suas expectati-
vas ao outro; O SISTEMA TERAPÊUTICO
 enviar ao outro mensagem clara, com E ETAPAS DO PROCESSO
alto grau de congruência entre o ver-
bal e o não-verbal. Fazer um recorte do sistema terapêutico e
de suas etapas não pretende abarcar todas
As questões de desenvolvimento do as possibilidades técnicas e teóricas que
ponto de vista psicanalítico nos levam à divi- variam de acordo com uma multiplicidade
são das fases libidinais (oral, anal, fálica e muito grande de fatores.
genital). Como terapeutas familiares, é ne- Na psicanálise das configurações vin-
cessário pensar quais os ingredientes do que culares, o sistema terapêutico inclui o tera-
Winnicott chama de “ambiente suficiente- peuta (seu referencial teórico, seus víncu-
mente bom” para que os diferentes ciclos los familiares, sociais, seus valores, etc.), a
vitais possam cumprir “as tarefas psicológi- família (nuclear e extensa, às vezes, vizi-
cas” necessárias para o percurso da depen- nhos, empregados, etc.) e considera-se ain-
dência máxima à autonomia sempre relativa. da o encaminhador, a cultura (em relação
Do ponto de vista vincular, Janine à terapia, ao sintoma, aos valores compar-
Puget e Berenstein propõem uma classifi- tilhados, às leis, etc. Há que se considerar
cação de tipos de vínculos, baseada tanto também o ambiente onde ocorre a terapia:
no ponto de vista do desenvolvimento, à privado, institucional, público (como jar-
luz da perspectiva da fusão/discriminação, dim, rua, praças), escolas, sala de aula, co-
como da aceitação do outro. Esse conceito légio, congresso, condomínio, empresa,
é baseado nos pressupostos do complexo consultório, etc.
de Édipo, que são relacionados desde Freud A abordagem psicanalítica dos gru-
com a entrada do indivíduo no grupo. pos e do grupo familiar tornou-se possível
Quando se leva em conta as modalida- quando o indivíduo passou a ser estudado
des de intercâmbio entre um ego e outro, é não isoladamente de seu contexto.
possível classificar os vínculos como inter- Além do próprio setting,
câmbios corporais, linguísticos e situacionais.
Para definir níveis de discriminação, o que torna a situação de grupo psi-
falamos na passagem do pólo narcisista ao canalítica é o manejo das comunica-
edípico. É o contato com o distinto que ções dos pacientes feito pelo tera-
conduz à constituição de vínculos cada vez peuta, de tal forma que as interações
mais complexos, isto é, mais próximos da de uns para com os outros são com-

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128 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

preendidas do vértice de seu signifi- O estudo das relações passa a ser a


cado transferencial e contratransfe- partir desse vértice: o estudo dos elos de
rencial. ligação mais do que o dos termos unidos
por eles. É aqui que os estudos da comuni-
Lembra ela, porém, que na psicanáli- cação humana contribuem de forma deci-
se das configurações vinculares o outro real siva para as abordagens da psicanálise das
externo, não-redutível à mera projeção da configurações vinculares. Neste contexto,
fantasia, ocupa um lugar também valori- o da terapia familiar e da psicologia social
zado, e este é seu diferencial. e dos grupos, as contribuições da Teoria
Geral dos Sistemas de Von Bertalanffy não
As comunicações são tratadas como podem ser menosprezadas, assim como
associações livres, as interações como
suas consequências para o desenvolvimen-
dramatizações de fantasias incons-
cientes, e as redes de comunicação que to da terapia familiar.
se estabelecem são compreendidas a A proposta de lidar com a complexi-
partir do conceito de matriz grupal. dade da interação entre diversos sistemas
(Svartman, 2003) oferece os princípios a serem aplicados a
todos eles e, com isso, instrumentaliza a
O crescente reconhecimento quanto abordagem da família como sistema entre
à importância dos distúrbios familiares co- sistemas e a possibilidade de aplicação para
mo fator essencial nas dificuldades apre- ir além: da causalidade linear para a cau-
sentadas pelos indivíduos, pelas instituições salidade circular; postura necessária para
e pela sociedade têm levado a ciência a fa- a abordagem dos grupos, das instituições,
zer progressos nesse campo a ponto do tra- das famílias e de suas influências recípro-
balho com a família ter se tornado uma ne- cas. É dessa visão que importamos técni-
cessidade para vários campos de atuação. cas e estratégias – como o questionamento
Saindo dos consultórios psiquiátricos e psi- circular, o genograma, a linha do tempo fa-
cológicos, aprender a lidar com os vínculos miliar, entre outras específicas da aborda-
familiares passou a ser preocupação nas es- gem sistêmica – para aplicá-las com pro-
colas, nas empresas, nos programas de saú- pósitos coerentes com nosso referencial. O
de pública, nas instituições de justiça (va- uso do genograma pode intermediar a com-
ras da infância e adolescência), nos espa- preensão dos aspectos intergeracionais e
ços de aprendizagem e médicos em geral. facilitar a formação da intersubjetividade,
A necessidade de desenvolver uma conforme diz Marilda Golfeder (2000). A
linguagem comum entre os profissionais de
diferentes áreas equivale a “cuidar” dos linha do tempo familiar (...) tem-se
cuidadores, da comunidade científica, so- mostrado um instrumento simples,
frida como sistema que reproduz divisões prático, de fácil elaboração, o qual
e competição, assim como ocorre nos sis- complementa o genograma e sobre-
temas familiares. A comunicação nas equi- tudo tem função diagnóstica e tera-
pes multiprofissionais e o trabalho interins- pêutica. (Cerveny, 1994)
titucional têm nos pressionado para desen-
volver técnicas que, mantendo a coerência Inevitavelmente, defrontamo-nos com
com o referencial psicanalítico, diferen- a própria questão sistêmica: a de articular
ciam-se das abordagens clássicas, além de e associar os vários sistemas de pensamen-
adaptar sua aplicabilidade para fins de pre- to, ou seja, o sistêmico, o psicanalítico e o
venção, de orientação, de integração da social. Todavia, eles não são excludentes,
equipe multi-profissional e de relações in- e a despeito de preconceitos, os diferentes
terinstitucionais. podem ser complementares e ampliar os

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Manual de terapia familiar | 129


vértices de compreensão e atuação no cam- periência, com as expectativas próprias da
po das relações humanas. instituição à qual pertencemos e de nossas
A demanda por terapia familiar rara- famílias, com valores pessoais e com nos-
mente é espontânea, porque os familiares sas ideias sobre qual é nosso papel (real e
não sabem que suas dificuldades podem fantasiado) e também com o que conhece-
estar relacionadas à sua modalidade de mos ou pensamos conhecer sobre o
relacionamento como família. Eles não têm encaminhador, o que vai “colorir” nossas
consciência de que existe uma pressão in- expectativas e pré-concepções. Poder nos
terna agindo sobre o sistema. Por mais di- despir dos preconceitos, “sem memória e
ferentes que sejam, as famílias sempre se sem desejo”, sugeridos por Bion, nos ajuda
apresentam com um padrão de interação a lidar com o não-saber, abrindo caminho
centrado na convicção de que existe algo para a busca do conhecimento (vínculo K).
errado com um de seus membros: o pacien- A interação desses elementos produz
te emergente ou paciente identificado (PI). um vínculo complexo que vai influir no
A família nos procura com ideias so- maior ou menor conflito com a tarefa e,
bre qual é seu problema, sobre o que espe- consequentemente, com seu êxito.
rar de nós (expectativas reais e fantasiadas), O sistema terapêutico vai se consti-
e, em função de tais pré-concepções, nos for- tuindo a partir do encontro, do enfoque,
çam a fazer parte de um roteiro. O enca- do profissional ou dos profissionais envol-
minhador, sua compreensão sobre o traba- vidos no encaminhamento, no atendimen-
lho para o qual estamos habilitados e suas to, no local onde ocorre o atendimento, nos
motivações para orientar têm também papel objetivos compartilhados.
importante. É comum recebermos pacientes
que, após peregrinação em busca de ajuda,
chegam a nosso consultório reclamando que Etapas do processo
o médico disse que eles não tinham nada,
além de um forte sentimento de que esse Pensar um processo terapêutico com prin-
nada que dói é bobagem ou mentira. Outras cípio meio e fim, com suas características
vezes, escolas, conselho tutelar, varas de e com seus instrumentos guarda analogias
família, não sabendo mais como lidar com a com a concepção da família em seus dife-
situação, encaminham pacientes como forma rentes ciclos vitais e com a predominância
de se livrarem de problemas. Reproduzem de “tarefas psicológicas” necessárias a seu
mecanismos de depósito já contidos no siste- desenvolvimento como grupo de trabalho.
ma familiar. Ao se defrontarem com o senti- Portanto, sua finalidade é mais didática e
mento de impotência, adoecem também e, não substitui as realizações que só a expe-
nesse momento, podem passar a usar riência viva oferece. Em contrapartida, per-
profissionais ou intituições como os deposi- mite explicitar conceitos e instrumentos a
tários de suas partes impotentes das quais serviço do desenvolvimento do grupo fa-
precisam se manter longe. Contatar os miliar e do processo, e é útil para pensar
encaminhadores é importante no sentido de questões inerentes a qualquer processo
unir esforços e compreender as dificuldades terapêutico e mesmo os de orientação, os
e demandas. É a partir delas que o trabalho de aprendizagem, os preventivos, o traba-
com os encaminhadores aperfeiçoa nossa lho com equipes, a experiência de minis-
prática. Encaminhador e terapeuta também trar cursos. O desenvolvimento de traba-
constituem um vínculo a ser cuidado, já que lhos nesse sentido também tem sido um
fazem parte do sistema. desafio na aplicação de nosso referencial.
Nós recebemos a família com nosso As questões do tempo de duração va-
referencial teórico e prático, com nossa ex- riam, mas é bom cosiderar que devem aten-

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130 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

der às necessidades da ténica psicanalítica a demanda, avaliar as possibilidades de


no que diz respeito ao manejo da transfe- atendimento e, na maior parte das vezes,
rência e ao desenvolvimento do processo a “tratar” da família para que possa rece-
com princípio, meio e fim. Isso inclui as ber ajuda.
técnicas de intervenção breve que buscam Elas terão uma dinâmica própria con-
focar os problemas e agilizá-los. forme o encaminhamento, o contexto do
atendimento e os objetivos a que se pro-
Não se trata de substituir teorias e põem. É comum termos que lidar com os
métodos já estabelecidos, mas sim de pais já ao telefone, no sentido de conseguir
acrescentar (...). (Donato, 1999)
sua colaboração para o primeiro encontro.
Às vezes surgem resistências à proposta do
Temos usado, por exemplo, algumas
encontro coletivo, tentativas de manipula-
estratégias como discussão de um texto, de
ção de horários. As informações sobre quem
um conto de fadas (Cunha, 2004), de um
encaminhou, quem ligou, quais os membros
filme, de colagem, de dramatizações.
da família envolvidos, idade, profissão, to-
Propomos alguns critérios para avalia-
das são informações importantes.
ção quando entramos em contato com um
O objetivo básico dos encontros é ob-
grupo familiar e no término do processo:
ter informações e oferecer um perfil coeren-
 fluidez das comunicações entre os mem- te com a tarefa e seus objetivos. O impacto
bros; que a família vai produzindo em nós, as
 dinâmica de conflitos, defesas e comu- queixas, a forma como se organiza para pe-
nicação, afetando o desempenho dos dir ajuda, como se distribui na sala, quem
papéis e das funções; fala primeiro e como os demais membros
 flexibilidade para assumir os papéis fa- vão se envolvendo com o trabalho e o clima
miliares e as funções parentais e alter- emocional vão contextualizando a família
nância de funções diferentes ciclos vi- e informando sobre seus padrões de comu-
tais (função materna e paterna); nicação, organizando, com isso, nossas es-
 sintomas e suas modificações; tratégias. Geralmente, usamos uma combi-
 plasticidade dos mecanismos de defesa nação de entrevista livre e entrevista diri-
em todos os membros; gida. A entrevista livre, continente para que
 contenção das ansiedades psicóticas e falem livremente sobre o que os trouxe, já
do narcisismo infantil; se constitui em uma postura “terapêutica”
 capacidade de auto-observação, obser- desde o início, na medida em que a aceita-
vação dos outros e da interação; ção, o acolhimento da ansiedade e o inte-
 facilidade dos pais para a regressão útil resse genuíno sobre suas dificuldades ten-
(identificando-se com as dificuldades dem a resgatar a esperança de ser compre-
dos filhos); endido, favorecendo a colaboração de to-
 disponibilidade para cooperação; dos para a continuação do processo. A en-
 compreensão das necessidades evolutivas trevista dirigida vai colhendo a queixa, ou
de cada membro do casal e da família; seja, o que cada membro pensa sobre o
 fusão e discriminação; problema, as tentativas de lidar com a si-
 aceitação do outro. tuação. Apresenta, ao mesmo tempo, “as
regras do jogo” do pensamento circular e
interativo (quando alguém faz isso, como
Entrevistas preliminares você se sente e quem faz o que), indicando
que interessa a participação de todos. Nes-
As entrevistas preliminares são a porta de se caso, o importante é compreender o pro-
entrada que nos ajudarão a compreender blema, apresentar a forma de trabalhar

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Manual de terapia familiar | 131


com toda a família e lidar com as resistên- na, mas, diante da frustração frente ao
cias iniciais que invariavelmente surgem. desenho, tem uma crise e rabisca-o todo
Há que se ler nas entrelinhas, obser- com o lápis marrom. Fica amuada, até que
vando a distribuição de papéis, funções, suas se interessa pelo desenho de João – um
distorções, alianças, a comunicação verbal rapaz em cima de um carro de polícia, ex-
e não-verbal. Que padrões de relação estão plica ele, desenhando um muro alto de pe-
em jogo para mudar e para manter o sinto- dra ao redor dele. É ajudado pela irmã e
ma? Que lugar ocupamos em seu imaginá- pelo pai, enquanto a mãe olha meio deso-
rio? São perguntas que vão organizando um lada. Questionada, diz que aquele muro de
“diagnóstico” e as metas de trabalho. pedra estragou tudo. Papai inicia uma ten-
O acordo é feito a partir de um míni- tativa de ampliar as portas. O terapeuta
mo de sentimento da família de que todos comenta que, com aqueles muros, fica di-
precisam de ajuda. Assim, vale a pena pen- fícil se encontrarem. Maria, alegre, diz:
sar e usar estratégias e técnicas que aju- “Então vamos construir túneis” e começa a
dem tal percepção. O desenho da família desenhá- los por baixo dos muros; João diz
(desenho conjunto livre em uma só carto- preferir pontes. “Será que construir túneis
lina), o genograma, a linha do tempo fami- e pontes entre vocês é nosso trabalho
liar, a entrevista conjunta com os pais, en- aqui?”, pergunta o terapeuta.
quanto as crianças recebem brinquedos e
material gráfico, são recursos que ofere- Brincar é algo sério, que depende do
cem a oportunidade de conversar sobre o relacionamento estabelecido desde
que fizeram e sobre o trabalho uns dos muito cedo com a mãe e ao longo da
outros, organizando um conhecimento e convivência construída por uma boa
maternagem (...) Cada mãe tem seu
uma dinâmica em que cada percepção tem
próprio jeito para cuidar de seu filho,
importância e os convida para entrar no com quem vai construir uma dupla
mundo das interpretações e da busca de ímpar. Cada terapeuta constituirá um
significados. O convite para que relacionem conjunto ímpar com seu grupo. (Oli-
o que fizeram com seus sintomas pode en- veira, p. 157)
tão ser aceito de outra forma, além de criar
uma experiência concreta e compartilha-
da sobre a qual falar. O lúdico da situação Compreendendo a família
também ajuda a relaxar e oferece dados e aliança terapêutica
importantes que podem ser compartilha-
dos de forma simples pelo terapeuta na Caracterizada pela necessidade de conti-
busca de cooperação e metas para o traba- nência e contenção, a aliança terapêutica
lho que tem pela frente. é fundamentada na percepção da necessi-
dade de ajuda e da ineficiência de suas ten-
tativas de solução. (Os familiares promo-
Um exemplo vem defesas e busca de alianças com o
terapeuta para conseguir um atestado de
A família desenhara em conjunto: o pai fez inocência e se livrarem de sentimentos de
um prédio (que mereceu a observação de culpa, ou se unem para fazer frente ao
João de 8 anos: é engenheiro, mas faz tudo terapeuta que os ameaça com seu julga-
com porta pequenina e quase não tem ja- mento.) Se na entrevista preliminar a per-
nelas!); a mãe, enquanto desenha uma casa gunta é quem e como chegaram aqui, este
cercada por um lago com patinhos, critica é o momento de questionar as razões de
seu próprio desenho, chamando-o de in- estarem ali. É hora de se aproximar do sin-
fantil; Maria, 5 anos, desenha uma meni- toma que, como comunicação, pede aju-

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132 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

da, mas, antes de tudo, compreensão, en- rio, entre outros fatores. O sintoma é en-
trando o terapeuta em sua história, em sua cenado e inclui o terapeuta, a quem é de-
intimidade, atento às explicações do “por legado um papel, uma função que remete
que acham que isso acontece”. A resistên- às projeções transferenciais. O trabalho
cia gira em torno de se expor, comungar terapêutico no sentido de tirar o foco do
dificuldades; afinal, “roupa suja se lava em paciente identificado desviando-o para a
casa”; as fantasias remetem ao retorno do interação familiar redefine a queixa e é o
projetado. O terapeuta é solicitado a to- passo mais importante para caracterização
mar partido, e é essencial que possa entrar e estruturação da terapia. Está, porém,
em ressonância com a angústia trazida e destinada a originar um confronto entre
compreendê-la ao mesmo tempo em que família e terapeuta, como sugerem Puget
vai resgatando a possibilidade de olhar e e Berenstein (2000). Vivido pela família
examinar o que é feito e dito, além de ofe- como ataque e perseguição, tal momento
recer um tipo de compreensão que inclui a desperta emoções poderosas que acirram
todos. O perigo desse momento é a ten- defesas inconscientes, destinadas a anular
dência à ruptura e às soluções dilemáticas a percepção de que existe um padrão de
que surgem como fruto dos mecanismos intercâmbio familiar que deve ser encara-
de delegação. Mas, afinal, delegam o que do como sua própria criação. É um momen-
a quem? (delegam papéis através de me- to de ansiedade e, ao mesmo tempo, cria
canismos de defesa frente ao novo em que oportunidade para compreender a relação
se criam expectativas irreais). Esses meca- e gera conhecimento. Que instrumentos
nismos nos ajudam a compreender suas temos para lidar com as fantasias e com
fantasias e sua transferência para o “siste- esses mecanismos? O terapeuta trabalha o
ma terapêutico”; nos põem em contato com tempo todo para conter essa ansiedade
as cenas temidas, e, através delas, pode- crescente, funcionando como continente
mos deduzir, intuir ou sentir contratrans- que recebe, absorve e não desvia nem atua
ferencialmente seus argumentos. Interferem as intensas identificações projetivas, mas
com o vínculo K, e conhecer, afinal, é es- tenta digeri-las e devolvê-las desintoxica-
sencial para compreender o objetivo desse das. A meta é tornar consciente o incons-
momento. ciente, resultando em interpretações ou
Nesse caso, muito mais importante propostas de diferentes instrumentos que,
que o “discurso”, muitas vezes cooperativo por sua concretude, facilitam a apreensão
em termos explícitos, é o “ler nas entreli- do que não está explícito. É o caso do con-
nhas, surpreender e significar o clima emo- fronto com o real através de perguntas, do
cional que vai se estabelecendo e do qual questionamento circular, que facilitam a
todos são coadjuvantes”. Um dos objetivos percepção da criação imaginária, o uso de
importantes seria o tornar inter o que antes cenas psicodramáticas para diferentes mo-
se compreendia como intra e, com isso, ir mentos e contextos. Por exemplo, o que
configurando os mecanismos de deposi- você escuta quando alguém diz que quer
tação, a aceitação de roteiros e parcerias ir para casa da avó no fim de semana?;
inconscientes para não “mudar o jogo”. “Você sabia que ele pensava assim?”; “O
que vocês acham do que ele acha?”. As res-
postas geralmente trazem os objetos inter-
Transferência e sintoma nos projetados, os quais delineiam os pa-
na situação terapêutica drões de relacionamento que toda a famí-
lia compartilha de forma simétrica ou com-
A tranferência manifesta-se por atrasos, plementar e ajudam a todos a perceber o
atuações, propostas de mudança de horá- quanto inferem o que não sabem, apresen-

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Manual de terapia familiar | 133


tados que estão sendo ao mundo subjetivo reconhecer como outro, o mesmo e como
e desconhecido do outro. Coloca-se em todos. Mudar é sentido, muitas vezes, como
questão sua forma de aceitar a alteridade, traição em relação aos acordos inconsci-
as diferenças, mobilizando os núcleos entes e mesmo concientes. Reconhecer o
simbióticos e narcísicos para serem elabo- que é perdido com a mudança e o temor
rados ou evidenciando as disputas de po- trazido pelos ganhos vai ajudando a fazer
der e os mecanismos de onipotência e escolhas não-idealizadas nem mágicas, e
impotência, próprios desse nível de comu- as decisões de “pagar o preço” de mudar
nicação. Constatamos que entramos agora implica sempre negociações. Também im-
no domínio da transferência, situação que plicam confrontar os mitos que permeiam
corresponde à atribuição, ao terapeuta, das a família.
características do mundo interno do pa-
ciente com seus bons e maus objetos. Os
familiares reproduzem, então, o campo Redefinição de papéis
emocional cristalizado em que a experiên- e negociações
cia emocional não serve para o pensar. Este
Quando todos podem se ver de outro
é um momento difícil também para o tera-
modo, há condições para redefinir papéis,
peuta, às voltas com seus próprios objetos
apoiar-se mutuamente nas tentativas e de-
internos e sujeito, por isso, a atuações con-
nunciar as recaídas de cada um. Isso leva a
tratransferências. Elas auxiliam na compre-
um esforço para pôr em prática os novos
ensão das angústias para usá-las como base
conhecimentos adquiridos, alimentando
para a interpretação; porém se ceder às
um processo produtivo, maior consciência
pressões externas e internas, terminará por
de si mesmo, do outro e da interação. Tam-
tornar-se apenas outro participante.
bém ocorrem dificuldades de resistência.
Manobras para paralisar o terapeuta, aban-
Questionamento do processo donos pela idealização das melhoras ou por
desesperança a qualquer mudança preci-
Mobilizados pela dificuldade de pôr em prá- sam ser compreendidas e trabalhadas.
tica o que foi percebido, surgem a crise e a Há um relato de um caso como exem-
resistência à mudança. Ou o terapeuta é o plo: após uma sessão em que a mãe reco-
culpado, ou denuncia-se um dos membros. nhecera que quem precisava examinar se
Este é momento de explicitar os de- o filho havia se lavado direito era ela, co-
sejos de mudança, as tentativas nesse sen- meçou a surgir entre todos o mesmo im-
tido, ao mesmo tempo em que surgem o pulso controlador sobre se a mãe estava
temor do “novo” e o recrudecimento de “limpando” suas relações. Acusavam-na, e,
ansiedades persecutórias e depressivas. É ao mesmo tempo em que se ressentia de
no interjogo dessas duas posições que se ser objeto do mesmo controle que exerce-
torna possível a elaboração dos lutos e ra, seus esforços para mudar e também a
ganhos do desenvolvimento e de seus im- frustração faziam-se presentes: “Viu só o
pedimentos. que a senhora, doutora, fez (referindo-se
Há que se considerar a presença tan- a “como estava sendo desrespeitada)?”
to das forças conservadoras como as for-
ças que impulsionam para a mudança. Pe- Término do processo
quenos progressos podem ser observados,
apesar de negados. Já não é mais o de sem- A perspectiva de separação é inerente ao
pre, e agora o papel de apontar as peque- processo, assim como o fato de que os fi-
nas mudanças torna-se importante para se lhos crescem e se separam dos pais. Volta-

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134 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

se a conversar sobre as expectativas em vamos nessa época os temas, os aspectos


relação ao processo, agora mais realísticas, teóricos e as diferentes abordagens com
ao mesmo tempo em que ressurgem as nossa experiência pessoal seja atendendo
ansiedades em relação ao desamparo e à famílias e casais em nossos consultórios
falta de recursos e mecanismos de persecu- particulares, seja atuando em escolas, hos-
toriedade derivados da projeção de suas pitais ou empresas fora do NESME.
partes boas no terapeuta. Esse mecanismo No entanto, nosso papel como equi-
remete à necessidade de desmitificar o pa- pe só foi desenvolvido a partir da solicita-
pel do analista e da terapia na transferên- ção do Nesme para que organizássemos um
cia ao trabalho com a idealização do papel módulo de família e casal para o CEPPV
da família e o mal-entendido sobre tornar- (Centro de Formação Permanente em Psi-
se prescindível. canálise dos Vínculos).
Por exemplo, em uma sessão em que A necessidade de articular os diferen-
se discutia o término do processo, uma das tes referenciais de forma coerente com a
filhas acusa a mãe de não ver a hora de se instituição e, por conseguinte, com a psi-
ver livre dela, pois lhe dera uma mala de canálise das configurações vinculares, nos
presente de aniversário. “Passa para mim pressionou para o desenvolvimento de um
que eu a aceito”, diz o menino de 10 anos. consenso sobre o que importava para dar
“Você acha que vamos nos sentir culpados subsídios ao processo de aprendizagem que
por apoiar sua independência e seu cresci- propunhamos.
mento?”, diz o pai. A característica deste módulo teve a
As expectativas irreais em relação ao ver com a demanda dos alunos inscritos,
setting podem e devem ser trabalhadas, ou seja, diferentes tipos de profissionais:
assim como as ansiedades de separação, médicos, psicólogos, educadores, orienta-
as quais criam um clima de suspeita de que dores educacionais, psiquiatras, enfermei-
o “bom” está no terapeuta e de perda de ros, assistentes sociais, trabalhadores da
seus ganhos em sua ausência. Pode haver saúde pública e privada. Atender a essa
um recrudecimento dos sintomas ou a ne- variedade de objetivos dos profissionais en-
gação dos ganhos, assim como manobras volvidos em estudar a família, ávidos por
para eternizar o processo. Novos acordos instrumentos de atuação que facilitassem
podem ocorrer, assim como encaminha- a relação profissional-família, foi uma cons-
mento para perfil individual. tante nos vários cursos que desde então
Enfim, cada processo é um, assim desenvolvemos como área de família.
como cada término. Exigiam de nós o desenvolvimento de
um referencial comum e, ao mesmo tem-
po, diferenciado, para a compreensão das
A EXPERIÊNCIA NO NESME funções e disfunções familiares, além da
especificidade das técnicas adequadas a
A Área de Família e Casal do NESME reu- diferentes contextos e objetivos. A apren-
niu membros de diferentes “famílias” no dizagem da psicanálise também se fazia
que diz respeito aos referenciais, mas uni- necessária para que pudessem “ler nas en-
dos pelo interesse na Saúde Mental e no trelinhas” da comunicação dos sintomas e
papel da família como elo de ligação entre dar significados aos padrões de interação.
indivíduo, sociedade e cultura. Para isso, privilegiamos a discussão
Começamos estudando e discutindo da prática e as supervisões, além das dis-
em grupo textos de vários autores de dife- cussões teóricas e do grupo de reflexão que
rentes escolas (principalmente psicanalíti- elaborou suas próprias experiências emo-
ca, psicologia social e sistêmica). Articulá- cionais com o conhecimento no trabalho

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Manual de terapia familiar | 135


com famílias e com as instituições onde dos), que facilitem sua transformação
desenvolviam suas práticas e sua própria em grupos de trabalho, como, por
aprendizagem. exemplo, grupos de mães, grupos na ofi-
A experiência foi trazendo uma rique- cina terapêutica, grupos de ginástica,
za de material que nos impulsionou para grupos dedicados a trabalhos manuais
diferentes cursos e aplicações do referencial (fuxico, colcha de retalhos) e que pro-
quer como equipe, quer como membros do movam interações e elaborações com o
NESME. Foi assim que surgiram cursos para intuito de favorecer o desenvolvimen-
enfermeiros e médicos do projeto Saúde to não apenas dos indivíduos, como
da Família; cursos para profissionais da também do grupo todo. Isso depende,
rede pública ligados às DIRS, CAPS, UBS; a nosso ver, de coordenadores aptos a
curso para membros de uma equipe (mé- compreender as dinâmicas grupais e fa-
dicos, enfermeiros, fisioterapeutas, assis- miliares.
tente social e gerente de projeto) de uma  A necessidade de transcender a repeti-
seguradora de saúde que desenvolvia um ção de modelos de atuação em que se
trabalho com as famílias no home care; tra- reproduzem a cultura assistencialista,
balho com a relação entre pais, professo- paternalista e as relações de poder que
res e adolescentes de uma comunidade que as organizam para dar lugar à criativi-
sediou um de nossos congressos; trabalho dade e às experiências que necessaria-
com mães de filhos menores contratados mente possam ser avaliadas e valoriza-
de uma empresa; projeto para capacitação das em seus resultados. Isso implica
para instituições com menores considera- poder se inserir no paradigma da cau-
dos de risco psicossocial; atendimento aos salidade circular, sustentado por nosso
responsáveis por uma família que adotou referencial.
12 menores da FEBEM; constituição e de-  O cuidado com os profissionais de saú-
senvolvimento de um grupo de estudos da de, serviço social e educação, que neces-
família seguido de supervisão para o de- sitam instrumentos para se libertar de
senvolvimento de projetos e capacitação no tais modelos, tornou-se evidente em nos-
atendimento à saúde e à educação, cujo sos grupos e cursos. Tais profissionais são
foco são as relações institucionais e inter- colocados, muitas vezes, em projetos po-
institucionais permeando as relações de líticos que, embora bem-intencionados
profissionais da educação e saúde pública (outras vezes nem tanto), enfrentam a
com instituições, como varas de família, falta de capacitação não-sintônicas com
conselhos tutelares, escolas, centros de suas metas, o que resulta em trabalho
reintegração social, entre outras. “insalubre”, com riscos para o profissio-
Algumas observações a partir desta nal, para o projeto e para as instituições,
prática: além de se constituírem em desperdício
de energia de vários tipos.
 Tornou-se evidente a necessidade de  A importância da conscientização e co-
aperfeiçoar a visão do grupo familiar e municação entre as várias instituições
a compreensão de seus padrões de sobre sua interdependência e a necessi-
interação internos e externos, e de de- dade de um trabalho conjunto e coope-
senvolver estratégias ou aperfeiçoar as rativo, além da necessidade de espaços
já existentes, usando abordagens rela- de aprendizagem e elaboração da prá-
tivamente breves que, fundamentadas tica que vá além do conhecimento técni-
nos pressupostos da psicanálise das con- co, envolvendo o trabalho das emoções
figurações vinculares, permitam o fun- nem sempre explícitas que tanto entra-
cionamento de grupos (os mais varia- vam o desenvolvimento. Nesse sentido,

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136 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

os grupos de reflexão a que nos referi- Outro trabalho nos uniu em torno de
mos como integrado ao processo de uma família que adotou 12 crianças da
aprendizagem, elaboração da prática e FEBEM e que nos levou a desenvolver um
das interações institucionais e culturais atendimento aos cuidadores no intuito de
se mostraram de inestimável valor. melhorar a percepção dos responsáveis so-
bre as implicações de todos os envolvidos
(cuidadores e jovens) nas dificuldades que
CONSIDERAÇÕES FINAIS viviam. Este foi um atendimento que evi-
denciou a importância do trabalho em equi-
Verificamos, portanto, que, apesar da len- pe, não só da que realizou o atendimento,
tidão e das dificuldades e resistências, a como também da que pertence ao Nesme,
abordagem grupal felizmente evoluiu, pois mas ainda a necessidade das relações inter-
foi criando condições metodológicas para institucionais; por exemplo, do contato
o trabalho com as configurações vincula- constante com a escola, com o conselho tu-
res, propiciando a mudança de paradigma telar, com os médicos que lidavam com os
em relação à conceituação de saúde e do- jovens e com a vara de família, visando a
ença. O foco sobre o indivíduo foi substi- desenvolver uma visão integrada das ques-
tuído pelo olhar dirigido para o sistema de tões envolvidas desde a adoção até o mo-
interações. Considera-se agora que saúde mento que nos procuraram, quando a famí-
e doença têm múltiplas dimensões decor- lia de guarda buscou apoio para fazer fren-
rentes da complexa interação entre os as- te à necessidade de uma rede de apoio que
pectos biológicos, psicológicos, sociais e terminava com a maioridade dos jovens.
culturais do ser humano. Essa nova con- Nossa equipe, além de cursos para
cepção leva-nos a privilegiar em nosso tra- profissionais da rede pública de saúde, de
balho com famílias o enfoque grupal que diferentes formações, oferece também cur-
se estende para incluir a escola, as famí- sos breves sobre terapia familiar, respon-
lias de origem, as instituições, a cultura. A sabilizando-se ainda por parte do ensino
integração desses diversos olhares nos pre- sobre vínculos familiares e suas especifici-
senteia com referencial mais amplo, me- dades, o que faz parte do currículo do cur-
nos rígido, do qual já podemos comprovar so de especialização para coordenadores e
os benefícios. Nossa prática enriqueceu, terapeutas de grupo.
não temos dúvidas disso. Nosso referencial, o da psicanálise das
Um projeto social desenvolvido sob configurações vinculares, que integra intra,
orientação de um de nossos membros, o inter e transubjetivo, lança mão também
Abrace seu Bairro, fazendo uso não só da da teoria sistêmica e de técnicas psicodra-
técnica grupal, como também da inclusão máticas, diversificação esta que favorece a
das famílias e de instituições, obteve resul- compreensão e o desenvolvimento de téc-
tados mais que animadores. Sobre eles as- nicas breves.
sim se expressam os organizadores: As supervisões, os grupos de discus-
são da prática com alunos que atendem nos
Os resultados revelam uma melhoria
centros de referência ou com agentes co-
nos relacionamentos nas escolas e nas
famílias, maior senso de co-responsa-
munitários no programa saúde da família,
bilidade e de auto-estima, fortaleci- orientadores de escolas, psicopedagogos,
mento dos vínculos afetivos, constru- médicos e enfermeiros, profissionais de
ção de sentimentos de credibilidade e recursos humanos ou administração de
pertencimento, desenvolvimento da empresas, professores; enfim, muitos têm
capacidade reflexiva nos grupos de buscado recursos para a abordagem fami-
trabalho. liar e nos trazem uma prática desafiadora

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Manual de terapia familiar | 137


e estimulante que nos enriquece com dife- emergente: a do grupo, que é maior que a
rentes perspectivas e vértices de observa- soma de suas partes. Nossa cultura indivi-
ção de nossa realidade. O aproveitamen- dualista não favorece o abandono das con-
to, inferido a partir da participação nas quistas narcísicas.
aulas e nos trabalhos que integram teoria Luiz Meyer (1981) nos fala nas con-
e prática, têm sido gratificantes. Revelam sequências do narcisismo nas famílias, o
a mudança do olhar individual para o que pode ser extrapolado para outros gru-
grupal e para o sistema de interações. pos também:
Esta experiência tem revelado a gran- Se os relacionamentos familiares se tor-
de pressão que os cuidadores vivem em seu narem infiltrados pelo narcisismo, a fun-
trabalho e o quanto se sentem ajudados ção e o significado da dependência tor-
não apenas com o melhor domínio de teo- nar-se-ão pervertidos. Resulta daí um
rias e técnicas de abordagem, como tam- padrão de intercâmbio infiltrado pela
bém se beneficiam do compartilhar e tra- organização tipo “pressuposto básico.
balhar em grupo.
Infere-se daí que essa família tentará
Os desafios são muitos. Há um pro-
evitar a realidade psíquica, não entrando
cesso de transformação nas abordagens
em contato com seus aspectos indesejáveis.
clínicas, gerando muitas expectativas, en-
Tais defesas, uma vez abordadas pelo tera-
tre as quais a ampliação dos espaços de
peuta, podem liberar quantidades conside-
responsabilidade sobre saúde e doença, a
ráveis de ansiedade psicótica. Isso implica
ênfase no sistema de interações e na funcio-
que o profissional que trabalha com gru-
nalidade/disfuncionalidade dos sistemas
pos humanos, para poder enfrentar tais
de atendimento às necessidades de desen- desafios, além do preparo acadêmico, deve
volvimento do ser humano e das institui- cuidar e muito de seu preparo psíquico,
ções responsáveis por elas (familiar, judi- pois, assim como os pacientes, estão sujei-
ciário, educacional, de saúde, lazer, etc.). tos ao narcisismo exacerbado.
Nosso propósito é transcender as A vivência grupal oferecida pelo
atuais fronteiras disciplinares e conceituais, NESME, através de grupos de reflexão e
indo em busca de modelos que, respeitan- grupos de discussão, ajuda-nos não só a
do nosso referencial teórico, atinjam com entender os fenômenos grupais, como tam-
êxito as complexidades da realidade atual bém nos prepara para a aceitação de estar
e que afetem a família em suas crenças em grupo. Supervisões, congressos e tera-
valorativas, em sua funcionalidade educa- pia são outras fontes que promovem a acei-
cional, sua resistência para manter-se den- tação das diferenças, a valorização do ou-
tro dos padrões culturais até então acei- tro, a busca de uma linguagem comum, a
tos, tendo ainda que enfrentar mudanças divisão de papéis e funções. Até aqui im-
difíceis de assimilar no que diz respeito aos putamos ao narcisismo as grandes dificul-
avanços tecnológicos e sociais. dades para se estabelecer um grupo, mas
Há também que ser considerada a di- ele também implica o amor a si mesmo,
ficuldade de ser grupo e de trabalhar em e fundamental para o desenvolvimento, que,
com grupos. bem canalizado, está na base das grandes
Nossa experiência tem nos mostrado conquistas da humanidade.
o desafio do trabalho em equipe e sua re- Nosso propósito continua sendo o de
lação com o narcisismo. Como o trabalho explorar, experimentar, dar significados,
em cooperação exige uma redistribuição de reexplorar a aplicabilidade do nosso refe-
poder, surgem resistências que atrapalham rencial, sem esquecer a importância da co-
o funcionamento do grupo. A situação exi- municação para o cuidado com nossa ati-
ge que prevaleça uma nova sabedoria vidade e com nossos pares.

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138 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

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Manual de terapia familiar | 139

9
O psicodrama e a terapia familiar
Maria Cecilia Veluk Dias Baptista

O psicodrama projeta processos, situ- todos de estudo não são ideologica-


ações, papéis e conflitos em um meio mente neutros. (Grandesso, 2000)
experimental – o teatro terapêutico
(...). Aplicado ao problema conjugal, Tomando por base o olhar sistêmico,
abre novas perspectivas para pesqui- pode-se afirmar que o homem é um “ser
sa e tratamento. (Moreno, 1978, p. em relação”. Essa assertiva traz-nos a pro-
386) fundeza filosófica do EU e TU – a filosofia
de Martin Buber, que é por excelência uma
ontologia da relação, fatalmente nos reme-
INTRODUÇÃO
tendo a Jacob Levy Moreno, criador do
psicodrama, alinhado à visão sistêmica que
Partindo dos paradigmas de nossa socie-
dá ênfase ao fenômeno relacional.
dade atual (a complexidade, a instabilida-
Percebe-se que os conceitos do psico-
de e a intersubjetividade), percebe-se que
drama se inserem no pensamento sistêmico
cada vez menos pode-se ter modelos fe-
que emergiram com o paradigma atual,
chados como padrões para as ações profis-
mostrando-nos Moreno como um homem
sionais do psicoterapeuta de família. É im-
de vanguarda.
portante fazer-se inclusões e evitar exclu-
Apesar de J.L. Moreno ter desenvol-
sões. Para que isso aconteça, a tarefa desa-
vido seus estudos e trabalhado com o socio-
fiante que a pós-modernidade epistemo-
drama familiar entre 1931/32, segundo
lógica pede aos psicoterapeutas é a de ge-
Buer (1996), “o pensamento de Moreno
rar práticas que promovam compreensão
apresenta-se exatamente como protótipo
e consequentemente a apropriação do sa-
de ciência pós-moderna”.
ber científico, religando-o aos saberes do
Diversos estudos científicos apresen-
senso comum.
tam Moreno como um pensador sistêmico.
Entretanto, vejamos a citação a seguir de Levy
A psicologia da pós-modernidade de-
fine o psicólogo como um agente de (2003), que desenvolveu em sua pesquisa
transformação social para o qual con- aspectos claros que nos permitem entendê-
tribuem o pessoal, o político e o pro- lo como um pensador pós-moderno:
fissional, implicando necessariamen-
te uma ética das relações, cujos tra- Costumamos ouvir muito frequente-
ços mais significativos são a consciên- mente que Moreno esteve à frente de
cia da auto – reflexividade e a cons- seu tempo. Fala-se muito que ele sem-
ciência de que suas práticas e seus mé- pre valorizou a possibilidade de criar

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140 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

e originar novas respostas, novas so- rico da socionomia, que é a denominação


luções (...). De certa forma, ao dizer correta e mais ampla que envolve os as-
isso, ele se referia a uma recusa ao pectos filosóficos, metodológicos e teóri-
determinismo científico, ao reducio- cos da ciência que rege as leis sociais.
nismo, falava da impossibilidade de
A socionomia envolve três ramos:
existirem verdades únicas e das van-
sociodinâmica, sociometria, sociatria. A
tagens da flexibilidade dos indivíduos,
dos sistemas e das situações. (Levy, sociodinâmica estuda o funcionamento das
2003) relações interpessoais, e seu método é o
role playing, que é a terapia de papéis. A
Moreno nos revela o homem como um sociometria, que é a medida das relações
ser em relação, com uma capacidade ilimi- sociais, tem como método o teste socio-
tada para a ação criativa e espontânea. Por- métrico, que permite obter dados quanti-
tanto, é a inter-relação entre as pessoas que tativos e qualitativos do desenvolvimento
constitui o eixo fundamental de toda a te- e da organização dos grupos, bem como a
oria de Moreno. Desde seu nascimento, o posição de cada pessoa no grupo. A so-
homem já está inserido em uma teia de re- ciatria é a terapêutica das relações sociais
lações, onde vai passar a co-existir, co-agir, cujos métodos envolvem psicodrama, so-
co-experienciar, co-criar, co-participar, co- ciodrama e a psicoterapia de grupo.
responsabilizar. Para ele, todos os fenôme- No sociodrama, o sujeito é o grupo,
nos sociais têm como centro da questão os definido como “método profundo de ação
processos interindividuais e intergrupais. que trata de relações intergrupais e de ide-
ologias coletivas” (Moreno, 1972, p. 80).
Portanto, pode ser utilizado tanto em uma
O PENSAMENTO MORENIANO abordagem macrossocial, na busca da
conscientização dos valores e das ideolo-
O psicodrama, termo consagrado mundi- gias de uma dada organização social, quan-
almente pelo uso da ação dramática em to em uma abordagem microssocial, nos
campo terapêutico, coloca as pessoas como pequenos grupos da célula social – a famí-
autores e atores de suas histórias. O de- lia, visando ao desenvolvimento inter-
sempenho dos papéis na ação dramática relacional de seus membros.
possibilita que, em campo relaxado, ocor- Moreno, inicialmente, praticou a psi-
ra a liberação da espontaneidade para a coterapia em grupos naturais, a psicotera-
adequação de melhores respostas em sua pia familiar, em situações reais de vida. Em
inter-relação com o mundo. seguida, desenvolveu o psicodrama nos
O criador do psicodrama, o médico psi- grupos sintéticos, nas clinicas e nas institui-
quiatra Jacob Levy Moreno (1889-1974), ções. Ambos são métodos psicoterápicos,
partiu da premissa de que o Homem é um os quais, através da utilização da drama-
ser relacional: desde seu nascimento, atra- tização, visa à percepção e à mudança de
vés da relação com o mundo que o cerca, comportamento das pessoas, seja em seus
desenvolve seu “eu”. Dessa forma, os pro- papéis, seja em suas relações.
blemas e as dificuldades que as pessoas vão Entre os principais conceitos da teo-
manifestando ao longo de sua vida foram ria psicodramática para o entendimento
desenvolvidos nessa trama de inter-rela- dos vínculos estabelecidos nas relações
ções; portanto, devem ser tratadas em gru- interpessoais está o da espontaneidade, que
po ou com o grupo que gerou o problema. é entendida como a capacidade da pessoa
Moreno partiu das suas vivências e de dar resposta adequada e inédita a situa-
experiências para desenvolver o corpo teó- ções novas ou respostas novas a situações

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Manual de terapia familiar | 141


conhecidas. Para Moreno, todas as pessoas o processo que aproxima ou afasta as pes-
nascem espontâneas e criativas, e, em con- soas e que permite a co-experiência e a co-
tato com o meio em que vivem, podem ser criação.
tolhidas na liberação desse fator. A espon- Os conceitos de matriz de identidade
taneidade é um fator que surge do poten- e papel são outros fundamentos teóricos
cial individual, mas se realimenta na in- do psicodrama, que são importantes para
teração vincular. O termo difere da com- a compreensão dos vínculos.
preensão de senso comum de ser espontâ- Para Moreno, o “eu” das pessoas é
neo com a impulsividade e opõe-se à ansie- produto da interação entre as característi-
dade. Quanto mais alta estiver a ansieda- cas inatas e as diversas relações que se es-
de mais baixa estará a espontaneidade. tabelecem durante a vida do indivíduo. O
Para Bustos (1990, p. 67), “a saúde primeiro grupo social ao qual a criança é
de um vínculo depende da capacidade de inserida é, frequentemente, a família. Esse
ambos estimularem reciprocamente o núcleo relacional básico é denominado
surgimento da espontaneidade, permitin- “matriz de identidade”, que é o local onde
do a cada um desenvolver junto ao outro a pessoa é gerada e criada. É a placenta
todo o seu potencial”. Segundo essa afir- social da pessoa. Portanto, as inter-relações
mação, a saúde da família encontra-se na da criança, desde que nasce, através do de-
possibilidade de seus membros terem e senvolvimento dos papéis fisiológicos, são
darem condições de liberação ao fator es- fundamentais para o processo de desen-
pontaneidade. volvimento do “eu”. É na matriz de identi-
Outro conceito teórico importante pa- dade que se inicia o jogo e o treino dos
ra a compreensão da dinâmica da interação papéis, primeiramente, em uma total
é a tele, que Moreno define como a percep- indiferenciação com o mundo, em um pro-
ção “real” interna do outro. Porém, os psico- cesso lento e gradual, e, com a ajuda da
dramatistas contemporâneos (Perazzo, matriz de identidade (família), ela vai ca-
1994; Levy, 2000; Aguiar, 1990), revendo minhando para a diferenciação e para a in-
tal conceito, trouxeram importantes con- dependência. Essas etapas de desenvolvi-
tribuições, deixando claro que a percepção mento da criança, se bem assistidas pela
real e limpa não existe ela é filtrada por família, a placenta social que a nutre física
afetos, valores, julgamentos e fantasmas e psicologicamente, permitirão o cresci-
internos das pessoas que estão em uma mento de uma criança espontânea – criati-
relação vincular; portanto, sempre teremos va no jogo de seus diversos papéis: sociais,
a percepção parcial do outro. Porém, é fun- psicodramáticos e fisiológicos.
damental que nas interações seja possível
limpar e identificar essas distorções, sen- Primeiro é o grupo. O grupo implica
do que elas estarão ocorrendo bilateral- interação, e toda interação se exerce
através de um papel. Há tanto papéis
mente na dinâmica vincular. Na dinâmica
quanto ações possíveis. Cada papel é
do casal e da família, faz-se necessário reco-
a fusão de elementos individuais e
nhecer e esclarecer o quanto os vínculos coletivos, compostos por dois elemen-
estão mais próximos de um campo relacio- tos: seus denominadores coletivos e
nal, pois, caso contrário, a relação ocorre- seus diferenciais individuais. (More-
rá de forma apenas transferencial, com as no, 1972, p. 69)
figuras de mundo interno, do intrapsíquico,
e não da inter-relação presente. É a tele- A parte tangível do intrapsíquico ma-
transferência (Levy, 2000, p.180) que de- nifesta-se em um vínculo que se concreti-
termina a posição das pessoas no grupo; é za em uma cena, na qual as representa-

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142 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

ções de mundo interno passam a gerar tro- SOCIODRAMA DE CASAL


cas interpessoais por meio do desempenho E FAMÍLIA E SUA METODOLOGIA
de papéis. Todas as pessoas são vistas e
conhecidas no interjogo de papéis. Partindo da visão de Homem como ser em
A teoria dos papéis é uma das grandes relação, Moreno (2006), desde o início do
contribuições morenianas à terapia de fa- século XX, propôs trabalhar os problemas
mília. É uma proposta sistêmica. O foco é relacionados aos casais e às famílias em seu
o processo interativo em um esquema de status nascendi e in situ
circularidade, pois isso facilita a percepção
e a compreensão de cada elemento da famí- Quando você vê duas pessoas que tem
lia em relação às suas atitudes e a como um problema, você se interessa pela
etapa final do problema se haverá di-
elas interferem nas atitudes dos outros,
vórcio ou reconciliação e não sei o que
criando a possibilidade de rever compor-
mais. Eu, por outro lado, fico interes-
tamentos estereotipados para a melhora sado em saber como o problema de-
das relações. les começou. Quero explorar o pro-
Segundo Nery (2003, p.16), a forma- blema em seu estado criativo nascen-
ção do “eu” estrutura-se a partir do desem- te. (p. 189)
penho de papéis. Como o termo papel vem
do teatro, a autora considera que vivemos Com os membros presentes do casal
no palco da vida e que a personalidade se ou da família, Moreno iniciou, em 1923, o
constitui do conjunto de papéis exercidos, “teatro recíproco” (França, 2004, p. 21), o
dos que estão reprimidos, da hereditarie- qual acontecia na casa das famílias, e, atra-
dade e da maneira como são construídos vés da dramatização das situações confli-
os vínculos. Dessa forma, a cultura, o con- tuosas vividas, surgiam novas resoluções
texto, o momento dão consistência ao “eu”. do problema do grupo familiar. Na cena
Existir é estar em co-existência. dramatizada, o problema surge com toda
Os papéis que formam o “eu” de uma a sua intensidade emocional e racional, e
pessoa são os sociais, que são os desem- revivê-lo permite uma oportunidade de
penhados nas relações sociais estabele- revê-lo em outro momento, com um distan-
cidas; os imaginários, que estão no mundo ciamento necessário para o encontro de
da fantasia e do imaginário (por exemplo, novas soluções espontâneas.
cristo, diabo); os latentes, que estão sub- Moreno realizou, em Viena, entre
jacentes ao das relações sociais (por exem- 1921 e 1923, diversos trabalhos públicos,
plo, orientador, vítima, pecador); e os psi- denominados por ele como teatro espon-
cossomáticos, que são os referentes ao as- tâneo, entre eles, considerado como um dos
pecto fisiológico (por exemplo, sexual, berços do psicodrama, o desenvolvimento
urinador). de um atendimento a um casal conhecido
Para Nery (2003, p.18), a liberação como “Caso Bárbara e George”. O proto-
do potencial espontâneo e criativo deve-se colo desse atendimento (Moreno, 1975, p.
ao aprendizado dos papéis e ao aprendiza- 54) mostra o quanto as cenas dramatiza-
do emocional nos vínculos. das foram se aproximando cada vez mais
Por meio do desempenho dos papéis da realidade vivida por esse casal e como
familiares em contexto dramático, em foram sendo trabalhadas de forma a per-
setting psicoterápico, o sistema percebe mitir que seus protagonistas pudessem re-
quais são os aspectos afetivos e emocionais ver suas histórias, suas fantasias e seus te-
que interferem na dinâmica familiar e que mores. Possibilitou que cada um entrasse
estão inseridos no padrão relacional, per- no lugar do outro, revendo as mesmas si-
mitindo reorganizar sua dinâmica. tuações por outro ângulo e entendendo o

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Manual de terapia familiar | 143


parceiro, e, dessa forma, que cada um ti- alegria e sofrimento, gerando constantes
vesse momentos de encontro consigo e com situações que produzem conflito. A cons-
o outro. tante recorrência dessas interações, nos
Estas vivências permitiram a Moreno diversos papéis que as pessoas assumem
descobrir e fundamentar o valor terapêu- em suas relações familiares, amplifica a
tico das ações dramáticas. A dramatização intensidade dos problemas. O conflito é um
permite o reviver das cenas conflituosas, pretexto interno para esconderem-se mais
cria possibilidades de “reolhar” em diver- profundamente. O sociodrama familiar cria
sas perspectivas a mesma situação. Cada um espaço de ação dramática sem tantas
pessoa do sistema familiar, em contexto tensões, no qual as interações são revividas,
dramático, tem espaço para inverter e assu- revisitadas, ressignificadas e recuperadas.
mir diferentes papéis e, com isso, liberar a Moreno identificou, desde a década
espontaneidade, reconhecer novas respos- de 1940, que os problemas gerados e vivi-
tas mais satisfatórias para o problema apre- dos em família só podem ser tratados em
sentado. Através da dramatização, perce- família. Ela é a matriz depositária que cons-
be-se que a soma da linguagem corporal e titui um sistema relacional único e insepa-
gestual à verbal permite que as pessoas es- rável. Partindo dessa premissa, propôs o
tabeleçam comunicação entre racional, procedimento sociodramático, no qual o
emocional e corporal. A linguagem corpo- drama será revelado no contexto dramáti-
ral diminui as defesas. O momento tera- co pelo jogo de papéis entre os membros
pêutico da cena dramática possibilita a eli- do grupo natural, esclarecendo a todos a
minação do tempo cronológico, surgindo estrutura grupal preexistente no contexto
um momento atemporal, no qual passado, social, consistente com critérios preestabe-
presente e futuro aparecem no presente lecidos e definidos, e as interações entre
imediato. A relação estabelecida entre os os membros do grupo.
elementos da família é observada e esclare- O núcleo da métodologia sociopsico-
cida no aqui e agora. O “como se” da dra- dramático é a dramatização. É a pessoa na
matização estabelece relações entre real, ação dramática em relação, no “aqui e ago-
simbólico e imaginário, permitindo sua ra”, na situação de vida, em seu meio. O
integração, individual e coletiva. Enfim, a trabalho dramático permite abordar a di-
cena dramática mobiliza o potencial cria- mensão racional, emocional, ampliar a
tivo das pessoas e do grupo familiar. percepção dos vínculos e a liberação da
De 1940 a 1950, Moreno realizou di- espontaneidade e da criatividade.
versos psicodramas com casais nos Esta- Independentemente de qual método
dos Unidos, onde morava, e em outras par- da socionomia seja utilizado, a prática
tes do mundo, onde apresentava seu tra- psicodramática segue os mesmos funda-
balho, chegando a desenvolver “teste de mentos e as mesmas técnicas. Para a reali-
papéis para prognóstico de casamento” e zação dessa prática, Moreno delimita a
“psicodramas de casal pré-nupcial” (Mo- existência de três contextos, três etapas e
reno, 2006, p. 96). cinco instrumentos.
No sociodrama familiar, o trabalho Os três contextos são:
terapêutico realiza-se com o grupo familiar:
é ele que deve ocupar a cena, e o sistema  Contexto social. É a realidade social em
desenvolve a dramatização, pois o sofri- que a pessoa está inserida tal como ela
mento é coletivo. é, com leis, normas e regras, regida pelo
Quando um grupo natural de pessoas tempo cronológico, pelos espaços con-
que constituem uma família vive junto, creto e definido e pelos aspectos socio-
coabita diariamente, vivem momentos de políticos culturais vigentes.

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144 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

 Contexto grupal. É a realidade definida mentos reais, no “como se”. Na etapa


de um grupo. No sociodrama familiar de dramatização, o grupo familiar pode
são as normas e as regras estabelecidas ter um insight dramático de quais são
pelos próprios membros de determina- as posições da cada pessoa dentro da
da família. família, concretizando sua estrutura
 Contexto dramático. É o constituído pela sociométrica. Essas estruturas sociomé-
realidade dramática, pelo tempo e es- tricas que são invisíveis à observação são
paço fenomenológico, subjetivo, no identificáveis mediante análise sociomé-
qual tudo pode ocorrer no “como se” trica dos átomos sociais e familiares,
da fantasia e da imaginação. Pode-se re- identificando-se alianças, coalizões,
visitar o passado e projetar o futuro, exclusões, afastamentos. Portanto, isso
criar e recriar sua história e a da família. se torna um recurso valioso e enrique-
cedor para redefinição do problema,
As três etapas da prática sociopsico- permitindo explorar novas alternativas
dramática são: à realidade da família.
 Compartilhar. É a última etapa, na qual
 Aquecimento. É a passagem das pesso- todos os membros do grupo familiar
as dos seus contextos sociais para o con- falam o que sentiram e tomaram cons-
texto grupal, liberando-as para o surgi- ciência do que foi revivido e recriado
mento do projeto dramático do grupo, em contexto dramático. Essa etapa pro-
além de preparar a pessoa e o grupo duz uma abertura, ou seja, ninguém é
para entrar no contexto dramático. Ape- mero observador – todos são observa-
sar de no sociodrama familiar o grupo dores participantes e todos influenciam
ser natural, e estar constituído como tal, e são influenciáveis. Portanto, não há
há a necessidade dessa etapa para criar- juízos de valores, o que diminui atitu-
se o setting terapêutico e integrar a uni- des defensivas.
dade funcional, como é denominada em
psicodrama a equipe terapêutica. Os cinco instrumentos utilizados em
 Dramatização. É o momento em que uma sessão sociopsicodramática são:
ocorre a ação dramática em que no
“como se” e no “aqui e agora” dramáti-  Diretor. É o terapeuta principal, mem-
co são vividos os conflitos passados, bro da unidade funcional e encarrega-
presentes ou futuros da família. É o do de iniciar e fechar a sessão seguindo
momento de o terapeuta utilizar as téc- suas etapas. Atento para os contextos,
nicas psicodramáticas para permitir é o produtor da cena dramática e o ana-
uma maior percepção racional e emo- lista social.
cional acerca do conflito vivido drama-  Protagonista. É o que emerge com a
ticamente. No sociodrama familiar, dra- cena. No sociodrama familiar pode ser
matizam-se as relações com as pessoas todo o sistema familiar presente ou
envolvidas presentes, e todas protago- subsistemas da família.
nizam e vivem seus conflitos, suas an-  Ego auxiliar. Ator; agente terapêutico;
gústias e seus desejos. O drama da vida investigador social. Um dos elementos
real é liberado por meio do jogo dos da unidade funcional terapêutica ou um
papéis. Dessa forma, no processo socio- dos elementos do grupo familiar que
dramatico familiar, é explicitado, de ma- assume um papel designado por quem
neira clara e imediata, o modo como os está montando a cena.
membros da família convivem em seus  Cenário. Espaço físico onde ocorre a
vários papéis no contexto de relaciona- ação dramática, a montagem da cena

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Manual de terapia familiar | 145


que permite que os autores e atores se  Duplo. É o ego auxiliar da unidade fun-
envolvam nesta construção dramática. cional ou da própria família que assu-
 Plateia. Elementos do grupo que as- me a duplicação do papel protagônico,
sistem à ação dramática sem estarem trazendo verbalmente as possíveis emo-
atuando na cena. No sociodrama fami- ções ou reflexões latentes para serem
liar, pode frequentemente a plateia ser explicitadas.
membro da equipe funcional. A im-  Espelho. É o ego auxiliar que espelha o
portância desse instrumento é o maior protagonista em todas as dimensões que
comprometimento que passa existir na estão sendo apresentadas, para que ele
cena e nos observadores participantes, se veja de fora da cena dramática.
pois eles colocam seus pontos de vista,  Inversão de papel. Visa a aprofundar o
tal qual uma equipe reflexiva das abor- encontro, entrar no lugar do papel com-
dagens sistêmicas na etapa do com- plementar do outro que está em cena,
partilhar. poder falar sobre e ser o outro.

O método sociopsicodramático explo- (...) a inversão recíproca de papéis


ra o que se ignora. Não basta descobrir o pode ser usada para modificar a per-
que se sabe: busca-se transformar “o que” cepção distorcida das pessoas, resol-
e “como” se vive em algo novo. A metodo- ver conflitos interpessoais e para au-
logia sociopsicodramática define que seu mentar o funcionamento interpessoal.
momento de maior insight e criação ocor- (Holmes et al., 1998, p. 329)
re em contexto dramático, pois é nessa eta-
pa que o diretor faz uso de uma série de As técnicas complementares mais usa-
técnicas sociopsicodramáticas, que são um das no sociodrama de casal e família em
conjunto de intervenções cênicas a serem contexto dramático são:
empregadas para facilitar a compreensão
dos dilemas dos protagonistas.  Dramatização dos sintomas. Em diferen-
A meta terapêutica no sociopsicodra- tes contextos, em diferentes cenas, por
ma é a obtenção do que Moreno denomi- diferentes pessoas da família.
nou de catarse de integração. É a possibili-  Cenas resolutivas. Usada geralmente ao
dade de os indivíduos liberarem suas emo- final das sessões, com cenas propostas
ções e darem um salto qualitativo na situa- pelo sistema familiar após o reconheci-
ção dramática que vivem, encontrando sa- mento dos vínculos complementares
ídas adequadas a seu drama. A catarse é mútuos e dos limites de cada elemento
entendida como meio de mudança, que é da família; é uma proposta conjunta
conquistada após a expressão de sentimen- para solução do problema com cenas
tos, relaxamento, equilíbrio e integração à integradoras.
realidade do grupo. No sociodrama de ca-  Realidade suplementar. Criação dramá-
sal ou familiar, busca-se eliminar o este- tica de uma experiência nova e amplia-
reótipo de conduta (a repetição dos com- da da realidade, buscando a inserção
portamentos), mostrar as dificuldades de de novas ações que possam produzir
todos de forma circular, apresentar os sin- transformações no contexto dramático
tomas do grupo familiar em contexto dra- inicial.
mático para que a intervenção terapêutica  Dramatização para apresentação e ques-
ocorra através do uso das técnicas básicas tionamento do status sociométrico. Dra-
e das complementares. matização dos distintos psicogrupos e
As técnicas básicas do sociopsicodra- sociogrupos, diferenciação dos interes-
ma usadas em contexto dramático são: ses desses sub-sistemas através da iden-

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146 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

tificação das diferenças entre as pessoas e frente a inputs que estejam surgindo
e entre os relacionamentos. na cena.
 Concretização do problema. Das dificul-  Jogos dramáticos diversos. Visam à ma-
dades interpessoais quando encobre o nifestação do co-inconsciente grupal e
sintoma, através da repetição da mes- permite vivenciarem a co-criação cole-
ma cena diversas vezes ou da multipli- tiva e a determinação dos limites.
cação dramática do conteúdo vincular
da cena ou do confronto dramático. A negociação da estrutura e da dinâ-
 Escultura. “Expressão plástica simbóli- mica das relações familiares precisa ser
ca da estrutura vincular de um sistema” constantemente realizada, readaptando-se
(Knappe e Barberá, 1999, p. 144). às regras anteriormente estabelecidas. O
Construída com o uso dos próprios cor- desenvolvimento pessoal de cada um exi-
pos dos membros da família, a escultura ge uma redefinição dos papéis dos outros.
pode ser estática ou dinâmica. O es- Porém, nem sempre isso é possível, e a tra-
cultor é o criador de sua obra, ou seja, ma relacional da família torna-se incapaz
ele realiza e a interpreta. A escultura de escapar de papéis e contrapapéis crista-
pode ser da imagem da família atual, lizados, da percepção de si e do outro es-
da família imaginária, da família dese- tereotipada, o que transforma as relações
jada. Ela proporciona ao grupo familiar em incongruentes, sem reciprocidade e
ter uma diversidade de visões, am- disfuncionais.
pliando o problema e descobrindo for- Surge então a necessidade do traba-
mas de modificar a escultura para uma lho terapêutico, em que o contexto é socio-
transformação da situação. “A escultu- dramático com o objetivo de identificar,
ra é uma ferramenta que fragmenta um apresentar e encontrar saídas espontâneas
mosaico formado pela história, a partir e criativas para as tramas invisíveis das
da opção de modelar o tempo passado, inter-relações familiares, trabalhando com
presente e futuro” (Knappe e Barberá, as relações presentes e confirmando ou não
1999, p. 239). os sentimentos e as expectativas dos indi-
 Átomo familiar. É uma parte do átomo víduos através do contexto dramático e de
social dos indivíduos. Enquanto o áto- suas técnicas.
mo social é total em referência a todos Nesta abordagem terapêutica, as rela-
os papéis que a pessoa tem no mundo, ções interpessoais de cada pessoa que sejam
o átomo familiar está em referência com pertinentes à dinâmica familiar são drama-
a posição concreta de cada pessoa na ticamente revividas. A família é encorajada
estrutura familiar. São as configurações a refazer o cotidiano de acordo com sua ima-
que surgem frente às interações com os gem e montar as cenas in situ et in actu,
outros elementos da família, constituin- recriando as condições para um renascimen-
do as redes familiares e sociais. Essa to, para a obtenção de novas saídas para
construção é feita com as pessoas ocu- suas situações dificéis. Dessa forma, os mem-
pando, concreta e espacialmente, luga- bros da família passam a ter participação
res de proximidade ou distanciamento no processo de criação de seus papéis.
em relação a cada membro da família. O sociodrama familiar permite que
 Interpolação de resistência. Técnica que cada pessoa participante de uma família
permite criar cenas dramáticas que apre- seja co-criadora das condições da vida fa-
sentem situações novas, colocando as miliar, pretendendo com isso transformar
pessoas frente à necessidade de darem a dinâmica familiar e construir novas for-
novas respostas a situações imprevistas mas de convivência.

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Manual de terapia familiar | 147


Portanto, podemos visualizar a propos- nas interações familiares. Isto é, possibili-
ta de Moreno tanto em uma abordagem da ta a modificação da forma como a família
sociedade quanto em uma abordagem costuma se expressar.
microssocial – dentro da célula social: a fa- A cena dramática permite que a fa-
mília. Nela (família), podem ser estudadas mília altere o que parecia imutável: os pa-
as relações interpessoais, a estrutura do gru- péis dos membros da família podem ser
po, medidas as relações entre os membros revistos, as regras de interação modifica-
e posta em prática uma terapia interacional das, os medos e os desejos podem ser con-
que transforma o enfoque dos sintomas ex- cretizados; enfim, a família e o terapeuta
pressos por um dos membros da família para podem se sentir livres para co-criação de
as interações inadequadas entre os indiví- novas possibilidades.
duos, esclarecendo a trama relacional com
todos em conjunto e trazendo uma nova Os grupos naturais se comportam de
compreensão da realidade familiar. maneira diferente dos grupos forma-
No sociodrama familiar e de casal, as dos por estranhos. Mães e cônjuges,
cenas dramáticas são feitas com a presen- membros de uma família, dois aman-
ça dos membros da família, o que é um tes, amigos e companheiros de negó-
desafio aos terapeutas. Quando todo o gru- cios de muitos anos, e todos os gru-
po natural se encontra presente, cada mem- pos que, igualmente a estes, estejam
intimamente relacionados, têm uma
bro desse grupo é o protagonista. Para o
forma comum de entender-se taci-
sociodramatista familiar, a verdade é aque- tamente... É como se no correr dos
la subjacente aos padrões relacionais que anos houvessem desenvolvido, firme-
ele observa. O sociodramatista propõe tra- mente entrelaçada, uma longa cadeia
zer para fora o que está subjacente e obje- de estados de certo modo inconscien-
tivá-lo, torná-lo visível e observável por to- tes. (Moreno citado por Garrido,
dos, terapeutas e família, através das téc- 1996, p. 203)
nicas da ação (Moreno, 1972).
A. Williams (1994) apresentou diver- Moreno afirma em seus escritos que
sos tópicos sobre as vantagens do método os estados co-inconscientes e os co-cons-
de ação para a psicoterapia familiar, como cientes são aqueles em que os elementos
recriar o passado e trazê-lo vivamente para envolvidos experimentaram e os produzi-
o aqui e agora, presentificando-o. No socio- ram conjuntamente, estados que só pode-
drama familiar, o contexto grupal favore- rão ser representados e reproduzidos entre
ce a reedição de mitos familiares, lealda- as mesmas pessoas. Portanto, eles são ex-
des invisíveis com parentes distantes e au- pressos diretamente nos sociodramas de
sentes. Os papéis dos elementos que com- família, pois, sendo uma abordagem emi-
põem o grupo familiar podem ser clara- nentemente grupal, envolve a intersubjeti-
mente especificados, elucidados e expres- vidade e o interpsiquismo desses grupos
sos. Os papéis são dramatizados, e são ex- naturais primários.
pressas as percepções em relação a eles. Para Moreno, a ação sociopsicodra-
Ele permite o esclarecimento das aceita- mática é que possibilitaria as pessoas a ul-
ções, das rejeições, do status sociométrico trapassarem e superarem os conflitos co-
dos membros da família. Permite também inconscientes.
que ocorra a dramatização dos rituais de
passagem ou de rituais que marcam as di- Quando duas ou mais pessoas estão
ferenças e que se vivenciem fantasias ou interligadas e sua coexistência tornou-
cenas futuras que geram disfuncionalidade se indispensável ao bem-estar delas

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148 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

mesmas (...) é frequentemente in- Pode-se afirmar que o Sociodrama Fa-


dicado que sejam tratadas em con- miliar é atual e pertinente entre as abor-
junto (...) [já que] desenvolvem ao dagens das terapias familiares sistêmicas
longo do tempo um conteúdo comum e pós-modernas, visto que tem muitas pro-
ou o que poderia ser denominado de
postas semelhantes. É uma metodologia
um co-inconsciente. (Moreno, 1983,
considerada pesquisa participativa.
p. 65)
Os estudos da socionomia mostram
Moreno, em seus escritos datados de que a identidade dos grupos difere da iden-
1940, recomendava começar o tratamento tidade dos indivíduos que compõem os gru-
com a pessoa que traz a queixa e ir com- pos, e essa nova constituição na sociometria
prometendo pouco a pouco as demais pes- recebe o nome de “psicogrupo”, que, se-
soas implicadas, criando vínculos que pos- gundo Moreno, é o núcleo psicológico do
sibilitassem, através do uso de técnicas es- grupo familiar. O grupo pensa, sente e tra-
pecificas da terapia sociopsicodramática, balha de maneira distinta como fariam os
desvelar o drama e a trama que a família membros isolados. Por essa razão, o
vive, a fim de detectar novas respostas a sociodrama familiar torna-se importante,
essas situações. Nessa proposta de psicote- pois permite que a unidade funcional tra-
rapia interpessoal, o terapeuta é colocado balhe no nível grupal e individual na bus-
no papel de observador participante, ego ca de saltos qualitativos. Para tanto, é pre-
auxiliar e intérprete das partes presentes. ciso rastear as imagens internalizadas,
constitutivas da família, ou seja, as origens
nas gerações anteriores, e permitir que os
CONSIDERAÇÕES FINAIS membros do grupo familiar em questão
possam aderir à vida coletiva e escolham-
As famílias procuram as terapias para so- nas de forma consciente e clara. Assim,
lucionarem conflitos, apresentam uma sé- haverá o desenvolvimento e o amadureci-
rie de relatos em sua maioria contamina- mento gradual, do sentimento de perten-
dos pela rigidez e cristalização de seus pa- cimento ao grupo – o compromisso de dis-
péis. Ao retratar o drama familiar através cussão das ideias – à tomada de decisão
da linguagem, das imagens, das ações ou consensual e à aceitação de lideranças al-
cenas, os membros da família são encora- ternadas e sociometricamente escolhidas.
jados a oferecer novos dados, isto é, a fa- O sociodrama (uma terapia interpes-
mília verá os velhos problemas com novas soal) é uma categoria à parte da terapia
lentes. Terão que rever seus papéis que, individual e da terapia de grupo, pois é um
muitas vezes, estão mal desenvolvidos pelo método que alcança profundamente as
forte envolvimento emocional existente; síndromes interpessoais. Isso ocorre por-
terão que todos juntos buscarem saídas que trabalha com uniões estruturadas há
para seus problemas. muito tempo, com laços emocionais pro-
A proposta do sociodramatista da fa- fundos, como é a família e o casal. Procu-
mília é ser observador participante e fa- ra-se provocar nas famílias um salto quali-
cilitador para que o sistema se torne aber- tativo em direção ao novo, ao território des-
to, receptivo para estabelecer trocas (com conhecido e não-vivido.
o novo, com o desconhecido), promoven- Por fim, podemos afirmar que a me-
do crescimento, restabelecimento e reno- todologia sociodramática familiar explora
vação da vitalidade do sistema, além de diversas maneiras de falar, de pensar e agir.
visar a uma forma adequada de lidar com Externaliza o problema durante a ação dra-
o contexto, buscando a espontaneidade e mática, e o contexto dramático favorece o
a criatividade da família. afastamento de ações dos terapeutas, tor-

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Manual de terapia familiar | 149


nando as relações mais democráticas. Além LEVY, L. Integrando diferenças: possíveis caminhos
disso, a ação dramática pode construir es- da vivência terapêutica. São Paulo: Ágora, 2000.
p.133-182.
truturas de responsabilidades relacionais,
_________ . Tributo a Moreno, aquele que sobreviveu...
ampliando a expressão da espontaneidade
e valorizando a competência e abertura do resgatando um Moreno científico. Monografia apre-
sentada para obtenção do título de Professora-
sistema familiar. Supervisora. Delphos Espaço Psico-Social, Rio de
Janeiro, 2003.
MARTÍN, E. G. Psicologia do encontro: J.L. More-
REFERÊNCIAS no. São Paulo: Ágora, 1996.

AGUIAR, M. O teatro terapêutico: escritos psicodra- MORENO, J. L. Fundamentos de la sociometria. 2.


máticos. São Paulo: Papirus, 1990. ed. Buenos Aires: Paidós, 1972.
_________ . Fundamentos do psicodrama. São Paulo:
BUER, F. O papel e a identidade do psicodramatista
moderno. In: LEITURAS 13. São Paulo: Compa- Summus, 1983.
nhia do Teatro Espontâneo, 1996. MORENO, J. L. Psicodrama. São Paulo: Cultrix,
BUSTOS, D. M. Perigo: amor à vista! Drama e 1975.
psicodrama de casais. São Paulo: Aleph, 1990. p. _________ . Psicodrama: terapia de ação & princípios
55-125. da prática. São Paulo: Daimon, 2006. p. 96-292.
FRANÇA, M. R.; CASTANHO, J. L. Moreno: criati- _________ . Psicoterapia de grupo e psicodrama. São
vo e pioneiro na história da terapia familiar. In: Paulo: Summus, 1983.
VITALE, M. A. F. Laços amorosos: terapia de casal
NERY, M. P. Vínculo e afetividade: caminhos das
e psicodrama. São Paulo: Ágora, 2004. p.15-28.
relações humanas. São Paulo: Ágora, 2003. p.300.
GRANDESSO, M. Sobre a reconstrução do signifi-
PERAZZO, S. Ainda e sempre psicodrama. São Pau-
cado: uma análise epistemológica e hermenêutica
lo: Ágora, 1994.
da prática clínica. São Paulo: Casa do Psicólogo,
2000. SEIXAS, M. R. D’A. Sociodrama familiar sistêmico.
São Paulo: Aleph, 1992. p. 199.
HOLMES, P.; KARP, M.; WATSON, M. (Org.). O
psicodrama após Moreno: inovações na teoria e na WILLIAMS, A. Psicodrama estratégico: a técnica
prática. São Paulo: Ágora, 1998. apaixonada. São Paulo: Ágora. 1994. p. 230-257.

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150 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

10
Cibernética e terapia familiar:
que relação distinguimos hoje?
Maria José Esteves de Vasconcellos

Desde que publiquei os resultados de mi- uso do termo “paradigma” para se referir
nhas pesquisas sobre as bases cibernéticas ao conjunto de “crenças e valores subja-
da terapia familiar sistêmica (Esteves de centes à prática científica”, os cientistas
Vasconcellos, 1992, 1995), passei a receber continuam a usá-lo também com o sentido
frequentemente perguntas sobre as relações de teoria (Esteves de Vasconcellos, 2002).
da cibernética com a terapia familiar Por isso, torna-se importante explici-
sistêmica. Uma delas, de que nunca me es- tarmos quando estamos falando em ciber-
queci, foi formulada mais ou menos assim: nética como uma teoria e quando a estamos
tomando no sentido de uma epistemologia
A cibernética e o construtivismo são a ou de um paradigma. Parece-me oportu-
epistemologia do pensamento sistêmi-
no reiterar uma importante diferença que
co ou o pensamento sistêmico é a epis-
temologia da cibernética e do constru-
distingo entre teoria e epistemologia: uma
tivismo?. teoria científica – que não faz parte de
mim – eu posso aplicar, enquanto minha
Apesar de serem bastante variadas as epistemologia – sendo crenças que, como
dúvidas, muitas delas se dissipariam se diz Maturana, assumo na emoção da aceita-
houvesse uma compreensão clara das di- ção e que, portanto, fazem parte de mim –
ferenças entre epistemologia, teoria e prá- me implica. Ou seja, tenderei a agir de mo-
tica sistêmicas. do consistente com aquilo em que acredi-
Quando se referem à cibernética, al- to, conforme minha visão de mundo.
gumas vezes as pessoas a estão tomando A cibernética foi definida por seu cria-
como uma epistemologia, um conjunto de dor, o matemático americano Norbert Wiener
premissas, pressupostos ou crenças; enfim, (1948), como uma “teoria da comunica-
um pensamento, um paradigma ou uma ção e do controle”. Foi o que explicitou no
visão de mundo sistêmica. Outras vezes, título dado ao livro que publicou em 1948:
estão falando em uma teoria, em um con- Cibernética ou controle e comunicação no
junto de princípios explicativos sobre o fun- animal e na máquina.
cionamento de um objeto de estudo. Concebendo tanto a máquina quanto
O uso da expressão “paradigma ciber- o ser vivo como um conjunto de elemen-
nético”, usada tanto no sentido de teoria tos em interação – como um sistema –,
quanto no sentido de epistemologia, pode Wiener usa o termo comunicação para se
também gerar dúvidas. Apesar de Thomas referir às interações ou às relações entre
Kuhn ter considerado mais apropriado o os componentes desses sistemas.

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Manual de terapia familiar | 151


Considerou que a mensagem é o ele- seja, uma teoria para a máquina e para o
mento central tanto na comunicação quan- animal).
to no controle. Diz ele: “Quando me comu- Essa proposta fez com que se reunis-
nico, transmito uma mensagem; quando sem em torno dela especialistas de diver-
comando, também transmito uma mensa- sas disciplinas – matemáticos, engenheiros,
gem.” Por isso, abordou conjuntamente os fisiologistas, neurocientistas, psicólogos,
problemas do controle e da comunicação, antropólogos, economistas, especialistas na
focalizando a transmissão das mensagens, teoria dos jogos. Eles se reuniam anualmen-
seja por meios elétricos, mecânicos, seja por te nas chamadas Conferências Macy, pro-
meios nervosos. Assim, a cibernética já foi movidas pela Fundação Josiah Macy, em
definida como uma teoria das mensagens.1 Nova York.
Assim, a cibernética constituiu-se co- Como a comunicação no sistema so-
mo uma teoria sistêmica: deslocou o foco – cial estava entre os temas abordados, os
que os cientistas tradicionalmente coloca- antropólogos Gregory Bateson e sua esposa
vam nos elementos componentes de qual- Margaret Mead pediram a Wiener que es-
quer complexo que estivessem estudando – crevesse especificamente sobre esse tema.
para o estudo das relações (comunicações, Pouco depois, ele publicou então um segun-
interações) entre esses elementos. do livro, Cibernética e sociedade: o uso hu-
Wiener desenvolveu uma teoria – con- mano dos seres humanos, em que propõe a
junto de princípios explicativos – para se com- compreensão da sociedade focalizando-se
preender o funcionamento dos conjuntos de as características de sua comunicação e de
elementos, os sistemas, a partir da compre- suas trocas de mensagens (Wiener, 1950).
ensão da forma como os elementos intera- Nesse livro, ele expressa sua preocupação
gem, o modo como estão acoplados ou as com as consequências sociais, morais e éti-
regras de conexão entre eles. Ele procurou cas desse desenvolvimento científico, ou
evidenciar os mecanismos de funcionamen- seja, das possibilidades de controle dos sis-
to ou de regulação de que o conjunto dis- temas, abertas pela cibernética, uma ciên-
põe, os meios que usa para chegar à meta, a cia da regulação e do controle.
despeito de possíveis desvios e perturbações. Na época da Segunda Grande Guer-
Pretendeu identificar princípios que ra, Wiener foi solicitado a construir autô-
expliquem o funcionamento dos sistemas, matos cibernéticos ou máquinas simulado-
independentemente da natureza dos ele- ras de vida – simuladoras da capacidade de
mentos que o constituam. Assim, os prin- auto-regulação presente nos seres vivos –
cípios cibernéticos explicariam, por exem- que pudessem substituir os soldados nas
plo, tanto o comportamento de uma má- frentes de batalha. Como o estudo da trans-
quina auto-reguladora, por exemplo, de um missão de mensagens ficou muito associa-
termostato ao controlar o funcionamento do aos sistemas mecânicos, a cibernética
do sistema de ar refrigerado, quanto o fun- também foi definida como “teoria das má-
cionamento do sistema nervoso ao contro- quinas”, e os sistemas, concebidos como
lar os comportamentos dos seres vivos (ou mecanismos, foram chamados de máqui-
nas – máquina mecânica, máquina elétri-
ca, máquina neural, máquina econômica,
1 Note-se que essa ideia de transmissão de men-
máquina social – e qualquer uma delas era
sagens ou transmissão de informação entre se- explicada pelos princípios cibernéticos, in-
res vivos está sendo revista pelos estudiosos a
partir das contribuições da “Teoria da Auto-
dependentemente da natureza de seus ele-
poiese”, de Humberto Maturana, sobre as ca- mentos constituintes.
racterísticas do ser vivo e seu modo de aco- É o fato de se interessar pelo estudo
plamento com o meio em que vive. das relações entre os componentes que faz

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152 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

com que a cibernética possa descrever tan- car a Cibernética. Entretanto, sua teoria só
to a regulação de uma máquina mecânica foi publicada mais tarde, em dois livros:
quanto os movimentos dos músculos de um nos Estados Unidos, Robôs, homens e men-
animal, correspondendo ao desejo expres- tes (Bertalanffy, 1967) e no Canadá, Teoria
so por Wiener de unificar o tema e colocar Geral dos Sistemas (Bertalanffy, 1968), al-
juntas todas as linhas de pesquisa. guns anos antes de sua morte em 1972.
Ou seja, a cibernética foi proposta O próprio Bertalanffy considera que
como uma teoria sistêmica para os siste- se podem distinguir essas duas tendências
mas em geral – uma “teoria geral dos sis- na ciência dos sistemas, uma “mecanicista”,
temas”. Por isso, seria possível dizer que a associada à teoria cibernética de Wiener e
cibernética desde o início explicitou sua outra “organicista”, associada à sua pró-
“vocação transdisciplinar”,2 no sentido de pria Teoria Geral dos Sistemas (ver Qua-
querer superar a fragmentação da ciência, dro 10.1).
ultrapassando as fronteiras disciplinares. Acontece, entretanto, que, para pro-
Mais ou menos na mesma época, com jetar e construir sistemas artificiais – as
essa mesma proposta de transcender as máquinas cibernéticas ou autômatos simu-
fronteiras disciplinares, o biólogo austríaco ladores de vida – os ciberneticistas preci-
Ludwig von Bertalanffy elaborava sua teo- saram compreender muito bem os sistemas
ria geral dos sistemas. Segundo ele próprio naturais – os seres vivos, incluindo eles
faz questão de destacar, começou a apre- próprios e seus grupos sociais, tanto que o
sentá-la a outros cientistas antes da Guer- artigo que é considerado como o artigo
ra e apresentou-a em congressos, depois seminal da cibernética, “Comportamento,
da Guerra, antes mesmo de Wiener publi- intenção e teleologia”, foi publicado em co-

QUADRO 10.1
Referência para as teorias sistêmicas

Vertente dos seres vivos Vertente das máquinas


(organicista) (mecanicista)

Ciência Tradicional3 Teoria Geral dos Sistemas Teoria Cibernética

Ciência Novo-Paradigmática Teoria da Autopoiese Cibernética da Cibernética


↓ ↓

Biologia do Conhecer Construtivismo Si-Cibernética


(epistemologia) (epistemologia)

3 Note-se que, apesar de serem teorias sistêmicas


2 Note-se que a transdisciplinaridade, tal como que – ao colocarem o foco nas relações – assu-
a concebo (Esteves de Vasconcellos, 2002, Cap. miram o pressuposto da complexidade, um dos
5), requer que, além de se colocar o foco nas pilares da ciência novo-paradigmática, nessas
relações entre os elementos de um “sistema ob- teorias – a cibernética e a Teoria Geral dos Sis-
servado”, se ultrapasse o pressuposto da objeti- temas – ainda se manifestam os pressupostos
vidade e do realismo do universo – o que, como da determinação e da objetividade e realismo
veremos, até esse momento de seu desenvolvi- do universo (Esteves de Vasconcellos, 2002). Ver
mento, a cibernética não realizou. também o Quadro 10.2.

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Manual de terapia familiar | 153


autoria pelo fisiologista Rosenblueth, com prática tecnocêntrica, tecnomórfica e tec-
Wiener e o engenheiro Bigelow (Rosen- nocrática.
blueth; Wiener; Bigelow, 1943). No caso da terapia familiar também
Assim, podemos dizer que a ciberné- parece não haver dúvidas de que a influên-
tica assumiu a mesma proposta da Teoria cia da cibernética foi muito maior do que a
Geral dos Sistemas, a qual foi apresentada da Teoria Geral dos Sistemas.
como uma “teoria de princípios universais, O antropólogo inglês Gregory Bateson,
aplicáveis aos sistemas em geral, quer se- que participou das Conferências Macy, des-
jam de natureza física, biológica, quer de de a primeira em 1946, considerou que um
natureza sociológica, desenvolvendo prin- dos acontecimentos mais significativos em
cípios básicos interdisciplinares” (Berta- sua vida foi seu contato com a cibernética,
lanffy, 1968, p. 55-56, 78). quando percebeu que aquele grupo de pes-
Bertalanffy faz questão de destacar quisadores estava se ocupando de proble-
que sua Teoria Geral dos Sistemas é mais mas da comunicação no sistema. Para ele,
ampla do que a cibernética, a qual teria “a cibernética é a maior mordida no fruto
desenvolvido especialmente a noção de da Árvore do Conhecimento que a huma-
retroalimentação (retroação ou feedback), nidade deu nos últimos 2000 anos”, a qual,
princípio fundamental para se compreen- entretanto, não nos resguarda contra seu
derem as relações do sistema com seu am- mau uso (Bateson, 1972, p. 506-507).
biente. Ressalta, porém, que a aplicação Ele então se utilizou amplamente do
desse princípio aos processos fisiológicos conceito cibernético de retroalimentação,
(homeostáticos) é muito anterior à sua pró- inclusive para revisar dados de campo que
pria teoria e também à de Wiener. havia colhido em suas pesquisas antropo-
Entretanto, a repercussão da ciberné- lógicas sobre comportamentos das tribos
tica no campo das ciências sociais e bioló- que estudou na Nova Guiné, reinterpre-
gicas foi maior do que a da Teoria Geral tando-os à luz dos conceitos de circuitos
dos Sistemas, inclusive para a concepção autocorretivos e de causalidade circular da
de vida (Capra, 1996). Isso talvez se deva cibernética.
em parte ao fato de, como vimos, a publi- Depois de participar das Conferências
cação dos livros de Wiener ter acontecido Macy, Bateson trabalhou no Hospital dos
cerca de 20 anos antes da publicação dos Veteranos, em Palo Alto, Califórnia, de
livros de Bertalanffy. Além disso, a presen- 1949 a 1962. E foi então que se concreti-
ça e a participação dominante de Wiener zou, através dele, a relação entre a ciberné-
nas Conferências Macy, desde a década de tica e a terapia familiar. Naquela época,
40, com seu grupo multidisciplinar e sua elaborou um projeto de pesquisa sobre “o
participação como pesquisador do Mas- papel dos paradoxos na comunicação”, reu-
sachussetts Institute of Technology (MIT), nindo um grupo de pesquisadores interes-
devem ter sido também fatores decisivos sados em diversos aspectos da comunica-
nessa maior influência da cibernética. E um ção, inclusive a comunicação dos esquizo-
outro fator ainda seria o fato de a ciber- frênicos. Com alguns desses colegas, escre-
nética ter enfatizado as possibilidades de veu um artigo descrevendo a comunicação
controle e manipulação dos sistemas, patogênica na família do esquizofrênico e
correspondendo aos objetivos da ciência apresentando a hipótese do duplo-vínculo –
tradicional de explicar, prever e controlar uma forma de comunicação paradoxal que
os fenômenos. Segundo Morin (1977), a tem profundas implicações nas relações
cibernética, subordinando a comunicação interpessoais (Bateson; Jackson; Haley;
ao comando, tornou-se uma ciência do Weakland, 1956). Esse artigo teve enorme
controle dos sistemas e possibilitou uma repercussão não só na área da psiquiatria,

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154 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

como também nas ciências humanas em Bateson foi um dos primeiros auto-
geral. res a introduzir a ideia de que a família
Quando terminou o projeto de pes- podia ser análoga a um sistema cibernético,
quisa, Bateson voltou ao Havaí para conti- ou seja, uma máquina cibernética que bus-
nuar suas pesquisas sobre a comunicação ca a estabilidade (homeostática) e que
interespécies, entre humanos e golfinhos. pode fazê-lo por dispor de circuitos de
Mas alguns membros de sua equipe de pes- retroalimentação negativa (“circuitos de re-
quisadores fundaram o Mental Research alimentação ativados pelo erro”), cujo efei-
Institute (MRI), onde deram continuidade to é o de reduzir (daí o adjetivo negativo)
às pesquisas e desenvolveram revolucioná- possíveis desvios da trajetória em direção
rias formas de abordar a doença mental, à meta (Hoffman, 1981).
atendendo a família em conjunto e conce- As ideias de Bateson tiveram grande
bendo-a como um sistema. influência sobre as investigações do siste-
Segundo o terapeuta de família Carlos ma familiar que se seguiram. Ao conside-
Sluzki (1997) – que também fez parte des- rar a família como análoga a um sistema
sa equipe do MRI –, Bateson não se inte- homeostático, enfatizaram-se os recursos
grou a esse Instituto, mas sua equipe le- de que a família lançava mão para manter
vou consigo as marcas de sua influência, sua estabilidade. As famílias esquizofrê-
buscando entender como se estabelecia nicas investigadas pareciam utilizar um me-
uma ponte entre o formalismo das teorias canismo homeostático, que se opunha à
e a prática sistêmico-cibernética. Quem mudança, e, por isso, Jackson (1968) intro-
quisesse participar da equipe do MRI tinha duziu a noção de “homeostase familiar”.
que decifrar os escritos complexos e disper- Nessa concepção, quando o sistema
sos de Bateson, os quais só mais tarde fo- familiar se desvia do modo de funciona-
ram reunidos no livro Passos para uma eco- mento que caracteriza seu “equilíbrio”, ou
logia da mente (Bateson, 1972). seja, se desvia de “seu funcionamento nor-
Assim, a cibernética influenciou os mal”, aparece em um dos seus membros
profissionais da “saúde mental” não só no um sintoma. Para lidar com esse sintoma,
sentido de conceberem a família como um os demais membros podem reassumir os
sistema – e então deslocarem o foco dos papéis que anteriormente desempenha-
indivíduos que o compõem para as rela- vam, e o sistema pode reassumir sua for-
ções que o constituem – como também de ma característica de funcionar, voltando a
compreenderem a “doença mental” a par- seu “estado de equilíbrio”. Assim como nos
tir da compreensão de como interagem ou autômatos cibernéticos o “governador”
se comunicam os membros da família. controla a gama de movimentos possíveis,
Porém, mais do que compreender a as pessoas da família atuariam no sentido
família, esses profissionais queriam inter- de manter o sistema funcionando confor-
vir, ser “agentes de mudança”. E, como vi- me suas próprias regras. Os comportamen-
mos, a cibernética se desenvolveu, de iní- tos sintomáticos foram vistos, então, como
cio, focalizando a regulação e o controle mecanismos homeostáticos, como recursos
do sistema. Aliás, a palavra cibernética vem do sistema para se reequilibrar, como par-
do grego kybernetes (que significa piloto, te da resistência do sistema à mudança.
condutor) e kybernetiké (a arte de pilotar Como vimos, um aspecto fundamen-
navios e a arte de governar os homens) e tal da cibernética foi o de utilizar a comu-
remete diretamente às ideias de mecanis- nicação – a transmissão de mensagens –
mos de regulação ou recursos de contra- para desenvolver o controle do sistema, a
reação (David, 1965). correção dos desvios, a obtenção da meta.

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Manual de terapia familiar | 155


Assim, manifestado um sintoma, indício de Segundo Sluzki (1987), a segunda ciber-
disfunção, caberia ao terapeuta proceder nética seria uma visão “homeoDINÂMICA”,
aos reparos, utilizando-se de seus recursos em contraste com a visão “homeoSTÁTICA”
técnicos (uso de mensagens) para que o da primeira cibernética.
sistema pudesse retomar sua trajetória, ou Esse desenvolvimento da cibernética
seja, eliminar o desvio e voltar a funcionar repercutiu na área da terapia familiar.4 A
conforme as regras que o constituem. terapeuta de família Lynn Hoffman, no li-
Apoiando-se em seus modelos ou em vro Fundamentos da terapia familiar: um
suas teorias sobre o funcionamento do sis- marco conceitual para a mudança de siste-
tema familiar e/ou sobre a terapia fami- mas, diz: “Maruyama sugere que preste-
liar e concebendo o sistema familiar como mos mais atenção a esta ‘segunda ciber-
uma entidade a manipular, o terapeuta nética’, que lhe parece um aspecto essen-
sistêmico-cibernético, atuando como um cial da mudança de todos os seres vivos”
“ciberneta” ou piloto, desenvolve um tra- (Hoffman, 1981, p. 56).
balho técnico, pelo que costuma ser com- A partir da segunda cibernética, muda
parado a um “engenheiro social”. A ativi- a concepção do papel do terapeuta sistêmi-
dade desse terapeuta é, portanto, uma ati- co-cibernético: em vez de tentar reequili-
vidade interventiva em que, concebendo- brar o sistema, o “ciberneta” acredita que
se fora do sistema, opera sobre o sistema a crise é uma oportunidade de o sistema
familiar. familiar mudar suas regras de interação.
Quando o ciberneticista Maruyama Procurará, portanto, abrir alternativas para
(1963) chamou a atenção – até então con- que o próprio sistema familiar escolha,
centrada na retroalimentação negativa ou entre elas, outra forma de funcionar, que
retroação auto-reguladora – para o papel seja qualitativamente nova e mais satisfa-
da retroalimentação amplificadora do des- tória para seus membros.
vio ou retroalimentação positiva (positiva
porque aumenta o desvio), aconteceu o que
ficou caracterizado como um desenvolvi- 4 Interessante lembrar que, coincidentemente,
mento da cibernética. a área da terapia familiar recebeu uma outra
Maruyama introduziu o conceito de influência, vinda de pesquisas – do Prêmio
segunda cibernética, a qual trataria dos Nobel russo Ilya Prigogine, com os sistemas físi-
processos morfogenéticos, geradores de co-químicos – que também evidenciaram a ins-
tabilidade do sistema e a imprevisibilidade de
novas estruturas, enfatizando que a ampli- sua evolução. Ele também evidenciou os proces-
ficação do desvio pode – caso não produza sos morfogenéticos, geradores de novas estrutu-
destruição ou ruptura do sistema – promo- ras, ao mostrar como, nos “pontos de bifurca-
ver a sua transformação, levando-o a um ção” de uma estrutura dissipativa, o sistema
novo regime de funcionamento. Então, essa pode saltar (saltos qualitativos) para um regime
novo de funcionamento (Prigogine e Stengers,
segunda cibernética focalizou a questão da
1979; Prigogine, 1980). Os trabalhos de Pri-
instabilidade do sistema e da imprevisi- gogine repercutiram na área da terapia famili-
bilidade de sua evolução. E a cibernética ar e os membros do Instituto de Estudos da Fa-
anterior – focada nos processos de corre- mília e dos Sistemas Humanos, de Bruxelas (do
ção do desvio – passou a ser chamada de qual faz parte o terapeuta de família Mony
primeira cibernética. Elkaim), inclusive chegaram a desenvolver, com
a colaboração de um membro da equipe de
Então, enquanto a primeira ciberné- Prigogine, um modelo matemático que permitiu
tica trataria da capacidade de “automanu- localizar pontos de bifurcação que separavam
tenção”, a segunda cibernética trataria da modos distintos de comportamento do sistema
capacidade de “automudança” do sistema. familiar (Elkaim; Goldbeter; Goldbeter, 1980).

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156 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

A sessão terapêutica será uma con- namento – trazido por ambos os pesquisa-
versação com um especialista em “ver mais dores – da crença de que podemos conhe-
lados das coisas”; assim, ampliando-se as cer objetivamente o mundo, ou seja, de que
alternativas no “ponto de bifurcação” (si- podemos conhecer “a” realidade e ter aces-
tuação de crise) em que a família se en- so a algo que existe independente do su-
contra, podem-se obter soluções originais jeito conhecedor.
para problemas crônicos (Sluzki, 1987). Os ciberneticistas estavam dando aten-
Entretanto, mesmo tendo avançado ção à noção de
da primeira para a segunda cibernética, o
terapeuta continua se concebendo de fora auto-referência, uma operação lógica
pela qual uma operação toma a si mes-
do sistema, trabalhando com um sistema
ma como objeto, como acontece quan-
que ele observa e em que ele interfere, mas do, por exemplo, falamos da lingua-
que tem existência independente dele. gem, pensamos o pensamento, ou so-
Vimos que a cibernética, como teoria mos conscientes de nossa consciência.
do controle dos sistemas, subordinou a co- (Pakman, 1991b, p. 23)
municação ao comando. Segundo o soció-
logo e filósofo da ciência Edgar Morin Então, a consequência natural foi a
(1977), a informação assume lugar cen- cibernética assumir que as noções ciber-
tral e transforma-se em programa: são ins- néticas não se aplicavam somente aos sis-
truções ou ordens (mensagens) que desen- temas observados (artificiais ou naturais),
cadeiam, inibem ou coordenam as opera- mas também aos próprios cientistas como
ções do sistema. A máquina cibernética pro- observadores. Assim que um observador
picia o controle, mas fica oculto o proble- começa a observar um sistema, constitui-
ma do poder que comanda o comando. O se um sistema mais amplo, que também o
aparelho de calefação é controlado por um inclui e que não é mais distinguido por al-
termostato calibrado, mas uma pessoa – um guém de fora do sistema, mas por um de
técnico ou especialista nesse tipo de siste- seus componentes.5
ma – calibra o termostato. A aplicação das noções cibernéticas
Esse questionamento ou comentário aos próprios cientistas como observadores
crítico vinha, muitas vezes, de fora da ci- implicou assumir que tudo que se diz so-
bernética. Entretanto, desenvolvimentos da
própria cibernética promoveram um en- 5 Essa questão de dizer-se que o terapeuta se
frentamento corajoso dessa questão.
inclui ou faz parte do sistema com que trabalha
Logo que se mudou para os Estados costuma ser difícil de compreender, chegando
Unidos, o físico austríaco Heinz von Foerster alguns a dizer que o terapeuta precisa inserir-
passou a participar das Conferências Macy se no sistema e de vez em quando tomar dis-
e iniciou suas interações com os ciberneti- tância, “entrar e sair”. Quando assumimos, com
cistas do MIT. Maturana, que tudo emerge das distinções do
observador – as quais dependem das possibili-
Em um simpósio sobre Cognição que dades contidas em sua estrutura naquele mo-
organizou em Chicago, tomou contato di- mento – compreendemos que esse fazer parte
reto com as ideias do biólogo chileno Hum- é uma implicação da terceira dimensão do novo
berto Maturana – que também frequentou paradigma da ciência, o pensamento sistêmico
e pesquisou no MIT – sobre a cognição co- novo-paradigmático: tudo que os cientistas di-
mo um fenômeno biológico. Tanto Matu- zem sobre o mundo é resultado de sua constru-
ção conjunta em um espaço consensual de
rana quanto Bateson estavam envolvidos intersubjetividade. É a isso que Foerster se re-
com a questão de como os seres vivos co- fere quando afirma que o que dizemos diz mais
nhecem. E a cibernética se constituiu como de nós do que da coisa observada (Esteves de
um contexto propício para o questio- Vasconcellos, 1992; 2002).

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Manual de terapia familiar | 157


bre um sistema está relacionado com as cesso, da emergência da realidade que co-
propriedades do cientista para fazer essa nhecemos.6
observação. Foerster (1981) introduziu a Então, com a cibernética de segunda
noção de sistema observante, em que o ordem – quando o pressuposto da objetivi-
observador se observa observando o siste- dade das afirmações científicas sobre o
ma que emerge de suas distinções. mundo é ultrapassado pelo pressuposto do
Interessante que, apesar de não ser construtivismo, da co-construção da ver-
biólogo, Foerster (1972) elaborou um tex- dade na conversação (em um espaço
to Notas para uma epistemologia dos obje- consensual de intersubjetividade) – a lin-
tos vivos que, segundo Pakman (1991a), guagem, a comunicação que antes tinha fi-
constitui uma das mais completas exposi- cado subordinada ao controle, passa a ter
ções sobre os fundamentos lógico-biológi- um lugar proeminente.7
cos de uma teoria do observador, texto que As repercussões da cibernética da ci-
seria importante para todos os seres hu- bernética são hoje muito visíveis na área
manos conhecerem como eles próprios – da terapia familiar e estão presentes – como
sendo seres vivos – conhecem. base epistemológica construtivista, nem
Assim, a cibernética tomou a si mes- sempre claramente explicitada – em todas
ma como objeto – fez um giro de auto-re- as propostas que distingo e nomeio como
ferência – e surgiu a cibernética da ciberné- novo-paradigmáticas, seja para a com-
tica (título de uma conferência de Foerster, preensão (explicações teóricas), seja para
em 1974), também chamada de cibernéti- a atuação (intervenções práticas), não ape-
ca de segunda ordem. Nessa conferência, nas no sistema familiar, mas também em
ele se referiu à “teoria da autopoiese”, de sistemas mais amplos do que a família
Maturana. Citando a afirmação de Matu- (Aun; Esteves de Vasconcellos; Coelho,
rana de que “tudo é dito por um observa- 2007).
dor” (Maturana, 1969), chamou-a de Ao assumirem a impossibilidade de
“teorema no 1, de Humberto Maturana” e se falar em um sistema observado, os tera-
acrescentou o que chamou de “corolário peutas sistêmicos assumem ser impossível
no 1, de Heinz von Foerster”: “tudo o que é a neutralidade e passam a conviver com o
dito é dito a um observador”.
Estava evidente para os ciberneticis-
tas que, sendo impossível falar em uma re- 6 É interessante lembrar que também Maturana
alidade independente de um observador,
tem a ontogenia como noção central em sua
a realidade em que a ciência fala – assim “Biologia do Conhecer”. Ambos pontuam a im-
como aquela em que falamos cotidiana- portância da linguagem na constituição da rea-
mente – é inevitavelmente uma constru- lidade.
7 Interessante que, ainda muito jovem, Foerster
ção consensual em um espaço de intersub-
jetividade. Só a partir de nossas conversa- participou das reuniões do Círculo de Viena, das
quais seu tio, o filósofo Wittgenstein, também
ções podemos falar do que tomamos ou participava. Wittgenstein enfatizou que a refle-
constituímos como real para nós. É nisso xão sobre as estruturas linguísticas da ciência
que consiste a postura – ou a crença ou o se constitui como uma atividade de 2º nível (lin-
pressuposto – construtivista. guagem sobre a linguagem) e propôs que a es-
Embora o nome de Foerster tenha fi- trutura da realidade determinaria a estrutura
cado definitivamente associado à noção de da linguagem científica: o que é dito na ciência
sobre o mundo refletiria especularmente a rea-
construtivismo, ele próprio declarou que lidade. Posteriormente, passou a sugerir o con-
teria preferência pelo termo ontogenetis- trário: que é através da linguagem que são vis-
mo, em lugar de construtivismo, porque tas as coisas, ou seja, que a linguagem constitui
leva a pensar em termos de gênese, de pro- a realidade (Pears, 1971).

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158 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

até então incômodo paradoxo auto-refe- em conteúdos, mas antes como um espe-
rencial, reconhecendo a auto-referência cialista em processo – cria um “contexto
como condição inevitável para os seres vi- de autonomia” em que a conversação so-
vos humanos. bre as narrativas possa conduzir à dissolu-
A única possibilidade que tem cada ção do problema, ou seja, em que se possa
um (família ou terapeuta) é falar de como co-construir uma solução para ele (Aun,
experimenta a situação vivida, falar de sua 2007).
experiência subjetiva, compartilhar ou con- Mas, voltemos um pouco à cibernéti-
versar sobre sua própria “versão”, sua pró- ca e aos diversos rótulos que ela nos traz à
pria “narrativa”, sua própria “história”. tona. Ao se apontar que a cibernética da
Entretanto, falar em “versão” traz o risco cibernética corresponde a uma cibernética
de se continuar a pensar que sejam dife- de um outro nível lógico, sendo por isso
rentes versões ou narrativas, diferentes chamada de cibernética de segunda ordem,
olhares ou visões, sobre o que de fato acon- ficou claro que a primeira e a segunda ci-
teceu ou sobre o que realmente existe. bernéticas correspondem a uma cibernéti-
Assumir a epistemologia construti- ca de primeira ordem, que implica traba-
vista implica acreditarmos que não existe lhar com um sistema observado.
o que de fato aconteceu e que todas as nar- Quando avaliou a aplicabilidade da te-
rativas (quer sejam de clientes, quer sejam oria cibernética para os sistemas antropos-
de terapeutas) são verdades, por mais que sociais, Morin (1977) abordou suas vanta-
sejam diferentes ou até mesmo discrepan- gens e seus limites e apontou a necessidade
tes. Assumir essa crença ou esse pressupos- de ultrapassarmos a cibernética em uma si-
to (epistemologia) implica desenvolver te- cibernética, essa sim apropriada para os sis-
orias e/ou práticas “construtivistas”, que temas humanos. O prefixo si, da preposi-
também têm sido chamadas de “constru- ção grega sun – “estar com, estar junto” –
cionistas”, “narrativistas”, “conversacio- marca a ideia de obrigação recíproca entre
nalistas”, “transformadoras” (das narra- as partes. Ao fazermos essa ultrapassagem,
tivas). atingiríamos uma si-cibernética integradora,
O pressuposto sistêmico-construtivis- permitindo-nos resgatar e integrar a ciber-
ta acarreta uma mudança radical na defi- nética com suas vantagens, porém agora
nição do problema a tratar, seja na sessão com um olhar novo sobre ela.
clínica ou no contexto de terapia, seja em Morin – que, diga-se de passagem,
assembleias, encontros, reuniões de siste- não estava falando em terapia de família –
mas mais amplos que a família ou contex- fazia, como sociólogo e/ou filósofo da ci-
to de atendimento sistêmico (Aun, 2005). ência, uma avaliação ampla dos desenvol-
Assumindo que “sistemas não fazem vimentos da cibernética como uma teoria
problemas; o linguajar sobre problemas é científica.
que constitui sistemas” (Anderson; Gooli- Tendo elaborado já meu quadro de
shian, 1988, p. 379), trabalha-se com o “sis- referência (ver o Quadro 10.2) para a mu-
tema determinado pelo problema”, que dança de paradigma da ciência, identifi-
desconsidera relações de consanguinidade quei na noção de si-cibernética por ele des-
e limites organizacionais e legais, sendo crita, as três dimensões que distingui no
constituído pelas pessoas que estão em um novo paradigma da ciência, o paradigma
dado momento dialogando sobre o proble- sistêmico: a abordagem da complexidade
ma (Goolishian; Winderman, 1988). O te- dos sistemas; o reconhecimento da impre-
rapeuta ou coordenador da conversação – visibilidade e da impossibilidade de instruir
o especialista em atendimento sistêmico, e controlar o sistema; o afastamento da
que não se identifica como um especialista pretensão de objetivar ou atingir a realida-

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Manual de terapia familiar | 159

QUADRO 10.2
Referência para a transformação paradigmática da ciência

Ciência tradicional Ciência novo-paradigmática emergente

Simplicidade → Complexidade
análise contextualização
relações causais lineares relações causais recursivas
Estabilidade → Instabilidade
determinação – previsibilidade indeterminação – imprevisibilidade
reversibilidade – controlabilidade irreversibilidade – incontrolabilidade
Objetividade → Intersubjetividade
subjetividade entre parênteses objetividade entre parênteses
uni-versum multi-versa

de. Considerei que, além de articular os expressão “sistêmico-si-cibernética” para


dois níveis da cibernética, de primeira e caracterizar as práticas de terapia familiar
de segunda ordem – uma forma de articu- consistentes com essa “nova epistemologia
lação em que já se ultrapassa resgatando e sistêmico-cibernética” (Esteves de Vascon-
integrando – a si-cibernética privilegia a cellos, 1992; 1995).
integração entre as três dimensões do novo Como representei no Quadro 10.3, a
paradigma da ciência. Por isso, propus a si-cibernética articula, de forma integra-

QUADRO 10.3
Si-cibernética: a articulação dos desenvolvimentos da cibernética

Foco no
elemento
(simplicidade)

1a cibernética Foco na relação Com ênfase à Com concepção
da cibernética retroalimentação do sistema
→ Complexidade
de 1a ordem COMPLEXIDADE negativa observado
(estabilidade) (objetividade)
↓ ↓ ↓ e
a
2 cibernética Com ênfase à
da cibernética retroalimentação
→ Instabilidade
de 1a ordem positiva
INSTABILIDADE
↓ ↓ ↓ e
cibernética da Com concepção
cibernética ou do sistema
cibernética → Intersubjetividade
observante
de 2a ordem INTER-
SUBJETIVIDADE
↓ ↓ ↓
Complexidade e instabilidade e intersubjetividade SI-CIBERNÉTICA

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160 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

dora, todos os momentos e aspectos que No pensamento (ou paradigma ou


se costuma distinguir no desenvolvimento epistemologia ou visão de mundo) sistê-
da cibernética: a complexidade (decorren- mico, tal como o concebo, distingo três pres-
te de a cibernética colocar o foco no siste- supostos epistemológicos. Assim como
ma, mesmo quando focalizando a auto- Foerster (1974) concebeu uma conexão
regulação, como o fez a primeira ciberné- triádica fechada entre o observador, a lin-
tica); a instabilidade (assumida quando se guagem e a sociedade – em que se necessi-
reconhecem indeterminação, saltos quali- ta dos três para se ter cada um dos três –
tativos, impossibilidade de se controlar o também distingo o mesmo tipo de cone-
sistema, como o fez a segunda cibernéti- xão, de causalidade recursiva, entre esses
ca); e ainda a intersubjetividade (presente três pressupostos (Esteves de Vasconcellos,
na postura construtivista, decorrência ne- 1997).
cessária da cibernética de segunda ordem). Assim, um cientista/profissional que
Trata-se, portanto, da si-cibernética como assumiu o pensamento sistêmico assumiu
uma epistemologia cibernética novo- uma epistemologia que implica suas dis-
paradigmática. tinções nas três dimensões: é um cientis-
Parece-me importante ressaltar, en- ta que pensa – ou distingue – a complexi-
tão, que as práticas de terapia familiar dade, sem tentar simplificar ou reduzir,
sistêmica que começaram sendo influencia- buscando entender as conexões; é um
das pela cibernética como teoria também cientista que pensa – ou distingue a in-
se desenvolveram com a evolução da ciber- determinação (a auto-organização ou a
nética e têm hoje a si-cibernética como uma autopoiese ou a autonomia) do sistema e
epistemologia. assume as implicações de distingui-la; é
Entretanto, não vejo hoje vantagem um cientista que se pensa – ou se distin-
em ficarmos presos aos rótulos cibernéticos gue – como parte de todo e qualquer sis-
para as práticas sistêmicas que vêm se de- tema com que esteja trabalhando, o qual
senvolvendo. Como vimos, não foi apenas se constitui para ele a partir de suas pró-
a cibernética da cibernética – na vertente prias distinções.
mecanicista da ciência dos sistemas – que Esse cientista/profissional desenvol-
trouxe à consideração a questão do obser- verá, desse modo, teorias e/ou práticas que
vador que trabalha com o sistema. Tam- podemos distinguir como consistentes com
bém a Teoria da Autopoiese, de Maturana, os três pressupostos sistêmicos. Desenvol-
uma teoria sistêmica para os seres vivos – ve formas de trabalhar com sistemas com-
portanto na vertente organicista da ciên- plexos, que se constituem em torno de um
cia dos sistemas (ver Quadro 10.1) – trou- problema, respeitando e mantendo sua
xe a mesma questão. Ao trazer essa ques- complexidade. Atua respeitando e criando
tão de como conhecemos, sendo seres vi- um contexto para o desenvolvimento da
vos humanos, evidenciou a impossibilida- autonomia do sistema, afastando tudo que
de da objetividade, devido à forma como possa significar interação instrutiva com
somos biologicamente constituídos. Ou ele. Privilegia a conversação e focaliza as
seja, ambas as teorias sistêmicas contribu- diversas narrativas, visando à co-constru-
íram de modo fundamental para trazer a ção de soluções para o que o próprio siste-
questão epistemológica para o âmbito da ma definiu como um problema, ou seja,
ciência, criando as condições para os cien- esse profissional desenvolverá práticas que
tistas assumirem o pensamento sistêmico distinguimos como construtivistas, cons-
como o novo paradigma da ciência. trucionistas, narrativistas, conversaciona-

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Manual de terapia familiar | 161


listas, transformadoras (das narrativas) e Por isso, prefiro adjetivar de “novo-
pode, naturalmente, ser identificado com paradigmático” não só esse pensamento
esses rótulos. (paradigma/epistemologia/visão de mun-
Entretanto, sabemos que há profis- do) sistêmico – em que distingo, além do
sionais sistêmicos que ainda não assumi- pressuposto construtivista, os pressupostos
ram o pressuposto construtivista, manten- da complexidade e da instabilidade do
do-se com uma “epistemologia sistêmica mundo –, mas também as teorias e as prá-
de primeira ordem”, e que têm sido cha- ticas com ele consistentes, trabalhando,
mados de “terapeutas sistêmicos”, enquan- portanto, com os conceitos de “pensamen-
to os que já assumiram uma “epistemologia to sistêmico novo-paradigmático”, “teo-
sistêmica de segunda ordem” têm sido cha- ria(s) sistêmica(s) novo-paradigmática(s)”
mados de construtivistas, construcionistas, e “prática(s) sistêmica(s) novo-para-
narrativistas, conversacionalistas (e até digmática(s)” (Esteves de Vasconcellos,
mesmo de pós-modernos, uma expressão 2004b).
que, a meu ver, se prende mais ao domínio
linguístico da filosofia do que ao domínio
linguístico da ciência). REFERÊNCIAS
Por isso, tenho procurado alertar para
o risco de fragmentação e compartimenta- ANDERSON, H.; GOOLISHIAN, H. A. Human
ção, se nos prendermos à dicotomia “tera- systems as linguist systems: preliminary and
evolving ideas about the implications for clinical
pia familiar sistêmica”/“terapia familiar theory. Family Process, New York, v. 27, n. 4, p.371-
narrativista” (Esteves de Vasconcellos, 393, Dec. 1988
2004a). AUN, J. G. Psicoterapia/terapia de família/aten-
As expressões sistêmico/construtivista dimento sistêmico à família: propondo uma dife-
(ou construcionista ou narrativista), quer renciação. In: AUN, J. G.; ESTEVES de VASCON-
se referindo ao pensamento (epistemolo- CELLOS, M. J.; COELHO, S. V. Atendimento sis-
gia, visão), quer às teorias, quer às práti- têmico de famílias e redes sociais. Belo Horizonte:
Ophicina de Arte & Prosa, 2005. v. 1: Fundamen-
cas sistêmicas, poderiam afastar esse ris-
tos teóricos e epistemológicos, p. 62-69.
co. Porém, a meu ver, isso se daria privile-
_________ . Uma nova identidade para o profissional
giando-se apenas o terceiro pressuposto ou
que lida com as relações humanas: o especialista
a terceira dimensão do pensamento sistê- em atendimento sistêmico. In: AUN, J. G.;
mico – o pressuposto construtivista – em ESTEVES de VASCONCELLOS, M. J.; COELHO,
detrimento dos outros dois, os pressupos- S. V. Atendimento sistêmico de famílias e redes so-
tos da complexidade e da instabilidade dos ciais. Belo Horizonte: Ophicina de Arte & Prosa,
sistemas. 2007. v. 2: O processo de atendimento sistêmico,
p.38-60.
Acredito que, além dos desenvolvi-
mentos da cibernética – que nos propõem AUN, J. G.; ESTEVES DE VASONCELLOS, M. J.;
assumir o pressuposto construtivista – ou- COELHO, S. V. Família como sistema, sistema mais
amplo do que a família, sistema determinado pelo
tros desenvolvimentos ocorridos no âmbi- problema. In: _________ . Atendimento sistêmico de
to da própria ciência – tais como, por exem- famílias e redes sociais. Belo Horizonte: Ophicina
plo, a “teoria das estruturas dissipativas”, de Arte & Prosa, 2007. v. 2: O processo de atendi-
de Prigogine, e a “teoria da autopoiese”, mento sistêmico, p. 13-37.
de Maturana, também representam contri- BATESON, G. Steps to an ecology of mind. New York:
buições fundamentais para que possamos Ballantine Books, 1972.
assumir o pensamento sistêmico como o BATESON, G. et al. Toward a theory of schizo-
novo paradigma da ciência. phrenia. Behavioral Science, n. 1, p.251-264, 1956.

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162 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

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comunicación humana: una reminiscência perso-

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164 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

11
Terapia de casais com enfoque
cognitivo-comportamental
Adriana Selene Zanonato
Luiz Carlos Prado

INTRODUÇÃO mentos, os pressupostos e as crenças que


determinam como a pessoa sente e se com-
A terapia cognitivo-comportamental cons- porta. O modo como interpretamos uma
titui-se de um modelo teórico e de um con- situação vai influenciar a maneira como
junto de práticas desenvolvidas a partir dos vamos sentir e agir sobre ela.
anos 60, nos Estados Unidos, por alguns pio- Inicialmente voltada para o atendi-
neiros. Sua denominação tem origem nas mento individual, a terapia cognitivo-com-
duas vertentes principais que a compõem: portamental passou também a direcionar-
o enfoque cognitivo e o comportamental. se para casais, famílias e grupos. Para os
Originalmente separados, esses enfoques fins desse capítulo, será definido como um
foram unidos nos anos 80, dentro de um casal duas pessoas adultas, de sexos dife-
movimento integrativo que tem abrangido rentes ou do mesmo sexo, que mantenham
também outras abordagens terapêuticas, in- uma relação estável, casados ou não ofici-
clusive a própria terapia familiar sistêmica. almente, vivendo em uma mesma casa ou
A psicologia identifica basicamente eventualmente em casas diferentes, como
três áreas do funcionamento humano: o acontece em recasamentos entre pessoas
pensamento, o comportamento e as emo- que têm cada uma seus filhos e não que-
ções. Os enfoques psicodinâmicos tradicio- rem modificar seu convívio com eles. O
nalmente centraram-se mais nas emoções, casamento também pode ser definido como
enquanto os comportamentalistas sempre “um modelo adulto de intimidade” (Witha-
buscaram atuar diretamente sobre as ações, ker,1995). Não que adolescentes não pos-
buscando, a partir delas, alterar as emo- sam eventualmente casar-se, mas a imatu-
ções e as cognições. Os enfoques cogniti- ridade que caracteriza essa etapa do de-
vistas passaram a destacar o papel do pen- senvolvimento já constitui em si um pro-
samento na determinação das emoções e blema para o casamento, determinando
dos comportamentos. Em uma visão desde logo alguma disfuncionalidade.
integradora, entendemos que se podem re- A terapia conjugal aborda casais que
alizar mudanças atuando em qualquer uma estejam com problemas em seu relaciona-
dessas três áreas. mento. Mesmo que eventualmente os par-
O enfoque cognitivo-comportamental ceiros possam ser vistos individualmente,
enfatiza os recursos e as técnicas que po- o foco do trabalho é a relação conjugal, e
dem ser utilizados para alterar os pensa- não cada indivíduo em separado.

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Manual de terapia familiar | 165


Dentro do enfoque cognitivo-compor- se referem a temas extremamente es-
tamental, os problemas conjugais são com- táveis e duradouros que se desenvol-
preendidos como resultado de padrões dis- vem durante a infância, são elabora-
funcionais de pensamentos e comportamen- dos ao longo da vida e são disfuncio-
nais em um grau significativo. (Young,
tos. As distorções cognitivas, comuns em
2003)
todas as áreas do relacionamento humano,
são importantes fatores de exacerbação dos
conflitos conjugais, influindo fortemente no As crenças expressam-se através de di-
modo como os cônjuges se relacionam. O ferentes níveis: os pensamentos automáti-
equilíbrio entre as áreas de satisfação e de cos, os pressupostos ou as crenças inter-
insatisfação conjugal vai determinar o grau mediárias e as crenças centrais, que se cons-
de disfuncionalidade de uma relação – quan- tituem no cerne da cognição.
do os custos passam a ser maiores do que Os pensamentos automáticos são
os benefícios, a relação estará em crise. aqueles que surgem espontaneamente em
As intervenções cognitivo-comporta- nossa mente, podendo ser adequados ou
mentais visam a restabelecer o equilíbrio disfuncionais. Pensamentos automáticos
da relação conjugal através do aumento das disfuncionais são pensamentos distorcidos
áreas de satisfação e da diminuição dos percebidos como verdadeiros. O modo
conflitos, trabalhando as distorções cog- como pensamos vai determinar, de certa
nitivas e as dificuldades de comunicação e forma, nosso estado de humor; portanto,
de solução de problemas. Neste capítulo, os pensamentos automáticos disfuncionais
serão sintetizados alguns desses recursos são um caminho para a compreensão de
e examinados como eles podem ser aplica- nossas reações emocionais. Os pensamen-
dos ao trabalho com casais. tos automáticos poderão ser expressos em
palavras ou mesmo em imagens. Os “pen-
samentos quentes” são aqueles mais carre-
AS CRENÇAS NO gados de emoção e podem ser de grande
MODELO COGNITIVO valia para compreender importantes mu-
danças do humor do indivíduo.
O modelo cognitivo considera que as pes- As crenças intermediárias compõem-
soas desenvolvem determinadas crenças se de uma série de pressupostos e regras
sobre si mesmas, sobre os outros e sobre o que norteiam muitas das ações dos indiví-
mundo, a partir do que aprendem na in- duos, sendo mais constantes e difíceis de
fância, através da interação com outras modificar do que os pensamentos automá-
pessoas significativas. Os bebês iniciam a ticos, apesar de serem mais acessíveis do
compreensão de seu mundo através de suas que as crenças centrais.
relações familiares, aprendendo atitudes e As crenças centrais são as ideias mais
regras a partir dos que estão a seu redor profundas da pessoa a respeito do self, dos
(Zanonato e Germani, 2002). Isso é a base outros e do mundo, funcionando como “ver-
dos esquemas – estruturas cognitivas está- dades absolutas”, rígidas e generalizadas,
veis e duradouras que se formam a partir que têm impacto importante sobre as emo-
de experiências relacionais, em especial da ções e sobre os comportamentos. As crenças
infância, que organizam, filtram e codifi- centrais podem permanecer fixas ao longo
cam a percepção que o indivíduo tem das da vida, por terem sido desenvolvidas atra-
situações que vivencia. Young entende que, vés de experiências vividas em idade muito
nos transtornos de personalidade, são en- tenra, exercendo poderosa influência sobre
contrados esquemas iniciais desadapta- o modo como pensamos, sentimos e nos com-
tivos, que portamos em nossas experiências de vida.

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166 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

As crenças centrais ou nucleares dis- maneça sempre o mesmo, com pouco ou


funcionais podem ser agrupadas em três nenhum esforço por parte dos cônjuges.
grandes categorias (Knapp, 2004): Pensando assim, descuidam-se da relação,
podendo deixá-la vulnerável diante dos
 Crenças de desamparo. Ligadas a sentir- primeiros conflitos.
se impotente, frágil, vulnerável, caren- As expectativas irrealistas têm sua raiz
te, desamparado, necessitado. no sistema de crenças de cada parceiro. O
 Crenças de desamor. Ligadas a ser inde- terapeuta deve trazer à tona os esquemas
sejável, incapaz de ser gostado ou ama- cognitivos dos cônjuges, ajudá-los a iden-
do, sem atrativos, imperfeito, rejeitado, tificar suas crenças irrealistas e buscar al-
abandonado, solitário. ternativas mais adequadas.
 Crenças de desvalor. Ligadas a ideias de Atribuição causal, forma de pensa-
ser incapaz, incompetente, inadequado, mento disfuncional que atrapalha bastan-
ineficiente, falho, defeituoso, engana- te a interação dos casais, significa “jogar a
dor, fracassado, sem valor. culpa” dos problemas de relacionamento
na outra pessoa ou em fatores externos à
relação. Ajudar ambos os parceiros a acei-
TRABALHANDO AS CRENÇAS tarem a responsabilidade pelas dificulda-
COM OS CASAIS des do relacionamento é um passo impor-
tante no processo de reestruturação cogni-
É muito importante, no trabalho com ca- tiva em terapia de casal.
sais, avaliar-se as crenças que cada um dos Todas essas formas distorcidas de pen-
cônjuges traz para a relação. Elas podem sar sobre relacionamentos são áreas bási-
ser equilibradas ou distorcidas: crenças cas da disfunção conjugal que podem en-
equilibradas são aquelas que possuem evi- tão ser trabalhadas na terapia de casais.
dências confirmadoras, e crenças distorci-
das são baseadas em informações incorre-
tas ou pensamento falho, geralmente enrai- AVALIAÇÃO DO CASAL
zadas em evidências circunstanciais. “Todos
os homens são iguais” é uma típica crença Algumas vezes, os casais buscam terapia
distorcida e bastante comum em nossa cul- conjuntamente, pois já têm clareza sobre
tura, sendo uma frequente generalização. a natureza relacional de suas dificuldades.
As crenças distorcidas são fonte de Mas em muitas outras ocasiões é somente
muita discórdia entre os cônjuges e preci- um dos cônjuges quem inicia a busca de
sam ser abordadas com clareza para que tratamento, sendo necessário que o tera-
possa haver melhora no relacionamento do peuta construa a terapia conjunta a partir
casal. O terapeuta deve ajudar o casal a desse cônjuge, estimulando a vinda do par-
avaliar as evidências que confirmam ou não ceiro para a terapia. Quase metade das
essas crenças a fim de verificar sua razoa- pessoas adultas que buscam ajuda tera-
bilidade. pêutica individualmente o fazem por
Outra questão importante a ser ava- problemas relacionados à vida conjugal
liada são as expectativas irrealistas ou exi- (Arias e House, 2007). Mesmo nesses ca-
gentes, que costumam ser causa de grande sos o próprio terapeuta pode realizar os
sofrimento psicológico, podendo determi- dois trabalhos, pois em verdade se trata de
nar desapontamentos e frustrações que um mesmo processo terapêutico que terá
acarretam interações negativas entre os uma fase inicial com apenas um dos côn-
cônjuges. Um exemplo seria a expectativa juges e um seguimento com a participação
de um casal de que o amor entre eles per- dos dois. A temática será sempre a mes-

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Manual de terapia familiar | 167


ma – os conflitos e as dificuldades da rela- juntas também oferecem ao terapeuta uma
ção. Evidentemente não estamos falando possibilidade de observar diretamente suas
de uma longa relação individual com um interações (Dattilio, 1994). É muito Impor-
dos cônjuges, e sim de um período inicial tante ouvir a versão de cada membro do
de algumas consultas para preparar a vin- casal sobre os motivos que os trazem à te-
da do parceiro, que, muitas vezes, ainda rapia, pois suas versões são frequentemente
não tem consciência da necessidade ou diferentes e mesmo conflitantes, sendo essa
não aceita bem a possibilidade de uma disparidade um fator de medida do grau
terapia. Na primeira sessão conjunta, é in- de disfunção conjugal.
teressante que se dê uma atenção diferen-
ciada ao cônjuge mais resistente, visando
a estabelecer com ele uma boa aliança te- A PRIMEIRA SESSÃO CONJUNTA
rapêutica.
Os objetivos de uma avaliação do ca- O objetivo da entrevista inicial conjunta é
sal são os seguintes: obter o máximo de informações sobre a
vida do casal em diversos aspectos:
 identificar os problemas atuais pelos
quais o casal busca atendimento e a fre-  Como e onde foi que se conheceram,
quência de seus padrões de interação como aconteceram as primeiras intera-
positivos e negativos; ções do casal, como se deu a atração
 mapear os recursos existentes na rela- entre eles, o que chamou atenção so-
ção do casal que possam ser acessados bre o parceiro, quando foi que decidi-
e utilizados para a resolução de seus ram casar-se ou iniciar uma relação es-
problemas; tável. Também se deve verificar quantos
 avaliar as características de cada côn- anos têm de vida em comum, incluindo
juge que estejam influenciando na pro- o tempo de namoro, se moram juntos
blemática do casal; ou separados e quais expectativas pré-
 colocar o atual funcionamento do casal vias tinham em relação ao casamento e
no contexto de seu ciclo vital de desen- ao outro.
volvimento e verificar as implicações  Verificar se foram casados anteriormen-
dessas mudanças na relação; te ou se tiveram outros relacionamen-
 verificar os principais estressores soci- tos importantes antes do atual, seja pela
ais e contextuais que estejam influindo duração, seja por sua intensidade. No
sobre o casal; caso de o casal ter filhos do atual casa-
 observar aspectos cognitivos, afetivos e mento, perguntar quantos são os filhos,
comportamentais que tenham relevân- como e quando nasceram, como se de-
cia para os problemas conjugais, em senvolveram e a relação que cada côn-
especial para quaisquer distorções ou juge tem com eles.
crenças arraigadas acerca de si mesmos,  Em situações de recasamento, esclare-
de seus cônjuges e do relacionamento; cer como foi e quando terminou a rela-
 avaliar suas habilidades de comunica- ção anterior, se os cônjuges mantêm
ção e de solução de problemas; bom relacionamento com os ex-parcei-
 verificar se está indicada terapia de ca- ros ou se há rupturas ou conflitos im-
sal para estes pacientes. portantes com eles. Caso tenham já tido
filhos nesses relacionamentos anterio-
Além de informarem sobre memórias res, avaliar como nasceram e cresceram,
e visões dos cônjuges a respeito de sua his- com quem moram atualmente e o tipo
tória familiar e do casal, as sessões con- de relação que têm com eles; também

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168 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

verificar como foram aceitos pela famí- relacionamento, os problemas que estão
lia um do outro. enfrentando e como pensam o futuro da
 O terapeuta deve avaliar se cada um dos relação. As hipóteses formuladas deverão
cônjuges identifica as situações que ser testadas, confirmadas ou reformuladas
possam ter contribuído para o surgi- ao longo da terapia do casal. Essa concei-
mento dos conflitos que estão tornan- tualização leva em conta a vida atual do
do sua relação insatisfatória. Deve tam- casal, suas vivências anteriores e as expec-
bém explorar questões individuais de tativas que cada um mantém sobre o futu-
cada cônjuge que possam estar interfe- ro do relacionamento.
rindo no relacionamento do casal, como No final da primeira entrevista con-
efeitos residuais de uma infância difí- junta – que, muitas vezes, se estende por
cil, vivências de abuso físico, sexual ou dois ou três encontros – podem ser aplica-
psicológico, perdas precoces significa- dos questionários e inventários, muito va-
tivas, entre outras. lorizados em terapia cognitivo-comporta-
 Buscar uma breve história da relação mental, pois permitem uma economia de
atual: como o casal distribui seu tempo tempo na avaliação e possibilitam maior
ao longo do dia, quanto tempo tem para objetividade na obtenção das informações,
atividades em conjunto, como vivem muitas das quais podem ser omitidas du-
seu lazer, que atividades partilham, rante as entrevistas. Eles deverão ser res-
quais demandas profissionais possam pondidos pelos cônjuges separadamente,
estar interferindo na relação, etc. Na sem qualquer interferência de um sobre as
relação atual, é importante avaliar respostas do outro. Os inventários e os
como se relacionam com as famílias de questionários escritos podem dar ao tera-
origem de cada um. peuta uma visão muito ampla de atitudes
 Verificar como está, nessa etapa, a vida e crenças que cada cônjuge pode ter sobre
afetiva do casal – o carinho, o sexo, a o casamento e sobre a relação do casal,
paixão e o amor entre eles. É muito útil além de serem instrumentos úteis para
pedir-lhes que quantifiquem esses sen- monitorar o desenvolvimento da terapia.
timentos em uma escala, por exemplo, Cada um dos diferentes inventários
de 0 a 10. visa a iluminar alguns aspectos em espe-
 O terapeuta deve também investigar in- cial, sejam crenças disfuncionais, sejam
tervenções terapêuticas prévias e/ou es- problemas de comunicação ou padrões de
tratégias de auto-ajuda – identificando funcionamento na relação. Seus resultados
as que foram úteis e aquelas que não orientam o terapeuta quanto a que áreas
foram. são mais conflitivas em cada caso, bem
 Ainda nas entrevistas iniciais, o tera- como auxiliam na identificação de áreas
peuta pode questioná-los sobre o que de recursos saudáveis que possam ser de
deveria ser mudado para tornar a vida valia no trabalho terapêutico.
do casal mais harmoniosa, agradável e
satisfatória. Pode ser útil também fazer
uma pergunta mágica: o que acontece- ENTREVISTAS INDIVIDUAIS
ria com eles caso o problema magica-
mente desaparecesse de um momento No seguimento da avaliação, após a entre-
para outro? (Dattilio, 2006). vista conjunta inicial, solicita-se uma en-
trevista individual com cada parceiro. Nes-
Com todos estes dados levantados, o sas sessões, devem ser obtidas informações
terapeuta pode então formular a conceitua- gerais de cada cônjuge, uma história de seu
lização de como ambos parceiros vêem seu desenvolvimento e de sua família de ori-

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Manual de terapia familiar | 169


gem, bem como esclarecidas questões re- cada cônjuge vê os problemas no relacio-
lativas à saúde física. Nessas entrevistas, o namento. A ênfase deve ser colocada sobre
terapeuta terá a chance de conhecer um pensamentos automáticos específicos, cren-
pouco melhor cada um dos membros do ças sobre si mesmo e sobre as mudanças
casal, oportunizando ainda a abordagem que precisam ocorrer no relacionamento.
de temas que não tenham sido trazidos nas Alguns casais somente buscam tera-
sessões conjuntas, por receio de causarem pia quando a relação já está muito deteri-
mágoa ou raiva no parceiro. orada. Algumas vezes, já está morta, ne-
Muitos terapeutas que trabalham com cessitando apenas que algum terapeuta aju-
casais poderão questionar: qual seria a van- de-os a enfrentar essa dura realidade. A
tagem de conhecerem-se todas essas ques- terapia de casal pode, então, transformar-
tões se não puderem ser levadas às sessões se em terapia de divórcio.
conjuntas? Essa é realmente uma questão
relevante: alguns desses aspectos poderão
ser questões privadas da história de cada A SESSÃO CONJUNTA
cônjuge, podendo ficar a seu critério com- FINAL DA AVALIAÇÃO
partilhá-las ou não com o parceiro. Mas
aquelas que se configuram como segredos Como vimos a propósito da sessão conjun-
e que têm importantes implicações para o ta inicial, também as sessões individuais
relacionamento devem ser levadas para o podem necessitar mais tempo, talvez des-
trabalho conjunto. O que pode ocorrer é dobrando-se em duas ou três. Essa sessão
que esse cônjuge ainda não esteja prepa- conjunta final da avaliação deverá resumir
rado para comunicar certas informações ao o que foi obtido até então, formular para o
parceiro, devendo então ser preparado para casal a conceitualização do caso e com cada
isso. Assim, podem-se organizar mais al- um discutir um plano de ação. Fundamen-
guns encontros individuais para trabalha- tal nessa etapa é a exposição sobre as áreas
rem-se as razões e as crenças que possam de problemas que foram identificados atra-
estar impedindo a comunicação do segre- vés das sessões anteriores e dos questioná-
do. Caso esse objetivo não consiga ser atin- rios e inventários aplicados.
gido, o terapeuta poderá então sugerir que Nessa segunda sessão conjunta, o
o cônjuge em questão diga ao parceiro que terapeuta deverá abordar os seguintes pon-
não deseja seguir uma terapia conjunta, tos, segundo Epstein e Baucom (2003):
ficando então indicada terapia individual
para ambos.  sintetizar os problemas atuais apre-
Arias e House (2007) sugerem que as sentados pelo casal;
sessões individuais devam ser realizadas so-  revisar o modo como os problemas se
mente nessa etapa de avaliação, e o res- desenvolveram, os recursos utilizados
tante da terapia deverá sempre ser reali- no passado e os resultados de seu uso;
zado em sessões conjuntas. Sugerem tam-  identificar objetivos realistas para in-
bém que, enquanto cada cônjuge é entre- tervenções.
vistado separadamente, o outro possa res-
ponder aos inventários e questionários in- Nesta segunda sessão conjunta, o te-
dicados, garantindo-se que eles sejam res- rapeuta precisa discutir sobre a disposição
pondidos sem nenhuma interferência do à mudança do casal e rever suas expectati-
parceiro. vas, avaliando o quanto são realistas ou
O foco da etapa de avaliação, segun- irrealistas. Finalmente, precisa decidir
do Dattilio (1995), deve ser o desenvolvi- quanto ao seguimento do trabalho, se está
mento de uma conceitualização de como indicada ou não uma terapia de casal ou

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170 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

alguma outra modalidade de tratamento. Segundo as pesquisas de Gottman, as


Ele pode também desejar ouvir alguma áreas mais comuns de conflitos conjugais
outra opinião profissional, envolvendo al- são os estresses oriundos do trabalho de
gum aspecto em especial – uma avaliação cada cônjuge, o relacionamento com fami-
clínica ou psiquiátrica de um dos parcei- liares próximos, as questões financeiras, o
ros, por exemplo – antes de formular seu sexo, a distribuição dos afazeres domésti-
diagnóstico e prognóstico do caso. cos e o relacionamento com os filhos. Mes-
Nessa sessão, o terapeuta deverá co- mo nos casamentos satisfatórios, essas
meçar a apresentar ao casal o modelo questões são permanentes.
cognitivo-comportamental. Nesse sentido,
enfatizará a necessidade de que o trata- Todo casamento tem determinadas ta-
mento seja “colaborativo”, ou seja, tera- refas emocionais que marido e mulher
peuta e casal formarão uma unidade de precisam realizar juntos para que o ca-
trabalho que deverá debruçar-se sobre os samento evolua e se solidifique: quan-
do essas tarefas não são cumpridas, o
problemas do relacionamento.
casamento deixa de ser um porto se-
guro nas tormentas da vida e passa a
ser mais uma tormenta. (Gottman,
O PROCESSO TERAPÊUTICO 2000, p. 187)

Estabelecendo o foco do trabalho Identificados os problemas, eles de-


vem ser classificados, novamente em uma
Muitos casais chegam à terapia já com al- ação colaborativa entre o casal e o tera-
guns temas definidos para serem trabalha- peuta. Essa organização dos temas pode
dos. Mas outros tantos não têm essa clare- seguir critérios de importância ou urgên-
za, precisando ser ajudados na busca das cia, mas também pode visar algum tipo de
principais áreas de problemas do casal. Os gradualismo, naqueles casos em que o ca-
questionários respondidos na fase de ava- sal tem muita dificuldade de comunicação.
liação podem servir de guia para que o Nesses casos, é melhor escolher os temas
terapeuta e o casal, colaborativamente, menos conflituosos para o início do traba-
identifiquem as principais áreas proble- lho, visando a criar um clima mais positivo
máticas. entre o casal, deixando os espinhosos para
Quando um casal chega em crise, si- uma fase mais adiantada da terapia. Ini-
tuação que é bastante comum, essa pró- cia-se então o trabalho com o casal, lidan-
pria crise passa a ter precedência sobre to- do separadamente com cada problema.
dos os outros temas. Os temas críticos de-
vem ser tratados com o máximo de aten-
ção e cuidado, pois com frequência envol- Trabalhando as cognições
vem violência ou relacionamentos extra-
conjugais, situações carregadas de inten- A primeira etapa do trabalho cognitivo
sas emoções e de muita dor. Como sabe- com o casal é o que se denomina psicoedu-
mos, crises são momentos de perigo e de cação, termo bastante utilizado pelos au-
oportunidade – cabe ao terapeuta ajudar o tores da área que designa todos os proce-
casal a transformar sua crise em uma rica dimentos que visam a instruir os pacien-
oportunidade de aprendizado e cresci- tes sobre o funcionamento do modelo cog-
mento. Somente após o abrandamento da nitivo-comportamental de terapia, o que
situação crítica serão levantados os demais inclui a prescrição de leituras, fitas de áudio
temas que devam ser trabalhados na te- e vídeo, aprendizado por meio de progra-
rapia. mas multimídia, modelagem, tarefas e en-

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Manual de terapia familiar | 171


saios cognitivo-comportamentais. Nesse lêncio, o marido pensa: “Deve ser al-
momento inicial da terapia, o casal deve gum namorado da minha mulher”.
tomar conhecimento dos princípios bási- 2. Abstração seletiva observa-se quando
cos do modelo: a concepção colaborativa um dos parceiros toma algum detalhe
do trabalho, a estruturação das sessões e o de uma interação e lhe atribui um sig-
estabelecimento de uma agenda para or- nificado negativo, sem levar em conta
ganizar cada encontro, além da importân- o contexto no qual esteja inserida. Ao
cia das tarefas a serem realizadas fora das chegar em casa, estressado por um dia
sessões. difícil de trabalho, o esposo cumprimen-
Aprender a identificar os pensamen- ta sua mulher apressadamente e logo
tos automáticos é o primeiro degrau desse se recolhe em sua poltrona para ver te-
aprendizado, sendo um passo fundamen- levisão; sua mulher interpreta: “Ele está
tal na terapia cognitiva com casais. Como magoado comigo”, desconsiderando
vimos na introdução do capítulo, os pen- tudo o mais que talvez esteja chatean-
samentos automáticos são aqueles que sur- do seu parceiro.
gem espontaneamente na mente, nas di- 3. Hipergeneralização acontece quando,
versas situações de vida, podendo ser ade- tomando como base apenas um ou dois
quados ou disfuncionais. Quando estamos elementos isolados, um cônjuge esten-
trabalhando com casais, esses pensamen- de sua interpretação para outras si-
tos costumam ser sobre cada um dos côn- tuações similares em contextos diferen-
juges ou sobre o relacionamento e, com tes. Um exemplo de generalização é a
frequência, contêm distorções cognitivas afirmação de que “todos os homens são
que vão interferir na boa comunicação e violentos”, feita a partir da observação
acentuar os conflitos entre os cônjuges, pois do comportamento violento de alguns
determinam a forma como cada um irá homens.
sentir e agir nas diversas situações. Então, 4. Magnificação e minimização acontecem
para mudar a forma como se comportam e quando um dos cônjuges interpreta de
as reações emocionais às situações diver- modo ampliado ou diminuído alguma
sas, serão necessários o exame e a mudan- situação. Um casal tem um desentendi-
ça de suas cognições. mento sobre algum tema específico, e
A identificação de distorções cogni- um dos cônjuges afirma: “Agora está
tivas é uma etapa fundamental do traba- tudo acabado entre nós, nosso relacio-
lho com casais. Conhecer as diversas for- namento não tem mesmo solução”. Ou
mas como cada um percebe de forma então, um marido que chega completa-
distorcida as diversas situações relacionais mente alcoolizado em casa, diz: “Eu só
e aprender a monitorar essas distorções são bebi um pouquinho com meus amigos”.
alguns dos primeiros passos em direção à 5. Personalização é a distorção que se ob-
reestruturação dos pensamentos disfuncio- serva quando algum cônjuge, sem ra-
nais. Segundo Dattilio (1995), são 10 as zões suficientes para isso, atribui a si
distorções cognitivas mais comuns feitas próprio a responsabilidade de alguma
por casais: situação. “Ele acha que eu não sei fazer
uma boa comida”, pensa uma mulher
1. Inferência arbitrária ocorre quando, sem ao observar o parceiro fazendo o jantar
qualquer embasamento evidente, um que o filho solicitara.
dos cônjuges extrai conclusões negati- 6. Pensamento dicotômico ou polarizado é
vas de alguma situação vivida pelo ca- uma das formas de distorção cognitiva
sal. Ao atender uma chamada telefôni- mais comum, através da qual se per-
ca na qual o interlocutor ficou em si- cebem as situações somente em extre-

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172 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

mos – “ou oito ou oitenta”. A esposa de mente envolve ultrapassar a infor-


serve o jantar que preparou, e o mari- mação que se tem disponível e arriscar
do faz uma observação de que talvez conclusões, muitas vezes, equivocadas,
precisasse um pouco mais de sal. Ime- sem se comunicar com o outro.
diatamente ela pensa: “Ele não gostou
da minha comida”. Essas distorções cognitivas podem
7. Rotulação ou classificação incorreta tam- estar presentes, eventualmente, em qual-
bém é uma distorção muito frequente: quer relação, mas nos casais com proble-
um dos cônjuges define o outro a partir mas acontecem com muito maior frequên-
de alguma imperfeição ou erro cometi- cia e intensidade, contribuindo para au-
do em algum momento anterior da vida. mentar ainda mais as dificuldades de co-
“Tu és mesmo uma pessoa muito egoís- municação. Os cônjuges podem ser instru-
ta”, afirma um homem para sua parcei- ídos a manterem um registro de seus pen-
ra, diante de sua recusa em deixar de samentos automáticos e a identificarem as
frequentar sua aula de ginástica para distorções, classificando-as. Esse monitora-
acompanhá-lo em casa, em um dia em mento permite que se tornem mais consci-
que chegaria mais cedo. entes de como esses pensamentos afetam
8. Visão em túnel é a distorção que se ca- tanto ao parceiro quanto a eles próprios
racteriza pela percepção da realidade (Dattilio, 1995, p. 50-51).
sob um único ângulo, aquele que cor-
responde ao estado da pessoa no mo-
mento. O exemplo típico é uma pessoa Trabalhando
muito deprimida que costuma ver a vida com os pensamentos
sem saída, pensando ser a morte o úni- automáticos do casal
co caminho. Um homem que não acre-
dita na possibilidade de uma relação Quanto melhor os membros do casal pu-
manter-se bem por longo tempo, a cada derem identificar os pensamentos automá-
pequeno problema no relacionamento, ticos que têm sobre si, sobre seu parceiro e
poderá dizer à esposa: “Eu sabia que sobre a relação, mais facilmente modifica-
não iria dar certo nosso casamento”. rão as distorções cognitivas. Para auxiliá-
9. Explicações tendenciosas são interpreta- los nesse aprendizado, pode-se pedir que
ções parciais e negativas que um cônju- mantenham um caderno com anotações
ge pode fazer a propósito de alguma diárias sobre situações que alterem seu
situação. Pessoas desconfiadas e inse- humor nas interações negativas com o côn-
guras, com frequência, suspeitam de seu juge e que registrem seus pensamentos
parceiro: “Ele deve ter saído com algu- automáticos e os comportamentos asso-
ma outra”, pensou uma mulher ao re- ciados a essas situações.
ceber flores do marido. No consultório, muitas vezes, perce-
10. Leitura de mente é uma distorção tam- bemos a mudança de humor de nossos pa-
bém bastante comum entre os casais – cientes quando tratamos situações específi-
começam a acreditar que já não preci- cas do relacionamento do casal. Nesses mo-
sam mais conversar sobre as situações, mentos, uma maneira de identificar os pen-
podem “adivinhar” o que o outro pen- samentos automáticos associados a essa si-
sa, geralmente atribuindo-lhe intenções tuação é fazer a pergunta àquele que ma-
negativas. Uma mulher diz para uma nifestou modificação em seu humor: “O que
amiga: “Eu sei o que Antonio vai pen- passa pela sua cabeça nesse momento?”
sar se lhe disser que precisarei traba- Ao fazer essa pergunta, facilitamos a
lhar até mais tarde amanhã”. A leitura recordação de memórias, normalmente

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Manual de terapia familiar | 173


carregadas de afeto, através de imagens ou em silêncio, o que a deixou muito triste,
palavras. Na sequência dessa pergunta, é solicitando que antecipassem o término do
útil questionar-se a veracidade desses pen- jantar. Perguntado sobre o que passava em
samentos automáticos. Para isso, o tera- sua mente naquela situação, a esposa afir-
peuta indaga sobre as evidências que o mou ter pensado que o marido não gosta-
paciente tem que apóiam seu pensamento va mais dela e que não tinha mais nenhum
e quais evidências o contrariam. Nem sem- sentido continuarem juntos. Após questio-
pre é fácil fazer esse balanço das evidên- nar as evidências favoráveis e contrárias a
cias, pois os pensamentos distorcidos, mui- esse pensamento, o terapeuta pergunta ao
tas vezes, estão baseados em informações marido o que passava em sua cabeça na-
errôneas ou falsas. Fazer esse exercício re- quela mesma situação, ao que respondeu:
petidamente é a melhor forma de desen-
volver essa habilidade. Nada que eu faço agrada à minha es-
posa, tudo que eu poderia falar não
É válido questionar também se have-
lhe agrada. Acho que ela não se inte-
ria alguma outra explicação alternativa, ou ressa mais por mim, só se preocupa
seja, que outros pensamentos eles poderi- com ela mesma.
am ter a respeito daquela determinada si-
tuação. Ou ainda, mesmo que seja verda- No seguimento dessa sessão, pode-se
deiro aquele pensamento, pode-se ponde- esclarecer que, ao contrário do que pensava
rar com os cônjuges o que de pior e de o marido, sua esposa desejava muito que
melhor poderia acontecer e qual o resulta- ele pudesse falar mais de seu dia-a-dia, de
do mais provável que aconteça na situação seu trabalho e de seus interesses. Por outro
examinada. O terapeuta pode também per- lado, o silêncio do esposo, interpretado dis-
guntar o que deveria ser feito a respeito e torcidamente como um não-gostar, era, na
qual a consequência de acreditar no pen- verdade, a manifestação de sua grande tris-
samento que está sendo examinado. teza por se sentir desinteressante. Embora
Uma outra forma de questionar o pen- gostassem um do outro e desejassem uma
samento é perguntando o que o paciente boa relação, seus pensamentos disfuncio-
diria a um amigo ou a um parente que esti- nais levavam a um distanciamento gerador
vesse nessa mesma situação (Knapp, 2004). de muito sofrimento. Muitos desses pen-
Em seguida, podemos perguntar ao samentos são oriundos de crenças que fo-
outro cônjuge: “Que pensamentos surgiram ram construídas ao longo da vida de cada
em sua mente, naquela situação?” Ou en- um, mas podem ser corrigidos e reestrutu-
tão: “Que pensamentos lhe ocorrem ago- rados a partir de sua identificação e da
ra, ao ouvir esse relato?” Assim, pode-se consciência de sua disfunção.
trabalhar com os pensamentos automáti- Um recurso importante utilizado no
cos de ambos os cônjuges, obtendo-se uma trabalho cognitivo-comportamental é o re-
visão mais completa de como um vê o ou- gistro de pensamentos automáticos que são
tro e como veem a relação entre eles. identificados em determinadas situações.
Em uma sessão de casal, a esposa está A seguir, exemplificamos como isso pode-
descrevendo o jantar da noite anterior, no ria ser feito, utilizando a mesma situação
qual ambos mantiveram-se longo tempo do casal descrita anteriormente:

Situação/Evento relevante Pensamento automático Resposta emocional

Estamos em um restaurante Ele não gosta mais de mim. Tristeza


jantando e percebo o silêncio
de meu marido.

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174 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

Através destes registros, o terapeuta Exemplo:


é capaz de demonstrar ao casal como seus
pensamentos automáticos estão ligados às Terapeuta: Que evidências você tem de que
respostas emocionais e como isso contri- seu marido possa estar “apron-
bui para seu enquadramento negativo do tando”?
companheiro. Paciente: Na realidade, nenhuma.
Terapeuta: Há alguma evidência que con-
trarie o pensamento de que seu
Reenquadramento marido possa estar fazendo
da percepção cognitiva algo errado?
Paciente: Bem, ele está muito carinhoso
Para a reestruturação dos pensamentos au- comigo. Temos passado muito
tomáticos, é necessário que os indivíduos tempo juntos.
aprendam a considerar pensamentos alter- Terapeuta: Então, poderia haver uma ex-
nativos e sigam testando seus pensamen- plicação alternativa para o
tos automáticos disfuncionais sistematica- comportamento dele?
mente. O reenquadramento da percepção Paciente: Sim, ele poderia estar com ciú-
acontece quando o indivíduo consegue me de mim.
olhar para uma situação, avaliá-la sob di- Terapeuta: Teria ainda alguma outra pos-
ferentes ângulos, considerar as explicações sibilidade?
alternativas, assimilá-las como parte de seu Paciente: Talvez ele esteja querendo fi-
pensamento, modificando, assim, sua for- car perto de mim, porque nos-
ma de pensar e, por consequência, sua for- sa relação está bem melhor.
ma de sentir e de agir. Terapeuta: Qual das alternativas lhe pa-
Um exemplo disso (quadro a seguir) rece mais realista?
é o de uma mulher que desenvolveu uma Paciente: Com certeza, o fato de que ele
crença de que o marido poderia estar fa- esteja querendo ficar mais pró-
zendo algo muito errado, pois nos últimos ximo, pois nosso convívio tem
tempos ele vinha tratando-a bem demais. sido muito agradável, porque
No exemplo, o pensamento automá- nossa relação está muito me-
tico é acompanhado de uma emoção de lhor.
tristeza. É um exemplo da distorção cogni- Terapeuta: O quanto você acredita nisso?
tiva que chamamos explicação tendencio- Paciente: Eu acredito 100%.
sa, uma vez que a esposa supõe que o com-
portamento amoroso do marido se deve a Esse exercício permite que o cônjuge
um motivo negativo e velado. questione seus pensamentos automáticos
Em situações como essas, a etapa se- e que corrija suas distorções cognitivas, tor-
guinte é pedir que a esposa teste os seus nando sua visão do parceiro e da relação
pensamentos, pesando as evidências exis- mais positiva.
tentes e considerando explicações alterna- Quando não se encontram evidências
tivas. suficientes para reestruturar um pensamen-

Pensamento Automático Emoção Distorção Cognitiva

Meu marido deve estar Tristeza Explicação tendenciosa


fazendo algo muito errado,
deve estar “aprontando”.

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Manual de terapia familiar | 175


to disfuncional, pode-se sugerir o teste das para trabalhar as distorções cognitivas é o
previsões, que significa construir alguma questionamento socrático, através do qual
hipótese alternativa que o cônjuge pode- o terapeuta examina a veracidade dos pen-
ria testar para verificar sua validade. Isto é samentos automáticos e identifica suas
mais útil quando se está trabalhando ape- crenças subjacentes. As crenças subjacentes
nas com um dos parceiros, pois, quando o são as ideias, as regras ou as opiniões tidas
trabalho é conjunto, a testagem pode ser como verdadeiras, que determinam a for-
feita através do questionamento do cônju- ma de pensar e de se relacionar de cada
ge diretamente na sessão. cônjuge. Elas se encontram em um nível
É interessante observar que as mes- mais profundo, portanto menos acessíveis
mas características que atraem os cônju- à consciência.
ges um para o outro podem passar mais O questionamento socrático é feito
tarde a ser o centro de seus conflitos de com perguntas abertas, através das quais
casal. Isso é o que chamamos de enquadra- o terapeuta vai orientando o paciente de
mento negativo. forma que ele entenda seu problema, ex-
Um exemplo é o do casal Alberto e plore possíveis soluções e desenvolva um
Joana: quando se conheceram, Joana viu plano para enfrentar suas dificuldades
em Alberto o homem dos seus sonhos – (Knapp, 2004, p. 30).
organizado, cuidadoso, racional e muito Um exemplo de questionamento so-
inteligente. Alberto, por seu lado, pensou: crático é observado no trabalho com uma
essa é a mulher que eu sempre procurei: mulher que conta a seu terapeuta como não
cheia de vida, espontânea, light, sociável, se sente uma boa esposa para seu marido.
comunicativa, com vontades muito defini- O terapeuta então pode questioná-la socra-
das, indicando uma forte e saudável per- ticamente com perguntas como:
sonalidade. Com o passar dos anos, tudo
foi ficando diferente – Joana passou a ser Terapeuta: O que a faz pensar não ser uma
vista como uma mulher impulsiva, irres- boa esposa para seu marido?
ponsável, demasiado falante e mandona. Paciente: Ah, na verdade, são muitas
Por outro lado, a esposa passou a ver coisas. Por exemplo, eu não
Alberto como um homem obsessivo e cha- consigo levantar cedo todos os
to, medroso, frio e calculista. Como vemos, dias para tomar o café da ma-
todas as qualidades negativas são o rever- nhã com ele nem estar sempre
so da medalha das positivas. Quando as bem arrumada à noite para
colocamos lado a lado e evidenciamos essa recebê-lo.
realidade, torna-se claro para o casal como Terapeuta: Quanto você acredita que é
mesmas características podem ser olhadas uma má esposa, de 0 a 100%?
de modos opostos. Paciente: Acredito 100% nisso!
A partir daí podem-se utilizar técni- Terapeuta: Entre seu círculo de amizades,
cas de reenquadramento para restabelecer quem você consideraria ser
uma visão mais positiva entre os cônjuges. uma boa esposa?
Paciente: Ah! Minha amiga Josie certa-
mente obteria a nota máxima!
Identificando Terapeuta: O que você sabe de seu dia-a-
crenças através do dia? Você diria que a Josie le-
questionamento socrático vanta cedo todas as manhãs
para fazer o café do marido
Outra importante ferramenta utilizada pe- dela e está sempre arrumada
los terapeutas cognitivo-comportamentais à noite para recebê-lo?

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176 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

Paciente: Bem, na verdade, não sei mui- automáticos, serem identificadas crenças
to bem. Outro dia ela me con- intermediárias – regras e pressupostos – e
tou que dormiu quase toda a crenças centrais.
manhã, porque estava muito Um exemplo disso encontra-se na se-
cansada. Também em uma guinte situação relatada por um casal:
noite destas estávamos falan-
do ao telefone, e ela me disse O marido chega em casa após o tra-
que estava vestida com a roupa balho, vai direto telefonar, sem beijar
que usara na academia e nem a esposa, como de costume. Ela então
tinha tomado banho ainda. pensa: Eu não sou mais importante
Terapeuta: O que você pode concluir disso para ele.
que você acaba de dizer?
Paciente: Bem, talvez uma boa esposa Partindo desse pensamento, o tera-
não precise fazer o café do peuta passa a fazer algumas indagações à
marido 100% dos dias e tam- esposa, pedindo ao marido que se abste-
bém não precise recebê-lo bem nha de intervir nesse momento:
arrumada todas as noites...
Terapeuta: Quanto você acredita que é Terapeuta: Se isso for verdade, o que sig-
uma má esposa agora? nifica para você?
Paciente: (Risos) Talvez uns 40%. Mulher: Significa que ele não gosta
mais de mim.
Inicialmente, os pensamentos auto- Terapeuta: E se ele não gostar mais de você
máticos e as crenças subjacentes são iden- então?
tificados durante as entrevistas individuais. Mulher: Eu não devo estar sendo uma
Posteriormente, recomendamos que o casal boa esposa para ele.
observe como cada um pensa e identifique Terapeuta: E o que significa não estar sen-
seus pensamentos e suas crenças, compar- do uma boa esposa?
tilhando pensamentos automáticos duran- Mulher: Que eu sou uma droga de mu-
te as sessões conjuntas (Dattilio, 1995). lher, eu não valho nada.

Utilizando-se o recurso da seta des-


O uso da seta descendente cendente, chegamos a uma crença central
de desvalia da esposa. Na sequência do tra-
A técnica da seta descendente é outro re- balho conjunto, a participação do cônjuge
curso técnico importante no trabalho cog- vai ajudar a corrigir as crenças distorcidas
nitivo. Através dela, o terapeuta vai ques- da parceira, podendo o terapeuta passar a
tionando o paciente em busca dos signifi- buscar na história dela as raízes de sua
cados mais profundos de algum pensamen- crença disfuncional.
to automático relevante. O uso desse recurso permite que os
pacientes e o terapeuta possam acompa-
Perguntar o que um pensamento sig- nhar o fluxo de pensamentos que levam a
nifica para o paciente revela, com
uma conclusão distorcida. O uso da técni-
frequência, uma crença intermediária;
perguntar o que isto sugere sobre o ca revela crenças subjacentes e ajuda na
paciente usualmente explicita a cren- identificação das crenças centrais. Pode ser
ça central. (Beck, 1997, p.153) utilizada sempre que o terapeuta achar
necessário, até o momento que julguem,
A seta descendente é uma técnica uti- pacientes e terapeuta, terem chegado às
lizada para, partindo-se dos pensamentos crenças centrais.

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Manual de terapia familiar | 177


A importância da família de origem comunicar”. Desenvolver habilidades de
comunicação, de solução de problemas e
Muitas pessoas entendem, equivocadamen- de negociação é fundamental na terapia de
te, que os terapeutas cognitivo-comporta- casais.
mentais valorizam apenas os acontecimen-
tos presentes. No entanto, os eventos ocor-
ridos na família de origem de cada um dos
cônjuges são reconhecidos como a fonte Tarefas comportamentais
da grande maioria das crenças distorcidas
que afetam a forma como os indivíduos Semelhante ao que também fazem os tera-
vêem seus próprios relacionamentos. peutas sistêmicos, o trabalho cognitivo-
As vivências significativas da infân- comportamental com casais tem nas tare-
cia vão ficar registradas sob a forma de fas comportamentais um ponto muito im-
crenças centrais e esquemas cognitivos que portante. O pressuposto dessa atividade é
se constroem nessa etapa. Quando essas o de que a terapia deve ser um processo
vivências são marcadas por abusos físicos, contínuo, dentro e fora das sessões. Sabe-
sexuais ou mesmo psicológicos, podem mos que as mudanças ocorrem muito mais
determinar crenças e esquemas profunda- fora das sessões do que durante as mes-
mente distorcidos, que acarretam impor- mas – por isso as tarefas são uma parte tão
tantes disfunções nas relações conjugais. importante do trabalho terapêutico. Pes-
Muitos indivíduos ainda acreditam quisas sobre a terapia cognitiva com de-
que, uma vez que seus pais faziam as pressão mostraram que os pacientes que
coisas de uma determinada maneira, executavam tarefas de aprendizagem em
isso é lei e deve ser imitado por eles. casa mostravam uma melhora maior e mais
(Dattilio, 1995, p. 41) rápida do que aqueles que não realizavam
Como diz a canção de Belchior, imor- esses exercícios. Assim, ao final de cada
talizada na interpretação de Ellis Regina: sessão, o terapeuta deve estabelecer, em
conjunto com o casal, alguma atividade
Minha dor é perceber que apesar de ter- para ser desenvolvida entre uma sessão e
mos feito tudo, tudo, tudo o que fize- outra, visando a algum objetivo específico
mos, ainda somos os mesmos e vivemos pertinente ao tema que está sendo traba-
como nossos pais. (Cançado,1994, p. 99)
lhado.
O genograma familiar é um dos ins- Todas as tarefas funcionam melhor
trumentos mais interessantes para a orga- quando estabelecidas por escrito, com uma
nização dos dados levantados sobre a fa- cópia para o casal e outra para o terapeuta.
mília de origem. Como um retrato gráfico, No início da sessão seguinte, deve-se sem-
o genograma mostra a estrutura básica da pre verificar o cumprimento da tarefa pres-
família, sua demografia e seu funcionamen- crita. Quando o terapeuta não faz isso, os
to, além dos relacionamentos familiares. pacientes talvez tenham uma percepção de
Ele proporciona uma visão trigeracional da que essa parte do trabalho não tem uma
família e de seu movimento através do ci- verdadeira importância.
clo vital (Carter e McGoldrick, 1995). As tarefas, apesar de serem um pon-
to crucial da terapia cognitivo-comporta-
MUDANDO COMPORTAMENTOS mental com casais, é um dos procedimen-
DOS CASAIS tos que apresenta mais dificuldades. Para
lidar com elas, o terapeuta deve exigir uma
A queixa mais comum ouvida pelos tera- adesão explícita do casal, não deve aceitar
peutas de casal é “não conseguimos nos desculpas para o não-cumprimento das ta-

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178 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

refas e, quando isso acontecer, poderá dedi-  Não interromper enquanto o outro
car a sessão seguinte para sua realização. está falando, pois é difícil escutar al-
Um exemplo clássico de tarefa com- guém quando se está falando ao mes-
portamental foi descrito por Stuart (cita- mo tempo.
 Clarificar aquilo que se está ouvindo,
do em Dattilio,1995). Visando a aumentar
enviando sinais de confirmação e re-
as interações positivas no relacionamento,
sumindo o que foi dito a cada tanto,
esse autor propunha “dias de carinhos”, nos para verificar se foi isso mesmo que o
quais cada cônjuge deverá agir como nos outro quis dizer.
melhores momentos de seu relacionamen-  Resumir o que está entendendo, em
to. Essas ações, estabelecidas a partir de certos momentos, para que o outro côn-
uma lista de coisas que cada um gostaria juge possa avaliar se está sendo bem
que o outro realizasse, contribui muito para compreendido em suas afirmações.
a melhora do clima afetivo no relaciona-
mento. Já o aprendizado do falar implica as
seguintes diretrizes, para que aquilo que
está sendo falado possa realmente ser es-
Treinamento da comunicação cutado pelo outro:
e solução de problemas
 Falar atentamente, mantendo um con-
Problemas na comunicação implicam coi- tato visual direto e adequado, obser-
sas muito diferentes para os casais, desde vando as expressões e os sinais cor-
os naturais conflitos e desentendimentos porais que indiquem a atenção do
cotidianos até agressões mútuas, afas- cônjuge.
 Formular questões significativas, nun-
tamentos ou rupturas afetivas. Dattilio
ca fazendo perguntas fechadas que
(1995, p.66) afirma que
possam ser respondidas apenas com
um “sim” ou um “não”, mas pergun-
a primeira tarefa do terapeuta é aju- tas abertas que ampliem as possibili-
dar o casal a compreender que a boa dades de diálogo.
comunicação não significa, necessari-  Falar apenas o necessário, não ampli-
amente, concordância. ar o discurso desnecessariamente, evi-
tando a perda do interesse e da aten-
Na verdade, comunicar-se bem é uma ção do cônjuge.
habilidade social de grande relevância, que  Utilizar o silêncio em alguns momen-
nas relações de casal torna-se fundamen- tos para realçar aspectos importantes
tal. Essa habilidade social implica, basica- ou permitir alguma reflexão sobre o
mente, saber falar e ouvir de modo ade- que está sendo dito.
quado. A terapia, nesses casos, deve incluir  Não questionar o cônjuge apenas com
um treinamento na habilidade de comu- o objetivo de pô-lo à prova, evitando
nicação. questões que possam tensionar dema-
O aprendizado do escutar e ouvir o siado a comunicação – tato e diplo-
que o cônjuge diz implica, segundo Rangé macia respeitosa são elementos fun-
damentais de uma boa comunicação.
e Dattilio (2001, p. 185-186), a observân-
cia de alguns princípios:
A todas essas características acrescen-
 Escutar com atenção, mantendo um taríamos ainda uma outra, da maior rele-
adequado contato visual com o côn- vância: para uma boa comunicação em
juge, dando-lhe a entender que está uma relação amorosa, devemos falar e ou-
ouvindo. vir com o coração, ou seja, falar com genuí-

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Manual de terapia familiar | 179


na sinceridade e profundo sentimento e o papel de um dos cônjuges, permitindo
ouvir com respeito e consideração pelo que que este observe de fora o modo como se
o parceiro está procurando comunicar de comunica. Um trabalho de modelagem, em
seu mundo interior. A comunicação com o que o terapeuta mostre como se comuni-
coração é uma conquista decisiva em uma car de uma maneira mais adequada, tam-
relação de casal. bém pode ser útil.
Um dos recursos terapêuticos muito Quando a relação de um casal está
úteis para o aprendizado do falar e do ou- muito desgastada por um longo tempo de
vir com atenção é propor a alternância comunicação falha e por um acúmulo de
padronizada entre o falante e ouvinte. Nes- mágoas, é preferível que não discutam em
se exercício, sugere-se que o casal escolha casa, nas fases iniciais da relação, sobre
um tema conflitivo, não demasiado pesa- temas muito “quentes”, deixando-os para
do, e sugere-se que cada um fale durante serem tratados durante as sessões, com a
cinco minutos, expondo seu ponto de vista ajuda do terapeuta.
sobre o assunto, enquanto o outro deve es-
cutar com atenção. Imediatamente inver-
te-se a situação, e o outro cônjuge fala, Dificuldades comuns que
enquanto o primeiro escuta. Esse tipo de impedem a aquisição de
experiência comunicacional permite uma habilidades de comunicação
observação ao vivo, na sessão, das possí-
veis dificuldades que cada um tenha para Segundo Dattilio (1995), déficits interpes-
expressar-se ou escutar o outro. soais, afeto demasiado intenso e algumas
Um aspecto importante da comuni- crenças negativas podem dificultar o apren-
cação do casal que deve ser observado nes- dizado e a prática de novas habilidades de
se tipo de experiência é que o falante deve comunicação.
apenas expressar-se sobre sua pessoa, e não Algumas pessoas têm algum tipo de
sobre o outro. Por exemplo, “eu gostaria limitação cognitiva, dificuldades específi-
que você prestasse mais atenção às minhas cas de aprendizagem ou problema para
necessidades”, e não “você nunca presta empatizar com os outros. Nesses casos, é
atenção em mim”, o que soa acusatório e preciso que sejam trabalhadas essas difi-
desperta imediata reação defensiva. culdades individualmente para que melho-
Na condição de ouvinte, o cônjuge re a comunicação do casal.
deve apenas ouvir ou fazer perguntas, Sabe-se já com bastante clareza como
quando necessário, não deve discutir, sentimentos intensos de ansiedade, irrita-
revidar ou comentar aquilo que o outro está ção ou raiva alteram profundamente a ca-
falando. No final de cada período, pede-se pacidade de comunicação e favorecem dis-
ao ouvinte que resuma o que escutou para torções no processamento cognitivo. Em
verificar se ficou realmente claro seu en- estado de afeto intenso, ninguém conse-
tendimento do que foi falado. gue falar adequadamente, nem ouvir com
O terapeuta pode intervir no proces- atenção, estando contra-indicado que
so, corrigindo eventuais distorções, ou exa- tentem resolver qualquer problema nessa
minar com os cônjuges as dificuldades que condição.
experimentaram no exercício, propondo al- Gottman, em suas pesquisas, identi-
ternativas que possam melhorar a comu- ficou de modo objetivo, através do monito-
nicação. Esse tipo de exercício também abre ramento da tensão arterial e dos batimen-
caminho para outras técnicas, como um tos cardíacos, como cônjuges perdem a ca-
role play, em que o terapeuta pode assumir pacidade de dialogar com objetividade

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180 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

quando estão exaltados. A raiva é a emo- Cloé Madanes (1997), falando sobre
ção que mais frequentemente interfere na a violência, afirma que a expressão da rai-
comunicação dos casais. Nessas circunstân- va é a própria raiva, não sendo útil para
cias, a comunicação torna-se improdutiva nada que seja estimulada. Ela partilha do
ou mesmo destrutiva, devendo os cônju- mesmo ponto de vista de Beck, propondo
ges serem instruídos a interromper a co- que o terapeuta deva desestimular esse tipo
municação e afastar-se por algum tempo, de manifestação. Nas sessões de terapia de
para que a emoção seja atenuada. Nas pes- casal, deve-se evitar ao máximo que os côn-
quisas de Gottman, observou-se que são juges cheguem a esse ponto. Caso não se
necessários cerca de 20 minutos para que consiga por outros caminhos ajudá-los a
o indivíduo estressado por uma discussão permanecerem mais tranquilos e equilibra-
intensa retorne a seu funcionamento nor- dos, pode-se inclusive interromper a ses-
mal (Gottman, 1998). são, visando a impedir a continuação da
Uma formulação interessante sobre escalada de violência e desrespeito.
esse tema é feita por Beck em sua descri- No trabalho com pacientes em litígio
ção das “zonas coloridas” para classificar por situações de divórcio difícil, alguns
os graus de raiva e controle do casal. autores sugerem que cada cônjuge dirija-
A zona azul seria aquela em que a se apenas ao terapeuta, na primeira fase
pessoa manifesta uma tranquilidade afetiva de tratamento, a fim de evitar que entrem
e uma boa capacidade para a comunica- nesse tipo de escalada de violência (Isaacs,
ção. Essa é a melhor zona para a resolução Montalvo e Abelsohn, 1988).
de problemas. Na terapia, os casais deverão apren-
A zona amarela é aquela em que o der a conversar respeitosa e produtivamen-
cônjuge já manifesta sentimentos de ran- te, para poderem alcançar a capacidade de
cor, mas ainda controla suas palavras e solucionar problemas. Nas primeiras eta-
ações. Pode expressar com clareza seus pas, deve-se trabalhar preferencialmente
pensamentos e é capaz de ouvir o outro na zona azul, mais adiante se pode traba-
com atenção respeitosa, mesmo estando lhar também na amarela, sem grande ris-
sentindo raiva. Nessa zona, é possível tra- co de chegar à zona vermelha. Mas, se
balhar ainda com os casais, mas o risco é acontecer de a comunicação começar a tor-
que, com alguma intensificação do clima nar-se muito aquecida, deve ser proposto
afetivo, possam rapidamente passar para um “tempo para esfriar”, que pode ser de
a zona vermelha. cinco até um máximo de vinte minutos.
A zona vermelha é aquela em que um Esse período de interrupção da comunica-
ou ambos os cônjuges passam a não ter ção permite que cada um possa reassumir
mais controle sobre o que dizem, atacan- o controle de suas emoções, seu pensamen-
do o outro com palavras ou mesmo com to e suas ações. Os casais podem discutir
violência física. O conteúdo da discussão também em terapia qual a melhor manei-
passa a ser permeado de acusações, denún- ra de esfriarem suas discussões em casa,
cias, afirmações desrespeitosas e ofensivas. combinando alternativas mutuamente acei-
As distorções cognitivas são acentuadas, tas para isso. Nos casos em que há risco de
cada um passa a ter uma visão profunda- abuso físico, torna-se prioritário estabele-
mente negativa do outro. Nessa zona, qual- cer regras de segurança para o cônjuge
quer discussão é absolutamente inútil e ameaçado.
destrutiva, pois, mesmo depois de cessada Existem casais que, mesmo tendo ca-
a tempestade, ficam as marcas dos estra- pacidade de comunicação suficiente para
gos causados por tudo que foi dito ou feito resolverem problemas, não conseguem pôr
nesse período (Beck, 1995). em prática essas habilidades, mesmo em

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Manual de terapia familiar | 181


condições de raiva moderada. Essa situa- tão discute as várias alternativas de solu-
ção, que, muitas vezes, pode ser frustrante ção, optando por aquela que melhor res-
para o terapeuta, em terapia cognitivo- ponda às necessidades de ambos. Isso nem
comportamental é interpretada como um sempre é tão simples, pois algumas ques-
sinal de que há importantes crenças inter- tões podem ser mais importantes para um
ferindo na comunicação e na capacidade do que para o outro cônjuge, situação em
de mudança: a falta de esperança, a into- que a solução pode privilegiar a esse,
lerância e a evitação do desconforto emo- mesmo que não seja muito do agrado do
cional e o medo à intimidade são algumas outro.
delas. Algumas situações não comportam
uma solução consensual, cabendo então
acordos do tipo “uma vez fazemos do meu
Solução de problemas jeito, da próxima vez do teu”. Um exem-
plo comum desse tipo de situação é quan-
Tendo dominado as habilidades de falar e do a mulher gosta de filmes românticos e
ouvir, os cônjuges estarão então prepara- o marido de filmes de ação: não há solu-
dos para aprender as estratégias de solu- ção para esse tipo de diferença, cabendo
ção de problemas e aplicá-las nas áreas em apenas acordos em que cada cônjuge vê o
que existem importantes divergências, tipo de filme que gosta ou ambos vêem um
identificadas na etapa de avaliação. tipo de filme a cada vez.
Inicialmente deverão, de comum Crenças como “já cedi demais na re-
acordo, escolher os temas que irão traba- lação” ou de que seriam necessárias mu-
lhar e sua ordem, buscando soluções que danças muito grandes e difíceis para me-
atendam o melhor possível às expectativas lhorar o relacionamento, bem como as
de cada um. Gottman divide os problemas crenças perfeccionistas de alguns indivídu-
dos casais em solúveis e insolúveis (Gottman, os, dificultam a busca de solução para os
1998): os problemas listados nessa etapa problemas.
do trabalho devem estar na categoria dos
solúveis; caso contrário, a tarefa torna-se
absolutamente improdutiva. Um casal que A ESTRUTURA DA TERAPIA
tinha uma relação de cinco anos bastante COGNITIVO-COMPORTAMENTAL
satisfatória consultou por estar em grave DE CASAIS
conflito: a esposa, ainda jovem e em seu
primeiro casamento, desejava ter filhos, e A extensão da terapia cognitiva varia con-
o marido, já tendo filhos de um casamento forme o tipo de problema que aborda e os
anterior, não desejava mais tê-los. Esse é o recursos do casal. Terapia cognitiva, geral-
tipo de problema insolúvel, pois sua solução mente, é de curto prazo, com uma exten-
implicaria a disposição de um dos cônjuges são típica de 12 a 15 sessões de tratamen-
a violentar suas necessidades pessoais e mo- to, segundo Rangé e Dattilio (2001) ou de
dificar profundamente seu projeto de vida – 12 a 20, segundo Dattilio (1995).
o casal acabou decidindo pela separação. Dattilio (1995) afirma que alguns au-
O treinamento na habilidade de re- tores utilizam um tempo de 50 minutos
solver problemas inicia-se com o estabele- para as sessões e outros um tempo maior.
cimento de uma agenda, na qual o proble- Em nossa experiência, é preferível utilizar
ma deverá ser definido com clareza. Se- um tempo maior, pelo menos de 60 minu-
gue-se uma discussão de alternativas de tos, para as sessões conjuntas, podendo ser
solução, em um formato de brainstorm, em menor para as sessões individuais com cada
que várias ideias são anotadas. O casal en- cônjuge. Normalmente uma sessão por se-

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182 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

mana oferece um bom ritmo para o traba- forma de organizar o trabalho para obter-
lho, mas casais em crise podem requerer, se um maior rendimento. Alguns terapeu-
por algum tempo, uma frequência de dois tas a organizam mais metodicamente, ou-
a três encontros semanais, pelo menos na tros de um modo mais informal – o impor-
fase inicial do tratamento. tante é que ela cumpra seu papel estrutu-
A terapia de casal se diferencia da in- rante das sessões. Claro que alguns temas
dividual exatamente por trabalhar a maior podem surgir no meio do caminho e so-
parte do tempo em sessões conjuntas. Uti- brepor-se aos agendados. Nesses casos, o
lizam-se sessões individuais na fase de ava- terapeuta deve ter a flexibilidade de abrir
liação, geralmente uma com cada cônju- espaço para as questões emergentes.
ge, e em alguns momentos especiais do tra- A agenda deve conter, sempre que
balho, quando se necessita esclarecer al- possível, um pequeno resumo da sessão
guma situação mais individualizadamente, anterior, uma revisão das tarefas, os temas
como delicadas questões da família de ori- a serem discutidos no dia e, no final, uma
gem, por exemplo. Nesses casos, devemos pequena avaliação do trabalho e o plane-
sempre ver ambos os cônjuges o mesmo jamento das próximas tarefas.
número de vezes, para que não aconteça Quando o trabalho terapêutico apro-
de alguém se sentir diferenciado. O princí- xima-se do final, devemos começar a fazer
pio da equidistância é fundamental – o tera- o que chamamos de prevenção da recaída.
peuta deve sempre manter uma postura de Nas sessões finais da terapia, reveem-se
equilíbrio entre os cônjuges, jamais deixan- alguns temas até então abordados, para
do transparecer qualquer preferência ou que sejam mais bem elaborados e consoli-
permitir qualquer diferenciação na forma dem-se as mudanças obtidas. Sessões de
de atendê-los. Quando acontece de ser ne- reforço podem ser marcadas para alguns
cessário, no meio do tratamento, indicar- meses após o término da terapia, visando
se terapia individual para algum dos côn- a verificar a manutenção das conquistas ob-
juges, essa deverá ser realizada por um ou- tidas e examinar-se algum outro tema que
tro terapeuta. possa ter surgido posteriormente.
Ser equidistante não quer dizer que Para finalizar, é importante ressaltar-
o terapeuta não possa trabalhar com ape- mos que mesmo terapeutas de outras orien-
nas um dos membros do casal, durante al- tações podem encontrar, no modelo cogni-
gum momento da terapia. Pode ser muito tivo-comportamental, alguns elementos de
interessante, mesmo para o outro cônju- grande valia para o trabalho com casais e
ge, acompanhar o terapeuta examinando famílias. Como afirmei em um trabalho an-
alguma questão do parceiro, pois assim po- terior,
derá conhecê-lo melhor. Mas quando isso
acontecer, deve-se tão logo seja possível a integração de teorias e técnicas gera
retomar o equilíbrio do trabalho com am- formas novas de pensar e fazer tera-
bos os cônjuges. pia, que são mais do que a soma dos
O estabelecimento de uma agenda de enfoques integrados. As diferentes
orientações podem ser entendidas, de
trabalho é uma das questões estruturais
certa forma, como diferentes culturas.
mais importantes em terapia cognitivo-com- Terapeutas que sejam capazes de apre-
portamental de casais. A agenda deverá ser ciar mais de uma forma de entender
organizada colaborativamente, entre o ca- o ser humano e de fazer terapia am-
sal e o terapeuta, e seus temas devem ser pliam sua visão do mundo e suas
organizados em ordem de importância. A possibilidades de compreender e aju-
agenda não precisa ser, necessariamente, dar seus pacientes. Uma postura de
uma lista rígida de temas, mas sim uma abertura e perplexidade diante da

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Manual de terapia familiar | 183


diversidade de visões e de formas de GOTTMAN, J. Casamentos: por que alguns dão
intervenções terapêuticas facilita uma certo e outros não. Rio de Janeiro: Objetiva, 1998.
visão integradora. (Zanonato e Ger- GOTTMAN, J.; SILVER, N. Sete princípios para o
mani, 2002) casamento dar certo. Rio de Janeiro: Objetiva,
2000.
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mental dos transtornos psicológicos da atualidade. MADANÉS, C. Sexo, amor e violência. Campinas:
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lo, 18-19 de maio de 2006. e trabalhando crenças nos modelos cognitivo-
comportamental e sistêmico familiar. Monografia
DATTILIO, F. M.; PADESKY, C. A. Terapia cognitiva (Conclusão do Curso de Extensão em Psicoterapia
com casais. Porto Alegre: Artmed, 1995. Cognitiva) – Centro de Estudos Luis Guedes, Uni-
EPSTEIN, N. B.; BAUCOM, D. H. Enhanced cogni- versidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Ale-
tive-behavioral therapy for couples: a contextual gre, 2002.
approach. Washington: American Psychological
Association, 2003.

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184 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

12
Neurociências e terapia familiar
Maria Elizabeth Pascual do Valle

O homem deve saber que de nenhum O estudo das neurociências funda-


outro lugar, mas do encéfalo, vêm a mentou cientificamente muitas das minhas
alegria, o prazer, o riso e a diversão, o inquietações teóricas. Muitos aspectos des-
pesar, o ressentimento e a lamentação. sa nova ciência têm enriquecido e fomen-
E, por isso, de uma maneira especial
tado meu trabalho, principalmente por sua
adquirimos sabedoria e conhecimen-
característica interdisciplinar.
to, e enxergamos e ouvimos e sabe-
mos o que é justo e injusto, o que é Já que a inserção de um capítulo so-
bom e o que é ruim, o que é doce e o bre neurociências em um livro de terapia
que é amargo... E pelo mesmo órgão familiar tem tudo a ver com a questão da
tornamo-nos loucos e delirantes, e interdisciplinaridade, deve-se começar com
medos e terrores nos assombram... algumas considerações sobre a postura
Todas essas coisas suportamos do interdisciplinar e sobre a interdisciplinari-
encéfalo quando não está sadio... Nes- dade interna.
se sentido, sou da opinião de que o Recordando o significado de interdis-
encéfalo exerce o maior poder sobre ciplinar, conforme Sandra Fortes (2007),
o homem.
 espaço em que há troca na diferença;
Hipócrates, em
 o que eu sei ajuda o outro no que eu
“Acerca das Doenças Sagradas”,
citado em Gomes, 2005. não sei;
 construção de uma compreensão que
só existe na junção do “eu não sei”;
 abertura para ouvir outros profissio-
POR QUE UM CAPÍTULO DE nais, possibilitando a “escuta” e a
NEUROCIÊNCIAS EM UM LIVRO “construção” de um outro saber.
SOBRE TERAPIA FAMILIAR?
Esta menção à essência da ideia de
Por neurociências entendemos o conjunto interdisciplinaridade me remete a uma si-
de disciplinas, como a neuroanatomia, a tuação ocorrida no período em que eu mi-
neurofisiologia, a neurobiologia, a neuro- nistrava aulas em um curso de graduação
logia clínica e outras disciplinas correlatas em psicologia, sempre com um enfoque
(como a neurorradiologia e seu desdobra- interdisciplinar. Houve momentos em que
mento, a neuroimaginologia), que estuda meu posicionamento sistêmico e interdisci-
o sistema nervoso em toda a sua complexi- plinar criou problemas aos alunos, os quais,
dade, procurando relacionar seus achados em outras disciplinas, eram pressionados
com os comportamentos humanos. a definir a que linha teórica iriam se dedi-

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Manual de terapia familiar | 185


car, sob a alegação de que cada uma teria Esta forma de atender pacientes não
uma visão de mundo própria e de que se- ocorreu desde o início de minha vida pro-
ria praticamente incompatível com as de- fissional, quando acreditava que a psica-
mais. Em determinado momento, alguns nálise poderia dar conta de todas as mi-
alunos, em conflito com a “definição” da nhas necessidades como psicoterapeuta,
ideologia do curso, declararam que eu, ao até surgir uma paciente que me exigiu rom-
não seguir uma determinada linha de pen- per com meus paradigmas conforme des-
samento teórico (psicanálise, existencia- crito a seguir.
lismo, teoria cognitivo comportamental,
entre outros), estaria realizando uma “psi- Tratava-se de uma paciente que, em
cossalada”, expressão ironicamente colo- determinado momento do tratamen-
cada por uma professora que não compar- to analítico, reclamava que não se sen-
tilhava de um entendimento interdisci- tia progredindo. E eu concordava com
plinar. Aproveitando essa expressão empre- ela. Levei o caso para os meus supervi-
gada como uma crítica à minha postura sores. Observei minha relação com ela,
interdisciplinar, utilizei-a como metáfora a transferência e a contra-transferên-
em um trabalho científico apresentado no cia, o entendimento psicodinâmico;
enfim, busquei todo o conhecimento
V Congresso de Terapia Familiar em Salva-
teórico que estava a meu alcance. En-
dor em 2002 e, posteriormente, no âmbito tendia que tínhamos uma boa relação
da própria universidade onde lecionava. O de cumplicidade e empatia, mas infe-
argumento era: uma salada realmente sau- lizmente concordando com ela pare-
dável inclui diversos vegetais e legumes, cia que o processo terapêutico estava
assim como se faz necessária uma certa estagnado.
quantidade de temperos para torná-la, Em um determinado momento, ela
além de saudável, apetitosa. Dessa manei- perguntou se poderia trazer o marido
ra, devo à provocação desta professora a para a sessão. Intuitivamente, achei
elaboração de uma metáfora que hoje re- que era uma boa ideia mas, ao comen-
presenta bem a forma como trabalho mi- tar com os colegas, ouvi comentários
na seguinte linha: “a paciente quer te
nhas ideias e aplico-as na clínica com as
controlar”... “ela quer tirar o teu po-
famílias que atendo, incorporando novos der”... “isto é resistência”...” “isto é
conhecimentos como se fossem novos in- atuação”. Eu me senti encurralada: de
gredientes para tornar a salada mais ape- um lado, a instituição que eu acredi-
titosa e atraente. Nesse contexto, entraram tava deter o conhecimento sobre a téc-
em minha “psicossalada” as neurociências. nica que então eu empregava; de ou-
Penso e vivencio meu trabalho como tro, a paciente me fazendo sugestões
psiquiatra e psicoterapeuta com o pressu- que contrariavam essa postura técni-
posto de que qualquer novo conhecimento ca, mas que me pareciam adequadas
é potencialmente válido, pois proporciona ao momento e aos propósitos da te-
a nosso saber instrumentos para melhor rapia.
Optei por não levar mais este caso
entender e atender nossos pacientes. Além
para a supervisão e ouvir minha pa-
disso, de cada disciplina devemos acolher o ciente. O marido então a acompanhou
que faz sentido para nós e para “aquele” de- a uma das sessões. Para minha sur-
terminado paciente (por paciente entende- presa, foram abertas uma brecha no
se tanto um indivíduo como um casal, um impasse que se criava e novas possi-
grupo ou uma família), pois cada situação bilidades para a evolução do trata-
clínica conduz a busca de subsídios nesta mento, pois na relação de casal apa-
ou naquela teoria, nesta ou naquela técnica. receram situações que não apareciam

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186 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

na transferência da paciente comigo. outro profissional, já que minha qualifica-


Foi observada uma atitude agressiva ção profissional autorizava a medicá-los.
importante com o marido que não A decisão de voltar a medicar me fez
aparecia em sua relação comigo, em- reatualizar meus estudos psicofarmaco-
bora fosse comum em suas relações
lógicos, e foi então que me deparei com o
com autoridades em geral.
novo campo de conhecimentos emergen-
A paciente havia tido muitos pro-
blemas com terapeutas anteriores. Eu te: as neurociências, que, conforme disse
era a quinta psiquiatra a quem ela pro- anteriormente, passou a se integrar à mi-
curava, todos de orientação psicana- nha forma de trabalhar em um contexto
lítica. E ela se manteve comigo, por- interdisciplinar.
que a escutei e flexibilizei a técnica Comparo a interdisciplinaridade com
para ir ao encontro de suas necessi- a situação de uma ilha, que aparentemen-
dades. Penso hoje que sua sugestão te se encontra isolada, mas, se pensarmos
foi a forma que encontrou de colabo- mais além do que está ao alcance de nossa
rar com o processo terapêutico, dife- visão, faz parte de um continente submer-
rentemente do que meus pares pre-
so. As ilhas são picos de montanhas desse
conizavam.
continente, conectadas umas às outras pela
E aí? Meu procedimento não era
o que recomendava a psicanálise. base. Embora as disciplinas a que me refi-
Quem era eu como profissional na- ro aparentem estar desconectadas umas
quele momento? das outras, na verdade, fazem parte de uma
mesma cadeia que estuda a natureza hu-
Tenho grande carinho e agradecimen- mana em suas várias manifestações e o
to a esta paciente, pois ela me possibilitou universo como um todo.
rever meus conceitos e evoluir como psi- Tenho por convicção que um tera-
quiatra, terapeuta e ser humano. Passei a peuta de nossos tempos precisa se orientar
incluir em minha técnica terapêutica um sob a égide de dois princípios no que diz
familiar no processo terapêutico quando respeito ao que denominei “postura inter-
sinto que este se encontra estagnado. (Valle disciplinar”:
e Osório, 2006)
A partir desta situação, fui buscar 1. Interdisciplinaridade interna
novas teorias que se encaixassem em mi- Diz respeito a uma questão ideológica
nha proposta de trabalho e encontrei a te- por parte do terapeuta, postulando ser
oria sistêmica, que tem me acompanhado indispensável que promova o diálogo
ao longo de muitos anos. Durante muito entre os referenciais teórico-técnicos
tempo deixei de lado minha formação bá- que foi adquirindo ao longo de sua evo-
sica de psiquiatra, dedicando-me principal- lução profissional, mesmo que pareçam
mente à psicoterapia, talvez ainda como ser contraditórios.
reflexo de meus estudos psicanalíticos. 2. Interdisciplinaridade externa
Uma vez que a técnica psicanalítica não Consiste em se disponibilizar a escutar
permite que o psicanalista prescreva me- profissionais de sua e de outras áreas
dicamentos a pacientes em tratamento psi- para a construção conjunta de um sa-
canalítico, e, quando isso se faz necessá- ber compartilhado.
rio, a recomendação é que se indique o
paciente para que algum colega psiquiatra A partir disso, os terapeutas estarão
o faça, não prescrevia mais. Esse paradigma aptos a seguir a “linha” do paciente, con-
passou a ser questionado por mim e pelos forme suas demandas e necessidades, e
pacientes que consideravam, além de in- prontos para uma nova evolução como
cômodo, oneroso financeiramente buscar pessoas e como profissionais.

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Manual de terapia familiar | 187


A partir de minha formação psiquiá- quisesse tomar essas ideias a sério de-
trica, pude observar manifestações clínicas veria procurar as analogias físicas e abrir
que ora me pareciam mais psíquicas, ora para si mesmo um caminho para a figu-
mais orgânicas, e essas alternâncias sem- ração do processo de movimento da
excitação neuronal. (Freud, 1900)
pre me inquietaram. Com o estudo das
Para muitos, (...) basta supor que
neurociências, começou a se esboçar em
somente a consciência seja o psíqui-
minha mente uma visão integrativa desses co. (...) Entretanto, os processos cons-
fenômenos. É esse olhar que quero com- cientes não formam, segundo acordo
partilhar com leitor, aguçando-lhe a curio- geral, séries ininterruptas e comple-
sidade para que possa, por sua vez, buscar tas em si mesmas, de maneira que
maiores informações desse campo emer- nada mais resta a fazer do que supor
gente do saber ligado à nossa atividade processos físicos ou somáticos conco-
como terapeuta. mitantes ao psíquico, aos quais se deve
O intuito deste capítulo é, além de tra- atribuir uma completude maior que
çar um panorama sobre a contribuição das às séries psíquicas, pois alguns deles
têm processos paralelos conscientes,
neurociências, evidenciar que não há uma
mas outros não. Isso sugere, então,
hierarquia entre os saberes, e sim interfaces naturalmente, que acentuemos, na
em que podem trocar influências e infor- psicologia, esses processos somáticos,
mações. Assim, ocorre com a neuroana- que reconheçamos neles o verdadeiro
tomia, a neurofisiologia a neuropsicologia, psíquico [“das eigentlich Psychische”]
áreas secundárias das neurociências, que, (...). (Freud, 1938)
por sua vez, podem estabelecer uma frutí-
fera conversa com a teoria sistêmica, a ci- Freud, apesar de ter abandonado a
bernética ou a teoria da comunicação hu- pretensão de oferecer hipóteses específicas
mana, pilares da terapia familiar sistêmica. sobre os mecanismos fisiológicos dos pro-
Os subsídios aportados por esses sa- cessos psíquicos, passando a não considerá-
beres compartilhados nos possibilitam in- las como realmente necessárias, nunca
tervenções mais adequadas que podem abandonou a concepção de que os proces-
chegar a tempo de evitar danos físicos ou sos psíquicos têm um substrato neurofisio-
emocionais, muitas vezes, irreversíveis. lógico. Curiosamente, Freud mostrou-se
menos ortodoxo que muitos de seus discí-
pulos, pois jamais em sua obra deixou de
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES considerar o substrato orgânico dos fenô-
SOBRE CÉREBRO, MENTE menos ditos psíquicos, ao passo que aque-
OU PSICOSSOMÁTICO les deixaram de fazê-lo.
Recorde-se ainda a equação etiológica
Embora seja dito que Freud ao longo de de Freud, em que ele pontua que ao lado
seus estudos tenha alterado seu olhar dos fatores constitucionais (que incluem o
organicista para uma concepção prepon- orgânico) estão as vivências infantis (de or-
derantemente psíquica, nota-se ao ler aten- dem emocional) na determinação dos
tamente sua obra que isso não ocorreu e transtornos mentais.
que sua posição sobre a relação orgânico- Osório (1996) lembra que o próprio
psíquico não se modificou ao longo de sua termo psicossomático traduz a ambiguida-
obra, como se percebe nas seguintes cita- de com que foi e ainda é empregado por
ções (in Gomes, 2005): muitos. Diz-nos ele:

A mecânica desses processos me é com- Há quem continue na práxis clínica,


pletamente desconhecida; aquele que quando não no próprio discurso teóri-

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188 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

co, a tratar as agências do corpo e da cio da primeira infância o cérebro estives-


mente como entidades separadas....e se rigidamente estruturado. Hoje está com-
sendo corpo e mente (considerados) provado que o cérebro consegue buscar
de distinta natureza não podem rotas alternativas para atingir a mesma fi-
interagir.
nalidade. E como pequenas metamorfoses
ocorrem em nosso dia-a-dia, a plasticidade
A psicossomática vista sob a visão também é o mecanismo pelo qual o cére-
interdisciplinar nos remete a um olhar bro responde a estímulos externos. Áreas
abrangente, em que o ser humano é visto mais solicitadas por diferentes aprendiza-
em todo o seu contexto, quer nos aspetos dos tornam-se muito desenvolvidas. Por-
biológicos, físico-químicos, nutricionais, tanto, conforme cada indivíduo se desen-
psicológicos, quer ainda nos ambientais ou volve, ele vai moldando seu cérebro.
socioculturais. Pensemos que as terapias se propõem
Após Freud, outros tantos desenvol- a criar rotas alternativas, que possibilitem
vimentos na compreensão dos fenômenos menos sofrimento. Como metáfora, pode-
intrínsecos da mente ocorreram, tanto por mos imaginar o cérebro como um grande
parte dos chamados organicistas como dos mapa rodoviário. Por vezes, percorremos
psicogenistas. Mesmo no advento da teoria certas rotas que nos conduzem a grandes
da comunicação humana, que viria a ser sofrimentos, mas que voltamos a percor-
responsável, junto com a teoria sistêmica rer por não experimentar outras, já que,
e a cibernética, pela mudança de paradig- por força de identificação com nossos pais,
ma que determinou o surgimento da tera- por características genéticas, por situações
pia familiar sistêmica, está Bateson (Osório, metabólicas, hormonais, é como se não
2006), procurando causas psicogênicas concebêssemos rotas alternativas. E nosso
para a esquizofrenia, cuja abordagem hoje trabalho como terapeutas consiste, na me-
já não permite ignorar o substrato bioquí- táfora utilizada, a disponibilizar outras es-
mico subjacente. Tais desenvolvimentos, se tradas “mais saudáveis”, o que pode ser
não colocados no contexto interdisciplinar, feito de muitas formas (por via medica-
permanecem como visões limitadas e mes- mentosa, por via psicanalítica, por via
mo limitantes do progresso científico. comportamental, etc.). O que importa re-
Em torno de uma década atrás, caiu almente é a possibilidade de criarmos ou
um dos maiores mitos da ciência neuroló- oferecermos outros percursos, o que cor-
gica, pois acreditava-se que os neurônios responde a utilizarmos outros circuitos ce-
estavam formados antes do nascimento e, rebrais.
a partir daí, seriam células incapazes de se Com os avanços das pesquisas em
reproduzir como as demais do organismo. neurociências, obtivemos a fundamentação
Houve uma mudança radical nas perspec- científica para a hipótese de que não há
tivas de encarar certas doenças degenera- uma só abordagem para suavizar o sofri-
tivas quando foi desvendado o processo da mento humano, físico ou emocional; por-
neurogênese (com a possibilidade do de- tanto, não existe razão para hierarquizar-
senvolvimento de novos neurônios), por- mos as abordagens e as colocarmos em
que a morte neuronal já não significa um uma ordem valorativa.
ponto sem retorno para a reconstrução das Outras descobertas na área das neuro-
redes neuronais e a consequente possibili- ciências foram proporcionadas pela entra-
dade de cura de doenças até agora tidas da em cena de exames como a ressonância
como incuráveis, como o mal de Alzheimer. magnética funcional (RMF), que se obtém
Outra descoberta recente é a da plas- colocando a pessoa em um aparelho onde
ticidade cerebral. Pensava-se que até o iní- um campo magnético possibilita detectar

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Manual de terapia familiar | 189


o fluxo de sangue oxigenado em diferen- estrutura cerebral, o que nos obriga a cer-
tes áreas do cérebro. Essa técnica permitiu tos procedimentos preventivos em situa-
mapear o cérebro em funcionamento. ções de estresse capazes de provocar uma
Outro exame, o PET SCAN, permite a apoptose (morte) neuronal. Isso ocorre
fusão de imagens funcionais reveladas por quando o cérebro, para se proteger da si-
tomografia com emissão de pósitrons tuação estressante, diminui sua conecti-
(PET), através da administração de uma vidade. Em situações agudas, isso pode ser
substância radioativa, com imagens ana- reversível. Todos nós temos a experiência
tômicas oriundas de uma tomografia con- de que em situações dolorosas (por exem-
vencional, o que enseja integração da ati- plo, morte de um ente querido, acidente,
vidade celular e metabólica com a locali- entre outros) é possível tomarmos atitu-
zação anatômica. des adequadas, resolver situações adminis-
A tecnologia que nos possibilitou in- trativas e necessárias. A sensação, por ve-
tegrar o arcabouço físico com a funcionali- zes, é de estarmos um pouco anestesiados:
dade cerebral em diferentes atividades, isto ocorre porque o cérebro, para se pro-
proporcionou também inegavelmente um teger do sofrimento, lança substâncias que
grande avanço no conhecimento do que se diminuem sua conectividade; assim, pode-
passa na intimidade do cérebro e sua rela- mos vivenciar certas situações muito dolo-
ção com o comportamento humano, que é rosas ainda com algum controle. As difi-
o que nos interessa como terapeutas. culdades ocorrem quando esse sofrimento
torna-se crônico e a conectividade fica di-
minuída por tempo indeterminado – hoje
IMPORTÂNCIA DO ESTUDO já foi comprovado que crianças em situa-
DAS NEUROCIÊNCIAS ção de violência crônica tem como con-
sequência posterior um corpo caloso (área
As neurociências nos remetem a um olhar do cérebro que conecta os dois hemisfé-
abrangente, no qual tudo deve ser levado rios) com tamanho diminuído. Sabe-se, por
em conta. Por exemplo, um surto psicótico outro lado, que músicos profissionais tem
pode ser desencadeado por drogas, inter- o corpo caloso com tamanho acima da
rupção do sono, doenças metabólicas, dis- média da população em função do aumen-
túrbios hormonais, ação colateral de me- to da conectividade intercerebral para o
dicamentos, entre outros, o que vem con- exercício de sua atividade.
firmar um dos princípios da teoria geral Alterações com as mencionadas po-
dos sistemas, o da multicausalidade, que dem ocorrer, por exemplo, tanto em casos
nos diz que um determinado efeito não tem de violência física na infância como nos de
uma única causa (Osorio, 2006). negligência, pois, neles, há uma diminuição
Portanto, como terapeutas de famí- do contato ocular, menos estímulos à lin-
lias, precisamos atuar em um contexto guagem e diminuição da ocorrência de vín-
interdisciplinar, pois, muitas vezes, preci- culos interpessoais, com prejuízos cerebrais
saremos do auxílio de profissionais com di- posteriores de caráter, muitas vezes, irrever-
ferentes olhares e conhecimentos para atu- síveis. Tais crianças submetidas cronica-
armos de forma eficaz em determinadas mente a situações de violência ou abando-
situações. Essa é a razão para a crescente no, por uma diminuição da conectividade
tendência em formar equipes de trabalho sináptica, em geral, tornam-se pessoas mais
com profissionais de distintas áreas e com- insensíveis e, quando desenvolvem uma
petências em ação interdisciplinar. carreira criminal, podem ser identificados
Hoje há como comprovar que even- naqueles assassinos que contam suas atroci-
tos ambientais adversos podem alterar a dades com detalhes sem a menor emoção.

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190 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

Motta (2005), que estudou com pro- de rodovias, com auto-estradas, rodovias
fundidade os efeitos da interação do bebê secundárias e inclusive pequenas trilhas,
com uma mãe com depressão pós-parto, sendo que muitas ainda em florestas vir-
nos demonstra as consequências para o gens. Dentro dessa malha, temos inúme-
bebê das dificuldades da mãe deprimida ras freeways, bem como antigas estradas
em impedir a ação de estímulos estressores conhecidas que percorremos com facilida-
e em promover estímulos que favoreçam o de, quer por desenhos genéticos, quer por
aprendizado de estratégias adequadas e aprendizados infantis ou condições simila-
adaptativas para lidar com situações estres- res. Quando essas freeways nos levam a
santes. Motta salienta a importância do vivências confortáveis, não temos porque
reconhecimento do período inicial como alterá-las. O problema é quando no levam
crítico para o desenvolvimento do indiví- ao sofrimento, e habitualmente nessas si-
duo, considerando os achados neuroendó- tuações é que os terapeutas são procurados.
crinos comprovados em sua pesquisa. Tais Em nossa vida de relação, recebemos
estudos sustentam a importância de uma estímulos do ambiente, os percebemos, e tal
ação preventiva precoce, com vistas a evi- percepção provoca uma reação que nos le-
tar consequências a médio e longo prazo va a um determinado comportamento que
decorrentes de níveis de cortisol alterados retorna ao ambiente. O diagrama da Figura
devido à interação do bebê com uma mãe 12.1, elaborado por Taborda (Taborda, Lima
depressiva. Isso nos mostra a importância e Busnello, 1996), nos mostra de uma for-
de um apoio a nível micro e macropolítico ma simplificada as funções do ego e sua re-
com vistas a auxiliar as mães deprimidas a lação com o mundo externo.
exercer sua maternagem adequadamente. Podemos pensar o gráfico a seguir
como um esquema simplificado de um cir-
cuito cerebral.
O PROCESSO TERAPÊUTICO Assim, vê-se que um determinado es-
E AS NEUROCIÊNCIAS tímulo provém do ambiente externo, pas-
sa pelos mecanismos de percepção e pro-
A partir do momento em que se comprova voca uma resposta ao ambiente (compor-
o quanto é possível ir moldando o cérebro tamento). O circuito utilizado será a auto-
através de experiências, isso sinaliza a im- estrada que se oferece como o caminho li-
portância também do trabalho psicoterá- vre já devidamente percorrido (por carac-
pico, do que chamamos a conversa trans- terísticas genéticas, química, físicas, etc.)
mutadora. e que foi construída ao longo da vida.
Vamos nos valer novamente da metá- Esta auto-estrada está lá e, quando
fora em que o cérebro seria comparado a um paciente busca alterá-la, é porque não
uma rede rodoviária com uma infinidade serve mais, e, nesse momento, vem buscar

Estímulo Resposta
Percepção

Ambiente externo ou Interno Comportamento

Figura 12.1 Esquema simplificado de um circuito cerebral.

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Manual de terapia familiar | 191


a ajuda terapêutica. Para alterar o cami- • empatia cognitiva: cortical lenta (tála-
nho, há as mais diversas possibilidades que mo-córtex- amídala).
são oferecidas pela visão interdisciplinar.
Podemos modificar o ambiente externo, É possível pensar na empatia conta-
tanto na quantidade como na qualidade de giosa como aquela que sentimos quando
estímulo; podemos agir sobre o intrapsí- nos contagiamos com um bocejo, com ale-
quico, possibilitando que o paciente enten- gria, tristeza, etc. A empatia cognitiva é
da o estímulo de uma forma diferente; aquela em que podemos nos mobilizar com
podemos causar modificações através de o sentimento do outro, mas teríamos uma
agentes químicos ou de ondas magnéticas, maior potencialidade de discriminar o que
elétricas, etc.; assim, ao alterar o circuito é meu do que é do outro. Prestando aten-
rodoviário (cérebro), estaremos também ção e aprendendo a perceber o que acon-
alterando o comportamento final. tece com nossas sensações, estamos com
Dizendo de outra maneira, tanto com mais um excelente instrumento para en-
recursos psiquiátricos como com técnicas tendermos melhor nosso paciente. Bion,
psicoterápicas de distintos referenciais (psi- citado em Zimerman (1995) diria que esta
canalíticas, sistêmicas, cognitivo-compor- seria uma forma de comunicação primiti-
tamentais, etc.), é possível substituir a rota va (pré-verbal) quando o paciente ainda
que deixou de ser adequada, provocando não tem condições de verbalizar.
o surgimento de rotas alternativas e ense- No processo de empatia, Nava (2006)
jando um rearranjo nas rotas preestabe- cita a presença de neurônios-espelhos que
lecidas. Podemos tomar como exemplo uma permitem aos indivíduos compreender e
pessoa que fica cega e pouco a pouco vai imitar as ações dos outros quase que auto-
desenvolvendo os outro órgãos de percep- maticamente. Isto é mais facilmente per-
ção, como audição, tato, olfato ou mesmo ceptível nos recém-nascidos, que sentem
paladar como forma de compensar a fun- as emoções da mãe de uma forma muito
ção perdida, e é isso que se denomina plas- indiferenciada; na medida que o córtex vai
ticidade cerebral. Pensando nesses termos, se diferenciando, vai acontecendo o pro-
podemos entender por que toda a aborda- cesso de separação-individuação descrito
gem é válida, desde que em consonância por Mahler (apud Osório, 1996).
com a relação estabelecida entre o terapeu-
ta e o paciente em questão.
No processo terapêutico, uma das CONSIDERAÇÕES FINAIS
qualidades essenciais é a capacidade de
empatia. Zimerman (1995) chama a aten- As neurociências vêm corroborar o valor
ção para o significado etimológico dessa da interdiciplinaridade. Cada vez mais a
palavra, ou seja, em = dentro; pathus = ciência vem fazendo novas descobertas em
sofrimento, o que significa conseguir, de todas as áreas. As novas descobertas sobre
uma determinada forma, sentir o sofrimen- a plasticidade cerebral, neogênese, conecti-
to do outro, e essa qualidade vem sendo vidade neuronal e sobre outros aportes das
estudada pelas neurociências. neurociências nos abrem novas perspecti-
Damásio (1994) e Lê Doux (1996), vas e novas esperanças sobre como lidar
citados em Nava (2006), descrevem dois com situações tais como as decorrentes da
circuitos que correspondem a duas formas violência doméstica ou do estresse fisico e
distintas de empatia: mental. Ao termos conhecimento que os
efeitos da violência não se fazem só no
• empatia contagiosa: subcortical rápida âmbito psicossocial, mas também podem
(tálamo-amídala); causar danos cerebrais irreversíveis, isso

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192 | Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth Pascual do Valle & cols.

muda a perspectiva de nossas intervenções dade da rede neuronal de seus mem-


terapêuticas. bros.
Sabendo-se que o cérebro cresce em
volume e aumenta sua conectividade neu-
ronal principalmente até os 5 anos de ida- REFERÊNCIAS
de, é preciso estabelecer condutas terapêu-
BEAR M. F. Neurociências: desvendando o sistema
ticas e preventivas que abarquem preocu- nervoso. Porto Alegre: Artmed, 2002.
pações com prover uma adequada nutri-
ELKAÏM, M. Panorama das terapias familiares. São
ção e boa estimulação ambiental, além de
Paulo: Summus, 1998.
ações firmes impeditivas da violência ou
negligência familiar. Cabe-nos pensar ain- FORTES, S. Comunicação oral. Jornada de Psi-
quiatria, Florianópolis, 2007.
da em melhorar as condições pré-natais. E
se não estiver a nosso alcance realizar me- GOMES, G. O problema mente-cérebro em Freud.
Psicologia: Teoria e Pesquisa, Brasília, v. 21, n. 2,
didas em larga escala, que, ao menos, nos maio/ago. 2005
proponhamos em nossos espaços como
MOTTA M. G. Efeitos da depressão materna no
terapeutas familiares a criar condições para
desenvolvimento neurobiológico e psicológico da
que rotas alternativas sejam oferecidas, a criança. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do
fim de evitar os acidentes de percurso em Sul, Porto Alegre, v. 27, n. 2, maio/ago. 2005.
estradas que se tornaram inadequadas, com NAVA, A. S. Na sala dos espelhos: empatia, psi-
a ajuda do conhecimento proporcionado coterapia e grupanálise. Lisboa: CLIMEPSI, 2006.
pelos avanços das ciências em geral sob a _________ . O cérebro apanhado em flagrante. Lisboa:
perspectiva interdisciplinar. CLIMEPSI, 2003
Resumo de alguns tópicos e cuidados
OSORIO, L. C. Novos paradigmas em psicoterapia.
que nos sugerem a interatividade entre São Paulo: Casa do Psicólogo, 2006.
neurociências e terapia familiar: _________ . O futuro da psicanálise e outros ensaios
correlatos. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1996.
 Estar atentos para os sintomas clínicos
apresentados pelos membros da famí- PLISZKA, S. R. Neurociência para o clínico de saú-
de mental. Porto Alegre: Artmed, 2004.
lia, usando a lupa das neurociências.
 Levar em consideração todos os contex- PORTA, E. Psicanálise e neurociência: uma pers-
tos: ambiental, escolar, cultural, socioe- pectiva interdisciplinar e evolucionária. Psicanalí-
tica, v. 7, n. 1, 2006.
conômico, etc., bem como a possível
presença de fatores constitucionais, ge- TABORDA, J. G. V.; LIMA, P. P.; BUSNELLO, E. D.
Rotinas em psiquiatria. Porto Alegre: Artmed, 1996.
néticos, hormonais ou bioquímicos na
determinação dos comportamentos no VALLE, M. E. P.; OSORIO, L. C. Alquimia íntima.
Porto Alegre: Literalis, 2004.
sistema familiar.
 Observar a funcionalidade da família: _________ . Gritos e sussurros. São Paulo: Vetor, 2006.
papéis, relações de poder, afetos, etc., _________ . Terapia de famílias: novas tendências. Por-
conscientes dos efeitos que possam ter to Alegre: Artmed, 2003.
para a interconectividade cerebral. ZIMERMAN, D. E. Bion: da teoria a prática: uma
 Fortalecer e estimular a autonomia da leitura didática. Porto Alegre: Artmed, 1995.
família, cujas experiências são fatores _________ . Vocabulário de psicanálise: Porto Alegre:
de desenvolvimento ou desconectivi- Artmed, 2004.

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Manual de terapia familiar | 193

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Terapia familiar e resiliência
Marilza Terezinha Soares de Souza

O navarro diz que uma maneira de a teoria sistêmica, ao considerar as influên-


mostrar que um tapete foi feito por cias recursivas entre as pessoas e atribuir
mãos humanas é a presença de falhas. à resiliência o conceito de “uma qualidade
(Walsh, 1998, p. 155) sistêmica compartilhada pela unidade fa-
miliar como um todo” (Walsh, 1998, p.
O conceito de resiliência, aplicado às 285), e a teoria do estresse, do enfrenta-
ciências da saúde, particularmente no cam- mento e da adaptação (McCubbin; Thomp-
po da psicologia, foi compreendido e defi- son; McCubbin, 1996; Patterson, 2000a e
nido sob diferentes prismas ao longo dos 2000b).
últimos 30 anos. Encontramos entre suas Walsh (1998) e McCubbin, Thompson
diversas definições a existência de traços e McCubbin (1996) abordaram o concei-
de personalidade individuais especiais, a to de resiliência familiar como um pro-
capacidade de recuperação de traumas, a cesso que compreende a avaliação com-
capacidade de superação de obstáculos, um partilhada entre os membros da família
conjunto de habilidades e competências de eventos estressores e situações de ris-
individuais, invulnerabilidade, o resultado co, com base em crenças e na visão de
do equilíbrio entre fatores de risco e fato- mundo, somado a isso a existência de ou-
res de proteção e resultados do enfrenta- tros eventos estressores provenientes do
mento de situações de estresse, entre ou- ciclo vital e do contexto, e a tomada de
tros (Souza, 2003, 2004; Souza e Cerveny, decisões e utilização dos recursos dispo-
2006a e 2006b). níveis internos (da fam