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FONTANILLE, J. Semiótica do Discurso. Tradução de Jean Cristtus Portela.

São Paulo:
Contexto, 2007.

Capítulo “A enunciação”
Fontanille concebe o capítulo “Enunciação” como uma espécie de conclusão da obra
Semiótica do Discurso. Visando chegar “aos horizontes da cultura”, propõe o esboço de uma
definição mais precisa do conceito de “enunciação” e, para tanto, organiza sua reflexão em
cinco tópicos: 1. Recapitulação; 2. Confrontações; 3. Práxis enunciativa; 4. As operações da
práxis; 5. A semiosfera.

1. Recapitulação

1.1. A instância proprioceptiva

Nesse tópico, Fontanille ressalta a necessidade de se redefinir o domínio específico da


enunciação, a fim de evitar uma generalização prematura da noção.
Destaca ele que é preciso, por exemplo, resistir à tentação de estabelecer uma equivalência
entre o ato que constitui a semiose e o ato de enunciação propriamente dito. Afirma o
pesquisador, nesse sentido, que

[...] o ato semiótico em geral depende, em primeiro lugar, da


sensibilidade proprioceptiva e [...] nessa perspectiva as duas operações
elementares, a visada e a apreensão, são, antes de tudo, operações
perceptivas, antes mesmo de serem assumidas por uma enunciação
que deitiza, localiza, mensura e avalia. (FONTANILLE, 2007, p. 257).

1.2. O campo de presença

Fontanille destaca também que é preciso estabelecer a diferença entre três campos de
exercício da atividade de linguagem, frequentemente considerados co-extensivos: o campo de
presença perceptivo, o campo tensivo do discurso e o campo de exercício da enunciação.

Explica o pesquisador que o campo do discurso reúne todos os campos de presença que
resultam das diferentes tomadas de posição da instância de discurso e que o campo de
exercício da enunciação, domínio da práxis enunciativa, engloba todos os campos de discurso
das diversas enunciações que ela convoca. Seria possível organizar esse raciocínio do seguinte
modo:
Campo de presença < Campo do discurso < Campo da práxis enunciativa

Fontanille assevera que a enunciação manipula os modos de existência das grandezas que ela
convoca para o discurso. Segundo ele, ela as situa em uma profundidade discursiva “que não
pode ser confundida nem com o eixo paradigmático (pois há co-presença, e não seleção) nem
com o eixo sintagmático (pois há superposição, e não sucessão e combinação)”
(FONTANILLE, 2007, p. 257).

A enunciação se serve, desse modo, da intensidade e da extensão (quantidade) dessas


grandezas discursivas, a intensidade sendo aquela da força de assunção da enunciação e a
extensão sendo aquela da sua capacidade de desdobramento figurativo. Fontanille faz, no
entanto, uma ressalva:

De um ponto de vista paradigmático, o domínio da enunciação seria


mais específico do que o domínio da presença em sentido amplo, na
medida em que ela só manipula variedades particulares da intensidade
e da extensão. De um ponto de vista sintagmático, o domínio da
enunciação englobaria os campos de presença e os espaços tensivos, já
que é justamente a práxis que os põe em comunicação entre si.
(FONTANILLE, 2007, p. 258).

1.3. Os regimes discursivos

Destaca o pesquisador, por fim, que os três regimes do discurso – ação, paixão e cognição –
estão sujeitos à enunciação (que então controla as regras da programação da ação, os efeitos
passionais, as apreensões cognitivas), mas que ela não controla as consequências de cada uma
dessas tomadas de posição, uma vez que elas são reguladas pelos regimes próprios às três
dimensões do discurso.

2. Confrontações

Nesse tópico, Fontanille destaca duas grandes tendências na história recente das ciências da
linguagem: os herdeiros da tradição europeia e os herdeiros da tradição anglo-saxônica. Os
primeiros “defendem a necessidade de um componente enunciativo em linguística”, os
segundos “pensam poder prescindir dessa noção, isso quando não a ignoram simplesmente”
(2007, p. 259).

Afirma Fontanille, a esse respeito, que o debate entre correntes teóricas é frutífero, mas traz
duas dificuldades: a primeira diz respeito ao fato de que “a questão da enunciação surge
sempre como um acréscimo a uma teoria de base” (2007, p. 259), de modo que seria eficaz
adotar o ponto de vista da semiose e/ou do discurso “em ato” logo de início. A segunda
dificuldade reside na sobreposição entre a noção de enunciação e as noções de comunicação,
subjetividade e atos de linguagem, de modo que é preciso distingui-las.

2.1. Enunciação e comunicação

Ao se preocupar com a circulação das mensagens, o ponto de vista da comunicação concebe a


atividade de linguagem em um contexto, contexto esse que não é tratado como significante
pela teoria. Em contrapartida, a semiótica considera o contexto significante e concebe que a
“situação de comunicação” pode tornar-se, ela mesma, uma linguagem (Landowski, 1995).
Sendo assim, a semiótica invalida o ponto de vista da comunicação: “tanto para o enunciatário
como para o enunciador, não se trata mais de fazer circular mensagens, mas de situar-se em
relação aos discursos para construir sua significação” (FONTANILLE, 2007, p. 260).

2.2. Enunciação e subjetividade

Quanto à subjetividade, Fontanille distingue-a da atividade enunciativa. Diz ele que “o


discurso reflete-se a si próprio e propõe uma representação das condições e das operações que
dirigem a produção do enunciado” (FONTANILLE, 2007, p. 261). Sendo assim, “a
subjetividade deve ser buscada na maneira pela qual a instância de discurso assume essa
reflexividade, e não na própria reflexividade” (FONTANILLE, 2007, p. 261). A questão pode
ser resumida na fórmula de Benveniste, retomada e complementada por Coquet: é ego que diz
ego e que se diz ego.

Fontanille propõe um exame crítico da ideia de que a instância de discurso engloba a pessoa,
que engloba ela própria a subjetividade. O pesquisador faz, então, dois deslocamentos.
Primeiro deslocamento: a consideração do impessoal da enunciação: “[...] a práxis
[enunciativa] sendo, por definição, obra de vários actantes da enunciação – ou ainda de
grupos, de comunidades inteiras, se não de culturas –, deve ser considerada idealmente como
‘transpessoal’ ou ao menos como ‘pluripessoal’” (FONTANILLE, 2007, p. 262).

Segundo deslocamento: o ponto de vista da não projeção da estrutura posicional da instância


de discurso sobre a estrutura transformacional do discurso enunciado:

Esse ponto de vista é concebível, e até mesmo legítimo, mas não é o


ponto de vista do discurso em ato, e sim do discurso realizado,
acabado, apreendido a partir do fim do processo. Portanto, com a
noção de subjetividade, muda-se de domínio de pertinência e
considera-se a enunciação, do mesmo modo como o enunciado,
inscrita em um discurso acabado e apreendida retrospectivamente.
(FONTANILLE, 2007, p. 265).

Fontanille afirma que a questão da subjetividade e da intersubjetividade deve ser tratada: “(1)
independentemente da questão da pessoa, que remete a uma esquematização cultural do
campo da enunciação, e (2) na perspectiva de uma construção progressiva da identidade
modal dos actantes, e não como um substituto da enunciação” (2007. p. 266). Acrescenta
Fontanille, ainda, que “a questão da subjetividade deve, particularmente, ser cuidadosamente
distinta da questão da tomada de posição da instância de discurso, que se manifesta ela de
todas as maneiras e independentemente dos efeitos de pessoa e de sujeito” (2007, p. 266).

2.3. Enunciação e atos de linguagem

Fontanille lembra que “a linguagem não é feita somente para descrever o mundo, mas também
para transformá-lo, para agir sobre as coisas e sobre outrem” (2007, p. 267-268). Indaga o
pesquisador, nesse sentido, como é possível diferenciar a enunciação e a ação, a enunciação e
a manipulação. A resposta que ele dá é simples: por meio da predicação, propriedade
intrínseca da enunciação. Afirma ele: “[...] o sujeito narrativo pode seduzir, influenciar,
persuadir, comandar um outro sujeito narrativo, mas ele não pode predicar a sedução, a
influência, a persuasão ou a injunção, salvo se lhe dão a palavra, e, nesse caso, trata-se, na
verdade, de uma delegação da enunciação” (2007, p. 268).

Fontanille explora então duas perspectivas complementares da questão, que equivalem a dois
níveis da predicação: a asserção e a assunção. Por meio da asserção, algo advém à presença da
instância de discurso; por meio da assunção, a instância de discurso reafirma sua posição em
relação ao que advém em seu campo.

Esses dois níveis da predicação têm, segundo o pesquisador, uma propriedade em comum: os
atos metadiscursivos. Apoiando-se em Greimas e Courtés que, no Dicionário de semiótica,
opõem a metalinguagem descritiva da enunciação à metalinguagem científica da teoria
semiótica, Fontanille explica que a enunciação é uma metalinguagem “descritiva” porque,
“predicando o enunciado, explicita sua própria atividade, codifica-a, fazendo dela um
acontecimento sensível ou observável” (2007, p. 270).

3. A Práxis enunciativa

Tratando da noção de práxis enunciativa, Fontanille afirma que o conceito foi introduzido em
semiótica no final dos anos 1980 por Greimas, retomado em Semiótica das Paixões e, em
seguida, desenvolvido por Bertrand.

Logo de início, ressalta o pesquisador que a práxis enunciativa não é a práxis semiótica lato
sensu (Fontanille, 2007, p. 271). Segundo ele, “a práxis enunciativa está particularmente
implicada no aparecimento e no desaparecimento dos enunciados e das formas semióticas no
campo do discurso, ou no acontecimento que constitui o encontro entre o enunciado e a
instância que lhe assume” (2007, p. 271). É a práxis enunciativa, portanto, que administra os
modos de presença/existência dos enunciados em discurso, e isso graças às duas predicações
metadiscursivas próprias à enunciação: a asserção e a assunção.

Fontanille esquematiza o funcionamento da práxis enunciativa, afirmando que ela age: 1) por
meio da recuperação de formas esquematizadas pelo uso (ora as reproduzindo tais como são
ora as desvirtuando e lhes fornecendo novas significações); 2) por meio da apresentação de
novas formas e estruturas (ora as assumindo como irredutivelmente singulares ora as
propondo para um uso mais amplamente difundido).

O pesquisador afirma que a noção comporta algumas implicações:


(1) Ela não é a origem primeira do discurso: ela supõe, na verdade, as práxis anteriores
assumidas por uma coletividade e estocadas na memória;
(2) Ela supõe a superação de uma concepção estritamente individual e pessoal da
enunciação: a enunciação individual e a enunciação coletiva devem ser consideradas
como partes de um mesmo conjunto em devir;
(3) Ela apresenta uma perspectiva interativa: ela ultrapassa a oposição entre sincronia e
diacronia, mantendo o elo entre um determinado estado sincrônico e todos os estados
sincrônicos anteriores e posteriores.

Afirma ainda o pesquisador que a reflexão deveria desenvolver-se em duas direções:


(1) O exame das operações que produzem tipos, que os reativam e os recusam, que
produzem formas inovadoras e que as esquematizam (dialética de criação e
sedimentação, dimensão retórica dos discursos);
(2) A definição de um campo de exercício da práxis, onde seria possível distinguir várias
fases aspectuais: a “emergente”, que define um campo de presença onde são
articuladas as valências (intensivas e extensivas); a “processual”, isto é, aquela do
“discurso em ato”, que define um campo esquemático onde tomam forma os valores; a
“concluída”, isto é, a fase do discurso enunciado e acabado, que define um campo
diferencial, espaço categorizado e discretizado onde se depreende uma rede de
diferenças.

Fontanille faz, por fim, um alerta:

Assim como o discurso não pode ser considerado a soma de todos os


enunciados que contém, a práxis não pode ser definida como a soma
de todos os discursos que a manifestam. Na verdade, o domínio da
práxis é também o domínio da memória cultural e dos esquemas
semióticos, e também o domínio dos discursos singulares. (2007, p.
275).

4. As Operações da Práxis

4.1. As tensões existenciais

Grandezas de estatuto diferente podem coabitar em um mesmo discurso desde que derivem de
modos de existência igualmente diferentes (virtualizado, atualizado, realizado,
potencializado). Explica Fontanille, a esse respeito, que

[...] o ato produtor do discurso de significação apresenta-se, a


princípio, como uma tensão entre o virtual (o que está fora do campo
do discurso) e o realizado (o centro do campo do discurso), passando
pela mediação do modo atualizado (a passagem da fronteira). Além
disso, uma outra tensão vem à tona, aquela que leva do modo
realizado ao modo potencializado (a passagem da fronteira no sentido
contrário) (2007, p. 276).

O pesquisador faz um alerta: nunca podemos voltar ao modo virtual propriamente dito, apenas
chegar ao modo virtualizado. Diz ele:

O modo virtualizado [...] é aquele das grandezas que servem de


segundo plano ao funcionamento das figuras do discurso: o ato
semiótico consiste, então, em realizar uma figura, em remeter uma
outra figura ao estado virtualizado e em colocá-las em interação de
modo que, no momento da interpretação, o enunciatário seja
conduzido a ir e vir de uma figura à outra (2007, p. 276).

4.2. O devir existencial dos objetos semióticos

O primeiro percurso é chamado de ascendente; o segundo, descendente. Aquele é analisável


em dois atos diferentes: o de emergência de uma forma (fase virtual => atualizado) e o de
aparecimento de uma forma (fase atualizado => realizado). Este também compreende dois
atos ou fases: o de declínio de uma forma (fase realizado => potencializado) e o de
desaparecimento de uma forma (fase potencializado => virtualizado).

Considerando que a práxis compreende ao menos um ato de orientação ascendente e um ato


de orientação descendente, Fontanille concebe quatro estratégias diferentes as quais ele
organiza em uma tipologia do fazer semiótico, que inclui a distorção, a flutuação, o
remanejamento e a revolução semióticas (p. 279):

Ascendência Emergência Aparecimento


Decadência
Declínio Distorção Flutuação
Desaparecimento Remanejamento Revolução

4.3. O devir existencial da instância de discurso


Nesse tópico, Fontanille explora a presença da instância de discurso em relação aos
enunciados, mensurando-a de duas formas: a partir da intensidade da assunção e também da
extensão do reconhecimento. Do mesmo modo, o pesquisador chega a uma tipologia das
operações da práxis por meio do cruzamento das duas dimensões (intensidade da assunção e
extensão do reconhecimento). São elas a amplificação, a somação, o desdobramento e a
atenuação (p. 282):

Assunção forte Assunção fraca


Reconhecimento extenso Amplificação Desdobramento
Reconhecimento restrito Somação Atenuação

5. A semiosfera

A noção de semiosfera provém de I. Lotman e, nas palavras de Fontanille, consiste, antes de


tudo, no “domínio que permite a uma cultura definir-se e situar-se para poder dialogar com
outras culturas” (2007, p. 283). A semiosfera é também, ainda segundo Fontanille, “um campo
cujo funcionamento dialógico tem por principal tarefa regular e resolver as heterogeneidades
semioculturais” (2007, p. 283).

Por meio da teoria da semiosfera, Lotman investiga “os mecanismos pelos quais as diferentes
culturas assumem e transformam as contribuições exteriores” (2007, p. 283). São observadas,
nesse sentido, quatro etapas no processo de “tradução” e difusão que Lotman propõe (p. 285):

a) A contribuição exterior é explosiva e singular (tônica), embora seu desdobramento e


difusão, no âmbito da cultura hospedeira, sejam átonos = Explosão do estranho;
b) A contribuição exterior perde seu caráter surpreendente (atoniza-se) e apresenta um
desdobramento e difusão tônicos = Difusão do familiar;
c) A contribuição exterior não é mais percebida como estrangeira: assimilada à cultura
hospedeira, em nada lembra o universo de origem = Exclusão do específico;
d) A contribuição exterior tornou-se irreconhecível como tal, a ponto de poder ser
proposta como modelo de toda a cultura = Desdobramento do universal.