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"Já em 385 a.C.

, ele tratava das mesmas


O anacronismo é um equívoco a ser
evitado na historiografia ou todas as

questões atuais": o anacronismo no


interpretações do passado são, em
alguma medida, anacrônicas? Está é a

Platão de Bruno Latour.


questão que guiará a minha
comunicação, ao analisar a leitura
realizada por Bruno Latour da
Alegoria da Caverna platônica, Diogo Quirim
presente no Livro VII da República. Doutorando do PPGH/UFRGS
Em uma obra intitulada Políticas da Orientado pelo prof. Anderson Zalewski Vargas
natureza: como fazer ciência na E-mail: diogoquirim@gmail.com
democracia, publicada em 1999,
Latour, conhecido nos debates da
história, antropologia e sociologia das
ciências, estabelece uma analogia
entre os ambientes interior e exterior
da caverna platônica e a arquitetura “No mito original, como se sabe, o Filósofo não chega,
da modernidade, a qual, para ele,
distingue o mundo comum em duas senão com as mais extremas dificuldades, a quebrar as
câmaras distintas, a natureza e as cadeias que o prendiam ao mundo obscuro, e então, ao
culturas. Entretanto, chama-nos a preço de experiências esgotantes, ele retorna à Caverna,
atenção que Latour desenvolva a sua
análise como se Platão estivesse e seus antigos colegas detentos dão morte ao portador
interessado nas relações entre a de boas novas. Ao longo dos séculos, graças a Deus, a
"ciência" e a "sociedade", e como se o sorte do Filósofo, que se torna Sábio, foi bastante
filósofo que ascende da caverna para
o mundo das ideias fosse correlato melhorada... Importantes orçamentos, vastos
aos cientistas e aos intelectuais laboratórios, imensas empresas, possantes equipamentos,
contemporâneos. Categorias como
permitem aos pesquisadores, hoje, ir e vir com toda
"ciência" e "sociedade", todavia, se
consideradas como objeto de reflexão segurança do mundo social àquele das ideias, e destas à
de um texto da Grécia do século IV Caverna obscura à qual eles vêm trazer a luz. A porta
a.C., dificilmente poderiam ser
utilizadas pelos historiadores sem
estreita se tornou uma larga avenida. Em vinte e cinco
amplas aspas. Até mesmo o termo séculos, entretanto, uma única coisa não mudou um iota:
"filósofo", usualmente empregado a dupla ruptura que a forma do mito, incessantemente
para definir Platão como intelectual,
não está isento de polissemias e de
repisado, consegue manter sempre tão radical. Este é o
policronias; afinal, a sua filosofia obstáculo que precisamos levantar, se desejarmos mudar
pouco tem a ver com academias, os próprios termos pelos quais se define a vida política.”
departamentos, pappers e bancas,
como a disciplina contemporânea. É
possível se relacionar, com isso, na LATOUR, Bruno. Políticas da natureza: como fazer
história intelectual, com a alteridade
ciência na democracia. Traduzido por Gilson César
do passado sem dispersá-la em nossas
categorias contemporâneas? Movido Cardoso de Souza. Bauru: Edusc, 2004. p. 28-29.
por tais inquietações, analisarei a
presença de anacronias em Bruno
Latour a partir de reflexões de
Jacques Rancière, Dominick LaCapra
e Mark Bevir, traçando algumas Bruno Latour nasceu em 1947 na cidade de Beaune,
ressalvas às abordagens na França. Desde 2006, é professor na Science Po, em
contextualistas de Quentin Skinner e Paris. De 1982 a 2006, lecionou no Centre de
John Pocock. Mais do que buscar Sociologie de l’Innovacion na École Nationale
uma purificação cronológica em Supérieure des Mines, também conhecida como
nossas escritas historiográficas, a Mines ParisTech. Possui uma vasta obra, bastante lida
proposta é que, então, debatamos: o entre antropólogos, sociólogos e historiadores da
que fazer com as nossas inevitáveis ciência. É autor de livros como Jamais fomos
polissemias policrônicas? Qual é o modernos, A esperança de Pandora, Políticas da
papel destas policronias na natureza e Reagregando o social.
emergência de novas abordagens a
partir da tradição?

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