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HJSTóRIA DA ARQUITETURA MODERNA

(
1

EQUIPEDE REALIZAÇÃO
TRADUÇÃO
anam. goldbe[8er
REVISÃO
alice kyokomiyashiro
josé bonifáciocaldas
PRODUÇÃO
ricanlo w. neves
heda. maria lopes
.ARTEE DIAGRAMAÇÃO
plinio martinsfilho
wa!LCI'grieco
CAPA
walter griecoej. guinsbwg
história
da. a:IRuitetura
moderna
leonardo benevolo
li

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~ ~ EDITORA PERSPECTIVA

''lfl\ef
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Título do originalitaliano
StoriadeltArchllemua Moderna

© OIUS. LATERZA & FIGU

3' ediç.io- l" reimpressão

reservadosem lÍllgllll. portuguesaà


Direitos
EDITORAPERSPECTIVAS.A.
Av.Brig. Luís Antônio,3025
01401.000- São Paulo- SP- Bnlsil
ll:lefax: (0....1.l) 3885.8388
www.editorapi:rspeeâva.com.br
2001
,,
'I

1
SUMARIO 1
1

Preliminar ••• , ••• , •• , , •• , • , ••.j ,..... ,. 11 1. As reformas pollticas e fl3 primeiras

lura ...................... r......


.
Introdução: A Revolução Industrial ej a arquite~
19
leis urbanistica.s •.•.• , •. , .• ~. • • •
2, O movimento neogótico , , •• , , , • ,
3 . Haussmann e o plano de Paris . . . . . . .
69
82
91
l. Os motivos da reordenação de Paris. 91
PRIMEIRA PARTE: NASCJMEN10 E DE- 2. Os trabalhos de Haussmann . . . . . . 98
SENVOLVIMENTO DA CIDADE IN- 3. O debate sobre a obra de Hausmzahn. 102
DUSTRIAL . , .... , .. , , . , . · 1·,.,,,,, 35 4 . A influ2ncia de Houssmann . • • • • • 114
S. Ecletismo e racionalismo na época
1, As mudanças na técnica das construções de Haussmann • . . • . . • • • . • • . . . • • . . • • 122
1
durante a Revolução Industriali 1.. ,,,,. · 35
4.. Engenharia e arqu!tetura na segunda me-
1. Os progressos çientíficos e;o ensino. 36 tade do século XIX .... , ... , , . • . . . . . 129
2, O aperfel~a,nento dos sistemas de 1 • As Exposições Universais . . . . . . . . 129
construção tradidonais • li....... . 39 • 2 . A crise do ecletismo . . . . . . . . . . . . 148
3. Os novos materiais .••. [!•••••••• 43
SEGUNDA PARTE: O DEBATE SOBRE A
4. Os progressos técnicos da 1honstruçiio CIDADE INDUSTRIAL
comum ....•..... , .. [1• , • , , ••• 56 5. A cidade industrial e seus critlcôs . . . . . . 155
S. Engenharia e neoclassicis~o . , •••• 62 6. As iniciativas para a rCforma da cidade
1
2. A era de reorganização e as &rigens da industrial, de Robert Owen a . William
urbanística
' moderna •••.••. 11 ....... . 69 Morris •• , • , • . • • • • • . . • • • . • . . . . . • • 173
1
7

il
1. Os utopistas . . • • • • . • . . . • . . . • • . . 173 QUINTA PARTE: O MOVIMENTO MO-
2. O nwvimento pela reforma das Arles DERNO
aplicadas •• , •. , , •• , • , • • • . . • • • • 182
12. As condições de partida .......... , • • 371
TERCEIRA PARTE: A CIDADE INDUS- 1
A "Deutscl!er Werkbund" e a nova
TRIAL NOS EUA arquitetura alemã . . • • . • • • • . . . • • 374
2. Os movimentos pela reforma das m--
1. A tradição norte,,amerlcana , •••••• , ••• 209 tes figurativas ...• , • . • . . • • • • • • • 380
1. A arquitetura colonial ••••••.•••• 209 3. A Primeira Guerra Mundial e o am-
2. Thomas Jefferson e o classicismo nor- biente do pós-guerra • . • • • • • . . . • • 390
te..aniericano , •.•••.••.•••.••• , 212 13. A formação do movimento moderno
3. O plano de Nova York de 1811 •• 218 {1918-192./) • • . • . ... • • . • . • • . . • 403
8. A escola de Chicago e a vanguarda nor- 1. A Buulwus .. . . . • • . • . . . • .. • • . • . 401
te-americana .•.•••..• , •• , ••••••••• 233 2. O exórdio de Le Corbusier . . • . . • 426
1. A e.fCOlade Chicago ........... . 234 3. A herança da vanguarda alemã • • . . 436
2 . Louis Sullivan ................ . 248 4. A herança holandesa: J. /, P. Oud
3. O começo de Frank Lwyd Wright. 254 e W. M. Dudok . . . . . . • • •. . . • • • 440
14. Os primeiros relacionamentos com o púu
QUARTA PARTE: OS MOVIMENTOS DE blico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 453
VANGUARDA EUROPEUS DE 1890 1. Os concursos , , .••.•• , . • . • • • . . • 454
A 1914 2. As Exposições • • • .. • .. .. • • .. • .. 456
3. As publicações • • . . . • • . . . .. • . . . 462
Introdução 4. A fwulação dos CIAM • . . . • • • • . • 474
1. As novas teorias sobre a arte .•• , • 267 !5. A abordagem dos problemas urbanísticos. 483
2. A insatisfaçãogeral com o ecletismo 269 1. Legislação e experiências urbanísticas
3• O exemplo dos pintores •..•• , ••. 270 no pós-guerra ••.••..••... , , • • •• 483
4. As condições sociais e o empenho 2. As primeiras aplicações dos novos
pessoal .. , ................. .. 271 padrões no pós-gUerra alemão . • • • 488
9. A tUt nouveau .....•....•••..•. , •.. 273 3. A urbanística de Gropius •••• , . • • 490
l . Victor Horta .••.• , •• , •••••••• , 273 4. A urbanística de Le Corbusier , . • • 500
2. Hemy Van de Velde .......... .. 278 5, A urbanística dos CIAM . , •• , . • • 508
3. Charles Rennie Mockintosh •••• , , 286 16. O compromisso político e o conflito com
4. Otto Wagner· •• , .•••••••••.• , •• 290 os regimes autoritários . . . . . . . . . . . . • . 515
5. Joseph Maria Olbrich , , • , ..••••• 294 1. A União Soviética . . • . . • . • • • . . .. 516
6, Joseph Hoffmann •..•.•.•.••••• 296 2. A Alemanha e a Áustria .••• , • • • 528
7. Adolf Loos , •.••.•...••.••••.•• 298 3. A. ltdlia ..•...•••..••• , • . . • • •• 540
8. Hendrik Petrus Berlage ••.•••..•• 304 4. A França .. • . .. .. • • .. .. • • • .. .. 556
9. A difusão da art nouveau , ••••••. 314 17. Os progressos da arqui.tetcra na Europa
10. A contribuição da França: Auguste Per- entre 1930 e 194C • , .•••• , • • . • . . . . . . 561
tet e Tony Garnier ••••..•••.•.••.•• 325 1 . Os mestres alemiies na lnglate"a e
1. A herança técnica e cultzual francesa. 325 o renascimentoda arquiJetura inglesa. 561
2. Auguste Perret .•••••••• , •••.••• 326 2. Os resultados das pesquisas margirtais
3. Tony Garnier •••••••••• , ••.•••• 330 na França e 1Ul ltdlia ...•.•••• , .. 564
11. As experiências urbanísticas de 1890 a 3. Os Países JJaixos .. • .. .. .. . .. . .. 568
1914 ....•. , , •.•.••.........•..•.•• 345 4._ Os países escandinavos • • . • • • . • . • 572
J_, O progresso das leis e das experiên- 5. A Sutça . • . . . • . . • . • . • • . . . . . . . • 580
cias urbanísticas •..•••.•••••.•• 345 18. A arquitetura moderna nos EUA ... , . . 597
2. Os ensinamentos de Camilio Sitte. 352 1. The roaring years ( Os anos ruido-
3. O movimento das cidades-jardim •• 356 sos) . .•••.•.•••. .•.•••.•.••• 600
4, A cidade linear de Arttuo Soria .•• 362 2. A obra de Richard Neutra • • . . . . • 604
5. A atividade urbanística de Berlage . 364 3. O exemplo de Wright . • • • . • • . • • . 610

8
4. O New Deal e a contribuição dos 20. O novo campo internacional . ......... 711
ex-mestres da. Bauhaus .• !i...... , 612 1. o Brasil ..................... 711
5. A obra de Mtes van der Rohe .... 622 2. Le Corbusier na bulia .......... 720
6, Os desenvolvimentos da df,quitetura 3. Japão ........................ 724
norte-americana depois do New Deal. 632 Conclusão ............................. 741
.
19. O segundo poswguerra na Euro~ " ..... , 647 1. A invenção tipol6gica ........... 750
1. A reconstruçao w mg
• tesa ....•li , •• , , 647 2. O controle da produção industrial .. 762
2. Continuidade e progresso Ira cons- 3. o oontrale das transfornuJfões ur-
3.
truçilo civil escandinava • l .. , .. , ,
A reconstrução na URSS [I•• , , , • ,
654
658
banas ........................ 772
4. A reconstrução na Itália, 'França e .
Bibliografia ........................... 791
Alemanha ............ ! ....... 664 todice onomástico ....................... 799
5. Reconstrução e planificaçilq na Ho~
landa •••.••••.....••• 1 ••••••• 696 Fontes das ilustrações ................... 813

,,
.. 9

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Preliminar

t!
UMA história da arquitetura moderna tem o dever
de apresentar os acontecimentos Contemporâneos cedi
té aqui, portanto, aplica-se comodamente o ~
ento usual da hist6ria da arte, que coloca e
de]ltro da moludura de seus antecedé'ntes próximos; eiro plano o estudo dos valores fonnais, uma v
deve, portanto, remontar ao passado llaquilo que for stes, interpretados de modo adequado, reco
necessário para completar o conhecime~tp do presente pil todas as circunstâncias e os relacionament9s
e para colocar os fatos contemporâneo~ em uma pers- ext s, e revelatr., com suas variações, a vari~ão
pectiva satisfatória. li de caêlQ,,_"\.um
dos outros fatores. /
As primeiras dificuldades que se apre.sectam re- DepÕ~d~ metade do século XVUI, m que
forem-se ao campo da pesquisa: até on\le é necessário continuidade~ experiências forma· Jª de o
remontar na cadeia dos acontecimentoS' passados? E, algum interrompid..!b_ pe1 . ano, enquanto lin-
como o conceito de arquitetum não Jtá estabelecido guagem arquitetônicã-p~ adquirir especial
-em termos definitivos, mas varia, ~hibém ele, no densidade, as relações entre arqui. e ra e sociedade
tempo, a quais fatos deve-se estender a Pesquisa? Am· começam a se transformar radicalmente. Pode-se se-
bos estes problemas referem-se à colocáção da obra, e guir o antigo fio condutor, e continuar a fazer a hist6ria
. convém prestar c9ntas, logo, ao leitorJj do modo pelo da arquitetl!ra de fins do século XVIII e do século,
qual se tentou resolvê-los. li XIX sobre o modelo da história precedente -- como
!. - Até a segunda metade do século XVIII, é se faz nos manuais gerais ~ - utilizando as mutações
fácil compreender os fatos da arquit~tura dentro de do repertório format para distinguir artistas, escolas,
um quadro unitário; as formas, os m~lodos de p!Qje· períodos; pode-se, dessa forma, depois <!o barroco,
tar, o comportamento dos projetistas,ildos que enco- falar do neoclassicismo, do ecletismo, e assim por
meedam as obras e dos que as executam variam de diante. Mas, em um certo ponto, percebe-se que a
.acordo com o tempo e de acordo com " o hlgar, mas atividade de que se fala cobre apenas uma.-pequena
se desenvolvem no âmbito de um ilrelacionamento parte da prodcção e dos interesses culturais contem-
substancialmente fixo e certo entre arquitetura e SO· porâneos, que seus vínculos com a sociedade afrouxa~
·ciedade; variam os quesitos particut'a!es feitos aos ram-se, e que novos problemas, surgidos ionge do
arquitetos e as respostas que estes fOmecem, mas· a sulco tradicional, vieram para o primeiro plano.
natureza do serviço q-µe o arquiteto pr~sta à sociedade ~ necessário, portanto, alargar o campo de obser-
-e os encargos que a sociedade lhe delegou não estão vação e examinar diretamente muitos fatos técnicos,.
:sujeitos a discussão por muito tempo.:f sociais, econômicos que, de 1750 em diante, $(>frem

11
rápida mutação, mesmo que inicialmente não Ítquc mano; o próprio desenvolvimento histófico indicará
evidenciada, de imediato, sua conexão com a arquite- qual a extensão a ser dada, hoje, a esta ilustre e tra-
tura. Em vários campos, dentro e fora dos limites dicional noção, "arquitetura", que se transforma a todo
tradicionais, vêem-se emergir novas exigências mate- momento sob nossos olhos.
riais e espirituais, novas iqéias, novos instrumentos de Segundo o rigor da lógica.isso pode parecer um
participação que, em um ponto determinado, conf!uem círculo, porque a coisa a ser procurada não é definida
em uma nova síntese arquitetônica, profundamente di- de antemão e adquire significado no decursoda pes-
versa ela antiga. · Assim é possível explicar o nasci- quisa; mas nosso método não pode ser rigidamente de-
mento da arquitetura moderna que, de outra forma. monstrativo, porque não possuímos o suficiente desta-
seria totalmente incompreensível; com efeito, se nos que que tem o assunto tratado, e imaginam.os que,
limitássemos a uma história das formas, dever-se-ia nossos Jeitores tampouco são impassíveis e desin-
postular uma nítida solução de continuidade, um rom- teressados, mas empenhados - como arquitetos, como
pimento em relação à tradição, que pode ser formulado empresários, como com.itentes ou como usuários -
em termos de polêmica, mas que não é historicamente na renovação do ambiente cm que vivem.
admissíve1. Uma história da arquitetura moderna tem neces-
O movim(?Dtomoderno está profundamente en- sariamente por essência o presente, o a referência
raizado na tradição cultural européia, e está !igado ao fundamental para todo nosso discu..-goé a arquitetura
passado por meio de uma sucessão gradual de experi- de huje, que nos vincula, desde o momento de partida,
ência. Existe, entretanto, uma diferença de extensão com uma escolha eficaz, antes de tomar-se objeto de
entre o campo do qual emerge o movimento moderno indagação histórica. Esta vinculação limita a certe7.a
- que é mi:iitoamplo especialment, no início, e com.. dos juízos, mas cremos que não possa ser eliminada
preende várias pesquisas que amadurecem em setores por meio de um simples esforço de absmção; .é me-
diversos da civilização industrial - e o campo em lhor aceitá-lo explicitamente e levá-lo em cónsideração
que se fecha, progressivamente, a herança dos movi- moderando a segurança das avaliações críticas.
mentos arquitetônicos passados. Enquanto nos dois
campos os ·acontecimentos evolvem com continuidade, J[. - Usamos o termo "movimento moderno"
o deslocamento da cultura aiquitetôniéa de um para que, na linguagem contemporânea, assumiu um sigui--
outro campo não pôde, necessariamente, ser contínuo, ficado bastante preciso.
mas foi alcançado com repetidos rompimentos e ao Também aqui; desejando-se adotar uma defini-
preço de fortes contrastes; por isso o movimento mo- ção, a mais apropriada parece--nos ser esta, de Monis:
derno é, sob um outro aspecto, uma experiência revo- "A arte para a qual trabalhamos é um bem do qual
lucionária que interrompe e transforma a herança todos podem participar, e que serve para melhorar a
cultural passada. todos; na realidade, se todos .não participarem de1a,
Portanto, de início atribuiremos à palavra "arquiu ninguém poderá dela participar", Aqui se encontra,
2

tetura" o significado mais amplo possível. Para quem provavelmente, o relacionamento profundo entre a ar-
quiser um.a definição de acordo com ãs regras, indica- quitetura moderna q a civilização industrial; assim
mos esta, escrita por William Morris em 1881: como a indústria tomou possível ·produzir os objetos
de uso e os serviços em tais quantidades que permitam..
A arquitewra abrange o exame de ·todo o ambiente físico como objetivo realizável, que todos os homens par-
que circunda a vida humana; não podemos subtrair-nos a ela.
até que façamos parte da sociedade urbana, porque a arqultt,..
ticipem das mespias o'portunidades materiais, do mes-
wra é o conjunto das modificações e das alterações introdu- mo modo a arquitetura moderna tem o eucrugo de
zi.das sobre a superfície terrestre, em vista d!IS necessidadc:1 transmitir em iguãl medida a todos os homens certas
humanall, excetuado somente o puro deserto. 1 oportunidades culturais antes hierarquicamente diferen-
ciadas segundo as várias classes sociais, e pode cha-
Não tentaremos circunscrever este conceito pda mar-se de "um programa de redistribi.úçãQ dos bens
via teórica e especificar, em abstrato, quais aspectos artísticos" 3 segundo as exigências da sociedade mo-
devem ser levados em consideração e quais não o derna.
devem, nessa obra de modificação do ambiente hu- 2. "lhe At& of tho Peoplc", coPferencia. proferida JJa
:Birmitagbam Society of Arts and Sehool of [)ajp. em 19 de
1. ''The Prospc:ds of Architc:cturc: ln CIYilization" conie- fevereiro de 1879. ln: On Ârt UIUJSocialism, pp. 47-48.
rência proferida na Lo~don lnditut.ion em 10 de março de 3. ARGAN,O. C. WQ/trr Groplas ~ la Bauhrua. Turim,
1881. ln: On Ârt tu1d Socialism, Londres, 1947, p. 245. 1951. p. 27.

12
li

.,

Ninguém pode ainda dizer quais s7jam as conse- e) Uma vez indlviduado o .fLm, resta a questão
qüências desta assunção, porq~e apemi,s se começou referente a um método adequado para atingi-lo, bas-
a trabalhar neste sentido e a definição citada é somente tante geral para poder reunir os vários esforços indi-
uma indicação provisória que diz res~1eito principal- viduais e para tornaI' transmissíveis os resultados obti-·
mente ao trabalho futuro. 1:1 dos. Este é o ponto crucial de todo o desenvolvimen-
De pouco adiantam por enquanto[ muitos outros to, e exige o máximo de esforço, porquanto se trata
<liscursos. .O terino ''movimento moderno" pode ser de lançar uma ponte entre a teoria e a prática e de
julgado apropriado ou não, e preferir-se:leventualmente se. empenhar no contato com a realidade, tendo em
uma outra locução, mas entrou em uso e é conveniente conta todos os seus aspectos. Esse passo concretiza-se
.ater-se a ele porque não somente é um t'ermohistórico através da Primeira Guerra Mundial, e a data precisa
como também um programa vivo, umdl regra de con- pode ser 1919, quando Gropius abre a escola de Wei-
duta; tentaremos precisar e retificar Seu significado mar. J;: somente neste ponto que se pode falar, em·
com uma. descrição histórica, mas collSideramos imu sentido correto, de "movimento moderno''.
_prudente circunscrevê-lo a priori coOll\ uma fórmu1a É de importância levar em consideração a con-
teórica. 1 tinuidade entre as três fases, bem como as diferenças
:S necessário, pelo contrário, defi~ir seus limites entre uma e outra. e especialmente entre a segunda e
de aplicação em relação ao passado. !:Pode-se deixar a terceira.
de lado a pergunta "o que é a arquitetÔra moderna?", No primeiro pós-guerra, acreditou-se que podia
porém é necessário tesponder a esta oÜtra: "em qce ser estabelecido desde logo wr. novo sistema de for-
momento' ela começa?" Em nossa opiiião, podem-se mas universalmente válidas, refutando-se polemica-
dar três ré"Bpostasdiferentes, segundo o IFJ.uc se entenda mente todas as vinculações com o passado. Os acon-
tecimentos demonstraram a intempestividade daquela
por "começar": 11
tentativa, e a cultura contemporânea, sob a impressão
a) A arquitetura moderna nascti das modifica- vívida desse insucesso, dedicou-se a um vasto trabalho
ções técnicas, sociais e culturais relacionadas core. a analítico de reexame e verificação de S\!as'\eses, ex-
Revolução Industrial; portanto, se se prÇ,tendefalar dos plorando as oportunidades desprezadas a princípio e
componentes singulares, que depois irão confluir em avaliando a herança do passado, a :fllll de distinguir
uma síntese unitária, pode-se dizer qu; a arql!itetura aquilo que está vivo e aquilo que está morto. Por
moderna começa logo que se delinetam 1
as conse- essa razão, estudam-se com curiosidade renovada as
qüências para a edificação e urbaniza ção da revolu- experiências colaterais e as experiências precedentes.
ção industrial, isto é, entre fins do Século XVIII e Enquanto esse reexame nêcessário é levado a efei-
princípio do século XIX e, mais precisa'mente, no pós- to, existe o perigo· da acomodação em um novo ecle-
.guerra subseqüente a Waterloo. Em Ulll primeiro mo- tismo, tomando cada experiência como sendo boa, des-
mento, estes componentes estão contidOs em diversos de que esta seja de molde a ter repercussões na fantasia~
setores da vida social e não se pode faier uma ligação A história da arquitetura pode encorajar esse perigo, ao
. tennos
-entre eles se se permanece dentro dos " da cultu- apresentar imparcialmente o passado como um desfile
ra da época; descobre-se sua l!llidadi de tendência de obras ou de tendências, todas igualmente inte.
apenas quando se considera aquilo quj'I acontece mais ressantes.
tarde. Essa imparcialidade fictícia pode ser útil provi-
b) Após terem-se delineado ~om suficiente soriameri.te, para, fazer um primeiro inventário do pas-
clareza os componentes singulares, slltge a exigência sado recente, ainda pouco notado e pouco documen-
de sua integração recíproca. Quandoâ essa exigência tado, porém, .parece que chegou o momento de
toma-se um juízo formulado explicitamente e depois aprofundar o discurso histórica e de distinguir, no
um programa de trabalho, nasce a arq,Üitetura moder- passado, as experiências fundamentais daquelas mar-
na enquanto linha coerente de pensamJnto e de ação. ginais, aquelas qce já estão encerradas e aquelas ainda
lsso ocorre pela primeira vez, com bllStante nitidez, abertas, a fim de indicar uma orientação fundamentada
na Inglaterra, graças a Morri!.. Nessi;! sentido, pode- a. quem trabalha no presente.
se dizer que a arquitetura moderna começa quando Em nossa opinião, existe uma linha fundamental
Mortis dá início a sua atividade prátic8.; para aqueles de pensamento e de ação, que começa copi Owen e
·que amam a exatidão, em 1862, ano!!em que entra os utopistas da primeira metade do sécu!o XIX, passa
:no comércio a firma Mortis, Faulkner, Marshall & Co. por Ruskin e Morris, pelas experiências de vanguarda
"
13
europ§ia enlre os anos de· 1890 e 1914, recebe a con- cando a razão pela qual certas experiências acontecem
tdbuiÇão dos constru~res americanos e de Wright, ali com. antecipaçii9 em relação à Europa (Parte li)
adquire importâpcia geral no primeiro pós-guerra gra- e, finalmente, descrever os movimentos de vanguarda
ças a Gropius e Le Corbusier, e produz um movimen- europeus entre 1890 e 1914 (Parte IV).
to unitário, capaz. de crescer muito além das premissas A segunda parte, dedicada ao movimento moder-
iniciais. no, relata um evento que teve lugar durante tempo
Pessoa alguma ó capaz de medir o peso exato da mais ou menos equivalente, ao dos outros - de 1919
passagem ocorrida em 1919 no seio da história uni- até hoje - sendo, porém, mais denso e articulado e,
versal, mas pode-se demonstrar que é a passagem fun- portanto, ocupando aqui maior espaço; tentou-se man-
damental para a situação hodierna. AI, experiências ter a narrativa o mais coesa possível e ressaltar a
situadas logicamente antes dessa passagem - as expe- unidade do movimento, abandonando o sistema de bio-
riências de Morris, Horta, Wagner, Hoffmann, Berla- grafias separadas para os vários arquitetos,
ge, Loos, Perret, Sullivan e Wright - são interessan- Para cada um dos mestres mais importantes, já
tes e importantes, visto que tomaram poss(vel a for- existem várias monografias, onde o leitor pode encon-
mação do movimento moderno; pertencént, porém, a trar dados biográficos e documentais, mas também
um outro momento histórico, resolvem problemas di- onde a perspectiva histórica quase sempre vem fal-
ferentes dos nossos. Deles, podemos receber nobres seada a fim de fazer ressaltar a continuidade dos
exemplos e úteis exortações, mas Le Corbú.sier, Gro- caracteres inclividuais.
pius, Mies van der Robe, Jacobsen, Tange, Bakema A arquitetura mode[na comporta não somente um
deram início a uma experiência na qual todos estamos novo repertório de formas, como também um novo
envolvidose da qual dependenosso modo de vida. modo de pensar, cujas conseqüências ainda não foram
A primeira parte deste livro propõc--se desCrever calculadas em sua totalidade. J;: provável que nossos
os componentes da cultura arquitetônica moderna, hábitos mentais e. nossa terminologia sejam mais anti-
procurando suas origens nos diversos campos dos quais quados do que o objeto do que se, fala,
emergiram, e .seguindo seu movimento convergente de Parece aconselhável, portanto, não fazer esforços
1760 a 1914. O relato será necessariamente frag- para que, a argument_açãose encaixo dentro dos esque-
mentário e descontínuo, e deverão ser abordados mui- mas metodológicos correntes, mas sim procurar ad~p-
tos argumentos que parecem ri.ão ter parentesco com tar a metodologia à argumentação e tentar c9lher, no
a · arquitetura, mas que contêm as raízes d~ alguns próprio movimento moderno, as indicações historio-
aspectos da arquitetura moderna. A wüdade deste rC: gráficas que ele contém em estado virtual. Os riscos
lato depende daquele que o segue; por essa razão, os dessa tentativa pare;;:em ser compensados pela proba-
acontecimentos deste período serão apresentados em bilidade de melhor penetrar no sentido dos aconte-
uma perspectiva um tanto vasariana e serão julgados em cimentos.
razão de sua contribuição à formação do movimento
moderno.
Como já ficou dito, não acreditamos jloder elimi- ~ola à quarta edição
nar essas referências; não mais pensamos, como Vasa-
ri, que chegamos hoje à maneira pedeita, à época Todos os livros de História estão ligados ao mo-
áurea, e sabemos que o êxito da tentativa que está mento em que são idealizados, porque a pesquisa
em curso não está, de fato, garantido a priori, mas histórica vai mais adiante e discute seus resultados, e
sustentamos que o caminho tomado pelo iµovimento , també~ porque os ·compromissos do presente f3?Cm
moderno é o único a ser percorrido, a única possibi.: · com que se. veja o passado sob uma. luz sempre diver-
tidade de entendimento e de continuida.de com o pa- sa, imprevisível pela indagação científica. Se, além
1rimôr.io cultural passado. . disso, o livro fala de uma experiência cm '1!rso, como
Tentou-se descrever, em primeiro lugar, os even- a arquitetura moderna, tais dificuldades são ainda
tos materiais dos quais nasce a cidade européia mo- maiores; o ponto de partida da narrativa pode haver
derna, entr~ 1760 e 1890, resj>citando-.se,tanto quan-. sido esçolhido por razões visíveis, porém .o ponto de
to possível, a contemporaneidade dos fen6menos (Parte ctÍegadâ é o momento presente, o qual interessa por-
1), depois tentciu-se traçar nesses eventos a linha de que é em seu contexto que devemo, operar, não por-
pensamento QUC: conduz :i William Morris (Parte II), que medimos sua singularidade no quadro geral dos
retomar a narrativa para a cidade americana. expli- acontecimentos. A passagem do tempo força ·a uma

14
1.
li
li

recons1"d•eraçao contmua
'dd"• as ec1soesoperativas,
li. mesmo gida a um público mais vasto, composto esl?ecialre.ente-
que não ofereça uma dislilncia suficiellte para emitir de estudantes.
um j:úzo histórico mais fur.damentado.l! Assim, a ar- É inútil descrever as etapas desta revisão; basta
quitetura moderna não pode ser circunscrita
1
como a comparar o livro de 1960 com. o de 1971, que foi
da Idade Média ou a do Renascim.enlç , e cada juízo praticamente reescrito, sendo sempre, porém, uma
emitido a seu respeito deve ser revisado de ano em adaptação de um trabalho precedente, com os méritos..
ano, uma vez que os últimos anos sãq
sempre, para e os defeitos que aquela operação comporta.
nós, os mais importantes e os mais inStrutivos. Não Quando esta História foi começada, eram passa-
há como escapar a tais embaraços, e fflais vale anali- dos dez anos .desde o final da Segunda Guerra Mun··
sá-lo abertamente, de modo que o Jeitpr conheça as dial. A parte mais importante da história da arqui-
incongruências do Hvro ao menos tão ibem quanto o tetura moderna parecia ai~da ser aquela sitcada entre
autor e o utilize de maneira razoável pllra orientar-se, as duas guerras, e a tarefa mais urgente pal'ecia ser
por sua vez, dentro das circunstância~ do momento uma avaliação correta daql!ele acontecimento - a
·àtual. li formação de um método unitário e racional, no pri-
~! e
Este Jivro foi escrito entre 1957 1959 publi-
·cado pela primeira vez em 1960. A tradução para o
meiro pós-guerra; as realizações exemplares nos anos
vinte; os obstáculos políticos e a retração nos anos
espanhol, de 1963, e para o alemão,!!de 1964, ba- trinta - que pudesse frutificar, a fim de dar início a
seiam-se na primeira edição italiana e, portanto, já um ciclo de experiência mais extenso -· a reconstru~
estavam desatualizadas por seis ou set* anos no mo- ção quase concluída e a planificação apenas come-
mento de sua publicação, como observaram alguns çada, aberta em direções muito diversas. Importava
resenhlstas. Quanto reais o tempo p~~sava, mais se recuperar a continuidade com as experiências prece-
tomava evidente essa impressão; o amp!o debate ocor- dentes e evitar, ao mesmo tempo, os erros e insucessos
rido após a publicação do livro foi útil para todos, e já provados.
também para o autor, na melhor cqmpreensãÕ do Parece que as dificuldades dos anos trinta devem-
significado da história passada; as publi,cações sobre a . se sobretudo a uma situação politica anormal, ao
história da arquitetura moderna talvez ~ajam redobra- fascismo, ao nazismo, ao stalinisl:J.o; a !lltransigência
do em número, de 1960 em diante, e fornecem agora e a prudência dos mestres da arquitetura moderna,
uma documentação adequada a alguns'.)episódios im- naqueles anos, pareciam justificáveis ainda mais en-
portantes: a utopia de princípios do lséculo XIX, a quanto defesas momentâneas contra as lisonjas ou as
art nouveau, a arquitetura soviética ~Ps anos vinte; perseguições dos regimes de então, a serem substituí-
os últimos acontecimentos - a morte dos mestres, Le das agora com wr. empirismo maior e com uma maior
Corbusier, Gropius e Mies van der R~he entre 1965 disponibilidade; com efeito, a restauração da liberdade
e 1969; a obra dos arquitetos da gel'ação seguinte, democrática no Ocidente e o degelo no Oriente pare-
Jacobsen, :Bakema, Candilis, Tange; 'Rs experiências ciam bastar: para garantir um. novo espaço para o,
originais nos países asiáticOs, sul-americanos, africa- progresso da arquitetura, espaço esse cujos limites.
nos; o empei;i.hocada vez maior das es'.C()Ibasurbanís- ainda não haviam sido medidos.
ticas nos países desenvolvidos e naqueles em vias de Especialmente na Itália, parecia que bastava re-
desenvolvimento - articulam·se diretalllente no rela· mover alguns preconceitos e a1guns interesses tradicio-
to dos fatos precedentes e modificam 'â.interpretação nais: ire.per os planos urbaeísticos, como o tle Ro-
de toda a história da arquitetura modeioa. ma, projetado entre 1954 e 1958 e recusado pela ad-
O autor nao• se re51gnou
. li o 1·1vro como ministração de centro-direita em 1959, porém lançado
a conservl!,I'
· documento de uma fase da pesquisa histórica, porém pelo governo e pela admicistração de centro-esquerda
tentou atua1izá·lo1 a fim de conservar 0 vínculo ime- em 1962; desautorizar os antigos acadêmicos que ha-
1

diato com os empreendimentos operat(Yos contempo- viam tomado posse das Universidades, e substituí-los.
râneos, coisa que era uma das ·.:,.mbições do texto pelos arquitetos modernos até então marginalizados
original; assim, o autor revisou já quatI'p vezes o texto (este foi o tema das Iútas estudantis enLre 1960 e
e as ilustrações: para a segunda ediç?o em italiano 1964). O esboço da História da Arquitetura Moder-
de 1964, para a terceira de 1966, p~ra a tradução na foi feito nesse clima; devia servir para reafirmar
inglesa feita entre 1968 e 1970 e publicada em 1971, a Jinha mestra do movimento moderno contra as di-
e para esta edição, imp~sa em um sóllvolume e diri- vagações, as revisões, a nostalgia pelas experlêc.cias

15
anteriores ou colaterais ( o ecletismo, o liberty, a:exal- ocorridos no Terceiro Mundo. As dificuldades sur-
tação de Wright) e contribuir para um desenvolvimen- gidas depois de 1933, compreendidos os desencontros
to das aplicações concretas, q}le pareciam. estar ao com os regimes autoritários, eram interpretadas com9
alcance da mão. · incidentes da difusão, e reconduzidas à nova ~trutur11
A primeira parte, ou seja, o relato dos primeiros da pesquisa e às relações desta com a estrutura tracfi.-
cinqüenta anos, desde o início da Revolução Indus- cional da sociedade. De 1960 em d!ante, um grande
trial até a guerra de 1914, tinha sobretudo a finalidade número de estudos históricos fez com que se conh~
cessem melhor os fatos sucessivos ao movimento, re-
de explicar as escolhas feitas em 1919, em uma pers-
velou a importância dos arquitetos da segunda gera-
pectiva vasariana, como já ficou dito no principio,
ção (além de Aalto, também Jacobsen> Briokmao e
perspectiva essa, entretanto, demasiadamente parcial e
Van der Vlugt, Bakema e Van der Broek, os Smitbson,.
seletiva. Com efeito, ela subestimava as descontinui- Stirling, Candilis, Tange etc.). Principalmente as ex-·
dades políticas, econômicas e culturais intermediárias: periências, contudo, fízeram ver que os conflitos su~s-
partia da primeira revolução industrial de 1760-1830, tanciais estão tudo, menos superados; deram a medida
porélll passava por cima das transformações sucessivas da energia dos velhos mestres que souberam permane-
igualmente importantes ( estava errado em considerar cer na primeira linha (Le Corbusier ~ Mies van der
uma só revolução industrial, como observou Reyner Robe) ; demonstraram que os novos mestres. por
Banham, na resenha publicada em Architectural Re- exemplo Bakema, Candilis e as equipes inglesas, tra-
view; de fato, Banham sublinhou, com acuidade, a balham na mesma linha, com igual capacidade inven-
importância da sucessiva revolução técnica e econê,.. tiva e com um risco talvez maior, face à vastidão e à
mica situada parte no século XIX e parte no século delicadeza das tarefas empreendidas. ·
XX, em seu livro de 1960, Theory and Design in lhe
First Machine Age*); analisava corretamente a "era da Tudo isso força a uma consideração algo diversa
reorganízação" entre 1830 e 1848, porém descuidava da história da arquitetura moderna: procura-se na his-
a reviravolta política decisiva após 1848, a qual deter- tória remota, não somente as origens das dificuldades
mina, em larga medida, as praxes urbanísticas ainda iniciai~ mas também e acima de tudo as dificuldades
vigente's nas cidades atuais, e contestada apenas nos permanentes, não resolvidas hoje depois de cinqüenta
últimos cinqüenta anos do movimento moderno (a fim anos de estudos e de experiências; reconhece-se, na
de corrigir esse relato, o autor escreveu um novo livro história recente, não somente a unidade, como tam-
em 1963, Le origini dell'urbanistica moderna, tenta- bém a articulação objetiva da pesquisa em curso, na
tiva de uma melhor interpretação do relacionamento esca1a mundia1 que lhe compete. ·
entre política e arquitetura na sociedade burguesa pós- A primeira pàrte foi modüicada para ser levada
Jiberal). em conta a tese apresentada em Origini dell'urbanistica
moderna; ao invés de efetuar uma fusão entre os dois
A segunda parte relatava o desenvolvimento do relatos ( coisa que teria levada à elaboração de wn
movimento moderno e, sobretudo, a primeira fase, en·
novo livro, com outra base documentária: uma histó-
tre 1919 e 1933, que era analisada problema por pro-
blema nos Caps. XII a XV: as condições iniciais, ria da cidade moderna. eCJ. vez de história da arquite-
as. experiências fundamentais, os relacionamentos com tura moderna), preferimos acentuar a estrutura do:
o público, o acercamento aos problemas urbanís?cosj relato original, isto é, a dupla exposição da história'
o campo das experiências fundamentais era alargado oficial da cidade européia do século XIX (Caps. 1 a 4}
e da história oficiosa, que resulta do debate ideoló~co
o mais possivel, incluindo-se, ao 1ado de Gropius, l..e
(Caps. 5 e 6), de modo a isolar e fazer sobressair.ª
Corbusier e Mies van der Rohe, também Mendelsohn,
linha ideal de oposição na cidade burguesa; desta li-
Oud e Dudok. Logo após, o relato mudava de tom
nha, procede o movimento moderno, q~e se empenha
e transformava-se em uma descrição das aplicações,
divididas por temas e por lugares: a difusão na Eu- em construir, justamente, um novo tipo de cidade,
como alternativa à precedente.
ropa até 1940, a difusão na América antes e de{lois
da Segunda Guerra Mundial, os novos desenvolvimen- Para tornar essa exposição bastante clara, foram
tos na Eµropa do pós-guerra, os desenvolvimentos necessárias duas amplas modificações, no. início ~
Caps. 3 e 5; além disso, o Cap. 3 foi ampliado, a nm
• Trad. bras., Teoria e Projeto JU1 Primeira Era da de descrever juntamente com o plano de Haussmann
Máquina, Ed. Perspectiva,uns,O...bateli 113 (N. do E.). para Paris, ~s principais iniciativas da ~rbanística neo-

16
conservadora da segunda metade do sé1;,uloXIX, inclu- e uma classificação das direções mais promissoras no
sive as que tiveram lugar nos territórios coloniais. futuro próximo.
Foi também inserida uma menção sotl~e as prii'ueiras O quadro tomou-se mais complexo e menos oti-·
realizações da edificação subvencion~a, deslocando mista mas, provavelmente, mais realista; a confiança
' -em parte, a1gomas 1'nf ormaçõ es 'tºe
aqui, " se encontra- no trabalho que se faz deve ser corrigida pela amar-
vam no Cap. 11. li gura pelo trabalho que deixa de ser feito e que não
pode ser feito, todas as vezes que a qrquitetura es-
Na introdução à Parte IV, foi ampliada a expli- barra com o "contrato social" (como dizia Le Cor-
cação sobre a conjuntU!a econômica lle política que busier) , isto é, com a estrutura de poder que, em
condiciona o decurso da art ,wuyeau. l,)artindo-sedes-- nosso .campo, tem-se tomado quase que constante faz
sa explicação, foi corrigida a redação do Cap. 12, isto um século. Esta est.."lltura é muito difícil de Ser mu-·
ê, o relato das condições históricas COm que começa dada, e os arquitetos não podem pr'etender mudá-la
a pesquisa da arquitetura moderna. li sozinhos; pMa tentar fazê-lo, contudo, por certo são
A segunda parte sofreu;uma transformação mais de utilidade duas coisas: conhecer objetivamente essa
radical, corrigindo-se o quadro, do cap. 13, ou seja, estrutura, retirando-se a cobertura cultural que a pro-
acentuando-se a importância do trabalho de Le Cor- tege, e representar claramente, na teoria e na prática,
busier e da Bauhaus com referência ~) obra dos con- os modelos espaciais alternativos, de modo que os

, .
temporâneos alemães e holandeses; reescrevendo-se o
Cap. 15 sobre as experiências urbanísticas; <lesmem-
brando-se o Cap . .,16, do qual foram e;,;;.traídosum ca-
pítulo sobre o compromissamento político nos países
grupos interessados na modificação possam organizar-
se em tore.o de propostas precisas e tecnicamente fun-
damentadas. Eis as tarefas da pesquisa arquitetônica
no momento atual.
mais importantes (Rússia, Alemanha, IIFrança, Itália) Agradeço aqui a todos que ::r.e auxiliaram nas
e outro sobre o progresso da pesquisa Óos países euro- sucessivas atualizações: os pesqfilsado!'.es Cario Me-
peus então periféricos (Inglaterra, EsCandinávia, Ho- lograni, !talo Insolera, Reyner Banhan:. e ml!itos ou-
landa, Suíça); transformando-se o peÜúltimo capítulo tros; os amigos, entre os quais principalmente Ton:.ma-
em uma descrição da reconstrução elµ"(}péianos pri- so Gill!'a Loµgo, a quem devo o ponto de partida da
meiros dez anos depois da Segunda Guerra, e trans- nova conclusão; minha mulher Renza, qce ;untamente,-
portando a descrição das experiênci!lS mais recentes comigo fez a paginação desta nova edição.
para a conclusão, onde se tentou f&Zer não somente
um discurso teórico, como também. Ullla ecwneração L.B.
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17
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l, A casa do pobre, gravura de C. N. f..EDOUX,C/lrçhlectu« comfderlesous /e ro:pporttk rarr, dU~llTS d de la llt1islalion, 1806. "Este Wilo
univeno que nv11 maravilha é a casa do pobre, é a easa do rico que foi espoliado. Ele tem roma Wloaabóbadaalcswc oomwiic.a·&ecom a assembleia
dos deuses.••O pobre pedeuma casa, ondo não serão ai:lmltiilasquaisquer das decoraçõescmpiegadas com profusão nas casas dos Plutóes moaerll0$,A
arte deverá illterprcrar suas necessidadese submete-la à proporção adequada."

18
..
li
INTRODUÇÃO: A R~VOLUÇÃO IND STRIAL E A ARQUITETURA

EMTrabalhadores
14 de abril de 1791, a Uniã,o Fraterna dos
em Construção de Paris - os ope-
Bailly, percebe que sob essa discussão encontra.se
uma grave questão de princípios, e prefere responder
rários das obras de Sainte-GeneviàveJI da Place de la publicamente por meio de um manifesto que é afixado
Concorde, das novas pontes sobre o Sena - convida nas ruas de Paris em 26 de abril, onde ele reafirma
os empreiteiros a instituir, de comwnl acordo, um re- solenemente os princípios teóricos do liberalismo que
gulamento dos salários, com base em um salário mí- levaram à...mlicão das corporações, e condena. a pró-
nimo. 1 [ pria existência das associações de operários, ainda
Um mês antes, um decreto da Assembléia Consti- mais q,ue seus pedidos:
tuinte abolira o ordenamento tradiciOllaldas corpora-
ções, que até então regula,va as rela!rfÍes de trabalho. A lei ab-rogou as corporações que detinham o mono-
Os operários, excluídos das eleições PelaConstituinte, pólio da prodllifíg. 'Ela, portanto, nio pode autorizar coaliz.ões
permaneceram fora do espírito dessal!disposição; não que, em subslil.Uição àquelas, iriam esta.beli;çer um novo g!oe-
lamentam as antigas corporações, onde eram oprl!ni- ro de moiwp6Jio. Por ino, aquele:s que entrarem nessas coa·
Uz&s operárias, que as suscitarem ou fomentarem, são e'Vi·
dos pelos mestres, porém não dem.o~;tram um parti·· dentemente refratários à lei, inimigos da Jiherdnde e puníveis
cúlar entusi3.$Illo pela hôerdade de trabalho proclama- como perturbadnres da paz ;. da ordem pública. (Assim, o
da pelos economistas liberais, como ~e pode ver nos pedido de determinar o 5~ário por lei nio pode ser aoolbidg.)
cahiers, apresentados em 1'189; preoCÜpam.-se com seu B bem verdade que todos os cidadãos são i&uais em direitos,
sustento imediato, e defendem a idéia'íde que o novo porém não o são, ~ fato, em. çapacidadc, talentos e meios;
ordenamento deva produzir uma melhÓra de seu nível é, portanto, impossível que eles se iludam. pensando que podem
de vida ou, ao menos, deixar-lhes urµ&.margem para tod0$ obter os mesmos ganho&. Uma colllizão de operários,
que defendam por si mesmos seus interesses. Por essa para levar os salários diários a um preço uniforme e. para
razão, dirigem-se diretamente aos empiesários a iim de forçar aqueles mesmos que pertencem ao seio operário a sub-
convidá-los a fazer um contrato. li meter-se a essa d~clsão, seria, por consepinte. cvulcnteni.eote
contrária ao11verdadeirOll intere=s dos mesmos. 2
Os empresários não dão resposta. Então a
União Fraterna dirige-se ao MunicípiO de Paris, para Em 30 de abril, também os empresários endere-
que este intervenha em seu favor. O Prefeito de Paris, çam uma petição à Municipalidade; afirmam eles que
l1e
l, Os dados e as citaç5e:s referentes 11, episódio foram
extraídos de. Le nwuve,nent ouvrter à Pa,,lj pendont la Rélio,,
as associações operárias são contrárias à lei vigente e
que pretendem impor pela. força seus pcóprios pedi-
lutlOII Franr;al.se,de O. M. 1Afri. e são m='ncionados no Gap. dos; essa conduta "constitui um atentado aos direitos
li do livro de C. BARB~GALLO, Le origlnf llella grande indU.s·
t,ia con.temporanea, Florença, 1951. li ·z. BAluu.GALLO,e. Op. clt., pp. 30 ·e 31,

19

li
do homem e à hõen:fadedos indivíduos!!..e opõe:sc a.os quanto a outros, também o direito de reunião, proíbe
princípios da éCOlíomia, "sendo bastante a concortên- que o corpo administrativo ouça pretensões desse gé-
da para conler os interesses recíprocos dentro dos nero, e estabelece várias penas - ainda não graves -
limites naturais". a para os transgressores.
A agitação operária espalha-se para outras cate- O exerpp~a..,frança é seguido, poucos anos mais.
gorias, em Paris e fora dela, enquanto também os tarde, pela In,glaterr~. Em 1800 - também aqui logo
empresários organizam-se entre si; muitos trabalhado- após uma agi'taçãó dos operários na construção - é
res entrain em greve e, a 22 de maio, o problema é promulgado o ComJ?j_nation.Act, que proíbe toda asso-
levado perante a Assembléia Nacional. Os emprega· ciação de categoria. Define-se, assim, no período cru-
dores sustentam. que as associações operárias são um cial. da Revolução Ir.dustrial, a conduta do poder po-
novo disfarce ~ as antigas corporações; os traba- lítico no campo das relações de trabalho segundo um
lhadores refutam energicamente essa comparação, afir- enunciado teoricamente inatacável. Os fatos, porém,
mando que se trata de uma nova forma de organização, encarregam-se logo de demonstrar que a solução 6 in-
indispensável em virtude da modificação no estado das sustentáveL Na França, a crise da agricultura, a des-
coisas, e ~e ....~ os. ~.12reg~~res entram em valorl..zação do papei.-moeda e as• dificuldades bélicas
~«f_g_ena_ SI, e mais facilmente. dado seu menor impedem q!le o governo revolucionário mantenha a
numero. direção liberal na ~nomia, e modifica bem rápido
essa direção para um sistema de controles rígidos;
A Auemblêia Nacional - afirma um memorial operúio vem depois o Império, que não somente restabelece
-, ao destruir todos os privil~gios e a ma.trança e ao declarar
coativamente, em 1813, as associações de categoria,
os direitos do homem, por certo previu quo aquela declaração
r lK:tviria.para a.lgo para a classemais pobre, qile por muito como também impulsiona o controle econômico a!éru
tempo Joi o josueto do despotismo doo cmprcsános. 4 da própria monarquia, chegando a ponto de instituir
uma indústria estatal. Na Inglaterra, a cfü::eçãolib&-
Em 14 de junho. o deputado Lc Chapelier - ral 6 parcialmente· mantida mesmo durante a guerra
representante do Terceiro Estado - apresenta seu pro- !lapoleônica; entretanto, o Combination Act mostra-se
jeto de lei que acolhe, em substância, as prelensões dos inadequado para regular a economia inglesa em ex-
empresários e reafirma a neutralidade teórica do Es- pansão e, após ter sido moderado, 6 abolido na prá-
tado nas relações de trabalho. O problema Icvantadc tica em 1824.
está vinculado à liberdade de reunião, sancionada na Assim, após l,llll3 geração, o problema encontra-
Declaração dos Direitos do Homem; porém "deve-se -se novamente em aberto e deve ser enfrentado de
proibir os cidadãos pertencentes a detenninadas pro- maneira muito diversa daquela que tinham em mente
fissões que se reúnam tendo em vista seus pretensos os deputados franceses de 1791: não por meio de
interesses comuns", poi:quantoo novo Estado não re- uma declaração de princípios, mas construindo, pouco
conhece de fato a exist~cia desses pretensos interes- a pouco, uma nova estrutura de organização, diferen-
ses: "no Estado, não se encontram mais do~que o inte- te da antiga e não menos complexa.
resse particular de cada indivíduo e o interesse geral". 1 Os motivos imediatos desses acontecimentos são,
Le Chapelier, pessoalmente, está convicto de que indubitavelmente, os interesses de classe. A burguesia
as pretensões dos operários são justas; mas a Assem .. ÍOlllcesa, depois de ter conquistado o poder com o
bléia não póde e não deve intervir e apoiá-las por meio auxilio do Quarto Estado, não pretende dividir çom
de uma lei pois, com tal passo, seria recolocada.em este as vãntagens da nova posição. Na Inglaterra, os
pé toda a antiga estrutura das corporações, e os melho- trabalhadores manuais ainda estão excluídos da vida
ramentos momentâneos seriamcompensados com um política ativa•
.dano permanente.
Mas não é ludo. Os legisladores de 1791 e de
A lei Le Chapelier, aprovada em 17 de junho de
1800 são movidos não apenas pelos interesses como
1791, proíbe imparcialmente "quer as associaçõe! ope-
rárias para provocar aumento no salário quer as coa- também por uma visãote6rica que parece. no momen-
to, a únicã, possível; por enquanto, os operários não
lizões patronais para reduzi-los"; 6 nega, tanto a uns
têm meios de opor-se senão lamentand<HC por sua
3. BARDAGALLO, e. Op. cit., p. 33. condição, ou por uma vinculação retrógrada às insti-
4. BARBAGA.u.o,e. Op. cit., p. 35. tuições ultrapassadas. Le Cbapelier é um jurista in-
S. BA.KBMLU.LO,C. Op. cit,, p. 40.
6. BARIIAGAU.O.C. Op. cil., p. 41. dependenle, animado por uma intransigência teórica

20
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que não o llllpede de reconhecer, na Dlesma exposição -a.arriscado dizer que a lei Le Chapelier sobre-
em que apresenta sua lei, o nível p'Or demais baixo. põc.-se ao problema nascente da organização sindical
dos salários atuais e a necessidade '.~e elevá-los. A como as fachadas neoclássicas às nascentes construções
causa dos operários é defendida, é verdade, pdo industrais, que contêm implicitamente exigências total-
Ami du Peuple de Marat, porém o m'esmo jornal,•três mente diversas?
-
.meses antes, também protestou contr'li.a abolição das
,,
corporaçoes, sem encontrar outros 8fgumentos -
senao
__ Tanto num-quanto-em outro caso,-o-problema-
dado po.c resolvido ao se postular a coincidência entre
os mais reacionários lugares-comuns cbntra o progresso certos modelos teóricos e a realidade concreta. Na I
industrial. 1 I! realidade, pelo contrário, abre-se um processo de re-
Entre os discwsos que são feitos e os problemas visão de toda a cultura contemporânea, revisão da'
que devem ser resolvidos, encontra-s~lum evidente de- qual as convicções correntes sobre economia política e I
sequilíbrio. Uma questão real e plena de dificulda- sobre arquitetura saem profundamente modificadas.
des é traduzida emct:os~s e r~solvida por essa Não se pode, por 'conseguinte, começar a falar
maneira, ,~ mm.ente as dificuldades mais de arquitetura, tomando como já descontada a na-
importantes; uma. situação eil"Jnenteuiente dinâmica é tureza e os limites daquilo que se entende como ar-
discutida e~ermOS ê'iâticõs e os raci.Ocíniossão colo- quitetura nesse momento. S necessário tecei: breves
cados em iorma àl5mll}):a,como se as " teses sustenta- considera\;ões sobre o quadro geral das mutações so-
das tivessem o va:tõfâe serem etemall e naturais. As ciais e políticas, os }QfZOsque a cultura da época for-
dificuldades concretas, por outro Iad o," estao
- presentes mula sobre essas mutações, e o lugar que ocupa, nesse:;
e visíveis aos olhos de todos, e port'.allto a abstração relacionamentos, o sistema de noções e de experiências
"
que é feita é, em certa medida, proposital. por uma transmitido pela tradição arquitetônica passada.
convenção aceita 'por todas as partes\) As mutações da Revolução Industrial delineiam-
Os termos do "s o teórico são aparentemente -se na Inilaterra,. a contar da metade do sécclo XVIII! 9
_.cl~ poré ambí u m su~! substância. As em diante, e' repetem-se, com maior ou menor atraso,
(palavras usadas p os políticos, pelos empresários e nos demais Estados europeus: .aumen.ta.....d~a-
pelos operários não possuem o mesmO significado; "li- ção, aumento da produçã_o_!ndustrial e mecamzação
berdade" significa para uns um p[(jgrama originado dossisten:::ardêprodcção.
nos filósofos iluministas, para outrosJl uma diminuição -k"Iuglaterf!Çei'ii" meados do século xvm, possui
do controle estatal sobre sua iniciad.ya, para os últi- cerca de seis milhões e meio de habitantes; em 1801,
mos, o direito de obter um nível de vida razoável. quando é feito o prir.i.eiro recenseamento, contam-se
Todos, contudo, adotam as mesmas !!frases e- aceitam 8 892 000 e, em 1831, cerca de 14 000 000. Esse
q~ a discussão -s~ desenvolva poi;i metáfor~ por aumento não se deve a um crescimento do coeficiente
cálculos ou por(hábit~: As~im, a, ~ptinular;ão a q~.e de natalidade - o qual se mantém quase que exata-
, se ~a- parece resolutiva e mataca'(-,elmas, na rea.1- mente cor.stante durante todo o período, entre 37, 7
dade, é aberta e provisória; ao invés de encerrar a e 36,6 por mil -, nem a um excesso das imigrações
questão, abre uma série ilimitada dJI n.ovos desenvol- em relação às emigrações, mas sim a uma decisiva
vimentos. 1 redução no coeficiente de mortalidade, que bruxa de:
Essa constatação é aplicável a m}litos outros cam- 35~8""'(na &cada 1730-40) para 21,1 (na décadft!
pos. A teoria demonstra-se inadequ:~a para :resolver 1811-21). a J;: certo que as causas dessa redução são
a~ dificuldades práticas do_sprocesso~ c;ue, entretanto, sobretudo de ordem ~a: melhoria na alimen-
a1udo11a colocar em movunento, e consegue manter· tação, na higiene pessoàl, -e.asinstalações públicas, nas
-se coerente somente. através de u~a restrição con- moradias, progressos da Medicina e melhor organiza·
vencional de seu próprio campo. I! ção dos hospitais.
Uma ve:z que o des~arquitetura depende O aumento de população é acompanhado por um
do equilíbrio entre t~óriã e práti_g.:-{- e ema vez que, desenvolvimento na produção jamais visto antes: a
afinal de contas, as COndiçõeCaos operários na cons.- produção de ferro passa, nos setenta anos que me··
trução civil. fazem parte da arquitetcl'a, embora a cul- deian::.entre 1760 e 1830, de vinte mil para setecen-
tura da época não estivesse dispos ti a admiti-lo - -, tas mil toneladas; a produção de carvão, de quatro:
nosso relato deve tomar impulso ness ' e ponto.
'

8, AsliTON, T. S:, La rivoluzi011e lnduflriak 1760·1830'.


7. 8.uwAGALLO,C. Qp. cit., p, )8. 11 Trad. iL, Bari, 1970, pp. 5-7.
1

21
milhões e tru.entos mil, a cento e quinze milhões; a buição desigual dos lucros; a baixa taxa de juros; a
indústria algodoeira, que em meados do séculoXVIII crescente oferta de mão-d~bra;. as numerosas inven-
absorvia quatro niilhõcs de libras. em 1830 transfor- ções técnicas que dependem do nível de pesquisa cien-
~ cerca de duzentos e setenta milhões de libnls • .J).. tffica pura e do alto grau de especialização; a abun-
~cremento ~ .ao mesmo te~~ quantif;!1-_!!.v~qu~- dância de empresários capazes de aproveitar a presen-
-tativo: multiplicam-se os numeros;-das mifustnas, di· ça, ao mesmo tempo, das invenções, da capacidade
fere~ciam-se os produtos e os processos para técnica e dos capitais (a forte mobilidade vertical cn--
ab~c,?dos~ ~ tre as classes crla a situação ma.isrentável para o apro-
- O incremento·demográfico :_~-!!1~~~~al influen•) veitamento dos talentos naturais); a liberdade relativa
/; iam·se mutuamente de modo complicado. " __ . ... concedida aos grupos não éonformistas e aos dissi-
---:-Algun.s dos melhoramentos higiênicos dependem. d~tes ,~osos _que,de Üll?• se revelam muito atiyas.
da mdústna; por exemplo, a melhoria na alimenta- na 1!1-dustrta;, a atitude assumtd~ pelo Estado no sentido
ção é devida aos progressos no cultivo C no trans-- do 1.mpor vínculos menos rígidos do que o usual à
porte, e a limpeza .pessoal é favorecida pela maior atividade econômica, seja graças às menores preocupa-
quantidade de sabão e roupas íntimas de algodão a ções estratégicas e fis~..-,;eja-pelo-influxo das too--
preço razoável; as ·mQradias tomam-se mais higiêni- rias liberais expostas ~ Adam ~e transmitida a
cas graças à spbstituição da madeira e da palha por importantes homens do govemo1tais como Pitt.
materiais mais duráveis, e ainda mais pela separação . Se se deseja encontrar uma base comum no oon-
entre a casa e a oficina; as redes de esgotos e de Junto~ess~s. 6 ~reciso levar em consideração o
águas mais eficientes tomam-se possíveis pelo progres- esp,trito emprecnde_5lor,o desejo não preconcebido de
so da técnica hidráulica etc. As causas decisivas novõrresultados;é a confiança em poder obtê-los por
porém. são provavelmente os progressos da Medicin~ meio de cálculos e reflexões.
!lºe pr~d~m efeitos também nos países europeus não . Em c é 2.W, os escritores maravilham-se pela
mdustriali7:ados onde, de fato, a população aumenta ânsia noV1dadyquo têm os contemp"orâneos,poíéfü.,
no mesmo período através do ~esmo mecanismo. na sego da-metáde do século XVIII isso se transforma
Por sua vez, a necessidade de alimentar vestir em um motivo muito freqüente e quase unânime; es-
e fomecer habitação a uma po.pulação cres~entc 6 creve ~ autor inglês: "O século vai ficando cada
certamente um dos motivos que estimula a produção V~ malS desvairado ~ cata de !8,ovações, todas as
de m8?ufaturados, _mas que poderia também produzir comi:" deste 7:11-undo estão sendo feitas de uma. maneira
uma s1.mplesreduçao do nfvel de vida, como ocorreu nova, é preaso enforcar as pessoas de maneira nova,
na Irlanda na primeira metade do século XIX e como e talvez nem mesmo o patíbulo de Tybum permanc-
ocorre ainda na Asia, observa~se que a rápida meca- ça imune a esta fúria inovadora"; ' e um alemão: "O
nização da indústria inglesa é devida, entre outros fa.. presente estado de coisas pareee ter-se tomado hostil
tores, ao desequilíbrio entre a mã<Hie-obra que pode a todo6,e objeto de freqüentes censuras. :8 de admi-
ser e!11pregada_nasmanufaturas e as exigências do co- raro fato de hoje em ~ia.se julgar desfavoravelmente
mércio, ou seJa, exatamente ao fato de que a popu- tudo que 6 !elho. As idéias novas abrem-se catninho
lação não aumenta tão rapidamente quanto O volume até o coraçao da família e perturbam a ordem desta.
da produção industrial; e que a mecanização tardia Nem mesmo nossas velhas domésticas querem mais
da indústria francesa. está relacionada, cm compensa.- deixar-se ver ao redor de se.o~ve~ .~6~cis": 10
ção, à população mu1to mais abundante vinte e sete ConbJdo, o mesmo espmto de lDlCUltivaunpele
milhões quando irrompeu a Revolução. ' os protagonistas da Revolução Industrial a decisões.
A. industrialização é uma das possíveis respostas arris a ações incom letas e ntradilAQas._e faz
ao awnento de população e depende da capacidade com que se ome~ erros a c~a passo, er_ros que
de intervir ativamente sobre as relações do d ção pesam sobre .a 110C1edadena medida proporCJ.onal às,
a fim de adaptá-las às novas · A • pro u • novas quantidade11em jogo.
exigenCias. T d dcs · h' t6 · d rlodo
. .0 a
M

Tendo em vista explicar esse fato foram colo- cnça~ is nca este pe, .' ao ter de-
cadas em evidência várias circunst!nci~ favoráveis à atnbu1r um peso diverso àll grandes dLrCtnzesdo de-
e~pansão econômica: na· Inglaterra, o au~to-d~n-
d1mentos agrícolas em conseqüência~do.("techamen ... 9. Dr. Ioho:ion,citadopor T. S. AsHroN, op. ctt., p. 16.
a presença dé enormes capitais favorecia ...... 1.. -distai: 10. Citadopor C. A, TocQUP.VILLB, cm L'antkt> rqlmr,.
~ /g rivolu:Jr.,nr (18Só). Trad. it., Turim, 1947, p. 4!1.

22
J.

23
senvolvimento e aos incidentes ocasionais, corre sem- Os liberais seguidores de Smith e os radicais que
pre o perigo de dar uma idéia por deràais Simplificada se inspiram em Malthus percebem que estão v:ivendc
do fenômeno e de mostrar que as coisas aconteceram em uma época de transformações, e solicitam uma re-
de modo mais fácil do que ocorreu r.a realidade. Pelo forma da sociedade existente, concebendo essa refor-
contrário, OScRrogressos da Revolqção Indu.strial-são ma, porém, como reconhecimento das leis inerentes.
perturbados por umJLsérle--contínua-cicri.nsucessos,-de· ao movimento da sociedade e remoção dos vínculos
retrocessos i_grunentllneos,-de_criaes_uÇ_Jofrlmentos tradicionais que constituem seus obstáculos.
para vastas categorias d_e,_.cidadãos;
os contemporâneos Em 1776, Adam Smith publica a Jnquiry into
aa epoca, segundo tenham sido atingidos pelos aspéc- the Nature and Causes of the Wealth of Nations. Essa
tos positivos ou negativos, deixaram-nos dois retratos obra dá uma forma científica e inelutável à teoria li-
contrastantes do período: um, róseo e otimista, o outro, beral_c persuade seus contemporâneos de que o mundo
tétrico e pessiir.ista. da economia é regido por leis objetivas e impessoais.
Oickens, em 1859, faz este balanço surpreenden- como o mundo da natuteza; os principais fundamentos
w-d~~_!~al,o:,_ __ _ de tais leis não são as exigências do Estado, mas a
livre atividade dos indivíduos, movidos pelo próprio
Era a melhor época de todas, e a pior de todas, era a interesse pessoal.
época da nbedoria e da loucura, era a época da fê, era a 6po-
a da inaedulidade; era a llStaçáo das !.mes e a utaç:ão da O Essay on the Principle o/ Population, de Tho-
curidão; era a Primavera da esperança e o Inverno do dcses- mas Malthus, publicadà em 1798, possui uma impor-
ero; tínhamos tudo a nOlisa frente e nada a nossa frente; tância quase igual na determinação do comportamen-
íamOlidiretamente cm dir~ção ao Céu, e em direção ao oposto to prático dos protagonistas da Revolução Industrial.
do Céu; em suma, estava tão afastada da época atual que Malthus relaciona, pela primeira vez, o problema do
algumas das mais proeminentes autoridades mai~ imi:itiam em desenvolvimento econômico com o da população, e
~!cá-la $omcnle no superlativo, como boa ou má. 11
---- demonstra que somente a pobreza de um certc;,número
de pessoas mantém em equilíbrio os dois fatores, pois.
Os. males decor:em sobretudo da falta de coar- 0 aumento natural da população é mais rápido do que
denação entre o progresso científico e técnico, nos se- 0 aumento dos meios de subsistência e encontra sua
tores singulares, e a organização geral da sociedade; limitação apenas na fome, a qual impede uma ulterior
cm particular, da falta de providências administrativas multiplícação.
adequada para controlar as conseqüências das mudan-
ças econômicas. - Tanto Smith, quanto Malthus - e especialmente
I aquele - expõem reservas e admitem numerosas ex-
s.ão, : ;;:~ª:
J~!~: 5
re~;:~ná:~i:s p~:':~ª d:ra::~ su!~
~!:6:~v:z te:!:; ri~d~~~l~~it!º~f:!~atte:::!~
gem. Os conservadores nem mesmo percebem que que O Estado de fato não deva intervir nas relações
estão vivendo em um período de rápidas mudanças.
Edm d B k r 1 b, econômicas e qu~ 1:fastadeixar livre a cada um para
un u! e, po exempo, que pu li7a em 1790 • ~ que-5Cocupe de·seus inter:csse.s....para-tutelartambém
suas Reflecttons on. the French , Revolutwn, marav!-' 0 intêre&se-público- da-melhoE--maneira; muitos sus-
lha-se pelos acontecimentos de alem-Mancha, os quais tentam que Malthus- demonstrou a impossibilidade de
lhe parecem ser um horrível monstro, e preocupa-se I abolir.rrp![ê!EL_ç__]LjnuJiliaãilue toda intervenção
com que aquelas mudanças não venham a perturbar a filantrópica em favor das classes menos abastadas.
ordem constituída na Inglaterra.
Como se expressa Trevelyan, os conservadores Essas idéias coincidem com os interesses das clas-
"com ironia inconsciente proclamam todos os dias sua ses ricas, as quais detêm o poder político e, por esse
aversão por toda sorte de mudança. Não chegam. a motivo, parecem ser tão persuasivas em relação aos
compreender que eles mesmos estão vivendo em meio governantes; contudo, a explicação política não é su-
a uma revolução mais profunda do que aquela que ficiente para dar a razão de sua influência. Uma
atrai todos os seus pensamentos para lá da Mancha, convicção comum a todos é a de que o conjunto não
e não levantam um dedo para impedir seu curso coloca um problema distínto da soma de seus com-
fogoso". 12 ponentes, e que basta ocupar-se do elemento singular
11. D1CKENs.A Tale o/ Two Ci1ie.r, 1859.
- - a iniciativa singular, a invenção singular, o ganho
12. TREVELYAN, G.M, Storia delflnghilrtrra ntl seço/o singular etc. - para que o conjunto resulte automatiR
XIX ( 1922). Trad. il., Turim, 1945, p, 197. camente equilibrado. Pensa-se que se está caminhan-

24
25
do para um ordenamento "natural" da economia e O mesmo espírito de crítica e de inovação investe
da so,iedade, cognoscível a pnõrlpela análise de seus a cultura arquitetônica, porém encontra-se frente a
elementos, como o mundo físico de Newton. As es- uma tradição sul genuis já vinculada, do Renasci-
truturas da sociedàde tradicional - os privilégios po- mento em diante, a um.a exigência de regularidade--
líticos de origem feudal, o ordenamento corporativo intelectual. ~
da economia, as limitações politicas à liberdade dos A amíiftetur~orma com a~ e ae@
negócios - aparecem como obstáculos artificiais, su- a tríade"-~ maiores; estas e as demais~
primidos os quais pensa-se poder atingir o imagiqado estão condicionadas a um sistem~egras, deduzidas.
ordenamento natural. em parte da Antiguidade, e em p e individuadas por-
Já foi observado que a teoria do liberalismo in- convergência pelos artistas do Renascimento, que se
glês reflete sobretudo o estado da economia antes de consideram. universais e permanentes, tendo ·como fun:.
1760, quando a indústria dava os primeiros passos, e damento a natureza das coisas e a experiência da An-
cada um de seus elementos - homens, capitais, apa- t~,... concebida como uma segunda natureza.
relhamentos etc. - era dotado de elevada fluidez, en- Essa disciplina pode ser interpretada de várias
quanto que as exigências de organização eram relati- maneiras,' enquanto orientação espontânea ou refleti-
vamente tênues. Por c~ a teoôa sy,bestima da; de fato, a limitação que daí deriva demonstrou-se
os aspectos referentes ~do-m.!!!ldo que extremamente fecunda elJ! resultados.
está ·saindccaãRevolução Industria], e impele-ptin-=' A existência de algumas regras gerais garante a
cipalmente a ílesmantelar as'antigas formas de convi- unidade da linguagem, a -capacidade de adaptação a
vência, através da violência e de um só golpe da Fran- todas as circunstâncias e a transmissibilidade dos re-
ça, através de evoluções insensíveis da Inglaterra;· é sultados. Tratando-se, além dissõ, · de modelos ideais
apenas mais tarde que se toma nítida a necessidade e não de protótipos reais, aque1es vinculam apenas
de substituí-las por novas formas, apropriadas, de parcialmente a espontaneidade dos artistas, os quais
organização. permanecem livres para imitá-los de muitos modos di-
Na França, o tom adotado pelas teorias sociais ferentes; a liberdade individual é transferida, pode-se
-e econômicas torna-se ainda mais abstrato pela abo- dizer, para um campo mais restrito, no qual as várias
lição de toda vida política espontânea e pela inquie- exp~ências podem ser confrontadas com maior fa-
tação social que tornará inevitável, dali a pouco, a cilidade e podem ser somadas umas com as outras e,
Grande Revolução. por outro lado, as diferenças de interpretação adqui-
Tocqueville escreve: rem um relevo extraordinário, graças à referência a
um termo fixo de paradigma.
O próprio modo d~ vida dos escritores predispunha-os a
apaixonar-se pelas temias gerais e abstratas em matériapolítica J\ssim, uos_itltimos três séculos, o repertório
e a abandoDU'"5Ctotalmente. MuitíAimo dmanQados da prá· clássico foi adotado poi tod<?!_Os...~es c1vllii"~s, e
tica. nenhuma experiência podia intervir como fator de cor- foi --adáp"tadõàS·ma.is-variávéisexigênc1ãspratícas e de·
reção de sua fuga espontânea; • , .tornaram-se, por iAo, muilo gosto; a universalidade intencional das formas canôni-
mais ardentes em seu espirito de inovação, mais ávidos de cas foi cíuase trãduzida para a realidade, através do,.
~htemas e de principias_~ais, mais depreciadoresda antiga núm:ro-q~das-a~
~ mais confiantes em seu raciocínioindividual do que
,costumamser ,comumentcos autores dos tratados de especula· 'I'õdo o sistema da arquitetura clássica, entretan-
ção política; (a Revolução,em ~ua primeira fase) foi eondu· to, rege-se por uma convenção inicial, a de atribuir
.zida ~tamentc-.oom.....q__mesmo çspfrjtp que hArlti~ado ca:ráter necessário e soJne-histórico a uma escolha par-
J1111tasdiAerta~s sobre a arte de governar: a mes- ticular. As leis supostamente naturais e im~is da
ma~in.Pâilã pelas teorias SC!ais, pfilos ffilemas legislaliv~ a~ra concretizam-se em certas constantes, dedo~
i!Ompletados e domin~a exata simetria entre as nor· zidas ap.!.Q!!madamente dos mo~tos-romanos,-de
mas, o mesmo discutido em rela!rii,oaos dw:loo de fato n:lllll, a Vjf:rúvig._oii;"ã:lnda,-da--exp"êríêiicia dos mestres w,-
mesma confiança na doutrina. a idêntica tendSncla à origina· d~ ~ua~J.ª40ãde-é-uma-qliãlilicação histó-
!idade, à sutile.:a,à novidade das instituições,o igual desejo rica, s1.01bohzãdae impn1pria. --
de refal.Cl',de uma só vu, o esta.tuto,..inteirg_sc;_sundoos dita· Essa convençao, enquanto se pennanece dentro
~~gundo um únko plano, em usar if=Íenlar
cmemlar suas partes singula~. n • da cultura clássica, não pode jamais ser enunciada di-
~ '- L\ ~ ~ J A. V,VW\'\i,~,'1../V')''\V ~ retamente; é percebida de vez em quando, como Iimite-
L~ b. ToCQUEVJLLE,C. A. Op, eit., pp. 176 e lSJ. e como insucesso, no caminho de algumas experiên-

26
çias mais aprofundadas, e a tensão que disso deriva tempo, começa a ser conhecida em sua objetiva estru-
ê uma das forças principais que dão impulso à cultu- tora temporal.
ra arquitetônica, especialmente nas últimas fases. '(f A conservação de objetos antigos deixa de pare-
O Iluminismo, contudo, no século XVlll, pro- cer um passatemp.a....particulare torna-se problema pú-
~e-se discutir todas as instituições tradicionais, ava- blicõ.-Em f732,inaugura-se em Roma o primeiro
liando-as à luz da razão. Aplicado à cultura arqui- museu público de escultura antiga; em Campidoglio,
"lêtônica, o esprit de râison investe contra e lança luz 1739, tomam-se acessíveis as coleções do Vaticano;
sobre aquilo que havia permanecido nas sombras des- em 1750, as do Luxemburgo· em Paris; em 1753, Sir
de o século XV em diante, isto é, o alcance exato H. Sloane deixa à nação inglesa seus objetos de arte,.
das regras formais do Classicismo: .. ana'lisando objeti- e sua casa em Bloomsbury é aberta ao público em
vamenttíbTingreü.ientes da linguagem corrente e estu- 1759, constituindo o primeiro nácleo do British
dando suas fontes históricas, ou seja, as arquiteturas Museum.
antigas e do Renascimento. .Assim chega n~ria- As contribuições recolhidas na primeira metade
mente a negar a sustentada universalidade dessas ~ do século são postas a prod~r frutíferamente e são
ffes e coloca-as sob uma correta persJ!:.Ctivabistó.tiça, sistematizadas racionalmente por Johann Joachim
subvertendo os pressupostos 4.Q,,_prÓDmL.C~sJçismll.....~Winckelmann (111-7·,1768) no começo da segunda
dãffilof'1m, depois de mais de t~ês séculos,__ao...ro.fil:'.Í-metade.
meiito bru;eadô m tais eressupost<;s. Winckelmann chega' a Roma em 1755, e sua
Pode-se.perceber a nova orientação já nac§"ei- principal publicação, a Storia dell'arte antica, vem à
ra metade do sétulo, coin uma mudança de tom na luz em 1764. Pela primeira vez, ele se propõe es-
produção arquite ·ca e com o desenvolvimento dos tutlar a produção artística dos antigos como ela é,
tudos arqueológicos objetivamente; e não como é acolhida pela moda da
Corut ere-se, por exemplo, a transição entre a época, o que faz com qUe ele mereça serchamado de
arquitetura de Luís XIV e de Luís XV, na França, fundador da história da arte; ao mesmo ~o ....pro-
ou a mudança de direção do barroco romano ocorri-~ ~õras~.2!.odçlQ§ .Pr~so~erem
da em 1730 com Clemente XII. A observância dos imitados e torna.:..seo leÓJJCOjfQ....!19.YO]fil)VJ.m.ento:o
preceitos canônicos toma-se mais rigorosa e o controle neociãssícísinõ:-
racional .do projeto, mais exigente e sistemático; a con· Winckelmann assim expõe suas intenções:
lÍnuidadC' da linguagem. barroca é atenuada. Cm nome
de uma crescente 'tendência à análise de cada parte Aqueles que até agora têm tratado do belo, por preguiça
do edifício; freqüentemente, prefere-se desvincular as intelectual bem como por falta do sabec, nuUiram-se com idéias:
ordens arquitetônicas do invólucro murário e colocar metafüicas. Imaginaram uma infinidade de belezas, e,.rcco-
em evidência a moldura de colunas e de cornijas. nln:ceram-nas DWi estátll8ll gregW1; ao invés, porém, de apon-
tá-las, falarlllU sobre ela:,;cm abstrato,,. como se qua:,;etodos
Exige-se, ao mesmo tempo, que os monumentos os momentos houvessem sido aniquilados ou perdidos. Para
antigos sejam conhecidos com exatidão, por meio de tratar, então, da. arte do desenho dos grcgoo. • • e para acen-
acurados exames diretos e não através de vagas apro- luar suas virtudes de maneira proveitosa, seja em relação a
ximações. O~~ ~ológico, apenas tocado quem dela usufrui, seja em relação aos artífices, é necessário
d~p.dg_.Reiiãsclmenlc>nãootistante-o-êtiiusiãsmo ~ar do ideal ao sensível, e do g!nero ao indivíduo; e deve-se
dos humanistas, é agora exp.!.orado-@ maneira__filfile· fazêdo.._!,l_~i$cursoo :Jagos e in~~s. mas.
mática. Iniciam-se nesse período as~a\'!Íçoes de 11.Q!nea· ~ona~'=~nação precis~ daque~~s.contornos e
Herculano (1711), do Palatino (1729); de Vila Adria- de ~c_ürDU:j@TêpçtaS-àS-sU1a1rchamamo$..
na em Tivoli (1734), de Pompéia (1748); publicrun· de belas for..!las.u
-se as primeiras coleções sistemáticas de relevos, não
limitadas às coisw; 3n , m~ procura-se um conhe- Em 1763, ele escreve esta surpreendente defini-
cimento direto da _g_!.eg=ronovius, 1694), pa- ftão: "Õ verdadeiro sentimento do belo' é semelhante a
leocristã (Boldetti, 1 O), ms (Geri, 1734), e até um 'gesso fluido derramado sobre a cabeça de Apolo
mesmo da p~a, a eito da qual discute-se (do Belvedere), que a toca e recobre todas as suas
em Paris por volta de 1730. Assim, a Antiguidade
14. WlNCXELMANN. Dell'arte dei disegno de' Creci e
clássica, q_ueaté agora havia sido.guardada como uma della bellezza (1767). ln: • li bello nelfarte, Turim, 1943.
idade do ouro, colocada idealmente nos confins do p. 125.

28
.,

partes". iis
pírito de p~aj~~
"
Nessas palavras encontra-sei o mesmo es-
preconceitos e db confiança em
tilo vale o critério da fidelidade histórica; o artista
pode aceitar. tais referências ou recusá-las, ou mani-
suas próprias forças da qual se falo~ anteriormente pulá-las, porém as recebe de fora e não possui uma
a propósito das invenções e das iniciatixas industriais; margem (teoricamente) para assimilá-las a seu modo,
aos mesmo tempo, prenuncia-se a fo'rmulação com porque não se trata de modelos ideais, mas sim de
que se bloqueia a cultura artística da é'i,oca. exemplos reais que podem ser conhecidos pela expe-
Com. efeito, as regra~,....111118 VG reconhe- riência. l'elo contrário, em abstrato, o projetista goza
__cida-exi)erimenrnJme1:üesuacontingência, são manti- de uma liberdade ilimitada, pois pode decidir em ter-
_das como _!P.Od~los_~!J.Vencionais paraltos artista.§. da mos absolutos se uá empregar o estilo A ou o estilo B.
época. Por canse uinie'.nã-a 'a"iêii'êianaaa muda O ~i§t_Qricismo.pode ser considerado...cruno~a
porque se J;ontinua-a-fazer-us s mesmas formas; esp~ciê de red~ão ao absurdo .da-.-cultura.....ten.i!Scen-
e~Qci.a,-poré~corre uma verda eira revtra- tista, e surge cg_m_(!__um~fu!go que.-encertlLQ_ ciclo
:.Yolta cultural. P~!?.J~ão.:xistefrm:ãrgêm entre têêSvezes secular do classicismo europeu~ Entretan·
·; ~gerâis:.e_as realizações concr;etas;-e os su.; to, rellfciõniiõ.(fo:o com as mudanças econômicas e
p_Qstosmode1os podem~nhecidos cgm toda a prc:.- sociais e com os desenvolvimentos subseqüentes, o
cisão que se Oesejâf: A aâequaçã:o ã-ntl:f"modelos historicismo parece também uma abertura para o fu-
depende somente de uma decisão abstfuta do artista, turo, uma vez que consentiu, exatamente em virtude
tomada fora de toda condição real; o_eJassicisrno, no de sua qualidade de abstrato, em adaptar a lingua-
momento em gue chega a ser grecisaddrcientificamen- gem tradicional, até o ponto em que foi possível, às
te, torna-se uma convenção arbitrária e transforma-se novas exigências, e amadurecer, nesse ínterim, as novas
7
JilllleÕclassjçjsmo. li experiências _s.ue irão. conduzi.J;ao..mo'lllllento moderno.
Contudo, a nova posição amplia 1se, Jogo, para ~Nos Pfecedentes relatos sobre a unidade e liber-
além das formas clássicas; convenção P,or convenção, dade artística, fica claro que os termos antigos assu-
o mesmo tratamento é apÍicável a todo:ltipo de forma miram um significado diverso do tradicional e toma-
do passado, àquelas~edúzy"ai.s, exótic~s etc., produ- ram-se ambivalentes, da- mesma forma como os relatos
zindo os respectivos evival.t,.o neogótico, e neobizan- políticos feitos no início. Trata-se, tanto em um
tino, o neo-árabe, e ssiní por diante. IJ Os escritores quanto em outro caso, de discursos formais que es-
anglo-saxões cham~--11est~ovimento, em. sua for- capam ao verdadeiro problema; porém, a tentativa re-
ma mais ampla, d\ historicisJJ:vque se IIPodena tradu- petida de aplicar à realidade essas soluções f9rmais
zir literalmente como~hisforicismo", deixando-se de ensina a procurar mais a fundo na própria realidade,
lado o significado que se dá à palavral'na História da
Filosofia. !
As teses da cultura humanista 11 a unidade da
e a conduzir os fatos no sentido das soluções materiais.
Uma conseqüência imediatVo hi;toricismp é a
divjSfili_d!._tarefado arqüiteto-em comQ~Çias mais
linguagem e a liberdade concedida aos 1iutistas no âm- diversas. A- difereifci!fçãoêrítre projeto e execução
bito da própria linguagem -- transformam-se, neste começa na Renascença, quando o projetista avoca para
ponto, em uma contradição sem saída. li si todas as decisões, deixando aos outros apenas a
A unidade da linguagem, de um ponto de vista, realização material do edifício. Isso, entretanto, não
pareée definitivamente garantida, pois õ conhecimento impede que projetistas e executores se entendam entre
objetivo dos monumentos históricos per!D,iteimitar um si, uma vez que, atingida uma unidade estilística es-
dado estilo passado com toda a fidelidade possível; tável, se o projeto não se modela sobre a execução,
· mas os estilos são muitos, e apresentllill-se ao mesmo como acontecia na Idade Média, a execução pode, não
tempo na mente do projetista, daí stlr o repertório obstante, modelar-se sobre o projeto e atingir, por
historicista, em seu conjunto, absoluw'.mente descon- outro caminho, a mesma harmonização.
tínuo. íl Agora, contudo, os estilos são virtualmente in-
A margem de liberdade individual, n!lm certo finitos e, na primeira metade do século XIX, tomam-
sentido, é teduzi.da a zero, e, em ouiro, aumentada -se de fato incontáveis; portanto, os executm:es, a me-
desmesuradamente. Na aplicação conc~eta de cada es- nos que se especializem eCJ. executar somente cons--
truções em um determinado estilo, deverão manter-
15. IDEM. Dissertariane sulla capaci~jl del :.entimento -se, por assim dizer, neutros entre os numerosos re-.
dei hello ncll'nrte e sull'insegnamento della capacità stessa
(1763). ln; li bfl!O nell'nrte, pp. 77-78.II pert6rios diferentes, e llir..itar-se ao trabalho mecânico

29
do traduzir determinados desenhos para a pedra, ma- tarefas imediatas, segundo os métodos analíticos da
deira, ferro ou alvenaria, sem possibilidade de parti- cultura paleoindustrial, e garantir a continuidade das
cipação pessoal no trabalho. O meio de execução eAperiências, tendo-se em vista os progressos futuros;
adequado a essa situação é exatamente a máquina, a aos artistas, permitiu que fizessem uma revisão de
qual, neste período, está invadindo a indústria e, em todo o .repertório tradicional, a fim. de traçar as formas
certa medida, também os canteiros de obras. adequadas às novas necessidades de dístribuição e
A máquina é muito exigente e leva inexoravel- construção e, assim, liquidar poucq a pouco, toda a
mente para soluções menos custosas; por outro lado, carga da tradição e os hábitos visuais conexos; aoS
as exigências do estilo limitam-se às aparências for- técnicos, permitiu que enfrentassem as conseqüências
mais dos objetos e, portanto, tende-se a restringir cada imediatas da Revolução Industrial no camgo da cons-
vez mais o conceito de estilo e a considerá-lo, afinal, trução e que fizessem progredir a teoria e a prática
como uma simples vestimenta decorativa, a ser apli- da construção, preparando os meios para as experiên-
cada a cada vez a umesquetero-de-sustentação ge- cias futuras.
nérico; o arq__uiteto
reserva-se a parte artística.-c..d_eixa As relações entre artistas e técnicos, condiciona-
para os outros a parte dê constmçãa..e..técnica:-Asslln das pela dualismo acima mencionado, não fie~, por
nasce o dualismo de competências que ainda hoje é esse motivo, truncadas na prática. Estando constran-
expresso pelas 4.uas figuras do arquikt.Q. e_~ge- gidos a trabalhar, não obstante tudo, no mesmo tem-
~ - po, os respectivos métodos são adaptados entre si e
produz-se uma espécie de paralelismo entre os fatos
Também esse fato deve ser olhado, por assim
dizer, do direito e do avesso, para ser interpretado que competem a uns e a outros - principalmente,
como será visto, entre repertório neoclássico e hábitos
corretamente. de construção -, paralelismo esse que permite, no mo-
Em relação à unidade cultural das épocas prece- mento oportuno, que se adaptem as duas ordens de.
dentes, esse dualismo constitui uma grave passividade. fatos, desvinculando o trabalho de uns, daquele dos
Aqueles que continuam a levar o nome de "arquite- outros.
tos" colocam-se acima da contenda, proclamam-se. ar- Ess't relação é puramente instrumental, mas per-
tistas puros e ocupam-se dos problemas formais, des- mite que se acumule a experiência necessária para o
cuidando dos técnicos. Os filósofos, no entanto, atri- restabelecimento, mais adiante, de uma nova unidade
buem a esta arte pura um valor autônomo e muitas cultural~ a qual obviamente não poderá consistir em
vezes demasiadamente alto, como é o caso de Schellll'g. um retorno puro e simples à situação pré-industrial,
Os técnicos estão em uma situação um pouco melhor q,.1.andoo arquiteto resumia sozinho todas as habili-
e, embora sejam considerados com um certo desprezo, dades, mas deverá.levar em conta a divisão de tarefas
não perdem jamais inteiramente os contatos com a e a especialização, agora já indispensável no mundo
vida real, ao menos dentro do âmbito restrito de seu moderno.
próprio setor; contudo, são os primeiros a se conven- Em suma, a arquitetura, que é um fato de coor-
cer de que as decisões sobre as finalidades remotas denação e de síntese, é dissociada em seus elementos,
de seu trabalho cabem a outros, e sua ação torna-se por obra da mudança de rumo ocorrida na segunda
abstraia, por outra razão, ou seja, por estar pronta metade do século XVIII. Para essa transformação,
a adaptar-se a qualquer situação, a seguir qualquer agem alguns motivos comuns da cultura iluminista: o
direção. espírito de pesquisa analítico e a confiança de que
Assim, a aquitetura em sua unidade é deixada existe um tipo de organização natural de todos os ele-
fora dos problemas importantes de seu tempo: os ar- mentos, dedutlvel dos próprios elementos; este último
tistas, que deveriam discutir os fins da produção ar- motivo, ao deparar com a reverência que se tem por
quitetônica, ocupanMe de problemas fictícios em pru- uma tradição ilustre, comporta-se de modo a que a
dente isolamento; os técnicos, empenhados nos meios linguagem clássica sobrevia formalmente e cubra com
de realização, esquecem o objetivo último de seu tra- a aparénte continuidade de repertório a transformação
balho e deixam-se empregar docilmente para qualquer em ato.
fim. Por conseguinte, aque1a parte da cultura arqui-
Vejamos, contudo, também o avesso. O isola- tetônica que prossegue em abstrato com a tradição an-
mento recíproco é a condição que tomou poss[ve1, tiga perde pouco a pouco o contato com a realidade
para uns e para outros, levar a termo suas respectivas de seu tempo. Enquallto isso, preparam-se os elemen-

30
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13. Munique,os ProplleusdeKlenze(1846)•

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31
tos de uma nova síntese, que se irá realizar quando como diz Salvatorelli, n que daí a pouco entrarão em
os artistas aceitarão empenhar-se sem reservas na or- conflito e condicionarão todo o pensamento político
ganização da nova sociedade. moderno: a exigência de liberdade individual e a rei-
O episódio narrado no princípio ilustra bastante vindicação da autoridade do Estado.
bem a natureza do problema de organização que se Um processo semelhante de polarização da estru-
coloca à sociedade industria]. tura social já está ocorrendo faz tempo na França, sob
Considere-se a afirmação de Le Chapelier: no o Ancien Régime; como diz Tocqueville: "o poder
novo Estado, "não existem mais do que os interesses central, • . já conseguiu destruir todos os poderes in-
particulares de cada indivíduo, e o interesse geral". termediários, e nenhum outro existe entre ele e os po·
Esse conceito encontra-se já em Rousseau, que atribui deres particulares, senão um imenso espaço vazio". 1~
o poder político à "vontade geral" da comunidade; a Por enquanto, nesse espaço, defrontam-se dois
vontade geral consiste naquilo que é comum à vontade princípios abstratos, o da liberdade e o da autoridade
dos vários indivíduos, subtraindo-se as diferenças de- e, como acontece no debate teórico, repentinamente
vidas aos interesses pessoais. A fim de que a von- um transpõe o outro, pois faJta a resistência de toda
tade geral possa se manifestar, é preciso que os ci- a estrutura intermediária.
dadãos julguem a cada um por si mesmos; então as O pensamento moderno, entretanto, não se con-
diferenças pessoais "destroem-se reciprocamente, e res-· tenta com essa a1ternativa e procura obstinadamente
ta como soma das diferenças a vontade geral". uma integração entre liberdade e autoridade, integra-
ção essa que as transforme, de noções abstratas e opos-
Mas, quando se cmun associações parciais às custas da tas, em realidades concretas e complementares. Tra-
çomunidadc, a vontade de cada uma delas transforma-se em ta-se de preencher, pouco a pouco, o "espaço vazio"
geral em relação a seus membros, e em particular em rela?o de Tocqueville com novas instituições que levem em
ao Estado; pode-se dizer, então, que não existem mais tantos
votos quantos são os homens, mas apenas tantos quantos são
conta as condições mudadas de economia e técnica,
as associações. As diferenças tornam-se menos numerosas e trata-se de aplicar o mesmo espírito de pesquisa sem
fornecem um resultado menos geral. Enfim, quando uma des- preconceitos que produziu tantos resultados nas inicia-
sas associ:ições é tão grande que prevale<:e aobre todas as tivas singulares, aos problemas de coordenação e equi-
outras, não ae terá como resultado uma soma de pequenas líbrio entre as iniciativas mesmas, de aprender a colo-
diferenças, mas uma diferença única; então não existe mais car as várias escolhas nos tempos e nas escaJas opor-
vontade geral, e a opinião que prevalece não é 5enão uma tunas, a fim de se obter um máximo de liberdade, com
opinião particular. t necessário, portanto, para que se tenha um mínimo de vinculações.
verdadcirrunente a expressão da vontade: geral, que n~o exista No campo político, essa tentativa leva o nome de
no Estado nenhuma sociedade parcial e que cada cidadão não democracia; no campo económico, leva o nome de pla-
pense sento de acordo com seu juizo. 16
nificação; as esperanças de melhorar o mundo que está
sendo transformado pela Revolução Industrial estão
A "vontade geral" de Rousseau é um conceito confiadas a essa possibilidade que dá agora os pri-
teórico; na atuação prática, seu lugar é assumido logo meiros passos inseguros, continuamente exposta ao
pelo Estado autoritário que, não encontrando no ca- perigo de fixar-se nas decisões autoritárias, ou de es-
minho a resistência de nenhuma sociedade parcial, tor- vair-se na multiplicidade das iniciativas individuais. A
na-se o único juiz daquilo que se deve eritender por arquitettira moderna nasce quando a atividade de cons-
público e por privado, Assim a democracia passa a lru!;ãO é atraída para a esfera dessa pesquisa.
ser tirania, sem que os termos aparentes do discurso Nos próximos capítulos, seguiremos o caminho di-
devam ser modificados, uma vez que o cidadão "po- fícil e não linear da arquitetura entre os acontecimen-
derá ser forçado a ser livre", como diz Rousseau, com tos na Revolução Industrial, partindo da posição pri-
uma frase da qual hoje podemos apreciar toda a trá- vilegiada de distanciamento na qual por enquanto ela
gica ironia. se fixou, até retomar contato com os problemas con-
Assim, na fórmula usada por Le Chapelier, en- cretos e retomar seu lugar, com plena consciência, na
contram-se indicados implicitamente os dois princípios obra de reconstrução da sociedade contemporânea.
que movem a Revolução Francesa: as duas almas,
L. SJoria dei NovecenJo. Milão, 1947,
17. SAl.VATORlil.LI,
16. RouSSEAu,JJ. li co/Urot<J socfa/e (1762), livro 11. p. 855.
Cap, 3, 18, TOCQUE.VILLE, C.A. Op. cit., p, 97.

32
PRIMEIRA PARTE:

NASCIMENTO E DESENVOLVIMENTO DA
CIDADE INDUSTRIAL
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14. Uma máquina ava podnglC$it(cercadel830 • ScienceM 1W111m, Londres).

34
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1,
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1· ~~N~~~~~~:i ~~Rlfrfr~c: fli::oLUÇÃO


INDU~TRIAL
'

A palavra "construções" indica, em fins do século·


XVIII, um determinado númerO de aplicações
Os materiais tradicionais, pedra, tijolos e telhas, ma--
deira, são trabalhados de modo racio@J. e são distribuí:.
técnicas: edifícios públicos e particttlares, estradas, dos de maneira mais liberal; a eles, juntam-se novos
pontes, canais, movimentos de terra ejobras urbanas: materiais, tais como o _fe!!o gusa, o -yWm_e..maistarde
aquedutos e esgotos. Compreende, aP,roximadamente, o concrew; os progressos da ciência permitem que os
todos os manufaturados de grandes dimensões em que materiais sejam empregados de maneira mais conve-
-!!A-'
não seja preponderante o aspecto fil,;;;;.;,:u.,lCO. niente e que sua resistência seja mc:dh!a; melhora-se.
1
Antes da Revolução Industrial, k arte de cons- o aparelhamentõ dos canteiros de obras e difunde-se
truir as ~êstava associada nlaisestritamente o uso das máquinas de construir; os desenvolvimen-
à arte de~ agora que o progres'Sotécnico trans- tos da G,:ometria pencitem. que· se representem por
formou as collStruções mecânicas de !Illaneira tão ra- desenhos, de modo rigoroso e unívoco, todos os as-
rlica1,estas caem cada vez mais nas m'.ãos dos especia- pectos da construção; a instituição das escolas espe-
listas, e a palavra "construções" sem ~jetivo designa, cializadas fornece à sociedade grande número de.....Ifil)-
em essência, as atividades ainda ligadas aos sistemas fissionais treinados; a imprensa e os novos métodol
tradicionais e habitualmente associada~ ao conceito de de reprodução gráfica permitem que todas as con-
"t._rquitetura". No momento em que:!alguma de tais .ü.ções sejam prontamente difundidas.
ativuJãtles-desenvolve-se por sua conta. de modo con-
siderável, ela se destaca das outras lle transforma-se
em uma especialização independente; ~ssim1 por exem-
plo, até 1830-40, as vias férreas fazem parte dos tra-
z 2. m segundo lugar, aumentam as ~de_y
os s em jogo; são construídas estradas mairamplãs,
canais mais largos e profundos, e cresce rapidamente
o desenvolvimento das vias de transporte por água
tados sob're construções, e após ess~l data desapare- e por terra; o aumento da população e as migrações
cem e dão lugar a uma literatura indel)endente. de lugar para lugar req~erem a construção de novas
Naturalmente, a continuidade reIStiva com siste- casas, em número. jamais visto até agora; o cresci·
mas tradicionais não exclui o fato dC que a arte 'de mento das cidades requer. implementas cada vez mais
construir sofra transformações nesse!!período e que extensos e capazes; o aumento das funções públicas
surjam muitos problemas novos. _As mudanças.princi- requer edifícios públicos mais amplos, anquanto a mul-
odem ser resumidas em_tr.l.u1~~f°:s. tiplicação das tarefas e o impulso dado pelas especia-
m n~1rQ_ I11gar-',. a R voluçãl~ Industrial mo- lizações requerem tipos de edificação sempre novos.
a técnica ~tru~s, embora possa. fazê-lo A economia industrial não seria concebível sem Ull"
de mane s visível do que e, outros setores. novo aparelhamento de edüícios e de instalações nc

35
- fábricas, .Joias..:Jkpósitoa. portm que devem mais rapidamente- varia o valor do terrei;to, mais curto
ser cilmtrufdõs •elllctempo relativamente curtot apro- se torna.o ciclo econômico e a própria vida do edifício,
veitando a redução na taxa de juros, a qualpérmite a I:{este capitulo falaremos dos progressos da téc-
imobilizaçãode vultosas somas em aparelhamentos que niça de çnnstmção; os outros dois pontos serão reto-
jrão frutificar somente a longo prazo. mados a seguir, posto que as conseqüências das mo-
~Fmalm.ente, os edifícios e os implemeotos, atraí- dificações quantitativas e da velocidade diferente das
\i?spara o giro da economia capitalista, adquirem uin transformações tomar-se-ão evidentes e apresentar-
significadoum tanto diverso daquele que possuíam no -se-ão sob a forma de novos problemas somente depois
passado. Não são mais vistos como arranjos feitos de de 1830.
uma vez por todas mediante o desembolso de :umca·
pital que, no fundo, estâ perdido, mas como ~-
JMD!QI; amortizáveis regulanneote, juntamente com os 1, Os progressos clentfflços a o ensino
outros meios de produção. Como observa Ashton,
"um novo ~nso da época foi uma das mais notáveis A ciência das construções, da maneira como é
caracterí~ticas psicológicas da Revolução Industrial"; 1 entendida boje, estuda algumas conseqüências. parti-
antes, os objeos, modificados muito lentamente, po- culares das leis da mecânica e nasce, pQ:Cie-sedizer,
diam se~ considerados :como de fato imóveis, mas,ago-- no momento em que essas leis são form:Uadas pela
ra as exigências de funcionamento mais preciso e o primeira vez. no século XVII; Galileu, em 1638, de-
hábito d~ fazer preyisões econômicas mesmo a longo dica parte de seus diálogos à discussão de problemas
prazo não permitem que esse paralelismo seja man- de estabilidade. ª
tido. Toma-se um hábito o fato de perceber com Em 1676, R. Hooke formula a célebre lei que
âcuidade as modificações dos valores, e. a atenção passa leva seu nome; entre fins do século XVII e início
a voltar-se aos aspecto~ dinâmicos, antes do que àque- do século XVIU, numerosos -homens de ciência, entre
les estáticos. · os .quais encontram~se i:n~ Mariotte e Bernoulli,
Para essa finalidade, é de grande importância a estudam o pro~lema da exãó'. e Marlotte, em 1684,
distinção entre edifício e terreno. Enquanto um edi- introduz a noção do e~ (lugar das fibras que
fício era consid'"erado como dÕtado de uma duração r.ão são nem comprimidas, nem estiradas, em um só-
indefinida e o teheno como empregado de maneira lido submetido a flexão), mas define sua posição de
estável, o valor deste estava, por assim dizer, incorpo- maneira eaada; a solução correta é encontrada por
rado ao valor do edifício; contudo, se a dura;ão do Parent. em 1713.
edifício é considerada limitada, o terreno adquire um Enquanto isso, a difusão do eswr.!!Qcientifico e a
valor econômico in~varlável de acordo com aspiração dos arquitetos em verifícat os limites do em-
as circunstâncias e, se as transformações de edifica- prego dos materiais e dos sistemas de construção tra-
ção forem bastante freqüentes, nasce um mercado dos dicionais estimulam várias ee'f9uisas ex.pefflilentais.
terrenos. · Em Roma, discute-se sobre as condições de esta-
Exatamente nessa época, graças à influência das bilidade da cúpula de S. Pedro, e Benedito XIV con-
teorias econômicas liberais e às exigências do erário fia ao marquês Poleni, físico e arqueólogo da Univer-
público, o Estado e os demais entes públicos alienam sidade rJe Pádua, uma perícia sobre o assunto, publi-
quase em toda parte seus domínios, e o solo da cidade cada em 1748.
praticamente pas~a às mãos dos partiêu1ares, Desa- Em Paris, nasce amplo debate em relação às obras
pare.fe, assim, qualquer obstáculo à.livre compra e ven- da igreja de Sainte-GeneviCve, 3 id_ealizada em 1755
da dos terrenos. por Soufflot, com a intenção de atribuir aos elementos
No próximo capít.ulo, serão vistas as conseqüên- tradicionais uma função estática precisa, e as dimen-
cias de tais fatos sobre o organismo urbano; por en· sões mínimas compatíveis com, tais funções. Nessa
quanto, devemos notar que o valor potencial do ter- ocasião, o conceito de carga d.e segurança é tomado
renp, face a uma possível transformação, toma-se uma
medida de suma importância para julgar a conveniên- 2. O.u.u.EI, O~ Dialogo .mi mpsimi .si.stemi (1638). li
Diálogo, dia lII,
cia económica do edifício que o recobre e, quanto ,3. RoNDl!LEr, O. Trattato teoríco e pratico dell'al'le dl
/abbricare (1802·17), Tmd. it., Mântua, 1832, Introdução.
J. As1m»r, T. S. Op. çiL, p. 129. p. oc

36
il
preciso, e inventam-se mecanismos·camttes de medir a Em 179C, Talleyrand apresenta à Assembléia
resistência dos materiais. I! Constituinte um re1ato no. qual·deplora a variedade e·
Quase que datam da mesma épocl. os estudos fei- a confusão das velhas unidades de medida e propõcc
tos por Coulomb sobre a torção, sob~e o impulso das a adoção de um sistema unificado. Após longa
terras e dã rotação, e o descoórimentb de uma equa- discussão, nomeia-se Uma COJD1ssão.com~sta por C. ·
ção geral para a determinação do cixoli'neutro,
segundo Borda, A. Condorcet, J. L. Lagrange, P. S. Laplace e
as colocações de Parent. G. Monge, para decidir quanto à unidade mais opor-
Todos os resultados desses estudos são coorde- tuna; discute-se se se deve tomar como referência o
nados e completados nos primeiros deçênios do século pêndulo (uma vez que seu comprimento, de acordo com
XIX por Louis-Marie H. Navier Oj,85-1836), con- a lei de Galileu, é proporcional ao tempo de oscilação)
siderado o fundador da moderna ciência das constru- ou uma determinada fração do equador ou do meridia-
ções; o texto de suas aulas dadas na l:foole Polytechni- no, e é proposta a quadragésima milionésima parte do-
que de Paris é publicado em 1826. li meridiano terrestre. Os trabalhos de medição, con.-
fiados a um.a comissão geodésica, duram até 1799, en-
A ciência das construções, como diz Nervi, "de-
mocratizou e populanzou o fato esta!_Ícõi.;1permitindo quanto uma outra comissão decide quais as regras de
que muitos projetistas enfrentassem ae maneira corre- fonnação das demais unidades e, propõe, e em 1795,
o sistema métrico decimal O modelo em platina do
ta, com fórmulas preexistentes, algll'ns temas antes
reservados a uma minoria de pessoas Cxcepciona?mente metro, de acordo com as medições efetuadas, é depo-
bem dotadas. Além disso, produziujj uma separação sitado no Museu de Artes e Offcios de Paris em 4
entre engajamento teórico e prático, cqntribuindo para MeS$idor do ano VII (22 de Junhode 1799) e o novo
a desagregação da cultura tradicional, mas também sistema 6 tomado obrigatório na França em 1801.
para a mobilização do repertório de ni'étodos e de for- Napoleão não vê com simpatia essa inovação
mas herdados da Antiguidade. li abole-a em 1812, porém as exigências de unifonnidade
A.pesquisa científica age sób ou~o aspecto sobre e de certeza que levaram os revolucionários a insti-
a técnica das construções, modificandO os instrumen- tuir uma nova unidade de medida tomam-se cada vez
tos de projeto; também aqui as duas iinovações prin-
1
mais evidentes com o desenvolvimento da indústria, e
cipais têm origem na França:. a ínve~ção..J!a geome- muitos Estados aderem ao sistema métrico decimal: a
tria descritiva e a introdução do ·sistema métrico
Itália em. 1803, a Bélgica e a Holanda em 1820, e
aec1mãl__,:_ i'1 - OSEstãdossõl-amencanos depois de 1830;em 1840,
As regras de geometria descritiva são formuladas o sisteiiiã"é retomãdo na França. O mo(lelC>definiti-
por Gaspard Monge (1746-1818) ehtre os últimos
vo é construído em 1875, e em 70 de maio do mesmo
anos da Monarquia e os primeiros cla Revolução. li
1

Generalizando os métodos introduzi~~ pelos tra'.tadis-. ano é ratificada a Convenção Internacional do Metro,
tas do Renascimento, Monge dá uma foÍ'ma rigorosa aos à qual aderem gradualmente todos os países, exceto
vários sistemas de representação de um 1lobjeto tridimen- os anglo-saxões e poucos outros.
sional sobre as duas dimensões da folha de papel; os A adoção de um sistema unificado facilita a di-
projetistas estão, assim--;-áe posse -c1e
-upiproced.iiiiênto fusão dos conhecimentos, as trocas comerciais, efut~
universal para determinar univocamen'.ie, por meio do nece à tecruca dás eonstruções um instrumento geral,
desenho, quaisquer disposições dos elementos da cons- cuja precisão pode ser levada até onde for pr'ec~
trução, por mais complicada que esuil seja, e os exe- segundo as exigências cada vez mais rigorosas dos no-
cutores possuem uma orientação parai interpretar uni- vos procedimentos. Ao mesmo tempo, influi nos pro--
vócamente os gráficos elaborados. 1 ·
jetos, e ''in~ uma certa desintegração da arqui..
O sistema métrico decimal_jJ_!H!.C?,àuziiN..pelaRe- tetura", como expressa Le Corbusier, 8 porque 6 uma.
volução Francesa, em seu esforço de niudar as institui- medida convenciona], independente do homem, en-
ções da velha sociedade de acordo c'Om modelos ra-
quanto que as antigas medidas - pés, braças etc. -
c;ionais. I! continham. sempre uma certa referência à estatura
4. NERVJ, P. L. Tecniça çosttutti!a e architettura. humana.
ln: p.11•·
A.rchitem,1rad'orrl. Florença, 1955,
Zurique,
S. MONGE, G. Géomélrie Jescrfptive!I Edição de 1799 5. I..E Co!!Jl,l,SIElt. Oeuvre Complete 1938-46.
em· diante. 1 1955. p. 170. • f

37
A França, que está na vanguarda do progresso Essas providências enfraquecem o prestígio ;á
científico,serve como modelo ils outras nações quan- escassÕ dos arquitetos; ao mesmo tempo, a posição
to à organização didática. dos engenheiros é reforçada, reunindo todos os ensi-
O ensino da arquitetura compete, no Ancien Ré- namentos especializados em uma organização unitária.
gime, à Académie d'Architecture, fundada em 1671. Entre 1794 e 1795, é instituída a :8cole Polytechnique,
Essa instituição goza de grande prestígio, é guardiã que utiliza uma boa parte do p~cõfri'"cle
da tradição clássica francesa e do grand gotlt, porém Méziàres; a escola acolhe um número limitado de jo~
se mantém aberta às novas experiências e ao progres-, vens, após exames severos e após haver-se assegurado
so técnico, discute as teorias racionalistas, e participa "do apego aos princípios republicanos"; estes estudam
com vivacidade na vida cultural de seu tempo. em comum por um biênio, depois passam para a es-
No entanto, as tarefas sempre mais extensas e cola de aplicação: a :Gcole des Ponts et Chaussées ~e
complexas que são assumidas peta adniinistração do Paris a gcole d'Application d'Artillerie et de Géme
Estado colocam a exigênciade formar um pessoal téc- MilibÜ!ede Metz, a Ecole de Mines de Paris, a Ecole
)lico ,rn,ecialii~º; as tradições humanistas da Ã'êãcfe- du Génie Maritime de Brest. A ordem. dos estudos,
mia e da esco a anexa não se prestam à instrução de baseada na Matemática e na Física, é fixada por
técnicos puros e, assim, em 1747, funda-se a Ecole Monge.
des Ponts et Chaussées, para preparar o pessoal do O exemplo francês é seguido por muitos Estados
.rcorps des Ponts et Chaussées, fundado em 1716 e, do continente europeu; em 1806, uma escola técnica
em 1748, institui-se a '.ecole des Ingénieurs de Mé- superior é instituída em Praga; em 1815, em Viena,
zie!es, da qual saem os oficiais do Gênio. O ensino em 1825, em Karlsruhe. A ordem dos estudos -
fundamenta-se em rigorosas bases científicas. nessas escolas, como nas demais que virão posterior-
Estabelece-se, pela primeira vez, o dualismo entre mente - - é sempre modelada sobre a parisiense.
"el!fillnheif&' e "arq~tç,~por-enquantb, o brilho A Inglaterra constitui uma~, e o ensino
oa Academia ofusca as prosaicas escolas de pontes e técnico sõmente será-organttâOO em moldes sérios no
estradas e de Méziêres, e os engenheiros parecem estar último decênio do século XIX. Os protagonistas da
destinados a ocupar-se com alguns temas secundários; Revolução Industrial são1 em grande parte, autodida-
o progresso da. ciência, entretanto, age de modo a am- tas - como George Stepbenson, que aprendet: a ler
pliar as tarefas dos engenheiros e a restringir as dos e escrever quando tinha dezoito anos 7 - ·, ou sa~m
arquitetos. Em um certo ponto, a Academia percebe das academias fundadas pelo zelo dos não-confornus-
que as polêmicas sobre o papel da razão e do senti· tas, tais como Boulton 1 Roebuck e Wilkinson, junta-
mento na arte não são apenas discursos teóricos, mas mente com Defoe e Malthus. s A Institution of Civil
sim signos de uma irresistível reviravolta cultural e de Engineers, fundada em 1818, contou com apenas três
organização, e fecha-se, pouco a pouco, em uma defesa diretores graduados dentre seus dez.
intransigente da "arte" contra a "ciência". Por essa razão, e pelo caráter menos rígido da
A intervenção da Revolução modifica mais uma sociedade inglesa, o ~te-entre engenheiros e ar-
vez a situação. A Academia de Arquitetura, bem quitetos não é tão -forte quanto o ~existe_no con-
como outras de Pintura e Escultura, é suprimida em tinente; os a7qü:itewssãõ1iiêfü:)séiosos de suas prer-
1793; a escola é provisoriamente mantida com vida rogativas culturais, e tanto uns quanto outros freqüen-
e quando em 1795, forma-se o Institut para substi- temente passam de um gênero a outro de projeto. Th.
tuir as velhas academias, a escola. passa às dependên- Telford, antes de dedicar-se às pontes e às estradas,
cias da seção de Arquitetura do novo complexo. constrói'casas em Edimburgo entre 1780 e 1790; John
O controle das obras pela administração estatal, Nash não desdenha a oportunidade de projetar uma
contudo, passa para o Conseil des Bâtiments Civils, o ponte de ferro; I. K. Brune1, autor da célebre I?°nte
qual organiza uma escola. própria ''para os artistas en- suspensa de Bristol, também é ~nstrutor de navio~ a
carregados da direção das obras públicas". E, mais, vapor e, mais tarde, uma arquttetura representabva
com a supressão da Academia, o útulo de arquiteto como o Palácio de Cristal pode ser confiada a um
perde todo valor de diferenciação; mediante o paga~ jardineiro coreo,J. Pa'xton.
menta de uma taxa, quem quiser dedicar-se à Arqui-
tetura pode ser chamado de arquiteto, independente- 7. TuEVELYAN, G. M. Op. cit., p. 225.
mente dos estudos feitos. 8. AsttTOt,i:,·T. S. Op. ciL, pp. 27·29.

38
1

11
Também na Inglaterra, contudo. p progresso téc- gens versáteis mais extraordinárias da época. Cégo
nico termina restringindo as atribuiça~ tradicionais do desde a idade de seis anos, isso não o impede de pas-
arquiteto e faz com que uma parte cada vez maior das sar por vários ofícios: tocador ambulante, organizador
tarefas profissionais caia. nas mãos dos ~iços espe- de brigas de galos, comerciante de cavalos, sargento de
cializados; isso parece evidente sobrC'tudo depois de recrutamento, i:omerclante de tecidos de algodão, con-
1830, ao mesmo tempo que a sociedade transformada trabandista de chá e de bebidas, condutor de diligên-
pelo Revolução Industrial fixa-se Cf
forma$ mais cias, até que em 1765 decide dedicar-se à construção
de estradas e projeta pessoalmente mais de cento e
estáveis. 1(
oitenta milhas. Figura do mesmo tipo é James Brindley
li ,....-:--., (1716-1772), construtor de moinhos, analfabeto, que
2. O aperfeiçoamento dDG~Gtemas da ~ru.truçio 1 executa, em 1159, o primeiro importante canal nave-
tracliclonalo · I! '--_./ gável na !og1aterra, para o Duque de Bridgewater.
Uma das principais preocupações de governantes
Em finais do século, os engenheiros crescidos no
e empresários, DO sécu1o XV!II, é a conStrução de
novo clima científico suplantam. esses projetistas irre-
gulares. Na França, P. M. J. Trésaguet (17!6-1796),
novas e eficientes vias de comunii;a&ão: estradu e na Inglaterra, Titomas Telford (1757-1834) e John
canais. . li - Macadam (1756-1836) introduzem melhoramentos
---Na França, a Monarquia dedica grandes cuida- léCDicasdecisivos. Ttésaguel é funcionário por pro,.
dos ao sistema viário; as estradas ieais, segundo o
fissão em Limoges; Telford, filho de ~ pastor de
regulamento de Colbert, freqüentemente são muito lar- ovelhas escocês, é um.a dás personalidadeS mais impor~
gas - de treze a vinte metros -; rilais por 1azõcs tantes na história da Engenharia, e seu nome virá
visuais do que por exigências do ~!}sito, e são tra- novamente à tona quando abordarmos as pontes de
çadas com exb'ema regularidade, geralmente em linha ferro. Macadam é um comerciante que passa a oficial
reta de um centro a outro; uma ordenação de 1720
durante as guerras napole6nicas e se dedica, já com
recomenda que as estradas tenham l\"o alinhamento uma certa idade, à coristrução de estradas; ele efetua
mais direto possível, por exemplo, de campanário a
o passo tecnicamente mais importante, abolindo as
campanário'!." Sua qualidade não col'responde a essa
pedeição: o empedrado e o leito da estrada, executa- (undações de pedras grandes e sugerindo o uso de um
dos por métodos tradicionais, cxigeni) reparações de-- extrato superficial tão impermeáVCIà águaquanto pos-
masiadamente freqüentes, as quais devem ser feitas ~ tomãdo compacto com põ-dc-matcriãis êãléirios;
pelas populações dos territórios atravessados, pelo essa inovação diminui em muito o custo das estradas,
sistema das corvées; este 6 um do~; encargos mais e o macadam - como é chamado ainda esse método
pesados sobre os ombros dos trabalhadores frances.es; - toma-se de uso geral
pois as prestações variam entre trili.ta a c:inqUenta Enquanto isso, os progressos da geometria des-
dias por ano. li critiva permitem dar forma satisfatória aos projetos
Na Inglaterra, até a metade do século XVIII. a que, antes,. deparavam-se com dificuldades intranspo-
rede viária é quase impraticável; melhora de 1745 níveis de representação, e deviam praticamente ser
em Qiante, quando o Par}junento coÇ a promulgar definidos no local da execução; aprende-se a repre-
suas Tumpike Ac:ts, que concedem a8s particulares a sentar o terreno c:om curvas de nível. e desde 1791
construção e manuten;ão das estradas: por conta pró- Monge propõe um método cientifico para calcular os
pria, exigindo dos usuários um pedágio. Assim o transportes de terra.
custo desse serviço pt\blico é sustentado pelos parti- As construções de estradas e canais são intensi-
culares interessados em manter· as vi8S em boas con- ficadas nos primeiros anos do século X:X; enquanto
dições. As Turnpike Acts, no ter~iro quarto· do os governos ocupam-se sobretudo das estradas. que
século XVIII são mais de quatrocentos e cinqüenta; possuem conjuntamente funções comerciais e estraté-
os projetistas são ainda experimentadÇ)res que seguem gicas - 6 digno de nota o vasto programa de estradas
métodos tradicionais e, dentre estes, ~taca-se a figu- realizado por Napoleão -. os canais muitas vezes são
ra de John Metcalf (1717-1810), uma das persona- construídos po_!J)811iculares,com objetivos estritamente
~nômi.cos: são as vi.as de trãnspoitê essenclais para
9. ALBENOA.G. "Le strade e i ponli" J!ln: S10,ia dei/a. as :natérias-primas necessárias à indústria e para as
tecnlca dal Medioel'O lll nosrrl gior11/. Milão, A. Ui:cclli, (945,
p. 66S. i! mercadcrias que saem das oficinas.

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15. A pontesobleorlo Limmatem WcttingenQ. U. Grubemann, 1777;crn;T,arraro,de G. Rondelet,prancha 103).


16. Rcpresen~ do eorte das pedU$ (do Tmtuto de O. Roudclet, pnwcha.40) •

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As novas construções de estradas efetuadas entre de muitas outras cm várias cidades da França: ele se
fins do século xvm e princípio do ~XIX re- ocupa também de obras de estradas, constrói o canal
querem um grande número de novas ~ frcqUen- de Borgonha e uma parte dos esgotos de Paris. Mui-
tcmentc muito trabalhosas. Este tema estimula. mais tas das inovações introdurldas por Perronet aindaet-
do que qualquer outro, o progresso d08 métodos tra- tão cm uso: o an:o circular rebaixado, as cornijas
dicionais de construção em madcira e em pedra de mais altas do que o nível máximo da água e os pilares
corte, e solicita o emprego de novos materiais: o de dimensões reduzidas funcionando somente para car·
~sa. gas centrais; procurando tomar mais leve a estrutura,
Os novos conhecimentos científicos permitem que decompõe, ainda - na ponte de Sai.nt·Maxence ~.

~
e aproveite os materiais at6 o limite de suas possibi- os pilares em grupos de colunas, e projeta a mesma
lidades, e a experiência assim adquirida é empregada disposição para a ponte da Conc6rdia, sendo porém
frutiferamente em um grande número de temas mais obrigado a abandoná-la em virtude da hostilidade de
!!J ropriamente rc~ 3i cdifíçigJ. seus colegas. Procurando aproximar-se do limite dc-
~ O uso da 1aaei9 nas pontes e nas grandes co-, rcsistêocia dos sistemas de construção, irá sofrer con-
bcrturas possui ulll&'fradiçãoininterrupta desde a Ida- tinuas critiCas; contam as crônicas que um membro da
de Média em diante, e produziu obras notáveis e Assembléia de Pontes e Estradas, em 1774, teria ex·
complexas, as quais, entretanto, não se afastam dos clamado, irritado: "Ah, maldita leveza! Será, então,
conceitos estáticos elementares: a trave, a trave re- necessário que sempre teu culto e tCU;i altares se es-
tabeleçam no seio de minha pátria?" 11
forçada por flechas, a armawá() triangular de susten-
tação, o arco. No século XVI, PaDadio formula uma A "leveza das pontes de Perronet é obtida cui·
teoria de traves reticulares, porém suas aplicações são dando-se perfeitamente do aparelhamento em pedrade
extremamenteescassas; agora este conceito é retomado corte, da armação e das fundações, Nessa época, Ron-
pelos construtores suíços e permite que Iohann U. delet e outros dão forma científica à atereotomia -
Grubemann (1710-1783) execute pontes de concepção "arte de talhar as pedras segundo uma forma dada" ª
brilhante: ã. ponte sobre o Reno em Sciaffusa, com - baseada nos princípios da geometria descritiva de
duas arcadas de 59 metros cada, e a ponte sobre o Monge; qualquer encaixe ou combinação de elementos
Límmat em Wettiogen (1777-78), com uma s6 arcada de pedra. embora de forma complicada, pode ser re-
de 119 metros; infelizmente, esta última foi destruída presentado exatamente e levado a eleito (Fig. 16).
em 1799 por motivos bélicos 10 (Fig. 15). As obras de Perronet - pontes e canais, com
todas as suas particularidades de construção - são
Nos Estados Unidos, em 1804, constrói-se a poo· publicadas em 1182, em uma esplêndida série de pran-
te de 104 metros sobre o Schuylkill, perto de Filadél- chas; o volume 6 reimpresso em 1788, com a adição
fia; no mesmo ano, Burr CXC(:Ula a ponte de Trenton de outros projetos e de dois memoriais sobre as arma-
sobre o Delaware, com duas arcadas de 59 e 61 me- ções e sobre os movimentos de terra. 13 Durante a
tros. Em 1809, Wicbeking - engenheiro edncado na Revolução, o velho construtor dedica-se aos estudos
França - fabrica a ponte sobre o Regniz, em Bam- te6ricos e publica, em 1793, um Memorial robre a
berg, com 71 metros,
pesquisa dos meios para COff!lruirgrande.rarco, de
Na França, enquanto isso, a construção em @a l pedra de duzentos, treuntoa, quaJrocentos e atJ qui-
de cone é levada ao mais alto grau de perfeição, e os nhentos pls de vao.
construtores franceses servem de exemplo a toda a
Europa. como nos tempos do gótico. TamMm neste
campo é determinante a obra dos engenheiros saídos
da Ecole des Ponts et Chausséea. 3. Os;::v ~ria~
Jean-Rod Perronet (1708-1794), diretor da esco- O erro e o vidr ' -' o empregados na construção
la parisiense desde sua fundação (1747), renova a desde tem~~ mas é somente neste perío-
técnica das pontes em alvenaria; ele é o autor da ponte do que os progtessos da indústria permitem que suas.
de Neuilly (1768) (Fig. 17), 4 ponte da Concórdia aplicações sejam ampliadas, introduzindo na técnica
(Fig. 18), terminada pouco antes da Revolução, e das construções conceitos totalmente novos.

IO. Ver O. RoNDELET,Tr4llaJo cit., livro V e pranchas 11. Cit. em a. ÁI.Bf.NOA,op. cit., p, 692.
102-104, 12. RoN'PEt.ET,O. Traltalp cit., 1, 1, p. 227,

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19, 20, 21. Paris, a igreja de Sainto..Gene~e (J, G, Souffiot, 1755): a armaçãoem fen:o da prona:ve (do Trattato de G. Rondelet, prançha ~51},a
plantae a fachada.

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22, 23. A ponle liObreo Severa em Coalbrookdale (r, F. Prltciuud 1777}eaponter;obreo WcaremSunderland (R, Bnrdon, 1796; doTrattato de O.
Rondele1,pr.inchas 157e 158).

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O ferro é usado inicialmente apenas para tarefas 1779 sobre o Severn, perto de Coalbrookdale. u O
acessórias: para corrente!JIDlntes e para ligar entre desenho é preparado pelo arquiteto T. F. Pritchard,
si as pedras nas cOÕSfruçõesem pedra de corte. Por de Shrewsbury; o arco no pleno centro do vão de cem
exemplo, na pré-nave construída por Rondelet para o pés é formado pela união de dois semi-arcos de um só
Panthéon de Soufflot, em 1770, a estabilidade real da pedaço que são fundidos na oficina vizinha dos Darby
cornija é assegurada graças a uma fwa rede de barras (Figs. 22 e 24).
metálicas, dispostas racionalmente de acordo com as Em 1786, Tom Paine (1737R1809) - que de-
várias so!,icitações, quase como a annação de um.a pois irá tomar-se famoso como escritor político - de-
obra moderna em concreto 16 (Fig. 19). senha uma ponte em gusa para o rio Schuyl.kill e vem
No mesmo peáodo, o ferro é adotado para algu· à Inglaterra para patenteá-la e para fazer com que os
mas coberturas pouco carregadas como a do Théâtre pedaços sejam construídos na Rotherham Ironworks.
Français de Bordeaux, devida a Victor Louis (1786). Os elementos da ponte são fundidos em Paddington,
Contudo, o desenvolvimento pequeno da indústria si- e expostos ao público mediante pagamento; porém,
derúrgica coloca um limite intransponível à difusão com a irrupção da Revolução Francesa, Paine parte
desses sistemas. N) Ing~term, dão-se os passos deci- para Paris e deixa a ponte nas mãos dos credores; os
si~u.e....permitem,_em.. fms õQ seclllo;::-awpmta,.i: a pedaços são adquiridos por Rowla.'ld Burdon, que cons-
produção de ferro na ms_dJdaadequada às..novas..exi- trói em 1796, sobre o rio Wear, a ponte de Sunder-
gências.- · land, com o considerá.vel vão de 236 pés (Fig. 23).
No mesmo ano, Telford constrói uma segunda ponte
-- - Ó minério de ferro era fundido, tradicionalmente, sobre o Severo, em Buildwas, com 130 pés de compri-
com carvão vegetal; o produto era refundido e derra- mento e pesando 173 toneladas, em vez das 378 da
mado em fôrmas para a obtenção da gusa ou trabalha- primeira ponte em Coalbrookdale. •
do na forja para a obtenção do ferro doce. Em época As pontes de Paine e Telford são construídas com
não precisada, durante os primeiros decênios do século um sistema bastante diverso do empregado por Wil·
XVIII, Abramo Darby, de Coalbrookdale, substitui o kinson. As arcadas são compostas por um grande
pelo ÇOQlli,e mantém o processo em se- número de pedaços de gusa, colocados uns ao !ado
ca,JX<l.0---vêgêial
gredo;-cé,nfiand<ro 1a-;(eus descendentes. Em 1740, dos outros como os pedaços de pedra; a maior ~
Huntsmann, relojoeiro de Sheffield, consegue fundir o tência do novo material pennite naturalmente vãos
aço em pequenos cadinhos, obtendo um material mui- maiores, pesos menores - os pedaços são formados
to melhor do que o conhecido até então. como conchas ocas - e uma execução muito mais
Depois da metade do século, esses progressos são rápida, porque os pedaços chegam já trabalhados da
de domínio público, e a procura de armas para a fundição.
Guerra dos Sete Anos favorece o nascimento de muitos Em 1801, Telford propõe a substituição da ponte
novos estabelecimentos, dentre os quais o de John de Londres por uma. única arcada em gusa, com 600
Wilkinson (1728-1808) em Brosefey. Wtlkinson é a pés de comprimento; o einpreendimento é abandonado,
figura central na história das aplicações técnicas do não porque se ponha em dúvida as possibilidades téc-
ferr~u~ Boulton e Watt a aperfeiçoarem a nicas ou a conveniência econômica, mas em virtude
~vapor, utilizando sua patente para a abertu- das düiculdades para expropriar os terrenos nas duas
ra dos canhões, que é aplicado ao cilindro do novo extremidades da ponte.
engenho; introduz na França a primeira máquina a Nas três primeiras décadas do século XIX, Tel-
vapor; estuda sempre novos sistemas para o aproveita- ford e~rega a gusa para.. construir numerosas pontes,
mento industrial da gusa. Morto em 1808, é sepulta- pontr.;canais e pontes-aquedutos; a seu lado, traba-
do em uma barra de gusa e uma coluna de gusa é lham J. Renni~stríck. Também John Nash
dedicada a sua memória em Lindale. (1752-1835)-engaJa-se na construção de uma ponte
Provavelmente deve-se a Wilkinson a idéia da para um cliente pardcular; a ponte desaba no momento
primeira ponte de ferro, que é construída de 1777 a em qúe é terminada, mas o cliente não se dá por ven-
cido e faz com que ele construa uma segunda ponte,
13. Pl!RIWNET,1, R, Descriptfrms des pro}ets et de to em 1797, que ficará em pé até 1905. Supõe-se tam-
constrr.ctlon des ponts de Neuilly, de Nantes, d'OrléU11s,de
Louis Xl'l etc. Paris, 1788. 15. Ver G. RONDELET,Trattato eil., livro VII, seção 3 e
14. Ver G, RONlllU.E.T,Trai/alo cit., prancha 151, prauehas 147 a 171.

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:ui. Brighton, o pavilhão IM (J, Nash, 1818). ij


27. Berlim, projeto para o ~alllmick (IC. fl. Sehinkcl,1818).

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28, 29. Paris, a Pont des Arts(De CessarteDilio11, 1803; prancha160 do Trattato de O. RondeleO•

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30. A ponte sobre o estreito de ~way (Th, Telford!! 1826; do Tnztt4tq de O. Rondelet. prancha~U).

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31.A ponte sobre oAvonemBrisaol(I.K. BfllDel 1836).

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49
bém que Nash tenha tido alguma participação no pro- mil para 185 mil toneladas. Assim, torna-se possível
jeto da ponte de Sunderland. a construção de grandes empreendimentos em ferro:
Enquanto isso, a gusa difunde-se largamente na a Pont des Arts, executada entre 1801 e 1803 pelos
construçãoõêêãiffciõs; colunas- e· vigas em gusa foc- engenheiros De Cessart e Dillon (Figs. 28 e 29) e
m_~qúeleto-de-müitOs cdiffcioSiri_dqTttíaise__per- a cópula da sala circular do Halle au Bié de Paris,
tpi.tem cobrtr gfãnãeseseços ·com estruturas relativa- construída por François 1. Bélanger (1744-1818) em
mentê'têiiues e ri[c>_y:úl:J.mã.'1:eis.
B digno de nota o 1811. 19 Até meSII!oPercier e Fontaine, assim come
projeto parã·a fiação de algodão Phllip & Lee, cm os arquitetos ingleses do tempo, não desdenham o
Manchester, constrcido por Boulton e Watt em !801. 10 emprego da gusa em muitas aplicações secundárias e
Um viajante francês, visitando a Inglaterra em decorativas.
1837, escreve: Depois da Restauração, o emprego do ferro es-
tende-se, na França, a um grande nómero de manu-
Sem a gusa e o ferro, aquelas construções tifo bem are- faturados para a construção. Em 1824, Vignon
jadas e iluminadas, tão leves em aparência e que, entretanto, constrói, em ferro a cobertura do mercado de Made-
sustentam pesos enormes, como os armazéns de seis andares leine; em 1830, Lenoir executa em Paris um armazém
na doca de Santa Catarina em Londres, seriam masmorras inteiro de ferro; em 1833, A. R Polonceau (1778-
espessas e escuras,com postes pesadose feios de madeira, ou
paredes com contrafort.!S de tijolos.. n
1847) executa a ponte em gusa do Carrousel; em
1837, a cobertura de madeira da catedral de Char-
tres é substituída por uma estrutura de ferro revestida
J. Nash emprega a estn.:tura em gusa para o pavi- de cobre. Em 1836, surge o Traité des consJructions
lhão real de Brighton Cm 1818 (Fig. 26); grades de et poteries en fer de Eck e, em 1837, Polonceau in-
janela, balaustradas, cercados e decorações em gusa venta a armação triangular de sustentação que leva seu
são cada vez m11isusados nas construções comuns e nome.
também das obtas representativas, como na base da
Em fins do século XVlli, toma consistência a
Carlton House Terrace eín 1827. 13 As decorações
idéia de pontes suspensas por correntes de ferro, que
em gusa deste primeiro período - últimas décadas do
se adaptaiij melhor do qu"eas pontes de gusa com gran-
século XVIII e primeiras do XIX - freqüentemente des vãos e opõem uma rigidez menor às solicitações
são de ótima fabricação e bastante superiores àquelas
dinâmicas. 20
comercializadas no período seguinte. Os melhores ar-
tistas, tais como Robert Adam, fornecem às vezes os O primeiro exemplo de que se tem notícia é uma
desenhos. passarela para pedestres sobre o rio Tees, de 70 pés
(1741). Vários exemplos podem ser encontrados na
Todas essas-aplicações-são..possihilit!ldas pela-de- América no último decênio do século XVIII. Tel-
senvolvimento extraordin · · 1ístri:i si~rgica ford, em 1801, pensa em construir uma ponte sobre
in Nas nações do continente, tal ind6stria ainda o estreito de Menai, em Gales, porém as aplicações
• está _no começo e, durante todo o século xvr:r, as concretas aparecem somente depois da crise ocorrida
aplicações do ferro e da gusa são limitadas; às nume- no bloco napoleônico. Em 1813, Samuel Brown, ca-
rosas e arrojadas pontes inglesas podem ser contra- pitão da Marinha inglesa, constrói uma ponte sobre
postos poucos manufaturados de identidade modesta, Tweed, com 110 metros, que é considerada o protó~
tais como a ponte de Laasan, de 19 metros de com- tipo das pon:es suspensas européias; entre 1818 e
primento, construída em 1796 pelo Conde von Burg- 1826, Telford executa a ponte sobre Menai, com 176
haus, e algumas pontes de jardins franceses, metros e, no mesmo ano, uma ponte análoga sobre
Nos primeiros anos do século XIX, o regime na· Conway, com um vão menor (Fig. 30). Em 1823,
poleôllico encoraja a indóstria siderórgica francesa; a Navier, enfrentando muitas dificuldades, constrói a
produção de forro, de 1789 a 1812, aumenta de 115 Pont des Invalides; em 182$ - com a ponte de Tour-
non sobre o Ródano - principia suas atividades Marc
16. G1Eu10N, S. Spazio tempo e mclilteuura (1941).
Trad. il., Milão 19S4. pp. 181-185. Séguin (1786-1875), fundador de uma empresa que
17. CHEVALIER, M, Letlres sur l"Amérlque du Nord, executa na França mais de oitenta pontes suspensas;.
Bruxelas, 1837, v. r. p. 3S4, C!t. em C. BARBAOALLO, op. cit.,
p •. 309. 19. Ver O, RONOELET, Trattato cit., pranchas 160 e 164,
18. Ver J, GWAO e D. BRlDG&WATER, À Hfsto1y of Cast 20. Ver O. RONDELET, Tratlalo cit., pranchas 162 e
Iron in Arcliilecture, Londres, 1948, pp, 1S2-US. apêndice (de praucha P em diante).

50
32. Paris, Q :anlw.d'Hiver nosChamps-Ely.s~(dcE, Texier, TableaudeParlJ, 1853),

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33, 34, 35, 36. Pranchas ilu;tratiV3$ daEncycfop (l 751*1772), oo verbeteArchirecture.

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37. Pavimento em madeira. do Trattato de:O. Rondtkt (pnw.cba:i;85 e 87).

54
55
em 1834, termina-se a ponte sobre Sarine em Friburgo, Normalmente, sustenta-se que os métodos de
devida ao francês Charley, até então a mais longa da construção permaneceram os mesmos (na história da
Europa, com seus 27~ metros de vão; em 1836, Isam- urbanística de Lavedan: "enquãiüõ que, na origem
banl K. Brune! (1806-1859) constrói a ponte sobre da transformação industrial, encontram-se consideráveis
o Avon em Bristol, com 214 metros, a qual é conside- progressos técnicos, não existe nenhum, por assim dizer,
racfa uma das obras-primas da engenharia do século que se refira às moradias: constrói-se no século XIX
XIX (Fig. 31). ~ como no XVIII e como na Idade Média") 21 e, to-
A indústria do vi.d faz grandes progressos téc· mando-se como ponto de partida as denúncias dos
nicas na segunda me d do século XVIII e, em 1806, higienistas e dos reformadores sociais na primeira me-
é capaz de produzir lâminas de 2,50x1,70m. Na In- tade do século XIX, considera-se confirmado o fato
glaterra, entretanto - que é o maior produtor -, as de que a qualidade das moradias piorou, em conse-
exigências fiscais durante as Guerras Napoleônicas qUência ~as.._e~ências especul!_ti.vas. Am-
opõem graves dificuldades às vidrarias, e é somente bos esses lugares-comuns devem provavelmente ser
depois do tratado de paz que a produção pode retomar corretos.
seu desenvolvimento. O espírito iluminista do século XVIII dirige sua
O consumo inglês de vidro em lâminas passa, de curiosidade a todas as aplicações técnicas, ~den-
1816 a 1829, de aproximadamente dez mil a sessenta tem~te ga imp_slãncia...que a cultura tradicional atri-
mil quintais, e os preços diminuem; o uso do vidro pa- bui a ca a uma delas. Arquitetos célebres ocupam-se
ra fechar espaços é agora universal, e começa-se a ex- de invenções modestas, como Boffrand, que aperfeiçoa
perimentar aplicações mais comprometedoras, associ- a máquina de empastar a cal, e Patte, que inventa
ando-se o vidro ao ferro para obter coberturas trans- dispositivos para 'diminuir. os riscos de incêndio, A
Júcidas. Encyclopédie (1751-1772.) publica um extrato dos ar-
Grandes clarabóias em ferro e vidro são usadas tigos referentes ~ técnica de construção corrente, a fim
em numerosos edifícios públicos como, por exemplo, de melhorar a preparação dos empresários (Figs. 33-
na Madeleine de Vignon; em 1829, Percier e Fontaine 35).
cobrem de vidro a Galerie d'Orléans do Palais Royal, O emprego dos materi~s tradicionais muda, en-
protótipo das galerias públicas do século XIX. O quanto isso, por vários motivos. Os produtos de olaria
~dro-é,,_ empregado na construção de algumas ·grandes e o madeiramento são produzidos in~trialmente, com
~tufas:) por Rouhault, no Jardin des Plantes de Paris, me]lor qualidade, e a rede dos canais permite que
em-1-333; por Paxton, em Chatsworth, em 1837; por sejam frãnsportados_para qualquer parte, a baixo custo,
Burton, nos Kew Gardens em 1844. Por vezes, as nivelando assim as diferenças de fornecimento existen-
estufas transformam-se em locais para passeios, como tes de lugar para lugar.
nos Champs-Elysées de Paris (Fig. 32). As primeiras Difunde-se, nesse período, o uso do vidro Pl!!ª
estações ferroviárias reqµerem grandes telhados de vi- j~s, em lugar do papel (em fins áõseciiiõifvm;
dro, e os novos estabelecimentos comerciais com existiam ainda na França as corporações dos châsses-
grandes vitrinas de exposição habituam os arquitetos a siers, que tinham por tarefa cobrir os caixilhos das
pcçj_etar paredes inteiramente de vidro. janelas com papel oleado) 22 , e o uso da ardósia ou
O Palácio êfeeristal;-'"d~Paxton, em 1851, resume de telhas para as coberturas, em lugar de palha. · Em-
todas essas experiências, e inaugura a série das gran- pregam-se largamente o 1!!ro e a gp.sa, onde quer que
des galerias envidraçadas de exposição, que prossegue seja possível: nos acessónos dos utensilios para fechar,
na segunda metade do século XIX. nas cercas, nas balaustradas (Fig. 41) e por vezes
mesmo nas estruturas de sustentação.
----- ...,.. Os pavimentos nos edillcios comuns são sustenta-
4. Os progressos técnicos da Jqnstrução comum ~ dos, via de regra, por traves de madeira, com disposi-
ções variadas (Figs. 36 e 37). J, B. Rondelet (1743-
Sobre os grandes empreendimento~istem...mui..- 1829), em seu Trauato de 1802, compara o ferro doce
tas informações; pelo contrário, são escassos os dados
para avaliar as modificações da técnica de construção 21, l.AVEl)AN,P. Hluolrl! di! l'urbani~mt. l!paque contem·
comum e relativa às moradias, que a Revolução ~n- poraiue. Pads, 1952, p, 74,
22. Ver M. HENR.IVAUX, ú l"errt t>Ife cri.ira/,Paris, 18S),
dustrial está reunindo em torno das cidades. p. 228.

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à madeira, e afüma que o primeiro pode ser usado a à Convenção, pedindo que seja proibido o uso do fer.
fim de substituir o segundo. Contudo, o ferro em ro na construção, salvo para fechaduras.20
traves de seção retangular não é adequado, evidente- No século XIX, retomam-se as tentâtivas para o
mente, para substituir a madeira. pois a maior rigidez uso do ferro nos pavimentos; porém uma solução sa-
não oompelllia o peso maior. Prossegde ele: "Para tisfat6ria é enoontrada somente em 1836. quando as
evitar o emprego de barras grossas, imaginou-se uma oficinas começam a produzir industrialmente as traves
espéciede cavalete ou armadura, que dá maior rigidez em ferro com foimato de T duplo. A partir desse
ao ferro aumentando sua força. em proporção maior momento em diante, os pavimentos de ferro substituem
do que o peso" e descreve um sistema idealizado, por pouco a pouco os antigos assoalhos de madeira.
M. Ango, formado pela associação de duas barras, B preciso também considerar O andamento dos:
uma, ligeiramente arqueada. e a outra tensa como uma preços, o custo dos nµrt;riais de construção diminui
corda, sob a precedente. quase que -ein toda' parte depois das pertorbaç6es das.
Os comissários nomeados pela Academia Real de Guerras Napoleônicas; assim, os materiais que antes
Arquitetura para efetqar o exanle de um pavimento de estavam reservados às construções para as classes su-
·, 19 pés de comprimento por 16 de largura, construído periores podem ser aplic:idos também aos edifícios po-
dessa maneira, em Boulogne, perto de Paris, assim se pulares, O~s-opeoú.ios, ao cóntrário, es-
expressam no relatório de 13 de junho de 1785: "Nós ~te; também este fato contri-
o encontramos solidíssimo, sem qualquer desfolhamento bui para o progresso técnico (uma vez que os em-
ou oscilação, seja qual for o esforço que se faça sal- presários acolhem com boa vontade qualquer achado
tando em cima dele". Os detalhes são encontrados na que permita shnplificar o trabalho de construção e
Encyclopédie, nos verbetes abóbodas e pavimentos de economizar na execução, mesmo que eventualmente o
ferro. T~am eles seu relatório dizendo: ·:s.
tanto, d~eJável que o processo de M. ~go seJa p.g_sto
~or- custo das matérias-primas possa Ser maior. .
As casas da cidade industrial são, em con1unto,
em prátic:1 por todos os construtores, a ~ de que u?.t qiais_hjgiênjcas e confortáveis do que aque1as em que
gr~n~_enumero de exemplos v~~a .ª confmnar a b havia vivido a geração precedente; a diminuição da
opm1ao11que formamos na expcnencia que estamos te- mortalidade infantil não deixa dú~das a esse respeito.
latando · Existem, naturalmente, grandes diferenças de um lu-
. Rondelet confirma com cálculos esse parecer e gar para outro e de um período para outro; como
fornece o desenho de um pavimento de ferro preen- sempre aconteceu, constroem-se também tu~os ina-
chido com tijolos, com 20 pés de vão: "Resulta de bitáv~, gue:são descritos com colorido vifo paas-J>es-
tais experiências que os cálculos que foram apresenta- quisas inglesas e francesas levadas a efeito entre~O
dos podem ser aplicados a toda sorte de armações, e 1850.
tanto para as abóbadas, quanto para os pavimentos de Ao avaliar tais descriç6es1 é preciso ter em men-
ferro ou outras obras do gênero" 23 (Fig. 39). te que quase sempre as piores construções dependem
Em 1789, N. Goulet experimenta um sistema aná- de circunstâncias excepcionais, como acontece na In-
logo em uma casa da Rue des Marais, sobretudo com 81aterra durante as Guerras Napoleônicas. Por outro
a intenção de evitar os incêndios: djspõe, entre as lado, se as reclamações contra as moradias feias são
traves de ferro, pequenas abóbadas de tijolos ocos, e mais freqüentes nesse período, não é tanto em razão
substitui por pavimentos de ladrilho os tradicionais de sua qualidade ser pior de uns tempos paia cá, mas
-porquels. Ele recomenda também a substituição da em razão de que o padrão empregado para a compa-
madeira dos batentes de portas e janelas por ferro ou ração é sempre mais elevado. O aumento do nível
cobre. :u de vida e a nova mentalidade tornam intoleráveis os
Contudo, a crise econômica que se 'Segueà Re- inconvenientes que um século antes eram aceitos como
volução Francesa interrom e ex eriências. Os inevitáveis.
metais tornam-se lmp ss veis de ser encontrados e, O que constitui o ponto mais' violwto das pes-
em 1793, 0 arquiteto Cointreaux dirige um memorial quisas de Chadwick ou do conde de Melun, é a con-
vicção de que as misérias constatadas não são um des-
23. RONDl!LET,G. Tramm, cit., 1. II, p. 105. tinp inevitável, mas pode111ser eliminadas com os meios'
24. HA.UTECOEUR, L Histoirt dt rArchil«tuu t:lassique
tti France, Pari~ 1953, t. V., p. 330. 25. IIAUTECOEUll,L, Qp. clt., t.V., pp. 108·109.

60
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que se encontram à disposição. Como observa Toc- O progfesso dos estudos arqueológicos permite
queville, "o mal que aci nte era tolerado como definir o primeiro relacionamento com toda a preci-
~vitável, p impossívelde ser supo o no mo- são possível: a Antiguidade clássica não é mais uma '\'i
in~1to em gué se aêêna com a idêia Oesubtrair-se a ~ do ouro, situada nos confiiisdO tempo, \
e~ª mas, síin um"períotlo histórico estudado com método,
A fim de formular uma opinião justa sobre as científico; assim, as regras elásticas e aproximativas da O
casas em que moraram as primeiras gerações da idade tradição podem ser transfonnadas em referências exa..
industrial, é necessário distinguir a qualidade do edi- tas. O mesmo espírito histórico, porém, faz com que se
fício singular e o funcionamento do bairro e da ci- perceba que a Antiguidade greco-19mana é um perío-
dade; a const ção-paleoind\18trial entra em crise so- do como todos os outros, e o valor normativo atri--
bretudo no ampo urbanístiço, como será visto no ca- buído a s - elos ê c'õ em dúvida.
pítulo seguinte,:.------ De modo análogo, o progresso da técnica penili-
te tornar mais precisos os raciocínios de construção e·
funcionamento; a atenção maior dada a este fato indui
5. Engenharia e neoclassicismo a uma espécie de retificação e de restrição das regras
tradicionais; por exemplo, a coluna é justificada so-
O período de 1760-1830 que, para o.s historia- mente se estiver isolada, o tímpano somente se tiver
dores da econo~a, é o período da_Revolução Indus- por trás um teto etc, Frezier, no Mercure de France
tria1,_corresponde, nos livros de }:fuiõria da Arte,' ao de 1754, chega a sustentar que as cornijas usadas no
interior das igrejas são um absurdo, pois deveriam
º~º·A ligação entre os dois fenômenos exige explica-
- corresponder a beirais de telhado, e que um "selvagem
ções mais detalhadas. Observa-se, com acuidade, que de bom senso" (personagem típico dessas polêmicas
nesse período a_arquitetcra começa a destacar-se dos setecentistas) iria perceber logo o erro: "eJCbora a
~mas da prática de construção; estes-pâssâ:m'às arquitetura gótica seja tão malvista, ele lhe daria sem
mãos de uma categoria especial de pessoas, os enge- dúvida preferência, uma vez que não apresenta com
pompa uma imitação tão fora de propósito". 2s
nheiros, enquanto que os arquitetos, perdido o con-
tato
. com as exigências concretas da sociedade refu-
g1am-se 13!!.)lm mundo de formas abstra~.
.
Os dois
O sistema da arquitetura tradicional não é ade-
quado para sustentar críticas desse gênero,-e...!1corres-
pondên!·a aproximada entre elementos for.qiais e de
fenômenos, portanto, seguem paralel.all!ente, poxém
sem que se encontrem; pelo contrário, divergem cada cohstruçã , dada até então comõ-certa-;íiãÕ resiste a
vez mais entre si; produz-se, como diz Giedion, "a ci- uma-ver' icação analítica; o g.ráter de necessidade que
são entre a ciência e sua técnica, de um lado, e a e.ta.,atribuído, como conseqUência, aos êlementos clás-
arte, do outro, isto é, entre ~itetura e construção". 21 sicos, n~o pode mais ser sustentãáo.
A palavra "classicismo", entretanto, cobre uma Por ambos os caminhos que se tome, os títulos de
pluralidade de correntes que se relacionam de manei- legitimidade do antigo â!ertório são colocados em dis-
ras diversas com o desenvolvimento da técnica de cussão; a persistência as formas clássicas, da ordem
construção. ~deve, portanto, ser motivada de outra maneira, e
os argumentos possíveis são os seguintes:
O espírito~ aplicado ao ~pertório da Ou se recorre às supostas leis eternas da beleza,
tradição renascentista, reconhece naquelas formas 2ais que juncionam como uma espéciê de princípio de 1egi-
~tiyos de validade: a corresJ;WIDiênrjitcom os mo e- timidade na arte (deve-se notar, à margem. que só se
los...Q!.arquitetura antiga, grega e roman~ e a racio- recorre explicitamente a este recurso quando a opinião
na!Lda!_iç..!l!!!.prQp..riãsferinas, naquilo que os elemen- pública já está pondo em dúvida o tradicional estado de
tos- arquitetônico~ tradicionais podem ser assimilados coisas); ou invocam-se razões de conteúdo, isto é,
a_el~elllQ!. !!e_construção: as colunas de sustentação sustenta-se que a arte deve inculcar as virtudes civi-
vertical, o travejamento de sustentação horizontal, as lizadas, e que o uso das formas antigas faz lembrar
comijas no cimo dos telhados, os tímpanos nos en- os nobres exemplos da história grega e romana; ou
contros entre dois planos de cobertura etc. então, mais simplesmente, atribui-se ao repertório clás-
26. TOCQUEVILLE,C. A. Ü\), dt,, p. 215.
sico uma existência de fato, graças à 1:ºda .J_an b~to.
27. Gil!DlON, S, Op, cit., p, 209. 28, L. Op. ciL, L lIJ, p. 461.
ff,\UTl>COEUR,

62
A primeira posição, sustentada por1te6ricos como lhes quis atribuir, de precursores do ~ovim:nto ~oder-
Wmckelmann e Milizia, é formrula eicti.ta.mente pelos no, baseia-se em parâmetros formais e nao resiste a
membros mais intransigentes da Academia, como Qua- uma verificação histórica.
tremêre de Quincy, preocupados em pôr a salvo a. Também as consegilências escassas de suas expe-
autonomia da cultura artística, e leva a obra de alguns riências podem ser facilmente explicadas. As teses do
artistas vinculados de modo mais rigoroso à imitação classicismo ideol6gico, a despeito de suas justificativas
dos antigos: Canova, Thorwaldsen, L. P. Baltard. A rigorosas e elaboradas são, na realidade, pouco durá-
segunda é própria da geração envolvida na Revolução veis, o que permite que elas sejam confrontadas no
Francesa de David e de Ledoux, que adotam a arte mesmo terreno filosófico e político de outras teses e
como pr~fissão de fé política, e produz uma excitação substituídas por estas. Da mesma maneira _com.o
expressiva peculiar encontrada também em outros de Boullée interpreta o antigo de acordo com os ideais
seus contemporân~s, em Sloane e em Gilly (~igs. leigos e progressistas da filosofia iluminista, do mesmo
40-42). A terceira posição baseia-se nas premissas modo Chateaubriand, que, em 1802, publica o Génie
dos racionaJistas setecentistas, tais como Patte e Ron- du Christianirme, interpreta o gótico de acordo C?m_as
delet e é teorizada nas novas escolas de Engenharia, tendências do neocatoHcismo e efetua sua reavabaçao,
sobr;tudo por Durand, e seu núcleo é formado exata- associando-o ao misticismo medieval; o destino de um
mente pelos projetistas mais felizes que trabalham na e do outro estilo varia, dessa maneira, segundo a po-
época da Restauração: por Perder e Fontaine, na pularidade dos respectivos pontos de referência.
França, por Nash, na Inglaterra, por ~chinkel, .na _A]e-
manha, além da multidão de engenheiros de amb1çoes A associação do gosto clássico com a prática de
artísticas (Figs. 43-53). construir, pelo contrário, apesar de baseada em uma
suposição convencional, demonstrou possU.lr •grande
Os primeiros e os segundos formam uma minoria tenacidade, e ainda tem influência em nossos dias, co-
culta e batalhadora, que atribui ao neoclassicismo um
mo o demonstram as obras de alguns grandes constru-
valor cultural unívoco: seu ~n~ssicism.0-pode_ser tores, como Perret, Nervi, Candela. :8, todavia,
chamado de nooclasJjcismo idenló&i_co
evidente o paralelismo dos instrumentos mentais: Com
-isãta os outros, ao contclriõ;-istó é, para a maio- efeito, os métodos conentes de cálculo das estruturas
ria dos construtores, o neoclassicismo é uma mera ímpelem freqüentemente engenheiros, hoje como então,
~o, à qual não é atribuído qualquer significã':"' na direção de soluções simétricas e dotadas de uma
do especial, mas que permite abstrair os problemas for- espécie de propensão para certos efeitos típicos do
mais, deixando-os de lado, a fim de desenvolver de neoclassicismo. Esse relacionamento pode ser expUca-
modo analítico, como o requer a cultura técnica da do em termos históricos,visto que tanto a sensibilidade
época, os problemas _práticos de distribuição e con,- neoclássica quanto os métodos de cálculo, derivam, am-
trução.._e que podem ser chamados de neoclassicismo bos, de maneira diversa, da mentalidade analítica do
~co. .. --- período, porém a coincidência parcial e ~elativa ,entre
Enquanto uns carregam as formas antigas de sig- resultados científicos e princípios do estilo clássico é
nificados simb6licos e travam, acima da realidade con- facilmente transmudada em uma espécie de harmonia
creta, uma batalha de ideologias, os outros empregam preestabelecida, necessária e total. Durante todo o
as mesmas formas, porém falam delas o menos possí- século XIX, os engenheiros repetem, com Eiffel, que
vel e, ao abrigo de tal convenção, aprofundam as no- "~intica~ da forxa estão semJ!~e,,~ confor-
vas exigências da cidade industrial. .mjrlade cnm as-leis'.-secretas aa bannorua . - 9
A batalha entre as correntes do neoclassicismo Convém procurar as origens dessa posição nas
ideológico é o episódio mais visível, que normalmente escolas de Engenharia, onde se graduam, de agora em
vem colocado em primeiro plano na perspeçtiva his- diante, a maior parte dos projetistas. ~a :8cole PC:
tórica, mas não ~pis~ mais imp~rtante lytechnique de Paris, o curso de Arquitetura. é, mi-
J!ara nosso relato. Aqueles que parec m ser os mova- nistrado por J. L. N. Durand (1760..1834), d1se1pnlo
~r audácia, tais como os arquitetos ''re- de Boullée e espectador das batalhas doutrinais trava-
volucionários" Etienne Boullée (1727·1799) e Claude das no período revolucionário; ele emprega esse legado
Nicholas Ledoux (:1736-1806), na realidade não saem
das convenções acadêmicas e não representam a parte 29. Cit. em M. BESSET,G. Eijjel, trad. it., Milão, 1957,
mais avançada da cultura da época. O papel que se p. 17.

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51. Londres, ChestcrTcrrace {I. Nasb, 1825).

65
complexo e eminentemente teórico para transmitir à imitadas dos edüícios antigos; aquelas que, sendo mais
gexação seguinte um sistema de regras racionais e prá· simples e mais deteao.i.nadas, devem obter nossa prefe-
ticas, adaptada à vastidão de tarefas que se apresen- rência, em virtude da facilidade que temos em apre-
tam. endê-las", 82
O objetivo da Arquitetura, exorta ele, é "a uti· Durand esboça, como os antigos tratadistas, uma
llt1adepública e particular, a conservação, o bem-estar série de considerações sobre a construção da qual se
dos indivíduos, das famílias e da sociedade". 8(1 Os deduz uma descrição grosseira das ordens arquitetô-
meios que a arquitetura deve empregar são a ~i- nicas; contudo, diferentemente daqueles, é rigorosa-
êqcia e a economia. A conveniência impõe que o mente lógico e percebe perfeitamente que as formas de
edifício seja sólido, salubre e cômodo; a economia, que construção "não são fixadas de tal maneira pela nà-
seja de forma tão simples quanto possível. regular e tureza das coisas, de modo que nada se lhes possa
simétrica. ~""',... ..~ ~ ~.._ ser acrescentado ou retiradó, portanfü nada impede
Durand critica a noção tradicional das ordens e que elas sejam determinadas lançando-se mão das
refuta as teorias de Laugicr e dos tratadistas, as quais formas do segundo tipo, extraídas dos edifícios anti-
pretendem atribuir às ordens uma pretensa universa- gos''. que são justificadas somente pelo hábito; "e, uma
lidade, fazendo-as derivar da cabana ou do corpo hu- vez que estas variam um tanto nos edifícios gregos
mano; "é preciso concluir, necessariamente, que as imitados pelos romanos e naqueles, por sua vez, uní-
ordens nãQ fQpnam, de:l~ a ess&ncia da arquitetura; tados pelos povos modernos da Europa, estamos livres
que o prazer que se extrai de sua utilliaÇ~ãdi!- para escolher entre estas as formas e as proporções
coração que daí resulta não existe; qµe essa mesma que, sendo as mais simples, são mais adequadas a sa-
decor.~ão é uma ~ e as despesas a que leva tisfazet o olho e o espírito, favorecendo a economia
constituem umeJnm:nra." do edifício." 83 Ele efetua, assim, uma espécie de se-
< leção das formas tradicionais, dando preferência às
A arquitetura, contudo, não 6 redutível a um fato
técnico, A beleza deriva necessariamente da coerên- mais simples e esquemáticas.
cia com que o arquiteto atinge seu escopo utilitário, Concluindo, os projetistas_ dev~riam usar as for-
e a "verdadeira" decoração resulta da disposição mais • mas clássicas, porém preocupancfo-se o menos passivei:
conveniente e mais econômica dos elementos estru- Deveremos igualmente preocuparmo-nos pouco com as
turais. formas do primeiro tipo, derivadas da utilidade, ainda que
Até esse ponto, o programa de Durand (deixando sejam as mais importantes, dado que Wl5Cemnaturalmente do
de lado a identificação da economia com as formas uso dos objetos e da natureza dos materiais empregados em
simétricas) parece prenunciar o funcionalismo modcr.~ sua execução; as formu do segundo tipo lierio .:onsideradas
._110- Ele, porém, tem. em me.llte a "disposição" em c:omo fatos puramente locais, destinadas unicameiite a não
sentido estrito, como combinação de elementos dados. ferir nossi» hábitos; por çc,nseguinte, ao se eonsuuir na Pérsia,
Seu método compreende três fases: primeiro, a des- ou na China, ou no Japão, deveremos fazer abstração de
seu uso, caso contrário estaríamos agindo contra os usos do
crição dos elementos; depois, os métodos gerais de país; as formas do terceiro tipo serão usadas porque favore·
assoc~o dos elementos, onde são obtidas as partes cem a e.:onomia em muitas circunstâncias e facilitam sempre
dos edfficios e os edifícios; e, finalmente, o estudo dos o estWWda arquitetura. Enfim, os projetistas dedicar-se-ão
tipos de edificação. Por "elementos", refere-se aos sobretudo à di:iposição,que, quando 6 conveniente e ecolWmlca,
materiais, com suas propriedades, e as formas e pro- atingindo o fim que a arquitetura se propõe, toma-se a fonte
porções que os materiais assumem quando colocados da agradável sensação que os edifícios nos fazem experi-
em ação (Fig. 43) . mentar. 34
As formas e as proporções são de três tipos:
«aquelas que disfarçam a natureza dos materiais e o O que será então esta "arquitetura" ellSinada aos
uso dos objetos para cuja construção são empregadas; alunos da lkole Polytechnique, uma vez que a parte
aquelas que foram tomadas de alguma maneira neces-- técnica foi absorvida pela ciência e a confotmação dos
sárias pelo hábito, ou seja, as formas e proporçi_jes elementos é apenas um dado de conveniência externa?
'
32. DuRAND,I. L. N. Op. cit., v. I, p. 53.
30. Dlll!AND, I. L N. Prkis des .leçons donnles à fico/e
royak polyt"hnlque. Paris, 1823, v. I, p. 6. 33. DURAND,J. L N. Op. ciL, v. 1, pp. 53-S4.
31. Dl!RàNn, J. L N. Op. cit., v. I, p. 16. 34. DUJW,!D,I. L N, Op. cit., p. 71,

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Durand faz disso uma espécie de teoria combinatória, para dissimular os problemas de ·com~. para jso-
a fim de associar entre si os elementos dados, de lat"õs-ptõl.ifemas de construção e fazer-lhe face com
todas as maneiras possíveis, primeiramente em abstra- maior facilidade.
to, prescindindo de sua destinação, (Fig. 44), e depois Esse fato impede que da experiência repetida doS
.segundoas exigências de distribuição dos vários temas. novos processos de construção resulte uma verdadeira
As figuras·do tratado de Durand são identificáveis tradição. O termo junctional tradition, cunhado pelos
pela grafia, eonfonne ao gosto da época (Figs. ingleses que pela primeira vez reconheceram os valores
4S e 46), porém prenunciam toda a produção dos arquitetônicos espontâneos das construções utilitárias
engenheiros do século XIX. &tão já claros todos do século XIX, é acurado somente pela metade; tais
os caracteres: o modo de composição por justaposi- valores vêm à luz, pode-se dizer, apenas quando seus
ção...mecânica, a inõependêncbrdo-a~o estrutural projetistas pensam em outra coisa, e de preferência
d~nto dos êlenieõ~edileção pela cota nos particulares isolados da composição do conjunto,
em m1merõs"'ieiiõrulos-e"'"pelas-~tares, que e que, portanto, permanecem como contribuições frag-
reduzem ao mínimo o arbítrto do projetista; eles serão mentárias. que jamais podem ser somadas umas às
encontrados nas obras de Paxton, de Eiffel, de Con- outras e formar um sistema unitário. A unidade pres-
tamin, de Le Baron Jenney, de Hennebique. supõe uma síntese e um consciente exame minucioso,
Ho~·e ue as obras desses construtores sofreram enquanto que, neste ponto, intervém o hábito da asso-
wna re - enquanto uma das fontes do movi- ciação estilística, que impõe uma síntese exterior e
mento ~ , e levando-se em. conta que freqüen- convencional.
temente a admiração vai além da representação, é Assim, os engenheiros fazem progredir, durante
necessário ·ter em mente que a produção dos enge- o ~culo XIX, a técnica das construções e preparam 01
nheiros tem virtudes e defeitos estritamente indepen· meios de que se irá servir o movimento moderno, po-
dentes uns dos outros e está estreitamente ligada à . rém, ao mesmo tempo, colocam sobre esses meios uma ,.
produção dos arquitetos.:_d_ecoradores. pesada hipoteca Cultural, associando a eles uma es-
Tanto uns quanto outros pensam que, no projeto, pécie de indiferença pela qualificação formal e legando
devem-se tomar como manifestos certos aspectos a fim os hábitos de construção a certas correspondências ha-
de que se possã concçntrnr a atença.o em -outros, da bituais aos estilos passados.
~mesma maneira como nos cálculos atribui-Se um valor Esses vínculos somç_gte: podem...ser-rompidos por
convencional a alguma das variáveis a fim de encon- meio ciêllm esforço muito ingente. O movimento mo-
trar outras. -dem<>deverá-empenliar-se po..t.muito tempõ, antes de
A aplica!jào dos acabamentos em ·estil0- -espe- ~onsegwr efetuá-lo, e deverá. atribuir, por um determi-
cialmentc-daqueles-neoclássiêãs'; que são usados· com nado tempo, uma ênfaseparticular à pesquisa formal
tanta maior boa vontade quanto menos é percebida pura, de cujas .conseqüências ainda hoje nos res-
sua motivação - serve não para resolver, mas sim. sentimos.

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2. A ERA DA REORGANIZAÇÃO JI
AS ORIGENS DA URBANISTIC~IMODERNA

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1t1case as pnmerras . ur b ams
••·.1cas

Q quarto decênio do século XIX pjcipia com :. A• Revolução Indusirial o~sionou profundas mo-...
série de acontecimentos pollticosj!importantes: a dificaçpes na'distribuição dos habitantes sobre o terri-
Revolução de Julho na França, a indepenêÍência da tório inglês. Na primeira metade do século XVIII, a
Bélgica (1830), os movimentos polon~ses e italianos Ingfaterra é UID. país ainda predominantemente rural e
de 1831, a reforma da Constituição ingles!\.de 1832. · mesmo a indústria tem sede sobretudo no campo. En-
No breve intervalo de dois anos, l'.osistema polí- quanto o trabalho com minérios de ferro é feito com
tico construído pelo Congresso de Viena é abalado carvão de tenha, os altos-fornos surgem onde quer
de uma ponta a outra da Europa. Eml 1
alguns lugares, que existam bosques; a indústria têxtil baseia..se na
como na Polônia e na Itália, a ordem antiga pode ser organizaçãodo trabalho a domicílio,e os próprios cam-
restabelecida mas, na França, o sobe~ano legítimo é poneses e suas famílias alternam os trabalhos no
expulso por uma revolução que elilllllia as estruturas campo com a tecelagem e a fiação, com aparelhos a
residuais do Ancieu Régime e conced~ o poder polí- mão de sua propriedade ou cedidos por empréstimo
tico à burguesia liberal; na Bélgica, ~jinsurreição vi- dos empregadores.
toriosa cria um novo Estado, com uIIla Constituição Quando, porém, o ferro começa a ser trabalhado
ainda mais liberal do que a francesa'; na Inglaterra, com carvão fóssil, os altos-fornos concentram-se nos
sobe ao poder o partido dos whigs, 'g,ue empreende distritos carboníferos; quando R. Arkwright descobre,
uma série de reformas substanciais nollcomplexo esta- em 1768, a maneira de aplicar a energia hidráulica à
tal. A solidariedade dos soberanos e dos governantes fiação, e E. Cartwright, em l'.784, a maneira de aplicá-
europeus para a manutenção do statuS quo desfalece, la à tecelagem, estas operações concentram-se onde
e o primitivo sistema rígido, baseado ~o princípio da quer que seja possível utilizar a energia da água cor-
legitimidade, é substituído por um equilíbrio dinâmico, rente; e-, quando a máquina a vapor de Watt, ·paten-
·baseado na competição de interesses &ntrastantes. teada em 1769, começa a ser usada em substituição à
Nos países economicamente maiJ,j avançados, ex- força hidráulica (entre 1785 e 1790), a concentração
ttaem:se as conseqüências políticas dii:.Revolução ln· pode ocorrer em qualquer lugar, mesmo distante dos
dustrial; a distribuição do poder político é adaptada rios; a rede de canais, construída de 1759 em diante,
àquela do poder econômico, o sistem~ administrativo diminuindo o preço dos transportes mesmo para os
adapta-se à composição modificada d~j sociedade. materiais pobres, toma sempre menos vinculadas as
Sendo a lei inglesa de reforma eleitoral de 1832 sedes dos emfc'eendimentos industriais.
resultado de um compromisso parlame9,tar, não possui Os locais e concentração das indústrias tomam-
o caráter de uma inovação revolucion~a, mas exata- se centros de ovos aglomerados humanos em rápido
mente por isso registra com eloqllência o peso das desenvolvimento, ou mesmo, surgindo ao lado das ci-
mutações ocouidas. !I dades existentes, provocam um aumento desmesurado

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em sua população. Calcula-se que, no princípio da animados pelas teorias radicais, propõem-se abolir-
Revolução Industrial, cerca de um quinto da população gradualmente. o sistema dos subsídios, porém também
inglesa vivia em cidades e quatro quintos no campo; são contrários à fixação de um salário mínimo obriga-·
por volta de 1830, a população urbana é quase igual tório e preferem manter com vida as tradicionais
à rural, enquanto que, em nossos dias, a proporção workhouses ou asilos de operários, tomando caj.dado
foi invertida e os quatro quintos dos ingleses vivem para que as condições de vida em tais estabelec;tnentos.
na cidade. sejam inferiores àquelas do mais ínfimo tr.abalh? no
Contudo, a ordenação política e administrativa, exterior; ao mesmo tempo, submetem a aplicação da
até 1832, não leva em conta essas novidades. O siste- lei a um controle central, de modo a abolir os abusos-
ma 'eleitoral baseia-se ainda na velha organização rural, locais.
e um número considerável de cadeiras são atribuídas Em 1835, são instituídas as administrações muni-
a burgos semidesertos, por nomeação de parte de seus cipais eletivas, em lugar das antigas instituições, de
proprietários, enquanto que as cidades oriundas ou origem feudal; cada cidade é assim. provida de uma
ampliadas por obra da Revolução Industrial não pos- autoridade democrática, à qual incumbe, de agora em
suem uma representação adequada. diante, todas as intervenções p6blicas nos assuntos
A lei eleitoral de 1832 abole aproximadamente de construção, de viabilidade, de melhoramentos ur-
duzentos de tais burgos e reparte os assentos de nova banos (antes dispersos em uma inímidade de institui-
maneira, destinando-os sobretudo às cidades indus- ções de especiais) e, como conseqüência, a planifica-
triais; por outro lado, rompe o antigo vínculo que liga ção em termos reais; essas administrações estão sujei-
os direitos políticos à propriedade de bens imóveis tas a duas solicitações complementares: de baixo, o
fazendo, assim, uma equiparação entre os industriais ~ eleitorado, que impõe a satisfaçãodas exigências lo-
os comerciantes aos proprietários de terras. cais e, do alto, a autoridade central, que cuida dos
Dessa forma, não só a representação política é interesses gerais. A vida administrativa, assim, vê-se
colocada de acordo com a realidade econômica e so- constrangida a sair de seu longo imobilismo. 1
cial da região, mas também, atribuindo às novas classes Este período, desde o Reform Bill de 1832 até
um poder proporcional a seu peso econômico, a lei a abolição da taxa sobre cereais em 1846, é chamado
eleitoral abre o caminho para uma série de reformas por Belloc de "a era da reorganização". 2 Fica agora
de todo gênero, conformes aos interesses da indústria claramente visível o contraste entre liberdade e autori-
e às exigências da nova sociedade. dade, do qual se falou na Introdução. Os reformado-
Em 1833, é promulgada a primeira lei verdadei .. res whigs, imbuídos de seus ideais radicais, rompem
ramente eficaz sobre as fábricas, obra principalmente definitivamente com a organização do Ancien Régime
de Lord Ashley: as horas de trabalho são reduzidas e os velhos vínculos que se opõem à liberdade das
a 4_8para crianças de menos de 13 anos e a 65 para novas iniciativas; ao mesmo tempo, entretanto, devem
os Jovens de até 18 anos; são fixados intervalos regu- resolver os problemas de organização causados por
!ares para as r~eições e é instituído um, Corpo de novos desenvolvimentos, e devem adotar, pouco a pou-
wspetores centrais para fazeJ:;respeitai:: essas disposi- co, um sistema de regras adequado à sociedade in-
ções. A lei é melhorada em 1842, vetando o· emprego dustrial, que terminará limitando a livre iniciativa de-
~ mulheres e crianças nas minas, e, em 1844, proi- modo muito mais enérgico e circunstanciado do que
bmdo o emprego de menores de 9 anos na indústria o velho sistema.
têxtil; as sucessivas limitações ao emprego de crianças Escreve H. M. Croome: -
são acompanhadas por extensões sucessivas da ins-
trução escolar obrigatória. No mesmo ano de 1833, Quanto mais cresce a técnica capitalista, tanto mais 1or-
nrun·se complicadas as rela!j'Ões eco116micas; quanto mais o
Lord Wilbeforce consegue a abolição da escravatura povo se concentra nas cidades, mais a prosperidade de um
em todas as colônias. e:.tá ligada à de. p:s.,oas que jamais terá conhecido, e mais·
Em 1834, reforma-se a antiga lei sobre os pobres; se torna neces.sário que a conduta de cada um seja conforme
o sistema em vigor, instituído em 1795 e conhecido
pelo nome de Speenhamland, assegura a cada um um t. Apenas em.1888, os territ6rios rurais obtêm um arde·
determinado nível de subsistência, vinculado ao preço . namento democrático local como o das cidades, com a insti-
do pão: se a remuneração percebida for inferior, a tuição dos conselhos do condado.
2. BELLOC,H. Breve Storla dell'Jnghillerra (1925-1931).
diferença é coberta por um subsidio. Os refoanadores, Trad. it, Roma, s.d., v. II, p. 244.

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ao modelo estabelecido. Por exemplo, a $:l~de de um habL. se cerca de tre2entos, porém tais organismos são in-
tante da cidade nãr.J é mafa assunto un.icruri9te seu, pOique cap<!_ZCS de intervir na nova escala dos fenômenos,.
a doença que o afeta pode contagiar os vizirihoo com maiores exauridos e encarados com suspeita pela opinião p1.-
probabilidades do que ocorre com" um habi~te do campo em
uma c~a isolada. A educação torna-.se maiS impottante. E
blica como resíduos do Ancien Régime e participant~<J
torna-se mais importante a responsabüidnd~, social, o senti-
da inércia de toda a vida administrativa local, até a
mento de que "somi» todos membros do fflesmo coxpo" .. , lei de 1835. Por conseguinte, praticamente falta qiral-
Assim, seguindo o desenvolvimento do capifiuismo, encontra- quer controle da autoridade pública sobre a atividade--
mo-nos face a uma situa~ão paradoxal: a idéia individualista dos particulru:es.
destrói a velha solidariedade, e torna poss~fet o desenvolvi- Exatamente enquanto renuncia a influir com os
mento do capitalismo; este, por sua ve:t, aumentando a de-
" mesma so I·
, pendência reclproça, favore.:e o retorno daquela ,. regulamentos sobre a qualidade da construção privada,
a autoridade priva-se também de suas propriedades.
dariedade. s 11 fundiárias, as quais lhe permitiriam intervir por via
indireta e controlar ao menos a posição dos novos
Neste momento - e particularmente nas duas bairros.
décadas entre 1830 e 1850 - nasce a 'tirbanistica J!lO- Já em 1776, Adam Smith aconselhava aos gover-
dema. A convivência dos homens n~ cidade indus- nos que vendessem seus terrenos dominiais para sal-
trial coloca novos problemas de organiZação: os anti- darem seus débitos, 11 Assim, em muitas cidades, as
gos instrumentos de intervenção revellihi.-se inadequa- áreas construíveis caem sob o controle exclusivo da
dos e são elaborados novos, adaptadOs às condições especulação privada, e as exigências especulativas im-
modificadas. jJ põem sua lei à cidade: forte densidade de constru-
As cidades crescem de ano para ano, e algumas ções, crescimento em anéis concêntricos em torno dos
delas atingem dimensões excepcionais: em termos velhos centros. ou dos lugares de trabalho, falta de
absolutos,. como Londres - (Figs. 5~-56) que, em espaços livres.
fins do século XVIII, reúne um milhãO de habitantes, Um semelhante estado de coisas não piora ne-
primeiro dentre todas as cidades euroi,éias - ou em cessariamente os elementos singu1ares - casas, estra-
relação a ·sua origem. como Manchester que, em 1760 das, instalações - porém dá lugar a g.""avesinconve-
possui doze mil habitantes e, em me'àdos do século nientes reunidos, os quais se tornaram evidentes so-
XIX, cerca de quatrocentos mil. // m.ente quando o crescimento das cidades atingiu um
Os recém-chegados são principalmente operários determinado limite.
da indústria; suas hábitações, como aljremuneração e Muitos dos jerry buildings são miseráveis e
as condições de trabalho, dependem ! unicamente da pouco acolhedores; porém, a fanu1ia que, por volta
livre iniciativa e estão reduzidas ao nível mais baixo de fins do século XVIII, vem habitar nessas casas,
compatível com a sobrevivência. JI provavelmente chega de um.a casa de campo igualmen-
Grupos de especuladores - os jerry builders • . te _pouco acolhedora e abafada e, além de ·tudo, im-
encarr;gam.-se de construir filas de cas~ de lll!l andar, pregnada do p6 de um t~ manual. Falando em ter-
que mal servem para morar, tendo col:no objetivo so- mos estatísticos, é certo que as casas construídas nesse
mente o máximo lucro: "desde quef;ficassem dia}pé período são de melhor qualidade que as _precedentes,
(ao menos temporariamente), e desd~jque as pessoas mas os jerry buildings são um exemplo típico.da lógica
que não tinham outra escolha pudessem ser induzidas smithiana da época, a qual, após havec fornecido um
a ocupá-las, nínguém se importava se 1hram higiênicas tipo de construção relativamente sólido .e que funcio-
-ou seguras, se tinham luz e ar ou se 1:erare. abomina- na, pensa poder tolerar muitos exemplares desse tipo,.
velmente abafadas". ' · J 1
ao infinito, sem que as coisas mudem. :8 exatamente-
Nas cidades inglesas, existem ainda numerosas quanto ao relacionamento entre os vários alojamentos
instituições e corpos administrativos d9 origem antiga, que a construção da primeira era industrial entra em
encarregados de controlar a atividadellde construção, crise.
os melhoramentos urbanos, os fornecimentos de a1i- Hoje podemos dizer que os novos bairros ope-
mentos etc.; somente na cidade de Lon'clres, contavam- rários estavam errados em sua localização urbanística,
mais do que em termos de construção em si, porém
3. CF.OOME,H,·M. & HAMMOND,·R. Astorla cconomica
-delfln9l1ilterra. Trad. it., Milão, 19.Sl, p. 263. S. BERNoOLLI,V. H. La ciltà e il suo/o urbano (1946).
4. CROOME lL M. & HAMMONP,R. I. ;pp. p. çit., 278. Trad. it., Milão, 19.51, p. 54.

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54. Planta de Lo ndreseml843,

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os homens daquela época não poderiam ter apreciado Stephenson corre em "Rockill em 1829; logo depois,
com facilidade uma distinção desse gênero. Todavia, a ferrovia surge na. França e nos Estados Unidos
as conseqüências concretas saltam a seus olhos e a (1830), na Bélgica e na Alemanha (1835), na Rússia
seu nariz: a insalubridade, o congestionamento, a (1838), na Itália e na Holanda (1839) e forma rapi-
feiúra. * damente uma fina rede sobre o território dos Estados
A falta de uma ínst,alação racional para trans- europeus.
formação dos resíduos líquidos e sólidos pode passar A ferrovia é um dispositivo tecnicamente bastan-
despercebida no campo, onde cada casa possui muito te vinculante; mesmo que se trate de iniciativa priva-
espaço a sua volta para enterrar e queimar o lixo e da, é necessário um acordo preliminar sobre certas
para realizar a céu aberto as operações mais incômodas, características fundamentais - por exemplo, sobre
mas isso é fonte de graves perigos no aglomerado a bitola, que é fixada por Stephenson em 1825 em
urbano, e tanto mais quanto mais extensamente a ci· quatro pés, oito polegadas e meia - e a autoridade
dade cresce. O fornecimento de água pelas fontes deve preocupar-se em regulamentar as múltiplas rela-
públicas pode ser feito facilmente onde as casas estão ções entre a ferrovia e as localizações urbanas e rurais:
distribuídas em grupos pequenos, mas toma-se traba- onde, portanto, é o Estado que promove diretamente
lhoso nos novos bairros muitos extensos e compactos; es.se serviço - como na França e na Itália - a
por outro lado, os usos industriais da água excluem autoridade tem em mãos um novo meio, muito po-
os usos civis. As funções que se desenvolvem no tente, de intervenção para modificar o aspecto do
espaço externo - a circulação de pedestres e carros, território, e é levada a rever, cada vez com sentido
as brincadeiras das crianças, a criação de animais do- menos liberal, as leis sobre expropriação, a fim de
mésticos, e assim por diante - não perturbam uns conseguir obter as áreas necessárias para as constru-
aos outros onde o espaço é abundante, porém inter- ções ferroviárias em condições favoráveis.
ferem de maneira intolerável se são obrigados a se Assim, por caminhos diversos, amadurece a exi-
desenvolver uns sobre os outros nas estreitas passa- gência de uma coordenação das iniciativas de cons--
gens entre as casas. O ambiente que resulta dessas truções na cidade industrial. Pode-se dizer que os
circunstâncias é feio e repulsivo além de todo comen- métodos da urbanística moderna partem destes dois
tário; cômo em um grande aquário, a infecção de fatos: a natureza vinculante das novas realizaçóes
cada parte infecta rapidamente o conjunto, e não é técnicas - especialmente as ferrovias - e as medidas
necessário um altruísmo especial para se interessar pe- pleiteadas pelos higienistas a fim de serem remediadas
lo que ocorre, uma vez que as contanlinações e as as· carências sanitárias das instalações paleoindustriais.
epidemias que daí derivam difundem-se. dos bairros
populares, para os burgueses e aristocráticos. A formação das primeiras leis sanitárias merece
ser contada exten.samente, pois faz com que se veja
Já que os males dizem respeito à cidade em seu claramente como se chega, começando de um setor
conjunto, os remédios devem ser igualmente de ordem específico, a uma série de disposições complexas, re-
geral, e competem à autoridade pública, não aos par- ferentes a cada aspecto da vida da cidade.
ticulâí'es. Por conseguinte, essa situação, nascida da
confiança na liberdade ilimitada dos indivíduos e da Na Inglaterra, como sempr:; a ação das autori-
falta de meios tradicionais para controle público, im- dades é precedida por algumas associações privadas de
pele as autoridades, irresistivelmente,.a intervirem de natureza filantrópica, como a Entidade Sanitárja de
outro modo, impondo novas limitações às iniciativas Manchester; sua ação é quantitativamente insignifi-
imobiliárias particulares. cante, porém, é importante porque suscita o interesse
A necessidade, contudo, de uma disciplina uni- da opinião pública e mostra que o melhoramento dos
tária do espaço em que se move a sociedade indus- bairros insalubres é realizável com os meios contem-
trial é demonstrada, da maneira mais persuasiva, porâneos existentes.
também pelas realizações ulteriores da própria indús- Em 1831, quando as desvantagens da urbaniza-
tria e, sobretudo, por um fato que, por sua vez, ção foram já fortemente apontadas, a cólera propaga-
caracteriza nitidamente a era da reorganização: a se da França para a Inglaterra. No ano seguinte,
criação de uma rede ferroviária (Figs. 58-61). Edwin Chadwick (1800-1890) é nomeado assistente
A primeira ferrovia aberta ao pdblico é executada da Comissão dos pobres; ele desempenha um grande
na Inglaterra em 1825 e a primeira locomotiva de papel na formulação da nova lei de 1834 e, durante a

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pesquisa feita pela Comissão real, obtém m.eiosde as ruas llio do nem pavimentadas, nem &en'ldas por
conhecer com exatidão e com muitos detalhes as con• esgoloa, mas abrigam numerosas col&iias de porcos encerrados
dições de vida das classes menos favorecidas. dentro de pcqlJCl10$ currais ou pátios, ou vagaudo sem rcatri-
ç6es pela vizinhan;a. il [No antigo .ni.icJeoJ a co.nfusão foi
:6 mérito de Chadwick haver apreendido com levada ao extremo pois, o.ndcquer q_uc o programa de com-
clareza as relações entre os problemas sociais e as con· tru;io do período prcceden~ deixou uma porção ínfima de
dições físicas do ambiente: de agora em diante, até csp~, foram acrescentadas outras construções, até não restar
retiraNe da vida pública em 1854, ele• será o ani- entJC as casas uma s6 polegada de terreno onde ainda sc-
mador de todas as iniciativas do governo para me- POli!iaconstruir. {Nos novos bairros, a si.luação E ainda pior
lhorar o arii.biente na cidade industrial. porque) se antes &e tratava de caw únicas, aqui cada p41io e
cada. quintal é acrescentado ao bel-pruc.r de cada um, sem
Em 1838, o Asslstant Comminioners' repor,
levar- cm conta a situação dO$ demais. Ora uma ruazinha v;"1
sobre as condições de vida dos tecelões manuais des- em uma dircç:ão, ora vai cm outra: cm eada extremidade cal-&e
creve de seguinte maneira as novas estradas construí- cm um beco sem saída, ou sira-se cm tomo de uma ilha
das em Bethnal Green nos últimos decênios "por es-- acJCscentada, que leva o visitante ao ponto de partida, 10.
peculadores da construção do tipo mais desenvolvido":
O tratamento dos detritos é um dos problemas
Muitas delas são as piores que se possa imaginar, total- que mais preocupam.
mente desprovidas de essoto$ comum. As i;:~ geralmente
têm dois andare~; as fundações muitas vezes foram coloc)ldas [Em Bradíord, 1844, um dep&ito de lixo] ~lua-se na
diretamente sobre a zona herbos.a e sobre terreno vegetal, e zona mais freqüentada da cldade, exatamente no centro co-
não existe qualquer venlilação enlre os pavim1mt1.11tdos locais mereial, e wnt~ detritos e restos provenientes do.s açougues,
de habilagão e o terreno não drenado que se encontra imc- dm sanitários e doo mictório.s. :e.de propriedade particular e,
dialamente abaho; a pavimentação das estradas é do tipo por essa razão, os visilantes sustentam que não podem obri-
mafa miserável, freqüentemente wmpo:.ta por resi~uos ter· gá.lo a se mudar. 11 [Em Grecnock, 1840) em uma parte
IO!.O;!, e moles e pó de tijolos empastado pela. umidade. A de Markct Strect existe um monte de esterco, mas talvez
água abre 1iCUcwninho sob as cuas e, unida a03 líquidos que seja muito zrande para ser chamado de monte. Não é exagero
1iaem das foi.:.as negri\S, freqüentemente vem à tona com va· avaliar seu conteódo de lmundícies cm cem jardas r.úbicas. E.
pores nocivos, e C$ICS checam até ali salas de estar. 6 a instalai;ão oomcrcial de uma pessoa que comercia com ester-
co; ele o vende em pequenas porções e, para favorecer SCU11
Em outros Jugares, entretanto, o quadro é diverso: clientes, conserva sempre a parte central, uma vez que quanto
mais velho, mais alto é seu Jll~ 1Z
[Em Covcnuy] as casas de melhor cateeoria dOli tecelõe~,
comparadas àquelas dos trabalhadores agrícolas, são moradias
Em Londres. existe o grave problema da conta-
boas e confortávch; alcumas cstiio bem mobiliadas:1 (E em
Barnslcy] a maioria. da~ ca~as são cOm.trufdas cm pedra, em minação dos rios. Existe na capital uma massa in-
po~ção arejada e ensolarada, para o que a cidade e seus forme de antigos regulamentos e de organismos de ins-
arredores oferecem eopaço abur,dante, As oficinas cm que peção, porém operam com critérios antiquados. Por
trabalham não 1ião mais úmidas do que é desejável para sua exemplo, os esgotos foram concebidos inicialmente
atividade. Mesmo quando os habitantes sofrem pela exlrema como canais para recolher as águas pluviais, e 6 proi-
pobr~a, suas = têm um a..pccto de limpeza e de ordem. 8 bido ligá-los às casas ou aos edifícios públicos, em-
bora os dejetos líquidos possam passar, das fossas ne-
Engels, em seu livro sobre A situação da classe gras,. para os esgotos. Quando, entretanto, generali-
operária na Inglaterra de 1845, ressalta, além da in- za-se o uso doS sanitários, essa. proibição cai em de--
salubridade dos edifícios, o congestionamento da ci~ suso, entre 1810 e 1840. Todos os esgotos confluem
dade e a falta de qualquer regra para o aproveita-
mento dos terrenos: 9. Cu.PmM, J,H, Op. ciL, p. 539. Elltrafdo de P-
EHGELS, Die Lage der tUbelJendui Klassen in. Bnglan4,.
[Em Manchester] filas únicas de casa:; ou srupos de Lcíp,Jg, 1845.
ruas surgem aqui e ali, como pequenas vilas, wbJC o 10. 6it. cm P. L\.VEDAN, Histoire de rurbanismc, lpoqur
novo so-lo de'·arsila, no qual não cresce nem ao menos grama; contempo,alne, Paris, 1952, p. 12.
11. CUFHUI, J.IL Op. clL, p. 539, em Commls.rlon Ol1
6. Cil. em I. H. CUPW.M, An Eco11omicHislory o/ Mo- the Stale o/ Large Town., and Popll/ous Dis"k,s Report, 1844,
dem Brilab1, lhe Ear(y Railwll)' Age, Ctwi.brid~ 1939, p. 39. p. 338.
7. (;µ.pmM, J.H. Op. cit., p. 40. 12, ·Cl.u&M, J.H. Op. clt., p. 540, em Reporl on thr
8. CL\J>,lU..M,
J.H. Op. cit., p. 41. S@illll)' Condilion.s.of the Laboun'ng Popufation, 1842, p. 381.

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para o Tâmisa, enquanto que esse mesmo rio fornece blema em escala mais vasta. evidenciando a falta de-
água para a cidade; assim, uma causa permanente de qualquer legislação sobre ooD.struções e sobre insta-
epidemias aflige a capital inglesa. lações urbanas. A flDl de dar continuidade aos estu-
Nesse período, estudam-se numerosos sistemas dos nesse sentido, institui-se uma Comissão real sobre o
para melhorar a situação, mas à incerteza dos crité- estado das grandes cidades e dos distritos populosos,
rios administrativos soma-se a das soluções técnicas. a qual publica seu relatório em 1845; nele, faz-se,
Por volta de 1840, os membros do Parlamento e os entre outras, a recomendação, no sentido de que, antes
prováveis refonnaclores "estão irritadíssimos com as de fazer um projeto de esgotos, seja preparado "um
controvertidas opiniões dos peritos quanto às dimen- relevo e uma planta em escala adequada"; que, jun-
sões e às formas dos esgotos, quanto aos respecti- tamente com os esgotos, forneça-se a pavimentação;
vos valores das bocas-de-lobo, das grades e dos al- que as autoridades locais possam impor às casas cer-
çapões, e quanto aos mistérios da hidráulica". 13 tos requisitos higiênicos mínimos, como a presença de
serviços higiênicos em cada apartamento; que possam
Em torno de um pântano chamado de lagoa de obrigar os proprietários a limpar as casas sujas e a
Wellington, irrompe, em 1838, uma violenta epidemia. munir-se de uma licença para estipular os contratos
As autoridades locais apelam ao novo Comitê da lei de locação; que possam nomear oficiais médicos; que
dos pobres, e uma comissão de médicos enviada ao possam obter fundos para melhorar e alargar as ruas
local publica um ~atório que obtém vasta repercussão e ·para abrir parques públicos "porquanto as gran-
chamando a atenção da opinião pública. des cidades de Liverpool, Manchester, Birmingham,
No mesmo ano, entra em vigor a lei de 1837 Leeds e.muitas outras não possuem hoje qualquer par-
ª
sobre registro de nascimentos,óbitos e casamenfoS, que para passeiospúblicos". Partindo das exigên-
que pennite classificar as mortes de acordo com as cias sanitárias, chega-se, assim, a um programa urba-
causas; assim, toma-se possível englobar o conheci- nístico completo.
mento dos fenômenos isolados, estudados pelas comis-
sões de investigação, em um correto quadro estatístico. O Parlamento é incumbido da questão de 1846~
Em 1839, até mesmo o prelado de Londres in- uma nova epidemia de cólera chega para apressar a
siste para que seja estendida a todo o país a investi- discussão do problema e a opinião pública pressiona
gação sobre saúde realizada em londres, e Lord Russell os legisladores; contudo, as dificuldades a serem supe-
encarrega a Comissão dos pobres de redigir o relatório, radas são muitas. Uma primeira lei, proposta. em
o qual é publicado em 1842. 1847, é retirada e só no ano seguinte é aprovada a pri-
Chadwick, que é o impulsionador da pesquisa, tra- meira Public Hea]th Act, que constitui_a base de toda
ça um quadro impressionante das condições higiênicas a legislação subseqüente.
das cidades inglesas: A Act de 1848 não inclui Londres, porém, ao
mesmo tempo, é instituída a Metropolitan Commis-
As prisÕC!lcaracterizavam-se, antes, pela imundície e pela sion of Sewers, com amplos poderes. No ano 'se-
falta de ventilação. No entanto, as descrições feitas por guinte, a supervisão dessa matéria é atribuída ao pri-
H1lWard das piores prisões que visitou na Inglaterra - e ele meiro Board ofHealtb, composto por Lord Shaftesbury,
as considerava como entre as. piores que viu na Europa - Lord Morphet, Chadwick e Southwood Smith.
são SU,Peradas em todos os sentidos por aquilo qulll o A competência desse comitê é muito grande. Em
Dr, Arnott e eu vimos em Glasgow e em Edimburgo. Mais
1851, coloca pela primeira vez, em escala nacional, o
detritos, maiores sofrimentos físicos e desordens morais do
que as descritas por Howard podem-se encontrar entre a problema da construção subvencionada, e consegue que
população operária das oficinas de Liverpool, Manchester ou as cidades com mais de dez mil habitantes tenham a
Leeds, e em grande parte da eapitaL H faculdade de construir casas econômicas para as clas-
ses trabalhadoras, porém com escassos resultados, uma
Enquanto isso, um Comitê da Câmara dos Co- vez que as administrações locais não tiram partido dessa
muns publica, em 1840, um relatório sobre as con- disposição.
diÇões de higiene das grandes cidades e coloca o pro- No mesmo ano, a publicação dos resultados do
censo permite avaliar a iD;Jportância do fenômeno da
13, CUJ>HAM,J.H. Op. ciL, p. 54?,
14. CIJJ,HAM, J.H. Op, cit., pp, S37-S38, em. Report on 15.. CU.PHAM,J.lL Op. cit., pp. 544-545, em Comml:sion
tÍle Sa11itacyCondilions etc., ll:14?, p. 212. on the S1a1eof Large Towns ele,, 1844, p, 68.

78
...-· -··

~--'"--,
58. As obrasda fem,via.Lont!res-BirmioghamemJ836 (de S, e. Brees,
TMlhutratedGkmazyof Practicalhchitecu,n, 1852). { ~
59.A femivi.asubterrineadeLondres( de U~ilootroto, 1867}. f
60, 61. Londres,11 estaçio de King's.Cross (L. qibitt, 1850-52; deJ.
Fcrgusson. Htsrory of the Modem Styla ofArchJJ«tun, 1873).

79
aglomeração urbana. Segundo os cálculos oficiais, pelos alinhamentos mecânicos de muitos bairros na se-
dentre 3 366 000 habitantes com mais de vinte anos, gunda metade do século XVIII (Figs. 63 e 64).
residentes em Londres e outras sessenta e uma cida· Contudo, da mesma fonna que, em termos polí-
des, apenas 1337 000 nasceram no local e, dentre ticos, o Reform Bill sanciona a iniciativa popular e
1 395 000 londrinos, apenas 645 000. a capacidade de adaptar gradualmente as instituições
W. Farr, discípulo de Chadwick que ingressou em ao desenvolvimento das idéias e das condições mate-
1838 no Registrar General's Oifice, apresentando tais riais por meio da atividade parlamentar, também as.
atos escreve: primeiras e imperfeitas leis sobre construções estabe-
lecem um precedente para um controle contínuo pela
Até agora, a população emigrou dos territórios muito ou autoridade local e pelos órgãos centrais sobre o de·
bastante salubres do campo para. as cidadese os centros por· senvolvimento e a transformação da cidade.
tuárlos, nos quaiS poucas famílias viveram durante duas. gera·
ções. S evidente,porém, que de agora em diante as cidades
Mesmo os campos de respectiva ação das duas
grandes não poderão mais ser consideradas como acampa· autoridades são estabelecidos desde o princípio, ficando
mentos- ou seja, como !usares em que as pessoas que vêm confiada à administração local as iniciativas concretas,
de fora exercitam sua ~tÍvidade o sua indústria.- mas i;im e aos órgãos centrais os fundamentos legislativos e a
-.:omolocal de nascimento de uma grande parte da estirpe definição dos standards mínimos e máximos: distinção
inglesa. É necessário,portanto, agir sobre as cidades,a fim ainda válida para a planificação moderna.
de qne o pior lugar dentre lodos os locais de nascimenlo- Na França, o curso dos acontecimentos é diferen-
o quarto abafado, as acomodações promiscuas de muitas fa. te, porém as orientações são semelhantes. A indus-
núlas - não seja o lugar de nascimentode uma parte con-
siderávelde nossa população. 16 trialização é mais lenta, mas prossegue durante a Res--
tauração e, com maior rapidez, sob a Monarquia de
Julho, ao abrigo das barreiras alfandegárias, provocan-
Em 1866, é promulgada uma lei sanitária nova, do a urbanização e as conseqüentes dificuldades de
mais avançada, e a Artisans' and Labourers' Dwelling organização, sobretudo nos departamentos setentrio·
Act retoma ao argumento da construção popular, in- nais. A atividade política e administrativa, contudo,
troduzindo o conceito de expropriação com indeniza- não prossegue com continuidade o curso das mudan-
ção inferior ao va1or do mercado que, de agora em
ças econômicas e sociais; o regime de Luís Filipe re-
diante, será um dos pontos fundam~ntais de todo pro- tira-se rapidamente para posições conservadoras e ali-
grama urbanístico. São dados outros passos à frente
ena as simpatias da classe instruída; as pessoas com
em 1875 e 1890, quando a Housing of Worker Class capacidade para denunciar os novos problemas de con-
Act unifica todas as leis sanitárias e J.eis sobre cons-
vivência que amadurece se encontram, assim, em gran-
truções populares.
de parte, na oposição e elaboram soluções teóricas
Não se deve pensar que os benefícios das pri- arrojadas e generosas, porém perdem contato com o
meiras leis sanitárias e daquelas sobre as construções exercício d.o poder e perdem a familiaridade com os
populares hajam rapidamente transformado os bairros obstáculos concretos.
õperários. As leis tomam-se eficazes somente depois Somente no breve período da Segunda Repúbli-
de um período de assentamento e depois que se for- ca, entre a Revolução de 1848 e o golpe de Estado
mou, ao lado da administração pública, um pessoa1 de 1851, o pensamento desses reformadores pode in·
adequado, capaz de colocá-las em prática; as limi- fluir diretamente sobre a atividade legislativa; nesse
tações introduzidas pelas leis tomam, assim, mais período, com efeito, são feitas as mais importantes
caros os alojamentos, e os inquilinos que não se en- inovações jurídicas e administrativas.
contram em condições de suportar os aumentos são Também aqui o ponto de partida é a constata-
impelidos para novos alojamentos precários em %0nas ção das düiculdades higiênicas nos novos aglomerados
mais perüéricas; enfim, as normas das primeiras leis, urbanos. As pesquisas mais conhecidas, como o rela-
puramente quantitativas, remediam algumas das mail; tório de Blanqui sobre a situação das classes operárias
graves deficiências de ordem higiênica, mas tomam em 1848 e os estudos da Sociedade de S. Vicente de
ainda mais uniformes e obsessivas, se é que é possí- Paula sobre os habitantes das moradias de Lille, re·
vel, as ruas dos bairros operários e são responsáveis petem quase que literalmente as expressões de Chad-
16. Cen.1us of 1851, cil. em J.H. CLAPHAM, op. cit., wick e de Engels; é i:.omo se estivéssemos lendo um
p. Sl7. sinistro relato, em que as situações se apresentam ao

80
------·
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/

62. O centrode LQ~.


63, 64. Edificaç&s by Ln\>em LonàwJ.

81
infinito, e cada vez que se abre a porta de uma mo- tanto, também às obras que deverão retoroar às mãos.
radia, seja. em Lille ou em Manchester, sabe-se que a dos particu1ares, como as novas casas; transforma-se,
mesma cena será vista ainda uma vez, como a fusti- assim, em um instrumento urbanístico geral, com o
gação no esconderijo do Processo de Kafka: qual a autoridade intervém no processo de tram:for-
mação das cidades, discriminando as exigências públi-
Muitas famílias de Rouro dormem promiscuamente sobre cas e parUculares.
um estrado de palha, como os anlllllU$ em um estábulo; sua
E a lei que permitirá que Haussmann, daí a pou-
lou1ra consiste em um vaso de madeira ou de cerâmka delibci-
çado, que serve para todos o, fi115;os filhos menores dormem
co, efetue seus grandiosos trabalhos de transformação
,sobre um saco de cinzas; os outros, pais e filhos, irmãos e de Paris. A aplicação ocorrerá em um clima político
irmãs, deitam-se todos juutos sobre aquele leito indescritível autoritário, num espírito diferente daquele dos legis-
{Em Illle, as ruas" dos bairros operários levam a] pequenos ladores republicanos.
pátios que servem ao mesmo tempo como esgoto e dcp65ito
de lixo. As janelas das níoradias e as portas dos alojamen-
tos abrem-se para essas pasS,RSensinfectas, ao fundo das quais 2. O movimento neogótico
uma grade é colocada horizontalmente sobre bocas-de-lobo
que servem como latrinas públicas, dia e noite. As habitações O ano de 1830, que assinala o início das refor-
da. i:omunidade e:.tão dátrlbuídas em torno desses focos de mas sociais e urbanísticas, assinaJa também o êxito
pestilência, dos quais a miséria local se compraz cm extrair do movimento neogótico na arquitetura.
um pequeno rendimento. 1t
A possibilidade de imitar as formas góticas, ao
invés das clássicas; está presente na cultura arquite-
Durante a breve vida da Segunda República, o tônica desde a metade do sé.colo XVIII e acompanha,
Conde A. de Melun, proveniente da Sociedade de S. com manifestações marginais, todo o ciclo do neoclas-
Vicente e deputado no Norte, consegue fazer com que sicismo, confumando implicitamente o caráter conven-
seja aprovada a primeira lei urbanística francesa, em cional da escolha neoclássica.
1850. As Ccímunas estão autorizadas, de agora em Na quarta década do século XIX, essa possibili.:
diante, a nomear uma comissão, que deverá indicar dade concretiza-se em um verdadeiro e próprio mo-
"as medidas indispensáveis de arranjo dos alojamentos vimento, que se apresenta com motivações precisas,
e dependências in.salubres, alugados e ocupados por quer técnicas, quer ideológicas, e que se contrapõe ao
pessoa diversa daquela de seu proprietário"; na co- movimento neoclássico. O êxito desse contraste escla-
missão, devem estar presentes um médico e um ar- rece de maneira decisiva os fundamentos da cultura
quiteto, e o proprietário pode ser obrigado a pagar as arquitetônica; com efeito, o novo estilo não substitui
obras, se for responsável pelos inconvenientes, ou a nem se funde ao anterior, como ocorria em époças
Comuna pode substituir-se ao proprietário, exproprian- passadas, mas ambos permanecem um ao lado do
do "a totalidade da propriedade compreendida no pe- outro como hipóteses parciais, e todo o panorama da
rúnetro das obras a serem efetuadas". is · história da arte surge rapidamente como uma série de
hipóteses estilísticas múltiplas, uma para cada um dos
Esta última disposição é a mais importante, uma estilos passados.
vez que atribui novo significado à expropriação. A Assim talvez se possa ver a relação que liga o
lei napoleônica de 1810 e a de 1833, emanada no movimento neogótico às reformas estruturais desse pe-
princípio do regime orleanista, consideram a expro- ríodo. As reformas começam quando os problemas
priação como uma operação excepcional; a lei de 1841 de organização, emersos da Revolução Industrial, deli-
facilita seu procedimento, mas estabelece que a auto- neiam-se com clareza suficiente, e fica evidente a im-
ridade somente se pode valer da mesma para a possibilidade de conservar as velhas regras de condu-
execução de grands travaux publics e, de fato, serve ta. Ao mesmo tempo, na arquitetura, parece imposs[-
comQ preparativo para a lei de 1842 sobre a nova vel conservar a continuidade fictícia com a tradição
rede ferroviária, Agora, contempla-se a expropriação clássica, e vem à luz a natureza convencional do re-
até mesmo para o saneamento dos bairros residenciais curso aos estilos passados, embora o problema fique
em aberto, aguardando uma solução não convencional.
e diz respeito a todo o perímetro dos trabalhos, por-
No século XVIII, o uso de formas góticas apre-
17. A. BLANQUI,clt. em P. L\VEDAN, op. cit., p. 6s.' sentava-se como uma variedade do gosto pelo exótico,
18. Cít. em P. L\VEDAN, op. ciL, p. 89, e possuía um caráter fortemente literário. B. Lan-

82
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67. EiibQçod<:K. F. Scliinkel para umaigrcja.gdtica (çerçadc 1814).

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83
gley, em 1742, publica um curioso tratado, Gothic e se tornam cada vez mais freqüentes durante a Res-
ArchiJecture Restore and lmproved, no qual tenta de-, tauração. Napoleão manda restaurar, em 1813 - de-
duzir, das formas medievais, uma espécie de ordem de sastrosamente - o interior de Saint-Denis a fim de
novo gênero, porém sua tentativa não encontra qual- ali introduzir o túmulo de sua família; o mesmo ar-
quer seguimento. Em 1753, o romancista H. Wal- quiteto, J. A. Alavoine (1777-1834) restaura, em
pole faz reconstruir em estilo gótico sua casa de 1817, a Catedral de Sens e, em 1822, a de Rouen.
Strawberry Hill em Twickneham (Fig. 67); em 1796, Ao mesmo tempo, tem inicio a polêmica dos li-
I. Wyatt constrói para o literato W. Beckford a resi- teratos para a conservação dos monumentos medievais~
dência de Fonthill Abbey que, de acordo com os dese-- secularizados ou expropriados pela Revolução e caídos
jos de quem a encomenda, deve ser "um edifício or- em mãos de particulares, que fazem deles o que bem
namental que tenha a aparência de um convento meio entendem. V. Hugo, escreve a "Ode sur la Bande
em ruínas, mas que contenha alguns cômodos ao abri- Noire", em 1834, é constituída a Société Française
go das intempéries". te d'Archéologie e, em 1837, a Comission des Monuments
Na França, o chamado estilo troubadour não está Historiques; na época da Monarquia de Julho o mais
menos carregado de significados literários; em 1807, célebre dos restauradores é J. B. A. Lassus (1807-
Chateaubriand embeleza sua villa de Vallée aux-Loups ·1857), que trabalha em 1838 em Saint-Germain-
com decorações g6ticas. Um pouco em toda parte, ·l'Auxerrois e na Sainte-Chapelle e, a partir de 1845,
surgem construções de jardins, móveis e algumas fa- dirige, juntamente com Viollet le Duc, as obras de
chadas em estilo gótico. • Os estilos medievais são as- Notre-Dame de Paris.
sociados ao espírito romântico e são apreciados, não Nos trabalhos de restauração, a relação entre for-
como um novo sistema:: i:le regras que substituam. as mas medievais e problemas de construção deve forço-
clássicas, mas, antes, porque se supõe que não possuem samente ser enfrentada pelos projetistas. Depois de
regras e derivem do predomínio do sentimento sobre a 1830, esses conhecimentos passam, pouco a pouco, aos
razão; o gótico parece, por enquanto, como uma massa projetos dos edifícios novos e enfrentam-se não s6 te--
confusa de pequenas torres, pináculos, estantes enta-
mas decorativos ou residências para literatos de van-
lhadas, abóbadas tenebrosas e luzes filtradas por vitrais guarda, mas também casas de moradia nrumais e edi-
muiticolrues.
fícios públicos ocupados.
Debret, na Eneyclopédie nwdeme de 1824, tece
louvores ao estilo gótico, considerando-o, porém, "o Na Inglaterra, numerosos edifícios ·medievais são
delírio de uma imaginação ardente que parece ter trans- restaurados e ampliados no mesmo estilo, tais como
formado sonhos em realidade". :ro Victor Hugo, no ro- o St. John's College em Cambridge (T. Rickman e
mance Notre·Damr: dr: Paris, de 1831, exalta a arqui- H. Hutchinson, 1825) ou o castelo de Wmdsor (J.
tetura medieval e critica os monumentos c1ássicos, mas Wyatville, 1826): e, quando o velho palácio de West-
descreve a catedral parisiense como um antro escuro e minster é destruído em 1834 por um im;êndio, o con·
desmesurado no qual habita. como genius loci, o dis- curso para a nova sede do Parlamento inglês prescre-
forme Quasímodo. ve que o projeto seja em estilo gótico ou elisabetano,
maneira em que, efetivamente, é exeé'utado o edifício
Visio sob essa luz, o estilo gótico difunde--se ra-
pidamente na pintura, na cenografia, na tipografia e por Charles Barry (1795-1860) (Fig. 66).
no mobiliário, mas surge como uma imagem remota Na Alemanha, depois das obras para o término
da prática de construção e parece não ser adequado da Catedral de Colônia, iniciadas em 1840, os edifí-
à aplicação em larga esca]a na produção de edifícios, cios em estilo gótico multipllcam·se de um extremo ao.
enquanto a associação entre Classicismo e engenharia outro do país.
é segura e acertada. Na França, não obstante a resistência da Acade-
A experiência que permite a introdução do góti- mia que controla boa parte dos encargos para os edi-·
co nos projetos correntes provém das restauraçõe:; dos fícios públicos, depois de 1830 constroem-se em estilo
edifícios medievais que começam no primeiro Império gótico muitas casas particulares e edifícios religiosos;.
às vezes o clero exige propositalmente os projetos em
19. Cit. em E. Tl:JlE.SCJn, I:Architeltura i11 Ingl1f!terra, gótico, como o arcebispo de Bordeaux que prescreve
Floreoça, s. d., p. 141.
20. Cit. em L H.I.UTECOEUB., Hisioire de ra,cl1itec1ure esse estilo para todas as obras de sua diocese; em
cfassique en France, Paris. 1.955, t. VI, p. 288. 1852, são construídas na França não menos de uma

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---- (G.Jappelli, 1837).

85
centena de igrejas góticas. 21 Dessa preferência, tira A presente obra deve destitui-los dessa mácula e preen•
partido a indústria de objetos sacros; por volta de cher as lacunas que foram tão extensas. Não devem, coo·
1840, funda-se uma Société catholique pour la fabri- tudo, limitaMl:J a traçai: apenas cópias de antigos modelos.
cation, la vente, la commission de tous les objets con- mas interessa também que se ocupem das produções e das
sacrés au culte catholique; essa organização e outras construções deduzidas dos princfpios sobre os quais. i;e basea·
semelhantes invadem a França e todo o mundo com ram os antigos mestres, e que fornecem a chave para o
estudo desse estilo. :l8
uma onda de candelabros, estátuas, tabernáculos, cá-
lices .e paramentos góticos que persistem ainda hoje.
A difusão do estilo gótico não ocorre sem graves
Os protagonistas, porém, da polêmica em favor contrastes; Avaloine não pode entrar no lnstitut por
do "gótico" têm de distinguir suas preferências artís- causa de suas restaurações medievais, e na icole des
ticas das imitações correntes feitas às dúzias. O ino- Beaux-Arts é proibido o estudo do gótico.
vimento para a revalorização da Idade Média, na In-
Em 1846, a Academia Francesa lança uma es-
glaterra, está ligado, desde seu início, a uma polêmica
pécie de manifesto, no qual se condena a imitação dos
contra os objetos de uso em. estilo gótico, já produzi- estilos medievais coip.o arbitrária e artificiosa. O gó-
dos há tempos ''naquelas minas inexauríveis de mau tico é um estilo que pode ser admirado historicamente~
gosto, Birmingham e Sheffield"; 2:1 retomaremos essa e os edifícios góticos devem ser conservados:
discussão no Cap. 6.
Um dos manuais mais difundidos, os Principi dello Porém, secl possível talvez retroceder quatro sEculos e.
stile gotico de F. Hoffstadt, traduzido para muitas lín- dar como expressão monumental a uma sociedade que possui
guas, começa com a seguinte advertência: suas necessidades, seus costumes, seus hábitos próprios, uma
arquitetura nascida de necessidades, costumes, hábitos da so-
Depois que os monumentos da Idade Média foram estu- ciedade do século XII?. . • A Academia admite que se possa
dados com toda dedicação pelos eruditos e pelos artistas. o fazer, por captkho ou divertimento, uma igreja ou um castelo
mlrito da arquitetura gótica é cada vez mais reconhecido. gótico, mas está convencida de que essa tentativa de retorno
Contudo, não se ficou limitado apenas ao mero reconhe- aos tipos antiquados permaneceria sem efeito porque não teria
cimento do mérito e à admir~ das obras-primas dessa arte, fundamentos. Sia crê que, na presença deste gótico de plásio,
qu~ por longo tempo caiu em decadência, para não dizer no de contrafacção, quem se sente comovido frente àquele ver-
abandono; mas, face aos contrastes, tentou-se faz.ê.la reviver dadeiro e antigo, ficaria frio e indiferente; ela crê que a. con-
e pô-la cm prática. Se, aos olh~ dos conhecedores, poucas vicção cristã nlio bastaria para suprir a falta de coovicção
dc:.sa~ telltativas tiveram êxito, é fácil explicar as caUll:n disso. artística; em suma, não existe para as artes e par~ a socie-
Embora. tenhamos em nosso poder uma quantidade de dade senão um modo natural e legítimo de se produzir, isto
relatos predoSOS4ue oferecem uma variada escolha dos prin- i!, ser do próprio tempo. !14
cipais monumentos góticos, sempre que se traia de executar
qualquer obra nesse estilo, limitaram-se todos os e,<1tudoscm Viollet le Duc e Lassus respondem que a alterna-
imprimir a esses diversos modelo$ os detalhes supostamente tiva proposta pela Academia, ou seja, a linguagem
ma.is conve.nienlClia fim de compor um conjunto, ••• sem que clássica, é também ela produto de imitação, com a di-
houvesse qualquer preocupação pelo essencial, ou seja, com ferença que os modelos são ainda mais remotos no
as formas fundamentais que dão a Q5a iu:quitetura o caráter
tempo e feitos para outros climas e outros materiais,
que lhe i! próprio.
·E sem que, além diss!), se levasse cm conla q11C,desde
enquanto que a arte gótica é uma arte nacional Tam-
tempos remotos, o estilo antigo somente estabeleceu as leis bém Ruskin intervém na discussão e, em 1855, es-
da arte; que, não obstante a tão decantada mulliplicidade creve: "Nãq tenho dúvidas de que o único estilo ade-
de estudos das artes, e não o\»;lante o ressurgimento do gosto quado às obras modem.as nos Países do Norte seja o
pelo gótico, o estudo desse estilo foi excluído por todas as gótico setentrional do século Xill". J?1S
instituições; que; finalmente, antes de agora, não existia qual- Sob essa discussão de aparência tão abstrata, es-
quer obra elementar qúe pudesse servir de guia para o artista condem-se importantes problemas: a Academia refuta
e o operário. MUIJidos de ta.is meios, estes por certo não
teriam podido refazer aqueles erro:l'·encontrados nas constru- 23. HOFFsrADT, F. Prlnclpl dello stik gotico cavlltf dai
ções que forem executadas ••. monunumti del Mediocvo ad uso deg/í tuli.JJi ed operai, ed ora
dal /rance.se in cui venero trt:ulolli da/falemanno l'olgarb;z.ali
21. A111wle.1urchéologiques, 1852, XII, p. 164; ver L dai cavaliere FranceSCtJ Lau.art. Vene2a, 1858, Prefácio.
HAUiECOl!Ua,op. cit., t. VI, p. 328. 24. Ver V.L HAolllCO.EOll,op. cil, t. VI, pp. 336-337.
22. PIJGIN, A.W. The True. Principies o/ Pointed or 25. RusKIN, J. Seven Lamp.s o/ A,chitecture. lSSS, pre-
Clirútían A.rchitu:rurs. Londres, 1841, p. 23. fá~io à 2. ed.

86
69. Cartãu~ paramentos ~góticos (deA. W. P\lgw;The True Princi-
plezof Pointed ar CMstianA.chitecture, 1841).
70. Friso final do livro ContNst, de A. W.Pugin, 1836.

72. Uma cllMninl:


em forma de torre medieval(de R. RawliDSQn,Design
",,
71. Viollet le Duc, modelode igR<jagótica francesado ~lo
li
x:n. for Factory,Fumace a,ul othu allChimney.r,1862).

il
o principio de imitação, porque considera a linguagem "razões", os "motivos" que se encontram por trás das
clássica como dotada de uma existência atual, de fato aparências. Ao fazer essa operação, ele se vêem.
ou de direito; essa tese é sustentada por um.a tradição induzidos a superar os confins do estilo, a refletir sobre
aparentemente ininterrupta e por uma série de apli- as condições de partida da arquitetura e sobre as re-
cações que levaram a uma interpenetração e quase uma lações entre esta e as estruturas políticas, sociais e
identificação das fonnas clássicas com os elementos da morais.
construção e com os procedimentos da edificação cor- Os arquitetos neogóticos estão, além disso, ligados·
rente. Os neogóticos põem em evidência que a su- aos hábitos da perspectiva e relêem em ternios de
posta identidade entre regras clássicas e regras de cons- perspectiva os modelos medievais. E por essa razão
trução baseia-se numa pura convenção, porém recaem, que os edifícios neogóticos diferem dos góticos mais
na prática, em outra convenção, preferida à primeira do que os neoclássicos dos clássicos; as irregularidades
por razões externas, morais, religiosas e sociais. são corrigidas, as recorrências aproximativas tornam-se
Essa discussão opera vários deslocamentos na cul- rigorosas. Tenta-se reproduzir, em particular, a es--
tura européia arquitetônica. A persistência das for- triltura aberta, iterativa e não perspectiva de certos
mas clássicas não pode mais encontrar fundamentos modelos, especialmente ingleses, mediante a justaposi·
na forma acritica precedente,-e -o acordo tácito entre ção de vários episódios de perspectiva independentes;
Engenharia e Classicismo, chamado a justificar-se em daí resulta um tipo de composição "pitoresca" (usada
termos polêmicos, deteriora-se e perde o ímpeto pouco sobretudo para villas e pequenas villar individuais),
a pouco; a nova linguagem inspirada pelos estilos me- ainda convencional em tennos figurativos, mas capaz
dievais, por outro lado, não pode contar com uma ex- de tomar-se, logo a seguir, a sustentação das experiên-
periência recente de ordem. de construção que lhe asse- cias inovadoras de Richardson, de Olbrich, de Mackin-
gure o contato com a técnica. de edificação contem- tosh e de Wright. Assim, estabelece-se uma tensão
porânea. Assim, tanto em um, quanto em outro cam- entre os originais e as cópias, que deteriora pouco a
po, os caminhos do arquiteto e do engenheiro cada pouco a relação de imitação e solapa os fundamentos
vez mais se afastam. da perspectiva, da qual dependem todos os hábitos
Enquanto a sociedade se empenha em satisfazer correntes de visão.
as instâncias de organiz.ação emergidas da Revolução Por isso, o medievalismo assinala, por um lado,
Industrial, e os engenheiros participam deste trabalho um maior isolamento dos artistas e é o produto de uma
na primeira fileira,-"'Qferecendoaos higienistas e aos elite de inspiração literária, mas é, ao mesmo tempo, o
políticos os instrunientos·necessários - basta lembrar terreno de cultura de onde sairão algumas das contri·
a figura de Robert Stephenson (1803-1859). constru- buições mais importantes do movimento moderno: bas·
tor de pontes, que é um dos membros da Comissão ta pensar em Mortis, em Richardson, em Berlage.
real para investigação sobre as grandes cidades, entre Na edificação corrente, a polêmica entre neo·
1844 e 1845, exatamente enquanto se ocupa do pro- clássicos e neogóticos produz sobretudo desorientação.
jeto de sua obra mais importante, a ponte tubular Bri· Enquanto o estilo a ser imitado era um só, o ca(áter
tannia de 1849 - os arquitetos destacam·se dessa rea- convencional dessa imitação não estava evidente, e a
lidade, refugiam-se nas discussões sobre as tendências adesão àquelas formas era mais convicta. Agora que
e no mundo da cultura pura. os estilos são tantos, a ade.são a um ou a outro deles
Por outro lado, o movimento neogótico contém torna-se mais incerta e duvidosa; começa·se a consi-
alguns pontos propícios à renovação da cultura arqui- derar o estilo como um revestimento decorativo a ser
tetônica. A linguagem neogótica não pode ser dada aplicado de acordo com a oportunidade a um esquema
como manifesta como a neoclássica, detendo-se nas de construção indiferente, e podem-se ver inclusive
aparências, porque não pode contar com uma tradição edüícios aparentemente destituídos de todo revestimen-
recente, mas deve set reexumada dos monumentos de to estilístico; especialmente casas de campo (Fig. 74),
muitos séculos atrás. Por conseguinte, os arquitetos onde os elementos de construção são exibidos com
devem reconstruir por sua conta os "princípios". as brutalidade, fora de todo controle de composição.

88
l

73; 74. Paris, tutelo perto de PQissy (BriWIIII,1840) e casarÜ$t:ica perto dePassy (dcNormand fils, Pari, 111()t}eme).

89
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1·:

-
90
3. HAUSSMANN E O PLANO DE PARIS

1. Os motivos do ordenamento de Paris

E NTRB 1830 e 1850, como já ficou dito, a urbanís-


tica moderna dá seus primeiros passos, e não nos
Se estes métodos de intervenção não chegam a
constituir um. sistema homogêneo e não chegam a in-
estudos dos irrquitetos - onde estes discutem se se vestir todo o organismo urbano, isso se deve sobre-
deve escolher o estilo clássico ou o gótico, desprezan- tudo a uma dificuldade política.
do de comum acordo a indústria e os produtos desta
As reformas das duas décadas entre 1830 e 1848-
- mas exatamente da experiência dos defeitos da ci-
dependem ainda, em seu conjunto, do pensamento li-
dade industrial, por mérito dos técnicos e dos higie- beral; foi reconhecida a necessidade da intervenção
nistas que se esforçam por remediá-los. As primeiras
leis sanitárias são o modesto comerr;osobre o qual será pública em algumas matérias específicas, porém sem
construído, pouco a pouco, o complicado edifício da alterar substancialmente a natureza e a identidade das
legislação urbanística contemporânea, tarefas do Estado e das administrações locais, em re-
lação ao conjur.to da vida económica e sôcial.
Por eoquanto, contudo, a atenção dos reformis-
tas limita-se a alglllls setores e sua ação volta-se para Falta a idéia de uma programação pública que
a eliminação de alguns determinados males: a insu- estimule e coordene a~ !niciatívas especializadas das
ficiência de esgotos, de água potável, a difusão das autoridades e dos particulares; e, portanto, não pode
epidemias. Se, ao se intervir sobre !IIIl problema, nascer uma verdadeira política ur!ianistica.
outros problemas vêm à tona, isso ocorre, por assim Aqueles que vêem o desarranjo da cidade indus-
dizer, involuntariamente. A construção dos esgotos trial esforçam-se em remediar os inconveniec.tes sin-
e dos aquedutos exige um mínimo de regularidade, pla- gulares, seguindo os habituais canais administrativos
nimétrica e altimétrica, nas novas construções; a ma~ especializados (como Chadwick e os reformadores
nutenção das instalações urbanas comporta um novo sobre os quais se falou no capítulo precedente), ou
arranjo dos órgãos técnicos da comunidade e a faculM criticam radicalmente, junto com a cidade, a socieda-
dade de obrigar os proprietários a determinadas pres- de liberal que a produ:.d.u e a ela contrapõem outros
tações. A execução de algumas obras públicas, como modelos sociais e ur!ianísticos, realizáveis longe das ci-
estradas, ruas e ferrovias, exige novos processos de dades existentes ( como os teóricos socialistas que se-
expropriação do solo, e uma série de novos instruM rão mencionados no Cap. 6).
mentes técnicos, entre os quais uma cartografia A Revolução de 1848 interrompe ambas essas
precisa.
linhas de pensamento e de ação; a esquerda socialis-
A fim de controlar alguns aspectos da cidade in· ta, após haver tentado subir. ao poder junto com a
dustriaf, outros aspectos entram em jogo, e o controle esquerda liberal, é novamente impelida à oposição, e
deve ser gradualmente ampliado ao novos setores. organiza-se em novas bases teóricas, que negam qual-

91
quer validade às propostas urbanísticas da geração de habitantes, são formulados e colocados em prática
precedente. coerentemente em um tempo bastante curto.
Os movimentos de 1848 e suas consequencias, Provavelmente nem o imperador, nem o admi-
nos mais importantes países europeus, conduzem ao nistrador, perceberam plenamente todas as implicações
poder uma direita conservadora de novo tipo: Napo- da iniciativa. Algumas preocupações imediatas - . as°
leão III na França, Bismarck na Alemanha, os novos exigências de assegurar a ordem pública e de conquis-
tories dirigidos por Disraeli na Inglaterra. tar o favor do povo por meio de imponentes obras -
Essa nova direita, autoritária e popular, consi· influíram mais do que os raciocínios a longo prazo,
dera ser necessário um controle direto do Estado sobre e a especulação da edificação pesou mais do que te-
muitos setores da vida econômica e social; por conse- ria sido desejável. Contudo, o problema do plano
guinte, efetua uma série de reformas, as quais parcial· regulador para uma cidade moderna foi colocado, pela
mente dão continuidade àquelas das duas décadas pre,. primeira vez, em escala apropriada à nova ordem eco-
cedentes, mas que não podem ser equiparadas às mes· nômica, e o plano não somente foi desenhado no
mas por seu caráter coordenado, além de sua preocupa· papel, mas foi traduzido para a realidade e controlado
ção contra·revolucionária. em todas as suas conseqüências técnicas e formais,
administrativas e financeiras.
A urbanística desempenha um papel importante
neste novo ciclo de reformas e transforma·se em um A personalidade de Haussmann, tal como, vinfe
dos mais eficazeJI instrumentos de poder, especialmen- anos antes, a de Chadwick, intervém no curso dos
acontecimentos como causa de importância funda·
te na França.
mental.
As experiências técnicas que descrevemos no O Barão Georges Eugêne Haussmann (1809
Cap. 2, não encontrando mais obstáculos 1 mas sendo, -1891), funcionário por profissão, ocupa desde 185! o
pelo contrário, solicitadas pelo novo clima político, cargo de administrador da Gironde. O ministro do
desenvolvem·se com grande rapidez nos decênios pos· interior, Persigny, assim o descreve, quando trava co·
teriores a 1848 e chegam com bastante rapidez a for· nbecimento com ele durante um almoço oficial:
mar um sistema coerente, solidamente inserido na 1e·
gislação e na praxe administrativa. Nasce, assim, o Foi Haussmann quem me chamou a atenção mais do
que poderíamos chamar de urbanística neoconservado· que todos os demais. Porém, coisa estranha, o que me
ra, à qual se deve a reorganização das cidades euro· impressionounão foram tanto :.cus dotes intelectuais,se bem
péias (e daque1as colonins independentes das potên·· que notáveis, mas antes os defeitos de seu caráter. Tinha à
cias européias) na segunda. metade do século XIX e minha frente um doa tipos mais extraordinários de nossa
época: grande, forte, vigoroso, euérgico, e, ao mesmo tempo,
nos primeiros decênios do XX. fino, astuto, fértil em recursos; este homem audacioso não
A formação dessa experiência urbanística, pro· temia mo:rtrar-:;e abertamente como era. Poderia ter falado
movida pelas causas políticas a que fizemos menção, seis horas sem parar liobre seu argumento preferido, sobre
não teria sido tão rápida sem o exemplo dos grands ele mesmo. Sua pers011alidade centralizada erguia-se à minha
lravaux de Paris, promovida por Napoleão III logo frente com uma espécie de cinismo brutal. Para lutar, dizia
comigo mesmo, contra homens astutos, i:éticos e pouco escru-
após subir ao poder. pulosos, eis o homem de que precisamos. Ali, onde o cava·
Uma série de circunstâncias favoráveis - a pre- lhclro de espírito nJais elevado, mais fino, de caráter mais
cocidade do experimento, a possibilidade de utilizar nobre e mais coi;reto iria certamente fracassar, este atleta vi·
uma lei urbanística avançada como a republicana de goroso, de costas amplas, cheio de audácia e de habilidade,
1850, o alto nível técnico dos engenheiros saídos da capaz de opor expediente contra expediente, insídia contra.
insídia, sem dúvida terá sucesso.i
Ecole Polytechnique, a ressonância cultural daquilo
que ocorre na capital francesa, e sobretudo os dotes
Haussmann conta, em suas memórias, que até o
pessoais do Barão Haussmann, administrador do Sena
advento de Luís Napoleão havia pensado na possibi-
de 1853 a 1869 e respo~vel pelo, complexo. pro-.
lidade de ser eleito administrador do Sena e havia
grama • - tornaram importanJe e exemplar a trans·
formação de Paris. Pela primeira vez, um conjunto 1, PERSJGNY, Mémoi,es. p. 251, cit. por P. L',.~N,
de determinações técnicas e administrativas, ampliá· L'arrivêe au pouvoir, em La Vie Urbaine. nova série, n. 3-4
veis a toda uma cidade que já ultrapassou um milhão (1953), pp. 181-182.

92
76. Planta de Paris em 1853 (de E, Texicr,TabfaultkPmir},
77, Odhnites administrativos da cidade de Paris, antes de depois de 1859, com adi~ feita por Haussmannem vin.tearrondis.semmts.

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• 78. PllllllltdcParisem 1873 (de A, Joa.no.o,ParisiJJustri),

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imaginado as possibilidades oferecidas por esse cargo. -se às tropas regulares, com a frieza de uma ordem
O i;pinistro lhe tinha. perguntado que coisa poderia ter de serviço de oficina:
feito naquele posto, e ele respondera:
Franceses, todos os meios de defesa são legítimos, Ar-
Nada com o administrador de dgora ou com qualquer rancar o calçamento das ruas, jogar as pedras aqui e ali a
outro veterano político; tudo, com um homem provido, para cerca de um pé de distância a fim de retardar a marcha da
sua posição e pua os servii;os prestados ao governo, de uma infantaria e da cavalaria, levar tantas pedras do calçamento
autoridade suficiente para empreender e concluir grandes obras, quantas forem posdveis para o primeiro andar, para o se·
possuiodoenergia física e espiritual para lutar wntra os hã- gundo e para os andares superiores, ao menos vinte ou trinta
bitm, tão radicados na Frllllça, e para enfrentar pei;soalmente pedras para cada casa, e esperar tranqUilamcnte que os bata•
muitos tarefa$, diversas e caDIWltivas,que nio o dever de lhões estejam no meio da rua antes de jo.sá-los para balxo.
representação proporcional ao papel importante qUe terá sabi· Que todos os franceses deUem ponas, corredores e átrios
do~ndicar para si. A administração do departamento do abertos para o refúgio de DOlisosatiradorell e para lcvar·lhes
Sena lembra-me aquele zrande órgão de Saint-Roch, cujo re- ajuda. Que os habitantes conservem seu sangue frio e não
zistro, ses:undo a lenda jamais pôde ser ouvido em sua tota- se alarmem. A111tropas jamais ousarão entrar dentro das
lidade por pes~a alguma, pois temia-se que as vibrações dos casas, sablll!do que lá encontrarão a morte. Seria bom que
grossos tubos da oitava baixa teriam feito desmoronu as ficasse unia pessoa em cada porta, a fim de proteger a entrada
abóbada.li da igreja. Depois de Napoleão, nenhum governo, e a saída de nosws atiradores. Franceses, nos:sa salvação ellá
sem qualquer exceção, jamais se preocupou em ter no Hõtel em suas mãos; ela será abandonada? Quem dentre nós não
de Villc de Paris um verdadruo administrador do Sena, isto prefere a 100rtc à ~rvldão? '
é, alguém capu de tocar em toda sua extensão aquele temível
iostrumento. Ninguém wmpreeudeu a vantagem que se po,. Os mesmos métodos foram usados com sucesso
deria ter obtido daquela colocação, a qual depende de uma na Revolução de Fevereiro de 1848, e tornaram difícil
única eleição, a do poder central, se se houvesse podido ocupar a repressão da revolta operária de junho: além disso,
wm suficiente autoridade, sendo bonraclo pessoalmente pela o Imperador constatou a utilidade dos grandes boule-
confia~ do chefe de Estado. ::i vards retilíneos (Fig. 80) para. atacar a multidão com
descargas de fuzilarias, depois do golpe de Estado de
Ao seu redor, Luís Napoleão constrói seus pode- dezembro de 1851. É natural que agora se preocupe
res sobre temores suscitados pela Revolução socialista
em eliminar, de uma vez por todas, a possibilidade de
de fevereiro de 1848 e apóia-se na força do exército
que se repitam as barricadas populares.
e no prestígio popular, contra a burguesia intelectual
e a minoria operária. Ele, assim, tem um interesse Ao lado dessas preocupações de ordem política,
direto na execução de grandes obras públicas em Paris, existem motivos econômicos e sociais que impelem no
descuradas pelos governos precedentes, a fim de re- mesmo sentido. Paris tem cerca de meio milhão de
forçar sua popularidade por meio de testemunhos tan- habitantes à época da Revolução e do primeiro Im-
gíveis e a fim de tomar mais difíceis as futuras revo- pério, porém, sob a Restauração e ainda mais sob a
luções, demolindo as antigas ruas medievais e substi- Monarquia de Julho, começa a expandir-se (se bem
tuindo-as por artérias espaçosas e retilíneas propícias que não com o ritmo impressionante de Londres) e,
aos movimentos de tropas. com o advento de Napoleão m, abriga cerca de um
milhão de pessoas. O centro da antiga cidade é cada
Este segundo motivo parece hoje desproporcional vez mais claramente incapaz de suportar o peso de
a tais trabalhos dispendiosos, mas é pedeitamente um organismo tão crescido; as ruas medievais e
compreensível quando se pensa na ânsia do monarca barrocas não são suficientes para o trânsito, as velhas
pelos recentes acontecimentos de julho de 1830, de casas parecem inadequadas face às exigências higiêni-
fevereiro e de junho de 1848, sem falar das lembran- cas da cidade industrial, a concentração das funções
ças da grande Revolução. Em toda crise política, os e dos interesses na capital fez com que aumentassem
movimentos revolucionários nascem dos bairros da tanto os preços dos terrenos que uma radical trans-
velha Paris e as próprias ruas fornecem aos rebeldes, formação nas edificações tornou-se inevitável.
por algum tempo, as posições di., defesa e as armas de
ofensiva. Basta ler esta proclamação de 1830, na O acaso faz com que, nesse momento, chegue ao
qual o governo provisório sugere as maneiras de opor- Hôtel de Ville um administrador de excepcional ener-
gia e ambição, capaz de conjugar entre si os motivos
2. H.mssMANN,G.E. Mémoires. Paris, 1890,v. li, pp. políticos e os económicos, de criar uma organização
9 e IO, de tarefas que assegure um certo automatismo aos tra-

96
79. &quelllll dos pen:emell# realizadospor~ em bram:o,as ruas existentes, em prelo as novas, a.bettas no SegundoImpério;.cm quadncu-
lado, os novos baluos; em h.iehurado, as ZOIIIIS
verdes,

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97
balhos, e de superar as dificuldades previsíveis, fazen- casas e a largura das ruas (em ruas de vinte ou mais
do valer, como fator decisivo, seus dotes individuais metros de largura, a altura deve ser igual à largura;
de astúcia e de co_ragem, em ruas mais estreitas, a altura pode ser maior do
que a largura, até o limite de uma vez e meia) en-
quanto ·se limita a·inclinação das coberturas a 4S0 •
2. Os. trabalhos de Haussmann
Considerando os critérios de projetar, as realiza-
Logo após insta1ar-se no Hôtel de Ville, Hauss- ções de Haussmaµn parecem ser prosseguimento, em
mann reordena os serviços técnicos segundo critérios escala maior, dos ordenamentos barrocos, baseados em
modernos, chamando para dirigi-los alguns engenhei- conceitos análogos de regularidade, simetria, culte de
l'axe (culto do eixo). Os trabalhos de Haussmann,
ros de primeira linha, já experimentados em seus en·
porém, assemelham-se aos de Mansart e de Gabriel do
cargos precedentes. Estando assim assegurado um mesmo modo como os edifícios neoclássicos asseme-
instrumento executivo capaz e rendoso, ele enfrenta lham-se aos da tradição clássica; aparentemente nada
pessoalmente os 6rgãos e os funcionários administrati- foi modificado, mas o repertório formal da tradição
vos. apoiado pela confiança do Imperador, e faz com é assumido por meio de convenção, a fim de abranger
que estes SUi~ o peso, sem qualquer reserva, da for- novas pesquisas impostas pelas circunstâncias novas.
ça de sua posição, sujeitando-os completam.ente a seus
desígnios. Em nosso caso, os trabalhos de edificação devem ser
considerados dentro do quadro das transfonnarr;ões
As obras executadas por Haussmann nos dezesse- técnicas e administrativas abaixo relacionadas.
te anos de poder podem ser divididas em cinco
categorias: Enisegundo lugar, os trabalhos de edificação rea-
lizados diretamente pela Administração e por outras
Antes de tudo, as obras viárias: a urbanização entidades públicas.
dos terrenos periféricos, com o traÇJldo de novas re-
Compete "à Administração a construção dos edifí-
tículas viárias, e a abertura de novas artérias nos velhos
bairros, com a reconstrução de edifícios ao longo do cios públicos nos novos bairros e nos velhos submeti-
novo alinhamento. dos às transformações já mencionadas: escolas. hos-
pitais, prisões, escritórios administrativos, bibliotecas,
A velha Paris compreendia 384 quilômetros de colégios, mercados. O Estado, por outro lado, encar-
ruas no centro e 355 nos subúrbios; ele abre, no cen- rega-se dos edifícios militares e das pontes.
tro,. 95 quilômetros de ruas novas (suprimindo 49) e,
na periferia, 70 quilômetros (suprimindo 5). O núcleo No projeto desses edifícios - ilustrados em 1881
medieval é cortado em todos os sentidos, destruindo por Narjoux em uma grande publicação - empre-
muitos dos antigos bairros, especialmente aqueles pe- gam-se os mais. ilustres arquitetos da época, desde La-
rigosos situados no Leste, que eram o foco de todas brouste, aié Baltard, Vaudremer, Hittori. O repertó-
as· revoltas. Na prática, Haussmann sobrepõe ao rio estilístico da cultura eclética é freqüentemente apli-
corpo da antiga cidade uma nova malha de ruas lar- cado com discrição, especialmente pelos racionalistas,
gas e retilíneas (Ftg. 79), formando um sistema coe,. tais como Labrouste e Vaudremer, e chega-se a defi-
rente de comunicação entre os principais centros da nir uma gama cqmpleta de tipos distributivos, a qual'
vida urbana e as estações ferroviárias, garantindo, ao se tomará exem}llar em toda a Europa.
mesmo tempo, eficiência diretora ao trânsito, por cru- O problema de moradias para as classes menos
zamento e por anéis; ele evita destruir os monumen- abastadas e a exigência de intervenção do Estadó para
tos mais importantes, mas faz com que fiquem iso- a garantia de certos requisitos minimos de distribui..
lados e adota-os como pontos de fuga para as novas ção e higiene, independentemente da capacidade eco-
pecspectivas viárias. nômica dos destinatários, começa, então, a penetrar na
A construção ao longo das novas ruas é disci- prática política e administrativa, ainda que o seja em
plinad~ de modo mais preciso do que no passado:. :em medida insuficiente em relação às necessidades.
1852, mtroduz-se a obrigatoriedade de apresentJl[ um Lúís Napoleão, mesmo quando Presidente da Re·
requerimento de construção; em 1859, modifica-se o pública, ocupa-se pessoalmente do problema, faz apro-
antigo regulamento das edificações parisienses de 1783- var uma verba de cinqüenta mil francos e executa um
-1784 e fixam-se novas relações entre a altura das primeiro complexo de casas populares na Rue Rache-

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80, 81. Paris, o Boulevarddll Teinplcie o Parque Moncean(de A.Joanne,ParirH/llslnl.

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chouart, a Cité Napoléoo. Em 1852, logo a_p4s ser nado, sendo confiado em 1854 a uma só sociedade,
eleito Imperador, faz fixar a verba de dCZ milhões de a Compagnie Générale des Omnibus, e institui-se em
francos e financia outros dois complexÕs, em Batig- _1855 um serviço regular de veículos de praça. Em
nolles e em Neuilly. Essas demons~ções isoladas 1866, adquire-se o terreno de Méry-sur-Oise para a
de mecenatismo não alteram sensivelmClltea situação construção de um novo cemitério.
das moradias operárias em Paris, dominada por uma Fmalmente, Haussmann modifica a sede adminis-
especu1ação particular que é favoreci.d@,por outras trativa da capital. Em 1859, onze Comunas em tor-
vias, em todos os sentidos, pelo poder 1f°1perlal. no de Paris. compreendidas entre o cinturão alfande-
Merecem um relato à parte os tral:ialhos para a gário e as fortificações de Thiers - Auteuil, Passy,
criação dos parques públicos. Até ago!a, Paris pos- Batignolles, Montmartre, La Chapelle, La Vtllette, Bel-
sui ápenas os parques construídos no ~cien Régime: Jeville, Charonne, Bercy, Vaugirard e Grenelle - são-
o Jardim das Tolherias e os Champs-El~ na margem anexadas à cidade de Paris; os doze arrondi.ssements
direita, o Campo de Marte e o Luxem~o, na mar- tradicionais são levados a vinte, e uma parte das fun-·
gem esquerda, Haussmann começa a arrumar o Bois ções administrativas é descêntralizada nas vinte mairies
de cada arrondlssement. a
de Boulogne, a antiga floresta situada ::mtre o Sena
e as fortificações ocidentais; em virtudC de sua po-, Leva~se, assim, o limite da cidade a coincidir com
sição e de sua vizinhança com. os Ch~-Elysées, este as fortific_ações;pensa-se também em anexar à cidade
parque toma-se logo sede da vida mais elegante de uma faixa de 250 metros no exterior, a ser mantida
Paris. il desimpedida para uma estrada de circunvalação veloz,
Do lado oposto da cidade, na confluênc;ia com o mas não se consegue subtrair esses terrenos à espe-
1
Mame, é ordenado o Bois de Vincennes, ~estinado aos cu1ação da construção.
bairros do oeste, para demonstrar a soliéitude do lm- Os trabalhos viários de Haussmann são possibi-
perador em relação às classes populares'.! A norte e litados pela lei 5fe 13 de abril de 1850, a qual permite
a, sul, im.ediaiamente dentro das fortificaç?íes, são cria-
expropriar não somente as áreas necessárias para as
dos dois jardins menores. o Buttes-ChaUDlont o o Pare ruas, mas também todos os imóveis compreendidos.
M nlSOUris. li
·Nesses trabalhos, Haussmann conta com um co-
dentro do perímetro dâs obras; em 23 de maio de
1852, um decreto do Senado modifica o procedimento
laborador de primeira ordem, AdolP.he Alphand estabelecido em 1841, permitindo a cxpropriàção não
(1817-1891); em suas memórias, ele s~I
detém, com
evidente prazer, nos trabalhos de jardin'agem, e hoje
somente por meio de lei, mas também por meio de
uma simples deliberação do poder executivo.
essa. parte de sua obra parece, talvez, ~ titulo mais
A primeira lei nasce do clima revolucionário da
válido de sua fama. !I Segunda República, enquanto que a segunda diz res-
Haussmann renova também as instalações da ve- peito à nova posição autoritária, que é a ocorrência
final da Revolução de fevereiro. Aparentemente, a de-
lha PP: as instalações hidráulicas, encolra um cola- cisão do Senado faoilita a ação planificadora d;t admi-
borador precioso no engenheiro Fraoçoisl'IEugêoeBel- nistração, porém, na reaJidade, ela estabelece uma de-
graod (1810-1878), obscuro funcionánõ de província pendência íntima entre atos administrativos e diretri-
que é chamado para projetar os novos aquedutos e as zes políticas, isto é, entre aqueles e os interesses dos
insta1ações de elevação de áID)a do Sen~ levando o estratos sociais que controlam o poder,
fornecimento de água, de 112 000 metrOS' 1
cúbicos por Estes interesses tendem a limitar a interferência
dia. para 343 000, e a rede hidráulica ~e 747 para das autoridades nas questões económicas; por essa ra-
l 545 quilômetros (Figs. 87 e 88). BJigrand cons- zão, as leis sãq interpretadas em um sentido cada vez.
tróf também a nova rede de esgotos, cille passa de mais restrito, perturbando gravemente a execução dos
146 q!}ilômetros para 560, conservandoll somente 15 planos (os fatos urbanísticos respeitam fielmente as
quilômetros da rede precedente, enquanto ,que os desa- contradições e as ambigUidades do sistema político do
guamentos no Sena são levados muito ~ para baixo Segundo Imp6rio) .
da corrente, çom depósitos coletores. A insta~o de
iluminação é triplicada,. passando de 12 40tj para ·32 320 3. O& dados quantitativos encontram-se em O.E.
bicos de gás. O serviço de transportes públicos é reorde- op. ciL, v. II, Cap, XX, pp •. '67·.534.
HAUSSMANN,
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82.83. Paris, o asilo para velhos do Sainte-Perine (Pootbieu, 1861}e a prisãodarue delaSanté(Vaudremer, 1864; deF. Narjoux,Parir, monumoiu
&vl..rpurlu vilk, 1850-1880, 1881).

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Depois de muitas discusslSes, o CollSelho de Es- No mesmo período, os habitantes de Paris pas-
tado decide, em 27 de dçumbro de' 1858} que as áreas samde um milhão e duzentos mil a quase dois milhões;
construíveis, uma vez expropriadas e arruinadas segun- enquanto são demolidas cerca de 27 500 casas, cons-
do os planos, devem ser iestituídas aos'! antigos pro- troem-se cerca de 100 000 novas (e 4,46% da despesa·
prietários, isto é, que o aumento de valol'. determinado retoma à Comuna sob a forma de taxas); a renda
pelos trabalhos .da comunidade deve se!' confiscado per capita do cidadão francês passa de 2 500 1J..5 000
pelos próprios proprietários, em vez de Pela Comuna, francos aproximadamente o as rendas da Comuna de
Haussmann lamenta essa decisão COID.o sendo in- Paris, ,de acordo· com Persigny, passam de 20 a 200
justa, porém a jurisprudência da épocaé êoncorde con- milhões de francos. Pode-se portanto afirmar que a
tra ele. A cidade de Paris, como conseqüência dessa própria cidade paga por sua reordenação.
1
sentença, deve suportar sozinha todas as !despesas dos Se a operação pode ser considerada satisfat6ria
trabalhos de Haussmann; sem que se pbssa ressarcir no balanço global, não se pode dizer o mesmo em
dos proprietários que foram beneficiadÇ.s. Contudo, relação à distribuição dessas riquezas. O me<::anismo·
a natureza produtiva -dos trabalhos manifesta-se igual- fixado .para as expropriações permite que os proprfo ..
mente, e Haussmann pode recollier os ~undos n_eces-' tários confisquem toda a mais-valia e produz, em ter-
sários sem depender das contribi,:iições do Estado, se mos substanciais, uma transferência. de dinheiro dos
não em pequena parte, apelando ao liffl crédito. contribuintes para os proprietários de áreas. B mais,
Com efeito, as obras públicas não fazem somente o montante da indeni2ação pela expropriação é "esta-
subir os preços dos terrenos circundantes~! mas influem belecido por uma comissão de proprietários, o freqüen-
em toda a cidade, favorecendo seu crescimento e au- temente é desproporcionadamente alto, tanto assim.
mentando as rendas globais, Esses efeiios garantem que a expropriação é desejada e solicitada como fonte
por si sós ao administrador um aumentoljcontínuo das de enriquecimento.
entradas ordinárias, e. permitem tomar d.~ empréstimo
somas vultosas dos estabelecimentos bancários, como o
jaz qualquer empresa particu1ar. De i'i~S3 a 1870, 3. A polêmlca em torno da obra de Hausamann
Haussmann gasta cerca de dois bilhões e fu.eio de·fran-
oos em obras públicas, recebe do Estadoi1somente 100 Discuti1.L-sese Haussmann foi o verdadeiro idea-.
milhões e não impõe novas taxas, nem ahmenta as já lizador da" transformação de Paris e se sua ação foi
existentes. 4 li · guiada por um plano unitário. Essas duas interroga ..
ções podem ser resolvidas na afirmativas, se se i;on·
4. O balanço completo dos trabalhos de HAUSSMANN sidera a obra de Haussmann sob a luz adequada.
<Cncoptra-senas pp. 337-340 do v. II das Métii,'olres:transcro-- Haussmann relata que logo após ser nomeado
vemos o resumo: 1

SAIDAS: administrador do Sena, depois de um convite para


grandes .obras viárias 1 430 340 385,5 jantar, o Imperador mostrou-lhe uma planta de Paris
.arquitetura e belu-anes 1 282 791 696.S "sobre a qual viam-se traçadas por ele mesmo, em
arranjos de ruas e parques 1178 370 624,8 azul, em vermelho, em amarelo e em verde, de acordo
aquedutos e esgotos t.s3 601 970,2 com o grau de urgência, as novas ruas que ele se
vários 70 476 924,8

-outras despesas (COllccssóes resgatadas nas


ii 115 581 601,8
propunha fazer executar" ts e não deixa de proclamar.
em todas as ocasiões, que o próprio Imperador é o
autor das várias propostas, sendo ele um simples co-
comunas anexadas ém 1859, despesas rela-
livas ao dêbito comunal e aos empréstimos laborador. Muitas vezes tais afirmações foram toma-
,contrafdos pOi' Haussmann etc.) 1437 886 822,3 das ao pé i;Ia letra, e foi dito que o verdadeiro autor
do plano foi Napoleão m, mas é provável que Hauss-
TOTAL i 553 468 424,1 mann exagerasse ardilosamente, a fim de cobrir com
ENTRADAS:
recursos do balanço da cidade (entradas o nome do Imperador suas iniciativas; e1e mesmo re·
líquidas de despesas ordinárias)
:wbveu~ Qtatals
lt 017 243 444,5
95 130 760,7
vela de que gênero eram essas colaborações, quando
escreve, por ocasião do cnçontro decisivo com o Con-
venda de terrenos c"propriados e de ma-
selho de Estado, a respeito da interpretação das leis
teriais de dc:moli;io
,emprêdimos, obüdos de várias maneiras
li 269 697 683,5
lf 171 396 535,4 de expropriação:
TOT\L li jj] 668 424,1 5. G.B. Qp. clt., V, n, p. '3.
HA.USSMANN,

102

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84, 85. Paris. malli.cõmio<!cS. Anila (Qucstel, 1861) e escola Voltaire 11ani11 Titen (Narjoux, 18Sl; de F. Narjoux op, i:it).

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-i~umasa vapornaccntral de Chailfot(da A.Joanno,ParlsülusJrt).
86, 87• Paris,o canteirodospoçcs de Passy e as """'i

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Em vão, assinalei decididamente ao Imperador as con· cidade moderna, e para regulá-las com. determinação
wJiiências dessa disposição. O Imperador não deseja contra- ao invés de sofrê-las passivamente. Em seu tempo~
riar M. Baroche (Presidente do Conselho de Estado)... De porém, esse modo de agir foi considerado quase uma
iesto, sua Majestade não atribuía senão um interesse medíocre
aos problemas de procedimento administrativo enquanto não arbitrariedade 1 e Haussmann teve de suportar críticas.
fossem traduzidos o:m fotos visíveis.e violentas de todas as partes do corpo político e
cultural.
Contudo, nos trabalhos de Paris os fatos ~.síveis Os liberais censuram-lhe sobretudo a desenvoltu-·
contam muito menos do que os fatos não visíveis; a ra dos métodos financeiros e, de fato, o funcionamento
ação administrativa é o aspecto mais importante dessa da Caisse des Travaux de Paris, instituída em 1858
experiência, e Haussmann sustenta-a sozinho, tomando a fim de pagar as despesas do segundô réseau, encon-
decisões antecipadamente, tanto em relação ao Impe- tra-se no limite da legalidade segundo as leis da época,
rador, quanto aOs órgãos representativos. pois permite que o administrador assuma compromis-
Também em relação à unidade de propósitos é sos fora de todo controle das autoridades centrais.
necessário distinguir a aparência da realidade. Como Mas os mesmos protestos se elevam quando Hauss-
já foi observado, Haussmann apresenta seu programa mann sustenta a exigência do 'confisco da mais-valia
em três tempos consecutivos, os famosos trois réseaux. dos terrenos construíveis nas margens das novas ruas;
Mencíonou-se que os trabalhos do primeiro réseau já pode ser que Haussmann estivesse errado em termos
haviam sido programados em grande parte antes da jurídicos, porém ele entrevê uma exigência fundamen·
chegada de Haussmann e que o segundo e terceiro tal da urbanística moderna e encontra-se em posição
réseausão uma coletânea de medidas isoladas; todavia, mais avançada do que a de seus críticos.
poder-se-ia dizer que essa apresentação era, em sua Os intelectuais e os artistas censuram-lhe a des-
substância, um artifício contábil a fim de obter mais truição dos ambientes da velha Paris e a vulgaridade
facilmente os financiamentos necessários, e que Ha!lss- das novas construções sem, contudo, ir mais além do
mann tinha, desde o início, um programa completo, que os costumeiros lamentos estilizantes, fundados no
ao qual ele se atém com obstinação, apesar de todos tédio e na condenaÇão de toda a civilização industrial;
os obstáculos. Esse programa não foi concretizado assim Haussmann leva a melhor contrapondo às per-
em nm plano, mas, sob esse aspecto, encontra-se a das de alguns espetáculos pitorescos os melhoramentos
modernidade e a importância da experiência haussman- técnicos e higiênicos.
niana. Ele não se propõe fazer entrar a cidade, por Haussmann parece ser menos culto, mas mais
vontade própria ou. pela força, dentro das linhas de livre de preconceitos e mais moderno do que a maior
um plano prévio. Outros tentaram antes dele fazer parte de seus críticos. Ele possui uma capacidade
o projeto de uma Paris ideal, renunciando antecipa- instintiva de compreender e de aderir à realidade de
damente a levar em conta a mutável realidade concreta;
seu tempo e, por essa razão, está apto a modificá-la
ele faz muito mais: em 1859, depois da an·exação das
com tanto êxito: a sociedade do Segundo Império
onze Comunas periféricas, constitui o Departamento do
encontra em suas modificações uma faéhad1'-perfeita-
Plano de Paris, colocando em sua chefia M. Deschamps;
nesse Departamento, atualiza-se ano por ano a pas- mente aderente, e o eco dessa concordância entre pro-
sagem entre as experiências e os projetos futuros, le- gramas e realidade, obtido faz um século, ainda é.
perceptível em nossos dias, no fascínio e na vitalidade
vando em conta as alterações das circunstâncias, e o
dispositivo sobrevive a Haussmann e ao Segundo Im- que emanam das ruas centrais de Paris.
pério, assegurando a continuidade da direção urba- A capacidade de Haussmann de aderir sem re-
nística de Paris durante toda a segunda metade do servas à realidade de seu tempo é também. a chave
século XIX. para compreender, tanto o grande sucesso de seus
métodos e as numerôsas imitações, quanto a d:Scussão
O plano de Haussmann interessa-nos hoje so-
sempre viva sobre sua .figura e sobre sua obra, até os
sobretudo enquanto primeiro exemplar de uma ação
suficientemc;nte ampla e enérgica para acompanhar o dias de hoje.
passo das transformações que ocorrem em uma grande O plano de Haussmann funcionou bem por mui-
tas décadas, graças às margens abundantes contidas.
O.E. Op. cit., v. II, pp. 311-312.
6. HAUSSMANN, em seu espaço, mas depois demonstrou ser inadequado,

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88, 89, 90. Paris,o quarteirliode Etoil,;,

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91. Paris,aAVCilIICdcs
Champs-Elysfcs,vistado Are de Triomphe.

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às necessidades crescentes da metrópole; então perce- espontaneamente os preceitos tradicionais de simetria
beu-se que aquele dispositivo imponente está destituí- e de regularidade, gaba-se de ter sempre previsto um
do de toda flexibilidade e opõe uma extraordinária ponto de fuga monumental para cada nova artéria e
resistência a todas as modificações; fez de Paris a preocupa-se com impor uma arquitetura uniforme nas
cidade mais moderna do século XIX, mas a mais con· ruas e nas praças mais representativas, esforçando-se
gestionada e difícil de planificar do século XX. por dissimular as irregularidades planimétricas, como-
A compreensão de Haussmann da cidade indus- em .8toile.
trial diz respeito, substancialmente, apenas aos aspectos A amplitude das implantações viárias de Paris,.
estáticos, não àqueles dinâmicos; ele apensava que porém, leva à aplicação dos preceitos tradicionais de
Paris podia ser "arrumada" de uma vez por todas, e simetria e de regularidade em uma escala tão grande
que a "arrumação" devia ser corroborada pelos usuais que freqüentemente destrói o efeito unitário que se
critérios de regularidade geométrica, de simetria e de desejava obter. O baulevard de Strasbourg, que ter-
decoro. Ele se comprazia, sobretudo, em ter sub- mina na Gare de l'Est, tem dois quilômetros e meio
traído aos velhos bairros de Paris seu aspecto precá- de comprimento, e a cena de fundo arquitetônica é
rio, fixando para cada habitante, contornos regulares praticamente invisível do lado mais distante; em E.toi·
e precisos que parecem definitivos e não mais vatiáveis. Ie, as doze fachadas simétricas de Hittorf distam duzen·
tos e cinqüenta metros uma da outra e não são sufi·
Para nós, este aspecto de sua obra parece, pelo
cientes para fechar em termos de perspectiva o imenso
contrário, ser o mais fraco, pois indica uma aceitação
vão; no prolongamento da Rue de Rivoli, as decora-
passiva das convenções da cultura acadêmica; interes· ções de Percier e Fontaine repetem-se tanto que o
sa-nos muito mais ver que Haussmann, .aplicando essas olho não consegue mais distinguir a proporção entre
convenções a novas circunstâncias, distancia-se de fato
o comprimento da rua e as outras dimensões.
dos modelos tradicionais e prenuncia, embora involun-
tariamente, uma nova metodologia. Em tais casos, a presença do arquiteto torna-se,
por assim dizer, somente negativa, porquanto as pare-
Se bem que de tendências autoritárias, Haussmann des do edifício devem ser acabadas de algum modo
não pode se comportar como os urbanistas barrocos, que não fira os hábitos correntes e possivelmente de
que executám um plano predisposto com absoluta re- maneira uniforme, a fun de que o o]ho não sofra
gularidade, aproveitando o poder absoluto de quem o perturbações por anomalias injustificadflS; mas a con-
encomenda; age sob o controie do Parlamento e do formação estilística das fachadas é válida somente en-
Conselho Municipal, manipula dinheiro público do qual quanto tênue cobertura, que confere um aspecto plau-
deve prestar contas aos corpos administrativos centrais sível a um novo gênero de ambiente onde ruas e pra-
e deve submeter as controvérsias com os particulares ças perdem sua individua1idade e fluem umas dentro
a uma magistratura independente; deve, em suma, le- das outras, enquanto que os espaços são qualificados
var em conta a separação de poderes própria de um
muito mais pela multidão e pelos veículos que os.
Estado moderno, embora com prevaiência do execu- percorrem, do que pelos edifícios circundantes, ou seja,,
tivo. Por outro lado, o poder político não coincide de maneira sempre variável (Fig. 92). É o quadro,
mais com o poder econômico, e Haussmann, em ter- que colheram os pintores impressionistas como Monet
mos substanciais, não emprega dinheiro público, mas
e Pissarro em suas vistas dos boulevards parisienses do
-coordena o emprego do dinheiro particular segundo alto, cheios de gente. ~ um ambiente ainda indife-
um plano unitário. Por todas essas rn:zões, o plano de
renciado, onde as formas singulares podem ser acolhidas
Haus.smann não se configura como uma íÔtervenção somente perdendo sua individualidade, e misturando-se
una tantum, mas como uma ação contínua de estímulo em um tecido compacto de aparências mutáveis e pre-
e coordenação das múltiplas forças que agem de modo cárias; mas isso constitui o ponto de partida do qual
sempre variável sobre o conjunto urbano; cessa:, assim, irá surgir o conceito moderno de ambiente urbano
a semelhança entre urbanística e arquitetura, as quais aberto e contínuo, oposto ao antigo e fechado.
não agem mais no mesmo nível, diferindo somente pela Este aspecto da obra de Haussmann - prova-
escala, mas .sim agem em dois níveis diversos em velmente não advertido pelo próprio administrador,
recíproco relacionamento.
que se ac[edita o continuador da tradição perene -
Comentários análogos podem ser, feitos quanto aos vem à luz apenas mais tarde; as grandes artérias, ad-
resultados formais do plano de Haussmann; ele aceita quirem o caráter que nos é caro somente quando se

110
112
",,
96. Vistaaérea do centro de Viena.como Ring.

113
forma o guarnecimento dali ruas, que serve como me- seu leito uma grande rua retilínea (de 186-7 a 1871)~
diador entre as dimensões abstratas da edificação e que liga as duas estações ferroviárias, do Norte e do
a escala humana, e quando a sensibilidade comum Sul; ele obtém também, em 1864, a cessão para a ci-
aprendeu a perceber de maneira dinâmica os elementos dade do Bois de la Cambre, que se transforma no
da nova cena urbana. parque suburbano da capital belga, e constrói a Ave-
O editor da Mémoire de Haussman escreve, em nue Louise para ligá-lo à cidade.
1890: "Para todos, a Paris de nossos dias é sua Paris, Na Cidade do México, o Imperador Maximiliano
talvez mais do que nos tempos do Império", 7 e, de abre, em 1860, o passeio da Réfonne, imitando os
fato, o semblante da cidade transformada por Hauss- Champs-Elysées, para conjugar a cidade asteca com o
mann devia parecer mais claro a um visitante da Ex- palácio de Cbapultepec.
posição de 1889 que a um da Exposição de 1867, Na Itália, poucas são as cidades importantes onde
constrangido a vagar em uma cidade toda revirada, não se abriu uma rua em linha reta entre o centro e
com as ruas entulhadas de canteiros de obras, de onde a estação ferroviária: Via Nazionale em Roma, Via·
emergiam edifícios e ambientes desconhecidos, Indipendenza em Bolonha, a rua reta de Nápoles, Via
Roma em Turim. A experiência mais importante, con-
tudo, é a reordenação de Florença, capital desde 1864,
4. A Influência de Haussmann onde é feita uma séria tentativa de adaptar os métodos
de Haussmann às realidades do novo Estado unitário
As realizações de Haussmann em Paris consti-
e às exigências particularíssimas da ilustre cidade.
tuem o protótipo daquilo que chamamos de urbanística
neoconservadora; esta transforma-se na praxe comum Giuseppe Poggi (1811-1901), que projeta o "pla-
de todas as cidades européias, sobretudo depois de no de ampliação", preocupa-se sobretudo em aumentar
1870, mas já no tempo do Segundo Império é possível a cidade a fim de acolher os novos habitantes que vi-
relacionar uma série de inici;;i~vas, na França e em rão seguindo o governo; ele não vê tanto uma nova
outras partes, orientadas da mesma maneira. cidade, quanto uma Florença territoriahnente mais
Na França, muitas cidades importantes são radi- extensa, e escapa-lhe a necessidade de transformar con-
calmente modificadas durante o reinado de Napoleão juntamente, como Haussmann, o centro e a periferia;
lII. Em Lyon, o Prefeito Vaisse, no cargo de 1853 assim, ele começa a derrubàr os muros, constrói um
a 1864, executa uma série de inovações que reprodu- anel de novos bairros ao longo de todo o perímetro,
zem em pequena escala as parisienses: as duas demo- exceto na parte estreita à esquerda do Arno, e deixa a
lições paralelas para a Rue Impêriale e para a Rue de intervenção no centro para mais tarde.
l'Irnpératrice; os quais (cais) ao longo do Ródano e Os trabalhos são executados entre 1864 e 1877,
do Saône, o parque da Tête d'Or; Marselha, que em meio a graves dificuldades econômicas, principal-
aumenta muito de importância logo após os trabalhos mente depois da mudança da capital para Roma; a
do canal de Suez, quase redobra sua população, e é reordenação do centro, com a demolição em torno do
integralmente transformada com a abertura da Rue Im- mercado velho (Fig. 98), é feita de 1885 a 1890,
périale (de 1862 a 1864) que vai do velho porto até quando se exaurem os grandes trabalhos na periferia,.
a bacia do Joliette; ruas retilíneas análogas começam e é muito mais devida a razões de honra do que a
a ser construídas em 1865 em Montpellier e em 1868 necessidades técnicas ou econômicas objetivas.
em Toulouse, cortando os antigos bairros e demolindo Assim, o tecido da cidade antiga salva-se em
muitos edifícios dignos de apreço; nas cidades de grande parte das CX!)ropriações,diferentemente do de
maior densidade e de memória histórica, Rouen e Avig- Paris, mas os elementos novos não se inserem com
non, procede-se da mesma maneira, com uma desen-
voltura que nos parece inconcebível, arruinaJ)do irre- felicidade nos antigos, como ali, e a cidade permanece
paravelmente os ambientes tradicionais. destituída de um caráter unitário, dividida em episó-
dios destacados e estranhos entre si.
Em Bruxdas, o burgomestre Anspach transforma
completamente a parte baixa da cidade, eliminando o No mesmo cqnceito de "ampliação", fundam-se
rio Senne, que é canalizado no subsolo, e abrindo sobre muitos outros planos dessa época, como o grandioso.
de Cerda para Barcelona, de 1859 (Fig. 97) e o de
7. HAusSMANN,
G.E. Op. cil., V, 1. p. 10. Lindhagen para EStocolmo, de 1866.

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97, 98. As duas operaçóell típicas da. urlianlslica oi.lwtlsra: a ampliação (o plano Cerda para Bucelona. 1859) s a demolição (refo~-~ mercado
velho de Flormça, 188Sl del~Slilbben, DerStãdte~u, 18243- cm hachwado, osediffcios nonnais dcstrul'dos, em preto os edifícios normais destrnf-
dos, em preto os edlffcios monumentais conscrvados1·

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Em geral, as reordenações urbanísticas feitas em O concurso é julgado em 1858 e é ganho .po1
imitação à napoleõnica de Paris são muito inferiores Ludwig Fõrster ·(1797-1863); a seguir, o Ministério,
ao modelo. · O plano de Haussm.anné importante so- do Interior é encarregada de· preparar o plano definiti
bretudo pela coerência e integridade com que é execu· tive, que provavelment'e é- redigido por M. Lohr, e é·
tado; porém, nenhum d~ outros planiflcadores - à aprovado em 1859, mas as discussões sobre a êoioca-
exceção, talvez, de Anspach - tem a energia do ção dos vários. edifícios públicos continuam até 1872.
administrador do Sena, e em parto alguma reproduz.se Na execução, as exigências estratégicas são reduzidas:.
o encontro de circunstâncias favoráveis que pemütiu em muito: desaparece a piaça de armas, enquanto·
a ação simultânea em muitos 'setores, conservando a aumenta o n~o e a importância dos edifícios pd-
unidade de direção por tempo bastante longo. Por- blicos, necessários à cidade cm crescimento contínuo
tanto, quase todos os planos são abandonados pe]a (Fig. 9S).
metade, arruinandoirremediavelmente as cidades anti- O Ring de Viena permite inserir a cidade antiga
gas sem que se obtenham, no lugar delas, cidades mo- dentro"·do sistema viário da cidademoderna sem COrtar
dernas que funcionem. e dcstnrlr o velho ~o. como ocorreu em Paris, e
Principalmente, nenhuma administração consegue permite compor os principais edifícios públicos em um
conter validamente os efeitos desagregadores da cspe,. ambiente amplo e arejado,· en~ passeio e jardins; a
culaçãQ fundiária;.Haussmaon trabalha em presença de operação, contudo, 6 pos.sibilitada principalmente pela
uma especulação muito ativa, que confiscaboa parte relativa cxigüidade do núcleo antigo; o mesmo acon·
dos frutos. de seus trabalhos e. depois de 1858~ ele tece em muitas outras cidades nórdicas, onde o centro
tradicional é mantido quase intato dentro de um anel
não faznada parair contrao sistema;sua autoridade, verde que substitui as antigas fortifi~es: assim
porém, permanece bastante forte para impedir que, as
soluções projetadas sejam dcfonnadas pelos intCresses ocorre em Colônia, em Leipzig. em Ltlbeck, eµ:i Co-
particulares; assim, consegue prosseguir com fôlego penbague.
adequado e com uma visão unitária dos problemas. No que se refere ao problema da· edificação po-
Nas outras cidades, falta uma resistência proporcio- pular, a intervenção do Estado torna-se sistemática e
na1, a especulação toma claramente força e imprime organizada somente nas últimas d~ do século; ao
às iniciativas um caráter inconstante •6 descontínuo, invés disso, podem-serelacionar, da metade d(? século
que deriva da abordagem casual dos inieressados sin- em cUante, muitas iniciativas patronais para a cons-
gulares. truÇão de cidades operárias, facilitadas e às vezes sub-
vencionadas parcialmente pelo Estado.
As coisas caminham de outra maneira onde as
administrações possuem um P"lrimõnio suficiente de Na França, a iniciativa mais importante é a da
áreas situadas nos pontos adequados para a transfor· Société Mulhousienne des Cités Ouvriê;fes, fundada em
mação das cidades. Isso ocorre em Viena, onde 18S3; o financiamento é em parte particular (para as
a cidade antiga é ainda circundada por um amplo casas e os serviços) e em parte estatál (para as ruas
anel de fortüicações, além das quais cresceram os novos e os espaços verdes). A sociedade constrói casas C9m
bairros (Fig. 94). Em 18S7, o Imperador anuncia jardim, de,um ou:dois andares, cedidas por aluguel ou
.sua decisão de derrubar os muros e institui um con- a prestações, e executa mais..de mil em quinze anos.
amo para a arrumação da área, impondo precisas Na Inglaterra, Disraeli teoriza, ém, ~. escritos:
instruções aos projetistas: deverão ser respeitadas as da juventude, 11 a necessidade de realiz.ações ~a.i:e.s.
casernas ao sul da cidade, e outro grupo de casernas Suas id6ias influenciam tanto os empresários particula-·
deverá ser construído ao norte, de modo que as tropas res quanto a política do governo; em 1845, funda-se a
possam rapidamente transportar-se ao longo de uma Society for Jmproving 'the ~ellings of thc Labouring
grande rua anular, que margeará por alguma extensão Class; em 18Sl, Lord Shaftesbury faz aprovar as pri-
ao Donaukal; o espaço frente ao palácio imperial de,. meiras leis sobre construção subvenç.ionada, a !.abou-
verá ser deixado livre, e, nas vizinhanças, deverá ser ring Classes Lodging Houses Act e a Common. Lodg-
Jlrevista uma vasta praça de armas; ao longo da rua ing Houses Act; em 18S3, T"ltllsSalt com.eçaa cons-
anular, deverão ser colÔCadosvátios edifícios pilblicos: truir, para os operários de suas indústrias têxteis, a
um teatro de ópera, uma biblioteca, um arquivo, um
novo palácio comunal, museus, galerias, mercados, 8, Coningd,y, 1844, e Sybil, 1845.

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99, 100, 101, Pari:;, o Ópc:rado C. Oamier(l86.l-1874).

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102, Paris. eortclf
o Ópera (deL'esposizione diParlgi del 1878 ilbistraJa, Sonzogno).

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103. Paris. Halles Centrales (V. Ba.Itard, 1853; grade A. Joanoe., Parisillustrl),
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cidade de Saltaire, projetada de acordo com um plano em 1837, Brisbane em 1840 depois da abolição da
unitário dos arqW.tetosLockwood e Mason; em 1864, colônia penal).
entra em campo Octavio Hill (1838-1912, sobrinho A história da urbanística colonial ainda está por
do Dr. Southwood Smith, colaborador de Chadwick escrever, se bem que seja um dos aspectos \lWs cons-
na pesquisa sanitária de 1842) que, com o auxilio de pícuos da expansão mundial européia durante o século
Ruskin, adquire e restaura algumas casas em Mary-
lebone, dividindo-as em alojamentos mínimos que são XIX. Provavelmente um estudo analítico dessas in-
tervenções serviria também para de(inir mclhdr o cará-
alugados a preço suficiente para compensar as despo-,
ter dos protótipos europeus dos quais derivam.
sas. Também nos EUA, o milionário G. Peabody
funda, em 1862, o Peabody Trust, para construir casas
populares sem finalidades lucrativas.
5. Ecletismo a raclonallsmo na épaca de
Na Alemanha, os Krupp executam,.entre 1863 e Haussmann
1875; um primeiro grupo de vilas operárias nos arre--
dores de .Essen: Westend, Nordhof, Baumhof, Krõ- Os aJquitetoS desempeoham. um papel pequeno,
nenberg. nas decisões do plano de Paris, o µmitam-se a dar for-
Atrav-éi de acertos e erros,.forma-se assim, na se- ma plausível aos edifícios encomendados pelo admi-
gundametade do século XIX, uma experiência técnica nistrador, sem sair do âmbito das mencionadas discus-
e jurídica"sobre planos de cidades e sobre construção sões sobre os estilos. As novas tarefas, porém,, e as
de bairros operários; os sistemas de projetar freqiien- vastas experiências tomadas possíveis pelos trabalhos
temente são inadequados e artificiosos e. repetem as de Haussmann solicitam, em termos culturais, o·escla-
fórmulas geométricas da tradição barroca, mas agora recimento das polêmicas abstratas e apressam.a crise
são exp~entados em contato com os P!Oblemas.con- da cultura acadêmica.
cretos da éidade industtial. e assumem. pela diversi- A polêmica entre neoclassicismo e neogótico -
dade do.s CO!)teúdos,um caráter novo. que tem seu ponto culminante em.1~6, ~mo já ficou
Nas cidades européias, esses sistemas são adotados dito - não pode terminar com a vitória de um ou
para transformar os precedentes.organismos barrocos de outro programa. De agora em_diante, a maior parte
ou medievais, e dão resultados tanto melhores quanto .dos arquitetos mantém em mente tanto o estilo clássico
mais se apegam aos caracteres tradicionais dos locais quanto o gótico, com.oalternativas possíveis e. natu-
singulares; nos tenitórios coloniais, pelo contrário - ralmente, não somente esses dois;. mas também o ro--
onde começa justamente agora a fixação maciça de mãnico, o bizantino, o egípcio, o árabe, o renascentista
residentes europeus - os mesmos sistemas .são apli- etc.
cados de modo uniforme e mdnico, sem que gozem Assim toma-se explícita e difunde-se a posição que
de qualquer v4i,culação com os organismos urbanos foi chamada de ecletismo, já contida virtualmente na
e as tradições. locais, descobrindo, assim, de maneira . direção retrospectiva tomada pelos neoclássicose pelos
mais clara. as contradições culturais que se encontram românticos.
implícitas. O ecletismo é favorecido· pelo melhor conheci·
Nos dois decênios do Segundo Império, a praxe mento dos edifícios de todos os países e períodos;
urbanística baussmenniana é estendida em grande parte Delannoy ·publica, em 1835, um estudo sobre os mo-
às colônias. Em 1854, inicia-se a am.Í,liaçãode Fort- numentos de Argel; a Coste, em. 1839, faz com que
de-France na Nova Caledônia e, em 1865, a de Saigon se conheçam os monumentos do Cairo 10 e, de 1843
na Indochina; ainda em 1865, na embocadura dÕ canal a 1854. os da Pérsia; 11 na lnglatecra, Q. Jones pu-
de SUC"l; que está sendo construído, funda-sea nova ci- blica, em 1842, os relevos do Alhambra de Granada. 12
dade de Port Saíd; intensifica-se na Ars;élia.a éonstru-
ção das novas cidades fundadas nos prlmeiios decênios 9. Dl!L.\NNOV,M. A. Studes arti.rtiquu .rur la rlgtnee-
d' A.lger. Paris. 1835-37,
da conquista - Orl6ansville, Philippevillc - e dos 10. • Cosn!, P. Archltecture arabe, ou mon'1mtnt.r du
bairros europeus ao lado da cidade indígena. Os b&- Caire. Paris, 1839.
res começam. em 18SS, a constrair sua nova eapi~ 11, CÓSTII,P. Vo,age en Pusie; Paris, 1843,
Pretoria, e os ingleses ampliam aa cidades·australianas 12. IoliES, O. Plcms, E/evationz, Sec1io111onJ Dera/lÍ oJ
l"CCCDtemente fundadas (Melbourne em 1836, Adelaide lhe Alhambra. Londres, 1842-45.

122
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:;);;.~'.:;;2i!i:'l~!i;.ili.~~~~~.~~~.~~~
104, 105, Paris, intcriordaBibliolMqueSainte·~veeda Biblio~uelmpérialo(H. Lab=te. 1843 e 1855; de E. Texkr,TableaudePatir, e
A.Joanne,Pwisülustré). li .-

li 123
Circulam as primeiras histórias universais da arqui- bomem dc"so.stos muito simples; não sou clássico, nem elisa-
tetura, como a de Gailhabaud. 13 betano, creio que não sou renascentista e estou cenn de que
não sou medieval, não pertenço ao século XI, nem ao XII,
Os filósofos teorizam essa visão da história da nem ao XIII, nem ao XlV, não sou feudal, nem monástico,
arte como uma sucessão de estilos igualmente válidos; nem escolástico, nem eclesiástico, nem arqueológico, nem
Hegel tenta interpretar dialeticamente a seqüência dos eclesiológico. Sinto muito, mas o senhor deve me tomar como
estilos como uma sucessão de tese, antítese e síntese, sou e construir minha casa no meu estilo .••
e considera o ciclo terminado em nossos dias, portanto Por que ele ( o inglês nonnal) não pode ter uma casa
acaba por recomendar o ecletismo a seus contemporâ- i11Ble:.a normal, construída para exigências inglesas nor-
neos. 1"' mais? .. , n
A prática do ecletismo, por outro lado, é acom-
panhada por uma consciência culpada, difundida como Contudo, também podem-se ler com freqüência
nunca; os literatos de vanguarda o combatem desde o defesas abertas do ecletismo, as quais reproduzem
Início, como T. Gauthier: "Gostaria de ter sido ladrão; ceitamente a opinião de um vasto setor do público:
é uma filosofia eclética" 111, e os arquitetos mais refle- Longe de merecer a censura de sacrificar-se à moda,
xivos expressam sua perplexidade pelas contradições jamais a arte se eJC:pressoucom maior independência, e isw
que constatam todos os dias no exercício de sua pro- será a honra de nossa época, que acolhe todos os estilos, todos
fissão, tais como R. Kerr: o& gêneros e todas as maneiras, posto que, sendo a edificação
artlstica mais completa e mais difundida, aprecia-se melhor
Em que estilo de arquitelura deverá ser sua casa? O a beleza de todas as obr8i e de todos os e~tílos, enq_uantoque
próprio arquiteto muitas veze5 coloca essa pergunta a seu antes tudo aquilo que não estava. em. conformidade com o
cliente, no principio de seu relaciona1nenlo e, se o cliente gosto do dia era despreza.do e refutado. Naqueles tempos,
não é entendido nesse llSsunto, pode ficar um pouco maravi- tinha-se tão pouco Tespeito pelos estilos fora de moda que
lhado ao de~obrir o que é convidado a fazer. Através do um arquiteto eru:arregado de fazer a fachada de uma igreja
-exercício de algum instinto. ou capricho, deve escolher entre gótica não hesitava em reconstrui-la em e~tilo completamente
uma meia dú:zía de "estilos" principais, todos mais ou menos diferente, grego ou romano. Hoje, ao contrário, não existe
incompatíveh; entre si, todos providos de seus rcspeçtjvospar- mais moda nas artes; não somente todos os edifícios antigos
tidlirios ·e <?positores, e tanto mais incompreensíveis quanto foram reconduzidos a seu estado primitivo com uma cons-
ma.is deuioradamenle são examinados - isto é, quanto mais ciência e uma erudição que honram nossos artistas, mas tam-
-demoradamente são consideradas suas contradições. o cliente bém vemos que o mesmo arquiteto constrói aqui, uma igreja
p:iqi!exo aventura.se a sugerir que deseja somente uma sim- renascentista, ali, uma igreja romànica, mais além, uma pre-
ples casa confortável, em. estilo nenhum ou no estilo confortá- feitura em estilo Luls XIV e um templo gótico; um outro, no
vel, se é que existe algum. O arquiteto naturalmente está mesmo bairro, faz; uma casa Luís XV, uma caserna Luís XIII
-de acordo; mas existem muitos estilos confortáveis, são todos e um palácio de Justiça em belfsslmo neogrego. lT
confortáveis. . • Ele deve escolher o estilo de sua casa como
,escolhe o modelo de seu chapéu. Pode ter o esillo clássico, .einteressante notar que quase todos os ecléticos,
com ou sem colunas, arqueado ou travejado, rural ou urbano, a começar de Garnier, principiam protestando contra
ou ainda palantino; pode ler o elisabetano nil:iimesmas varie- a reprodução dos estilos passados, e afirmam desejar
dades, ou mesmo o renascentista; ou, para não falar em
interpretá-los e elaborá-los livremente. Na prática, a
esti!Oll menores, o medieval, o gótico que agora está muito
na moda em todas as suas formas, do século XI, XII, XIII, consciência pesada leva-os a jamais se contentar com
XIV, como preferir, feudal, monástico, escolhtico, eclesiás- as imitações que se fazem na época, a procurar novos
1ico, arqueológico, eclesiológico e assim por diante. pontos de partida e novas combinações, pesquisando
nos setores menos conhecidos da história da arte.
Mas, na verdade, prefiro qll<l não. Desejo uma simples,
sólida, cômoda casa para cavalheiro; e, per;o licença para J. I. Hittorf (1792-1868) e alguns alunos da
repelir, não quero nenhum estilo. Na verdade, prefiro não Academia de França em Roma - Henri Labrouste
ter nenhum, creio que custaria um monte de dinheiro e pro- (1801-1875), Victor Baltard (1805-1874) - desco.
vavelmente não iria me agradar. Olhe para mim; sou um brem a policromia dos edifícios antigos e enviam a
JJ. GAILHA.BAun, J. Monuments o.nciens et moderne.s det. 16, KERR, R, The Gentbm1an's House, or .How to Plan
difjérents peuples à toutes les époques. Paris, 1839. 'I"md. Eaglish Residenc,: from the Personage to the Pa1ace, !.oID.dres,.
1ngl, Londres,. 1.844. 1869, citado em Arcl1itecwral Review, v. 110 (1951), p. 205.
14. Vorle.sunge11über Ac.rlllelik, Leipzig, 182.9. 17. L. AVRAY, citado em J. WILHllLM, La vie it Po.rh,
15. GA.VTHIER, T. Les jeu11e.s-Fnmce. Paris, 1832, XIIL Paris, 1947.

124
---

--

125
Paris as primeiras reconstruções em cores. Daí nasce Nesse caso, Haussmann atribui-se sem .rodeios o
urna polêmica, sua tese é apoiada por ·lngres, pelos mérito da idealização; Sédille, em 1874, afirma o con-
alemães Semper e Hermano, e faz com que se conheça trário, talvez com maior fundamento. Baltard cons-
uma nova versão do repertório decorativo antigo; Hit- trói a seguir vários outros edifícios: com esqueleto
torf, aluno de Bélanger, constata que essa linguagem metálico, tais como o matadouro de la Villette e a
adapta-se bem às construções de ferro, e a aplica no igreja de Saint-Augustin, mas não reencontra jamais a
teatro Ambigu (1,827) no Panorama e no Cirque d'Hi- simplicidade e a medida dos Halles; pelo contrário,
ver nos Champs-Elysées, e com isso obtém experiência em Saint-Angustio, esconde inteiramente a estrutura
para enfrentar, mais tarde, vastas construções com co- em um revestimento em alvenaria, com todas as deco-
bertura met.álica, como o Gcand Hôtel (1856) e a rações tradicionais.
Gare du Nord (1863). :a difícil compreender tais descontinuidades na
Hittorf e Baltard, ambos protestantes, são os prin- produção de um arquiteto indubitavelmente culto e
cipais colaboradores de Haussmanii nas obras de Paris. bem dotado; ele passa, com facilidade, de uma pes-
As relações entre Haussmann e os arquitetos são muito quisa sincera sobre novos materiais a experimentos
significativas; aquele lamenta que sua época "não te- ociosos de contaminação estilística ou a pastichesba-
nha produzido nenhum dos artistas cujo gênero trans- nais a fim de contentar o gosto dominante. Sua figu-
ra exprime bast~te bem a desorientação da cultura
forma a arte e a toma adequada às aspirações dos
da época, não vinculada rigidamente à tradição e
novos tempos", u censura com freqüência os artistas
aberta a novas experiências, mas destituída. de coe-
contemporâneos pela mesquinhez. de suas concepções
rência e incapaz de encontrar, dentre as múltiplas.
( como Hittorf, em relação aos edifícios de doze fe- estradas abertas, um caminho a ser percorrido com
chadas da :atoile) ou por falta de senso prático, e mui-
tas vezes muda de projetista em meio a um trabalho. firmeza.
Entre os estilos, não tem preferência e considera-os Dentre aqueles que lamentam· as contradições do
ecletismo, uma parte percebe que o discurso está sen-
como outros tantos possíveis acabamentos, a serem
do levado além das aparências formais e que é preciso
usados a cada vez de acordo com as conveniências; o ancorar as escolhas em razões objetivas, demonstráveis.
estilo clássico parece-lhe ser mais adaptado aos edifí- racionalmente. Estes sãq chamados de racionalistas,
cios representativos; porém, devendo construir a Mairie e exercem uma importante ação de estímulo e de cen-
do primeiro arrondissement ao lado de Saint-Germain- sura com discursos que às vezes parecem prever os
l'Auxerrois, encomenda a Hittorf um edifício gótico e dos mestres modernos dos anos vinte, aos quais tam-
faz construir, com Théodore Baliu (1817-1874), entre bém será aplicado o mesmo qualificativo. A analogia~
as duas obras, uma torre em gótico puro a fim de contudo, é somente verbal, pois no ato de projetar,
salvaguardar a simetria. os racionalistas oitocentistas não sabem como subtrair-
O administraàor intromete-se com decisão no pro- se ao impasse do ecletismo e não sabem imaginar for-
jeto, sempre que lhe parece que o arquiteto não sabe mas concretas seuão tomando como referência algum
comportru:.-se a contento. Para os Halles Centrales dos estilos passados: clássicos ou medievais.
(Fig. 103), Baltard projeta, em 1843, um pavilhão em. A figura mais importante do racionalismo neo-
pedra, que é parcialmente executado, mas demonstra clássico é Henri Labrouste; aluno da Academia e
ser inutilizável; Haussmaan determina sua demolição Grand Prix de Rome em 1824, fica por cinco anos
e que Baltard faça outro projeto, todo em ferro, aban- na Villa Mediei, estudando a arquitetura antiga, retor-
donando toda preocupação estilística: "Somente me na a Paris em 1830 e abre uma escola particular de
são úteis vastos guarda-chuvas, e nada mais". Ele Arquitetura, ensinando uma estrita aderência às exi-
conta que Napoleão III, ao ver. o projeto, ficou mara- gências da construção e das funções; projeta, em 1843,
vilhado e preocupado: "Será possível que o mesmo a Bibliothêque Sainte-Geneviêve (Fig. 104) e, em 1855
arquiteto haja projetado edifícios tão diversos?", e a Bibliothêque Impériale (Fig. 105), onde emprega,
Haussmann: "O acqui!eto é o mesmo, quem é diverso uma estrutura de ferro para obter ambientes internos.
é o administrador". 111 espaçosos, se bem que a feche com um invólucro em
pedra decorada à antiga.
18. HAUSSMANN,O.E. Op. cit., v. I, p. 32. As idéias de Labrouste não são novas. Seu dis-
i9. HAUSIIMANN,O.E. Op. cit., V, Ili, p, 482. curso sobre a construção e a função é semelhante ao

126
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1

de Durand, porém agora tais afirmlões adquirem mântica ou sentimental; a seus olhos de cientista, o
uma coloração ideológica precisa; é a!\época em que gótico não tem nada de confuso ou misterioso, pelo
Comte publica o Cours de phifosophie (1845) e o contrário, é apreciado exatamente pela clareza do sis-
Discours sur l'esprit positif (1844), e.th
que Courbet tema de construção, pela economia das soluções, pela
proclama o realismo pictórico e Daumier ataca, com correspondência precisa entre os programas de distrk
sua sátira pungente, a sociedade buig\leSa.Hector buição, Contrapondo o gótico ao classicismo, Viollet
Horeau (1801-1872), da mesma idadé' de Labrouste, le Duc deixa claro, embora pennanecendo dentro dos
propaga as mesmas idéias com singubJ ardor e com- termos da <:ultura historicista, o caráter arbitrário e
bate ao mesmo tempo a Academia e a lteação política;
em 1872, adere à Comuna, como CoU~bet, e termina convencional das pretensas leis gerais da arquitetura
defendida pela Academia, e contrapõe a elas outras
na prisão. li leis, menos ambiciosas, porém mais conformes à reali-
A Revolução de 1848 assinala oi ponto máximo
dessas esperanças progressistas, onde !arte, ciência e dade concreta: o uso apropriado dos materiais, a
política aparecem quase identificadas eri.tresi; o curso obediência às necessidades funcionais. Ocupa-se tam·
dos acontecimentos sucessivos, a vida lllovimentada da bém do ferro e propõe que o mesmo seja usado segundo
Segunda República e o advento do Im~ério constituem suas características peccliares. e não como substituto
um golpe muito grave para essas força~ cultura~, pro- dos materiais tradicionais (Fig. 106).
duzindo a dispersão e o isolamento dCI~melhores. A reviravolta que Viollet le Duc imprime ao mo-
li
Em 1856, Labrouste fecha sua esç:ola; os alunos vimento neogótico, associando-o com o racionalismo,
passam para o atelier de Eugêne E. fjYiollet le Duc é importantíssima; também ele, assim como seus ad·
(1814-1879) que, desse momento em diante, trans· versários acadêmicos, empenha-se na tarefa contradi-
forma-se no chefo reconhecido da cor&nte racionalis- tória de demonstrar o valor geral e atual de uma
ia. Viollet le Duc pertence à geraç~o mais jovem, linguagem calcada em modelos passados, porém é me--
não possui a intransigência nem o ardtir de Labrouste nos fácil, no neogótico, dar como manifestos certos
ou de Courbet, possui um extraordináriÔ1aparelhamento preceitos fundados somente no hábito, confundir a
científico e preocupa-se em não perd& contato com tradição com a racionalidade, pois o neogótico não
o mundo oficial; é amigo da Imperatriz e exerce uma
possui atrás de si a continuidade de uma tradição
certa influência sobre o próprio Napoleão. Em 1852,
inicia em várias revistas uma campanha'. contra o ecle- próxima, antes exige, em primeiro lugar. uma polê-
mica contra os hábitos .recentes.
tismo, sustentando que a arquitetura dJ'.ve estar basea-
da nas funções e no respeito aos materiais; as críticas Por essa razão o neogótico, onde ql!er que pros-
ao ecletismo terminam apontando uma!jpresa detenni· pere, produz um salutar reexame de herança artística
nada: a Academia que controla a :8cole des Beaux- do passado e convida a uma análise mais destituída de
Arts, os Grands Prix, os encargos imi,ortantes. Em preconceitos dos processos de construção modernos;
1863, ele consegue do Imperador ulÜa reforma da com efeito, os livros de Viollet le Duc, que circulam
Academia para uma orientação mais li,beral. por todo o mundo, têm grande importância para a
Viollet 1e Duc é o sustentador da.J!direção neogó- formação da geração subseqüente, da qual saem os.
tica, mais elimina em sua polêmica todlf ro-
referência mestres da art nouveau.

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107, 108. Lowhes,duas visas do Palii:io de Cristal (do Victorla and Albert Museum e de La srande e~ di Londra, Tip. Subalpina, Turim,
1851).

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4. ENGENHARIA E ARQUITETURAINA SEGUNDA


METADE DO S~CULO XIX I
1
1

1. As Exposições universais

Qs progressos da engenharia na segl,lllda metade do vencedor, empregam um esqueleto de grandes elemen-


tos não recuperáveis depois da demolição. Por essa
século XIX podem ser seguidos aifavés das Expo-
siçõesUniversais,de 1851 em diante. il razão, o Comitê de Construção redigo um projeto de
ofício e convida as empresas a apresentar ofertas de
As Exposições de produtos industriais dizem res- empreitada, sugerindo as eventuais modificações. Nes-
peito à relação direta que se estabelec~ entre produto- te ponto, intervém Joseph Paxton (1803-1865),
res, comerciantes e consumidores dep'.ois da abolição construtor de estufas, que prepara às pressas um pro-
das corporações. A .Premiêre Expositihn des Produits jeto, solicita a proteção de Robert Stephenson, mem-
de l'Jndustrie Française é organizada ~m Paris sob o bro do Comitê, e publica os desenhos no lllustrated
Diretório, seis anos após a proclamação da liberdade de Londres; agora, contudo, o Comitê está vinculado
de trabalho. li à decisão tomada, e assim Paxton associa-se aos em-
Durante a primeira metade do séciilo XIX, as Ex- preiteiros Fox e Henderson e apresenta seu projeto ao
posições permanecem nacionais; isso deve-se ao fato concurso de empreitadas, fazendo-o passar como va-
de que quase todos os países, com exCeção da Ingla- riante do projeto do Comitê.
terra, impõem fortes limitações ao co~rcio externo a A oferta é muito arriscada, porque as quantias
fim de proteger as nascentes indústrills locais. So- em jogo são muito grandes e os preços dos elementos
mente depois de 1850 é que a situação é modificada; singulares de ferro, de madeira e de vidro devem ser
primeiro a França, depois os outros f,aíses, atenuam fixados com grande exatidão, em um espaço muito
as barreiras allandegárlas, e as novas PPssibilidades do curto de tempo. Dickens descreve o projeto com as
comérciointernacional refletem-senas.Exposições,que seguintes palavras, em Household Words:
se tornam universais, pondo em confroÜto produtos de
todo o mundo. 1j
Dois empresários de Londres, contando eom a conscien-
A primeira Exposição Universal élaberta em Lon- ciosidade e a boa fé de certos mestres ferreir~ e vidraceiros
dres em 1851. Os autores dessa iniciJtiva são Henry da província e de um carpinteiro de Londres, obrigaram--se
Cole - do qual se falará no Cap. 6 ~ e o príncipe mediante uma soma fixa e no praw de quatro meses a cobrir
consorte Alberto; escolhe-se como sedi:, o Hyde Park, deuiito acres de terreno com um edifício com mais de um
terço de milha de comprimento (1851 pés, que correspondem
e institui-se em 1850 um concurso internacional para ao ano da Exposição) e com cerca de 450 pé5 de largura.
o edifício a ser construído, do qual 'Participam·245 Para faâ-lo, o vidraceiro promete entregar, no prazo deter-
competidores, dentre os quais 27 fra.iiceses. O pri- minado, 900 000 pé$ quadrados de vidro (pesando mais de
meiro prêmio é vencido por Horeau :com um arma- 400 toneladas) em l!lminas separadas, u maiore:. jamais cons·
zém em ferro e vidro, porém nenhu~j dos projetos é tiuidas em vidro para caWlho, tendo cada uma destas 49
considerado exeqüível porquanto todos, inclusive o polegadas de comprimento; da mesma forma, o mestre fer·
'I
129

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130
131
reiro p1omete iumlir ;,:u.1~mpo conveniente 3 300 colunas de daram a compreender que as regras segundo as quais a arqui-
ferro, variando em comprimento desde 14 pés e meio até 20 tetura era julgada até então não eram mais válidas. a
pés, 24 000 tubos destinados a formar uma rede subterrânea
para coligar sob a terra todas as colunas, 2 224 travessas e Depois da Exposição, o palácio é desm(?ntado e
1 128 pranchas para as galerias; o carpinteiro encarregou-se remontado em Sydenham, em uma colocação rural
de fornecer 205 000 caixilhos.e o tablado necessário para
essa enorme jaula de 33 000 000 de pés cúbicos, 5em falar idealizada pelo mesmo Paxton, onde fica até o incên-
da enorme quantidade de antepM<n divisónõs e de outros
dio de 1937.
trabalhos em madeira. 1. A importância do Palácio de Cristal não se en·
contra na solução de importantes problemas de está-
A oferta resulta ser a mais baixa, e a obra de tica, nem na novidade dos procedimentos de pré-fabri·
fato é executada, ficando dentro dos limites da pre- cação e tampouco nas previsões técnicas, mas sim no
vísão; o projeto original não inclui o transepto, que é novo relacionamento que se estabelece entre os meios
acrescentado para respeitar algumas grandes árvores. técnicos e os fins representativos e expressivos de
O custo total é de um penny e 1/12 por pé cúbico. edifício.
A eoonomia do projeto depende de várias previ-
As descrições da época, como a nota de Bucher,
sões: a pré-fabricação completa, a rapidet da monta-
insistem na impressão dé irrealidade e de espaço inde-
gem, a possibilidade de recuperação integral e a
finido:
experiência técnica adquirida por Paxton na oonstru·
trução de estufas. Os montantes em tubos de gusa Podemos eotrever wna delicada rede de linhas sem termos
servem também como calhas para as águas pluviais e qualquer chave para julJ:lar sua distância do olho ou suiu
as ligações horizontais, na base, são também os cole- várias dimensões. As paredes laterais estão muito distar1ciadru.
tores que descarregam a água nos esgotos; assim, o para que possam ser abrangidas por um só olhar. Ao invés
edifício, pode-se,.dizer, apóia-se na instalação hidráu- de correr de uma parede terminal à outra, o olho vaguei:.
lica. O problema da condensação nos vidros foi resol- por uma penpeçtiva sem fim que se desvanece no horizonte.
Não estamos aptos a afirmar se este edifício ergue-se cem ou
vido decompondo-se todo o telhado em superfícies in-
mil pés acima de nós, e se o telhado é plano ou é composto
clinadas, de maneira a evitar as goteiras, e levando a por uma sucessão de costelas, porque não existe jogo de luz
água por uma canaleta na travessa inferior de cada e 5ombra que permita a nossos nervos ópticos eslim.nrem as
,caixilho de madeira até as calhas. O pavimento foi medidas. Se deixarmosnosso olhar ascender, ele encontra as
elevado em quatro pés; o espaço inferior serve para travu de ferro pintadasde. azul. Jnicialmente,estas sucedem-se
ventilação e contém um dispositivo para recolher o pó. apenas a amplos intervalos, depois tornam-iie cada vez mais
O Palácio de Cristal - assim é chamado o edi.- freqilentes, até que são interrompidas por u111acegante faixa
de Iu.i:- o transepto - que se dissolve em um fundo lODgin·
fício - suscita grande admiração, embora críticos
quo onde todo elemento natural se funde ru:. atmosfera'
eminentes como Ruskin apresentem suas reservas.
(fig. 109).
Escreve o Times:
Uma ordem de arquitetura ínteiramentenova, que produz Essa impressão não é tanto devida ao uso do
os efeitos mais maravilhosos e admiráveis com meios de vidro - já existiam muitos edifícios do gênero: as
inatingível habilidade técnica, veio à 1111;para fornecer um próprias estufas de Paxton e de Burton, o Jardin
edifício. 2 d'Hiver de Paris, as estações ferroviárias - quanto,
provavelmente, ao pequeno tamanho dos elementos
L. Bucher, emigrado político alemão: arquitetônicos singulares, tamanho esse contrastando
com as dimensões gerais, e à impossibilidade de abar-
O edifício não encontrou oposir;ão,e a impressão produ·
.zida em todos os que o vêem foi de tão rom&ntica beleza car todo o edifício com um só olhar. Não obstante o
que .se podia ver reproduçôe$ do Palácio nas paredes de fá· comprimento total fosse de mais de 550 metros, a
bricas em remotas aldeias alemãs. Considerando esse edifício nave principal tem apenas 21,5 metros de largura, e-
:não executado em sólida alvenaria. os observadores não lar- os suportes de gusa distam apenas 7 metros; o módulo

1. Tradução ítaliana em L4 grw1de esposidone di 3. BucHER; L Kultur/listorische Skiuen aU:i.der fodustrie·


Londra, Turim, 1851, disp. 1. aussie/lung a/ler VQ/ker. Frankfurt-sobre-o-Meno, 1851, citado
2. Número de 12 de junho de 1852, citado em J. em S. Gti!DION, Spazio tempo e archítettu,a, trad. il., Milão,.
RusKIN, The Opening o/ tl,e CryJtal Palace Considered ln 1954, pp. 243·244.
.some <;/ ils Relations to tlle Prwpeçts o/ Art, Londres, 185"2. 4. GIEDION,S. Op cit., p. 244 .

132
-._..::---- -
~- ,
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133
fundamental de 8 pés repete-se, no comprimento, por um revestimento de alvenaria, limitando o ferro à co-
duzentas vezes, e nota-se que no primeiro momento o bertura da sala; o projeto da arquitetura externa é
transepto não fora previsto, de modo que o edifício preparado por J. M. V. Viel (1796-1863), o da co-
não possuía um centro óptico e devia apresentar-se bertura, por Barrault O edifício, que toma o nome de
como um trem de comprimento indefinido. Uma com- Palais de !'Industrie, é construído nos Champs-Ely-
posição semelhante, baseada na repetição de um mo- sées, e é utilizado em todas as Exposições sucessivas
tivo simples, aparentemente assemelha-se aos modelos • até a de 1900, quando é demolido para deixar lugar
da tradição neoclássica, e o elemento recorrente, a ao Grand-Palais (Figs. 113 e 114). A sala mede 48:
uma ordem arquitetônica, porém as refações e as di· x 192 metros e, naquele tempo, constitui o maior-am-
mensões adotadas modificam completamente o resul- biente coberto de ferro sem sustentação intermediária
tado e dão a impressão, mais do que de um objeto A Exposição de 1855, promovida por Napoleão
unitário e concluso, de uma extensão indefinida, qua· IH durante a Guerra da Criméia, deve servir para re-
lificada de maneira sempre mutável pelos objetos ex- forçar o prestígio do Império e para mostrar os pro-
postos e pelos visitantes que a percorrem. gressos da indústria francesa, pronta a competir em
De modo análogo, as .ruas e as praças de Hauss- pé de igualdade com a estrangeira. Dentre os muitos
mann, onde as regras tradicionais da perspectiva são produtos expostos, vê-se um estranho tubo de concreto
aplicadas a espaços demasiadamente grandes, não se sustentado por uma armação interna de ferro, devido
fecham mais sobre si mesmas e transformam-se em a J. L. Lambot. Por enquanto, contudo, é somente
ambientes sem confins, qualificados dinamicamente pelo uma curiosidade. Muitas outras realizações no cam·
trânsito que se desenrola. po das construções chamam a atenção dos visitantes:
as máquinasde construir, guindastese escavadoras, que
O caráter Jfmpido e corajoso do Palácio de Çdstal tomam possível o trabalho de Haussmann, as vigas de
londrino depende de várias circunstâncias: da formação
fundação batidas com o ar comprimido inventado em
de seu idealizador - que não 6 arquiteto, mas sim 1841 por Trigier, as lâminas onduladas para cober-
engenheiro perito em jardinagem, e não possui a~ tura já usadas por Flachat em 1853 na Gare des
preocupações monumentais que perturbam os proje-
Marchandises de l'Ouest, as coberturas de zinco, as
tistas dos demais edif[cios similares construídos m~ telhas feitas em estampas, as lajes de pedra serradas.
tarde - e da influência de Sir Henry Cole, teórico do mecanicamente na pedreira, os pavimentos em madei-
desenho industrial que é um dos incitadores da Expo- ra executados em série expostos -na seção Canadense,
sição e que provavelmente sugere a colocação adequa- as instalações de aquecimento por circulação de água
da em confronto com a técnica industrial: nem exul· ou de vapor, as instalações ~e ventilação já adotadas
tação retórica, ostentando estruturas sensacionalistas, em vá.rios teatros e nos hospitais.
nem desconfiança literária, mascarando as estruturas
com decorações de estilo, porém aceitação franca dos A segunda Exposição Universal de Paris,
1867, é organizada no Campo de Marte, em um edifí-
:m
produtos fabricados em série e rígidas limitações eco-
nômicas que, desta vez, desempenharam um impor· cio provisório de forma. oval, composto P.ºr sete gale-
tante papel no resultado arquitetônico. rias coilcêntdcas; a mais externa e nuuor, para as
O sucesso do Palácio de Cristal é enorme: para a
Exposição de Nova York, em 1853, decide-se cons-
truir um edifício semelhante - também Paxton envia
.
máquinas, as demais, destinadas às _matérias-primas,
.
ao vestuário à mobília, às artes liberais, às belas-artes,.
à história do trabalho; no centro, encontra-se um Jar-
dim descoberto, contendo um pavilhão para as moedas,
um projeto - mas .no centro da nave é inserida uma os pesos e as medidas (Fig. 116). Cada nação rec.ebe
cúpula monumental. Em 1854, é construído um um setor, compreendendo uma parte das sete galenas:
Glass-Palast em Múnique, pelos engenheiros Voit e "percorrer o circuito ~fos~ pal~~o ci~l~r como o
Werdec. equador - diz a pubhcaçao oficial - e literalmente·
Em 1855, em, Parnl, para a primeira Exposição dar a volta ao mundo; todos os povos estão presen!es,
Universal Francesa, apresenta-se um problema análo- os inimigos vivem em paz uns ao lado dos outros'. 5
go. Fr. A Cendrier (1803-1893) e Alexis Barrault A Galerie des Machines, com um vão de 35 me-
(1812-1867)) preparam, em 1852, o projeto para uma tros é sustentada por arcos metálicos; as pressões são
grande construção em ferro e vidro, mas a indústria eiim'.inadas prolongando-se as pilastras até o exterior,
francesa não está apta, como a inglesa, a responder
às solicitações, e decide-se a circundar o edifício com S. GIEDION,S. Úp, cit., p, 251.

134
Champs
113, 114. A .sala1:011:5truÍdanos
Joanne,Pariril/11.ftré),
El)'life:!pl a Ex..iosição
li
~ Paris d; 1855 (deL'Esposizkme dePazigiddl889ilhtstrata,Sonzogrio e de A.

135
115, 116. Visllt geniJ.e passeio extemo do ediffciopara 11.&posição de PW de 1867 (dll publi~ iotemacicralli.
lUÚOÔZlldllpelll Comissãoimperial,
ed. italianaS=gno, e deParis-Guideparles p,inc;ipa.«éaivains de Frwic:e).

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,e ligando-as corri vigas por cima da abóbada envidra- do outro lado do Sena, formando um eixo com o
·çada. J. B. Krantz, projetista do edifício, encomenda precedente, na colina de Chaillot: o Palais du Tro-
-as armações metálicas à oficina que um jovem enge-- cadéro.
·nheiro, Gustave Eiffel (1832-1923), acabou de abrir O edifício provisório é devido a Léopold Hardy
-em Lavellois-Perret; Eiffel encarrega-se também dos (1829-1894); na fachada para o Sena, as paredes não
cálculos e das verificações experimentais. são de tijolos, mas de cerâmica multicolorida, e a
Essa construção provisória é muito criticada pelos construção possui um aspecto de bastante vivacidade,
parisienses, acostumados aos projetos monumentais; embora esteja carregada de decorações ecléticas, uma
por exemplo, Kaempfen escreve: vez que evita atnüuir ao ferro um caráter estilístico
tradicional e, ao mesmo tempo, retira-lhe seu caráter
Pa1ácio1 Será o nome a ser dado a esta vasta constru· unitário, incompatível com as finalidades representa-
ção que encerra em seu perímetro os mais numerosospro- tivas.
dutos da arte e da indústria jamais reunidas em um s6 local? Escreve um jornalista da época:
Não, se essa paiavra implicar necessariamente a idéia de bc·
leu, de elegância e de majestade, Não é bela, nem elegante, Toda e5la fachada setentrional 6 construída cm ferro, e
nem mesmo grandiosa, essa enorme ma!llla do ferro e tiio· em ferro fundido; porém, corno o leitor pode facilmente com-
los. cujo wnjunto o olhar não oon5egue abranger; é pesada, provar, ao menos em relação ao pavilhão central da fachada,
baixa, vulgar. Porém, so é suficiente que um ediflcio, mesmo o arquiteto soube com rara habilidade evitar os riscoo,exis·
destituídode tudo aquilo,contenha incalculáveisriquezas,então tentes quando se adotam os metais, de construir um edifíclo
11orcerto é um palácio esse estranho objeto, que não tem com aspecto de um mercado ou de uma oficioa, mais do
preçedentesna arquitetura.G que do um palácio. Desterrando as formas convencionais e
eliminandoo tijolo ou o gesso como materiais de enchimento,
São observações semelhantes àquelas feitas em re- ele adotou, para recobrir as partes muradas, lâminas de
lação ao Palácio de Cristal, ora usadas como louvor, maiólica colorida: não se envergonhade apresentarao público
orn como censura. uma fachada policrômica,na qual os emblemase as armas
das várias na;ões formarão um dos principais motivosde orna~
Os objetos expostos nesse edifício testemunham mentação1 (Fq:'.. 121).
os rápidos progressos alcançados, depois de doze anos,
em todos os setores; na edificação, a novidade mais As duas Galeries des Machines possuem um vão
aparente é o elevador hidráulico apresentado por L. não maior do que a de 1867, porém o engenheiro De
Eydoux; também estão expostas as caixas em concreto Dion desenhou os arcos transversais com um perfil
armado de J. Monier, patenteada.s exatamente naquele ogival rebaixado, o que permite eliminar as tensões
ano. Os objetos de ferro são numerosíssimos e ates- e, portanto os contrafortes externos ou internos (Fig.
tam os progressos da indústria siderúrgica, após a in- 120). .
venção do conversor Bessemer; dali a pouco, em 1873, As estrntmas dos vestfüulos são calculadas por
• Jules Saulnier (1828-1900) poderá construir o pri- Eiffel, que se dedica, ao mesmo tempo, aos grandiosos
meiro edifício com esqueleto de aço, a oficina Mer- projetos das linhas ferroviárias portuguesas e que,
nier em Noisiel~sur-Mame. exatamente nesse ano, inallgura a ponte Maria Pia
Seis anos mais tarde, inaugura-se em Viena a sobre o Douro.
Exposição Universal de 1873; o edifício construído no O Trocadéro é projetado por G. J. A. Davioud
Prater é obra do arquiteto inglês Scott Russel, e é (1823-1881) e por J. D. Bourdais (1835-1915); a
dominado por uma gigantesca rotunda com 102 metros idéia de uma construção permanente é associada ne-
de diâmetro (Figs. 117 e 118). Outra Exposição é cessariamente com a de uma estrutura em alvenaria,
aberta na Ftladélfia em 1876 (Fig. 119). e emprega-se o ferro somente para a cobertura, sendo
as demais partes recobertas de uma abarcante decora-
Apenas em 1878, depois dOs parênteses da guerra ção eclética. O edifício foi demolido recentemente a
e da Comuna, é que Paris se encontra em condições fim de deixar espaço para o Palais de Chaillot.
de hospedar novamente uma Exposição UniverSal. São
construídos, nessa ocasião, dois grandes edifícios: um, Depois de 1878, as Exposições Universais mul-
provisório, no Campo de Marte· e outro, permanente, tiplicam-se em todas as partes: em Sidney em 1879,

6. Em Paris - Gifide par les pri1u:ipau:r kri~al11s et 7. L'E.fpo.l"ii.ione de Parlgl de[ 1878 ilustrada. Milão,
artisres dt> la France, Paris, 1867, p. 2007. 1878. p. 3.

138
11•. FilodOlh, •m -" d, E,po,iç<o Uru,j (de!:_."""''""'
do 1876 de Fllad,fjia, So=,oo).
lZO,121. Paris, a Oalericdes Machines \is.a
de 1875 e da ExPQsiçio(deL'&pomione diParigidd 1878 IUustrata,
gc.ral. Soozogno).

139
em Melboume em 1880, em Ainsterdã em 1883, em ou st:ja, charneiras, que deixam o metal livre para &ozar dc-
Antuérpia e New Orleans em 1885, em Barcelona, Jodas as suas propriedades ffslças,•
Copenhague e Bruxelas em 1888. A abóbada tramparcuk é de um arco pcdeito, fed1ad!l
IXlm vidros brancos variados com algum desenho azuJado.sim.-
A Exposição de Paris de 1889, no centen;úio da pies e harmonioso, $eDdo que" o mesmo ~rrc éom as duas
tomada da Bastilha, é, sob muitos aspectos, a mais vidraças qut1 o fecham a norte e a sul do Palácio. Enquanto
imPQrtante de todas estas resenhas do séçulo XIX; atava vazio, r.t g;.llcro de construção - ferro e vidro -
também ela é organizada no Campo de Marte e com· dava-lhe uma tal leveza., , que; um poeta exçlamou: "Pena
preende um conjunto articulado de cdü!cios: um pa- que será dcsperdi;ado pondo-se máquinas Ílele''. Agora as
lácio com planta em U, a Galerie des Machines e a máquinas jã estão ali; não direi, como meu llIIligo, que :mia
torre de 300 metros, construída por Eiffel no eixo da melhor se não cstiv~ porém, so não o digo ••• penso-o.g
ponte que leva ao Troca.déro. O metal foi dobrado' de acordo .:om todas as exigências
artístícu,s. Até qora não se acreditava ser passivei extrair
O Palácio projetado por J. Formigé (1845-1926) do ferro efeitos artfsti.cõs conveniente~. O a.'lpccto $util e
é uma obra pesada e complicada, com uma cúpula fraco deste;metal, as dificuldades de suavizar suas formas,
sobrecarregada de ornamentos; mas a Galerle e a Tor- haviam ffito com que a maioria dos arquitetos o deixasse
re, se bem que carregadas de decorações nem sempre de lado. A tentativa foi satisfatória. , . As colunas da tri·
felizes,são as marcantes dentre as construídas até então buna foram .:onstmídaa, não em SUSI\ segundo o uso clás-
em ferro, e, por suas dimensões, colocam também sico, mas sim em feno e em çhapa, COll!desenhos agradá·
novos problemas arquitetônicos. veis. As balau:suadas e as s:radcs da escada são mesmo em
ferro normal de comércio, cm forma de U ou de T. Toda
A Galerie des Machines é projetada por Ch. L. F. a estrutura apareow é igualmente composta por elemento!
Dutert (1845-1906), o qual se serve dos engenheiros semelhante! que inauguraram a.'I formas novt.:. para a arqui-
Contamin, Pierron e Charton ( so:rte estranha a de lctura em ferro ••• • Apesar do desenvolvimento das belas
Contamin, que foi. confundido por muitos autores com galerias laterais, o olhar custa a se habituar a r:ssás dimcnsõu
o pioneiro do concreto armado, Cottancin, como se se tão inauditas e fica desconçertado em presença de tanta imcn•
tratasse de- um mestre medieval de identidade con- aidão. Até mesmo o arco rebaixado das ar.:adas engana o
olhar e não dã a todO&a exala. noeio da altura. do edifído: o
trove.rsa); para seus contemporâneos, o projetista é olho habituar-se-á pouco a.•pou.:o a ~ssa.'Iperspectivas gigan-
sem dúvida Dutert, Prix de Romc. tescas; inicialmente surpreso, terminará admirando tudo. e
O grande ambiente de 115 x 420 m é sustentado a visão do giandc. 10
por. m:adas de ferro com três charneiras; este sistema
já foi experimentado em algumas estações alemãs e Os escritores mais importantes nutreµi admiração,
permite, agora, que seja coberto, sem qualquer sus- porém com reservas, tais como B. Renan:
tentação intermediária, um grande espaço quase igual Crdo que esse graodo esforço produziu uma bêla obra
a todo o Palácio de Cristal de trinta e oito anos antes em seu gêuc:ro de bclcz.a.ao quàl. não estamos acostumados,.
(Figs. 122-125). mas que é neussãrlo admitir. A• ct1pu1as de ferro, evidente-
Os contemporâneos reagem a esse edüíclo com mente, não possuem IJada ae · semelhante com as de Sauta
estupor e incerteza. Os leigos geralmente ficam entu- Sofí11ou de São Pedro... Por outro, lado, é preciso' ter em
mente que aqui não ac empreendeu uma obra duradoura. Eb
siasmados e confundem em sua admiração a grandeza 6 tanto mais surpreclldentc porquanto no.s aparece, com seu
da sala, as reali7.açõestécnicas e os acabamentos de- earáter cfimcro, como uma prodiiio&a prodigalidade.11
coi;-ativos:· Muitos arquitetos, mesmo os da escola raciona-
A vista estende-se por me.io quilamclro absolutamente lista. como A. de ·Baudot, criticam as proporções por
vazio e claro, que permite entrever, de uma cxtreDµdade a.. demais rebaixadas e os detalhes, sobretudo a junta cm
outra, as fachadas çom vidros multiçoloridos e a curvatura charneira que enfraquecevisivelmentea base dos arcos.
graciosa dos sustentáeulo:i, .:ujos dois ar.:os idauticos,. rcullÍ·
dos 110 ponto ma.is allo, M asumclbam a duas.plantas enor- 8. L'Esposlz)one d{ Parlei dei 1889 llluitrata, Milão,
mes... Para remediar os deslix:amcntos que $eriam gerados 1889, p. 83.
pela UlcWtivel dilara.ção das partes mctálli:u - dilatação pro- 9. PoLCHETIO, Parlgl e rEsposltlone unlver.saledel 1889.
duzida pela ação dos raios dr.t wl - ou ~la «intração pelo Milão. 188~. p. 22.
COJlt.atocom o gelo, 03 cordões de toda a volta foram articula- 10. PAllVILLll, H. de. Pa,fgl e r&posirione univer,afe del
dos cm trai pontos: nas duas basca; e no çímo. Avizillhando- 1889. clt. p, 62.
·DOSa uma pilastra, percebem-se facilmente essas artiaila;õcll, li. IJEspositlone di P"1ifi dei 1889 llluslrata dt. ·p. 31.

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122, 123, 124, P;u:is, a Galerlo des Machincs de 1889 (deF1&aroExpo.1ilüm, de S. Giedion, Space, Time andArchiJecture e deParlgl e fuposi:zlone
umver.rukdd 1889 de TMves), li ..-
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Outros peritos, pelo contrário, aprovam a correspon- Eiffel confia o prÕjeto, em 1884, a dois engenhei-
dência entre a estrutura e o revestimento arquitetônico: ros empregados em sua empresa, Nouguier e Koechlin,
e lembra que "eles haviam sido levados à idéia dé
E.te monumento não 56 anuncia de longe sua destinar;ão construir uma torre em ferro pelos estudos feitos em
mas também revela a intenção de seu construtor, faz com que comum sobre altos pilares metálicos de pontes". 13 A
um só olhar abranja. em suas infinitas variedades, as apltca-
ções da ciÇncia moderna a .$ClViçodo construtor. A finali-
parte arquitetônica deve-se ao arquiteto Sauvestre
dade parece ler sido plenamente atingida. Estudem-se as (Figs. 126-129). O projeto é reelaborado nos dois
maneiras de atingi.-la, a leveza da estrutura, o lance arrojado anos seguintes, e os trabalhos têm início em princípios
da curva graciosa dw, arcos que fendem o espa!rO como as de 1887.
asas abertas de um pássaro _no vôo. 12 O perfil da torre é calculado de maneira que
resista à ação do vento, e Eiffel propõe que as formas
A Galerie des Machines é por demais vasta para fixadas pelos cálculos confiram às costelas uma forma
que os espectadores circulem como simples pedestres agradável:
em tomo das grandes maquinarias; para tal finalidade,
são instaladas duas pontes móveis, que percorrem, à O primeiro principio da estética arquitetônica prescreve
meia altura, o comprimento de toda a sala e trans- que as linhas essenciais de um monumento devem adequar-se
portam os visitantes por cima dos objetos expostos perfeitamente a sua destinação. E qual lei tive de levar em
(Fig. 125), Essa medida não é ditada somente pela collta em relação à torre? A resistência ao vento. Pois bem,
necessidade de circulação, mas também pelo caráter sustento que as curvas das quatro costelas, da maneira pela
do ambiente, como se pode verificar pelas gravuras e qual foram e11,:pMsaspelos cálculo8••• , darão uma grande
impressão de força e de beleza, porque tornnrão sensível à
pelas fotografias; com efeito, a vastidão do vão é ani· visão o arrojo da concepção do conjunto, ao mesmo tempo
mada e reconduzida a uma escala humana não pela que os numerosos vazios escavados nos próprios elementos
conformação das paredes, mas pelos objetos e pelas farão tessallar energicamente o cuidado constante de não ofe-
pessoas em movimento que nele são contidos, e é 1ecer à violência do:s furacões superfícies perigosas para a
compreensível somente em refação a estes. Basta con- estabilidade do edificio. H
frontar uma das vistas usuais da sala vazia (por exem.·
plo, a nota fotográfica reproduz.ida por Giedion, Fig. Como se sabe, um grupo de artistas e literatos
123) com o clichê do Figaro da Fig. 122, imaginando protesta publicamente contra a construção da torre em
o movimento das pontes, dos órgãos mecânicos e das ferro, com uma carta aberta a A1phand, comissário da
personagens; quando o primeiro plano encontra-se re- Exposição:
pleto de objetos mutáveis, o olhar não julga mais o
conjunto da sala como um vão fecliado, mas sim como Nós, escriklres, pintores, escultores, arquitetos, apaixona-
um ambiente ilimitado, definido por um ritmo recor- dos amantes da beleza do Paris, até agora intacta, protesta•
rente a perder de vista, como as ruas de Haussmann. mos com todas as nossas forças, em norno do gosto francês
renegado, contra a construção, em pleno i;;oraçiio de nossa
:S, por conseguinte, correto dizer que esse edifício capital, da inútil e monstruosa Tone Eiffel, que a maldade
não pode ser julgado segundo os critérios tradicionais, pública, freqüentemente inspirada pelo bom senso e pclo espí-
não pelo desenho de Outert ii.ueobedece, em definitivo, rito de justiça, já batizou com o nome de Torre de Babel. A
aos cânones tradicionais, com uma relação entre lar- cidade de Paris irá associar-se mais uma vez à burroi;;a, à
gura e comprimento de 1:3,6 e uma simetria ostensiva, mercantil imaginação de uma construção (ou de um constru-
mas sim pelo caráter dinâmico que adquire o projeto, tor) de máquinas, para enfear-se irremediavelmente e para
desonrar-se? Porque a Tone Eiffel, que não desejaria para
dadas as dimensões insólitas, o mobiliário e a presença si mesmo a comercial América, é a desonra de Paris, não
da multidão. 1enhmn dúvid11. B necessário, a fim de perceber aquilo que
A Galerie des Machines in{eliz;nente foi demolida estamQs entrevendo, imaginar por um instante uma torre ver-
em 1910, e não é possível verificar. a veracidade dessas tiginosa e ridkula que domine Paris como uma gigant~a e
conclusões. Entretanto, encontra-se de pé a segunda escura chaminé de fábric11,todo~ os nossos monumentos hu·
realização célebre da Exposição Universal de 1889: a milhados, toda a nossa arquitetura diminuida, até desaparecer
torre de 300 metros construída por Eiffel. neste ~onho chocante. E, por vinte anos, veremos alongar-se~

12. R. Aú.RX, em L'Arc/1itecture, 1890, p. 382, i;;it. cm 13. Cit, em L. HAUTECQEUR.,OP· cit., t. VII, p. 40S.
L. HAUTECOEUR,Hisloire de /'an:liitecll/re classiq11e e1i Fra11ce, 14. Cit. em M. BESSET, G11~1,wefüfjel, trad. it., Milão
Pari~. 1957, t. vm, pp. 402-403. 1957, pp. 17·18.

144
como uma mancha de tinta, a sombra odiosa da odiosa CQlu· para construir seus refúgios. Depois, nos lll.ODUmentosem
na de ferro cheia de rebites. A v6s, Senhor e caro compa· ferro, as superfícies planas são assustadoras: veja-se a primeira
triota, a vós que la.llto amais paris, que a haveis embelezado, plataíorma da Torre Eiffel, com aquela fila de duplas guaritas:
cabe a honra de defendê-la ainda. E, se nosso grito de alarme não se pode imaginar nada de mais feio para o olhar de um
não for entendido, se nossas razões não forem ouvidas, se velho civilizadol lS
Paris obstinar-se na idéia de desonrat" Paris, a.o menos tere.
mos, vós e nós, feito ouvir um protesto honroso, 111 O juízo dos contemporâneos é dominado pela
imp1:essão da novidade; o nosso é muito diverso, e
Entre os signatários, encontram-se Meissonnier, deve, antes de tudo, libertar-se do véu do hábito que-
Gounod, Gamier, Sardou, Bonnat, Coppée, Leconte de nos tornou por demais familiar a imagem da torre.
Lisle, Sully-Prudom.me, Maupassant, Zola, A obra em si é incerta e falha, não sómente pelas
Muitos tét;nicos sustentam que a torre está des- superestruturas decorativas, que foram parciaJmente
tinada a desmoronar, pelo ceder das estruturas ou das eliminadas em 1937, mas também pela descontinuidade.
fundações, Os proprietários das construções vizinhas do deseii.ho geral. Por outro lado, o papel que a
tentam até mesmo um processo, pleiteando indenização torre assumiu na paisagem parisiense é de suma impor-
porque o perigo impede que suas casas sejam alugadas. tância, e leva-nos a avaliar característlcas totalmente
Quando a torre é terminada, em 15 de abril de diversas, nas quais se encontra provavelmente a maior
1889, muitas reações contrárias modificam-se para importância da obra.
favoráveis; se a imprensa refletir a idéia dos leitores, O ministro Lockroy, em resposta à carta dos ar-
devemos pensar que a opinião pública, em seu conjunto, tistas, sustentava em 1887 que a torre modificaria.
ii favorável. Eis alguns juízos: somente a paisagem insignüicante do Campo de Marte,
mas estava errado. A altura excepcional e a linha
Face ao fato - e que fato! - concretizado, é preciso ininterrupta do pináculo entre a segunda e a terceira
inclinar-se. Também eu, como muitos, ,fusc e acrediteique a plataforma fazem, isso sim, g_ue a presença da t?rre
Torre Eiffel to= uma loucura. porém é uma loucura ,grande seja percebida de quase todos os cantos de Pans e
e orgulhosa. E certo que essa massa imensa esmaga o resto entre em relação não mais, como um edifício antigo,
da E,;po51çãoe, quando se ~ai do Campo de Marte, as cúpulas
e galerias gigantescas parecem pequenas. Mas o que que• com um ambiente definido governado por uma pers-
n:m.? A Torre Eiffel impõe-seà imaginação,é algo de ines- pectiva wlitária, mas sim com toda a cidade e de. modo
perado, de fantástico, que &on,icia nossa pequenez. Quando sempre mutável (Fig. 135), Como na Galene d<t.s
havia apenas 5ido começada, os mafa célebres artistas e literatos. Machines as dimensões inusitadas fazem mudar o
de Meissonnier a Zola, as5ioaram um ardente protesto contra significad~ da arquitetura e conferem-lhe uma qualidade
a torre, como sendo um delírio de lesa-arte; assiná-lo-iam dinâmica que força a considerá-la sob uma luz nova,
agora? Não, por certo, e gostariam que aquele documentode mesmo se o projeto em si respeite as regras da pers-
sua cólera não existisse. Quanto às massas populares, quanto à pectiva tradicional.
boa burguesia, seu sentimento se resume numa frase pronun·
ciada por um cidadão honesto, depois de haVer ficado cinco Com a realização da torre, Eiffel conclui também
mínutos de boca aberta diante da torre: Enfoncée fEuropel 11J sua atividade no campo das construções de edifícios.
Bem firmada sobre petnas arqueadas, sólida, enorme, Na Exposição de 1899 existe um pavillon Eiffel, no
monstruosa, bruta], dir·sc-ia que desprezando os assovios e os qual o célebre engenheiro apresenta uma espécie de
aplausos, ela. vai de um só golpe procurat, desafrar o céu, ~em mostrn pessoal; destaca-se o pequeno modelo do via-
ocupar-se com aquilo que se agita. a seus pés\ li duto de Garabit, realizado entre 1880 e 1884. Em
1887 Eüfel recebe o encargo do canal de Panamá.
Muitos dos maiores literatos ficam ainda com o o qu:..i_absorve todos os seus esforços até 1893; de-
parecer oposto; no lournal dos Goncourt lê-se: pois de 1900, ele se dedica b.spesquisas aerodinâmicas,
utilizando a própria torre e depois um laboratório,
A Torre Eiffel faz-me pen.sal" que. os monumentos em anexo onde trabalha até 1920.
ferro não ~o monumentos humanos, isto é, monumentos da
velha humanidade que conheceu somente a madeira e a pedra As construções em ferro parecem agora ter. che-
gado ao véitice de suas possibilidades. Depois de 1~8?,
tS. Le Temps, 14 fev. 1887. a obra mais importante é a cúpula para a Expos1çao
16. FoLCHETTO. Parigi e (Esposizione u,1/versale del de Lyon em 1894, com um diâmetro de 110 metros.
1889, cit, p, 7.
17. L'Espo6iziom: di Parigi dei 1889 i/111straJaciL p, 18. 18. lournal, VIH, 25, 1889.

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Progride, por outro lado, rapidamente, nos últimos dois A discussão aparentemente diz respeito à orienta-
decênios do século, o novo sistema de edificação, o ção estilística e à oportunidade de incluir no programa
concreto armado, que invade rapidamente o campo da o estudô da Idade Média, além daquele sobre a Anti-
edificação comum, graças a sua conveniência econô- guidade e o Renascimento, mas a verdadeira contro-
mica, sobretudo após a publicação dos regulamentos. vérsia diz respeito ao ensino técnico e suas telações
O crescimento extremamente rápido das cidades, espe- com a formação artística. Escreve Viollet le Duc em
cialmente nos países que somente agora se industria- 1861,
lizam, como a Alemanha, demanda da indústria de
construção um esforço extraordinário que exige uma Em nosso tempo, o arquiteto em embrião é um jovem de
quinze a dezoito anrn; ••• do qual, durante seis ou oito anos,
revisão completa dos métodos de construção antigos. exigem que faça projetos de edifícios que, com maior ire·
qüência, mantêm uma relação apenas distante com as necessi-
dade$ e os usos de nosso tem:po, sem jamais elligir dele que
2. A crise do ecletismo esses projetos sejam exeqüível$, sem que lhe seja dado um
conhecimento nem. mesmo superficial dos materiais postos a
nossa disposição e do emprego dos mesmos, sem que ele haja
Enquanto a técnica das construções aperfeiçoa-se sido instruído :.obre os modos de construi.e adotados em tQdas
com tanta rapidez, a cultura artística tradicional entra as épocas conhecidas, sem que tenha recebido a mínima noção
em sua crise definitiva. sobre a condução e a administração dos lrabalhos. IV
De 1851 a 1889, os edifícios construfdos para as
Exposições Universais testemunham um grande pro- Flaubert, no Diciontiriodas idéias correntes, anota
gresso na construção, porém o problema do controle esta definição: "Arquitetos: todos imbecis - esque-
cem sempre as escalas".
arquitetônico torna-se sempre mais difícil e mais preo-
cupante. O Palácio de Cristal, enquanto obra de ar- E. Trélat (1821-1907) vai mais além e, sem es-
quitetura, é muito superior a todos os edifícios pos- perar as reformas, funda, em 1864, uma esco!a par-
teriores do mesmo gênero; a idéia geral, as realizações ticular, a Scole Centrale d'Architecture, onde dispensa
técnicas, os acabamentos decorativos, estão entre si um ensino rigorosamente técnico, voltando-se a jovens
em um relativo equilíbrio, e o projetista segue por seu engenheiros, a empresários e a poucos arquitetos.
çaminho com segurança. Nos pavilhões franceses, pelo A Academia, por seu lado, atendo-se à habitual
contrário, - inclusive a célebre Galerie des Machines didática tradicional, defende a existência da categoria
de 1889 - a cultura eclética esfoiça-se de várias dos arquitetos. C. Daly escreve, em 1866, que, deixando
maneiras em. conferir dignidade e respeitabilidade às muito lugar à cultura científica e técnica, chegar-se-ia
estruturas dos engenheiros, sem uma forte convicção "a suprimir, em conseqüência, como uma simples re- _
e com um crescente senso de estranheza. Não é de petição dos engenheiros civis, todo o corpo dos arqui-
maravilhar que a Exposição de 1889 e as discussões tetos". 2 0 Por outro lado, o confronto não pode ser
levantadas tenham produzido, como reação, uma onda evitado na prática: os arquitetos não podem ser consi-
derados como simples artistas, devem tornar precisa
extrema de intransigente classicismo, com L. Ginain
sua função profissional e possuir, ao menos, aquele
e E. G. Coquart. Retorna às revistas a antiga polêmica
tanto de preparação científica que os torne aptos a
sobre o uso dos materiais novos e sobre as relações colaborarem com os engenheiros.
entre arte e ciência.
O regulamento de 1867 reflete essas incertezas;
Sob essas discussões, existe uma forte preocupação ele confirma a orientação tradicional dos estudos, mas
de ca1egoria. Viollet le Duc e os racionalistas obti- mantém alguns dos ensinamentos sistemáticos pedidos
veram, em I 863, um decreto de Napoleão III no pelos racionalistas e define a figura do arquiteto, insti-
sentido de reformar a E:cole des Beaux-Arts, decreto tuindo um diploma que põe fim ao período de liber-
que subtrai parcialmente o ensino ao controle da Aca- dade profissional iniciado em 1793.
demia e modifica a ordem dos estudos em um sentido O diploma serve, evidentemente, para consolidar
mais liberal, atenuando a orientação clássica. A Aca- uma situação comprometida, porém expõe os arquite-
demia não aceita o novo regulamento e daí nasce uma
violenta polêmica que é concluída em 1867, quando 19. Cit. em L HAUTECOEUR. op. ciL, t. Vil, pp. 294-2.95~
um novo decreto retira a maior parte das reformas e 20. Re\'lle générale d'An:/1ilect11re. J8(i6, p, 8, cit. em,
restitui a Academia a sua posição de privilégio. L. HAUTECOEU!I.. op. cit.. 1. VII. p. 411.

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135. Paris, a tomJIDffcl no panornmada cidade.

149
tos em campo aberlo, lransformando-os de artistas em tos de construção - e prepara a dissolução de toda
profissionais, e tornando inevitável um acerto de contas a herança cultural acumulada na Academia.
entre a cultura acadêmica e a realidade. Julien Guadet (1834-1908), professorem um dQs
Os racionalistas, por sua vez, não se dão por aJeliers da escola desde 1872 e professor de Teoria
vencidos e continuam com sua campanha. Em 1886, da Arquitetura desde 1894, é o típico representante
por ocasião do concurso para contratação dos arqui- desta última fase. O programa de seu curso teórico
assemelha-se aos precedentes, e especialmente àquele
tetos da diocese, o júri constata que os candidatos não
possuem noções suficientes sobre a Idade Média, e o de Durand, sobre quem se falou no Cap. 1:
Conseil Supérieur de l'lkole encarrega Charles Garnier O curso tem por objetivo o estudo da. composição dos
(1825-1898) de fazer um relatório sobre o ensino da edifícios, de seus elementos e de &eus coniunto5, segundo o
Arquitetura, o qual é publicado em 1889. Garnier duplo aspecto da arte e da adequação aos problemas definidos,
defende as posições da Academia, dizendo que a escola às necessidades materiais. Na primeira parte, estudar-se-ão
não tem e não pode ter preferência por qualquer estilo sucessivamente os elementos propriamente ditos, isto é, as.
uma vez que ensina "a disposição, a composição, o paRdcs, as ordens, as areadas, as portas, as janelas, as a.b6-
raciocínio, a harmonia das formas, os relacionamentos badas, os tetos, os telhados etc., depois QS elementos mais
complexo&,istg é, as sala$, os vestibufo5, os pórticos, as esca-
de oposição, isto é, os elementos primordiais da das, os pátios etc. Na segunda, após terem sido esta.bdecidos
arte" • .21 os priuclpios gerais da composi?o, estudar-se-ão os principais
tipos de edifícios: religiosos, civis, mllitare5, públicos e parti-
Os adversários replicam que tais noções identi- culares, apresenta.ndo para cada um desses os exemplos ma.is
ficam-se com o classicismo, que na realidade não são noU.veis de todas as épocas e de todos os países, mostrando a
elementos primordiais, mas sim resíduos de uma tra- quais necess.idades respondiam. e expcmdo, depois, «ll'l'IO e em
dição antiquada, e não cessam de censurar à Ecole que medida tais necessidades foram·sc modificando, a fim de
des Beaux-Arts "a posição assumida, a estreiteza, o chegar às exigências atuais e aos programas mais recentes. 2 3
pedantismo, a mesquinhez, o despotismo, o horror do
moderno, do movimento, do progresso". 22 O espírito do curso, contudo, é novo, e o próprio
Guadet, na preleção feita em 28 de novembro de 1894,
Face a esses ataques, a Academia dá o último explica da seguinte maneira sua nova posição:
passo e formula seu programa de modo tão largo e
liberal que se subtrai definitivamente às polêmicas O que é o CUfSQ de Teoria da Arquitetura.? A pergunta
estilísticas. pode palecer supérflua, uma vez que este curso existe por
lonaos anos e fQl seguido por homens de grande valor. Pa·
Os estilos são considerados hábitos contingentes, rece. portanto, que sua tradição se ellCQntra estabelecida., con·
e pretende-se que a exclusividade éstá superada; a tudo .•• nâQ vos esconderei que sinto em torno de mim algo
prerrogativa dos arquitetos, que os distingue dos en- como uma imprc5liãc>de que este curso ainda. está. por• ser
genheiros, é ·a liberdade de escolher esta ou aquela criad.>. O ponto é este: não é preciso que nosso curso corra.
forma, que é uma prerrogativa individual, não coletiva, o risco de liCI' uma contradiçãci com o ensinamento que vossos
mestres (os professoie:s dos vári05 atelkrs} propusenam-se a
e depende do sentimento e não da razão. O ecletismo milWtrar. A originalidade de OOS$a.escola pode ser definida
é interpretado não mais como uma posição de incer, em uma palavra: "é a mais liberal do mundo", uma vez que
teza, mas como um propósito deliberado de não se "o aluno é tratado como um homem que tem o direito de
fechar em qualquer formulação unilateral, de julgar escolher seu mestre e sua direção artística". 2 i
caso por caso, objetiva e imparcialmente.
Essa interpretação de fato evita as polêmicas ar- O curso de teoria, portanto, não terá qualquer
tificiosas entre os executantes dos diversos estilos, po- caráter de tendência: "Aquilo que é contestado ou
rém, eliminando do ensino todo caráter de tendência, contestável é domínio de meus colegas; aquilo que é
renuncia-se ao único apoio concreto que mantém a incontestado, e sobretudo o porquê, o como, eis onde
cultura acadêmica ancorada à realidade - o tradicio- posso exercitar-me e do que posso falar-vos, e o campo
nal paralelismo entre os preceitos clássicos e os hábi- ainda é muito vasto." 23 Como pode ser definido esse
23. GUAt>ET, J, Elémenu e1 lhêorle dt. (rm:hltecture,
21. 1889.p. 433. eh. em L. HAUTECOEUR,
L'Arcf1ilec/1111!,
op. dt., L Vil, p. 299. Paris, 1894, L I, PP· 2-3.
22. F. JouRDAN, cm L'Arcl1i1ccl/<r<'. 1889. p. 350. cil. em 24. GUADET, J, Op. çiL. t. 1, pp. 80-81.
1.. HAUTECCJEUR, op. dt .. t. VII. p. 229. 2S, GUADET, J. Op. cit., 1. l, p, 82.

150
1
136,137.Paris,a rotunda da ExposiçãoUniversal~.e18&9,deJ. Ponnigé,em.obrase terminada.
138. Paris, Exposiçáo de 1889: a rcpIQ'eotação dol'/'lriunío
da Rcpdblica" no Palais de }'Industrie (dcL'Esposmn11e de Parigl dtl 1889 Ulustrata,So.a·
wgqo).

1
núcleo de noções permanentes e comuns? Afirma Guadet, com a fineza de sua percepção, adverte
Guadet: "Estou firmemente convencido de que os esse vazio iminente e escreve: "Nossos programas são
primeiro estudos devem ser clássicos", mas logo depois prosaicos e não podem ser outra coisa em sua for-
fornece esta surpreendente definição: "É clássico tudo mulação. Compete a vós acrescentar-lhes a poesia,
aquilo que merece tomar-se clássico, sem restrições de compete a vós acrescentar-lhes aquilo que, por minha
tempo, de país, de escola. • • tudo que permaneceu conta, jamais poderia colocar neles: a juventude". :is
vitorioso na luta contra os anos, tudo que continua Essa não é apenas uma frase de circunstância ..
a receber a admiração universal" 20 e, reassumindo as Entre os alunos que o escutam encontram-se os jovens
• batalhas de tendências do século XIX, concluiu: "Fe- Auguste Perret e Tony Garnier; no mesmo ano, em
lizmente, alguns valorosos artistas - nossos mestres Bruxelas, Van de Velde pronuncia sua primeira con-
- viram e fizeram ver que a independência. não con- ferência e mobilia sua casa em Uccle; em Viena,
siste em mudar de trajes, e nossa arte libertou-se pouco Wagner abre o curso da Academia com uma declaração
a pouco dessa paleontologia. Nem tudo foi igualmente em favor da ''arquitetura moderna" e inicia sua cola-
feliz, mas os esforços em direção a essa finalidade boração com Olbricb.
foram íecundos, e hoje sabemos e proclamamos que a Os artistas de vanguarda, lançando mão dos
arte tem direito à liberdade, que somente a liberdade mesmos princípios de Guadet, a liberdade individual
pode assegurar vida, fecundidade e saúde". 27 e o primado da fantasia, criam uma nova linguagem
O liberalismo de Guadet é teoricamente mais evo- independente dos modelos históricos, que se contrapõe
luído do que tanto o racionalismo de Viollet le Duc com êxito aos estilos tradicionais.
quanto o ecletismo de Gamier, porém, enquanto pro- A rápida fortuna da art nouveau ·explica-se so-
cura isolar e deixar a salvo o núcleo vital da profissão, mente levando-se em consideração que a cultura aca-
ou seja, a liberdade da fantasia, consuma e toma inde- dêmica já se deslocou, por sua conta, para posições
terminadas todas as noções tradicionais que consti- teóricas do mesmo gênero, e encontra-se intelectual-
tuem, faz muito tempo, os fundamentos da cultura mente despreparada para faz.er oposição ao novo mo-
acadêmica. Os pontos supostamente incontestáveis vimento no terreno prático.
revelam-se, um a um, extremamente contestáveis, e o Naturalmente, o ecletismo tradicional sobrevive
campo da teoria, contrariamente a ser vasto, é antes por muitas décadas, mas destituído de toda sustentação
quase que inexistente. interior, e é impedido para posições sempre mais re-
trógradas.

26. GuADirr, I. Op. cit., t. I, p. 83.


27. GUADilTôI. Op. cit., t. I, p. 85. 28. GUADET,I. Op. cit., t. 1, p. 90,

152
SEGUNDA PARTE:

O DEBATE SOBRE A CIDADE INDUSTRIAL


139, "140.Umaciaadeçatdli caeml440e1840(deC onúwtsdeA. W, Pugln, 1836).

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5. A CIDADE INDUSTRIAL E SEUS CRITICOS "


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•• il capílftu os ar- eretas, que estão sempre a ponto de serem traduzidas;


O Smam
fatos narra d os nos pnmeU'os qua.tro
a história oficia! da cidade lµidustrial na Eu- para a realidade e que devem somente encontrar o mé-
ropa, até o penúltinto decênio do -sétuloXIX. Se nos- todo adequado para inserir-se no processo de desen-
sa narrativa se referisse somente a e'Sse período, não volvimento mobilizado pela Revolução Industrial.
seria necessário acrescentai- mais nada\1 o clima peculiar Esta exposição fomecerâ sempre uma descrição
da cidade do século XIX resulta ex~tamente daquela parcial de nosso período histórico, mas servirá para
sucessão de fatos, importantes e pertllrbadores, embo- sublinhar a diferença entre as idéias e as realizações
1
ra irredutíveis a um processo unitári0• · - o que con~tltui precisamente a principal contradi-
Nosso objetivo, porém, é estudaj; a formação do ção da cidade do século XIX - e porá em evidência o
movimento moderno, o qual pode se definir pela alter- tênue fio condutor que liga entre si as iniciativas da
nativa histórica apresentada à cidade faté agora de.~cri- cultura de oposição.
ta. Deveremos, por conseguinte, no~ próximos capí- Depois de 1830, enquanto ocorre a "reorganiza-
tulos, deter-nos ainda no debate cultul'al que se desen- ção" descrita no Cap. 2, começa-se a considerar.
volve durante esse período, e traçar OSpontos de par- a Revolução Industrial com o distanciamento suficien-
tida que levarão, a seguir -- na últim~ década do sécu- te para tentar as primeiras colocações históricas. Em
lo XIX e nas primeiras duas do sécutb XX --, à for- 1835, E. Baines publica a primeira história da indús-
mulação de um programa de ação ca'Paz de modificar tria do algodão na Inglaterra, e A. Ure, a Filosofia das
a pesada realidade do ambiente urbanO até agora cons- manufaturas, na qual faz a apologia da grande indús-
truído. li tria mecânica; em 1838, surge a primeira edição do
Discutiremos neste capítulo até que ponto a Progresso da nação de G. B. Porter, que, nas subse-
cultura do século XIX está ciente da1stransfor:nações ·qüentes edições de 1846 e 1850, dá conta dos desen-
em curso nas cidades e nas terras; esS8.consciência, de volvimentos sucessivos. F. Le Play conduz uma vasta
fato, é o pressuposto necessário pa~a toda tentativa pesquisa sobre as condições dos operários de toda a
consciente de mudar as coisas. J;ro Cap. 6 ten- Europa, a qual é publicada, em seis volumes, em 1855.
tar-se-á fazer uma exposição sintétidt das iniciativas Em 1843 e 1845, surgem duas célebres obras, que fa-
para a refonna da cidade industrial, ['as quais formam zem a apreciação da Revolução Industrial segundo-
o acompanhamento polêmico dos faias descritos nos princípiospolíticos opostos: Passado e presente de Th.
primeiros quatro capítulos. 1 Carlyle e A Situação da Classe Operária na Inglaterra,
As experiências sobre as quais deveremos falar de F. Engels.
pertecern, todas, substancialmente, ~ esfera teórica e Enquanto os historiadoress da ind:.í.stria se entu-
não modificaram, de modo apreciável, o curso dos siasmam com o progresso material, os escritores de
acontecimentos; trata-se, porém, de 'teorias bem con- Economia e de Política, em geral, são pessimistas.
'!
155

li
Carlyle, ao constatar os males provocados pela mas do modo como estavam as coisas, era uma cidade de um
Revolução Industrial, não individua as causas desses vermelho e preto au1lnatural, como o rosto _pintado de um
selvagem. Era uma cidade de máquinas e de altas chaminés.
males em qualquer instituição que deva ser removida das quais safam, sem solução de continuidade, intermináveis
ou em qualquer força que deva ser combatida; por- serpentes de fumaça que jamais conseguiam disi;ipar·se. Tinha
tanto, não indica remédios de ordem prática e coloca um canal negro, um rio cor de púrpura por causa dos vernizes
a salvo seus valores na esfera metafísica. O católico malcheírosos, e vaslos grupos de edifícios chcios de janelas
Le Play está convicto de que a causa principal seja a (Fig. 141), onde o dia inteiro era um continuo bater e tremer,
desenfreada aplicação do liberalismo de Smith; o libe- onde os pistões das máquinas a vapor moviam-se para cima e
ral Cobden está persuadido, pelo contrário, de que os para baixo, monótonos, como a cabeça de um elefante presa
males derivam de uma aplicação incompleta do libera- de uma loucura melancólica. Tinha muitas ruas largas, todas
lismo e da permanência da taxa sobre cereais; enquan- iguais umllS à:. outras, e muitas vieJas ainda mais semelhantes
umas às outras, habitadas por pesi;oai; igualmente semelhantes
to o socialista Engels pensa que o obstáculo a ser eli· uma às outras, que saíam e voltavam todas na mesma hora
minado é a exploração capitalista de uma classe sobre (Fig. 143), com o mesmo estrépito sobre o mesmo cnlçamenlo,
as outras. para faz.er o mesmo trabalho, pesi;oas para quem cada dia
Todos os remédios propostos - certos ou erra· era igual ao dia anterior e ao dia seguinte, cada ano uma
dos em termos políticos possuem um defeito comum: cópia do ano passado e do ano que vem .. , Não haverleis
deixam de lado os problemas parciais, oferecidos pelos visto nada em Coketown que não fosi;e severamente referente
ao trabalho. Se os membros de uma seita religiosa ali cons-
aspectos singulares da sociedade contemporânea, en- truíam uma igreja - - wmo haviam feito os membros. de
globando-os no problema geral de sentido ideológico. dezoito seitas -, faziam-na como se fosi;e um pi.o dep?sito de
Todos, em substância, consideram a realidade mais tijolos vermelhos, encimada algumas vezes (mas apenas nos
simples do que o é, e mostram sustentar que os pro· exemplos mais altamente ornamentais) por um sino dellUo
blemas parciais devem resolver-se por si mesmos, por de uma espécie de abrigo para pási;aros... Todas as jru;cri-
uma espécie de necessidade dedutiva, quando sejam ções da cidade estavam escritas da mesma maneira, em severos
colocadas em ação certas transformações fundamentais. caractCf'l'lSbranco e preto. A prisão poderia ter sid1;1o hos-
pital, o hospital poderia ter sido a prisão; a prefcitura poderia
Por essa razão, empenhados no debate ideológico, ter sido uma ou outro ou os dois, ou níio importa qual outra
os escritores de Economia e de Política não têm nada coisa, dado que os respectivos signos arquitetônicos não indi-
a dizer sobre o problema mais restrito das transforma- cavam nada em contrário. Fatos, fatos, fatos em toda parte
ções em curso no ambiente urbano. Agora que os no aspecto material da cidade; fatos, fatos, fatos, por toda
novos produtos acumularam-se até um certo ponto, o parte no aspecto imaterial
aspecto da nova cidade emerge pela primeira vez os A escola de M'Choakumchild não era senão um fato, a
olhos de todos; esse aSpecto é triste e desolado, mas escola de desenho não era senão um fato, as relações entre
ninguém tem a propor qualquer remédio que lhe res- patrão e operári1;1não = senão um fato, não havia senão
titua a ordem e a beleza. A cidade industrial é refuta- fatos entre o hospital da maternidade e o cemitério, e aquilo
da em bloco por conservadores e progressistas, por qne não podia figurar CJl1 cll!as, que não se _podiacomprar
aristocratas e democratas; ela não é um quesito a sêr pelo preço mais baixo para ser revendido pelo mais alto não
seria e jamais poderia ser, até o fim dos séculos. Amém, 1
resolvido, mas um fato desagradável e imponante, não
contém razões pr6prias que possam ser interpretadas
e cultivadas, mas somente processos mecânicos desti- A reação do escritor a essa realidade é quase
tuídos de sentido. instintiva e semelhante à do jovem Tom Gradgrind,
deixando de lado, naturalmente, o tom de malfeitor:
Um símbolo dessa concepção - tão espontânea "Gostaria de poder reunir todos os fatos de que eles
que pode ser descrita de maneira objetiva, como uma falam tanto, e todas as cifras, e todos aqueles que as
coisa concreta - é Coketown, a cidade do carvão, onde inventaram, gostaria de colocá-los sobre um milhar de
vivem os personagens de Tempos Difíceis de Dickens. barris de pólvora e fazê~los em pedaços a todos de uma
Eis a primeira descrição que pode ser encontrada no só vez''. 2
romance:
Não obstante a hostilidade preconcebida, a des-
Coketown, para a qual se estavam dirisindo Gradgrind e crição de Dickens não é nem um pouco superficial,.
Bounderby, era um triunfo do fato, pois não se havia deixado
corrom_perpela fantasia mais do que a senhora Gradgrind,,, 1. DICKEMS, e. Temp{ difficili (1854), Trad. it.; Mi!lio.
Era uma cidade de tijolos vermelhos, ou melhor, de tijolos que 1951, p_p.28-29.
teriam sido vermelhos se a fumaça e as cinzas o permitissem; 2, DICKENS, C. Op. cit., p. 57.

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pelo contrário:- exatamente graças à animosidade que Agora, entretanto, as quantidades que estão ern
a sustenta, penetra na realidade do ambiente industrial jogo - número de habitantes~ número de casas, qui-
muito mais do que tantos discursos genéricos em louvor lômetros de ruas etc. - são muito maiores e fogem
do progresso, onde a nova cidade é apresentada como a qualquer representação direta. Londres, Paris, Viena
um imenso canteiro de obras em festa. Individuam-se cresceram tanto que ninguém mais é capaz de vê-las
alguns aspectos típicos da construção contemporânea, em seu conjunto seja de que ponto for, nem de atra-
por exemplo, a composição por meio de repetição inde- vessá-Ias por inteiro de uma só vez, nem de recons-
finida de elementos iguais e a confusão entre os tipos truir sua imagem completa de memória, mesmo que as
de edificação. A esses fatos, porém, atribui-se uma houvesse·percorrido por todos os ângulos. A velocida-
espécie de fixidez metafísica, que transforma a obser- de de crescimento aumentou de ff!uíto, e ninguém pode
vação da realidade em um mito literário; assim, nas manter-se a par dos novos desenvolvimentos senão es-
descrições da região - estas verdadeiramente manei- poradicamente; os próprios habitantes matavilham-se,
ristas e protótipos de infinitas outras descrições con- de tempos em tempos, com as transformações impre-
vencionais - Dickens pinta tudo negro e atribui a vistas do aspecto de sua cidade. Ainda hoje, quem
Coketown o caráter mais desagradável, não só visual, vive em uma grande cidade continuamente é atingido
mas também auditivo e olfativo: pelo espetáculo de novos bairros cujo surgimento não
teve tempo de ver, da transformação de velhos am-
Parecia que toda a cidade estivessesendo frita em óleo. bientes tradicionais, sem que tenha podido perceber
Por toda parte havia um cheiro sufocante de óleo fervendo. as fases da modificação, e tem a sensação inquietante
O óleo fazia brilhar as máquinas, suja\'a as roupas dos de ter ficado para trás, com sua própria experiência,
homens, escorria e gotejava de muitos andar0$ das fábricas. A em relação à vida da cidade. Apenas um grande poe-
atmusfera desses palácios de fadas assemelhava-se ao sopro ta, em meados do século XIX, percebe essa mutação
do simum, e seus habitantes, bocejando pelo calor, andavam em termos explícitos, e exprime tal fato no célebre
falisadamcntc pelo dcs«to. Nenhuma temperatura, porém,
dístico:
podia tornar mais loucos ou mais.sábios estes elefantesmelan-
1:ólicos. Suas cabeças entediadas erguiam·$C e abaixavam-se
eom o mesmo ritmo, com o calor e com o frio, eom a chuva
Lc vieux Paris .n'eil plw;; la forme d"une ville
ehaagc plw; vite, hélas, que le eoeur d'un niortell • •
e com a seca, eom o belo e oom o feio. O movimento
rítmico de Slla5 sombras nas paredes era o substituto que
Cokctown podia mostrar tiara as sombras dos bo!íque5 mur- No passado, o ritmo de vida de uma cidade pare-
llltlrantcs, enquanto que, cm lugar do wmbido estival dos cia mais lento e mais estável do que o ritmo da vida
insetos, podia oferecer o ano inteiro, da manhã. de segunda- humana, e os homens encontravam na cidade um ponto
•feira à noite do sábado, o sibilar das redas e das cngre• de apoio e de referência para sua experiência; agora
nageni>.ª acontece o contrário, e faz falta aquele ponto de apoio
pois a fisionomia da cidade patece mais efêmera do
O que impele Dickens a carregar nas tintas não que a memória humana.
são tanto os defeitos reais da cidade industrial, quanto
o mal-estar que ele sente ao tentar apreender, median- Essa passagem - que, em termos práticos, exige
te os velhos hábitos mentais, a imagem do novo am- o abandono dos antigos sistemas de controle intuitivo
biente urbano, que possui limites menos precisos e mo- e sua substituição por U\ll plano orgallizado de inter-
difica-se com velocidade muito maior. venções - é percebido pelos escritores da época como
sendo um limite negativo, desconcerta sua capacidade
Nas épocas precedentes, a cidade era uma coisa de representação e constitui talvez o motivo principal
limitada, mensurável e relativamente imóvel; por essa de sua refutação desdenhosa.
razão, podia, com maior facilidade, ser reconduzida a
uma representação unitária e intuitiva. Quem quer que Um tema que deixa a literatura particularmente
construísse um novo edüício podia comodamente pen- embaraçada é a grande cidade, a metrópole - Londres
sá-lo em relação a toda a cidade e, se uma mesma para os ingleses, Paris para os franceses - que inspira,.
sensibilidade guiasse as ações de cada construtor, a uni-
dade do coníunto estava garantida no tempo, mesmo 4. BAUnEu.1aE,C. Les fleur, du mal. Le Cygne, 1, n.
7-3, 1857.
sem a intervenção de uma planificação deliberada. • Em tradução livre: A velha Paris não mais CJWte; if
forma de uma cidade/ muda mais râpido, iníclizmcntc,do que
J. DICKt:NS. C. Op. cit.. pp. J l 1·112. o ooração de um mortal. (N. do T.)

158
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144, "Apressem-se, apressem-se, visitem Ludgai Hill II olhem - pois lalvezseja a dllima vez que tellha.m a pportunidade- Q va.stee célebruealednil
de São Paulo, erigida pelo famoso arqllmlo Sit cq[fatopher WIWl,DOreioo dos dithno&re1sStuart. Venham log<>,venham logo! Dentro em bnlve, Cll·
te importante edilkio fkara i11vfa!vel,p-aça$ ao»grandes melhoramentos que o avm;o da intclig~ e o progn:sso do comércio csliio provido:ncia!-
mente provocando m:sta Grande Merrdpole. Pon.anto, venham logo, antes que a vista sej11fech.idiipar11sempie pelo cllixio allillnentoomamcntal que a
Companhia Ferrovi:iria está preparando ••• Não hA g8Stos, voas fiq11emdo lado de fota do ediffcio e, e, breve, esta será nma ocasi!o qocnão
desde q111::
se repetirá na histdria de Londres. .Venham loio, fnham loio'' (doPwu:h de 8 de agostode 1863; reproduzido em}. Gloa.g,Men andBuilàingJ).

159
alternativamente, uma repulsa_ furiosa e uma atração Devido a essa diferença de interesses, os escri-
mórbida. · tores como Dickens e a opinião pública que é por eles
Já em 1726, Defoe escreve sobre Londres: "Até refletida fornecem um escasso auxílio aos reformistas,
onde irá estender-se esta cidade monstruosa? E onde e antes terminam englobando em seu desprezo tanto
deve ser colocada sua linha de limitação ou de circun- Coketown quanto seja quem for que trabalhe e aceite,
valação?" " embora parcialmente, essa realidade.
A história das oposições encontradas pelas leis
Quando Reine chega a Londres, em 1828 sua
impressão é a segiunte: ' sanitárias de 1848 na Inglaterra e de 1850 na França
é extremamente instrutiva. Pareceria que providências
Vi a coisa mais extraordinária que a terra possa mostrar tão racionais deveriam passar sem dificuldades quan-
à alma estupefata; vi·a e ainda estou pasmado ••. está sem· do, pelo contrário, encontram obstáculos de todo gê-
pre em minha memória aquela floresta petrificada de casas e,
em meio a ela, o rio impetuoso de vivas faces humanas, cgm
nero: por parte dos proprietários das casas e terrenos
todo o arco-íris de suas paixõ115,com toda sua pressa dese5· atingidos em seus interesses, por parte dos liberais que
perada. • • Essa nua seriedade das coisas, essa unúormidade temem limitações arbitrárias ao direito de propriedade
co!i;JSsal,esse movimento mecânico, esse ar de enfado mesmo privada, por parte dos conservadores que vêem com
na alesria, essa Londres exagerada., oprlme a fantasia, e des• maus olhos a todas as novidades.
pedaça o coração.G
O radical Economist, em. 13 de maio de 1848,
Mesmo nessa. ocasião, o olhar de um poeta é, lamenta-se que a Public Iíealth Act não ienha encon-
contudo, mais penetrante do que o de seus contem- trado uma oposição adequada; e, desdenhando entrar
porâneos; Heine percebe que a grandiosidade de Lon· em particularidades, uma vez que a lei diz respeito a
dres não é uma imagem arquitetônica no sentido tra- "uma grande quantidade de matérias que não podemog
dicional, mas sim deriva da indefinida repetição de ele- nem mesmo enumerar sem atravancar nosso espaço
mentos em escala humana: "Esperava grandes palá- com uma lista de palavras quase ofensivas" (trata-se de
cios e não vi senão casinholas. No entanto, é exata- esgotos, de imundícies a serem tratadas etc.) observa:
mente sua uniformidade e seu número incalculável que "Sofrimento e doenças são admoestações da natureza;
deixam uma. impressão tão grandiosa". eles não podem ser eliminados, e as tentativas impa·
Para Balzac, Paris é "o grande cancro enfumaçado cientes da filantropia no sentido de bani-los do mundo
que se deita às margens do Sena" ou a cidade das mil por meio da legislação, antes de que se tenha desco-
luzes, a capital dos prazeres. g difícil que um escritor berto seu objeto e sua finalidade, sempre trouxeram
dessa época seja objetivo e equilibrado, ao falar de uma mais mal do que bem". 1 Por sorte, observa Bertrand
grande cidade: na prática, a realidade permanece des- Russell, "a filantropia do Parlamento resistia a esses
conhecida para ele e é substituída por uma imagem mí- argumentos para não construir um sistema adequado
tica, colorida pelo ouro do entusiasmo ou pelo negru- de esgotos, pois as epidemias devidas à falta dos mes-
me da desconfiança. mos grassavam a poucos passos da Câmara dos
Comuns". 3
Enquanto os escritores descrevem em tons pastéis
a desolaç_ão dos e~~ industriais e das metrópoles, Discussões semelhantes ocorrem na França quan-
os relatónos dos higremstas e dos reformadores sociais do da aprovação de lei de Melun em 1850. Escreve o
tecem indagações sobre aqueles mesmos ambientes com Monitt:ur de 19 de dezembro de 1849: "A matéria é
um objetivo bem diverso: o de intervir e modificá-los, delicada •.. o livre uso, a livre disposição das coisas
ou ao menos, de aliviar os sofrimentos mais graves. Os que pertencem a um cidadão, exigem o respeito mais..
primeiros refutam todo o fenômeno, e não estão dis- severo, porque constituem as bases fundamentais da:
postos a fazer qualquer distinção; os segundos, deven- ordem social". 11
do preparar uma ação prática, empenham-se cm isolar Aqueles que levantam tais objeções de princípios
o argumento a ser combatido com provJdências técni- não são os moderados, mas os progressistas; estão,
cas e legislativas, e em encontrar, na própria realidade, • 7. Cit. em J. H. CL\paAM, An Economic History oJ
os pontos de apoio para sua ação. Modern Britain, the Early Railway Age, Cambridse, 1939,
p. S4S.
5. Cit em J. W. R. AD"MS. Modern Town and Coumry 8. RUSSELL, B. Storia dei/e ulee dei secolo XIX (1934).
Planni11g,Londres, 19$2. Trad. it., Turim, 1950, p. 142.
6. HlilNa, H. F,ammenli inglesi (1830). Trad. il., Milão, 9. M. De .RIANCEY, cit. em P. LAVEDAN, Histoire de
1956, p. 18.4. l'urbanisme, ipoque contemporaine, Paris, 1952, p. 89.

160
1
145. Londres, o viaduto de Ludpte Hill (8JllVura G. Dolé, 1870).

161
1

1
oontudo, dominados pela preocupação política geral, enfadonho que é o enfático e alinhado. Alinhado~ e co-
que J. Stuart Míll resume da seguinte maneira: "A bertos! Parece que o Anfião dessa cidade fo1 um cabo!
última e mais forte razão contra a intervenção do Es- Essas grandes ruas, C$$CS grandes quais, esses grandes
tado é o dano não pequeno que deriva do acréscimo edifícios, esses grandes esgotos, de fisionomia mal copiada ou
desnecessário de sua autoridade". 10 O hábito de trans- mal imaginada, conservam um não sei quê que indica a for·
tuna imprevista e irregular. Exalam tédio •. ~ A nova Paris
ferir todo problema para a esfera teórica obsta os pro-
não terá história e perderá a história da velha Paris. Todo
gressos da planificação, que é essencialmente uma traço desta já foi cancelado pelas pessoas com menos de
questão de gradação. trinta anos. Os mesmos velhos monumentos que ficaram de
Também são instrutivas as críticas dirigidas aos pé não dizem nada, porque ludo foi. modificado em seu redor.
trabalhos de Haussmann, nas quais é conveniente que Notre-Dame e a torre de S. Jacques não estão em seus lugares
mais do que o OIM.llisco,e também parecem ter sido levados
nos detenhamos ainda, a fim de dar uma idéia das ava- para lá de algum lugar distante, como vã curiosidade. 1 2
liações correntes feitas pelos homens de cultura da
época, mesmo que sejam estes de tendências opostas. Juízos semelhantes deviam circular com abundân-
Proudhon, descrevendo a noite de 19 de junho de cia em Paris na sétima década do século, e podem ser
1863, salienta a antipatia dos operários parisienses encontrados no Joumal dos Goncourt (18 de novem-
pela "cidade nova, monótona e cansativa do senhor bro de 1860), nas Heures parisiennesde A. Delvau
Haussmann, com seus boulevard.r retilíneos, com seus ( 1866) e também em uma comédia de Sardou do mes-
palácios. gigantescos, com seus quais magníficos porém mo ano:
desertos, com seu rio entristecido que não leva mais
nada senão pedras e areia, com suas estações ferroviá- Rcm: (em pé): Afinal, tio, o que censuraisa essa nova
rias que, substituindo as portas da antiga cidade, des- Paris?
truíram sua razão de ser; com suas praças e seus tea- Genevoix: Caro rapaz! Perde-se a velha Paris, a verda·
tros novos, com suas novas casernas, a nova pavimen- deira! Uma ddade estreita, ma4ã, deficiente, ll1llli pitoresca,
variada, agradável, cheia de lembranças e tão bem feita a
tação, as legiões de varredores e o pó assustador ••• nossa medida! tão cômoda por sua própria exigilidadcl Tinha·
Cidade cosmopolita, onde não' se reconhece mais o mos ali nossos pequenos passeios, no= espetái;ulos habituais
indígena". 11 reunidos em um grupo; ali fWamos nossas pequenas revolu-
Veuillot escreve, em 1867: ções entre nós: era bonito.
Os passeios a p6 não eram cansativos, mas uma alegria.
Paris é um lugar célebre, onde está se formando uma A cidade havia encontrado aquele termo médio tão parisiense
cidade ainda incompleta. Diz-se que ts:1a cidade será a ma- entre a preguiça e a atividade, a fldnerid
ravilha do mundo. o triunfo da ciência moderna., material e Hoje, pela mfnima saída 6 preciso andar léguas, há uma
moralmente. Acontece que os habitantes nela gozam de uma iua ~nta que as mulheres atravessam sem graça, não
liberdade completa. mas so mantêm delltro do maior respeito. tendo mais .como a,poio a elasticidade do calçamento! uma
Para resolver esse problema de 1iin1>=, desejou-se favorecer, calçada. eterna, em todo o comprimento! uma árvore, um
de=um lado, a circulação das idéias e, do outro, a dos resi· banco, um quiosque! uma árvore, um banco, um quiosque!
mentes. Um dbio sistema de condutos provê tanto uma uma árvore, um banco... E lá em cima, um 501, pó, uma
quanto outra dessas exigências.. A ruru; de Paris são com· ordem nauseante! Uma multidão composta, cosmol)Olita, fa.
pridas e largas, ornadas de casai; imensas. Essas longas ruas !ando em todu ali línguas, variada. em todas as cores. Mais
crescem a cada dia cm comprimento. Quanto mais Jarsas nada. daquilo que faz.ia de nós um pequeno mundo à parte, o
forem, lltCDOS coisas acontei;:e nelas. Os veículos atravancam conhecedor, a amador, o opositor, a elite do espírito e do
a vasta rede viâfia, os pedestres ocupam as vastas calçadas. gosto!
Ver uma dessas ruas do alio daquelas casas ê como ver um Que c:oisa perdemos, ó deuses, senão tudo! Não é mais
rio transbordante a transportar os despojos de um mundo. Atenas, porém Babilônia! não é mais uma cidade, mas uma
As construções da nova Paris revelam todos os estilos; C$la!.Ü,O! Não é mais a capital da França, mas a de toda a
não falta ao conjunto uma cena unidade, porque todos esses Europa, uma maravilha um par, um mundo, de ac:ordo.
estilos são do gênero enfadonho, e do gênero enfadonho mais Mas, enfim, não é mais Paris, porque nela nio há mais.•
parisienses.
10. SnlART Mu.L, J. La libenà (1859). Trad, iL, Milão, Claire: Então, tio, vós não c:omprccndcis tudo que existe
1946, p. 164. nela de grande, de cômodo, de higiênico! •
11. P.·l, PROUDHON,
La copacité po/lliqu,:, clL cm E.
DoLLEi.Ns, Storia dr/ movimnuo
optraio, l (1939), trad. il., 12. L. VEtJILLOT, Les udeurs de Paris, cit. em J. W1LHEU!,
Roma, 1946, p. 270. l.a ,•ie ~ Paris, Paris, 1947, pp. 20·22.

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Gencvoix: Mas se: estou diz.cndoque a admiro! Era O administrador intui claramente ·uma das en-
inevitável,devia _Ktfeito o foi feito. E fol bom! E por fim gências da moderna urbanística: a necessidade de asse-
tudo se resolveu da melhor maneirai Viva, aplaudo com as gurar à coletividade, em seu todo ou em parte, o au-
duas ~ fclicitandirmc que· o bom ~us não tenha conhe-
cido este maravilhoso. sistema municipal e qutJ não tenha
mento de valor dos tea~ devido às obras do plano
feito todas as árvores alinhadas o as 05lrelas em ma dupla. 13 regulador, transformando-os de g,uantias perdidas em
investimentos produtivos, enq~ Ferry, atendo-se à
Haus.mann dedica muitas páginas de suas Me- letra da lei,. defende uma concessão míope e antiquada.
móriaspara refutar as críticas desse gênero, e não ~ Contudo, no tempo dessa polêmica.há um século, Fef-
conde sua irrltaçã.o ao ver sua obra sendo jutgádade ry passava por um intelectual progressista e Haussmll!ID
modo tão evasivo; ele prefere,· pelo contrário, descet wr um burocrata inculto e reacionário.
até os indivíduos, contrapondó, aos.raciocínios dos ad- O mesmo pouco-caso pelos problemas parl;iculares.
versários, listas, números e dados. e a mesma intransigência doutrinária são constatados.
Uma discussão bem mais significativa ocorre em - por razões diversas - nos escritores marxistas. •
1858, por ocas.iãoda sentença j.i mencionada do Con- Depois de ISSO, estudam-se vários .sistemaspara
seJho de Estado que limita a faculdade de expropria- dar às classeStrabalhadoras habitações melhores, devi-
ção dos terrenos de uso públi~. Haussmann escreve: das a.osgovernos ou aos filantropos particulares. Con-
O novo decceto, deliberado de motu proprlo por essa tudo, em 1872, F. Engels escreve uma·série de artigos
grande Assembléia,. não somente rccoloeava elll qucslio a em Yolksstaat,de Leipzig depois reunidos em um volu-
preciosa faculdade, já concedida à cidade, de expropriar os me intitulado Wohnungsfrage, para demonstrar a. im-
te.rrenossituados fora do traçado das ruas a serem abertas, e possibilidade de todas essas tentativas. Polemizando
julgado ncccssário para a construçio de casas cooveni~ntca .com Proudhon e com Sax, que haviam proposto a
e salubres, mas também dava aos ptopriet.ários dos imóveis transformação do aluguel em quotas de resgate, o qúe
atiogidos o direito do =ar os terrenos não d~nadoo a permitiria que os trabalhadores se tomassem proprietá-
solo público, depois de haver fcllo com Q.ue a çlda.de pagasse, rios de suas habitações, Engels sustenta que fa.so não
evidentemente, todo o valor das construções que wbriam o
terreno.bem como a indenização de evicção dos inquilinos servirá para nada, porquanto, subsistindo a relação de
CXl)loraçãoentre operários e capitalistas, ••os salários
que o ocupavam.
Asaim. assegurava-se ao expropriado, gratuitamente, o médios diminuiriam de wna quantia correspondente à
beneficio da valorização adquirida pelo terreno, quo se tomara média dos aluguéis economizada. ou seja, o operário
ifuponívcl para um emprego frutuoso, graças à. cldado, mar- · ainda pagaria o fixo por sua própria casa, mas não
gcando uma· ma larga e bela; e a cidade via-se privada da como antes, em dinheiro entregue ao dono da casa,.
oportunidade de ressardr·se, em urta medida, das ,grandes mas sim sob a forma de trabalho não pago retido pelo
despesasprovocadas por aua iniciativa, ao revender os terrenos industrial para o qual trabalha" 16 e conclui:
a um preçõ ~tajoso. 14.
Somente a solução da questio social, isto é, a abollçlo
O liberal J. Feny responde-lhe da seguinte ma- do modo de produção apitalbta, tornará com o tempo pos·
neira: slvcl a solução da questão das habitações. .Querer resolver a
questão 'das habitações e, ao mesmo tempo, querer eon.ser\/Br
O senhor poderia ter razão. sellllor administrador, se o os grandes aglomerados urblUIOllde boje 6 um c;ontra-senso..
decreto de 27 de dezembro de 18SS houvesse constituídoum Entretanlo, o, grandes a.,glomerad04 urban04 de hoje serão
novo direito para os proprietários; porém, tal decreto simples- eliminados somente com a abolição do modo c:apilalilla de
mente re,gulariwu o excrclcio de um direito antigo; é bem produção, e quando for dada a arrancada ncSR sentido,. tra-
J)Omvel qut case pwçedimcnto tenha aberto os olhos de um tar-se·á de coisa bem diversa do que atribuir a çada trabalhador
6om número de proprietários; mas é por demais lnsenuo, por uma çasinha como propriedade. 1.1
parte do senhor admiubtrador, çonf~ que havia feito çom
que entrasse em seus eálculos um Ioaro cootra um direito Assim, com base em um puro argumento teórico,
constanlemtnle reconhecido por no&sas leis. O argumento, ele condena as colônias de habitações operárias cons-'
portantà, é pura fauwia. u
truídas perto das indústrlas inglesas e alemãs, a cidade
13. SUDOt7,V. Molwn ntUVt'. (Vaudev:ille, 4/12/IS66), operária de Mulhouse criada por Napoleão m na Alsá-
ato I, eena XlL
14. IJAUSSMANN,0. B. Mbnolr~ c:it..,v.11, PP. 310.311. 16. ENOl!LS, F. La qut.rtion, dtllt abitcuiuni (1872).
IS. F'EMY, 1. Comptn /11ntustiq1JU
rfHlJUUmann. Paris, Trad. lt., Roma, 1950, pp. 67-68,
1868, p. 23. 17. ENGELS,P. 0p. ci~.,p. 71,

164
147, H. Daumier, Rnetransnonain. Jo 15 avril 1834.
148, G, Doré, uma rua da velha Piuis. "RiipidQa 4mo o raio, algullll soldado& ~adas por wu oficial atiugmlm o segundo anelar. Uma maciça
porta de dois batentes cedca.sob o eisforço dele&,~ma porta de vidro ainda resiste. Apresenta-se um velho: -Somos gente tranqiiila. desannada, nio
llOSmatem - IIlllllessas palavras morrem em seus 11\blos e eleé transpass:ido por iras golpes de baioneta. AD.netoB=n lança-se em seu oooorro·dcum
quarto;,ao lado, um soldado volta-se para ela,.mergulha-lhe a baioneta acima do m!Wlar. Um tiro de furl.l arranca-lhe fragmeJltos da<"$eÇa que salpi-
cam as parede& O jovem Henri Larivi~n:, que a :ieg'uia, é atingido tiío de perto que suas roupas pegam fogo e o chumbo penetra profundameote em um
pulm!o. Contudo, está apenas ferido, e 11mgolpe~ baioneta fende-lhe a polc:da testa, deixando nu o crlnio; n>:.lileponto, é atingido tambtm por trás e
apl'Ca\Ilta \'eillgios, nas costas, de sete ferimentos 'diferentes. O quarto é um lago de sangue: o senhor Brcdfotd pai, apesar das feridas, refugia-se em
uma alcova e é seguido pelos soldados, enquanto que.a senhora Bonncville, com oa pés no sangue, grita-lhes, procurando cobri-lo: -Toda a minha
família csti cafda a meus pé&,não há mais ningudm a matar,~ INta senio eu- e cinco golpes de baioneta atravllliSBmsuasmloo" (depoimento da
Sra. Poiriec-Bonncville sobre os fatos de IS de abril de 1834).

165
eia, e movimento da cooperação mútua e as building maneira insuperável pelos conhecidos versos de
socielies inglesas, a legislação inglesa sobre a edifica- Morris:
ção subvencionada, os trabalhos de Haussmann feitos
com base na lei francesa de 1850. Forget six countries overhung wilh smoke
Forget lhe snorling steam and piston s1rolr.e
A crítica de Engels coloca em foco com acuidade Forget lhe spreading of lhe hideous town
os defeitos de funcionamento desses vários sistemas, Think rather of lhe pack-horse on lhe down
mas conclui, com patente injustiça, que nenhum deles And dream of London, srnall, and white, and clean
jamais produziu nem irá produzir qualquer resultado The clear Tham=s bordered by its garden grcen ... ::u'"
útil:
E. apenas uma imagem literária, uma vez que, se
Os focos de infecção, os buracos e as cavernas m:ili. Londres na Idade Média era pequena, com certeza
infames, denlro dos quais, pelo modo de produi.ão capitalista. jamais foi nem branca, nem limpa, e isso já era corre-
são fechados uma noite após outra nossos operários, não são to no tempo de Morrls; porém, as imagens contidas
eliminados; são wmente deslocados! A mesma necessidade em uma carga afetiva semelhante resistem a todos os
econômica que os produziu da primeira vez em um lugar,
gera-os pela segunda '\ICZ em outro lugar. E enquanto subsistir desmentidos da história, posto que até mesmo Mum-
o modo de produção capitalista, é loucura querer tc!olver iso- ford, em Culture of cities, esforça-se por manter a tra-
ladamente a questão das habitações ou qualquer oulra ques1ão dicional concessão bucólica da cidade medieval.
social que pese wbre a sorte dos openirios. lll Ao abordarmos as Exposições Universais, vimos
que os juízos dos contemporâneos sobre a arquitetura
Sob a intransigência teórica de Engels adverte-se industrial e1 espei;ialmente,sobre as obras em ferro,
ainda a impaciência e a repugnância pela cidade indus- variam desde uma arrogante refutação até um entusias-
trial, que constituem motivos comuns à literatura do mo ingênuo e vago; são juízos quase sempre globais,
século XIX sobre tal argumento, mesmo quando os au· extremamente tensos, e :raramente deixam lugar para
tores, tais como Engels, percebem teoricamente a rela- uma apreciação equilibrada e aceitável das qualidades
ção necessária entre indústria e sociedade contempo- da nova paisagem.
rânea,
Nos últimos decênios do séeulo XIX, começam a
A repugnância pela cidade moderna é acompanha· surgir alguns juízos positivos, baseados não na admi-
da regularmente da lamentação pela cidade antiga, a ração incontrolada, mas em uma aceitação racional da
qual é apresentada sob uma luz excessivamente favo- nova realidade e em uma penetração inteligente de seus
rável, freqüentemente em patente contraste com a
aspectos específicos.
verdade histórica. Engels, por exemplo, no relato so--
bre as condições das classes trabalhadoras na Ingla- Por enquanto, é um exíguo filão, e limita-se quase
terra, tece um quadro idílico e falso das condições dos que exclusivamente à Inglaterra, mas sua aparição é
trabalhadores na idade pré-industrial: extremamente significativa, pois anuncia uma nova po-
sição em relação aos novos meios de expressão, que
A fiação e a tecelagem faziam-se na casa do operário, tornará possível a difusão da art noveau na última dé-
As famílias moravn.m sobretudo no campo, na vizinhan;a das cada do século.
cidades, e os trabalhadores levavam uma existência muito
confortável, uma vida pontual e regular, piedosa e honrada ..• Em 1881, S. Butler, descrevendo a vista de Fleet
Não tinham necessidade de cansar•se e podiam espairecer fa. Street em direção a St. Paul, em Londres, escreve:
zendo um 1rabalho saudável em seu jardim ou em seu
campo. 19 Já se disse que este quadro foi arruinado pela pont<: da
ferrovia sobre Ludgate Hill: eu creio, pelo contrário, que o
P. o mesmo tom das narrativas de Dickens, ou efeito é mais imponente agora do que quando não existia a
dos ensaios de Ruskin sobre a Idade Média. Essa con-
traposição entre presente e passado, não imparcial, 20. MOJUt.lS,W. The Earthy Paradúe. Londres, 1868.
mas penurbada e comovida, constitui outro dos mo- Prólogo.
'" Em tmdução livre: ~Esquece seis países cobenos de
tivos permanentes da cultura oitocentista expressa de fumaça/ Esquece o vapor que ronca e o golpe do pllitão/
Esquece o espalhar-se da cidade horrenda/ Pensa, antes, no
18. ENüELS, F. Op. cit.• p. 104. cavalo de carsa no baixio/ E sonha com Londres, pequena, e
19. ENGEL.!l, F. Dit' Lagt' der arbeiu11d1m Kfa5se11 i,; branca, e limpa/ O claro Tâmisa rnarseado pelo gramado .. ,"
E11g/and. Leipzig. 1845, I. (N. do T.)

166
149, e. Monet,A cstufiiodcSainJ-Lamrc, lSTI.

150. e. Monel,Boulevurdr <kr Capudns, 1873•


ponte. O tempu 1nmo11-amais suave e ela não mai!ose insere pelo lado bucólico está superado. poi~ na lngfotcrrn S:"-i~tem
cont crueza; ela aumenta muito a sensação de dimell!iio, e milhões de adult~ a quem o rumor longinq1.mdo trem sugere
torna-nos duplamente cônscios do movimenlo vital da colossal scnsaçôellagradáveis como o trilar de um melro.~~
circulação à qual Londres tanto deve de seu caráter. Nesle
~enti.Jo. ganhamo:; mai:; do que perdcmw pcla infn1ção dc Tanto Butler quanto Shaw colocam com exatidão
qualquer dinone dos pedantes sobre interseção de linhas relas. o novo senso de paisagem em relação ao tempo trans-
Por mais vasto quc seja o mundo sob a ponte, é mais vasto
para cima dela e, quando os trens passam, o vapor que sai
corrido, que suprimiu a crueza dos novos produtos e
Ju locomoliva envolve II cúpula de St. Paul nas .nuvens, e permitiu que a sensibilidade dominasse, pouco a pouco,
faz par~r o quadro como uma mistura de terra e de algum as novas formas.
misterioso palácio no mundo dos sonhos2l lFigs. 144-146), A experiência repetida do novo cenário urbano,
por um tempo suficiente, possui a mesma função que
No ano seguinte, G. B. Shaw, no romance A pro- as exposições e as mostras têm para a nova pintura, e
/issiío de Cashef Byron, assume a defesa das paisagens satisfaz a mesma exigência, expressa com tanta energia
ferroViárias em uma longa tirada, colocada na boca de por E. Manet, desde 1867:
Lidia carew, porta-voz da opinião do próprio Shaw.
Li dia e sua amiga estão em Clapham Junction: Mostrar é a questão vital .11i11equa 110/1 parn o artista.
uma vc:z que: ocorre quc, a?ás algumas contemplações, fica-!>e
Em uma bela noite de verão, e Alice, embora pensando familiarizado com aquilo que antes surpreendia e, se se quiser.
que nas cstações fenoviáriWi as senhoras devem retirar-se para feria. Pouco a pouco, compreende-be e admite-se, O próprio
as salas dc espera, não tentou dissuadir Lidia de passear para tempo age sobre os quadros como uma pátina insensível. e
cima e para bai.w em uma extremidade isolada da plataforma, funde as primitivas asperezas. Moolrar :;ignifica encontrur
que terminava cm um terrapleno coberto de flore~. amigos e aliados para a luta. 23
Em minha opinião - declarou Lidia - Clapbam Junçtion
é um dos lugares mais bonitos de Londres. Para completar esse panorama sumano das rea-
Na verdade - retorquiu Alice com uma pom.a dc malícia ções da cultura oitocentista face à cidade industrial,
- eu pensava quc todas as pcsi;oas com gosto artístico cousi· falta falar dos pintores.
dcraS5Cm !Ili estações e as linhas ferroviárias como manchns
na paisagem, A pintura romântica e, sobretudo, a pintura de
paisagens, tão freqüente na primeira metade do século
Alguns, sim, mas não os artiotas de nosi;a geração; e XIX, é um meio de evasão da desordem e da feióra
aqueles que repetem tais palavras não são mais do que papa· da cidade industrial, na aparente fidelidade à natureza,
gaios, Se cada lembrança de férias dc minha juventude, 1::ada encontra-se uma idealização da própria natureza, en-
evasão da cidade para o 1::ampoestá ligada à ferrovia, devo quanto ainda não está contaminada pelo homem e por
pensar nela com sentimentos diversos dos que tem meu pai. suas indústrias. Por essa razão, as pinturas de Corot
sobre quem esta monstruosa invenção metálica tombou como e de Turner constituem uma espécie de reverso da me-
uma novidade penurbadora quando ele já era de meia-idade. dalha das descrições de Dickens; não são neutras fren-
A locomotiva é uma das maravilhas da infância de hoje: as te àquilo que representam, mas tomam partido, com
crianças reúnem-se nas pontes para ver pa:.sar embaixo os
trens: os rapazes vão arropntes pelas ruas, bufando e silvando
paixão, pelo campo, pelas árvores, pelas nuvens e pelas
parn imitar as máquinas, e toda essa. fantasia poética, tola rochas. A procura de ambientes exóticos de Delacroix,
como parece, lorna-se sagrada DOS anos posteriores. Por outro ou de ambientes próximos mais inusitados, como as pai-
lado, quando não se trata de ·1efrovia subterrânea em um;i sagens alpinas, estão por certo vinculadas com a recusa
galeria suja de Londres, o trcm é uma coisa bela: seu véu de do ambiente urbano transformado pela indústria;
vapor puro, branco, harmoniza-se com todas ns variedades de assim, o interesse renovado pelo pa'Ssado nos pré-ra-
paisagem; e o barulho! Você jamais parou às margens do faelitas tem com motivo dominante a fuga do presente.
mar por onde passa uma ferrovia para escutar o trem que que surge como triste e prosaico. -
se faz ouvir a grande distância? No início, distinguc·se muito
pouco do fragor do m11r, dcpois você pode reconhecê-lo em Igualmente animados pela paixão do conteúdo,
,uas Yariações: ora abafado em uma profunda enseada e Jogo mas adversos à evasão romãntica, os realiua~ --
depois ecoando pelo flanco de alguma ~olina; às veu:s corre Courbet, Millet, Daumier - chamam pela primeira
placidamente por alguns minutos, e depois se transforma inespe·
radamente em um estrépito rltmico. . . Falar mal da ferrovia 22. SHAW,G. B. La profe.s:s:im1<' Ji Casi1<'I Byr,m (1883).
Trad. it., Milão, 1956, pp. 111-112.
21. s. BUTLER, Afps: a11d Suncl11urics:, 1881, ciL em 1. 23. E. MANET, Pri/ace cm ,·a1UloJ:11e ,1., l'expolitivn J~
GLOAo,llld11s:trial Art Explainl'd. Londres, 1946, p. 80. ~e.11c1e111'r,:s:.Paris. 1867. cil. em J. WJLHELM, op, cit., p. 113.

168
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151. C. Monet. O P~ Mmu:,um1878.

169
vez a atenção para a realidade quotidiana, nos aspec-. pelas relações com os elementos circundantes; o novo,
tos mais comuns; entretanto, para estes, a nova paisa- relacionamento entre o quadro arquitetônico que, de
gem - a cidade e o campo como sede do trabalho hu- fechado, tornou~se aberto e indefinido, e o trânsito de.
mano - ainda. não possui uma forma definida: a re- homens, de veículos; a renovada unidade entre arqui-
presentação é~dominada em primeiro plano pelo ho,. tetura e instalações de rua e, em geral, o senso da pai-
mem, que incorpora e personifica, por assim dizer, o sagem como uma massa compacta de aparências todas
ambiente circundante; é esse uso do primeiro plano e a igualmente importantes, mas perpetuamente fluidas ·e
concentração dos significados e:iu,ressivos no gesto de mutáveis (Figs. 150-152).
poucos personagens que conferem às imagens de Dau- Freqüentemente, com sua segurança de percep-
mier e de Courbet sua extraordinária incisividade. ção, Monet, Renoir: e Pissarro lançam luz não somente
Basia pensar em um exemplo célebre: a gravura de iíos aspectos positivos, como também nos aspectos ne-
Daumier intitulada Rue Trans,wnain, le 15 avril 1834 gativos da nova cidade; as minuciosas fachadas das
(Fig. 147) publicada na Assoclation Litograpbique ruas de Haussmann são reduzidas, com acerto, a uma
Mensuelle. A sanguinária repressão da revolta repu. alternância rítmica das ..zonas claras e escuras, tirando
bJicana e os vários fatos ocorridos na rue Transnonain resoluta.mente de foco todo o aparato decorativo que
estão com"primidos, por assim dizer, no interior de um serve somente para conf:erir aos edifícios um decoro
quarto operário visto ao rés-do-chão, e ocupado quase convencional; a multidão que percorre os grands
que inteiramente pela figura de um homem caído, em boulevards impelida pelas indiferentes arquiteturas do
forte escorço, sobre o corpo de uma criança, enquanto fundo, fun.de-se como um exército de sombras iguais,
dois outros cadáveres estão parcialmente comprimidos não dessemelhantes das massas de árvores e de-
no enquadramento. Os sentimentos e as considerações veículos.
que os escritores republicanos manifestam em seus li- A maior, ou antes, a total abertura desses pinto-
vros estão aqui cohtidos em uma imagem elíptica, de
res em relação a todos os temas naturais ou artificiais
efeito imediato. :B-certo, contudo, que o interesse de
Daumier não se limita à representação de um caso, consegue recuperar a unidade da paisagem, rompida
embora sensacional: a gravura representa de direito, pela intervenção da cidade industrial; todavia, falta
como diz o titulo, a roe Transnonain, e não alguns de a intensidade e a participação afetiva própria dos rea-
seus habitantes mortos pelas tropas de Tlúers; portan- listas, substituída. por uma espécie de distanciameçto e
tà esta obra, e muitas outras do mesmo gênero, devem de impassibilidade.
ser consideradas como pintura de ambiente, embora Sendo todas as formas reduzidas aos elementos
sob metáfora. A modema pintura de ambiente, basea- cromáticos que constituem a percepção inicial, deixa
da em. uma adesão consciente à nova realidade, com de ter importância o interesse pelo conteúdo, é aparta•
maior freqüência move-se 'a partir de tais imagens do da qualquer associação mnemônica que possa perturbar
que, por exemplo, a partir das incisões de G. Doré, a imediaticidade da representação e, com a memória,
que exatamente nesse peóodo reproduz as ruas da todo empenho que vá mais além da pura contempla:
velha Paris, olhando-as como cenários românticos ção. Essa posição receptiva é incompatível com o em-
(Fig. 148). penho vital que produziu e continua a produzir essa
Somente com o advento do Impressionismo a. pai- paisagem e, portanto, com o surgimento de um mo-.
sagem da nova cidade recebe uma adequada represen- vimento arquitetônico adequado às instâncias da socie-
tação artística. Como já foi notado mais de uma vez, dade moderna.
o Impressionismo é pintura V,rbina por excelência, não A pintura pode limitar-se a refletir o mundo, mas
somente porque pinta de preferência imagens da cida- a arqnitetura deve propor-se a modificá-lo. _Por tal'
de ou da periferia, ,mas também porque colhe, com razão como foi observado por Pevsner, os movimentos
uma penetração ainda desconhecida dos críticos e dos de ~nguarda para a renovação da arquitetura devem-
literatos do tempo, o caráter do ambiente urbano: a ser relacionados não com o Impressionismo, mas com
continuidade de ·seus espaços, todos comunicantes, a crise pós-impressionista e sobretudo com Cézanne,
abertos uns para os outros e jamais fechados em um que se propõe pintar "em profundidade, mais do que
quadro de perspectiva auto-suficiente; a composição em superfície". Essa paisagem, porém, que é funda·
por repetição de elementos iguais, qualificados de uma mental para justificar os movimentos de vanguarda da
maneira sempre variada e portanto, dinamicamente, última década, será tratada no Cap. 9.

170
152, Pissarro, O Jardt,i ik1 Tuikriu, 1890.

171
1:53.Uma aldeia de harmonia e cooperação; desenho ligada à cxpasiçia de Owen de 1817.

154. o fálanstéria de Fonriel'.

'

172
li
S. AS JNIClATlVAS PARA A REFO.f\MA DA
CIDADE INDUSTRIA,L, DE ROBERT OWEN
"
A WILLIAM MORAIS

1
1

1. Os utopistas
li
Osdoshomens '!XIX_
do secu o li•~. amma-
estão, ~ortani.v, 1
difíceis", autodidata, caixeiro de loja, negociante e de-·
pois afortunado industrial e homem político. Enquan-
por uma profunda desconfianç a da cidade in-
dustrial e não concebem a possibilidade de restaurar a to que, em seu tempo, as teorias de Srrúth eram nor-
ordem e a harmonia em Coketown ou Ilocorpo gigan- mas de comportamento quase indiscutíveis para os
tesco de Londres. Par tal razão, Ospoucos que políticos e empresários, Owen seguia uma linha muito
aventam propostas julgam que as atu~is formas irra- diversa de pensamento, baseada na análise sem pre-
cionais de convivência devam ser s6bstitufdas por conceitos das relações econômicas, tanto assim que é
outras completamente diversas, dita~~s pe1a razão considerado como um perigoso agitador.
pura, ou seja, contrapondo à cidade rea1
uma cidade Sua ·mentalidade explica-se somente em relação a
ideal. li sua experiência direta, primeiro como dependente, de-
Por, vezes, a cidade ideal permai;lece como uma pois como capitão de indústria, e a fábrica sugere-lhe
imagem literária. No século XIX, ex_isteuma longa uma ordem de idéias de fato diferentes daquela divul-
série de utopias, de C. N. Ledoux 1 a f·
Morris; 2 po- gada em seu tempo; uma empresa industrial funciona
rém, na primeira metade do :século ~'. especialmente, em virtude dos controles de organização, que devem
nos anos carregados de esperança, entr,e 1820 e 1850, dizer respeito não somente ao ordenamento interno,
algum. desses idealizadores de cidades tentam passar à mas também aos limites da iniciativa, em relação às
ação. Tais episódios podem. ser enqti~drados dentro exigências do mercado. O equih'brio, nesse caso, não
da tradição da literatura utópica, masija nós incumbe é, com efeito, automático e não é devido ao jogo das
distingui-los enquanto iniciadores de uma nova linha forças internas, mas sim à harmonia entre os fatores
de pensamento e de ação, da qual cOilleçava efetiva- internos e a ação externa, consciente, que controla o
mente - embora de modo simbólito e freqüente- modo e a medida de sua utilização.
mente artificioso
.•
- uma ação consciellíe
li
para a refor-
ma da paisagem urbana e rural, e, P.Pí conseguinte, Em 1799, Owen adquire com outros sócios a fia-
segundo a definição ·de Mortis, a arquitetura moderna. ção de New Lanark, na Escócia, e faz dela uma fábri-
ca-modelo, introduzindo maquinaria moderna, jorna-
a) Robert Owen li das moderadas, bons salários, moradias saiubres, ·cons-
truindo perto da fábrica uma escola primária e uma.
Robert Owen (1771-1858) é o prjmeiro e o mais creche, a primeira de toda a Inglaterra. Esses
significativo dentre os reformistas ut6picos. J:: um melhoramentos não impedem que ele tenha grandes
personagem singular, que viveu em Plenos "tempos lucros, pennitindo-lhe enfrentar com sucesso os protes-
"
1. l.Enoux, C. N. L'arcl1l1ecturecnnsidérée snus /e rapporl
de l'rm, des mneur:s et de la /égi.rlation. Pi.ris, 1804.
tos dos sócios, os quais mais tarde, em 1813, são subs-
tituídos por outras pessoas com maior abertura mental,
2. MoRRis, W. News from Nowhere. llLondres, 1891. entre os quais conta··se o filósofo J. Bentham.

173

lt
Nos primeiros anos do século XIX, a oficina de mico, uma das limitações mais importantes de sua
New Lanark toma-se famosa e 6 visitada por pessoas teoria.
de todas as partes do mundo. Em 1813, quando se
dirige a Londres para procurar novos sócios, Owen
3. A organização das edificações é funcional; de
entra em contato com os dirigentes da política inglesa acordo com Owen, nas cidades tradicionais "os pátios,
" amplia seu campo de ação: é um dos pioneiros da as alamedas, as ruas, criam muitos inconvenientes inú-
teis, são danosos à saúde e destroem quase toda a co-
legislação do trabalho, do movimento cooperativo, das modidade natural da vida humana. A alimentação de
organizações sindicais. toda a população pode ser melhor e mais economica-
Não obstante seu sucesso como industrial, ele sus- mente assegurada por meio de uma cozinha coletiva,
tenta, que a produção mecânica contemporânea, como e as crianças podem ser. melhor entretidas e instruídas
atividade espei::ializada, está profundamente errada e todas em conjunto, sob os olhares de seus pais, do que
está convencido de que indústria e agricultura não de- de qualquer outra maneira"; por essa razão, "uma
veriam ficar separadas e confiadas a categorias diversas grande praça, com a foillla de um paralelogramo, será
de pessoas; pelo contrário, sustenta que a agricultura adotada para reunir as maiores vantagens contidas na
deve formar a principal ocupação de toda a população forma com os aparelhamentos domésticos da associa-
inglesa "com a indústria como apêndice". 3 ção (Fig. 153). Os quatro lados dessa figura podem
A fim de dar corpo a essa sua idéia, na segunda ser adaptados a fim de conter todos os alojamentos
década do século XIX Owen elabora um modelo de particulares, isto é, os quartos de dormir e as salas de
convivência ideal: uma cidadezinha para uma comuni- estar para a população adulta, os dormitórios comuns
dade restrita, que trabalhe coletivamente no caIPpo e para as crianças sob tutela, as lojas e depósitos para
na oficina, e que seja auto-suficiente, possuindo dentro mercadorias variadas, uma hospedaria, uma enfermaria
da cidade todos os serviços necessários. etc. Sobre uma linha que corte o centro do paralelo-
Esse plano é exposto pela primeira vez em 1817, gramo, deixando grande espaço para ar, luz e. fáceis
em um relatório para uma Comissão de. Inquérito so- comunicações, podem ser erguidas a igreja e os locais
bre a Lei dos Pobres; 4 é defendido em várias publica- de culto, as escolas, a cozinha e o restaurante comu-
ções em jornais; 11 e desenvolvido com maior amplitu- nitário". 1
de em um relatório para a autoridade do condado de Os apartamentos privados, que ocuparão três Ja.
Lanark em 1820. - dos do paralelogramo, poderão ter de um a quatro
Owen especifica os seguintes pontos: andares; não possuirão cozinha, mas serão bem venti-
lados e, se necessário, aquecidos ou refrigerados. "Para
1. O número de habitantes; ele pensa que "todo
aquecer, refrigerar ou ventilar seus. apartamentos, os
desenvolvimento futuro será influenciado pela decisão
quanto a este ponto, que se constitui num dos proble- inquilinos deverão somente- abrir ou fechar duas válvu-
mas mais difíceis da ciência da economia política" ª e las em cada cômodo, cuja atmosfera, graças a esse apa-
sustenta que o número ideal está compreendido entre relho, poderá estar sempre pura e temperada. Uma
300 e 2 000 (de preferência, entre 800 e 1200). estufa de dimensões adequadas, colocada com tirocí~
nio, servirá para muitos apartamentos, com pouco tni-
2. A extensão da terra a ser cultivada: um acre . balho e despesa muito pequena, se a instalação for
por pessoa, mais ou menos, portanto, 800 a 1.500 prevista na construção". a
acres, a serem cultivados com enxada bem. como com
arado. Owen é um ardente defensor da agricultura in- 4. A iniciativa de construir tais pequenas cida-
tensiva, e tal fato constitui, do ponto de vista econô- des, sendo economicamente ativa, poderá ser tomada
por proprietários de terras, por capitalistas,. por com-
3. OwEN, R. "Report to the County of Lanark" (1820) panhias comerciais, pelas autoridades locrus '7.pelas.
ln: A New View of Society m,d 01l1er Writi,igs. Londres, associações cooperativas. "Com toda probabilidade,
1927, p. 266. na primeira experiência, muitas partes irão revelar-se
4, OWEN, R. Reporl lo the Committee /M tlie Relle/ o/ mal estudadas e, a experiência poderá sugerir milbare:i
zhe Mallufacturing Poor. 1J mar. 1817.
S. Londo11 Newspaper. 30 jul. 1817, lS ago. 1817, 19
ago. 1817, 22 ago. 1817, 10 set. 1817.
6. OwEN, R. "Report to the County of Lanark" cit. 7. OWEN, R. Op. cil., pp. 267-268.
p. 264. 8. OWEN, R. Op. cit., p. 267.

174
ae melhoramentos"; ~ o custo das instalações giraria daquelas esperanças e daqueles ideais partidos forma o solo
em tomo de 96 000 libras esterlinas. no qual se enraiza a vida de hoje. 10
5. O surplus produzido pe1o trabalho da comu-
nidade, satisfeitas as necessidades elementares, poderá Depois da experiência americana, Owen acentua
o radicalismo de seu pensamento; entre 1832 e 1834,
ser trocado livremente, utiliz.ando-se o trabalho empre,-,
encabeça o movimento das trade--unionsinglesas, depois.
gado como termo de aquilatação monetária.
dedica-se a propagar suas idéias não ortodoxas sobre o
6. Os deveres da comunidade para com as auto-
ridades locais e centrais continuarão a ser regulados
e
matrimônio sobre a religião, e termina sua vida mar-
ginaliz~do da sociedade inglesa como um visionário.
pela lei comum; as comunidades pagarão regu1annente
as taxas em moeda corrente, e os homens prestarão Owen é, sob muitos aspectos, o mais importante
serviço militar; poderão somente dispensar os tribunais dos utopistas do século XIX, mesmo que não seja o
e as prisões, pois não terão nenhuma necessidade de- mais feliz; suas qualidades pessoais, o amor pelo pró-
les e, assim, aliviarão os' encargos do governo, xi1J10,sua confiança nas máquinas e no mundo indus-
trial f<:nnitem-Jhe ver com -clareza muitos problemas.
Owen tenta por, várias vezes traduzir na prática
sociais e urbanísticos, onde os olhos de seus contem-
se:1 plano, primeiro em Orbiston. na Inglaterra, e de-
pots nos EUA. Em 1825, adquire de uma seita porâneos encontram-se empanados pelas teorias con-
vencionais. Sua confiança ilimitada na educa!;ão e na
protestante· a cidadezinha de Hannony, em Indiana, e
persuasão, por oútro lado, dificulta seus contatos com
lá se estabelece com um milhar de seguidores, depois
o resto do mundo e provoca o fracasso de todas as
de haver endereçado um apelo ao presidente dos Esta-
suas iniciativas concretas, depois de New Lanark.
dos Unidos e ao Congresso.
Em nenhum dos dois casos, a forma arquitetônica b) Charles Fourier
da cidade corresponde ao paralelogramo teórico, e
Owen não se preocupa muito com isso, absorvido como Charles Fourier (1772-1837), além de ser con-
estava pelo problema econômico-social. Como é fácil temporâneó de Owen, é um pequeno ell!pregado fran-
imaginar, a passagem da teoria para a prática não tem cês de Besançon, desprovido dos meios financehos e
êxito, a concórdia imaginada por Owen não se realiza da capacidade pessoal do inglês.
e a iniciativa fracassa quas~ que imediatamente fazen- EJe se baseia em uma teoria filosófico-psicológi-
do-lhe perder o capital empregado e deixando-o na ca, que faz as ações dos seres humanos derivarem não
pobreza. do proveito econômico, mas da atração das paixões.
Contudo, muitas pessoas que com ele vieram para Ele distingue doze paixões fundamentais, e interpreta
os EUA, inclusive seus filhos, permanecem no local, toda a história por meio de suas combinações; atual-
e contribuem validamente para a colonização do Oeste mente, a humanidade encontra-se na passagem do
americano, Dessa maneira, a cidadezinha owenista quarto período (barbárie) para o quinto (civilização);
adquire uma função oposta àquela imaginada por seu seguir-se-á o sexto (garantismo) e, finalmente, o séti-
idealizador, fracassa como comunidade auto-suficiente mo (harmonia). Enquanto a civilização caracteriza-se
e toma-se um centro de serviços para todo o território pela propriedade individual descontrolada, no garantis-
circundante. mo ela será submetida a uma série de limitações e de
F. Podmore, em 1906, avalia da seguinte maneira vínculos, que não são descritos por Fourier com mui-
os resultados da experiência: tos detalhes. Ao contrário da cidade atual, privada
de forma, a cidade do sexto período será construída
Embora a grande experiência de Owen tenha fracassado, de acordo com um esquema concêntrico: no meio, a
um sucesso de todo inesperado, em direção complelnmente cidade comercial e administrativa; em torno, a cidade--
opoola, recompensou seus esforços. New Harmony perma- industrial e, depois, a agrícola. Na primeira, a super-
neceu, por mais de uma geração, como o principal centro fície livre deverá ser igual àquela ocupada pelas casas,.
cientifico e educativo do Oeste, e as influências que dali se na segunda, deverá ser o dobro; e na terceira, deverá
Irradiavam íizernm·se sentir em muitas direções, na estrutura ser o triplo. A altura das casas será regulada segundo
social e política do país. Ainda em nossos dias a marca de
a largura das ruas, enquanto que os muros deverão ser
Robert ~n é claramente visível na cidade que ele fundou.
New Harmony não é oomo as outras cidades dos Estados
Unidos. É uma cidade qpe possui uma história. O pó to. F. PooMoll.E, Robert Owe11,a Biography (1906). cit.
em B. RusSELL, Storia dei/e ldee dei seco/a XIX (1934), Trad.
9. OWE~, R. Op. cit., p. 28S. it., Turim, 1950, p. 19&.

176
177

li
abolidos e substituídos por -sebes; os direitos dos pro- 72 pés em total, isto é, 12 braças. As salas públicas pOOelÍo
prietários devÚão entrar em "composição" com os di- ser levadas atê 8 braç!I$de largura e confrontar tanto a ga•
reitos dos demais, e a valorização que as obras públi- leria, quanto o exterior. 11
cas produzirão nos imóveis circundantes deverá ser em
parte restituída à comunidade. A realização do falanstério é tentada várias vezes
na França, na Argélia, nm EUA e Nova Caledônia,
Fourier, porém, considera tais progressos como sempre sem êxito. Durante o Segundo Império, algo
simples fases da passagem para o sétimo estágio, e de-, de semelhante é realizado em Guisa por J. B. Godin
íinitivo, no qual a vida e a propriedade serão inteira- (1817-1889), antigo operário transformado em em-
mente coletivizadas; os homens, abandonando as cida- presário, como Owen, e a experiência, contra todas as
des, deverão recolher-se em phalanges de 1 620 indiví· previsões, perdura por bastante tempo. Godin, contu-
duos e alojar-se-ão em edifícios. coletivos construídos do, modifica os planos de Fourier em dois pontos
1:.5pecialmente,chamados phafansteres. essenciais; apóia a iniciativa em uma indústria e abole
Diferentemente de Owen, Fourier não concede a vida em comum, atribuindo a cada família um alo-
aos habitantes do falanstério alojamentos separados; a jamento individual e um grande edifício com pátios,
vida será desenvolvida como em um grande hotel, com completado por uma creche, uma escola, um teatro e
os velhos alojados no térreo, as crianças no mezanino vários serviços. Esse agrupamento é chamado de
e os adultos nos andares superiores. O falanstério "familistério" e administra as indústrias de Godin, de-
será enriquecido por aparelhamentos coletivos e servi- pois de sua morte, sob a fmma de uma cooperativa de
do por instalações centralizadas. Fourier vê o edillcio produção 1:1 (_Figs. 155 e 156).
com as formas nobre da arquitetura representativa
francesa; deverá ser simétrico, com três pátios e nume- c) Etienne Cabet
rosas entradas, sempre sobre os eixos dos vários corpos Durante a Monarquia de Julho, vários escritores
de construções; o pátio central, chamado Place de Pa- falam. da cidade ideal, que substituirá a atual, desorde-
rade, será vigiado pela Tour de l'Ordre, com o relógio nada e triste, e misturam, freqüentemente com ingenui-
e o telégrafo óptico. Continuando a descrição, ele des- dade, questões urbanísticas e reivindicações sociais.
ce a detalhes surpreendentes por sua minúcia: Por vezes fala-se, em termos totalmente fantásticos, da
transformação de Paris, como o fazem os sansimo-
A "rua-galeria" situa-se no primeiro andar; nio poderia
estar no térreo, o qual deve ser atmves:.ado em várius pontos
nistas no Globe; C. Duveyrier imagina a nova Paris
pela passagem de veículos. como uma planta em forma de homem prestes a cami-
As ruas-galerias não são iluminadas pelos dois lados, nhar, 13 e M. Chevalier descreve as futuras obras desta
aderem a cada corpo de construção; todos os corpos possuem maneira extraordinária:
duas filas de quartos, das quais uma é iluminada pelo exterior,
a outra pela rua·galeria; esta devo ter a altura dos tres O rei e sua familia, os ministros, a Corte de ciu;sação,
andares que com ela confrontam.. As portas de entrada de e Corte real, as duas Câmaras manejarão pá e picareta;
todos os apartamentos do primeiro, segundo e terceiro andares assistirá o velbo Lafayette; mi regimentos, as bandas musicais
dão para a rua-galeria, 'com escadas dispostas a determinados e as turmas de opecirios serão comandados por engenheiros e
intervalos para subir ao segundo e terceiro andares. As gran- polit~cos em uniforme de gala; as mulheres mais brilhantes
des escadas, de acordo com o uso chegam sontenl.c ao primeiro misturar-se-ão aos lrabalhadores para encorajá-los. 14
andar; mas duas das escadarias laterais conduzem ao quarto
andar... A rua-galeria terá seis braças de largura no centro, Depois vem a repressão dos movimentos operá-
e quatro nas alas, quando dentro de trinta anus serão conslalÍ· rios, a rue Transnonain, censura da imprensa, e parece
dos os edifícios definitivos; provisoriamente, contudo, uma vez pouco provável que o rei Luís Filipe se ponha a tra-
que o mundo não é rico, limitar-se-á a edifícios econômicos, e
com muito maiores razões visto que, em. trinta anos, deverão 11. FOURIER, C. Traité de rassocia/ion domestique·•
ser refeitos em planos muito mais vastos. A rua-galeria, .agricole (1832). Em E. POISSON,Fourier, Paris, 1932, pp.
portanto. será reduzida a 4 braças no centro e 3 nas alas. Os 141-143.
cmpos terão 12 braças de largura, de acordo com o seguinte 12. Ver J. B. Gov1N, Solutions .wciale.r,Paris, 1870.
cálculo: 13. C. DuvE~JUE.lt, em Le Globe, • 1931, 'cit. por E.
PERS.ICO,"Profezi.a dell'architettura"em Scrittl critici e polemici,
- galeria 18 ou 24 pés, Milão, 1947, p. 196.
- quarto para galeria 20 pés, 14. M. ómvALIER, em Le Globe, 1932, ciL em P.
- quarto para o e~erior 24 p&, L\VEDAN, Hi.rtoire de furbanisme, époque confemporaine,
- duas paredes externas 4 pés, Paris, 19.52,p. 76.

178
li
160, 161. Pen:ierc Fontaine, parede de um salão da casa de e.e. em Paris e forro da salada O=i!a nas Tulhcrias(deRe.:uelcit.),
'!
179

li
balhar com sua Corte em um canteiro de obras. Assim, daria etc... Nada mais :iprazivel do que o as~o de lcaria.
essas aspirações são novamente desviadas para o rei- O grande edificio do refeitório. circundado pelu.~ pequeoa.s.
no da fantasia. c.i>as. ~tá ao lado de um grande bosque sombreado, que serve-
de fundo para as casas pintadas de branco. Árvores frutíferas
Em 1840, Etienne Cabet (1788-1856) publica a e eJIÓticas, gramados e flores separam agradavelmenle ai,
descrição de uma nova cidade ideal, !caria, baseada em divers.is partes dessa pequena cidade. 1<1
uma organização socialista da propriedade e da produ-
ção; também ele, como Fourier, faz uma descrição mi- O êxito da iniciativa depende, contu!fo, do núme~
nuciosa de sua cidade, porém pensa em uma grande ro reduzido dos habitantes: 32 ao todo. E nem mes-
metrópole, que reúna as belezas de todas as cidades mo estes suportam viver muito tempo ligados tão
mais célebres; o plano será rigidamente geométrico, intimamente uns aos outros, não obstante os jardins
com ruas em ângulos retos e um rio retilíneo que floridos e as casinhas brancas. Em 1876, a comuni~
correrá pelo meio. Todas as ruas serão iguais; nume- dade divide-se em dois grupos: os jovens icarianos -
rosas precauções serão tomadas a fim de facilitar o treze - que emigram para a Califórnia e fundam
trânsito, especialmente de pedestres, e para mantê-lo lcaria-Esperança; os velhos icarianos - dezenove -
distinto do trânsito dos veículos. que fundam Nova Icaria a pequena distância da antiga,
A arquitetura de !caria realizará completamente com a mesma disposição arquitetónica. As duas
os ideais do ecletismo, porque cada um dos sessenta aldeias duram ainda alguns anos, depois se desfazem
bairros reproduzirá os caracteres de uma das sessenta respectivamente em 1887 e em 1895.
principais nações, e as casas (todas iguais interna- A idéia de Cabet de fundar uma metrópole termi-
mente) apresentar-se-ão com os ornamentos de todos na, portanto, em uma espécie de reductio ad absurdwn
os estilos. 1~ e leva à formação de aldeias rurais cada vez mais exí-
Em 1847, Cabet lança um manifesto intitulado guas, até atingirem as dimensões de uma fazenda agri-
Vamos para /caria, anuncia a compra do terreno neces- cola normal.
sário no Texas, e recolhe cerca de quinhentas adesões, .É bem conhecida a crítica que os socialistas cien-
poucos meses mais tarde, estoura a revolução de feve- tífict>s da segunda metade do século XIX dirigiram a
reiro de 1848, porém, os icarianos, impacientes por esses ingênuos precursores (os socialistas utópicos):
partir, deixam Paris contra a opinião de Cabet e sem sustentar que os obstáculos para a realização da nova
ele. Chegados aos Estados Unidos, percebem que o sociedade encontram-se somente na ignorância, e não
terreno é grande demais e é fracionado em diversos nos interesses das classes dominantes, e, portanto, fazer
pedaços; assim, retiram-se para New Orleans, dizima- apelo à persuasão, e não à concorrência de classe.
dos pelas doenças e pelas deserções.
No Manifes!o de Marx e Engels, de 1848, lê-se:
Cabet reúne-se a eles em 1849, e sua chegada
provoca uma cisão; a minoria tenta organizar-se, em Ê inecente, tanto à forma não evoluída da luta de clasi.es.
1856, em Cheltenham, em um antigo estabelecimento quanto a sua própria situação, que eles acreditavam estar
siluados muito acima do antagonismo de classe. Desejam
para banhos, e é levada à falência por débitos em melho111ra situação de todos os membros da sociedade, m~smo
1862, enquanto que a maioria emigra novamente para daqueles melhor situados, Assim, faum conlinuamentenpelos
o Oeste e funda, finalmente, em 1860, a cidade ideal à sociedade inteira, sem distinções, e antes. de preferência, à
em Corning, Estado de Iowa, desta vez com êxito. As classe dominante. Uma vez que basta somente compreender
residências situam-se no centro de uma fazenda de seu sistema para ~conhecê-lo como sendo o melhor projelo
3 OOÓacres e,..estão dispostas de uma maneira que lem- possívelpara a melhor sociedade possível.11
bra o paralelogramo de Owen. Existem várias descri-
ções de [caria tais como esta, de 1875: W. Sombart, cinqüenta anos mais tarde, julga
Owen e os outros com igual severidade. Estes partem
Os icarianos chamam ao grupo de suas habitações de "a de uma fé setecentista na bondade natural do homem ·e
cidade", No centro, encontr-.1-se o cefeitório, em meio de na ordem natural da sociedade, que '"talvez tenha exis-
uma vasta praça quadrada: três ladrn; do qua.Jrado estão
ocupados por casas, disianciadas umas das outras. e os inter· 16. A. MA.SSAUL.\RD, Six m,1is e,i kurie em A.
valos estão cultivados como jardins, O quarto lado está PWPHOMMEAUX. Hi5loire de /u com1111mw11éicurlellllf!, Nimei..
dedicado às construçõe~ de utilidade comum, lavanderia, pa· 1907, p. 292.
17, MARK, K. & ENGELS. F M11nife:.tv·_J,:/ purlim nmm·
IS. Ver P. LIVEDAN,op. cil.. pp. 84-8K 11ist11{1848). Trad. it. Turim. l'J4!1. p. 21.'i.

180
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162. V11$0Sapesent:ldos !la Exposição Universal d Londrc:s (Victoria aml AlbertM11Se11m).

181
tido em alguma parte e que, em todo caso, de1{erla gresso das instituições urbanísticas até nossos dias,
existir em todas as partes onde não hajam intervindo mesmo que não mais possamos tomá-lo ao pé da letra.
obstáculos artificiais"; removidos tais obstáculos, "a O leitor terá notado a impressionante semelhança
nova sociedade pode realizar-se em qualquer momen- entre muitas propostas de Owen e Fourier - tais
to"; o socialismo pode dominar o mundo "como um como a "unidade de habitação" com número fechado
ladrão de noite" diz Owen. 18 de habitantes, as instalações ceníralizadas, a rue intê-
Por tal razão, eles estão de acordo, substancial- rieure etc. - e algumas soluções que surgem insisten-
mente, com os liberais, uma vez; que "também estes temente nos projetos contemporâneos. Até mesmo o
acreditam na ordem natural, embora pensem que ela número de habitantes do falanstério de Fourier -
jã esteja realizada" através da livre troca. Em suma, 1620 - corresponde àquela das pessoas alojadas na
faz-se com que tudo dependa do saber; os utopistas primeira unitê d'habitation de Le Corbusier, e a densi-
acreditam que "a ordem atual das coisas deriva de um dade prevista por Owen, um acre por habitante, é a
erro, e que os homens encontram-se atualmente na mesma indicada por Wright para Broadacre. A inte-
miséria somente porque, até agora, não se soube en- gração entre agricultura e indústria, entre cidade e cam-
contrar nada de melhor. • • A demonstração típica po, é resolvida de maneira mítica e inadequada, não
dessa concepção ingênua é o fato bem conhecido de leva em conta as grandes fábricas modernas que pot
que Charles Fourier todos às dias ficava em casa, do vezes reúnem várias dezenas de milhares de operários,
meio-dia à orna, para esperar o milionário que lhe iria nem algumas orientações da agricultura moderna ex-
trazer o dinheiro para constmir o primeiro falans- tensiva e mecanizada. :E.certo, contudo, que a harmo-
tério". 1~ ' nia entre essas duas realidades diversas é a condição
Bssacrítica é pertinente em termos políticos; con- indispensávelpara reconstruir a unidadedo ambientee
da paisagem moderna.
tudo, apesar de seus erros, ou melhor, em certo senti-
do por causa dos erros e das ingenuidades política5i
Owen e os outros trouxeram uma contribuição extre- 2. O movimento para a reforma das artes
mamente importante ao movimento da arquitetura
moderna. apllcadas

Ficaram eles imunes ao outro erro de toda a cul- A Revolução de 1848 assinala o ponto culmi-
tura política do tempo, liberal ou socialista, e que rumte das esperanças de regeneração social das quais
consistia em crer que não convinha empenhar-se nos estão imbuídos os utopistas, enquanto que a rápida su-
problemas particulares - por exemplo, o da localiza- perveniência da reação produz um desencorajamento
ção - antes de haver resolvido os problemas políti- generalizado; a distância entre teoria e prática revela-
cos de fundo, e que as soluções de todas as dificuldades se grande demais para que se pense em uma reforma
parciais sejam uma conseqüência natural de se encon- imediata do ambiente urbano.
trarem as soluções para as dificuldades gerais. Este é um momento de revisão ideológica, no
Por tal razão, dedicaram-se eles, com uma con- qual a esquerda européia elabora uma nova Jinha de
fianÇa maior do que seria razoável, a experimentos ação - anunciada em 1848 com o Manifesto de Marx
parciais, e por vezes acreditaram - dando uma revi- e Engels - e contrapõe às reformas parciais uma pro-
ravolta nas idéias correntes - poder resolver os pro- posta revolucionária global. O debate político des1oca-
blemas sociais com. a arquitetura, e poder melhorar os se com decisão para as questões de princípio e deixa
homens simplesmente fazendo com que habitassem de lado os vínculos tradicionais com a técnica urbanís-
num falanstério ou num paralelogramo cooperativo. tica, enquanto que o novo conservadorismo europeu
Suas experiências fracassaram, porém a cidade - o bonapartismo na França, o movimento de Disrae-
ideal por eles imaginada penetrou na cultura moderna li na Inglaterra, o regime de Bismarck na Alemanha
como um modelo pleno de generosidade e de simpatia - apodera-se de fato da experiência e das propostas
humana, muito diverso da cidade ideal do Renasci- urbanísticas elaboradas na primeira metade do século,
e adota-as como um importante instrumentum regni:
mento, e continua a sei:vit de incentivo para o pro- aplica-se a todas o exemplo dos trabalhos de Hauss-
18. SoMIIART,W. Le :roâalisme et le 111ou1•eme11t
social mann em Paris.
au X/Xe s/Jr:fe. Paris, 1898, pp. 24-27. Como já foi dito, as leis sanitárias elaboradas
19. SoMBART, w. Op. cit., pp. 25-30 e 31. antes de 1850 são aplicadas pelos novos regimes com

182
163, 164. Objctosapreoontados na Expo&ição de
andDescriptlono/t~CrystalPala~, 1851).
p1·
1
s de 1378 (deL'E,posizione dlParlgl dei 1!78, Sonzogno) e de Londres de 1851 (da TaUI s History
1~

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1,'li--<Mrn>

183
um espírito diferente daquele- originário, e tomam pos- um novo ponto de aplicação, uma vez que a desordem
síveis as grandes intervenções urbanísticas da segunda e a vulgaridade da produção industrial refletem-se ago·
metade do século. Ao mesmo tempo, os modelos teó- ra em toda a cena da vida associativa, nela incluídos
ricos. idealizados pelos escritores socialistas como alter- os objetos de uso comum, adotados todos os dias.
nativas para a cidade tradicional, são em boa parte Nasce, conseqüentemente, um movimento para
absorvidos pela nova práxis, deixando de lado suas melhorar a forma e o caráter de tais objetos - mó-
implicações políticas e sendo interpretados como sim~ veis, utensílios, tecidos, roupas, objetos de todo gênero
pies propostas técnicas, exatamente para reordenar as - e esse movimento possui a função de ponta de
cidades existentes. lança no debate cultural da segunda metade do século
As cidades ideais descritas depois de 1&48 - XIX, até que, graças a Morris, torna-se possível a iden-
Victoria, de J.S. Buckingham (Figs. 157 e 158), pu- tidade entre essa linha de pensamento e a linha prece-
blicada em 1849, e· Hygeia, de B.W. Richardson, pu· dente das utopias urbanas.
blicada em 1876 - derivam das precedentes, mas es- O conceito de "artes aplicadas" e sua separação
tão destituídas de conotações políticas, enquanto que a das artes maiores é uma das conseqüências da Revolu-
tônica recai sobre requisitos de construção e de higie- ção Industrial e da cultura historicista.
ne; estes formam o elo de conjunção entre as utopias
socialistas e o movimento da cidade-jardim, que come- Aqueles que se consideram "artistas" e sustentam
ça em fins do século, porém assinalam substancial- ser os depositários da cultura tradicional, limitam sua
mente o exaurimento da linha de pensamento de atividade, pouco a pouco, a. um setor sempre menor da
Owen, Fourier e Cabet, insustentável na nova situação produção, ou seja, aos objetos menos ligados ao uso
econômica e social. quotidiano e que podem ser considerados arte pura;
todo o resto, e especialmente os objetos de uso produ-
Com efeito, os novos regimes autoritários aban- zidos em série pelas indústrias, é subtraído a seu con-
donam a política de não intervenção nas questões tw!e e abandonado à influência casual de obscuros
urbanísticas, próprias dos regimes liberais que os pre- projetistas, quase sempre animados de finalidades estri-
cederam, e empenham-se diretamente - com as tamente comerciais e, em sua maioria, incultos. Natu·
oõras públicas - ou indiretamente - com os regula- ralmente, essa produção menor, que em termos de
mentos e planos - em dirigir as transformações em quantidade é muito mais abundante do que a produção
curso nas cidades.
maior e determina de maneira preponderante a paisa-
Dessas intervenções nasce uma vasta experiência gem da era industrial, termina refletindo igualmente a
técnica, indispensável aos desenvolvimentos futuros da orientação das correntes artísticas oficiais, porém o re-
urbanística moderna; porém, nesse ínterim a cultura lacionamento, que antes era direto e contínuo, trans-
urbanística perde a carga ideológica que lhe haviam forma-se agora em indireto, descontínuo e casual.
infundido os primeiros socialistas. e deixa de valer Na prática, as fonnas correntes da produção in-
como estímulo para uma verdadeira transformação da dustrial são determinadas por uma pequena minoria
paisagem; trata-se no máximo de racionalizar o quadro de artistas da moda - ou melhor, essa dependência
existente, de eliminar algumas manifestações visíveis é mais Última do que no passado, uma vez que a
da desordem urbana deixando inalteradas suas causas. execução é um ato em grande parte mecânico, que
Assim, a linha de pensamento descrita no pará- registra passivamente os modelos recebidos - porém
grafo precedente, que deve com acerto ser considerada estes não podem influir de maneira alguma na difusão
comó a primeira fonte da cultura arquitetônica mo- e interpretação das formas que puseram em circulação;
derna, dispersa-se na prática dos ofícios técnicos e assim, entre arte e indústria estabelece-se uma relação
i.ieforma-se na interpretação paternalista dos novos re- unilateral, não uma verdadeira troca de experiências,
gimes autoritários.· Pode-se dizer que é exatamente a e a produção cinde-se em diversos estratos que se mo-
i,1capacidade dos urbanistas em resolver as contradi- vem separadamente, segundo aqllela relação seja mais
ções de fundo da cidade industrial. que pennite subsis- ou menos direta.
tir o motivo para uma revisão cultural, que se tomará Bastará um exemplo: a difusão do chamado "esti-
urgente em princípios do século subseqüente. lo império" nos primeiros anos do século XIX. Res-
Enquanto tudo isso ocorre, ~ insatisfação da cul- ponsáveis por esse estilo são, em grande parte, dois
tura oitocentista com a cidade contemporânea encontra jovens arquitetos, Charles Percier (1764-1838) e

184
('ttoria
165; Algodão estampado inglês, por volta de 1830 andAlbert Musc11m).

166, 167. Móveis apresentadosna Eii;pooiçioumL


1851(daTalltsHlstor:,,andDcscrlpdon cit). li
~ Lon<hes de

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168. Objetos de decoração neog,Stfoos {de A. W. P11gin,The Troe PM-


:.~ ' ciples ofPointed or ChrlninnArclutecmre, 1841).
185
P.F.L. Fontaine (1762-1858), que estudam juntos, ornamento interno dos ambientes é considerado como
primeiro em Paris e depois em Roma, seguindo o clãs,. uma entidade separada da arquitetura. O estilo Impé-
sico itinerário do ensino acadêmico francês. Fontaine rio, a partir das primeiras décadas do século XIX,
vive em Londres por aJgumtempo, onde provavelmente apresenta eventos independentes da evolução posterior
sofre a influência de R. Adam; a partir de 1794, tra- da cultura artística oficial e permanece por todo o·
balham em conjunto e atingem uma posição de desta- século como uma possibilidade, que pode ser retomada
que na Corte de Napoleão; Percier ocupa-se sobretudo a qualquer momento, como alternativa para qualquer
dos trabalhos de estúdio, Fontaine, das relações com outro estilo. Um certo número de executantes de va-
clientes e executantes. Juntos projetam a rue de Rivo- lor produz. especialmente no início, objetos de notável
li, mobiliam as várias residências do Imperador, tradu- mérito artístico, porém wnstituem exceções difíceis de
2em em desenhos suas iniciativas urbanísticas; em serem reconhecidas no mar de rebotalhos que a indús-
1801, Percier e Fontaine são nomeados arquitetos dos tria derrama no mercado (Figs. 162-167).
palácios do primeiro e do segundo Cônsules e, a partir Em tempos anteriores, a produção de valor podia
de 1804, Fontaine é arquiteto dos palácips imperiais. distinguir-se da atual, além de pela excelência formal,
Favorecidos por sua posição oficial e pela ótima por algumas qualidades mais tangíveis: a riqueza do
organização de estúdio, eles modificam toda a produ- desenho, a precisão da execução e os materiais pre-
ção francesa e européia de arquitetura e mobiliário. e ciosos; entretanto, a produção mecânica domina facil-
sua influência pode ser. comparada à de Le Brun ao mente as duas primeiras qualidades: a complicação
tempo de Luís XIV, embora os modos pelos quais essa :lo desenho não é mais um obstáculo econômiéo, por-
influência é exercida sejam completamente düerentes. que é suficiente um estampo para produzir um número
Le Brun agia através da estrutura corporativa de seu indefinido de peças, e a precisão com que os objetos
tempo e suas prescrições investiam de modo unitário são acabados à máquina é muito superior àquela que o
tanto o desenho quanto a técnica de execução; entre melhor dos antigos artesãos conseguia obter com o
os artistas que forneciam os modelos e os operários que trabalho manual. Resta a diferença de materiais, mas
os executavam, existia uma relação de organização, a indústria aparelha-se rapidamente para copiar, me-
além de informativa. e a mesma organização sustentava diante procedimentós engenhosos, as matérias mais
as relações entre uma e outra categoria de artesãos e variadas e desaparece o gosto pela apresentação ge-
movelheiros, como entre mobiliário e arquitetura. nuína. de madeira, de pedras, de metais. Entre 1835
Percier e Fontaine, pelo contrário, não possuem e 1846, segundo Giedion, o Departamento de Patentes
meio algum para controlar a atividade de quem traba- inglês registra trinta e cinco patentes para revestimen-
lha fora de seus canteiros. Eles fornecem uma série to de superfície de materiais variados, de modo que se
de protótipos formais e consolidam-nos com o prestígio assemelhem a outros materiais; em 1837, por exemplo,
de sua posição; de 1801 em diante, sucedem-se as edi- inventa-se o processo de recobrir o gesso com uma
ções do Recuei! de décorations intérieures, que se trans- camada de metal, a fim de fazer com que se asseme-
forma no manual de todos os decoradores da primeira lhe ao bronze. 211
metade do século XIX (Figs. 159-161). Assim, não somente a produção atual supera- em
As gravuras que formam aqueles volumes cons-
quantidade a produção de valor, como também esta
tituem a única ligação real entre Percier e Fontaine e última carece de motivos evidentes para distinguir-se
seus imitadores: uma série de formas, separadas pelas daquela, excetuando--se o valor artístico verdadeiro e
próprio, apreciável somente pelos entendidos.
circunstâncias em que foram idealizadas e também
pelos materiais com que foram inicialmente executadas, Por essa razão, na primeira metade do século
e dotadas de uma vida própria abstrata e impessoal; XIX, o nível médio da produção de objetos de uso cai
as máquinas, por outro lado, estão prontas: para tra~ rapidamente. Existem naturalmente as exceções, tais
duzir essas formas, com igual impessoalidade, em qual- como a cerâmica de Wedgwood, na Inglaterra, e pode-
quer escala, em qualquer material e em qualquer nú- se também constatar que a decadência do gosto está
mero de exemplares. um pouco mais retardada em relação à industrialização,.
de modo que o nível dos, produtos industriais até o
Dessa maneira, dois artistas de notável dedica- primeiro decênio do século XIX em muitos casos ainda
ção, defensôres por conta própria da continuidade
entre decoração, arquitetura e urbanística, deram ori- 20. Ver S. GJEDJON,Mechanization Takes Commlllld~
gem ao primeiro dos estilos de decoração em que o Nova York, 1948, p. 346..

186
172. o; Jones, folhas de castanheiro-da-índia {de Granr,nt,r ofOma-
menJ, 1856).

li
é bom - provavelmente até que desapareça a geração quanto o ambiente doméstico, com seus produtos vul-
que conserva os hábitos e os gostos do período pré-- gares; em uma conferência, em 1841, ele faz uma
industrial - mas não é licito colo<:ar em dú\lida o descrição irônica dos objetos industriais em falso es-
fenômeno em sua totalidade. Depois de 1830, a deca- tilo gótico:
dência está tão avançada que provoca a polêmica da-
quelas pessoas de quem se falou no Cap. 2 e, em •.• peq_uenll!Itorres gradativas para tinteiros, cruzes mo-
1851, quando a Exposição Universal de Londres permi- numentais para ;ilil}jureS,píncaros de edifícios em n1açanetas
te que se compare a produção de todos os países, o de portas, quâtro portais e um feixe de colunas para :rustentat
uma lâmpada france:;a, enquanto um par de pináculos enci-
balanço global mostra-se alarmante para todos os en- mados por um arco são chamados de raspadeira em modelo
tendidos. gótico, e um entrelaçamento sinuoso de oru.amentos formado
:&sa constatação, todavia, não se exaure no cam- quatro folhas e leques, de uma cadcira de jardim de abadia.
po da crítica da arte: impele um certo número de peri- Nem e~, nem forma, nem oportunidade, nem unidade d~
tos à ação, a fim de tentar remediar esse estado de estilo são jamais levadas em consideração por quem desenha
esses horrores. . . :Basta introduzir um ornamento em quatro
coisas e de reerguer a qualidade da produção, reto- folhas ou em arco agudo, embora o ei;;querna do artlgo seja
mando os vínculos secionados entre artes maiores e moderno e vulgar, para que o mesmo logo seja qualificado e
artes menores. vendido como g6tico. 2:l
Começa, assim, depois da metade do século, o
movimento pela reforma das artes aplicadas, e parte Em abril de 1832, pouco antes da votação sobre
exatamente da Inglaterra, onde os inconvenientes da a lei eleitoral, desenvolve-se na Câmara dos Comuns.
produção em série fizeram-se sentir em primeiro lugar, um debate sobre a instituição de uma Galeria nacio~
e em escala mais vasta. Podem-se distinguir aproxi- nal, durante o qual se toma. claro, pela primeira vez,
madamente três fases: a primeira, entre 1830 e 1860, a importância social do problema da arte aplicada.
{'Ossui uma íntima conexão com a "reorganização" so- Sir R. Peel declara:
bre a qual se falou no Cap. 2, e tem por protagonistas
Os rnotivos que podem impelir a Câmara a tomar esta
alguns funcionários esclarecidos, dentre os quais, Sir
iniciativa nâo são wmente reprCl!entalivos; o interesse de nossas
Henry Cole; a segunda depende dos ensinamentos de indústrias está intimamente vinculado ao encorajamento das
Ruskin e das iniciativas de Morris, e possui uma forte belas-artes, visto que é de conhecimento geral que nossos
marca ideológica e literária; na terceira, agem os dis- produtores são superiores a seus concorrentes do exterior na
cípulos de Morris - Crane, Asbbee, Voysey etc. - parte mecânica, mas infelizmente inferiores no que se refere
e tornam-se mais nítidas as rela~ões com a arquitetura. aos prolótipos formais. :ia
Também. o movimento para a refonna das artes
aplicadas passa de posições utópicas para outras mais Depois do Reform Bill, o governo whig intervém
concretas e aderentes à realidade; neste terreno, com também neste campo e nomeia uma Comissão de
efeito, a indústria e a cultura artística encontram-se Pesquisa, que escuta as opiniões dos industriais, dos
com as respectivas tradições e os respectivos precon- projetistas industriais, dos artistas e dos membros da
ceitos, os quais devem ser superados arduamente antes Academia Real, e conclui que falta uma organização
adequada para o ensino e a difusão das artes; assim
que se encontre o caminho certo.
são instituídas escolas de projeto em Londres, Birming-
ham e Manchestei, e são reunidos exemplos de obras
a) Henry Cole e seu Grupo de arte pura e aplicada, antigos e modernos, que são
Os defensores do movimento neogótico, que sur- doados às escolas a fim de orientar o gosto dos alu-
gem em campo entre 1830 e 1840, criticam. ao mesmo nos.
tempo o classicismo acadêmico e as formas góticas
Essas iniciativas são promovidas sobretudo pelo
convencionaisempregadas na época pelos fabricantes príncipe consorte, que encontra seu principal colabo-
de objetos de uso; Augustus W. Pugin (1812-1352),
rador em um jovem funcionário civil, Henry Cole:
um dos principais propagandistas do retorno ac me-
dieval, publica em 1836 um brilhante livro polêmico, 21 22. PtlGlN, A, W. The True Principie, o/ Pointed or
onde acusa a indústria de ter contaminado tanto a pai- Christian Arcliitecture. Londres, 1841, pp. 23·25, Cit. em
sagem urbana, com suas instalações desmesuradas, 1. GLOlt.G,lndu.r1rial Art Exp/a/ned, Londres, 1946, p. 63.
23. Cit. em H. READ,Art and lndustry, Londres, 19J4~
21. PuGlN, A. W. Com,asts. Londres, 1836. p. 15.

188
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''1
179, 174, 175.l. Ruskin.estudos sobrcaconfo:nnl das folbasedasnuvens(deModemPailrlers, v. V, 1860),
189
1:

li
(1808-1882); este desenvolve no campo das artes O mais conhecido é o pintor Owen Jones (1806-
aplicadas uma obra esclarecida e infatigável, compará- 1889), filho do arque61ogo de mesmo nome; em sua
vel à de seus contentpo.râneos Chadwick e Farr no juventude, viaja longamente pela Itália, pelo Oriente
campo da hlgiene social. ' e pela Espanha, e é atingido pelo senso decorativo·
Cole está profundamente convicto de que o baixo perfeito da arte muçulmana. Entre 1842 e 1845, pu-
nível da produção corrente seja devido à separação blica os desenhos geométricos e os detalhes da Alham-
entre arte e indústria, e que, portanto, pode ser me- bra de Granada, copiados do local por ele mesmo e
lhorado agindo-se .no plano de organização e canali- por outros estudiosos, depois um volume sobre mo-
zando a obra dos artistas para o influstria!.design. saicos de pavimentação, um sobre os livros--miniatu-
Em 1845, com o pseudônimo de Felix Summerly ras da Idade Média e úm sobre os ornamentos poli-
vence um concurso da Society of Arts para um jogo crômicos italianos. :ia
de chá; a partir de 1847, organiza na sede da Socie- Em 1851, participa da Exposição Universal, pin-
dade uma série de exposições de produtos industriais tando em cores as estruturas metálicas do Palácio de
- "Felix Summerly series" - e a partir de 1849 Cristal e, no ano seguinte, publica um ensaio teórico
pllblica uma revista, Journal of Design, 'onde reproduz sobre o emprego das cores na arte decorativa. 21 Em
e critica os modelos dos mais variados ramos da in- 18S6, surge sua obra principal, The Grammar of Or-
dústria. Em 1848, tenta em vão promover uma ex- nament, a qual reúne exemplos de decoração de todos
posição nacional da indústria inglesa; em 1850, po- os tempos e países, não com a mera intenção de ofe-
rém, consegue obter, do príncipe Alberto, a organiza- recer aos contemporâneos modelos para serem copia-
ção da primeira Exposição Universal, e desempenha dos. "Aventuro-me a esperar - escreve Jones no
um papel fundamental na localização do edifício - o prefácio - que, apresentando para um contato ime-
Palácio de Cristal de Paxton - bem como na dispo- diato as muitas formas da beleza, possa contribuir
sição dos objetos expostos. para deter a infeliz tendência de nosso tempo de con-
A Exposição de 1851 oferece-lhe a oportunidade tentar-se em copiar, enquanto dura a moda, as formas
de fazer um balanço da produção industrial em todos peculiares de cada idade passada".
28 Com efeito, no
os países da Europa; em confronto com a arte orien- últimci capítulo, ele tenta somar tudo e deduzir dos
tal, ou com os objetos de uso americanos. a arte exemplos apresentados as regras gerais do desenho
decorativa européia oferece o espetáculo de uma de- ornamental, recorrendo a objetos naturais, tais como
cadência impressionante. "É evidente, na Exposição, árvores, folhas e flores, e procurando individuar as
a ausência de qualquer princípio comum do desenho •leis geométricas de sua estrutura; por exemplo, dese-
omamentaJ; parece que as artes aplicadas de toda a nha planta e secção de uma flor-de-lis, ou então um
Europa estão profundamente desmoralizadas". u ·grupo de folhas de castanheiro-da-índia projetado no
Cole procura extrair o máximo proveito desse plano como um simples arabesco superficial (Fig.
confronto, não se cansa de ilustrar o problema em 172).
A seguir, Jones publica uma série de letras ini-
jornais e revistas e, em 1855, obtém a fundação, em
South Kensington, de um museu de artes aplicadas ciais, uma de monogramas, e um volume de exem--
onde ~ejam conservados os melhores exemplares d~ plos de arte decorativa chinesa, extraídos dos origi-
presente e do passado, juntamente oom as amostras da nais do museu fundado por Cole.2 9
produção corrente: é o núcleo inicial do atuaJ Victo- Richard Redgrave (1804-1888), que é conside--
ria and Albert Museum. rado por Giedion como o melhor teórico do grupo,
Nos últimos anos, dedica--se principalmente aos 26. Plans, Elevatiom-. Section and Detalfs o/ the
problemas didáticos (Fig. 171), e, a seu redor, reú- Alllambra, 1842-1845'; D~igns for Mosaic and Te.sselated
ne-se um grupo de artistas que trazem uma contribui- Pavements, 1842; The llluminaled Book of the Midd/e Ages--
ção direta à melhora das artes aplicadas. l!li (em r.:olabora!,ão com H, N. HUMi'HIWi), 1844; The Poli-
cl1ro11uitlcOrnament of [faly, 1846.
24. lournat of De~ign, v. V, 1851, p. 158, cit, em S. 27. An Allempt lo Define the Principies which Shoult!"
GUIDWN,op. cit, pp. 351-352. Com referência às discussões Regulate tire Employmwt o/ Colour in tire Decorative Arts,.
suscitadas pela Exposição de 18.:51,ver W. WHEWELL,Lec1uru Londres, 1852.
on lhe ResulJ o/ tire. Exhibition, Londres, 1852, 28. CiL em s. GIEDION, op, cit., p. 354.
2S. Sobre H. CoLE,ver os dois volumes póstumos publi· 29. One tl1ousand and one Initial Leuers Desfgned e.tu!
cadospelosherdei.roo, F1Jty Years of Public Work of Sir Henry Illumlnaled by O.!., 1864; Seven h1mdred and two Monoytams,
Cote, Londres, 1884. 1864; Exemples o/ Chinese Ornament, 1861.

190
--= li
176. W. Mwris,chintz, 1883 (Victoria 11I1dAJbertMU!;eum).

il
1. ,
• ' 7
2.
entrada
sala de jantar ' '
9

3. lavabo
' " ,. 4. escritódo
!D] cozioha
6. pátio
7. sala de estar
8. saleta
,. estúdio
10. poço

li
177, 178. ACasn VennelhadeMorri,;:(P. Web~, 1859; deseohodeG. H, Crow, WilliamMonisD~ner, 1934).
191

li
desenvolve o conceito de utilidade como fundamento diretamente ao problema da arte aplicada; contud()
primário da arte aplicada e faz com que se veja que seus ensinamentos - nos aspectos positivos e nega-
a ele podem ser reconduzidas todas as exigências da tivos - são determinantes para todo o curso sucessivo
cultura artística; 110 a conexão com o utilitarismo de do movimento e devem ser brevemente considerados
I. Stuart Mill é clara, sendo que este, de fato, man- antes ele se falar de Moreis e seus seguidores.
tém relações com Cole e com seu grupo. Ruskin é um personagem muito diferente de
Por um certo período, trabalha no grupo de Cole Cole e dos reformadores da época, quase da mesma
o arqueólogo e arquiteto alemão Gottfried Semper idade. Estes são pessoas positivas, competentes em
(1803-1879); a partir de 1855, tendo retornado ao alguns campos e empenhados em agir em contato com
continente e sido nomeado professor da Techniche a realidade; seu interesse está sempre circunscrito às
Hochschule de Zurique, difunde as experiências no mo- coisas que sustentam poder modificar mediante uma
vimento inglês nos ambientes de língua alemã, espe- intervenção direta. Ruskin, pelo contrário, é um lite-
cialmente com o livro Der Stil in den tecnischen und rato e seu interesse estende-se teoricamente à realidade
architektonischen Künsten, o qual obtém ampla difu- inteira: ele se ocupa, assim, de Política, Economia, Arte,
são até a época da Werkbund. Geografia e Geologia, Botânica e mil outros assuntos;
L. de Laborde publica, em 1856, um relatório "as matérias de que tratou - escreve um cótico seu
sobre os trabalhos da Comissão francesa para a Ex- - são quas~ tão variadas como os interesses da vida
posição Universal de 1851, onde auspicia, como Cole, humana." 111
uma "conciliação" entre a indústria e a arte, deposi- Matéria por matéria, sua colocação é sempre um
tária dos valores tradicionais. pouco destacada e às vezes superficial quando con-
A característica positiva mais importante, na ação frontada com a daqueles que a elas se dedicam pra-
de H. Cole e de seus colegas, é a confiança no mundo ticamente, porém a amplidão ele seu horizonte cultu-
da indústria. Cole é animado pelo mesmo espírito ral permite-lhe perceber algumas relações entre um
campo e outro 'que permanecem despercebidas dos
audacioso e livre de preconceitos de Cobden, Cbad- respectivos peritos; nisso reside' sua contribuição de-
wick, R. Stephenson e outros personagens da primeira
era vitoriana. Sua limitação, por outro lado, consiste terminante, e por essa razão seu pensamento possui
em uma simplificação excessiva do problema. A arte uma eficácia extraordinária, orientando o curso ulte-
e a indústria trilham dois caminhos diversos e devem rior da ação prática em muitos campos.
ser levadas a encontrar-se; mas quais meios são ofe- Ruskin percebe que a arte é um fenômeno muito
recidos por Cole e os seus para obter esse resultado? mais complexo do que parece a seus contemporâneos.
Eles se limitam a apresentar exemplos de bom dese- A chamada obra de arte, isto é, a imagem realizada
nho decorativo1 tomados do passado ou de lugares pelo artista e contemplada pelo crítico de arte, é uma
distantes, a fim de estimular a emulação dos artistas entidade abstrata isolada de um processo contínuo, o
contempor.âneos; substancialmente, pensam que o pro- qual inclui as circunstâncias econômicas e sociais no
blema pode ser resolvido no plano exclusivamente for- ponto d~ partida, as relações com quem a encomen-
mal. e, como os utopistas, acreditam que somente uma dou, os métodos de execução, e prossegue na destina-
falta de conhecimento impede um bom projeto no ção da obra, nas mudanças ele propriedade e de utili-
campo da arte aplicada. zação, nas modificações materiais.
Compete a Ruskin e a Morris dar o passo deci- O critico pode isolar provisoriamente essa entida-
sivo, mostrando que a questão do projeto está com- de, porém quem trabalha ativamente no campo da
prometida com a posição intelectual e moral do proje- arte deve considerar englobadamente todas as passa-
tista e do consumidor, e com a organização social que gens, visto que não é possível transformar uma sem
condiciona um e outro. agir ao mesmo tempo sobre todas as demais. A obra
de arte assemelha-se a um iceberg, onde a parte flu-
b) John Ruskin e William Morris tuante, a única visível, mOve-se segundo leis que são
Morris e sua geração têm John Ruskin (1819- incompreensíveis se não se levar em conta a parte
1900) como mestre; este jamais chega a dedicar-se imersa, não visível.
30. R.E.ooRAVE,G. R. Manual of Design Completed from 31. ImoE, S • .Seven Lamps of Arcl,itecwre. Ed. de
1he Wri1ings and Addre.sse.s of R. R. Londres, 1876. J. M. Dent & Sons, 1907 (lntroduçãol.

192
!93
Essa reflexão é decisiva para dar início a um tação reentirosa, sobre essa superfície, de ornamento.i-
verdadeiro movimento de reforma no campo da arte esculpidos;
e traz à cultura oitocentista uma mudança completa
de rumo, posto que faz com que se vejam a insuficiên- 3. o ·emprego de ornamentos de toda espécie ...
cia da orientação analítica e a necessidade de visar a feitos a máquina. 32
integração entre os problemas. Hoje, esse é um dos Em relação ao primeiro ponto, fala sobretudo
princípios fundamentais de nossa cultura mas, por vol- das estruturas em ferro, e exprime-se da seguinte ma-
ta da metade do século XIX, constitui aJgo difícil de neira:
aceitar e também de apreender, e Ruskin encontra-se
em conflito tanto com os leitores, quanto consigo Talvez a fonte mais abL1ndante desse sênero de decadên-
mesmo, na medida em que partilha dos preconceitos cia, contra a qual devemos l}OS precaver ·nos dias de boje,
de seu tempo. vem 50b uma forma discutível, cuja propriedade e limites não
são fáceis de deternt:lnar; fato do uso do ferro. A definição
Assim, a essência de seus ensinamentos é impor- de arquiteteura dada no primciro capítulo é independenk dos
tante e frutífera, enquanto que as doutrinas específi- materiais empregados; todavia, já que essa arte até princípios
cas que ele sustenta são menos satisfatórias e por ve- do século XIX foi praticada somente com argila, pedra e
zes retrógradas quando comparadas às de Cole e seu madeira, resultou que o senso de proporções e as leis de
grupo. construirão foram baseados, aquek cwnplctamentee estas
em grande parle, nas neceSliidades criadas pelo empreso desses
Ruskin observa a desintegração da cultura artís- materiais, e que o nso de uma armação metálica, no todo
tica e percebe que as causas devem ser procuradas ou em parte, seja considerado geralmente como um desvio
não no campo da arte mesma, mas nas condições eco- dos princípios primários da Arte. Abstratamente, não existe
nômicase sociaisem que a arte é exercida;contudo rai.ão para que o forro não seja uslldo tão bem quanto a
- graças a uma tendência eXcessiva à generalização · madeira, e provavelmente está próximo o tempo em que será
desenvolvido um novo sistema de leis arquitetônicas, intclra·
- Ruskin individua as causas desses males não em mente adaptado ii. construção metálica. Creio, porém, que a
alguns defeitos contingentes do sistema industrial, mas tendênciade todos os DOS50Sgostos e associaçõesatuais seja
no próprio sistema, e torna-se adversário de todas as no :sentido de limitar a idéia de arquitetura às estruturas não
novas formas de vida introduzidas pela Revolução In- metálicas, e não sem razão.
dustrial. Por um erro comum à cultura da época, ele
transforma um juízo histórico em um juízo universal Com efeito, prossegue Ruskin, a Arquitetura,
e passa a combater não as condições concretas e cir- sendo a primeira das artes, está necessariamente liga-
cunstanciadas da indústria de seu tempo, mas o con- da às condições das sociedades primitivas, onde o uso
ceito abstrato de indústria. E, ao ver que a harmonia do ferro é desconhecido, e a consideração desses pre-
dos processos de produção foi realizada de modo sa- cedentes históricos é inseparável de sua dignidade de
tisfatório em certas épocas do passado - por rocem- arte; assim, conclui que o ferro "pode ser usado so-
plo, na baixa Idade Média -, e1e sustenta de modo me)!te como.Jigação, não 0nto sustentação". 33
igualmente anti-histórico quç o remédio consiste em
retornar às formas do século XIII, e toma-se pala- No segundo ponto, Ruskin faz naturalmente uma
dino do revival neogótico. série de exceções: recobrir os materiais de reboco e
o reboco· de afrescos não é reprovável, e tolera-se a
Essa limitação impede-lhe de tirar proveito de douração dos metais menos preciosos porque o uso
suas inumeráveis, preciosas intuições, e desvia conti- transformou "esse expediente em costumeiro. A regra
nuamente seus discursos logo que estes se avizinham é evitar enganar deliberadamente o observador, e o
do concreto. engano depende dos hábitos do espectador.
No ensaio Seven Lamps o/ Architecture de 1849, Finalmente, os ornamentos feitos a máquina são
Ruskin inicia uma critica particularizada das falsida- refutados com o seguinte raciocínio: "o ornamento,
des contidas na produção contemporânea e nelàs dis- como freqüentemente observei, possui duas fontes de
tingue três gêneros: pi:azer completamente distintas: uma, a beleza abstra-
1. a sugestão de um tipo de estrutura ou de sus- ta de suas formas, que por enquanto suporemos ser a
tentação diferente do real; mesma quer ele seja feito a máquina, quer a mão; a
2. o revestimento da superfície com o objetivo 32. The Lamp of Trut/1, VI, pp. 34·3.5,da ediçãocitada.
de imitar materiais diversos dos reais, ou a represenw 33. The Lamp o/ Trurh, IX, pp. 39-40, da edição cit.

194
180, W. Momli, chinlz, 1891 (Victoria and Albert Muscum).

195
outra, o senso do trabalho humano e da atenção que nos perceptíveis, pois estão escondidos pelos desen
fornm despendidos ao fabricá-lo". 34 A produção me- vimentos lllteriores da cultura arquitetônica; consti-
cânica falseia completamente o segundo caráter e, por tuem, porém, a base de todos os progressos realizados
conseguinte, introduz uma mentira e um engano. a seguir. Escreve Laver: "O mundo moderno deve a
Deve-se levar em consideração o fato de que, na Ruskin mais do que geralmente está disposto a admi-
época de Ruskin, a produção corrente estava orienta- tir. Ele projetou mover uma montanha, e de fato a
da exatamente para simular, com a máquina, a apa- moveu, embora pouco. Deveremos acaso surpreen-
rência de um rico trabalho a mão, sem ter de enfren- der-nos de que, ao fazer esse esforço assombroso, ele
tar a despesa correspondente; por exemplo, em rela- se tenha lacerado as mãos e perdido a paciência?" M
ção ao ferro gusa, desde 1756, um escritor inglês de- Uma contribuição secundária de Ruskin ao movi-
clarava candidamente: mento pela reforma das- artes aplicadas consiste nos
' construtor e, em estudos científico-formais sobre determinados elemen-
O ferro gusa presta muitos Ut'Viços ao
tos da natureza - as rochas, as árvores, as nuvens
muitos casos, poupa-lhe uma grande despe~; nas grades e
balaustradas possui uma apari:ocla rica e maciça, ape5ar de
- que são investigados não somente do lado das ciên-
custar muito pouco; o ferro forjado, com uma espessura muito cias natucais, nem somente do lado pitoresco, mas
inferior, custaria bastante mais. 35 também procura'ndo individuar, com o auxilio da ciên-
cia, sua estrutura íntima que se encontra na base dos
Ruskin responde com a seguinte censura: efeitos artísticos; seus desenhos, embora estando rea-
lizados no estilo de Turner e dos pintores românticos,
Você usa uma coisa que pretende possuir um valor que por vezes avizinham-se de curiosos efeitos abstratos e
não possui, que pretende possuir um custo e uma consist!nda
que oãi, poS5W;é um abuso, uma vulgaridade, uma imperti·
prenunciam tanto o repertório de Morris, quanto al-
uência e um pecado. Jogue-a fora, reduza-a a pó; deixe, antes, gumas pesquisas da art nouveau que partem ana1oga-
na parede seu traço não acabado, voc:ê não pagou para tê-la. mente da estilização dos elementos naturais (Figs.
não tem nada a fazer com efa, não tem necessidade dela. 311 173-175).
William Morris (1834-1896) segue fielmente as
A fim de poder prosseguir corretamente com esta teorias de Ruskin e não discorda dele em nenhum
narrativa, dever-se-ia aprofundar o conceito de hábito, ponto importante. Sua originalidade consiste na na-
isto é, colocar esses juízos no plano hist6rico; todos tureza de sua dedicação, que não é somente teórica,
ós procedimentos que Ruski,p.condena são, de fato, mas prática: ele traz para essa linha de pensamento,
refutáveis somente em nome dos costumes contempo· assim, uma série de determinações concretas, extraídas
râneos, inclusive o trabalho a máquina, porque somen- de sua experiência de trabalho, e entrega ao movi-
te quem não está habituado à produção mecânica com.- mento moderno não apenas uma bagagem de idéias,
para o produto de série ao produto de um traba1ho mas uma experiência ativa de importância infinita-
individual. Ruskin têm consciência dessa exigência mente maior.
e por vezes explicitamente, como quando fala do fer-
ro, porém logo volta a teorizar e traz novamente o Morris é de familia rica, estuda em Oxford, en-
discurso para o plano literário que lhe é familiar; contra-se com E. Bume Jones e outros jovens artistas,
assim, seus ensinamentos terminam com a exaltação com os quais forma o grupo chamado de The Bro-
convencional da Idade Média e com a refutação do therhood, que se reúne para ler Teologia, Literatura
presente. Medieva1, Ruskin e Tennyson.
Em 1856, com vinte e dois anos, entra para o
Não obstante tais defeitos, o pensamento de Rus- estúdio do arquiteto neog6tico O.E. Street, aluno de
kin possui uma importância primária em nosso relato G. Scote, mas esse trabalho lhe dá poucas satisfações;
hist6rico; os defeitos, poder,.-se-ia dizer, são evidentes no ano seguinte conhece Dante Gabriele Rossetti, co-
màs estão à supedície, enquanto que os verdadeiros meça a pintar, a escrever poesiàs e publica, também,
ensinamentos encontram-se .na profundidade e são me- por apenas um ano, uma revista. 88 Em 1~59,_casa-se
34. The Lamp uf Truth, XIX, p. 53 da edição ciL
e decide construir uma casa em que seus ideais artís-
JS. I. WARE, The Complete Body o/ Architecture, Lon·
ticos sejam concretizados praticamente: é a famosa
dres, 1756, cil. em J. GLOAGe D. BRIDGBWA.TER, ÂII Hi1torY
o/ C1J.1tIro11 ln Architeeture, Londres, 1948, p. 116. '37. Ll.VER, J. lJfe af W/Ji8tler. Londres, 1930.
36. Tlte Lamp of Trorli, XIX, p. 54 da edição cit. 38. A Oxford t.md Cambridge Magazine, 1857.

196
181.W.Moms,c
- hln.h; ' 1896(Victoriaaru1AlbertMuseum).
Casa Vermelha em Upton (Figs. 178-179). Phllip rante sua vida: Hope and Fears for Àrt em 1882,
Webb (1831-1915) faz o projeto arquitetônico, o Signs 9/ Change em 1888; um terceiro volume, Archi-
próprio Morris e seus amigos desenham e executam teàure, lndustry and Wealth surge em 1902, seis anos
a ornamentação; é então que começa a pensar em fun- após sua morte.
dar um laboratório de arte decorativa, com Burne Jo- E difícil resumir em poucas páginas a contribui-
nes, Rossetti, Webb, Brown, Faulkner e Marshall; em ção dada por Moais ao debate sobre a arte moderna,
1862, o grupo entra para o comércio com o nome de uma vez que ela extrai sua eficácia da experiência
Morris, Marshall, Faulkner & Co., e, em 1865, trans- prática, e seu pensamento está exposto de modo um
fere-se para Londres, tanto fragmentário em numernsos escritos de circuns-
A firma produz tapetes, tecidos, papel ornamen- tância.
tado, móveis e vidros (Figs. 176, 180, 181); a inten- O contato com a prática permite-lhe superar al-
ção de Morris é provocar uma arte "do povo para o gumas importantes limitações com que ainda se em-
povo" mas. assim como Ruskin, ele refuta a fabrica- penha seu mestre Ruskin. No começo de Seven Lamps
ção mecânica, e portanto seus produtos resultam ser oJ Architecture, Ruskin dá a seguinte definição: "Ar-
Ç\Ht1m1·~ w 1iig i\ii~íni~ ligm1rnt1rílgli flçg;, fgr nutro quiUauraG íl ilitOquo diõpõoo ndornn oa 1,;difíoioil
lado, sua iniciativa jamais consegue desenvolver-se e construídos pelo homem, para qualquer uso, de tal
influenciar a produção contemporânea em seu conjun- modo que sua vista possa contribuir para sua saúde
to; a firma. por conseguinte, tem uma vida um tanto mental, para sua eficiência e para seu prazer". a9 Ain-
difícil até ser desfeita em 1875, tomando-se Morris o da se encontra aqui o tradicional dualismo entre utili-
único proprietário dos laboratórios. dade e beleza, e Jogo após Ruskin empenha-se em uma
Nesse ponto cÓmeça o período de atividade mais sutil distinção entre arquitetura e construção, de sabor
intensa e variada; Moreis convence-se cada vez mais plenamente acadêmico.
da vinculação entre arte e estruturas sociais e, desen- Morris, se também não enfrenta explicitamente o
volvendo corretamente os princípios de Ruskin, sente dilema, não aprecia tais distinções e coloca a noção
o dever de agir, paralelamente. no campo político; em de arquitetura com uma surpreendente amplitude de
1877, inscreve-se na seção radical do Partido Liberal, concepção:
em 1883, passa para a Federação Democrática e tor- A arquitetura abrange a consideração de todo o ambiente
na-se tesoureiro do partido, no ano seguinte funda a físico que circunda a vida humana; não podemos subtrair-De>&
Liga Socialista, dirige o jornal The Commonweal e de- a esta, enquanto façamos parte da civilização, pois a arqlli-
sempenha um papel importante nos movimentos ope- tetura é o conjunto de modificações e alterações introduzidas
rários daqueles anos; contudo, uma vez que em 1890 na superfície terrestre tendo cm vista as necessidades huma-
predominam na Liga os anarquistas, Morris, deixa o nas, excetuundo-se apenas o deserto puro, Nem podem0&
jornal e depois também a vida política ativa. Logo confiar nossos intereS>Q na arquitetura a um pequeno grupo
de homens instruídos, encarregá.Jos de procurar, descobrir,
após publica o .romance News from Nowhere, onde
fórjar o ambiente ollde depois nós deveremos ficar e mara-
descreve o mundo transformado pelo socialismo, tal vilhar-nos de como funciona, apreendendo-o como uma coba
como ele o concebe. totalmentefeita; isso, pelo contrário, diz respeito a nós mes-
Nesse período ocupa-se de muitas outras inicia- mos, a cada um de nós, que deve vigiar e euidar do justo
tivas: em 1877 funda a Sociedade para a Proteção dos ordenamento da paisagem terrestre, cada um com seu espírito
e com suas mãos, na proporção que lhe cabe, io
Monumentos Antigos e prossegue as polêmicas de Rus-
kin contra as restaurações por demais radicais, à ma-
Essa definição pode ser inteiramente aceita. ainda
neira de Viollet Ie Duc; em 1878 deixa Londres para
hoje; nessa visão sintética confluem toda~ as experiên·
transferir-se para Merton Abbey, em Surrey, onde
cias de Morris no campo das artes aplicadas e, em
funda, em 1881, uma fábrica de tapetes e, em 1890,
uma oficina tipográfica (Fig. 180), a Kehnscott Press. um certo sentido, também as políticas.
Em 1883, promove a Art Workers Guild e, a partir Ele pretende superar a distinção entre arte e uti·
de 1888, organiza as exposições com o nome de Arts lidade, mantendo as duas noções unidas no ato do
and Crafts.
39. The Lamp of Sacrifice, 1, p. 7 da edição ciL
Durante tais iniciativas, Mortis desenvolve uma 40. ''Tbe Prospects of Architecture in Civilization", co>n-
larga atividade de divulgação de suas opiniões artísti- ferência proferida na London Instituliu .. em 10 de março de
cas e políticas: dois volumes de ensaios surgem du- 1881, em On Art a11dSociaU~m, Londres, 1947, PP. 245-246.

198
1

OWj/can I describe the lamentatíons of the}.!rincely


company, yea, indeed, of the whole town 1.or every
one saw now plainly that the ang_erof God rested
upotl this a.ncient and illustríous Pomeranían race,
and that he had gíven it over helplessly_to the power
of ti\~ evíl one, Summa: On the 9th February, the
princely corse was Jaid in the very sleigb whicli had brougbt it a
líving body, and followed by a grand train of princes, nobles, and
knights,alongwítb ~ strong guard of the ducal soldateska, was con,
veyed back"to Stettíh; & thére, witb all due & befltting ceremonies,
was buried on Pai"} Sunday, in the vault of tbe castle cburch,
CHAPTER X::xlII. HOW BARNIM THE TENTH
SUCCEEDS Td, THE GOVERNMENT, AND HOW
SIDON!A MEEiTS HIM AS SHE IS GATHERING
BILBERRIES. ~ifEM, OF THE UNNATURAL
WITCH,STORM AT HIS GRACE'S FUNERAL,
AND HOW DU1,KECASIMIR REFUSES, IN CON,
SEQUENCE, 'Ij,O SUCCEED HIM.
OW Barnim the T enth succeeded to that
very duchy, about wbich he bad been so
wroth the day of the Diet at Wollin, but it
brought him líttle good. Hewas,however,
a píous prínce, anel mucb beloved at his
dower of Rugenwald, wbere be spent bis
time ín rnaking a líttle library of all tbe
Lutheranhymn,bookswhicbhecouldcol,
lect, and these be carríed wíth him in bis
. carríage wherever hewent; so that his sub,
jects of Rugenwald, sbed manytears at losing so pious a ruler..@
Item, tbe moment ~is Grace succeededto.the government, he caused
ali 'the courts to be ,e,opened, along w,tb the T reasury and the
Cbancery, whicb h'is deceased Grace bad kept closed to the last; &
for this goodness td\.vards his people, tbestatesof the kingdom pro,
mised to pay ai! hi~jdebts, whicb was dane; & thus lawlessness and
robbery were crus~ed in .the landJll'But woe, alas! Sidonia can no
man crusb ! Sbe wrpte immediatelyto bis Grace, solícíting the pra,,
benda, and even prbented.berself atthe ducal houseof Stettín; but
bis Grace positivelf refused to le.yeyes on her, knowing bowfatal a
meetingwítb ber bad proved to eachofhis brothers, wlio no sooner
met her evíl glanc.; tban they sickened and died,STberefore bis
H.ighness held ali &!dwomen in abborrence. lndeed, sucb was bis
s, 1 :257
11.lKclmsoott Pr=,
182. Uma.pãgilllldt llllllivro im('l;!':ll&O

199
homem que trabalha. Também aqui a diferença de devemos Uvrar-nos, mas sim da grande máquina intangível
tom entre Ruskin e Morris deriva, parcialmente, do da tirania comercial, que oprime a vida de todos nós. 43
modo como os dois abordam a obra de arte; o pri-
meiro vê o objeto terminado e. é induzido a refletir As ambigüidades teóricas e práticas de Mortis
para separar seus vários aspectos; o segundo dedica-se explicam-se, além de pelas origens de sua cultura, por
à produção do objeto, e a experiência da unidade des- alguns aspectos de seu temperamento. Não obstante
se ato fornece-lhe a convicção de que os vários aspec,, suas aspirações democráticas. Moreis é intimamente -
tos devem brotar de uma única realidade. especialmente no início - um esteta enamorado da
beleza em suas formas mais raras e requintadas; assim,
Morris define a arte como "o modo pelo qual o seus objetos tendem sempre a ser superdecorados, por
homem expressa a alegria de seu trabalho" u nega uma espécie de complacência na efusão de formas e
que exista algo como a "inspiração" e a ri=solve na c;ores. Foi observado também 44 que as imagens saídas
noção de "ofício". Contudo, é exatamente nesses de suas mãos são rigorosamente bidimensionais, com
conceitos que ele discerne a justificativa para ~a re:- exclusão de todo efeito volumétrico, e essa limitação
futação da produção mecânica; a máquina, com efeito, impõe um caráter convencional a boa parte de seus
destrói a "alegria do trabalho" e aniquila a própria produtos.
possibilidade de arte. Como Ruskin, ele condena todo
o sistema econômico do seu tempo e refugia-se na con- A sensibilidade de Morris leva-o a apreciar não
templação da Idade Média, quando "cada homem que a realidade diretamente, mas a imagem da realidade
fabricava um objeto fazia ao mesmo tempo uma obra refletida nas formas da cultura; seu amigo Swinburne
de arte e um instrumento útil". u diz a seu respeito que "foi sempre mais verdadeira-
mente inspirado pela literatura do que pela vida". "'~
Sob o aspecto político, Morris associa a produ-
-ção mecânica ao sistema capitalista,. e por conseguinte
Para ele é natural fazer referências à Idade Mé-
pensa que a revolução socialista deterá, ao mesmo dia, ao expor suas idéi1i5sobre a organização do tra-
tempo, a mecanização do trabalho e substituirá os balho, ou imitar os motivos medievais em.suas tapeça-
.grandes aglomerados urbanos por pequenas comunida- rias ou em seus papéis omàdos, uma vez que somente
des, onde os objetos de utilidade serão produzidos por a referência histórica permite·lhe adquirir familiarida-
de com as idéias e com as formas. Nisso, ele está pro-·
processos artesanais. Assim, também seu socialismo fundamente de acordo com a cultura de seu tempo,
toma-se utópico e inadequado para enfrentar os pro- com.Ruskin, Tennyson, Browning, Burne Jones e até
blemas reais dos últimos decênios do século XIX. mesmo com Gilbert Scott.
Todavia, também nesse ponto, a experiência prá- Seu enorme mérito, em relação à cultura vitoria-
tica termina corrigindo, em parte, a teoria; não obstan- na, é o de ter seguido, na teoria e na prática, a coe-
te os esfoços de Mortis em admitir em suas oficinas rência de um raciocínio corajoso e inovador, sem de-
somente procedimentos medievais, uma série de pro- tei:-se em compromissos e sofrendo pessoalmente as
dutos - especialmente tecidos - têm de ser traba- contradiçõesparciais entre o raciocínio e suas incli-·
lhados à máquina e, em seus últimos escritos, parece naÇões naturais e adquiridas.
que Morris atenua sua rigorosa refutação, admitindo
que todas as máquinas podem ser usadas de maneira Exatamente nessa linha é decisiva a experiência
útil, enquanto são dominadas pelo espírito humano: prática: na teoria, todas as adaptações funcionam, com
sagacidade oportuna, porém Morris está empenhado
Não digo que devamos ternler a abolir todas as mãqui· tão sinceramente em. suas escolhas intelectuais que não
nas, cu gostaria de fazer à máquina algumas col$ll$ que agora hesita em pô-las a prova confrontando-as com a reali-
são íeilll$ à mão. e fazer .à. mio outros coisas que 3&()1"asão dade, mesmo sabendo que, assim, todos os pontos fracos.
feitas à máqui{la; em breve, deveremos ser os senhores de se destacam.
nossas IIllÍquinllS, não os escravos, como somos agora. Não
é desta ou daquela máquina tangível, de aÇO ou de latão, que 43. "'Art. and its Produceres", conferência proferida na
National Associátion for·Ute Advancement of Art, em Liver·
41, , "Art under Plutocracy", confer!ncia proferida no UDi· pool, 1888, em 011 Àrt und Socia/i.tm cit., p. 216.
versity College de Oxford em 14 de novembro de 1888, em 44, P. F., no fascículo SObre William Mor.is do Vic10-
011 Art ruul Soci'alism cit,, p. 139. lia and Albert Museum, 1958,
42. On Arl and Srx:ialfam cit,, p. 71. 45, Cit. cm Tliieme Becker K. L., v. 25.

200
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183, 184, 185, 186. W. Crane, motivosdecorativo&deLbteandF01111, 1902.

201
Esse empenho fundamental explica também a evo- quitetura a ver a relação entre cultura e vida em sen-
lução do pensamento de Morris. Na juventude, aban- tido moderno e a lançar conscientemente uma ponte
dona a idéia de ser arquiteto, porque constata que a entre teoria e prática, embora tanto sob um aspecto,
arquitetura de sua época é um exercício gráfico, pri.- quanto sob outro, tenha sido precedido por outros.
·vado de ligações com a relação elementar entre ho- Se comete alguns erros, indica entretanto o caminho
mem e construção, e dedica-se a tomar mais clara ao longo do qual encontrar-se-á necessariamente tam-
·essa relação em suas origens, no campo das artes bém a correção de seus erros; neste sentido, pode
.aplicadas. ser considerado, mais do que qualquer outro, o pai
Mais tarde escreve: do movimento moderno.

Percebi que as causas do aspecto vulgar da atual cultura e) Os Sucessores de Morrj:r


-eram mail; profundDS do que pensava e, pouco a pouco, fui A obra de Morris, graças a seu preconceito con-
levado à conclusão de que todos c55es males ~ão apenas a
-expressão e;,i:terna de uma ausência fntima de bases morais,
tra a indústria, não consegue influenciar de pronto a
.às quais somos impelidos pela fori.a da presente organiza~o produção inglesa em seu conjunto e permanece uma
:social à qual é inútil tentar remediar externamente. -1.11 experiência circunscrita a uma elite aristocrática.
Por ta1 razão, é ele levado a participar da vida Todavia, através do Art Workers Guild e, sobre-
·política ativa e a trabalhar no movimento socialista. tudo, através das exposições de Arts and Crafts come-
Moreis parece-nos hoje, de um lado, antiquado, çadas em 1888, MOrris atrai um bom número de arte-
-do outro, vivo e atual. Sua produção artística é admi- sãos e de empresários ingleses; nos últimos quinze
rável, porém muito distante do gosto atual, não so- anos de sua. vida, ele não se pode considerar como
mente em virtude da imitação estilística, dos tons es- um inovador isolado, mas sim como o inspirador de
curos, da carga decorativa, mas também pelo indício um vasto movimento.
literário que a destaca, 1ogo de início, da vida con- A distância entre o mundo da arte e o do indus-
creta. Segundo -umcritico recente, "suas tapeçarias, trial design é diminuída decisivamente por mérito seu.
livros, ladrilhos, t.apetes, as miniaturas e os vitrais po- "Aquela que, por meio século, havia sido considera-
licrômicos eram peças de museu desde que nasce- da como uma ocupação inferior - escreve Pevsner
J'am" u, e ainda agora, quem visita o Victoria and - transformou-se novamente em uma tarefa nobre e
Albert Museum, passando das seções medievais para digna." 411 Ao mesmo tempo, abre-se caminho para
a sala dedicada a Monis, não tem consciência de uma uma outra idéia fundamental de Morris, o espírito de
diferenciação sensível, nem uma sensação de proximi- associação, e cada artista que entra no movimento
-dade muito mll!or em re!ação a nosso tempo. não se fecha em sua experiência, mas sim preocupa-se
Seus escritos estão repletos de frases brilhantes e em düundi-la e transmiti-la por meio de organizações
-elejuízos acurados, que chegam mesmo a parecer vir apropriadas.
de um mundo longínquo e diverso do nosso; o tom Em 1882, surge a Corporação de A. H. Mack-
profético, o contínuo apelo aos sentimentos, a tendên- murdo, em 1884, a Associação Artes e Indústrias para
,cia a generalizar os juízos, tornam difícil um diálogo a Casa e, em 1888 (ano da primeira exposição de
·entre Monis e o leitor moderno. Os problemas sur- Arts and Crafts), a Associação e Escola de Artesa-
gem formulados de um modo por demais literário e nato de Ashbee.
as soluções por vezes são de ordem puramente verbal:
como quando se espera o fim da arte, por culpa da Dentre os continuadores de Morris, as figuras mais
civilização industrial, e prenuncia~se um retomo à bar- importantes são W. Crane, discípulo mais fiel e her-
bárie, para que o mundo volte a ser "belo, intenso e deiro direto de suas iniciativas na Arts and Crafts
-dramático". 43 Exhibitions Society, C. R. Ashbee, W. R. Lethaby e
C. F. A. Voysey, os quais se ocupam também de
Muitas outras obras e escritos seus merecem ser arquitetura. R. Norman Shaw não possui relações de
exemplificados; Morris é o primeiro no campo da ar- trabalho com Morris e seus continuadores, mas segue
a mesma inspiração cultural e é a figura dominante na
46. 011 Art and Socialism cit., p. 7. arquitetura inglesa durante os últimos decênios do
47. H. JACKSON,na introdução a 011 Art Wld So,:iaUsm século XIX.
cit., p. II.
4&. r: w. MACX.UL,em N. PEVSNER,op. ciL, p. 7. 49. PEVSNER,N. Op, cil, 1 p. 34.

202
187. C. F. A. Voysey, tecido estampado, 1900 (Victoria and Albert Museum).

203
Em torno àqueles, uma multidão de outras figu- quitetos mais jovens, muitos dos quais passam por seu
ras - Bamsley, Benson, Cobden-Sauderson, Day, De estúdio como aprendizes,
Morgan, Dresser, Gimson, Gordon Russel, Powell, William Richard Lethaby (1857-1931) aprende o
Walker - dá novo impulso a cada ramo das artes ofício de arquiteto exatamente no estúdio de Shaw,
aplicadas, desde os têxteis até a estamparia, mobiliá- entre 1880 e 1892, a fim de dedicar-se mais tarde ao
rio, cerâmica e vidros. ensino de desenho e de História da Arquitetura. Ele
Walter Crane (1845-1915) (Figs. 183-186), fi- desempenha um papel importante na fundação da Cen-
lho de um pintor, forma-se sob a influência do grupo tral School of Arts and Crafts e toma~se seu primeiro
pré-rafaelita; de 1859 a 1862, aprende a técnica de diretor, de 1893 a 1911. Também é professor e dese-
incisão em madeira no estúdio de W. J. Linton e de- nho no Royal College of Arts até 1918.
senha as ilustrações para muitos livros, alguns dos Charles Robert Ashbee (1863-1942), arquiteto e
quais impressos na Kebnscott Press de Mortis; por decorador, funda em 1888 uma Corporação para o
muito tempo, fornece regularmente os cartoonY sema· exercício e o ensino das artes aplicadas; também. essa
nais aos jornais socialistas Justice e The Common- iniciativa, como a de Mortis, encontra graves obstácu-
weal (que é dirigido por Morris entre 1884 e 1890), los econômicos e de organização; talvez em conseqüên-
mais tarde reunidos no volume Cartoons for the Cau- cia dessa experiência a posição teórica de Ashbee é
se (1896). A partir de 1888, dedica grande parte de modificada e ele reconhece, em primeiro lugar, que o
suas energias à associação Arts and Crafts e à difu. movimento pelo reqaschnento das artes aplicadas so-
são das idéias do movimento. Em seus escritos, Crane mente pode ter êxito abandonando-se a tentativa de
aceita fielmente quase todas as teses de Mortis, inclu- ressuscitar o artesanato medieval. Em 1911 escreve:
sive a: valorização do artesanato e a desconfiança pela "A civilização moderna apóia-se na máquina, e não é
indústria e, em sua produção pessoal, atenua o grave possível estimular e encorajar validamente o ensino
medievalismo de Morris, em P.arte também por influên- artístico sem reconhecer essa verdade". n
cia das gravuras japonesas às quais dedica muito in- Charles A. Voysey (1857-1941) é o menos dedi-
teresse. cado como teórico, mas o mais dotado como tempera-
Richard Nonnan Shaw (1831-1912) tem ames- mento artístico. Em sua arquitetura, como nos nume-
ma idade de Morrls; na juventude, depois de um pri- rosos desenhos para móveis, tapeçarias, trabalho em
meiro período de aprendizado, viaja por alguns anos metais etc., existe um frescor, uma liberdade das imi-
pelo continente e, em 1856, publica o material gráfico tações estilísticas que se diferenciam completamente do
recolhido na França, Itália e Alemanha; 110 depois estilo Queen Anne de Shaw, bem como do medieva-
entra para o estúdio de Street, onde encontra Morris. lismo de Webb e de Morris. Além disso, desaparece
A partir de 1863, exerce a profissão por conta própria, a minúcia gráfica, que nos desenhos de Mortis era
e logo toma-se um dos projetistas mais famosos da quase o símbolo do cuidado manual e da exclusão dos
Inglaterra. Shaw não abandona substancialmente o processos mecânicos de fabricação: os desenhos de
princípio da imitação estilística, mas escolhe no reper- Voysey são precisos, simples e sintéticos, em pleno
tório da tradição os estilos mais simples, onde o apa- acordo com as inclinações do meio mecânico de repro-
rato decorativo esteja reduzido ao mínimo e a referên- dução (Fig. 187).
cia histórica seja menos evidente: em um primeiro Os dois aspectos mais importantes, executados
momento, o Renascimento elisabetano, depois, o estilo pelos continuadores de Morris, são a superação do
Queen Anne, Em algumas de suas últimas obras, o preconceito contra a indústria e o abandono da imita-
estilo está verdadeiramente reduzido a um verniz muito ção estilística, sobretudo no desenho industrial. :e
fino, apenas suficiente para tornar aceitável a imagem tanto mais significativo, para nosso relato, que a acei-
à cultura romântica da época, e o que conta são as su- tação dos métodos mecânicos de fabricação não seja
perfícies ininterruptas de tijolos bem assentados, os obtida at1avés de uma evolução do pensamento teórico~
contornos brancos das fissuras, os elementos funcionais mas como conseqüência de experiências práticas; e é
dispostos ordenadamente. Shaw é importante, depois, oportuno observar que os mais convictos defensores
pela ação de formação q_ueexerce na geração dos ar- da indústria - particularmente Ashbee - trabalham
também como arquitetos.
50. SlLI.W, R. N. Architectuml Sketches from 1he C011-
1lnent, Vlews and Detalls from France, ltaly and Germany. 51. Slwuld we stop Teachlng An7, Londres, 1911, p. 4,
Londres, 1872. cit. em N. Pl:VSNER, op. cil, p. 10.

204
O abandono do medievalismoe do caráter pesado paredes são cobertas com tapeçarias e papéis omados::
e compacto da decoração pré--rafaelita está ligado ao com tramru; decorativas compactas.
abandono do preconceito artesanal; 6 provável, contu- O êxito da arte chinesa e japonesa é incluída, ge-
do, que existam causas concorrentes: a influência de ralmente, no historicism dê fins do século XIX; con-
Whistler, o êxito da arte japonesa e do Extremo tudo, a distância entre os princípios da arte do Extre-
Oriente, e, mais tarcte, o exemplo dos movimentos de mo Oriente e os da tradição européia é tal que os
vanguarda na Europa. exemplos desse gênero agem em um sentido libertador
Whistler é asperamente criticado por Ruskin e sobre os hábitos de visão e sobre o gosto dos artistas
Morris e, em 1878, o pintor chega mesmo a interpor ocidentais, muito mais do que os produtos da arte
uma ação de! difamação contra o autor de Fors clavi- européi~ antiga. Essa função principalmente negativa
gera. :a sobretudo uma polêmica de princípios, uma de apressar a decadência da sujeição aos estilos histó-
vez que Ruskin e os pré·rafaelitas estendem o empenho ricos é demonstrada também pelo fato de que cada
artístico ao campo moral e social, enquanto Whistler, escola utiliza os estímulos da arte oriental para finali~
como os impressionistas, sustenta a arte pela arte e dades próprias, por vezes contrastantes: os impressio-
ridiculariza as intenções reformadoras de Mortis nistas, os pós--impressionistas, os criadores da art
("seria como se eu me pusesse a fazer um quadro para nouveau.
persuadir os bêbados a se tomarem abstêmios"). 52 Devem ser considerados com.atenção, finalmente,
Aos olhos de Mortis, a simplicidade e a sumariedade as relações com os movimentos europeus. Não hã
de Whistler formam uma coisa só com sua ambição de dúvida de que o movimento inglês possui um desenvol-
artista puro. Todavia, com um certo distanciamento vimento particular, diverso dos movimentos europeus,
no tempo o gosto de Whistler pelas cores claras, for- e que a influência mais importante vai da Inglaterra
mas simples e decoração sóbria pode ser assimilado para Europa, e não vice·versa, ao menos até o final
pelos continuadores de Morris, ao mesmo tempo em do século XIX. .Por essa razão convém falar desde
que o medieva1ismo de Mor.is e de Burne Jones parece já de Voysey e Ashbee, não obstante ambos sejam
antiquado. Decorando em 1878 a White House de mais jovens do que Van de Velde e Horta e trabalhem
Tite Street em Londres, Whistler deixa as paredes lisas, simultaneamente com os mestres da art nouveau. En·
pintadas em branco ou amarelo, pendurando somente tretanto, não se pode excluir unía influência decisiva
poucos quadros e gravuras com finas molduras escuras; da produção belga e alemã nas artes aplicadas inglesas
os ambientes internos de Voysey assemelham-se mais no período posterior a 1900. E.sse problema será
a esse exemplo do que aos préMrafaelitas, onde as tratado mais amplamente no Cap. 9, quando se tentará
precisar os limites da influência européia da ort nou-
veau.

52. Nas Whisller Stories, reunidaspor D. C. SEITZ.

205
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188, 189. San Francisco na épocadoi pioneiros e boje.

206
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TERCEIRA PARTE:

A CIDADE INDUSTRIAL NOS EUA


191 Wakefield ' y·1rg.,casaoataldeWashingID
190.
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· 8 ethJelmq ' p cm il V<W..1a{fundadaem1741).
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7. A TRADIÇÃO AMERICANA

EM 1781 os Estados Unidos obtém sua indepen-


dência e separam seu destino político do destino dos
especialmente da Inglaterra, mas sofrem profunda$'.
modificações ao se adaptarem ao novo ambiente.
outros &tados europeus. A partir desse momento,no Os colonos no século XVII não encontram, no
entanto, as relações culturais tornam-se.muito vincula- novo ambiente, nenhuma· tradição de construção utili-
das; não se pensa mais nos EUA como num siiiiples zável, e esforçam-se por. reproduzir os sistemas de
espaço aberto aos interesses e às competições do Velho construção nonnais em seus países: o muro em pedra
Mundo, mas sim como uma nova realidade, presente ou em tijolos e a carpintaria em madéira (Figs. 190 e
na cultura européia pelo menos tanto quanto a Europa 191). -
na memória dos antigos colonos. Há, no lugar, materiais em abundância, enquanto
De fato, aquilo que acontece no outro 1ado do são escassos os braços e os msfrumentos para traba-
Atlântico não pode ser considerado como um simples lhá-los. Por esta razão, faz-se um grande esforço no
~ dos acontecimentos eurnpel!s; os elemen~-:- sentido de~ obras, seja organizando indus-
Çâo comum, importadÕs para o novo ambiente, trifilm&.ntea preparação dos materiais - · até a··metãcle
desenvolvem-se de modo diverso e muitas vezes mais áo século XIX surgem, ao longo dos rios do Leste,
veloz.mente, revelandÕõeãiitemlro algumas conseqüên- as serrarias mecânicas, capazes de fornecer madeira já
cias que valem para todos. A arquitetura americana, cortada em grande quantiCade e a ptodução Ce tijolos
não obstante a tradicional submissão aos modelos euro- e telhas é logo concentrada em. poucos mas gcaudes
peus e a aparente desproporção entre aquilo que toma fomos - · seja selecionando e repetindo sem receio de
e aquilo que dá à Europa, encontra-se de fato mais monotonia as soluções · rendosas.
avançada do que a ~m pelo menos d~~ A construção e madeira d onstra ser o melhor
síões: no decem 1880--1890 depois da ~ sistema, uma vez que e realizar nas pficinas o.
Guel"ra Mundi maior número de operações deixando pouca coisa a ser
1..-..--2o o, é indispensável expor aquilo que acon- feita nos canteiros, diminuindo o tempo e o dispêndio
tece nos EUA até o século XIX (Caps. 7 e 8) antes AAenergia.- Mas os sistemas de construçãoeuropeus
de abordar os movimentos de vanguarda europeus do logo se revelam inadequados às c_ondições climáticas
último decênio do século (Caps. 9-11). mais inclementes: as casas européias são feitas com uma
~trutura de madeira, contra o vento, que se vê da pai:te
illterna e ,da parte externa e que é preenchida com
·1. A arquitetura colonial painéis de alvenaria leve; no entanto, uma estrutura. à
vista não poderia suportar os rígidos invernos e os.
Os elementos da tradição americana, como é verões quentes do Novo Mundo, nem o tamponamento
,óbvio, provêm dos países, de origem dos imigrantes· e leve po'deria defender os habitantes dos rigores do

209

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clima, e por essa razão a estrutura é escondida do lado cos baseiam-se na idéia de ~tender·à totalidade do orga-
de fora sob um manto de tábuas dispostas como telhas nismo urbano os critérios de pgsQectiyadJ,Uecoman-
na forma. de trapézio, para cobrir a casa, e muitas vezes dapi a composição de um edjffcm; freqüentemente é de-
também é escondida pelo fado de dentr9 sob um segun- fato um edifício dominante que comanda a composi-
do revestimento mais leve; a alvenaria intermediária é ção, e a cidade ou o bairro apóiam-se sobre os eixos
gradualmente abolida a fim de formar uma cãmara_de ~ saem do edüí9"0. Isto exige que o conjunto seja
2a!:_$ enfim, o sistema de IJlOlltantes, traves e ~- não apenas geometricamente regular como também
menta é tratado como um e~ solidá- apreensível perspectivamente como uma unidade pre-
rio, adelgaçando ·os montantes e as traves e fazendo cisa, gue !1ºrma1me • · muro_JlUC cir-
as tábuas participarem da estabilidade do edifício. cunda a . Nos EUA existe a regulaniiade mas
não a "e arq ·a de perspectiva; a rede viária surge
As aberturas continuam a ser pequenas e distan-
incliferen , poucos elementos singulares - uma
ciadas umas das outras, para não enfraquecer as estru-
turas e pe1a düiculdade em encontrar vidro; o ·aqueci- via mais larga, uma praça ou um edifício importante --
simplesmenteinterrompem o tecido uniforme, sem pro-
mento no inverno exige grandes lareiras, que tam:tJém duzir nenhuma i(!.tensificação perspética na vizinhança;
são aproveitadas"' como apoio da construção, -ancõran-
o organismo é provisoriamente lim1taãõ'põrêonfins
do-se ao redor dela as estruturas leves em madeira; naturais ou por linhas geométricas, mas é aberto em
para a defesa contra os calores do verão tem-se os
todos os sentidos e as vias são desenhadas de modo· a
g6rtiços e as arçad~ (Fig. 191). O problema do
sugerir uma possível continuação indefinida na direção
a.q_úecimentoe da ventilação continua a preocupar in·
dos campos circunvizinhos. ·
tensamente o~ colonos; Benjamin Franklin, em 1774,
inventà. uma estufa em ferro gusa - que, entre outras,. Querendo procurar um termo europeu de com-
tem a "Vl!Oiagemde ser fabricada em série - e estuda, paração vêm à mente, mais do que as cidades barrocas,
várias vezes, a possibilidade de um verdadeiro condi- os bastúles tardo-medievais como Montpazi.er; natural-
cionamento do ar. mente,· não há aí nenhuma relação direta, mas uma
notável coincidência de circunstâncias: no século XIII
Quando há margem para uma caracterização esti- na Europa, assim como no século XVII nos EUA,
lística, adota-se o reE_ert6rio clássico, na versão inglesa ·há um problema de colonização, e também uma von-
contemporânea; sobrevivem nas ciêlàdes americanas do tade de economia material e· mental que produzem
Leste vários edüícios públicos da era colonia1, como o resultados em parte análogos.
Independence Hall (1730) e a Christ CJíurch na Fila-
Descobre-se a verdadeira natureza desses planos.
délfia (1750), projet{ldos de modo correto e seguindo
am~os considerando não os projetos, mas o ~
os padrões. da melhoi: produção inglesa da época; mas ceaimento de aplicação. Um europeu logo traduz o
nas cidades americanas não existem edifícios medie-
projeto em termos arquitetônicos, como se se tratasse
vais à vista a lembrar outras posstõilidades, nem um de um projeto de um conjunto de edifícios, enquanto
debate çultural -q_ue ponha em oposição os vários que a Penn não interessa projetar um conjunto defini··
estilos históricos; as formas ani,uitetônicas ressentem,-se
do de construções, mas apenas estabelecer uma corres-
desta situação ç_adquirem ulDa espécie de certeza e pondência biunívoca entre certos númerns e certas por-
~ntãneidade, "exatamente quaildo na Buropã'elas ções" de terreno. Qwus objetos e quais atividades se
se vêem sob as dúvidas insinuadas pela cultura histo- devem localq;ar. em quais terrenos não se diz e não é
ricista. fixado de antemão e, de fato, estes podem mudar con•
As tendências já existentes na arquitetura amerl- tinuamente; permanece fixa, no entantõ, ~a quadratura
cana podem ser avaliadas ~lhor conside- do terreno segundo um dado módulo, e a' aplicação de
rand,o-se os organismós da ~eloníal. Muitos são um certo número invariável a cada pequeno quadrado
feitos segundo planos geométricos regular~, como Q (Fig. 198). Este sistema serve para indi"~lduar os edi-
traçado por W. Peen para a Filadélfia (1862), igual, fíclos de uma cidade, mas após a 'Land-.Qrdinance de·
na aparência, aos sólidos p1anos 1:ianocos na forma de 1875-serve também - aumentando o módulo - para
tabuleiros .de xadrez (por exemplo, com? o de ·Man-· dividir a pro·priedade agrária (Fig. 200) ou mesmo -
nheim de 1699), e sem dúvida inspirade PD termos usando como retículas os meridianos e os,_Paralelos -
gerais nesses modelos (Fig. 197). para delimitar os Estados da ConfederaçOO.
Mas··as düerenças entre os dois modos de pensar Destes planos decorre, de modo evidente, um dos
aparecem de modo claro, Na Europa, os planos barro- caracteres da tradi ao americana. Alguns-elementos.

210 \A;;) uA-~<IMVIM>


192, 193, 194, Ca;ade W,ashington ein Mount Ven1on
195.BOSC(lbe)
, no condado de w-~,. · Yckma;m,1792)•
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211
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~odO-rigoroso-e invariável,mas apenas abastada, Jefferson conhece bem a Europa, é Embai-


o suficiente para se ter um ponto de referência comum xador na França de 1774 e 1779 e mantém relações
e.,indis-cutí\l'et;-sõl5feestãtrama-elementartodcnJrestn· com os at,tistas revolucionários franceses, de cujo clas-
pode variar de mo~liVre, indefinido e contínuo. sicismo ideológico compartilha; é mais do· que um
simples diletanie no campo artístico: conhece com
precisão os monumentos antigos, informa-se em pri-
2. Thomas Jefferson e o classicismo americano meira mão dos progressos da cultura histórica e ar-
queológica. Sua adesão a esses modelos é irrestrita,
A s~s colônias americanas da Inglater- sendo tal, no entanto, que lhe permite distinguir
ra, entre~781, tem importantíssimos efeitos lucidamente, a todo momento, aquilo que é e aquilo
sobre a construção. que não é utilizável em sua pátria, para a qual tem
Antes de mais nada, a nova organização exige sempre os olhos voltados; nele convivem o classicismo
uma série de '!Ovos edifícios: as sedes para os novos e a adequação técnica, e não manifesta dúvidas, ao que
6rgãos políticos e admmistrativos, nos treze Estados, e parece, sobre a função de um e de outro numa futura
uma nova capital, Washington. Há também uma ur- arquitetura americana.
gente necessidade de atender às exigências da cons- Ac relação entre as regras clássicas e as regras
trução privada, em virtude da prolongada suspensão técnicas é o problema central da cultura neoclãssica,
das âtividades em vista da guerra, mas as graves con- e-ã concepção de Jefferson pertence, em linhas gerais,
dições econômicas da sociedade americana não per- a este quadro cultural. Todavia, sua problemática é
mitem por pra uma recuperação adequada, e somente diversa e mais simples do que aquela ao redor da qual
o Estado está capacitado a levar avante, entre dill- se esgota a cultura européia; dir-se-ia que as regras
,culdadesde todo gênero, um rograma de construções. clássicas são concebidas, materialisticamente, como
A a do i e nfirmada or dados de fato, e que o problema de colocá-las em
motivos de ordem politic • s formas c]ássicas estão concordância com a necessidade funcional comporta
carregadas com um signífiêâ-doideológico, como acon- não uma mediação entre duas ordens de fato mas ape-
tece na mesma época na França, e tomam-se o sím- nas uma escolha prudente entre dados materiais de
bolo da virtude republicana; além do mais, adquirem uma mesma ordem.
um valor de representação tanto mais importante llastará citar dois exemplos: enquanto viaja pela
agora que o novo Estado deve apresentar-se na ribalta França, Jefferson recebe das autoridades da Virgínia o
internacional cercado de muitas dificuldades econômi- pedido de um projeto para o novo Capitólio, e no
cas, militares e de organização. Este aspecto não deve entanto manda. de volta o desenho comentado da Mai-
ser subestimado, tendo-se em conta o realismo po1ítico son Carrée de Nimes, considerando o pedido como
dos governantes: "uma ocasião favorável para que se introduza nesse
Os EUA deviam ter tempo para crescer, e espaço para Estado o mais perfeito exemplo da arquitetura
expandir-se, e nenhum estratagema para temporizar ai; arro- antiga";:: assim, quando constrói a Universidade de
gantes nações do Velho Mundo era demru;iado pequeno para Virgínia, faz o projetoem estilo cnríntiormudando-o a
ser deixado de lado, Uma •bela capjta] para Je4.:ebi:rdecen· seguir para o jônico, uma vez que deve ensinar os es-
temente os diplomatas estràngeiros era uma necessidade real cravos negros a esculpu: as colunas, e considera o capi-
nos pérfidos e perigosos alicerces da diplomacia intcmaçional, tel cõrffil:iõiiiüitõãiljêil de ensinar.
Uma ceia corno deve 5er, em ambientes bem projetados e
bem mobiliados, podia &efVir para dissimular, se não para Em 1782. descrevendo as con~ições da Virgínia,
esconder,a tQtal ausência de uma frota. Uma mesa generosa lamenta o aspecto irregular e inculto da arquitetura, e
com vinhos esc())hidos podia contrastar com as tristes vozes faz votos para que seja introduzido o estilo clássico:
da bancarrota, e ediffcios pilblicos como a State Housc de
Richmond parcia1mente corrigiriam a rode impressão das Dar simetria e bom gosto a estes edifícios não significana"
cabanas de tronco nos bosques de pinheiros, '- aume~íl!lto. lnJplicaria apenas uma mudança da
forma e dâ- éombinação dos membros. hso custaria bem
Thomas Jefferson (1743-1826), o pai ·da demo- menos do que a profusão dê ornamentos bárbaros [são as
cracia americana, personifica esta situação na sua dupla decoraçõesgeorgianas] com os quai11 estes edifícios são muitas
,qualidade de estadista e de arquiteto. De familia vezes carregados. Mas os primeiros princípios da w:te são-

1. FlcHT, J. M. Amedca11 bulldlng. Boston,1948,p. 37, 2. Cit. em 1. M. FICHT, Qp. cit., p. 40.

212
196. Ediffi:ios pliblicos de Cambridge, Mass, em 1699 (de L. C. Tuthill, History o/ Architecture, Fihuiélfia, 1848).
197. Plano de Peru,.para Flbdélfia (1682).

213
desconhecidos, e não há perto de nós um modelo suficiente- ce[tos casos, mas muitas vezes se preferiu ulJ.lizar
mente .puro para daM1os uma idéia do que seja isso. 3 algumas fronteiras naturais, como o curso de um rio.
Os mais importantes trabalhos de Jefferson - que Esta providência fundamental deixou uma marca inãê-
de fato funcionaram como "modelos puros" Pormuitas lével na paisagem urbana e na paisagem rural dos Esta-
décadas - são o citado Capitólio de Richmond, Vir- dos Unidos, generalizando o sistema do tabuleiro de.
gínia (Fig. 11), a Uniyersidãde..<lesse=mesmo--Estado xadrez já exp:rin!_ru:!!@Q.JlQ..perlOdo coloniâi. '""
e sua villa de Monticello (Fig. 201). A espontanei- O plano para Washington, projetado em 1791 por
dadê com a quâl Jêffêrson adere a este mundo de for- Pierre Charles L'Enfant (1754-1825), no entanto, é
mas confere a seus edifícios uma graça especial, des- uma tentativa de introduzir na tradicional malha uni-
conhecidas das inquietas .composições dos europeus forme os conceitos perspéticos do barroco. subordinan-
contemporâneos: constituem uma arquitetura espaçosa do a composição a dois eixos monumentais que se
.roas não monumeíltal, e a correção do projeto nao se encontram em ângulo reto às margens do Potoma~
faz em prejuízo da comodidade. b programa de disttl- enquanto que para os flancos do Capitólio e du Casa·
buição é delineado com estrema clareza, e é simplifi- Branca convergem numerosas artérias radiais, que ta··
cado de modo tal que a aplicação dos cânones clássi- lham diagonalmente o reticulado (Fig. 202). A inten-
cos se faz sem esforços e sem que se force a situação.
A adaptação do repertóâo antigo ao modo de viver
americano pode dizer-se bem sucedido até o ponto em
que isso é possível, e neste ponto Jefferson, com um

tanto, a mesma coisa não se pode dizer de seus conti-


nuadores, que logo multiplica,m através dos Estados
--
ção de L'Entant é assim.expressa numa carta ao Pre-
sidente Washington:
Depois de haver determinado alguns pontos principais aos
quais os demais se devem subordinar, estabeleci uma divisão
instintivo sentido de comedimento, se deteve. No en- regular, com. as vias que se cortam em ângulo reto,.. orienta-
das de ,nmte a snl e...do leste para o oeste; a seguir, abri algu·
mas em outras direções, como (lvenue.J na direção e a partir
Unidos as colunas, frontões e cúpu1as, às vezes adequa- de cada pr~a principal. desejando .;om Wo não apenas romper
damente e às vezes sem razão a1guma. a uniformidade....gual. •. mas sobretudo ligar todas as partes
da cidade, se posso exprimir-me assim, diminuindo a distância
Além de seu trabalho pessoal, Jefferson influi ·de real entre praças através do fato de torná-las reciprocamente
muitas outras maneiras sobre a cultura arquitetônica yjs{veis, tomando-as aparentemente reunidas. 4
americana.
:a
u ... ~ue
Bm 1785 faz aprovar J. Land Ordinance para a sica euro~imetria"
deriva da cul.tura clás-
e o "gosto" que
colonização dos territórios do Oeste, e de 1789 a 1794, Jefferson pretendia introduz'fr na arquitetura. As di-
Como Secretário de Estado, promove a fundação da mensões colossais - o eixo da esplanada principal, do
cidade de WashingtoILe o concurso para o~· Capit6lio ao rio, tem mais de quatro quilômetros de
Mais tarde como Vice-Presidente, e a partir de 1801 comprimento, sendo maior do que o do parque de
como Presidente, controla os trabalhos públicos em to- Versalhes - fazem com que os efeitos de perspectiva
da a Confederação e mantém um estreito relaciona- permaneçam em grande parte apenas na planta, pe.r-
mento com o arquiteto Benjamin H. Latrobe (1764- nd -se em ambientes não mensuráveis, e no entanto
1820), para ~quem cria o posto de superintendente dos conferem ao -1iínõtlêL'Enfant uma notável margem
• edqícios do governo fede.ral . de duração: de fato, a rede viária projetada em 1791
A Land Ordinance de 1785 estabelece que os servirá para atender as exigências ~a capital por mais
novos territórios sejam subdivididos segundo uma ma- de um século (Fig. 204). Resultados análogos serão
lha gti.entada çom os meridianos e paralelos; adequa- obtidos no século seguinti.,,pelo Barão Haussmann em
dos múltiplos e siibmíllt1plos da retícula principal Paris; é interessante 1vi:_r.:-llu~nos EUA esta virtua-
(formato de um quadrado de uma milha de lado) ser- lidade contida nas contrióuições culturais uropéias,
vem seja para definir os lotes agrícolas quanto ós terre- tendo que operar num .-ªmhiente.mais simples e encon,-.
Íl9s industriais, e mesmo a rede viária da cidade (Fig. trando menor resistência, venha à luz a!ltes mesmo.
199). Jefferson teria preferido que a malha crescesse que na própria Europa.
também em escala geográfica, a fim de estabelecer os 2 necessário ter em mente que todos os arquitetos
confins dos novos Esta4os, e de fato assim se fez em americanos ativos nesse período p!_ovenbam da Europa~

3, Note.r on the Sta.te of Vireini(I (1782) ciL em J. M: 4, Cit. em F. R. HtoRNs, Town h1tilding in hisrory,
FJCHl', op. cit., p. 35. Londreli, 1956, p. 346.

214
198. Detalhe do plano de Reading (1748, de W. Hegemann,~rikan/sche ArchiJekiurund Stadtbaulaist, 1925).
199. &quemagráfico daland ordinam:edeJeffe(S(ln(deC. Tunna:rd, The City a{ Man),
A SECTION OF" LAND-649 ACRE:5.
~------ : IC cl,aL08, 1 :3°tt..l
A rod is 16 .l4ftti. Ili rods.

A ç/tain is 6tiAet or .,_rods. 1e.aert1. 5 a.crt•


A mile 1$320 rods, 8ochainsor 5,230/1. 5°eh. !wrode
20.u:rco. ---
A square n,d is 272}{. squan fui.
An acre conlains. 1-3,560 square/ut.
"
"
" " 160 s.quare rods.
" ú aóout 208}á.fut squ,arit.
" " is 8 rorls widit hy 20 rcds. lo11g, i aa acreo.
wi
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' la clu.l1u.
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or any two 1,umkrs (of rods) wkou

1
product t's 160.
25_xu5feel equals .0717 of an acre, 10 ano. ..,

••
OF te=•=-~---< '
~
2G eh\011. 1.:i~
------ ----CCENT~R 1
$o,:Uo,.LL•up <>t• To.,n!blp wllh aojo,o,ne S"""º"J· SECTION.

UO&erQ.

215
iQ cllalno, 16~ 1od1 o: 2,GI~feet.
como Latrobe e L 'Enfant, ou tenham estudado em uni- primeira metade do século XIX. A figura profissional
I vetsidades européias; a relativa independência da arqui- do arquiteto toma-se mais precisa apenas quando é
~ tetura americana em relação à da Europa, portanto, fundada, em 1852, a American Society of Civil Engi-
não deriva do isolamento, mas de uma particular limita- neers e, em 185'/, o American Institute of Technology.
1
"I)
ção n;isfelações ;uU.urais; os arquitetos amer~
assííiülam a expenencia européia, mas levam para os
EUA apenas aquilo que ,julgam útil, com um senso
Em 1866 introduz no Massachusetts Institute of Tech-
nology o primeiro curso univers1tano de Arqmtetura
'{até então os arquitetos americanos deviam estudar
comum de medida que é, se se pode dizer; o l(erdadeiro nas universidades européias, inclusive Richardson e
,conteúdb da tradição nacional. "' Sullivan, que freqüentam. a :Scole des Beaux-Arts de
Em 1788 Jefferson escreve uma espécie de guia Paris), e apenas em 1868 aparece em Filadélfia a pri-
para o turista americano na Europa, onde estão enu- meira revista americana de Arquitetura. Neste inter-
merados os pontos dignos de interesse e aqueles que valo a arquitetura americana registra fielmente as ima-
devem ser deixados de lado. Os pontos considerados gens que vêm à luz durante a polêmica_ européia (nas
importantes são seis: primeiras décadas triunfa o r. vival gregsu por volta de
1840, com os romances de ti:~l:ott e com os escri-
1. A a_gricultura: tudo que pertencer a esta arte. , , tos de Pugin aparece ~eogótic e com ele todo o
repertório doctetet smo e as como alternativas
2. As artes mecânicas: até o pgnto em que diglLUlrespeito
formais, sem "prestar-ne ma atenção aos motivos e
a cci$8.S necessárias nos EUA, e que não possam ser
transportadas tais quais: por exemplo: forjas, pedras ta· às considerações culturais dos quais derivam: circulam
lhadas, embarcações, pontes (estas, especialmente). neste período alguns álbuns de Arquitetura, como The
beauties o/ modem architecture, ele M. Lafever, e The
.3. As artes mecânicas leves e as manufato.ras: algUmas sio pratice of architecture, de A. Benjamin, onde não há
dignas de uma visita superficial; mas seria despc=rdício
• examiná-Ias minuciosamente. nenhuma tentativa de enquadramento histórico mas
apenas o desejo de pôr em dia o leito( quanto ao gosta-
4. Jardius: Particularmente dignos de' ateor:,iíi;tpara um da épocá, tal como nas revistas de moda_Jeminina. 6
americano. '•
.5. A ~uitetura: digna de ~uita atenção, • Dado que nossa Na.primeira me século XIX os progr~sos
-pop~obra a cada vinte anos, devemos dobrar americanos n setor da construç~ão se comparam
também o número de nossas casas .• , A arquitetura aos europeus, da o e-baseiam num desenvolvi-
está entre as artes mais importantes, e é desejável intro- mento industrial muito menor. Basta pensar que em
,duzir o bom gosto numa arte tão representativa. 1850 a produção siderúrgica americana é apenas um
,6, A pintura e a escultura: demasiado caras para nossa sexto da inglesa e é mais ou menos idêntica à francesa;
con)~c:cé.icaê-i.J~ª ver, mas não para estudar.is somente entre as décadas de 30 e, 40 se difunde o uso
das estacas em ferro gusa, e apenas em 1855 se começa
~te elenco materialista, onde as artes e as técni- a produzir em Pittsburgh vigas e trilhos de ferro
cas são colocadas promiscuamente como artigos numa laminado.
.grande loja que devem ou não ser comprados, faz com Em compensação, depois de 1850 ó uso rlo ferro
que se veja, melhor do que qualquer discurso teórico, gusa se difunde ra idamente: ames Bogardus (1800·
a natureza das rela!{Ões-enke-Eumpa e EIJA. Do -1 coas r01 um grande número de edifícios comer-
pÕnto de vista europeu é fácil concluir que Jefferson e ciais em ferro gusa em Nova York e outros lugares, e
·os americanos não entendem nada; no entanto, nesta toma·se um propagandista incansável do novo mate-
sua atitude tem-se uma serenidade, um distanciamento rial, para o qual sempre propõe novas aplicações. Suas
_dos envelhecidos debates europeus-- a mesma quali- idéias são mais semelhantes às de Wilkinson, o great
dade que se encontra na arquitetura de Jefferson, com.o ironmaster setecentista, do que às de seu contemporâ~
.a l~a, te1"!2_USO,espontaneid~e - que prenun- neo Labrouste; compraz-se e.m substituir o material
ciãin a possibilidadede um novo desenvolvimento, antigo pelo novo deixando inalterada a forma estilísti-
menos sutil porém mais livre e mais aberto. ca, sem se perguntãr sobre o significado cultural da
Em relação à organizaÇão, a arquitetura america- operação.
11a permanece dependente,da européia durante toda a
---X- contribuição dos técnicos americanos é impor-
S. Ohjects for Attemion for d,1 Âmerico,1 (3 jun. 1878),
tante em alguns setores, correspondentes a necessida·
.c:it. em J. M. FICIIT, op. cit., p. 36. 6, F1CHT,J, M. Op. .cil, p. 58.

216
217
1'l)

des am~artieuia~ meios de comunicação A partir d~ugh, o rumo da arquitetura


- f~vias, telégrafo, ~n~ - e as instalações de ame e suas re~ com a Europa começam a
aqueciliiênto-e-venillição;O desenvolvimentodas fer- edificar-se enquanto surge uma organização local da
rovias,de-1&30"a- 1869 (ano em que se realiza a revistas, escolas, associações etc.), nasce a
ligação entre o Atlântico e o Pacífico) é um dos capí- idéia de ter de encontrar-se uma justificativa ideol6gi-
tulos mais conhecidos da história americana. Em 1840 ca, autônoma e nacimial, ~t,etu~~
começam,por obra de R. Mills, os estudos para o con- e ollia-se para a cultura européia não com a tranQUila
dicionamento do ar no Capitólio de Washington; em confiança de Jefferson, mascom um ansioso desejo de
1848, na Flórida, aplica-se um sistema de resfriamento emulação. No entanto;-o" rápido crescimento das
do ar num hospital; em 1844 1 aparecem dois tratados mdustrias modifica as relações econ6micas, e a socie-
fundamentais sobre aquecimento central r e sabre dade americana encontra-se inopinadamente diante de
ventilação. s dificuldades de organização não menos gravesdo que:
as européias.
A postura pragmática da cultura americana impe--
de que nasça, destes progressos, um adequado debate
de idéias. O primeiro autor americano a considerar 3. O plano de Nova Yark de 1811
os probl~as da arquitetura com espírito crí6co e a
estar conscierÍte das dificuldades metodológicas ocultas Entre a Guerra da Independência e a Guerra da
por trás do uso dos estilos históricos e por trás das Secessão, a Confederação americana se consolida e se
inv.enções técnicas é, provavelmente, Horatio Green- ;ende ao Pacífico; neste período a economia dos
ough (1805-1852). lâdõs UnidÕs baseia-se num relativo mas duráveJ
Diplomando-seem Harvard em 1824, passa vári.os equilíbrio entre a agricultul"!,.e uma moderada indus-
anos na Itália onde aperfeiçoa sua habilidade de escul- Jrialização. A urb'ãiüstica americana assenta-se agora
tor em contato com os modelos antigos, participa - em formas que permanecerão estáveis por longo tempo,
com outros intelectuais americanos - do movimento sem conhecer os conflitos profundos que agitam, na
mazziniano e volta definitivamente para seu país em mesma. época, a Europa.
1851, depois do insucesso da revolução italiana. Ho- A fundação de novas cidades é sempre um pro-
ratio aceita a disciplina formal do classicismo mas, tal blema real, à medida que a colonização prossegue.
como Labrouste e outros europeus contemporâneos, AJguns colaboradores de L'Enfant tentam transplantar
deseja deixar de lado as formas e traçar a trajetória dos para o Middle West os critérios pcrspéticos do plano
motivos intelectuais do projeto, trazendo para o .âmbito de Washington, de modo ambicioso em grande escala,
de um classicismo racionalizado as contribuições da como acontece com Woodward em "relação ao plano de
indústria e da técnica moderna. Escreve: "Por beleza Detroit de 1807 (Fig. 212), ou numa forma elementar
entendo a promessa da função; por ação, a'presençã como Ralston no plano de Indianápolis em 1821 (Fig.
ãa função; por_ carj.t<1r.._a..JlleIDôiirdCfuJ'içÃo" 9 e 213). Dessas tentativas surgem curiosos compromissos
assilllfésüihe,- em uma carta a Emerson, suas idéias entre o,conceito barroco da composi ã ·a1 e o con-
sobre a arquitetura: ceito indlgeiiada reUcula ina· erenciada; Ralston sobre-
põe à retícula quatro vias diagonais que se encontram
Esta é a minha teoria sobre a eslnttura: uma disposição no centro, onde é colocada uma praça redonda; Wood-
científica de espaços e formas, adaptados à fm1çio e ao lygar; ward imagina uma série infinita de sistemas radiais,
um destaque dos elementos proporcional à sua gradual im· isto é, adota a rosácea perspética de vias como elemen-
portâncla, em relação à função; cor e ornamentação a deci· to a ser repetido à vontade, mas seu intento, demasiado
dir, dispor e variar conforme li:is ~tritamente urgâgi=, complicado, foi realitado apenas em parte.
dando-se uma justificação precisa a cada decisão singular; o
banimento imediato de toda simula;io. 10 Exatamente por essa é "eta-se o grandioso.
plano de expansão de abandona reso-
7. Hoon, e. Wa,minc buildings. luta m s à maneira de L'En-
8. RE10, D. B. Tl!eory and PrtU:llet>
o/ Movlng Air. fant e aplica a malha unifonne em escala até então
9. Cit. em S. Gu,nioN, Spat:io, tempo e a,chitett11,a inédita (Figs. 214 e 215).
(1941). trad. Ít., Milio, 19.54, p. 207.
10. EMERSON,R. w. Compteu Works. Bos1on, 1888. No início do Oitocentos, Nova York conta quase
"· v. p. 10. 100 000 habitantes, reunidos na ponta da península de

218
219
Manhattan. A cidade desenvolveu-se até então sem de geometria analítica, e não de geometria projetiva; o
um projeto preliminar, mas agora a rapidez do cresci- solo da cidade é pensado como um plano cartesiano
menta torna necessário um plano de arbaniza~ão par@ a ser medido com abscissas e ordenadas - que, neste
toda a península. - caso, se chamam avenues e streets - com uma fina-
Uma vez que a municipalidade :1ão consegue re- lidaáe extremamente limitada: permitir a formação de
solver, ela mesma, 0 problema, volta-se para a adn.i- um certo número de lotes ou espaços divisórios,que se
nistração do Estado, que nomeia uma comissão forma- distinguem entre si através de um número, nos quais
da pelo Governador Morris, s. De White e J. Rulhl:t- possam se localizar as atividades futuras de qualquer
ford. A Comissão trabalha durante quatro anos, ava- espécie sem incômodos, e onde qualquer uma dessas.
liando com cuidado os métodos de projeto e as possi- atividades possa ser alcançada pelos serviços públicos.
bilidades de atuação, e O projeto definitivo é aprovado O problema da cidade moderna é um problema de
em 1811. coordenação; aqui, tirando-se proveito de uma relativa
• abundância de espaço, propõe-se instituir o tipo de
• Com<;>se sabe, o l;llanr'lde Nov.a Yo~k preve uma coordenação menos vinculante, isto é, propõe-se reduzir
malha uniforme_ de ~as ortogonaw sao chamadas as regras ao mínimg_s.mnpatíve1çom a necessidade
~s a~ que vao de norte a sul, em número de doze técnica da convivenda, atribuindo-se no entanto a essas
e distinguidas po! letras do alfabeto; e .c~m~m-se de tõucas regras um caráter extremamente rígido e inva-
str,eets as que ~ao de leste a oeste! ~1sti~~ por riável. Asstm, na Cõnstítütçao amencana as-regras da
numeros, que V~ de 1 ª 155, A umca via irregular onv1vência política são formuladas de modo a propi-
c=~~ári!s a q~;:id-
!,bu;lir..a::~~a di;~bt~~te::redo•eods!e ~i:~s: el~rn~;a~~~
::!~omr~f=:-~le ~
~i:ª~":e ~: e~~~=
a o , mas que aca am en e conservar em VluU e • d :t . • • • d só , f 1
dos interesses já constituídos às suas margens. Como cm o~ armais, CUJO s1gm6 ca o e compreens ve em
única zona desocupada é previsto um retângulo entre relaçao ao 1;1soque se fez e se f~ delas. , No ent~nto,
a 4i e a 7~ avenue e a 23-l-e a 24-l-street que deveria '! de~volvtmento ordenado _da vida pública e pnvada
servir como praça de armas. Mais tarcle este espaço e de1:'ado ao consen~o unâmme. s~bre estes esq~emas;
será ocupado, renquanto mais para cima será reservado tamb.em em Nova .1:o~k o prodig1os? . desenv0Iv1m~nt~
um O retângulo mais amplo para a construção do da cidade e o equihõno entre as atiVIdades que m se
ntral Parle 1858). desenvolvem dependem do fato de que o problema da
estrutura urbana é disposto do modo mais elementar,
~-.\c..-rlimensões do plano são enormes, as avenues simp:iesmente alojando as iJ)iciativas da construção de
correm em linha reta por quase vinte quilômetros, e as toda espécie nas malhas predispostas do tabuleiro (isto
streetspor cinco; os comissários prevêem que cinqüenta pelo menos até os últimos decênios, quando a escala
anos mais tarde, em 1860, a cidade quase duplicará dos problemas se verá aumentada de tal modo que o
-seus habitantes e chegará a ocupar a retícUla até a 34~ tabuleiro se revela estreito e inadequado, apresentando
street,·na verdade, o crescimento será muito mais rá- graves problemas de transformação estrutural, tanto
pido, mas o plano em sua totalidade prevê espaço pjlra mais difíceis quanto maior é a resistência oferecida
dois e meio milhões de habitar,tes, e bastará para con- pelo velho sistema; mas este ponto será retomado,
ter a expansão de Nova York até o fim do século. mais adiante).
O plano de Nova York é notável por várias
Em sua exposição conclusiva de 1811, os comis-
razões: antes de mais nada; é o E,.rimeiroexemeJo - sários dizem que hesitaram entre o sistema de tabulei-
-com exceção das cidades fundadas ex novo de uma
previsão unitária ara controlar a expansão de~a ro e um projeto do tipo de L'Enfant, com muros e vias
na forma de um círculo de raios; escolheram o pri-
CJ ade mo ema este tamanho, quan o na uropa o meiro caminho "porque urna cidade compõe-se de
mesmo problema ainda estã longe de ter chegado a casas, e quando as vias cortam-se em ângulo reto as.
esse ponto de maturidade. Por outro ]ado, a escala de
aplicação faz com que desapareçam definitivamente as casas tê~ ~imÃer°r~ta.-d~trução e são mais
comparações com os planos barrocos, e traz à luz uma cômodas' • a ta de praças e dererrenos livres é
nova concepção da cidade, baseada numa tradição justificada com um raciocínio igualmente rápido: "as
especificamente americana. eracas não são nece&1árias;vive-se nas casas, e não
Poder-se-ia dizer que o problema dos comissários 11, CÍL em P. LAVEDAN, Hl.stolre de l111'banlsme, époque
nomeados pelo Estado de Nova York é um problema eofltemporaine, Paris, 1952, p. 236.

220
-;' '

--------'
_.:..__,

202, 203, 204. Washington, plano de L'Bnfant(cópla de 1887), e duas vistasda cidade na época de Jefferson e boje.

221
nas praças". 12 Para compreender essas afirmações, quantidade de milhas quadradas de terreno. Para a América,
considere-se que a construção das casas não é consi- para a Alllltráliae par11.os outros países de civilização recente,
este sistema pode ser conveniente também para a constrnÇão
derada, como nos planos barrocos, de modo contem- das çidades. Quando os homellS se preocupam apenas com
porâneo ao traçado das vias - e portanto recupera- propagar a espécie, vivem apenas para ganhar dinheiro e só
das em uma unitária imagem prospetiva - mas sim ganhamdinheiro para viver, é-lhes indiferente ser empacotados
reenyiad~para o futuro; o edifício que ocupará um cm suas casas como sardinhas em lata. IS
deterriiiii o-posto-sêrf.,,ois, ou um casebre de um
andar ou então o Rockefeller Center. Por essa razão, ~" ,,_ homem muito mais culto do
os projetistas do plano escolhem um traçado que opo- que~de 1811, mas escrevendo este
nha o mínimo de obstáculos a qualquer tipo de trecho, oitenta anos depois do plano de Nova York,
construçoo está mais J!!stanciada do que eles dos problemas da
:a natural que os europeus, julgando com seus pa- urbanística moderna. Sitte pensa que um plano urba-
nístico é com O um projeto arquitetônico aumentado,
drões, considerem absurdo este procedimento, e tomem
esta suspensão de julgamento por ausência de julga• e não se dá contaº de que um plano regulador moder-
mento. Por exemplo, Sitte escreve, em 1889: no - exatamente pela escala diversa e pela rapidez
das transformações - ê sempre "um tema que não é
Não :se pode começar o plano de um qlomendo uibano colocado em todos seus termos". O problema consiste
çom intenções arilitío;u sem se ter uma idéia precisa daquilo exatamente em distinguir os termos que devem e os
em que ele se tornará, e dos edifícios públicos e da, praças que não devem ser,colocados nas várias escalas. O
de que deve ser dotado... Somente assim seri possível Governador Morris e seus colaboradores, no entanto,
compor 1Un-plano adequado à confignração do !lOlo ou às estavam persuadidos desde o início de que ~viam
outras circunstâncias loc!L1$e que permit;1 um desenvolvi• jetar a cidade futu a enas im or-lhes deter-
mcnto artfatico do bairro _projetado. Im~e que um na as regras, as m · · =-o-erro,
çJicnte mostre a seu arquiteto um terreno e lhe diga:
''Corutrua·me alguma coisa de mais ou menos um milhão que come em apenas de medida, uma vez que acredi-
de liru,. - "Quer uma i:asa para alugar?Q - "Níi.o" - tam poder fazer um corte seco, mantendo fixa para
uuma villa'I" - "Não" - "Talvez um estabelecimentor• - sempre a rede viária e deixando variável para sempre
"Não" e anim por diante. Seria simpleimcnte ridkulo; mas todo o resto.
isto nunca acontece, porque nin~m CODStr61sem um obje·
Disso resultou uma cidade não monótona desde o
~ lllllguém se dirige a um arqwteto sem ter uma detcrmi·
.nada intenção, sem ter um pwgrama. É apenas nas reali· início, ou demasiado ordenada, mas sim bem pouco
zai;ões urbanísticas que não se considera irracional traÇar um ordenada; de fato, viu-se mais tarde que a cidade mo-
plano regulador se~ um determinado programa; e é uatmal. derna não "se compõe principalmente de casas", mas
dado que não se tem programa nenhum, dado que não se tem sim de muitas outras coisas: femudas, mercados, lojas,
nenhuma idéia do desenvolvimento futuro do novo setor. A esçritórios, hospitais, teatros, cinemas, estacionamentos
subdivisão do terreno em quadrados igoais é a surpreendente ~. que têm escala e exigências diversas, e que não
expressão desta incerteza. Isto siJ;nifüa o seguinte: podere- põdem ser acomodados em qualquer lugar da malha
mos muito hem fazer algo de prático e belo, mas não sabe-
ortogonal, exigindo uma organização inteiramente dife-
mos o qu!; convém renunciar ao estudo deste tema que não
é colocado em todós os seus termos, e Qivídir rapidamentea rente. A nova cidade exibe o velho plano como se
superfície de modo geométrico elementai a fim de que, se fosse um vestido estreito, e a fim de continuar a viver
possa começar logo a venda do terreno a melro quadrado ••• deve ou forçar os velhos traçados - encontrando re-
Para ct1mprovar a absoluta falta de progÍãmas na base sistências altíssimas, exatamente por que até aqui tudo
desta divisão geométrica, citamos um loteamento em escalâ estava regulado como se fosse durar para sempre -
enorme, a divisão. doo Estados da América do Norte. Todo ou tentar fugir aos velhos traç11dos, passando por cima
seu vasto território está subdividido com linhas retas confor· ou por baixo deles com vias elevadas ou subterrâneas.
me os grllllll de latitude e lonsitude, sem nenhuma outra preo-
çupação ou predisposição, uma vez que quando a divisão foi O plano de 1811 continua a ser uma das princi-
feita não se conhecia a região; menos , ainda se podia prever pais contribuições à cultura urbanística moderou, e
seu desenvolvimento futuro, na medida em que a Améri~a tendo sido realizado" por inteiro trouxe à luz todas as
nio tinha atrás de si um passado e não representava aos conseqüências têcnicas, jurídicas, econômicas e formais
olhos da humanidade culta outra coisa que não uma certa de seus critérios iniciais: seu resultado é a cidade de
J2. CiL em S. G1EmoN, A Decade af New Âr~hilec- 13. SrrrE, C. L'ane dt casrruire lt clllà (1889). Trad..
/ure, Zurique, 1951, p. S. iL, Milão, 1953, pp. 124-125,

222
Nova York que hoje conhecemos, "o,,:_primeirolugar de pulares decentes. Em 1847, a Association for Impro-
mun~o na escala dos novos tempos", u ving the Conditions of the foor (Associação para a
.---x..mesma-co1iibmação de rigidez formal em âlgif Melhoria das Condições dós Pobres) apresenta um
pontos e de liberalidac\e em todos os demais caracte · projeto para uma casa popular-modelo, e cm 1855
a legislação sobre cónstruções da cidade de Nov decide construir "uma ou mais casas-modelo para as
York; também aqui, sob alguns aspectos, a experiência classes trabalhadoras, com apartamentos cômodos e
americana antecipou-se à européia, e sob outros aspec- bem ventilados, aluguéis acessíveis aos mais pobres, e
!OS,está atrasada em relação a ela. coisas semelhantes para diminuir, se possível, os
gastos". l'
Desde o início do Oitocentos, os preços dos terre-
nos crescem rapidamente em Manhattan, impelindo os Em 1876, A.T. White organiza uma sociedade
proprietários a uma intensa especulação, e desde então construtora baseada no princípio de conservar o capital
pro\l]ulgaram-se leis que proíbem a construção de edi- investido, sem lucros especulativos nem perdas filan-
fícios" que cubram inteiramente a área, sem deixar trópicas; o primeiro grupo de casas construído entre
pátios ou aberturas; prevê-se também que a Municipa- 187.8 e 1880 em Baltic Street (projetado por W. Field
lidade pode expropp.ar~;os edifícios que não sigam esta & Sons) representa um grande progresso com relação
regra, demoli-los e dar ao terreno um destino oportuno aos anteriores uma vez que os alojamentos são agrupa-
(parece que nos primeiros decênios do século esta .fa~ dos ao redor de espaços abertos proporcionais (Fig.
culdade foi usada várias vezes). ts • 223); em iniciativas seguintes - os Riverside Dwe?-
A aglomeração, no entanto, não diminui; a única lings e'm Brooklyn, em 1884 -- o espaço aberto"toma-
forma de habitação econômica na primeira metade do se um jardim, com espaço para as crianças brincarem,
passeios para os adultos etc. A Improved Dwelling
século consiste em velhas casas degradadas, nas quais
os cômodos originais são posterionnente subdivididos. Associatlon (Associação para uma Melhor Habitação)
Em 1834, um relatório sobre as condições de higiene - da qual White também participa - constrói, em
das construções de Nova York chama a atenção das 1881, um bloco de casas que aproveita melhor o terre-
autoridades para este problema, mà.s apc~as na segun- no (projeto de Vau & Radford); uma outra solução
da metade do século é que se tomarão providências: com forte densidade de construção é estudada em 1896
em 1886 é instituída uma Secretaria da Higiene, e em pelo arquiteto ·a. Flagg para a City and Suburban
1867 é aprovada a primeira lei $Obre as casas de alu- Homes Co.
guei, seguida por uma segunda lei, mais severa, em :8 inter~sante observar que. a autoridade pública
1901. Trata-se de simples regulamentos que prevêem aêeita, destas experiências, numerosas sugestões para a
certos padrões mínimos para os novos edifícios (Fig. determinação dos padrões a serem introduzi.dos nos re-
222) mas que não prevêem nenhuma intentenção direta gulamentos, mas nãó. toma nenhuma iniciativa no sen-
das autoridades. "' · . tido de apoiá-las ç,1};menos ainda, de intervir direta-
Por outro lado, a partir de 1850 são r.umerosas mente; só depois da;guerra mundial começam as inter-
as iniciatívas privadas no sentido de construir casas po- venções do Estado nà campo das construções, alteran-
do o tabuleiro imaginado para alinhar as intervenções
privadas.

14. LE CoRBtlSIEll. La 1:atastrophe íécrique. L'Archl·


ter:l11red'au}ourd'/1uf, 1938, n, 1, p. 12.·
, 15. 8ORAY,O, H. Hou5in,: and dtiz.ensliip. Nova.- York, 16· e·
1t. cm J , f ORD, SI um and H ousms,
· ---b
.........,n'd ge,
1,4 ,,. P- • 1936, apE.ndice.

223
"

205,206. Washiq:ton,a CasaBranca(J.Hoban, 1792).


"

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' ' ' '
'
1. pórtico
2. vestíbulo
3. sala de estar oriental
4.sala wrdo \111RFI..
5.salaazul
6. salavennelha
1. salade janblt oficlal
8. salade jantar familiar

224
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·. , ~ ..
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,
.,
.

208. Doisrcpra;cntativos ediffclos norte-americanos: o prlmeiw capit6Ilo de Wdrlngton (W. Thomton, e. Bo1finch e outros, tenninadQem
'2117,
1827) oa Biblioteça da Univenidadc 'de Yale (de L. C, Tuthill, op. dt.).

225
--------
'· -----
1,

20!), 210, 211. Cot'4gu em estilo p:go, j6tico e SY40


{de L. C. Tu-
tlillJ,op. eit.).
212, 21:3. Esquema dQ p]ano de Woodwant pa.taDclroit(l807)eo pla-
no de Riih;ton paralndl.tllápolis (1821).

226
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214, 215.Nova York, villil aérea e planta(porJ. Stübbcn,DuSIMtebau, 1924).

227
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216. Parte do plano de 181 J para Nova Y oík; o fal?ulclrose sobrepõe ao relevo e aos acidentes de Manhattansem perder sua uniformidade (de um ori-
ginal guardado pe]aPublic Library).

228
217. Vkta da Broadway, à altura do Canal Street (gravura de T, Horner e J. Hill).


1

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8

218. A ponte de Brooklyn (J. Roeblina;,1867-1873; de M. Schuyler,AmericalJArchitecture).

229
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- VistadeManhattan
219. ~,.,..., .. de
mbocadundapoute
na m~......, Brooklyneu m•-~<odornlifl,~
XIX. -r
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221 Nova York, e

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222. As çonstru.çõ'.csde Nova York conforme os suc.iasivo:uegulamentos e as primeiras casas populares produzidas por White em Brooklyn (W. Field
& Sons, 1878-1880; de Gray,Houstng and Citiunship, 1946).

231
"

"
8. A ESCOLA DE CHICAGO E A VANGUARDA
AMERICANA

distâncias modulares e 11(Jidaspru:....simples-rebites; as


N OMichigan,
ponto em que o rio Chicago desemboca no lago
o exército americano funda, em 1804, · aberturas, portas e janelas, são necessariamente múlti-
plos do módulo fundameatal; um estrado de tábuas
o Forte Dearbon, destruído pelos índios em 1812 e logo
depois reconstruído. Ao seu redor, estabelecem-se al- diagonais garante a indefonna!:iilidade da estrut~ra,
guns pioneiros, e, em 1830, a nova localização recebe enquanto um segundo estrado de tábuas dispostas c;:omo
a forma de cidade; não como nos tempos de Rômulo, telhas defende o edifício das intere.péries.
escavando-seum. sulco, mas por re.eiode cm.a operação Essa estrutura permite aproveitar o trabalho~
matemática e econôroica--segundo a tradição america- dustrial da madeira, em dimensões unificadas, e torna-
na, dlVldindo em quadrados regulares-uma área de s[" possível pelo balxo preço dos rebites em aço; por
cerca de meia milliã"quadrada perto da foz do rio e outro lado, abrevia o tercpo de montagem e não exige
começando a venda dos lotes. conhecimentos 'especializados; pelo contrário, é feita
A retícula é tal que pode ser estendida à vontade, para permitir que cada um construa sua casa com
e J?OI adições sucessivas - prolongando-se simples- poucos instru!Ilentos.
mente as ruas originais por milhas e milhas - a cidade Os princípios desse sistema estão contidos, em-
estende-se, pouco a pouco, até atingir, em fins do sécu- brionariamente, na carpintaria dos edifícios coloniais;
lo, 190 milhas quadradas e 1 700 000 habitantes. a invenção de Snow é uma outra aplicação típica do
Nas primeiras décadas, a cidade é construída em conceito americano do standard na arquitetura, e ainda
sua maior parte em madeira. Esse material é usado, é largamente usada, com certos ,aperfeiçoainentos, na
desde o início, de acordo co técnica particular, indústria de construções dos Estados Unidos.
que recebeu o nome de oon frame; Giedion escla-
receu que a invenção d ' eve-se provavel- o é destruída quase completamente por um
mente a George Washington Snow (1797-1870), que, 1871, quando já conta 300 000 habítan-
a partir de 1833, ocupa vários cargos técnicos na construção, a princípio hesitante por receio.
administração de Chicago, mas é ao mesmo tempo em- de novos desastres, torna-se muito intensa de 1880 a
presário e comerciante de madeiras. 1 190,0, e, no local da antiga aldeia, surge um moderno·
centro de negócios, com edifícios para escritórios,.
Trata-se de uma estrutura em que não existe a
grandes magazines, hotéis, onde são experimer..tados
costumeira hierarquia de elementos principais e secc.n-
dários, ligados através de encaixes, mas onde numerosas novos sistemas de construção, com inusitada audácia,
a fim de satisfazer as novas necessidades. Por todo o
tiras finas de dimensões unifonnes são colocadas em
sé<=uloXIX, a antiga quadricu1ação é considerada su~
1. G1ED10N, S. Spat.io, tempo e archltettura (1941). ficiente para enquadrar o desenvolvimento da cidade;
Trad. it., Milão, 1954, pp, 339-342. porém, na primeira década do século XX, sente-se a

233
necessidade de um controle urbanístico adequado à biente, os quais·observam a Europa e o debate que lá
nova escala da cidade; o plano regulador de Burnham se desenvolve, mas aspiram: diferenciar-se dos europeus
e Bennet, de 1909, é a • • tentativa pôr ordem, e realizar uma arte "americana".
nem que seja com critérios fo s s, no corpo dcl: Os edifícios altos do J.coop d~ são possi-
medido da ci(_lade,e assinala o ponto de chegada dessa
fase de explosã e · ·~es. bili1!~t~inverlçõistécnicas. - A estrutura
em aperfeiçoada sobi'etudo por Le
Baron Jenney permite aumentar a altura sem JeCelo de
1, ( escola do Chi BD sobrecarregar excessivamente ·OS pilares nos aridarea
de baixo e abrir nas paredes vidraças quase que contí-
Os protagonistas desses acontecimentos são indi- nuas, de modo que iluminem construções profundas;.
cados coletivamente com o terma"" de "escola de para suportar as cargas concentradas das pilastras, no-
Chicago". vos sistemas de fundação em pedra são propostos em-
1813 por F. Baumaü.n, 2 e aperfeiçoados até se chegar
A primeira geração, que trabalha logo após o ao "Chicago Caisson" em COD,fOOto,q~ pela
incêndio, compreende engenheiros de grande valor, primeira vez em 1894. O ~vador de seguràhça a
muitos dos quais formaram-se no Gênio militar duran- vapor, instalado por B. G. Otispela-primeira-.vez em
te a Guerra de Secessão: William Le Baron Ienney
Nova York em 1857, surge em Chicago em 1864; em
(1832-1907), William W. Boyington (1818-1898),
I.M. van Osdel (1811-1891). Dentre estes destaca-se
1870, e.
W. Baldwin inventa. e constrói em Chicago
o primeiro elevador hid • uanto em 1887 co-
Lc Baron Jenney, e os mais importantes projetistas da
meça a difundir~e elevador elé o. 11 Elevador,
segunda geração saem de seu estúdio: 'Daniel H.
Bumham (1846-1912, que trabalha com John W. telefone e correio pn -fem o funciona-
Root, nascido em 1850, até a morte deste em 1891), mento de hotéis, magazines, e escritórios de qualquer
William Holabird (1854-1923). Martin Roche (1855- tamanho e com qualquer m1mero de andares; nasce
-1927) e Louis Sullivan "(1856-1924), que se associa assim em Chicago, pela primeira vez, o arranha-céu.
com Dankmar Adler (1844-1900). Juntamente çom Um observador de 1895 escreve:
eles, devem ser lembrados os técnicos especialistas
A comtrução de edifícios para escriMrios de enorme
como W. S. Smith e C. L. Strõbel, que colaboram no altura, com estrutura cm esqueletode ferro e aço que susten-
estudo de determinados problemas estruturais. ta as paredes internas e externas, tomou-se um hibito em
A obra desses projetistas possui um acentuado quase todas as cidades americanas. Esse estilo de construção
caráter unitário, sobretudo entrê 1879 (quando Le nas~h~ que se refere a sua apli-
Baron Jenney constrói o primeiro edifício alto de es- cação prática, e essa cidade possui agora mais cdiffcios do
trutura metálica) e 1893 (data da Exposição Colom- tipo com esqueletode aço que todas as demais cidades ame-
biana}, do qual depende a fisionomia particular do ricanas Juntas. •
Loop, centro comercia] de Chicago; já disso se aper-
«liem os contemporâneos, e não sabem indicar tal ca- O
dimento
aÇ}
abstfa7o
é outra aplicação típica do proce-
,próprio da cultura arquitetônica
ráter senão usando o próprio nome da cidade. Os
protagonistas desse período possuem temperamentos americana, tal como a planta quadriculada. .8 sempre
extremamente diversos: alguns são homens de negó- julgado severo.mente quando é considerado como ~
cios como Adler; outros, técnicos urq orno Strõbel, imagem de perspectiva, pois é um dispositivo indefi-
utistas descontentes como Roo , ou ej sos de suces- nido, dl:.êtituída de eroporção e de unidade; como diz
so como Bumham. O caso e Sulliva será conside- Wright, e "um estrataea mesWco:• para "multiplicar
rado em separado; ele critica contemporâneos, as áreas afÕrtunadas tantas vezes quantas for possível
tende a distinguir-se e a inventar uma arquitetura pes-
soal como alternativa à corrente, ilustrando suas inten- 2. No opústulo intitulado Thc Art of Pnparlllg Foun-
ções não somente com as obras construídas, mas dations for AII Kinds o/ Buildings with Particular lll1mratioru
também com escritos teóricos; por tal razão, Sullivan of thc Mcthod of lsolotcd Pltrs os Followed ln Chiçago, cit.
em F. A, RANoALL, History of the Devefopmenl o/ Bullding
pode também ser considerado sob uma outra perspec- Con.struçtiOII in Chicago, Chicago. 1949, p. 18,
tiva histórica, entre H. H. Richardson e F. L. Wright, 3. Ver F. A. RA.NDALL, ()p. cit., p. 14.
isto é, com os artistas de vanguarda, polemizando com 4, Em Enginecring News; de 189.5, ciL em F. A. RAM•
a direção que prevalece em seu tempo e em seu am- DALL, op. eit., p, 11.

234
223, AballoonfranM (de Singer,AHlstory qfTechnQ/ogy, 1954-58),

224. Vista aérea do Loop de Chicago.

235
vender e revender a área do terrep.o original''. ' Quan- mérito que deriva dessa proeza de engenharia que
do, contudo, deixa-se de lado o significada deprecia- foi o primeiro a executar''. 1
tivo que deriva da comparação com os hábitos de visão Tal princípio é aplicado pela primeira vez no Lei-
tradicionais, percebe-se que tais juízos apreendem exa- ter Building de 1879, sustentado externamente por
tamente um novo procedimento menta1, o qual contém pilastras em alvenaria muito espaçadas e internamente
- por enquanto sob forma nística e embrionária - por montantes em metal, e, com maior coerência, no
um novQ.._modode ver a arquitetura, e exige que seja Home Insurance Building de 1885 (Fig. 225), que é
jul~com novos critérios formais. considerado como o primeiro edifício de Chicago pro-
Emilio Cecchi escreveu acurada.mente: "O arra- vido de um esqueleto completo em metal, embora uma
parte das paredes perimetrais conserve uma função de
nha-céu não é uma sinfonia de linhas e de massas, de
sustentação. Em 1889, com o segundo edifício Leiter
cheios e de vazios, de forças e re · ências.;.,__é,
antes, (Fig. 228) e com o Fair Building, Jenney torna mais
uma operação aritmética, uma ultiplicacãh", 3 tal preciso seu conceito de construção, reduzíndo as facha·
como o método de loteamento dos terrenos sobre os das a leves proteções, sustentadas pela rede metálica
quais surge substancialmente uma outra operação arit- interna; conserva, contudo, sempre algumas partes em
métca, uma divisão. Nem uma nem outra são reali- alvenaria compacta, com a forma de pilares com bases
dades arquitetônicas, mas contém a_~sibilidade de e capitéis clássicos - mas naturalmente fora de toda
um rma ão radical da cena arquitelônica~tradi- proporção canônica - e trata também os montantes
cional, e o princípio so re o qua se ase1am, endo o metálicos, quando pode, como pequenas colunas. O
mesmo que governa a indústria, pode servir. para har- Manhattan Building, de 1890, sobe dezesseis andares
monizar o novo cenârio urbano com as exigências da - pela primeira vez no mundo - a fim de procurar
sociedade industrial. a luz por cima de uma rua estreita; as janelas, algumas•
alinhadas com a fachada e outras salientes, são corta-
Vistas sob essa luz, as experiências da escola de
das dessa vez em uma alvenaria contínua, que é con-
Chicago são uma contrib i ã~ importante para a for-
tudo sustentada. andar por andar, pelo esquelet;o em
mação do v1mento m~ ; porém, os resultados aço.
tão promissore · -oos
no penúltimo decênio do
Os contemporâneos de Jenney têm maiores ambi-
século são logo depois dispersados, porque nenhum dos
protagonistas possui uma consciência nítida dos pro- ções artísticas e esforçam-se para elimin·ar as referên·
blemas abordados. Cada um deles bloqueia-se em um cias aos estilos hist6ricos, mas não são tão coerentes
dilema cultural que possui apenas duas saídas: ou a na invenção estrutural.
volta ao conformismo do! estilos históricos ( é o ca- Holabird e Roche constroem em 1889 o Tacoma
minho de Burnham), ou a experiência individual de Building, de doze açidares, usando uma estrutura mista
vanguarda ( é o caminho de Sullivan e, mais tarde, o de com algumas paredes de sustentação tanto internas
Wright). quanto extCQ18.s;aqui não existem elementos arquitetô-
nicos que passam de andar para andar, porém a grada-
Le Baron Jenney é um engenheiro formado na ção dos caracteres arquitetônicos, em altura, é obtida
E.cole Polytechnique de Paris; trabalha como major do por meio de uma progressiva rarefação dos ornamentos
corpo de engenheiros militares durante a Guerra de e por meio de uma espécie de ático em galeria (Fig.
Secessão, e abre seu estúdio em Chicago em 1868 jun- 230).
tamente com S.E. Loring; publica em 1869 um livro
de pranchas, Principies and Practice of Architecture Em 1891, Bumham e Root constroem o Monad-
e ensina Arquitetura na Universidade de Michigan de nock Building, de dezesseis andares, com paredes ex-
1876 a 1880. Burnham atesta que "o princípio de ternas de sustentação em tijolos; as paredes são lisas,
sustentar todo o edifício sobre uma rede metálica equi- sem qua~uer ornamento, e as supedícíes são recorta-
líbrada com precisão, solidificada e protegida contra das em c rva, pondo em evidência os efeitos volumé·
\J fogo, deve-se à obra de William Le Barco Jenney.
0-...l.n:
ponente paralelepípedo e das colunas de
Ninguém o precedeu nisso. e a ele cabe lodo o nd~.

-----
.__ysã- si ' · - · al do revestimento
S. F. L. WRIOHT. Modem An:/1iler:l11re, confcl'Cncia externo é devida à insistência do financia or, assu-
proferida na Univen;idado: do: Princeion cm 1930, trarj. it .•
Milão. 1945. com o título Arf'/1i1e1111ru e drmocwzJ11, p. 114. 7. Em E1111ill~eri11g Rc(;<)td de 25 jul. 1896, cit. cm
6. CECCHI. E. Amerim 11m11r11. Florença. 1946. p. 13, F. A. RANOALL, op. cit., p. !06.

236

-E.

225, Chicago, vista de Adam&Strect para o norte (de Rmd, McNall& Co,,Birtl s Eye Vkws and Guide to Chicago, Ul98)

Schlõsser Block, : 872


2. Home !nsurance Building (W. Lc Ba:i:on
Jenney, 1884)
J. Edison Company Power House, 1887
4. Porter Block (J. M. van ilidcl. 1873)
5. Kent .Block,. 1871
6. Nixon Building (antes do indndio}
7. Bryan Bloc:k, 1872
8. Woman's Tem.pie (Burnham & Root, 1892)
9. Welh Buildins, 1884
10. Galbraith Building (Cochrane & Miller, 1873--92)
1:. Lees Building (J. G. Rogers, 1892)
12. La Salle Building (Dixon & Hamilton, 1874)
13. YMCA Building (]enney & Mundie, 1893)
14, Seçurlty Deposit COillpany Building {C. J.
Warren, 1892),

237
226. Chicago,viSladaFifthAvenvo para oeste(de Rand, op. cit.).

l. Owings Building (O. I. Pierce, 1886)


2. Marshall, Field & Co. Building (H. H. Richiu-d-
:.on, 1886)
3. Phelps, Dodge & Palmer Buildiog, 1888
4. Williams Block. 1874
S. C. B. & Q. Railway Building, 1882
6. Hovey Buildin8. 1873
7. Carson, Pirie & Scott Building, 1875
8. Mercantile Company _Building (Bauer & Hill,
1886) .
9. Robert Law Building (J. M. van Osdel, 1887)
10. Willoughby Building, 1887
li. Boddie Block, 1883-1893
12. McCormick Block, 1887
13. Chalmers Buildmg, 1889

238
217. Chicago, vista.do Michigan Bollievard para oeste (de Rand, op. dL).

1. Auditorium{ampliação deC. J. Warrcn, 1892)


2. Auditorium (Adler& Sullivao, 1887-89)
3. Studebaker Building (S. S. Beman, 1884) ,
4. Chicago Club Building (Burnham & Rool, 1885)"
S, Victoria Hotel (G. Vigeant, 1882)
6. Kimball Hotel (F. Baumann & I. K. Cady, 1882)
7. Isabella Building (Jenney & Mundie, 1893)
8. Richardson Building, 1886
9. Siegel, Cooper & Co.'s Building (Jenney &
Mundie, 1891)

228. Detalhedo Falr BoJldlngde W. Lc B~nJenncy (delndll8trialChkago, 1891).

239
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229. Chicago, o Leiret Bulldlng de ~ Baron.Ienn(l88~.

240
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230. Chicago,o Tw::omaBuildingdeHolabird& Roclle{1889).

241
me um grande risco construindo em uma zona de peri- tonicameote esse tipo de construção e não têm a sua
feria, 9 e ~is tarde 6 assumida por. Root como disposição senão os instrumentos daquela cultura.
uma ~!~:o estétlcà; a sim licid de, por outro lado, Assim, os resultados que a n6s parecem mais impor-
é mai te do que rea pois "os tijolos eram sus- tantes são obtidos exatamente quando o empenho na
tentados (nas partes em relevo) por cantoneiras de composição é sofreado por alguma razão. Root perce-
aço escondidas, e as linhas fluidas, não naturais no; be em certa medida essa contradição quando escreve
tijolos, eram obtidas forçando o material; foi necessá- em 1890:
-rl.oconstruir centenas de moldes para fazer tijolos es-
peciais que seguissem as curvas e as inclinações". & Era mais do que inútil espalhar profusamente neles [os
edificios modernos de muitos andares] uma abundância de
Os mesmos autores constroem em 1892 o Great ornamentos delicados.. , Eles deviam, antes, com sua massa
Northem Hotel - adaptando a um grande hotel os e suas proporções'"7'
inspirar, num vasto sentimento elementar,
métodos estruturais dos edifícios para escritórios - e a idéia das forças conservadoras, grandes, estáveis, de civi·
o.mais alto edifício da velha Chicago, o Capital, tam- lização moderna. Um resultado dos métodos que indiquei
bém chamado de Masonic Temple, que atinge vinte e será a decomposição de nossos projetos arquitetônicos em·
dois andares e noventa metros (Fig. 232). Aqui a seus elementos essenciais. A estrutura íntima desses edifícios
arquitetura complica-se; o imponente volume está tornou--setão vital. que- é ela que deve impor de modo
apoiado numa base de arcos e coroado por um teto absoluto o caráter geral das formas externas; e tão imperati·
vas tomat'am--Geas necessidadescomerciais e de coru;trução
muito inclinado, de sabor romântico, onde é evidente que todos os detalhes arquitetônicos empregados para expres--
a influência de Richardson. sá·las devem colllieqücntemente ser modificados. Sob tais
O :U..eliãiiceBÜffilw.gpode ser considerado como condições,somos obrigados a trabalhar de l\lodo preciso, com.
o mais b"ê.to-arrãõliãéu de Chicago e sua história é objetivos precisos, impregnando-nos plenamente no espírito
muito instrutiva. :e.
construído por Bumham e Root da época de modo a I;(Klerdar fotma de arte a sua arqui·
tetura. 10
em 1890, até a altura de cinco anda!J.S; em 1895,
depois da morte de Root, Bumham e o engenheiro
O problema, todavia, é formulado nos próprios
E. C. Shankland acrescentam-lhe outros, dez andares~
_repetindo sem qualquer variação um mesmo motivo termos da cultura a ser renovada (m~as, proporções,
arquitetônico ,(Fig. 231). :e.
provável que o efeito ornamentos, estrutura interna e formas externas etc.);
o esforço de renovação dispersa-se assim em uma série
agradável dessa estreita torre em vidro e ladrilhos
brancos, para o espectador moderno, seja devido exata- de tentativas isoladas, inspiradas em algum aspecto
mente a esse incidente de construção, ou seja, ao fato menos usual e mais periférico da_..tradicão eclétic..ih.tal
de que o conjunto não foi projetado unitariamente, como quando Root compara o Monadnock a um "pilar
mas sim originou-se de uma operação de "multiplica- egípcio". 11
ção", como diz Cecchi; assim, o motivo simples das realismo à Jefferso graças ao qual a cultura
vidraças contínuas e das faixas decoradas repete-se
inalterado por treze vezes, sobre. a base dos dois pri-
meiros andares, e não há qualquer: tentativa de instituir
uma gradação de perspectiva no sentido da altura. Os
·críticos que tecem os louvores mais amplos ao Relian-
___
americana a nbui ao valores culturajs uma espécie de
consistência material e separada; permite aos arquitetos
de Chicago interpretar algumas exigências de um mo-
derno centro direcional de modo mnitn mais livre de-
pr.eçonceitos, e, portanto, pernúte que se façam pro-
ce, de Giedion em diante, não fazem menção a esse gressos no sentido das "forma& puras" de q_ue fala
fato. Entretanto, qual prova melhor do contraste cul- Giedion,_precedendo os arqujte.tps..euro~de alguns
tural que se encontrar sob as experiências da escola de deçênios; ao mesmo tempo, entretanto, impede-Ih~
Chicago? que tomem sistemáticos tais resultados, porquanto aqm
Os arquitetos da geração seguinte à de Le Baron entram em jogo as conexões entre os valores, que a
Jenney empenham-se no desenvolvimento de.um ppya. cultura americana não está inclinada a a reciar. Assim,
ti~ edificação 1 que contém. algumas virtualidades quando se trata e extrair a soma dessas experiências.
formais Completam.ente diversas da herança da cultura e de ordená-Ias dentro de um sistema, sob o impulso,
passada; por outro lado, eles desejam dominar arquite- as exigências urbanísticas, não resta outra coisa senão

8. H. MONROE,/, w. Root. Nova York, 1896, p. 141, 10, Cit. em H, MONROE,op. cit., p. 107, ver também S.
-dt. em s. GIEOION, op. cit., p. 362. ' GlEPION, op. cit., p. 370.
9. WJui:mr, F. L. Architettura e demoerazia cit. p. 111. 11. MONROE,H. Op. cit., p. 147.

242
231. Chicago, Rel G:ncc
Buildlng (Bumba m&
Root, 1S90w95).

243
,.

232, 233. Chic.,.go, M,=uic Temple (Bumham & Root, 1892) e People'a Gu Buildin&(Burnham & Co.; de1.
Gréber,L' Ardrite:duru,w: ÉUJtsUnis,
1920).

244
234. Vista de Chicago cm 1893,dePeter Roy.

23S, 236. Chii:ago, o plano de Bllmham e Bww.ec,1909 (de Gliber, op. cit.1, e o esquema da nova rede viária (de Layedan,HLl'toin de furbanlsnw).

245
recorrer ao ~ seja, a um si.stcm11,
'impor- nal das_DIÓprias...experiêncjaa;o que resta é justamente
tado comple o, sem ~da.de de qual- o-ecletismo -de partida e o desejado mínimo denomina-
quet mediação.
Desse modo deve ser avaliado o CP.is6dio da Bx-
pQsl;ão Colnmbiana--de1893 e a cbamadii "traiçid' de feitamen ô ·
O'°=º
dor comum. não pode ser senão o classicismo.
ento de Bumbam é, portanto, pcr-
ele interpreta da única maneira pos- /)
sível as • ncias de oq~o que nascein quando (
Burnham.
a cidadc---at:ingiu.uma certa consisíericia,enquanto Sul- o
Para a ,ComissãoArquitetônica para a ~.;, livan permanece-vm.cíílado a uma colocação individua-
são chamados alguns arquitetos da costa -~
lista. supe.mda pelos acontecimentos.
George B. Post (1837-1913), Richard M. Hunt
(1827-1895) e Charles F. Mac Kim (1847-1909); O valor normativo do classicismo de Burnham
Bumham, que é o mais categorizado arquiteto de Chi- pode ser visto claramente, considenmdo-se sua ativi-
cago, deixa-se facllmepte persuadir por eles a formal' dade urbanística. Em 1900, aniversário da transfe-
rência da capital para Washington, Burnham participa,
o complexo segundo os cânones clássicos. A Exposi- com Frederick L. Olmstcd (1822-1903), projetista do
ção tem grande êxito, e;a partir dâqilele momento, o Central Park de Nova York, da comissão encarregada
gosto do quem.,encomendae do público orienta-se pou- do ordenamento urbanístico da cidade e aconselha que
co a pouco para o classicismo, enquanto que as pe~ se volte ao plano de L'Enfant, eliminando-se as ine-
· · • • • da escola de Chicago são consideradas gularidades cometidas a seguir; depois estu.da um pI'!°o
,. muitos protagonistas do decênio pre- para S. Francisco porém seu trabalho é interrompido
p use à nova orientação cúltural, sendo pcIÕ terrellloto d; 1905, que induz a administraç.ão a
que o primeiro de todos é Burnham. que, cm 189~, for- abandonar todo projeto de grande f81ego; a parta de
ma uma nova firma (D.H.B. & Co.) e amplia ulterio~ então ele e seu associado E. Bénnett dedicam todas as
mente suas atividades (Fig. 233), enquanto ouuos, suas";nergias ao plano regulador de Chicago, promovi-
como Sullivan, têm sua carreira destruída. do pela iniciativa da Câmara de Comércio.
O juízo que se faz normalmente de tais fatos é A i"etícula uniforme da velha cidade estendeu-se
inspirado pela apreciação feita por Sullivan e Wrjght, de tal modo que algumas ruas retilíneas chegam a t~r
os quais, com o usual realismo a~ano, dão um quarenta quil6metlos de comprimento, e cumpre mm
corpo individual aos valores e consider.un a reviravolta suas funções originárias. Burnham dá ao problema
neoclássica como o resultado de uma má escolha feita uma solução fonnalista, pois sobrepõe à retícula um
por algumas pessoas,. escolha essa que bastou para sistema sunétrico de novas ruas diagonais, constando
interromper o ,curso precedente de C!J)eriência. O de um semicírculo de quase trinta e dois quil&netros
juízo negativo pode ser mann'õo, mas alz respeito a de diAmetro· (Fig. 236); porém, por trás dessa solu-
uma limitação já inerente a todo o ciclo da escola de ção surgelll problemas complexos de circulação! de
Chicago; com efeito, a pesquisa de Jenney, de Root, wneamento, de distribuição dos edifícios públicos.
de Holabird e Rache etc. não sai voluntariamente do Como no plano çantemporàneo de Berlage para Ams-
âmbito da cultura eclética, mas.força efetivamente os terdã, não se sabe dar forma definida a essas exig~n-
confins dessa cultura na tentativa de incorporar a ela clas sem tomar de empréstimo as regras da perspectiva
alguns temas novos, que contêm sugestões formais tradicional.
inéditas; isto torna-se possível graçasa várias circuns- A importância dos problemas abordados por
tâncias favoráveis, que ocorrem em Q,.icagó no nono Bumbam é demonstrada pela popularidade desta ope-
decênio do s6culo XIX: forte desenvolvimento econ6- ração: W. Moody, diretor da Comissão do plano, pre-

~
mico, boa pre~ação técnic~ alfêência de uma tradi- para um op11sculo de explicações para as crianças de
ção vinculante-como-nai:ci ades-do-Lester e falta escola, que é distribuído em 1909, por ocasião da apro-
~da-pxeseuça ambiental, R9r fQIÇa do in- vação; organizam-se conferências e reuniões ~
çêndio de ·1s71. Os resultados alcançados não são, discuti-lo, e chega a ser instituída uma festa especial,.
/lcootudo, normalizáveis, nem transmissíveis 1 e o Wlico o Dia do Plano. 12
modo coerente de extrair deles ·-uma norma geraJ, Otj.ias da J§COia de Chicago estão agora distaf!,-
quando a alteração das exigências~nômicas e funcio- tes; está êlaro para todos que a cidade 'iião pode mm
Jlais exigen:t eue passo, é ~ das CJi:periênciassin-
gulares para os pressupostos culturais p,muns; po~~· ~ Vet P, L\VEDAN, Hisloire de furbtJnisme, /poque
nessa operação, p~~ ongi.- contemporalne, Paris, 19S2, p. 2~0.

246
--- ......

9.

••

237, O plano de B1JtllN.m e DclUll't pan,.San Franci.8co (de Oubu, op. cit.

247
crescer por força de iniciativas isolad~menw um juízo abarcante de toda sua obra, assinalando
por melo.-de-uma coordenação geral adequada, embora apenas sua intervenção em Chicago e as conseqüência,

----
os...instrumentus dessa comdenação-ainda:-sejam ffacos sobre a escola local.
e To.certos. Também Sullivan, como Richardson, estuda em
Paris de 1874 a 1876: em 1879 entra para o estúdio
de D. Adler e, em 1881, toma-se sócio deste, iniciando
2. Louis Sullivan uma colaboração que perdurará até 1895.
Em 1885, Henry H. Richardson (1838-188,6) Adler é um homem prático, que concebe um edi-
t~e para Chicago a fim de projetar os grandes fício '1flilês°de tudo como um problema técnico e um
~ Marshall, Field & Co., que são inaugurados
assunto econômico. Wright descreve-o como "baixo
em 1887, um ano após sua morte prematura (Fig. e maciço como uma antiga igreja bizantina •. , Conse-
226). Esse edifício causa uma profunda impressão guia conquistar a confiança tanto de empresáriw,
quanto de clientes, e sabia tratar a todos de modo
em L. Sullivan, que na época possui trinta anos, como
ele mesmo conta, e decide sua v~ação artística magistral; ergui!). um empreiteiro como um mastim
pode pegar um gato, e o deixava cair; alguns tinham
O valor que se dá hoje a Richardson depende em o hábito de fortificar·se com um ou dois copos de
grande parte desse episódio, e do que escreveram Sulli- bebida antes de ir falar com ele;" u Adler estima
van e Wrigbt. Ele estuda em Paris de 1860 a 1865 muito a Sullivan, que, pelo contrário, é "um homen-
e trabalha sobretudo em Boston, para a sociedade zinho com um impecável temo marrom", apaixonado
americana mais culta e atualizada; pertence à geração pela música e pela poesia (Wagner e Whitman são
que começa sua atividade logo depois da guerra civil seus autores preferidos), também ele escritor e con-
e que traz para os EUA um conhecimento de pri- victo de que deve fazer uma arquitetura completa-
meira mão da cultura artística européia: a geração de mente diferente da de seus contemporâneos, aos quais
R. M. Hunt e de C. F. Mac Kim, ao qual se deve a despreza, com exceção de Richardson e Root 1~
Exposição do Centenário de Filadélfia, em 1876.
As ambições de Sullivan traduzem.se, nos pri·
Richardson encontra na França, na corrente.nee-- meiros trabalhos como o Rotschild Building de 1881,
{Omânica de Léon Vaudoyer (1803-1872), uma lin- em uma decoração desmedida em ferro gusa e em
guagem facilmente adaptável à tradição da construção pedra esculpida. Em 1886, a firma Acller & Sullivan
de Massachusetts, onde se realizam, desde a primeira recebe o encargo de construir na .Wabash Avenue um
metade do século XIX, paredes maciças em pedra complexo de edifícios contendo um auditório, várias
s~lirnento, pequenas aberturas i~ladas ou reuni- salas de reunião, um hotel e locais para escritórios
óas ri~nte, decorações em bossagem e simples (Figs. 239 e 240); entre os primeiros projetos e o
contornos em relevo em volta de portas e janelas. 13 projeto definitivo existe uma diferença marcada, que
A referência aos modelos cultos, medievais, serve-lhe provavelmente se deve à influência do Marshall, Field
pa:ra conferir ordem e dignidade à· tradição indígena, & Co. Warehouse inaugurado em 1887.
enquanto que a fidelidade aos métodos tradicionais e Enquanto nos edifícios contemporâneos da escola
o gosto nativo pela pedra permitem-lhe dar maior ani- de Chicago - como o Home Insunmce de Le Baron
mação aos esquemas estilísticos .e obter, por vezes, Jenney - o verniz estilístico é extremamente tênue
efeitos de singular potência, sem, todavia, jamais sair e as tentativas de dar às fachadas uma gradação de
do mundo cultural do ecletismo (Fig. 238). perspectiva passam quase despercebidas, de modo que
Sua figura deveria ser estudada com maior obje- ressalta em primeiro plano a unifonnidade rítmica de-
tividade, tendo-se presentes os limites de sua educa- rivada da estrutura, o edifício d~~chardson é uma
ção acadêmica, enquanto até hoje ela tem sido roman- composição perfeitamente gra e termmada se-
ceada no sentido indicado por Sullivan; no estado gundo os e~ · · ; os oito andares inter~
atúal dos estudos, achamos oportuno deixar de lado nos são envÕkidos---1lO!õ revestimento de paredes e
~
13. Alguns exemplos eornpreendid05 entre 1832 e 1856 14. WRiliHT, F. L. lo e farchitettura 1:it,. v. I,
são publicados por S. Gif.DJON, op. cit., pp. 347·349, esse pp. ISI e 167.
aspecto foi aprofundado por H. R. HITCHCOCK,A Cuide lo IS. WRIOHT, F. L fo e J'wcl1itellura ciL, v. l,
Boston Arr:/1iler;tureJ6J7-J9S4, Nova York, 1954. pp. 142 e 161.

248
238. North I!a,iton,Masii., d=talhc da rc&i~i:t OOF, L. Ames (H. H. Richardson).

249
reagrupados em quatro zonas mediante os grandes ar- outras lojas para as quais são necessárias vastas árellll Iumi-
cos que sabiamente tomam-se roais espessos no alto. nosidade difusa ~; terceiro, um segundo' andar
Em relação às pesquisas da escola local, constitui um facilmenteãÜngWcÍ por meio de escadas, normalmente com
evidente passo para trás, mas é uma arquitetura larga,. grandes subdivjsões, abundante em espaço estrutural, grandes
• 1 f · 1 ºd dºf' superfícies envidraçadas e amplas aberturas externas• quarto
simp es e pe~e1t mente resa v1 a, enquanto os e 1 1- "- n'-~o"o •º"dof,·n·,aod d ' •
· d 1 d d · ..... ~ · .. e an ares em cima desse, constituído
CIO~ que a c1rcun am S racos e P enos e esequi- pÕr escritórios sobrepostos, uma filà em cilmt \le outra, cada
líbnos. escritório igual a todos os demais.. , ; por t1ltimo, em cima,
van entusiasma-se exatamente por essa n'íÍe: ~espaço ou nm andar, de na;urezi: _simplesmentefüio16·
ssim, também ele, no Auditorium, em~ ~ca .. ~ relação à. vlda e a . utilid~de da estrut~ra;
• . al al . l d o át1co, nele, o sistema de c1rculaçao se conclui e
utura tra,dtcion
, em venana, comp eta a completa ~~ """ ,·mpo,tan 1e giro
· · 1 e d escen·
ascens,ona
por partes secundanas em ferro e agrupa as ~ume~o- &iQp.Jl}.• • O -ntmo horizontal e vertical baseia-se natu·
sas aberturas externas em uma malha arqmtetômca ralmentc em um local - a unidade de escritório _
mais larga, sublinhando a gradação vertical por meio bastante amplo e alto para ser confortável, e sua dimensão,
do uso de um granito com saliên.cias esboçadas nos do mesmo modo que ddermina antecipndamectc a unidade-
três andares inferiores, e de arenito liso do quarto estr~ural normal, deter~ina. aproximadamente a amplidão,
andar para cima; a decoração quase desapareceu, e a d~s Janelas:·· . Res~ta 1~V1tavelmente,.e da maneira mais
organização de perspectiva elo edifício é obtida por uma ~mples, que. assim seia de,meado o exterior de uma constru·
oportuna disposição das massas e dos materiais. :8 o çao de várms andares. Comeel!lmospelo p~iro: n;Ic
. • . . colocamos uma eptrm!aprinc!IfiJ que chame muito a atençao,
mesmo procedimento segmdo no Wa]ker Buildmg qua· e tratamos O restlt--d&-alltll!rcom maior ou menor liberalidade,
se contemporâneo (1888-1889), onde as lembranças expansividade, fausto, baseando-nos exatamente nas necessi•
richardsonianas são mais que nunca evidentes. dades práticas, porém expressando-nos çom um senso de
A partir de 1890, Sullivan estuda a aplicação de ~ão e liberdade. Tratamos da ,:nesm.a.man~ra o se-
tais princípios de composição ao arranha-céu; a pri- gundo and3:,mãs,, geralmente eo~ e.x1gên;1asmais n:,odera·
• • tê tatl.Va como a~ta W"ght, " e' 0 Watºn das. Em cuna, para o número JDdetennmado de Íllas de
m:ira n. . , . " - escritórios, inspkamo-nos :ia célula singular, para a qual é
wng~t Bu1ld1ng d.e St. Loms (1890-1891]. _A.cara:-
0
~ceuário uma janela, uma entrnda e uma arqultravc, e, sem
teríst1ca const1tuc1onal de um arranha-ceu e possuir preocupar-nos com outra coisa, damos a todos O mesmo
lllUúl:l.S.....dares i[!!ais; com efeito, tirando-se um ou aspecto porque todos têm a mesma fnnião. Eis-nos então no
dois andares--hlíenOres e o último, os intermediários á1ieo, o qual - nãó eslâíido subdividido em céluJa5-escritório
são em tal número que não podem ser diferenciados e não requerendo uma iluminação espçcial - i;or sua yasta
em termos de perspectiva sem. uma grave contradição extensão de. paredes, por seu pe5? e por seu carater domm.an·
estrutural porém a possibilidade de dominá-lo argui- te -. ~n_ute-nos ~~oear ;m ev1_d~~cla o fato de ,ue as filas
. ' . • . de escnt6rios em serre estao definitivamente temunadas, e o
tetomcament~ com os _meios Já mencionados depende ático é, por sua natureza, especifico e conclusivo. Tal será,
exatam_ente de superaçao do nt!flO reco~~e~te; ele pen- então, sua função em relação à força, ao sigaifieádo, à con-
sa, assim, tratar toda a zona mtennedtana como um tinuidade e à terminação da forma externa. . . Devemo,
elemeotQ..,_unitário e, portanto, sublinhar as partições agora prestar muit,. atenção ao império da vo.z emotiva:
• verticais, contraPor estas à ~na da base e ao ático qual é a característica princi~io de vá.dos anda·
ho~ais. ~ res? e logo respondemos: a~e. Essa grand.iosi·
-=::;::-
N ..1 dade comtitui seu aspecto palpitante aos olhos de quem
- Nasce, assim, Q rticalis que é típico dos possui natureza de artista, é a nota mais profunda e explicita
arranha-céus de Sulliv 96, Sullivan faz uma da sedução que exerce o edifício de vários andares. Deve
exposição teórica dess o de projetar: ser, por sua vez,a_nota dominan1e do modo como se expressa
o artista, o verdadeiro fator de e.xcita~ãode sua fantasja. O
Estou convencido de que, pelas leis da natureza, todo edifíciodeve ser alto. Deve possuir a for~a e a potência
problema, em sua essência mais profunda, abrange e susere da altura, a glóna e' o orgulho da exaltação11 (Fig. 241).
sua própria solução. Examinemos, portanto, com acuidade,
o, vários elementos, deixando patente essa sugestão explicila. Sullivan demonstra ter confiança em que a com-
As condições prát.icllS,em se11t.idolato, são estas: em primei· posição em perspectiva seja um fato natural, portanto
ro lugar, é necessário um andar subterrâneo que coolenha as sempre harmonizável com a natureza funcional do
ci>'ileiras,as instalações de força, de aquecimento e de ilu-
minação; sea;undo,o térreo destinado ao comércio, bancos e 17. SULUVAN, L. ..Considerazioni sull'arte degli edúici
alti per uffici". Artigo publicado na Lfppincotfs Mogazint,
16, WRIGHT,F. L. Arcllitc/fura c dcmocrazia cit., p. 110. mar. 1896. Trad. it., em Ca.mbclla, n. 204 (1954), p. 14,

250
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239, 24-0.Chicago, o Audilorium (Adler& Sullivan, 1887).


241. Buffalo, Gwtnllllee Building(L, Sullivan, 1895).
242. GrcDDCI.,Iowa,MercbwrtsNational Bank (L. Sullivan, 1914).

251

'
tema; parece que em uma arquitetura regu- se bem que, de um em um, sejam a imagem individual daqueles.
lada pelas cessidades obje · , deixando à fantasia a~ quais, como classe, o povo delegou e confiou seu poder
de construir. Por tal razão, sob tal luz, o estudo crítieo da
somente a n ar subjetivamente os carªc- arquitetura toma-se, n:a realidade, um esludo sobre as condi-
t:!]!S fundamentais do""edifício.Contudo, aprofundando ções sociais que a produzem. 1s
mais o assunto, ele adverte que sua descrição teórica
leva-o em direção a uma expressão arquitetônica iné- Sullivan, contudo, possui um conceito tradicional
dita, enquanto que o ritmo recorrente dos andares tí- de sociedade, baseada na personificação de certas.
picos, todos iguais, não é compatível com a composi- idéias de liberdade, de democracia e de iniciativa indi-
ção ·fechada, resolvida em uma oposição entre base, vidual; esse conceito exige um esforço de representa-
zona intermediária e ático. Assim, ao projetar o ma- ção, mas não impele Sullivan a agir no sentido de uma
gazine Carson, Pirie & Scott - construído entre 1899 transformação da sociedade existente, como faz Mor-
e 1904 - Sullivan é induzido a sublinhar justamente ris; com sua habitual lucidez ele entrevê essa limita·
o ritmo das janelas todas iguais nos seis andares típicos, ção e escreve:
limitando-se a fazer o último andar mais baixo, com
as juntas recuadas (na execução, foram acrescentados Não é meu propósilo discutir as condições sociais; acei·
três andares, e Sullivan, talvez não admitindo um ritmo to·as como um fato e digo desde logo que o projeto da con:>-
uniforme para nove andares, faz sete iguais e dois truç,ão alia para uso de escritórios deve ser tomado cm con·
ligeiramente mais baixos, a fim de preparar o ático sideraçiío e enfrentando desde o início como um problema
recuado; mais tarde, Bumham & Co., projetando em a ser resolvido: um problema vital, qlltl clama por uma
solu;ão. vitaL 111
1906 a ampliação do edifício pela State Street, abole
o ático, tratando os últimos três andares do mesmo
modo, enquanto nos recentes trabalhos de reforma no Partindo dessa pos.tçao intelectualista e substan-
acabamento essa simplificação foi estendida a todo o cialmente evasiva, Sullivan critica asperamente as con-
edifício), Aqui, a estrutura teticular interna proje- tradições da escola de Chicago, porém supõe que cada
~e tranqüilamente para o exterior, sem qüãlquer vio- um dos problemas abordados possa ser resolvido no
lência horizontâl ou vertical, e, estando mais frouxos plano das idéias, portanto por meio de um esforço
os relacionamentos de massa, uma abundante decora- individual; a solução para um problema cultural de-
ção intervém, como nos trabalhos de juventude, para veria poder ser "encontrada", tal como a lâmpada
distinguir ~o corpo do edif~o. elétrica foi "encontrada" por Edison, e, uma vez pen·
sada, deveria estar pronta para entrar na realidade
Como foi observado várias vezes, a linguagem sem ulteriores mediações. ~quanto a sociedade con-
arquitetônica de Sullivan é muito variável entre uma fonna-se ao conceito teótfco que ele se fez, e com-
obra e outra; não se poderia dizer, à primeira vista, porta-se, ao menos em parte, segundo seus mesmos
que o autor do Wainwright seja o mesmo do Carson, ideais, a passagem defeituosa entre teoria e prática
Pirie & Scott. O fio condutor encontra-se, antes, no pode ser dissimulada e ~o-funcio-
pensame~ ele é guiado, em sua pesquisa, na; contudo, quando a sociedade em que ele trabalha
por uma excepcional lqcidez de espírito, porém a pas· muda de comportamento, sob o impulso de exigências
sagem da teoria à prática está gravada por uma incer- que o sistema ideológico de Sullivan não está adapta-
teza fundamental, que constitui, em última análise, a do para acolher, ele se encontra subitamente isolado.
tazão de seu fracasso profissional.
Desfeita em 1895 a sociedade com Adler e ter:~
Ele adverte, com a mesma clareza de Morris, minados em 1903 os trabalhos do Carson, Pirie &.
que a arquitetura é condicionada pelo tipo de organi- Scott, a carreira de Sullivan declina; sobrevive por
azação t9,.ca, social e económica sobre a qual surge: outros vinte anos, quase esquecido, e recebe poucas.

A arquitetura não é uma simples arte a ser exercida


i::om maior ou menor êxito: ~ uma manifestll!,;ão social. Se 18. SULLIVAN,L, Kindergarten Clratf, Law,ence, 1934.
desejamos ~onhecer por que certas coisas são como são, em p. 8.
nossa arquitetura, dcvemo5 olhar para o povo; porque II05SD:i 19. Cit. em H. D. DUNCAN, "Attualità di Louis Sullivan",
edificioS, em seu conjunto, são uma imagem de no5So povo, em Casabel/a, n. 204, (1954), p. 7.

252
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243. Chicago, vista do magazlneCarson, Pirle& Scoll(L, Sullivan, 18951),
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encomendas para edifícios de menor importância, so- ciamento; ele tem, desde o começo, as mesmas ambi~
bretudo pequenos bancos nos centros rurais - em ções de Sullivan, de criar uma arquitetura nova, inde~
Grinnel. Iowa (1914) (Fig. 242), em Sydney, Ohio pendente dos estilos tradicionais e aderente à vida mo~
(1917), em Columbus, Wisconsin (1919) - onde derna; não sente, contudo, nem as inquietações nem
prossegue uma sutil pesquisa decorativa, cada vez as dificuldades que Sullivan prova em sua tentatlva
mais refinada. O outro modo de evasão é a pena: de interpretar a realidade específica da vida de Chica-
de 1901 a 1902, publica em capítulos, no Interstate go, e considera-as, antes, como fraquezas e sentimen-
ArchiJects & Builders, o primeiro escrito sistemático, talismos. 20
"Kindergarten Chats"; de 1922 a 1923, publica no Com efeito, desde o princípio, os termos abstra-
Journal of the American Institute of Architects, sem- tos que servem a Sullivan para descrever a sociedade
pre em capítulos, "The Autobiography of an Idea", de seu tempo ou para formular os problemas arquite-
que surge sob a forma de livro em 1924; o último livro, tônicos, são, para Wright, realidades certas e indiscutí-
A System of Architectural Ornament according with a veis (nessa diferença de colocação provavelmente têm
Philosophy of Man's Power, também é publicado em um certo peso os dois anos passados por Sullivan em·
1924, ano de sua morte. Paris, os quais o carregaram de uma dose de noções
A situação de Sullivan em relação à sociedade é, convencionais, mas o deixaram com um hábito crítico
em parte, análoga à de muitos arquitetos europeus que e uma certa faculdade de duvidar, enquanto Wright
trabalham depois de 1890, e pode.se usar, para des- não sente dúvidas); Wright está assim abrigado de
crevê-la, o mesmo termo de vanguarda que será usado qualquer fracasso, como aquele com que se choca Sul-
nos próximos capítulos; nos EUA, essa situação ve- livan depois de 1893, porque está comprometido, nãõ
rifica-se com aproximadamente uma década de ante- com uma situação histórica real, mas imaginada. 21
cipação, e em condições de particular tensão cultural. Ele pensa qm; além das determinações históricas
A experiência é concluída com uma derrota veemente, concretas, existe um estado de natural, um aspecto
e Sullivan paga por is:;o pessoalmente; o drama cultu- genuíno da vida, que normalmente encontra-se escon-
ral transforma-se em um drama pessoal. dido e contaminado pelas imposições e coações exter-
nas; Wright descreve-o por vezes em termos genéricos
(por exemplo: "sua característica suprema chama-se
3. O exórdio de Frank L. Wright
iniciativa. Quando a iniciativa individual é forte e
Frank Lloyd Wcight (1869-1959) entra com de- operante, a vida jorra copiosa e se realiza"), 2 z por
vezes considera-o como uma característica do genuíno
zoito anos para o estúdio de Adler & Sullivan em 1887, espírito americano. Aderindo a esse núcleo vital, pode
enquanto se desenvolve o projeto do Auditorium de
nascer uma arquitetura finalmente liberta de todo con-
Chicago, e colabora com eles até 1893; enquanto ain-
da é empregado, começa a projetar por sua conta e, formismo e de todo sistema normativo; o adjetivo "or-
em 1893, abre. seu estúdio pessoal no último andar do gânico" aplica-se a toda forma de organização em que
se leve em conta esse princípio, portanto aplica-se à
Garrick Building de Chicago. Começa. assim, a car- sociedade e à arquitetura, que se CQrrespondem inti-,
reira mais extraorilinária que teve um arquiteto de
nosso tempo; morreu com noventa anos, construiu mamente:
mais de trezentos edifícios e influenciou duradoura- Arquitetura orgânica quer dizer mais ou menos sociedade
mente ao menos três gerações de arquitetos. orgâoica. Uma arquitetura que se inspira nesse ideal não
Tratando-se de uma personalidade que cobre todo pode reconhecer as leis impostas pelo esteticismo ou pelo
o período em que se forma e desenvolve o movimento 5imples gosto. a6sim como uma sociedade orgânica deveria
moderno, tornaremos a falar mais vezes de Wright refutar as imposições externas à vida e ,;:ontrastante!i com a
durante nosso relato; todavia, a fim de prestar contas
20. WRIGHT,F. L. lo e l'arcliium,ra cit., v. 1, p, J62.
dos caracteres que tornam unitária sua longa produ-
21. Alé mesmo Qs Estados Unidos, que 5ão considerado~
ção convém levar em consideração sua formação no por Wright como a pátria da arquite1un1 orgãni~, :;ão um
ambiente de Chicago. uma vez que sua figura somente lugar idealizado, ao qual ele gosta de chamar com um nome
,! compreensível em relação a essa experiência cultural. e~peeial, "Usonia". de 11COrdocom S. BuTLE1l,ºver F. L
WRJGltT, Arc/1itet111ra .orga11ica (1939), trad. il., Milão, 1945.
Wright fala com afeto e reconhecimento de Sulli- p. JOS.
van e de Adler, mas também com um certo distan- 22. WRIGHT.F. L lo e ra,cl,itl'tmra cit .. v. Ili. p,•849.

254
244. Detalho doCarsoo, Pirlf:& Scott.

W. VistadaExpoojçãoColombianad~Cbkago de 18113.

255
natureza e com o caráter do homem, que encontrou seu alguns problemas fundamentais da arquitetura, segun-
trnbaJhoe o lugar onde poüe ser feliz e útil, em uma forma do as exigências de um moderno centro indnstrial;
-de existência adaptada a ele. 23
estando esse episódio ligado a algumas circunstâncias
especiais, a experiência da escola de Chicago é falha
Tal como os liberais do século XVIII defmiam quando as circunstâncias se modificam; então, tam-
seu sistema político e econômico sobretudo em termos bém o debate cultural descamba para o plano formal.
negativos, enquanto libertação do veiho sistema de re- Burnham e a maior parte dos arquitetos de Chicago
gras e de limitações. assim Wright fala de sua arqui- escolhem o neoclassicismo e propõem essa linguagem,
tetura sobretudo em frases negativas, como "iÕ.depen- já examinada em todas as suas conseqüências, à nova
dência de toda imposição externa, venha ela de onde classe dirigente; Wright e alguns outros, (G. Elmslie,
vier; independência de todo classicismo - velho e B. Griffin) pelo contrário, escolhem um ilimitado ex··
novo - e de toda devoção aos 'clássicos'; indepen- perimentalismo anticlássico e procuram a ocasião para
dência de todo standard comercial ou acadêmico que exercê4o à margem do mundo dos negócios e da cons-
ponha 'a vida em uma encruzilhada' " 24 e encontra trução oficial.
infinitos modos para qualificar aquilo que não quer:
o classicismo, o eixo maior e o eixo menor, as cin- Produz-se, dessa forma, uma divisão entre maio-
qüenta e :sete variedades, a comija, a cúpula. o arra- ria conformista e minoria não conformista, quase aná-
nha-céu etc. Ele mesmo talvez perceba esse compo- loga à que ocorre na Europa nos mesmos anos, po·
nente de sua cultura quando fala de "liberalismo artís- rém com uma diferença importante: o ambiente ame·
tico". 25 ricano é infinitamente mais vasto e mais variado e
cada uma das partes encontra rapidamente seu lugar.
De nada adiante discutir essas afirmações teóricas,
dotadas de uma qualidade abstrata setecentista. E Assim, as duas experiências seguem seu curso inde-
importante, pelo contrário, levá-las em consideração pendentemente, com poucas oportunidades de con-
enquanto um esclarecimento de sua posição de pro- fronto, e são muito menos solicitadas a sair dos res-
jetista; com efeito, colocando-se pteviamente a coberto pectivos limites. superando os termos convencionais
de todo empenho concreto em relação aos problemas da polêmica.
da sociedade moderna, Wright pode enfrentar qual- A primeira parte da atividade de Wright, até
quer tema como uma oportunidade para exercitar seus 191o. compreende numerosas casas residenciais para
dotes individuais e dar uma solução formalmente per- familias únicas, as chamadas prairie lumses (Figs. 246-
feita. 249), poucos edifícios de outro gênero, dentre os quais
Dessa maneira, ele pode~ tal como um antigo um importante edifício para escritórios (o Larkin
mestre, educar sua capacidade de projetar e de prever Building de Buffalo, de 1905) e uma igreja, o Unity
os efeitos e!">paciaisdas formas projetadas em uma Temple em Oak Park, de 1906 (Fig. 253). Como
medida muito superior à de qualquer outro arquiteto já foi observado, o ponto de partida de tais experiên-
de nosso tempo; o discurso sobre Wright deve ser des- cias é mais Richardson do que Sullivan, ou o Sullivan
locado para o terreno formal, e somente nesses termos do primeiro período, do Auditorium, pela insistência
é que se pode caracterizar adequadamente sua ativi· na diferenciação em perspectiva dos elementos e a es·
<lade; como diz Zevi, "o único tema sério de discussão treita associação entre decorações e materiais naturais;.
sobre Wrigbt é o tema de sua concepção espacial". :a no Lackin, aJém disso, existe um gosto pelos efeitos
sensacionais de massa e por uma decoração larga. que
O caso de Wright pode ser enquadrado, além movimenta toda a construção, bem diversa das peque-
dos contrastes polêmicos, na maré de revisão formalfsti- nas incrustações aplicadas aos edifícios da escola de
ca que dispersa a escola de Chicago após a Exposição Chica&'?·
Colombiana; não é pura coincidência que Wright co·
mece justamente então sua atividade. A diferença principal, contudo, não se encontra
A escola de Chicago havia começado, com muita nas preferências formais, mas na segurança e sistema-·
.antecedência em relação à Europa, a recolocação de ticidade da invenção, para a qual as várias contribui-
ções estilísticas fundem·se e organizanMe em uma lin-
23. WaioHT, F. L Architettura orga11ica cit., p. 27. guagem fluida e fortemente individuada. O ato de
24. WruGHT,F. L. Archite1t11ra organica cit., p. 43. projetar de Sullivan e seus contemporâneos é quase
25. WruoHT, F. L Architetlura e democraz.ia cit., p. 36. sempre cansativo, hesitante, pelos obstáculos dos con-
26. ZIM, B. F. L. Wright. Milão, 1947, p. 12. flitos não resolvidos entre as várias exigências aborda-

256
! •" ;T
"
...
"===-=·-=-e=-=="'- =---.
u
246, 24-7,Oak Park, Casa Robie (P, L. Wright, 1009), 10. lavanderia
-
11. ga.mgens
1.sa!adeestar
12. pátio
2. $11]11
de jlllllar
3. quarto de Mspcdes
4,cozinha
,. qullffQsde seNÇO
6. &alade bilhar
1. &alade,jogo,; para as Clrianças
8. ve5l(bulo
9. aquecimento

257
das; os projetos de Wright nascerç, ao contrário; dt; projetado em modelos simpiet para 5er ltaballuufo a máquina.
uma só vez, com feliz desenvoltura. poxque as exigSn- De novo Unhas retas e fonnas retilllll!aS;
cias são previamente selecionadas e tomadas como ele- nono - eliminar o decorador, tudo que for curva$ e
mentos de uma pesquisa pessoal. efloreseénc:ias, se não IUdo que for "~poca",!11

O próprio Wright, em 1930, descreve da seguinte Examinando as casas constnúdas até 1910 sob a
maneira os pontos principais do programa arquitetô- luz de tais indicações, encontram-se arquiteturas muito
nico desenvolvido nas prairie lwuses: diversas e desconcertadas. Algumas são verdadeiras.
obras-primas, conduzidas com espantosa habilidade
Primeiro - reduzir a.o mínimo indispcmávcl as paredes (a casa Hickox- de Kankakee, Illinois, de 1900; a casa
divisóriu, • criando um ambiente circunscrito, distribufdo de
modo quo ar, 111% e vista permeiem. o conjwilo de uma sensa- Wallitts em Higbland Park, dC 1902; a casa Coonlcy
ção de unida.de; em Riverside, de 1908; a casa Robie em Chicago,
segundo - harmonizar o edifício com o ambiente u.tcr- 1909) (Figs. 246, 247 e 252); outras são obras des-
no, estendendo e acen1uando os planos paralelos ao 501o, mas regradas e palidamente forçadas (a casa Moore em
deixando livre a melhor parte do local y.u-a empregá.la jwi- Chicago, 1895 - Figs. 248 e 249 -; a casa Dana
tamenle com a vida da casa; descobriu-se que cxlensas super· em Springfield, 1903), onde o controle do projetista
ficies horizontais eram eficazes para as finali~ desse parece estar ausente ou reduzido a uma curiosi-
emprego conjunto; dade momentânea por engenhosos experimentos com-
tcrÇCU"o - eliminar a çonccpçio dos ç{imodos e da casa binatórios, por vezes utilizando os ingredientes estills-
como caixas e tratar as paredes, ao contrário, como elementos ticôs tradicionais sem o mínimo acanhamento (como
de fechamento de modo que formem um único· recinto, con- na casa Blo~m em Chicago, 1892, e na casa Husser
:1CJvaodoapenaJ as 1ulxliviwa menores. Dar à casa propor- de 1899). ·
ções mais livremente humanas, ocupando menos espaço com
a estrulula e adaptando-a aos materiais, tornando dessa ma· Tais descontinuidades podem ser devidas à abun-
neira a casa mais habilável, ou melhor, mais liberal. Longas dàocia da produção de Wright e ao pouco tempo que
linhas retas e. ininterruptas seriam muito oponuoas; pôde aparentemente dedicar a cada projeto, porém
q11arto - encaixar as bases inteiramente acima do nível indicam em que sentido se orienta o empenho de
do terreno, de modo que as fundações pareçam uma plata· Wrigbt em relação a seus edüfcios; quando usa certas
forma bab:-aem al.v=ia sobre a qual se usuc o edifício; formas, ele não se preocupa com que os resultados
qlli,no - dar a todas as aberturas internas e externas possam ser somados aos precedentes ou possam ser
proporções lógicas e humanas, e faur com que as mesmas se transmitidos a outros, portanto, possam ser desvincula-
eni.:aixemm1turalmentc, isoladas ou em Krie, no uquema de dos da intenção particular com que então são realiza-
todo o edifício. Normalmente, pareciam paredes leves, porque
toda a "arquitetura" da casa consistia principalmente oo dos. Seu interesse exaure-se freqüentemente em uma
modo de dispor essas aberturas nas paredes que encenavam única experiência; mesmo nas melhores obras, existe
os cômodos como paredes de fechamento. O cômodo, trBDS· uma espécie de distanciamento, de indiferença pelas
formado em expressão arquitetônica essencial, não admitia ·soluções usadas, nem sempre compensada pela espon-
bun.i;os talha.dos nas paredes como se talham buracos nas taneidade e pelo frescor da idealização.
caixas, porque isso não concordava com o ideal "pláslico".
Talhar buracos é violento; ºNesse período, Wright compõe seu primeiro es-
.suto - eliminar combinaç~ de materiais diversos, crito teórico: é o texto de uma conferência pronuncia-
u~ndo, tanto quanto possfvel,um único material; não apliçar da em 1903 na Hull House de Chicago, intitulada.
ornamentos que não se originem da própria natureza dos Arte e função da máquina. Pevsner 18 coloca esse es-
materiais e que não contribuam para tornar o ediíkio mais crito juntam.Cote cçam os de Loos e Van de Velde. na
nilidamente expressivo de sua função, e para dar ao conceito linha de pensamerito que promove a colaboração entre
do edificio uma ênfase reveladora. As linhas scomélricas ou arte e indústria; Wright, manifesta igualmente uma
retas eram naturais à maqllinaria então empregada na cons· adesão ao espírito da máquina ainda mais integral do
truçiio, portanto os interiores adquiriram naturalmente essa que a dos europeus: porém os termos da polêmica
caracterfatica;
européia possuem. para elé um significado bem dife-
sétimo - incorporar instajaçõcs de aquecimento, ilumi·
naçiio e encanamentos como parte integra.ele do edifleio. 27. WRIGHT, F. L A.rchitellura e demot:ra;da çjl ••
Esses elementos de serviço tomavam-se arquitetônkos, enqua- pp. 97-98.
drando-seno ideal de uma arqllitetura orgànica; 28. Pl!VSNER,N. [ pionieri dei movimento .moderno da
oitavo - incorporar, tanto quanto possivel,o mobiliário William M(Hris a Walter Grop/lls (1936). Tpd. iL, Milão,
como arquitetura orsãnica, fazendo pane do edifício e sendo 1945. pp.' 14-15.

258
rente. A indústria e a máquina intercssam~Jhc sobre- nifkado superior, não semente para nossos dias, mas pano
todos os tempo&. llO
tudo como meios para diminuir o atrito entre matéria
e criação, e para tomar o mais direto e perfeito pos-
Ftxado nessa posição, Wrigbt está ao abrigo d~
sível o domínio do projetista; por tal razão. comide-
ra-as de modo unicamente instrumental, sem colocar-se
toda mutação das circunstâncias e pode utilizar qual-
o problema da produção de massa e das novas respon- sional.novaNasugestão,
quer tomando-a tomo referência oca-
arquitetura dos. mestres europeus, ele vê
sabilidades culturais que dela& derivam, porque encara
a máquina em abstrato, como ingrediente de um pro- somente um novo estilo, "a ss• variedade"; 81 por vo-
cesso ideal que é, de fato, realiz.ado em forma indivi- zes, utiliza os elementos da linguagem européia, mas
está com a razão quando distingue claramente sua
dual em sua experiência pessoal.
obra da dos arquitetos de ultramar; com efeito, esses
Em 1909, o crítico de arte K. Francke, professor elementos são colhidos, prescindindo-se efetivamente de
de Harvard, propõe a Wright que se transfira para a sua função cultural originária e são tomados na lingua-
Alemanha; logo depois, talvez por sugestão de Fcanc- gem wrightiana sem perturbar nem um pouco seu
ke, o editor berlinense Wasmuth propõe-lhe publicar equilíbrio autônomo.
uma monografia sobre suas obras. Em !910, Wright Sobre Wright pesa uma espécie de mito que se
vai para a Europa, prepara uma mostra de seus pro- deve em igual medida a seus admiradores e a seus
jetos em Berlim e o material para a publicação de adversários; supõe-se que ele traz uma mensagem que
Wasmuth. Nessa viagem, Wright trava conhecimento, deve ser acolhida ou combatida, ou seja, a "'arquite-
pela primeira vez, com os monumentos antigos da Eu- tura orgl\nica", que 6 considerada como uma alterna-
ropa e com as obras dos arquitetos europeus de van- tiva ao movimento modem.o ou como uma tendência
guarda: fica especialmente impressionado com os aus- interna, contraposta à ..arquitetura racional". Vários
tríacos Wagner e Olbrich. 29 autores americanos, desenvolvendo uma tese do pró,.
De volta aos EUA, seu repertório enriquece-.se prio Wrigbt, identificam o "orgânico" com o "ameri·
com novos elementos; em 1911, começa a construir. cano", e consideram Wrigbt como o expoente da
sua residência de. Taliesin, no Wisconsin, e, em 1914, arquitetura do Novo Mundo, contrapondo-o ao movi-
os Midway Gardens de Chicago, onde utiliza as con- mento europeu.
tribuições européias, absorvendo-as sem resíduos em Esse mito é sobretudo de origem literária (é inte-·
seu modo de projetar; de 1916 a 1922, reside por lona ressante notar que os literatos e os. estudiosos de arte
gos. períodos no Japão, onde constrói o Hotel Imperial antiga encontram-llle mais à. vontade oom Wrigbr do·
de Tóquio. · · que com outros mestres contemporâneos, porque ele é
um artista no sentido tradicional e 6 mais fácil fazer
Depois da permanência no Japão, a produção de fazer uma transposição literária de sua obra), e deve
Wright toma--se mais rara e sua fama dimiJJui. mas ser removido com resolução, porque toma incompre-
depois de 1930 o mestre toma a projetar com juvenil ensível tanto Wright quanto o movimento modem.o,
aburidânCia. Desde então, sua atividade não conhece enquanto impede de avaliar convenientemente a con-
paradas e é seguida colTl atenção em todo o mundo. tdbuição daquele ao próprio movimento, a qual não
Essa excepcional capacidade de renovar-se é o se encontra em uma mensagem abstrata, mas em uma
testemunho prático do ideal arquitetônico ao qual ade- série de contatos reais historicamente determinados: a
re Wrlght, desde o princípio. Ele deseja fazer uma viagem à Europa em 1910, seu testemunho polêmico
arquitetura subtraída aos acontecimentos contingentes, de 1925 em diante, face à confusão do intemational
fundada em necessidades permanentes do homem e, style, seu poder de sugestão sobre a geração que :;e
portanto, capaz de resistir ao futuro: inicia depois da Segunda Guerra Mundial.
Nenhum ideal parece ter tido força ou beleza suficiente Wright, segundo ele mesmo, está distante dos in-
para resistir às leis fatais do devir, em qualquer de suas teresses do movimento modemo e não está disposto a
múltiplasmanifeslaçóes, que aconteceram em uma sucessãode abandonar a posição individualista e marginal que a
obras e de negações. A Beleza não parc:e ter jamais tido tradição atribui aos artistas; ele concebe a arquitetura
grande significadopor muito tempo. . • Cu:io que chegou o como representação ideal do mundo, à moda antiga,
momento em que a Dele~ porque inteira. deva ter um slg.
30. WIUatrr, P. L Archlteltura organim cit., pp. 28-30.
29. WRKlHT,F. I.. Arr:hluttura ii democr,n,la cit., p. 43. 31. Wiumrr, F. L Architettura organica cil., p. 43.

259
248, 249. Oak:Park,duas vistas daCasaMoorc(F. L. Wright, 1895).

260
zt;~:~~~~
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261
e, por tal razão, transfere os problemas da sociedade de Wright é, por certo, uma das causas próximas que
contemporânea para uma natureza imaginária, onde eles imprimem à cultura européia sua reviravolta decisiva.
podem ser dominados como puros quesitos formais,
Os protagonistas do movimento moderno mais de
Esse assunto insere-se bem no ambiente america- uma vez reconheceram essa função do niestre ameri-
no entre 1890. e 1910, onde existe uma classe média cano. Escreve Oud:
bastante numerosa que partilha tanto do entusiasmo,
quanto da abstração iluminista de Wrlgbt - esse é, Dada a confusão de opiniões que, depois da Cl(ÇCSsiva
com e.feito, o momento feliz da produção wrlghtiana segurança das gerações prccedCJ1tes, fazia de cada ;;olicitação
-, porém as transformações em curso na sociedade rar.otvcl um problema que agia como um golpe de açoite
americana. especialmente depois de 19:30, tomam esse nos nervos, Wriaht, qllando foi conhecido a fundo, não pôde
assunto sempre mais desatualizado. Assim, a expe..- deixar de aurgir como uma revelação. Livre de toda prccio.
sidade de detalhe.dotada de uma linguagc:m pr6pria, apesar
riência de Wrlght fecha-se progressivamento em si das peculiaridades ex6ticas, e fascinante, não obstante a sim-
mesma, transforma-se em um fato pessoal; ele pode plicidade dos motivos, a obra de Wrlaht coovclJCCu desde o
p~rmanecer fiel a sua inspiração somente mantendo-se principio. Era tão 56lida sua atrutura. apesar de toda sua
em uma posição de destaque e construindo cm torno ellllllicidade, graças à qual as massas pareciam ter tl'C$Cldo-
de Taliesin um ambiente que é a projeção direta de com o terreno. era tão natural a intcrfciincia dos
JuntB.QlCJ!te
sua personalidade; cm sua longa carreira, jamais fez elemenws figurativos transmutantes como cm uma tela de
um projeto cm colaboração com outros, nem partici- cinema. era. tão racional e aparentemente fácil a distribuição
pou de qualquer cqncurso, nem aceitou inscrever-St' dos espaços, que não $lll'gilllll dilvidas quanto à inevitabili·
em qualquer associação profissional ou misturar:: set. dM', de tal liniUascm também para. nós; funclonalida.de e
codorto estavam. esplccdidamento glntetuados da 11nica ma-
nome, de qualquer maneira, ao dos mortais eomuns. neira possl:vcl em noSKI tempo. 22
Truncando toda relação direta, ele, contudo, am
pliou desmesuradamente sua influência indireta, e o E Mies van der Robe;
edifícios por ele projetados têm servido como termo Quanto mais mergulhávrunos 11() estudo de suas .criações,
de comparação para as experiências de todos os ar- mais Cl"C$Cia noua admiração por esse incomparável talento,
'quitetos contemporânCQs. Por esse caminho, sua con- pela coragem de suas conccpç&s, pela indepcnd&nciade seu
tribuição à forma?o do movimento modcmo é deci· pensamento e de sua ação. O impulso dinâmico que emanou
siva: tendo começado a trabalhar na última década de seu exemplo .reviiOtou toda uma aeração, Sua infl.uêneia
do século XIX e tendo removido antecipadamente, foi profunda.mente sentida mcmw quando não era patente.
embora a titulo pessoal, as dificuldadesque formam a Depois desse pritnciro encontro, acompanhamos o dcsenvol·
resistência à formação de uma nova linguagem, ele vlmcoto desse homem. incomum com olhar vigilante, assisü-
lOOS com espanto ao exubenm&c desdobramento dos dotei
atinge, muito antes dos mestres europeus, uma extraor- apltndidos desse privilegiado pela natureza. Por 5CU. poder
dinária liberdade nas escolhas formais, a qual se sem.pro cr~nte, ele assemelha-$0 a wna irvorc gigantesea.
toma assim um ponto de referência precioso para a gue, em uma v~ta pai.:iaacm, adquire a cada ano que passa
pesquisa em curso. uma coroa mais nobre. sa
Quer a sorte. que sua obra seja difundida na Eu-
ropa justamente cm 1910, quando é mais viva a exi-
gência de contribuições formais bOerad.oras que ajudam
a destruir a secular associação entre cultura clássica e
prática de construção; nesse momento, o conhecimento

32. Ouo, J. P. Ho/la11dische Àrchitektur, Muni.que,


1926. Cit. cm B. ZEVJ, Sto,ia def/'archllellura modema,
Turim, 1955, pp. 465-466.
33. Relatado cm P. JoHNSON,Mies van der Rohe, Nova
York, 1947, p.. 196,

262
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