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SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO.................................................................................................. 3

2. A CORRUPÇÃO ENTORNO DAS MINAS....................................................... 4


3. A ADMINISTRAÇÃO NAS MINAS................................................................... 5
4. TRIBUTAÇÃO EM MINAS................................................................................ 7
5. CONCLUSÃO.................................................................................................... 9
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1. INTRODUÇÃO

O Brasil sofre com a corrupção desde antes de ganhar este nome. Junto com as
caravelas, chegou e se desenvolveu também a prática que ajuda a manter o status da
elite e as amarras do povo, sempre à mercê dos mais diversos esquemas, em uma
herança corruptora passada de geração a geração. Talvez o país nunca tenha a real
dimensão dos crimes praticados, que garantiriam manchetes muito mais arrepiantes do
que as que costumam escandalizar a sociedade brasileira.

Apesar de não ser de exclusividade do Brasil, a corrupção teve um desenrolar


específico nestas terras. Como a Corte precisava convencer pessoas a trabalhar em um
desconhecido Brasil, oferecia privilégios em funções desempenhadas sem vigilância e
definição de papeis, para garantir a ocupação das terras e criação de instituições.
Práticas de corrupção passaram a permear diversos níveis do funcionalismo público,
passando do governador, escrivães e oficiais de justiça para chegar até os cargos mais
baixos da Câmara, funcionários que tinham a prática de favorecer ou prejudicar
comerciantes, sob pagamento de propina, por exemplo, indicam documentos históricos.
Além disso, o tráfico de escravos africanos também era visto sem maiores problemas
apesar de denúncias de autoridades internacionais.

A corrupção se tornava frequente até nos locais em que a Coroa prestava maior
atenção, como no litoral do país, mas em locais menos notados, como Minas Gerais e
Goiás, devido à distância e dificuldades de transporte, as coisas aconteciam de forma
ainda pior. A Coroa, inclusive, estimulava que os nobres fizessem o que quisessem para
mandar e garantir a posse de territórios.
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2. A CORRUPÇÃO ENTORNO DAS MINAS

A descoberta de ouro no Brasil transformou profundamente a estrutura


administrativa e judiciária da colônia. Na tentativa de assegurar o recolhimento de
tributos, a Coroa Portuguesa buscou, ao longo do século XVIII, intensificar o controle
sobre a região mineira. No entanto, se a organização do aparato estatal prevista pelas
Ordenações Filipinas já se apresentava demasiadamente desordenada em Portugal, a
proliferação de cargos e superposição de competências tornou-se caótica na área das
minas. Cada Capitania e funcionário público, aproveitando-se da precária organização
estatal, empenharam-se em maximizar seus ganhos com a mineração, fosse através de
tributos, fosse mediante propinas ou descaminhos. Estas práticas foram fundamentais
para consolidar a “cultura da corrupção” na burocracia colonial.

Portugal tinha, nesse quadro, uma posição parasitária. A Coroa procurava extrair
o máximo de benefício através da cobrança de impostos, adotando medidas para evitar
â sonegação e o contrabando. E não perdia nenhuma oportunidade para carrear o ouro
para os seus cofres. Ela cobrava impostos nas alfândegas portuguesas e brasileiras,
impunha taxas para â passagem de rios, estabelecia impostos para lojas e vendas e
também sobre a comercialização de escravos, sem contar os impostos que incidiam
diretamente sobre a mineração, como o quinto.

Porém, Portugal tinha um ponto fraco: a sua indústria manufatureira era muito
pouco desenvolvida, de modo que a maioria das mercadorias vendidas às minas era
importada da Inglaterra.

Os ingleses possuíam, só em Lisboa, cerca de noventa casas comerciais. Assim,


lucravam indiretamente com o comércio entre Portugal e o Brasil e, também,
diretamente através do contrabando. E esse contrabando era feito abertamente e,
muitas vezes, com a cumplicidade das autoridades coloniais portuguesas.

Os holandeses e franceses, que não tinham esse mesmo acesso, conseguiam


introduzir suas mercadorias através do contrabando realizado com navios brasileiros na
África, que, além de escravos, traziam seus produtos para serem vendidos nas minas.
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3. A ADMINISTRAÇÃO NAS MINAS

Diferentemente das outras atividades econômicas da colônia, a mineração foi


submetida á rigorosa disciplina e controle por parte da metrópole. Aqui, as restrições
atingiram o seu ponto culminante.

Desde o século XVII a mineração já se encontrava regulamentada. Os Códigos


Mineiros de 1603, embora admitissem a livre exploração das minas, impunham uma
fiscalização rigorosa na cobrança do quinto (quinta parte do ouro extraído).

Com as descobertas do final do século XVII, a metrópole elaborou um novo


código, que substituiu os anteriores e perdurou até o final do período colonial: o
Regimento dos Superintendentes, Guardas-mores e Oficiais Deputados para as Minas
de Ouro, que data de 1720.

Para a aplicação efetiva das medidas contidas no regimento, foi criada a


Intendência das Minas para cada capitania em que o ouro havia sido descoberto. A
principal característica desse órgão era a sua completa independência em relação a
outras autoridades coloniais. A intendência reportava-se diretamente ao Conselho
Ultramarino.

O mais alto cargo da intendência pertencia ao superintendente ou intendente, que


aplicava a legislação e zelava pelos interesses da Coroa. Outro funcionário importante
era o guarda-mor, a quem competia à repartição das datas (lotes de jazidas auríferas) e
a fiscalização e observância do regimento em locais distantes; em certas circunstâncias
cabia ao guarda mor nomear, para substituí-lo, os guardas-menores.

A fim de evitar as sonegações, outro ele mento veio a se agregar à administração:


a Casa de Fundição. Na verdade, ela existia desde 1603 e, de acordo com o Código
Mineiro da mesma data, deveria ter uma função importante na arrecadação do quinto.
Todo o ouro extraído deveria ser levado a essa casa e fundido em forma de barra, da
qual se deduzia, automaticamente, o quinto da Coroa. Nas barras assim fundidas ficava
impresso o selo real e só assim o ouro podia circular.

Todas as descobertas deveriam ser comunicadas à intendência. Em seguida, os


guardas-mores delimitavam a zona aurífera em diferentes datas. Em dia, hora e local
previa mente anunciados, fazia-se a distribuição das datas: a primeira cabia ao
descobridor, a segunda à Coroa, que a revendia posterior mente em leilão, e, a partir da
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terceira, procedia-se por sorteio, embora a dimensão das datas fosse proporcional ao
número de escravos do pretendente.

A exploração das datas deveria iniciar-se num prazo de quarenta dias. Caso
contrário, o proprietário era obrigado a devolver o seu lote. Em caso de perda dos
escravos, a data poderia ser vendida.
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4. TRIBUTAÇÃO EM MINAS

O objetivo da Coroa era garantir, por todos os meios, a sua renda. Desde o
século XVII, existia uma legislação mineradora que estipulava o pagamento de 20%°
(1/5) do ouro descoberto e explorado. Com a descoberta do ouro em Minas, o primeiro
problema foi o de saber de que modo esse imposto, o quinto, deveria ser cobrado:

Utilizaram-se, basicamente, três formas: a capitação, o sistema de fintas e as


Casas de Fundição.

A primeira a ser aplicada foi a capitação, que era, na prática, um imposto que
incidia sobre o número de escravas de cada minerador, esperando-se, com isso, que a
arrecadação correspondesse ao “quinto”. Mas essa medida gerou revoltas, pois os
mineradores ficavam sujeitos ao pagamento mesmo que seus escravos não
encontrassem ouro algum.

Tentou-se, por isso, adotar o sistema de fintas, que consistia no pagamento,


pela população mineradora, de 30 arrobas anuais fixas, que, teoricamente,
corresponderiam ao quinto. Mas quem não concordou dessa vez foi o rei, que obrigou à
volta ao regime de capitação. Devido a novas revoltas, ele recuou e aceitou o sistema
de fintas, cujo pagamento foi garantido pelas Câmaras Municipais locais. Esse sistema
foi adotado em 1718.

O rei continuava insatisfeito. Secretamente fez os seus funcionários trabalharem


para a instalação das Casas de Fundição nas Minas. Segundo esse novo regime, os
mineradores seriam obrigados a enviar o ouro em pó para ser fundido e transformado
em barras com o selo real nas Casas de Fundição, onde o ouro seria automaticamente
quietado.

Em 1719, o governador de Minas, o conde de Assumar, anunciou a instalação,


para o ano seguinte, das Casas de Fundição. A notícia deu origem a boatos, e os
mineradores se revoltaram em vários lugares. O governo de Minas, entretanto, contava
com uma tropa recém criada, os dragões, que foi imediatamente utilizada para sufocar
as rebeliões. Em junho de 1720 eclodiu em Vila Rica um sério levante organizado por
grandes mineradores, ao qual aderiram também os setores populares encabeçados por
F’ Filipe dos Santos. No processo, o movimento se radicalizou e acabou sendo
controlado por este último. Provavelmente por sua sugestão, os revoltosos chegaram a
pensar em assassinar o governador e declarar a independência da capitania.
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Dezesseis dias depois da eclosão da revolta, Assumar ocupou Vila Rica com
1500 soldados e pôs fim ao movimento. Filipe dos Santos foi sumariamente condenado
e executado e o seu corpo esquartejado.

Cinco anos depois dessa revolta, finalmente entraram em funcionamento as


Casas de Fundição (1725).

A Coroa e as autoridades coloniais achavam que o único modo de evitar o


contrabando e a sonegação era retirar o máximo das minas. As sim, o desvio do
ouro, se continuasse, seria menor. Por isso, dez anos depois, o rei ordenou o retorno ao
sistema da capitação. Em 1751 a capitação foi novamente abolida para se adotar um
sistema conjugado: Casas de Fundição e cobrança de cotas anuais fixadas em 100
arrobas (1500 kg). Além disso, ficou estabelecido que, se as cotas não fossem pagas,
toda a população ficaria sujeita à derrama (cobrança forçada para completar as 100
arrobas). Esse recurso extremo e odiado pelos mineiros foi um dos fatores que levaram
à Inconfidência Mineira em 1789.
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5. CONCLUSÃO

A precária e incipiente administração das minas na colônia, erguida sobre um


corpo desordenado de normas jurídicas, transfigurou-se em um verdadeiro caos.
Conflitos de jurisdição entre governadores de Capitanias e conflitos de competência
entre as diversas autoridades locais serviram para estimular a prática de atos abusivos.
A indistinção das funções judiciais e administrativas atribuídas aos funcionários públicos
contribuiu, ainda, para encobrir os ganhos ilícitos auferidos na economia mineira do
século XVIII. Todos partilhavam a mesma “sede pelo ouro” e buscavam obter sua parte,
fosse através de tributos, fosse através de descaminhos ou propinas. Apesar da
previsão de controles e sanções, a própria organização da estrutura judiciária, baseada
em “eleições” e nomeações, atuava em desfavor da idoneidade. As inúmeras
oportunidades de negócios paralelos que a ascensão a um cargo público proporcionava
contribuíram para generalizar a corrupção, constituída sob uma espécie de cumplicidade
institucional que blindava seus componentes contra eventuais punições. Se a
malversação dos cargos públicos em prol de vantagens pessoais era comum nos primeiros
anos da colônia, durante o período mineiro a corrupção tornou-se prática corriqueira,
produzindo uma mistura entre o público e o privado que, de forma infausta, atravessou os
séculos.