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COLEÇÃO FILOSOFIA

Antropologia filosófica I, Henrique C. de Lima Vaz, 3' ed.


Antropologia filosófica li, Henrique C. de Lima Vaz, 2ª ed.
Arte e verdade, Maria José R. Campos
Bergson, intuição e discurso filosófico, Franklin L. Silva
Caminlw poético de Parmênides (0), Marcelo P. Marques
Ceticismo de Hume (0), Plínio Junqueira Smith
Conceito de religião em lfegel (0), Marcelo F. de Aquino
Concepções antropológicas na obra de Shelling (As), Fernando R. Puente
Cultura do simulacro (A), Hygina B. de Melo
Da riqueza dos nações à ciência dos riquezas, Renato Caporali Cordeiro
Descartes e sua concepção de homem, Jordino Marques
Escritos de filosofia 1, Henrique C. de Lima Vaz
Escritos de filosofia li, Henrique C. de Lima Vaz, 2ª ed.
Escritos de filosofia 1/1, Henrique C. de Lima Vaz
Estudos de filosofia da cultura, Regis de Morais
Ética e racionalidade moderna, Manfredo A. de Oliveira
Ética e sociabilidade, Manfredo A. de Oliveira, 2' ed.
Evidência e verdade no sistema cartesiano, Raul Landim Filho
Felicidade e benevolência - ensaio sobre ética, Roben Spaemann
Filosofia do mundo, Filippo Selvaggi
Filosofia e alteridade, William Desmond
Filosofia e método no segundo Wittgenstein, Wemer Spaniol
Filosofia e violência, Marcelo Pcrine
Filosofia na crise da modernidade, Manfredo A. de Oliveira, 2ª ed.
Filosofia política, Eric Weil
Filósofo e o político segundo Eric Weil (0), Marly C. Soares
Gênese da ontologia fundamental de Martin Heidegger, J. A. MacDowell
Grau zero do conhecimento (0), Ivan Domingues
Hermenêutica e psicanálise na obra de Paul Rictrur, S. G. Franco
Idéia de justiça em Hegel, Joaquim C. Salgado
Iniciação a Santo Tomás de Aquino, Jean-Pierre Torrell
Iniciação ao silêncio, Paulo R. Margutti Pinto
Intuição na filosofia de Jacques Maritain (A), Laura Fraga A. Sampaio
Justiça de quem? Qual racionalidade?, Alasdair Macintyre
liberdade esquecida, Maria do Carmo B. de Faria
Maquiavel republicano, Newton Bignotto
Marx e a natureza em O Capital, Rodrigo A. de P. Duane, 2ª ed.
Marxismo e liberdade, Luiz Bicca
Mímesis e racionalidade, Rodrigo A. de P. Duane
Moral e história em John Locke, Edgard J. Jorge Filho
Para ler a fenomenologia do Espírito, Paulo Meneses, 2ª ed.
Político na modernidade (0), Marco A. Lopes
Racionalidade moderna e subjetividade, Luiz Bicca
Religião e história em Kant, Francisco Javier Herrero
Religião e modernidade em Habermas, Luiz B. L. Araújo
Reviravolta lingüístico-pragmática na filosofia contemporânea, Manfredo A. de Oliveira
Topo ético da psicanálise (0), Antônio M. R. Teixeira
Trabalho e riqueza na fenomenologia do Espírito de Hegel, J. H. Santos
pAULO ROBERTO MARGUTTI PINTO

INICIAÇAO
A

AO SILENCIO
Uma análise do Tractatus de Wittgenstein como
forma de argumentação
FILOSOFIA
Coleção dirigida pela Faculdade do Centro de Estudos
Superiores da Companhia de Jesus
Diretor: Marcelo F. Aquino, SJ
Co-Diretores: Henrique C. Lima Vaz, SJ e Danilo Mondoni, SJ
Instituto Santo Inácio
Av. Cristiano Guimarães, 2127 (Planalto)
31720-030 - Belo Horizonte, MG

Revisão:
Maurício Pagotto Marsola
Cristina Peres

Diagramação:
Paula R. R. Cassan

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quer sistema ou banco de dados sem permissão escrita
da Editora.

ISBN: 85-15-01652-4

© EDIÇÕES LOYOLA, São Paulo, Brasil, 1998


A
quilo que o leitor ta mbém pode, deixe para o
leitor. [Wittgenstein, Culture and Value, p. 36.)

W
ittgenstein me disse uma vez: "meus próprios
problemas aparecem naquilo que escrevo em filo­
sofia'� [Rush Rhees, Resenha do livro de Bartley, in:
Human World, fevereiro de 1974, p. 75.)
SUMARIO
,

PREFÁCIO ......................................................................................... 11
INTRODUÇÃ O . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1 5

lªPARTE
O CONTEXTO E O PONTO DE PARTIDA
DA ARGUMENTAÇÃ O NO TRACTATUS

Capítulo 1 - Wittgenstein à época da redação do Tractatus . ......... 39


I - Observações preliminares . . . ..
........... . .
......... .
........ ........... 39
II - A evolução intelectual de Wittgenstein em direção
ao Tractatus . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40
III - Observações finais .
.................. ............................ . . .... ..... 49

Capítulo 2 - O contexto ético-metafísico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5 3

I - Observações preliminares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5 3
II - A filosofia d e Schopenhauer . . ... ... . 55
............................ ......

III ......:.... O imperativo moral d e Weininger 60


...................................

7
Iniciação ao silêncio

IV - A experiência religiosa segundo William James ............. 68


V - O evangelho segundo Tolstoi .......................................... 76
VI - Observações finais . . ......... .... ........................................... 79

Capítulo 3 - O contexto ligado à análise da linguagem ................. 81


I - Observações preliminares . ...... ............................. . .........81
II - A teoria dos modelos d e Hertz e Boltzmann ................... 82
III - A lógica de Frege ............................................................ 88
IV - Os trabalhos de Russell . . ................... ... ........................... 99
V - A crítica mauthneriana da linguagem . ......... .............. . 1 07 ..

VI - Observações finais . ........... ....................................... . . . 118


.. .

Capítulo 4 - O ponto de partida da argumentação


no Tractatus ...... . ........... .. ..... . ........ . . : .................... 1 2 1
.. ..

I - Observações preliminares .. . .. ........... .......... 121 ... ................

II As premissas e o problema fundamental de


-

Wittgenstein . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1 22
............... .... .......

III Observações finais


- 1 39
.............................................•..........

2ªPARTE
A FILOSOFIA DO TRACTATUS

Capítulo S -A crítica tractatiana da linguagem .............. .. ........... 1 43


I Observações preliminares
- ........ ............................... . ..... 1 43
II A crítica da linguagem e seu objeto
- . . ......... ...... ........ ..... 1 44
III A crítica da proposição . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
- 1 48
IV A proposição como modelo do fato
- ..
................ . ........... 1 57
V - Sentido e significado . .
................................... ... ............. 1 64
VI Observações finais
- . . . . .. . ............................
....... . ... ... .. ..... 1 73

Capítulo 6 - A crítica da linguagem e seus reflexos sobre a


estrutura do mundo .......... . .................... . .................. 1 75

I - Observações preliminares ................................... . .... . .... 1 75

8
Sumário

II -O postulado transcendental e a estrutura do mundo 176 ......

III -O mundo como totalidade dos fatos............................... 186


IV-Observações finais . . . . . ... .. .. . .
...... .. ..
.. ....... 188
.... . . .. ...... ..........

Capítulo 7 -A lógica como essência do mundo .......... ... .............. 191


I -Observações preliminares . . . . . . .. . ... ........... .... .... ..... ... .. .... 191
II -A lógica como lei transcendentalmente estruturante..... 192
III -A forma geral da proposição . . ..................... ................. . 206
IV -Espaço lógico, linguagem e realidade .. ........... . ............. 2 17
V -Observações finais . .
.................................. .................. .. 220

Capítulo 8 -Aplicação dos resultados da crítica da


linguagem ................................................................ 223
I -Observações preliminares .......................... . .................. 223
II -A Lógica . . .... .............................................................. .... 224
III -A Matemática . ......... ...................................................... 227
IV -A Física . ............................................................ . ........... 231
V -A Ética ........................................................................... 235
VI -A Metafísica .. ... ........................................... . .......... . .
.. ... 246
VII-Observações finais ................................................. ....... 252

3ªPARTE
TÉCNICAS ARGUMENTATIVAS UTILIZADAS NO TRACTATUS

Capítulo 9 -Técnicas heurísticas utilizadas na elaboração do


Tractatus .................................................. . ............... 257
I -Observações preliminares . . ............................................ 257
II -Estratégia heurística fundamental do Tractatus: a livre
variação de modelos ... .
..................................... ... ........... 258
III -Estratégia heurística complementar do Tractatus:
o antimodelo ............ ..
.................................... . ................ 267
IV-Táticas heurísticas utilizadas no Tractatus ..................... 274
V -Observações finais .
............................................. ........... 279

Capítulo 10 -A linha geral de argumentação do Tractatus .......... 281


I -Observações preliminares ............................. . ....... . ........ 281

9
Iniciação ao silêncio

II -A estratégia geral de argumentação do Tractatus e


o estilo paratático ...................................................... 282
.

III -O sistema de numeração dos aforismas tractatianos .. 286


IV -A divisão do Tractatus em partes ............................... 293
V -A inversão da ordem das razões e a
"leitura por pistas" ..................................................... 300
VI -A "Introdução" de Russell ......................................... 303
VII -Observações finais ..................................................... 307

Capítulo 11 -Principais esquemas argumentativos utilizados


no Tractatus .......... ......... ........ .
..... .
......................... 309
I -Observações preliminares . ............................. ....... ... 309
..

II -O espírito dos argumentos tractatianos ..................... . 31 O


III -Argumentos quase lógicos ........ ................................. 31 3
IV -Argumentos baseados na estrutura do real ................. 322
V -Argumentos que fundam a estrutura do real .............. 323
VI -Dissociações de conceitos .......................................... 328
VII - Interação dos argumentos tractatianos ...................... 332
VIII -Observações finais ........................................... ..... ..... 335

Capítulo 12-A questão crucial da autofagia ................... .


........... 337
I -Observações preliminares .......................................... 337
II -A 'crítica da linguagem' é necessária, mas suicida .... 340
III-Os resultados negativos da 'crítica da linguagem' .... 343
IV -O resultado positivo da crítica da linguagem ............. 346
V -A crítica da linguagem na vida de
Wittgenstein .
.......................... ................................. ... 352
VI -Observações finais . .
............................... ................... . 357

REFLEXÕES FINAIS ..................................................................... 359


BIBLIOGRA FIA ............................................................................. 363

10
PREFACIO
,

E curso de Professor Titular no Departamento de Filosofia da Uni­


ste l ivro foi concebido originariamente como uma tese para con­

versidade Federal de Minas Gerais. Embora a obra forneça sobretudo


uma análise técnica dos procedimentos argumentativos empregados
pelo jovem Wittgenstein, ela apresenta a vantagem de fornecer tam­
bém uma interpretação sistemática do Tractatus. Em virtude disso,
após fazer algumas adaptações para tomá-la mais legível, decidi publicá­
-la. Espero, assim, estar contribuindo para a maior compreensão da
fascinante visão filosófica de um dos pensadores mais importantes do
século XX.
O presente trabalho, contudo, não teria sido possível sem o au­
xílio de inúmeras pessoas. Sou muito grato a diversos colegas, fun­
cionários e amigos que me estimularam, de uma forma ou de outra, a
empreender a arriscada tarefa de concluir uma tese para concurso de
Professor Titular, agora transformada em livro. Citar todos seria ex­
cessivo aqui. Algumas pessoas e instituições, porém, contribuíram
decisivamente para a realização deste trabalho e merecem uma refe­
rência especial.

1 1
Iniciação ao silêncio

A colega Possidônia de Freitas Drumond Gontijo, doutoranda da


Universidade de Edimburgo, valentemente se dispôs a enfrentar os
obstáculos burocráticos impostos pelos britânicos, fornecendo-me as
valiosas cópias dos livros de Mauthner e Weininger, sem a leitura das
quais a elaboração deste livro teria sido impossível. ( ...)
O doutorando Verlaine Freitas, do curso de pós-graduação em
Filosofia da UFMG, teve a enorme paciência de realizar, com muito
bom gosto, a formatação inicial do texto da tese.
Os colegas Ivan Domingues, Ricardo Fenati e Balthasar Barbosa
Filho leram uma primeira versão do texto e fizeram importantes co­
mentários que me estimularam a persistir na trilha escolhida. Os co­
legas José Henrique Santos, Luís Alberto De Boni, Alberto Antoniazzi,
Marcelo Aquino e Bento Prado Júnior, membros da banca examina­
dora do concurso para Professor Titular, com sua leitura cuidadosa do
texto definitivo, fizeram sugestões inestimáveis. Graças a eles, muitas
das imperfeições que permeavam o texto, todas decorrentes de defi­
ciências minhas, puderam ser eliminadas. Aquelas que permanecem
são de minha inteira responsabilidade.
O colega José Raimundo Maia Neto introduziu-me ao excelente
texto de Walter Stace sobre misticismo e me auxiliou, com muita
presteza, a localizar a citação de Sexto Empírico relativa à metáfora
da escada.
O Prof. Manuel Cabanchik, da Universidade de Buenos Aires,
teve a boa vontade e a generosidade de me enviar uma tradução me­
xicana de parte do texto de Mauthner.
O colega Hugo Pereira do Amaral emprestou-me a rara cópia do
"Resumo do evangelho", de autoria de Tolstoi.
A Universidade Brama Kumaris aceitou hospedar-me em Monte
Abu, na Índia, proporcionando-me a rara oportunidade de chegar um
pouco mais perto do significado do silêncio místico.
As Edições Loyola gentilmente se prestaram a publicar este livro
em sua prestimosa Coleção Filosofia.
O CNPq e a Pró-Reitoria de Pesquisas da UFMG proporciona­
ram inestimável apoio financeiro em diversas fases da investigação
cujo resultado é este meu trabalho.

12
Prefácio

Finalmente, o carinho de minha querida esposa, Beth, e de meus


filhos, Vivian, Leonardo e Cláudia, encorajou-me a prosseguir quando
tive dúvidas.
A todos, agradeço de coração. Possa eu um dia ser capaz de
retribuir-lhes em igual medida.

0 AUTOR

13
INTRODUÇÃO

D perderam a confiança na capacidade da filosofia formal em resol­


e acordo com Thomas Conley, muitos filósofos contemporâneos

ver problemas de decisão e ação. Em virtude disso, esses filósofos


retornaram aos estudos de Retórica. Neste retorno, que constitui uma
das características marcantes do século XX, destacam-se os trabalhos
de McKeon, Toulmin, Perelman e Habermas (Conley 1 994: 285). Estes
autores partilham um consenso que aponta em direção ao ressurgimen­
to de uma retórica de tipo neociceroniano (ibidem: 295 ; 303-304).
Com efeito, todos eles coincidem no combate ao dogmatismo, na li­
gação da filosofia com a vida cotidiana e na tentativa de fundamentar
a filosofia na noção ciceroniana de 'controvérsia' (ibidem: 304) . Esta
última envolve uma fusão dos usos do discurso filosófico e do método
retórico, na qual a filosofia se torna uma atividade em que não são
mais as intuições ou a verificação sensível que atuam como os funda­
mentos da discussão, mas os ' lugares ' ( ' topoi' ou ' loci '). Nessa pers­
pectiva, o filosofar se torna uma atividade de ' invenção ' a partir das
sedes argumentorum (ibidem: 34-38; 289).
Dentre as obras dos autores citados, interessa-nos particularmen­
te o Tratado da argumentação, de Perelman e Olbrechts-Tyteca, publica-

15
Iniciação ao silêncio

do em 1958, em virtude de seu estudo pormenorizado dos esquemas


argumentativos. Sob este aspecto, a obra constitui um marco nos es­
tudos contemporâneos ligados à Retórica. Na opinião de seus autores,
o Tratado marca uma ruptura com a concepção cartesiana de razão e
raciocínio ( 1958: 1). Com efeito, a natureza da argumentação se opõe
à necessidade e à evidência. O domínio da argumentação é o do ve­
rossímil (ibidem). Ora, no Discurso do método, Descartes considera a
evidência como marca distintiva da razão e toma como falso tudo
aquilo que é apenas verossímil (ibidem: 2). A Teoria da Argumentação
rejeita a idéia de que toda prova racional seja uma redução à evidên­
cia, considerando que seu verdadeiro objeto de estudo são as técnicas
discursivas, permitindo provocar ou aumentar a adesão dos espíritos
às teses que lhes são apresentadas (ibidem: 5). Neste sentido, Perelman
e Olbrechts-Tyteca afirmam que essa teoria se aproxima da Dialética
e da Retórica antigas, tal como definidas por Aristóteles (ibidem: 6),
embora pareça mais razoável supor, como o faz Conley, que sua ver­
dadeira fonte está em Cícero. De qualquer modo, tendo em vista que
toda argumentação se desenvolve em função de um auditório, os au­
tores do Tratado consideram que as mesmas técnicas argumentativas
se encontram em todos os níveis, desde uma discussão familiar até um
debate entre especialistas (ibidem: 7; 10). Isso permite concluir que a
lógica matemática é limitada, pois aquilo que ela não consegue forma­
lizar fica fora de seu domínio. Os lógicos devem completar sua Teoria
da Demonstração com uma Teoria da Argumentação (ibidem: 13), que
também pode ser chamada de "Nova Retórica".
Essas idéias levam Conley a afirmar que a obra de Perelman e
Olbrechts-Tyteca tem três características fundamentais. Primeiro, seus
assuntos primários são a invenção e a expressão (Conley 1994: 298).
Segundo, o livro mostra que as ligações entre fatos ou proposições são
muito mais sutis, flexíveis e particularizadas que as ligações reconhe­
cidas como legítimas pelos lógicos (ibidem). Na verdade, Perelman e
Olbrechts-Tyteca têm pouquíssimo interesse em silogismos, já que
boa parte dos esquemas argumentativos que estudam dificilmente
poderia ser reduzida à forma silogística. Terceiro, a obra combate
qualquer tipo de oposição filosófica absoluta e irredutível (dualismo
razão versus imaginação, conhecimento versus opinião, objetividade
universal versus subjetividade incomunicável etc.). Somente uma

16
Introdução

argumentação que não é nem coercitiva nem arbitrária pode dar sen­
tido à liberdade humana, entendida como possibilidade de escolha
racional (ibidem: 299).
Apesar dos elogios de Conley, os italianos Plebe e Emanuele
criticam a noção de argumentação de Perelman e Olbrechts-Tyteca,
considerando que eles enfatizam o aspecto da persuasão, deixando de
lado a imaginação inventiva (héuresis). Para Plebe e Emanuele, a
função da Retórica é, sobretudo, inventar os temas e seus respectivos
tratamentos ( 1 992: 1 2- 1 3; 1 06) . Assim, a ênfase na persuasão produz
duas seqüelas interligadas e indesejáveis. Em primeiro lugar, Perelman
e Olbrechts-Tyteca são levados à atitude congenitamente contraditória
de ver na Retórica uma atividade inovadora e simultaneamente estudá­
-la como um procedimento conservador (ibidem) . Com efeito, eles
sustentam que a eficácia de uma argumentação depende da regra de
justiça, segundo a qual o argumento que já valeu em casos precedentes
valerá também para casos futuros. Todavia, a regra de justiça funciona
não em virtude de algum princípio criativo, mas do princípio de inér­
cia, que fundamenta a importância dada ao que já valeu no caso pre­
cedente (ibidem: 1 07). Em segundo, Perelman e Olbrechts-Tyteca ten­
dem a deslocar o mundo da Retórica do plano lógico-filosófico para
o sociopsicológico (ibidem: 1 06). De fato, o princípio de inércia, que
fundamenta a força persuasiva de um argumento, é de caráter psico­
lógico (ibidem: 1 08). Isso os induz a pensar que o argumento mais
forte é o psicologicamente mais eficaz, não o logicamente válido.
Perelman e Olbrechts-Tyteca foram capazes de desvencilhar-se dessas
seqüelas na Terceira Parte do Tratado da Argumentação, que é dedicada
à Retórica como disciplina "quase lógica" e estuda as técnicas
argumentativas em geral (ibidem: 1 09).
Contra Plebe e Emanuele, temos as seguintes considerações a
fazer. Primeiro, é importante observar que, por um lado, como os
próprios autores italianos reconhecem, Perelman e Olbrechts-Tyteca
realizam, na Terceira Parte do Tratado, um estudo em que a invenção
ocupa um lugar importante. Por sua vez, convém lembrar que a Re­
tórica não é pura invenção. No capítulo II de seu Manual de retórica,
em que estudam a arte de inventar, Plebe e Emanuele são forçados a
reconhecer que não se inventa a partir do nada. Com efeito, as técnicas
heurísticas por eles consideradas são a do antimodelo, a da iteração de

17
Iniciação ao silêncio

conceitos, a dos paradoxos e a das definições retóricas. No caso do


antimodelo, parte-se de uma posição considerada inaceitável, buscan­
do idéias antitéticas (Plebe e Emanuele 1992: 36); no da iteração de
conceitos, imita-se ou varia-se livremente um modelo, que é tomado
como pattern1 (ibidem: 41); no dos paradoxos, procura-se inventar
algo que vá contra a opinião comum, uma "contra-opinião" (ibidem:
43); no caso das definições, olha-se para conceitos já existentes numa
perspectiva diferente, obtendo novas formas de concebê-los. Ora, em
nenhuma dessas técnicas há invenção a partir do nada. Em todas elas,
na verdade, o princípio de inércia parece desempenhar um papel im­
portante, seja pelo fato de elas pressuporem a existência de um padrão
argumentativo prévio que serve de referência para a criação, seja pelo
fato de elas estabelecerem novos padrões, que funcionarão como pres­
supostos para novos casos. Assim, parece perfeitamente plausível afir­
mar que a Retórica só pode inventar a partir de um patrimônio
argumentativo estabelecido. Nesta perspectiva, é mais conveniente
reconhecer que a invenção, embora importante, não constitui a única
dimensão da Retórica. O desenvolvimento histórico dos processos
argumentativos dá-se a partir de um jogo balanceado entre imitação e
inovação.
Segundo, embora seja plausível acusar Perelman e Olbrechts­
-'fyteca de deslocarem o mundo da Retórica do plano lógico-filosófico
para o sociopsicológico, o que este debate consegue mostrar é que o
primeiro destes planos não está imune às influências do último. De
fato, apesar de o princípio de inércia possuir o caráter psicológico
denunciado por Plebe e Emanuele, ele não fundamenta apenas os ar­
gumentos psicologicamente mais eficazes. Como a própria História da
Lógica bem o demonstra, desde Aristóteles, os argumentos logicamente
válidos também têm sido fundamentados pelo princípio de inércia. A
discussão deste problema, contudo, vai além dos objetivos do presente
trabalho.
O elemento mais importante a ser destacado nesta discussão é
que, a partir da Teoria da Argumentação, a Retórica não constitui uma
disciplina autônoma, mas, acima de tudo, um dos componentes do
discurso. Em nossa opinião, a atitude de separar Retórica e discurso,

1. Ver a explicação de pattern na p. 24.

18
Introdução

para depois estudá-la como disciplina independente, cujas técnicas


poderemos aplicar ou não, segundo nossas conveniências, pode con­
duzir ao erro. Realmente, isso pode induzir-nos a pensar que existe
algo como "a" Retórica e levar-nos a esquecer que não há discurso
argumentativo sem elementos retóricos, os quais, embora possam existir
em maior ou menor grau, sempre estarão presentes. A Retórica cons­
titui uma parte integrante de todo discurso que visa a alguma forma
de adesão do auditório a que se dirige. Com efeito, se o autor desse
tipo de discurso busca a adesão, ele se vê na contingência de, para ser
eficaz, ter de adotar as técnicas argumentativas mais adequadas ao
objetivo pretendido. Isso vale para os mais diversos tipos de discurso,
como, por exemplo, o filosófico, o científico, o poét.ico. Não foi à toa
que Platão admitiu a existência de duas espécies de Retórica, a saber,
a boa, que caracteriza seus diálogos, e a má, que caracteriza os dis­
cursos de seus inimigos sofistas. Desse modo, o estabelecimento da
Retórica como disciplina independente só faz sentido se a entender­
mos como o estudo das técnicas argumentativas presentes em todo
discurso que visa à adesão, mas com a condição de reconhecermos
que tais técnicas constituem parte essencial do discurso e não existem
fora dele. Sem isso, seremos levados à falsa idéia de que a Retórica
equivale à Oratória, ou ao estudo das Figuras de Estilo, ou à propa­
ganda de massa. Visando à adesão de seus respectivos auditórios,
todas essas formas de discurso envolvem a componente retórica. Mas
não são as únicas a incluí-la, como bem o demonstram os Diálogos
de Platão.
Estas considerações nos mostram que a palavra 'retórica' já está
muito contaminada por seu passado histórico e que, em virtude disso,
talvez fosse melhor substituí-la. Por suas ligações com o método
hegeliano, a palavra 'dialética' não se encontra em melhor situação.
Assim, seguindo o espírito dos autores mencionados, parece-nos que
a palavra 'argumentação' é mais adequada. Se a entendermos no sen­
tido perelmaniano, ou seja, como o estudo das técnicas discursivas que
produzem ou fazem crescer a adesão dos interlocutores, veremos que
a argumentação assim concebida se aproxima da Retórica e da Dialética
antigas, sem, contudo, identificar-se com elas. Ela envolve não só a
componente retórica e os argumentos logicamente válidos da dialética,
mas também, e principalmente, todo um conjunto de esquemas

19
Iniciação ao silêncio

argumentativos mais flexíveis e diversificados, que vão muito além


dos puramente formais. Nessa perspectiva claramente pragmatista,
poderíamos dizer que a Teoria da Argumentação corresponde a uma
espécie de "Órganon" das teorias pragmáticas em geral.
Com base nas idéias acima, temos, já há alguns anos, trabalhado
a fim de fornecer elementos para a construção deste "Órganon". Nosso
objeto de estudo tem sido, até agora, a argumentação filosófica. Isso
nos permitiu elaborar um método de análise argumentativa que com­
bina elementos provenientes de Perelman e Olbrechts-Tyteca e de Plebe
e Emanuele. A idéia central do método é a de que todo discurso
argumentativo de caráter filosófico envolve uma combinação de repe­
tição e invenção. Esta combinação é única em cada discurso filosófico
específico. Em alguns casos, inclusive, a própria noção de argumen­
tação é alterada. Isso mostra que a expressão 'técnicas discursivas que
produzem ou fazem crescer a adesão' deve ser entendida em sentido
muito lato, e não somente como técnicas de fornecer razões em sen­
tido tradicional. A "regra do polegar" do método consiste em respeitar
a especificidade do discurso filosófico a ser estudado.
Em suas linhas gerais, o método consiste em considerar dado
texto filosófico como uma peça argumentativa. Isso permite supor
que ela tenha sido elaborada nas seguintes condições: seu autor, ins­
pirado por determinado contexto (envolvendo circunstâncias históri­
cas determinadas e, muito possivelmente, outros textos, filosóficos ou
não), experimenta determinada vivência e expressa-a por meio de um
texto filosófico, que é escrito para provocar a adesão dos membros de
um auditório específico (em geral, a comunidade filosófica de sua
época). Em outras palavras, o contexto influencia e motiva o autor,
que, em resposta, vivencia uma experiência filosófica e tenta transmi­
ti-la ao auditório correspondente. Assim, o texto, como peça argu­
mentativa, não pode ser separado de seu contexto, das intenções do
autor e do público a que se dirige. A análise argumentativa considera
o texto em pelo menos três aspectos fundamentais: quanto à vivência
que ele pretende expressar (o texto encarado da perspectiva de seu
conteúdo); quanto ao problema e o ponto de partida do autor (o texto
encarado da perspectiva do contexto que o produziu); quanto à solu­
ção dada pelo autor com vistas a um auditório específico (o texto
encarado da perspectiva do público a que se dirige). Esta análise

20
Introdução

mostra claramente que o autor não cria do nada, mas inventa a partir
daquilo que já existe.
Para efetuar adequadamente a análise argumentativa de dado texto,
o método percorre, em geral, os seguintes momentos: a) exposição da
solução do autor (conjetura hermenêutica); b) contextualização (pro­
blema e ponto de partida do autor); c) identificação das principais
técnicas heurísticas utilizadas (parte inventiva); d) análise dos princi­
pais esquemas argumentativos utilizados para justificar pontos especí­
ficos da solução (táticas argumentativas); e) análise da linha geral de
argumentação utilizada para expor e justificar a solução encontrada
(estratégia argumentativa). A ordem em que estes momentos estão
sendo apresentados não é a única possível, já que eles são relativa­
mente independentes entre si e interagem uns com os outros. Pode-se
começar a análise, por exemplo, pela contextualização e depois passar
para a exposição da solução do autor. Em todos esses momentos,
deve-se levar em conta que é a especificidade do texto que determina
a aplicação do método, e não o contrário.
Embora o objetivo principal da análise argumentativa não seja
propriamente hermenêutico, acreditamos que a aplicação deste méto­
do introduz uma série de elementos que auxiliam grandemente na
construção de uma hipótese inteipretativa adequada, facilitando a com­
preensão da obra. Há uma interação entre a hipótese hermenêutica e
os aspectos argumentativos do texto, de tal maneira que estes últimos
contribuem para refinar e reforçar a primeira. Assim, o resultado da
análise que estamos aqui propondo é não somente a explicitação dos
procedimentos argumentativos utilizados, mas também o reforço e a
maior clarificação da conjetura inteipretativa proposta para o texto.
Para mostrar como isso é possível, consideraremos em detalhe os
diversos momentos do método, de acordo com a ordem em que foram
apresentados acima.
O primeiro deles consiste na exposição da solução encontrada
pelo autor. Este momento envolve a elaboração de uma conjetura
inteipretativa que está sujeita aos mesmos problemas de qualquer

2. Em nosso caso, como veremos, esta é a ordem que será adotada, para facilitar
a exposição.

21
Iniciação ao silêncio

exegese. Com efeito, se, por um lado, a interpretação do texto depende


dos instrumentos de análise do sujeito interpretante, por outro, a ela­
boração e utilização dos instrumentos de análise deste sujeito é deter­
minada pelo texto a ser interpretado. Assim, o inevitável problema do
"círculo hermenêutico" ocorre aqui. Hâ, porém, uma circunstância
atenuante. Na medida em que o texto é encarado fundamentalmente
como peça argumentativa, todos os fatores que contribuem para sua
produção devem ser igualmente considerados na construção da conje­
tura interpretativa: o próprio texto como dado, as intenções do autor,
o contexto, o público a que se dirige e as características do intérprete.
Desse modo, alguns dos perigos dos métodos hermenêuticos tradicio­
nais são evitados, como, por exemplo, o psicologismo (obtenção do
sentido do texto com ênfase nas intenções do autor), o historicismo
(obtenção do sentido com ênfase no contexto histórico-cultural), o
relativismo (obtenção do sentido com ênfase no público a que o texto
se destina), o subjetivismo (obtenção do sentido do texto com ênfase
na leitura do intérprete que o reconstitui), o positivismo (obtenção do
sentido com ênfase no próprio texto como dado). Além disso, embora
os demais momentos do método não evitem a dificuldade do círculo
hermenêutico, são capazes, pelo menos, de atenuá-la, jâ que os dados
neles obtidos podem interagir positivamente com a interpretação pro­
posta. Cada um deles introduz elementos que contribuem para tornar
mais fundamentada a hipótese interpretativa geral a respeito da vivência
filosófica envolvida pela obra.
O segundo momento considera o contexto no qual a obra se
insere. Por 'contexto' entendemos aqui todo o conjunto de fatos e
idéias relevantes para a compreensão do ambiente cultural que leva à
produção da obra. Em virtude disso, torna-se importante, na análise
argumentativa, a consideração das circunstâncias, fatos e autores que
repercutem de alguma forma na elaboração do texto final. Mas con­
vém lembrar que os tipos de circunstância, fato ou autor relevante
variam de acordo com a especificidade do texto analisado. É isso que
determina até que ponto a contextualização deve chegar.
Com base nessa contextualização, é possível identificar qual o
problema que motivou o autor e quais as premissas por ele aceitas.
Isso constitui o que entendemos como 'ponto de partida', que é toma­
do num sentido diferente de Perelman e Olbrechts-Tyteca. Para estes,

22
Introdução

a expressão 'ponto de partida da argumentação' significa o conjunto


das premissas que servirão de fundamento à construção do discurso
( 1958: 87). Tais premissas são analisadas segundo três planos diferen­
tes: sua aceitação pelo auditório, sua escolha pelo orador e sua apre­
sentação em forma de discurso (ibidem: 88). Ora, é certo que as
premissas que servem para fundamentar a construção do discurso
constituem elementos importantes do seu ponto de partida. Todavia,
a análise segundo três planos que Perelman e Olbrechts-Tyteca
delas fazem neste ponto enfatiza aspectos que, na perspectiva do
método que adotamos, devem ser considerados num momento
posterior. Com efeito, os planos da aceitação das premissas pelo
auditório, da sua escolha pelo orador e da sua forma de apresentação
correspondem ao momento do vivenciar e expressar a solução encon­
trada. Em nossa perspectiva, antes de se encontrar a solução, aceitam­
se determinadas premissas e enfrenta-se determinado problema. É por
isso que entendemos a expressão 'ponto de partida da argumentação'
num sentido diferente de Perelman e Olbrechts-Tyteca, deixando os
aspectos da análise que eles fazem neste ponto para um momento
posterior.
Além de localizar o texto no espaço e no tempo, o procedimento
de contextualização introduz a seguinte vantagem hermenêutica: ao
procurar pelo problema e pelas premissas da argumentação, contribui­
-se duplamente para uma maior clareza na construção da interpretação
da vivência filosófica do autor. De fato, a determinação do problema
que inspirou e motivou o autor determina também, até certo ponto, o
conjunto de respostas possíveis, reduzindo, assim, o campo das hipó­
teses interpretativas apropriadas ao caso. Além disso, o estabelecimen­
to das premissas de determinado discurso argumentativo condiciona
de alguma forma o conjunto das conclusões possíveis, reduzindo tam­
bém o campo das hipóteses interpretativas apropriadas.
O terceiro momento consiste na análise das técnicas argu­
mentativas utilizadas pelo texto. Essa análise envolve três estágios,
relativos às técnicas heurísticas, à linha geral de argumentação e aos
esquemas argumentativos. O primeiro estágio consiste na análise das
técnicas heurísticas adotadas, no espírito do modelo proposto por Ple­
be e Emanuele ( 1992: 35-52). Como sabemos, esses autores assumem

23
Iniciação ao silêncio

a posição de que a Retórica é, antes de mais nada, a arte de inventar


conceitos, temas e soluções. Nessa perspectiva, eles fazem a classifi­
cação já citada das principais técnicas inventivas: antimodelo, iteração
de conceitos, paradoxos e definições retóricas. Mais adiante discuti­
mos até que ponto elas poderiam constituir uma atividade de pura
invenção . Neste ponto , cabe observar que, do ponto de vista
argumentativo, as afirmações que os autores italianos fazem a respeito
dessas técnicas merecem alguns reparos.
Primeiro, parece-nos que elas podem ser dispostas em dois gran­
des grupos, em paralelo com a distinção entre estratégia e tática
argumentativa. Com efeito, duas dessas técnicas têm a ver com a
estratégia geral de invenção. São elas: a do antimodelo e a da iteração
de conceitos. Com base nelas, é possível estabelecer o fio condutor da
atividade inventiva. Quando se adota a primeira técnica, estabelece-se
o seguinte fio condutor para a invenção: procurar, num modelo esco­
lhido, os elementos que permitam a construção de um antimodelo, ou
seja, um modelo alternativo que se oponha ao de partida. Quando se
adota a segunda, o fio condutor da invenção passa a ser outro: buscar,
em dado modelo, os elementos que possam ser alterados e recombinados
de modo a produzir um novo modelo que constitua uma variação do
modelo de partida.
Segundo, as características próprias dessa segunda técnica im­
põem uma modificação também na terminologia de Plebe e Emanuele.
Sabemos que eles a denominam ' iteração de conceitos ' . Para justificar
o uso dessa expressão, tais autores recorrem à seguinte distinção:
"Hoje possuímos, na língua inglesa, dois termos que podem
indicar, com bastante clareza, de um lado a desconfiança,
de outro a atenção da retórica antiga para com a imitação:
é considerado perigoso seguir um model, isto é, um modelo
que seja reproduzido em todas as suas características es­
senciais, mas é útil e em nada nocivo à originalidade seguir
um pattern, isto é, um esquema articulado, de que se possa
reproduzir apenas um motivo, variando livremente os demais.
(... ) A iteração retórica dos conceitos pode, portanto, utilizar
também a técnica de uma livre imitação de um modelo,
entendido como pattern" (Plebe e Emanuele 1 992: 4 1 ) .

24
Introdução

Para eles, portanto, como técnica de invenção, a iteração de con­


ceitos não é mera repetição do modelo original. Ela consiste em assu­
mir um aspecto fundamental desse modelo, ou seja, um padrão articu­
lado dele, e modificar os demais, de acordo com as necessidades do
novo modelo a ser criado. Nessa perspectiva, o aspecto selecionado
funciona como um padrão conceitua! que é livremente imitado. Ora,
isso significa que essa técnica heurística envolve dois aspectos bási­
cos. Se é verdade, por um lado, que ela constitui uma imitação, tam­
bém é verdade, por outro, que tal imitação é de caráter criativo. Em
virtude disso, preferimos chamar essa técnica de ' livre variação de
modelo ' 3 • A palavra 'modelo' remete à dimensão da imitação, enquan­
to a palavra 'livre variação ' remete à dimensão criativa. Em um para­
doxal contraste com a definição de Retórica como arte da invenção, a
denominação ' iteração de conceitos ' , utilizada por Plebe e Emanuele,
enfatiza exclusivamente o aspecto imitativo, deixando de lado a di­
mensão criativa dessa técnica.
Terceiro, as outras duas técnicas heurísticas da classificação de
Plebe e Emanuele correspondem não a planos gerais, mas a processos
particulares que podem ser empregados para implementar um projeto
mais amplo de invenção. Em outras palavras, elas constituem táticas
de invenção que podem ser utilizadas para real izar dada estratégia
geral de invenção. Essas técnicas são a dos paradoxos e a das de­
finições retóricas. Nessa perspectiva, depois de adotar a estratégia
geral do antimodelo, o autor pode utilizar, como procedimento parti­
cular para um fim específico, ou a tática do paradoxo ou a da defi­
nição retórica. As duas podem ser consideradas processos inventivas
menores que ajudam a implementar uma estratégia inventiva mais
ampla.
Quarto e último, já ponderamos que não apenas a Retórica, mas
também as diversas formas de argumentação envolvem simultanea­
mente uma dimensão criativa e uma repetitiva. Desse modo, embora

3. Embora os autores citados entendam a palavra ' modelo' no sentido de 'pa­


drão' , consideramos que a expressão ' livre variação de padrão' não é a mais adequa­
da. Além de não soar bem em português, ela obscurece o fato de que, apesar do
''modelo" ser tomado como "padrão", o resultado final da aplicação da técnica é uma
variação do modelo originário que funciona como ponto de referência.

25
Iniciação ao silêncio

a posição dos autores italianos apareça como extremada e perigosa­


mente reducionista, é verdade que toda forma de argumentação envol­
ve, em maior ou menor grau, uma componente inovadora. Isso toma
útil a lista que Plebe e Emanuele fazem das técnicas inventivas. Uma
vez corrigidas a partir das considerações acima, elas podem ser in­
cluídas no método proposto, passando a constituir mais um elemento
importante na clarificação do texto como peça argumentativa, com a
vantagem adicional de contribuir também para a fundamentação da
hipótese interpretativa a respeito da vivência filosófica envolvida. Com
efeito, a identificação das técnicas heurísticas utilizadas pelo autor
permite que percebamos, com clareza, onde ele está sendo original e
onde está imitando a tradição. E os dados assim obtidos contribuirão
para reforçar ou enfraquecer a interpretação adotada.
O segundo estágio do terceiro momento do método proposto
concerne à identificação da linha geral de argumentação do texto. Ele
procura fornecer sua estrutura argumentativa, sua estratégia geral. A
idéia básica que fundamenta esse estágio pode ser formulada como
segue: se o autor tem dada vivência filosófica e deseja transmiti-la a
certo auditório, então determinadas estratégias argumentativas são mais
adequadas. Achamos que isso não constitui uma afirmação vaga, já
que vivências filosóficas específicas restringem grandemente a esco­
lha das estratégias argumentativas adequadas para expô-las. A consi­
deração da vivência permite supor qual o melhor tipo de estratégia a
ser utilizada em sua exposição. É claro que esta estratégia talvez não
seja única. O conjunto total das estratégias possíveis pode incluir um
subconjunto mais ou menos extenso de estratégias adequadas. Ade­
mais, a adoção da estratégia prevista não confirma a interpretação que
a implica. Se pensássemos que isso fosse possível, estaríamos caindo
na falácia da afirmação do conseqüente. Mesmo assim, duas vanta­
gens hermenêuticas podem ser exploradas no primeiro estágio. Em
primeiro lugar, a tentativa de adequar a vivência filosófica à estratégia
argumentativa reduz o número de estratégias a considerar. Em vez de
atentar ao conjunto formado por todas as estratégias possíveis, pode­
mos restringir nossa atenção ao subconjunto das estratégias mais ade­
quadas à expressão da vivência. Em segundo, se o autor adota uma
estratégia argumentativa diferente da esperada, temos um forte indica­
dor para supor que a interpretação construída não é a mais correta.

26
Introdução

Podemos, dentro de certos limites, falsear dada interpretação a partir


de sua incompatibilidade com a técnica argumentativa utilizada pelo
autor. Em outras palavras, embora não tenhamos condições de deter­
minar com certeza se dada interpretação é correta, existem, pelo menos,
determinadas situações em que a incorreção de uma interpretação se
apresenta como uma hipótese bastante viável. Essas duas vantagens
propiciadas pelo método de análise argumentativa aqui proposto po­
dem constituir elementos importantes para facilitar a compreensão do
texto analisado.
No terceiro e último estágio, passa-se para a consideração dos
esquemas argumentativos empregados, entendendo-os como táticas
utilizadas pelo autor com a finalidade de realizar sua estratégia geral.
Para a execução dessa tarefa, os dados soberbamente recolhidos na
Terceira Parte do Tratado da argumentação de Perelman e Olbrechts­
-Tyteca constituem uma referência fundamental. Esses autores consi­
deram cada esquema argumentativo como um 'lugar' (topos, locus)
por meio do qual é realizada a ligação ou a dissociação de conceitos.
Seu mérito maior está na coleta e classificação de uma grande quan­
tidade de tais lugares num sem-número de textos relevantes para a
história do pensamento ocidental, o que faz da lista por eles obtida o
estoque mais completo dos principais esquemas argumentativos até
agora elaborado. Além disso, tais esquemas são concebidos no interior.
de uma visão daquilo que constituiria a argumentação em sentido
tradicional. Em virtude disso, o estoque de lugares argumentativos que
eles elaboraram serve de referência não só para as análises argu­
mentativas de textos que se encontram mais próximos do sentido tra­
dicional, mas também daqueles que se afastam da tradição estabe­
lecida. Em outras palavras, o estoque de argumentos desses autores
pode ser utilizado na análise de textos tanto "comportados" como
"desviados". O que estabelece a perspectiva segundo a qual eles de­
vem ser considerados é a especificidade da vivência filosófica do autor,
que determina o tipo de estratégia argumentativa adotada e o modo
particular de utilização dos lugares argumentativos.
Aqui também, ao lado da clarificação dos procedimentos argu­
mentativos utilizados pelo autor, é possível introduzir novos elemen­
tos que irão auxiliar na comprovação da interpretação da vivência

27
Iniciação ao silêncio

filosófica apresentada no primeiro momento do método. Com efeito,


se é certo que a vivência determina até certo ponto a estratégia
argumentativa, também é verdade que esta última determina de algu­
ma forma as táticas argumentativas particulares a serem empregadas.
Desse modo, o estabelecimento do tipo de estratégia argumentativa
mais apropriada, a partir de dada interpretação do texto, leva também
ao estabelecimento dos tipos de esquemas argumentativos, ou seja, das
táticas ou procedimentos particulares mais adequados à realização
daquela estratégia. Nessa perspectiva, as duas vantagens do primeiro
estágio se repetem aqui, mutatis mutandis. Primeiro, a opção por dada
estratégia argumentativa pode condicionar a escolha de certos esque­
mas argumentativos como mais adequados, reduzindo-se, assim, o
campo dos esquemas a serem analisados. Segundo, a escolha de de­
terminados esquemas argumentativos pode levar ao falseamento da
hipótese de que dada estratégia argumentativa foi adotada e até mes­
mo, em casos mais raros, ao falseamento da hipótese interpretativa
geral sobre a vivência do autor. Como se pode ver, aqui também o
método introduz uma vantagem hermenêutica complementar, para tor­
nar mais fundamentada a interpretação do texto.
Em síntese, o fundamento do método de análise aqui proposto
·consiste em considerar determinado texto como peça argumentativa. A
partir daí, elabora-se uma conjetura interpretativa a respeito do texto
e, com base nela, analisam-se, em momentos, os procedimentos
argumentativos utilizados. À medida que estes últimos vão sendo cla­
rificados, a coojetura é reforçada ou modificada pela comparação
entrecruzada dos dados obtidos nos diversos momentos. Assim, o re­
sultado do método é duplo: por um lado, ele revela os principais
elementos argumentativos do texto; por outro, ao fazer isso, ele fun­
damenta, de maneira mais consistente, a interpretação geral do texto.
A vantagem do método está em que, ao enfocar o texto como peça
argumentativa, somos levados a considerar, em sua interpretação, to­
dos os fatores que intervêm em sua composição: o próprio texto, as
intenções do autor, o contexto e o público. Assim, a leitura da obra dá
nascimento a uma hipótese interpretativa sobre seu conteúdo. Tal hi­
pótese pode ser mais bem fundamentada por meio da comparação e
interação com os dados provenientes da análise do contexto, que nos
dá o ponto de partida do autor (problema geral e premissas assumidas)

28
Introdução

e com as técnicas argumentativas utilizadas, que envolvem as técnicas


heurísticas, a linha geral de argumentação e esquemas argumentativos.
As técnicas heurísticas esclarecem o processo inventivo a partir do
qual nasceu a obra (estratégia geral de invenção e táticas adotadas). A
linha de argumentação , por seu lado, nos fornece a estratégia
argumentativa geral, enquanto os esquemas argumentativos nos dão as
táticas empregadas para implementar tal estratégia. Este procedimento
toma possível, dentro de certos limites, testar a conjetura feita, poden­
do-se conseguir, em alguns casos mais privilegiados, elementos que
conduzam até mesmo ao falseamento da interpretação que não se adapta
à contextualização ou às técnicas argumentativas usadas. E certamente
uma conjetura compatível com a contextualização e as técnicas
argumentativas se apresentará como uma interpretação mais adequada
da obra analisada. É verdade que a compatibilidade observada pode
não confirmar absolutamente a conjetura feita, mas destaca-a como
mais provável no conjunto das conjeturas possíveis.
Convém observar que o método descrito acima não deve ser
entendido em sentido absoluto, mas apenas como uma proposta pos­
sível, com vantagens e desvantagens, estando aberto a modificações
que possam ser sugeridas por sua própria aplicação ou pelo avanço da
pesquisa. Além disso, as relações entre o método de análise argumen­
tativa e a própria hermenêutica ainda não estão muito claras para nós:
embora pareça constituir uma peça-chave para a hermenêutica, a aná­
lise argumentativa não se confunde com ela. Tal estudo será re�lizado
em breve, quando tivermos em mãos mais informações por meio de
novos exemplos de textos analisados argumentativamente.
De qualquer maneira, a conclusão mais importante até agora
sugerida pela aplicação do nosso método é a de que, ao contrário do
que supõem Perelman e Olbrechts- Tyteca, as diversas formas de argu­
mentação filosófica não são independentes das contingências históri­
cas ou culturais. Assim como a noção de auditório universal parece ser
uma abstração que não encontra exemplificação em instâncias concre­
tas, a noção de argumentação universal, que consideramos pressuposta
pela primeira, também parece constituir uma abstração do mesmo tipo.
Para contestar a posição de Perelman e Olbrechts-Tyteca, basta apre­
sentar pelo menos um contra-exemplo, ou seja, pelo menos um caso

29
Iniciação ao silêncio

de discurso que seja, ao mesmo tempo, filosófico e não se dirija a um


auditório universal. Acreditamos já ter realizado essa tarefa em traba­
lho anterior". Contudo, para comprovar a nossa hipótese de que não
existe "a" argumentação, mas sim diferentes formas argumentativas,
que variam no espaço e no tempo, é necessário muito mais que isso.
Temos de dar diversos exemplos de formas argumentativas específi­
cas, em épocas e locais determinados. Nessa perspectiva, as obras que
constituem "desvios" dos padrões argumentativos estabelecidos se apre­
sentam como particularmente atraentes.
Foi com este espírito que decidimos fazer, no presente trabalho,
uma análise argumentativa do Tractatus de Wittgenstein. Trata-se
de uma obra cuja interpretação é muito difícil e cujas características
argumentativas são tão peculiares que parecem constituir um caso
claro de "desvio" do padrão tradicional: uma obra que trata de proble­
mas lógicos sob forma aforística, que apresenta sua solução de uma
forma aparentemente dogmática e que ao final rejeita a si mesma,
alegando que seus próprios aforismas são contra-sensos e que "sobre
o que não se pode falar, deve-se calar". O jovem Wittgenstein chocou
a comunidade filosófica de seu tempo ao produzir um discurso filosó­
fico que procura reduzir a filosofia ao silêncio de uma forma tão
radical que até mesmo o discurso que preconiza o silêncio é rejeitado
no final. Como se não bastasse isso, a problemática lógica do Tractatus
foi estudada a fundo por Wittgenstein em plena frente de batalha,
tendo a versão definitiva da obra sido escrita em 1918, num dos pe­
ríodos em que pôde descansar na retaguarda. A soma desses fatores
faz pensar que o resultado final é sobretudo a obra de um desequili­
brado, não de um gênio.
Isso tudo cria uma enorme dificuldade na compreensão do
Tractatus, que se reflete nas leituras que dele são feitas. Podemos
dizer que as interpretações dessa obra se distribuem em duas grandes
linhas. A primeira é a de caráter lógico, característica dos intérpretes
de língua inglesa em geral, que consideram a obscura parte final do

4. Cf. nossa análise argumentativa de A origem da tragédia, de Nietzsche, na


qual procuramos mostrar que a forma de argumentação ali desenvolvida é completa­
mente diferente da tradicional ou "socrática" (Margutti Pinto 1 994: 45-73).

30
Introdução

Tractatus - a que trata do "místico" - subjetiva e, em última ins­


tância, dispensável. Isso os faz concentrar sua atenção na parte predo­
minantemente lógica, na qual conseguem inspiração para resolver seus
próprios problemas nesta ârea. A conseqüência dessa atitude é que, até
hoje, esses intérpretes não conseguiram apresentar uma interpretação
do Tractatus que articulasse harmonicamente a lógica e a ética. A
segunda linha de interpretação é de caráter ético, característica dos
familiares de Wittgenstein e de seus amigos austríacos mais próximos,
como Paul Engelmann. Estes, seguindo a indicação do próprio
Wittgenstein, consideram a parte final da obra a mais importante. O
problema é que isso os faz concentrar a atenção predominantemente
na mensagem ética do Tractatus, em detrimento dos problemas lógi­
cos. Falta aqui, também, uma visão sistemática da filosofia tractatiana.
É este o dilema que tem perturbado as diferentes leituras dessa obra
tão difícil.
A única interpretação que busca articular a lógica e a ética e,
nesse sentido, constitui uma tentativa de superação do dilema citado
é a de Janik e Toulmin, em seu livro A Viena de Wittgenstein, que foi
publicado em 1973. Esses autores deixam de lado o preconceito bri­
tânico relativo ao "místico", realizando um excelente trabalho de
contextualização do Tractatus. Com base nisso, elaboram uma inter­
pretação que, embora não seja suficientemente detalhada, é muito mais
consistente que a de seus patrícios. Ora, também acreditamos que a
leitura mais apropriada do Tractatus deve articular lógica e ética de
maneira harmônica. Esse é o único modo de superar o dilema citado.
Qualquer outro tipo de leitura produzirá uma visão incompleta da
filosofia tractatiana.
Como se pode notar, encontramo-nos numa situação ideal para
testar a eficiência do nosso método de análise argumentativa. Com
efeito, se o Tractatus é obra de um gênio, a aplicação do método a este
texto devera ser capaz não só de revelar a vivência filosófica por ele
expressa, mas também de mostrar claramente, e de maneira mais
detalhada do que Janik e Toulmin, como se articulam a parte lógica e
a parte ética. A obtenção de uma visão sistemática da filosofia tractatiana
será um bom teste da validade do método. Se tivermos sucesso nessa
empreitada, estaremos reforçando fortemente as vantagens do proce­
dimento de análise proposto.

31
Iniciação ao silêncio

Para analisar o Tractatus como peça argumentativa, o presente


trabalho se divide em três partes. Na Primeira, são considerados os
diversos aspectos que constituem o contexto e o ponto de partida da
argumentação do Tractatus. Assim, o Capítulo 1 relata os fatos mais
importantes da vida de Wittgenstein até a época da redação da obra.
O Capítulo 2 estuda as doutrinas de caráter ético-metafisico que fazem
parte do contexto do Tractatus. O Capítulo 3 considera as doutrinas
ligadas à análise da linguagem que complementam esse contexto. O
Capítulo 4 tenta estabelecer o ponto de partida da argumentação
tractatiana, a saber, o problema que atormentava Wittgenstein e as
principais premissas que ele assumiu. A respeito dessa parte, cabem
duas observações importantes. Em primeiro lugar, existe o risco de ela
ser tomada como uma digressão dispensável. Quanto a isso, espera­
mos que a aplicação do método revele claramente que não se trata, em
absoluto, de uma digressão, mas da construção de um panorama es­
sencial para configurar a atmosfera intelectual de onde Wittgenstein
extraiu a inspiração e os elementos para elaborar sua filosofia. Em
segundo lugar, a própria estrutura da Primeira Parte mostra que resol­
vemos começar nossa análise pela contextualização. O que pretende­
mos com isso é facilitar a compreensão da filosofia tractatiana, expos­
ta na Segunda Parte. Com efeito, esse procedimento permitir-nos-á
estabelecer, logo de início, o problema e as premissas do jovem
Wittgenstein. E acreditamos que isso tomará mais compreensível nos­
sa apresentação da difícil filosofia tractatiana.
Na Segunda Parte, como acabamos de mencionar, fazemos a
exposição de nossa conjetura sobre a filosofia do Tractatus. Desse
modo, o Capítulo 5 caracteriza a crítica da linguagem e a correspon­
dente concepção da proposição. O Capítulo 6 descreve a estrutura do
mundo a partir da estrutura da proposição. O Capítulo 7 mostra a
lógica como essência do mundo. O Capítulo 8 faz a aplicação dos
resultados da crítica aos domínios mais relevantes da linguagem, como,
por exemplo, a lógica, a matemática, a física, a ética e a metafisica.
Com relação a essa parte, convém também fazer algumas observações.
Primeiro, com a finalidade de obter maior clareza na visão geral da
filosofia tractatiana, nossa ordem da exposição é diferente da que
Wittgenstein adota no Tractatus. Estamos, portanto, de alguma forma,
desrespeitando intencionalmente a estratégia argumentativa da obra.

3 2'
Introdução

Isso nos coloca, de imediato, diante da seguinte dificuldade: como


expor com fidelidade uma filosofia se, para fazê-lo, temos de
desrespeitá-la? Acreditamos que isso seja possível porque os objetivos
envolvidos são diferentes. Wittgenstein pretende argumentar para con­
duzir o leitor a uma vivência filosófica sui generis, enquanto nós
buscamos analisar as técnicas argumentativas que ele utiliza para atin­
gir tal fim. Além disso, o próprio Wittgenstein teve de enfrentar uma
dificuldade semelhante quando redigiu o Tractatus, já que sua filoso­
fia preconiza o silêncio e ele tem de desrespeitá-lo para induzir o leitor
a aceitá-la. Em nosso caso, estamos simplesmente enfrentando uma
dificuldade análoga à de Wittgenstein. E o fracasso ou o sucesso de
nosso empreendimento só poderá ser avaliado no final de nossa cami­
nhada. Segundo, embora nossa interpretação da filosofia tractatiana
seja apresentada na Segunda Parte, é oportuno lembrar que ela cons­
titui o resultado final de um processo que se iniciou com a leitura do
texto, passou pela formulação de uma conjetura interpretativa e se
completou pela comparação com os dados provenientes da contextua­
lização e da avaliação das técnicas argumentativas empregadas. Con­
forme mencionado anteriormente, essa inversão da ordem tem por
objetivo exclusivo facilitar a compreensão do leitor. Nesse sentido, a
expectativa é de que nossa hipótese interpretativa seja, no final, de
algum modo reforçada pela análise do contexto e pela análise das
técnicas argumentativas, feitas nas demais partes do presente trabalho.
Finalmente, na Terceira Parte, são analisadas as principais técni­
cas argumentativas utilizadas no Tractatus. Como já sabemos, o obje­
tivo deste estudo é duplo. Por um lado, reforçar a interpretação feita
na Segunda Parte. Por outro, tomar mais clara a filosofia do Tractatus
pelo desvelamento de seus procedimentos argumentativos. Nessa pers­
pectiva, o Capítulo 9 trata dos principais procedimentos heurísticos
empregados por Wittgenstein5• O Capítulo 1 O considera a linha geral

5. A anãlise das técnicas heurísticas utilizadas por Wittgenstein não envolve


qualquer descrição do misterioso e intratâvel ' processo de criação' ou ' descoberta'
que conduziu à redação do Tractatus. Com efeito, baseados no texto, construímos uma
conjetura que o localiza em dado modelo (pattern). A partir daí, é perfeitamente
possível supor, por meio da comparação com modelos historicamente anteriores, qual
a estratégia geral de criação e quais as tâticas argumentativas que geraram o modelo
proposto.

33
Iniciação ao silêncio

de argumentação que define a estrutura argumentativa do Tractatus. O


Capítulo 11 analisa os principais esquemas argumentativos utilizados.
O Capítulo 12, finalmente, estuda mais detalhadamente o esquema
argumentativo que consideramos condição sine qua non para a com­
preensão do mecanismo argumentativo da obra, a saber, a autofagia.
Embora não tenha sido possível efetuar uma análise exaustiva de
todos os aspectos envolvidos pelo método aqui proposto, acreditamos
que a tarefa de explicitar as principais características do Tractatus
como peça argumentativa foi realizada em suas grandes linhas.
Em alguns momentos, o leitor talvez fique com a impressão de
que fomos repetitivos com relação a determinados aspectos da filoso­
fia tractatiana. Gostaríamos, porém, de lembrar que, em todas as oca­
siões em que alguma repetição ocorreu, um mesmo aspecto foi con­
siderado em perspectivas diferentes.
Convém acrescentar que o debate com os demais intérpretes de
Wittgenstein foi reduzido ao mínimo indispensável. Isso se justifica
porque nosso objetivo fundamental consiste em mostrar o resultado
palpável da aplicação do método de análise argumentativa que estamos
propondo. Cotejar esse resultado com os de outras interpretações sobre­
carregaria por demais a discussão e tomaria o presente texto excessi­
vamente longo. Essa tarefa ficará postergada para outra oportunidade6•
Cabe também observar aqui que, neste trabalho, pretendemos
apenas descrever os principais aspectos argumentativos do Tractatus,
sem qualquer intenção de avaliá-los criticamente. Como, porém, esta­
remos usando intensamente o 'princípio de caridade '7 na interpretação
de Wittgenstein, o leitor poderá extrair daí a falsa impressão de que
pretendemos fazer a apologia do Tractatus. Qualquer conclusão nesse
sentido será apressada. Em nossa opinião, a filosofia tractatiana é rica
e fascinante, mas profundamente equivocada em muitos de seus as-

6. Desse modo, embora nossa interpretação forneça inclusive uma hipótese


explicativa sobre a reação da comunidade filosófica ao Tractatus, preferimos deixar
a discussão dos problemas ligados ao contexto da difusão dessa obra para outro
momento. Ver, a este respeito, a nota 5 do Capítulo 9.
7 . Com esta expressão, designamos a preocupação em apresentar a filosofia de
determinado autor sob a melhor ótica possível, considerando suas falhas mais eviden­
tes como aparentes e buscando explicações consistentes para elas.

34
Introdução

pectos fundamentais. A justificação dessa posição, porém, não deverá


ser feita no presente texto.
Posto isto, podemos dizer que, ao final deste trabalho, esperamos
ter atingido os seguintes objetivos. Primeiro, mostrar a viabilidade do
método de análise argumentativa aqui proposto, mediante a sua apli­
cação a um texto concreto. Segundo, testar o potencial do método para
identificar casos argumentativos que não se enquadram propriamente
nos padrões convencionais, constituindo o que denominaríamos "des­
vios". Terceiro, revelar que estes casos, embora considerados "anôma­
los", possuem sua própria especificidade e validade, sugerindo que o
conceito de ' argumentação ' , em filosofia, envolve não uma proprieda­
de essencial que constitua sua natureza, mas aquilo que o segundo
Wittgenstein denomina ' semelhanças de família' . Quarto, aproveitan­
do a dimensão hermenêutica do método de análise que estamos pro­
pondo, contribuir para a melhor compreensão da difícil filosofia do
Tractatus, mostrando que ela envolve uma forma sui generis de argu­
mentação, cujo principal objetivo é trabalhar a questão dos limites de
nossa linguagem apesar da contradição que isso envolve.

35
1 ª PARTE

contexto e o ponto de partida


a argumentação no TRACTATUS
... ,

WITTGENSTEIN A EPOCA
DA REDAÇÃO DO TRACTATUS

1 - Observações preliminares

e onfonne observado na Introdução, embora a contextualização


tenha sido apresentada como o segundo momento de nosso método
de análise argumentativa, começaremos nossa exposição por ela, com
o objetivo de facilitar a compreensão da filosofia tractatiana, que será
exposta na Segunda Parte. Isso é possível em virtude da relativa in­
dependência entre os momentos do método. Já sabemos que a
contextualização inclui a consideração dos aspectos mais relevantes
da vida do autor, dos fatos históricos mais importantes de sua época
e das doutrinas mais significativas para a elaboração da solução pro­
posta pela obra. No caso específico de Wittgenstein, a contextualização
envolve obrigatoriamente a passagem por alguns elementos de sua
biografia, já que ele mesmo reconhece explicitamente, conforme o
testemunho de Rush Rhees, a existência de uma relação entre o que

39
Iniciação ao silêncio

escreve e sua própria vida 1 • Nessa perspectiva, pretendemos mostrar


que a filosofia tractatiana pode ser considerada como a resposta dada por
Wittgenstein a alguns episódios significativos de sua vida e a alguns
problemas levantados pelos autores que mais o influenciaram.
Com isso em mente, consideraremos, neste capítulo, alguns dos
aspectos mais relevantes da vida de Wittgenstein para a elaboração do
Tractatus. Percorreremos o caminho que vai desde o nascimento do autor
até a época da redação da obra. Isso nos fornecerá os dados iniciais
necessários para complementar a contextualização nos capítulos seguin­
tes. Com base nesse percurso biográfico, poderemos extrair os elementos
que nos auxiliarão a compreender duas coisas importantes. Em primeiro
lugar, esses elementos fornecerão indicações acerca do significado que a
filosofia tractatiana deve ter tido na própria vida de Wittgenstein. Em
segundo, eles nos darão pistas a respeito da maior parte dos autores
cujas doutrinas têm relação com o Tractatus. A partir dessas indicações,
teremos condições de expor essas doutrinas e avaliar quais aspectos delas
foram relevantes para a elaboração da filosofia tractatiana.
Assim, para contextualizar de maneira adequada o texto que
pretendemos analisar argumentativamente, teremos de mostrar, ini­
cialmente, como ocorreu a evolução intelectual de Wittgenstein em
direção às doutrinas e problemas levantados pelos autores que ele leu
e estudou. Isso constituirá um primeiro passo para trazer alguma luz
para esclarecer que tipo de problema atormentava Wittgenstein e o que
ele realmente buscava quando se alistou como voluntário na Primeira
Grande Guerra. O resultado deverá contribuir para reforçar nossa in­
terpretação da experiência filosófica descrita pelo Tractatus.

li - A evolução In telectual de Wittgenstein em direção ao


Ti'actatus

Nesta seção, recapitularemos os fatos mais importantes da vida


de Wittgenstein que precederam a redação do Tractatus, desde seu
nascimento, em 26 de abril de 1 889, até a Primeira Guerra Mundial.

1. Cf. Rhees 1 974: 75.

40
W/ttgenstein à época da redação do Tracta t u s

Ao nascer, recebeu o pomposo nome de Ludwig Josef Johann


Wittgenstein. Foi o caçula de oito irmãos, provenientes de uma das
famílias mais ricas de Viena na época. O pai, Karl Wittgenstein, foi
um adolescente rebelde, que fugiu da casa paterna e viveu durante
dois anos em Nova York. Estudou engenharia no Colégio Técnico de
Viena e iniciou sua carreira numa laminadora de metais na Boêmia.
Em alguns anos, tomou-se diretor administrativo da empresa e, nesse
cargo, acumulou enorme fortuna pessoal. Em 1 898, abandonou os
negócios e transferiu o grosso de seus investimentos para os Estados
Unidos, fato que mais tarde protegeu a família das agruras do pós­
-guerra.
Casou-se com Leopoldine Kalmus em 1 873 e os oito filhos que
tiveram foram educados na fé católica. A família vivia em uma man­
são que era freqüentada pelos maiores intelectuais da época. Com dois
dos irmãos mais velhos de Ludwig, Karl Wittgenstein teve conflitos
dolorosos. Um deles, Hans, tinha enorme vocação para a música e
teve de enfrentar a oposição do pai, que preferia vê-lo como adminis­
trador das empresas da família. Hans fugiu para os Estados Unidos e
desapareceu misteriosamente durante uma viagem de barco. Tudo indica
que se suicidou. O outro irmão, Rudolf, também enfrentou a oposição
do pai, pois desejava seguir a carreira teatral. Além do mais, era ho­
mossexual e isto o levou a suicidar-se de maneira espetacular, toman­
do cianureto em um bar de Berlim. Em suas cartas de despedida,
confessava ter-se matado devido à morte de seu amigo e também pelas
dúvidas acerca de sua disposição pervertida. Essas duas tragédias fa­
miliares modificaram Karl, que procurou aceitar com maior tolerância
as vocações dos filhos mais novos, Paul e Ludwig. O primeiro dedi­
cou-se inequivocamente ao piano; o segundo, depois de uma passa­
gem pela engenharia, que aparentemente constituía sua inclinação e
nisto afortunadamente coincidia com o desejo paterno, acabou por
dedicar-se à filosofia.
Ludwig estudou na Realschule de Linz de 1 903 a 1 906, onde foi
um aluno fraco e infeliz. Nessa época, passou por uma crise religiosa
e foi auxiliado por sua irmã Margarete, a intelectual da família, que
lhe recomendou a leitura de Schopenhauer. A influência do autor de O
mundo como vontade e representação sobre Wittgenstein é muito grande
e, como veremos mais adiante, aparece em alguns aforismas da parte

41
Iniciação ao silêncio

final do Tractatus. Outros autores que influenciaram o jovem pensador


austríaco no período foram Karl Kraus e Otto Weininger.
Kraus era autor de um periódico satírico intitulado A tocha ("Die
Fackel"), que expressava o descontentamento de muitos intelectuais
com a sociedade vienense da época2 • Tudo indica que Wittgenstein
também entrou em contato com os escritos de Kraus por meio de sua
irmã Margarete. Na primeira fase do jornal, até 1 904, a tendência do
periódico era política e defendia idéias socialistas. As críticas irônicas
de Kraus dirigiam-se sobretudo à hipocrisia do governo austríaco em
suas relações com os povos dos B álcãs, ao pangermanismo, à política
econômica do laissez-faire, à corrupção da imprensa e à hipocrisia
sexual da sociedade austríaca. A partir de 1 904, o jornal de Kraus
passou a revelar preocupações eminentemente morais. Sua motivação
principal deixou de ser a defesa do proletariado e tomou-se a defesa
da nobreza da verdade. Mesmo criticado por seus amigos de esquerda,
Kraus manteve-se firme nesta posição, considerando que as questões
políticas são menos iruportantes que a integridade pessoal, que cons­
titui a chave para a mudança do mundo. Wittgenstein parece ter par­
tilhado essa opinião por quase toda a sua vida3 •
Quanto a Weininger, sabe-se que Wittgenstein leu e muito admi­
rou Sexo e caráter, obra que parece ter exercido sobre ele a mais
profunda e duradoura influência. Uma das razões disso é que
"Weininger foi uma figura quintessencialmente vienense. A
temática de seu livro, bem como a maneira como morreu,
constitui um poderoso símbolo das tensões sociais, intelec­
tuais e morais da Viena fin de siecle em que Wittgenstein
cresceu" (Monk 1 995: 33).

Em sua adolescência, Wittgenstein também leu os Escritos popu­


lares, de Boltzmann, e Os princípios da mecânica, de Hertz (Monk
1 995: 38). A preferência por esses autores indica um interesse pela
filosofia da ciência. Em vez dos estudos técnicos, o que mais parecia

2. As infonnações sobre Kraus foram extraídas de Monk ( 1 995: 30-3 1 ). Para


maiores detalhes, ver também Janik e Toulmin ( 1 973 : 67-9 1 ).
3. Hã um eco desta idéia nos Cadernos de notas ( 1 9 1 4- 1 9 1 6: 82).
Wittgenstein à época da redação do Tracta t u s

interessar Wittgenstein era a reflexão filosófica. Ele até pretendia es­


tudar com Boltzmann na Universidade de Viena, mas este suicidou-se
e o projeto não pôde ser levado adiante. De qualquer modo, sabemos
que esses autores explicam a física com base em um molde origina­
riamente kantiano e, em virtude disso, suas idéias estão em harmonia
com a perspectiva filosófica do jovem Wittgenstein, parecendo tê-lo
influenciado bastante. Em nossa interpretação do Tractatus, encontra­
mos reflexos das idéias desses autores na Teoria Pictórica do Signifi­
cado e na explicação da mecânica newtoniana.
Os anos de 1 906 a 1 908 Ludwig passou na Technische Hochschule
de Berlim, quando se interessou pela aeronáutica. Depois de formado,
em maio de 1 908 , foi para Manchester, onde pretendia continuar seus
estudos naquela ârea, tendo ali ficado até 1 9 1 1 . Foi então que
Wittgenstein leu Os princípios da matemática, de Russell, obra que
exerceu influência decisiva em sua vida. A partir desse momento, seu
interesse crescente pela filosofia acabou por levâ-lo a abandonar de­
finitivamente a engenharia.
Em seu livro, Russell fazia referências muito elogiosas a Frege.
Foi por isso que, em 1 9 1 1 , Wittgenstein procurou Frege em Viena e,
a conselho deste, dirigiu-se a Cambridge para estudar com Russell.
Em outubro do mesmo ano, Wittgenstein começou a assistir às aulas
de Russell e, jâ em fevereiro de 1 9 1 2, estava matriculado no Trinity
College. No início, Russell considerava Wittgenstein um aluno excên­
trico, insistente, argumentativo e enfadonho. Aos poucos essa imagem
foi-se modificando, e Wittgenstein acabou tomando-se, para Russell,
o aluno que não só o admirava com paixão, mas que também dele
discordava com a maior veemência. Em outras palavras, o discípulo
ideal.
Quando estudava em Cambridge, Wittgenstein leu As variedades
da experiência religiosa, de William James, tendo-o apreciado muito.
Isso pode ser depreendido do trecho abaixo, extraído de uma carta que
Wittgenstein escreveu a Russell na época:
"Este livro me faz um tremendo bem. Não pretendo dizer
que serei um santo em breve, mas não estou certo de que
não me melhore um pouco de uma maneira que eu gostaria
de melhorar muito: ou seja, acho que me ajuda a espantar

43
Iniciação ao silêncio

a Sorge" (no sentido em que Goethe usou a palavra na


segunda parte do Fausto) (Carta a Russell, 2216/ 1 2; cit. por
Monk 1 995: 6 1 ) .
Foi também nessa época que Wittgenstein travou contato com
Moore, a cujas aulas assistiu e em quem causou forte impressão. Ficou
também conhecendo um aluno de Cambridge, David Pinsent, por quem
teve grande amizade. Possuindo tendências homossexuais, como seu
irmão Rudolf, Wittgenstein acabou se apaixonando por Pinsent. Para­
lelamente, suas diferenças com Russell começaram a surgir e a acen­
tuar-se. Foi quando Wittgenstein inesperadamente decidiu mudar­
-se para a Noruega, onde pretendia continuar solitariamente suas pes­
quisas em lógica. Monk sugere que ele decidiu fazer isso porque, para
atingir a grandeza do gênio, deveria estar afastado da pessoa amada.
Estaria sendo influenciado pela idéia weiningeriana de que o amor é
mais forte na ausência do ser amado; a proximidade física aumenta o
desejo sexual e contamina o amor ( 1 995: 92-93).
Durante sua estadia na Noruega, Wittgenstein decidiu romper
sua amizade com Russell, tendo em vista a enorme diferença que
havia entre os ideais de ambos e a necessidade de fazerem concessões
para continuarem amigos. Depois disso, Wittgenstein voltou-se para
Moore, a quem insistentemente convidou para visitá-lo na Norue­
ga. Embora relutasse de início, Moore acabou aceitando . Durante
sua estadia lá, Wittgenstei n ditou-lhe algumas notas sobre lógica.
De volta a Cambridge, Moore sondou a Universidade, a pedido de
Wittgenstein, para saber se aquelas notas poderiam servir como
monografia de bacharelado. A resposta foi negativa. Wittgenstein, ao
receber a notícia, ficou furioso e enviou um!l carta muito agressiva a
Moore, fato que teve o efeito de romper a ligação entre ambos por
vários anos.
No verão de 1 9 1 4, Wittgenstein dirigiu-se à Áustria, onde ficou
com a família. Nesse período, entrou em contato com Ludwig von
Ficker, editor de um jornal em Innsbruck. O objetivo principal foi
passar a von Ficker uma vultosa quantia (cerca de US $ 65 .000) para
ser distribuída entre artistas austríacos necessitados. O dinheiro era
proveniente da herança que Wittgenstein recebera por ocasião da morte
do pai, ocorrida em janeiro do ano anterior. Na época em que se

44
Wittgenstein à época da redação do Tractatus

faziam os últimos acertos para a transferência do dinheiro, estourou a


Primeira Guerra Mundial.
Wittgenstein, apesar de dispensado do serviço militar em virtude
de uma hérnia que tivera em 1 9 1 3 , alistou-se como voluntário no
exército austríaco. E foi lutando na frente de batalha que terminou sua
obra, o Tractatus Logico-Philosophicus.
Quando se alistou, encontrava-se numa situação de crise. Tinha
rompido com Russell e Moore e estava distante do amado David
Pinsent. Essa crise é assim caracterizada por Isidoro Reguera:
"Tormentos espirituais, depressões, efervescências anímicas,
tensão íntima extrema; este é o panorama interior de
Wittgenstein na Noruega, imediatamente antes da guerra"
(Reguera 1 99 1 : 1 7 1 ) .
Foi com esse estado de espírito que ele chegou a Viena no verão
de 1 9 1 4. Ao que tudo indica, sua vida carecia de sentido, permitindo
prever ou um desfecho trágico, pelo suicídio, ou uma alteração radical
na personalidade.
A crise mencionada parece ter sido motivada pela urgência que
impelia Wittgenstein a acertar contas consigo mesmo, sem quaisquer
concessões. Esse desejo parece ter surgido a partir do aparente conflito
entre os estudos lógicos que ele vinha desenvolvendo e a atitude ética
que deveria tomar em sua vida. Isso pode ser depreendido do texto de
uma carta que Wittgenstein escreveu a Russell provavelmente em
dezembro de 1 9 1 3 :
"Talvez você julgue essas reflexões sobre mim mesmo um
desperdício de tempo - mas como posso ser um lógico
antes de ser um ser humano!" De longe a coisa mais importan-
te é acertar contas comigo mesmo! (cit. por Monk 1 995: 99).
Temos fortes motivos para suspeitar que esse acertar contas con-
sigo mesmo constituía a condição para resolver a questão lógica. E
Wittgenstein tinha perfeita consciência de que um dia seria capaz de
solucionar esse problema, pois, ainda na mesma carta, afirmou:
"(. . . ) profundamente dentro de mim há um perpétuo fervi­
lhar, como a base de um gêiser, e fico esperando que as

45
Iniciação ao silêncio

coisas entrem em erupção de uma vez por todas para que eu


possa me transformar numa pessoa diferente" (id., ibidem).
Como, porém, estimular a erupção do gêiser? Parece que a opção
de alistar-se no exército funcionou neste sentido. Em As variedades da
experiência religiosa, William James enfatiza o valor moral de enfren­
tar a m orte com heroísmo . Idéia semelhante é defendida por
Schopenhauer, que, conforme mencionado, também exerceu influên­
cia sobre Wittgenstein:
"(. . . ) Portanto, é quase sempre preciso que grandes sofri­
mentos tenham quebrado a vontade para que a negação do
querer se possa produzir. Não vemos um homem entrar em
si mesmo, reconhecer-se e reconhecer também o mundo,
modificar-se completamente, elevar-se acima de si mesmo e
de toda a espécie de dores, e, como que purificado e san­
tificado pelo sofrimento, com uma calma, uma beatitude e
uma altura de espírito que nada pode perturbar, renunciar
a tudo aquilo que antes desejava com tanto empenho e re­
ceber a morte com alegria, não vemos um homem chegar aí
senão depois de ter percorrido todos os degraus de uma
aflição crescente, e ter lutado energicamente, estar perto de
se abandonar ao desespero. Tal como a fusão de um metal
se anuncia por um clarão, também a chama da dor produz
nele a fulguração de uma vontade que se dissipa, isto é, da
libertação " (Schopenhauer 1 8 1 9: § 68, pp. 5 2 1 -522).
Com base nisso, poderíamos dizer que Wittgenstein foi buscar o
sentido da vida na proximidade com a morte. O problema é que,
quando se alistou, sua situação era a mais miserável possível. De um
lado, a mais completa solidão. Ele tinha rompido a amizade com Russell
e com Moore; o querido David estava muito longe, separado pelo
obstáculo intransponível do front. De outro, o medo, a sensação de ter
a vida por um fio. Para piorar mais as coisas, ele sempre se oferecia
para executar as tarefas mais perigosas no campo de batalha4•

4. Isso fica bem ilustrado pelos fatos que seguem, relativos aos períodos mais
perigosos da atuação de Wittgenstein na guerra. De agosto a dezembro de 1 9 1 4, ele
ficou encarregado de manobrar o farol do barco "Goplana", no rio Vístula (nesta

46
Wlttgenstein à época da redação do Tracta t u s

Esse conflito íntimo pode ser depreendido da leitura dos diversos


"ca4emos de notas" que ele escreveu durante a guerra. Muito mais
tarde, provavelmente em 1 950, mandou destruí-los . Por sorte, alguns
deles escaparam5• Nos cadernos que sobraram, chama a atenção a
forma como foram escritos. Do lado direito, Wittgenstein redigiu em
alemão corrente suas observações sobre a lógica. Do lado esquerdo,
registrou em código suas preocupações éticas pessoais6• No final, só
há observações do lado direito. Talvez para tentar proteger a ima­
gem de Wittgenstein, seus executores testamentários publicaram em
1 960 apenas as anotações do lado direito, sob o título de Cadernos
de notas (1 914-1 91 6). Foi somente em 1 985, a partir dos trabalhos
de Wilhelm Baum e Andrês Sanchez Pascual, que as anotações do
lado esquerdo foram publicadas em Barcelona, sob o título de Diários
secretos.
São estas anotações em código que revelam o drama existencial
de um homem solitário que busca o sentido da vida no perigo da
frente de batalha. Isidoro Reguera assim resume o significado dos
Diários secretos:
"( . . . ) estas páginas são o diário de um jovem de vinte e
cinco a vinte e sete anos que conta 'sua guerra ' , sua bata­
lha diária com a vida e a morte, a carne e o espírito, con­
sigo mesmo e com os demais, e, pelo que nos interessa
acima de tudo, com seu trabalho filosófico. Uma guerra
paralela à Grande Guerra, que ele escolhera voluntaria­
mente como prova de fogo de seu caráter intelectual e moral,
que para ele eram o mesmo " ( 1 99 1 : 1 68).

posição, certamente, era u m alvo ideal). D e março a setembro d e 1 9 16, ele trabalhou
no posto arriscado de observador de artilharia na frente da Galícia, tendo sido dupla­
mente condecorado por sua coragem. De janeiro de 1 9 1 7 a março de 1 9 1 8, dirigiu
grupos de observação de artilharia na frente da Bucovina, tendo sido novamente
condecorado. De março a novembro de 1 9 1 8, lutou na frente italiana, recebendo sua
quarta medalha por bravura.
5 . Dentre esses escritos, inclui-se uma versão primitiva do Tractatus, conhecida
como Proto-Tractatus.
6. Este código não era dificil de decifrar e consistia em inverter a ordem das
letras do alfabeto da seguinte maneira: ' a' corresponde a ' z ' , 'b' , a ' y ' , ' c ' , a ' x ' etc.
Wittgenstein utilizou esse código apenas para evitar que seus companheiros de caser­
na tivessem acesso às observações sobre sua vida íntima.

47
Iniciação ao silêncio

Como se pode ver, esses escritos em código constituem uma pista


fundamental para a compreensão da verdadeira mensagem do Tractatus.
É nessa obra que encontramos uma indicação da grande influência
exercida por Tolstoi sobre o jovem Wittgenstein, que logo no início da
guerra comprou uma tradução alemã da Breve exposição do evange­
lho. Wittgenstein começou a ler o livro em 1 º de setembro de 1 9 1 4.
A primeira referência à obra é feita no dia seguinte:
"Ontem comecei a ler os comentários de Tolstoi aos Evan­
gelhos. Uma obra magnífica. Mas ainda não é para mim o
que esperava dela " ( 1 99 1 : 2/9/ 1 4, 49).
Esta passagem envolve certa ambivalência, pois simultaneamente
elogia e critica o texto tolstoiano. A última frase pode ser entendida ou
como um elogio ou como uma crítica. Como elogio, ela significaria
que além de magnífica a obra é inesperadamente original, já que a
interpretação que Tolstoi faz dos Evangelhos é inteiramente diversa da
tradicional e corresponde a uma leitura autêntica do cristianismo. Como
crítica, a passagem significaria que, embora magnífica, a obra deixa
algo a desejar. Talvez seja assim porque ela fala sobre o sentido da
vida de uma perspectiva ingênua, sem levar em conta os problemas
ligados à clarificação lógico-lingüística. Qualquer que seja o sentido
da última frase, uma coisa é certa: a partir dessa data, a influência
tolstoiana aparece inúmeras vezes nos Diários7•
A leitura comparativa das anotações feitas durante a guerra e do
próprio Tractatus indica que, aos poucos, Wittgenstein encontrou uma
saída para o conflito interior que os Diários secretos tão bem expres­
sam. Espicaçado pela solidão forçada, pelo terrível ambiente propor­
cionado pela guerra e pela inesperada notícia da morte de David em
um acidente aéreo em 1 9 1 8, o gêiser anteriormente mencionado aca­
bou por entrar em erupção, transformando Wittgenstein numa pessoa
diferente. Eticamente redimido, ele pôde então redimir-se também do
ponto de vista lógico. Isso equivale a dizer que seu pensamento, a

7. Ver Wittgenstein 1 99 1 : 8/9/ 1 4, 5 1 ; 1 2/9/ 1 4, 53; 1 5/9/ 1 4, 55; 1 6/9/ 1 4, 55;


28/9/ 1 4, 6 1 ; 5/ 1 0/ 1 4, 65; 7/ 1 0/ 1 4, 67; 1 1/ 1 0/ 1 4, 69; 1 2/ 1 0/ 1 4, 7 1 ; 1 3/ 1 0/ 1 4, 7 1 ;
20/ 1 0/ 1 4, 7 5 etc. Os detalhes da influência exercida por Tolstoi sobre Wittgenstein
serão discutidos em outros capítulos.

48
Wittgenstein à época da redação do Tractatus

princípio dividido, parece ter evoluído no sentido de uma experiência


mística de caráter unificador, em que as questões lógicas e éticas
foram finalmente articuladas. No final, as anotações em código desa­
pareceram. O espírito triunfou sobre a carne.
Há alguma evidência de que as coisas se passaram assim. Com
efeito, em 9/5/ 1 9 1 6, Wittgenstein faz a seguinte anotação nos Diários
secretos:
"A morte dá à vida seu significado em primeiro lugar"
( 1 99 1 : 1 49).
Essas palavras, quando lidas à luz das inúmeras preces que ele
faz a Deus na época, revelam muito bem um estado de espírito ao
mesmo tempo suicida e esperançoso. Em harmonia com isso, Wüchterl
e Hübner informam que, em 1 920, Wittgenstein confessou ao profes­
sor Martin Scherleitner, seu colega em Trattenbach, que se alistara
como voluntário na Primeira Guerra para encontrar a morte no campo
de batalha ( 1 979: 56). Para esses autores, isso constituiu um ato de
desespero, embora talvez contivesse algum vestígio de esperança, para
libertar-se por meio do confronto com as novas pressões a serem
enfrentadas. Wittgenstein parece ter considerado a frente de batalha
como a última ratio de sua existência sem rumo (ibidem). Deve ter
sido com esta perspectiva em mente que, alguns anos depois do
conflito, ele declarou a seu sobrinho, Felix S alzer, que a guerra
tinha salvo sua vida (McGuinness 1 98 8 : 204; 238; citado por
Reguera 1 99 1 : 1 73 ) . Poderíamos até mesmo dizer que o campo de
batalha propiciou a Wittgenstein uma experiência de "renascer" em
sentido dostoiewskiano.
E o resultado desse processo foi o Tractatus Logico-Philosophicus,
que busca expressar a fascinante solução lógico-ética dessa intensa
crise existencial iniciada pouco antes de estourar a Primeira Guerra
Mundial.

Ili - Observações fi nais

A consideração dos fatos acima apresentados, relativos à biogra­


fia de Wittgenstein, revelam alguns aspectos importantes para a com-

49
Iniciação ao silêncio

preensão da origem da filosofia tractatiana. Em primeiro lugar, o


Tractatus surgiu como solução de uma intensa crise existencial. Em­
bora envolvesse questionamentos lógicos, essa crise era eminentemen­
te moral e levou Wittgenstein não só a afastar-se de seus amigos,
buscando resolvê-la na solidão, mas também a adotar a atitude drás­
tica de alistar-se como voluntário na Primeira Grande Guerra. Ao que
tudo indica, a solução da crise possibilitou a articulação dos proble­
mas lógicos e éticos, bem como a vivência de algum tipo de
renascimento moral na frente de batalha.
Em segundo lugar, a crise em questão parece ter sido causada,
pelo menos em parte, pelo contato com autores cujos problemas e
doutrinas influenciaram direta ou indiretamente na elaboração do
Tractatus. Dentre eles destacam-se Schopenhauer, Weininger, Tolstoi,
William James, Frege, Russell, Hertz e Boltzmann. É verdade que tais
autores remetem a muitos outros, mas, por motivo de espaço, restrin­
gir-nos-emos a estes8• De qualquer modo, a estes nomes devemos
acrescentar o de Mauthner. Embora não haja referências explícitas a
ele nas biografias de Wittgenstein, acreditamos que este autor deve ser
incluído na lista apresentada. Isso se justifica porque, no Tractatus, a
filosofia é definida como crítica da linguagem num sentido claramente
polêmico com relação a Mauthner, que é explicitamente citado no
aforisma 4.003 1 . A este respeito, Janik e Toulmin afirmam:
"Embora Wittgenstein contraste explicitamente sua própria
concepção filosófica com a de Mauthner em um ponto cen­
tral no Tractatus, não temos outras evidências de que o
próprio Tractatus fosse de fato concebido como uma respos­
ta à prévia 'crítica da linguagem' de Mauthner; assim, nossa
perspectiva das relações entre Mauthner e Wittgenstein é, a
este respeito, francamente conjetural" ( 1 973: 1 0).
Em nossa opinião, contudo, trata-se de uma excelente conjetura,
sem a qual a compreensão do Tractatus se tomaria incompleta. Este
é um dos pontos importantes que pretendemos mostrar no decorrer

8. Outros autores dignos de menção seriam, por exemplo, Karl Kraus, Adolf
Loos e Kierkegaard. Para um estudo acerca de sua importância na Viena de Wittgenstein,
remetemos o leitor à excelente obra de Janik e Toulmin ( 1 973).

50
Wittgenstein à época da redação do Tractatus

deste trabalho. J anile e Toulmin estão tomando esta atitude porque


escrevem para um público de língua inglesa, cujas reservas a respeito
da parte mística do Tractatus são conhecidas.
Posto isto, acreditamos que será possível mostrar, pela análise
que faremos a seguir, que a contextualização do Tractatus, com base
tanto no significado dessa obra para a vida de seu autor como na
avaliação das doutrinas dos pensadores anteriormente citados, aí in­
cluídas as de Mauthner, é bastante compatível com a conjetura que
faremos a respeito da filosofia do jovem Wittgenstein.

51
, ,

O CONTEXTO ETICO-METAFISICO

1 - Observações prel i m i n a res

á sabemos que, no período anterior à época da redação do Tractatus,


J Wittgenstein teve contato com alguns autores cujos problemas muito
o influenciaram. Ora, a contextualização necessária para a realização da
análise argumentativa que estamos propondo exige que consideremos os
principais aspectos das doutrinas desses autores, com o objetivo de extrair
os princípios e questões comuns que contribuíram para a elaboração da
filosofia tractatiana. Para atingir esse objetivo, dividiremos tais autores
em dois grandes grupos, com base no espírito que anima suas respectivas
investigações. O primeiro grupo caracteriza-se pela predominância das
preocupações de caráter ético-metafísico. Dentre os autores desse gru­
po, destacam-se Schopenhauer, Weininger, William James e Tolstoi1 •
O segundo grupo caracteriza-se pelo predomínio das preocupações
com a análise da linguagem. Aqui podemos identificar dois subgrupos.

1 . Janik e Toulmin citam também Kierkegaard, cujas doutrinas seriam o


ponto final de ceno desenvolvimento iniciado por Schopenhauer. Aquilo que teria co-

53
Iniciação ao silêncio

Por um lado, temos os autores que privilegiam a análise da linguagem


científica, como Frege, Russell, Hertz e Boltzmann, que constituem o
subgrupo em que predominam as preocupações com a linguagem ló­
gica e científica. Por outro, temos um único autor que pretende reali­
zar uma crítica radical da linguagem em geral e cujas conclusões são
eminentemente céticas. O autor a que nos referimos é Mauthner, que,
sozinho, constitui o segundo subgrupo, no qual predominam as preo­
cupações com a crítica cética da linguagem.
O objetivo do presente capítulo é recriar a parte ético-metafisica
da atmosfera intelectual que Wittgenstein respirava quando foi levado
a escrever o Tractatus. Para tanto, faremos a exposição dos aspectos
relevantes das filosofias dos autores ligados ao grupo em que pre­
domina a tendência ético-metafísica. Como dissemos na Introdução,
esta tarefa, embora possa parecer desnecessária aos olhos do leitor
mais informado, constitui um passo importante de nosso método.
Isso pode ser justificado pelas seguintes razões. Em primeiro lugar,
a apresentação dessas filosofias contribuirá para reavivar nossa me­
mória quanto aos problemas e doutrinas que fermentavam na mente
do jovem Wittgenstein um pouco antes da redação do Tractatus. Em
segundo, algumas das doutrinas envolvidas encontram-se expressas
em obras de difícil acesso até mesmo ao leitor brasileiro especializa­
do, o que toma necessário fazer uma exposição, ainda que resumida,
das idéias contidas nessas obras. Em terceiro, a colocação dessas
filosofias lado a lado permitirá a comparação entre elas e a identi­
ficação de seus elementos comuns, alguns de quais foram, de um
modo ou de outro, incorporados à visão filosófica tractatiana. A ex­
pectativa é de que, no final do capítulo, sejamos capazes de extrair
das doutrinas consideradas os elementos relevantes para a compreen­
são do Tractatus.

meçado neste último como uma tentativa de mapear os limites da razão, teria termi­
nado, com Kierkegaard, numa negação completa da validade da razão no reino dos
valores ( 1 973: 1 64). Kierkegaard seria, portanto, um dos inspiradores da radical se­
paração tractatiana entre fatos e valores (ibidem: 1 60- 1 6 1 ). Porém, para evitar que
esta Parte se tome muito extensa, não nos deteremos na consideração de Kierkegaard.
Acreditamos que os demais autores considerados são suficientes para caracterizar a
atmosfera intelectual que levou Wittgenstein à redação do Tractatus.

54
O contexto ético-metafísico

li - A fil osofia de Schopen hauer

O axioma fundamental de Schopenhauer ( 1 788- 1 860) é que o


mundo é minha representação. O universo inteiro é objeto para um
sujeito. Em outras palavras, conforme o dogma fundamental da filo­
sofia vedanta, não se trata de negar a existência da matéria, mas de
afirmar que ela não existe independentemente da percepção do espí­
rito. É essa associação de realismo empírico e idealismo transcendental2
que constitui o ponto de partida de Schopenhauer ( 1 8 1 9 : § 1 [8])3•
Como representação, o mundo compreende duas partes essenciais,
necessárias e inseparáveis. Uma delas é o objeto, que se encontra no
espaço e no tempo e está submetid� ausalidade; a outra é o sujeito,
que conhece sem ser conhecido, sendo, assim, sempre pressuposto nas
condições que regem o conhecimento do objeto (espaço, tempo, cau­
salidade), mas sem estar submetido a elas (ibidem: § 2 ( 1 0]). O sujeito
possui um esquema cognitivo de caráter apriorístico que aplica ao que
é dado na experiência sensível, assim estruturando a representação. Da
parte da sensibilidade, este esquema é formado pelas intuições puras
do espaço e do tempo; da parte do entendimento, ele é formado pela
categoria de causalidade. Dado que o objeto sempre pressupõe o su­
jeito, não pode haver relação causal entre ambos (ibidem: § 5 (22]).
O sujeito tem sua raiz no mundo, pois, como indivíduo, dele faz
parte. É o conhecimento deste indivíduo que toma possível o mundo
como represe�tação. O que toma, porém, possível o conhecimento do
indivíduo é a existência de seu corpo, cujas modificações são o ponto
de partida do entendimento para a intuição do mundo (ibidem: § 1 8
[ 1 32]). E o que explica o fato de o sujeito ser, ao mesmo tempo,
indivíduo e sujeito puro do conhecimento é a vontade. Esta última é

2. É importante observar aqui que o idealismo transcendental schopenhaueriano


é de caráter solipsista, como se pode depreender tanto de seu axioma fundamental {"o
mundo é minha representação"), como de sua afirmação de que um único sujeito mais
o objeto seriam suficientes para constituir o mundo como representação { 1 8 19: § 2
[ 1 0)). Nessa perspectiva, cada individuo é um microcosmo perfeitamente equivalente
ao macrocosmo {ibidem: § 6 1 [439)). Sobre a forma que adotamos para citar
Schopenhauer, ver a nota seguinte.
3. Estamos indicando entre colchetes o número da página da edição de O
mundo como vontade e representação que consultamos.

55
Iniciação ao silêncio

a força interior que produz o sujeito e suas ações. O sujeito do conhe­


cimento é idêntico ao corpo e, por isso, é um indivíduo. O corpo é
dado ao sujeito do conhecimento de dois modos radicalmente diferen­
tes. Por um lado, ele é urna representação, ou seja, um objeto entre
outros objetos do mundo. Por outro, é manifestação da vontade, tendo
em vista que todo nosso ato de vontade é, ao mesmo tempo, infalivel­
mente, um movimento do corpo. O ato de volição e a ação corporal
não são dois fenômenos diferentes, ligados pela relação causal, mas
um só e mesmo fato, que nos é dado de duas maneiras diferentes
(ibidem: § 1 8 [ 1 33]). Neste sentido,
"a vontade é o conhecimento a priori do corpo; o corpo é
o conhecimento a posteriori da vontade" (ibidem: § 1 8 [ 1 34]).
Urna vez que fora da vontade e da representação nada é pensável,
a relação de identidade entre a vontade e o corpo é estendida por
Schopenhauer a todos os demais objetos do mundo (ibidem: § 1 9
[ 1 40]). Em conseqüência, podemos também dizer que vontade e mun­
do não são dois fenômenos diferentes, ligados pela causalidade, mas
urna só e mesma realidade, que nos é dada de duas maneiras diferen­
tes. O mundo é a vontade tomada representação; a vontade é aquilo
que constitui o mundo, al;>straindo-se a representação (ibidem: § 30
[2 1 9] ) . Nessa perspectiva, a vontade está fora do espaço e do tempo
e liberta da causalidade. Ela não tem fundamento, embora cada urna
de suas manifestações fenornênicas esteja submetida à relação causal;
ela está livre da pluralidade, apesar do número infinito de suas mani­
festações fenornênicas (ibidem: § 23 [ 1 49]) .
A objetivação d a vontade no mundo admite numerosos graus,
que constituem a medida da perfeição crescente com que a essência da
vontade se traduz na representação. Esses graus de objetivação são
corno Idéias platônicas , pois, embora se manifestem numa infinidade
de indivíduos, correspondem a espécies definidas, formas e proprieda­
des dos corpos naturais, ou forças que se manifestam segundo as leis
da natureza (ibidem: § 30 [2 1 9]). Isso faz com que as Idéias não
estejam submetidas às leis da representação. Desse modo, a Idéia só
pode pertencer à esfera do sujeito puro do conhecimento. Isso porque,
corno indivíduo, o sujeito conhece apenas o que está submetido às leis
da representação. Para que ele possa contemplar as Idéias, deve supri-

56
O contexto ético-metafísico

mir sua individualidade e tomar-se sujeito puro do conhecimento


(ibidem: § 30 [220)) . Assim, para Schopenhauer, o sentido profundo
das filosofias de Kant e Platão é o mesmo. Para ambas, o mundo
sensível é uma aparência que em si mesma não tem valor e só tem
significação em virtude daquilo que se exprime por meio dela (as
Idéias, para Platão, e a coisa em si, para Kant) (ibidem: § 3 1 [223)).
Isso leva Schopenhauer a estabelecer uma distinção entre o co­
nhecimento abstrato e o intuitivo. O segundo é superior e só pode ser
expresso pelo primeiro de maneira deficiente. O conhecimento abstra­
to é o do indivíduo; o intuitivo é o do artista, do qual o filósofo
participa. A distinção entre esses dois tipos de conhecimento está li­
gada à distinção schopenhaueriana entre o homem vulgar e o gênio. A
essência do gênio consiste numa preeminente aptidão para a contem­
plação pura, cuja condição básica é o esquecimento completo da per­
sonalidade individual e suas relações. O gênio consegue se manter na
intuição pura, nela perdendo-se, libertando-se da sujeição à vontade.
Ele perde completamente de vista seus interesses, sua vontade, seus
fins práticos (ibidem: § 36/ (242-243)). O homem comum, "produto
industrial que a natureza fubrica à razão de vários milhares por dia"
(ibidem: § 36 [243)), por sua vez, não consegue esquecer sua perso­
nalidade individual e suas relações. Ele permanece plenamente satis­
feito com sua vontade, seus interesses e seus fins práticos. Só é capaz
de concentrar sua atenção nas coisas se elas se relacionam com sua
vontade (ibidem: § 36 [242)). A ciência do homem comum é a mate­
i:nática, cujo objeto é estudar as formas mais gerais do fenômeno, a
saber, o espaço e o tempo, que nada mais são do que expressões do
princípio de razão (ibidem: § [246-247)). A matemática oferece um
simples encadeamento de conseqüências com base no princípio de
razão. Em síntese, o homem vulgar calcula; o gênio, em sua profun­
didade ética, não (Philonenko 1 980: 1 3 1 ). Isso conduz a uma dicotomia
entre a ciência e a filosofia, que, na opinião de Philonenko, constitui
uma contribuição original de Schopenhauer ( 1 980: 1 27). A ciência,
recorrendo à matemática, se preocupa com o fenômeno, sua pergunta
é pelo onde, como, quando e por quê; a filosofia suspende o princípio
de razão e se preocupa com a essência, sua pergunta é pelo quid
(ibidem: 1 1 9; 1 22) . Neste ponto, a apropriação que Schopenhauer faz
de Spinoza é bastante inovadora. É certo que, ao perguntar pelo quid,

57
Iniciação ao silêncio

a mente do filósofo se toma eterna, pois contempla o mundo da pers­


pectiva do eterno. Mas, diferentemente de Spinoza, Schopenhauer não
visa a uma eternidade substancial, e sim à eternidade do olhar mergu­
lhado na contemplação da essência (ibidem: 1 22). O que caracteriza a
apreensão do quid é o esquecimento de si mesmo como indivíduo, a
negação do corpo, o desinteresse pelas coisas do mundo , cuja
contrapartida é a transformação radical da representação, que agora
não mais opõe sujeito e objeto, unificando-os no êxtase (ibidem: 1 23).
Nesse sentido, ciência e filosofia constituem duas dimensões comple­
tamente distintas. A ciência está interessada no mundo e nos propor­
ciona um conhecimento-utensílio; a filosofia pretende contemplar a
essência do mundo e nos proporciona um conhecimento ontológico
(ibidem: 1 23). A ciência é realização do homem comum, que é inte­
ressado e, nessa perspectiva, ordinário e vulgar; a filosofia é realiza­
ção do gênio, que visa contemplar desinteressadamente o universal. A
desqualificação da ciência atinge a própria história, que pode ser con­
siderada a física dos interesses e dos conflitos. É certo que a história
não é matemática. Mesmo assim, ela se compõe de cãlculos egoístas.
Nesse sentido, o homem histórico é um matemático (ibidem: 1 28).
As considerações acima mostram que a transição do conhecimen­
to das coisas particulares ao das Idéias só é possível mediante uma
modificação excepcional do sujeito. De acordo com Schopenhauer,
esta passagem
"produz-se bruscamente: é o conhecimento que se liberta
do serviço da vontade. O sujeito deixa, por este fato, de ser
simplesmente individual; torna-se então puramente um su­
jeito que conhece e é isento de vontade; já não está obri­
gado a procurar as relações de conformidade com o prin­
cípio de razão,· absorvido daqui em diante na contemplação
profunda do objeto que se lhe oferece, livre de qualquer
outra dependência, é aí que daqui em diante ele repousa e
se desenvolve" (Schopenhauer 1 8 1 9: § 34 [23 1 ]) .
Quando se d á a modificação mencionada, o sujeito deixa de
considerar o lugar, o tempo e o porquê e passa a preocupar-se unica­
mente com a natureza das coisas; ele abandona o conhecimento
discursivo e concentra toda a sua força na intuição. O resultado é o

58
O contexto ético-metafísico

perder-se do sujeito no objeto. Ele se esquece de sua individualidade,


de sua vontade, subsistindo apenas como puro sujeito, que nada mais
é que o claro espelho do objeto, de tal modo que se toma impossível
distinguir o sujeito de sua intuição: ambos se confundem num único
ser, numa única consciência cheia de uma visão única e intuitiva.
Quando atinge esse nível, o sujeito arrebatado por essa contemplação
não é mais um indivíduo, mas sim o sujeito puro do conhecimento,
inteiramente livre (ibidem: § 34 [232]). Segundo Schopenhauer, é isso
que Spinoza descreve quando diz que a mente é eterna, tendo em vista
que concebe a coisa sob a perspectiva da eternidade (ibidem: § 34
[233]). Assim, o único método correto de filosofar é buscar o quid
(ibidem: § 53 [36 1 ]) . Isso significa que o conhecimento racional é aque­
le submetido ao princípio de razão. Como tal, ele só tem utilidade na
ciência e na vida prática. Já o conhecimento intuitivo é aquele que não
está submetido ao princípio de razão. Assim, ele é próprio do gênio e
só tem valor e utilidade na arte (ibidem: § 36 [241 ]). O primeiro é de
tipo aristotélico; o segundo, de tipo platônico (ibidem: § 36 [242]) . A
arte, t� davia, constitui uma libertação apenas temporária da dor.
Á> iante do mundo submetido à necessidade, a vontade livre que
se reflete no mundo deve fazer uma opção ética fundamental: afirmar­
-se ou negar-se (ibidem: § 60 [432]) . Ambas as alternativas derivam
do conhecimento intuitivo, e não do discursivo (ibidem: § 54 [376]).
Quando a vontade opta por afirmar-se, ela afirma o próprio corpo
(ibidem) . A contrapartida da afirmação da vontade é o sofrimento, pois
todo querer tem como princípio uma carência e, portanto, uma dor
(ibidem: § 57 [41 1 ]) . A vida humana se desenvolve entre desejos e
suas satisfações. Mas o desejo é sofrimento e a satisfação leva à
saciedade e ao aborrecimento (ibidem: § 57 [4 1 4]). O fato de a afir­
mação da vontade vir acompanhada pelo sofrimento constitui a justiça
eterna (ibidem: § 60 [438]). Quando a vontade opta por negar-se, ela
abandona as aparências individuais, concentrando-se na noção do
universo considerado em sua essência, noção esta que desempenha o
papel de pacificador para a vontade, por meio da qual ela se suprime
livremente (ibidem: § 54 [375-376]). Isso constitui o que Schopenhauer
denomina ' transformação transcendental ' (ibidem: § 69 [528]). Ao
negar-se, a vontade, como condição transcendental de possibilidade da
representação, elimina o ser que serve de base ao fenômeno. Este,

59
Iniciação ao silêncio

porém, mesmo assim continua a existir no tempo. O resultado é que a


ação livre da vontade introduz uma contradição no seio do fenômeno
por meio da santidade e da abnegação (ibidem: § 55 [380)). A melhor
expressão da negação da vontade é o ascetismo (ibidem: § 68 [504-
-505)). Nesse sentido, o cristianismo, que vê o mundo de maneira pes­
simista, constitui uma religião ascética em consonância com a negação
da vontade (ibidem: § 59 [43 1 ] ; § 68 [5 1 3-5 1 4)): Cristo a simboliza
(ibidem: § 70 [536)). A condição exigida para se atingir a negação da
vontade é a constatação de que o indivíduo, como manifestação dessa
vontade, começa e acaba segundo o tempo (ibidem: § 54 [362-
-364)). Nascimento e morte só fazem sentido em relação à representa­
ção. A morte nada mais é que um movimento fenomênico. Em conseqüên­
cia, o medo da morte é absurdo, pois esta nada tem a ver com a vontade
ou sujeito transcendental, que está fora do tempo e cujo olhar está eter­
namente aberto para o universo infinito. O presente é a única coisa que
existe sempre, de maneira inabalável (ibidem: § 54 [366-370)).
A negação da vontade constitui uma libertação mais completa
que a arte. Mesmo assim, ao ser atingida, ela não corresponde a um
bem definitivamente adquirido; é preciso reconquistá-la mediante per­
pétuos combates contra o querer viver (ibidem: § 68 [5 1 9)). O conhe­
cimento que resulta da negação da vontade, sendo intuitivo e não
discursivo, é mais bem expresso pela ação e pela conduta do que por
conceitos abstratos: temos de buscar exemplos dele nas biografias de
personagens que experimentaram o êxtase, o arrebatamento, a ilumi­
nação, a união com Deus (ibidem: § 68 (5 1 0) ; § 7 1 [544)). A rigor,
porém, não podemos chamar essa experiência de ' conhecimento ' , já
que ela não envolve sujeito e objeto e é exclusivamente pessoal, não
podendo ser comunicada a outrem (ibidem) .

Ili - O i m perativo moral de Wei n i nger

Otto Weininger nasceu e viveu em Viena, de 1 880 a 1 903. Foi


influenciado por Kant, Schopenhauer e Nietzsche. Sua obra máxima,
Sexo e caráter, é uma tentativa de situar as relações do sexo sob uma
luz nova e decisiva. Seu objetivo principal é explicar a diferença entre
homens e mulheres por meio de um princípio único, proveniente de

60
O contexto ético-metafísico

uma psicologia filosófica (Weininger 1 906: ix) . O resultado é uma


verdadeira metafísica dos sexos.
A obra se divide em duas partes. A primeira é preparatória e trata
dos aspectos biopsicológicos do sexo (6 capítulos). A segunda é a
parte principal e trata dos aspectos lógico-filosóficos do sexo ( 1 4
capítulos) (ibidem: xii) . Weininger admite que sua investigação pode
ser criticada quanto à falta de provas em certos pontos. Em resposta
a isso, ele afirma que não está tratando com matemática ou com a
teoria do conhecimento, mas com conhecimento empírico. Neste do­
mínio, o máximo que se pode fazer é apontar para aquilo que existe.
' Prova' , aqui, não significa nada mais que a concordância da experiên­
cia nova com a antiga (ibidem: xiii).
Na parte preparatória do livro de Weininger, o aspecto mais
importante a ser destacado é a afirmação de que todos somos uma
mistura de masculino e feminino. Qualquer indivíduo é um composto
de caracteres masculinos e femininos em diferentes proporções . Bio­

t
logicamente, somos todos bissexuais (ibidem: 8-9) . A lei que regula a
dadeira união sexual estabelece a necessidade de que a soma dos
acteres masculinos e femininos produza um homem completo e
·
a mulher completa, mesmo que tais caracteres estejam distribuídos
diferentemente nos dois indivíduos envolvidos (ibidem: 29). Assim,
um indivíduo 75% masculino e 25 % feminino só encontrará completa
afinidade sexual ao lado de um indivíduo 25 % masculino e 75% fe­
minino (ibidem: 30). Esta lei explica inclusive o homossexualismo
(ibidem: 45 ss.). Como se pode notar, a concepção weiningeriana da
sexualidade admite formas intermediárias entre o homem completo e
a mulher completa. Aplicada aos fatos mentais, essa concepção produz
uma série de resultados. Assim, por exemplo, os homens afeminados,
além de fisicamente mais preguiçosos que outros homens, são extrema­
mente ansiosos para se casar (ibidem: 56). Quanto mais feminilidade
uma mulher possui, tanto menos ela compreenderá um homem e maior
será a influência dos caracteres sexuais do homem sobre ela (ibidem:
57). Do mesmo modo, as exigências que uma mulher faz para a eman­
cipação e sua qualificação são diretamente proporcionais à quantidade
de masculinidade que ela possui (ibidem: 64 ss.). Todavia, o maior e
único inimigo da emancipação feminina é a própria mulher. Weininger
deixa a prova disso para a segunda parte do livro (ibidem: 75).

61
Iniciação ao silêncio

Nesta segunda parte, que é a principal, Weininger afirma que


'homem ' e 'mulher' devem ser considerados apenas como tipos. Os
indivíduos existentes são misturas, em diferentes proporções, desses
tipos (ibidem: 79).
A mulher, entendida como tipo, está inteiramente mergulhada no
sexo (ibidem: 88). O homem é parcialmente sexual, ao passo que a
mulher é apenas sexual (ibidem: 9 1 ). Nesse sentido, enquanto o ho­
mem possui órgãos sexuais, a mulher é possuída pelos órgãos sexuais
(ibidem: 92).
Para estudar a consciência masculina e feminina, Weininger enfatiza
o fato de que cada percepção clara e cada representação passa por um
estágio de indistinção (ibidem: 94). Para designar o dado psíquico nesse
estágio inicial, Weininger recorre à palavra hênida, proveniente do gre­


go hén, que significa um, porque nela é impossível distinguir percepção
e sensação como dois fatores analiticamente separâveis (ib m: 99).
Aplicando este resultado à psicologia dos sexos, Weininger conclui:
"O homem tem os mesmos dados psíquicos que a mulher,
mas em uma forma mais articulada; onde ela pensa mais ou
menos em hênidas, ele pensa em representações (presen­
tations) mais ou menos claras e detalhadas, nas quais os
elementos são distintos dos tons emocionais " (ibidem: 1 00) .
Para a mulher, o pensar e o sentir são idênticos; para o homem,
eles estão em clara oposição. A mulher tem muitas de suas experiên­
cias mentais como hênidas, ao passo que no homem tais experiências
passam por um processo de clarificação (ibidem). Prova disso é o fato
de que, sempre que um novo juízo deve ser feito, a mulher espera do
homem a clarificação de seus dados, a interpretação de suas hênidas
(ibidem: 1 0 1 ) . É por isso que tantas garotas dizem que só poderiam
casar-se com ou apaixonar-se por um homem mais inteligente que elas
(ibidem: 1 0 1 - 1 02) .
Nesse ponto, Weininger introduz seu conceito de ' gênio ' , cuja
característica fundamental é a clareza de consciência, a qual o coloca
o mais distante possível do estágio de hênida (ibidem: 1 03- 1 1 1 ). Em
virtude disso, constata-se que a mulher não tem consciência de gênio.
O termo estâ definitivamente ligado com hombridade, representando

62
O contexto éttco-mctaffslr! '

a masculinidade ideal em sua manifestação mais elevada. A mulher


leva uma vida inconsciente; o homem comum, uma vida consciente;
o gênio, a vida mais consciente de todas (ibidem: 1 1 3). A marca ca­
racterística do gênio é a lembrança universal de todas as suas experiên­
cias (ibidem: 1 1 4- 1 1 5). Por meio da lembrança, a experiência vivida
toma-se atemporal (ibidem: 1 32) . A memória transcende o tempo
(ibidem) . E somente aquilo que transcende o tempo é que interessa ao
indivíduo, aquilo que tem significado para ele, em suma, aquilo a que
ele dá valor. É o valor que cria a atemporalidade (ibidem: 1 33). Assim,
o gênio é o único homem atemporal. Com seu desejo apaixonado e
urgente pela atemporalidade, ele é o homem com o maior desejo pelo
valor (ibidem: 1 36) . O grande homem de ação, embora possa ter al­
guns traços que o assemelhem ao gênio, estâ preso à temporalidade e
não tem senso do valor (ibidem: 1 39). O grande cientista, a menos que
seja também um filósofo, merece o título de ' gênio ' tão pouco quanto
o homem de ação (ibidem: 1 40). O cientista não é universal porque lida
com um domínio restrito do conhecimento e suas contribuições estão
sujeitas à mudança (ibidem) . Já o artista e o filósofo criam uma apre­
sentação do mundo que é imperecível, imutável e atemporal (ibidem).
A memória se relaciona com a lógica e com a ética. Por um lado,
a memória constitui a base para o pensamento lógico. O princípio de
identidade, por exemplo, baseia-se em concepções lógicas que
independem do tempo. Para construí-las, o homem, como entidade
psicológica, não apenas tem de efetuar uma abstração, mas também
preservá-la. Ora, a faculdade que permite preservá-la é a memória.
Assim, se o homem fosse desprovido de memória, ele perderia a ca­
pacidade de pensar logicamente, pois esta possibilidade está encarna­
da num meio psicológico (ibidem: 1 47). A memória constitui uma
parte necessária da faculdade lógica. A lembrança contínua nada mais
é do que a expressão psicológica do princípio de identidade. O mesmo
se aplica aos princípios de não-contradição e do terceiro excluído, e
também à possibilidade de extrair a conclusão das premissas do
silogismo (ibidem: 1 48). Por outro lado, a base de todo erro na vida
é o fracasso da memória. Somente ela garante o arrependimento.
Todo esquecimento é imoral. Uma criatura, por exemplo, que não
consegue apreender a exclusão mútua de A e não-A, a qual se funda­
menta na memória, não tem qualquer dificuldade em mentir. Nessa

63
Iniciação ao silêncio

perspectiva, a verdade deve ser considerada como o valor real da lógica


e da ética (ibidem: 1 50). Assim, a memória não constitui um ato lógico e
ético, mas é um fenômeno simultaneamente lógico e ético (ibidem: 1 49).
Aquilo que permite ao homem ter uma relação autêntica com a
verdade e remove sua tentação de mentir deve ser um "centro de
apercepção", absolutamente imutável e independente do tempo (ibidem:
1 5 1 ) . As provas da existência deste sujeito noumenal, transernpírico,
provêm da lógica e da ética. No que diz respeito à lógica, podemos
dizer que ela trata do verdadeiro significado do princípio de identida­
de. Esse é o princípio de toda verdade, mas não pode ser ele mesmo
urna verdade especial (ibidem: 1 55). Os princípios lógicos não cons­
tituem conhecimentos, atos separados do pensamento, mas o padrão
comum para todos os atos de pensamento. Ora, a regra do processo de
pensamento deve estar fora do pensamento. O princípio de identidade
ou é desprovido de significado ou significa tudo (ibidem: 1 56) . O puro
pensamento lógico seria atributo da divindade. O ser humano sempre
pensa de modo parcialmente psicológico, porque possui não apenas
razão, mas também sentidos. A lógica constitui, porém, o supremo
padrão pelo qual o indivíduo pode testar suas representações psicoló­
gicas e as dos outros. A constância absoluta e a coerência absoluta,
que não podem provir da experiência, constituem a essência da con­
cepção do poder escondido nas profundezas da mente humana. Elas
correspondem à regra da essência, não da existência efetiva. Ao dizer
que A A, não estamos pressupondo que A existe, mas sim a existên­
=

cia de A A, que não é um resultado da experiência. Ora, urna exis­


=

tência foi pressuposta. Se não é a existência do objeto A, então é a


existência do sujeito que é pressuposta. A proposição 'A = A' nada
mais é do que a proposição ' eu sou' (ibidem: 1 57- 1 58). Em resumo:
"Os axiomas lógicos são o princípio de toda verdade. Estes
postulam uma existência à qual toda a cognição serve. A
lógica é uma lei que deve ser obedecida, e o homem dá
conta de si próprio somente na medida em que é lógico. Ele
encontra a si próprio na cognição " (ibidem: 1 58).

No que diz respeito à ética, ela nos diz que o dever do homem,
corno ser lógico, é encontrar a verdade. O dever da cognição envolve
a possibilidade do conhecimento, a liberdade de pensamento e a espe-

64
O contexto ético-metafísico

rança de assegurar a verdade. Inspirando-se explicitamente na filoso­


fia moral kantiana, Weininger declara que a parte mais profunda, in­
teligível, da natureza do homem é aquela que escolhe livremente o
bem ou o mal, fora do domínio da causalidade (ibidem). E o bem
consiste em ser verdadeiro, puro, fiel e correto consigo mesmo. O
dever é apenas dever para consigo mesmo, dever do ego empírico para
com o ego inteligível. Neste sentido, a moralidade constitui a regra
última da conduta humana, não podendo ser explicada ou inferida
teoricamente (ibidem: 1 76) . Tendo em vista que o dever aparece sob
a forma de dois imperativos, a saber, a lei lógica e a lei moral, Weininger
conclui:
"Lógica e ética são fandamentalmente o mesmo, elas nada
mais são do que dever para consigo mesmo. Elas celebram
sua união pelo serviço mais elevado da verdade, que é
obscurecida em um caso pelo erro e, em outro, pela inver­
dade. Toda ética é possível apenas pelas leis da lógica, e a
lógica nada mais é que o lado ético da lei. Não apenas
virtude, mas também intuição, não apenas santidade, mas
também sabedoria são os deveres e tarefas da humanidade.
Somente pela união delas surge a perfeição " (ibidem: 1 59).
Todo gênio tem, em algum momento de sua vida, uma experiên-
cia de algo mais elevado em seu ego (ibidem: 1 64) . Essa experiência
assume as mais variadas formas. Todavia, como visões intuitivas do
cosmo, têm em comum o fato de serem provenientes apenas da exci­
tação do ego, da convicção do gênio de que ele possui uma alma que
está solitária no universo, encarando-o e compreendendo-o (ibidem:
1 67). O ego do gênio é compreensão universal, o centro do espaço
infinito. O grande homem contém o universo inteiro dentro de si pró­
prio: ele é o microcosmo vivo. Nele, e por ele, todas as manifestações
psíquicas se harmonizam e constituem exp�riências reais, e não um
aglomerado de partes, à maneira da ciência. Para o gênio, o ego é tudo
e vive o todo; as relações entre as coisas relampejam nele intuitiva­
mente; ele não tem de construir pontes entre elas. Sua intuição não é
função do tempo, mas parte da eternidade (ibidem: 1 69).
Todavia, o contato direto com o verdadeiro "eu" não deve ser
encetado pelo conhecimento teórico, e ninguém tentou, até agora,

65
Iniciação ao silêncio

expressá-lo em forma de filosofia sistemática. Essa experiência, por­


tanto, constitui antes uma fase do verdadeiro "eu" que uma manifes­
tação essencial deste. É a partir dela que o gênio constrói uma apre­
sentação original do mundo (ibidem: 1 66) .
As considerações acima deixam claro que o gênio constitui a
mais elevada forma de moralidade e, portanto, o dever de cada um. O
gênio deve ser atingido por meio de um supremo ato da vontade, no
qual o universo inteiro é afirmado no indivíduo. Ele constitui a maior
miséria e o maior êxtase do homem. Um homem pode tomar-se gênio
se assim o desejar (ibidem: 1 83).
Estabelecidos os princípios da psicologia weiningeriana, pode­
mos agora responder à questão sobre o significado do homem e da
mulher no universo. Nas palavras do próprio Weininger:
"As mulheres não têm existência e nem essência,' elas não
são, elas nada são. A humanidade ocorre como macho ou
mulher, como algo ou nada. A mulher não tem nenhuma
participação na realidade ontológica, nenhuma relação com
a coisa em si, a qual, na interpretação mais profunda, é o
absoluto, é Deus. O homem, em sua forma mais elevada, o
gênio, tem tal relação, e para ele o"s..bsoluto é ou a concep­
ção do valor mais elevado da existê'ricia, em cujo caso ele
é um filósofo, ou o maravilhoso reino encantado dos so­
nhos, o reino da belei.a absoluta, e então ele é um artista. Mas
ambas as perspectivas significam o mesmo" (ibidem: 286).

Para o homem, como tipo ideal, as conseqüências da análise


weiningeriana são muito estimulantes . Ele é um ser que pensa por
meio de representações claras, possuindo o poder de distinguir o ver­
dadeiro do falso, o certo do errado. Ele tem uma alma e é livre,
podendo escolher entre o masculino e o feminino. Seu dever ético
interior consiste em escolher a dimensão masculina, e, na medida em
que se aproximar dela, também se aproximará do homem ideal, que é
o gênio. Este último nada mais é do que aquele que cumpriu integral­
mente o dever que habita o interior de todos nós. O homem deve
sobrepujar o "eu" empírico ilusório e encontrar seu verdadeiro "eu"
em um nível superior. Isso pode ser feito por meio do amor, no sentido
de amor platônico. O único amor realmente valioso é o do Absoluto.

66
O contexto ético-metafísico

O desejo sexual é uma manifestação dos sentidos e opõe-se ao amor


verdadeiro (ibidem: 239 ss.). Isso permite estabelecer uma íntima li­
gação entre lógica, ética e estética: todas dependem da vontade livre
do sujeito (ibidem: 250) . A psicologia do homem, como tipo ideal,
contudo, é impossível como ciência, pois ela pretende deduzir a essên­
cia do homem e, se esta última fosse dedutível, ela não seria livre
(ibidem: 208-209). Para a mulher, como tipo ideal, contudo, as con­
seqüências são desastrosas. Ao pensar apenas por hênidas, a mulher
revela-se incapaz de distinguir o verdadeiro do falso; ela não tem cri­
térios para distinguir o certo do errado (ibidem: 1 00- 1 02; 1 9 1 ). Além
disso, ela não tem memória (ibidem: 1 24- 1 25). Portanto, a mulher des­
conhece qualquer imperativo moral ou lógico: ela não possui alma, não
é livre, não tem caráter (ibidem: 1 86; 1 97; 286). A maior humilhação da
mulher está no ato sexual; sua suprema exaltação, no amor. Uma vez que
a mulher deseja o sexo e não o amor, ela prova que deseja ser humi­
lhada e não adorada. O maior inimigo da emancipação feminina é,
portanto, a mulher (ibidem: 336).
O capítulo 1 3 da segunda parte do livro de Weininger é dedicado
ao judaísmo. Ali, ele afirma que dentre os tipos humanos em que
predomina o feminino destaca-se o 'judeu ' . Da mesma forma que a
mulher, o judeu não possui nem alma nem sentido ético. A religião
judaica é negativa; ela constitui a expressão da covardia. Nesse sen­
tido, Cristo foi um grande exemplo para todos os homens, pois supe­
rou o judaísmo que havia nele mesmo e estabeleceu as bases do cris­
tianismo, a religião em sentido positivo (ibidem: 3 0 1 -330).
Como se pode ver, para Weininger o masculino e o feminino são
categorias últimas que se aplicam a toda a realidade. Suas análises
lev aram -no a confinn ar a atitude pessimista de alguns autores para
com a cultura de seu tempo. Os pontos comuns que esses autores
pressupunham são os seguintes: a Idade Moderna é decadente; nela, a
ciência e o comércio foram colocados acima de tudo; ela carece de gran­
des artistas ou grandes filósofos; ela não possui originalidade e, contudo,
está dominada pela mais insensata sede de originalidade. Na opinião de
Monk, a "filosofia do gênio", proposta por Weininger, nada mais é que
uma tentativa de superar a decadência de seu tempo ( 1 995 : 33).
Em que pese o caráter radical das teses que defendia, o próprio
Weininger era, paradoxalmente, homossexual e judeu. Por causa disso,

67
Iniciação ao silêncio

sua curta vida terminou abrupta e teatralmente aos 23 anos de idade,


quando se suicidou com um tiro. Seu corpo foi encontrado na mesma
casa em que tinha morrido Beethoven, considerado por Weininger o
maior de todos os gênios. Tudo indica que, incapaz de obedecer ao
dever moral interior, ele resolveu matar-se. Seu suicídio foi conside­
rado a conseqüência lógica do problema moral colocado por Sexo e
caráter: se só for possível a alguém viver como 'mulher' ou como
'judeu ' , então este alguém não deve viver. Weininger teria agido de
maneira perfeitamente ética, aceitando corajosamente a conclusão ló­
gica de que não merecia viver. Sua atitude inspirou uma série de
suicídios do mesmo tipo na Viena da época. Rudolf, irmão de
Wittgenstein, suicidou-se seis meses depois de Weininger, em circuns­
tâncias igualmente teatrais.

IV - A experiên cia religiosa segu ndo William Ja mes

Em 1 902, William James deu uma série de conferências na Uni­


versidade de Edimburgo, a partir das quais foi escrito e publicado um
interessante livro intitulado As variedades da experiência religiosa. O
objetivo dessa obra é enfatizar as enormes diversidades exibidas pela
vida espiritual dos homens. Na opinião do autor, há realmente tipos
diferentes de experiência religiosa (J � 1 902: 1 09). Veremos, a seguir,
algumas das teses mais importantes de William James.
De acordo com ele, a religião envolve o senso de uma presença
objetiva, não perceptível pelos sentidos usuais:
"É como se houvesse na consciência humana um senso de
realidade, um sentido de presença objetiva, uma percepção
do que podemos chamar 'algo lá' , mais profunda e mais
geral do que qualquer dos 'sentidos ' especiais e particula­
res pelos quais a psicologia atual supõe que as realidades
existentes sejam originalmente reveladas. Temos um sentido
da realidade diferente daquele dado pelos sentidos espe­
ciais" (ibidem: 58).
Os períodos em que este senso de realidade é mais intenso são
alternados com períodos em que ele não está presente (ibidem: 65) . A

68
O contexto ético-metafísico

imaginação ontológica do ser humano é tal que seres indescritíveis são


percebidos com uma intensidade quase semelhante à de uma alucinação.
Eles determinam nossa atitude vital tão decisivamente quanto a atitude
dos amantes é determinada no sentido habitual de que um é enfeitiçado
pela presença do outro no mundo (ibidem: 72). Esse sentimento de rea­
lidade é tão convincente quanto qualquer experiência sensível direta e, de
um modo geral, é mais convincente do que resultados meramente esta­
belecidos pela lógica (ibidem). Quando se tem este sentimento de manei­
ra forte, a probabilidade é de que não se possa evitar encará-lo como
uma percepção genuína da verdade, uma revelação de um tipo de
realidade que nenhum argumento contrário, por mais irrefutável que
seja, possa abalar a crença assim produzida (ibidem: 72-73).
Ao misticismo opõe-se o racionalismo, segundo o qual nossas
crenças devem ter fundamentos articulados. Esses fundamentos po­
dem ser ou princípios abstratos formuláveis de maneira definida, ou
fatos sensíveis definidos, ou hipóteses definidas baseadas em tais fa­
tos, ou inferências definidas, logicamente obtidas. As impressões va­
gas de algo indefinível não encontram lugar no sistema racionalista
(ibidem: 73). Todavia, se considerarmos a vida humana em sua tota­
lidade, temos de confessar que a parte dessa vida que o racionalismo
consegue explicar é relativamente superficial . É verdade que essa parte
tem muito prestígio, pois pode desafiar e exigir provas, desarmando o
místico (ibidem). Mesmo assim, ela fracassa, pois as intuições místi­
cas possuem uma força e profundidade que o racionalismo não con­
segue explicar. A inferioridade do racionalismo se manifesta não ape­
nas quando ele argumenta contra a religião, mas também quando ar­
gumenta a favor dela (ibidem).
Dentre as pessoas religiosas, algumas se caracterizam pelo extre­
mo otimismo diante do mundo e pela incapacidade de sentir o mal.
Seu lema é o de Santo Agostinho: ama e faze o que quiseres (ibidem:
80). Como exemplos dessa tendência, temos São Francisco, Rousseau,
Emerson, Walt Whitman. Se dermos o nome de saúde mental à ten­
dência que sempre vê o lado bom das coisas, teremos de distinguir
duas maneiras diferentes de ter saúde mental (ibidem: 87). A primeira
é de caráter mais involuntário e corresponde à maneira de sentir-se
imediatamente feliz a respeito das coisas (ibidem: 87-88). A segunda

69
Iniciação ao silêncio

é de caráter mais voluntário ou sistemático e corresponde à maneira


abstrata de conceber as coisas como boas. A saúde mental sistemática
concebe o bem como qualidade essencial do ser e exclui delibe­
radamente o mal de seu campo de visão (ibidem) . O mal é uma doen­
ça. Preocupar-se com o mal é também uma forma de doença. Até
mesmo o arrependimento e o remorso podem ser apenas impulsos
doentios. A melhor forma de arrependimento é esquecer o pecado,
levantar-se e agir corretamente (ibidem: 1 27).
Em oposição a essa tendência, temos a que maximiza o mal com
base na idéia de que os aspectos malignos de nossa vida constituem
sua verdadeira essência e de que o significado do mundo vem a nós
quando os colocamos no fundo de nossos corações (ibidem: 1 3 1 ) .
Assim como acontece no caso da saúde mental, há também duas atitudes
ligadas à morbidez mental. Para alguns, o mal significa apenas um mau
ajustamento da própria vida com o meio ambiente. Esse mal é curável
pela modificação seja da vida, seja do ambiente, seja de ambos (ibidem:
1 34). Para outros, o mal significa algo muito mais radical e geral, algo
essencial, que não pode ser curado pelas modificações citadas, mas
exige um remédio sobrenatural (ibidem). Assumindo que o otimista
religioso vive num patamar diferente daquele do pessimista religioso,
vemos que o tipo de religião de que este último precisa é diferente da­
quele de que o primeiro precisa. Na verdade, o sofrimento, o medo, a
piedade e o sentimento de abandono podem abrir uma visão mais profun­
da e fornecer uma chave mais complexa para entender o significado
do mundo (ibidem: 1 36). Não foi 'êm-vão que alguns teólogos susten­
taram ser a experiência do fracasso e a humilhação resultante essen­
ciais para se atingir o significado mais profundo da vida.
Nesse ponto, William James cita Tolstoi como exemplo de alma
doente, para a qual a vida perdeu, em determinado momento, todo e
qualquer significado (ibidem: 1 5 1 ). Aos cinqüenta anos, Tolstoi come­
çou a ter acessos de perplexidade que o faziam ficar sem saber como
viver (ibidem: 1 52). Isso o deixou em aflição extrema. Embora bus­
casse desesperadamente uma explicação, não encontrava qualquer res­
posta nas ciências. Parecia-lhe que a falta de sentido e o absurdo da
vida, ou seja, aquilo mesmo que o tinha levado ao desespero, consti­
tuía o único conhecimento incontestável à disposição do homem

70
O contexto ético-metafísico

(ibidem: 1 55). Ele só não cedeu à tentação de suicidar-se porque algo


mais trabalhava em sua mente: uma consciência da vida, que Tolstoi
identificou com uma sede de Deus (ibidem: 1 56) . Tudo isso mostra
como a alma doente passa pela experiência de um absoluto desencan­
tamento com a vida ordinária, de tal modo que todos os valores ha­
bituais se transformam em terrível zombaria (ibidem).
Esses fatos mostram o grande antagonismo entre as maneiras
sadia e mórbida de ver a vida. Para James, todavia, a alma doente
envolve um domínio mais amplo de experiência e acaba sobrepondo­
-se à alma sadia. De fato, o método de desviar a atenção do mal e
viver apenas sob a luz do bem é esplêndido apenas enquanto funciona.
Assim que surge a melancolia, não é mais possível desviar a atenção
do mal. Ora, a alma otimista é incapaz de encarar o mal como parte
autêntica da realidade. E, no final das contas, ele pode constituir a
melhor chave para entender o sentido da vida (ibidem: 1 63). Portanto,
se a saúde mental falha em conceder qualquer atenção positiva ao
sofrimento e à morte, ela é formalmente menos completa que os sis­
temas que tentam pelo menos incluir tais elementos em suas explica­
ções (ibidem: 1 65).
Em virtude disso, as religiões mais completas parecem ser aque­
las em que os elementos pessimistas estão mais bem desenvolv idos,
como é o caso do budismo e do cristianismo. Elas são, em ú l t i m a
instância, religiões de libertação. Para poder nascer para a v ida autên­
tica, o homem deve morrer para uma vida inautê n tica ( i b idem ) . A
alma otimista nasce uma vez só para o mundo e acei ta-o como natura l .
A alma doente v ê o mundo como u m mistério d e duas faces ( i bidem:
1 66) . Existem duas vidas, a natural e a esp iritual , e temos de perder
uma para depois participar da outra ( ibidem: 1 67 ) .
A base psicológica para o caráter q u e nasce duas v e zes parece ser
uma personalidade moral e i ntelectual i nc o m p l etamente unificada
(ibidem) . Ora, em todos nós a evol ução normal do caráter consiste
principalmente na unificação do "cu" interior. O s sentimentos eleva­
dos e os inferiores criam um c ao s cm nosso i n terior, mas devem aca­
bar formando um sistema es t á vel . O perí odo de luta para colocar os
sentimentos em ordem é caracterizado p el a infelicidade (ibidem: 1 70).
No reino espiritual, há duas maneiras de se conseguir a unificação

71
Iniciação ao silêncio

interior: a gradual e a súbita (ibidem: 1 83). Tolstoi é apresentado


como exemplo de processo gradual4 (ibidem: 1 83- 1 86).
Com relação ao misticismo, William James aponta quatro carac­
terísticas básicas para este peculiar estado de consciência. Em primei­
ro lugar, ele é inefável. O aspecto mais conveniente para classificar
dado estado de consciência como mistico é negativo. De fato, nenhum
relato de seu conteúdo pode ser feito em palavras. A experiência mistica
desafia a expressão. Assim, sua qualidade deve ser diretamente vivida
e não pode ser comunicada a outrem. Nessa perspectiva, o estado
mistico está mais próximo de um sentimento do que de uma apreensão
intelectual. E não se pode tomar clara a natureza ou o valor de um
sentimento para alguém que não o experimentou. Para o mistico, o
tratamento que damos à sua experiência é, em geral, incompetente
(ibidem: 380) .
E m segundo lugar, esse estado possui uma qualidade noética.
Embora se apresentem como muito semelhantes a sentimentos, os
estados misticos parecem também constituir um tipo de conhecimento.
Eles atingem profundidades da verdade que não são compreendidas
pelo intelecto discursivo (ibidem). Eles são iluminações cheias de sig­
nificado e importância, que exercem influência até mesmo depois de
experimentadas (ibidem: 38 1 ) .
E m terceiro lugar, o estado mistico é transitório. Ele não pode ser
sustentado por longo tempo. De modo geral, a <inração de uma expe­
riência mistica é de meia hora, uma hora ou duas, no máximo . Depois
que a experiência desvaneceu, a qualidade do estado mistico pode ser
reproduzida pela memória, ainda que de modo imperfeito. Quando,
porém, volta a ocorrer, ela é reconhecida e pode envolver um desen­
volvimento com relação à experiência anterior (ibidem: 38 1 ) .
Em quarto e último lugar, o estado místico se caracteriza pela
passividade. Embora ele possa ser preparado por técnicas prelimina­
res, sua ocorrência produz o sentimento de estar possuido por um

4. Ao comentar o caso de Tolstoi, James observa significativamente: "sente-se


que suas palavras não revelam seu segredo total" ( 1 84). Isso está em grande harmonia
com a concepção tractatiana de que o renascer constitui uma experiência mística de
caráter indizível.

72
O contexto ético-metafísico

poder superior. Essa característica liga o estado místico com fenôme­


nos de personalidade secundâria, tais como o discurso profético, a
escrita automática ou o transe mediúnico. Em alguns casos, a pessoa
que passou pelo transe pode não ter qualquer lembrança do que acon­
teceu. Mesmo assim, o estado místico não constitui mera interrupção
da vida interior. Sempre permanece alguma lembrança de seu conteú­
do e um profundo sentido de sua importância (ibidem: 3 8 1 ). Mas a
incomunicabilidade do transporte místico é a nota fundamental de
todo tipo de misticismo. A verdade mística existe para o indivíduo que
passa pelo transe e para ninguém mais (ibidem: 405).
O estado místico é cultivado metodicamente no induísmo, no
budismo, no maometismo e no cristianismo (ibidem: 400). Neste úl­
timo sempre houve místicos. Embora muitos tenham sido encarados
com suspeita, alguns acabaram sendo aceitos pelas autoridades religio­
sas. Suas experiências foram codificadas num sistema de teologia
mística, cuja base é a oração ou meditação. Pela oração podem ser
atingidos os níveis mais elevados da experiência mística. Os estados
de consciência assim atingidos não são suscetíveis de qualquer descri­
ção verbal (ibidem: 406-407). Os mais importantes tipos de verdade
transmitidos por via mística são teológicos ou metafísicos (ibidem: 41 0).
A superação de todas as barreiras usuais entre o indivíduo e o
Absoluto é a grande realização mística (ibidem: 4 1 9). A consciência
mística é em geral panteística e otimista, ou, pelo menos, oposta ao
pessimismo. Ela é também antinaturalística e se harmoniza melhor
com o duplo nascimento e os estados espirituais da mente (ibidem:
422). Ao se perguntar se o estado místico fornece qualquer garantia
para essas verdades, William James responde da segu inte maneira.
Primeiro, os estados místicos, quando bem desenvolvidos, possuem o
direito de ser absolutamente dominadores dos ind ivíduos em que eles
ocorrem. Segundo, nenhuma autoridade emana deles de modo a tomar
obrigatório o aceitar acríticamente suas revelações por parte daquele
que não os experimentou (ibidem). Terceiro, eles destroem a autorida­
de da consciência não-mística ou racional . Abrem a possibilidade de
outras ordens de verdade ao mostrar que esta última é apenas um dos
tipos de consciência (ibidem : 423).
Essas considerações levam William James a se perguntar, final­
mente, se a filosofia pode garantir a veracidade da percepção humana

73
Iniciação ao silêncio

do divino (ibidem: 430) . Para ele, o sentimento é a fonte mais profun­


da da religião, ao passo que as fórmulas filosóficas e teológicas não
passam de produtos secundários (ibidem: 43 1 ). De fato, se o sentimen­
to religioso não existisse, seria muito difícil emoldurar qualquer teo­
logia filosófica (ibidem) . Assim, o tipo de intelectualismo em religião
que James pretende desacreditar é aquele que considera possível cons­
truir os objetos religiosos a partir apenas dos recursos da razão lógica.
Suas conclusões são obtidas a priori e constituem uma teologia
dogmática ou uma filosofia do absoluto (ibidem: 433). Historicamen­
te, a filosofia falhou em sua tentativa de ser objetivamente convincen­
te a respeito da religião. Nossas intuições místicas fixam previamente
nossas crenças; depois, só depois, vem a filosofia, que amplifica e
define nossa fé, dignificando-a e emprestando-lhe palavras e plausibi­
lidade (ibidem: 436) . Assim, para quem já acredita em algum Deus, os
argumentos em prol de sua existência confirmam sua fé; para o ateísta,
contudo, eles simplesmente falham em seu objetivo (ibidem: 437). Do
ponto de vista da verdadeira religiosidade, até mesmo a consideração
filosófica dos atributos divinos é dispensável (ibidem: 445-448). O
idealismo de tipo hegeliano, com sua lógica dialética, não consegue
melhor resultado: ele nada mais é_Q!le- uma reafirmação das experiên­
cias do indivíduo em um vocabulário mais generalizado (ibidem: 448-
45 3). A conclusão de James é, portanto, a seguinte:
"O que a religião relata, vocês devem lembrar-se, sempre
pretende ser um fato da experiência: o divino está de fato
presente, a religião diz, e relações de dar e tomar entre ele
e nós são efetivas. Se percepções fatuais definidas como
esta não podem ficar de pé por si próprias, certamente o
raciocínio abstrato não pode dar-lhes o suporte de que
precisam. Processos conceptuais podem classificar fatos,
defini-los, interpretá-los. Mas eles não os produzem nem
podem reproduzir sua individualidade. Há sempre um 'mais ' ,
uma 'istidade' ( ' thisness '), que s ó pode ser afiançada pelo
sentimento. Assim, nesta esfera, a filosofia é uma função
secundária, incapaz de garantir a veracidade da fé (. . . ) .

Com uma triste sinceridade, penso que devemos concluir


que a tentativa de demonstrar por processos puramente

74
O contexto ético-metafísico

intelectuais a verdade dos vereditos da experiência religio­


sa direta é absolutamente sem esperança " (ibidem: 455).

Mas a filosofia poderia tomar-se muito útil se abandonasse a


metafísica e a dedução em benefício da crítica e da indução e se
transformasse de teologia em ciência da religião (ibidem) . O homem
sempre define o divino que ele experimenta em termos de suas cir­
cunstâncias temporais. A filosofia pode, por comparação, eliminar
dessas definições os aspectos locais e acidentais (ibidem). Como ciên­
cia crítica das religiões, a filosofia poderia funcionar como mediadora
entre diferentes crenças, auxiliando na tarefa de produzir um consenso
(ibidem: 456) . Ela teria de confessar, todavia, que a sutileza do real
voa para além dela e que suas fórmulas não são senão aproximações.
A filosofia vive nas palavras, ao passo que a verdade jorra em nossas
vidas de maneiras que excedem a formulação verbal (ibidem).
No último capítulo de seu livro (Conferência XX), James enume­
ra, sob a forma de conclusões, as principais características da religião
e da vida religiosa. Primeiro, o mundo visível é parte de um universo
mais espiritual, do qual extrai seu significado (ibidem: 484) . Segundo,
a união com esse universo espiritual é nosso verdadeiro objetivo na
vida (ibidem). Terceiro, a oração ou união com esse mundo espiritual
é um processo em que a energia espiritual flui e produz efeitos no
mundo material (ibidem). Quarto, do ponto de vista psicológico, a
religião produz um novo sabor que se acrescenta à vida como um
presente, tomando a forma ou de encantamento lírico ou de apelo à
seriedade e ao heroísmo (ibidem) . Quinto e último, também do ponto
de vista psicológico, a religião produz uma convicção de segurança e
uma índole pacífica e, em relação aos semelhantes, uma preponderân­
cia de sentimentos amorosos (ibidem: 486) .
A v ariedade de experiências religiosas possíveis entre os homens
não é censurável, mas sim a natural conseqüência da diversidade de
circunstâncias culturais em que elas ocorrem (ibidem: 487). Nessa
perspectiva, o melhor é que cada homem tenha sua própria vivência
religiosa e nisso seja tolerado por seus semelhantes (ibidem: 488).
Mesmo assim, alguns pensadores prezam as conquistas da ciência e
consideram a religião como mero anacronismo. Para eles, quanto menos
misturarmos o privado com o cósmico e quanto mais permanecermos

75
Iniciação ao silêncio

no domínio dos termos universais e impessoais, tanto mais nos toma­


remos os herdeiros verdadeiros da Ciência (ibidem: 498). James con­
sidera essa concepção superficial, porque, na medida em que tratamos
do cósmico e do geral, estamos tratando apenas dos símbolos da rea­
lidade. É só quando tratamos de fenômenos privados e pessoais como
esses que passamos a tratar da realidade no sentido mais completo da
palavra (ibidem). A verdadeira realidade é a da experiência interior
(ibidem: 499). Do ponto de vista subjetivo, as perguntas sobre a exis­
tência de Deus e seus atributos são irrelevantes. O objetivo da religião
não é Deus, mas a vida, uma vida mais ampla, mais rica, mais
satisfatória. O amor pela vida é o impulso religioso por excelência
(ibidem: 507) . Do ponto de vista de seu conteúdo espiritual, toda
religião parte de um sentimento de desconforto intelectual, no sentido
de que há algo errado a nosso respeito. Em seguida, ela avança em
direção à solução desse desconforto, no sentido de que conseguimos
nos salvar do erro ao estabelecer uma conexão adequada com uma
realidade superior, um ' algo mais ' que pervade todo o universo (ibidem:
508). Esse ' algo mais ' e o sentido de nossa união com ele formam o
núcleo da investigação de James. Sua hipótese é a de que o ' algo mais '
corresponde, em sua face mais próxima de nós, à continuação sub­
consciente de nossa vida consciente (ibidem: 5 1 2) . Os limites mais
distantes de nosso ser mergulham em outra dimensão da existência,
para além do mundo sensível e meramente ' compreensível ' (ibidem:
5 1 5) .

V - O evangelho segu ndo Tolstoi

Em um pequeno livro intitulado Breve exposição do evangelho,


publicado pela primeira vez na Suíça em 1 890, Tolstoi apresenta uma
versão extremamente pessoal do cristianismo. Na exposição desta
interpretação, Tolstoi omite todos os versículos referentes às histórias
de João Batista e do próprio Jesus. Esses trechos, incluídos os relatos
de milagres, são excluídos porque só descrevem acontecimentos que
se produziram antes, durante ou depois da pregação de Jesus, nada
acrescentando à sua doutrina. Para aquele que acredita na divindade
de Jesus por causa de sua doutrina, a fragilidade dos argumentos re-

76
O contexto ético-metafísico

lativos aos milagres é patente e os versículos correspondentes reve­


lam-se inúteis (Tolstoi 1 890: 8). Além disso, considerar os quatro
Evangelhos como livros sagrados é o erro mais grosseiro e a mais
perigosa mentira (ibidem: 1 0) . Para Tolstoi, o cristianismo é acima de
tudo uma doutrina que dá sentido à vida (ibidem: 1 2). O estudo cui­
dadoso da verdadeira doutrina de Cristo nos levará à convicção de que
se trata da mais rigorosa, mais alta, pura e plena doutrina metafísica
e ética, em tomo da qual orbita toda a atividade política, científica,
poética e filosófica da humanidade (ibidem: 32).
Para obter o valor intrínseco da doutrina cristã contida nos Evan­
gelhos, Tolstoi a separa das doutrinas estranhas do judaísmo e da
Igreja (ibidem: 1 4). Nesse sentido, o Novo e o Antigo Testamentos são
para ele inconciliáveis (ibidem: 1 8). A causa primeira das interpreta­
ções falsas do cristianismo está na ligação deste com o judaísmo. O
responsável por essa ligação é São Paulo, que deu início à doutrina da
Igreja. Depois dele, a doutrina de Cristo não mais foi considerada
como única, completa e divina, mas como um dos elos da grande
cadeia de revelações que começa na origem do mundo e termina com
a Igreja dos nossos dias. Essa interpretação equivocada, embora veja
Jesus como Deus, dá a mesma importância às suas palavras e às de
outros textos também considerados sagrados. Na verdade, o objetivo
principal desse tipo de interpretação deixa de ser determinar a signi­
ficação precisa da doutrina de Jesus para tomar-se uma tentativa de
conciliar, na medida do possível, os diversos escritos sagrados que se
contradizem uns aos outros, como o Pentateuco, os Salmos, os Evan­
gelhos, as Epístolas etc. (Weisbein 1 969: X-XI) .
Em seu trabalho de recuperação do cristianismo autêntico, Tolstoi
reúne os quatro Evangelhos em um só, obedecendo ao critério do
sentido da doutrina. De acordo com ele, os Evangelhos trazem a boa
nova de Jesus Cristo, que afirma ser o entendimento da vida o funda­
mento e o princípio de tudo (Tolstoi 1 890: 36). Deus é o entendimento
da vida (ibidem) . O entendimento produz a vida verdadeira; ele é a luz
da verdade (ibidem). A explicação do que vem a ser o "entendimento
da vida" está na doutrina do s Evangelhos, que pode ser distribuída em
doze capítulos, ligados dois a dois por uma relação causal . A signifi­
cação dos capítulos do Evangelho é a seguinte para Tolstoi:

77
Iniciação ao silêncio

" 1 . O homem é o filho de um princípio infinito, filho deste


Pai, não pela carne, mas pelo espírito.
2. Assim, é em espírito que o homem deve servir a este
princípio.
3. A vida de todos os homens tem um princípio divino: que
somente ele é santo.
4. Eis por que o homem deve servir a este princípio na
vida de to<!os os homens, pois tal é a vontade do Pai.
5. Apenas o serviço da vontade do Pai da vida dá a vida
autêntica, ou seja, racional.
6. Assim, para ter a vida autêntica não é necessário satis­
fazer à nossa própria vontade.
7. A vida temporal (carnal) é o alimento da vida autêntica,
o material para a vida racional.
8. Assim, a vida verdadeira está fora do tempo, ela está
(apenas) no presente autêntico.
9. A mentira da vida está no tempo: a vida passada e
fatura esconde dos homens a vida autêntica do presente.
1 O. Eis por que o homem deve aspirar a subjugar a mentira
da vida temporal do passado e do faturo.
11 . A vida verdadeira é a vida do presente autêntico, co­
mum a todos os homens, e se manifesta pelo amor.
12. Assim, aquele que vive pelo amor no presente autêntico,
que vive da vida comum a todos os homens, une-se ao
Pai, princípio e fandamento da vida " (Tolstoi 1 890: 4)5•

5 . Depois de extrair os doze princípios dos Evangelhos, Tolstoi constatou, com


espanto e alegria, que o Pai-Nosso repete em forma abreviada a mesma doutrina: " l .
Pai Nosso [homem é filho de Deus], 2. que estais no céu [Deus é o princípio infinito
e espiritual da vida] , 3. santificado seja o vosso nome [que este princípio da vida seja
santo] , 4. venha a nós o vosso reino [que seu poder se afirme sobre todos os homens] ,
5 . seja feita a vossa vontade assim n a terra [que s e realize a vontade deste princípio
infinito na carne ... ], 6. como no céu [como nele mesmo] . 7. O pão nosso de cada dia
[a vida temporal é o alimento da vida autêntica ... ] 8. nos dai hoje [que está no

78
O contexto ético-metafísico

Como se pode notar, o Evangelho segundo Tolstoi afirma que o


sentido da vida está em viver pelo amor no presente autêntico, que
viver assim é estar racionalmente unido a Deus, princípio e fundamen­
to da vida. O material que permite a vida verdadeira é a vida temporal
ou carnal, que deve ser superada pelo espírito. Para atingir o presente
autêntico, o homem deve superar sua vontade pessoal e subjugar a
mentira da vida temporal. Os temas da vida verdadeira como contem­
plação beatífica do presente e da negação da vontade pessoal para
atingir a felicidade mostram claramente que, em sua interpretação da
doutrina de Jesus, Tolstoi está fazendo uma leitura schopenhaueriana
do cristianismo. Nessa perspectiva, ele prega uma religião
"despojada da fé e de seus mistérios, uma religião prática,
não prometendo a beatitude no futuro, mas proporcionando
a beatitude aqui em baixo . " (Tolstoi 1 860: 29; citado por
. .

Weisbein 1 969: XVII).


Poderíamos dizer que o procedimento adotado por Tolstoi con­
s iste em opor um dado lógico e racional a cada dado sobrenatural
dos Evangelhos. Para ele, não há milagre nem sobrenatural : tudo
é regido pela razão. Para crer, é preciso . compreender (Weisbein
1 969: XIV) .

VI - Observações fi nais

A exposição das filosofias de Schopenhauer, Weininger, William


James e Tolstoi revela a presença de doutrinas mais ou menos comuns
nesses autores e permitem importantes conclusões a respeito dos pro­
blemfts que afetavam o jovem Wittgenstein no domínio ético­
-metafisico. Com efeito, é possível inferir que as filosofias considera­
das convergem impressionantemente para enfatizar a existência de

presente real] , 9. perdoai as nossas ofensas assim como perdoamos àqueles que nos
têm ofendido [e que nossas faltas e erros passados não nos escondam esta vida
autêntica], 1 0. não nos deixeis cair em tentação [e que não nos conduzam à mentira],
1 1 . mas livrai-nos do mal [então não haverá mais mal ] . 1 2. Porque o poder, a força
e a glória são para vós [mas o poder, a força e a razão serão parct vós]" (Tolstoi 1 890:
6). Embora o final desta versão não seja aquele que nós latinos conhecemos, pode­
-se ver claramente que o "Pai-Nosso" pode ser lido na perspectiva tolstoiana.

79
Iniciação ao sllênclo

uma experiência mística de natureza não-discursiva. Essa experiência


consiste, em última análise, na beatitude obtida pelo contato inefável
com uma realidade superior.
Ao assumir a experiência mística, todos os autores considerados
admitem, implícita ou explicitamente, uma distinção entre duas for­
mas de conhecimento: o intuitivo e o abstrato (discursivo). O primeiro
corresponde à vivência beatífica e é muito superior ao segundo, que
corresponde à ciência da natureza. Esta última é eminentemente
discursiva, eliminando a dimensão intuitiva de seus domínios. Nessa
perspectiva, a ciência se encontra numa posição inferior em relação ao
conhecimento intuitivo. A oposição entre intuição e ciência gera outra,
que lhe é correspondente, entre o gênio e o homem comum (cientista) .
É importante observar também que todos os autores enfatizam a
necessidade de um esforço sobre-humano para libertar-se da escravidão
do mundo dos sentidos a fim de atingir a contemplação beatífica. Isso
implica, de algum modo, negar a vontade individual e submeter-se a
algum princípio de ordem superior. A modificação que ocorre na vida
do homem que alcança essa experiência é totalmente revolucionária.
A convergência doutrinal acima apontada sugere a hipótese de
que, tendo lido esses autores e sofrido sua influência, o jovem
Wittgenstein tentou aproveitar os elementos comuns às suas doutrinas
na elaboração de sua síntese filosófica. Como será visto, os aspectos
aqui considerados contribuirão grandemente para o entendimento de­
talhado de como se estrutura a complexa filosofia tractatiana.

80
O CONTEXTO LIGADO
' ,

A ANALISE DA LINGUAGEM

1 - Observações preli m i n a res

A
consideração dos fatos da vida de Wittgenstein nos mostrou que,
além dos autores até agora estudados, ele também teve contato
com outros, que constituem um grupo cujas preocupações predomi­
nantes com a análise da linguagem muito o influenciaram. Sugerimos
que esses autores possam ser divididos em dois subgrupos. Em um
deles predomina a preocupação com a análise da linguagem lógica e
científica (Frege, Russell, Hertz e Boltzmann); no ·outro, com a crítica
cética da linguagem (Mauthner) .
Desse modo, o objetivo deste capítulo é recriar a parte restante
da atmosfera intelectual que Wittgenstein respirava quando foi levado
a escrever o Tractatus. Nessa perspectiva, faremos a exposição dos
aspectos relevantes da filosofia de cada um dos autores pertencentes
aos subgrupos que acabamos de mencionar. Essa tarefa se justifica por
razões análogas àquelas apresentadas na caracterização do contexto

81
Iniciação ao silêncio

ético-metafisico do Tractatus. Primeiro, a apresentação das filosofias


desses autores contribuirá para reativar em nossa memória o panora­
ma conceituai que fermentava na mente do jovem Wittgenstein um
pouco antes da redação do Tractatus. Segundo, algumas das obras
envolvidas são de difícil acesso até mesmo ao leitor brasileiro espe­
cializado, o que toma necessário fazer uma exposição, embora resu­
mida, das idéias contidas nelas. Terceiro, a colocação lado a lado
dessas filosofias permitirá a comparação e a identificação de seus
elementos comuns e de seus pontos de divergência. A consideração
desses últimos contribuirá para revelar o problema que preocupava
o jovem Wittgenstein antes da elaboração da filosofia do Tractatus.
A consideração dos elementos comuns ajudará a mostrar que al­
guns deles foram, depois de devidamente adaptados, jncorporados
à visão filosófica tractatiana. Além disso, colocando lado a lado as
filosofias em que predomina a tendência ético-metafisica e aquelas
em que predomina a análise da linguagem tomaremos mais fácil a
compreensão do quadro geral da argumentação do Tractatus.

li - A teoria dos modelos de Hertz e Boltzmann

Um dos físicos mais importantes do século XIX foi Heinrich


Hertz. Seu livro Os princípios da Mecânica propõe uma nova forma
de organizar a física de sua época. De acordo com Hertz, formamos
imagens (Bilder) dos objetos externos, e a forma que damos a elas é
tal que as conseqüências necessárias das imagens no pensamento são
sempre as imagens das conseqüências necessárias na natureza das
coisas retratadas (Hertz 1 956: 1 ). Esse é o requisito fundamental a
que tais imagens devem obedecer (ibidem: 1 -2). Tal requisito, contu­
do, não determina de maneira inequívoca as imagens que podemos
formar das coisas: é possível construir diferentes imagens do mesmo
objeto (ibidem: 2). Em virtude disso, certos critérios podem ser pos­
tulados para que possamos identificar as melhores imagens. De início,
todas aquelas que contradizem as leis do pensamento devem ser re­
jeitadas. Assim, podemos postular, em primeiro lugar, que elas sejam
logicamente consistentes. Se chamarmos de incorretas todas as ima­
gens consistentes cujas relações essenciais estejam em contradição

82
O contexto ligado à análise da linguagem

com as relações entre objetos externos, podemos postular, em segun­


do lugar, que nossas imagens devem ser corretas. Todavia, duas ima­
gens que são ao mesmo tempo logicamente consistentes e corretas
ainda podem diferir. Nesse caso, será mais apropriada a que expressa
o maior número de relações essenciais dos objetos externos e que
reduz ao mínimo o número de relações vazias ou supérfluas de tais
objetos. As relações vazias não podem ser inteiramente evitadas, pois
pertencem a imagens e estas são produzidas por nossa mente, que as
afeta necessariamente por seu modo particular de retratar as coisas.
Mesmo assim, podemos postular, em terceiro lugar, que a imagem
mais apropriada é aquela que contém o menor número dessas relações
e é, assim, a mais simples (ibidem). É possível decidir sem ambigüi­
dade se dada imagem é consistente ou não com base nas leis do
pensamento. Também é possível decidir sem ambigüidade se dada
imagem é correta ou não com base pelo menos no estado atual da
experiência. Mas não é possível decidir sem ambigüidade se dada
imagem é apropriada ou não. Com efeito, ela pode ser mais adequada
a um propósito do que a outro. Somente poderemos escolher a ima­
gem mais apropriada pelo teste gradual de muitas imagens diferentes
(ibidem: 3).
Na Introdução aos Princípios da mecânica, Hertz faz um balanço
das duas principais imagens dos processos mecânicos de sua época: a
física newtoniana e a da energia. A primeira apresenta problemas de
consistência e correção, principalmente no que diz respeito à noção de
'força' . Esta é apresentada inicialmente como causa do movimento; no
estudo do movimento circular, a força centrífuga aparece como con­
seqüência do movimento (ibidem: 5-6). Isso não significa que essa
imagem deva perder sua posição privilegiada, mas justifica a busca de
outras imagens menos expostas a tais dificuldades (ibidem: 1 4).
A física da energia substitui a idéia de força pela de energia e,
embora não tenha sido apresentada de maneira sistemática, parte do
pressuposto de que a segunda idéia pode ser introduzida no sistema
antes da primeira (ibidem: 1 4- 1 5). Isso, todavia, se revela problemá­
tico, dadas as diferenças entre energia cinética e potencial (ibidem: 2 1 -

-22) . Ademais, os princípios dessa física são muito complexos, o que


a toma pouco apropriada (ibidem: 23-24).

83
Iniciação ao silêncio

A partir dessas considerações, Hertz propõe um terceiro arranjo


dos princípios da tisica, baseado em apenas três conceitos fundamen­
tais: espaço, tempo e massa (ibidem: 24). Assim procedendo, ele pro­
cura evitar as dificuldades provenientes da introdução de um quarto
conceito, como o de força ou o de energia. O objetivo da imagem
proposta por Hertz é mostrar que o conteúdo da mecânica, quando
organizada desta maneira, possui a mesma riqueza e diversidade das
imagens anteriores e é igualmente capaz de representar a natureza
(ibidem: 28). O conceito de força também é introduzido no rearranjo
hertziano, mas agora como derivado dos três anteriormente citados
(ibidem). A imagem hertziana da tisica está organizada de maneira
axiomática, sendo, portanto, consistente (ibidem: 33-35); inclui todos
os movimentos naturais, sendo, desse modo, correta (ibidem: 36-38);
embora possa ser considerada tão apropriada quanto a física da ener­
gia, a imagem hertziana admite mais conseqüências em concordância
com os fenômenos naturais, o que lhe confere uma melhor posição
relativa (ibidem: 39-40). Hertz considera que sua representação da mecâ­
nica estâ para a representação tradicional assim como a gramática siste­
mática de uma linguagem estâ para uma gramática projetada para forne­
cer aos aprendizes somente o que é exigido pela vida diâria (ibidem: 40).
O fato mais importante a ser destacado na proposta hertziana é
que ela foi obtida a partir da análise dos símbolos usados no discurso
científico, buscando seus significados formais e factuais estritos e
rejeitando as questões desprovidas de sentido que surgem do uso iló­

'
gico dos símbolos e não dos problemas legítimos gerados pelos fatos.
O espírito dessa proposta está condensado na seguinte passagem da
Introdução aos Princípios da mecânica:

f
"(. . . ) acumulamos ao redor dos termos 'força' e 'eletricida-
de' mais relações do que as que podem ser completamente
reconciliadas entre si. Temos disso um sentimento obscuro
1 e desejamos as coisas esclarecidas. Nosso desejo confuso
encontra expressão na questão confusa quanto à natureza
da força e da eletricidade. Mas a resposta que queremos
não é realmente uma resposta a essa questão. Não é encon­
trando novas e estimulantes relações e conexões que ela
: pode ser respondida, mas pela remoção das contradições
!;... existentes entre aquelas já conhecidas, reduzindo, assim,
O contexto ligado à análise da linguagem

talvez, o seu número. Quando essas dolorosas contradições


são removidas, a questão quanto à natureza da força não
terá sido respondida, mas nossas mentes, não mais exaspera­
das, cessarão de perguntar questões ilegítimas" (ibidem: 7-8).

Na opinião de Janik e Toulmin, a palavra alemã Bild, que tradu­


zimos aqui por ' imagem ' , significa, de fato, em Hertz, ' modelo' ( 1 973:
1 39- 1 40). Além disso, esses autores acreditam que a 'imagem ' ou
' modelo' hertziano deve ser entendido como ' esquema consciente­
mente construído para conhecer' (ibidem: 1 40). Com base nisso, Janik
e Toulmin vão mais longe, afirmando que a proposta de Hertz envolve
uma tentativa de determinar os limites da fisica a partir de seu próprio
interior e que é este fato que o coloca numa perspectiva kantiana
(ibidem: 1 39; 1 4 1 ) . Na verdade, a originalidade da proposta de Hertz
estaria exatamente no fato de que sua teoria dos modelos permite
delinear os limites da fisica "por dentro" (ibidem: 1 41 ). De acordo
com J anik e Toulmin, a idéia de modelo surgiu quando Hertz estava
estudando a natureza da teoria de Maxwell e tentando entender o que
suas equações diziam a respeito dos fenômenos eletromagnéticos. Nessa
ocasião, Hertz teve a idéia de que as equações de Maxwell, -de fato,
nada diziam sobre a natureza fisica desses fenômenos. Eram nada
mais que fórmulas lógicas que permitiam lidar com tais fenômenos e
entender seu funcionamento. Hertz percebeu que a teoria de Maxwell
era tão-somente o sistema de equações proposto por ele. Assim, as
teorias fisicas revelaram-se sistemas de fórmulas matemáticas capazes
de fornecer um aparato lógico para tratar os fenômenos fisicos (ibidem:
1 42). Esses sistemas ou modelos não são derivados da experiência,
mas correspondem a construções lógicas das quais podem derivar fatos
da experiência. A descrição feita acima dos principais aspectos das
' imagens ' em sentido hertziano bem como os argumentos que acaba­
mos de apresentar permitem concluir que a posição de Janik e Toulmin
é correta.
As idéias de Hertz se opõem às de Ernst Mach, que tenta explicar
a fisica em termos humianos (Janik e Toulmin 1 973: 1 39) 1 • Para Mach,

1 . Como não tivemos acesso aos textos de Mach, nossa exposição das idéias
desse autor está inteiramente baseada em Janik e Toulmin.

85
Iniciação ao silêncio

todo conhecimento se reduz à sensação. A tarefa da ciência é descre­


ver os dados dos sentidos da maneira mais simples e econômica. Os
dados dos sentidos são chamados 'elementos ' e, neles, o "interior" e
o "exterior", o psíquico e o material, são apenas faces diferentes da
mesma moeda. Como positivista convicto, Mach considera a metafísica
um tipo de especulação a ser evitado (ibidem: 1 34). Dessa forma, as
teorias tisicas surgem para ele como descrições dos dados dos sentidos
que simplificam a experiência ao permitir a antecipação de eventos
futuros. As funções matemáticas desempenham um papel fundamental
nessa simplificação. Assim, é preferível falar de teorias mais ou menos
úteis em vez de falar de teorias verdadeiras ou falsas. Quando uma
teoria fisica apresenta elementos metafísicos, como, por exemplo, a
noção de tempo absoluto em Newton, a característica essencial da
ciência, a economia, foi desrespeitada (ibidem: 1 36).
Para evitar os acréscimos metafisicos à fisica, Mach propõe um
estudo da mecânica que seja ao mesmo tempo crítico e histórico
(ibidem). Pela análise da origem de determinadas idéias científicas,
será possível explicar como certos aspectos que não correspondem a
descrições de dados dos sentidos foram introduzidos na fisica. Assim,
a presença da noção metafísica de 'força' na mecânica se explica
porque esta ciência surgiu numa época em que os homens estavam
mergulhados em problemas teológicos (ibidem: 1 37).
Como se pode ver, o programa de Mach se baseia no princípio
de que os limites da fisica são determinados por um processo de
análise que relaciona proposições sobre os fenômenos fisicos com
proposições sobre os dados dos sentidos. A conseqüência disso é que
a determinação dos limites da física é feita apenas externamente, ou
seja, "de fora" da própria fisica (ibidem: 1 4 1 ).
Comparando as concepções de Mach e Hertz, vemos que a de
Hertz apresenta vantagens sobre a de Mach. De fato, a explicação
das teorias fisicas como modelos não só permite a determinação dos
limites da física internamente, mas também estabelece que seu fun­
damento é lógico-matemático, em vez de meramente psicológico.
Não é sem razão que a concepção de Hertz acabou por predominar
no século XX.

86
O contexto ligado à análise da linguagem

O debate entre Mach e Hertz está também relacionado com o uso


de duas palavras alemãs que interessam muito de perto ao nosso es­
tudo: Vorstellung e Darstellung. De acordo com a explicação de Janik
e Toulmin, ambas são geralmente traduzidas pela palavra 'representa­
ção ' . A primeira delas, contudo, tem uma conotação mais subjetiva,
uma vez que enfatiza o aspecto sensível da representação2• Jâ a pala­
vra 'Darstellung ' tem uma conotação mais objetiva, porque enfatiza o
aspecto "público" da representação. Assim, graças à predominância do
aspecto subjetivo, os 'dados sensíveis' de Mach constituem 'Vorstellungen',
ao passo que os ' modelos ' ("Bilder") de Hertz, graças à predominân­
cia do aspecto objetivo, constituem 'Darstellungen ' ( 1 973: 1 32- 1 33;
1 39- 1 40).
As idéias de Hertz sobre a física foram desenvolvidas por Ludwig
Boltzmann, o fundador da mecânica estatística. Ele também considera
que cada teoria científica seja a construção de uma imagem interna do
mundo exterior, que nos deve servir de guia em nossas reflexões e
experimentos (Boltzmann 1 986: 86; ver também: 1 59; 1 77; 1 89; 2 1 7) .
Além disso, Boltzmann advoga a idéia d e que o s fenômenos físicos
são tratados mais adequadamente quando conseguimos decompô-los
atomisticamente em seus elementos constitutivos (ibidem: 1 08- 1 09;
1 1 1 ; 1 1 7, 1 1 2, 1 25 , 220).
De acordo com Janik e Toulmin, a mecânica estatística boltz­
manniana considera que cada propriedade de um sistema físico é
definida por uma coordenada particular, que pertence a um sistema
multidimensional de coordenadas geométricas. Assim, por exemplo,
todas as localizações possíveis de um corpo no espaço são definidas
pelos três eixos espaciais de referência; todas as localizações possíveis
de um corpo no tempo são definidas por um quarto eixo temporal;
todas as temperaturas possíveis de um corpo são definidas por um
quinto eixo; e assim por diante. A totalidade dos "pontos" determina­
dos a partir dessas coordenadas múltiplas fornece uma representação
("Darstellung") do conjunto de estados possíveis do sistema físico
assim descrito. Qualquer estado existente do sistema físico pode ser
definido pela especificação de suas respectivas coordenadas. O pro­
blema geral da mecânica estatística consiste em descobrir as relações

2. Neste sentido, o alemão Vorstellung constitui uma tradução do inglês idea.

87
Iniciação ao silêncio

matemáticas que governam as freqüências com que os estados existen­


tes do sistema físico se distribuem entre seus estados possíveis. Isso
permitirá computar a probabilidade relativa de o sistema encontrar-se
em um estado e não em outro (Janik e Toulmin 1 973: 1 43- 1 44). As­
sim, em Boltzmann, a concepção hertziana da teoria ftsica como modelo
assume sua expressão mais elaborada e sofisticada.
Boltzmann defende também algumas outras teses filosóficas que
se aproximam das do Tractatus. Ele considera, por exemplo, que seus
pontos de vista sobre a ciência da natureza não trazem perigo para a
religião e são completamente irrelevantes para ela ( 1 986: 1 83- 1 84).
Além disso, sua idéia da verdadeira tarefa da filosofia constitui, como
poderemos comprovar mais adiante, praticamente um resumo do pro­
grama tractatiano:
"(. . . ) considero que é um dever essencial da filosofia dar
uma idéia clara do quão improcedente é a tendência de
nossos hábitos mentais de ultrapassar o limite de suas pos­
sibilidades, e limitar-se a escolher e combinar os conceitos
e palavras para formar uma expressão adequada do dado,
independentemente de nossos hábitos mentais. Assim deve­
riam desaparecer progressivamente seus embaraços e con­
tradições. Tem que ficar claro que parte é tijolo e que parte
é argamassa no edifício intelectual, para nos desligarmos
desse sentimento opressivo que nos leva a pensar o mais
simples como inexplicável e o mais trivial como misterioso.
( . . . ) Se a filosofia pudesse conseguir, portanto, criar um
sistema em que ficasse claro a improcedência da colocação
de todos os casos anteriormente mencionados, e no qual a
tendência a perguntar sobre tais questões desaparecesse pro­
gressivamente, estaríamos em situação de resolver, de um
só golpe, os enigmas mais obscuros e a filosofia seria digna
de chamar-se rainha de todas as ciências" (ibidem: 2 1 7-2 1 8).

Ili - A lógica de Frege

Gottlob Frege ( 1 848- 1 925) é, sem dúvida, o maior lógico con­


temporâneo. Seus trabalhos repercutiram enormemente em todos os
autores que trabalharam com filosofia da linguagem no século XX.

88
O contexto ligado à análise da linguagem

Uma de suas diretivas fundamentais é considerar que as pala­


vras possuem significado no contexto da proposição, e não isolada­
mente (Frege 1 884: 204). Ela se baseia na idéia de que a menor
unidade lingüística é a sentença. Com efeito, qualquer trecho de dis­
curso que analisemos revelar-se-á composto de sentenças 3 • Cada sen­
tença constitui uma unidade de sentido e acoplada às demais compõe
o sentido total do discurso analisado. É certo que cada sentença pode
ser também analisada, dando origem às palavras que a constituem.
Mas as palavras, consideradas em si mesmas, não são unidades de
sentido da mesma forma que as sentenças: as primeiras correspondem
ao material básico que é utilizado na construção das últimas. Pala­
vras isoladas não constituem unidades de sentido, mas combinadas
com outras palavras podem contribuir para a construção de uma
unidade de sentido.
Em 1 879, Frege publicou um pequeno livro, cujo título era
Conceitografia, uma linguagem formal do pensamento puro imitada
da linguagem formal da Aritmética. De início, a obra passou desper­
cebida. Com o tempo, porém, tomou-se um dos marcos da lógica
contemporânea.
Em sua análise, Frege considera que as proposições que neces­
sitam de fundamentação podem ser divididas em duas espécies: aque­
las cuja demonstração pode ser puramente lógica e aquelas cuja de­
monstração se baseia em fatos empíricos. Ao se perguntar em qual
dessas espécies se incluem as proposições da Aritmética, Frege se
propõe a verificar até que ponto se poderia chegar nesta disciplina
baseando-se apenas nas leis do pensamento. Assim , ele tenta redu­
zir o conceito de ' disposição numa série ' ao de ' conseqüência
lógica' , para 4epois avançar em direção ao conceito de ' número ' .
Nesse proces s o , tudo deveria depender apenas da cadeia das
inferências, evitando-se a intromissão desapercebida de qualquer ele­
mento proveniente da intuição sensível. Não obstante, à medida que

3. É verdade que, em alguns casos, o discurso é analisado em expressões como


' ah ! ' , 'sim ! ' , 'não ! ' etc., que não parecem constituir sentenças. Elas podem, todavia,
ser consideradas meras abreviações de sentenças completas. Por exemplo, ' ah! ' pode­
ria constituir, em dado contexto, uma abreviação de 'fulano chegou ! ' ou equivalente.
Isso nos leva de volta à sentença como unidade lingüística mínima.

89
Iniciação ao silêncio

tenta satisfazer a esta exigência de maneira rigorosa, Frege esbarra


com o obstáculo da insuficiência da linguagem, que se revela cada
vez menos capaz de expressar as relações lógicas, pois estas se tor­
nam cada vez mais complexas. Daí resulta a Conceitografia, assim
chamada porque considera apenas o elemento fundamental para a
inferência, a saber, o 'conteúdo conceitua! ' (begrifflicher Inhalt)4. Nessa
obra, Frege expõe uma linguagem formal do pensamento puro, capaz
de expressar as relações que não dependem das qualidades particula­
res das coisas. A Conceitografia imita a linguagem formal da Aritmé­
tica, principalmente da perspectiva das idéias fundamentais dessa
disciplina.
Para tomar mais clara a relação da Conceitografia com a lingua­
gem ordinária, Frege a compara com aquela que existe entre o olho e
o microscópio: o olho, em virtude de sua mobilidade e flexibilidade,
,apresenta grande superioridade em relação ao miscrocópio, mas reve­
la-se insuficiente para satisfazer a exigência de precisão formulada
pelos objetivos científicos. Nesse caso, o microscópio, inútil para outros
fms, revela-se perfeitamente adequado. De maneira análoga, a Concei­
tografia foi idealizada para satisfazer às exigências de precisão que a
linguagem comum, em que pese toda a sua maleabilidade, não tem
condições de preencher. Embora tenha sido concebida fundamental­
mente como um instrumento para fundamentar a matemática, a
Conceitografia, aplicada à filosofia, pode auxiliar na tarefa de romper
a dominação das palavras sobre os homens; aplicada à lógica, pode
auxiliar na tarefa de libertá-la de sua estreita ligação com a linguagem
e com a gramática.
Na análise das relações lógicas entre juízos, Frege introduz a
importante noção de 'conteúdo judicável ' (beurtailbarer Inhalt) . Su­
ponhamos, por exemplo, o juízo 'pólos magnéticos opostos se atraem
mutuamente' . O que toma possível afirmá-lo é ' a circunstância da
atração mútua de pólos magnéticos opostos ' . Esta última é o que
Frege denomina 'conteúdo judicável ' . Assim, quando é verdadeira a
circunstância da atração mútua de pólos magnéticos opostos, associa­
mos nosso assentimento intelectual a este conteúdo judicável e produ-

4. O significado desta expressão será esclarecido mais adiante.


O contexto ligado à análise da linguagem

zimos o juízo em questão. Todo juízo se compõe de um conteúdo


judicável a que foi dado assentimento intelectual5.
Esta teoria tem duas conseqüências importantes. Primeiro, as
inferências e operações lógicas são feitas a partir do conteúdo judicável,
abstração feita do assentimento intelectual (Frege 1 879: 2). Assim, o
fato de podermos extrair as mesmas conseqüências dos juízos 'os
gregos venceram os persas em Platéia' e ' os persas foram vencidos
pelos gregos em Platéia' indica que ambos possuem, apesar da peque­
na diferença no sentido, o mesmo conteúdo conceituai (ibidem: 3). De
maneira análoga, um juízo afirmativo e um negativo diferem apenas
na negação, pois possuem o mesmo conteúdo conceituai. É o caso, por
exemplo, de ' a abelha não é um inseto ' , que pode ser analisada como
'não (a abelha é um inseto) ' , ou, o que dá no mesmo, 'a circunstância
da abelha ser um inseto não é um fato ' : seu conteúdo conceituai é o
mesmo de ' a abelha é um inseto ' . Assim, uma das perspectivas envol­
vidas pela análise lógica é a das relações entre juízos considerados de
uma perspectiva puramente externa, considerando-os em bloco, com
base apenas nos conteúdos conceituais envolvidos. Nessa perspectiva,
a distinção entre sujeito e predicado é dispensável.
Segundo, as diversas funções da linguagem podem ser explicadas
pelo ' conteúdo conceituai ' . De fato, é possível selecionar e agrupar
as sentenças de nossa linguagem de maneira que os conjuntos re­
sultantes, embora envolvam funções diferentes , tenham sempre o
mesmo ' conteúdo conceituai ' . Consideremos, por exemplo, as sen­
tenças abaixo:
(1) ' a porta está aberta' ;
(2) ' a porta está aberta? ' ;
(3) ' abra a porta';
(4) ' a porta está aberta! ' .
D e acordo com a perspectiva fregiana, o ' conteúdo conceituai '
das sentenças acima é sempre o mesmo e pode ser caracterizado como

5 . Nesta perspectiva, o que Frege denom ina ' conteúdo não-judicãvel '
(unbeurteilbarer lnhalt) é o conteúdo dado por expressões isoladas da linguagem,
como ' casa ' . Não hã como dar assentimento intelectual a 'casa' para produzir um juízo.
Se dissermos por exemplo 'a casa existe ' , tal juízo é possível porque 'a existência da
casa' é um conteúdo judicãvel, do qual 'casa' é apenas uma parte (Frege 1 879: 2).

91
Iniciação ao silêncio

' a circunstância de a porta estar aberta' . A diferença entre as sentenças


se dá na maneira como este conteúdo é usado. Em ( 1 ), ele é estabele­
cido como verdadeiro; em (2), pede-se para confirmar se ele é verdadei­
ro ou não; em (3), dá-se uma ordem para que ele se torne verdadeiro;
em ( 4), expressa-se a emoção provocada por ele.
Isso, porém, não esgota a criatividade de Frege. Para ele, é pos­
sível também analisar as relações lógicas entre juízos a partir de uma
perspectiva interna. Aqui, de maneira bastante original, Frege mostra
que as categorias tradicionais de sujeito e predicado devem ser aban­
donadas. Algumas razões para isso são as seguintes. Primeiro, essas
categorias são gramaticais, e não lógicas. De acordo com a lógica
tradicional, um juízo como ' nenhum S é P' é equivalente a 'nenhum
P é S ' , já que, nos dois casos, a classe ' S ' é excluída em sua totalidade
da classe ' P ' . Mas isso significa que o sujeito e o predicado são
intercambiáveis, e o que distingue o sujeito do predicado é sua posição
na sentença, não sua função lógica. Nesse caso, essas categorias se
distinguem do ponto de vista gramatical, mas não do ponto de vista
lógico. Segundo, a lógica tradicional considera que as proposições
' todo homem é mortal ' e ' Sócrates é homem ' são ambas universais,
porque o sujeito foi tomado em toda a sua extensão. Mas o sujeito da
primeira é um termo universal (' todo homem ' ) e o da segunda, um
nome de indivíduo ( ' Sócrates"). Terceiro, uma proposição como 'João
ama Cláudia' é analisada tradicionalmente como atribuindo o predicado
' ama Cláudia' ao sujeito 'João ' . Algumas vezes, todavia, é necessário
analisá-la como uma relação entre dois sujeitos, a saber, 'João ' e
' Cláudia' . Ora , a lógica tradicional não permite isso.
Para resolver esse problema, Frege propõe que as categorias tra­
dicionais de ' sujeito ' e 'predicado ' sejam substituídas pelas de ' argu­
mento ' e 'função ' . Suponhamos, por exemplo, a circunstância de que
'João dorme' . Podemos substituir 'João ' por 'Pedro ' , ou ' Augusto' , ou
'Maria' , ou 'Joana', ou etc. Nesse caso, 'Pedro ' , ou 'Augusto ' , ou 'Ma­
ria' , ou 'Joana' ou etc. entra na situação em que inicialmente estava
'João ' . Desse modo, 'João dorme' pode ser concebida como possuin­
do uma parte permanente, que representa a totalidade da situação
descrita, a saber, ' . . . dorme' , e uma parte substituível, que significa o
objeto ou indivíduo que se encontra naquela situação, a saber, 'João ' ,
ou ' Pedro ' , ou etc. A parte permanente chama-se função e a outra,

92
O contexto ligado à análise da linguagem

argumento ( 1 879: 4). As reticências usadas acima mostram que a


função é uma expressão essencialmente insaturada, que pode também
ser representada por ' x dorme' ou por ' ( )dorme' , onde a variável ' x '
o u o espaço e m branco delimitado pelos parênteses indica o lugar a
ser ocupado pelo argumento, que, como indivíduo, é sempre completo
ou saturado. Fato importante a ser observado aqui é que, de acordo
com a análise fregiana, argumento e função, considerados isolada­
mente, não possuem sentido completo: apenas a união de ambos numa
sentença é que o possui. Assim, a função 'x dorme' é incompleta
porque seu sentido só ficará completamente determinado quando o
espaço vazio indicado pela variável ' x ' for preenchido por um nome
de indivíduo; o argumento 'Pedro ' , embora designe um indivíduo e
seja por isso de algum modo ' saturado ' , ainda assim possui sentido
incompleto porque nada diz sobre este indivíduo. Somente quando
'Pedro ' substitui ' x ' em 'x dorme' , dando origem a 'Pedro dorme' , é
que se consegue obter uma expressão de sentido completo. A senten­
ça, não seus componentes, constitui a unidade mínima de sentido na
linguagem.
Para fazer esta análise, Frege inspira-se no conceito matemático
de função. Com efeito, uma função como 'y 2x + 1 ' pode ser
=

considerada uma expressão insaturada que só assume um valor deter­


minado quando a variável ' x ' é substituída por um de seus argumen­
tos. Por exemplo, se substituímos ' x ' pelo argumento ' 3 ' , obteremos
'y = 2.3 + 1 ' e a função ' y ' passará a ter o valor determinado '7 ' .
Assim, a variável pode ser interpretada como um espaço em branco a
ser preenchido pelo valor do argumento.
Os resultados do enfoque fregiano são surpreendentes. Primeiro,
as novas categorias de ' argumento ' e 'função ' são obtidas a partir da
análise do papel lógico estrito desempenhado pelas expressões corres­
pondentes. A partir de agora não será mais possível intercambiá-las
como acontecia no caso da lógica tradicional.
Segundo, a análise das diversas proposições mostra que suas
formas lógicas são muito variadas, não podendo ser todas reduzidas a
uma única, a saber, a tradicional forma ' S é P ' . Assim, 'todo homem
é mortal ' é analisada em 'para todo x, se x é homem, então x é mortal '
(em símbolos: ' (x)(Hx � Mx) ' , em que ' (x) ' , 'Hx ' , ' Mx' e · � · re-

93
Iniciação ao silêncio

presentam, respectivamente, 'para todo x ' , 'x é homem ' , 'x é mortal '
e ' se-então ' ) . A análise fregiana revela que a proposição universal
afirmativa não é declarativa, mas ocultamente hipotética. Além disso,
ao articular apenas as funções 'x é homem ' e 'x é mortal ' por meio do
quantificador universal 'para todo x ' , essa proposição deixa aberto o
lugar representado pela variável ' x ' . Isso significa que ela apenas
articula funções e não tem argumento, ou, o que é o mesmo, não tem
sujeito lógico. Em contraste, a proposição ' Sócrates é homem ' possui
sujeito lógico (o argumento ' Sócrates ' ) e predicado lógico (a função
'x é homem ' ) . Por causa disso, Frege a analisa em ' (Sócrates) é mortal '
(em símbolos: ' Ms ' , onde ' s ' designa Sócrates e 'Mx ' representa ' x é
mortal' ) . Essas duas proposições não mais podem ser consideradas
instâncias da proposição universal afirmativa, como preconiza a lógica
aristotélica. Coisa semelhante acontece com as demais proposições do
quadrado lógico tradicional: 'nenhum homem é mortal ' é analisada em
'para todo x, se x é homem, então x não é mortal ' (em símbolos:
' (x)(Hx � -Mx) ' , em que '-' corresponde a 'não ' ); ' algum homem é
mortal ' , em 'existe pelo menos um x tal que x é homem e x é mortal '
(em símbolos: ' (Ex)(Hx e Mx) ' , em que ' (Ex) ' e 'e' representam,
respectivamente, o quantificador existencial ' existe pelo menos um x '
e a conjunção lógica 'e')6•
Terceiro, esta conseqüência cobre aquilo que talvez tenha sido a
maior contribuição da Conceitografia, a análise fregiana une pela pri­
meira vez de maneira consistente a lógica geral com a primária.
Aristóteles, ao estudar o silogismo categórico, representa o primeiro
grande passo no sentido de uma lógica geral ou intraproposicional. Os
estóicos e megáricos, ao estudar o que os medievais incorretamente
denominaram ' silogismo hipotético ' , desenvolveram a lógica primária
ou interproposicional . Graças à hostilidade entre peripatéticos e
megáricos, esses dois ramos da lógica surgiram inicialmente não como
domínios complementares, mas como alternativas em disputa. Desse
modo, desde o final da Antiguidade, passando pela Idade Média e
chegando até os trabalhos de Leibniz, ninguém conseguiu mostrar

6. Embora o próprio Frege não tenha percebido, outra conseqüência importante


de sua análise é o desaparecimento das relações de contrariedade, subcontrariedade e
subaltemidade no quadrado lógico da oposição. Ver, a este respeito, Margutti ( 1 984:
27-29).

94
O contexto ligado à análise da linguagem

claramente a relação entre a lógica geral e a primária. Leibniz e, mais


tarde, Boole, vislumbraram alguma coisa, mas sem apresentar resulta­
dos convincentes. Foi Frege que, seguindo as sugestões desses autores
e, além deles, de Peirce e de Morgan, elaborou a primeira articulação
sistemática das duas lógicas. Seu desvelamento da proposição univer­
sal afirmativa da lógica tradicional como de fato ocultamente hipoté­
tica fez tal articulação de maneira brilhante. Assim, é graças a Frege
que hoje podemos dizer que o famoso silogismo 'todo homem é mortal;
ora, Sócrates é homem; logo, Sócrates é mortal ' não é composto ex­
clusivamente de proposições declarativas, mas tem, na realidade, a
seguinte estrutura: 'para todo x, se x é homem, então x é mortal; ora,
Sócrates é homem; logo, Sócrates é mortal ' . A premissa maior revela­
-se como uma proposição hipotética que articula funções e não possui
sujeito lógico definido; a premissa menor é uma proposição declara­
tiva que possui sujeito lógico definido; a conclusão é outra proposição
declarativa que possui sujeito lógico definido e que foi obtida porque
é possível inferir que o argumento ' Sócrates ' , ao satisfazer a função
'x é homem' (por meio da premissa menor), também satisfaz a função 'x
é mortal ' (por meio da premissa maior). É a análise fregiana que
também permite concluir que as proposições particulares são, na rea­
lidade, conjunções de proposições articuladas pelo quantificador exis­
tencial. Assim, ' algum homem é mortal ' passa a ser interpretada como
'existe pelo menos um x tal que x é homem e x é mortal ' . Em sím­
bolos, teríamos ' (Ex)(Hx e Mx) ' , em que ' (Ex) ' , 'Hx', ' Mx ' e 'e'
representam, respectivamente, ' existe pelo menos um x ' , 'x é ho­
mem ' , 'x é mortal' e 'e'7•
Frege foi um pioneiro não apenas em lógica, mas também
em filosofia da linguagem . No estudo do signo lingüístico , ele
identifica duas dimensões : o sentido (Sinn) e o significado (Redeu-

7. Isto nos leva a outro importante resultado da análise fregiana. As proposições


universais do tipo ' todo A é B' não incluem a afinnação da existência de A's ou B 's,
pois são apenas proposições hipotéticas, segundo as quais ' para todo x, SE x for A,
ENTÃO x será também B ' . Já as proposições particulares do tipo 'algum A é B '
incluem a afirmação da existência d e A's e de B 's, pois são conjunções segundo as
quais ' EXISTE pelo menos um x tal que x é A e x é B ' . Portanto, a inferência que
vai de ' (x) (Ax => Bx) ' , que não envolve comprometimento existencial, para ' (Ex)
(Ax & Bx) ' , que envolve tal comprometimento, não é válida.

95
Iniciação ao silêncio

tung )8• O primeiro corresponde ao modo de apresentação do objeto


designado pelo signo, e o segundo, ao próprio objeto designado. As­
sim, as expressões 'Estrela da Manhã' e 'Estrela da Tarde' possuem o
mesmo significado, a saber, o planeta Vênus, mas sentidos diferentes,
pois os modos pelos quais apresentam esse planeta são diferentes (Fre­
ge l 892b: 62). Essas dimensões do signo não devem ser confundidas
com a representação subjetiva que fazemos de dado objeto. Para ex­
plicar isso, Frege faz a seguinte analogia. Suponhamos que alguém
observe a lua por um telescópio. Nesse caso, a lua é o objeto da
observação, que é dado pela imagem real projetada pela lente no in­
terior do telescópio e pela imagem da retina do observador. A lua
corresponde, assim, ao significado. A imagem real, embora dependa
do ponto de vista da observação, é ainda objetiva, pois pode servir
para mais de um observador. Corresponde, assim, ao sentido. A ima­
gem retiniana depende não apenas do ponto de vista da observação,
mas também das características peculiares da retina de cada observa­
dor. Ela é inteiramente subjetiva e corresponde à representação (ibidem:
65-66).
A aplicação desse modelo à análise dos diversos tipos de expres­
sões produz os seguintes resultados. Consideremos, primeiro, um nome
próprio simples como Aristóteles. Seu significado é um determinado
homem que praticou filosofia na Grécia Antiga. Já seu sentido é
ambíguo. Podemos tomá-lo como expressão de, por exemplo, 'o dis­
cípulo de Platão ' ou 'o mestre de Alexandre ' . Assim, uma sentença
como 'Aristóteles nasceu em Estagira' terá sentidos diferentes, depen­
dendo de qual dermos ao nome 'Aristóteles ' : 'o discípulo de Platão
nasceu em Estagira' ou 'o mestre de Alexandre nasceu em Estagira' .
N a linguagem natural, essas variações de sentido são toleráveis se o
significado do nome próprio permanecer o mesmo. Numa linguagem
logicamente perfeita, contudo, elas não podem ocorrer (Frege l 892b: 63).
Consideremos, em segundo lugar, uma descrição definida como
'o discípulo de Platão ' , à qual Frege denominava 'nome próprio com­
plexo ' . Seu significado é um determinado filósofo grego, ou seja,

8. Alguns autores traduzem Bedeutung por referência. Preferimos a palavra


significado para permanecermos fiéis ao espírito da terminologia de Frege, que utiliza
a palavra comum Bedeutung com um sentido técnico.

96
O contexto ligado à análise da linguagem

Aristóteles; seu sentido é a maneira pela qual Aristóteles é apresenta­


do, a saber, como discípulo de Platão. Conforme já foi visto, podemos,
contudo, apresentá-lo mediante uma descrição diferente, por exemplo,
'o mestre de Alexandre' . Aqui, o sentido é diferente, embora o signi­
ficado ainda seja o mesmo, a saber, Aristóteles.
Em terceiro lugar, consideremos uma sentença como ' Aristóteles
morou em Atenas ' . De acordo com Frege, o sentido dessa sentença é
o pensamento que ela expressa, ou seja, a circunstância de Aristóte­
les ter morado em Atenas. Seu significado, porém, se de fato Aristóteles
morou em Atenas, é o Verdadeiro; caso contrário, seu significado seria
o Falso. Assim, uma sentença completa expressa um pensamento e
significa um valor de verdade. Em virtude disso, uma sentença verda­
deira é considerada por Frege como o nome próprio do Verdadeiro;
uma sentença falsa, o nome próprio do Falso. É possível, contudo,
uma sentença que tenha sentido, ou seja, que expresse um pensamen­
to, mas não tenha significado, isto é, valor de verdade. Isso ocorre
com as sentenças da ficção, que, embora possuam sentido, não são
nem verdadeiras nem falsas.
Em todos os casos considerados, o significado da expressão com­
plexa é determinado a partir dos significados de seus componentes.
Assim, o significado da sentença 'o mestre de Platão bebeu cicuta' é
determinado a partir do significado de 'o mestre de Platão ' . Se esta
última expressão tiver significado, então a sentença que a contém
também terá significado; caso contrário, não. Isso está relacionado a
outro aspecto extremamente importante da análise fregiana: os meca­
nismos referenciais envolvidos por nomes próprios simples, como
' Sócrates ' , e nomes próprios complexos, como 'o mestre de Platão ' ,
são diferentes. Uma sentença como 'Sócrates bebeu cicuta' pressupõe
que o nome ' Sócrates ' tenha significado. Sua negação, ' Sócrates não
bebeu cicuta' , também pressupõe que o nome ' Sócrates ' tenha signi­
ficado. Essa pressuposição, contudo, não faz parte do que é asserido
seja pela sentença, seja por sua negação. Assim, quando afirmamos
que Sócrates bebeu cicuta ou quando negamos tal fato, não estamos
simultaneamente afirmando que o nome 'Sócrates ' tem significado:
isto constitui uma condição de possibilidade para que a sentença (ou
sua negação) seja asserida de maneira adequada. Além disso, essa
condição de possibilidade ou pressuposição só pode ser formulada na

97
Iniciação ao silêncio

metalinguagem. Isso pode ser comprovado pelo fato de que o nome


' Sócrates ' não está sendo usado, e sim mencionado. É o que se deduz
a partir do emprego das semi-aspas. Já as sentenças 'o mestre de
Platão bebeu cicuta' e sua respectiva negação pressupõem que existe
um e somente um mestre de Platão. Aqui também a pressuposição não
faz parte do que é asserido seja pela sentença, seja por sua negação.
Em outras palavras, quando afirmamos que o mestre de Platão bebeu
cicuta, não estamos afirmando ao mesmo tempo que existe um e so­
mente um mestre de Platão: esta é também uma condição de possibi­
lidade para que a sentença seja asserida de maneira adequada. Aqui
há, todavia, uma diferença com relação ao caso dos nomes próprios
simples. Embora também não faça parte do que é asserido por ' o
mestre d e Platão bebeu cicuta' , a sentença existencial 'existe u m e
somente um mestre de Platão ' pode ser formulada no nível da própria
linguagem, fato que gera um mecanismo referencial próprio das des­
crições definidas em posição de sujeito e que foi denominado 'pres­
suposição semântica' . Assim, ao afirmar ou negar que o mestre de
Platão bebeu cicuta, estamos pressupondo semanticamente que existe
um e somente um mestre de Platão. Se de fato ele existe, nossa afir­
mação ou negação pode ser verdadeira ou falsa; se, porém, não existe
o mestre de Platão ou se ele não é único, nossa afinn ação ou negação
de que ele bebeu cicuta não é nem verdadeira nem falsa9• Quando é
falsa a sentença que afirma a existência do objeto da descrição defi­
nida, a sentença que contém aquela descrição definida na posição de
sujeito tem sentido, mas não tem significado. Para Frege, isso consti­
tui uma imperfeição que deve ser evitada a todo custo numa lingua­
gem científica'º·
O microscópio fregiano fascinou seus sucessores, mostrando-lhes
que existe uma forma lógica profunda que se oculta atrás da forma

9. Por exemplo, 'o Rei da França é sábio' não é nem verdadeira e nem falsa,
pois não existe Rei da França.
10. Para evitar a presença, numa linguagem logicamente perfeita, de descrições
definidas dotadas de sentido, mas desprovidas de significado, Frege propõe um me­
canismo de filtro que funciona da seguinte maneira: não introduzir uma expressão na
linguagem científica sem antes assegurar-lhe um significado; se a expressão não tiver
significado, é preciso atribuir-lhe um artificialmente. Por exemplo, o significado de ' o
atual Rei d a França' e expressões análogas pode ser o conjunto vazio.
O contexto ligado à análise da linguagem

lógica superficial das expressões de nossa linguagem. Foi ele quem


nos levou à verdadeira forma lógica das proposições do quadrado
lógico aristotélico, revelando, por exemplo, que as universais declara­
tivas são de fato proposições hipotéticas. Foi ele também quem nos
mostrou que uma simples sentença como 'A é B ' envolve uma
multiplicidade de sentidos e é fundamentalmente ambígua, podendo
expressar: a) a identidade entre o objeto ' A' e o objeto ' B ' ( ' A = B ') ;
b ) a pertença d o indivíduo 'A' à classe ' B ' ('A e B '); c) a inclusão da
classe ' A' na classe ' B ' ('A e B ' ). Levada até suas últimas conse­
qüências, a análise fregiana gera uma grande desconfiança acerca da
linguagem natural, cuja lógica apresenta-se como enganadora. A pri­
meira tarefa do lógico é a clarificação conceituai, para evitar os equí­
vocos produzidos pela forma superficial da linguagem.

IV - Os trabalhos de Ru ssell

Em um famoso artigo de 1 905, intitulado "Da Denotação", Russell


propõe uma solução alternativa para o mecanismo referencial das
descrições definidas em posição de sujeito. De acordo com o modelo
fregiano, uma sentença como 'o Rei da França é sábio ' não é nem
verdadeira nem falsa, pois o objeto designado pela descrição não existe.
Nesse caso, contudo, a negação da sentença também não é nem ver­
dadeira, nem falsa. Ora, isso corresponde a uma quebra da lei do
terceiro excluído, segundo a qual ou uma sentença ou sua negação
deve ser verdadeira. Além disso, a solução proposta por Frege para
evitar o problema consiste em considerar que descrições dotadas de
sentido, mas sem significado, como 'o Rei da França', devem denotar
o conjunto vazio. Assim, numa linguagem científica, 'o Rei da França
é sábio' seria de fato falsa, pois estaria afirmando não que o inexistente
Rei da França é sábio, mas que o conjunto vazio é sábio. Insatisfeito
com a quebra da lei do terceiro excluído e com o artificialismo da
solução proposta para evitá-la, Russell oferece um novo modelo para
explicar o mecanismo referencial envolvido pelas descrições definidas
em posição de sujeito.
De acordo com a teoria russelliana, a sentença 'o Rei da França
é sábio' na realidade não pressupõe que exista um e somente um Rei

99
Iniciação ao sllêncio

da França, mas afirma categoricamente essa existência. Desse modo,


a sentença é analisada em:
' existe pelo menos um x tal que
x reina na França
e x é único
e x é sábio ' 1 1 •
Esta análise revela que 'o Rei da França' não é o sujeito lógico
da sentença. Esta última, na verdade, não tem sujeito e se compõe de
três funções ('x reina na França ' , 'x é único ' , 'x é sábio '), articuladas
pelo quantificador existencial ('existe pelo menos um x tal que ... ') e
pelo operador lógico da conjunção ('e'). Em virtude disso, a sentença
será simplesmente falsa quando não existe o 'x' que reina na França
ou quando tal 'x' não é único. A lei de contradição está preservada e
o artificialismo da solução fregiana, evitado.
A teoria ru sselliana das descrições ainda nos mostra que a nega­
ção é ambígua na linguagem natural. Com efeito, a análise de Russell
permite duas interpretações possíveis para 'o Rei da França não é
sábio ' . Primeiro, essa sentença pode significar:
' existe um x tal que
x reina na França
e x é único
e x N Ã O é sábio ' .
Aqui, estamos dizendo que existe um Rei d a França e que ele não
é sábio. De acordo com Russell, isso configura uma 'ocorrência pri­
mária' da descrição 'o Rei da França ' . Nesse caso, a sentença é FAL­
SA, pois não existe um x que reine na França. Segundo, a sentença em
questão também pode significar:
' N Ã O existe um x tal que
x reina na França

1 1 . Esta é uma das paráfrases informais da teoria de Russell. Em termos um


pouco mais técnicos, teriamos: ' existe pelo menos um x tal que x reina na França e,
para todo y, se y reina na França, então y é igual a x, e x é sábio' . A cláusula 'para
todo y, se y reina na França, então y é igual a x' afirma que todo aquele que reina na
França é igual a x, estabelecendo assim, de maneira mais rigorosa, o fato de x ser
único.

1 00
O contexto ligado à análise da linguagem

e x é único
e x é sábio ' .
Agora, estamos dizendo que não existe um Rei da França que
seja sábio. Trata-se de uma 'ocorrência secundária' da descrição 'o Rei
da França' . Nesse caso, a sentença é VERDADEIRA, pois de fato não
existe um ' x ' que reine n a França.
O principal mérito da teoria de Russell é propor, seguindo o
espírito de Frege, uma forma lógica profunda a partir da qual a forma
superficial das sentenças é explicada. De acordo com a teoria
russelliana, as descrições definidas não constituem expressões refe­
renciais autênticas, pois podem ser substituídas por um conjunto de
funções. Em virtude disso, Russell as denomina ' símbolos incomple­
tos ' , ou seja, símbolos que desaparecem depois de analisados.
Para ilustrar o tipo de conseqüência filosófica propiciada pela
teoria de Russell, tomemos sua análise da seguinte variante do argu­
mento ontológico: 'o Ser Mais Perfeito tem todas as perfeições; a
existência é uma perfeição; portanto, o Ser Mais Perfeito existe' . A
primeira premissa contém a descrição definida 'o Ser Mais Perfeito ' ,
fato que desdobra o argumento em: 'existe uma e somente uma enti­
dade x que é a mais perfeita; esta ent.idade x possui todas as perfei­
ções; a existência é uma perfeição; portanto, esta entidade x existe'
(Russell 1 905 : 49 1 ). Como se pode constatar facilmente, o argumento
é, no mínimo, circular, pois procura provar que a entidade ' x ' existe
a partir da afirmação de que existe uma e somente uma entidade ' x '
que é a mais perfeita. A inferência que parecia tran s p aren te m e nte vál ida
a partir da consideração da forma lógica superfic ial toma-se u m sofis­
ma mediante a clarificação produzida pelo dcsvclamcn to da forma
lógica profunda.
Além de s u a teoria das descrições , Russel l tem contribuições
importantes na tarefa de ax iomatização da mate mática. Nesse domí­
nio, ele é partidário do programa logic ista de Frege, considerando que
não há diferença essencial entre a lógica e a matemática, principal­
mente a aritmética. Isso significa que, para ambos os autores, a arit­
mética pode ser deduzida a partir da lógica. Para atingir esse objetivo,
o iniciador Frege define o número com base na noção de conjunto.
Para ele, o número é um conjunto de conjuntos equipotentes. Dois

1OI
Iniciação ao silêncio

conjuntos são equipotentes quando conseguimos colocar os elementos


de um em correspondência biunívoca com os de outro. Não é, contu­
do, necessário saber contar para estabelecer uma correspondência
biunívoca entre dois conjuntos: sabemos, por exemplo, se o conjunto
de botões de uma camisa está em correspondência biunívoca com o
número de casas da mesma camisa e, portanto, se tais conjuntos são
equipotentes, pela simples operação de abotoar todos os botões. A
possibilidade de estabelecer esta correspondência sem ter de contar
permite construir a série dos números naturais a partir de um conjunto
especial , que é definido como o conjunto de todos os conjuntos
equipotentes com o conjunto formado por todo objeto ' x ' tal que 'x'
é diferente de ' x ' (em símbolos: ' {x 1 x * x }'). Como não existe
nenhum objeto que satisfaça a condição de ser diferente de si próprio,
este último conjunto é vazio e pode ser representado por ' { } ' . Todos
os conjuntos vazios podem ter seus "elementos" colocados em corres­
pondência biunívoca com os "elementos" de ' { } ' , o que revela serem
todos os conjuntos vazios equipotentes com ' { } ' . Obtemos, assim, o
número zero, que pode ser fregianamente definido como o conjunto de
todos os conjuntos equipotentes com ' { }' .
Vejamos agora como é possível, com o auxílio deste conjunto,
construir a série dos números naturais. O número ' O ' , cuja definição
acaba de ser dada, corresponde ao conjunto de partida ' { }' . Com ele,
podemos construir um novo conjunto, a saber, ' { { } } ' ou ' { O } ' . Isso
nos dá o número ' 1 ', que é o conjunto de todos os conjuntos equi­
potentes ao conjunto ' { { } }' ou ' { O }', do qual ' { }' ou 'O' é o único
elemento. Com os dois conjuntos anteriores, podemos construir um
novo, a saber, ' { { }, { { } } }' ou ' { O, 1 } ' . Isso nos dá o número ' 2 ' ,
que é o conjunto de t o d o s os conjuntos equip otentes c o m
' { { }, { { } } }'ou ' { O, 1 }' , do qual ' { }' e ' { { } }' ou 'O' e ' 1 ' são
os únicos elementos. Com os três conjuntos anteriores podemos cons­
truir mais um, ou seja, ' { { }, { {} }, { { }, { {} } } }' ou ' { O, 1 , 2 }' .
Isso nos dá o número ' 3 ' , que é o conjunto de todos os conjuntos
equipotentes com ' { { }, { { } }, { { }, { { } } } }' ou ' { O, 1 , 2 } ' , do
qual ' { } ' , ' { { } }' e ' { { }, { { } } }' ou ' O ' , ' l ' e ' 2 ' são os únicos
elementos. E assim por diante. Cada novo conjunto é obtido tomando­
-se como seus elementos todos os conjuntos precedentes. A correspon­
dência obtida pode ser visualizada como segue:

I 02
O contexto ligado à análise da linguagem

o. . . { }
1 . .. { { } } ou { o }
2 .. { { }, { { } } } ou { o, 1 }
.

3 .. { { }, { { } }, { { }, { { } } } } ou { o, 1 , 2 }
.

etc.
Como se pode notar, a aplicação reiterada do processo mencio­
nado nos dá toda a série dos números naturais. Ora, é um fato da
matemática que, dada a seqüência dos naturais, as demais séries numéri­
cas (inteiros, racionais, reais etc.) podem ser construídas a partir dela.
Isso mostra a grande engenhosidade de Frege: todo o edificio da arit­
mética é estruturado a partir de uma única peça, o conjunto vazio, e da
operação de construir novos conjuntos a partir dos anteriormente dados.
Como o conjunto vazio pode ser obtido de maneira puramente lógica,
sem qualquer referência aos objetos do mundo, toda a aritmética se re­
vela, em última instância, uma construção lógica. Baseado neste prin­
cípio, Frege organiza inicialmente a lógica de forma axiomática e, em
seguida, parte para a dedução da seqüência dos números naturais.
Russell entusiasma-se bastante com este método, mas, ao tentar
executá-lo, depara com um paradoxo. Uma consideração mais cuida­
dosa do processo proposto por Frege mostra que ele se fundamenta na
possibilidade de construir conjuntos de conjuntos. O número 1 , por
exemplo, corresponde ao conjunto unitário que tem o conjunto vazio
como seu único elemento (' { {} }'); o número 2, ao conjunto que tem
o conjunto vazio e o conjunto unitário como seus únicos elementos
(' { { }, { { } } }'). Na notação utilizada, pode-se observar o uso de
pares de chaves envolvendo pares de chaves (em ' { { } }', por exem­
plo, ' { ' e ' }' envolvem ' { }'). Ora, cada par de chaves indica um
conjunto; e um par de chaves envolvendo outro par de chaves indica
um conjunto de conjuntos. Isso confirma a afirmação de que o proce­
dimento fregiano envolve a formação de conjuntos de conjuntos. Essa
noção, por sua vez, envolve a possibilidade de determinado conjunto
ser ou não elemento de outro conjunto. Isso abre uma nova possibi­
lidade, a saber, a da reflexividade: dado conjunto também pode ou não
ser elemento de si próprio. Ora, no interior da teoria fregiana, certos
conjuntos são elementos de si próprios, e outros, não. Tomemos, por
exemplo, o conjunto das coisas vermelhas; este conjunto certamente
não é uma coisa vermelha e, por conseguinte, não é membro de si

1 03
Iniciação ao silêncio

próprio. Tomemos agora o conjunto de todos os conjuntos; ele certa­


mente é também um conjunto e, portanto, é membro de si próprio. A
partir desse fato, Russell constrói um conjunto bastante peculiar, de­
finindo-o como o conjunto de todos os conjuntos que não são mem­
bros de si próprios. Em homenagem ao seu autor, representâ-lo-emos
por 'R' (em símbolos: 'R {x 1 x E x }'). O conjunto das coisas
=

vermelhas pertence a este conjunto, jâ que não é membro de si pró­


prio. Para qualquer conjunto dado, por exemplo 'A' , a questão de
saber se pertence ou não a R é decidida pelo seguinte algoritmo: se A
pertence a A, então A não pertence a R; se A não pertence a A, então
A pertence a R. É justamente nesse ponto que Russell faz a pergunta
crucial: e o próprio conjunto R? Pertence ou não a si próprio? Apli­
quemos a R o algoritmo acima descrito. Suponhamos que R pertence
a R; nesse caso, R satisfaz a condição exigida para pertencer a R, ou
seja, não pertencer a si próprio; portanto, se R pertence a R, então R
não pertence a R. Somos, pois, forçados a abandonar esta hipótese e
· adotar sua contrâria, a saber, que R não pertence a R; ora, se R não
pertence a R, ele satisfaz a condição exigida para pertencer a R, ou
seja, não pertencer a si próprio; portanto, se R não pertence a R, então
R pertence a R. Assim, se R pertence a R, então R não pertence a R;
se R não pertence a R, então R pertence a R; em síntese, R pertence
a R se e somente se R não pertence a R12• Esse fascinante paradoxo
mostra que o procedimento proposto por Frege é inadequado, pois se
baseia na possibilidade de construir indefinidamente conjuntos de
conjuntos, o que nos leva a uma contradição1 3 •
Desejoso de salvar o programa logicista, Russell propõe a teoria
dos tipos para resolver a dificuldade que ele mesmo tinha criado. Para

1 2. Há uma variante informal deste paradoxo, que pode ser assim formulada.
Em determinada cidade, o barbeiro só faz a barba das pessoas que não se barbeiam.
Pergunta-se: o barbeiro faz a barba de si próprio? Se ele faz a barba de si próprio,
então ele não se barbeia, pois só faz a barba das pessoas que não se barbeiam. Se ele
não faz a barba de si próprio, então ele se barbeia, pois só faz a barba das pessoas
que não se barbeiam.
1 3 . Russell comunicou a descoberta do paradoxo por meio de uma caita envia­
da a Frege quando este fazia a revisão final de sua obra Leis Fundamentais da
Aritmética. Isso perturbou imensamente Frege, que tentou resolver a dificuldade por
meio de um apêndice acrescentado à última hora. Contudo, ele não parece ter tido
sucesso nesta empreitada.

1 04
O contexto ligado à análise da linguagem

ele, a fonte da dificuldade do modelo fregiano está em tratar o elemen­


to do conjunto, o conjunto, o conjunto de conjuntos etc. como se
fossem todos objetos da mesma categoria. Na verdade, cada um deles
possui um tipo lógico diferente, e o que se pode dizer de um não se
pode dizer do outro. Tomemos, por exemplo, o conjunto das coisas
vermelhas. Os elementos de tal conjunto são coisas. Essas coisas pos­
suem um tipo lógico tal que delas podemos dizer se são vermelhas ou
não. Já o próprio conjunto das coisas vermelhas, como conjunto, pos­
sui um tipo lógico completamente diferente; não podemos dizer sig­
nificativamente se ele é vermelho ou não. Em outras palavras, embora
possamos dizer com sentido que dada coisa é ou não vermelha, a
tentativa de dizer que o conjunto formado por essas coisas vermelhas
é ou não vermelho constitui um contra-senso. Existe, pois, ur11 a � _

rarquia de tipos lógicos, segundo a qual aquilo que pode ser dito do
el emento do conjunto não pode ser dito do conjunto; aquilo que pode
ser dito do conjunto não pode ser dito do conjunto de conjuntos;
aquilo que pode ser dito do conjunto de conjuntos não pode ser dito
do conjunto de conjuntos de conjuntos; e assim por diante, ao infinito.
Se esta hierarquia e sua8 regras forem respeitadas, o paradoxo de Russell
não poderá ser formulado no interior do sistema. Com efeito, a pergunta
sobre se o conjunto 'R' pertence a si próprio constitui um contra­
-senso: o conjunto 'R' possui um tipo lógico diferente daquele que pos­
suem seus elementos. Ao perguntar se R pertence a R, estamos transitan­
do ilicitamente entre níveis diferentes da hierarquia de tipos lógicos.
O recurso à teoria dos tipos resolve o problema criado pelo pa­
radoxal conjunto ' R ' . Isso gera, entretanto, outra dificuldade. Com
efeito, a teoria dos tipos proíbe a formação da série numérica pela
construção de conjuntos de conjuntos no estilo fregiano: é fácil perce­
ber que os conjuntos ' { }', ' { { } }', ' { { }, { { } } }' etc., que definem
os números ' O ' , ' 1 , ' 2 ' etc., possuem tipos lógicos diferentes, impos­
'

sibilitando a construção da série no mesmo nível da hierarquia1 4• Tor-

1 4. Para que os números naturais possam fonnar uma sucessão operacional do


ponto de vista da aritmética, é preciso que eles pertençam ao mesmo nível da hierar­
quia de tipos, o que significa que eles devem possuir todos o mesmo tipo lógico. Caso
contrário, as propriedades gerais de um número não poderiam ser atribuídas a outro
e as leis da aritmética não poderiam ser fonnuladas. Do ponto de vista da teoria dos

I OS
Iniciação ao silêncio

na-se necessário inventar um processo alternativo para obter a seqüên­


cia dos números naturais. A solução de Russell foi a seguinte. O nú­
mero zero continua sendo o conjunto dos conjuntos equipotentes com
o conjunto vazio. O número um, porém, é agora definido como o
conjunto dos conjuntos equipotentes ao conjunto cujos elementos são
os elementos do conjunto vazio mais qualquer objeto que não seja
elemento do conjunto vazio. O número dois é então definido como o
conjunto dos conjuntos equipotentes ao conjunto cujos elementos são
os elementos do conjunto que define o número ' 1 ' mais qualquer
objeto que não seja elemento do conjunto que define ' 1 ' . E assim por
diante. Os conjuntos formados possuem todos o mesmo tipo lógico e
a série obtida pode ser esquematizada como segue:
o .. { }
.

l .. . {a}15
2 . . {a,b }
.

3 . {a,b,c }
..

etc.
O processo acima permite construir toda a série dos números
naturais, mas desde que haja um estoque infinito de objetos no mundo.
Somente desse modo será possível formar o conjunto que define o
número 'n + 1 ' a partir do conjunto que define o número ' n ' . Assim,
por exemplo, se houver apenas 1 000 objetos, será possível construir a
série numérica apenas de O até 1 000. Não será possível definir o
número ' 1 00 1 ' em virtude da falta de mais um objeto a ser acrescen­
tado aos mil já utilizados. Isso também tomaria impossível a definição
de qualquer um dos sucessores de 1 00 1 . Russell considerava bastante
plausível a hipótese de que o número de objetos no universo é infmito.
Em virtude disso, ele a acrescenta ao conjunto das proposições primi­
tivas de seu sistema, com o nome de ' axioma da infinidade ' . Embora

tipos, a série numérica fregiana é formada por conjuntos de tipos lógicos diferentes:
'O' possui tipo lógico inferior a ' l ', que possui tipo inferior a ' 2 ' , que possui tipo
inferior a ' 3 ' , e assim sucessivamente. Nessa perspectiva, não é possível dizer, por
exemplo, que ' 2 ' e ' 3 ' são números primos, pois as propriedades de ' 2 ' são radical­
mente diferentes das de ' 3 ' .
1 5 . S e o número ' l ' é o conjunto dos conjuntos equipotentes ao conjunto cujos
elementos são os elementos do conjunto ' { }' mais qualquer objeto 'a' que não seja
elemento do conjunto ' { }' , então ele corresponde a ' {a}', pois ' { }' não tem elementos.

1 06
O contexto ligado à análise da linguagem

a dificuldade encontrada no sistema fregiano esteja superada, o maior


problema da solução de Russell é que o axioma da infinidade é uma
tese ontológica e não uma tese lógica.
Os resultados do trabalho de Russell foram publicados na impo­
nente obra Principia Mathematica, que ele escreveu em colaboração
com Alfred North Whitehead. Ali, depois de assentar axiomaticamente
as bases da lógica, ele deduz a série dos números naturais e os prin­
cipais teoremas da aritmética.

V - A críti ca mauthn eriana da li nguagem

De acordo com Janik e Toulmin, na Viena de 1 900 os problemas


conexos da comunicação, da autenticidade e da expressão simbólica
tinham sido considerados em todos os principais domínios do pensa­
mento e da arte. Desse modo, o palco estava montado para uma crítica
filosófica da linguagem. E o primeiro escritor europeu moderno a
considerar a própria linguagem como o tópico central e crucial da
investigação filosófica é Fritz Mauthner ( 1 848- 1 923) (Janik e Toulmin
1 973: 1 1 9) 1 6•
A exposição mais completa das idéias desse autor se encontra nos
três alentados volumes das suas Contribuições para a crítica da lin­
guagem, publicados inicialmente em 1 90 1 - 1 9021 7• O primeiro volume

1 6 . A fim de não alongar excessivamente nosso trabalho, partiremos do pres­


suposto de que a análise de Janik e Toulmin sobre a Viena de Wittgenstein está
correta. A idéia central desses autores é que as doutrinas de pensadores como Kraus,
Schõnberg, Loos, Hofmannsthal, Rilke e Musil prepararam o campo para uma crítica
filosófica da linguagem, que foi realizada pela primeira vez por Mauthner, cuja ins­
piração teórica remontaria a Hume. O Tractatus teria reformulado esta crítica com
base numa perspectiva kantiana. Ver, por exemplo, Janik e Toulmin 1 973: 1 1 9; 1 64-
- 1 65; 1 67- 1 68; 1 80. No que diz respeito à compreensão adequada da posição destes
autores, contudo, estas indicações esparsas não dispensam a leitura dessa excelente
obra em sua totalidade.
1 7 . O título original da obra de Mauthner é Beitriige zu einer Kritik der Sprache,
que teve três edições: uma em 1 90 1 - 1 902, outra, em 1 906- 1 9 1 2, e outra em 1 92 1 .
Gershon Weiler, em seu artigo sobre Mauthner, data esta última de 1 923 (cf. 1 958: 80),
mas o exemplar da terceira edição que consultamos é de 1 92 1 . Não sabemos se Wittgenstein
teve o contato motivador com a primeira ou a segunda edição do texto mauthneriano.

1 07
Iniciação ao silêncio

das Contribuições é dividido em duas partes. Na primeira, Mauthner


discute a essência da linguagem, e na segunda, as contribuições da
crítica da linguagem à psicologia. O segundo volume trata da ciência
da linguagem (Sprachwissenschaft) e o terceiro, da gramática e da
lógica. Dos três, o primeiro é, de longe, o mais importante para com­
preendermos o espírito da crítica da linguagem e seus principais resul­
tados. O segundo volume confirma as doutrinas do primeiro e é menos
importante para nossos objetivos. O terceiro fornece algumas informa­
ções relevantes sobre o papel da lógica e o conteúdo dos conceitos
metafísicos. Mauthner é prolixo e nem sempre dispõe seus argumentos
na ordem mais adequada. Nossa apresentação de suas doutrinas pro­
curará, na medida do possível, seguir o fio condutor do primeiro volume.
Quando necessário, essas doutrinas serão complementadas com infor­
mações extraídas dos outros dois volumes.
Mauthner começa sua extensa exposição fazendo, já no Prefácio
do primeiro volume, um balanço dos resultados morais da crítica da
linguagem. Ali, ele afirma que seu trabalho o leva a uma oscilação
entre horas de soberba e de desconfiança. Quando experimenta as
horas de soberba, sente-se capaz de unir um misticismo terrestre com
um ceticismo celestial, realizando sua missão de ensinar a impossibi­
lidade do conhecimento humano do mundo. Quando vivencia as horas
de desconfiança, todo o trabalho extenuante da crítica da linguagem
lhe parece de pouco valor diante da atividade dos homens, que perma­
necem em luta na vida, e diante do esforço das ciências da natureza,
que proporcionam mais alegria de viver à humanidade. E ele confessa
que não poderia dizer quais eram as melhores, se as horas de soberba
ou as de desconfiança (Mauthner 1 92 1 : 1, XV) 1 8 •

Podemos dizer, contudo, que certamente ele não teve tal tipo de contato com a ter­
ceira, que foi publicada depois da redação do Tractatus. Infelizmente, só tivemos
acesso à terceira edição da primeira parte dos Beitriige. As datas das edições das
partes restantes dos Beitriige que utilizamos estão indicadas na bibliografia. Gershon
Weiler dã a seguinte lista das demais obras filosóficas de Mauthner: Die Sprache
( 1 906), Worterbuch der Philosophie (2 vols., 1 9 1 0), Muttersprache und Vaterland
( 1 920), Der Atheismus und seine Geschichte im Abendlande ( 1 920- 1 923), Spinoza
( 1 906) e Aristoteles (trad. para o inglês em 1 907) ( 1 958: 80).
1 8 . Os números ' I ' , ' II ' e ' III ' , colocados antes do número da pãgina, indicam
o volume das Contribuições cuja pãgina foi citada.

1 08
O contexto ligado à análise da linguagem

Para discutir a essência da linguagem, Mauthner começa a Intro­


dução da Primeira Parte com uma paráfrase do Evangelho de São
João: 'no princípio era a palavra' (ibidem: 1, 1 ) . Com isso, ele quer
dizer que a linguagem estabelece para os homens o seguinte dilema:
ou ficar com as palavras e permanecer no mesmo lugar ou libertar-se
de sua tirania e avançar (ibidem). A libertação ocorre como numa
subida; ela se faz por camadas, cada uma das quais ainda está presa
à linguagem. Nesse sentido, a libertação da linguagem não pode ser
completada num livro escrito com fome de palavras, com amor pelas
palavras e vaidade das palavras. Tal livro estaria de antemão fadado
ao fracasso, ao tentar estabelecer uma camada firme e determinada
numa linguagem coagulada (ibidem).
Isso exige uma solução diferente, que Mauthner assim sintetiza:
"Se desejo avançar para cima na crítica da linguagem, que
constitui a ocupação mais importante da humanidade
pensante, devo aniquilar a linguagem atrás de mim, diante
de mim e em mim, passo a passo, assim como devo destruir
cada degrau da escada quando subir por ela. Quem quiser
seguir-me, reconstrua os degraus, para de novo destruí­
-los" (ibidem: 1, 1 -2) .
Essa proposta envolve a renúncia à auto-ilusão de escrever um
·
livro numa linguagem coagulada para combater a linguagem viva:
Nessa perspectiva, o dilema de Mauthner é decidir entre publicar seu
livro como mero conjunto de fragmentos ou entregá-lo ao fogo, o mais
radical dos redentores. Embora o fogo pudesse proporcionar a paz,
Mauthner se decide pela publicação, já que o homem, enquanto vive,
acredita ter algo a dizer, pois ele fala (ibidem: 1, 2).
Neste ponto, Mauthner conta uma pequena história que caracte­
riza muito bem o espírito em que a crítica da linguagem e seu livro
devem ser entendidos. Havia um papa cuja cama estava infestada de
percevejos. Depois de tentar, em vão, diversos meios para eliminá-los,
ele conseguiu um pó, que espalhou sobre a cama antes de deitar-se
para dormir. No dia seguinte, todos os percevejos estavam mortos, e
o papa também. Para Mauthner, essa história antiga e verdadeira não
constitui uma sátira apenas ao papado. Ela se aplica também a toda
filosofia que se atreve a libertar-nos da linguagem, fazendo isso com

1 09
Iniciação ao silêncio

pobres palavras. É neste espírito que deve ser entendida a sua decisão
de publicar:
"Nesta hora risonha da decisão e do fim, que repousa sobre
o degrau recém-destruído, sobre o qual me libertei da fome
de palavras, do amor pelas palavras e da vaidade das pa­
lavras, dirijo a ponta tranqüilamente contra mim mesmo e
digo, preparado: o que mata os percevejos, mata também o
papa " (ibidem: 1, 2-3).

Tudo indica que o mote acima poderia ser refraseado assim: 'o
que mata as palavras, mata também a linguagem ' , ou, mais exatamen­
te, 'o que mata cada etapa da crítica da linguagem, mata também a
linguagem' .
Para fazer a crítica da linguagem humana, Mauthner se sente na
obrigação de examinar os conceitos mais rigorosamente do que em
·qualquer outro lugar, já que a palavra ' linguagem ' designa igualmente
o objeto e o meio da investigação (ibidem: 1, 3). Para Mauthner, 'crí­
tica' se refere à atividade do entendimento humano que separa ou
distingue. A ' crítica' de um fenômeno nada mais é que a observação
escrupulosa ou investigação dele (ibidem). Quanto à 'linguagem ' , o
fenômeno a ser estudado por esta ' crítica' , Mauthner a entende como
aquilo que é comum às linguagens dos homens e, portanto, aquilo que,
de maneira belamente abstrata, se pode denominar a ' essência da lin­
guagem ' (ibidem: 1, 3). Nesse sentido, ' a linguagem ' designa algo
totalmente diferente de ' uma linguagem ' ou ' as linguagens ' (ibidem:
1, 4).
Avançando em sua investigação, Mauthner tenta explicar o en­
cantamento daqueles que vêem a linguagem como um objeto de uso
que se valoriza pela ampliação do próprio uso. Para ele, a explicação
é fácil: todos os objetos de uso ou são consumidos, como os alimen­
tos, ou se estragam, como as ferramentas e máquinas. Se a linguagem
fosse uma ferramenta, ela também se deterioraria. Ora, isso acontece
apenas com as palavras, que se estragam e desvalorizam. Daí a con­
clusão de Mauthner, que envolve sua definição da linguagem:
"A linguagem não é nenhum objeto de uso e também nenhu­
ma ferramenta. Ela não é em geral um objeto, mas de fato

1 10
O contexto ligado à análise da linguagem

nada mais é do que seu uso. A linguagem é o uso da lingua­


gem. Não há, pois, nenhum milagre se o uso se intensifica
com o uso" (ibidem: I, 24).

Nessa perspectiva, a linguagem surge da mesma forma que uma


grande cidade - cômodo após cômodo, casa após casa, rua após rua,
bairro após bairro (ibidem: 1, 27) . A linguagem é pública (ibidem: 1,
28-29) e constitui uma força social (ibidem: 1, 42; 1, 47) . As lingua­
gens particulares e as linguagens individuais são irreais: a única coisa
que efetivamente existe é o som lingüístico momentâneo. O pensa­
mento é idêntico à linguagem (ibidem: 1, 226) . 'Memória' , 'consciên­
cia' e 'linguagem ' são sinônimos (ibidem: 1, 626). Isso permite algu­
mas conclusões sobre diversos domínios do nosso saber.
A ética, por exemplo, é um fenômeno social. Com efeito, quando
o indivíduo se encontra desprovido de relações com outros homens
não pode ter qualquer ética. Ela é como a linguagem: só existe entre
os homens. A ética é também linguagem, pois constitui o fato de que
conceitos valotativos nascem entre os homens. Tais conceitos, mediante
a consideração das ações humanas, se impõem como apreciações
(ibidem: 1, 30). E o que fundamenta essas apreciações é a tradição,
que se confunde com a linguagem mesma (ibidem: 1, 30-3 1 ). As apre­
ciações estéticas possuem estatuto semelhante. Não podemos duvidar
de que os juízos de gosto, aparentemente tão individuais, dependem
necessariamente do gosto da época (ibidem: 1, 3 1 ).
No que diz respeito à lógica, que costumamos considerar o fun­
damento granítico de todo saber, pode-se constatar que ela une os
espíritos n ão porque possui um poder sobre-humano, mas porque se
encontra até nos conceitos ou palavras mais primitivas, e porque tais
palavras ou conceitos possuem um valor enquanto circulam entre os
homens e os unem (ibidem: 1, 34-35; Mauthner 1 9 1 2: II, 1 4). Até
agora, acreditamos que o sentido da sentença (Satz), o pensamento,
consiste em ligações lógicas de palavras ou conceitos. Atribuímos à
linguagem a capacidade de intermediar ou, até mesmo, enriquecer o
pensar. Como pode ser assim se agora averiguamos que a palavra só
se aclara por sua relação e dependência, isto é, pelo sentido, pelo
pensamento da sentença (Satz)? Não equivale isto à confissão de que
todo o dito é e deve ser tautologia, de que nada podemos compreender

1 1 1
Iniciação ao silêncio

nem dizer fora daquilo que já sabemos? De que o todo é anterior à


parte, que a sentença (Satz) é anterior à palavra? Esses maus pensa­
mentos prenunciam o fato de que a crítica da linguagem é uma crítica
da lógica (Mauthner 1 92 1 : 1, 93). Ao considerar, por exemplo, o
silogismo 'todos os homens são mortais; Pedro é homem; logo, Pedro
é mortal ' , Mauthner afirma que tanto suas premissas como sua conclu­
são são tautologias. A certeza de que todos os homens vão morrer é
inseparável da nossa representação 'homens ' ; as certezas de que Pedro
é um homem e vai morrer são inseparáveis da nossa representação
'Pedro ' (ibidem: 1, 57 1 ) . A diferença entre juízos analíticos e sintéticos
é relativa, assim como é relativa a diferença entre o homem letrado e
o ignorante. Na verdade, à medida que o sentido de dado juízo se abre
para nós, ele se toma analítico. A rigor, não há juízos sintéticos ( 1 9 1 3: m,
32 1 ). As leis do pensamento, como o princípio de identidade, o de contra­
dição e o do terceiro excluído, são tautologias (ibidem: III, 358 ss.).
Mesmo assim, a forma lógica não se ajusta à linguagem viva.
Seja, por exemplo, a sentença 'o sal de cozinha é cloreto de sódio ' . Do
ponto de vista da lógica, trata-se de pura tautologia cuja forma é
'a = a' e que pode ter invertida a posição de seus termos. Mas, do
ponto de vista da linguagem viva, não é verdade que se possa inverter
os termos da sentença acima ('o cloreto de sódio é sal de cozinha')
sem alterar seu sentido. No primeiro caso, nossa atenção está voltada
para a expressão comum 'sal de cozinha' ; no segundo, para o termo
técnico ' cloreto de sódio ' ( 1 92 1 : 1, 573). A dificuldade com a forma
lógica decorre do fato de que a lógica se baseia no princípio de con­
tradição, ao passo que este último se baseia apenas em palavras ( 1 9 1 3:
III, 269). O encanto e a falha da lógica repousam no princípio de
contradição. Cabe aqui uma comparação com a ética. Esta estabelece
o que é direito, indiferente às ações reais dos homens, surgindo como
uma lógica da história, que não corresponde à história real . Do mesmo
modo, a lógica estabelece uma espécie de código moral do que se
pode pensar ou não, indiferente aos processos psicológicos reais em
nosso cérebro. Assim como a ética se aplica a homens ideais que não
habitam esta terra, a lógica pressupõe algo como o cérebro ideal e a
linguagem ideal. Ética e lógica se aproximam mais ainda pelo signi­
ficado do interesse, que dirige tanto as ações como o pensamento dos
homens (ibidem: III, 363). O significado que o interesse tem para o

1 12
O contexto ligado à análise da linguagem

pensamento nos ensina que nem sequer o onisciente entendimento


ideal pode evitar erros contra o princípio de contradição. A lógica, e
suas leis do pensamento, seria uma ciência apenas para cabeças de
anjo sem corpo (ibidem: III, 364).
Quanto aos conceitos metafísicos, são todos vazios. Em analogia
com a matemática, o conteúdo de um conceito está para a sua exten­
são assim como o numerador de uma fração está para o seu denomi­
nador. Se o denominador se torna infinitamente grande, o valor do
numerador, em relação ao infinito, é igual a zero. De maneira seme­
lhante, se a extensão de conceitos como ' algo ' , ' substância' , ' ser ' etc.,
inclui tudo o que existe, seu conteúdo é igual a zero (ibidem: III, 289).
Na verdade, o que Mauthner pretende mostrar por meio da crítica
da linguagem é como todas as disciplinas das ciências da natureza e
do espírito conduzem à mesma resignação, à mesma dúvida sobre a
firmeza do edifício de nosso saber (Mauthner 1 92 1 : 1, 34) . As leis
dessas ciências se reduzem a fenômenos sociais. Elas são a Poética do
saber ou fable convenue (ibidem: 1, 35). No caso das ciências da
natureza, o próprio conceito de ' lei da natureza' constitui uma metá­
fora, uma bela imagem, que cabe de maneira excelente na explicação
do mundo da Antiguidade ( 1 9 1 3 : III, 57 1 ). Na verdade, a natureza é
completamente muda, assim como aquele que a compreende ( 1 92 1 : 1,
49). No caso das ciências do espírito, as palavras 'alma ' , 'autocons­
ciência' e 'consciência' são supérfluas, desprovidas de sentido (sinnlos) .
Elas não são mais que moeda corrente para a representação inviável
de um Eu extremamente valioso que, em cada instante particular, não
passa da soma de todas as lembranças herdadas ou adquiridas de mo­
vimentos ou práticas . Ele nada mais é, portanto, que nosso vocabulá­
rio. O 'eu' ou consciência se reduz à capacidade de, a cada instante da
vida, percorrer novamente as vias do sistema nervoso. Na opinião de
Mauthner, essa doutrina recebe muita luz da nova fisiologia e da nova
psicologia (ibidem: 1, 626).
Como representação da realidade, o 'eu' é uma ilusão da lingua­
gem, uma auto-ilusão. Como sentimento do 'eu' (lchgejühl) , contudo,
é reconhecidamente uma realidade efetiva. A conseqüência mais natu­
ral desse sentimento prático do ' eu ' é o egoísmo prático ou comum,
que, levado ao extremo, é denominado solipsismo. Este consiste na

1 13
Iniciação ao silêncio

afirmação ou no sentimento de um indivíduo de que somente seu 'eu'


é real, de que todas as suas representações restantes são meras repre­
sentações e, portanto, devaneios irreais. Como tal, este solipsismo é,
de um lado, logicamente irrefutável e, de outro, alienado, pois não
pode ser comprovado pela lógica (ibidem: 1, 668-669). o solipsismo
pode ser equiparado à visão de mundo teórico-idealista de um homem
piedoso que acredita poder combater as heréticas impressões sensíveis
e as ciências atéias que delas derivam, na medida em que pode repre­
sentar o ceticismo ora risonho, ora choroso de um desesperado cujo
idealismo prático anseia por desembaraçar-se das feras de seus senti­
dos (ibidem: 1, 669).

Diante disso, o falar ou calar-se depende da disposição momen­


tânea ou da disposição vital do homem, portanto, de seu caráter (ibidem:
1, 81). O pensador e o poeta se escondem no melhor conhecimento do
mundo e do homem: enquanto eles se calam, o deleite do achar não
. se deixa trazer para o entendimento e eles acreditam ter ouro nas
mãos; quando, porém, buscam expressar o que encontraram, perce­
bem ou que o suposto conhecimento está mergulhado em profunda
escuridão ou que o ouro em suas mãos se transforma em cinzas. O
sofrimento do pensador está em que o deleite do achar também se
revela uma ilusão. Mestre Eckart falou bela e profundamente sobre a
grandeza do silêncio, entendido como a verdade que encontramos
quando nos despojamos de nós mesmos e de tudo o que nos é exterior
(ibidem: 1, 82). O silêncio é exaltado de maneira ainda mais fina pelos
Upanishads, que formaram o conceito de supra-silêncio. A palavra
divina 'Om' pode ser nosso silêncio, mas é ainda uma palavra. O
que o silêncio significa, porém, o 'Om', é como uma estrada que
conduz às alturas em que está a senda do supra-silêncio (ibidem:
1, 82-83). As coisas mais belas que o homem pode dizer de Deus
são aquelas que ele, pleno de sabedoria, pode calar (1913: III,
618). A alma é uma criatura que pode acolher todas as coisas que
têm nome. Pode também acolher aquelas que não têm nome, mas
apenas quando essas se acham tão profundamente acolhidas em Deus
que se tomam desprovidas de nome (ibidem). Acredita-se comumente
que é difícil aprender a falar. Mas é o inverso: aprende-se a falar
brincando com a mãe, com a língua materna. O difícil é aprender a
calar (Mauthner 1921: 1, 83).

114
O contexto ligado à análise da linguagem

A linguagem é um magnifico meio artístico, mas um pobre instru­


mento de conhecimento. Com efeito, o poeta comunica apenas uma dis­
posição, a situação de sua alma. Aquilo que existe no fundo desta
disposição, a imagem real, é que sustenta a poesia, assim como o
cordão conserva unido o rosário. Se, como acontece com freqüência,
essa imagem é apreendida falsamente, de acordo com a disposição do
leitor ou do ouvinte, não prejudica muito. O processo se concretizará
efetivamente, em mosaico, por meio de representações sensíveis e a
disposição pode ser fixada pela primeira palavra. O poeta poderá,
pois, esclarecer as palavras que seguem à primeira (ibidem: 1, 93).
Coisa diferente ocorre na investigação científica. Aqui, nada pode ser
disposição, nada é processo manifesto (ibidem). A ambigüidade de
cada palavra particular não é previamente atenuada ou interpretada
por um todo e, assim, não pode resultar nenhum todo ao final (ibidem:
1, 93-94) . A difer�nça entre a linguagem como um meio artístico e
como um instrumento de conhecimento está, portanto, em que o poeta
usa e possui signos para disposições (Stimmungszeichen), enquanto o
pensador deveria ter signos para valores (Wertzeichen) e não os encon­
tra nas palavras (ibidem: 1, 95-96). É impossível reter o conteúdo
conceituai das palavras por muito tempo e, por isso, o conhecimento
do mundo pela linguagem é impossível. É possível, contudo, reter o
conteúdo disposicional das palavras e, por isso, é possível uma arte
por meio da linguagem, uma arte das palavras, a poesia (ibidem: 1,
97). Esta última pertence aos mais elevados encantos sensitivos que
são excitados indiretamente pelas palavras. A poesia é deleite por
meio das palavras. A poesia do próprio poeta pode existir sem palavras
(ibidem: 1, 98). E o silêncio santificado é festejado por outros povos,
em provérbios e nos versos de poetas solitários (ibidem: 1, 1 1 7).
Tudo isso leva à inevitável conclusão de que o conhecimento
mediante a linguagem é impossível. Isso poderia até ser demonstrado
matematicamente, caso a aplicação de fórmulas ao domínio da psico­
logia não constituísse já um abuso da própria linguagem matemática
(ibidem: 1, 673). Todavia, uma imagem do verdadeiro estado de coisas
pode ser dado pela fórmula 'A = f(a, x) ' , que significa o seguinte: o
real, 'A' , deve ser conhecido ou calculado como uma função, 'f(a, x) ' ,
de nossa percepção sensível, ' a ' , e da incógnita ' x ' , a colaboração de
nossos órgãos dos sentidos nessa percepção. O esforço de calcular

1 15
Iniciação ao silêncio

essa função é desvairado, pois a fórmula acima não tem apenas uma
incógnita. Na verdade, ela envolve: a) uma grandeza fanta8iosa ou
imaginária, ' x ' , que aponta para a natureza de nosso espírito (ora, nada
corresponde a este ' x ' , quer o consideremos como nossa "alma", como
a "essência de nossos sentidos", ou, mais prudentemente, como a
"atividade de nosso cérebro"); b) uma grandeza, ' A' , cuja realidade é
duvidosa (sua ação sobre nós, sua relação com nossas percepções
sensíveis é justamente o que estâ em questão); c) uma grandeza, ' a' ,
que corresponde aos fenômenos conhecidos do mundo real e que
aparentemente constitui a única em que podemos nos apoiar (mas só
aparentemente, pois, embora o pensamento humano nada possua além
de suas percepções sensíveis, ele nem sequer sabe em que medida
pode confiar nelas) (ibidem: 1, 674-676). Em síntese, toda linguagem
é ignorância, toda linguagem deve ser essencialmente imagética, me­
tafórica (Mauthner 1 9 1 2: II, 29).
Nessa perspectiva, a filosofia como ' autoconhecimento do espí­
rito humano ' é simplesmente impossível. O ' espírito humano ' é o
conjunto da linguagem humana, seja do ponto de vista do indivíduo,
seja do ponto de vista da humanidade. O ' espírito humano' é a memó­
ria do indivíduo ou de um povo, ou da humanidade, a partir da ma­
neira que a memória se desenvolve como uso das palavras. O ' autoco­
nhecimento da linguagem ' , porém, é ou uma expressão sem sentido ou
significa a ânsia desesperada de, com o auxílio da linguagem, penetrar
nas profundezas da própria linguagem (Mauthner 1 92 1 : 1, 704). As­
sim, cada sistema fechado é uma auto-ilusão, e a filosofia, como
autoconhecimento do espírito humano, é perpetuamente infecunda. Se
desejarmos manter a antiga palavra 'filosofia' , deveremos entendê-la
como ' atenção crítica à linguagem ' . A filosofia não pode fazer com o
organismo da linguagem nada mais do que o médico faz com o orga­
nismo fisiológico, a saber, observar com atenção e dar nomes aos fatos
(ibidem: 1, 705). Hã três motivações na vida do homem: a fome, o
amor e a vaidade. As filosofias podem resultar desses três impulsos
comuns, mas não a ânsia filosófica. Levados ao extremo, todos esses
impulsos, inclusive a ânsia filosófica, podem levar à morte (ibidem: 1,
7 1 1 ) . Mas hâ uma diferença entre os suicídios por fome, amor, ou vaida­
de, e a ânsia de morte, a volúpia da morte do filósofo cansado. Os três
primeiros possuem um carâter patológico e se desvanecem diante da

1 16
O contexto ligado à análise da linguagem

maturidade espiritual da prontidão para a morte (Todbereitschaft), da


ânsia pela morte. Assim, ao lado dos três impulsos comuns, existe
também a motivação do cansaço, que talvez não seja tão negativa
quanto parece. Todos temos a necessidade diária de dormir e descan­
sar. Também o pensar conhece o sono diário e, ao final do duradouro
impulso para o conhecimento, ele conhece o cansaço, a ânsia de
morte (ibidem: 1, 7 1 2) . O pensar do filósofo é como uma corrida
pelas ruas de uma cidade. O problema é que a ruela dos 'porquês ' é
sem fim (ibidem). Não existe um último 'porquê' atrás do qual não
se instale um novo 'porquê' . Aquele que está condenado ao pensar
filosófico se embrenha pela ruela. Sua força é instigada pelas primei­
ras maravilhas encontradas, mas logo começa a ofegar em meio ao
sofrimento e ao desespero, até finalmente sucumbir. A ilusão de ótica
da ânsia da morte inspira-lhe a fantasia de que o sofrimento terminou
e o último porquê foi alcançado. O filósofo não mais pergunta e
acredita agora que a série de questões pelos 'porquês ' tem os mesmos
limites que nossos órgãos sensíveis. Ele crê agora que nosso enten­
dimento introduz o sentido no mundo, mas sabe também que recebe
do mundo a sua engenhosidade. Assim, a ânsia de morte, o cansaço
voluptuoso do entendimento preludia para o filósofo a ilusão de que
ele pode parar e que o fim de seu pensar é de novo uma filosofia. E
porque o pensar é linguagem, esta nova filosofia que surge a partir
da ânsia de morte do pensar é um suicídio da linguagem. A lingua­
gem aparece como um falso líder do qual o filósofo deve libertar-se
(ibidem: 1, 7 1 3).
Em síntese, ao construir a primeira formulação de uma 'crítica da
linguagem ' de acordo com a aspiração implícita no pensamento da
Viena de 1 900, Mauthner conclui que o conhecimento do mundo pela
linguagem é impossível . Não existe ciência do mundo e a linguagem
é um instrumento insuficiente para o conhecimento. Quando o homem
tenta aumentar seu conhecimento pela linguagem, só pode fazer isso
repetindo as mesmas coisas, ou seja, recorrendo a tautologias, já que
o contato com a experiência sensível se perdeu. Assim, o ataque de
Mauthner à metafísica procura mostrar a ausência de sentido das pa­
lavras que ela usa. Qualquer questão filosófica sobre o que realmente
existe só poderá ser respondida com novas palavras. A verdadeira
solução está em parar de fazer perguntas. A linguagem não dá conta

1 17
Iniciação ao silêncio

de absolutamente nada e estamos condenados a um silêncio de tipo


místico.

VI - Observações finais

Esta etapa da contextualização do Tractatus permite as seguintes


conclusões. Comparando as doutrinas expostas, podemos constatar que,
por um lado, as idéias de Frege, Russell, Hertz e Boltzmann conver­
gem no sentido de enfatizar a dimensão lógica da linguagem e da
ciência. Hertz e Boltzmann se aproximam até mesmo das doutrinas
ligadas à tendência ético-metafisica, jâ que sua tentativa de fundamen­
tar a tisica tem algo a ver com a perspectiva transcendental. A partir
de sua teoria dos modelos, considerados construções lógicas a partir das
quais se podem derivar fatos, eles delimitam a fisica "por dentro",
revelando não só a parte puramente lógica de seu funcionamento, mas
também reforçando a crença de que o conhecimento do mundo pela
linguagem científica é possível. Frege e Russell partem da distinção
entre forma lógica e forma superficial das expressões lingüísticas,
desconfiam da linguagem natural como geradora de equívocos e acre­
ditam que a anâlise lógica serâ capaz de esclarecer esses equívocos.
Embora não tratem seus problemas do ponto de vista transcendental,
estão preocupados com os fundamentos lógicos da linguagem e da
matemática. Nesse sentido, eles se aproximam de Hertz e Boltzmann,
que também se interessam em buscar os fundamentos lógico-matemá­
ticos da ciência. Na verdade, todos esses autores apresentam mais um
ponto de convergência ao comungarem a crença na capacidade da
linguagem científica em descrever o mundo de maneira lógica.
Por outro lado, as idéias de Mauthner, embora reflitam a tendên­
cia de pensamento do fim do século XIX, acham-se em franco conflito
com as desses autores. Ele professa um ceticismo exagerado, negando
à linguagem a possibilidade de descrever o que quer que seja. O
conhecimento do mundo pela linguagem é impossível. A ciência é
incapaz de descrever a natureza. A única certeza que a linguagem nos
proporciona vem das tautologias, mas estas são vazias. Além disso,
não hâ uma forma lógica profunda a ser descoberta pela anâlise.
Colocando-se nessa perspectiva, Mauthner aproxima-se de Mach, o

1 18
O contexto ligado à análise da linguagem

rival de Hertz. Nesse sentido, ele parece estar preocupado com o fun­
damento psicológico da linguagem, tentando delimitá-la "por fora", de
maneira análoga à que Mach faz com a física. Com efeito, a crítica
mauthneriana da linguagem, ao ser concebida como "atenção crítica à
linguagem", só pode observar e nomear o que ocorre quando falamos.
E a solução que esta crítica oferece é ao mesmo tempo cética e pes­
simista: as verdades que podemos expressar lingüisticamente são
tautológicas e a experiência do mundo nos foge continuamente; a
linguagem é incapaz de apreender qualquer coisa. Portanto, devemos
parar de fazer perguntas ou tentar respondê-las. A redenção encontra­
-se no único refúgio possível: o santo silêncio total.
Tudo indica que, a partir do contato que teve com todos os
autores mencionados, o jovem Wittgenstein percebeu claramente o
conflito entre eles e tentou resolvê-lo por meio da filosofia expressa
pelo Tractatus. Em suas grandes linhas, este conflito pode ser formu­
lado da seguinte maneira. É verdade que, por um lado, as doutrinas
dos autores ligados às preocupações ético-metafisicas apresentam um
ponto de contato com Mauthner ao apontar para a enorme dificuldade
da linguagem em descrever a experiência beatífica da contemplação
da verdadeira realidade. Por outro, é também verdade que as doutri­
nas dos autores do primeiro subgrupo ligado à análise da linguagem
divergem das de Mauthner ao apontar para a possibilidade de descri­
ção do mundo por intermédio de modelos logicamente articulados .
Se Mauthner está certo, não h á metafisica nem ciência, e estamos
condenados a calar sobre absolutamente tudo. Resta-nos apenas o
recurso de viver o mais silenciosa e intensamente possível o mo­
mento presente. Se, porém, os autores ligados à análise da lingua­
gem lógica e científica têm alguma ponta de razão, então algo ainda
pode ser dito, embora seja necessário delimitar, cuidadosamente e
"do interior" da própria linguagem, o domínio a que este "algo"
pertence. E a delimitação deverá ser feita por meio de uma crítica
da linguagem que se coloque numa perspectiva mais radical que a
mauthneriana e seja capaz de estabelecer, com mais rigor que todos
os autores considerados, o que realmente pode ser dito sobre a na­
tureza e sobre a experiência mística. Este assunto será objeto de
discussão mais detalhada no próximo capítulo, que trata do ponto de
partida do Tractatus.

1 19
O PONTO DE PARTIDA DA
ARGUMENTAÇÃO NO TRACTATUS

1 - Observações prel i m i n a res

C partida da argumentação ' o conjunto formado pelo problema fun­


onforme explicamos na Introdução, entendemos por 'ponto de

damental que o autor pretende resolver e as premissas que ele aceita


como verdadeiras para elaborar sua solução. Assim, para caracterizar
o ponto de partida da argumentação tractatiana, teremos de mostrar
como as doutrinas dos autores estudados nos capítulos anteriores re­
percutiram na formação do próprio Wittgenstein, dando origem não
apenas ao problema fundamental que ele tentou resolver, mas também
a àlgumas das premissas de que ele partiu. Para isso, tentando conser­
var em mente o que ele realmente buscava quando se alistou como
voluntário na Primeira Grande Guerra e que tipo de experiência filo­
sófica pretendia antes de escrever o Tractatus, procuraremos delimitar,
com base na comparação das doutrinas e problemas considerados até
agora e com o rigor e o detalhamento que os dados permitirem, o

121
Iniciação ao silêncio

problema fundamental do Tractatus e as premissas das quais


Wittgenstein partiu para formular a sua solução• . É isso que será feito
a seguir.

li - As premissas e o problema fu n damental de Wittgenstein

No prefácio do Tractatus, Wittgenstein afinna que seu livro tal­


vez seja entendido apenas por aqueles que já pensaram por si próprios
o que nele vem expresso ( 1 922: 1 3 1 ). Isso significa que a obra surgiu
a partir de um quadro conceituai mais amplo, que envolve outros
autores, os quais produziram um conjunto de doutrinas e problemas
que, devidamente adaptadas à perspectiva de Wittgenstein, constituem
o ponto de partida da argumentação tractatiana. A compreensão da
obra depende claramente da compreensão deste ponto de partida. Para
'determinar em que consiste este último, buscaremos, nas doutrinas dos
autores considerados nos capítulos anteriores e nos documentos escri­
tos por Wittgenstein um pouco antes da redação do Tractatus, as pistas
correspondentes.
Assim, começando pelos autores ligad9s .à ten({êJ1�! � - ��!co­
-metafísica, ".�!!! O S que, conforme mencionado, o fato digno de
nota é a impressionante convergência dos mesmos ao enfatizar a
existência de- ��a-eiperiênc_�3: mística de natureza eminentemente
contemplativa. Em Schopenhauer, essa experiência consiste n� con­ __

templação do mundo pelo suj�i_to do ponto de vista do e��rno. A


eternidade envolvida não é substancial, mas corréspônde à atem­
1
poralidâde 1cançada pelo sujeito quando observa a essência. Qua.D.=
do atinge este estado, o sujeito esqu�ce sua própria individualida­
de e põe em ação um nível mais profundo de seu ser, no qual se
funde, em êxtase, com O mµnd<?.: \E SSa experiência consiste, em

1 . Neste ponto, o leitor mais atento poderia lembrar que a filosofia tractatiana
não envolve a formulação de um problema e, muito menos, de uma solução. A esta
objeção responderíamos que, neste momento, a vivência filosófica proporcionada pelo
Tractatus ainda não tinha acontecido. Ao iniciar sua pesquisa, Wittgenstein ainda não
conhecia com certeza os limites da linguagem e muito menos os resultados radicais
que a crítica da linguagem em sentido não-mauthneriano seria capaz de proporcionar.

1 22
O ponto de partida da argumentação no Tractatus

última análise, na beatitude o·btida pela contemplação de uma realida­


de superior.

Em Weininger, todo gênio tem, em algum momento de sua vida,


uma experiência de algo mais elevado em seu "ego". Embora essa
experiência possa assumir as mais variadas formas, estas, como visões
intuitivas do cosmo, partilham a propriedade comum de serem prove­
nientes apenas da excitação do "ego" quando ele se põe como uma
alma que está solitária no universo, encarando-o e compreendendo-o.
Em seu estado mais autêntico, o "eg9.�' do gênio é compreensão µni­
versal .. como se ele fosse o centro do espaço infinito. O gênio contém
o universo inteiro dentro de si próprio, o que faz dele um microcosmo
vivo, onde tudo se hami.9Qiza. A unidade harmônica da existência
..

relampeja intuitivamente no gênio. Sua intuição não ocorre no tempo,


mas participa da eternidade.

Em Tolstoi, a experiência mística é a própria experiência do sentido


da vida, que se alcança quando se vive pelo amor no presente autên­
tico. Isso equivale a estar unido a Deus, princípio e fundamento da
vida. ª� -�Jti�a instância, a experiência_místi_".� é a contemplação do
presente atemporal. Nessa perspectiva ; Ó cristianismo tolstoiano é uma
religião sem fé e sem mistérios, capaz de proporcionar a beatitude
neste mundo mesmo e não numa hipotética vida futura. A experiência
mística não envolve nada de sobrenatural.

William James, por sua vez, faz uma caracterização geral da


experiência mística, apontando-lhe quatro aspectos fundamentais. O
primeiro deles é a inefabilidade. A linguagem é insuficiente para des­
crever a experiência mística, que deve ser diretamente vivenciada e
não pode ser comunicada a outrem. O segundo é o valor noético.
Embora o estado místico esteja mais próximo do sentimento que da
apreensão intelectual, ele constitui um tipo peculiar de conhecimento,
atingindo profundidades da realidade que não podem ser compreendi­
das pelo intelecto discursivo. O terceiro aspecto é a transitoriedade. A
experiência mística não ocorre por um tempo muito longo. Depois que
a experiência ocorreu, porém, sua qualidade é retida pela memória e
ela pode ser reconhecida quando acontecer novamente. O quarto as­
pecto é a passividade. É certo que a experiência mística pode ser
preparada com o auxílio de determinadas técnicas. Todavia, sua ocor-

123
Iniciação ao silêncio

rência produz o sentimento de estar possuído por um poder superior.


Dentre esses aspectos, James salienta que a incomunicabilidade da
experiência mística é a nota mais fundamental. A verdade mística
existe para o indivíduo que a experimenta e para ninguém mais. Nesse
sentido, o estado místico autêntico, embora seja capaz de garantir a
firme convicção do indivíduo no qual ocorre, não possui qualquer
força coercitiva para convencer o indivíduo que não o experimentou.
Mesmo assim, ele destrói a autoridade da consciência racional (não­
-mística) ao abrir a porta para outras ordens de verdade.
Como se pode ver, todos esses autores, que Wittgenstein leu e
admirou, admitem a possibilidade de o homem passar por um transe
de caráter místico. Em todos eles, tal transe envolve ou pode envolver
um valor cognoscitivo peculiar, que corresponde à contemplação
beatífica da verdadeira realidade. Neles, a contemplação se dá "fora"
do tempo dos mortais comuns e participa, de alguma forma, da eter­
nidade. Schopenhauer e Weininger consideram que a contemplação
beatífica é uma experiência do sujeito transcendental. Nesse sentido,
esses dois autores estão muito próximos. Tolstoi não é explícito a
respeito, mas sua leitura schopenhaueriana do cristianismo faz da
contemplação do presente autêntico algo perfeitamente compatível com
uma experiência do sujeito transcendental. William James é mais libe­
ral e admite outras formas de experiência mística. Justamente por isso,
sua caracterização é também compatível com o transe místico de tipo
schopenhaueriano ou weiningeriano.
Já sabemos também que, ao assumir a experiência mística nos
termos acima colocados, todos esses autores admitem, de algum modo,
uma importante distinção entre duas formas de conhecimento: o intui­
tivo e o discursivo. Conforme já mencionado, o primeiro corresponde
à vivência beatífica, e o segundo, à ciência da natureza. O primeiro é
direto, imediato, enquanto o segundo é eminentemente discursivo. Isso
permite estabelecer uma hierarquia de valores segundo a qual a ciên­
cia se encontra numa posição inferior com respeito ao conhecimento
intuitivo. À oposição entre intuição e ciêpcia corresponde outra, aque­
la entre o gênio e o homem comum (cientista), que também estabelece
uma hierarquia, colocando o primeiro em posição superior com rela­
ção ao segundo. Schopenhauer e Weininger partilham explicitamente
estas idéias. Tolstoi e William James são menos explícitos, mas as

1 24
O ponto de partida da argumentação no Tractatus

idéias de ambos são compatíveis com as daqueles autores. De qual­


quer modo, todos concordam em que a descrição do que é dado pelo
conhec imento discurs ivo é muito difíci l , se não impossível .
Schopenhauer considera esta descrição muito dificil; Weininger acha
que ela não deve ser tentada, embora constitua o ponto de partida para
uma apresentação original do mundo; Tolstoi não se refere explicita­
mente a ela, mas também permite concluir sua dificuldade; William
James é mais exigente e a considera simplesmente impossível.
Também foi mencionado outro aspecto importante que é enfatizado
por todos esses autores, a saber, a necessidade de realizar um esforço
sobre-humano para libertar-se da escravidão do mundo da individua­
lidade e atingir a contemplação beatífica. Isso estabelece uma clara
opção moral para o homem: ou deixar-se vencer pela individualidade
e permanecer mesquinhamente preso aos interesses mundanos, ou
superar a individualidade, ascendendo a um nível mais elevado e atin­
gindo a contemplação beatífica. No primeiro caso, a vontade indivi­
dual é afirmada, prendendo o homem aos interesses mundanos e fa­
zendo dele um ser esseneialmente infeliz. No segundo, a vontade in­
dividual é negada, com a conseqüente submissão a um princípio de
ordem superior, fato que toma o homem um ser essencialmente feliz.
Aquele que afirma a vontade individual é infeliz porque experimenta
o múltiplo, o falso, o feio e o mau. Para conseguir a transformação
profunda que decorre da negação da vontade individual, o homem
deve passar por uma verdadeira revolução. Ao realizá-la, porém, ele se
toma feliz porque experimenta o Uno, o Verdadeiro, o Belo e o Bom.
No caso específico de Wittgenstein, convém lembrar que ele também
era, como Weininger, homossexual e judeu2• A esse respeito, Monk
sugere a seguinte hipótese: inspirado por Weininger, Wittgenstein es­
tabelece uma dicotomia entre viver como 'mulher ' ou 'judeu ' , ou seja,
dominado pela sensualidade e pelos desejos mundanos, e viver como
'homem ' ou ' gênio ' , isto é, liberto da sensualidade e dos desejos mun­
danos. Se só pudermos viver o primeiro tipo de vida, então não temos

2. Apesar das tentativas frustradas dos executores testamentários de Wittgenstein


para evitar a questão, o tema do homossexualismo do filósofo austríaco tomou-se
público depois do livro de W. W. Bartley III (cf. 1 987: 5 1 ss; 1 95 ss). De qualquer
maneira, a leitura dos Diários secretos deixa clara a tendência homossexual de
Wittgenstein.

1 25
Iniciação ao silêncio

o direito de viver. Nosso dever é buscar a vida espiritual do gênio, a


única que vale a pena. Nessa perspectiva, desenvolver a própria
genialidade não é apenas matéria de nobre escolha, mas um impera­
tivo categórico. A fixação de Wittgenstein na idéia de suicídio, entre
. 1 903 e 1 9 1 2, e seu abrandamento depois que Russell reconheceu-lhe
o gênio sugerem que o jovem austríaco assumiu este ' dever do gênio '
em toda a sua terrível severidade (Monk 1 995: 38). Essa hipótese é
inteiramente compatível com o quadro moral que descrevemos até
agora e revela o teor do desafio que se apresentava ao jovem
Wittgenstein: para ele, tomar-se um gênio e atingir a contemplação
beatífica significava derrotar uma individualidade cuja sensualidade
mergulhava fundo na homossexualidade. Ele deveria decidir entre a
imitação de Weininger e a imitação de Cristo. Para travar esta batalha
moral, nenhum lugar seria mais adequado que as trincheiras da Pri­
meira Grande Guerra.
O fato de que estas idéias constituíam parte significativa das
preocupações de Wittgenstein durante a Primeira Guerra é confirma­
do, de algum modo, pelo espírito em que foram redigidos os Diários
secretos e pelos temas ali tratados. Dentre estes últimos, Isidoro Reguera
destaca o do ' ânimo ' , o do ' espírito ' , o de ' Deus ' e o do ' trabalho
intelectual ' ( 1 99 1 : 1 90-228). Apresentá-los-emos a seguir não apenas
porque os Diários são menos conhecidos pelo leitor comum, mas
também porque isso reforçará a conjetura de que Wittgenstein se preo­
cupava com as idéias acima e contribuirá para caracterizar, de maneira
mais autêntica, o ponto de partida do Tractatus.
Nos Diários secretos, o tema do ânimo revela a luta desesperada
de Wittgenstein para permanecer impassível diante do desfile de sofri­
mentos que é o mundo, vivendo no instante eterno do presente (Reguera
1 99 1 : 1 90) . O estado de ânimo de Wittgenstein oscila entre o bom
humor, acompanhado de forte trabalho intelectual, e a grande depres­
são, acompanhada de escasso trabalho intelectual. De maneira des­
concertante, o bom humor coincide com circunstâncias externas muito
adversas, enquanto a depressão coincide com circunstâncias externas
bastante favoráveis (ibidem: 1 90- 1 9 1 ) . Acompanhando o espírito da
filosofia clássica, Wittgenstein equipara a vida feliz a uma vida boa,
bela e racional (Wittgenstein 1 99 1 : 1 43 ; 1 57). Em contraposição, a
vida infeliz é má, feia e sem razão (ibidem). A vida feliz é cheia de

1 26
O ponto de partida da argumentação no Tracta t u s

ânimo; a infeliz, sem ânimo. Assim, ser feliz é um imperativo moral.


A pedra de toque do ânimo parece ser a maneira de enfrentar a morte
(Reguera 1 99 1 : 1 9 1 ). Nessa perspectiva, o suicídio é caracterizado
como o pecado elementar, pois corresponde à falta de ânimo absoluta
(ibidem). Mas sua contrapartida, o apego demasiado à vida, também
é pecaminoso, e significa igualmente pouco ânimo (ibidem: 1 93- 1 94).
Para escapar da tentação de deixar que seu ânimo se tome débil,
Wittgenstein recorre a três pontos de referência: o espírito, Deus e o
trabalho intelectual (ibidem: 1 94).
A noção de espírito parece constituir, nos Diários secretos, a
introjeção de todos os ideais morais do jovem Wittgenstein, corres­
pondendo à imagem ideal que ele faz de si mesmo (ibidem: 1 96). O
espírito funciona como o lugar em que ele se sente seguro com relação
à carne. Esta só faz espicaçá-lo e dispersá-lo entre as coisas (ibidem:
1 97). Pelo espírito, ele consegue a liberdade e a indiferença diante do
mundo exterior, atinge a vida atemporal do instante pela consideração
das coisas do ponto de vista do eterno (ibidem) . Assim entendido, o
tema do espírito revela a grande influência exercida por Tolstoi sobre
o jovem Wittgenstein e está ligado à declaração explícita de fé cristã
nos Diários. Ela ocorre quando, depois de ler Nietzsche, Wittgenstein
fica muito impressionado com a hostilidade deste contra o cristianis­
mo e faz a seguinte afirmação de fé:
"É certo que o cristianismo representa a única via segura
para a felicidade " ( 1 99 1 : 8/ 1 21 1 4, 1 09).
Portanto, ao que tudo indica, já no início da guerra Wittgenstein
tinha uma forte indicação de qual seria a solução do problema da
vida. Seguindo Tolstoi, ele considerava que o cristianismo dava sen­
tido à vida. Nesse momento, o que lhe faltava era vencer a mentira
da carne, que o fazia prisioneiro do tempo, e atingir a vida verdadeira,
que é a contemplação do presente autêntico. Ele precisava ser capaz
de negar a vontade pessoal e submeter-se à vontade div ina, conse­
guindo, assim, a união atemporal com Deus, princípio e fundamento
de tudo.
Ligado ao tema do espírito, os Diários secretos desenvolvem o
tema de Deus. 'Espírito ' e 'Deus ' são conceitos que coincidem e se
complementam nestes escritos (Reguera 1 99 1 : 1 99). Isso também está

127
Iniciação ao silêncio

presente na interpretação tolstoiana dos Evangelhos. Deus não é visto


ali como criador, mas como juiz, pai, amor. A vida do espírito nos
leva diretamente à identificação mística com Deus. É certo que
Norman Malcolm, que conviveu com Wittgenstein, afirma não ser o
nosso filósofo uma pessoa religiosa, embora possuísse uma religio­
sidade latente (Malcolm 1 966: 72). Esta afirmação parece ter sido
uma das causas da pouca ênfase dada até agora ao tema religioso em
Wittgenstein. Todavia, a grande quantidade de invocações a Deus nos
Diários secretos mostra claramente o contrário, a saber, o fundo
religioso da mística tractatiana. Talvez Wittgenstein tenha sempre
escondido esta característica de seu pensamento porque a prática
íntima de submissão a Deus significaria sobretudo um momento de
fraqueza, que contraditaria os elevadíssimos e rigorosos ideais ético­
-estéticos que inspiram sua religiosidade. Com efeito, o homem que
reza poderia ser identificado com aquele indivíduo fraco e sem ânimo,
cuja desorientação e desespero o levam a pedir o socorro divino.
O terceiro tema importante nos Diários secretos é o do trabalho
intelectual. Conforme Reguera, há duas coisas que surpreendem aqui.
Em primeiro lugar, o fato de ter ocorrido nas condições adversas da
guerra; em segundo, sua grande mudança de conteúdo ( 1 99 1 : 2 1 0). Se
levarmos em conta, porém, os objetivos de Wittgenstein ao alistar-se
como voluntário, o fato de esse trabalho ter ocorrido na frente de
batalha não é tão supreendente assim. Além disso, o próprio Reguera
considera que, nos Diários, o trabalho intelectual é entendido como
serviço ao espírito ou serviço divino (ibidem: 2 1 2). Na verdade, ele é
sacralizado, tomando-se ao mesmo tempo uma missão, uma oferenda
e um dom (ibidem: 2 1 3) . Quanto à mudança de conteúdo, as anota­
ções de Wittgenstein mostram que, no início, o trabalho intelectual se
dirige à natureza da proposição, à lógica e à matemática. Aos poucos,
graças à sofrida experiência da frente de batalha, ele se desloca para
o problema da essência do mundo e para o místico.
Os Diários secretos foram escritos no estilo de diálogo consigo
mesmo, na perspectiva de uma pessoa atormentada que busca, por
meio do trabalho intelectual santificado, a solução do enigma da vida.
Na opinião de Reguera, os Diários contam a guerra pessoal de
Wittgenstein, paralela à Grande Guerra. Trata-se do relato sofrido de

1 28
O ponto de partida da argumentação no Tractatus

sua batalha diária com a vida e com a morte, a carne e o espírito


(Reguera 1 99 1 : 1 68). Por meio desses escritos, podemos supor que
Wittgenstein foi à guerra por motivos intelectuais (seus trabalhos ló­
gicos) e morais (conservar a decência diante do perigo). A pista mais
importante que eles nos fornecem, todavia, é que a luta pessoal de
Wittgenstein tinha por objetivo encontrar uma forma de permanecer
impassível diante das desgraças do mundo, v ivendo impertur­
bavelmente no instante eterno do presente. Isso constituía para ele a
solução do desafio ético que a vida lhe apresentava e tinha um sentido
nitidamente religioso de união com Deus na perspectiva do cristianis­
mo tolstoiano.
Algumas anotações dos Cadernos de notas ( 1 9 1 4- 1 9 1 6), além de
confirmarem parte das idéias mencionadas, introduzem evidências que
enriquecem nossa conjetura. Para ilustrar, basta citar os registros de
1 1/6/ 1 9 1 6, em que encontramos a seguinte declaração de princípios:
"O que sei a respeito de Deus e do propósito da vida ?
Sei que este mundo existe.
Que estou nele como meu olho em seu campo visuaP.
Que alguma coisa nele é problemático, à qual denomina­
mos o seu sentido.
Que este sentido não está nele, mas fora dele.
Que a vida é o mundo.
Que minha vontade penetra o mundo.
Que minha vontade é boa ou má.
Que, portanto, o bem e o mal se relacionam de algum modo
com o sentido do mundo.
Ao sentido da vida, a saber, ao sentido do mundo, podemos
chamar de Deus.
E ligar com isto a comparação de Deus com um pai.
A prece é o pensamento sobre o sentido da vida.
Não posso dobrar os acontecimentos do mundo de acordo
com minha vontade, sou completamente impotente.
Posso apenas tornar-me independente do mundo - e assim

3. Esta analogia está relacionada com uma tese schopenhaueriana que é muito
cara ao primeiro Wittgenstein: a coincidência entre realismo empírico e idealismo
transcendental, que ele entendia como uma forma de solipsismo.

1 29
Iniciação ao stlênclo

dominá-lo, num certo sentido - na medida em que renuncie


a ter influência sobre os acontecimentos" (Wittgenstein 1 9 1 4-
6 : 72-73).
Nessa passagem, estão todos os temas que confirmam a presen­
ça das idéias ético-metafísicas nas preocupações de Wittgenstein: o
do sujeito transcendental, o de Deus como o sentido da vida, o da
prece como união racional com Deus, o da ação moral como mudan­
ça de atitude em face do mundo. Na verdade, a articulação dessas
idéias parece constituir o núcleo místico originário que será expres­
so no Tractatus. Isso tudo confirma a idéia de que a aceitação da
experiência mística e suas características fundamentais como o fato
mais importante da vida humana é um dos pontos de partida dessa
obra.
Passemos agora à consideração dos autores ligados ao contexto
da análise da linguagem. No subgrupo em que predomina a tendência
lógico-científica também é possível observar uma razoável convergên­
cia de idéias. Frege, Russell, ·Hertz e Boltzmann enfatizam a dimensão
lógica da linguagem e da ciência. Hertz e Boltzmann se aproximam
até mesmo do grupo das doutrinas ligadas à tendência ético-metafísica,
uma vez que, ao tentar fundamentar a tisica por um viés kantiano,
compartilham com algumas .delas a perspectiva transcendental. Vimos
que, com sua teoria dos modelos, considerados construções lógicas a
partir das quais se podem derivar fatos, eles delimitam a tisica de seu
próprio interior, não só revelando a parte puramente lógica de seu
funcionamento, mas também reforçando a crença de que o conheci­
mento do mundo pela linguagem científica é possível. Frege e Russell
partem da distinção entre forma lógica e forma superficial das expres­
sões lingüísticas, desconfiando da linguagem natural como geradora
de equívocos e acreditando que a análise lógica será capaz de escla­
recer tais equívocos. Embora não tratem seus problemas do ponto de
vista transcendental, estão preocupados com os fundamentos lógicos
da linguagem e da matemática. Nesse sentido, eles se aproximam de
Hertz e Boltzmann, que também se interessam em buscar os funda­
mentos lógico-matemáticos da ciência. Na verdade, todos os autores
desse subgrupo apresentam mais um ponto em comum ao partilhar a
crença na capacidade da linguagem científica em descrever o mundo
de maneira lógica. O problema aqui é que toda convergência entre eles

1 30
O ponto de partida da argumentação no Tractatus

constituía para o jovem Wittgenstein antes uma possibilidade que uma


realidade. Embora os trabalhos de Hertz e Boltzmann pressuponham
a existência de uma linguagem logicamente adequada para expressar
as teorias científicas, a própria lógica ainda parecia encontrar-se em
estado embrionário. Os resultados de Frege e Russell por vezes se
opunham, por vezes apresentavam lacunas graves . Seria necessário
realizar uma tarefa hercúlea para estabelecer uma concepção de lin­
guagem tal que os diversos elementos provenientes desses autores
pudessem ser articulados de forma harmônica.

Embora não haja indicações explícitas nas anotações pré­


-tractatianas, os elementos que Wittgenstein extraiu de Hertz e
Boltzmann parecem ter sido os seguintes4• De Hertz, a delimitação da
fisica a partir do interior desta ciência, pela noção de que as teorias
fisicas constituem ' imagens ' ('Bilder') da realidade. Se Janilc e Toulmin
estiverem certos, a palavra 'Bild ' significa, aqui, 'modelo ' , cujas prin­
cipais características são a consistência lógica e a relação com a rea­
lidade. O modelo deve ser kantianamente concebido como um con­
junto de fórmulas lógicas que permitem lidar com os fenômenos e
entender seu funcionamento. Nessa perspectiva, o modelo não é de­
rivado da experiência, mas corresponde a uma construção lógica de
que se podem derivar fatos da experiência. Isso permite concluir que
o fundamento da fisica é de caráter lógico-matemático, em vez de
meramente psicológico. Além disso, permite que Wittgenstein privi­
legie no Tractatus o uso de ' D arstellung ' , em detrimento de
' Vorstellung ' . Conforme mencionado, embora ambas as palavras te­
nham aproximadamente o mesmo significado, a primeira enfatiza o
caráter "público" ou objetivo da representação. De Boltzmann, que
desenvolve e aprimora a teoria hertziana, Wittgenstein parece ter ex­
traído a noção de que o modelo é construido no interior de um "es­
paço lógico" que inclui todas as possibilidades relativas ao fenômeno
a ser explicado. Isso parece decorrer naturalmente da caracterização
que Boltzmann faz do . problema geral da mecânica estatistica: desco­
brir as relações matemáticas que regulam as freqüências com que os

4. Esta conjetura deverá ser reforçada na 2ª Parte, onde serão consideradas a


Teoria Pictórica e a aplicação da crítica da linguagem à tisica, e também na 3ª Parte,
em que serão analisados os procedimentos heurísticos utilizados por Wittgenstein na
redação do Tractatus.

131
Iniciação ao silêncio

estados efetivos do sistema físico se distribuem entre seus estados


possíveis.
Quanto às influências de Frege e Russell, elas são visíveis do
lado direito dos Cadernos de notas ( 1 9 1 4- 1 9 1 6), que, conforme men­
cionado, tratam extensivamente de questões lógicas . De Frege,
Wittgenstein extraiu a desconfiança contra a linguagem ordinária, cuja
aparente forma lógica superficial disfarça a verdadeira forma lógica
profunda. Graças a isso, ele assumiu também a idéia de que o trabalho
lógico é, antes de mais nada, um trabalho de clarificação conceituai.
Foi de Frege também que Wittgenstein, da mesma maneira que Russell,
extraiu todo o instrumental utilizado em suas pesquisas lógicas, como
as noções de ' argumento ' e 'função' , os quantificadores, as constantes
lógicas, os valores de verdade etc., que se articulam para constituir o
cálculo proposicional e o de predicados. Wittgenstein não considerava,
contudo, que o método axiomático adotado por Frege fosse o mais
adequado para organizar sistematicamente as proposições da lógica.
Com efeito, esse método implica a escolha de certo número de fórmu­
las para dar-lhes o estatuto de axiomas. As outras passam a ser teoremas,
ou seja, fórmulas deduzidas dos axiomas mediante regras de inferência.
Mas isso envolve as seguintes dificuldades. Para começar, a única
maneira de justificar a verdade dos axiomas assim escolhidos passa a
ser sua evidência. Acontece que a evidência é, em última instância, um
critério subjetivo. Além disso, alguns teoremas do sistema podem ser
mais ou menos arbitrariamente escolhidos e transformados em axio­
mas de um novo sistema. Neste último, os antigos axiomas se tomam
teoremas. E os dois sistemas assim obtidos são logicamente equivalen­
tes, já que admitem como tautológicas as mesmas expressões, seja
como axiomas, seja como teoremas. Ora, isso toma as noções de
'axioma' e 'teorema' intoleravelmente indistintas. Frege, que brilhan­
temente acusara a lógica tradicional de confundir as noções de sujeito
e predicado lógico, estaria incidindo aqui em erro análogo. Era, pois,
necessário superar esta dificuldade por meio de um formalismo mais
adequado.
Da filosofia da linguagem de Frege, Wittgenstein tomou empres­
tadas as noções de ' conteúdo conceituai ' , ' sentido' e 'significado ' .
Como será visto mais adiante, Wittgenstein utilizará a primeira destas

1 32
O ponto de partida da argumentação no Tractatus

noções para a execução da tarefa de determinar a essência da lingua­


gem pela análise da proposição declarativa. Quanto às noções de 'sen­
tido ' e ' significado ' , ê fato conhecido que Wittgenstein definitivamen­
te não estava satisfeito com a maneira pela qual Frege as articula em
sua teoria da linguagem. Como vimos, o modelo fregiano envolve
uma sêrie de dificuldades para as quais não hâ solução fâcil. Por
exemplo, a aceitação de expressões dotadas de sentido, mas que não
possuem significado, como 'o rei da França ' , envolve uma quebra da
lei do terceiro excluído, jâ que as proposições com elas formadas,
como 'o rei da França ê sâbio ' , não são nem verdadeiras nem falsas;
o sentido de nomes sem significado ê problemático, pois corresponde
ao "modo de apresentação" de coisa alguma; se a proposição possui
sentido e significado, o significado de uma proposição verdadeira ê
o Verdadeiro, o que equivale a dizer que a proposição verdadeira ê o
nome próprio do Verdadeiro etc. A fim de resolver essas dificuldades,
Wittgenstein, embora baseando-se na problemática fregiana, buscarâ
uma nova articulação das noções consideradas.
No caso de Russell, jâ sabemos ter sido ele quem despertou o
interesse de Wittgenstein pelos problemas de análise da linguagem,
iniciando-o nas novas técnicas da lógica. De todas as realizações de
Russell, a que Wittgenstein mais admirava era a teoria das descrições.
Trata-se realmente de um exemplo brilhante de anâlise, que revela a
verdadeira forma lógica das sentenças que contêm descrições defini­
das na posição de sujeito gramatical. A forma lógica superficial sugere
enganosamente que a descrição definida seja o argumento e que o
predicado que lhe ê atribuído seja a função. Na verdade, a sentença
que contêm a descrição na posição de sujeito gramatical se reduz a
uma conjunção de funções em que o argumento estâ ausente. Do
ponto de vista lógico, essa sentença não possui sujeito lógico. É esse
tipo de clarificação que Wittgenstein admirava e buscava quando es­
creveu o Tractatus.
Embora fosse grande admirador de Russell, Wittgenstein estava,
contudo, insatisfeito com alguns aspectos de suas doutrinas. Assim,
considerava inadequado o fato de Russell adotar o método axiomático
nos Principia Mathematica, do mesmo modo que Frege o fizera nos
Fundamentos da Aritmética.

1 33
Iniciação ao silêncio

Os principais motivos de discordância entre ambos, todavia, lo­


calizavam-se nos expedientes adotados por Russell para salvaguardar
o programa logicista. O primeiro deles é a teoria dos tipos. De acordo
com esta teoria, é contra-senso perguntar, por exemplo, se o conjunto
das coisas vermelhas é ele mesmo vermelho ou não. Com efeito, o
tipo lógico das 'coisas vermelhas ' é diferente do tipo lógico do ' con­
junto das coisas vermelhas ' ; nem tudo aquilo que se pode dizer de um
pode ser dito do outro. Assim, a teoria dos tipos nos diz que a sentença
'o conjunto das coisas vermelhas é uma coisa vermelha' é um contra­
-senso. Ora, para Wittgenstein isso envolve um equívoco lógico. Com
efeito, analisemos agora a seguinte sentença, considerada falsa na teoria
dos tipos: '"o conjunto das coisas vermelhas é uma coisa vermelha' é
um contra-senso". Decompondo-a em seus elementos constitutivos,
vemos que seu argumento é 'o conjunto das coisas vermelhas é uma
coisa vermelha' ; a função à qual esse argumento se acopla é 'x é um
contra-senso ' , que pode ser formalizada como ' Cx ' . Ora, acontece que
o argumento 'o conjunto das coisas vermelhas é uma coisa vermelha'
é ele próprio uma sentença, cujo argumento 'o conjunto das coisas
vermelhas ' se acopla à função ' x é uma coisa vermelha' , que pode ser
formalizada como 'Vx' . É exatamente nesse ponto que se origina o
equívoco apontado por Wittgenstein. As duas funções envolvidas, 'Cx'
e 'Vx ' , aparentemente possuem a mesma forma lógica, que poderia
ser simbolizada por 'Fx ' : ambas são funções de um argumento. Toda­
via, os argumentos de cada uma dessas funções são de fato diferentes,
o que toma suas formas lógicas também diferentes. O argumento de
'Vx' é um conjunto, que pode ser simbolizado por 'a' . Nesse caso, 'o
conjunto das coisas vermelhas é uma coisa vermelha' é simbolizado
por 'Va ' . Já o argumento de ' Cx ' é a sentença 'Va ' , o que nos dá
' C(Va) ' . Portanto, a forma lógica de ' Va' é ' Fx ' , enquanto a forma
lógica de ' Cx' é, na verdade, ' F(Fx) ' . Qualquer sentença da forma 'Fx'
pode ser argumento de ' Cx ' . Isso significa que ' Cx ' pode ser argumen­
to de si própria: '"Cx' é um contra-senso" possui sentido na teoria
russelliana dos tipos e é simbolizada por ' C(Cx) ' . Para Wittgenstein,
essa sentença é um contra-senso produzido por um equívoco lógico,
que consiste exatamente em supor que uma proposição possa dizer
algo a respeito de si própria, do modo como 'C(Cx) ' o faz. Na verda­
de, todas as vezes que quisermos atribuir uma propriedade de tipo 'Fx'
à forma 'Fx ' necessariamente fracassaremos, pois teremos de utilizar

1 34
O ponto de partida da argumentação no Tracta tus

a função 'F(Fx) ' , que possui uma forma lógica diferente da original.
Já nas Notas sobre a lógica, Wittgenstein afirma:
"Nenhuma proposição pode dizer alguma coisa dela mesma,
porque o símbolo da proposição não pode conter a si próprio;
tal deve ser a base da teoria dos tipos lógicos" ( 1 9 1 3 : 1 92) .
A solução wittgensteiniana a esta dificuldade, como veremos ao
expor a filosofia do Tractatus, basear-se-á na distinção entre 'dizer ' e
'mostrar ' . Ela caminhará no sentido de estabelecer a impossibilidade
de dizer algo sobre os tipos lógicos, embora seja possível mostrar, por
meio de uma notação adequada, quais os tipos envolvidos e suas res­
pectivas diferenças.
O segundo ponto de discordância entre Wittgenstein e Russell
está no fato de este último ter sido obrigado a recorrer ao axioma da
infinidade para levar a cabo o programa logicista de construção da
série dos números. Wittgenstein considerava que a lógica é p uramente
sintática, devendo incluir apenas regras relativas à manipulação mecâ­
nica de símbolos. Qualquer regra que ultrapasse esta simples exigên­
cia deixa de pertencer à lógica. Assim, uma regra baseada no signifi­
cado dos símbolos envolvidos deixará de ser puramente sintática,
devendo ser descartada; uma regra baseada na existência de objetos no
mundo, como acontece com o axioma da infinidade, também estará
fadada ao mesmo destino. Era preciso, pois, encontrar não apenas uma
forma alternativa de construir de maneira puramente sintática a série
dos números, mas também uma nova concepção das relações entre a
lógica e a matemática, já que o programa logicista se apresentava
bastante problemático.
As questões acima fervilhavam na mente de Wittgenstein quando
ele se alistou como voluntário. Só elas já bastariam para motivar uma
investigação vigorosa sobre a natureza da linguagem. Todavia, essas
questões foram agravadas pelo confronto com o autor cujas idéias
estão em franco conflito com a maior parte das que foram apresenta­
das até agora nesta seção: Fritz Mauthner. Já observamos que, para­
doxalmente, não há referências a ele nos escritos pré-tractatianos.
Comentamos também que o nome de Mauthner só é mencionado no
próprio Tractatus e, mesmo assim, uma única vez, e de forma .nega­
tiva: a filosofia é crítica da linguagem, mas não no sentido de Mauthner

1 35
Iniciação ao silêncio

( 1 922: 4.003 1 ). Afirmamos que esta pequena observação sugere a


conjetura de que este autor representa o grande interlocutor do jovem
Wittgenstein. A seguir, pretendemos reforçar esta idéia.
Sabemos que Mauthner professa um ceticismo exagerado, negan­
do à linguagem a possibilidade de descrever o que quer que seja. O
conhecimento do mundo pela linguagem é impossível. Assim, a
metafísica é uma quimera e a ciência é incapaz de descrever o mundo.
A única certeza que a linguagem nos proporciona vem das tautologias,
mas estas são vazias5• Além disso, não há uma forma lógica profunda
a ser descoberta pela análise. Colocando-se nessa perspectiva, Mauthner
aproxima-se de Mach, o rival de Hertz (Janik e Toulmin 1 973: 1 65).
Nesse sentido, parece estar preocupado com o fundamento psicológico
da linguagem, tentando delimitá-la "por fora", de maneira análoga à
que Mach faz com a física. Com efeito, a crítica da linguagem
mauthneriana é entendida como "atenção crítica à linguagem", que só
pode observar e nomear o que ocorre quando falamos. E a solução que
esta crítica oferece é ao mesmo tempo cética e pessimista: as verdades
que podemos exprimir pela linguagem são tautológicas e a experiência
do mundo nos foge continuamente; a linguagem é incapaz de apreen­
der qualquer coisa. Portanto, devemos parar de fazer perguntas ou
tentar respondê-las. A redenção encontra-se no único refúgio possível:
o silêncio total.
Embora partilhe com Mauthner e seus contemporâneos a idéia de
que uma crítica filosófica da linguagem se faz necessária, Wittgenstein
não poderia aceitar esta posição. Com efeito, ela nega terminantemen­
te a possibilidade de descrever tanto a experiência mística como o
mundo. No primeiro caso talvez Mauthner até tenha razão, pois ao
estabelecer que o sentido da vida é de caráter místico e não pode ser
fundado na razão ele concorda em princípio com todos os autores
ligados à tendência ético-metafísica, que também admitem a enorme

5. Esta tese parece ter sido adotada, com as devidas adaptações, pelo Wittgenstein
do Tractatus. A ela liga-se a critica de Mauthner à metafisica: para ele, os conceitos
desta possuem extensão máxima e compreensão mínima e são, portanto, completa­
mente vazios, desprovidos de sentido. Esta outra tese também parece ter calado fundo
em Wittgenstein, que possivelmente adota uma variante dela em sua definição dos
' conceitos formais ' .

1 36
O ponto de partida da argumentação no Tra cta tus

dificuldade ou até mesmo a impossibilidade de expressar lingüis­


ticamente a beatitude contemplativa. No segundo caso, contudo,
Mauthner parece estar completamente equivocado. Não apenas a teo­
ria dos modelos de Hertz e Boltzmann se revela eficaz para descrever
os fenômenos da natureza, como também o aparato lógico introduzido
por Frege e Russell é capaz de prover a teoria dos modelos com
instrumentos de análise formidáveis.
Nessa perspectiva, podemos dizer que Mauthner representa para
o jovem Wittgenstein um desafio análogo ao que Hume representou
para Kant. De maneira semelhante a Hume, Mauthner argumenta de
forma a tornar a ciência da natureza desprovida de fundamento. Uma
resposta adequada a este ceticismo radical exige que se delimite mais
claramente os limites do que pode e do que não pode ser dito. A única
alternativa razoável que se oferece a Wittgenstein, influenciado por
Schopenhauer e Weininger, é a transcendental. Desse modo, tudo in­
dica que o jovem soldado encontra no próprio Mauthner não só a parte
principal do problema que o atormenta, mas também a pista mais
importante para resolvê-lo, ao extrair deste pensador cético a idéia
fecunda de que a filosofia é crítica da linguagem. Assim agindo,
Wittgenstein revela inclusive sua adesão à atmosfera intelectual da
Viena da época, que, na opinião de Janik e Toulmin, estava inteira­
mente sensibilizada para a necessidade de uma crítica compreensiva
da linguagem ( 1 973: 1 65). A crítica mauthneriana constitui um primei­
ro passo nessa direção. Todavia, para preservar o cerne místico, rele­
gando-o ao silêncio, ela paga o preço muito caro de tomar impossível
o conhecimento científico (ibidem). A causa dessa dificuldade está na
inspiração humiana e machiana da filosofia de Mauthner. Wittgenstein,
em contraste, inspirando-se em Hertz e Boltzmann, que partilham
com Schopenhauer e Weininger a perspectiva de tipo kantiano, tentará
entender a crítica da linguagem em sentido não-mauthneriano, ou
seja, transcendental . A crítica wittgensteiniana irá kantianamente bus­
car as condições transcendentais de possibilidade da linguagem. Em
franca oposição a Mauthner, a perspectiva tractatiana incluirá a busca
da forma lógica profunda das expressões lingüísticas, forma que
explicita as condições transcendentais de possibilidade daquelas ex­
pressões, em oposição à sua forma lógica superficial, que pode ser

1 37
Iniciação ao silêncio

enganadora6• Tudo indica, portanto, que Wittgenstein assume a idéia


de Mauthner de que a filosofia é crítica da linguagem, mas lhe dá um
sentido e uma perspectiva transcendentais.
Em que pese a diferença fundamental apontada, o enfoque ado­
tado permitirá que Wittgenstein ainda conserve em sua 'crítica da
linguagem ' algumas das principais características da mauthneriana.
Dentre elas destacam-se duas. Primeiro, a crítica da linguagem conti­
nuará sendo a tarefa mais importante da filosofia, porque é a única
capaz de fornecer a clarificação conceituai de que necessitamos para
entender o mundo e a vida. Tudo o que sabemos ou pretendemos saber
a esse respeito vem expresso pela linguagem. Ela constitui, pois, o
objeto primeiro da filosofia. Segundo, a crítica ainda deverá fornecer
as condições para que, ao ser compreendida, a linguagem seja ultra­
passada. Isso porque, mesmo na perspectiva transcendental, a crítica
da linguagem deverá ser empreendida pela própria linguagem. Esse
processo é inevitável. Nesse sentido, ela se conformará à descrição
que J anile e Toulmin fazem da crítica mauthneriana. Parafraseando
esses autores, podemos dizer que a crítica wittgensteiniana nascerá em
contradição e terminará em silêncio (cf. Janik e Toulmin 1 973: 1 3 1 ) .
Ela corresponderá a um novo suicídio d a linguagem, agora numa
perspectiva transcendental. O avanço da nova crítica da linguagem
também se comparará ao processo mauthneriano de subir uma escada,
destruindo cada um dos degraus já utilizados: a cada etapa vencida,
deveremos destruir a linguagem que ficou para trás.
Além do viés transcendental, a marca característica que Wittgenstein
imprimirá à sua crítica da linguagem é que ela constituirá um empreen­
dimento lógico (busca das condições transcendentais de possibilidade
da linguagem) com um objetivo fundamentalmente ético (vencer a
vontade individual e vivenciar o sentido da vida) . Essa é a fórmula
que os fatos de sua vida e as doutrinas que estudou parecem ter-lhe
sugerido, obscuramente no início, mais claramente ao término, para
conciliar as pesquisas lógicas com as preocupações éticas. Suas ano-

6. Daí a referência que o Tractatus faz a Russell no mesmo aforisma que trata
de Mauthner e da crítica da linguagem. Ali, afinna-se que o mérito do lógico inglês
é justamente ter mostrado que a fonna lógica real da proposição pode não ser a sua
fonna aparente (Wittgenstein 1 922: 4.003 1 ; ver também Weiler 1 958: 83).

1 38
O ponto de partida da argumentação no Tractatus

tações pré-tractatianas, quando lidas nesta perspectiva, fornecem in­


formações preciosas para a compreensão da solução finalmente encon­
trada.

Ili - Observações finais

Com base nos dados reunidos até agora, podemos resumir a


conjetura que estamos fazendo sobre o ponto de partida da argumen­
tação tractatiana como segue. Tudo indica que, inspirado pelo senti­
mento da necessidade de uma crítica radical da linguagem que fer­
mentava na cultura austríaca de sua época e pelo contato que teve com
os autores considerados, o jovem Wittgenstein percebeu claramente
não apenas as concordâncias entre alguns deles, mas também o con­
flito gerado pela crítica mauthneriana da linguagem, que causava enor­
mes dificuldades a seu propósito de compatibilizar as pesquisas lógi­
cas com as preocupações éticas. Em grandes linhas, esse conflito poderia
ser formulado da seguinte maneira. Se Mauthner estiver certo, não há
ciência e estamos condenados a calar sobre absolutamente tudo. Res­
ta-nos apenas o recurso de viver mística e silenciosamente o momento
presente. Se, porém, os outros autores tiverem alguma razão, algo
ainda poderá ser dito, embora seja necessário delimitar, cuidadosa­
mente e "do interior" da própria linguagem, o domínio a que este
"algo" pertence. Com efeito, as doutrinas dos autores ligados às preo­
cupações ético-metafísicas apontam para a enorme dificuldade da lin­
guagem em descrever a experiência beatífica da contemplação da
verdadeira realidade, enquanto os autores ligados à análise da lingua­
gem lógica e científica admitem a possibilid�de de descrever o mundo
por meio de uma linguagem logicamente adequada. Para ser eficaz, a
delimitação exigida deverá ser feita por intermédio de uma crítica da
linguagem que se coloque numa perspectiva transcendental e, portan­
to, muito mais radical que a mauthneriana. É esse problema que a
filosofia expressa no Tractatus tenta resolver.
Se as observações acima estão corretas, a situação de Wittgenstein
na época da redação do Tractatus é a seguinte. Por um lado, ele tem
uma clara indicação de qual é o sentido da vida (Schopenhauer e,
principalmente, Tolstoi) e sente fortemente no interior de si mesmo o

1 39
Iniciação ao silêncio

imperativo categórico de buscá-lo (Weininger). Falta-lhe, porém, uma


vivência autêntica do sentido da vida, a experiência de contemplação
beatífica, para tornar-se um homem em sentido completo. Por outro,
ele está atormentado pelos problemas lógicos (Frege, Russell) que,
embora possam ser utilizados para construir uma descrição científica
do mundo, parecem nada ter a ver com suas convicções éticas.
A solução do problema ético pessoal foi obtida por meio do
expediente suicida de alistar-se como voluntário no exército austríaco.
A situação-limite da guerra permitiu que ele tivesse a desejada expe­
riência mística anunciada por Schopenhauer, Weininger, William James
e Tolstoi. A solução do problema lógico foi obtida com a utilização
das doutrinas de Frege, Russell, Hertz e Boltzmann na empreitada
suicida da crítica da linguagem (Mauthner) transferida para uma pers­
pectiva transcendental (Kant, Schopenhauer) . A situação-limite da
análise das condições de possibilidade da linguagem permitiu-lhe es­
tabelecer os limites intrínsecos da linguagem e conciliar as pesquisas
lógicas com as convicções éticas. Parece ter sido esta a origem sofrida
da filosofia paradoxalmente harmoniosa do Tractatus.
Do ponto de vista argumentativo, Wittgenstein parte, portanto, de
uma posição que privilegia os lugares da qualidade (imperativo cate­
górico, ética, Deus, sentido da vida, silêncio) em detrimento dos da
quantidade (ciência natural, mundo, fatos, linguagem)7• Resta saber
como as coisas ocorrem. Isso é objeto de estudo da Segunda Parte, em
que tentaremos expor a filosofia tractatiana em suas grandes linhas.

7. Isto permite concluir, seguindo a terminologia de Perelman e Olbrechts­


-Tyteka, que, na elaboração da filosofia do Tractatus, o ' espírito romântico' sobrepuja
o 'espírito clássico' (cf. 1 958: 1 28 ss.).

1 40
2 ª PARTE

filosofia do TRACTATUS
;

A CRITICA TRACTATIANA
DA LINGUAGEM

1 - Observações preliminares

á sabemos que Wittgenstein define a filosofia como 'crítica da

J linguagem ' ( 1922: 4.0031 ) . O entendimento desse ponto e suas


conseqüências é crucial para a compreensão da filosofia tractatiana.
Desse modo, para uma exposição dessa filosofia ser adequada aos
nossos objetivos, ela deverá inverter significativamente a ordem da
exposição de Wittgenstein. Isso será notado na exposição que se esten­
de do cap'ítulo 5 ao 7, nos quais tentaremos esclarecer em que consiste
a crítica da linguagem, como se realiza e quais são seus principais
resultados. No presente capítulo, nosso principal objetivo é mostrar
não apenas que a crítica da linguagem corresponde a uma crítica da
proposição, mas também quais as propriedades fundamentais da pro­
posição como objeto dessa crítica. Para tanto, daremos os seguintes
passos . Em primeiro lugar, caracterizaremos a crítica da linguagem e
seu objeto do ponto de vista específico da filosofia tractatiana. Em

143
Iniciação ao silêncio

segundo, mostraremos os principais aspectos da crítica wittgensteiniana


da proposição, por meio do postulado transcendental que ela envolve.
Em terceiro, procuraremos revelar como a teoria da proposição como
modelo se articula harmonicamente com este postulado transcendental.
Em quarto, tentaremos mostrar que as noções tractatianas de ' sentido '
e 'referência' contribuem para completar este quadro harmônico. Em
quinto e último lugar, extrairemos algumas conclusões da exposição
feita.

li - A crítica da l inguagem e seu objeto

Ao analisar o contexto e o ponto de partida da argumentação


tractatiana, pudemos constatar que os contemporâneos austríacos de
Wittgenstein tendiam, em sua maioria, a considerar a 'crítica da lin­
guagem ' como a tarefa mais importante da filosofia. A razão disso,
embora não tenha sido explicitada, parece ser a seguinte. Nosso co­
nhecimento busca a verdade e esta é expressa pela linguagem. Assim,
se pretendemos alcançar a verdade, temos de determinar, antes de
mais nada, como podemos expressá-la lingüisticamente. Isso situa a
tarefa de explicitar as condições pelas quais a linguagem é capaz de
exprimir a verdade numa posição de anterioridade em relação a todas
as demais tarefas filosóficas.
Em harmonia com os dados apresentados na Primeira Parte,
entenderemos a ' crítica da linguagem ' num sentido bastante próximo
ao da filosofia transcendental .de tipo kantiano. Sendo assim, podemos
dizer que o objetivo fundamental da filosofia tractatiana é estabelecer
as condições lógico-transcendentais de possibilidade da linguagem.
Entendida assim, esta filosofia está localizada acima ou abaixo das
ciências naturais, mas não ao lado delas (4. 1 1 1 ). Com efeito, ao esta­
belecer as condições de possibilidade da linguagem, a filosofia
:tractatiana estabelece ao mesmo tempo as condições de possibilidade
das linguagens dessas ciências. E isso lhe confere uma posição pecu­
liar no quadro do nosso conhecimento: enquanto as ciências naturais
meramente realizam a tarefa de descrever o mundo, a filosofia realiza
a tarefa mais fundamental de descrever as condições de possibilidade
da descrição do mundo. Nesse sentido, a filosofia não pode ser coloca-
1 44
A crítica tractat/ana da linguagem

da ao lado dessas ciências, mas sim em outro nível, acima ou abaixo


delas.
Em que consiste, todavia, a crítica da linguagem? O que constitui
seu objeto de estudo? Já sabemos que a ' crítica' , em sentido kantiano,
exige um objeto definido, um determinado analysandum, que é assu­
mido como o dado fundamental a partir do qual serão deduzidas as
condições transcendentais de possibilidade. No caso específico do
Tractatus, esse objeto determinado é a proposição. A crítica tractatiana
da linguagem se reduz a uma 'crítica da proposição ' . Wittgenstein não
explicita o porquê desse fato, mas acreditamos que, aqui também,
algumas razões podem ser encontradas, todas no espírito do Tractatus.
Em primeiro lugar, seguindo Frege, Wittgenstein considera que a
menor unidade lingüística é a sentença. Tudo indica que, na época da
elaboração do Tractatus, Wittgenstein assumiu como válido este prin­
cípio fregiano e erigiu-o como um dos pilares da crítica da linguagem
que realizou.
Em segundo lugar, as sentenças ou unidades mínimas de sentido
podem ser selecionadas e agrupadas em função do 'conteúdo judicável ' .
N o caso, por exemplo, do grupo formado por ' a porta está aberta' , ' a
porta está aberta? ' , 'abra a porta' e ' a porta está aberta!' , estudadas por
ocasião da apresentação das doutrinas de Frege, podemos dizer que o
' conteúdo judicável ' dessas sentenças é sempre o mesmo e pode ser
caracterizado como 'a circunstância de a porta estar aberta' . A diferen­
ça entre as sentenças está no modo como esse conteúdo é usado.
Em terceiro lugar, uma sentença declarativa expressa dado pen­
samento e, sob esse aspecto, é chamada de 'proposição ' . Nesse sen­
tido, ' der Welt is alies, was der Fali ist' e 'o mundo é tudo que é o
caso ' correspondem a duas sentenças diferentes, mas envolvem uma
única proposição. Embora pertençam a linguagens diversas, essas sen­
tenças possuem o mesmo conteúdo judicável e, assim, expressam o
mesmo pensamento. Com base nisso, podemos concluir que o ' con­
teúdo judicável ' , anteriormente mencionado, se aproxima bastante do
que Wittgenstein denomina 'pensamento ' no Tractatus. Em virtude
disso, a 'proposição ' tractatiana pode ser definida como a sentença
declarativa enquanto possui um conteúdo judicável, ou seja, enquanto
envolve a expressão de um pensamento, e não enquanto possui uma

1 45
Iniciação ao silêncio

aparência fenomênica mutável. É nesse sentido que o termo 'proposi­


ção ' será utilizado a partir deste ponto.
Em quarto lugar, a proposição assim entendida ocupa uma po­
sição privilegiada na crítica da linguagem. Com efeito, o ' conteúdo
conceituai ' comum ao grupo de sentenças anteriormente menciona­
do é ' a circunstância de a porta estar aberta' , ou seja, a descrição de
um pequeno domínio do nosso mundo, a descrição de um fato. Na
verdade, essa descrição poderia ser considerada constituinte do ' con­
teúdo descritivo ' dessas sentenças. Aqui atingimos o ponto mais
importante: a rigor, a proposição corresponde à sentença declarativa
uma vez que esta exprime o conteúdo descritivo comum a todas as
sentenças do grupo considerado. Assim, o que possibilita os diferen­
tes usos do conteúdo descritivo numa pergunta ( ' a porta está aber­
ta? ' ) , num comando ( ' abra a porta' ) ou numa exclamação ( ' a porta
está aberta! ' ) é o fato de ele poder ser expresso pela sentença decla­
rativa ( ' a porta está aberta' ) . Em outras palavras, para que possa­
mos, com sentido, fazer uma pergunta, dar uma ordem ou expressar
uma emoção sobre dado fato do mundo é preciso que antes sejamos
capazes de descrever este fato com sentido. Assim, se 'a porta está
aberta' é capaz de efetivamente descrever o fato considerado, esta
sentença possui um conteúdo descritivo autêntico que pode ser usa­
do, por exemplo, numa pergunta, numa ordem ou numa exclamação.
Nesse caso, todas as sentenças são dotadas de sentido. Se, porém ,
dada sentença não descreve um fato determinado, ela não possui
conteúdo descritivo autêntico que possa ser usado nos demais ti­
pos de sentenças do grupo correspondente. Seja, por exemplo, a
sentença
(5) 'a porta dorme' .
Seu conteúdo descritivo pode ser expresso como ' a circunstância
de que a porta dorme' . Ora, como portas não dormem, (5) não possui
conteúdo descritivo autêntico. Em virtude disso, as sentenças abaixo
também não possuem conteúdo descritivo autêntico:
(6) ' a porta dorme? ';
(7) ' que a porta durma' ;
(8) ' a porta dorme!' .
146
A crítica tractatiana da linguagem

Nesse caso, todas constituem contra-sensos 1 • Esse fato nos leva


à importante conclusão de que se restringirmos a análise apenas à
consideração da proposição ainda assim estaremos fazendo a crítica da
linguagem num sentido fundamental, envolvendo todos os tipos de
sentenças até agora mencionados. O importante a ser observado aqui
é que a ênfase no conteúdo descritivo permite reduzir a explicação de
todas as funções da linguagem a uma única, a saber, a função descri­
tiva2. Desse modo, a crítica tractatiana, uma vez direcionada para a
análise da proposição, fornece não somente as condições transcendentais
de possibilidade das sentenças declarativas, mas também as dos de­
mais tipos de sentenças cujo conteúdo descritivo é o mesmo, como,
por exemplo, perguntas, comandos, exclamações etc. E o resultado
final é que a crítica tractatiana fornece, assim, as condições
transcendentais de possibilidade de toda a linguagem 3 • Não é à toa que
um dos títulos cogitados por Wittgenstein na época da publicação do
Tractatus foi "A Proposição" ("der Satz").
Em resumo, a crítica da linguagem , como análise lógico­
-transcendental, constitui a tarefa primeira da filosofia. Esta análise
tem como objeto de estudo a proposição, ou seja, a unidade lingüística

l. É importante lembrar aqui que essas sentenças constituem contra-sensos


quando interpretadas literalmente. Elas poderiam ser utilizadas, sem qualquer proble­
ma, em sentido metafórico, como acontece em literatura. Isso, porém, não significa
que o uso metafórico envolva uma libertação da tirania do conteúdo descritivo. Com
efeito, embora o verso 'a porta dorme ' possa perfeitamente fazer parte de uma poesia,
ele só farâ sentido se estiver substituindo (metaforicamente) outra sentença cujo sen­
tido literal envolva um conteúdo descritivo autêntico. 'A porta dorme' pode, por
exemplo, estar substituindo a sentença 'a porta não se move ' ou 'a porta ocupa sempre
a mesma posição na parede' . A imobilidade da porta evoca a imobilidade da pessoa
que dorme, possibilitando a passagem do sentido literal para o metafórico. A concep­
ção tractatiana da linguagem exige que a metáfora só faça sentido quando apoiada
numa comparação envolvendo uma sentença significativa que é interpretada literal­
mente. Para maiores esclarecimentos, ver, mais adiante, a aplicação dos resultados da
crítica da linguagem à ética e à metafisica.
2. Idéia parecida pode ser encontrada em Stenius ( 1 969, cap. IX).
3. Este era o projeto original de Wittgenstein. O desenvolvimento de sua inves­
tigação, porém, o levou muito além da mera análise lógica da linguagem. No início,
ele buscava apenas a essência da proposição. Aos poucos, porém, deu-se conta de que
"dar a essência da proposição significa dar a essência de toda descrição e, portanto,
a essência do mundo" ( 1 922: 5.47 1 1 ). A anâlise lógica da linguagem desembocou
numa ontologia.

147
Iniciação ao silêncio

mínima (ou sentença declarativa) enquanto expressa um pensamento.


A proposição possui uma posição tão privilegiada em nossa linguagem
que a descrição de suas condições transcendentais de possibilidade
corresponde à descrição das condições transcendentais de possibilida­
de da linguagem como um todo.

Ili - A crítica da proposição

Façamos agora a anâlise lógico-transcendental da proposição. O


primeiro ponto a ser destacado é que "uma proposição tem uma e
somente uma anâlise completa" ( 1 922: 3 .25). Isso significa que, se
fizermos a anâlise exaustiva de dada proposição de nossa linguagem,
chegaremos sempre ao mesmo resultado. A anâlise não oferece alter­
nativas diferentes a partir das quais possamos escolher ora uma via,
ora outra. Embora esse princípio não seja inteiramente evidente,
constitui o postulado básico da análise tractatiana da linguagem4•
O segundo ponto a ser salientado é que, sob pena de tomar-se um
inevitável regresso ad infinitum, a anâlise deve terminar em algum
lugar. Isso é enfaticamente expresso por Wittgenstein em 4.22 1 : "É
óbvio que devemos, na anâlise das proposições, chegar a proposições
elementares que consistem em nomes em ligação imediata" ( 1 922). Já
foi dito que as proposições de nossa linguagem correspondem às
unidades lingüísticas, embora algumas delas possuam uma estrutura
complexa. Ora, isso significa que a anâlise de uma proposição com­
plexa qualquer deverá forçosamente levar às proposições elementares
que a constituem. O que é, contudo, uma proposição elementar? Po­
demos defini-la como constituinte de uma unidade lingüística mínima,
aquela que é obtida como resultado último da anâlise lógico-trans­
cendental: a proposição elementar é um "átomo da linguagem". Para
além dela não existe mais a linguagem como tal, e sim um mero
aglomerado de expressões isoladas. Estas últimas são os 'nomes ' , que
são introduzidos por Wittgenstein a partir de 3 . 1 42. Esses ' nomes ' ou
' signos simples' revelam-se necessários em virtude de outro princípio:

4. Mais tarde, nas Investigações, o próprio Wittgenstein criticou este postulado


da análise transcendental da proposição ao mostrar que os 'elementos simples ' são tão
diversos quanto diversas são as maneiras de obtê-los (cf. 1 953: 1, 47-48).

148
A crítica tractatiana da linguagem

"a exigência ('Forderung' ) da possibilidade de signos simples é a


exigência da determinabilidade do sentido" ( 1 922: 3 .23). Em outras
palavras, a proposição (complexa ou não) deve ter um sentido deter­
minado. Se ela o tem, é porque as proposições elementares que a
compõem também o possuem. Mais ainda: se as proposições elemen­
tares possuem sentido determinado, é porque são formadas por nomes
em ligação imediata. Para facilitar a exposição, a explicação mais
detalhada e a justificativa da necessidade deste princípio serão dadas
ao longo deste capítulo. No momento, vamos somente supor que o
princípio está correto nos termos em que foi formulado e postular sua
verdade.
Para tomar mais claros os resultados da análise wittgensteiniana,
utilizaremos a seguinte analogia. Suponhamos ter em mãos uma foto
colorida de Fobos, satélite de Marte, tirada por uma sonda espacial.
Suponhamos que a foto seja descrita pela seguinte proposição: "a foto
de Fobos mostra, sobre um fundo negro, um astro de forma tal e tal,
com crateras em tais e tais posições"5 • Essa é uma proposição comple­
xa cuja análise completa deverá necessariamente levar às suas cons­
tituintes elementares. Para entender como isso seria possível, conside­
remos o processo pelo qual a sonda espacial envia a foto de Fobos para
a Terra. Ao aproximar-se do satélite de Marte, a sonda o fotografa. Para
transmitir a foto à Terra, o computador da nave a decompõe em uma
série de pontos distribuídos em retícula, conforme a figura abaixo:
.. . .. .. . . . . ..... . ....... . . . . . . . . . . .......... . . . . . . . . . . . . . . . . ............... . . . .. .. .. . .... ..... . . ..
. . . . . . . . . . . .. .. .. ... . . .. .. .. . . ........ . . . . . . . . . . . . . . . . . .. .. .. .. .. . .. .. .. .. .. .. .. .. . .....
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. . .......... . . . . . . . . . .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. . . ..... . ..... . . . . .... . .... .. ..... . . ....
.....................................................................................

. . . . . . .. .. . .. .. .. . . ... ... .. .. . ......


. . . . . . .. . . .... . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. .. .. .. . ..... . . ........ . . . .. .. .. .. . .. . . .. .. .. .. .. .. . ..
. . . . . . . . . .
. . . . . . ..... .
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·····················································································

. .. .. .. .. .. .. .. .. .. . .. .. .. .. .. .. .. .. .. . .. .. .. .. .. .. . .. . .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. . .. .. .. .. .. .. ..... . ..... .. .. . . ........


.....................................................................................

. .
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. . .
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. ..
.
. . . . .
. . . . . . .. .. .. .. .. . .. . .. .. . .. .. .
·····················································································

A cor de cada um desses pontos é então analisada em termos de


seus componentes essenciais. Para facilitar a analogia, façamos de

5. A partir desse momento, sempre que nos referirmos a dada proposição esta­
remos usando a sentença declarativa que a expressa. Mais adiante, no detalhamento
da lógica do Tractatus, explicaremos em que consiste exatamente a proposição e qual
a sua relação.com a sentença declarativa que a expressa. Este problema fica mais ou
menos diluído na versão alemã porque a palavra ' Satz ' é ambígua, significando, ao
mesmo tempo, ' sentença' e 'proposição' .

1 49
Iniciação ao silêncio

conta que esses componentes sejam apenas as respectivas quantidades


de vermelho, amarelo e azul; cada uma das quais viria expressa numa
escala de 'O' a ' 9 ' . Desse modo, a cor de certo ponto da foto poderia
ser, por exemplo, analisada em '2' para vermelho, ' 5 ' para amarelo, e
' 7 ' para azul. E a apresentação desses números na série '257' poderia
expressar a cor do ponto considerado pela combinação das quantida­
des de cores elementares na ordem 'vermelho-amarelo-azul '6•
Isso equivale a adotar um sistema de referência segundo o qual
cada ponto colorido é definido por cinco coordenadas . Duas delas
determinam a posição do ponto na retícula7 • As três restantes deter­
minam a cor do ponto. A representação gráfica deste sistema exigi­
ria um espaço de cinco dimensões. Embora não seja possível cons­
truir uma imagem intuitiva de tal "espaço'', ele existe a partir das
relações puramente matemáticas entre essas coordenadas . Para sim­
plificar nosso raciocínio, faremos abstração das duas coordenadas
espaciais e ficaremos apenas com as três que compõem a cor de
cada ponto. Isso nos permitirá construir um sistema de três eixos
ortogonais, 'OX', 'OY' e 'OZ', que se cruzam no ponto 'O'. Assim,
a tonalidade de cor vermelha poderia corresponder a uma medida no
eixo 'OX'; a de cor amarela, a uma medida no eixo 'OY'; a de cor
azú l, a uma no eixo 'OZ'. E as coordenadas de determinado ponto
colorido, digamos, ' P ' , seriam dadas na ordem ' x , y, z ' . Na f igura
a seguir, temos representado o ponto colorido ' A' , cujas coordena­
das são 2, 3 e 7 8 :

6. Embora a foto seja primariamente concebida como uma representação de


Fobos, ela também corresponde a um fato do mundo. Para que nossa analogia possa
ser compreendida adequadamente, devemos entendê-la neste último sentido, a saber,
como um fato complexo cuja análise conduzirá aos fatos atômicos que o constituem.
7. Em geometria analítica, a posição de um ponto num plano é dada a partir de
um sistema formado por dois eixos ortogonais. A distância do ponto ao eixo horizon­
tal é chamada ' ordenada' , e sua distância ao eixo vertical, 'abscissa' . Essas duas
coordenadas constituem o que poderíamos denominar a "latitude" e a "longitude" do
ponto no sistema reticulado em que a foto se transformou.
8. Convém lembrar que as tonalidades das cores elementares são medidas numa
escala que envolve apenas os números inteiros de 'O' a ' 9 ' . Dessa forma, nem todos
os pontos de cada um dos três eixos ortogonais fazem parte da representação. Aqueles
entre 'O' e 'l , por exemplo, ficam excluídos. Isso, contudo, não prejudica nosso
'

raciocínio, pois não afeta o espírito da representação gráfica envolvida.

150
A crítica tractatlana da linguagem

y
A (2, 3, 7)
�--71

/
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1 // 1
3 ---!
11
1--)
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1 /
X

Ora, isto corresponde à descrição de um sistema físico (no caso,


de um conjunto de pontos coloridos) de acordo com a teoria dos
modelos de HertzJBoltzmann ou, mais exatamente, de acordo com a
teoria dos modelos de Hertz aprimorada por Boltzmann.
Com base nessa descrição puramente matemática, a foto poderia
ser reduzida a uma tabela de séries de três coordenadas, como no
exemplo abaixo:
257 258 267 268 367 368 266 356 285 1 95 200
289 476 098 759 295 396 456 256 498 798 1 22
322 546 844 298 2 1 1 1 1 1 85 1 75 1 246 258 255
Cada série de coordenadas descreveria de maneira completa a cor
de um e somente um ponto da retícula. E o conjunto total das séries,
lido de cima para baixo e da esquerda para a direita, forneceria a
descrição e a posição exata de cada ponto e, assim, descreveria toda
a foto. Ao ser enviada à Terra, a tabela seria decodificada por outro
computador que, obedecendo às posições e às combinações de quan­
tidades de cores determinadas pelas séries de coordenadas para cada
ponto, reconstituiria a foto original com a maior precisão possível.
Nesse exemplo, a proposição "a foto de Fobos mostra, sobre um
fundo negro, um astro de forma tal e tal, com crateras em tais e tais

15 1
Iniciação ao silêncio

posições" corresponde à proposição complexa de nossa linguagem,


que descreve determinado fato (neste caso, a foto tirada pela sonda);
.
a tabela de séries de coordenadao/ corresponde ao resultado da análise
da proposição complexa em suas componentes atômicas, que descre­
vem a mesma foto por meio de uma linguagem logicamente perfeita9•
Isso é possível porque a proposição complexa é colocada numa rela­
ção projetiva com a tabela de séries de coordenadas, relação esta que
pode ser comparada à que existe entre um círculo e uma elipse, quan­
do os pontos do primeiro são projetados ortogonalmente sobre um
plano que forma um ângulo com o plano que o contém, formando
uma elipse:

1"="

1 e 1

..
I 7
I I
I I
I I
1
I
I I
1
1 ipse

Segundo a analogia, o círculo é projetado na elipse assim


como a linguagem corrente é projetada na linguagem do computa­
dor. Apesar de as figuras geométricas envolvidas serem diferentes,
os pontos do círculo podem ser colocados em correspondência
biunívoca com os pontos da· elipse. De maneira análoga, a análise
feita permite que a proposição complexa que descreve a foto de
Fobos seja colocada em correspondência biunívoca com a tabela de
séries de coordenadas, que também descreve a foto de Fobos, mas

9. Nas Investigações (1953: 1, 60), Wittgenstein faz uma crítica a essa posição
tractatiana. Para tanto, ele usa éomo exemplo a proposição 'minha vassoura está no
canto', cuja "análise completa" equivaleria a 'o cabo da vassoura está no canto e a
escova da vassoura está no canto e a escova está fixada ao cabo ' . Embora esse
exemplo seja bem mais grosseiro que aquele que acabamos de dar, o espírito dos dois
é exatamente o mesmo.·

152
A crítica tractatiana da linguagem

de maneira muito mais acurada. Se isso é verdade, o importante a


ser destacado aqui é que qualquer proposição complexa da l ingua­
gem corrente também pode ser decomposta pela análise e colocada
numa relação projetiva com a correspondente articulação de propo­
sições atômicas.
Além disso, cada série de coordenadas constitui a descrição com­
pleta de um único ponto colorido da foto de tal maneira que, ao
analisarmos uma única série, decompondo-a em seus algarismos
constitutivos, destruiremos a descrição do ponto respectivo, obtendo,
em seu lugar, um mero amontoado de algarismos que, isoladamente,
nada significam10• Com efeito, cada ponto da foto é completamente
descrito por uma série de três coordenadas; dissecando-se a série,
disseca-se a descrição do ponto; restam apenas três algarismos isola­
dos, que agora não descrevem ponto algum. Mesmo assim, o conjunto
formado por todas essas coordenadas constitui o que poderíamos cha­
mar de a "substância" da linguagem que descreve a foto, no sentido
de que o total de trinta algarismos (escala de 'O' a ' 9 ' ou dez al­
garismos para o vermelho no eixo 'OX', escala de 'O' a ' 9 ' ou dez
algarismos para o amarelo no eixo 'OY' e escala de 'O' a ' 9 ' ou
dez algarismos para o azul no eixo 'OZ') constitui a base imutável
para a descrição de qualquer foto. As combinações dessas coordena­
das três a três e suas respectivas posições na lista é que são mutáveis,
determinando, assim, todos os tipos possíveis de pontos coloridos
numa foto. É nesse sentido que podemos dizer que cada algarismo é
o nome próprio de determinada quantidade de uma cor elementar e
que cada série ordenada de três algarismos se compõe de nomes em
ligação imediata. De maneira análoga, as proposições da nossa lin­
guagem podem ser reduzidas, pela análise, a combinações lógicas de
proposições atômicas, as quais se compõem de nomes próprios em
ligação imediata. Dissecando uma proposição atômica, obteremos
apenas um amontoado de nomes isolados que, em si mesmos, nada
significam.

10. Por exemplo, para descrever um ponto da foto cuja cor envolvesse apenas
a quantidade '2' para o vermelho, sua descrição completa deveria ser '200' e não
apenas '2'.

1 53
Iniciação ao silêncio

Embora a analogia usada nos aproxime da concepção tractatiana,


a clareza de idéias exige que mostremos em que medida essa mesma
analogia se afasta de tal concepção. Da maneira que foi realizada, a
análise da foto de Fobos permitiu que soubéssemos quantos e quais
são os signos simples que constituem as proposições atômicas da
linguagem do computador. Com base nisso, poderíamos até mesmo
efetuar todas as combinações possíveis de signos simples e dar as­
sim a lista completa das proposições atômicas dotadas de sentido.
No caso do Tractatus, porém, as coisas devem ser vistas de modo
diferente. Para Wittgenstein, a unidade lingüística mínima é a sen­
tença, que constitui um fato do mundo. Nessa perspectiva, nossa
linguagem nada mais é que o somatório de todas as sentenças pos­
síveis, o qual existe no nível fático. Ao fazer parte da linguagem, cada
uma dessas sentenças possíveis possui um sentido determinado, que
pode ser explicitado pela análise. Esta, quando completa, conduz às
proposições atômicas.
Até aqui, a comparação com a descrição da foto pelo sistema de
três coordenadas funciona. A partir deste ponto, contudo, a analogia
falha. Com efeito, embora as proposições atômicas tractatianas cons­
tituam o resultado da análise completa da proposição, sabemos que se
compõem de signos simples, os quais não existem no nível fático,
mas no nível transcendental. O raciocínio de Wittgenstein é o seguin­
te: se as proposições complexas da nossa linguagem têm um sentido
determinado, elas devem ser constituídas de articulações de propo­
sições atômicas que existem no nível fático e, portanto, são fatos";
se as proposições atômicas devem corresponder ao ponto de chega­
da da análise, elas devem ser constituídas de signos simples, que
devem existir no nível transcendental das condições de possibilida­
de das proposições atômicas, que são fatos. E, em virtude da posi­
ção privilegiada da proposição na explicação do funcionamento da
linguagem, podemos também dizer que as proposições atômicas e os
signos simples devem ser condições transcendentais de possibilida­
de não apenas da proposição, mas da própria linguagem como um

11. Ver, mais adiante, na apresentação da Teoria Pictórica, a comprovação desta


última afirmativa.

154
A crítica tractatiana da linguagem

todo. Mais ainda: tendo em vista que as diferentes linguagens, como


o português, o alemão, ou a linguagem formal dos Principia, têm
todas o mesmo princípio de funcionamento baseado no conteúdo des­
critivo, pode-se inferir que a proposição possui posição privilegiada
em cada uma delas. Dessa forma, as proposições atômicas e os signos
simples devem constituir condições transcendentais de possibilidades
de toda e qualquer linguagem dotada de sentido. Esta hipótese
corresponde ao postulado transcendental que permeia toda a análise
tractatiana.
Fazendo uma analogia com Boltzmann, poderíamos dizer que
Wittgenstein considera cada proposição atômica como um "ponto"
num sistema de referência cujas "coordenadas" são os signos simples
que a constituem. As "coordenadas" são condições de possibilidade
dos "pontos'', pois dissecando-se uma dada série de "coordenadas"
elimina-se o "ponto" correspondente. A diferença é que, para
Boltzmann, o sistema da coordenadas utilizadas para descrever dado
sistema físico é sempre arbitrário, enquanto Wittgenstein assume que
o "sistema de coordenadas" formadas pelos signos simples é necessá­
rio, pois constitui condição transcendental de possibilidade da propo­
sição atômica. Tudo indica que, para explicar como é possível a pro­
posição dotada de sentido, Wittgenstein acaba por "transcendentalizar"
o modelo de Boltzmann1 2•
A aceitação do postulado transcendental formulado acima, po­
rém, nos leva ao seguinte paradoxo: a análise revela que não é pos­
sível exibir signos simples ou nomes, pois eles pertencem ao nível
transcendental e não ao dos fatos; se não é possível exibir nomes,
também não é possível exibir a forma lógica das proposições atômi­
cas, que são articulações desses nomes. Assim, para Wittgenstein, apesar
de sabermos que as proposições atômicas correspondem às condições

12. É verdade que só dispomos da infonnação de que Wittgenstein leu os


Populiire Schriften de Boltzmann, em que não há referência explícita aos sistemas de
coordenadas. Como estudioso de matemática e engenharia, contudo, Wittgenstein certa­
mente estava familiarizado com sistemas de coordenadas. Nossa conjetura de que ele
"transcendentalizou" este esquema ao aplicá-lo à análise da linguagem se baseia no fato
de que a idéia dos signos simples e suas combinações revela-se espantosamente
compatível com a de um sistema de "coordenadas transcendentais".

155
Iniciação ao silêncio

transcendentais de possibilidade da linguagem, somos incapazes de


fornecer o número de signos simples que as constituem e, por causa
disso, somos também incapazes de fornecer a composição das pró­
prias proposições atômicas ( 1 922: 5.55). Não podemos, sob pena de
incorrer em contra-senso, dar a lista das proposições elementares ( 1 922:
5.5571). Isso não impede, contudo, que tenhamos um conceito de
proposição atômica, abstração feita de sua forma particular ( 1 922:
5.555)13• Desse modo, se as proposições da nossa linguagem têm um
sentido determinado, elas devem ser redutíveis, pela análise lógica,
a combinações de proposições elementares, que nada mais são que
signos simples em ligação imediata. Embora não tenhamos condições
de estabelecer a priori quais são os signos simples e, portanto, qual
a forma das proposições elementares, temos certeza da necessidade
deles.
Como se pode notar, a principal diferença na l inguagem do
computador da sonda é que, nesta, os "signos simples" são coorde­
nadas arbitrárias que existem no nível fático. Isso permite exibir não
apenas tais coordenadas, mas também a forma lógica das "proposi­
ções elementares", que consistem em seqüências de três números.
Nesse sentido, as expressões consideradas ainda não correspondem
a proposi ções elementares ou a signos si mples em senti do trac­
tatiano. Poderíamos até mesmo dizer que, a rigor, as proposi ções
da l inguagem do computador ainda são complexas e só fazem
sentido porque pressupõem, como condições transcendentai s de
possibi lidade, as proposições elementares e os s ignos simples
tractati anos 14•

13. Embora por razões diferentes, Wittgenstein também afirma que não pode­
mos sequer perguntar se existem proposições atômicas com a forma sujeito-predicado
(1922: 4.1274). Ver, a este respeito, o capítulo que trata do estatuto argumentativo das
proposições do Tractatus.
14. Outra divergência está no fato de que os signos simples tractatianos não são
ambíguos e devem ser todos diferentes entre si, ao passo que os trinta signos simples
da linguagem da foto envolvem repetições de algarismos, como, por exemplo, '222'.
Aqui, embora o algarismo seja o mesmo, é sua posição que determina a diferença de
um signo para outro. O primeiro '2' é o nome de uma tonalidade de vermelho; o
segundo, de uma tonalidade de amarelo; o terceiro, de uma tonalidade de azul.

156
A crítica tractatiana da linguagem

IV - A proposição como modelo do fato

Levado às suas últimas conseqüências, o postulado transcendental


do Tractatus conduz à explicação da proposição por meio da Teoria
Pictórica 1 5• Com efeito, o postulado estabelece que as proposições
complexas da nossa linguagem têm sentido porque podem ser comple­
tamente analisadas em proposições atômicas que constituem configu­
rações de signos simples. Qual é, porém, a função dos signos simples?
Conforme veremos na seqüência, eles devem ser capazes de designar
objetos simples, cujas configurações constituem fatos atômicos. Estes
últimos são descritos pelas proposições atômicas e correspondem ao
ponto final da análise das situações ou fatos complexos, que são des­
critos pelas proposições complexas da nossa linguagem. Este movi­
mento de raciocínio pressupõe um rigoroso paralelismo entre a propo­
sição e o fato por ela descrito. Para efetuar e sta manobra, Wittgenstein
tem de enfrentar o desafio de explicar como este paralelismo é possí­
vel. Este desafio é maior ainda porque ele, como Frege, rejeita o
psicologismo. Assim, a explicação exigida deverá ser feita em termos
puramente lógicos, excluindo qualquer apelo a mecanismos psicológi­
cos. O nó górdio da questão está na explicação lógica do sentido da
proposição, pois os mecanismos a serem evitados parecem estar pre­
sentes todas as vezes que apreendemos o "sentido" de uma expressão
lingüística. Para resolver o problema, Wittgenstein elaborou a famosa
Teoria Pictórica.
De acordo com essa teoria, a proposição dotada de sentido é uma
figuração lógica do fato que ela descreve. Isso pode ser deduzido da
conjunção do aforisma 3, em que 'figuração lógica dos fatos ' equivale
a ' pensamento ', com o aforisma 4, em que ' pensamento ' equivale a
'proposição dotada de sentido ' ( 1 922: 3; 4). A consideração dessas
equivalências já permite perceber o alcance da teoria: ao explicar o
que é uma figuração lógica, estaremos explicando simultaneamente o
que é uma proposição dotada de sentido e o pensamento a ela relacio­
nado.

1 5 . Consideramos esta expressão como sinônimo de ' teoria da proposição como


modelo do fato' . Ver, a respeito, as notas 12 e 1 7 .

157
Iniciação ao silêncio

A idéia diretora da Teoria Pictórica surgiu durante a Primeira


Grande Guerra, quando Wittgenstein servia na frente oriental. Mais
tarde, ele contou o que ocorrera a seu amigo von Wright: ao ler numa
revista uma reportagem sobre um acidente automobilístico, constatou
que, durante o julgamento que se seguiu, uma das partes apresentou
um modelo em miniatura do acidente. Ele percebeu então que o
modelo figurava ou representava o acidente medi ante a correspon­
dênci a entre as miniaturas utilizadas e as coisas reais envolvidas
(casas, pessoas, automóveis). Isso sugeriu-lhe que, de modo aná­
logo, uma proposição poderi a ser um modelo que figuraria ou re­
presentari a o fato por meio da correspondência entre as partes da
proposição e os elementos constitutivos do fato por ela descrito (cf.
Monk 1 995: 1 1 7) 16•
Essa idéia foi intensivamente trabalhada por Wittgenstein até dar
origem à Teoria Pictórica em sua forma acabada. Para melhor explicá­
-la, retomemos o exemplo da foto do satélite Fobos . Já ficou esta­
belecido que a explicação do sentido da proposição complexa da
nossa linguagem que descreve a foto se reduz à explicação do
sentido das "proposições atômicas" que a constituem. Considere­
mos agora uma das "proposições atômicas" provenientes da análi­
se completa dessa proposição complexa, como, por exemplo, ' 237 ' .
Podemos extrair as seguintes propriedades dessa proposição como
figuração 1 7 •
Em primeiro lugar, a proposição constitui um fato ( 1 922: 2. 1 4 1 ).
Mai s adi ante, Wittgenstein esclarece isso di zendo que o signo

16. Como pretendemos mostrar no capitulo 9, isto está diretamente relacionado


com a teoria hertziana dos modelos, que incluem elementos em configuração mais
uma relação projetiva.
17. A palavra que Wittgenstein usa para expor sua teoria é 'Bild ' , que significa
'imagem ' , 'figura' , 'figuração' , 'quadro' , 'pintura' , 'gravura' , 'retrato ' . Esta é a razão
pela qual, na exposição da teoria pictórica, essas palavras e suas cognatas serão
utilizadas como equivalentes. Em 4.01, porém, Wittgenstein equipara 'figuração' a
'modelo' ('Modell'). Esta é uma palavra mais interessante porque, como veremos no
capitulo 12, aproxima de maneira significativa as teorias de Wittgenstein e Hertz. Se
isso é verdade, a melhor tradução para 'Bild' seria 'modelo' .

1 58
A crítica tractatiana da linguagem

proposicional consiste em que seus elementos constitutivos, a saber, as


palavras, estão relacionadas entre si de determinada maneira ( 1 922:
3 . 1 4) . É isso que faz do signo proposicional um fato. Nesse sentido,
ele é articulado ( 1 922: 3 . 1 4 1 ). Da mesma forma que um tema musical
não é meramente uma mistura de sons, a proposição não é mero
amontoado de palavras (idem). ·

Em segundo, a proposição constitui uma figuração porque é um


fato (lingüístico) utilizado para representar outro fato (do mundo) ( 1 922:
2. 1 1 ). Conforme veremos adiante, apenas fatos podem exprimir um
sentido. A linguagem descreve o mundo porque coloca fatos lingüísticos
em correspondência com fatos mundanos. Assim, as proposições com­
plexas da nossa linguagem constituem fatos lingüísticos complexos
que são colocados em correspondência com situações do mundo; as
proposições atômicas constituem fatos lingüísticos atômicos que são
colocados em correspondência com fatos atômicos do mundo. De
acordo com a Teoria Pictórica, a proposição '237' é capaz de descre­
ver dado ponto colorido da foto porque é um fato colocado em cor­
respondência com outro fato .
Em terceiro lugar, a proposição representa o fato do mundo por­
que possui algum tipo de isomorfismo com ele. Em nosso exemplo,
a proposição ' 237 ' descreve o ponto colorido 'P', por exemplo, por­
que ambos, proposição e ponto, possuem uma identidade estrutural .
Em outras palavras, '237' possui uma configuração tal que os "no­
mes" ' 2 ' , ' 3 ' e ' 7 ' (os quais, isoladamente, nada significam) produ­
zem uma "proposição atômica" dotada de um sentido que depende
exatamente dessa configuração (disposição desses nomes em uma
ordem e posições definidas); o ponto colorido possui uma configura­
ção tal que os "objetos simples" 'vermelho grau 2 ' , 'amarelo grau 3 '
e 'azul grau 7 ' (os quais, isoladamente, "não existem" no nível dos
fatos) produzem um "fato atômico" determinado que depende exata­
mente dessa configuração (distribuição desses "objetos" em uma ar­
ticulação definida). E esta identidade estrutural permite que se colo­
que a seqüência ' 237 ' numa relação projetiva com o ponto que ela
descreve, gerando uma proposição dotada de sentido. Isso pode ser
esquematizado pela figura a seguir:

159
-

I
OI
Proposição Atômica +----+ (nível fático) 111 • Ponto Colorido
Q

§•
l:l
o
!!!.
Relação
Projetiva (RP) �
o

y Y'

RP

RP

X X'

Signos Simples (nível transcendental) 111 -=---r"Objetos Simples


SISTEMA 'Sl' DE COORDENADAS DA SISTEMA 'S2' DE COORDENADAS DO
PROPOSIÇÃO ATÔMICA FATO ATÔMICO
A crítica tractatiana da linguagem

Nesta figura, ' V2 ' , ' M5 ' e ' A7 ' representam, respectivamente, os
objetos simples ' vermelho tonalidade 2 ' , ' amarelo tonalidade 5 ' e ' azul
tonalidade 7 ' . Temos aqui dois sistemas de coordenadas colocados em
relação projetiva um com o outro. Em cada um deles, distinguem-se
o nível fático, que corresponde ao nível dos "pontos" descritos pelos
respectivos sistemas (proposições atômicas, no sistema 'S 1 ' e fatos
atômicos, no sistema ' S2 ' ) , e o nível transcendental, que corresponde
ao nível das coordenadas destes "pontos". Assim, entendendo 'figura­
ção ' ( ' Bild ' ) no sentido de 'modelo ' , podemos dizer com Wittgenstein
que a cada objeto deve corresponder um nome na figuração ( 1 922:
2. 1 3) . Cada nome na figuração substitui dado objeto (1 922: 2. 1 3 1 ) . Os
elementos da figuração estão relacionados entre si de um modo deter­
minado ( 1 922: 2. 1 4) . O fato de deles estarem assim relacionados re­
presenta o modo determinado pelo qual os objetos estão relaciona­
dos entre si ( 1 922: 2. 1 5). O modo pelo qual os nomes estão relacio­
nados constitui a estrutura da figuração. Já a possibilidade dessa estru­
tura constitui a forma da afiguração (idem). Esta última consiste na
possibilidade de que os objetos estejam uns para os outros no fato
atômico assim como os nomes estão entre si na figuração ( 1 922: 2. 1 5 1 ) .
Isso significa que a figuração possui também uma relação afiguradora
(ou projetiva) que consiste nas coordenações entre os nomes e os
objetos correspondentes. Essas coordenações funcionam como se fos­
sem as "antenas" dos nomes, por meio das quais a figuração "toca" a
realidade ( 1 922: 2. 1 5 1 3- 1 5 1 5). A proposição '237 ' de nosso exemplo,
como fato, descreve outro fato (o ponto colorido) porque possui algo
em comum com ele: eles são descritos por sistemas isomórficos . É por
isso que Wittgenstein afirma que deve haver algo em comum entre a
figuração e o afigurado para que uma possa representar o outro ( 1 922:
2. 1 6 1 ) .
Em quarto lugar, o sentido da figuração é dado pela combinação
dos dois aspectos fundamentais anteriormente mencionados: a confi­
guração dos nomes mais a relação projetiva. Assim, a figuração ' 237 '
exprime um sentido porque consiste numa configuração determinada
dos nomes ' 2 ' , ' 3 ' e ' 7 ', que se encontram numa relação projetiva com
os respectivos objetos 'vermelho grau 2 ' , 'amarelo grau 3' e ' azul grau
7 ' . Somos capazes de reconhecer, no interior da própria figuração, o
fato que ela afigura. Isso autoriza Wittgenstein a dizer que a figuração

161
Iniciação ao silêncio

representa o seu sentido ( 1 922: 2.22 1 ). Todavia, nos termos da con­


cepção tractatiana, o fato de a proposição ter sentido não implica que
ela tenha um significado. Em termos da Teoria Pictórica, esta circuns­
tância é expressa da seguinte maneira:
"À proposição pertence tudo que pertence à projeção,· mas
não o projetado.
Portanto, a possibilidade do projetado, mas não ele próprio
( ... )" ( 1 922: 3 .I3).
Isso significa que não podemos, a partir da figuração, determinar
sua verdade ou sua falsidade (I922: 2.224). Assim, para determinar se
dada figuração é verdadeira ou falsa, temos de comparâ-la com a
realidade (I922: 2.223). Não hâ figuração verdadeira a priori (I922:
2.225) 1 8 •
Em quinto lugar, embora a figuração possa afigurar o fato, ela
não pode afigurar a própria forma da afiguração que utiliza para afi­
gurar o fato (I922: 2.I72). Com efeito, dada proposição atômica, no
sistema 'SI ', pode entrar em relação projetiva e descrever perfeita­
mente um ponto colorido pertencente ao sistema 'S2 ' . Mas nem ela
nem qualquer outra proposição atômica no interior de 'SI ' é capaz de
entrar em relação projetiva com a articulação lógica de suas próprias
coordenadas: falta o isomorfismo necessário para tanto. Os sistemas
'SI ' e 'S2 ' foram projetados exclusivamente para descrever pontos
com três coordenadas. A descrição da estrutura lógica das coordenadas
de dado ponto escapa ao poder descritivo de ambos os sistemas . Com
base nisso, Wittgenstein pode afirmar que a forma da afiguração é a
forma lógica do fato (I922: 2.I8I-I82; 2.I9), a condição de possibi­
lidade da figuração. Desse modo, toda figuração jâ pressupõe a forma
da afiguração: qualquer tentativa de afigurâ-la estaria fadada ao fra­
casso porque pressuporia aquilo mesmo que pretende afigurar. Em
outras palavras, dada proposição pode descrever um fato, mas não a
estrutura comum entre ela e o fato: esta estrutura é a condição de
possibilidade da própria descrição que a proposição estâ fazendo e não
pode ser descrita. Mesmo assim, a figuração exibe sua forma de

1 8 . Esta propriedade serã objeto de consideração detalhada quando discutirmos,


na seção V, a concepção tractatiana do sentido e do significado dos signos lingüísticos.

162
A crítica tractatiana da linguagem

afiguração (idem). Isso prenuncia a distinção entre dizer e mostrar,


que, conforme veremos mais adiante, ê crucial para a filosofia do
Tractatus. Por enquanto basta ter em mente que, na medida em que
descreve um fato, a proposição simultaneamente diz que as coisas
estão de uma certa maneira e mostra a forma lógica do estado de
coisas descrito ( 1 922: 4.022; 4. 1 2 1 ).
Atê agora, o movimento do raciocínio de Wittgenstein ê o se­
guinte. Já sabemos que a critica da linguagem se reduz à critica da
proposição dotada de sentido. A análise completa da proposição con­
duz ao postulado transcendental das proposições atômicas e signos
simples. Assim, a explicação da estrutura da proposição complexa se
reduz à explicação da estrutura da proposição atômica. Cada propo­
sição atômica constitui uma figuração (ou modelo) de um fato. A
razão disso ê que a própria proposição atômica ê um fato (lingüístico)
utilizado para representar outro fato (do mundo). A proposição atômi­
ca representa o fato do mundo porque possui algum tipo de isomorfismo
com ele. O sentido da proposição atômica, como figuração, ê dado
pela combinação de dois aspectos fundamentais anteriormen�e men­
cionados: a configuração dos nomes mais a relação projetiva que liga
tais nomes aos objetos que eles designam. Essa constatação, porêm,
deixa claro que, embora a figuração possa afigurar o fato, ela não
pode afigurar a própria forma da afiguração que está sendo utilizada
para afigurar o fato.
A Teoria Pictórica.estabelece uma estrita correspondência entre
a proposição e o fato que ela descreve. Isso mostra que o postulado
transcendental, que atê então tinha sido pensado apenas do ponto de
vista lingüístico, tem uma contrapartida extralingüística: para fazer
sentido, a proposição atômica tem de descrever um fato atômico; do
mesmo modo que a proposição atômica se compõe de signos simples,
o fato atômico deve ser composto de objetos simples; alêm disso,
cada signo simples deve ser capaz .de designar inequivocamente um
e somente um objeto simples. A crítica da linguagem estende-se para
o mundo. No quadro desta análise transcendental, a Teoria Pictórica
tem a vantagem de eliminar qualquer aspecto subjetivo ao caracterizar
o sentido da proposição de maneira puramente lógica. Com efeito, a
proposição ê uma figuração e esta tem sentido porque ê um fato
isomorficamente projetado sobre outro fato. Embora não tenham senti-

163
Iniciação ao silêncio

do, os signos simples ou nomes têm significado, isto é, apontam para


os objetos correspondentes. Este apontar estabelece as bases para uma
projeção do fato lingüístico sobre o fato mundano a ser descrito. Se a
configuração dos nomes for a mesma que a dos objetos corresponden­
tes, a projeção dos primeiros sobre os últimos faz com que a configu­
ração de nomes possa representar a configuração dos objetos. Por
meio desse mecanismo, podemos pensar o fato mediante a proposição.
Mas a proposição dotada de sentido não se distingue nem da figuração
do fato nem do pensamento que ela expressa. A explicação é puramen­
te lógica; quaisquer elementos subjetivos que possam contribuir na
constituição do sentido da proposição são deixados de lado.

V - Sentido e sign ificado

Uma vez admitidos, o postulado transcendental do Tractatus e a


Teoria Pictórica exigem uma reformulação radical do modelo proposto
por Frege para o signo lingüístico. Já sabemos que o grande lógico
austríaco explica o signo lingüístico por meio de duas dimensões: o
sentido ( ' S ino ' ) e o significado ('Bedeutung' ) . O objeto designado
pelo signo é seu significado; o modo pelo qual o signo apresenta este
objeto é seu sentido. No caso específico do signo proposicional, seu
sentido é o pensamento que ele expressa e seu significado é determi­
nado valor de verdade. Uma proposição dotada de sentido apresenta
dado pensamento e nomeia um valor de verdade. Foi mencionado
também que o modelo fregiano suscita uma série de dificuldades.
Wittgenstein consegue resolvê-las a partir de uma articulação com o
postulado transcendental tractatiano e com a Teoria Pictórica. Isso o
leva a uma concepção inteiramente original da proposição, embora
ainda encontre sua inspiração na problemática fregiana.
A solução de Wittgenstein pode ser resumida pelo aforisma 3.3,
que reza: "Só a proposição tem sentido; só no contexto da proposição
um nome tem significado" ( 1 922: 3.3). Isso permite concluir que, se
só a proposição tem sentido, o nome isolado, diferentemente do que
pensa Frege, não tem sentido. Essa conclusão pode ser confirmada se
lembrarmos que o sinal proposicional é um fato ( 1 922: 3 . 1 4) e que "só
fatos podem exprimir um sentido, uma classe de nomes não pode"

1 64
A crítica tractatiana da linguagem

( 1 922: 3 . 1 42) . Se uma classe de nomes não consegue exprimir um


sentido, um nome solitário, que pode ser visto como uma classe uni­
tária, também não o consegue. A razão disso está no papel lógico
desempenhado pelo nome: quando articulado no interior da proposi­
ção, ele significa o objeto, substitui o objeto na proposição; e o objeto
só pode ser nomeado, constituindo o significado do nome ( 1 922: 3 .203;
3.22; 3.22 1 ). Em contraposição, a proposição descreve determinado
fato sem nomeá-lo, pois "situações podem ser descritas, não nomeadas"
( 1 922: 3 . 1 44) . É por isso que Wittgenstein acrescenta: "nomes são
como pontos, proposições são como flechas, elas têm sentido" 1 9
(ibidem) .
Essa reformulação da concepção fregiana traz consigo as seguin­
tes conseqüências. Em primeiro lugar, a análise completa do sentido
de qualquer proposição complexa deve levar a combinações de nomes
em ligação imediata. Com efeito, conforme anteriormente estabeleci­
do, toda proposição complexa deve ser redutível a uma articulação de
proposições elementares. O sentido da proposição complexa se expli­
ca pela articulação dos sentidos das proposições elementares que a
constituem. Na feliz expressão de McGuinness, cada proposição ele­
mentar é um ' átomo de sentido ' ( 1 988: 267). Assim, o trabalho de es­
clarecer o sentido "molecular" da proposição complexa se reduz a
esclarecer o sentido atômico daquela que constitui o ponto de chegada
da análise, a saber, a proposição elementar.
Ora, a proposição elementar constitui uma figuração do fato atô­
mico que ela descreve. Como tal, deve consistir numa combinação de
nomes, cada um dos quais devendo significar inequivocamente deter-

1 9 . Convém não confundir a analogia da proposição atômica como um "ponto"


num sistema de coordenadas transcendentais com a analogia da proposição como uma
"seta". No primeiro caso, ela está sendo pensada como elemento último da análise da
proposição complexa. Nessa perspectiva, corresponde a algo que, apesar de indivisível,
envolve certa multiplicidade, jã que é dado por uma configuração de coordenadas
transcendentais. No segundo caso, ela está sendo pensada como articulação de nomes
ou signos simples (coordenadas transcendentais). Nessa perspectiva, corresponde a
uma multiplicidade estruturada, que possui sentido justamente por consistir numa
configuração de nomes, os quais, considerados isoladamente, são incapazes de pos­
suir sentido. Trata-se de duas analogias diferentes, com objetivos e perspectivas di­
ferentes.

1 65
Iniciação ao silêncio

minado objeto para que a proposição elementar faça sentido e descre­


va um fato.
A esse respeito, a analogia com pontos e flechas é esclarecedora.
Do mesmo modo que uma combinação de pontos (que, isoladamente,
não indicam direção alguma) produz uma seta que indica dada dire­
ção, uma combinação de nomes (que, isoladamente, nada significam)
produz uma proposição dotada de sentido:

------- } flecha (proposição)

r
ponto (nome)

Desse modo, se a análise de uma proposição complexa qualquer


nos levar a pelo menos um átomo de sentido defeituoso, isso indicará
que a "proposição atômica" correspondente a esse "átomo" é apenas
um amontoado de expressões e não tem sentido definido, falhando em
sua tentativa de descrever o fato atômico correspondente. Em conse­
qüência, a proposição complexa cuja análise levou ao átomo de sen­
tido defeituoso também não tem sentido e falha em sua tentativa de
descrever a situação correspondente. Isso significa que, de alguma
maneira, houve um fracasso na tentativa de dar significado a todos os
signos envolvidos pela proposição considerada. Do ponto de vista da
analogia proposta, poderíamos dizer que a análise completa da propo­
sição complexa produziu pelo menos uma seta defeituosa, conforme
ilustra a figura abaixo:

-------• } flecha interrompida

r
(proposição sem sentido)

ausência de ponto (ausência de um nome)

166
A crítica tractatiana da linguagem

Somente na medida em que constitui uma combinação de nomes


com significado é que uma proposição tem sentido e assim pode des­
crever um fato20•
Em segundo lugar, o sentido da proposição atômica e, portanto,
de toda proposição, é explicado a partir de combinações de signos
primitivos. De acordo com o postulado transcendental, a proposição
atômica é uma combinação de signos que não mais podem ser anali­
sados. Os signos que constituem as proposições podem ser de dois
tipos: complexos ou simples. Os primeiros, ao serem completamente
analisados, devem ser redutíveis a signos simples. Estes últimos, por
sua vez, constituem o resultado final da análise e não podem admitir
dissecação posterior, sob pena de cairmos num processo ad infinitum.
É nesse sentido que Wittgenstein afirma: "o nome não pode mais ser
desmembrado por meio de uma definição: é um signo primitivo" ( 1 922:
3 .26) . Essa propriedade fundamental dos nomes é revelada pelo pró­
prio emprego deles ( 1 922: 3 .262). Realmente,
"Os significados dos signos primitivos podem ser explica­
dos por meio de elucidações. Elucidações são proposições
que contêm os signos primitivos. Portanto, elas só podem
ser compreendidas quando os significados destes signos já
são conhecidos" ( 1 922: 3 .263) .
Como s e pode notar, o fato d e o s nomes serem signos primitivos
faz com que até mesmo as elucidações de seus significados pressupo­
nham que tai s significados já sejam conhecidos.
Em terceiro lugar, uma proposição dotada de sentido não é e não
pode ser um nome próprio. Já tínhamos nos referido a isso ante­
riormente, quando dissemos que o fato de uma proposição ter sentido

20. A analogia ponto/flecha é compatível com a explicação da proposição


dotada de sentido por meio do sistema de coordenadas transcendentais, formadas
pelos signos simples. É verdade que, nesta explicação, o nome corresponde a uma
coordenada e a proposição atômica, a um "ponto". Mas este último é definido por
um conjunto de coordenadas. Assim, a multiplicidade da flecha em relação ao ponto
é preservada nas duas analogias: como "flecha", a proposição se compõe de um
conjunto de nomes ou "pontos"; como "ponto" descrito pelo sistema de coordena­
das, a proposição se compõe de um conjunto de nomes ou "coordenadas" desse
"ponto".

167
Iniciação ao silêncio

não implica necessariamente que ela tenha significado. Temos aqui


duas formulações diferentes de um mesmo princípio, que é apresenta­
do como uma alternativa ao modelo de Frege. Para ele, todo signo
lingüístico tem sentido e significado. No caso da proposição, o sentido
é o pensamento que ela expressa e o significado, um valor de verdade
(o Verdadeiro ou o Falso). Em outras palavras, uma proposição verda­
deira é o nome próprio do Verdadeiro; uma proposição falsa, o nome
próprio do Falso. Mas já sabemos qual é o problema de Frege aqui:
se as coisas fossem assim, teríamos de ser capazes de determinar o
significado da proposição, ou seja, sua verdade ou falsidade, pela
simples análise de seu sentido. Por exemplo, se a proposição for verda­
deira, seu significado já deverá estar indicado por seu sentido e, já que
ela nomeia o Verdadeiro, não será necessário compará-la com a rea­
lidade para saber que ela é verdadeira. Para evitar essa dificuldade,
Wittgenstein afirma que os fatos só podem ser descritos, nunca no­
meados. A conseqüência disso é que a proposição só pode ter sentido;
eliminada a dimensão do significado, fica automaticamente eliminada
a dificuldade de Frege. Assim, a proposição (atômica ou não) nada
nomeia e, como conseqüência, não pode ter sua verdade ou falsidade
determinada a priori:
"Só poderíamos saber a priori que um pensamento é verda­
deiro se, a partir do próprio pensamento (sem objeto de
comparação), fosse possível reconhecer sua verdade" ( 1 922:
3 .05)2 1 •
Em quarto lugar, o fato de a proposição ter sentido, mas não
significado, toma-a necessariamente bipolar. Wittgenstein formula assim
esta propriedade:
"A realidade deve, por meio da proposição, ficar restrita a
um sim ou não" ( 1 922: 4.023)
Em outras palavras, a proposição descreve determinado fato.
Nessa descrição, ela mostra como estão as coisas, se for verdadeira
( 1 922: 4.022). Mas a cláusula condicional indica que a mera análise

2 1 . Embora o aforisma se refira ao 'pensamento' , a citação é adequada porque


Wittgenstein identifica o 'pensamento' com a 'proposição dotada de sentido' ( 1 922: 4).
A crítica tractatlana da linguagem

da proposição é insuficiente para determinar se ela é verdadeira ou


falsa. Para sabermos, temos de comparar a proposição com a realida­
de ( 1 922: 4.05). Assim, o nome, como signo primitivo, não tem sen­
tido, apenas significado: ele não é verdadeiro nem falso, ou seja, não
é bipolar; todavia, como condição transcendental de possibilidade do
sentido, aponta necessariamente para o objeto que designa. A propo­
sição, por s ua vez, não tem significado, apenas sentido: ela pode ser
verdadeira ou falsa, ou seja, é bipolar; e a proposição elementar, como
condição transcendental de possibilidade do sentido, afigura o fato
atômico por meio dos nomes e de sua relação projetiva com os ob­
jetos que designa.
Essa propriedade é tão importante que serve de critério para
determinar se dada seqüência de símbolos constitui uma proposição
autêntica ou não. Suponhamos, por exemplo, uma seqüência como 'o
círculo é vermelho ' . Ela descreve uma situação possível e, comparada
com a realidade, pode ser verdadeira ou falsa. Isso sign Ífica que sua
negação, 'o círculo não é vermelho ' , também descreve uma situação
possível e será falsa ou verdadeira. Trata-se de uma proposição autên­
tica. Suponhamos agora a seqüência 'o círculo é redondo ' . Assumindo
que se trate de uma proposição, constataremos que ela será sempre
verdadeira e sua negação, 'o círculo não é redondo ' , sempre falsa.
Esta "proposição" descreveria um fato necessário e sua negação, um
fato impossível. Nesse caso, porém, tais "proposições" não seriam
bipolares, pois apontariam necessariamente para a verdade ou a falsi­
dade dos respectivos "fatos" descritos. Em virtude da ausência de
bipolaridade, Wittgenstein se recusa a considerar 'o círculo é redondo '
como correspondente de uma proposição autêntica. Ela não é, contu­
do, mero contra-senso ( 'Unsinn '): constitui antes uma pseudopro­
posição, que revela uma estrutura logicamente necessária da lingua­
gem, sem descrever fato algum. Não sendo bipolar, ela é vazia de
sentido ( ' sinnlos '). Raciocínio análogo se aplica a todas as proposi­
ções tradicionalmente chamadas de ' analíticas ' : a rigor, elas são, to­
das, pseudoproposições.
Em quinto lugar, a aplicação de uma operação lógica a dada
proposição nada acrescenta a seu sentido. O Tractatus define uma
operação como aquilo que deve acontecer com determinada propo-

169
Iniciação ao sllênclo

sição para que, a partir dela, se construa outra ( 1 922: 5 .23). E acres­
centa:
"A operação só pode intervir onde uma proposição resulta
de outra de maneira logicamente significativa. Portanto, ali
onde começa a construção lógica. da proposição.
As funções de verdade das proposições elementares são re­
sultados de operações que têm as proposições elementares
como bases. (Chamo tais operações de operações de verda­
de.)
O sentido de uma função de verdade de 'p' é uma função do
sentido de 'p' .
Negação, adição lógica, multiplicação lógica etc. são ope­
rações.
(A negação inverte o sentido da proposição.)" ( 1 922: 5 .233-
-5 .2341 ).
Para explicar isso, suponhamos duas proposições atômicas .
Embora não conheçamos suas respectivas formas lógicas, pode­
mos pressupô-las como dadas e representá-las como átomos de
sentido pelas letras ' p ' e ' q ' . Nesta medida, elas são proposições
autênticas que descrevem fatos possíveis; são, pois, bipolares .
Tomemos então a negação de uma delas , por exemplo, '-p ' . Qual
a função da operação lógica representada por ' - ' ? Sabemos que,
como propos ição atômica, ' p ' já tem seu sentido completamente
determ inado. A operação de negação é apl icada a ' p ' de tal modo
que, se ' p ' for verdadeira, então ' -p ' será falsa, e vice-versa. Ora,
isso toma o sentido de '-p ' totalmente subsidiário do sentido de
' p ' . Com efeito: a) a operação ' - ' só pode intervir porque ' -p ' é
obtida de maneira logicamente significativa a partir de 'p ' ; b) ' -p '
expressa o resultado d e uma operação que tem a proposição atô­
mica ' p ' como base. Tomemos agora a multiplicação lógica das
duas proposições consideradas, ou seja, 'p e q ' . Aqui, o operador
' e ' funciona da seguinte maneira. Uma vez que são proposições
atômicas, ' p ' e ' q ' já têm seus sentidos completamente determina­
dos e são, portanto, bipolares . Em v irtude disso, quando reunidas ,
elas admitem a priori as quatro seguintes combinações possíveis
de seus respectivos valores de verdade:

1 70
A crítica tractatiana da linguagem

p q
V V
V F
F V
F F

A operação de multiplicação lógica é definida de tal forma que,


se 'p' e 'q' forem ambas verdadeiras, 'p e q' será também verdadeira;
nos demais casos, ela serâ falsa. Isso gera a tabela de valores de
verdade abaixo:

p q p&q
V V V
V F F
F V F
F F F

Tabelas desse tipo podem ser utilizadas para definir todas as


conectivas lógicas introduzidas por Frege e Russell e constituem uma
das importantes contribuições de Wittgenstein para a lógica contempo­
rânea (ver 1 922: 5. 1 0 1 ; 6 . 1 203)22• No caso que estamos considerando,
as colunas do lado esquerdo do traço duplo ' l i ' repetem as combina­
ções possíveis de valores de verdade das proposições elementares 'p'
e ' q ' , jâ mostradas na tabela anterior; a coluna à direita do traço duplo
mostra os valores de verdade de 'p e q' a partir da combinação cor­
respondente de valores das proposições elementares. Os valores de
'p e q' são dados pela consideração dos valores respectivos de 'p' e
'q' em cada linha horizontal. Assim, na primeira linha, o valor de 'p e q'
é 'V' quando 'p' é 'V' e 'q' é 'V'; na segunda, o valor de 'p e q' é 'F'
quando ' p ' é ' V ' e 'q' é 'F' etc. Como se pode notar, aqui também o
sentido de 'p e q' é totalmente subsidiário dos sentidos de 'p' e ' q ' ,
de tal forma que: a ) a operação 'e' só pode intervir porque 'p e q '

22. Em vez das tabelas, Wittgenstein adota n o Tractatus um método equivalen­


te, baseado no uso de chaves. Em nossa exposição, preferimos o método das tabelas,
que é mais facilmente compreen sível.

171
Iniciação ao sllênclo

resulta de 'p' e 'q' de maneira logicamente significativa; b) 'p e q'


expressa o resultado de uma operação que tem as proposições atômi­
cas ' p ' e 'q' como bases. Isso leva Wittgenstein a concluir que:
"A oco"ência da operação não caracteriza o sentido da
proposição.
Pois a operação nada enuncia, apenas o seu resultado o
faz, e este depende das bases da operação (. . . )" ( 1 922:
5 .25; grifo nosso).
A rigor, 'e' não caracteriza o sentido de 'p e q ' . Como proposi­
ções atômicas, 'p' e ' q ' enunciam algo, ou seja, descrevem fatos. Já a
operação de multiplicação lógica, representada por ' e ' , nada enuncia.
É apenas o resultado da aplicação da operação 'e' a 'p' e 'q' que
enuncia algo, a saber, a verdade de 'p' e a verdade de ' q ' quando 'p
e q' é verdadeira. Mas até mesmo este resultado depende previamente
da verdade de 'p' e da de 'q' e, portanto, dos sentidos respectivos
dessas proposições. É por isso que, na terminologia de Wittgenstein,
tais proposições constituem as bases da operação ' e ' . Por todos esses
motivos, podemos concluir que as operações lógicas definidas por
Frege não afetam o sentido das proposições.
Nessa perspectiva, vemos que coisa muito semelhante acontece
no caso das tautologias e contradições. Elas constituem os dois casos
extremos das operações de verdade. No caso da tautologia, por exem­
plo 'p v -p ' , a proposição é verdadeira para todas as combinações de
valores de verdade das proposições elementares envolvidas; no da con­
tradição, por exemplo, 'p e -p', a proposição é falsa para todas as com­
binações possíveis de valores de verdade das bases envolvidas ( 1 922:
4.46). A figura abaixo ilustra essa situação para as proposições consi­
deradas:

li
p -p p v -p p & -p
V F V F
F V V F

Como a base é formada apenas pela proposição ' p ' , que é bipolar,
as combinações possíveis de valores de verdade, expressas pela coluna
à esquerda do traço duplo, são apenas duas. À direita do traço duplo,
' -p ' , 'p v -p' e 'p e -p ' expressam operações lógicas efetuadas sobre
1 72
A crítica tractatiana da linguagem

'p' . A tautologia 'p v -p ' é sempre verdadeira, independentemente da


verdade ou falsidade da base p ; a contradição 'p e -p ' é sempre
' '

falsa, independentemente da verdade ou falsidade da base ' p ' . Portan­


to, embora ' p ' tenha sentido (ela descreve um fato e é bipolar), a
tautologia e a contradição, formadas a partir da aplicação de operações
lógicas sobre ' p ' , não são bipolares. Elas não descrevem fatos23 e,
assim, não podem ser consideradas possuidoras de sentido ( 1 922: 4.46 1 ;
4.462). Não devemos achar, contudo, que constituam contra-sensos:
embora vazias de sentido, elas pertencem ao simbolismo ( 1 922: 4.46 1 1 ).
Elas são apenas casos-limites da aplicação de operações lógicas.
Como se pode notar, o modelo tractatiano pretende eliminar as
principais dificuldades da perspectiva fregiana. Com efeito, se a pro­
posição tem sentido, mas não significado, sua verdade ou falsidade
devem ser determinadas pela comparação com o real. Não há propo­
sições verdadeiras ou falsas a priori. Além disso, a proposição não é
um nome; ela não nomeia um valor de verdade. Se o nome próprio
tem significado, mas não sentido, ele jamais será ambíguo. E não
haverá nomes próprios vazios, ou seja, aqueles que têm sentido, mas
não significado. Desaparece a dificuldade de explicar a aberração que
seria um signo lingüístico cujo sentido consiste no modo pelo qual ele
apresenta coisa alguma. Uma proposição só tem sentido quando os
nomes próprios aos quais ela se reduz pela análise completa têm sig­
nificado. Caso contrário, ela não é falsa, mas constitui um contra­
-senso. Em conseqüência, a ficção se compõe de proposições com
sentido, mas falsas24• Se elas se caracterizassem pela falha referencial
sugerida por Frege, seriam contra-sensos.

VI - Observações fi nais

Ao terminar esta parte inicial da exposição de nossa conjetura a


respeito do Tractatus, esperamos ter deixado claro em que sentido a
crítica tractatiana da linguagem constitui uma análise transcendental

23. Nas palavras de Wittgenstein: "Nada sei, por exemplo, a respeito do tempo,
quando sei que chove ou não chove" (1922: 4.461).
24. Para o caso das proposições da ficção envolvendo metáforas, ver nota l
deste capítulo.

1 73
Iniciação ao silêncio

da proposição. Esperamos ter deixado claro também que esta análise


conduz diretamente ao postulado transcendental das proposições atô­
micas, que se compõem de articulações de signos simples, numa pers­
pectiva que parece "transcendentalizar" a teoria dos modelos de
Boltzmann. Esperamos ainda ter mostrado como a Teoria Pictórica
equivale a uma teoria da proposição como modelo (em sentido
hertziano/boltzmanniano) do fato e procura explicar como os signos
simples podem gerar uma proposição atômica. Os signos simples
correspondem a coordenadas transcendentais que se encontram em
dada configuração e, por meio de seus significados transcendentalmente
necessários (relação projetiva), dão origem à proposição atômica, que
possui sentido por ser um fato (lingüístico) projetado isomorficamente
sobre outro fato (mundano).
Se isso é verdade, não podemos deixar de fazer uma observação
sobre a qualidade da solução proposta por Wittgenstein. É digna de
nota a maneira pela qual ele constrói uma teoria original do signo
lingüístico, articulando harmonicamente o postulado transcendental com
a Teoria Pictórica e com as noções de sentido e significado.

1 74

A CRITICA DA LINGUAGEM
E SEUS R EFL EXOS SOBRE
A ESTRUT URA DO MUNDO

1 - Observações preliminares

A sobre a linguagem possam ser aplicadas, mutatis mutandis, à


crítica da linguagem permite que todas as conclusões obtidas

análise da estrutura do mundo. Isso é possível porque a Teoria Pictó­


rica pressupõe que exista um paralelismo rigoroso entre a proposição
e o fato que ela descreve. O próprio Wittgenstein fornece boas
indicações de que assume tal pressuposto . Com efeito, em dois
momentos importantes da análise do mundo feita no Tractatus,
determinado aspecto pertencente ao domínio dos fatos é justificado
por um aspecto pertencente ao domínio da linguagem (cf. 1 922:
2 .0 1 22; 2.020 1 ) . Isso significa que a estrutura do mundo pode ser
obtida a partir de uma correspondência estabelecida com a estrutura
da linguagem.

1 75
Iniciação ao silêncio

A fim de mostrar como isso é possível, daremos três passos neste


capítulo. Primeiramente, mostraremos como pode o postulado
transcendental das proposições atômicas e signos simples ser adaptado
para o caso do mundo. Em seguida, extrairemos as conclusões que a
adaptação de tal postulado permite obter quanto à estrutura do mundo.
Finalmente, faremos uma síntese dos principais resultados da análise
wittgensteiniana da linguagem e do mundo, com o objetivo de prepa­
rar o caminho para a compreensão do papel desempenhado pela lógica
na articulação de ambos.

li - O postulado transcendenta l e a estrutu ra do mundo

Inicialmente, para tomar as coisas mais claras, retomemos o


exemplo da foto de Fobos. Se o paralelismo mencionado existe, po­
demos dizer que, da mesma forma que a proposição complexa da
linguagem corrente se decompõe numa articulação de proposições atô­
micas, a foto de Fobos pode ser vista como um fato complexo que se
decompõe numa articulação de fatos atômicos (pontos coloridos em
distribuição reticulada) . Desse modo, se cada série de coordenadas
corresponde a uma proposição atômica, aquilo que esta última descre­
ve corresponde a um fato atômico (um dado ponto colorido da foto);
se cada coordenada ou algarismo da série corresponde a um nome
próprio ou signo simples, cada um deles tem como referência algo que
poderia ser propriamente denominado um 'objeto simples ' (uma dada
tonalidade de uma cor elementar) . E, da mesma forma que cada pro­
posição atômica independe das demais, cada fato atômico independe
dos demais.
Para expor sua concepção, Wittgenstein adota a seguinte termi­
nologia. Ele chama de 'estado de coisas ' qualquer combinação de
objetos simples, existente ou não. A expressão ' existência do estado de
coisas ' é reservada para o fato atômico ( 1 922: 2; 2.01 ) 1 • O conjunto de
todos os estados de coisas possíveis, quer dizer, o conjunto geral for­
mado pelos estados de coisas existentes e não-existentes, ele denomi-

1 . O ' estado de coisas ' é uma ' ligação de objetos ' ( 1 922: 2.0 1 ) , os quais sabe­
mos que são simples. Nesse sentido, o ' estado de coisas ' designa qualquer fato atô­
mico, existente ou não.

1 76
A crítica da linguagem e seus reflexos sobre a estrutura do mundo

na 'realidade' ( 1 922: 2.06) . Além disso, para designar qualquer fato


possível, seja ele complexo ou atômico, existente ou não, Wittgenstein
utiliza a palavra ' situação '2•

Neste caso, o paralelismo proposição/fato permite estabelecer a


seguinte correspondência terminológica: a 'linguagem ' , como conjun­
to de todas as proposições possíveis, corresponde à 'realidade' , que
constitui o conjunto de todas as situações possíveis; a 'ciência da
natureza ' , como conjunto de todas as proposições verdadeiras,
corresponde ao ' mundo '3, que é conjunto de todos os fatos4; a 'propo­
sição ' , na medida em que se refere a qualquer proposição possível,
corresponde à ' situação ' , que se refere a qualquer estado de coisas
possível; a 'proposição atômica ' , enquanto designa qualquer combina­
ção possível de signos simples, corresponde ao ' estado de coisas ' , que
designa qualquer combinação possível de objetos simples; a 'proposi­
ção verdadeira' , seja ela complexa ou atômica, na medida em que
descreve algo que realmente ocorre, corresponde ao 'fato ' 5 , que desig­
na qualquer situação complexa ou estado de coisas existente.
Desse modo, os aforismas que descrevem a estrutura da lingua­
gem podem ser utilizados, mutatis mutandis, para a descrição da es­
trutura da realidade e, inversamente, aqueles que descrevem a estru­
tura da realidade podem ser utilizados, mutatis mutandis, para a des­
crição da estrutura da linguagem. Foi isso que permitiu a Wittgenstein
iniciar o Tractatus pela descrição da estrutura do mundo, sem ter que

2. Este fato pode ser inferido com base na comparação de todas as ocorrências da
palavra ' situação' no Tractatus (cf. 1 922: 2.0 1 2 1 ; 2.0 1 4; 2. 1 1 ; 2.202-203; 3 .02; 3 . 1 1 ;
3 . 1 44; 3 .2 1 ; 4.02 1 ; 4.03; 4.03 1 -032; 4.04; 4. 1 24- 1 25; 4.462; 4.466; 5 . 1 35- 1 36; 5 .525).
3. Daqui se depreende que, a rigor, não se deve opor a 'linguagem ' ao ' mun­
do ' , como o fazem muitos comentaristas do Tractatus. Essa oposição só é possível
quando se entende ' mundo' no sentido não-tractatiano de 'realidade' . Embora seja
conveniente estar sempre atento à terminologia, esta é apenas uma pequena impre­
cisão, um delito menor que, por vezes, nem mesmo nós conseguiremos evitar, jã que
o uso filosófico tradicional da palavra ' mundo' permite entendê-la, por vezes, como
sinônimo de 'realidade' .
4 . A justificação desta afirmativa serã dada n a seção III deste capítulo.
5. Assim, Wittgenstein utiliza a palavra 'fato' de tal modo que ela pode aplicar­
-se a fatos atômicos ou a fatos complexos (cf., por exemplo, 1 922: 1 . 1 - 1 .2; 2; 2.034;
2.06; 2. 1 ; 2. 1 4 1 ; 2. 1 6; 3; 3 . 1 4; 3. 1 42- 1 43; 4.0 16; etc.).

177
Iniciação ao silêncio

justificar ali os resultados obtidos6• Estes últimos encontram sua com­


provação um pouco mais tarde no texto, a partir do momento em que
a análise da linguagem é realizada e seu paralelismo com o mundo é
estabelecido.

Neste espírito, o primeiro aspecto a ser destacado é que, de maneira


análoga à proposição, uma situação mundana tem uma e somente uma
análise completa (comparar com 1 922: 3 .25). Em outras palavras, se
fizermos a análise exaustiva de certa situação, o resultado obtido será
sempre o mesmo, ou seja, sua decomposição em determinada articu­
lação de estados de coisas.
O segundo aspecto a ser lembrado é que, sob pena de recair num
regresso ad infinitum, a análise da situação deve findar em algum
ponto, que poderia ser expresso por meio de uma paráfrase do aforisma
4.22 1 : "É óbvio que devemos, na análise das situações, chegar a es­
tados de coisas, que consistem em objetos em ligação imediata". As
situações do mundo constituem "unidades fatuais", algumas das quais
podem possuir uma estrutura complexa. A análise exaustiva de deter­
minada situação deverá necessariamente levar aos fatos atômicos ou
estados de coisas existentes que a constituem. O fato atômico, por sua
vez, pode ser entendido como uma "unidade fatual" mínima e inde­
pendente, no sentido de "átomo de situação" ou resultado derradeiro
da análise lógico-transcendental. Para além dele não há mais qualquer
espécie de fato, e sim um mero aglomerado de objetos isolados dos
quais se pode apenas dizer que "subsistem". Aqui também se aplica a
analogia feita com o sistema de coordenadas transcendentais do fato
atômico: este nada mais é que um "ponto" no sistema necessário de
coordenadas transcendentais; cada coordenada transcendental cor­
responde a um ' objeto ' ; uma dada combinação de coordenadas trans­
cendentais determina um e somente um "ponto" no sistema de refe­
rência. Nessa perspectiva, cada "ponto" representa algo que realmente
existe no nível dos "fatos" do sistema; as coordenadas não têm exis­
tência independente, subsistindo apenas como condições transcendentais
de possibilidade dos "pontos".

6. As razões pelas quais ele assim agiu, contudo, serão explicadas mais adiante,
no capítulo 1 0, que trata da estratégia argumentativa do Tractatus.

1 78
A crítica da linguagem e seus reflexos sobre a estrutura do mundo

Isso permite caracterizar o modo de ser desses 'objetos' da se-


guinte maneira:
"A coisa é auto-suficiente, na medida em que pode apare­
cer em todas as situações possíveis, mas essa forma de
auto-suficiência é uma forma de vínculo com o estado de
coisas, uma forma de não-auto-suficiência. (É impossível
que palavras intervenham de dois modos diferentes, sozi­
nhas e na proposição)" ( 1 922: 2.0 1 22).
Aqui, 'coisa' significa o mesmo que ' objeto ' (cf. 1 922: 2.0 1 ) .
Aplicando a caracterização acima ao caso do fato atômico, podemos
afirmar que, embora o objeto possa ocorrer em mais de um fato atô­
mico, o primeiro só existe na articulação do segundo. Em outras pa­
lavras, embora uma coordenada transcendental possa determinar mais
de um "ponto" no espaço do sistema de referência, ela só existe quan­
do determina um "ponto" específico. Desse modo, enquanto pode entrar
na composição de mais de um fato atômico, o objeto é auto-suficiente;
todavia, enquanto se acha essencialmente vinculado ao fato atômico,
o objeto dele depende para existir. O objeto só existe no interior do
fato atômico; isoladamente, ele apenas "subsiste" (no nível trans­
cendental).
A passagem citada acima corresponde ao primeiro momento em
que Wittgenstein justifica um aspecto pertencente à dimensão fática
mediante um aspecto pertencente à dimensão lingüística. Com efeito,
é importante notar aqui que a justificativa do modo de ser dos objetos
é feita por analogia com o modo de ser das palavras na proposição. Já
sabemos que o Tractatus adota o princípio fregiano de que, conside­
radas isoladamente, as palavras nada significam; elas só fazem sentido
quando se articulam para formar uma proposição. Daí a proibição
wittgensteiniana de que elas possam comportar-se de duas maneiras
diferentes, ou seja, por si mesmas e no interior da proposição. Adap­
tando esse princípio aos objetos, podemos estender a eles uma proibi­
ção análoga, dizendo que eles não podem comportar-se de duas ma­
neiras diferentes, ou seja, por si mesmos e no interior do fato atômico.
Como se pode notar, é a transposição do princípio fregiano para o
domínio dos fatos que justifica, em última instância, o modo de ser
próprio dos objetos.

1 79
Iniciação ao silêncio

Retomemos o exemplo da foto de Fobos. Se cada um dos fatos


em que a foto se decompõe é atômico, significa que este, ao ser
analisado, deixará de existir como tal, dando origem a um mero amon­
toado de objetos. Desse modo, a análise do fato atômico descrito pela
proposição atômica ' 237 ' , por exemplo, dissolve este fato e revela os
objetos que o constituem, a saber, aqueles designados pelos nomes '2 ' ,
' 3 ' e '7 ' . Todavia, a analogia não pode ser levada adiante porque os
"objetos" designados por estes "nomes" podem ser exibidos, como de
fato o foram, ao passo que os objetos tractatianos não têm existência
independente do fato atômico. Eles apenas subsistem no nível das
condições transcendentais de possibil idade do fato atômico que deter­
minam. Para ter acesso ao patamar da existência dos fatos do mundo,
cada um desses objetos deve combinar-se com outros, dando origem
a um fato atômico. Ontologicamente, isso significa o seguinte: da
mesma forma que o signo simples, considerado isoladamente (ou seja,
antes de entrar em combinação com outros), não possui significado, o
objeto, considerado isoladamente (ou seja, antes de entrar em combi­
nação com outros), não possui nenhuma das propriedades do fato. 'Ter
uma cor ' , por exemplo, pertence aos fatos, não aos objetos. Por essa
razão, Wittgenstein afirma no aforisma 2.0232 que os objetos são
desprovidos de cor ( ' farblos ' ) .
Assim concebidos, o s objetos constituem o que Wittgenstein
denomina a ' substância' do mundo ( 1 922: 2.02 1 ). Esta substância é
entendida como aquilo que subsiste independentemente dos fatos ( 1 922:
2.024). Ora, se os objetos são elementos cujas configurações produ­
zem os estados de coisas ( 1 922: 2.0272), então eles constituem a base
fixa a partir da qual são feitas as combinações que geram os fatos
atômicos. Só quando há objetos pode haver também uma forma fixa
do mundo (2.026-027). Considerados isoladamente, os objetos ape­
nas subsistem num patamar inferior e não possuem as propriedades
que só pertencem ao nível dos fatos. Mas é exatamente em virtude
disso que eles constituem o material básico, fixo e imutável a partir
do qual são construídos os fatos. Estes , por sua vez, visto que são
combinações desses objetos, correspondem àquilo que é mutável e
instável no mundo ( 1 922: 2.027 1 ) . No caso da analogia com o sistema
de referência, estas observações permitem concluir que o conjunto
formado por todas as coordenadas transcendentais (ou objetos) cons-

180
A crítica da llnguagem e seus reflexos sobre a estrutura do mundo

titui a "substância" do próprio sistema, uma vez que são as diversas


combinações dessas coordenadas que determinam os diversos "pon­
tos" (os fatos atômicos) no interior do "espaço lógico" que elas de­
limitam.
Tudo indica que Wittgenstein chegou aos objetos simples a partir
do paralelismo proposição/fato. Com efeito, a análise completa da
proposição nos leva a concluir que ela se reduz aos signos simples,
que constituem o que poderíamos denominar a "substância" da nossa
linguagem. Eles correspondem à base imutável e permanente a partir
da qual todas as proposições atômicas (ou combinações possíveis de
signos simples) são geradas. Como os signos simples designam obje­
tos simples, podemos concluir que estes últimos constituem a base
imutável e permanente, a ' substância' mundana a partir da qual são
gerados todos os fatos atômicos (ou combinações possíveis de objetos
simples). Assim, de um lado, é a existência de signos simples que
permite a existência de uma forma fixa para a linguagem; de outro, é
a existência de objetos simples que permite a existência de uma forma
fixa do mundo (cf. 2.026-027). Apesar de Wittgenstein não usar essa
terminologia, ela parece estar em perfeita concordância com a concepção
tractatiana do papel desempenhado pelos signos simples. Além disso,
sugere a hipótese de que a concepção dos 'objetos ' , como constituinte da
' substância' do mundo, foi obtida a partir do paralelismo estabelecido
com a concepção dos 'signos simples ' , como constituinte da ' substân­
cia' da linguagem. Embora não tenha sido explicitada por Wittgenstein,
a hipótese parece-nos bastante plausível .
Os objetos, cuja articulação determina os fatos atômicos, são
caracterizados como ' simples ' ( 1 922: 2.02). No aforisma 2.02 1 ,
Wittgenstein afirma que os objetos constituem a substância do mundo
e por isso não podem ser compostos. Embora essa afirmação não
esteja muito clara, parece-nos que pode ser explicada da seguinte
maneira. Os objetos são simples não apenas porque as combinações
deles geram os fatos atômicos, mas também porque a análise deve
terminar em algum ponto. Se os objetos não fossem simples, cairía­
mos numa espécie de regresso ad infinitum: a análise do objeto 'a' nos
daria seus componentes ' a l ' , ' a2 ' , ... 'an ' ; a análise de ' a l ' nos daria
seus componentes ' a l i ' , ' a 1 2 ' , . . . ' a l m ' ; e assim por diante, numa
ramificação sem limites. O mesmo seria válido para a análise de ' a2 ' ,

18 1
Iniciação ao silêncio

. . . ' an ' . Assim, ou a análise termina em algum ponto ou teremos um


regresso ad infinitum. Como esse regresso nada explica e deve ser
descartado, prevalece a primeira alternativa. Portanto, é absolutamente
necessário que o final da análise nos leve a constituintes simples, no
sentido de ' atômicos ' ou ' não mais analisâveis ' .
Ora, jâ fo i mostrado que o mundo s e compõe de situações. Estas,
analisadas de maneira completa, levam aos fatos atômicos, que cons­
tituem o ponto de chegada no nível fâtico. Tais fatos atômicos, embora
sejam os constituintes dos fatos do mundo, ainda são complexos, pois
constituem 'estados de coisas ' , o que significa que, ao atingi-los , a
análise ainda não terminou. Como, porém, levâ-la a bom termo se jâ
chegamos aos limites do mundo dos fatos? Wittgenstein parece racio­
cinar aqui da seguinte maneira: o fmal da análise deve encontrar-se em
outro patamar, ou seja, no patamar transcendental das condições de
possibilidade do fato atômico. Assim, dissecando este último, desco­
briremos seus constituintes sob a forma de objetos simples, que são os
elementos cujas configurações produzem o estado de coisas elementar.
Em termos do modelo boltzmann i ano transcendentalizado, podemos
dizer que a análise nos conduz ao "ponto" (estado de coisas elemen­
tar) no interior do espaço do sistema de referência; jâ a anâlise do
próprio "ponto" só é capaz de nos fornecer suas respectivas coorde­
nadas (objetos simples), que não mais existem como "pontos", e sim
como "formas" ou "dimensões lógicas" dos "pontos" no sistema de
referência. Nessa perspectiva, os objetos simples constituem o lugar
ideal para terminar a análise.
Resumindo, podemos dizer que, por um lado, no nível dos fatos
do mundo, a análise desemboca nos fatos atômicos, que ainda pos­
suem alguma complexidade, jâ que são determinados por múltiplas
coordenadas; por outro, no nível transcendental, a anâlise desemboca
nos objetos, que não possuem qualquer complexidade, jâ que cada um
constitui, isoladamente, uma coordenada individual que só determina
um fato atômico quando combinada com outras. Assim, a complexi­
dade surge apenas quando passamos da coordenada singular para uma
combinação de coordenadas. Mas nesse caso jâ deixamos o nível
transcendental e retomamos ao patamar dos fatos do mundo, gerando
um fato atômico. Assim como os signos simples constituem uma parte
importante do postulado transcendental da análise completa da propo-

1 82
A crítica da linguagem e seus reflexos sobre a estrutura do mundo

sição, os objetos simples constituem uma parte importante do postu­


lado transcendental da anâlise completa da situação do mundo.
Para estabelecer a necessidade dos objetos simples, em vez de
recorrer às paráfrases de 3 .25 e 4.22 1 , mencionadas acima, o Tractatus
faz a seguinte afirmação:

"Se o mundo não tivesse substância, então se uma propo­


sição tem sentido dependeria de outra proposição ser ver­
dadeira" ( 1 922: 2.02 1 1 ).
Convém lembrar aqui que este importante princípio está formu­
lado de tal maneira que um aspecto da estrutura do mundo é justificada
a partir de um aspecto da estrutura da linguagem. Esse é o segundo
momento em que o paralelismo proposição/fato é explicitamente uti­
lizado no Tra,ctatus. Para compreender o que Wittgenstein quer dizer
com isso, suponhamos que a linguagem não tivesse "substância" e
que, portanto, não houvesse signos simples em sentido tractatiano. A
conseqüência imediata seria que a análise da proposição atômica leva­
ria a expressões desprovidas de significado determinado. Com efeito,
o signo s imples nada mais é que um nome que necessariamente se
refere a um objeto, possuindo, assim, um significado determinado. Se
não houvesse signos simples seria preciso fixar arbitrariamente o sig­
nificado de cada uma das expressões obtidas a partir da análise da
proposição atômica. Isso, porém, só seria possível mediante outras
proposições. No exemplo da foto, a análise da proposição atômica
' 237' nos daria as expressões ' 2 ' , ' 3 ' e ' 7 ' , cujo significado teria de
ser fixado pelas seguintes proposições:
(9) "O nome ' 2 ' designa a tonal idade 2 da cor vermelha",
( 1 0) "O nome ' 3 ' designa a tonalidade 3 da cor amarela",
( 1 1 ) "O nome ' 7 ' designa a tonalidade 7 da cor azul".
Como essas proposições fixam o significado das expressões simples
de uma mesma proposição atômica, podemos reunir todas numa só:
( 1 2) ' (9) e ( 1 0) e ( 1 1 ) ' .

Estamos, pois, na seguinte situação: se a propoºs ição ( 1 2) for


verdadeira, a proposição ' 237 ' tem sentido (descreve um ponto da
foto); se ( 1 2) for falsa, pelo menos uma das expressões envolvidas, a

183
Iniciação ao silêncio

saber, ' 2 ' , ' 3 ' ou '7 ' , não tem significado e ' 237 ' não tem sentido (não
descreve um ponto da foto). Em outras palavras, a proposição ' 237 '
tem sentido somente se a proposição ( 1 2) for verdadeira. Isso nos
permite concluir que, se a linguagem não tivesse "substância", o fato
de uma proposição ter sentido dependeria da verdade de outra propo­
sição.
Do ponto de vista da crítica da linguagem, essa conclusão é
impalatável, pois está em contradição com todas as propriedades do
signo proposicional até agora apresentadas. Com efeito, se o sentido
da proposição ' 237' depende da verdade de ( 1 2), temos de perguntar
agora o que faz com que a própria ( 1 2) tenha um sentido determinado.
A análise tractatiana exige que ela também seja redutível a configura­
ções de signos simples. Por exemplo, as expressões 'a tonalidade 2 da
cor vermelha' , em (9), 'a tonalidade 3 da cor amarela' , em ( 1 0), e ' a
tonalidade 7 d a cor azul ' , em ( 1 1 ), devem ser redutíveis a seus corres­
pondentes signos simples. Contudo, se a linguagem não tem "substân­
cia", será também necessário fixar os respectivos significados destes
últimos por meio de novas proposições, digamos, ( 1 3), ( 1 4) e ( 1 5),
cuja conjunção, ( 1 3) e ( 1 4) e ( 1 5), seria representada por ( 1 6) . Nesse
caso, o sentido de ( 1 2), que é a conjunção de (9) , ( 1 0) e ( 1 1 ), depen­
derá do sentido de ( 1 6) . Essa nova proposição também deverá ter um
sentido determinado e ser redutível aos correspondentes signos sim­
ples, os quais deverão ter seus significados fixados a partir de novas
proposições . E assim indefinidamente. Portanto, se o significado dos
signos simples não for fixado definitivamente em algum ponto, caire­
mos num regresso ad infinitum e não poderemos descrever o mundo
mediante proposição alguma.
Desse modo, a condição transcendental para que dada proposição
tenha sentido determinado está não apenas em que a análise deva
terminar nos signos simples, mas também em que tais signos simples
possuam, por si próprios, independentemente de qualquer outra expressão
lingüística, significados inequivocamente fixados. O postulado trans­
cendental do Tractatus exige que cada signo simples designe imediata­
mente um objeto simples . Cada signo simples deve estar necessaria­
mente em relação projetiva com seu significado (o correspondente
objeto simples). Segundo a Teoria Pictórica, a proposição possui sen-

1 84
A crítica da linguagem e seus reflexos sobre a estrutura do mundo

tido porque se reduz a uma configuração de signos simples que estão


em relação projetiva imediata com seus respectivos significados.
No aforisma 3 .263, Wittgenstein aparentemente contradiz a inter­
pretação acima ao afirmar que podemos explicar os significados dos
signos simples por meio de elucidações, ou seja, proposições que con­
tenham tais signos simples. Isso equivaleria a admitir, paradoxalmen­
te, que o sentido de uma proposição que contivesse tais signos simples
dependeria da verdade da proposição elucidativ a. Mas o que
Wittgenstein faz de fato é confirmar a referida interpretação, pois
acrescenta no mesmo aforisma que só poderemos entender a proposi­
ção elucidativa quando já conhecermos os significados dos signos
simples que ela pretende elucidar. Em outras palavras , a relação
projetiva entre o signo simples e seu significado possui um caráter
transcendental que até mesmo a elucidação deste significado pressu­
põe que ele já seja previamente conhecido. Se o signo é simples em
sentido tractatiano, não admite uma definição, pois a proposição
definitória só pode ser entendida quando já se conhece o significado
do signo que ela pretende definir. Nomes não podem ser dissecados
por definições ( 1 922: 3.26 1 ) . Aquilo que não vem expresso nesses
signos é revelado por seu emprego.
Assim, o postulado transcendental do Tractatus nos diz que, se
não houvesse signos simples, o sentido de uma proposição não seria
determinado. Se a linguagem não tivesse "substância", o sentido de
uma proposição não seria determinado . Dado, porém, o paralelismo
entre linguagem e mundo, dizer que a linguagem não tem "substân­
cia" equivale a dizer que o mundo não tem substância. Isso porque
cada um dos signos simples, cujo conjunto constitui a "substância" da
linguagem, deve ser capaz de significar necessária e imediatamente
determinado objeto simples, que, ao lado dos demais objetos de sua
espécie, constitui a substância do mundo. Assim, se a linguagem não
tivesse "substância", o mundo também não teria substância. E, con­
forme já visto, do lado da linguagem, a conseqüência seria que o
sentido da proposição não seria determinado e, sem signos simples,
cairíamos num regresso ad infinitum. A linguagem não poderia des­
crever o mundo. Embora não tenhamos considerado até agora qual
seria a conseqüência do lado do mundo, podemos facilmente imaginá­
-la: o conteúdo de cada situação não seria determinado e, sem objetos

185
Iniciação ao silêncio

simples, também cairíamos num regresso ad infinitum. O mundo não


se comporia de fatos atômicos determinados e não seria descritível. O
aforisma 2.02 1 1 , acima citado, revela claramente que Wittgenstein
chegou à sua concepção da estrutura do mundo a partir da análise da
proposição e do pressuposto de que há um paralelismo entre lingua­
gem e realidade.
Em virtude disso, vemos que também seria possível mostrar a
necessidade dos objetos simples pela seguinte paráfrase do aforisma
3 .23 : "a exigência da possibilidade de objetos simples é a exigência
da determinabilidade da situação". Em outras palavras, se a situação
é determinada, ela deve se compor de fatos atômicos que, por sua vez,
devem ser resolvidos em objetos simples. A partir daí, podemos rea­
firmar que os objetos simples não "existem" no nível dos fatos atô­
micos por eles gerados, mas "subsistem" como condições trans­
cendentais de possibilidade destes fatos atômicos.

I li - O mundo como totalidade dos fatos

Do que foi dito acima, podemos extrair uma das mais paradoxais
conclusões do Tractatus: o mundo é a totalidade dos fatos, não das
coisas. Realmente, é razoável supor que a filosofia tractatiana seja
compatível com a seguinte paráfrase do aforisma 3.25 , já citado: "um
fato do mundo tem uma e somente uma análise completa". Além
disso, esta análise deve acabar em algum lugar. Para determinar onde
estaria seu final, podemos agora parafrasear, como segue, o aforisma
4.22 1 : "é óbvio que devemos, na análise dos fatos do mundo, chegar
a fatos elementares, que consistem em objetos simples em ligação
imediata". Conforme já foi explicado, a unidade mínima do mundo é
o fato atômico, fora do qual os objetos simples não existem . Para
deixar o subnível transcendental da mera "subsistência" e alcançar o
nível da existência dos fatos do mundo, o objeto simples deve entrar
em combinação com outros, produzindo um fato atômico. Ora, isso
significa que, a rigor e contrariamente a toda a tradição filosófica
anterior ao Tractatus, não há objetos no mundo. A análise dos fatos
complexos só leva a outros fatos, ou seja, os elementares. Cada uma
das coisas do mundo, tais como este livro, aquela porta, essa pessoa,

186
A crítica da linguagem e seus reflexos sobre a estrutura do mundo

aquele animal, ao ser analisada de maneira semelhante à foto de Fobos,


revelar-se-á um conjunto articulado de fatos atômicos. Essas "coisas"
ou "objetos" são, na realidade, fatos complexos.
Essa idéia fermentava na mente de Wittgenstein muito antes da
redação do Tractatus. Já em 1 9 1 1 , em suas discussões com Russell ,
ele argumentava que não existe coisa alguma que não seja uma pro­
posição enunciada (Monk 1 995 : 5 1 ) . Com base nisso, Wittgenstein
chegou mesmo a recusar-se a admitir a afmnação de Russell de que
era certo não haver um rinoceronte na sala em que discutiam (idem).
Em que pese o caráter surrealista da situação, podemos inferir que, já
naquela época, o que interessava a Wittgenstein era a questão metafisica
sobre aquilo que efetivamente constitui o mundo e não a questão
empírica relativa à existência ou não de um rinoceronte numa sala da
universidade (idem).
É certo que ele afmna, no Tractatus, haver objetos simples, os
quais constituem a substância do mundo. Mas é importante lembrar
que eles funcionam aqui como condições transcendentais de possibi­
lidade dos fatos atômicos e se localizam além dos limites do próprio
mundo. Nesse sentido, eles não fazem parte deste mundo, que se
compõe exclusivamente de fatos. De qualquer modo, a linguagem
pode descrever o mundo porque há uma simetria entre ambos, simetria
esta que se estende por todos os níveis de análise.
Por tudo isso, Wittgenstein pode afmnar, contra Russell e contra
Frege, que todas as proposições da linguagem natural, do jeito que
são, estão organizadas de maneira logicamente perfeita ( 1 922:
5 .5563). Embora pareça muito distante das proposições atômicas e
dos signos simples que a constituem , a linguagem natural está
logicamente em ordem exatamente porque pode ser reduzida a tais
condições transcendentais. Além disso, outro paralelismo pode ser
estabelecido aqui: embora pareça muito distante dos fatos atômicos
e dos objetos simples que o constituem, o mundo está "logicamente
em ordem" exatamente porque pode ser reduzido a essas condições
transcendentais . A l inguagem e o mundo partilham simetricamente a
mesma estrutura.
Ainda assim, temos de reconhecer que, embora a proposição
complexa diga a mesma coisa que sua forma completamente analisa-

187
Iniciação ao silêncio

da, aquela esconde de algum modo o que essa mostra com clareza.
Aceitando este fato, Wittgenstein afirma que
" (. . . ) a linguagem disfarça os pensamentos. E, na verdade,
de modo tal que não se pode inferir, da forma exterior da
roupa, a forma do pensamento vestido, porque a forma
exterior da roupa foi projetada com um propósito comple­
tamente diferente daquele de deixar conhecer a forma do
corpo" ( 1 922: 4.002).
E é justamente a distância que existe entre a proposição comple­
xa da nossa linguagem e sua forma completamente analisada que o
leva a completar:
"As convenções tácitas para a compreensão da linguagem
corrente são enormemente complicadas" (idem).
Somente quando lidas em conformidade com o espírito do pos­
tulado transcendental é que essas palavras adquirem seu pleno signi­
ficado.

IV - Observações fi nais

Recapitulando aqui os principais resultados da análise da lingua­


gem e do mundo, podemos dizer que, em síntese, Wittgenstein desen­
volve no Tractatus uma crítica da linguagem que desemboca numa
espécie de "atomismo transcendental". São quatro os princípios em
que ele se baseia para chegar a esse atomismo: a) a concepção fregiana
de que a unidade lingüística básica é a proposição; b) a idéia de que
a explicação dos fundamentos da linguagem se reduz à explicação dos
fundamentos da proposição; c) a exigência de proposições atômicas e
signos simples para explicar a determinabil idade do sentido da pro­
posição; d) a idéia de que existe um paralelismo estrito entre a
linguagem e o mundo. A partir dos três primeiros, ele estabelece
o postulado transcendental segundo o qual as proposições comple­
xas equivalem a combinações lógicas de proposições atômicas, que
são, por sua vez, combinações lógicas de signos simples. Estes últi­
mos não "existem" no nível da linguagem; eles "subsistem" trans­
cendentalmente como condições de possibilidade dessa linguagem.

1 88
A crítica da linguagem e seus reflexos sobre a estrutura do mundo

Por causa disso, jamais teremos acesso direto aos signos simples e, a
fortiori, a quaisquer combinações deles (proposições atômicas). Mes­
mo assim, sabemos que eles têm de existir. Como coordenadas
transcendentais dos fatos elementares, os signos simples são indivisíveis
e seu conjunto constitui a "substância" da linguagem, a base perma­
nente e imutável a partir da qual se constroem todas as proposições
possíveis, com as quais são descritas as situações mundanas .
A partir do terceiro princípio, Wittgenstein conclui que cada sig­
no simples deve designar um objeto simples . Este é indivisível e,
considerado em conjunto com os demais objetos simples, constitui a
substância do mundo, a base permanente e imutável a partir da qual
se constroem os fatos atômicos ou estados de coisas. Os objetos sim­
ples não "existem" no nível dos fatos, mas "subsistem" como condi­
ções de possibilidade deles . Nesse sentido, cada objeto simples cons­
titui uma coordenada transcendental, devendo possuir uma forma ló­
gica tal que todas as suas possíveis combinações com outros objetos
já estejam definidas a priori. Assim, se conhecêssemos todos os ob­
jetos simples, seríamos capazes de conhecer também todos os estados
de coisas que seria possível formar com eles. Tais estados de coisas
são atômicos e independentes entre si, visto que correspondem às
unidades mínimas obtidas pela análise do mundo. O conjunto formado
por todos os estados de coisas constitui a realidade. Subconjuntos da
realidade constituem situações. O mundo constitui um subconjunto
especial da realidade: aquele formado pelos estados de coisas existen­
tes . As situações do mundo são fatos complexos que se reduzem, pela
análise, a articulações de fatos atômicos. Isso permite concluir que,
assim como a linguagem é a totalidade das proposições, o mundo é a
totalidade dos fatos. Nessa perspectiva, a explicação do mundo se
reduz à explicação dos fatos que o compõem.
O paralelismo entre linguagem e mundo pode, portanto, ser ex­
presso pelas seguintes descrições simétricas. A linguagem é a totalida­
de das proposições, aí incluídas as verdadeiras e as falsas; a realidade
é a totalidade dos estados de coisas , aí incluídos os existentes e os
não-existentes ou meramente possíveis . A ciência natural é a totalida­
de das proposições verdadeiras; o mundo é a totalidade dos estados de
coisas existentes ou fatos. Uma proposição complexa tem sentido
porque pode ser reduzida a uma combinação lógica de proposições

189
Iniciação ao silêncio

elementares; um fato complexo ou situação é possível porque pode ser


reduzido a uma combinação lógica de estados de coisas ou fatos atô­
micos. Uma proposição elementar, ao ser analisada, se dissolve nos
nomes que a constituem; um fato atômico, ao ser analisado, se dissol­
ve nos objetos simples que o constituem. A forma lógica da linguagem
está contida a priori na forma lógica dos nomes; a forma lógica da
realidade e do mundo está contida a priori na forma lógica dos objetos
simples. Os nomes constituem a "substância" da linguagem; os obje­
tos simples constituem a substância do mundo. Apesar de não termos
acesso direto a proposições elementares e signos simples, eles cons­
tituem as condições transcendentais de possibilidade da linguagem;
apesar de não termos acesso direto a fatos atômicos e objetos simples,
eles constituem as condições transcendentais de possibilidade do mundo.
Se isso é verdade, a linguagem natural está logicamente em or­
dem. Ela e o mundo possuem a mesma estrutura, que é determinada,
em última instância, pelo postulado transcendental . E é justamente
essa similaridade estrutural que possibilita a descrição do mundo. Isso
implica reconhecer um papel fundamental para a lógica na organiza­
ção da realidade, o que será considerado no próximo capítulo.

190
, A

A LOGICA COMO ESSENCIA


DO MUNDO

1 - Observações preliminares

U tractatiana da linguagem e do mundo, estamos agora em condi­


ma vez conhecedores dos resultados obtidos pela análise

ções de perceber o verdadeiro papel da lógica na constituição do real.


Surpreendentemente, esse papel tem caráter ontológico. A lógica vai
revelar-se como a própria essência do mundo.
Com a finalidade de mostrar como isso é possível, daremos os
seguintes passos. Primeiro, procuraremos mostrar em que sentido
·

podemos conceber a lógica como lei transcendentalmente estruturante


do mundo. Segundo, tentaremos extrair, a partir dessa propriedade
fundamental, a lei de geração das proposições da linguagem, que
Wittgenstein denomina ' forma geral da proposição ' . Nesse ponto, pro­
curaremos mostrar como se encaixam neste esquema as proposições
generalizadas. Terceiro, dos resultados obtidos nos passos anteriores
extrairemos algumas conclusões importantes a respeito das relações

19 1
Iniciação ao silêncio

entre lógica, linguagem e realidade. Quarto e último, resumiremos as


principais conclusões deste capítulo.

li - A lógica como lei transcendental mente estrutu rante

Sabemos que o mundo se reduz a fatos atômicos que são descri­


tos por proposições atômicas. Estas possuem sentido porque são esta­
dos de coisas existentes projetados sobre estados de coisas existentes.
Em outras palavras, a proposição atômica é uma figuração porque
constitui um fato que possui algo em comum com o fato atômico
afigurado. Este "algo em comum" nada mais é que a forma da
afiguração, ou seja, a estrutura ou forma lógica comum a ambos. Ora,
se isso é verdade, essa forma da afiguração desempenha uma função
primordial na estruturação do mundo e da linguagem. De fato, ela é
a condição transcendental de possibilidade de ambos. É ela que faz
com que o mundo e a linguagem sejam aquilo que são; é ela que
determina o que é o mundo e o que é a linguagem. A análise das
condições de possibilidade de ambas nos levam inexoravelmente à
questão da essência. Quando percebeu isso, Wittgenstein registrou nos
Cadernos de notas que seu trabalho se tinha estendido dos fundamen­
tos da lógica para a essência do mundo ( 1 9 1 4- 1 9 1 6: 79) .
Em outras palavras, a crítica da linguagem pretendida pelo
Tractatus procura, num primeiro momento, determinar as condições
de possibilidade da linguagem pela análise das condições de possibi­
lidade da proposição. Estamos aqui no plano da análise lógica da
linguagem. Num segundo momento, inspirada pela necessidade de um
paralelismo entre a linguagem e o mundo, para que a primeira possa
descrever o segundo, a crítica procura determinar as condições de
possibilidade do mundo pela análise das condições de possibilidade
dos fatos. Passamos aqui para o plano do que poderia ser denominado
uma "análise lógica" do mundo. Num terceiro momento, ao tentar
explicar o paralelismo linguagem-mundo, a crítica descobre que a
forma lógica, até então considerada o fundamento da linguagem, é
também o fundamento do mundo. Atingimos agora o plano da ontologia
propriamente dita. As análises anteriores revelam que a forma lógica
ou, mais abreviadamente, a lógica é o "cimento comum" à linguagem

192
A lógica como essência do mundo

e ao mundo ( 1 9 1 4- 1 9 1 6: 37). Assim, o estudo das condições de pos­


sibilidade da linguagem é também o estudo das condições de possibi­
lidade do mundo, as quais expressam, em última instância, a essência
de toda a realidade. Levada a suas últimas conseqüências, a crítica da
linguagem desemboca numa ontologia.
Trata-se, porém, de uma ontologia sui generis. Como sabemos,
ela afirma que o mundo não corresponde ao conjunto de todas as
coisas que existem. É, antes, o conjunto de todos os estados de coisas
existentes ou fatos. Essa perspectiva denuncia como equivocada uma
concepção de mais de dois mil e quinhentos anos da filosofia tradicio­
nal. Desde Tales de Mileto, os filósofos têm buscado a essência das
coisas, mas estas não existem realmente como tais, são meras ficções
lógicas. A verdadeira realidade são os fatos em que tais "coisas" ou
ficções se decompõem. Assim, se há alguma essência, ela deve ser
buscada no nível dos fatos e não das supostas "coisas". Ora, a crítica
da linguagem exige a redução das proposições complexas a signos
simples em ligação direta; esses signos simples, por sua vez, exigem
a redução dos fatos complexos a objetos simples em ligação imediata.
O paralelismo entre a proposição elementar e o fato atômico mostra
não apenas que existe a essência, mas também onde ela deve ser
buscada.
Deste ponto de vista, dar a essência do mundo equivale a dar as
condições transcendentais de possibilidade dos fatos que constituem o
mundo. Em virtude do paralelismo entre a proposição e o fato que ela
descreve, essas condições equivalem às condições transcendentais de
possibilidade das proposições que constituem a linguagem. Dar a es­
sência da proposição equivale a dar a essência da descrição que equi­
vale a dar a essência do mundo. Em suma, a análise lógica do mundo
corresponde à análise lógica da linguagem e ambas envolvem uma
ontologia. Nesta última, a lógica desempenha o papel fundamental de
lei transcendentalmente estruturante da realidade: os fatos e as propo­
sições são o que são graças à forma lógica. A ontologia tractatiana é,
em última instância, um atomismo lógico-transcendental. Esse é o
surpreendente resultado da crítica da linguagem.
Como lei transcendentalmente estruturante, a lógica atua em dois
níveis. Em primeiro lugar, temos o nível da constituição do próprio

193
Iniciação ao silêncio

fato. Aqui, como já sabemos, a Teoria Pictórica do Significado mostra


a forma lógica como a condição de possibilidade da figuração afigurar
o afigurado. A figuração é um fato projetado sobre o afigurado, que
também é um fato. O que ambos têm em comum é a estrutura ou
forma lógica. Este aspecto será esclarecido quando mostrarmos, adiante,
que os objetos estão no interior de um espaço lógico. Nesse sentido,
os objetos podem combinar-se porque já incluem a priori a possibili­
dade de todas as suas ligações.
Em segundo lugar, temos o nível das "relações" entre os fatos
assim constituídos, ou, mais rigorosamente, das combinações lógicas
entre eles. Para entender isso, é importante observar que a ontologia
tractatiana nos leva a outra conclusão importante. Por um lado, cada
estado de coisas é uma combinação de objetos em ligação direta; cada
proposição atômica é uma combinação de nomes em ligação direta.
Dado conjunto de objetos se articula e produz, como resultado, o
estado de coisas; dado conjunto de nomes se articula e produz, como
resultado, a proposição atômica. Por sua vez, os estados de coisas são
independentes uns dos outros ( 1 922: 2.06 1 -062); como contrapartida
lingüística, as proposições atômicas são independentes umas das ou­
tras ( 1 922: 4. 1 34- 1 36) . Desse modo, se os objetos incluem a priori as
combinações possíveis com outros objetos, o estado de coisas resul­
tante simplesmente existe ou não, sem afetar ou ser afetado por qual­
quer outro estado de coisas; se os nomes incluem a priori as combi­
nações possíveis com outros nomes, a proposição elementar resultante
é simplesmente verdadeira ou falsa, sem afetar ou ser afetada por
qualquer outra proposição elementar. Isso introduz uma propriedade
lógica fundamental : a bipolaridade (um estado de coisas existe ou não;
uma proposição atômica é verdadeira ou falsa). Ora, tomemos um
conjunto qualquer de proposições atômicas. Associando a indepenqên­
cia com a bipolaridade dessas proposições, vemos que elas admitem
certo número de combinações a partir de seus valores de verdade e
que esse número é determinado a priori. O mesmo vale, mutatis
mutandis, para o caso dos estados de coisas.
Esses dois níveis, por meio dos quais a lógica se constitui como
lei estruturante do real, serão explicados a seguir. Para entender o
papel desempenhado pela lógica no nível da constituição dos fatos, é
194
A lógica como essência do mundo

preciso que comecemos pela análise da estrutura dos próprios fatos do


mundo. Sabemos que eles se reduzem, em última instância, a articu­
lações de estados de coisas. Cada estado de coisas, por sua vez, é
definido como uma ligação de objetos simples ( 1 922: 2.0 1 ) . A partir
daí, Wittgenstein afirma que faz parte da essência do objeto o ser
elemento constituinte de um estado de coisas ( 1 922: 2.0 1 1 ). Imagine­
mos que dado objeto pudesse existir por si só, de maneira independen­
te, só posteriormente acoplando-se a outros para gerar um estado de
coisas: isso seria praticamente obra do acaso ( 1 922: 2.0 1 2 1 ) . Com
efeito, se o objeto pode ser parte constituinte do estado de coisas, isso
já deve estar contido de antemão no próprio objeto, deve fazer parte
de sua essência ( 1 922: 2.0 1 2). Em outras palavras, assim como um
objeto espacial ou temporal não pode ser pensado fora do espaço ou
do tempo, o objeto simples não pode ser pensado fora da possibilida­
de de sua ligação com outros para formar o estado de coisas ( 1 922:
2.0 1 2 1 ) . Desse modo, tudo o que caracteriza o objeto simples, ou
seja, todas as suas possibilidades de ligação com outros, já está con­
tido nele a priori ( 1 922: 2.01 23). A possibilidade de ligação com
outros objetos constitui a forma do objeto simples ( 1 922: 2.0 1 4 1 ) .
Nesse sentido, o espaço, o tempo e a cor são formas dos objetos
( 1 922: 2.025 1 ). Estas podem ser as mais importantes, mas não são as
únicas. O objeto do tato, por exemplo, deve ter determinada consis­
tência e temperatura (cf. 1 922: 2.0 1 3 1 ).
Para esclarecer um pouco mais o que foi dito, podemos fazer
uma adaptação para o exemplo da foto de Fobos. Ali, determinado
ponto constitui um estado de coisas que possui dada cor, localizada
em dado instante e em dado lugar. Supondo que cada ponto seja
definido pela articulação de apenas três "objetos", a saber, 'vermelho
grau x ' , ' amarelo grau y ' e ' azul grau z ' , conforme a pretensa "análise
completa" que o computador de bordo da sonda espacial teria feito da
foto, podemos estabelecer que cada um desses "objetos", se conside­
rado em si mesmo ; não possui cor, localização temporal ou localiza­
ção espacial definidas (cf. 1 922: 2.0232) . Isso porque esses "objetos",
quando considerados isoladamente, não pertencem ao nível dos pontos
coloridos espaço-temporais ou estados de coisas (onde as propriedades
mencionadas são definidas), mas ao nível das condições transcendentais
de possibilidade destes estados de coisas (onde apenas a possibilidade

195
Iniciação ao silêncio

de tais propriedades é definida). Em virtude disso, cada um desses


"objetos" já inclui a priori a possibilidade de combinar-se com outros,
de maneira a produzir um ponto que possua cor, localização espacial
e localização temporal determinadas. Nesse sentido, cada um deles
possui apenas as "formas" da cor, do espaço e do tempo, as quais lhe
fornecem as condições para combinar-se com outros e produzir um
ponto colorido espaço-temporal.
Retomando a perspectiva abstrata tractatiana, imaginemos agora
que nos sejam dados todos os objetos simples que constituem a subs­
tância do mundo. Nesse caso, teríamos diante de nós também todos
os estados de coisas possíveis ( 1 922: 2.0 1 24) . Uma vez que cada um
desses objetos inclui a priori todas as combinações possíveis com
outros objetos, o conjunto de todos os objetos simples inclui a priori
todas as combinações possíveis desses objetos. Eles são tais que
cada um deles envolve um domínio de combinações possíveis com
outros, um espaço de estados de coisas possíveis. Podemos conceber
este espaço vazio, mas não podemos conceber o objeto simples sem
o espaço correspondente ( 1 922: 2.0 1 3).
Para ilustrar isso, voltemos ao caso da foto. Podemos dizer que
ali nos são dados todos os "objetos simples" que constituem a "subs­
tância" do mundo a que pertence a foto. Eles são trinta no total (dez
tonalidades para o vermelho, dez para o amarelo e dez para o azul).
Cada um desses "objetos", por exemplo, 'vermelho grau l , inclui a
'

priori todas as possibilidades de combinação com os demais "objetos"


de tonalidades amarela e azul, gerando pontos coloridos no espaço e
no tempo. O mesmo se aplica aos "objetos" de tonalidades amarelas
ou azuis. Portanto, o conjunto formado pelos trinta "objetos" nos dá
a priori o domínio de todas as combinações possíveis, isto é, o con­
junto de todos os pontos coloridos espaço-temporais possíveis, isto é,
o espaço de todos os estados de coisas possíveis se o mundo se redu­
zisse à foto. Podemos conceber o espaço de todos estes pontos possí­
veis como vazio, mas não podemos conceber sequer um desses "ob­
jetos" sem o espaço em que se inserem. De qualquer maneira, é con­
veniente lembrar aqui que o exemplo da foto de Fobos constitui ape­
nas uma aproximação grosseira das proposições atômicas e signos
simples propostos por Wittgenstein. Este exemplo se afasta da concep­
ção tractatiana porque pudemos contar os "objetos simples" envolvi-

196
A lógica como essência do mundo

dos (trinta). Na verdade, o número dos objetos autênticos não pode ser
estabelecido, pois Wittgenstein afirma claramente que não podemos
especificar a priori as proposições elementares que são constituídas
por meio deles ( 1 922: 5 .557 1 ).
Passemos agora à análise da estrutura das proposições de nossa
linguagem. Sabemos que elas se reduzem, em última instância, a ar­
ticulações de proposições atômicas. Cada proposição atômica, por sua
vez, se reduz a uma combinação de signos simples ou nomes. Nesse
caso, dado o paralelismo entre a linguagem e a realidade, vemos que
todas as propriedades válidas para os objetos simples devem ser tam­
bém válidas para os nomes. Assim, podemos dizer que faz parte da
essência do nome o ser parte constituinte de uma proposição atômica.
Imaginemos que ele pudesse existir por si só, de maneira independen­
te, só posteriormente acoplando-se a outros para gerar uma proposição
atômica. Poderíamos dizer que isso seria praticamente obra do acaso.
Se o nome pode ser parte constituinte da proposição atômica, isso já
deve estar contido de antemão no próprio nome, deve fazer parte de
sua essência. Desse modo, tudo o que caracteriza o nome, ou seja,
todas as suas possibilidades de ligação com outros, já está contido nele
a priori. A possibilidade de ligação com outros nomes constitui o que

poderíamos denominar a "forma" do nome.


Aqui também podemos fazer uma adaptação para o exemplo
de Fobos. Na descrição da foto, vemos que determinada "proposi­
ção atômica", por exemplo, ' 237 ' , constitui um estado de coisas
que possui determinadas propriedades físicas. Supondo que cada
"propos ição atômica" seja definida pela articulação de apenas três
"nomes", a saber, ' X' (para graus de tonalidade vermelha) , Y ' '

(para graus de tonalidade amarela) e ' Z ' (para graus de tonalidade


azul); conforme a pretensa "análise completa" que o computador de
bordo da sonda espacial teria feito da foto, podemos estabelecer que
cada um desses "nomes", se considerado em si mesmo, não possui
propriedades físicas definidas. Isso porque estes "nomes", quando
considerados isoladamente, não pertencem ao nível das proposições
atômicas (onde as propriedades mencionadas são definidas), mas ao
nível das condições transcendentais de possibilidade dessas proposi­
ções atômicas (onde apenas a possibilidade de tais propriedades é
definida). Em virtude disso, cada um desses "nomes" já inclui a priori

197
Iniciação ao silêncio

a possibilidade de combinar-se com outros, de maneira a produzir uma


proposição atômica que possua propriedades físicas determinadas. Nesse
sentido, cada um deles possui apenas as "formas" de tais propriedades,
as quais lhe fornecem as condições para combinar-se com outros e
produzir uma proposição atômica capaz de descrever um ponto colo­
rido espaço-temporal.
Isso nos permite a seguinte generalização. Imaginemos que nos
sejam dados todos os signos simples que constituem a "substância" da
linguagem. Nesse caso, teríamos diante de nós também todas as pro­
posições atômicas possíveis. Uma vez que cada um desses nomes
inclui a priori todas as combinações possíveis com outros, o conjunto
de todos eles inclui a priori todas as combinações possíveis desses
nomes. Os signos simples são tais que cada um deles envolve um
domínio de combinações possíveis com outros, um espaço de propo­
sições atômicas possíveis. Podemos conceber este espaço vazio, mas
não podemos conceber o signo simples sem o espaço correspondente.
No caso da descrição computadorizada da foto de Fobos, cada
proposição que a compõe é uma seqüência de algarismos de forma
'XYZ'. Por meio deste esquema, nos são dados todos os "signos sim­
ples" que constituem a "substância" da descrição da foto. Eles são
trinta no total (dez para as tonalidades de vermelho, dez para as de
amarelo e dez para as de azul). Cada um desses "nomes", por exemplo
' l ' (na posição 'X', designando 'vermelho grau l '), inclui a priori
todas as possibilidades de combinação com os demais "nomes" de
tonalidades de amarelo ou de azul, gerando proposições atômicas. O
mesmo se aplica aos "nomes" de tonalidades amarelas ou azuis. Portan­
to, o conjunto formado pelos trinta "nomes" nos dá a priori o domínio
de todas as combinações possíve:s, ou seja, dos estados de coisas pos­
síveis, o espaço de todas as proposições atômicas possíveis. Podemos
conceber. o espaço de todas essas proposições possíveis como vazio,
mas não podemos conceber sequer um desses "nomes" sem este espaço.
O estado de coisas se constitui como independente dos demais e
capaz de existir ou não. A proposição atômica que o descreve também
é independente das demais e bipolar. Essa propriedade determina o
aparecimento de novas combinações possíveis, agora entre proposi­
ções atômicas. Tais combinações são também determinadas pela lógi-

198
A lógica como essência do mundo

ca como lei estruturante da realidade, mas agora no segundo nível men­


cionado. Realmente, uma vez constituído o estado de coisas pela forma
lógica, o que obtemos é uma entidade bipolar que pode combinar-se com
outras de acordo com as leis que esta bipolaridade determina. Estas leis
estão expressas nas tabelas de valores de verdade, já mencionadas no
capítulo 5. Para explicar isso, suponhamos que a realidade se reduza a
apenas dois estados de coisas, descritos respectivamente pelas proposi­
ções atômicas ' p ' e ' q ' . Como cada uma delas pode ser verdadeira ou
falsa, as combinações que elas admitem em função de seus valores de
verdade podem ser dadas pela tabela abaixo, já nossa conhec ida:

p q
V V
V F
F V
F F

O importante a ser observado aqui é que o número total de com­


binações de v alores de verdade destas proposições está determinado a
priori e pode ser calculado multiplicando-se 2 (número de v alores de
verdade de ' p ' ) por 2 (número de valores de verdade de ' q ' ) . Em
símbolos, teríamos: 2 x 2 = 22 = 4. Se tivéssemos três proposições,
como, por exemplo, ' p ' , ' q ' e ' r ' , o número total de combinações seria
2 (para ' p ' ) x 2 (para ' q ' ) x 2 (para ' r ' ) = 23 = 8 (para as três) , dando
origem à seguinte tabela:

p q r
V V V
V V F
V F V
V F F
F V V
F V F
F F V
F F F

199
Iniciação ao silêncio

Como se pode ver nos dois casos considerados, o número ' 2 '
define a s duas possibilidades que a bipolaridade d a proposição estabe­
lece para a realidade: verdadeira ou falsa, sim ou não. Jâ o total de
combinações de valores de verdade para duas proposições foi obtido
elevando -se este número ' 2 ' à potência ' 2 ' ; o total para três proposi­
ções foi obtido elevando-se ' 2 ' à potência '3 '. Isso permite a seguinte
generalização: se tivéssemos quatro proposições, o total de combina­
ções possíveis seria 24; se tivéssemos cinco proposições, o total seria
25; e assim sucessivamente. Generalizando ainda mais, podemos dizer
que para n proposições atômicas o número total de combinações de
seus valores de verdade serâ 2". O importante a ser observado aqui é
que o número dessas combinações possíveis jâ estâ determinado a
priori em virtude da bipolaridade das proposições envolvidas.
As coisas, porém, não terminam aí. Uma vez estabelecidas todas
as combinações de valores de verdade das proposições atômicas, é
também possível construir operações lógicas ou funções cujos valores
de verdade dependem dessas combinações. Suponhamos que a reali­
dade se reduza a uma única proposição atômica, a saber, ' p ' . O núme­
ro de combinações possíveis de valores de verdade de 'p' é 21 2: =

p
V
F
As funções de valores de verdade que podem ser construídas a
partir de 'p' são as seguintes:

li
p 1 2 3 4
V V V F F
F V F V F

A função ' 1 ' corresponde a uma tautologia associada a ' p ' , como,
por exemplo, 'p => p ' ; a função '2' corresponde à própria proposição
' p ' ; a função ' 3 ' , à negação de ' p ' ; a função ' 4 ' , a uma contradição
associada a ' p ' , como, por exemplo, 'p e -p ' . Para saber quantas são
estas funções, eleva-se o número de combinações de valores de ver­
dade de ' p ' , ou seja, ' 2 ' , à potência ' 2 ' (que representa o número de

200
A lógica como essência do mundo

valores de verdade possíveis para cada função): 22 4. Retomando =

agora à nossa suposição inicial de que a realidade se compõe de ape­


nas dois estados de coisas respectivamente descritos pelas proposições
'p' e ' q ' , é possível construir dezesseis funções cujos valores de ver­
dade dependem das combinações dos valores de verdade dessas duas
proposições. Para chegar a este número 1 , toma-se o total de combina­
ções possíveis de valores de verdade de 'p' e ' q ' , ou seja, ' 4 ' , e eleva­
-se à potência ' 2 ' (número de valores de verdade de cada função),
obtendo-se 42 = 1 6. A tabela abaixo mostra estas novas funções:

p q 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16
V V V F V V V F F F V V V F F F V F
V F V V F V V F V V F F V F F V F F
F V V V V F V V F V F V F F V F F F
F F V V V V F V V F V F F V F F F F

A linha dupla faz a seguinte demarcação: à esquerda está o total


de combinações dos valores de verdade de 'p' e ' q ' ; à direita, as novas
funções obtidas a partir destas combinações, numeradas de ' l ' a ' 1 6' .
Passemos à descrição de cada uma delas.
A função da coluna 1 é tal que, quando ' p ' e 'q' são ambas
verdadeiras ( l ª linha), ela é verdadeira; quando 'p' é verdadeira e 'q'
é falsa (2ª linha), ela é verdadeira; quando 'p' é falsa e 'q' é verdadeira
(3ª linha), ela é verdadeira; quando 'p' e 'q' são ambas falsas (4ª
linha), ela é verdadeira. Tal função corresponde àquilo que Wittgenstein
denomina 'tautologia' e pode ser expressa de várias maneiras, como, por
exemplo, 'p � p' ('se p, então p'), 'p v -p' ('p ou não p') etc.
A função da coluna 3 é tal que só é falsa quando ' p ' é verdadeira
e ' q ' , falsa (2ª linha); nos demais casos ( l ª, 3ª e 4ª l inhas), é verda­
deira. Ela corresponde, portanto, a ' p � q' ( ' se p, então q').
Utilizando o mesmo tipo de raciocínio, podemos estabelecer a
seguinte correspondência para as demais funções da tabela: a da colu-

1 . A demonstração da fónnula geral para se fazer este cálculo encontra-se em


Chauvineau ( 1 962: 1 1 ).

201
Iniciação ao silêncio

na 2 corresponde a 'p 1 q ' (incompatibilidade ou negação da conjunção


de ' p ' e 'q'); a da 4 corresponde a 'q � p' ( ' se q, então p ' ); a da 5,
a 'p v q' (disjunção não-exclusiva de ' p ' e 'q'); a da 6, a '-q' ('não
q'); a da 7, a '-p ' (' não p'); a da 8, a 'p w q' (disjunção exclusiva de
'p' e 'q'); a da 9, a 'p <=> q' ('p se e somente se q'); a da 1 0, a ' p ' ;
a d a 1 1 , a ' q ' ; a d a 1 2, a '-p e -q ' (rejeição: 'nem p , nem q ' ) ; a da
1 3 , a 'p e -q ' ('p e não q'); a da 1 4, a ' q e -p ' ('q e não p '); a da 1 5 ,
a 'p e q' (conjunção de ' p ' e 'q'); a da 1 6, a 'p e -p ' , ou 'q e -q ' etc .
(contradição).
Já sabemos que a lógica possui um papel fundamental na deter­
minação do número total de combinações possíveis de valores de
verdade de 'p' e ' q ' . A tabela da página anterior nos mostra que ela
também determina o número de funções que podem ser construídas a
partir desse total de combinações. Ela constitui uma lei estruturante da
realidade neste duplo sentido. Isso nos leva, contudo, a três conclusões
paradoxais sobre a natureza da lógica enquanto capaz de determinar a
estrutura do mundo.
Em primeiro lugar, podemos dizer que não há proposições privi­
legiadas em lógica. Com efeito, as tabelas de valores de verdade nos
mostram que, dada uma proposição qualquer, sua análise completa nos
revelará suas componentes elementares e as operações lógicas envol­
vidas; o número de componentes elementares determinará as combi­
nações possíveis de valores de verdade; a aplicação de operações ló­
gicas a essas combinações de valores de verdade determinará todos os
valores de verdade possíveis para a proposição assim analisada. É
neste sentido que Wittgenstein afirma que a lógica trata de cada pos­
sibilidade e todas as possibilidades são seus fatos ( 1 922: 2.0 1 2 1 ) .
Consideremos, a título de ilustração, dada proposição da lógica, como
' [(p � q) e p] � q ' , que expressa o modus ponens. Tendo em vista
que ela envolve apenas duas componentes elementares, a saber, 'p' e
' q ' , o número de combinações possíveis de valores de verdade de
ambas é 22 4. Há duas operações lógicas envolvidas, a implicação
=

material, · � · . e a conjunção, ' e ' . Aplicando-se essas operações, de


modo a esgotar todas as combinações possíveis, a seguinte tabela de
valores de verdade é gerada:

202
A lógica como essência do mundo

p q p�q (p � q) & p [(p � q) & p] � q


V V V V V
V F F F V
F V V V V
F F V F V

A tabela mostra que é perfeitamente possível, a partir da consi­


deração isolada da proposição ' [ (p � q) e p] � q ' , determinar que ela
é sempre verdadeira. Isso acontece com ela e com qualquer outra
tautologia. O mesmo se aplica às contradições e às proposições con­
tingentes. A lógica estrutura e atravessa a realidade de tal maneira que
todos os aspectos logicamente relevantes de dada proposição já se
encontram nela mesma, independentemente da consideração de qual­
quer outra. Nessa perspectiva, podemos dizer que todas as proposições
da lógica têm o mesmo status; não há proposições essencialmente
primitivas nem essencialmente derivadas ( 1 922: 6. 1 27). O método
axiomático utilizado inicialmente por Frege, no ' Begriffschrift', e, mais
tarde, por Russell e Whitehead, nos Principia Mathematica, é equivo­
cado, conferindo um status diferente a um número arbitrário de "pro­
posições primitivas" das quais todas as outras são derivadas. Assim, é
para fazer face ao engano de Frege e Russell que Wittgenstein conce­
be a alternativa representada pelo método das tabelas de valores de
verdade, segundo o qual tudo o que é logicamente relevante numa
proposição pode ser derivado dela própria.
Em segundo lugar, podemos dizer que a lógica não é algo que
possa ser representado. As chamadas "constantes lógicas", como ' e ' ,
' ou ' , ' se-então ' etc., não são nomes de "relações abstratas" que fun­
cionariam como "objetos lógicos". Elas não são como os signos sim­
ples, que designam objetos simples; na verdade, elas nada designam.
Com efeito, uma avaliação mais cuidadosa da tabela da p. 20 1 , que
contém as dezesseis funções, nos mostra que as proposições atômicas
' p ' e ' q ' funcionam como a base sobre a qual uma série de operações
lógicas são efetuadas. Conforme explicado no capítulo 5 , Wittgenstein
considera que uma operação é o que deve acontecer com uma propo­
sição para que dela se faça outra ( 1 922: 5 .23) . Por meio da operação,
construímos logicamente uma proposição a partir de outra, que funcio-

203
Iniciação ao silêncio

na como sua base. Além disso, o resultado de uma operação pode ser
a base para uma nova aplicação da operação ( 1 922: 5 .25 1 ). Desse
modo, a partir da base ' p ' , obtemos '-p ' ; a partir de '-p ' , construímos
· --p ' ; de ·--p ' , temos ·---p ' ; e assim sucessivamente. Por causa
disso, uma operação pode cancelar o efeito de outra, como acontece
em ' --p ' , que equivale a 'p' ( 1 922: 5 .25 3-254). Isso nos permite
considerar a tabela da p. 20 1 como resultante da efetuação de uma
série de operações sobre as bases representadas pelas proposições
atômicas ' p ' e ' q ' . Do ponto de vista que nos interessa, isso significa
que qualquer proposição, seja ela simples ou complexa, pode ser con­
siderada o resultado de operações de verdade com proposições atômi­
cas ( 1 922: 5 .3). Nessa perspectiva, cada uma das dezesseis colunas da
tabela da p. 20 1 dá os valores de verdade de dada proposição comple­
xa que foi construída mediante certa operação lógica aplicada às pro­
posições ' p ' e 'q' . Ora, se isso é verdade, o sentido de 'p' e o de 'q'
constituem as bases fundamentais para a construção do sentido de
todas as proposições complexas que podem ser obtidas a partir de
ambas. O resto nada mais é que efetuação de operações lógicas sobre
' p ' e ' q ' . Assim, por exemplo, os sentidos de 'p e p ' , 'p v p ' , 'p �
p ' , ou até mesmo '-p ' 2 são funções do sentido de 'p' . Os sentidos de
todas estas funções de verdade somente podem ser fixados quando o
sentido de ' p ' já está determinado3•
As operações lógicas não estabelecem novas relações projetivas,
elas apenas combinam as relações projetivas primitivas estabeleci­
das pelas proposições atômicas . Em virtude disso, essas operações
nada designam. Como elas correspondem às conectivas 'não ', ' e ' ,
' ou ' , ' se-então ' etc . , o u seja, às ' constantes lógicas ' d e Frege e
Russell, Wittgenstein formula esta conclusão paradoxal da seguinte
maneira:
"( . . . ) a possibilidade da proposição repousa sobre o princí­
pio da substituição de objetos por sinais.

2. Se a negação de 'p' inverte o sentido dessa proposição, ela pressupõe o


sentido de ' p ' para poder operar sobre ele.
3. Isto está relacionado com a discussão feita no capítulo 5, em que procuramos
mostrar que a incidência de uma operação lógica não altera o sentido da proposição.
Este já deve estar determinado para que a operação lógica possa ser aplicada corre­
tamente.

2 04
A lógica como essência do mundo

Minha idéia básica é que as 'constantes lógicas' não subs­


tituem; que a lógica dos fatos não se deixa substituir" ( 1 922:
4.03 1 2).
Não há "objetos lógicos" ( 1 922: 5 .4) . O simples fato das chama­
das ' constantes lógicas ' admitirem definições cruzadas, como em
' (p ::::) q) = or -(p e -q) ' , por exemplo, já mostra que elas não são
signos primitivos e que não designam relação alguma ( 1 922: 5 .42).
Com efeito, os signos primitivos ou simples se caracterizam por apon­
tar de maneira inequívoca para os objetos que designam. Desse modo,
a elucidação de um signo simples não pode ser feita por meio de
definições ( 1 922: 3 .26 1 ) . Se as constantes lógicas admitem definições,
é porque elas não são signos simples e, por conseguinte, nada desig­
nam. Além disso,
"se houvesse um objeto chamado '-' , '-p' deveria dizer algo
diferente do que 'p' diz. Pois, nesse caso, uma das proposições
trataria precisamente de '-' , a outra não" ( 1 922: 5.44).
No mesmo espírito, Wittgenstein acrescenta:
"Esse desaparecimento das aparentes constantes lógicas
também ocorre se '-(Ex)-fx' diz o mesmo que '(x)fx' , ou
'(Ex)fx e (x a)' , o mesmo que 'fa "' ( 1 922: 5.441 )4•
=

Em terceiro lugar, a independência das proposições atômicas,


associada ao fato de a lógica constituir a lei estruturante das combi­
nações possíveis dessas proposições, nos leva a mais uma importante
conclusão da ontologia tractatiana: fora da lógica, tudo é acaso ( 1 922:
6.3); só há necessidade lógica ( 1 922: 6.37). Por um lado, a indepen­
dência das proposições atômicas significa que elas não entretêm qual­
quer espécie de relação necessária entre si. Assim, dadas duas propo­
sições atômicas ' p ' e ' q ' , por exemplo, não há nada que exija que 'p
::::) q' seja verdadeira. É certo que, se 'p' e 'q' forem ambas verdadeiras
ou se ' p ' for falsa, 'p ::::) q' será verdadeira; mas isso depende da
definição da conectiva ' ::::) ' e não da existência de alguma relação
necessária entre ' p ' e 'q' . Da mesma forma, não há nada que exija que
'p ::::) q' seja falsa. Isso ocorrerá se 'p' for verdadeira e ' q ' , falsa, mas

4. Ver também 1 922: 4.064-4.0641 .

205
Iniciação ao silêncio

novamente apenas em virtude da definição de ' => ' , não da existência


de alguma relação necessária entre as proposições envolvidas. Como
cada uma das proposições atômicas envolvidas é contingente, ou seja,
pode ser verdadeira ou falsa, podemos concluir que a verdade ou
falsidade de 'p => q' é também contingente. Por sua vez, as leis das
combinações possíveis entre 'p' e 'q' são tais que, com base nas de­
finições de ' => ' , 'e' e ' - ' , podemos construir as seguintes expressões
necessariamente verdadeiras: '(p => q) => (p => q)' , ' [(p => q) e p] => q',
' (p => q) => ( -p => -q) ' . Aqui também o que conta é a definição das
funções de valores de verdade envolvidas: qualquer que seja a combina­
ção de valores de verdade de 'p' e 'q', o valor de verdade de cada uma
dessas expressões é sempre 'V' . Essas expressões são verdadeiras por
razões puramente lógicas, sem depender da verdade ou falsidade de 'p' e
'q' . Mutatis mutandis, raciocínio semelhante pode ser aplicado ao caso de
proposições como '-[(p => q) => (p => q)] ' ou '-{[(p => q) e p] => q}',
que são necessariamente falsas. Cada proposição atômica pode ser
verdadeira ou falsa, e neste sentido, é contingente; a necessidade surge
quando a proposição atômica é combinada com outras por meio de
operações lógicas e o resultado é uma proposição complexa sempre
verdadeira. É por isso que só há necessidade lógica.
Como lei estruturante do real, a lógica perpassa o mundo; os
limites de ambos são idênticos ( 1 922: 5 .6 1 ) . Embora as proposições
da lógica sejam tautologias que nada dizem, elas mostram a essência
do mundo ( 1 922: 6. 1 2). E, na medida em que só pode se mostrar por
meio de tautologias que nada dizem, a lógica não constitui nem pode
constituir um corpo de doutrina. Mesmo assim, ela corresponde a uma
imagem especular da estrutura do mundo (cf. 1 922: 6. 1 3). Nessa pers­
pectiva, a lógica é transcendental .

Ili - A forma geral da proposição

As considerações feitas até agora nos permitem estabelecer um


importante princípio da crítica tractatiana da linguagem: se as propo­
sições dotadas de sentido se reduzem a articulações de proposições
atômicas, deve haver um processo lógico pelo qual sejamos capazes
de gerar as proposições complexas a partir das atômicas. Esse proces-

206
A lógica como essência do mundo

so existe e Wittgenstein o chama de "forma geral da proposição"


( 1 922: 6). Para entendê-lo, retomemos a conectiva binária definida
como a função ' 2 ' da tabela de dezesseis funções de valores de ver­
dade considerada anteriormente. Essa conectiva expressa a relação
lógica de incompatibilidade e é assim definida:

p q p l q
V V F
V F V
F V V
F F V

Como se pode ver, 'p 1 q' equivale a '-(p e q) ' 5 • O aspecto mais
importante da conectiva ' I ' , porém, é que, quando aplicada apenas a
'p' , equivale a '-p ' 6 • Graças a isso, podemos expressar todas as de­
mais conectivas da tabela mencionada apenas por intermédio de ' I ' . As
correspondências são as seguintes: '-p ' equivale a 'p 1 p ' ; ' p ' , a
' (p 1 p) 1 (p 1 p) ' (ou '--p'); 'p e q ' , a ' (p 1 q) 1 (p 1 q) ' (ou '-(p 1 q) ');
' p v q ' , a ' [(p 1 p) 1 (q 1 q)] 1 [(p 1 p) 1 (q 1 q)) ' (ou '-(-p e -q) ');
' p => q ' , a ' [p 1 (q 1 q)] 1 [p 1 (q 1 q)) ' (ou '-(p e -q) '); e assim
sucessivamente. Ora, suponhamos que o conjunto de todas as propo­
sições atômicas possíveis seja formado apenas pelas quatro seguintes:
' '
p , ' q ' , 'r' e ' s ' . Designemos esse conjunto como ' K ' . Nesse caso,
qualquer proposição complexa pode ser formada selecionando-se al­
gumas das proposições de K (isto é, um subconjunto de K) e combi­
nando-as por meio de ' I ' . Selecionemos, por exemplo, 'p' e ' q ' . Para
este subconjunto, é possível formar, entre outras, as seguintes propo­
sições complexas:
'p 1 q ' ;
' (p 1 q ) 1 ( p 1 q) ' ;
' [(p 1 q) 1 (p 1 q)] 1 [(p 1 q) 1 (p 1 q)) ' ;

5 . Na tabela das dezesseis funções, ' p & q ' é a de número 1 5 , e sua negação,
' -(p & q) ' , a de número 2.
6. 'p 1 p' só é verdadeira quando as duas proposições envolvidas são falsas .
Neste caso, quando 'p' é falsa, ' p 1 p' é verdadeira, e, quando 'p' é verdadeira, p 1 p'
é falsa. Desse modo, 'p 1 p' equivale a p '- ' .

207
'p 1 (q 1 q) ' ;
' [p 1 (q 1 q)] 1 [p 1 (q 1 q)] ' ;
' (p 1 p) 1 q ' ;
' [ (p 1 p) 1 q] 1 [ (p 1 p) 1 q] ' ;
etc.
Basta, portanto, aplicar, reiteradamente e de todas as formas
possíveis, a operação ' I ' às proposições atômicas do subconjunto.
Variando o subconjunto selecionado, variam também as proposições
complexas formadas. O mais importante, porém, é o fato de que a
aplicação reiterada da operação a todos os subconjuntos de K é capaz
de gerar TODAS as proposições complexas possíveis. Estas últimas se
revelam claramente como funções de valores de verdade das proposições
atômicas que constituem K. Esse processo gerativo constitui o que
Wittgenstein chama de "forma geral da proposição".
Em 1 9 1 3 , o lógico Sheffer descobriu que todas as dezesseis fun­
ções lógicas binárias poderiam ser representadas pela incompatibilida­
de ( ' p 1 q') ou pela rejeição ('nem p, nem q' ou '-p e -q ') ( 1 9 1 3 : 48 1 -
-488). É esta idéia que Wittgenstein aproveita para construir no
Tractatus o conceito de forma geral da proposição. O parágrafo ante­
rior ilustra como isso pode ser feito pela incompatibilidade, que é mais
tratável por não envolver a negação. Em vez de trabalhar com esta
conectiva, Wittgenstein opta pela rejeição. Assim, se voltarmos ao
subconjunto de K formado por 'p' e 'q' e aplicarmos reiteradamente
a operação de rejeição, veremos que algumas das expressões obtidas
assumem a seguinte forma:
'-p e -p";
'-q e -q";
'-p e -q ' ;
'-(-p e -p) e -(-q e -q) ' ;
'-(-p e -q) e -(-p e -q) ' ;
etc.
Aqui também, como no caso anterior, é possível construir TO­
DAS as proposições possíveis pela aplicação reiterada da rejeição. É
por isso que Wittgenstein define a forma geral da proposição (ou da
função de verdade) como [p , �. N(� ] ( 1 922: 6). Nesta fórmula, 'p'
representa o conjunto formado por TODAS as proposições atômicas;
208
A lógica como essência do mundo

'l;' ,
um subconjunto qualquer de proposições atômicas selecionadas
em 'p'; 'N(�', a aplicação da operação de rejeição às proposições do
subconjunto selecionado. A fórmula simplesmente resume o processo
geral pelo qual pode ser produzida qualquer proposição complexa a
partir da efetuação reiterada da mesma operação lógica sobre propo­
sições atômicas, processo este que ilustra com perfeição a maneira
pela qual a lógica constitui a lei estruturante ou essência do mundo.
Além disso, o processo deixa claro também que cada proposição com­
plexa é uma função dos valores de verdade das proposições atômicas
que a constituem.
Até agora, explicamos como é possível obter proposições com­
plexas a partir da efetuação reiterada de operações lógicas sobre as
elementares. As proposições complexas assim obtidas não esgotam,
porém, o domínio a ser explicado. O que ocorre com as proposições
quantificadas, como, por exemplo, ' (x) Fx ' e ' (Ex) Gx ' , que também
são complexas e não parecem ter sido obtidas pelas operações lógicas
consideradas? Para entender isso, é preciso levar em conta dois aspec­
tos fundamentais destas proposições.
O primeiro está expresso no aforisma abaixo:
"Separo o conceito 'todo ' da função de verdade.
Frege e Russell introduziram a generalidade em conexão
com o produto lógico ou a soma lógica. Assim, tornou-se
difícil entender as proposições '(Ex) Fx' e '(x) Fx' , em que
estão encerradas ambas as idéias" ( 1 922: 5 .52 1 ) .
Wittgenstein associa o conceito 'todo ' a 'protótipos lógicos ' . Desse
ponto de vista, as proposições quantificadas funcionam como 'protó­
tipos lógicos ' ( 1 922: 5 .522). Suponhamos uma proposição como 'João
dorme' . Transformemos agora o argumento 'João ' na variável ' x ' .
Como resultado, obteremos 'x dorme' , que pode ser interpretada como
uma 'variável proposicional ' ( 1 922: 3 .3 1 4). Nesse caso, 'x dorme'
especifica uma classe de proposições, das quais 'Maria dorme' , 'José
dorme' , 'João dorme' etc. são elementos. Aqui, contudo, a classe
especificada ainda depende do significado convencional da expressão
' dorme ' . Se a transformarmos também em uma variável, a saber 'Yx ' ,
ainda obteremos urp.a variável proposicional que determina outra elas-

209
Iniciação ao silêncio

se de proposições. Esta última, porém, é mais abrangente que a classe


especificada por 'x dorme' e até mesmo a inclui. Isto porque a classe
determinada por ' Yx ' não depende de qualquer significado convencio­
nal, mas apenas da natureza da proposição inicialmente expressa por
'João dorme' (cf. 1 922: 3.3 1 5). Em virtude disso, 'Yx' corresponde a
um protótipo lógico (idem).
Uma vez dada, ' Yx' também permite a construção de variáveis
proposicionais quantificadas. Para tanto, basta acrescentar a 'Yx' os
quantificadores existencial e universal, obtendo, respectivamente, ' (Ex)
Yx' e ' (x) Yx ' . A peculiaridade dessas proposições quantificadas (ou
generalizadas) é que ambas indicam protótipos lógicos e dão proemi­
nência a constantes ( 1 922: 5 .522). Com efeito, o ponto de partida de
todas elas foi 'João dorme' . Ao substituir em ' (x) Yx ' todos os signos
que dependem de significados convencionais por variáveis e ao acres­
centar quantificadores, acabamos por dar proeminência à forma lógica
profunda de 'João dorme' , a saber, 'Yx ' , que se revela como a única
"constante" que restou. Se isso está correto, a construção de proposi­
ções generalizadas pelo procedimento de substituir expressões com
significados convencionais por variáveis não envolve o apelo a fun­
ções de valores de verdade. Ela envolve antes a construção de protó­
tipos que expressam a forma lógica subjacente à proposição analisada.
Isso explica por que Wittgenstein dissocia o conceito ' todo ' das fun­
ções de valores de verdade.
O segundo aspecto fundamental a ser considerado na análise das
proposições generalizadas é que elas, pelo simples fato de serem pro­
posições, devem corresponder a funções de valores de verdade das
elementares. Isso se liga à tese tractatiana de que o produto e a soma
lógica estão encerrados nas proposições ' (x) Fx ' e ' (Ex) Fx ' ( 1 922:
5 .52 1 ) . Já sabemos que dada proposição, ao ser analisada, deve levar­
-nos às proposições elementares ( 1 922: 4.22 1 ) e que a primeira é
função de valores de verdade das últimas ( 1 922: 5). Além disso, as
proposições elementares contêm todas as operações lógicas, aí inclu­
ídos os quantificadores ( 1 922: 5.47). Se uma proposição é composta,
ela envolve argumento e função, os quais, por sua vez, envolvem todas
as constantes lógicas (idem). Assim, uma proposição como ' Fa ' , por
exemplo, diz o mesmo que ' (Ex) Fx e (x = a) ' ou '-(x) -Fx e (x =
a)' . Ora, estes princípios são suficientemente abrangentes para incluir

2 10
A lógica como essência do mundo

as proposições generalizadas, o que também faz delas funções de valores


de verdade das proposições elementares. Desse modo, embora a pro­
posição generalizada, como protótipo, possa ser construída indepen­
dentemente das funções de valores de verdade, a atribuição de um
valor de verdade a ela terá de levar-nos de volta a estas funções. Isso
ocorre da seguinte maneira.
Em primeiro lugar, um protótipo lógico estipula as proposições
que são os valores da variável proposicional que ele expressa. A es­
tipulação é feita por meio da forma lógica comum a todas as propo­
sições envolvidas. Esse processo é puramente sintático e constitui a
base para estabelecer uma equivalência lógica entre o protótipo e a arti­
culação lógica das proposições que ele especifica ( 1922: 3.326-327)7•
Em segundo lugar, uma vez feita a estipulação, o valor de ver­
dade do protótipo será calculado por meio dos valores de verdade das
proposições que constituem os valores da variável proposicional ex­
pressa por ele. Isso está em harmonia com a tese tractatiana de que
se nos é dada uma proposição, com ela já são dados tam­
bém os resultados de todas as operações de verdade que a
tenham como base ( 1 922: 5 .442).
Assim, no caso de uma proposição envolvendo, por exemplo, o
quantificador universal, o protótipo lógico obtido será verdadeiro se e
somente se todas as proposições pertencentes ao conjunto especificado
pelo protótipo forem verdadeiras ( 1 922: 5.52). Portanto, ' (x) Fx' será
equivalente ao produto lógico das proposições pertencentes ao conjun­
to especificado pelo protótipo. Quanto a ' (Ex) Fx' , o protótipo lógico
obtido será verdadeiro se e somente se pelo menos uma das proposi­
ções pertencentes ao conjunto especificado pelo protótipo for verda­
deira. Portanto, essa proposição será equivalente à soma lógica das
proposições pertencentes ao conjunto especificado pelo protótipo. Isso
nos leva dos protótipos às funções de valores de verdade e explica por
que Wittgenstein afirma que o produto e a soma lógica estão encerra­
dos na generalidade. Simultaneamente, isso revela que a sugestão de
Russell de que Wittgenstein deriva as proposições gerais de conjun-

7. Até este ponto minha interpretação coincide com a de Russell em sua "In­
trodução" ao Tractatus. Ver também Fogelin ( 1 976: 57).

21 1
Iniciação ao silêncio

ções e disjunções (Russell 1 922: 1 2 1 ) não é inteiramente correta. Na


verdade, Wittgenstein precisa do produto e da soma lógica para atri­
buir um valor de verdade à proposição geral, e não para construí-la:
o protótipo lógico é obtido pela mera introdução das variâveis ade­
quadas.
Não se deve pensar, contudo, que por conterem variáveis as pro­
posições generalizadas envolvam alguma forma de indeterminação que
as impeça de serem funções de valores de verdade de proposições
atômicas8• Com efeito, apesar da indeterminação, a proposição gene­
ralizada especifica claramente um conjunto de proposições e é uma
função de valores de verdade dessas proposições. É certo que o estâ­
gio final da análise da proposição generalizada envolveria variâveis
proposicionais contendo variâveis que representariam signos simples.
Mas convém lembrar que essas variâveis proposicionais ainda seriam
capazes de especificar conjuntos de proposições elementares. Assim,
até mesmo a proposição generalizada pode ser considerada uma fun­
ção de valores de verdade de proposições elementares. Em última
análise, isso significa que a proposição generalizada é perfeitamente
capaz de descrever o mundo.
Essa idéia é reforçada pelo aforisma 5 .526, no qual Wittgenstein
afirma que podemos descrever o mundo completamente por meio das
proposições inteiramente generalizadas. Com efeito, uma proposição
não inteiramente generalizada constitui simplesmente um estágio na
construção de uma inteiramente generalizada. Assim, uma proposição
como ' (Ex) (EY) Yx' difere de ' (Ex) Fx ' porque o conjunto de pro­
posições especificado pela primeira é mais amplo que o especificado
pela segunda. Mas esta também descreve uma situação e, como tal,
pode ser comparada com a realidade. Quanto à indeterminação, con­
sideremos as proposições ' (Ex) Fx ' e ' (Ex) Fx e (x a) ' . A primei-
=

8. O argumento neste sentido seria o seguinte: como protótipo lógico, a propo­


sição generalizada contém variáveis. Mas sua análise exaustiva ainda conterá variá­
veis. Assim, ela sempre deixará algo indeterminado ( 1 922: 3 .24). Em outras palavras,
a análise da proposição generalizada não nos levará diretamente a articulações de
proposições elementares contendo signos simples primitivos, mas apenas a articula­
ções de variáveis proposicionais contendo variáveis que representam signos simples
primitivos. Portanto, a indeterminação da proposição generalizada impossibilita que
ela seja uma função de valores de verdade de proposições elementares.

2 12
A lógica como essência do mundo

ra é indeterminada; a segunda, não. Apesar disso, a primeira descreve


o mundo (no sentido tractatiano) tão acuradamente quanto a segunda.
De fato, se ' (Ex) Fx ' é uma descrição tractatiana verdadeira do mundo,
ela afigura uma situação existente e mostra sua estrutura lógica no
interior do espaço lógico, assim espelhando a essência do mundo; se
' (Ex) Fx e (x = a) ' ou, o que dá no mesmo, 'Fa ' , é verdadeira, ela
acrescenta a isto uma informação a mais, ou seja, 'x a ' , que é uma=

questão de detalhe e nada acrescenta de relevante à descrição feita por


' (Ex) Fx ' (cf. 1 922: 5 .526). Se a lógica é a essência do mundo, então,
para descrever o mundo à maneira do Tractatus, apenas precisamos
saber que há objetos, e não quais são eles9• Assim, embora estejamos
mais acostumados a descrever o mundo por meio de 'Fa' ou ' (Ex) Fx
e (x = a) ' , não há nada errado com a indeterminação de ' (Ex) Fx' , que
constitui uma descrição igualmente eficaz. Em lógica, não pode haver
distinção entre o geral e o específico ( 1 922: 5.454).
Resta ainda fazer uma última observação sobre as proposições
generalizadas. A explicação acima parece aplicar-se apenas aos casos
em que os conjuntos especificados pelo protótipo lógico são finitos.
Com efeito, se ' (x) Fx ' especifica, por exemplo, um conjunto infinito
de proposições elementares, não será possível determinar, num tempo
finito, o valor de verdade do produto lógico infinito delas; se ' (Ex) Fx '
especifica, por exemplo, um conjunto infinito de proposições elemen­
tares, não será possível determinar, num tempo finito, o valor de ver­
dade de sua soma lógica infinita. Isso, porém, constitui apenas uma
aparente dificuldade. Com efeito, em 5.50 1 , Wittgenstein nos diz que
há três espécies de descrição:
" ( . . . ) 1 . A enumeração direta. Nesse caso, podemos simples­

mente colocar, no lugar da variável, seus valores constan­


tes. 2. A especificação de uma fu.nção 'Fx ' , cujos valores
para todos os valores de 'x' sejam as proposições a serem
descritas. 3. A especificação de uma lei formal segundo a
qual tais proposições sejam constituídas. Nesse caso, os

9. Na verdade, não somos capazes de especificar o número dos nomes ou signos


simples ( 1 922: 5.55). Em virtude disso, só podemos nos referir a eles por intermédio
de variáveis. Assim, o que teríamos de mais próximo a dada proposição atômica seria
a expressão quantificada - e, portanto, indeterminada - ' (Ex l ) ... (Exn) x i ... xn' .

213
Iniciação ao silêncio

termos da expressão entre parênteses são todos os termos


de uma série formal" ( 1 922).
Essas espécies se relacionam com o problema das proposições
generalizadas da seguinte maneira: a enumeração direta (espécie 1 ) só
pode ser feita adequadamente quando os itens a serem listados são em
número finito. Sabemos que as proposições complexas de nossa lin­
guagem possuem sentido determinado. Para que isso aconteça, elas
devem ser redutíveis a conjuntos finitos de proposições elementares.
Se envolvessem conjuntos infinitos, não seria possível determinar seus
valores de verdade. Suponhamos um predicado ' Px ' que é satisfeito
apenas pelos indivíduos pertencentes ao conjunto ' {a, b, c }' . Isso pode
ser descrito pela conjunção 'Pa e Pb e Pc ' , que constitui uma enume­
ração direta (substituição da variável ' x ' por seus valores constantes
' a ' , ' b ' e ' c ' ) . Essa conjunção, por sua vez, poderia ser dissecada numa
conjunção finita de proposições elementares, que serâ: a) verdadeira,
quando cada uma de suas componentes atômicas for verdadeira; b)
falsa, quando pelo menos uma dessas componentes for falsa. Como se
pode notar, a descrição por enumeração direta funciona por intermédio
de conjuntos finitos de proposições elementares. Todavia, convém
lembrar que a generalidade obtida por ela não é necessária, é apenas
casual: o produto lógico de um número finito de proposições elemen­
tares independentes entre si só pode ser verdadeiro porque todas elas
são, por acaso, simultaneamente verdadeiras; a soma lógica de um
número finito delas só pode ser verdadeira porque pelo menos uma é,
por acaso, verdadeira. Esta é uma das razões pelas quais Wittgenstein
afirma que fora da lógica tudo é acidente ( 1 922: 6.3). De qualquer
modo, a suposta dificuldade com conjuntos infinitos não se coloca
aqui.
No outro extremo da classificação wittgensteiniana, temos a
especificação da lei formal pela qual as proposições de um conjunto
são constituídas (espécie 3). É somente nesse caso que os conjuntos
infinitos estão implicados, jâ que a lei formal pode gerar uma suces­
são infinita de proposições. Aqui a dificuldade mencionada parece
fazer sentido. Todavia, é importante observar que a descrição com a
lei formal é feita pela construção de um protótipo lógico, o qual não
depende de funções de valores de verdade, mas da forma lógica da
descrição. Desse modo, a lei formal envolvida se estende a todas as

214
A lógica como essência do mundo

proposições do conjunto especificado, sem que tenhamos de aplicá-la a


cada uma em particular. Este é o caso, por exemplo, de '(x) Fx => Fa' ,
' Fa => (Ex) Fx ' , o u ' (x) (Fx => Fx) ' : a marca particular dessas pro­
posições é que sua verdade pode ser reconhecida pela mera conside­
ração dos símbolos envolvidos (cf. 1 922: 6. 1 1 3). Elas são tautologias.
Isso é possível porque a lei formal que elas expressam envolve neces­
sidade de ordem lógica. Nesse nível, a construção de protótipos lógi­
cos não inclui o apelo a funções de valores de verdade para determinar
a verdade ou a falsidade deles. Aqui, novamente, não se coloca a
suposta dificuldade com conjuntos infinitos.
Ocupando uma posição intermediária no interior da classificação
tractatiana, encontra-se a descrição por meio da especificação de uma
função ' Fx ' (espécie 2). Por um lado, a construção de uma função 'Fx '
para descrever fatos do mundo pode envolver a enumeração direta.
Consideremos, para ilustrar, a proposição 'João dorme' , que poderia ser
formalizada como 'Dj ' , em que 'Dx ' representa 'x dorme', e 'j ' , 'João ' .
Conservando 'x dorme' como constante, o protótipo envolvido é a fun­
ção 'Dx ' , cujos valores poderiam ser, por exemplo, 'Da' , 'Db ' , 'De '
etc., em que 'a', 'b', ' e ' etc. representam o s diversos argumentos que
constituem o domínio de 'Dx ' . Assim, uma proposição generalizada
como '(x) Dx' terá seu valor de verdade determinado a partir da enumera­
ção direta dos diversos valores de 'Dx': 'Da & Db & De &.. . ' . A razão
disso é que, embora seja difícil especificar todos os argumentos do
domínio de 'Dx', podemos dizer que ele é determinado e, portanto, finito.
Quanto ao valor de verdade de cada um dos valores de 'Dx', como, por
exemplo, 'Da' , ele é determinado em última instância pelos valores de
verdade das proposições atômicas nas quais a situação descrita por 'Da'
se resolve, proposições estas em número finito (verdade casual por
enumeração direta). A mesma explicação se aplica a 'todas as tilápias
possuem guelras' , que pode ser formalizada como '(x) (Tx => Gx) ' , em
que 'Tx ' representa 'x é tilápia' , e 'Gx ' , ' x possui guelra'). Essa não é
uma proposição lógica. Não há nada nos símbolos 'Tx' e 'Gx' que nos
permita afirmar a necessidade de 'Tx => Gx ' 1 º. A generalidade de ' (x)

10. Coisa radicalmente diferente ocorre com ' (x) (Tx � Tx) ' , por exemplo. A
verdade dessa proposição pode ser reconhecida pela mera inspeção dos simbolos
envolvidos.

215
Iniciação ao silêncio

(Tx � Gx) ' é apenas casual, tendo sido obtida pela aplicação do
princípio de indução, que não é uma lei lógica ( 1 922: 6.3 1 ). Quando
dizemos que o sol se levantará amanhã, estamos formulando apenas
uma hipótese ( 1 922: 6.363-6.363 1 1 ) ; quando dizemos que toda tilápia
possui guelras, estamos formulando uma hipótese semelhante. Sua
verdade ou falsidade pode ser determinada pela consideração de todos os
valores de 'Tx � Gx' , como, por exemplo, 'Ta � Ga', cada um dos
quais se resolve em uma articulação de proposições atômicas, cujo núme­
ro, embora muito grande, é finito e pode ser calculado. Nesse caso espe­
cífico, é possível, pelo menos em princípio, identificar todas as tilápias
existentes (vivas ou mortas) em determinado momento e verificar se cada
uma delas possui guelras. Isso, evidentemente, não garante que as tilápias
nascidas num momento futuro também tenham guelras, mas a verificação
desse fato também é, em princípio, possível e finita. Como se pode notar,
o apelo aos valores de verdade de todas as proposições elementares
especificadas pelos protótipos lógicos desse tipo é perfeitamente pos­
sível, pois os conjuntos envolvidos são finitos e as proposições gene­
ralizadas neste nível são apenas casualmente verdadeiras.
Por sua vez, a especificação de uma função 'Fx' pode envolver
uma lei formal. É o que acontece com proposições do tipo ' Fx � Fx ' .
Algumas das correspondentes expressões generalizadas seriam, por
exemplo, ' (x) (Fx � Fx) ' e ' (Ex) (Fx � Fx) ' . Aqui, qualquer argu­
mento, como ' a ' , em 'Fa � Fa' , satisfaz essas funções. É verdade que
os conjuntos de proposições envolvidos são infinitos. Mesmo assim,
essas funções são logicamente necessárias e não exigem o apelo a
funções de valores de verdade para determinação de sua verdade ou
falsidade.
Portanto, a descrição por especificação de uma função não traz
qualquer novidade ao problema considerado. Ela envolve ou a enume­
ração direta ou a especificação de uma lei formal, cujas explicações já

A verdade de ' (x) (Tx => Px) ' não depende apenas da inspeção dos símbolos envol­
vidos, mas também de seu conte6do. Se, mesmo assim, a considerássemos como
necessariamente verdadeira em virtude dos conte6dos envolvidos, estaríamos errados:
"teorias que permitem a uma proposição da lógica aparentar que tem conte6do são
sempre falsas" ( 1 922: 6 1 1 ).

2 16
A lógica cama essência da mundo

foram exibidas na análise das espécies ' l ' e ' 3 ' de descrição. Em todos
os casos considerados, a dificuldade apontada é apenas aparente: quando
a descrição se refere a fatos do mundo, os conjuntos de proposições
elementares envolvidos são finitos e as funções de valores de verdade
podem ser aplicadas; quando os conjuntos dessas proposições são
infinitos, a verdade ou falsidade das expressões formadas é necessária
e depende apenas da consideração dos símbolos implicados.

IV - Espaço lógico, li nguagem e realidade

Se a lógica é a essência do mundo no sentido que acabamos de


descrever, então a ' realidade' , a 'linguagem ' e o 'espaço lógico ' se
encontram numa relação especial . Em 2.06, a realidade é definida
como a existência e inexistência de estados de coisas. Isso significa
que Wittgenstein a entende como o conjunto formado por todos os
estados de coisas possíveis, aí incluídos os existentes e os inexistentes.
Em 4.00 1 , a linguagem é definida como a totalidade das proposições,
ou seja, como o conjunto formado por todas as proposições possíveis,
tanto as verdadeiras como as falsas. Assim, a linguagem, ou conjun­
to de todas as proposições possíveis, descreve a realidade, ou conjunto
de todos os estados de coisas possíveis. Entre uma e outra temos o
espaço lógico, que estrutura a realidade e a linguagem como tais. Ele
constitui o domínio de tudo o que é logicamente possível e, neste
sentido, corresponde ao "cimento comum" que conecta ambas. Na
verdade, o espaço lógico é a própria lógica.
Se isso é verdade, os limites da realidade, da linguagem e do
espaço lógico são, em última instância, os mesmos. É verdade que
Wittgenstein afirma que os limites de minha linguagem significam os
limites de meu mundo, os quais se identificam com os da lógica ( 1 922:
5 .6-5 .6 1 ). Como minha linguagem é a linguagem e como meu mundo
é o mundo, podemos concluir, a partir daí, que os limites da lingua­
gem, do mundo e da lógica são os mesmos. A este respeito, todavia,
algumas considerações podem ser feitas. Em primeiro lugar, parece
claro que Wittgenstein está usando aqui a palavra ' mundo ' no sentido
mais amplo de 'realidade' . Com efeito, os limites do mundo incluem
não apenas os estados de coisas existentes, mas também os inexistentes;

217
Iniciação ao silêncio

esses limites incluem todos os estados de coisas possíveis. Além dis­


so, a linguagem é concebida por Wittgenstein como a totalidade das
proposições possíveis, .as quais correspondem a descrições de todos
os possíveis estados de coisas (existentes e inexistentes). Portanto, a
palavra 'realidade' parece ser mais adequada aqui. Em segundo lugar,
parece claro também que as expressões ' lógica' e ' espaço lógico ' são
intercambiáveis. De fato, sabemos que a lógica é a lei estruturante da
realidade e da linguagem. Mas sabemos também que as duas coexis­
tem no interior do espaço lógico, que constitui sua condição
transcendental de possibilidade. Nessa perspectiva, o espaço lógico é
a própria lei estruturante da realidade e da linguagem e, portanto, a
própria lógica.
Essas considerações sugerem que as expressões em questão de
algum modo apontam para aspectos diferentes de um mesmo domínio.
O uso de cada uma delas depende do aspecto que queremos enfatizar.
Assim, quando pensamos sobretudo no resultado da estruturação lógi­
ca, constituído por elementos passíveis de descrição, ou seja, no con­
junto formado por todos os estados de coisas possíveis, empregamos
a palavra 'realidade' ; quando pensamos sobretudo no resultado da
estruturação lógica, constituído por elementos capazes de fazer descri­
ções, ou seja, no conjunto formado por todas as proposições possíveis,
empregamos a palavra 'linguagem ' ; finalmente, quando pensamos
sobretudo na lei estruturante, capaz de governar tanto aquilo que é
descrito como suas respectivas descrições, ou seja, no papel estruturante
da lógica na constituição do conjunto de todos os estados de coisas
logicamente possíveis e de todas as proposições possíveis, emprega­
mos a expressão 'espaço lógico ' .
Esta aproximação entre a linguagem, o espaço lógico e a realidade
encontra um reforço na análise wittgensteiniana do estatuto da tautologia,
em oposição ao da proposição contingente e ao da contradição:
"As condições de verdade determinam o espaço de mano­
bra que a proposição deixa aos fatos.
(. . . )
A tautologia deixa à realidade todo o - infinito - espaço
lógico; a contradição preenche todo o espaço lógico e não

218
A lógica como essência do mundo

deixa nenhum ponto à realidade. Por isso, nenhuma delas


pode, de maneira alguma, determinar a realidade" ( 1 922:
4.464) .
Como função de valores de verdade, cada proposição possui uma
tabela desses valores. Essa tabela determina o conjunto de todas as
combinações possíveis de valores de verdade dos componentes da
proposição. Além disso, a tabela determina o espaço de manobra que
a proposição deixa para os fatos. Consideremos o caso de uma propo­
sição contingente, por exemplo 'p e q ' , na qual ' p ' e 'q' são atômicas.
Suas componentes são bipolares e determinam, por isso, uma tabela
contendo 22 combinações possíveis de valores de verdade. Em virtude
da definição de ' e ' , a proposição 'p e q' só é verdadeira quando 'p' e
'q' são ambas verdadeiras. Isso constitui o espaço de manobra que as
condições de verdade de 'p e q' deixam para os fatos: em 25 % do total
de casos possíveis, ela é verdadeira; em 75% desses casos, ela é falsa.
Nesse sentido, 'p e q' preenche apenas uma parte do espaço lógico e,
desse modo, apenas uma parte do conjunto de todos os estados de
coisas possíveis. Por causa disso, 'p e q' determina a realidade. Supo­
nhamos agora uma tautologia, como 'p v -p ' . Sua tabela é tal que ela
surge como verdadeira em todas as combinações possíveis de valores
de verdade. Isso significa que a tautologia admite toda situação pos­
sível (cf. 1 922: 4.462), valendo para todos os estados de coisas, exis­
tentes ou inexistentes. Assim, o espaço de manobra que as condições
de verdade da tautologia deixam para os fatos é o maior possível: ela
é verdadeira para todas as combinações admissíveis de fatos, ou seja,
em 1 00% dos casos. Assim, a rigor, a tautologia sequer tem condições
de verdade (cf. Wittgenstein 1 922: 4.46 1 ). Nesse sentido, a tautologia
abre a totalidade do espaço lógico para a realidade. Justamente por
isso ela é incapaz de determinar a realidade, como acontece no caso
da proposição contingente. Já uma contradição, como por exemplo, 'p
e -p' , possui uma tabela tal que ela surge como falsa em todas as
combinações possíveis de valores de verdade. Ela não admite nenhu­
ma situação (idem) e, assim, não vale para nenhum estado de coisas.
Desse modo, o espaço de manobra que as condições de verdade da
contradição deixam para os fatos é o menor possível: ela é falsa para
todas as combinações possíveis, ou seja, em 1 00% dos casos. Aqui
também, a rigor, não há condições de verdade. Isso significa que a

219
Iniciação ao silêncio

contradição preenche todo o espaço lógico, nada deixando para a rea­


lidade, o que também a toma incapaz de determinar a realidade.
Como se pode notar, a linguagem, por meio da tautologia, abre
a totalidade do espaço lógico para a realidade. A tautologia nada diz,
mas mostra a forma lógica comum a todas as proposições possíveis.
Isso pressupõe um paralelismo entre a linguagem (totalidade das pro­
posições possíveis), a realidade (totalidade dos estados de coisas pos­
síveis) e o espaço lógico comum a ambos (lei transcendentalmente
fundante que determina a totalidade das proposições e dos estados de
coisas possíveis). Esse paralelismo reforça a idéia de que cada uma
das três expressões em questão aponta, a seu modo, para uma mesma
coisa, ou seja, para a lógica como essência de tudo o que existe ou
pode existir1 1 •
Os casos da proposição contingente e da contradição são diferen­
tes, mas, mesmo assim, perfeitamente compatíveis com o paralelismo
estabelecido entre linguagem, realidade e espaço lógico. No caso da
proposição contingente, a linguagem preenche apenas uma parte do
espaço lógico, deixando um espaço de manobra definido para a rea­
lidade. Isso é compatível com o paralelismo indicado. Quanto à contra­
dição, é verdade que a linguagem, por meio dela, preenche todo o
espaço lógico, fechando-o para a realidade. Mas essa situação extrema
constitui apenas um caso especial que não implica, de modo algum,
que a linguagem, a realidade e o espaço lógico alterem seus limites
comuns ou deixem de envolver alguma referência à forma lógica,
essência de tudo o que pode existir. A contradição reflete apenas uma
situação particular de variação dos três aspectos envolvidos, sem afe­
tar seus respectivos limites. Essa situação também é compatível com
o paralelismo estabelecido.

V - Observações finais

Em síntese, a consideração da lógica como lei transcendentalmente


estruturante da realidade e da linguagem nos mostra que ela atua em

1 1 . A equiparação linguagem/realidade/espaço lógico permite que se faça a


seguinte objeção à nossa interpretação: se realidade e espaço lógico são nomes dife-

220
A lógica como essência do mundo

dois níveis fundamentais. Primeiramente, a lógica estrutura a proposi­


ção atômica como modelo do fato atômico descrito. Em segundo lu­
gar, ao fixar a proposição atômica como bipolar, ela determina a priori
todas as combinações possíveis de valores de verdade dessas propo­
sições atômicas. Desse modo, tudo o que pode ocorrer no mundo está
enquadrado num espaço lógico a priori.
Se isso é verdade, então não há proposições privilegiadas na
lógica. A organização axiomática da lógica é enganadora. Cada propo­
sição lógica pressupõe o espaço lógico em que se insere, de tal forma
que este espaço pode ser deduzido a partir dela mesma. Além disso,
as constantes lógicas nada representam. Elas apenas indicam funções
de valores de verdade que são construídas a partir das combinações de
valores de verdade das proposições tomadas como base. Finalmente,
só há necessidade lógica. Com efeito, o mundo se compõe de fatos
que são absolutamente independentes entre si, não envolvendo qual­
quer forma de necessidade. As relações entre os fatos são completa­
mente acidentais. Já a lógica determina não somente a estrutura dos

rentes para a mesma coisa, é possível um mundo em que todos os estados de coisas
sejam inexistentes e, conseqüentemente, todas as proposições atômicas sejam falsas;
ora, esse mundo significaria a inexistência de tudo; logo, a interpretação é falsa. A
essa objeção responderíamos, em primeiro lugar, que os conceitos de espaço lógico
e realidade são tais que um mundo no qual todos os estados de coisas sejam inexistentes
constitui uma possibilidade que deve ser necessariamente considerada por qualquer
interpretação da filosofia tractatiana. Nesse sentido, um mundo desse tipo deixaria
transparecer a essência lógica em todo o seu esplendor. Em segundo, que tal mundo,
embora constitua uma possibilidade, infelizmente não pode realizar-se, sob pena de
eliminação concomitante do sujeito transcendental e do sentido ético da vida. Com
respeito à eliminação do sujeito transcendental, basta lembrar que, jâ nos Cadernos
de notas, Wittgenstein afirma que precisamos de um apoio para a vontade no mundo,
que a vontade precisa ter um objeto no mundo ( 1 9 1 4- 1 9 1 6: 87). Tudo indica que essa
visão permanece no Tractatus pela metáfora do olho e do campo visual. Assim, se não
houvesse campo visual, também não haveria olho para percebê-lo; se a realidade
fosse constituída apenas de estados de coisas inexistentes, não haveria sujeito
transcendental para perceber o mundo. Com respeito à eliminação do sentido ético da
vida, é suficiente lembrar o aforisma 6.43 2 1 , segundo o qual os fatos pertencem todos
apenas à "tarefa que nos foi atribuída" (' Aufgabe '), não à solução (cf. Wittgenstein
1 922). Um mundo sem fatos não constituiria simultaneamente um apoio e um desafio
para o sujeito transcendental encontrar o sentido da vida pela contemplação beatífica.
Devemos estas reflexões a uma discussão que tivemos em 1 995 com o Prof. Balthazar
Barbosa Filho.

22 1
Iniciação ao silêncio

fatos, mas também todas as combinações possíveis entre eles. Ela trata
de toda a possibilidade ( 1 922: 2.0 1 2 1 ) e, assim, introduz a única for­
ma de necessidade que existe no mundo. Nesse sentido ela é anterior
à pergunta 'como? ' , mas não à pergunta ' o quê? ' ( 1 922: 5 .552). En­
quanto constitui a essência de tudo o que existe, a lógica é condição
de possibilidade dos fatos e de suas respectivas descrições: ela é
transcendental.
As propriedades acima permitem concluir que qualquer proposi­
ção dotada de sentido é ou uma proposição atômica ou uma combi­
nação lógica de proposições atômicas com o auxílio de conectivas
lógicas. Em virtude disso, é possível estabelecer a lei geral de forma­
ção de qualquer proposição por meio de combinações de proposições
atômicas. Wittgenstein denomina esta lei de 'forma lógica da propo­
sição ' e, com base nos resultados de Sheffer, utiliza o operador de
rejeição para mostrar seu funcionamento.
As proposições generalizadas também são reguladas por essa lei.
Embora sejam construídas com base em protótipos lógicos que não
são, em si mesmos, funções de valores de verdade, estas proposições
envolvem dois tipos de generalidade: a lógica e a acidental. No pri­
meiro caso, as proposições generalizadas são necessariamente verda­
deiras em virtude dos próprios símbolos e não precisam ser traduzidas
em funções de valores de verdade. Quanto às proposições que apre­
sentam generalidade acidental, os protótipos segundo os quais elas são
construídas determinam a classe das proposições atômicas das quais
as primeiras são funções de valores de verdade.
As considerações acima mostram que os limites da linguagem, da
realidade e do espaço lógico são os mesmos e sugerem que as três
expressões envolvidas apontem de algum modo para a mesma coisa,
a saber, a lógica como essência de tudo aquilo que é possível .

222
APLICAÇÃO DOS RESULTADOS

DA CRITICA DA LINGUAGEM

1 - Observa ções preliminares

A a respeito da natureza e dos objetivos da crítica tractatiana da


o atingir este ponto, já possuímos uma idéia bastante abrangente

linguagem. Conhecemos seus reflexos no nível da linguagem e do


mundo, sob a forma do postulado transcendental das proposições atô­
micas e signos simples, com sua necessária contrapartida nos fatos
atômicos e objetos simples. Sabemos também que a lógica desempe­
nha o papel de lei estruturante da realidade, propriedade esta que
levou Wittgenstein a considerá-la a essência do mundo. Resta agora
saber como devem ser entendidos, a partir da crítica tractatiana, os
diversos domínios da linguagem. É isso que pretendemos fazer no
presente capítulo.
Até aqui, com o propósito de proporcionar a maior clareza pos­
sível, estivemos desrespeitando a ordem da exposição do Tractatus. A
partir deste ponto, porém, poderemos retomá-la. Assim, para mostrar

223
Iniciação ao silêncio

como se aplica a crítica aos domínios particulares da linguagem, se­


guiremos a ordem da exposição do Tractatus e mostraremos, em pri­
meiro lugar, qual o estatuto das proposições da lógica. Em segundo,
passaremos para as proposições da matemática. Em terceiro, para as
da física. No caso destas duas disciplinas, nossa exposição limitar-se­
-á aos aspectos considerados essenciais para a caracterização de seu
lugar no interior da filosofia tractatiana como um todo. Com efeito,
uma apresentação mais detalhada delas exigiria dois outros longos
estudos à parte. Em quarto lugar, trataremos da importante questão
relativa ao estatuto das proposições da ética. Em quinto, considerare­
mos o problema da linguagem metafísica. Em sexto e último lugar,
extrairemos, de forma sintética, a principal conclusão do Tractatus a
respeito da atitude mais autêntica a ser tomada diante da vida.

li - A Lógica

A crítica da linguagem já mostrou que as proposições da lógica


são tautologias. Estas foram definidas como representantes de um
dos casos extremos das combinações possíveis de valores de verda­
de. Com efeito, quando dada proposição é verdadeira para todas as
possibilidades de combinações de valores de verdade de suas com­
ponentes elementares, suas condições de verdade são tautológicas e
a proposição constitui uma tautologia ( 1 922: 4.46). Nessa perspec­
tiva, a tautologia não tem condições de verdade, pois é verdadeira
incondicionalmente. Isso nos leva à consideração de três aspectos
fundamentais da lógica.
Em primeiro lugar, as proposições da lógica nada dizem ( 1 922:
6. 1 1 ). A tautologia é diferente de uma proposição contingente: en­
quanto esta pode ser verdadeira ou falsa e, portanto, possui um sen­
tido, aquela é necessariamente verdadeira e, conseqüentemente, não
pode ser considerada possuidora de sentido. A proposição contingente
mostra a situação que descreve; a tautologia mostra que nada descre­
ve. Quando dizemos, por exemplo, que chove ou não chove, estamos
admitindo todas as situações possíveis e, portanto, não estamos intro­
duzindo qualquer informação definida sobre o tempo. Além disso, a
conjunção de uma proposição contingente qualquer com uma tautologia

224
Aplicação dos resultados da crítica da linguagem

diz o mesmo que a proposição contingente ( 1 922: 4.465) . Seja, por


exemplo, 'p' uma proposição contingente e 'T' uma tautologia. A ta­
bela de valores de verdade da conjunção de ambas é:

li
p T p&T
V V V
F V F

Como 'T' é sempre verdadeira, os valores de verdade do produto


lógico 'p e T' são os mesmos de 'p' considerada isoladamente. 'p e T '
equivale logicamente a ' p ' ou, e m outras palavras, 'p e T' diz o mesmo
que ' p ' . Daí se infere que 'T' nada diz. Por essas razões, Wittgenstein
afirma que a tautologia é vazia de sentido ('sinnlos ' ) ( 1 922: 4.46 1 ),
que ela não constitui uma figuração da realidade ( 1 922: 4.462). Isso
não significa, contudo, que ela seja um contra-senso: ela pertence ao
simbolismo ( 1 922: 4.46 1 1 ), uma vez que corresponde a uma combina­
ção de símbolos que é sempre verdadeira.
O mesmo se aplica, mutatis mutandis, à contradição, que repre­
senta o outro caso-limite das combinações possíveis de valores de
verdade. A contradição é necessariamente falsa; ela rejeita toda situa­
ção possível.
Se isso é verdade, qualquer teoria que atribua conteúdo às propo­
sições da lógica deve ser equivocada ( 1 922: 6. 1 1 1 ). A explicação cor­
reta da natureza das tautologias deve conferir-lhes uma posição pecu­
liar entre todas as proposições ( 1 922: 6. 1 1 2), posição essa que deve
levar em conta sua propriedade fundamental: a verdade das tautologias
pode ser reconhecida apenas pela consideração dos símbolos envolvi­
dos, o que não acontece com as proposições não-lógicas ( 1 922: 6. 1 1 3).
Esse fato contém em si toda a filosofia da lógica (ibidem).
Em segundo lugar, a circunstância de as proposições da lógica
serem tautologias mostra as propriedades lógicas da linguagem e do
mundo ( 1 922: 6. 1 2). Quando a ligação de proposições de determinada
maneira resulta numa tautologia, isto mostra que elas possuem certas
propriedades estruturais (ibidem) . Da mesma forma, quando a ligação
de proposições resulta numa contradição, isto também mostra determi­
nadas propriedades estruturais. Assim, para expressar a necessidade
225
Iniciação ao silêncio

lógica, as tautologias poderiam ser substituídas pelas contradições


( 1 922: 6. 1 202) . Quando a generalidade não está envolvida, pode-se
reconhecer uma tautologia pelo método intuitivo das tabelas de valo­
res de verdade ( 1 922: 6. 1 203). As tautologias, ao ligarem proposições
em articulações que nada dizem, demonstram as propriedades lógicas
dessas proposições ( 1 922: 6. 1 2 1 ) . Isso significa que poderíamos dis­
pensar as tautologias, pois, se dispuséssemos de uma notação adequa­
da, teríamos condições de reconhecer as propriedades formais das
proposições por sua da mera inspeção ( 1 922: 6. 1 22 ) . Esse fato torna
mais clara a razão por que as tautologias não podem ser confirmadas
nem refutadas pela experiência ( 1 922: 6. 1 222). As "verdades lógicas"
são postuladas na medida em que postulamos uma notação adequada
( 1 922: 6. 1 223). Convém lembrar, todavia, que a validade geral não é
indício da proposição lógica ( 1922: 6. 1 23 1 ). De fato, 'fa � fa' não é uma
proposição generalizada e, no entanto, pode ser tão tautológica quanto a
proposição generalizada ' (x)(fx � fx)' . No nível dos eventos mundanos, o
que é geral corresponde àquilo que vale casualmente para todas as coisas,
ou mais rigorosamente, para todos os fatos. A validade geral envolvida
pela lógica é de caráter essencial, enquanto a validade de proposições
como 'todos os homens são mortais' é meramente casual ( 1 922: 6. 1 232).
As tautologias "descrevem" a armação do mundo, apresentam­
-na. Nessa perspectiva, elas não "tratam" de nada. Sua ligação com o
mundo está em pressuporem que as proposições atômicas tenham
sentido e que os nomes que compõem tais proposições tenham signi­
ficado. O elemento decisivo é que algo pode ser indicado sobre o
mundo pelo fato de certas ligações de símbolos serem tautologias
( 1 922: 6. 1 24).
Se for dada a sintaxe lógica de uma notação qualquer, também
estarão dadas todas as tautologias (ibidem). Em v htude disso, nunca
poderá haver surpresas na lógica ( 1 922: 6. 1 25 1 ). Pela simples consi­
deração dos símbolos envolvidos, poderemos calcular se dada propo­
sição é tautológica ou não ( 1 922: 6. 1 26). A demonstração lógica é
apenas um expediente mecânico para facilitar o reconhecimento de
tautologias quando elas são complicadas ( 1 922: 6. 1 262). Não há, pois,
proposições da lógica que sejam essencialmente primitivas ou essen­
cialmente derivadas: todas têm o mesmo status (1 �22: 6. 1 27).

226
Aplicação dos resultados da crítica da linguagem

Em terceiro lugar, a lógica não é uma teoria ( 1 922: 6. 1 3). Para


que ela o fosse, suas proposições deveriam possuir sentido, ou seja,
descrever fatos do mundo. Como as tautologias nada dizem, mas apenas
mostram a armação lógica da linguagem e do mundo, a lógica é vazia
de sentido e não constitui uma doutrina. Mesmo assim, o que as
tautologias mostram é a essência do mundo, sob a forma de uma
afiguração especular (' Spiegelbild' ) (ibidem). Uma proposição contin­
gente, ao afigurar dada situação, mostra a forma lógica comum a
ambas: assim deve ser entendida a proposição como afiguração. Uma
tautologia não afigura nada, somente mostra a forma lógica ou, em
outras palavras, somente espelha a forma lógica comum à linguagem
e ao mundo: sugiro que assim deve ser entendida a tautologia como
afiguração especular. Nesse sentido, as proposições da lógica espelham
as condições de possibilidade da linguagem e do mundo. É por isso
que a lógica é transcendental.

Ili - A Matemática 1

O essencial no método matemático é trabalhar com equações. É


em razão desse método que toda proposição da matemática deve evi­
denciar-se por si própria (6.234-6.234 1 ) . As proposições da matemá­
tica são igualdades expressas por intermédio de equações. Nestas, o
sinal de identidade desempenha um papel predominante. Ora, a iden­
tidade não é uma relação entre objetos ( 1 922: 5 .530 1 ) . O único uso
correto que ela admite é o tautológico, como se pode depreender do
aforisma abaixo:
"Em termos aproximados: dizer de duas coisas que elas são
idênticas é um contra-senso, e dizer de uma coisa que ela
é idêntica a si mesma é não dizer rigorosamente nada"
( 1 922: 5 .5 303).

1. Infelizmente, as indicações de Wittgenstein quanto à Matemática e à Física


são muito reduzidas. Um estudo detalhado exigiria mais um livro para cada uma.
Como nosso objetivo é avaliar o Tractatus como forma de argumentação, resolvemos
fazer apenas uma exposição das linhas gerais da concepção wittgensteiniana ligada a
cada uma destas ciências.

227
Iniciação ao silêncio

É por isso que as equações matemáticas são pseudoproposições


( 1 922: 6 .2) . Nesse sentido, a matemática é um método lógico (ibidem),
um método da ló gica ( 1922: 6.234).

Em que pesem estas observações, que sugerem, à primeira vista,


uma adesão ao logicismo de Frege, a posição de Wittgenstein quanto
à matemática é independente e nuançada. De fato, o logicismo afirma
que não há diferença entre a ló gi c a e a matemática, que esta nasce a
partir daquela. No Tractatus, são apresen tad as diferenças entre uma e
outra e não há elementos que permitam dizer que a matemática nasce
da lógica2• Elas parecem, antes, constituir linguagens independentes,
cada uma das quais mostrando a realidade à sua maneira. Uma vez
que mostram a mesma realidade, elas possuem algo em comum; por­
que são independentes, elas apresentam diferenças.
As semelhanças entre a lógica e a matemática são as seguintes.
Primeiro, se o pensamento é a proposição dotada de sentido ( 1 922: 4),
então, do mesmo modo que as proposições da lógica, as proposições
da matemática não exprimem pensamentos ( 1 922: 6. 1 1 ; 6.2 1 ) . Segun­
do, as proposições da matemática mostram nas equações a mesma
lógica do mundo que as proposições da lógica mostram nas tautologias
( 1 922: 6.22) . Terceiro, se a generalidade lógica não é casual ( 1 922:
6. 1 232) , a generalidade matemática também não o é ( 1 922: 6.03 1 ).
Quarto, o conceito de número, embora diferente do de proposição, é
obtido a partir da aplicação reiterada de uma operação lógica seme­
lhante àquela por meio da qual se constroem proposições complexas
a partir das elementares (forma geral da proposição) ( 1 922: 6.002-
-6.03).
As semelhanças acima não impedem que haja diferenças signi­
ficativas . Primeiro, o sinal de igualdade é eliminado da notação
lógica do Tractatus ( 1 922: 5.533). Ali, Wittgenstein exprime a igual­
dade do objeto consigo próprio por meio da igualdade do sinal
consigo próprio. A diferença dos objetos é expressa pela diferença
dos sinais respectivos ( 1 922: 5 .53). Assim, a identidade do objeto

2. Sem citar a fonte, Monk afirma que Wittgenstein, para desgosto de Russell,
considerava equivocado o projeto de fundamentar a matemática na lógica ( 1 995:
228).

228
Aplicação dos resultados da crítica da linguagem

designado pelo símbolo ' a ' é expressa pelo uso desse símbolo ' a '
todas a s vezes que o objeto fo r mencionado; a diferença entre o s
objetos designados pelos símbolos diferentes ' a ' e ' b ' é expressa
pelo uso respectivo dos mesmos símbolos diferentes todas as vezes
que cada um deles for mencionado. Em vez de escrever ' Fab e a =
b ' , a notação tractatiana escreve ' Faa' ou ' Fbb ' ; em vez de ' Fab e
-(a = b) ' , ' Fab ' ( 1 922: 5 .5 3 1 -532). Não é, pois, em vão que, numa
carta de 1 927 a Ramsey, Wittgenstein defende a tese de que uma
igualdade como 'x = y ' não pode ser substituída por uma função
proposicional (citado por Monk 1 995: 227-228). Se houvesse uma
função ' Fxy ' capaz de substituir 'x = y ' , a notação lógica do Tractatus
estaria diante do seguinte impasse: apesar do simples uso dos sím­
bolos diferentes ' x ' e ' y ' mostrar claramente que há dois objetos
diferentes envolvidos, a função ' Fxy ' tentaria o contra-senso de dizer
que tais objetos são idênticos. Já na matemática, o sinal de igualda­
de é um constituinte essencial da notação. A ligação de duas expres­
sões pelo sinal ' = ' significa que elas são mutuamente substituíveis.
Isso deve ser mostrado na forma lógica dessas expressões ( 1 922:
6.23): é a própria linguagem que fornece à matemática a intuição
necessária para a solução dos problemas matemáticos ( 1 922: 6.233).
Portanto, a notação lógica, tal como concebida no Tractatus, não é
adequada para representar a identidade. Poderíamos até mesmo di­
zer que é a impossibilidade de representar a igualdade na notação
lógica que constitui a principal razão pela qual a linguagem mate­
mática existe de maneira autônoma.
Segundo, o método lógico por excelência é o modus ponens. Na
verdade, toda proposição da lógica é a forma de uma demonstração,
uma representação simbólica do modus ponens ( 1 922: 6. 1 264) . As­
sim, uma proposição da lógica pode sempre ser sua própria demons­
tração ( 1 922: 6. 1 265) . Já o método matemático por excelência é a
substituição ( 1 922: 6.24) . As equações matemáticas exprimem o fato
de que duas expressões são mutuamente substituíveis. Desse modo,
evoluímos de uma equação para outra pela substituição das expres­
sões equivalentes (ibidem). Embora uma proposição matemática tam­
bém possa ser sua própria demonstração ( 1 922: 6.234-6.234 1 ) , o
método de substituição permite que se obtenha uma proposição a
partir de outras.
229
Iniciação ao silêncio

Terceiro, o objeto da lógica é a proposição. Por isso, ela enfatiza


a forma geral da proposição, por meio da qual proposições complexas
são obtidas pela aplicação sucessiva da operação 'csi' às proposições
elementares ( 1 922: 6-6.002). Em contraste, o objeto da matemática é
o número. Por causa disso, ela enfatiza a forma geral do número, por
meio da qual a série dos números inteiros é obtida pela aplicação
reiterada da operação ' Q ' , que envolve duas propriedades fundamen­
tais: x Qºx e Ü 1 Ü"x Ü" + 'x ( 1 922: 6.02). A primeira delas indica
= =

que, quando não é efetuada nenhuma operação sobre ' x ' ('Qºx'), o que
obtemos ainda é ' x ' . A segunda indica que efetuar mais uma vez a
operação sobre ' ü"x ' , isto é, sobre o resultado de aplicar a opera­
ção n vezes a ' x ' ( 'Q ' ü"x' ) , equivale a efetuar n + 1 vezes a operação
sobre ' x ' ('Qn + ' x ' ) . Partindo de um signo qualquer ' x ' , obtemos então
a seguinte série pela aplicação reiterada da operação 'Q ' : x, nx, nüx,
QQ.Qx, •.• , ou, o que dá no mesmo, nox, QOQ' x, non1n1x, non1n1n1x, . ..
Isso permite as seguintes definições: O + 1 =1 Def. (aplicar a opera­
ção "nenhuma vez" mais uma vez equivale a aplicá-la uma vez), O +
1 + 1 = 2 Def. (aplicar a operação "nenhuma vez" mais uma vez e
mais uma vez equivale a �plicá-la duas vezes), O + 1 + 1 + 1 3 Def. =

(aplicar a operação "nenhuma vez" mais uma vez, mais uma vez e
mais uma vez equivale a aplicá-la três vezes) etc. ( 1 922: 6.02) . Cada
número é obtido de forma puramente lógica a partir do número de
vezes que a operação é aplicada. Em virtude disso, o número é defi­
nido como o expoente da operação 'Q' ( 1 922: 6.02 1 ). A forma geral
do número inteiro é dada pela expressão ' [O, x, x + 1 ] ' ( 1 922:
6.03)3• Além disso, em concordância com as observações anterio­
res sobre a igualdade, fica claro que, na operação ' x ' da lógica, a
identidade não desempenha qualquer papel; em contrapartida, na
operação 'Q' da matemática, a identidade desempenha um papel fun­
damental. Ela faz isso por meio do conceito de igualdade numérica,
definido como a 'forma geral de todas as igualdades numéricas espe­
ciais ' ( 1 922: 6.022).

3. Com essa definição de número evita-se o ' axioma da infinidade' de Russell,


que Wittgenstein execrava. Com efeito, os números são obtidos aqui a partir da
aplicação reiterada de uma mesma operação lógica, ao passo que o procedimento
proposto por Russell obriga a postular a proposição não-lógica de que hã um número
infinito de obj etos no universo.

230
Aplicação dos resultados da crítica da linguagem

Quarto, as proposições da lógica demonstram as propriedades


lógicas das proposições, ao articulá-las em tautologias. A proposi­
ção lógica estabelece um estado de equilíbrio entre as proposições
que a compõem, estado este que revela a constituição lógica dessas
proposições ( 1 922: 6. 1 2 1 ). Isso significa que poderíamos dispensar as
proposições lógicas desde que, mediante uma notação conveniente,
fôssemos capazes de reconhecer as propriedades formais das propo­
sições envolvidas pela mera inspeção delas ( 1 922: 6. 1 22) . O caso das
proposições matemáticas é completamente diferente. Em nossa vida,
utilizamos tais proposições com a finalidade exclusiva de inferir, de
proposições que não pertencem à matemática, outras que também
não pertencem à matemática (6.2 1 1 ) . Numa simples compra, para
dar um exemplo grosseiro, a proposição não-matemática ' o troco é
de R$ 5 ,00 ' é inferida das proposições não matemáticas ' a mercado­
ria custa R$ 1 5 ,00 ' e 'o cliente pagou R$ 20,00 ' . Para fazer essa
inferência, foi utilizada a proposição matemática ' 20 - 15 5 ' . Coisa
=

semelhante ocorre com as ciências matematizadas, como a física. Nessa


perspectiva, as proposições matemáticas, diferentemente das lógicas,
não são dispensáveis.
Se a linha de raciocínio acima está correta, podemos dizer, em
síntese, que embora possuam algumas semelhanças enquanto formas
de linguagem que expressam a essência do mundo, a lógica e a ma­
temática constituem dois domínios distintos e independentes. As pers­
pectivas logicistas de Frege e Russell são equivocadas .

IV - A Física

A explicação da linguagem da física está relacionada a dois aspectos


básicos da filosofia do Tractatus. A análise das linguagens lógica e
matemática revelou, por um lado, que só há necessidade lógica ( 1 922:
6.37; 6.375), assim como só há impossibilidade lógica ( 1 922: 6.375).
Por sua vez, a análise lógica da linguagem também revelou que ne­
nhuma proposição elementar pode ser deduzida de outra ( 1 922: 5 . 1 34).
Portanto, não se pode deduzir a existência de uma situação a partir da
existência de outra ( 1 922: 5 . 1 35). Não há um nexo causal capaz de
justificar essa dedução ( 1 922: 5 . 1 36): a crença em tal nexo é a supers-

23 1
Iniciação ao silêncio

tição ( 1 922: 5 . 1 36 1 ). Isso significa que, fora da lógica, tudo é acidente


( 1 922: 6.3). Todavia, como linguagem dotada de sentido, a fisica si­
multaneamente estabelece relações causais e descreve fatos do mundo.
Nesse sentido, ela deve ser capaz de articular os dois aspectos men­
cionados.
Para explicar como a articulação é feita, Wittgenstein recorre à
analogia da rede arbitrária. Ela é feita para ilustrar a situação da
mecânica newtoniana, mas acreditamos que possa ser aplicada a qual­
quer sistema de mecânica conhecido. Suponhamos uma superficie
branca na qual houvesse manchas negras irregulares. Para descrever
essa superficie, poderíamos recobri-la com uma rede quadriculada. Se
as malhas da rede fossem suficientemente finas, teríamos condições de
afirmar se cada quadrado da rede é branco ou preto. Nesse caso,
possuiríamos uma descrição da superficie sob uma forma unitária.
Esta forma, contudo, é arbitrária, pois a rede poderia constituir-se de
malhas triangulares ou hexagonais ou outras, inclusive combinações
de figuras geométricas, como triângulos e hexágonos. Algumas dessas
·
redes até mesmo proporcionariam descrições mais simples da super­
fície mencionada. De qualquer modo, cada uma delas constituiria uma
descrição da superficie sob dada forma unitária. A cada rede corres­
ponderia um diferente sistema de descrição do mundo, ou seja, uma
diferente mecânica ( 1 922: 6.341 ) .
Nessa perspectiva, dada rede mecânica constitui uma tentativa de
construir, de acordo com um padrão único, todas as proposições ver­
dadeiras de que precisamos para descrever o mundo ( 1 922: 6.343).
Apesar do aparato lógico utilizado, as leis fisicas ainda conseguem
descrever os objetos do mundo ( 1 922: 6.343 1 ) 4• Além disso, tal des­
crição é inteiramente geral: as leis físicas não falam, por exemplo,
deste ou daquele ponto material, mas de quaisquer pontos materiais
( 1 922: 6.3432). Desse modo, a mecânica newtoniana constrói uma
forma de descrição do mundo ao tomar, como ponto de partida, um
dado conjunto de proposições primitivas, a saber, os axiomas da

4. Convém lembrar aqui que, se o mundo é o conjunto dos fatos, então não há,
a rigor, objetos. Estes últimos não passam de fatos complexos. O que pretendemos
com essa observação é evitar qualquer confusão motivada pela imprecisão tenninológica
de Wittgenstein neste aforisma.

232
Aplicação dos resultados da crítica da linguagem

mecânica, e ao tentar deduzir todas as proposições que descrevem o


mundo com base nesse conjunto inicial ( 1 922: 6.341 ) . Isso está ligado
a um procedimento mais geral que seria análogo ao de prover as
pedras para a construção de um edificio e dizer: qualquer que seja o
edificio a ser levantado, ele deve sê-lo com estas e apenas estas pedras
(cf. ibidem). A mecânica provê um conjunto de axiomas e diz: qual­
quer que seja o sistema a ser construído, ele deve sê-lo com estes e
apenas estes axiomas.
O importante a observar na explicação tractatiana é que, de um
lado, a superficie a ser descrita possui uma configuração inteiramente
acidental, já que as manchas negras se distribuem por ela de maneira
aleatória. De outro, a rede utilizada para descrevê-la por recobrimento
possui uma configuração necessária, já que as figuras da malha se
distribuem por ela segundo uma lei lógica. Mesmo assim, a rede
logicamente necessária é capaz de descrever a superfície fatualmente
contingente.
Aquilo que há de contingente na mecânica corresponde à super­
fície branca com suas manchas negras irregulares. Embora cada ponto
da superficie seja descrito como uma figura geométrica, um quadrado
minúsculo, por exemplo, fica claro que, a rigor, a rede quadriculada
nada pode dizer sobre a forma e a posição das manchas na superficie
( 1 922: 6.35). Em última análise, a rede é uma construção arbitrária
que se superpõe à superficie. Do mesmo modo, um dado sistema de
mecânica descreve cada fato do mundo como uma conseqüência lógi­
ca do sistema de axiomas escolhido. A rigor, contudo, o sistema fala
sobre fatos quaisquer e nada pode dizer sobre cada fato particular. Em
última análise, o sistema é uma construção arbitrária que se superpõe
aos fatos do mundo.
Aquilo que há de necessário na mecânica corresponde à rede que
recobre a superficie para descrevê-la. A rede é puramente geométrica,
o que significa que todas as suas propriedades podem ser determina­
das a priori ( 1 922: 6.35). E o que é certo a priori é puramente lógico
( 1 922: 6.32 1 1 ). De maneira análoga, o sistema de mecânica usado
para descrever o mundo é puramente lógico, o que significa que todas
as suas propriedades também podem ser determinadas a priori. Assim,
as diversas leis da mecânica, como, por exemplo, a de causalidade, a

233
Iniciação ao silêncio

de "mínima ação", o princípio de razão, o princípio de continuidade


da natureza etc., tratam todas da rede e não do que a rede descreve
( cf. 1 922: 6.32-6.32 1 1 ; 6.34; 6.35)5• Afirmar o contrário, ou seja, que
as leis físicas são de fato explicações dos fenômenos naturais, cons­
titui a ilusão que fundamentou a visão de mundo dos modernos ( 1 922:
6.37 1 ).
Com base nisso, podemos estabelecer a relação entre a mecânica
e a lógica. Já sabemos que o fato de a superfície com manchas poder
ser descrita por dada rede nada diz, a rigor, sobre a superfície. Mas
o fato de esta poder ser descrita completamente por uma rede espe­
cífica caracteriza de alguma maneira a superfície. Analogamente, o
fato de o mundo poder ser descrito pela mecânica newtoniana nada
diz, a rigor, sobre o mundo. Todavia, o fato de o mundo poder ser
descrito por ela, como realmente o é, caracteriza de algum modo o
mundo. Ele. é também caracterizado pelo fato de ser mais bem descri­
to por uma mecânica que por outra (cf. 1 922: 6.342)6• Tudo indica
que a distinção entre ' dizer ' e 'mostrar' se encontra em ação neste
ponto. Com efeito, os diversos sistemas de mecânica constituem lin­
guagens axiomaticamente organizadas que tratam de quaisquer fatos.
Isso significa que, em última análise, estes sistemas nada dizem sobre
os fatos específicos do mundo. Mesmo assim, que dado sistema seja
capaz de descrever tais fatos, ou que dado sistema os descreva mais
simplesmente que outro, mostra a essência destes fatos.
Terminada a análise da física, podemos comparar as três lingua­
gens até agora consideradas. Isso nos permitirá constatar não apenas

5. É certo que algumas das leis da mecânica, como a da indução, por exemplo,
não são leis a priori ( 1 922: 6.3 1 ). O processo de indução não possui fundamento
lógico, mas apenas psicológico ( 1 922: 6.363 1 ) . Mesmo assim, nada impede que a lei
da indução e outrns afins sejam utilizadas parn integrar a rede sob a forma de axiomas
a partir dos quais as restantes proposições da mecânica serão deduzidas.
6. Em nossa interpretação, sugerimos que Wittgenstein incorre em outra impre­
cisão terminológica aqui . Com efeito, ao tratar da rede, ele afirma que ela nada diz
sobre a superficie, mas que o poder descrevê-la assim a caracteriza. Ao tratar da
mecânica, ele afirma que ela nada diz sobre o mundo, mas que o poder descrevê-la
assim diz (?) algo sobre o mundo. Acreditamos que esta última ocorrência de 'diz'
deveria ser substituída por 'carncteriza ' : esta palavrn recompõe adequadamente a
analogia e estâ mais próxima do que se acha realmente em jogo aqui, a saber, o
'mostrar' a essência.

234
Aplicação dos resultados da crítica da linguagem

sua diferença básica, mas também sua característica comum mais


profunda. A diferença é que as proposições da lógica representam o
modus ponens; as da matemática constituem igualdades; as da física
representam relações causais 7 • A característica comum está na lógica
que permeia essas linguagens e toma cada uma delas um modo dife­
rente de mostrar a essência do mundo. A lógica o faz pela forma geral
da proposição; a matemática, pela forma geral do número; a física,
pela forma geral da causalidade. Todas, porém, espelham a mesma lei
ontologicamente estruturante que atravessa toda a realidade.

V - A Ética

A crítica tractatiana da linguagem nos leva a uma visão paradoxal


com respeito ao estatuto da ética. Com efeito, a crítica nos mostra que
a realidade é o conjunto de todos os estados de coisas possíveis, e o
mundo, o conjunto de todos os estados de coisas existentes ou fatos.
O conjunto de todas as proposições possíveis constitui a linguagem
como capaz de descrever a realidade; o conjunto de todas as proposi­
ções verdadeiras constitui o domínio da linguagem que denominamos
'ciência' . Essa concepção exclui os valores éticos tanto da realidade e
do mundo como da linguagem. No âmbito da realidade e do mundo,
só temos fatos (existentes ou possíveis); no âmbito da linguagem, só
temos proposições que descrevem fatos. Essas proposições só têm
valor de verdade. Daí o paradoxo tractatiano: todas as proposições
possuem igual valor ( 1 922: 6.4). Se o 'valor ' aqui envolvido é o 'valor
ético ' , este aforisma poderia ser refraseado assim: todas as proposi­
ções são de igual valor porque não possuem qualquer valor. Disso
seguem importantes conseqüências.
Em primeiro lugar, o sentido do mundo deve estar fora dele
( 1 922: 6.4 1 ). Realmente, os fatos são como são, acontecem como
acontecem. Em outras palavras, são acidentais. A vida, como fato do
mundo, também é acidental. Ora, a atribuição de um sentido ao mundo
ou à vida consistiria em atribuir valor a cada um. Isso conferir-lhes-ia

7. Em 6.363, Wittgenstein afirma que "aquilo que a lei de causalidade deve


excluir também não se deixa descrever".

235
Iniciação ao silêncio

um caráter não-acidental, pois os valores não são acidentais. Desse


modo, não pode haver valores no mundo. Se algo não-acidental esti­
vesse no mundo, esse algo se tomaria também acidental. Se houvesse
valores no mundo, eles não mais poderiam ser valores e se tomariam
fatos. Por conseguinte, se há algum valor em sentido absoluto, ele
deve estar fora dos fatos do mundo (ibidem) .
Isso significa que, apesar de excluído do domínio dos fatos, o
valor ético deve existir sob alguma outra forma. Sabemos que a filo­
sofia tractatiana envolve duas entidades fundamentais: o sujeito trans­
cendental e o mundo, que estão um para o outro assim como, respec­
tivamente, o olho está para o seu campo visual. O olho não se encon­
tra no campo visual, mas é seu limite. De maneira análoga, o sujeito
transcendental não se encontra no mundo, mas é limite dele. Assim,
embora não pertençam ao mundo como conjunto de fatos, os valores
pertencem ao sujeito transcendental como limite do mundo. A ética é
uma dimensão do sujeito, que é condição transcendental de possibi­
lidade do mundo. Daí a conclusão: a ética é transcendental ( 1 922:
6.42 1 ). Desse modo, os fatos do mundo, quando considerados em si
mesmos, não têm qualquer sentido; quando considerados da perspec­
tiva do sujeito transcendental, porém, eles possuem um sentido abso­
luto. Nossa vida, enquanto fato do mundo, é totalmente arbitrária;
enquanto contemplada pelo sujeito transcendental, possui um signifi­
cado ético necessário.
Em segundo lugar, temos mais uma conclusão paradoxal da filo­
sofia tractatiana: se o que foi dito até agora é verdade, não pode haver
proposições na ética ( 1 922: 6.42). Suponhamos que haja proposições
éticas. Como tais, elas devem ser capazes de exprimir o que há de
mais elevado, a saber, os valores e, por meio deles, o sentido da vida.
Ora, isso só seria possível se os valores fizessem parte do mundo.
Todavia, se isso acontecesse, os valores seriam fatos. Nesse caso, eles
seriam meramente acidentais e não teriam valor algum. Portanto, as
proposições éticas são impossíveis.
Isso não significa, contudo, que a ética não exista. Na verdade,
ela aponta para algo que, embora seja muito importante em nossas
vidas, não se deixa exprimir. A ética pertence à dimensão do sujeito
metafísico. Ela é transcendental (ibidem : 6 . 42 1 ) . Neste ponto ,

236
Aplicação dos resultados da crítica da linguagem

Wittgenstein acrescenta, sem apresentar qualquer justificativa, uma


informação importantíssima: ética e estética são uma só (ibidem). De
qualquer modo, o porquê dessa identificação não parece muito difícil
de encontrar. Já sabemos que, acompanhando o espírito da filosofia
clássica, os Diários secretos equiparam a vida feliz a uma vida boa,
bela e racional (Wittgenstein 1 99 1 : 1 43 ; 1 57). A vida infeliz, por
sua vez, é caracterizada como má, feia e irrac ional . Isso nos per­
mite concluir que o Tractatus radicaliza a visão clássica a ponto de
identificar ética e estética. Se a vida feliz é, ao mesmo tempo, boa
e bela, a ética é inseparável da estética e vice-versa8• E aquilo que
uma obra de arte expressa está diretamente relacionado com o sentido
ético de nossas vidas. Desse modo, todas as características das "pro­
posições éticas" também pertencem às "proposições estéticas": elas
são todas impossíveis.
É verdade que se poderia objetar que, apesar do argumento con­
tra a possibilidade dessas proposições, nossa linguagem efetivamente
envolve, por exemplo, proposições éticas do tipo ' ele é um bom ho­
mem ' . O próprio Wittgenstein, como já sabemos, fez uma importante
declaração ética a Russell um pouco antes de estourar a guerra: ' de
longe a coisa mais importante é acertar as contas consigo mesmo '
(citado por Monk 1 995 : 99). Desse modo, a linguagem parece envol­
ver, sem qualquer sombra de dúvida, proposições éticas. Em que pese
a força dessa constatação, a crítica da linguagem mostra que ela não
passa de uma ilusão. Com efeito, a crítica revela que as proposições
acima só fazem sentido se possuírem um conteúdo descritivo que
possa ser expresso por meio de uma proposição fatual (daí, aliás, a
concentração do foco da análise tractatiana neste tipo de proposição) .
Ora, o sentido de qualquer proposição fatual é explicado em função de
seu respectivo conteúdo descritivo, que é puramente acidental. Isso
estabelece um impasse intransponível para as "proposições éticas"
acima.

8. Como a vida feliz é também racional, talvez seja possível considerar que, em
última instância, a lógica, a ética e a estética são uma só. Isso conferiria à contem­
plação beatífica tractatiana uma dimensão racional que não se encontraria necessaria­
mente presente nos demais autores em cujo misticismo Wittgenstein se inspirou. A
questão de saber se ele faz ou não esta contribuição original nos desviaria muito de
nossos objetivos. Por esse motivo, não nos aventuraremos neste terreno.

237
Iniciação ao silêncio

A título de ilustração, consideremos as proposições avaliativas


'esta é uma boa mesa' e ' ele é um bom enxadrista' . Para que elas
façam sentido, é necessário que possuam conteúdos descritivos defi­
nidos. Nas proposições consideradas, temos, respectivamente, 'a cir­
cunstância de esta ser uma boa mesa' e 'a circunstância de ele ser um
bom enxadrista' . Nos dois casos, o conteúdo descritivo nada mais é
que a enumeração de uma série de fatos. ' Ser uma boa mesa' pode
equivaler a ' possuir quatro pés e um tampo, com tais e tais dimensões,
dispostos em tal estrutura, com tal resistência etc. ' ; ' ser um bom en­
xadrista' pode equivaler a 'proceder de tal ou tal maneira diante de tal
ou tal situação do jogo de xadrez, conhecer aberturas e finais, possuir
resistência física e psicológica para jogar durante tal tempo etc . ' . E os
fatos envolvidos em cada enumeração são acidentais, ou seja, eles
poderiam ser outros e ainda assim as proposições consideradas teriam
sentido. Isso é possível porque as proposições 'ser uma boa mesa' e
' ser um bom enxadrista ' foram entendidas em sentido relativo.
Passemos agora à "proposição ética" ' ele é um bom pai ' . Sua
anãlise deve ser feita da mesma forma que a das proposições ante­
riores. Assim, se ela faz sentido, possui um conteúdo descritivo deter­
minado (no caso, ' a circunstância de ele ser um bom pai ' ) . Esse
conteúdo descritivo também deve consistir na enumeração de uma
série de fatos, como, por exemplo, 'ele desempenha de tal e tal ma­
neiras as tarefas paternas, ama seus filhos, alimenta-os, veste-os, edu­
ca-os, respeita-os etc. etc. ' . Todavia, os fatos da enumeração conti­
nuam sendo acidentais. Logo, a "proposição ética" que diz que ele
é um bom pai só pode ser entendida em sentido relativo . Se ela
fosse entendida em sentido absoluto, deveria poder ser explicada
em termos de valores necessãrios . Contudo, tais valores são radi­
calmente diferentes dos fatos e não podem ser explicados por enu­
merações. Daí resulta que a "proposição ética", entendida em sentido
absoluto, constitui um perfeito contra-senso, pois não possui conteúdo
descritivo. A "proposição" da carta de Wittgenstein a Russell, que
equipara 'a coisa mais importante' com 'acertar as contas consigo
mesmo ' , encontra- se na mesma situação. Com efeito, se essas ex­
pressões estiverem presentes em dada proposição, ela só farã sen­
tido se seus respectivos conteúdos descritivos puderem ser usados
nas proposições fatuais correspondentes. Mas, nesse caso, o valor
238
Aplicação dos resultados da crítica da linguagem

ético em sentido absoluto estará completamente perdido, pois terá


sido substituído por enumerações fatuais contingentes. Em síntese, as
chamadas "proposições éticas", quando fazem sentido, não conse­
guem expressar valores absolutos; elas também são contingentes como
qualquer outra proposição, porque se reduzem a enumerações de fatos
do mundo. Quando tentamos expressar algo absoluto por meio dessas
"proposições", elas se tornam contra-sensos, pois perdem o conteúdo
descritivo9•
As "prescrições éticas", como 'seja um bom pai ' , encontram-se
em situação semelhante. Consideremos, como exemplo, um comando
como ' abra a porta' . Ele só faz sentido porque possui um conteúdo
descritivo determinado - 'a circunstância de a porta estar aberta' -
que pode ser expresso pela proposição fatual ' a porta está aberta' .
Aqui, a análise revela que a explicação do sentido do comando ' abra
a porta' depende da explicação do conteúdo descritivo que ele tem em
comum com a proposição declarativa 'a porta está aberta' . Da mesma
forma, a explicação do sentido da "prescrição ética" ' seja um bom pai'
depende da explicação do conteúdo descritivo que ela tem em comum
com a "proposição ética" 'x é um bom pai ' . Se a prescrição faz sen­
tido, ela possui um conteúdo descritivo determinado - 'a circunstân­
cia de x ser um bom pai ' - que pode ser expresso pela proposição.
Sendo assim, aqui também podemos dizer que, em última instância, a
explicação do sentido de uma "prescrição ética", entendida de maneira
absoluta, se reduz à explicação do sentido da correspondente "propo­
sição ética", entendida de maneira absoluta. Ora, já mostramos que as
"proposições éticas" em sentido absoluto não passam de contra-sen­
sos, pois não possuem conteúdo descritivo. Por conseguinte, as "pres­
crições éticas" que delas derivam também não possuem conteúdo
descritivo e não passam de contra-sensos.
Em resumo, nada podemos falar da vontade como portadora do
ético; ela é inexprimível. Não podemos negar que exista o fenômeno
do mundo da vontade. Mas, neste caso, ela é objeto da psicologia
( 1 922: 6.423 ) . Como portadora do ético, a vontade é transcendental

9. Este tipo de análise das "proposições éticas" está apenas sugerido no Tractatus.
A versão mais detalhada, que nos inspirou, pode ser encontrada em Uma conferência
sobre ética (Wittgenstein 1 930).

239
Iniciação ao silêncio

e lida com valores em sentido absoluto. Nada podemos falar sobre


ela, porque seu domínio se estende para além dos fatos. Como objeto
da psicologia, a vontade é um fato complexo e · lida com valores
apenas em sentido relativo, que se reduzem a fatos. Apesar de poder­
mos falar dela, o discurso que a tem como objeto não é eticamente
relevante.
Em terceiro lugar, se a ação moral é capaz de alterar o mundo de
algum modo, então ela altera inexprimivelmente os limites do mundo,
não os fatos do mundo ( 1 922: 6.43). Com efeito, pela análise da
linguagem tisica, ficamos sabendo que só há necessidade lógica. Isso
significa que o mundo é independente da vontade ( 1 922: 6.373) . As­
sim, se algum desejo da vontade se realizasse, ele aconteceria apenas
em virtude de uma graça do destino, já que não há qualquer vínculo
lógico entre a vontade e o mundo ( 1 922: 6.374). A análise da lingua­
gem moral nos mostra que o sentido do mundo estâ fora dele e que
a vontade portadora do ético não pode ser expressa lingüisticamente.
E isso significa que a volição ética só pode alterar - de um modo
não exprimível pela linguagem - os limites do mundo, deixando os
fatos exatamente como estão.
Entretanto, a alteração dos limites do mundo envolve uma para­
doxal alteração do próprio mundo. É verdade que, por um lado, o
sujeito transcendental não pode modificar os fatos; mas ele pode, em
contrapartida, modificar sua maneira de encarar os fatos. E, ao modi­
ficar sua atitude, ele consegue modificar o mundo como um todo.
Enquanto contemplado do ponto de vista de seu limite, o mundo pode
crescer ou diminuir como um todo. Assim, o mundo daquele que é feliz
- ou eticamente bom - é radicalmente diverso do mundo daquele que
é infeliz - ou eticamente mau. Para aquele, o mundo cresce infinitamen­
te; para este, diminui infinitamente (cf. 1 922: 6.43).
Nessa perspectiva, o mundo não se altera pela morte, mas sim­
plesmente acaba ( 1 922: 6.43 1 ) . Com efeito, a morte significa o térmi­
no do mundo dos fatos . Se este último acaba, com ele também acaba
o objeto da contemplação do sujeito transcendental. Sem seu objeto,
o sujeito transcendental também acaba. Retomando a metáfora do olho
e do campo visual, vemos que, eliminando-se o segundo, fica também
automaticamente eliminado o primeiro. O desaparecimento do campo

240
Aplicação dos resultados da crítica da linguagem

visual implica o desaparecimento de sua condição de possibilidade, ou


seja, o olho. De maneira análoga, o desaparecimento do mundo impli­
ca o desaparecimento de sua condição de possibilidade, ou seja, o
sujeito transcendental . Nesse sentido, a morte não é um evento da
vida: ela não pode ser vivida ( 1 922: 6.43 1 1 ). A morte é um acabar-se
radical dos dois pólos que constituem a vida: os fatos e o sujeito
transcendental. Em virtude disso, a sobrevivência eterna da alma de­
pois da morte é uma hipótese altamente problemática. Por um lado,
ela não está garantida, já que a morte envolve o término não apenas
do mundo, mas também do sujeito transcendental. Por outro, ela não
resolve o "enigma da vida". Simplesmente o toma "eterno", já que a
vida eterna seria tão "enigmática" quanto a vida finita. Isso significa
que a solução do "enigma da vida" no espaço e no tempo deve estar
"fora" do espaço e do tempo ( 1 922: 6.43 1 2). Em outras palavras, a
verdadeira realidade, que nesse momento Wittgenstein denomina
'Deus ' , não se revela no mundo dos fatos - domínio do espaço e do
tempo - mas "fora" dele (ibidem). Nesse ponto, de maneira um tanto
misteriosa, Wittgenstein afirma que, embora os fatos pertençam todos
à missão ( 'Aufgabe'), eles não fazem parte da solução ( 1 922: 6.432 1 ) .
É certo que a palavra alemã 'Aufgabe' é normalmente traduzida por
' trabalho ' , ' problema' , 'tarefa' . Mas ela está sendo usada aqui mais
propriamente no sentido de 'tarefa conferida' ou 'missão ' . Esta inter­
pretação sugere que cada um de nós está no mundo para cumprir uma
missão, que cada um de nós tem uma "tarefa ética" a realizar: solu­
cionar o "enigma da vida". Os fatos constituem um obstáculo a ser
vencido para que a solução possa ser alcançada.
Em quarto lugar, a solução do "enigma da vida" é dada por uma
experiência mística que nos coloca "fora" do tempo. É plausível supor
que essa experiência envolva, por um lado, a contemplação da essên­
cia do mundo pelo sujeito transcendental e, por outro, a constatação
de que nenhum aspecto dessa visão pode ser formulado na linguagem.
Nessa perspectiva, a questão lógica clarifica e complementa a questão
ética'º·

10. É importante observar que, a partir deste momento, as anotações do lado


esquerdo dos Cadernos se tomam dispensáveis, embora ainda conservem toda a sua
importância, e a sintese começa a ser expressada do lado direito, onde as notas lógicas
revelam uma "contaminação ética" cada vez maior.

24 1
Iniciação ao silêncio

A esta altura, é conveniente lembrar alguns aspectos fundamen­


tais do que se convencionou chamar ' experiência mística' . De acordo
com Walter Stace, a expressão mais adequada para descrevê-la é 'cons­
ciência mística' ( 1 989: 3 1 3 ) . A palavra 'experiência' é entendida como
um produto do intelecto conceituai, ao passo que o misticamente "ex­
perimentado" é um modo da consciência não-intelectual (ibidem: 3 1 4).
A consciência ordinária (sensório-intelectual) envolve sensações, ima­
gens e conceitos, ao lado de emoções, desejos e volições (ibidem:
3 1 6). A consciência mística é totalmente incomensurável com a ante­
rior, embora não seja necessariamente sobrenatural (ibidem: 3 1 7) . A
característica central das "experiências" místicas descritas nas várias
culturas é a apreensão de uma unidade última de caráter não-sensível
em todas as coisas, a qual transcende a consciência ordinária (ibidem:
3 1 8) . Num sentido mais rigoroso, a "experiência" é a unidade (ibidem).
Em virtude disso, os místicos sentem não só que sua "experiência"
está fora do tempo, mas também que ela é mais real que qualquer
outra experiência (ibidem: 3 1 4) .
Para o s objetivos d e nossa análise, é importante lembrar que,
segundo Stace, a "experiência" mística não é intrinsecamente um fe­
nômeno religioso. Sua conexão com alguma religião é subseqüente e
até mesmo adventícia (ibidem: 324) . Não há nada de religioso na
unidade indiferenciada. Sua caracterização como "união com Deus"
constitui antes uma interpretação da "experiência" mística (ibidem:
325) . O misticismo costuma tomar forma religiosa por várias razões.
Primeiro, porque a "experiência" mística constitui um dissolver-se no
infinito da própria individualidade, e o Infinito é associado com Deus
(ibidem). Segundo, porque a unidade indiferenciada é "experimentada"
como estando além do espaço e do tempo e, portanto, como eterna (o que
também é um atributo divino) (ibidem). Terceiro, porque o lado emocio­
nal dessa "experiência" consiste numa paz exaltada, que novamente é
identificada com a paz divina (ibidem). Apesar disso, o misticismo não
favorece qualquer religião em particular. Embora ele dê a impressão de
que algo sagrado foi encontrado, sua interpretação é cultural (ibidem) 1 1 •

1 1 . Devido às características da "experiência" mística, foi possível afirmar,


algumas vezes, que o misticismo não passa de uma fuga egoísta da vida (Stace 1 989:
326). Essa, porém, não é a atitude dos grandes místicos. Para alguns deles, a cons-

242
Aplicação dos resultados da crítica da linguagem

Em consonância com a caracterização de Stace, a palavra ' eter­


nidade' é entendida, no Tractatus, não no sentido de ' duração tempo­
ral infinita' , mas de ' atemporalidade' . A experiência mística que cons­
titui a solução do "enigma" envolve um sentimento de estar "fora" do
tempo, ou seja, de vivenciar a eternidade no momento presente. Como
essa experiência é vivida pelo sujeito transcendental, que é limite do
mundo, isso leva Wittgenstein a dizer que nossa vida é sem fim: do
mesmo modo que o campo visual não apresenta limites para o olho,
o mundo dos fatos não apresenta limites para o sujeito transcendental
(cf. 1 922: 6.43 1 1 ). Nessa perspectiva, a experiência mística nos mostra
que o mundo é, não como ele é ( 1 922: 6.44). Revela-nos a essência do
mundo, não seus eventos. Ela constitui uma visão do mundo do ponto de
vista do eterno (sub specie aeternz), que corresponde a uma visão do
mundo como totalidade limitada ( 1 922: 6.45).
Poderíamos tentar explicar isso com a seguinte analogia mais ou
menos grosseira. A vivência mística tractatiana sugere que a realidade
seja análoga ao entrecruzamento de duas retas ortogonais. O domínio
de uma delas, a horizontal, corresponderia ao mundo; o domínio da
outra, a vertical, à vontade schopenhauerianamente entendida como
sujeito transcendental . Na reta horizontal, teríamos os fatos do
mundo distribuídos no tempo; na vertical , teríamos o sujeito trans­
cendental contemplando atemporalmente a essência do mundo.
Enquanto pertencentes ao domínio da horizontal, nada mais somos
que indivíduos prisioneiros das circunstâncias imediatas . Enquanto
pertencentes do domínio da vertical, temos a capacidade de nos
elevar acima das particularidades, pondo em ação nossa dimensão
universal, o sujeito transcendental que nos toma capazes de intuir a
essência do mundo em sua universal idade (a lógica como lei
estruturante da reta horizontal); e o exercício dessa capacidade é um
dever ético. Assim, quando Wittgenstein nos diz que os fatos fazem
parte apenas do problema, não da solução (ibidem: 6.432 1 ), ele pare­
ce dizer que o "problema" da vida é representado pelo mundo dos
fatos, que nos tomam prisioneiros interessados do aqui e do agora; a

ciência mística é a fonte secreta de todo o amor humano e divino, de todos os valores
éticos. Por meio dela, percebemos que todos somos um, que nosso sofrimento e nossa
felicidade são unos (ib.: 327).

243
Iniciação ao silêncio

solução está em que devemos nos libertar dessa prisão e ver, nos fatos,
apesar deles, a essência dos fatos. O que há de melhor em nós perten­
ce à reta vertical. Temos o dever de ultrapassar a barreira da horizontal
para enxergar a infinitude da vertical. Originariamente sujeito trans­
cendental, a vontade tem a obrigação ética de levantar o véu represen­
tado pela prisão espaço-temporal do mundo dos fatos para intuir, no
âmago desse mesmo mundo, a essência imutável e eterna de toda a
realidade. Nesse sentido, parece que aquilo que ' se mostra' equivale
ao objeto da intuição intelectual (em sentido schopenhaueriano) do
sujeito transcendental.
A intuição mística se dá no ponto de interseção das duas retas,
onde a lógica, entendida como a componente objetiva das condições
transcendentais de possibilidade da realidade (linha horizontal), se funde
com a ética (ou estética) , entendida como a contraparte subjetiva des­
sas condições transcendentais (linha vertical) 1 2 • Nesse sentido, ética e
lógica são condições do mundo (Wittgenstein 1 9 1 4- 1 9 1 6: 77), numa
perspectiva que se aproxima de Schopenhauer e, principalmente, de
Weininger' 3•
Retomando à caracterização de Stace, podemos distinguir duas
espécies fundamentais de "experiência" mística. A primeira é a "extro­
vertida" (' extroversive ' ) e consiste em olhar para fora, na direção do
mundo, nele encontrando o Uno (ibidem: 3 1 9). O místico "extrover-

1 2. A imagem dos dois eixos ortogonais aqui utilizada encontra eco nas seguin­
tes metáforas, utilizadas por Schopenhauer para caracterizar a experiência de estar
"fora" do tempo: "o tempo pode comparar-se a um círculo sem fim que roda sobre
ele mesmo: o semicírculo que vai descendo seria o passado; a metade que sobe, o
futuro. No alto está um ponto indivisível, o ponto de contato com a tangente: é o
presente inextenso" ( 1 8 1 7 : § 54); "o tempo se parece ainda com uma corrente
irresistível, e o presente a um escolho, contra o qual a onda se quebra, mas sem o levar
consigo" (ib.). Em outro momento, Schopenhauer recorre a uma sugestiva metáfora
platônica, segundo a qual o tempo é "a imagem movente da eternidade" (ib.: § 32).
1 3 . Convém lembrar aqui que, para Weininger, "lógica e ética são fundamen­
talmente o mesmo, nada mais são do que o dever para consigo mesmo. Elas celebram
sua união pelo serviço mais elevado à verdade, que é obscurecida em um caso pelo
erro e, no outro, pela inverdade. Toda ética é possível apenas pelas leis da lógica e
a lógica nada mais é que o lado ético da lei. Não apenas virtude, mas também intuição
(' insight'), não apenas santidade, mas também sabedoria, são os deveres e tarefas da
humanidade" ( 1 906: 1 59).

244
Aplicação dos resultados da crítica da linguagem

tido" continua a perceber o mesmo mundo que nós, mas contempla


seus objetos transfigurados de tal forma que o Uno se manifesta neles.
Como exemplos de místicos desse tipo, podemos citar Eckhart e
Boehme (ibidem) . A segunda espécie é a "introvertida" ( ' introversive ' )
e consiste e m voltar-se introspectivamente para dentro, encontrando o
Uno no interior do próprio ' Ego ' . Esta espécie é superior à primeira
(ibidem) , porque o místico "introvertido" tem uma "experiência" to­
talmente não-sensível e não-intelectual, ao passo que o "extroverti­
do" tem uma "experiência" que é, por um lado, sensório-intelectual (na
medida em que ainda percebe objetos fisicos) e, por outro, não-sensível
e não-intelectual (na medida em que os percebe todos como um) (ibidem:
320). A "experiência" introvertida é descrita no Mandukya Upanishad
(ibidem: 321 -322) e em Ruysbroeck (ibidem: 322).
Parece-nos, todavia, que, embora possamos aventar a hipótese de
que o Wittgenstein do Tractatus teve uma "experiência" mística que
foi interpretada num sentido religioso, não há dados suficientes para
decidir se ela possui caráter "extrovertido" ou "introvertido". Que se
trata de uma "experiência" mística, podemos inferi-lo da concepção
tractatiana da eternidade como atemporalidade e não como duração
temporal infinita. Que esta "experiência" mística foi interpretada num
sentido religioso, podemos inferi-lo tanto das inúmeras vezes em que
Wittgenstein reza e roga o auxílio divino nos Diários secretos como
da maneira como o Místico e Deus parecem estar relacionados no
Tractatus. Em 6.432, Wittgenstein afirma:
"Como seja o mundo, é completamente indiferente para o
mais elevado. Deus não se revela no mundo " .
O aforisma pressupõe que existe algo de mais elevado e sugere
que este algo seja Deus. Além disso, Deus é separado de como o
mundo é (totalidade dos fatos). Se levarmos em conta que o Místico
se mostra inefavelmente ( 1 922: 6.522), que o Místico não é como o
mundo é, mas que ele é (ibidem: 6.44), fica clara a possibilidade da
identificação de Deus com o Místico. Quanto à qualidade da expe­
riência mística tractatiana, há, por um lado, elementos para caracterizá­
-la como "extrovertida", uma vez que Wittgenstein equipara o senti­
mento místico ao sentimento do mundo como totalidade limitada
(ibidem: 6.45). Para contemplar o mundo como totalidade limitada e

245
Iniciação ao silêncio

vivenciar o Uno, parece que o sujeito transcendental deve voltar-se


para fora1 4• Por outro lado, há também elementos para caracterizar o
misticismo tractatiano como "introvertido", pois Wittgenstein também
afirma que o sentido do mundo está "fora" dele (ibidem: 6.41 ), ou,
como acabamos de ver, que Deus não se revela no mundo (ibidem:
6.432) . Nesse caso, a descoberta do sentido da vida será obtida quando
o sujeito transcendental voltar-se para dentro e descobrir o microcosmo
em si1 5 • Assim, não há dúvidas de que a vivência expressa pelo Tractatus
é mística e foi interpretada por um prisma religioso, embora não te­
nhamos certeza absoluta de sua qualidade.

VI - A Metafísica

A análise da linguagem da ética revela que não pode haver "pro­


posições" que descrevam valores absolutos, pois elas não teriam qual­
quer conteúdo descritivo. Coisa semelhante acontece no caso da
metafísica. Se houvesse "proposições" metafísicas, elas também não
teriam conteúdo descritivo. Com efeito, a linguagem metafísica tenta
descrever o que existe em sentido absoluto, a saber, a essência do
mundo, isto é, as condições de possibilidade dos fatos. Ora, já sabe­
mos que a linguagem só pode descrever fatos. Nela, qualquer propo­
sição autêntica possui um conteúdo descritivo que é analisado numa
articulação de proposições elementares. O conteúdo descritivo de cada
uma destas, por sua vez, só existe como tal porque retrata um dado
grupo de objetos simples que estão articulados de certa maneira.

1 4. As ligações de Wittgenstein com o misticismo "extrovertido" de Eckhart e


Boehme também podem ser lembradas aqui. O próprio Schopenhauer desenvolveu
uma filosofia que, preparada pela contemplação da Idéia (grau de objetivação da
vontade) na arte, parece desembocar numa forma de misticismo "extrovertido" quan­
do a vontade nega a si própria. O deixar de sentir-se ligado às coisas terrestres e o
desaparecimento do desejo de participar na vida do mundo liberam a vontade para
contemplar a verdadeira realidade e vivenciar o Uno.
1 5 . O misticismo "introvertido" de Wittgenstein poderia remontar a Weininger,
que defende a possibilidade de uma experiência de algo mais elevado em nosso
próprio 'ego ' . Lembremos que, para Weininger, o misticismo provém exclusivamente
da excitação do 'ego ' , que leva o gênio à convicção de que ele tem uma alma que
contempla e compreende solitariamente o universo.

246
Aplicação dos resultados da crítica da linguagem

Desfazendo-se a articulação de objetos, desfaz-se igualmente o conteú­


do descritivo. Assim, este último possui duas condições transcen­
dentais de possibilidade: a) um conjunto de objetos simples e b) em
dada articulação (forma lógica) . Se retirarmos qualquer uma delas, o
conteúdo descritivo desaparecerá. É precisamente neste ponto que
surge o impasse da linguagem metafísica: não podemos então falar
isoladamente nem dos objetos simples nem de sua articulação. Se
tentarmos falar apenas dos objetos, ficará excluída sua articulação e
a "proposição" que tenta descrevê-los não terá conteúdo descritivo; se
tentarmos falar apenas da articulação, ficarão excluídos os objetos e
a "proposição" que tenta descrevê-la também não terá conteúdo des­
critivo 1 6. Embora toda proposição dotada de sentido possua necessa­
riamente um conteúdo descritivo, não poderemos construir nenhuma
proposição que fale sobre as condições transcendentais de possibili­
dade desse conteúdo . Tal "proposição" não teria conteúdo descritivo
e constituiria, portanto, mero contra-senso.
Nessa perspectiva, podemos dizer que, assim como na ética, não
pode haver proposições na metafísica. Isso, porém, não no sentido de
que a metafísica seja impossível, mas transcendental. Ela apenas não

1 6. Poder-se-ia replicar aqui da seguinte maneira. Primeiro, que o objeto sim­


ples já envolve a forma lógica das articulações às quais pode pertencer. Portanto,
falar do objeto já envolve falar de sua forma lógica. Não há como isolar o objeto
de sua forma lógica. Segundo, que uma tautologia dá conta de falar sobre a forma
lógica isoladamente. Para responder à primeira objeção, convém lembrar que dado
conteúdo descritivo atômico envolve um grupo específico de objetos numa articu­
lação também específica. É certo que falar do objeto envolve falar de sua forma
lógica geral, isto é, de todas as articulações possíveis às quais ele pode pertencer.
Todavia, falar de uma articulação específica de objetos envolve falar de uma forma
lógica específica. É esta que está presente no caso de dado conteúdo descritivo
atômico. Embora a forma lógica específica esteja a priori contida na forma lógica
geral do objeto, não há nada na segunda que privilegie a primeira. A possibilidade
de combinar-se em geral faz parte da forma lógica do objeto; a combinação espe­
cífica envolvida pelo conteúdo descritivo atômico constitui uma determinação dessa
forma lógica. Assim , embora o objeto envolva sua forma lógica geral, é o conteúdo
descritivo atômico a que o objeto pertence que envolve uma forma lógica específica
que se sobrepõe àquela forma geral. Para responder à segunda objeção, basta lem­
brar que uma tautologia nada diz: ela simplesmente mostra a forma lógica. A novi­
dade da solução de Wittgenstein é justamente que o que não pode ser dito se mostra
de maneira inexprimível na linguagem.

247
Iniciação ao silêncio

se deixa exprimir. Dos objetos como substância do mundo, e da lógica


como essência do mundo, não se pode falar. Desse modo, não somen­
te não podemos formular respostas às questões metafísicas, como
também não podemos sequer formular tais questões. Uma questão só
pode ser formulada quando está presente o conteúdo descritivo cor­
respondente. Conforme mencionado anteriormente, só podemos
fazer a pergunta 'a janela está aberta? ' porque podemos fazer a asserção
' a janela está aberta' ; tanto a pergunta como a asserção são possíveis
porque possuem o mesmo conteúdo descritivo autêntico - 'a cir­
cunstância de a janela estar aberta' . De maneira análoga, só podemos
fazer a pergunta ' qual é a essência do mundo ? ' se pudermos fazer
a asserção ' a essência do mundo é tal e tal ' ; tanto a pergunta como
a resposta metafísica serão possíveis se possuírem um mesmo
conteúdo descritivo e se ele for autêntico. Ora, sabemos que este
não é o caso, pois não podemos falar sobre as condições transcen­
dentais de possibilidade dos fatos . Daí a conclusão paradoxal do
Tractatus: o enigma - entendido seja como o problema do sentido
da vida (questão ética fundamental), seja como o problema da essên­
cia do mundo (questão metafisica fundamental), seja como a combi­
nação de ambos - não existe ( 1 922: 6.5). Embora esteja inex­
primivelmente presente em nível transcendental, ele não pode ser
formulado lingüisticamente. Isso nos leva a uma série de outras con­
clusões.
Em primeiro lugar, o ceticismo não é irrefutável, mas um contra­
-senso ( 1 922: 6.5 1 ) . De modo geral, a técnica cética mais utilizada na
tradição filosófica consiste em opor a dada proposição metafisica a
proposição contrária, estabelecendo assim uma equipotência entre
ambas. Esse procedimento toma insolúvel a questão metafisica ligada
àquelas proposições. Ao levantar dúvidas, o ceticismo estabelece a
indecidibilidade das questões metafísicas. O corolário disso é apresen­
tar-se como posição irrefutável na filosofia tradicional. De acordo com
a concepção tractatianél, contudo, ao opor uma proposição metafisica
a outra, o cético está implicitamente aceitando a questão metafísica que
originou a oposição que ele estabeleceu. A crítica da linguagem mos­
tra que só podemos levantar dúvidas onde questões autênticas possam
ser formuladas; questões autênticas só podem ser feitas quando res­
postas adequadas possam ser dadas; respostas adequadas só podem ser

248
Aplicação dos resultados da crítica da linguagem

formuladas quando algo possa ser dito. Ora, a metafísica é inexprimível


e não pode ser dita; portanto, nem respostas nem questões metafísicas
podem ser formuladas. Assim, ao aceitar que a questão metafísica
possa ser expressa pela linguagem, o cético tenta dizer o que não pode
ser dito e automaticamente ingressa no domínio do contra-senso. A
dúvida cética não é irrefutável porque não pode sequer ser estabelecida
como dúvida. Essas considerações também permitem entender por que
a metafísica tradicional é tão controvertida. Os metafísicos disputam
interminavelmente porque, sem terem passado pela devida clarificação
conceituai, tentam decidir entre contra-sensos alternativos. O cético
também padece da falta de clareza intelectual; ele tem apenas a caracte­
rística especial de construir oposições entre contra-sensos, mostrando sua
"indecidibilidade". Nessa perspectiva, todos estão equivocados e ja­
mais poderão concordar uns com os outros.
Em segundo lugar, fica claro também que, s e todas as questões
científicas possíveis fossem respondidas, ainda assim as questões fun­
damentais sobre nossa vida permaneceriam intocadas ( 1 922: 6.52).
Todas as questões científicas possíveis versam sobre fatos. Desse modo,
se todas elas forem resolvidas, somente as questões concernentes a
fatos terão sido resolvidas . As "questões" relativas às condições trans­
cendentais de possibilidade dos fatos não terão sido sequer tocadas. Se
forem resolvidas todas as questões científicas, então todas as questões
passíveis de expressão lingüística terão sido resolvidas. Não restará
qualquer outra questão, e isso constitui a paradoxal "resposta" às "ques­
tões" metafísicas (ibidem). Em outros termos, a solução do problema
da vida consiste precisamente no desaparecimento desse problema
( 1 922: 6.52 1 ). Essa parece ser a razão pela qual aqueles que descobri­
ram o "sentido da vida" são incapazes de exprimi-lo por meio de
proposições. Existe algo que se encontra além dos limites do dizível .
Mesmo assim, esse algo é capaz de se mostrar ao sujeito transcendental
pela experiência mística ( 1 922: 6.522).
Em terceiro lugar, as considerações acima permitem estabelecer
em que consiste o método correto em filosofia. A clarificação conceituai
nos mostra que só podemos dizer o que pode ser dito, ou seja, propo­
sições dotadas de sentido. Elas são assim porque possuem conteúdo
descritivo autêntico e retratam estados de coisas. Todavia, este tipo de
proposição é prerrogativa da ciência natural, não da filosofia, que lida

249
Iniciação ao silêncio

com o inexprimível. Assim, todas as vezes que alguém tentar dizer


alguma coisa metafisica, temos de mostrar-lhe que as "proposições"
envolvidas não possuem qualquer conteúdo descritivo e constituem
contra- sensos 1 7• É verdade que esse método não daria a nosso
interlocutor metafisico o sentimento de que lhe estivéssemos ensinan­
do filosofia. Isso soar-lhe-ia como insatisfatório. Apesar disso, seria o
único método rigorosamente correto em filosofia ( 1 922: 6.5 3).
Em quarto e último lugar, se toda a visão filosófica até agora
apresentada é verdadeira, fica claro que as próprias proposições do
Tractatus carecem de elucidação. Por um lado, elas constituem contra­
-sensos. De fato, não são proposições da ciência natural. Elas tentam
falar sobre a essência do mundo e o sujeito transcendental: são, por­
tanto, proposições metafisicas. A aplicação do método filosófico cor­
reto a essas "proposições" revela que não possuem conteúdo descriti­
vo. Sem este último, elas nada dizem e nada mostram. Por outro lado,
essas "proposições" constituem tentativas desesperadas de dizer o que
não pode ser dito. Nesse sentido, elas nos mantêm na posição parado­
xal de constantemente afrontar os limites da linguagem. Por meio
delas, colocamo-nos à beira do abismo do contra-senso. Mas este forçar
a linguagem para além dos limites do dizer esbarra nos limites do puro

1 7 . Wittgenstein coloca isto de maneira mais obscura, dizendo que devemos


mostrar ao metafísico que ele não conferiu significado (' Bedeutung ' ) a certos signos
em suas proposições ( 1 922: 6.53). Isso pode ser explicado da seguinte maneira. Já
sabemos que a proposição possui apenas sentido. A análise da proposição é que nos
leva às proposições elementares, que se compõem de signos simples. Apenas estes
possuem significado. O conteúdo descritivo da proposição complexa autêntica é ana­
lisado numa articulação de conteúdos descritivos de proposições elementares. Estes
conteúdos descritivos atômicos constituem articulações de signos simples, os únicos
que possuem significado. Assim, o conteúdo descritivo da proposição complexa é
explicado; em última instância, em termos dos significados dos signos simples. Ora,
no caso das proposições metafísicas, a análise revela que seu "conteúdo descritivo"
não corresponde a uma articulação de conteúdos descritivos de proposições elemen­
tares. Portanto, o "conteúdo descritivo" dessas "proposições" não pode ser explicado
em termos de significados de signos simples. É nesse sentido que podemos mostrar
ao metafísico que ele ' não conferiu significado a certos signos em suas proposições ' .
Como s e pode notar, as explicações pelo conteúdo descritivo ou pelo significado dos
signos simples são perfeitamente consistentes e se complementam mutuamente. Nos­
sa opção pela explicação por meio do conteúdo descritivo decorre da maior clareza
que ela propicia à exposição.

250
Aplicação dos resultados da crítica da linguagem

mostrar. O corolário dos contra-sensos do Tractatus é uma experiência


mística de caráter inexprimível. As "proposições" do Tractatus cons­
tituem contra-sensos que devem ser percorridos até o momento deci­
sivo em que a experiência mística se efetive. Uma vez alcançado o
místico, elas podem simplesmente ser abandonadas. Daí a analogia
feita entre essas "proposições" e uma escada, que deve ser lançada
fora depois que se subiu por ela. Wittgenstein diz explicitamente que
devemos superar (' überwinden ' ) as "proposições" do Tractatus para
podermos ver o mundo corretamente. Isso significa que, ao tentar
ultrapassar os limites do dizer, essas "proposições" acabam nos colo­
cando em contato com o puro mostrar místico, que, uma vez alcança­
do, revela o que de fato é importante e dispensa os contra-sensos do
Tractatus. Nesse momento eles são superados . E a vivência mística
tractatiana se realiza no interior do mais completo silêncio ( 1 922:
6.54).
Christiane Chauviré considera que o aforisma 7 não é uma pro­
posição, mas uma injunção, um convite ao silêncio. Como tal, a con­
clusão do Tractatus escaparia à demarcação sentido/contra-senso
(Chauviré 1 99 1 : 53). Essa observação, contudo, é equivocada. Embora
o aforisma 7 não seja uma proposição declarativa, constitui uma pres­
crição que, como sabemos, deve possuir conteúdo descritivo para fa­
zer sentido. Ora, o aforisma fala sobre 'o que não se pode falar ' e isso
não envolve qualquer conteúdo descritivo. Por conseguinte, o aforisma
7 também é contra-senso. As limitações da linguagem nos constran­
gem de tal forma que, em matéria de filosofia, estamos irremediavel­
mente condenados ao contra-senso. E a experiência mística fica relegada
ao domínio do inexprimível.
Se esta interpretação está correta, o resultado é uma verdadeira
revolução quanto ao sentido em que deve ser concebido o papel da filo­
sofia na vida humana. Com efeito, ela constitui, por um lado, uma crítica
da linguagem, cujo exercício deve ser entendido como uma atividade,
não como uma doutrina. Por outro, contudo, ao delimitar o que pode
ser dito, a crítica mostra que nem a questão nem a resposta sobre o
sentido da vida podem ser formuladas lingüisticamente. A crítica cla­
rifica a lógica da linguagem de modo a tomar patente a impossibili­
dade do discurso filosófico, inclusive aquele por meio do qual ela se
expressa. Assim, ao ensinar que o enigma não existe, ela ensina si-

25 1
Iniciação ao silêncio

multaneamente a lição de que não se pode sequer dizer que o enig­


ma não existe. Lógica e eticamente falando, contudo, só é possível
assumir esses ensinamentos depois de efetuar a tentativa suicida de
dizer o que não pode ser dito. A experiência fundamental do Tractatus
é a do renascer em s ilêncio depois da morte do dizer: embora haja
na verdade uma vivência filosófica relativa ao sentido da vida, esta
vivência constitui uma experiência mística indizível do sujeito
transcendental . Ela perpassa todo o nosso discurso, está nele conti­
da, mas, mesmo assim, não pode ser colocada em palavras . É esse
o significado das palavras abaixo, que Wittgenstein comenta numa
carta a Engelmann:
"O inexprimível está contido - de maneira inexprimível -
no que é dito" (citado por Engelmann 1 970: 6) .
Em síntese, só se pode falar com sentido acerca dos fatos do
mundo. No nível da expressão lingüística, o problema da vida não
existe, nem sua solução: o mais importante para o ser humano perten­
ce ao domínio do mostrar místico. Cumprir o dever ético interior para
poder vivenciar de maneira indizível a vida do espírito, contemplando
a essência divina nas profundezas do silêncio, eis a idéia central do
Tractatus.

VII - Observações fi nais

Aplicada à lógica, a crítica da linguagem revela que as tautologias


são vazias de sentido. Isso mostra as propriedades lógicas da lingua­
gem e do mundo. Nessa perspectiva, embora não seja uma teoria, a
lógica é transcendental.
Aplicada à matemática, a crítica da l inguagem revela que, embo­
ra apresentem algumas semelhanças, a matemática e a lógica consti­
tuem linguagens independentes. Cada uma expressa a essência do
mundo à sua maneira. Isso porque a matemática: a) trabalha com a
identidade, que é eliminada da notação lógica; b) utiliza o método de
substituição e não o modus ponens; c) tem como seu objeto não pro­
posição, mas o número; d) permite que usemos suas equações para
fazer deduções ligadas à vida prática (as proposições lógicas são dis­
pensáveis, mas não as equações matemáticas).

252
Aplicação dos resultados da crítica da linguagem

No caso da fisica, a crítica da linguagem revela que os modelos


dessa ciência constituem redes conceituais que, obedecendo a determi­
nado padrão lógico, procuram englobar todas as proposições verdadei­
ras de que precisamos para descrever o mundo. Embora não haja
necessidade no nível das relações entre os fatos, dada rede conceituai
da física é construída de tal maneira que, a partir de princípios gerais,
possam ser logicamente deduzidas todas as proposições que descre­
vam esses fatos. Desse modo, a rede nada diz sobre o mundo físico.
Mas a possibilidade de descrever o mundo por meio da rede mostra
alguma coisa a respeito do próprio mundo.
Quando passamos para o caso da ética, a crítica nos faz perceber
que proposições envolvendo valores em sentido absoluto não são pos­
síveis. O sentido do mundo, em termos de tais valores, deve estar fora
dele. Assim, embora a ação moral não seja capaz de alterar o mundo,
ela altera seus limites. É a alteração dos limites do mundo que produz
uma alteração do próprio mundo. A solução do enigma da vida está,
de algum modo, "fora" do espaço e do tempo.
As proposições da metafísica não se encontram em melhor situa­
ção. Elas pretendem descrever o que existe em sentido absoluto, ou
seja, a essência do mundo. Esta última, porém, é condição de possi­
bilidade dos fatos e de sua descrição e, embora seja pressuposta por
qualquer proposição, não pode ser descrita. Nesse sentido, o enigma
filosófico não existe porque não pode ser formulado lingüisticamente.
Assim, o ceticismo não é irrefutável, mas mero contra-senso. E, se
todas as questões científicas fossem resolvidas, as questões metafísicas
permaneceriam intocadas. Em virtude disso, o método correto em fi­
losofia consiste em mostrar que dada proposição metafísica não tem
o conteúdo descritivo que pretende ter e é, portanto, um contra-senso.
Nesse ponto, a clarificação conceituai é tal que as próprias proposi­
ções do Tractatus se revelam contra-sensos, devendo ser abandonadas.
Daí o apelo final ao silêncio. Podemos passar agora para a terceira
parte, em que analisaremos os procedimentos argumentativos utiliza­
dos por Wittgenstein para expressar a vivência filosófica cuja descri­
ção acabamos de completar.

253
3 ª PARTE

� . .

ecn1cas arg umentativas


tilizadas no TRACTATUS
, ,

TECNICAS HEURISTICAS
UTILIZADAS NA ELABORAÇÃO
DO TRACTATUS

1 - Observações preliminares

U
ma vez exposta a filosofia tractatiana, estamos agora em condi­
ções de passar para a terceira etapa de nosso método e avaliar as
principais técnicas argumentativas utilizadas por Wittgenstein para
expressar sua vivência pessoal. Para iniciar nossa análise argumentativa
do Tractatus, consideraremos as técnicas heurísticas utilizadas na ela­
boração dessa obra. Confonne discutido na Introdução, embora Plebe
e Emanuele considerem que a Retórica se caracterize fundamental­
mente pela inventividade, acreditamos que a arte de inventar concei­
tos, temas e soluções não é apanágio exclusivo da Retórica, mas tam­
bém da Filosofia. As técnicas heurísticas estudadas por Plebe e
Emanuele também se encontram nos textos filosóficos e, quanto a
isso, o Tractatus não constitui uma exceção. Ele também envolve a

257
Iniciação ao silêncio

utilização, consciente ou não, deliberada ou não, de técnicas de inven­


ção. Em nossa perspectiva, a utilização de tais técnicas pode ser inferida
a partir do resultado que a própria obra constitui: ela espelha as téc­
nicas inventivas que a originaram. Não se trata, portanto, de investi­
gar a insondável dimensão subjetiva da invenção wittgensteiniana,
mas de tentar recuperar, mediante as indicações fornecidas pelo texto
tractatiano, os procedimentos objetivos de invenção que produziram
tal texto. Para realizar essa tarefa, verificaremos, neste capítulo, em
que medida a elaboração da filosofia tractatiana envolve as técnicas de
invenção no sentido estabelecido pelos autores citados e por nós adaptado
na Introdução. Todavia, por razões de espaço, concentraremos nossa
exposição nas estratégias básicas de invenção, deixando menos desenvol­
vida a análise das táticas inventivas. Assim, em primeiro lugar, analisa­
remos a construção dessa filosofia do ponto de vista da técnica heurística
da livre variação de modelos. Em segundo, verificaremos como estâ
presente a técnica do antimodelo na elaboração da filosofia tractatiana.
Em terceiro, consideraremos pelo menos uma das táticas heurísticas
do Tractatus, a saber, a da produção de efeitos paradoxais. Em quarto
lugar, finalmente, formularemos algumas conclusões propiciadas por
nossa análise.

li - Estratégia heu rística fu n damental do Tractatus: a livre


variação de modelos

Dentre as técnicas heurísticas estudadas por Plebe e Emanuele,


destaca-se a que eles chamam de ' iteração de conceitos' e que, na
Introdução, rebatizamos de 'livre variação de modelo ' . Essa técnica
envolve a imitação de um modelo filosófico anteriormente dado, mas
efetuada de modo que o novo modelo obtido também possua origina­
lidade. Posto isto, cabe agora perguntar em que medida a livre varia­
ção de modelos estâ presente como técnica heurística no Tractatus ' .

1 . Convém lembrar que a palavra 'modelo' está sendo utilizada aqui no sentido
de Plebe e Emanuele, ou seja, de 'padrão conceituai ' . Trata-se de uma noção bastante
ampla e flexível. Ela não deve ser confundida com o ' modelo ' em sentido hertziano/
boltzmanniano, ou seja, uma 'construção mental' que é, ao mesmo tempo, logicamente
consistente e capaz de permitir previsões relativas aos fatos da natureza. O 'modelo'
.
258
Técnicas heurísticas utilizadas na elaboração do Tractatus

Ora, sabemos que o problema que atormentava Wittgenstein na


época da redação do Tractatus era, por um lado, dar uma resposta
satisfatória ao radical ceticismo lingüístico de Mauthner e, por outro,
encontrar uma conciliação entre suas convicções éticas - inspiradas
em Weininger, Schopenhauer e Tolstoi - e suas pesquisas lógicas -
inspiradas em Frege e Russell. A hipótese que guia nossa interpretação
do Tractatus é a de que Wittgenstein resolve o problema adotando
uma leitura transcendentalizante da crítica mauthneriana da lingua­
gem. Isso põe as questões lógicas extraídas de Frege e Russell numa
perspectiva completamente diferente e permite a almejada concilia­
ção2. É importante observar que o resultado obtido não constitui um
sincretismo amorfo, mas um sistema coerente e original.
Para explicar melhor, consideremos os diversos modelos envol­
vidos pelos autores citados. Isso nos permitirá perceber qual a impor­
tância relativa de cada modelo e sua articulação com os outros. Con­
sideremos inicialmente o modelo weiningeriano. Wittgenstein parece
ter efetivamente extraído dele a idéia do imperativo categórico, segun­
do o qual cada pessoa tem o dever moral interior de desenvolver ao
máximo o que hã de humano em si. Sabemos que, levada ao extremo,
essa perspectiva estabelece uma cruel opção: ou encontramos uma
forma de desenvolver nossa própria genialidade, ou damos cabo de
nossa vida, para não vivermos mergulhados na mais completa infeli­
cidade. Como tal, o imperativo weiningeriano introduz, contudo, ape­
nas uma condição formal à nossa existência, que funciona como fonte
de motivação para os nossos atos. Ele nos diz o que fazer, mas não
como fazê-lo.
Isso Wittgenstein vai encontrar no cristianismo de inspiração
tolstoiana. Conforme mencionado, essa doutrina se baseia na idéia de
que somos, ao mesmo tempo, carne e espírito; de que o espírito deve
vencer a carne; de que a vitória do espírito sobre a carne é uma vitória
da vontade de Deus sobre a vontade pessoal; que submeter-se à von­
tade de Deus significa atingir uma vida feliz de contemplação do

hertziano/boltzmanniano constitui um dos 'padrões conceituais' possíveis, mas nem


todo ' padrão conceituai' constitui um 'modelo' hertziano/boltzmanniano.
2. Mas gerou também a leitura equivocada do Tractatus por parte dos filósofos
de língua inglesa em geral, como será visto em outra nota, mais adiante.

259
Iniciação ao silêncio

presente atemporal; que pretender impor a vontade pessoal ao mundo


significa viver uma vida infeliz, prisioneira da mentira do fluxo tem­
poral. As declarações explícitas dos Diários secretos permitem inferir
que esta doutrina expressa o verdadeiro sentido da vida para o
Wittgenstein do Tractatus. Os demais modelos relativos a este domí­
nio, a saber, os modelos de William James, Weininger e Schopenhauer,
apresentam, todos eles, muitos pontos de convergência com este cris­
tianismo sui generis. Na verdade, é bastante plausível a hipótese de
que os diversos aspectos desses modelos somente são aceitos pelo
jovem Wittgenstein na medida em que concordem, confirmem ou
esclareçam este núcleo fundamental.
Ora, o cristianismo tolstoiano está expresso numa linguagem muito
simples, que do ponto de vista filosófico é, por vezes , muito ingênua.
A razão disso é que o Resumo do Evangelho foi escrito para ser
compreendido pelo camponês russo do século XIX. O jovem
Wittgenstein, de educação bem mais refinada, precisava de algo
intelectualmente mais sofisticado. Por isso, ele vai buscar na filosofia
de Schopenhauer, que também conhecia e admirava, um conjunto de
elementos que complementam e justificam filosoficamente o primitivo
núcleo tolstoiano. É digna de nota a harmonia entre esse núcleo e a
filosofia schopenhaueriana.
O aspecto mais importante dessa filosofia certamente é a pers­
pectiva transcendental . Como sabemos, Schopenhauer se coloca num
ponto de vista gnosiológico. Ele parte da representação, que é explicada
pela interação entre sujeito e objeto, ambos tomados como condições
transcendentais de possibilidade da própria representação. Wittgenstein,
por sua vez, mantém o viés transcendental, mas se coloca num ponto
de vista muito diferente e mais radical: ele agora busca, por meio da
consideração do conteúdo descritivo da proposição, as condições de
possibilidade da própria linguagem. Como tal , a proposição envolve
não apenas o signo proposicional falado ou escrito, mas também o
acompanhamento mental representado pelo "sentido" do signo
proposicional. Este último só pode ser determinado se houver, por um
lado, signos simples que designam objetos simples; se as articulações
de signos simples produzirem proposições atômicas que descrevem
fatos atômicos; se as proposições atômicas, logicamente combinadas,
gerarem proposições complexas que descrevem fatos complexos. Por

260
Técnicas heurísticas utilizadas na elaboração do Tractatus

sua vez, o sentido só pode ser determinado se for conferido ao signo


proposicional pelo sujeito transcendental, o único que pode fazer isso
justamente por ser um limite do mundo e, portanto, da linguagem, a
qual também é um fato do mundo. As proposições de nossa linguagem
possuem sentido determinado porque há uma substância do mundo e
porque há um sujeito transcendental que, por meio dos signos simples,
designa inequivocamente os componentes dessa substância e, ao
articulá-los em proposições atômicas dotadas de sentido, consegue as
bases para uma descrição científica do mundo. E isso tudo revela a
verdadeira estrutura do mundo: ele é o conjunto dos fatos, não das
coisas .
Desse modo, apesar de devidamente adaptada, a perspectiva trans­
cendental de tipo schopenhaueriano é conservada no Tractatus. Nesta
medida, a analogia schopenhaueriana do olho e do campo visual ilus­
tra muito bem a relação entre o sujeito transcendental e o mundo dos
fatos. Ela permite compreender que, por um lado, o sujeito contempla
o mundo e que, por outro, o sujeito não é contemplado por ninguém.
Sem sujeito não há mundo. Mesmo assim, o sujeito não está no mun­
do: ele é um limite do mundo. A analogia também permite compreen­
der que, assim como o campo visual é sem fim para o olho, o mundo
é sem fim para o sujeito. Outro aspecto a ser destacado aqui é o fato
de que Wittgenstein também identifica o sujeito transcendental com a
vontade. Embora o Tractatus não diga com clareza quanto da filosofia
schopenhaueriana é ali assumido, podemos pelo menos dizer que se
trata da vontade metafisicamente entendida, ou seja, da vontade como
limite do mundo, como condição de possibilidade dos fatos e, por isso
mesmo, livre das formas próprias aos fatos.
Com base nisso, Wittgenstein pode adaptar às suas necessidades
alguns dos principais aspectos da concepção schopenhaueriana ligados
à arte e à moral. Em O mundo como vontade e representação, o ético
e o estético constituem atributos do sujeito transcendental entendido
como vontade. Nesse sentido, eles definem domínios que não perten­
cem propriamente ao mundo, mas sim a seus limites. Wittgenstein, por
seu lado, enfatiza a dimensão transcendental da ética e da estética e as
identifica. A obra de arte é definida como a contemplação do objeto
do ponto de vista do eterno; a vida do homem bom, como a contem­
plação do mundo do ponto de vista do eterno (Wittgenstein 1 9 1 4-

26 1
Iniciação ao silêncio

- 1 9 1 6: 1 54) . Como atributos da vontade metafisica, ética e estética são


uma coisa só. Para que a vontade possa atingir a contemplação desin­
teressada, é necessário que ela mude sua atitude diante do mundo. A
vontade deve superar seus interesses individuais e encontrar o ilimi­
tado no mundo dos fatos. Essa mudança de atitude ocorre em nível
transcendental e a coloca diante da verdadeira realidade, que consiste
na contemplação do presente eterno, fora do tempo.
Até agora, portanto, podemos dizer que Wittgenstein encontra no
padrão weiningeriano o imperativo moral que lhe exige buscar uma
resposta de gênio à questão sobre o sentido da vida. A parte principal
dessa resposta está no evangelho tolstoiano, segundo o qual a bem­
-aventurança está na contemplação religiosa do presente eterno. Essa
resposta é, porém, muito simplificada. Faltam elementos capazes de
tomá-la filosoficamente mais atraente e consistente. Por meio da pers­
pectiva transcendental de tipo schopenhaueriano, Wittgenstein fixa não
apenas o tipo de sujeito que realiza a contemplação tolstoiana, mas
também as condições intelectuais sob as quais essa contemplação se
dá (o ponto de vista do eterno) . Isso significa que ele consegue rea­
lizar uma articulação consistente entre o imperativo categórico
weiningeriano, o cristianismo tolstoiano e a filosofia schopenhaueriana.
Essa articulação, cuja denominação mais adequada talvez seja ' cristia­
nismo transcendental ' , não foi apenas verbalizada nos Cadernos de
notas ou nos Diários secretos. Tudo indica que ela foi intensamente
vivida a partir da total falta de sentido do horroroso cotidiano da
guerra.
Isso nos coloca diante de outro grande problema de Wittgenstein
nessa época: articular o modelo obtido com as pesquisas lógicas, de
forma a superar o ceticismo mauthneriano. Em que medida os traba­
lhos de Frege e Russell, de Hertz e Boltzmann, que se orientam para
uma visão predominantemente científica do mundo, podem ser con­
ciliados com a visão ético-transcendental sem que mergulhemos no
ceticismo? Do ponto de vista heurístico, a solução wittgensteiniana
consiste em adotar uma variante do modelo mauthneriano: a filosofia
deve ser entendida como crítica da linguagem, mas não de uma perspec­
tiva pragmática, como ocorre com Mauthner, e sim de uma pers­
pectiva semântico-transcendental . Como bem observam Janik e
Toulmin, Mauthner coloca Wittgenstein numa situação de crise análo-

262
Técnicas heurísticas utilizadas na elaboração do Tracta t u s

ga à que Hume apresenta para Kant. Para Mauthner, não apenas o


sentido da vida deixa de ser objeto de conhecimento, mas também a
descrição científica do mundo (Janik e Toulmin 1 973: 1 65). Ora, o
modelo hertziano de ciência mostra claramente que a ciência é possí­
vel (ibidem: 1 80) . As pesquisas de Frege e Russell apontam no mesmo
sentido.
Assim, diferentemente de Mauthner, a crítica da linguagem rea­
lizada pelo Tractatus tenta estabelecer os limites da linguagem "por
dentro" (ibidem: 1 65). Isso significa que Wittgenstein assume o con­
teúdo descritivo da proposição como o elemento essencial da lingua­
gem e toma-o como um analysandum cujas condições de possibilida­
de devem ser determinadas. Tal procedimento, se não é exatamente
aquele que encontramos na Crítica da razão pura, possui, contudo,
profundas analogias com ele. Com efeito, diante das conclusões cé­
ticas de Hume, Kant parte da existência dos juízos sintéticos a priori
da ciência como um dado primeiro cujas condições de possibilidade
ele tenta determinar. É certo que o problema kantiano e sua solução
diferem do problema tractatiano e sua correspondente solução. Toda­
via, há um paralelismo inegável que permite o estabelecimento da
analogia acima. Dessa forma, parece-nos razoável afirmar que, para
realizar sua crítica da linguagem, Wittgenstein toma emprestado de
Schopenhauer o procedimento de análise que este tinha, por sua vez,
tomado emprestado de Kant. Como se pode notar, ao aceitar a propo­
sição como um dado primeiro, buscando em seguida estabelecer suas
condições de possibilidade, Wittgenstein está seguindo o padrão
transcendentalista que lhe foi sugerido pela leitura de Schopenhauer.
Dessa perspectiva, podemos descrever a situação dizendo que a filo­
sofia kantiana oferece um modelo articulado, do qual Schopenhauer
inicialmente reproduz um aspecto ao buscar as condições de pos­
sibilidade da representação, e do qual Wittgenstein, a seguir, re­
produz outro aspecto ao buscar as condições de possibilidade da
linguagem. Tanto Schopenhauer como Wittgenstein variam livre­
mente os aspectos restantes, mas, pelo fato de adotarem a perspectiva
de pesquisar as condições de possibilidade de seus respectivos
analysanda, ambos podem ser considerados filiados à filosofia de
tendência transcendental.
A perspectiva adotada dessa maneira permite a Wittgenstein manter
algumas doutrinas importantes de Mauthner, embora num viés muito

263
Iniciação ao silêncio

diferente. Dentre essas doutrinas, destacam-se três. Em primeiro lugar,


a idéia de que a linguagem deve ser transcendida para ser compreen­
dida (deve ser possível mostrar, por meio da "escada" do Tractatus,
tanto as limitações da linguagem como o que está além de sua capa­
cidade expressiva). Em segundo lugar, a afirmação contundente de
que os conceitos metafísicos são vazios. Mauthner procura mostrar
que eles possuem extensão máxima e compreensão mínima.
Wittgenstein mostra que são conceitos formais, expressando variáveis.
Tratá-los como conceitos propriamente ditos constitui um equívoco
que gera as pseudoproposições da filosofia. Em terceiro lugar, temos
a idéia de que, graças aos limites da linguagem revelados pela crítica,
estamos condenados ao silêncio quanto ao que é mais importante em
nossas vidas.
A crítica da linguagem tractatiana permite que Wittgenstein rea­
lize no Tractatus uma das mais importantes variações inovadoras do
modelo schopenhaueriano. Em O mundo como vontade e representa­
ção, há uma distinção entre o conhecimento abstrato, ou discursivo, e
o intuitivo. O primeiro corresponde à ciência e é inferior ao segundo,
que corresponde à arte e à moral. Mas a perspectiva meramente
gnosiológica faz com que Schopenhauer se veja na desconfortável
posição de ter de referir-se à superioridade da intuição mediante o
conhecimento discursivo, que lhe é inferior. Já no Tractatus, por meio
da crítica da linguagem, o domínio do conhecimento discursivo é
relegado à descrição científica do mundo (o 'como ' ), enquanto o
domínio do conhecimento- intuitivo, o mais importante, é relegado ao
silêncio (o 'quê' ) . Com isso, Wittgenstein estabelece um novo método
de análise que lhe permite reinterpretar alguns dos resultados de
Schopenhauer. Assim, este último i ocaliza a virtude, por exemplo, no
domínio da intuição ( 1 8 1 7: § 66) e estabelece que uma expressão
como 'dever absoluto ' constitui uma contradição (ibidem: § 53). Em
contrapartida, Wittgenstein localiza a virtude no limite do mundo e,
portanto, para além da possibilidade de descrição lingüística. Isso lhe
permite estabelecer que a expressão ' dever absoluto ' não é uma con­
tradição, mas um contra-senso 3 • É certo que esse procedimento dá um

3. Do ponto de vista argumentativo, isso significa, como jâ vimos no capítulo


10, o estabelecimento de um novo tipo de redução à incompatibilidade.

264
Técnicas heurísticas utilizadas na elaboração do Tractatus

estatuto desconfortável às proposições do Tractatus, que se tomam


contra-sensos. Mas a distinção entre o dizer e o mostrar e a superio­
ridade da ética e da estética sobre a ciência natural permitem que
Wittgenstein contorne o problema, expressando poeticamente o que
não pode ser descrito pela linguagem.
Quanto aos problemas lógicos de Frege e Russell , toma-se claro
que devem ser considerados pelo viés transcendental da crítica da
linguagem, cujo objetivo precípuo é duplo: justificar a possibilidade
da ciência de tipo hertziano e proteger o cerne místico-transcendental
das tentativas de descrição lingüística. É verdade que a tarefa de cla­
rificação proposta pela crítica tem de levar em conta a lógica da lin­
guagem. E isso certamente envolve a resolução de questões lógicas no
estilo desses dois autores. Mas os métodos lógicos constituem, acima
de tudo, ferramentas técnicas para levar a cabo a análise transcendental
da linguagem. A análise lógica passa a ser entendida como a explicitação
da forma profunda que constitui a condição de possibilidade da des­
crição científica do mundo. Seu objetivo principal não é mais cons­
truir uma linguagem logicamente perfeita, que seja capaz de descrever
o mundo sem ambigüidades, mas estabelecer as condições transcen­
dentais de possibilidade dessa descrição. Digno de nota é o fato de
que, na realização dessa tarefa, Wittgenstein parece ter aplicado
heuristicamente a teoria dos modelos de Boltzmann à estrutura da
proposição e do fato. Com efeito, a proposição complexa se reduz, por
análise, a uma articulação de proposições atômicas. E cada proposição
atômica corresponde a um ponto definido num sistema de coordena­
das, que são transcendentais e correspondem aos signos simples . Em
rigoroso paralelismo, o fato complexo se reduz a uma articulação de
fatos atômicos. Cada fato atômico corresponde também a um ponto
definido num sistema de coordenadas, as quais também são trans­
cendentais e correspondem aos objetos simples. A proposição atômica
pode descrever o fato atômico correspondente porque os sistemas de
coordenadas de uma e de outro são rigorosamente simétricos. Isso
leva à idéia de que há um sistema de coordenadas lógicas (espaço
lógico) que estrutura transcendentalmente tanto a linguagem como o
mundo. Nessa perspectiva, a Teoria Pictórica do Significado deveria
ser chamada mais corretamente de 'Teoria da Proposição como Mo­
delo do Fato ' . A inovação de Wittgenstein está no fato de que, ao

265
Iniciação ao sllêncio

colocar-se na perspectiva transcendental, ele absolutiza o modelo


boltzmanniano, que deixa de corresponder a uma simples conjetura
para tomar-se a explicação necessária da constituição da proposição
dotada de sentido. Isso nos põe em contato com a essência da lingua­
gem e do mundo, revelando que a descrição científica deste, embora
possível, não é o mais importante em nossas vidas. Portanto, tomar os
problemas tractatianos como meras questões de lógica em sentido
estrito, ou como questões predominantemente lógicas , equivale a con­
ferir-lhes um cunho cientificizante que Wittgenstein reprova e a fazer
uma leitura equivocada da obra.
Em síntese, do ponto de vista das estratégias heurísticas utiliza­
das, o modelo básico que alimenta a filosofia do Tractatus é o cristia­
nismo transcendental, que Wittgenstein obtém ao acoplar, ao modelo
de Tolstoi, o imperativo categórico de tipo weiningeriano e a perspec­
tiva transcendental de tipo schopenhaueriano. Wittgenstein chega a
este cristianismo por meio de uma variação do modelo mauthneriano,
que sugere a idéia de um ponto de partida radical para a filosofia (a
crítica da linguagem). Nesse sentido, a crítica transcendental da lin­
guagem, proposta pelo Tractatus, toma-se capaz de encontrar os ele­
mentos transcendentais que aprimoram filosoficamente a doutrina
tolstoiana. Por incrível que pareça, as técnicas lógicas ligadas a Frege
e Russell, que ocupam a maior parte do Tractatus, correspondem a um
modelo menos importante na economia da obra. Até mesmo a teoria
dos modelos de Boltzmann, ao ser aplicada à estrutura da proposição,
exerce um papel mais significativo na composição da obra. Parece
que as técnicas lógicas constituem um problema para Wittgenstein
porque elas o deixam na situação de ter de encontrar um meio de
articulá-las harmoniosamente com o modelo básico. Isso é feito quan­
do ele assume a perspectiva da crítica da linguagem em sentido
transcendental e utiliza essas técnicas como instrumentos dessa críti­
ca. Em virtude disso, as convicções ético-metafísicas fundamentais
(Weininger, Schopenhauer, Tolstoi), embora continuem importantes,
revelam-se opacas ao discurso científico de caráter matematizante,
cuja única alternativa é descrever o mundo. As convicções ético­
-metafísicas só podem ser inexprimivelmente mostradas pela lingua­
gem. Esse resultado constitui uma filosofia inteiramente harmônica e

266
Técnicas heurísticas utilizadas na elaboração do Tracta t u s

original, construída a partir da livre variação dos modelos considera­


dos. Estamos diante de um sistema rigorosamente coerente, mas que
não pode ser exposto sob a forma de doutrina. Essa realização de
Wittgenstein mostra que, do ponto de vista argumentativo, a técnica
heurística considerada não exige a adoção de um único modelo. Desde
que os modelos adotados sejam coerentes entre si, a técnica pode ser
utilizada, produzindo, inclusive, resultados mais interessantes.
Essas considerações trazem imediatamente à nossa mente uma
das passagens que Wittgenstein escreveu em Cultura e valor ( 1 939 -

-1 9 40) e que servem de mote para o presente livro:


"Minha originalidade (se esta é a palavra correta) é, acre­
dito, uma originalidade do solo, não da semente. (Talvez eu
não tenha nenhuma semente própria. ) Lance uma semente
em meu solo e ela crescerá diferentemente do que em qual­
quer outro solo " (Wittgenstein 1 984: 36) .
Em nossa opinião, ele está admitindo aqui, da maneira mais lúcida
possível, não que cria, mas que modifica criativamente. Em termos da
análise argumentativa que estamos fazendo, podemos afirmar que
Wittgenstein reconhece, na passagem acima, com outras palavras, que
a técnica heurística da livre variação de modelos constitui a fonte
básica de sua originalidade. Pelo menos no caso do Tractatus, este
fato nos parece inquestionável.

Ili - Estratégia heu rística complementa r do Tractatus:


o antimodelo

Um dos mais importantes corolários da adoção da técnica de


livre variação de modelos no Tractatus está em sua oposição à argu­
mentação de tipo socrático. É verdade que poderíamos apresentar pelo
menos um ponto em comum entre a argumentação tractatiana e a
socrática. Por exemplo, em ambas os argumentos devem ser organiza­
dos com v istas à consecução de uma finalidade demonstrativa única.
Mas as técnicas e resultados de cada uma são radicalmente diferentes,
o que as coloca na categoria de processos argumentativos opostos.
Vejamos como.

267
Iniciação ao silêncio

Inspirados por Nietzsche, podemos dizer que a argumentação


filosófica tradicional foi introduzida no pensamento ocidental por
Sócrates. Este enfatizava o diálogo vivo entre mestre e discípulo e, em
coerência com isso, nada escreveu. Foi seu discípulo Platão que, embora
concordasse em princípio com o mestre, cedeu ao irresistível impulso
gerado por seus talentos literários e, desrespeitando os ensinamentos
recebidos, registrou, em diálogos imortais, a técnica argumentativa
socrática. Aristóteles, discípulo de Platão, deu um passo à frente e, ao
substituir a forma de diálogo pelo discurso expositivo, institucionalizou
a técnica. Apesar dessas diferenças, os três filósofos citados concor­
dam que a argumentação correta deve ser estruturada de tal forma que
o assentimento do interlocutor seja obtido mediante uma seqüência de
provas racionais. O discurso argumentativo é dotado de sentido unívoco
e o resultado obtido constitui uma doutrina (teoria) que pode ser ex­
posta de modo sistemático.
Em oposição a isso, na argumentação tractatiana, o assentimento
do interlocutor não pode ser obtido por meio de uma seqüência de
provas racionais. A razão disso é que o discurso racional está limitado
à descrição dos fatos do mundo, e isso constitui uma parte muito
reduzida do universo de nossa experiência. Assim, o "discurso" ar­
gumentativo do Tractatus não possui sentido unívoco e seu resultado
não é uma teoria que possa ser exposta de modo sistemático. Na obra
wittgensteiniana, obtém-se o assentimento por meio de uma espécie de
ritual iniciático. O discurso argumentativo é estruturado de maneira
ambígua (uso de aforismas que tratam de problemas lógicos num
espírito eticizante). Por um lado, como discurso racional capaz de
provar suas conclusões , é inteiramente desprov ido de sentido e
autofágico. Por outro, como texto literário capaz de expressar a frus­
tração moral resultante do chocar-se contra os limites da linguagem,
ele abre uma passagem para a lição lógico-ética da clarificação que se
faz em silêncio. Esta última constitui um verdadeiro renascimento,
uma revolução moral, e mostra o que é realmente importante em nossa
vida. O surpreendente resultado obtido pelo processo argumentativo é
transportar o leitor para um "sistema" que possui atributos aparente­
mente opostos: ele é articulado com todo rigor e coerência, mas não
pode ser exposto sob a forma de uma doutrina. Na verdade, isso des­
loca o leitor para outro plano, que é superior ao dos meros fatos do
mundo.

268
Técnicas heurísticas utilizadas na elaboração do Tracta t u s

Assim, ao escrever o Tractatus com o objetivo de induzir o leitor


à clarificação conceituai silenciosa, Wittgenstein tem de optar por uma
estratégia argumentativa que o coloca em franca oposição à estratégia
de tipo socrático. Podemos então dizer que, ao adotar esse procedi­
mento, ele está utilizando, intencionalmente ou não, a técnica heurística
do antimodelo, típica da escola de Górgias. Essa técnica consiste em
postar-se diante de um sistema, um autor ou uma tendência que se
considera inaceitável, na expectativa de que isso produza os pensa­
mentos antitéticos desejados (Plebe e Emanuele 1 992: 36). A diferença
entre essa técnica e a da livre variação de modelos é que, na segunda,
um importante aspecto do modelo é adotado e adaptado às novas
necessidades argumentativas, enquanto na primeira o aspecto impor­
tante do modelo é criticado e rejeitado.
Se essa interpretação está correta, a estratégia argumentativa do
Tractatus, conscientemente ou não, toma a socrática como antimodelo.
Nessa perspectiva, ela apresenta pontos de contato com a estratégia
nietzschiana de argumentação em A origem da tragédia4• Na verdade,
ambas remontam a Schopenhauer, a fonte originária dessa concepção.
Esse é um fato pouco percebido, mas que merece maior desenvolvi­
mento se estivermos interessados em melhor compreender os cami­
nhos da argumentação em nosso século.
Já sabemos que, em Schopenhauer, o mundo é representação.
Esta compreende, como elementos necessários e inseparáveis, o objeto
e o sujeito cognoscente. Esses elementos são, contudo, manifestações
de uma realidade mais profunda: a vontade. Ela é a força interior que
estrutura ao mesmo tempo o corpo do indivíduo e o sujeito do conhe­
cimento. O sujeito do conhecimento é idêntico a seu corpo individual .
O corpo, por um lado, é uma representação, estando submetido às
intuições do espaço e do tempo e à causalidade. Por sua vez, o corpo
é uma manifestação da vontade, que se acha fora do espaço e do
tempo e livre da causalidade. Nesse aspecto, ela não só está livre da
pluralidade, como também não possui qualquer fundamento. A oposi­
ção entre vontade e representação leva Schopenhauer a distinguir dois
tipos de conhecimento: o intuitivo, relativo à vontade, e o abstrato,

4. Ver, a este respeito, nosso artigo sobre Nietzsche já citado (Margutti Pinto
1 994).

269
Iniciação ao silêncio

relativo à representação. O primeiro é superior e mais importante que


o segundo. O primeiro é o conhecimento do gênio (artista ou filósofo);
o segundo, do homem vulgar (cientista) . Assim, o homem vulgar cal­
cula, enquanto o gênio contempla.
Com base nisso, Schopenhauer estabelece duas dimensões do
saber que são radicalmente distintas. A ciência, que interfere no mun­
do, e a filosofia, que contempla sua essência. A passagem de um nível
de conhecimento para o outro só é possível mediante uma transforma­
ção excepcional no sujeito. Ele deve ser capaz de superar os interesses
individuais para atingir a contemplação teórica. Nesse sentido, o co­
nhecimento racional de tipo socrático, ou seja, aquele submetido ao
princípio de razão suficiente, só tem validade na vida prática. O co­
nhecimento superior, intuitivo, é de outro tipo, exigindo uma revolu­
ção moral para ser atingido. Além disso, ele não será nunca descrito
de maneira adequada em termos de conhecimento discursivo. Ele é
mais bem expresso pela conduta daqueles que experimentaram o êx­
tase místico.
Como se pode notar, a técnica do antimodelo, com respeito à
argumentação socrática, já está prenunciada em Schopenhauer. Em O
mundo como vontade e representação, coexistem dois tipos de conhe­
cimento, sendo que um deles, o intuitivo, apresenta-se resistente ao
modo socrático de argumentação. É certo que o mundo é representa­
ção e que esta deve ser tratada socraticamente. Mas também é certo
que o mundo é vontade, a qual não pode ser tratada adequadamente
por meios socráticos. Devemos conceder que Schopenhauer não ape­
nas utiliza procedimentos socráticos em sua obra, mas também quali­
fica o conhecimento intuitivo como "platônico". E isso poderia induzir
alguém a pensar que essa forma de conhecimento, no fim das contas,
é também compatível com o socratismo. Mas convém lembrar que o
grande adversário de Schopenhauer é Hegel, com toda a sua racio­
n al idade discurs iva. Parece que, ao adotar o adjetivo acima,
Schopenhauer está pensando principalmente no aspecto não-discursivo
da contemplação platônica das Idéias. A penosa caminhada dialética,
em que a argumentação socrática desempenha um papel fundamental,
não está sendo considerada aqui. Sabemos que Schopenhauer chega
mesmo a afirmar que o conhecimento discursivo é inadequado para
exprimir a intuição. Se levarmos a distinção entre essas duas formas

2 70
Técnicas heurísticas utilizadas na elaboração do Tra cta t u s

de conhecimento até suas últimas conseqüências, verificaremos que, já


em Schopenhauer, o discurso parece ser pouco útil para atingir a
contemplação, uma vez que esta exige, mais do que a apresentação de
razões, uma mudança de atitude do sujeito. A contemplação sub specie
aetemi não pode ser demonstrada, mas experimentada. Além disso, con­
vém não esquecer que a experiência filosófica fundamental da negação da
vontade é inexprimível. Isso, por si só, basta para colocar Schopenhauer
como aquele que retoma criativamente, em pleno século XIX, a técnica
heurística do antimodelo com respeito à argumentação socrática. E seus
herdeiros diretos são Nietzsche e Wittgenstein, que obtêm conseqüências
mais inesperadas e radicais a partir da mesma técnica.
Em estudo anterior, proc uramos mostrar que Nietzsche desenvol­
ve um tipo de argumentação ' trágica' que toma a socrática como
antimodelo (Margutti Pinto 1 994) . Nessa perspectiva, A origem da
tragédia se revela uma obra de natureza ambígua (filologia? retórica?
filosofia?) e de estilo indefinido (ciência? literatura?) (ibidem: 60-6 1 ) .
A palavra ' argumentar ' não mais significa 'fornecer razões ' , mas sim
' expressar impulsos vitais ' (ibidem: 62) . Desse modo, em contraste
com a forma de argumentação socrática, em que prevalece o elemento
racional do ' dar razões ' , Nietzsche introduz uma forma original de
argumentação, em que prevalece o aspecto 'trágico ' da ' expressão de
tendências vitais profundas ' (ibidem: 62-63). Em virtude disso, as crí­
ticas geralmente feitas a essa obra juvenil de Nietzsche são todas
equivocadas, porque se baseiam em critérios ligados ao socratismo.
Uma dessas críticas diz que os objetivos de Nietzsche eram excessi­
vamente ambiciosos, gerando um livro desbalanceado (ibidem: 64-
-65). Do ponto de vista da argumentação trágica, contudo, verifica-se
que a obra é intencionalmente desbalanceada e foi composta de ma­
neira a expressar o mais vividamente possível o sentido trágico de
nossa existência (ibidem: 66-67). Mais ainda: ela tem ligação direta
com a própria vida de Nietzsche. Ao publicar um texto não-científico
sobre o tema de sua especialidade, ele compromete irremediavelmente
sua carreira profissional . Mas, ao mesmo tempo, toma-se um herói
trágico como Prometeu, que teve a ousadia de roubar o fogo divino e
foi condenado pelos deuses (ibidem: 68). Como se pode notar, Nietzsche
executa, com grande desenvoltura, a crítica do socratismo que se
encontrava apenas prenunciada em Schopenhauer.

271
Iniciação ao silêncio

O Tractatus faz coisa semelhante. Ao adotar e adaptar o padrão


schopenhaueriano às suas necessidades, Wittgenstein é levado a assu­
mir uma posição contrária à forma de argumentação socrática. Embora
isso não seja explicitamente afirmado na obra, toda a argumentação
tractatiana se organiza a partir de uma atitude de oposição ao discurso
de tipo socrático. Em virtude disso, muitas das características argu­
mentativas de A origem da tragédia se repetem no Tractatus. Ele
constitui também uma obra de natureza ambígua (filosófica? literária?
iniciática? todas?) . Com efeito, embora constitua um conjunto
autodeclarado de contra-sensos, a obra possui, inegavelmente, uma
dimensão filosófica. Ela tem também uma dimensão literária, uma vez
que expressa não apenas a frustração do chocar-se contra os limites da
linguagem, mas também a redenção pelo silêncio. A essas duas dimen­
sões, acrescenta-se a iniciática: ao expressar a frustração produzida
pela renúncia em dizer o que não pode ser dito, que corresponde à
experiência de morte, a obra abre as portas ao mostrar que corresponde
à experiência de renascer. Essa ambigüidade introduz mais um aspecto
não-socrático na obra: é muito difícil, se não impossível, reconstituir
academicamente os diversos esquemas argumentativos que ela utiliza.
Além disso, o uso de aforismas para tratar de questões lógicas contri­
bui para tornar seu estilo indefinido. A palavra 'argumentar ' não deve
ser entendida aqui como 'fornecer razões ' , mas como 'clarificar' . Nesse
aspecto, a posição autofágica da crítica da linguagem reduz toda a
apresentação de razões a uma apresentação de contra-sensos. A crítica
da linguagem é ilógica e, portanto, imoral . Aquele que continuar preso
a ela será um homem infeliz. É preciso uma revolução interior, um
verdadeiro renascer, para que o drama lógico-moral da crítica da lin­
guagem seja superado. Essa revolução constitui o processo de clarifi­
cação, que nada mais é que a aceitação dos limites da linguagem e a
renúncia ao desejo de dizer o que não pode ser dito, com a conseqüen­
te contemplação inexprimível da verdadeira realidade. Aquele que
transcender a crítica da linguagem tornar-se-á um homem feliz. A
estratégia argumentativa não-socrática do Tractatus é criar um discur­
so que consiste na tentativa fracassada de dizer algo que não pode ser
dito e acaba por produzir uma clarificação lógico-ética inteiramente
silenciosa. Isso não significa, todavia, que a argumentação socrática
não exista. Os trabalhos de Frege, Russell, Hertz e Boltzmann o com-

2 72
Técnicas heurísticas utilizadas na elaboração do ltactatus

provam fartamente. O problema é que ela só tem serventia para des­


crever os fatos do mundo, deixando irremediavelmente de lado o que
é realmente importante:
"Sentimos que, mesmo que todas as questões científicas pos­
síveis tenham obtido resposta, nossos problemas de vida
não terão sido sequer tocados. É certo que não restará,
nesse caso, mais nenhuma questão; e a resposta é precisa­
mente essa" (Wittgenstein 1 922: 6.52; grifo nosso).
Essa constatação dramática mostra o resultado da aplicação da
técnica do antimodelo à argumentação socrática. Embora exista, ela é
de caráter discursivo e está submetida aos mesmos limites que a lin­
guagem: meramente descreve os fatos do mundo. A contemplação da
essência, o ético, o místico, todos estão mais além e, para ser atingi­
dos, dependem da superação da própria linguagem. A argumentação
socrática nos prende ao mundo, Além disso, quando exercida de maneira
radical (crítica da linguagem), ela se toma contra-senso. A solução
está na contemplação beatífica, que só pode ser obtida pela superação
do discurso de tipo socrático.
Assim, de modo análogo a Nietzsche, Wittgenstein introduz uma
forma original de argumentação, na qual prevalece o caráter ético: já
que as "proposições" filosóficas são contra-sensos, nada se demonstra;
tudo se obtém pela ação moral . Em virtude disso, algumas das críticas
feitas ao Tractatus são equivocadas, porque baseiam-se em critérios
inerentes ao socratismo. O melhor exemplo é a crítica de Russell, que
enfatiza a autofagia da obra ao acusar Wittgenstein de dar um jeito de
dizer muitas coisas sobre o que não pode ser dito. Socraticamente
falando, Russell está certo. A crítica da linguagem constitui uma ati­
tude suicida e, portanto, ilógica. Do ponto de vista da argumentação
ética, contudo, poderíamos dizer que o Tractatus é intencionalmente
autofágico e que foi composto de maneira a expressar o mais vivida­
mente possível a frustração e a infelicidade decorrentes do desejo
insano de ultrapassar os limites da linguagem . Esta é a melhor maneira
de auxiliar o leitor a transcender tais limites e deparar com aquilo que
se mostra claramente, embora não possa ser dito. A descoberta do
sentido da vida, que se mostra inexprimivelmente na linguagem e no
mundo, constitui a própria felicidade. Além disso, de maneira análoga

2 73
Iniciação ao silêncio

ao que acontece com Nietzsche, o Tractatus tem ligação direta com a


própria vida de Wittgenstein. Assim corno o jovem soldado austríaco
foi capaz de experimentar a contemplação beatífica de Deus mediante
a opção suicida pelo campo de batalha, sua obra tenta abrir urna pas­
sagem para esta mesma contemplação por meio da empreitada
autofágica da crítica da linguagem. A obra expressa o renascimento
moral efetivamente v ivido por seu autor. Corno se pode notar,
Wittgenstein, à sua maneira, mas lado a lado com Nietzsche, leva às
últimas conseqüências a crítica da argumentação socrática que se
encontrava apenas prenunciada em Schopenhauer'i.

IV - Táticas heu rística s utiliza das no Tractatus

As estratégias inventivas acima fazem com que o Tractatus adote


procedimentos heurísticos específicos para implementá-las. Conforme
indicado em nossa Introdução, as principais táticas inventivas são a do

5. Do ponto de vista do contexto da difusão da obra, que não consideramos em


nossa análise, esta é talvez a principal razão por que a comunidade filosófica do
século XX entendeu tão mal o Tractatus. No Prefácio dessa obra, Wittgenstein arrisca
a hipótese de que ela talvez seja entendida apenas por aqueles que já tenham pensado
por si próprios em certos tipos de problemas . Parece-nos que ele se refere principal­
mente aos autores que leu na época, como Frege, Russell, Hertz, Boltzmann, James,
Tolstoi, Schopenhauer, Weininger e Mauthner. Contudo, nenhum desses autores reunia
as condições para entender a complexa filosofia tractatiana. Frege e Russell possuíam
o cabedal lógico necessário, mas faltava-lhes a perspectiva transcendental da crítica
da linguagem e a aceitação do cerne místico. Hertz e Boltzmann viam a ciência de
uma perspectiva transcendentalizante de tipo kantiano, mas desconheciam a parte
lógica do Tractatus, e seus trabalhos tinham muito pouco a ver com o cerne místico.
James e Tolstoi enfatizavam a experiência mística, mas careciam do aparato lógico e
do viés transcendental. Schopenhauer e Weininger convergiam não só na experiência
mística, mas também no transcendentalismo; o que lhes faltava era o cabedal da
lógica fregiana. Quanto a Mauthner, seu ceticismo lingüístico de caráter radical era
compatível apenas com a experiência mística, deixando de lado todos os demais
aspectos necessários à compreensão do texto wittgensteiniano. As dificuldades de
Frege e Russell para entender este último são conhecidas. Outros leitores, como
Moore, Ostwald e von Ficker, não ficaram em melhor situação. Tiveram um pouco
mais de sorte aqueles que puderam contar com explicações detalhadas do próprio
Wittgenstein, como Engelmann e Ramsey. De qualquer maneira, esperamos ter dei­
xado claro que uma interpretação do Tractatus que não leve em conta todos os fatores
que indicamos será extremamente difícil, se não impossível.

2 74
Técnicas heurísticas utilizadas na elaboração do Tracta t u s

paradoxo e a das definições retóricas. No caso do Tractatus, podemos


concentrar nossa atenção na primeira delas, que parece condensar todo
o espírito do texto.
Assim, podemos dizer que, do ponto de vista argumentativo, a
obra do jovem Wittgenstein apresenta uma série de teses que vão
claramente contra a opinião dominante de sua época. Já sabemos que
o procedimento de criar tais teses corresponde à técnica heurística que
Plebe e Emanuele denominam 'paradoxo ' . Na opinião desses autores,
essa técnica
"pressupõe uma opinião comum, mesmo que ainda não esteja
elaborada n.uma teoria verossímil, e propõe inventar algo
que vá contra essa opinião ( 'dóxa' ) comum, sendo por isso
uma 'contra-opinião' , um 'paradóxon"' (Plebe e Emanuele
1 992: 43).
Nesse sentido, a técnica do paradoxo extrai argumentos novos a
partir da luta contra hábitos antigos e, por vezes, contra a própria
noção de coerência. Essa luta produz, como resultado, os chamados
admirabilia (conceitos ou teses surpreendentes) (ibidem: 44). Em nossa
avaliação, a técnica do paradoxo não pode ser considerada, a rigor,
uma estratégia geral de invenção, como a variação de modelo ou o
antimodelo. Ela é mais bem caracterizada como tática de invenção a
ser utilizada para implementar estratégias criativas mais amplas .
Nessa perspectiva, vemos que o Tractatus constitui um verdadei­
ro manifesto contra certos hábitos filosóficos tradicionais . Em que
pese o desconforto produzido pela sensação de incoerência, a simples
realização de uma crítica da linguagem que se auto-refuta ao final já
estabelece uma tese surpreendente.
Essas observações poderiam sugerir que Wittgenstein, quando da
fermentação da filosofia tractatiana, estava deliberadamente em busca
de admirabilia. No afã de originalidade que supostamente estaria mo­
tivando sua pesquisa, ele teria cunhado uma grande quantidade de
conceitos pela via do paradoxo.
Essa idéia, contudo, parece-nos equivocada. Ela parte do pressu­
posto de que Wittgenstein estaria tentando ser original a qualquer
custo, buscando intencionalmente as teses surpreendentes. Isso contra-

2 75
Iniciação ao silêncio

diz sua honestidade intelectual, seu apego pela verdade, tão freqüen­
temente citado por aqueles que o conheceram pessoalmente. Para
explicar o que aconteceu, sugerimos a seguinte hipótese. Ao combinar
de maneira original e coerente os modelos anteriormente discutidos,
Wittgenstein obtém uma série de resultados paradoxais, que já estão,
de alguma forma, contidos na nova combinação.
Dentre as principais teses surpreendentes do Tractatus, destacam­
-se as relativas à filosofia, ao mundo, à linguagem, à lógica e à ética.
Embora correndo o risco de sermos repetitivos, convém lembrar aqui
algumas dessas teses, com o objetivo de caracterizar o uso da tática do
paradoxo no Tractatus. De qualquer modo, o importante não é a re­
petição de teses já consideradas em outros lugares, mas a releitura
delas do ponto de vista do efeito paradoxal produzido.
Assim, a Filosofia é definida como 'crítica da linguagem ' ( 1 922:
4.003 1 ) , mas não constitui um 'corpo de doutrina' (ibidem: 4. 1 1 2). Ela
é, no máximo, uma atividade de ' clarificação lógica dos pensamentos'
(ibidem). Seu resultado não é constituído de proposições que possam
ser articuladas em uma teoria. Na verdade, tal clarificação mostra que
a maior parte dos problemas mais profundos da filosofia tradicional
não são de fato problemas de modo algum (ibidem: 4.003). As formu­
lações mais compactas e enfáticas dessa tese paradoxal estão em 6.5 ,
na qual Wittgenstein diz que o enigma não existe, e em 6.52 1 , em que
ele conclui que a solução do problema da vida está no desaparecimen­
to desse problema. Ao seguir essa linha de raciocínio, ele obtém o
resultado mais chocante do Tractatus, no que diz respeito à noção de
coerência argumentativa. Ele é levado a concluir que as "proposições"
da obra, ao descreverem as condições de possibilidade de nossa lin­
guagem, não podem ser consideradas autênticas: elas envolvem uma
estranha forma de circularidade, pois pretendem descrever as condi­
ções de possibilidade de todo descrever. Desrespeitam a lógica da
linguagem e constituem contra-sensos. Mesmo assim, têm alguma uti­
lidade no processo de clarificação, pois temos de vencer tais "propo­
sições" para ver o mundo de maneira correta.
O mundo é definido como a totalidade dos fatos e não das coisas
(ibidem: 1 . 1 ) . Essa tese se choca com mais de dois mil anos de tra­
dição filosófica. O mundo tem sido entendido, desde Tales de Mileto,

2 76
Técnicas heurísticas utilizadas na elaboração do Tractatus

como o conjunto de todas as coisas. Cada período da história da filo­


sofia acentua determinado aspecto desse conjunto. Os gregos, por
exemplo, enfatizam a ordem do conjunto, entendendo o mundo como
'kosmos ' ; os medievais, por sua vez, enfatizam a contingência do
conjunto, entendendo o mundo como 'criação divina' ; e assim por
diante. Em todos os casos, porém, permanece constante a idéia de que
o mundo é o conjunto de todas as coisas. Wittgenstein revolve esta
tradição ao afirmar que o mundo é, primordialmente, um conjunto de
fatos. Isso significa que a análise do mundo se resolve em fatos, não
em coisas. Nessa perspectiva, tomam-se filosoficamente relevantes
não as "coisas" da filosofia tradicional, mas os fatos atômicos, cujos
agregados produzem os fatos complexos que correspondem a essas
"coisas". É certo que Wittgenstein postula os chamados 'objetos sim­
ples ' , que constituem a ' substância do mundo ' (ibidem: 2.02 1 ). Mas
tais objetos não existem no nível dos fatos. Como já foi dito, eles
subsistem no nível das condições transcendentais de possibilidade dos
próprios fatos. Eles estão nos limites do mundo e, portanto, fora dele.
Em paralelismo com a concepção de mundo, a linguagem é de­
finida como a totalidade das proposições (ibidem: 4.00 1 ). Todavia, ela
é caracterizada de tal maneira que é humanamente impossível apreen­
der imediatamente sua lógica subjacente (ibidem: 4002). Essa dificul­
dade produz a incompreensão da lógica da linguagem e gera os pro­
blemas filosóficos. Quando corretamente compreendida, a linguagem
se revela constituída de proposições que são funções de valores de
verdade de proposições atômicas. Em outras palavras, as proposições
de nossa linguagem, pela análise, se reduzem a um conjunto de ope­
rações lógicas realizadas sobre proposições atômicas . Se isso é verda­
de, a linguagem só pode fazer aquilo que a proposição faz: descrever
fatos.
A lógica tem um status não menos surpreendente. Ela trata da­
quilo que toma possível para nós inventarmos formas (ibidem: 5 .555).
Ela tem a ver com tudo o que está sujeito à lei (ibidem: 6.3); ela
consiste na descrição da forma proposicional mais geral (ibidem: 5 .472).
Quanto às constantes lógicas, elas nada representam: não há "objetos
lógicos" que constituam seu significado. A idéia fundamental do
Tractatus é que a lógica dos fatos não se deixa representar (ibidem:
4.03 1 2) . Em outras palavras, ela não pode ser descrita. Simplesmente

277
Iniciação ao silêncio

se mostra. Assim, "todas as proposições de lógica dizem o mesmo, a


saber, nada" (ibidem: 5 .43) . Uma proposição contingente de nossa
linguagem diz algo porque marca um único lugar no espaço lógico:
ela descreve dado fato e pode ser verdadeira ou falsa. As tautologias
nada dizem porque abarcam todo o espaço lógico e são, por isso,
sempre verdadeiras; as contradições também nada dizem porque ex­
cluem todo o espaço lógico, sendo, portanto, sempre falsas. Nessa
perspectiva, a lógica é anterior a toda experiência, pois esta última
pergunta pelo 'como ' , enquanto a primeira pergunta pelo 'quê ' ; a
lógica nos diz que algo é, enquanto a experiência nos diz que algo é
assim (5 .552). A lógica expressa a essência da linguagem e do mundo,
o que a faz transcendental.
Embora o texto do Tractatus verse predominantemente sobre
problemas lógicos, a ética corresponde à parte mais importante da
obra, que está apenas sugerida ao final. A ética lida com valores e
pertence à dimensão do sujeito. Este último, porém, constitui um limi­
te do mundo e não pode ser encontrado no nível dos fatos. Isso des­
loca a ética para a região dos limites do mundo, com as seguintes
conseqüências inesperadas. Em primeiro lugar, os valores estão fora
do mundo dos fatos (ibidem: 6.4 1 ) . Se os valores estivessem no mundo,
seriam fatos e não teriam qualquer valor. Portanto, as proposições que
descrevem fatos têm todas o mesmo valor, a saber, nenhum (ibidem:
6.4) . Em segundo, não pode haver proposições da ética (ibidem: 6.42) .
Embora exista uma dimensão ética muito importante em nossas vidas,
ela não se deixa exprimir pela linguagem, que só pode descrever fatos.
Pertencendo à dimensão do sujeito, que é transcendental, a ética tam­
bém é transcendental. Em terceiro, estando fora do mundo, a volição
ética é incapaz de alterar os fatos. Ela só pode alterar os limites do
mundo (ibidem: 6.43). Em quarto, a alteração dos limites do mundo
se obtém a partir de uma alteração na maneira de o sujeito trans­
cendental ver o mundo (ibidem: 6.44). O sujeito infeliz é aquele que
vive mergulhado nos fatos, tentando a tarefa impossível de modificá­
-los. O sujeito feliz é o que superou o desejo de modificar os fatos e
conseguiu a contemplação do mundo sub specie aetemi. Essa contem­
plação constitui o sentimento místico (ibidem: 6.45), que é comum à
ética e à estética fazendo de ambas uma coisa só (ibidem: 6.42 1 ) . Por
meio da estética, também é possível alterar os limites do mundo.

2 78
Técnicas heurísticas utilizadas na elaboração do Tracta t u s

Nesse ponto, alguém poderia perguntar: qual aspecto da filosofia


tractatiana seria o principal responsável por tantos efeitos paradoxais?
Acreditamos poder sugerir que esse aspecto se encontra no próprio
espírito paradoxal em que tal filosofia foi elaborada. Wittgenstein efetua
a crítica da linguagem num sentido tão radical que se torna paradoxal.
A tentativa de descrever, pela linguagem, as condições de possibilida­
de da própria linguagem revela-se um fracasso no âmbito do dizer (as
proposições tractatianas são contra-sensos), mas aponta decididamente
para a possibilidade do sucesso no âmbito do mostrar (a linguagem
pode pelo menos descrever o mundo; o místico existe e é inexprimível).
Desse modo, a tal ponto de partida paradoxal corresponde o seguinte
resultado, também paradoxal: o sentido da vida existe, mas numa
dimensão que não pode ser alcançada por nossa linguagem, que só é
capaz de descrever os fatos.

V - Observações fi nais

Se nossa interpretação está correta, a estratégia heurística básica


utilizada por Wittgenstein no Tractatus é a da livre variação de mo­
delos. Seu uso é compatível com a diversidade dos modelos envolvi­
dos, já que produz, como resultado final, um modelo novo e original
que articula harmoniosamente os anteriores. A base do novo modelo
consiste numa combinação feliz do imperativo moral weiningeriano
com a crítica mauthneriana da linguagem e com o cristianismo tols­
toiano. Este é o que dá sentido à vida. Ao complementá-lo com o
imperativo moral weiningeriano e a perspectiva transcendental
schopenhaueriana, Wittgenstein obtém um modelo original e consis­
tente, que denominamos 'cristianismo transcendental ' . Esse modelo
envolve o dever moral de cada pessoa de tomar a atitude correta diante
do mundo e desenvolver todo seu potencial humano. Isso, por sua vez,
implica a necessidade de adotar um fio condutor de caráter ético e
moral que seja capaz de indicar qual a atitude mais autêntica a ser
tomada pela pessoa humana. Aqui, entra em cena o modelo de
Mauthner, uma vez que esse fio condutor é dado pela variação do
modelo mauthneriano da crítica da linguagem. Adotando a perspectiva
transcendental, Wittgenstein altera radicalmente o modelo de seu pre­
decessor e introduz mais um componente harmônico em seu modelo
básico.

2 79
Iniciação ao silêncio

Dignas de nota são também a adaptação e a inclusão do modelo


boltzmanniano de teoria científica no modelo tractatiano. Tudo indica
que a noção de sistema físico como descritível por meio de um espaço
com um número indeterminado de dimensões constitui a base da con­
cepção wittgensteiniana da proposição como modelo do fato e do
espaço lógico como estruturante da realidade.
De qualquer modo, é importante observar que a totalidade da
filosofia tractatiana surge a partir do fio condutor da crítica da lingua­
gem. Embora suicida, ela clarifica os conceitos, permite a livre varia­
ção e combinação dos modelos citados, gerando inclusive os efeitos
paradoxais mencionados e criando um autêntico antimodelo com res­
peito à argumentação socrática. Assim , podemos dizer que toda a
heurística tractatiana decorre da adoção da perspectiva da crítica da
linguagem em sentido transcendental, que acaba produzindo uma obra
argumentativamente sui generis.

280
A LINHA GERA L DE
ARGUMENTAÇÃO DO TRACTATUS

1 - Observações preliminares

N Tractatus e algumas das principais táticas que ela determina.


este capítulo, estudaremos a estratégia argumentativa geral do

Com esse objetivo, tentaremos, primeiramente, caracterizar não só


essa estratégia, mas também seus principais reflexos sobre o estilo da
obra. Em segundo lugar, consideraremos as diversas táticas utilizadas
por Wittgenstein para implementar sua estratégia geral . Em terceiro,
analisaremos o sistema de numeração dos aforismas. Em quarto lugar,
estudaremos a divisão do Tractatus em partes. Em quinto, analisare­
mos dois aspectos importantes gerados pelo estilo hipotático do
Tractatus, a saber, a inversão da ordem das razões e aquilo que deno­
minamos ' leitura por pistas ' . Em sexto lugar, consideraremos o papel
desempenhado pela Introdução de Russell na economia do Tractatus.
Por fim, em sétimo lugar, extrairemos as principais conclusões propor­
cionadas pela análise feita.
28 1
Iniciação ao silêncio

li - A estratégia geral de argu mentação do Tractatus e o


estilo paratático

No momento de redigir o Tractatus, Wittgenstein teve de resol­


ver o dificil problema de como expressar sua peculiar vivência filo­
sófica. Com efeito, por um lado, essa vivência o coloca diante de duas
entidades transcendentalmente complementares: a vontade e o mun­
do. Como sabemos, a primeira é condição de possibilidade do mundo,
mas não pertence a ele. O domínio da vontade é o da ética, que se
identifica com a estética. O mundo é o ponto de apoio da vontade. O
domínio do mundo é o dos fatos, que são descritos pela ciência na­
tural. Em seu relacionamento com o mundo, a vontade deve enfrentar
o grande desafio de superar a individualidade dos fatos para poder
contemplar beatificamente a essência do mundo, que se identifica
com Deus. Por outro lado, essa vivência filosófica revela para
Wittgenstein que o pensar possui duas dimensões complementares, a
saber, o dizer e o mostrar, e que a linguagem é essencialmente limi­
tada: ela só pode dizer os fatos do mundo. É certo que o dizer é
acompanhado pelo mostrar, mas este último se introduz como indizí­
vel condição transcendental de possibilidade do próprio dizer. Não
pode haver discurso sobre a distinção entre dizer e mostrar nem sobre
os limites da linguagem . O dizer assemelha-se a uma pequena ilha,
cercada pelo imenso oceano do mostrar. Ora, isso significa que,
embora exista alguma coisa filosoficamente muito importante em
nossas v idas , ela não pode ser descrita pela linguagem . Não pode­
mos formular lingüisticamente nem os problemas nem as soluções
filosóficas . Não há e não pode haver doutrinas filosóficas. A única
tarefa que resta para a filosofia, como crítica da linguagem, é a
clarificação conceituai , que deverá, de alguma forma, ser capaz de
mostrar a distinção dizer/mostrar e os correspondentes limites da lin­
guagem .

Assim, a tarefa de descrever a vivência filosófica do Tractatus


envolve um enorme obstáculo, aparentemente intransponível. Para
resolver essa dificuldade, a estratégia argumentativa mais adequada
deverá levar em conta que a vivência tractatiana envolve um verdadei-

282
A linha geral de argumentação do Tracta tus

ro processo de iniciação, no qual estão incluídas duas experiências


complementares: a "morte pelo sofrimento" e a "ressurreição pela
beatitude". Nessa perspectiva, é de se esperar que o Tractatus inclua,
de algum modo, essas duas experiências complementares. Como dis­
curso, a obra deverá envolver um processo argumentativo de iniciação
que corresponda à iniciação real. Assim, as coisas deverão funcionar
de tal maneira que, se o leitor compreender e acompanhar corretamen­
te o processo de iniciação apresentado pelo texto, ele terá uma boa
probabilidade de experimentar a iniciação pessoal real; se não, ele
sempre poderá retornar ao texto e começar tudo de novo, até ser bem­
-sucedido. Partiremos da hipótese de que Wittgenstein adota esta es­
tratégia no Tractatus. Sua confirmação, porém, se dará ao longo dos
estudos que serão feitos nesta Terceira Parte. As táticas e procedimen­
tos particulares que pudermos identificar na análise da obra servirão
para reforçar ou enfraquecer esta hipótese.

A primeira tática a ser considerada diz respeito ao modo de ex­


pressão escolhido para formular os argumentos tractatianos. Com re­
lação a isso, convém lembrar que, baseados em Auerbach, Perelman
e Olbrechts-Tyteca distinguem dois tipos de expressão do pensamento.
O primeiro deles é o hipotático e corresponde a uma construção que
estabelece relações precisas entre os elementos do discurso. Trata-se
da construção argumentativa por excelência, já que cria quadros e
constitui uma tomada de posição. Ela comanda o leitor, obrigando-o
a ver certas relações e limitando as interpretações que ele poderia
tomar em consideração. O segundo é o paratático e corresponde à
construção que renuncia a qualquer ligação precisa entre as partes . O
leitor fica livre para imaginar as relações envolvidas, as quais, em
virtude de sua imprecisão mesma, assumem um caráter misterioso,
mágico. A paralaxe é capaz de produzir efeitos altamente dramáticos
(Perelman e Olbrechts-Tyteca 1 958: 2 1 2-2 1 3) 1 •

1 . Plebe e Ernanuele citam duas divisões análogas dos estilos de discurso. Urna
delas é feita por Platão, no Górgias, que distingue o estilo breve de seus diâlogos
("braquiologia") do estilo extenso de seus adversários sofistas ("rnacrologia"). Essa
divisão é aprimorada por Aristóteles, no terceiro livro da Retórica, que distingue a
'elocução quebrada' da 'elocução concatenada' (Plebe e Ernanuele 1 992: 1 9).

283
Iniciação ao silêncio

Levando em conta as características dessas modalidades de ex­


pressão do pensamento e a peculiaridade da estratégia argumentativa
que atribuímos ao Tractatus, . podemos facilmente concluir que
Wittgenstein deve optar pela construção paratática. Com efeito, seu
objetivo fundamental é expressar uma vivência filosófica pessoal. Para
tanto, como já foi sugerido, ele deve propiciar os elementos necessá­
rios para que o leitor possa, na medida do possível, repetir as condi­
ções que geraram essa vivência. Ora, tais condições envolvem a rea­
lização de um intenso esforço pessoal que culmina numa espécie de
ultrapassagem. Depois de muito sofrimento que o leva a uma espécie
de "morte", o leitor deve "renascer". Desse modo, o procedimento
ideal no Tractatus seria aquele em que os próprios argumentos e suas
articulações estivessem implícitos, antes sugeridos do que claramente
expostos. Isso forçaria o leitor a realizar o esforço necessário para
obter as condições indispensáveis à ultrapassagem . Nesse caso, é claro
que o estilo paratático revela-se o mais adequado.
Podemos encontrar, no Tractatus, uma série de aspectos que
confirmam a idéia de que Wittgenstein adota deliberadamente um estilo
de tipo paratático para forçar o leitor a uma espécie de "hermenêutica
sofrida". Em primeiro lugar, como já vimos, ele inicia a obra com
uma proposição ao mesmo tempo paradoxal e não-justificada: "o
mundo é tudo o que ocorre", ou ainda, "o mundo é a totalidade dos
fatos, não das coisas" ( 1 922: 1 ; 1 . 1 ). Assim, já nas primeiras linhas,
o leitor defronta com a difícil tarefa de descobrir qual o fundamento
para uma afirmação tão inesperada. Em segundo lugar, como também
já comentamos, Wittgenstein define de maneira insuficiente o sistema
de numeração de seus aforismas. Com efeito, já sabemos que a nota
explicativa relativa a esse sistema só esclarece os casos de aforismas
da forma n. l , n.2, n.3 etc., ou da forma n.m 1 , n.m2, n.m3 etc. Aforismas
numerados como 2.0 1 , 2.0 1 1 etc., já na primeira página, ou 3.00 1 , um
pouco mais à frente, escapam da caracterização feita e exigem qua­
lificações especiais para que o leitor entenda sua posição relativa no
conjunto da obra. Em terceiro lugar, Wittgenstein não oferece uma
explicação satisfatória no caso da notação adotada para simbolizar a
forma geral da proposição . É a Introdução de Russell que, por sorte,
esclarece esse ponto. Além disso, Wittgenstein optou por construir a
forma geral da proposição a partir da conjunção de negações, ' N(� ' ,

284
A linha geral de argumentação do Tracta t u s

quando poderia ter utilizado o operador de Sheffer, ' I ' , que é bem
mais intuitivo. Em quarto lugar, as colocações sobre a linguagem e a
lógica são muito mais desenvolvidas que aquelas sobre o sujeito
metafísico, a ética, a estética, Deus e o místico, que correspondem ao
que é realmente importante em nossas vidas . Na verdade, para ser
coerente com sua estratégia argumentativa, que condena a linguagem
ao silêncio sobre tais pontos, Wittgenstein apenas poderia deixá-los
sugeridos, forçando o leitor a buscar a iluminação por si próprio. Em
quinto lugar, o final da obra é, à primeira vista, argumentativamente
insatisfatório. Ao dizer, em 6.54, que as proposições do Tractatus são
contra-sensos que devem ser superados para que o mundo seja visto
corretamente, Wittgenstein deixa o leitor numa posição incongruente,
autofágica, que é resumida no aforisma final: "sobre o que não se
pode falar, deve-se calar". De fato, ainda que recomende ao leitor que
se cale sobre o que não se pode falar, Wittgenstein está, de algum
modo, falando sobre o que não se pode falar, desrespeitando assim
sua própria recomendação. O aforisma 7, embora sintetize toda a
mensagem do Tractatus, envolve autofagia por auto-inclusão e deixa
o leitor numa posição desconfortável, que só é atenuada pelo pré­
-requisito estabelecido ainda em 6.54, que funciona como uma espé­
cie de promessa de solução da dificuldade: "quem me entende. . . ". Só
quem entende, depois de muito penar, a necessidade da crítica da
linguagem e seu percurso suicida é que será capaz de atingir a
elucidação final.
A melhor confirmação, contudo, de que o estilo do Tractatus é
paratático está na apresentação das teses da obra pelos aforismas nu­
merados. De modo geral, o emprego de aforismas é mais freqüente em
textos que tratam de filosofia moral, como acontece, por exemplo,
com os moral istas franceses dos séculos XVII e XVIII, com
Schopenhauer e com Nietzsche. A característica básica de um aforisma
é a apresentação de idéias filosóficas de uma forma sucinta, concen­
trada, talvez até mesmo "fechada". O aforisma filosófico busca veicu­
lar a verdade de modo mais conciso e compacto que outras formas de
expressão. Assim, cada pensamento expresso pelo aforisma, além de
articular-se de algum modo no interior do sistema de pensamentos a
que se refere, possui uma autonomia que lhe é própria. Ora, o objetivo
do Tractatus não é construir sistematicamente uma doutrina pelo en-

285
Iniciação ao silêncio

cadeamento lógico de teses. Dadas as suas intenções eminentemente


éticas, toma-se claro que o estilo aforístico apresenta enormes vanta­
gens para a expressão dos pensamentos. Com efeito, é ele que faz com
que cada proposição do Tractatus possa ser entendida ora como um
pensamento compacto, independente e fechado, ora como pertencente
a um sistema ·articulado de pensamentos. É ele também que permite
perceber a diferença entre o texto do Tractatus e os textos tradicional­
mente tidos como filosóficos. Na verdade, essa diferença talvez seja
responsável pelo mais impressionante efeito argumentativo do Tractatus:
paradoxalmente, não são predominantemente os assuntos ligados à
moral que estão sendo tratados pelos aforismas, mas aqueles ligados
à lógica, uma disciplina formal, para a qual a exposição axiomática
parece ser o único estilo adequado. Discutir questões de lógica por
meio de aforismas equivale a dar deliberadamente uma conotação ética
a tais questões. Ademais, isso não é dito, mas simplesmente mostrado
no texto tractatiano. Tudo indica que o somatório de todas essas van­
tagens paratáticas faz com que Wittgenstein dê primazia ao estilo
aforístico sobre a prosa filosófica tradicional.

Ili - O sistema de n u meração dos aforlsmas tractatia nos

Um ponto importante a ser destacado no estilo paratático trac­


tatiano é que os aforismas se distribuem numa hierarquia. Eles pos­
suem pesos lógicos diferentes. Para dar conta disso, Wittgenstein os
numera de acordo com uma convenção especial . Em uma nota
explicativa logo no início da obra, ele mostra a maneira pela qual o
sistema de numeração criado dispõe as proposições do Tractatus em
ordem de importância na exposição, segundo o peso lógico de cada
uma delas:
"As proposições n.J , n.2, n.3 etc. são comentários sobre a
proposição nº n; as proposições n.ml , n.m2 etc. são comen­
tários sobre a proposição nº n.m,· e assim por diante"
(Wittgenstein 1 922: 5).
Há duas observações importantes sobre essa numeração. Em pri­
meiro lugar, ela introduz a possibilidade de mais de um percurso de
leitura das proposições do Tractatus. O primeiro deles, e o mais fácil

286
A linha geral de argumentação do Tractatus

de seguir, consiste em ler os aforismas na ordem em que estão apre­


sentados no texto, considerando o número de cada um como indicador
de sua importância em relação aos aforismas principais (aqueles com
um único algarismo, a saber, os numerados de 1 a 7). De acordo com
este princípio, as primeiras oito proposições do Tractatll.s seriam lidas
na seguinte ordem: 1 => 1 . 1 => 1 . 1 1 => 1 . 1 2 => 1 . 1 3 => 1 .2 => 1 .2 1
=> 2 .

Embora seja o mais natural, esse percurso de leitura parece ser o


mais superficial de todos, pois não leva em conta uma série de fatores.
Conforme Granger observa acertadamente, a numeração tractatiana
permite distribuir os aforismas numa hierarquia de níveis superpostos
( 1 969: 23) . Assim, de acordo com sua numeração, as oito proposições
anteriormente consideradas se distribuem em três níveis diferentes:

1º nível: 1 2
2º nível: 1 . 1 1 .2
3º nível: 1 . 1 1 1 .12 1.13 1 .2 1

As proposições do 2° nível são comentários às do 1 º; as do 3º são


comentários às do 2º. Nessa perspectiva, as proposições do 1 º nível
são as matrizes. Cada um dos níveis sucessivos marca o grau de
aprofundamento do comentário (ibidem) . O número de cada proposi­
ção indica sua distância da proposição matriz. Mas é importante notar
que, embora distante da matriz, um aforisma pode introduzir tanto
uma elucidação de detalhe como uma elucidação essencial (ibidem)2•
A consideração destes níveis sugere o segundo percurso de leitura, que
é um pouco mais difícil que o anterior. Já que os diferentes níveis
correspondem a comentários elucidativos da proposição matriz, toma­
-se conveniente ler ciclicamente cada proposição, a saber, antes de ler
os respectivos comentários e depois de lê-los.

De acordo com esse princípio, o segundo percurso de leitura das


proposições do Tractatus admite vários momentos.

2. É este fato que permite a ' leitura por pistas ' , que sugeriremos ainda neste
capítulo.

287
Iniciação ao silêncio

l° (leitura contínua apenas das proposições principais,


momento

todas pertencentes ao 1 º nível): 1 ::::) 2 ::::) 3 ::::) 4 ::::) 5 ::::) 6 ::::) 73•

2º momento (leitura cíclica, envolvendo apenas o 1 º e o 2º ní­


veis): tomando como exemplo apenas a proposição 1 e seus respecti­
vos comentários, temos:

1 ::::) 1 . 1 ::::) 1 .2 ::::) 1 (lê-se 1, no 1 º nível; passa-se para 1 . 1 , no


2° nível; após a leitura de 1 . 1 , saltam-se os comentários a 1 . 1 , que
pertencem ao 3º nível, e passa-se diretamente para 1 .2, que está no
mesmo nível de 1 . 1 ; terminada a leitura dos comentários do 2º nível,
retoma-se a 1 , no 1 º nível, que agora é lida à luz das elucidações feitas
por 1 . 1 e 1 .2) .

3º momento (leitura cíclica, envolvendo o 1 º, o 2º e o 3º nível):


tomando agora como exemplo o conjunto formado pela proposição 1 ,
seus respectivos comentários, mais a proposição 2, temos: 1 ::::) 1 . 1 ::::)
1 . 1 1 ::::) 1 . 1 2 ::::) 1 . 1 3 ::::) 1 . 1 ::::) 1 .2 ::::) 1 .2 1 ::::) 1 .2 ::::) 1 ::::) 2 (lê-se 1 ,
no 1 ° nível; passa-se para 1 . 1 , no 2° nível ; passa-se para 1 . 1 1 , 1 . 1 2 e
1 . 1 3 , no 3º nível; retoma-se a 1 . 1 , no 2º nível , agora lido sob a luz das
elucidações feitas por 1 . 1 1 , 1 . 1 2 e 1 . 1 3; passa-se para 1 .2, também no
2º nível; avança-se para 1 .2 1 , no 3º nível ; retoma-se para 1 .2, no 2º
nível, agora lido sob a luz dos esclarecimentos de 1 .2 1 ; retoma-se a
1 , no 1 ° nível, que agora é lida à luz das elucidações feitas por 1 . 1 ,
1 . 1 1 , 1 . 1 2, 1 . 1 3 , 1 .2 e 1 .2 1 ; passa-se finalmente para 2, também no 1 º
nível, iniciando-se novo processo cíclico, agora para os comentários
relativos a esta proposição) .

Como se pode notar, o segundo percurso de leitura é bem mais


complexo. Ele admite tantos momentos quantos são os níveis dos
comentários. Ora, as proposições mais distantes das matrizes envol­
vem números com seis algarismos, como 2. 1 5 1 2 1 , 4. 1 272 1 , 5 .47321
e 6.363 1 1 . Portanto, o segundo percurso admite seis momentos dife­
rentes. Por razões de espaço, não vamos expô-los aqui. Contudo, com
base nos momentos explicitados, eles podem ser facilmente construídos.

3. Este é geralmente o primeiro percurso de leitura que os comentadores utili­


zam para introduzir ao Tractatus.

288
A linha geral de argumentação do Tracta t u s

Poder-se-ia também construir um terceiro percurso, baseado numa


simplificação do anterior. Esse terceiro percurso poderia consistir, por
exemplo, somente na combinação do primeiro com o sexto momento.
É claro que, com base apenas no segundo percurso e seus respectivos
momentos, outras combinações também seriam possíveis, gerando
novos percursos de leitura. Além disso, seria possível também cons­
truir momentos alternativos em que o retorno a proposições secundá­
rias não ocorreria. O percurso abaixo constituiria uma variação do
terceiro momento anteriormente exposto: variação do 3º momento
(leitura cíclica envolvendo o 1 º, o 2º e o 3º nível): tomando novamente
como exemplo a proposição 1 , seus respectivos comentários, mais a
proposição 2, temos: 1 � 1 . 1 � 1 . 1 1 � 1 . 1 2 � 1 . 1 3 � 1 .2 � 1 .2 1
� 1 � 2 (lê-se 1 , no 1 º nível; passa-se para 1 . 1 , n o 2º nível ; passa­
-se para 1 . 1 1 , 1 . 1 2 e 1 . 1 3 , no 3º nível; passa-se para 1 .2, agora no 2º
nível; avança-se para 1 .2 1 , no 3º nível; retorna-se a 1 , no 1 º nível, que
agora é lida à luz das elucidações feitas por 1 . 1 , 1 . 1 1 , 1 . 1 2, 1 . 1 3 , 1 .2
e 1 .2 1 ; passa-se finalmente para 2, também no 1 º nível, iniciando-se
novo processo cíclico, agora para os comentários relativos a esta pro­
posição).

O número de combinações de percursos e momentos alterna­


tivos é espantoso. Isso mostra que o Tractatus admite muitos tipos
de percursos de leitura. Em outras palavras , a obra perm ite dife­
rentes entradas.
A segunda observação a fazer sobre o sistema de numeração das
proposições do Tractatus é a seguinte: embora na nota explicativa
citada Wittgenstein tenha definido claramente o sistema de numeração
a ser usado, subitamente desrespeita sua própria convenção ao atingir
a proposição 2, e introduz o aforisma 2.0 1 . Mais à frente encontram­
-se outras "aberrações", como, por exemplo, 2.0201 , 3.00 1 , 4.003 1 ,
5 . 1 0 1 e 6. 1 20 1 . Nessas proposições, o algarismo ' O ' está inesperada­
mente presente, envolvendo um tipo de ênfase que não foi estabeleci­
do na nota. Desse modo, fica claro que Wittgenstein, de acordo com
o espírito do estilo paratático, está propositadamente deixando ao lei­
tor a tarefa de determinar o peso lógico das proposições em questão.
Como seria de se esperar, as interpretações divergem bastante nesse

289
Iniciação ao silêncio

ponto4• Alguns autores chegaram a escrever longos estudos sobre esse


único problema5 •
Para resolver essa dificuldade, é conveniente lembrar que a nota
relativa ao sistema de enumeração é mais esclarecedora no Proto­
-Tractatus. Ali, Wittgenstein afinn a o seguinte:
"Os números indicam a ordem e a importância das propo­
sições. Assim, 5.041 01 segue 5.041 e é seguida por 5.0411 ,
cuja proposição é mais importante que 5.041 01 (Wittgenstein
1 9 1 8: 4 1 ) .
Supondo que Wittgenstein não alterou significativamente esta con­
venção quando finalmente escreveu o Tractatus, e aplicando o mesmo
princípio a casos hipotéticos mais simples, poderíamos dizer o seguin­
te: 1 .0 1 segue 1 e é seguida por 1 . 1 , que é mais importante que 1 .01 ;
4. 1 O 1 segue 4. 1 e é seguida por 4. 1 1 , que é mais importante que 4. 1 O 1 .
Isso nos dá, portanto, a pista para determinar a seqüência exata dessas
proposições. Quanto ao fato de uma delas ser mais "importante" que
a outra, basta atentar para a função desempenhada pelas proposições
cujos números incluem o zero, contrastando-as com a função desem­
penhada por aquelas cujos números não incluem o zero. Para tanto,
consideremos a seguinte seqüência extraída do Tractatus:
2. O que é o caso, o fato, é a existência de estados de
coisas.

4. Granger considera que tais proposições correspondem a lugares vazios na


hierarquia dos níveis ( 1 969: 24). Favrholdt sugere ousadamente que elas resultariam
da interpolação posterior de novos aforismas (Favrholdt 1 967, apêndice; citado por
Granger 1 969: 23). Arley Moreno propõe que estas proposições são as únicas que
exigem retomo cíclico à matriz. Eis alguns exemplos de percursos, segundo sua
interpretação: 3 ::::::> 3 .00 1 ::::::> 3 ::::::> 3.01 ::::::> 3 .02 ::::::> 3 .03 ::::::> 3 .04 ::::::> 3 .05 ::::::> 3 ::::::> 3 . 1
::::::> 3. 1 1 ::::::> 3 . 1 2 ::::::> 3 . 1 3 ::::::> 3 . 1 4 ::::::> 3.2 ::::::> etc.; 1 ::::::> 1 . 1 ::::::> 1 . 1 1 ::::::> 1 . 1 2 ::::::> 1 . 1 3 ::::::>
1 .2 ::::::> 1 .2 1 ::::::> 2 ::::::> ::::::> ::::::> ::::::> etc. (Moreno 1 978: 270-27 1 ).
5. Como exemplos, citamos Aenishãnslin ( 1 978) e Moreno ( 1 978). Essa atitude
certamente toma o problema muito maior do que ele é, e pode perigosamente induzir­
-nos a considerar que a correta interpretação do Tractatus depende da prévia compreen­
são de seu sistema de numeração. Isso nos imporia a necessidade de estudar exaus­
,
tivamente tal sistema, a fim de que nele possamos encontrar a chave de leitura da
obra. Se fosse verdade, porém, certamente encontraríamos vestígios disso nos escri.,tos
pré-tractatianos, Mas não há qualquer indicação de que Wittgenstein tenha tido este tipo
de preocupação na época em que redigiu o Tractatus. A solução deve ser mais simples .

290
A linha geral de argumentação do Tracta t u s

2.01 . O estado de coisas é uma ligação de objetos (coisas).


(. . . )
2.02. O objeto é simples.
(. . . )
2.03. No estado de coisas os objetos se concatenam, como
os elos de uma corrente.
(. . . )
2.04. A totalidade dos estados existentes de coisas é o
mundo.
(. . . )
2.05. A totalidade dos estados existentes de coisas também
determina que estados de coisas não existem.
(. . . )
2.06. A existência e inexistência de estados de coisas é a
realidade. (. . . ).
(. . . )
2 . 1 . Fazemos figurações dos fatos.
(. . . )
2.2. A figuração tem em comum com o afigurado a forma
lógica de afiguração.
(. . . )
3. A fig uração lóg ica dos fatos é o pensamento.
(Wittgenstein 1 922).
Pode-se ver claramente que as proposições de forma 2.0X cons­
tituem explicações do conteúdo apresentado em 2. Assim, em 2 é
introduzida a expressão ' estados de coisas ' . Para explicá-la, 2.0 1 in­
forma que o estado de coisas é uma ligação de objetos; 2.02, que o
objeto é simples; 2.03 , que os objetos se ligam uns aos outros no
estado de coisas; 2.04, que a totalidade dos estados de coisas existen­
tes é o mundo; 2.05 , que a totalidade dos estados de coisas existentes
determina também os inexistentes; 2.06, finalmerye, que a existência
e inexistência de estados de coisas é a realidade /� função das propo­
si@s_de.íorma .2,Q{Ç_ é, p<fil._ exp�cati�� A'uanto às de fom a 2.X,
pode-se ver também claramente pelo exemplo acima que, em vez de
explicarem os termos contidos em 2, elas avançam_ a.-ª1"..&�mentação no

s�nJido -de.. �ulá-la com 3, sua sucessora. Assim, depois de-saber
que o fato é a existência do estado de coisas (proposição devidamente

29 1
Iniciação ao silêncio

esclarecida pelas de forma 2.0X), podemos avançar o raciocínio, es­


tabelecendo que fazemos figurações dos fatos (2. 1 ), que a figuração
tem em comum com o afigurado a forma lógica de afiguração (2.2) .
E isso nos permite dar um passo ainda maior, afirmando que a figu­
ração lógica dos fatos é o pensamento (3). A função das proposições
de forma 2.X é, portanto, de articulação. Parece-nos que esta simples
regra pode ser generalizada para todo o Tractatus da seguinte maneira:
as proposições de forma N .OX apresentam explicações ligadas aos
termos da proposição N (função definitória); as de forma N.X avan­
çam o raciocínio, preparando a ligação da proposição N com sua
sucessora do mesmo nível, a saber, N + 1 (função articuladora) . Nessa
perspectiva, as proposições de forma N.OOX têm uma função explicativa
logicamente anterior às da forma N .OX: aquelas definem o quadro
conceituai, os princípios segundo os quais as explicações destas serão
dadas6 • Em virtude disso, podemos dizer que, do ponto de vista do
desenvolvimento do raciocínio, as proposições de forma N.X são mais
importantes que as de forma N.OX ou N.OOX porque as primeiras
significam um avanço lógico e as segundas, uma pausa lógica no
argumento.
Nas duas funções consideradas, a leitura cíclica dos aforismas é
permitida e aconselhável. Existe, porém, uma diferença sutil. Ao retomar
para a proposição N, depois de passar por proposições de forma N.OOX
ou N.OX, o leitor compreende melhor o sentido de N; ao retomar para
N, depois de passar por proposições de forma N .X, o leitor está mais
bem preparado para avançar em direção a N + 1 . Embora essa conje­
tura não possa ser comprovada como absolutamente correta, ela pare­
ce ser um dos melhores guias para a leitura do Tractatus.
Estas considerações sobre o sistema de numeração dos aforismas
do Tractatus deixam claro que essa obra permite inúmeros percursos
de leitura. Tais percursos, entretanto, são apenas maneiras de penetrar
no Tractatus e não devem condicionar sua interpretação. Caso contrá­
rio, a numeração dos aforismas seria mais importante que seu conteú­
do, determinando a maneira de interpretá-los. Este parece ser o equí-

6. Isso pode ser depreendido da consideração das relações entre as seguintes


proposições: 3 e 3 .00 1 ; 4 e 4.00 1 -4.003; 6 e 6.00 1 -6.002. Estas são as únicas ocor­
rências de proposições da fonna N.OOX no Tractatus.

292
A linha geral de argumentação do Tracta t u s

voco de Aenishãnslin. Embora este autor tenha percebido acertada­


mente que a leitura cíclica implica a possibilidade de retomo da pro­
posição 7 para a proposição 1 , ele ficou fascinado com esse fato e
afirmou temerariamente que o Tractatus é cíclico, não tem princípio
nem fim (Aenishãnslin 1 978: 247). Nessa perspectiva, cada um dos
percursos de leitura e seus momentos anteriormente mencionados
constituiria um ciclo fechado, sempre voltando ritualisticamente a cada
uma das proposições de número inteiro. Se isso fosse correto, o
Tractatus jamais atingiria seu objetivo. De tudo o que foi dito até
agora, pelo menos duas coisas são certas: embora a obra admita muitos
percursos diferentes, ela tem uma entrada preferencial, que é a propo­
sição 1 , e uma única saída, que é a proposição 7. Qualquer que seja
o número e o tipo de ciclos que o leitor tenha de percorrer, em algum
momento ele terá de atingir a proposição 7, vendo o mundo correta­
mente e assumindo lógica e eticamente o silêncio. Nesse momento, o
Tractatus terá cumprido sua missão clarificadora e o leitor estará livre
dos ciclos.

IV - A divisão do Ti"actatus em pa rtes

Passando agora para o texto do Tractatus propriamente dito,


podemos aventar a hipótese de que suas diversas partes foram escritas
de acordo com a estratégia geral acima proposta. Comecemos pelo
TÍ TULO. A versão inicialmente planejada por Wittgenstein era A
Proposição (Der Satz) . Todavia, na versão publicada nos Annalen der
Naturphilosophie de Ostwald, ele optou por Tratado lógico-filosófico
(Logish-philosophische Abhandlung). Por sugestão de Moore, esta
expressão foi vertida para o latim na primeira edição bilíngüe de 1 922,
chegando-se assim ao título pelo qual a obra ficou definitivamente
conhecida: Tractatus Logico-Philosophicus (Wuchterl e Hübner: 72) .
Do ponto de vista argumentativo, parece que o título A Proposição
proporcionaria maior clareza na compreensão da obra, pois indicaria,
desde o início, sua preocupação fundamental e a inversão representada
pelo aforisma 1 . Com efeito, de acordo com a interpretação aqui apre­
sentada, Wittgenstein parte da análise da proposição complexa para
encontrar as proposições atômicas; com base nestas, ele infere os fatos

293
Iniciação ao silêncio

atômicos que são descritos por elas e só então chega à conclusão de


que o mundo se compõe de fatos e não de coisas . Assim, no Tractatus,
a ordem da descoberta não parece coincidir com a ordem da exposi­
ção. Daí a maior adequação do título A Proposição para orientar o
leitor na travessia tractatiana.
Em que pesem estas considerações, Wittgenstein opta pelo pom­
poso título latino. Que razões teria ele para fazê-lo? Em primeiro
lugar, este título mantém a escolha inicial . De fato, ele apenas cons­
titui uma tradução do título original do alemão para o latim. Com esse
procedimento, o efeito produzido pelo título original fica, de algum
modo, preservado.
Em segundo, o efeito produzido no leitor por esse título é de
estranhamento. A obra é apresentada como um 'tratado ' , ou seja, um
texto que expõe seu assunto de maneira desenvolvida e sistemática.
Todavia, à medida que entra em contato com o texto, o leitor perceba
que a obra não corresponde àquilo que se esperaria de um tratado. Já
no primeiro parágrafo do Prefácio, Wittgenstein informa que seu livro
talvez seja entendido apenas pelas pessoas que já pensaram nos pro­
blemas ali expressos e que não se trata de um manual. Acrescenta
ainda que seu objetivo é dar prazer a quem o entenda. Ora, o que se
espera de um tratado em sentido estrito é que ele possa ser entendido
pelas pessoas que possuam determinada formação, a qual não exige
que se tenha previamente pensado nos problemas expressos pela obra.
Tais problemas podem ser completamente novos e, mesmo assim, o
tratado poderá ser entendido. É certo que Wittgenstein diz que talvez
apenas pessoas especiais sejam capazes de entender a obra. Mas a
qualificação do público capaz de entendê-la revela que se trata de um
tipo diferente de 'tratado ' . Além disso, o objetivo da obra é dar prazer
a seu leitor, enquanto o objetivo primeiro de um tratado é o conheci­
mento teórico de determinado assunto. O prazer que possa decorrer da
obtenção desse conhecimento é secundário. Outra vez encontramo-nos
diante de um tipo especial de ' tratado ' . Todavia, conforme menciona­
do, a obra também não é um manual . Poder-se-ia pensar que é porque
o manual , embora exponha o assunto de maneira sistemática, não o
faz de maneira desenvolvida como o tratado. Mas, gradativamente, o
leitor vai-se dando conta de que os motivos pelos quais a obra não
pode ser um manual também a impedem de ser um tratado. De fato,

2 94
A linha geral de argumentação do Tracta t u s

o livro trata de problemas filosóficos, mas a filosofia é apresentada


como uma atividade, não como uma teoria ( 1 922: 4. 1 1 2). Seu objetivo
é a clarificação lógica; seu resultado não é constituído de "proposições
filosóficas", mas de clareza de pensamento (ibidem). Nesse ponto, o
leitor percebe que falta à obra a característica essencial tanto a um
manual como a um tratado em sentido estrito: ela não pretende ser a
exposição sistemática de uma doutrina filosófica. Convém lembrar
aqui que, para piorar as coisas, o leitor fica sabendo, o final, que até
as proposições desse ' tratado' são contra-sensos e devem ser sobrepu­
jadas para que o mundo seja visto corretamente (ibidem: 6.54).
A terceira razão para a escolha do título é que o mencionado
efeito de estranhamento constitui um fator necessário para a compreensão
da obra. Do ponto de vista argumentativo, esse estranhamento espicaça
a curiosidade do leitor de descobrir o verdadeiro significado do
Tractatus. Mas essa motivação, embora necessária, não é suficiente.
Sabemos que, para Wittgenstein, o filosofar é uma tarefa pessoal que
só consegue ser bem-sucedida depois de muito sofrimento. Nessa
perspectiva, entender a articulação entre um título aparentemente tão
inadequado e a obra que ele nomeia constitui uma espécie de enigma
que, uma vez resolvido, auxilia bastante na compreensão do signifi­
cado da própria obra. Em outras palavras, o título Tractatus Logico­
-Philosophicus desperta o leitor para a realização da tarefa ética de
descobrir o sentido da vida. E essa descoberta, na medida em que
envolve a contemplação mística do presente atemporal , certamente
trará prazer ao leitor.
Passemos para o PREFÁ CIO do Tractatus. Essa parte é muito
importante para a compreensão da obra, pois ela apresenta um resumo
extremamente condensado. Na carta explicativa ao editor von Ficker,
Wittgenstein dá o seguinte conselho para facilitar a apreensão do ob­
jetivo ético do livro:
"Por enquanto eu lhe recomendaria que lesse o prefácio e
a conclusão, porque eles contêm a expressão mais direta do
objetivo do livro " (·1on Wright 1 969: 35).
A leitura atenta do Prefácio nos mostra que ele desempenha a
função de uma introdução, pela qual Wittgenstein realiza a captatio
benevolentiae, ou seja, motiva o leitor para a obra que vai ser lida.

295
Iniciação ao silêncio

Com esse objetivo, ele indica concisamente, entre outras coisas: a) o


público a que se destina (as pessoas que já se preocuparam com o
mesmo tipo de problemas); b) o objetivo do livro (dar prazer a uma
pessoa que o leia e compreenda); c) o assunto tratado (problemas
filosóficos); d) o procedimento utilizado (tentativa de traçar um limite,
não para o pensar, mas para a expressão dos pensamentos; o limite só
pode ser traçado na linguagem, e o que estiver além dele é contra­
-senso); e) a solução proposta (o pensar ultrapassa os limites da lin­
guagem, pois é capaz de lidar tanto com o que pode ser dito quanto
com o que, embora não possa ser dito, se mostra para o sujeito trans­
cendental: "o que pode ser dito pode sê-lo claramente, e aquilo de que
não podemos falar, devemos omitir em silêncio"); e) o duplo valor da
obra (por um lado, a expressão, ainda que insuficiente, de pensamen­
tos cuja verdade é definitiva e, por outro, a constatação do quão pouco
se consegue quando os problemas filosóficos são resolvidos). Diante
de afirmações tão paradoxais e instigantes, o leitor fica curioso para
compreendê-las em detalhe e adquire, assim, a motivação necessária
para enfrentar os aforismas do Tractatus.
O CORPO da obra também parece ter sido escrito de acordo com
a estratégia argumentativa acima proposta. Ele é constituído por sete
proposições principais e seus respectivos comentários numerados . As
sete proposições principais são as seguintes:
1 . O mundo é tudo aquilo que ocorre.
2. O que ocorre, o fato, é a existência de estados de coisas.
3. A figuração lógica dos fatos é o pensamento.
4. O Pensamento é a proposição dotada de sentido.
5. A proposição é uma função de valores de verdade das
proposições elementares.
6. A forma geral da função de verdade é [p, � N(�)].
7. Sobre o que não se pode falar, deve-se calar.

Segundo Granger, essas proposições podem ser subdivididas em


três grandes grupos. O primeiro compreende as proposições 1 e 2, que
estão articuladas por meio de uma expressão comum a ambas: em 1 ,
o mundo é tudo o que ocorre; em dois, o que ocorre é a existência dos
estados de coisas. O segundo grupo compreende as proposições de 3
a 6. A proposição 3 rompe a cadeia anterior e inicia uma nova ao

296
A linha geral de argumentação do Tracta t u s

afinnar que a figuração lógica dos fatos é o pensamento. A partir desse


ponto, até atingirmos 6, temos um novo encadeamento, de tal fonna
que cada proposição contém uma expressão pertencente à sua
antecessora. Assim, em 4, o pensamento é a proposição dotada de
sentido; em 5, a proposição [dotada de sentido] é uma função de
valores de verdade das proposições elementares; em 6, a fonna geral
da função de [valores de] verdade é [f>, �. N(� ] . O terceiro e último
grupo compreende apenas a proposição 7, que agora interrompe a
cadeia que vai de 3 a 6 ao acrescentar que se deve calar sobre o que
não se pode falar (Granger 1 969: 25). Em relação à divisão do Tractatus,
a interpretação de Granger parece-nos acertada.
Quanto aos assuntos tratados em cada grupo, podemos dizer que,
no primeiro, estão expostas as principais teses tractatianas concernentes
à estrutura do mundo (aforismas 1 -2) . No segundo grupo, encontra­
mos as principais teses do Tractatus relativas à estrutura da proposição
(aforisma 3) e ao papel desempenhado pela lógica na estruturação da
linguagem e do mundo (aforismas 4-6). Nas subdivisões do aforisma
6, temos a aplicação da análise tractatiana aos domínios mais relevan­
tes da linguagem: em 6. 1 , é analisada a Lógica; em 6.2, a Matemática;
em 6.3, a Física; em 6.4, a Ética; em 6.5, finalmente, a Filosofia e o
problema da vida. Na discussão deste último item, Wittgenstein faz as
seguintes afirmações: a) o enigma não existe (6.5); b) o ceticismo não
é irrefutável , mas desprovido de sentido (6.5 1 ); c) a solução do pro­
blema da vida está no desaparecimento do problema (6.52-6.52 1 ); d)
o místico se mostra (6.522); e) o método correto em filosofia consiste
em dizer somente o que pode ser dito (6.53); f) as proposições do
Tractatus são contra-sensos, devem ser ultrapassadas para que se possa
ver o mundo corretamente (6.54).
Desse modo, pode-se dizer que a proposição 6.5 e seus comen­
tários, que vão de 6.5 1 a 6.54, constituem de fato uma parte do epí­
logo do Tractatus, aquela que corresponde ao resumo das principais
conclusões obtidas no desenvolvimento da obra. Todavia, essas propo­
sições são destacadas do epílogo propriamente dito porque assim
Wittgenstein consegue aumentar enonnemente a força expressiva da
última proposição do Tractatus. Com efeito, embora preparem o final,
essas proposições pennanecem ligadas ao corpo principal da obra,
fazendo com que o segundo aspecto do epílogo, ou seja, o emocional,
se manifeste com o máximo de destaque e ênfase na proposição 7.

297
Iniciação ao silêncio

É importante observar que esta última proposição, que faz eco à


formulação anteriormente apresentada no Prefácio, constitui uma afir­
mação extremamente condensada da visão de mundo wittgensteiniana.
Lendo-a à luz das proposições anteriores e seus respectivos comentá­
rios, vemos que ela expressa toda a filosofia tractatiana de uma só vez.
A condensação é tamanha que o próprio Wittgenstein, em carta ao
editor voo Ficker, faz a seguinte confissão:
"O objetil'o do lil'ro é ético. Uma vez pretendi incluir no
prefácio uma sentença que de fato não está lá agora, mas
que escreverei para você aqui, porque ela talvez lhe sirva
de chave para a obra. O que pretendia escrever então era
isto: Minha obra se compõe de duas partes: a que está aqui
presente, e a que não escrevi. E na l'erdade esta segunda
parte é a importante. Com efeito, o ético é delimitado pelo
meu livro como que de dentro; e estou convencido de que,
rigorosamente, ele só é delimitado assim.
Em resumo, acredito que onde muitos outros hoje estão
apenas tagarelando, dei um jeito em meu livro de colocar
tudo firmemente no lugar ficando silencioso a respeito. E
por esta razão, a menos que eu esteja muito enganado, o
livro dirá muito daquilo que você mesmo quer dizer. Talvez
você apenas não veja que aquilo é dito no livro " (voo Wright
1 969: 35).
Com base nessa declaração, podemos imaginar a proposição 7
expressando não apenas a parte que foi escrita, mas também, e prin­
cipalmente, a parte que não foi escrita, a saber, a imensa felicidade
espiritual da contemplação de Deus.
Do ponto de vista argumentativo, a proposição 7 expressa muito
bem as intenções de Wittgenstein. Em outra importante carta, ele in­
forma a voo Ficker que
"a obra é estritamente filosófica e literária ao mesmo tem­
po, se bem que não haja palavrório nela " (voo Wright 1 969:
33; negrito nosso).
Parece-nos que este caráter misto do Tractatus é obtido mediante
a articulação de uma série de fatores. Dentre eles, destacam-se, por um
lado, o já comentado uso do estilo aforístico para tratar de assuntos

298
A linha geral de argumentação do Tracta t u s

lógicos e, por outro, a alteração no tom e no estilo dos comentários a


partir da proposição 6. Pode-se mesmo afirmar que há uma transição
ali, iniciada em 6.4, onde começa a análise da ética. Os termos técni­
cos relativos à análise lógica vão sendo abandonados e a discussão da
experiência mística e do problema do sentido da vida vai-se tomando
mais e mais literária. Isso constitui uma preparação para a introdução
da proposição 7, que é a mais literária de todas as do Tractatus. Lida
à luz das proposições 1 -6, ela pode ser considerada uma espécie de
poema de um único verso. Nessa perspectiva, a intenção fundamental
de Wittgenstein, para expressar a vivência filosófica contida no
Tractatus, parece ter sido realizar um delicado balanço entre uma
parte predominantemente filosófica (proposições 1 -6 e respectivos
comentários) e uma parte predominantemente literária (proposição 7).
Aquela prepara esta. A primeira não passa de um conjunto de contra­
-sensos autodenunciados, que, do ponto de vista estritamente filosófi­
co, são argumentativamente inválidos. A segunda, lida à luz da primei­
ra, também se revela um contra-senso, pois "fala" algo sobre "aquilo
de que não se pode falar". Todavia, encarada do prisma literário, esta
parte passa a ser interpretada metaforicamente. É certo que a análise
lógica nos dirá que a metáfora, na medida em que constitui uma de­
formação do conteúdo descritivo da proposição, constitui um contra­
-senso. Mas a metáfora é utilizada na obra literária, que é, convém
lembrar, uma obra estética. Ora, não só a ética e a estética são a
mesma coisa, mas também a dimensão ética é o que há de mais im­
portante em nossas vidas. Embora possa envolver o apelo a contra­
-sensos, a obra de arte constitui uma das formas mais eficazes de
estabelecermos contato com o indizível ético. Se a obra de arte, como
linguagem, é incapaz de dizer o que não pode ser dito, é pelo menos
capaz de mostrar, de maneira inexprimível, o que não pode ser dito.
Nesse sentido, a lição última do Tractatus é: lógica e eticamente fa­
lando, se não se tenta dizer o que não pode ser dito, nada se perde. Na
verdade, só se tem a ganhar com isso.
As considerações acima mostram que o corpo do Tractatus está
escrito de acordo com a estratégia de criar condições para uma inicia­
ção . Com efeito, embora seja de grande utilidade a leitura apenas das
proposições principais, omitindo os comentários respectivos, ela não
toma mais fácil a apreensão imediata da mensagem da obra. Para

299
Iniciação ao silêncio

alcançá-la, o leitor ainda deve passar pelo purgatório dos comentários,


alguns dos quais se apresentam mais obscuros que as proposições que
deveriam explicar. A leitura cuidadosa e cíclica dos -aforismas
tractatianos é indispensável para a compreensão da obra. Além disso,
a autofagia é preparada desde a proposição 1 até a 6.54. Como vere­
mos mais adiante, o leitor é gradativamente levado a perceber que a
crítica da linguagem, embora necessária, constitui um contra-senso.
Nesse sentido, a leitura do Tractatus se compara ao caminhar para o
cadafalso: ela avança firmemente para a contradição final, representa­
da pela autofagia lucidamente assumida em 6.54. Nesse ponto, o leitor
constata a "morte" de todas as suas pretensões de explicar lingüis­
ticamente o sentido da vida. A aceitação dessa "morte", contudo, traz
consigo a ressurreição da experiência mística indizível . A redenção
encontra-se no silêncio. O ritual de iniciação está completo.

V - A inversão da ordem das razões e a " leitu ra por pi stas"

A estratégia argumentativa do Tractatus, baseada na adoção do


estilo paratático para propiciar as condições de uma iniciação, envol­
ve duas outras táticas importantes, que merecem um comentário à
parte: a inversão da ordem da exposição e o estabelecimento da ne­
cessidade de um tipo especial de leitura da obra. Já sabemos que, no
Tractatus, a ordem da exposição não corresponde à da descoberta. Em
vez de começar pelo princípio, ou seja, pela análise da proposição,
Wittgenstein, paradoxalmente, começa por um de seus resultados . As
proposições 1 e 2 tratam, respectivamente, do mundo e dos fatos, cuja
estrutura é determinada a partir das análises feitas nos comentários às
proposições 3, 4, 5 e 6 (até 6. 1 ) . Somente as proposições que vão de
6. 1 a 7 podem ser consideradas possuidoras de uma localização con­
dizente com a "ordem das razões" da investigação wittgensteiniana.
Isso levanta de imediato a questão de saber por que Wittgenstein
teria optado por tal ordem predominantemente invertida. A pergunta é
pertinente, e o próprio Russell a faz em uma de suas cartas a
Wittgenstein. Este, contudo, responde enigmaticamente, dizendo que a
explicação das razões de tal procedimento exigiria um desvio muito
longo e ele não estaria disposto a tanto. Tendo em vista a interpretação

300
A linha geral de argumentação do Tra cta t u s

do Tractatus que estamos propondo, consideramos razoável afirmar


que a razão principal era a estratégia argumentativa de caráter iniciático.
Desse modo, nada mais justo que transformar o Tractatus num campo
gerador de inquietações, num cadinho filosófico que pudesse, no final,
mas só no final e depois de muito sofrimento purificador, conduzir o
leitor a uma visão de mundo próxima daquela obtida por Wittgenstein.
Ora, uma das formas de conseguir isso está na inversão propositada da
ordem da descoberta.
Começando por dizer paradoxalmente que "o mundo é tudo aquilo
que ocorre" ( 1 ) e desdobrando essa afirmação em "o mundo é a to­
talidade dos fatos, não das coisas" ( 1 . 1 ), Wittgenstein apresenta bru­
talmente o estágio final de um longo percurso de análise que se inicia
nas proposições complexas, caminha até as proposições atômicas e os
signos simples que as constituem, atravessa, por meio da ponte repre­
sentada pela teoria pictórica do significado e pela doutrina da forma
lógica comum, o abismo que separa a linguagem do mundo, passa
então pelos fatos atômicos e os objetos simples que constituem a
substância do mundo, até chegar, finalmente, aos fatos complexos que
caracterizam o mundo. Essa afirmação brutal de uma conclusão para­
doxal produz dois efeitos importantes para a estratégia argumentativa
do Tractatus. Por um lado, a afirmação choca o leitor, que não está
preparado, logo no início da obra. Por outro, ela motiva o leitor a
descobrir as razões que justificam o paradoxo. Está criado o clima
para a investigação no estilo wittgensteiniano.
Uma vez criada essa atmosfera ao mesmo tempo provocativa e
angustiante, o leitor inicia o penoso processo catártico de clarificação
dos pensamentos, que deverá terminar, depois de muito sofrer, na
visão tractatiana do mundo. Para possibil itar a permanência de tal
atmosfera durante toda a leitura da obra, Wittgenstein organiza a ex­
posição de forma a distribuir, ao longo do texto, pistas a respeito da
linha de raciocínio efetivamente seguida por ele. Assim, aos poucos,
ele indica o caráter transcendental da lógica (2.01 2-2.0 1 2 1 ), dos obje­
tos que constituem a substância do mundo (2.01 1 , 2.0 1 23-2.01 24, 2.0 1 4-
-2.0232, 2.026-2.0272), da forma lógica (2. 1 5 1 , 2. 1 6-2. 1 7, 2. 1 8-2.22),
dos signos simples (3 .2-3 .22) . Somente no aforisma 3 .23 Wittgenstein
oferece o princípio que norteia toda a sua análise: "a exigência de que
os signos simples sejam possíveis é a exigência de que o sentido seja

30 1
Iniciação ao silêncio

determinado". Em outras palavras, uma propos1çao complexa tem


sentido determinado porque sua análise completa deve necessariamen­
te conduzir a proposições atômicas que são combinações de signos
simples . Esse aforisma, que é uma das chaves para a compreensão da
obra, encontra-se disfarçado sob a forma de um comentário ao aforisma
3.2 ("Em uma proposição, um pensamento pode ser expresso de tal
modo que elementos do signo proposicional correspondam aos objetos
do pensamento"), que por sua vez é um comentário à proposição 3 ("A
afiguração lógica dos fatos é um pensamento"). Sob a luz do princípio
de análise apresentado em 3 .23, o trecho que vai das proposições 3 .24
a 3.263 fornece maiores e valiosos esclarecimentos a respeito da for­
ma como são obtidos os signos simples a partir das proposições sobre
os complexos. Mais adiante, em 4.003 1 , Wittgenstein revela sua con­
cepção de filosofia como crítica da linguagem, fornecendo mais duas
pistas importantes. Em primeiro lugar, não se trata de crítica da lin­
guagem no sentido de Mauthner. Para saber o que significa isso, o
mínimo que o leitor deve fazer é pesquisar o autor citado, num desvio
considerável, mas inevitáveF. Mediante essa pesquisa, o leitor ficará
sabendo que, para Mauthner, a crítica da linguagem é uma atividade
que revela nossas ilusões e sua fonte na linguagem; o verdadeiro
conhecimento estâ fora de nosso alcance; o silêncio é o grau mais
elevado da atitude crítica. Só depois de muita investigação o leitor
constatará que a diferença profunda entre Mauthner e Wittgenstein é
que, para Wittgenstein, apesar de pertencer ao domínio do inexprimível,
o verdadeiro conhecimento estâ de fato ao nosso alcance: a crítica da
l inguagem mauthneriana se exerce negativamente, enquanto a
wittgensteiniana se faz de maneira positiva. Em segundo lugar, como já
vimos, o comentário elogioso a Russell sugere não apenas que o objeto
da análise wittgensteiniana seja a proposição, que já vinha sendo estu­
dada de maneira mais ou menos explícita desde o aforisma 2. 1 , mas
também que essa análise poderá levar, contrariamente ao que pensa

7. Em outros pontos são mencionados outros autores, cuja leitura também é


indispensável para a compreensão adequada do Tractatus. São os seguintes: Russell
(Wittgenstein 1 922: 3.3 1 8 ; 3 .325; 3.33 1 ; 3 .333; etc.), Frege (ib.: 3 . 1 43; 3 .328; 3.325;
4.063; 4. 1 272; etc.) e Hertz (ib.: 4.04; 6.36 1 ). Já sabemos, contudo, que há outros
também imprescindíveis e que não foram sequer citados, como, por exemplo, Weininger,
Schopenhauer, William James e Tolstoi.

302
A linha geral de argumentação do Tracta tus

Mauthner, a uma forma lógica profunda que fundamenta a linguagem.


Em 4. 1 1 1 -4. 1 1 2, são acrescentadas mais informações sobre a natureza
da filosofia e seu caráter eminentemente elucidativo.
Tais informações, acopladas àquelas que se estendem de 4.00 1 a
4.003 , relativas à linguagem, à lógica de seu funcionamento e a como
pode gerar questões e respostas filosóficas desprovidas de sentido,
ajudam a completar o quadro necessário para que o leitor possa
reconstituir o sofrido percurso da investigação wittgensteiniana.
A pista essencial para compreender o papel da forma lógica e a
diferença entre o dizer e o mostrar está no aforisma 4.03 1 2, no qual
Wittgenstein apresenta sua "idéia fundamental", a de que as constantes
lógicas nada representam, de que não pode haver representação da
lógica dos fatos. Em 4. 1 2-4. 1 2 1 2, finalmente, a distinção entre o dizer
e o mostrar é preparada e introduzida. Na altura de 4. 1 26, são defini­
dos os conceitos formais, já devidamente preparados pela discussão da
distinção entre propriedades externas e internas em alguns dos aforismas
anteriores.
A partir de agora, o leitor do Tractatus já dispõe de indícios
suficientes para, num trabalho meticuloso de detetive, recompor boa
parte do caminho percorrido por Wittgenstein. A seqüência da obra
está toda marcada pelo mesmo procedimento até o aforisma 6. 1 , a
partir do qual um novo grupo de conclusões importantes é apresenta­
do. Por razões de espaço, deixaremos para o leitor a consideração das
pistas wittgensteinianas depois da proposição 4. 1 26.
Como se pode notar, é perfeitamente possível e consistente a
hipótese de que o Tractatus tenha sido escrito no espírito acima indi­
cado, o qual teria determinado não apenas a escolha do estilo aforístico
como também a inversão propositada da "ordem das razões" para
levar o leitor a viver uma experiência filosófica semelhante à de
Wittgenstein.

VI - A "Introdução" de Ru ssell

Ao escrever uma obra tão complexa como o Tractatus, Wittgenstein


fatalmente enfrentaria dificuldades para publicá-la. Com efeito, ele era,
303
Iniciação ao silêncio

até então, um desconhecido no seio da comunidade filosófica. Sendo


o autor de uma obra cujas características mais marcantes são o estilo
inusitado e a complexidade dos problemas tratados, impunha-se-lhe a
necessidade de obter o aval de uma autoridade filosófica, a fim de
facilitar a aceitação do público. Russell era a pessoa ideal para forne­
cer tal aval . Nesse sentido, a "Introdução" redigida por Russell tem a
força de um argumento de autoridade: o leitor deverá ler o Tractatus
porque Russell, um reconhecido especialista no assunto, o recomenda.
Ademais, a complexidade dos problemas e o caráter hermético de
muitos dos aforismas do Tractatus exigem certamente uma orientação
de leitura para os menos av isados. Nesse sentido, a Introdução
russelliana pretende oferecer a palavra do especialista para auxiliar o
leitor na difícil tarefa de entender a obra. Assim, do ponto de vista
argumentativo, a Introdução de B. Russell tem duplo objetivo: a) pre­
parar, mediante a reconhecida autoridade de Russell, a aceitação do
leitor do trabalho paradoxalmente original de Wittgenstein e b) forne­
cer uma orientação de leitura que pudesse guiar o leitor pelas partes
mais obscuras da obra.
Para atingir o objetivo de preparar a aceitação de Wittgenstein
pelo leitor, Russell procede da seguinte maneira. No início da Intro­
dução, ele afirma categoricamente a importância dos resultados obti­
dos por Wittgenstein:
"O Tractatus Logico-Philosophicus do Sr. Wittgenstein, pro­
ve ele ou não propiciar a verdade definitiva sobre os assun­
tos de que trata, certamente merece, por seu fôlego, alcance
e profundidade, ser considerado um acontecimento impor­
tante no mundo filosófico " (Wittgenstein 1 922a: ix) .
Em seguida, para justificar essa afirmativa, Russell faz, no corpo
da Introdução, um comentário geral sobre o Tractatus e os problemas
ali tratados. A partir dessa discussão, ele conclui que
"ter construído uma teoria de lógica que não está obvia­
mente errada em qualquer dos seus pontos é ter realizado
um trabalho de extraordinária dificuldade e importância.
Este mérito, em minha opinião, pertence ao livro do Sr.
Wittgenstein, e faz dele uma obra que nenhum filósofo sério
pode negligenciar" (ibidem: xxii).

304
A linha geral de argumentação do Tracta t u s

A partir desse momento está justificada a leitura do Tractatus.


Russell afirma que a teoria lógica elaborada por Wittgenstein é correta
e que isso constitui um feito de "extraordinária dificuldade e impor­
tância". A conseqüência disso é que nenhum "filósofo sério" poderá
desconsiderar a obra. Dando seu aval incondicional à leitura do Tractatus,
Russell atinge a contento o primeiro objetivo de sua Introdução.
O segundo objetivo do texto russelliano é fornecer uma orienta­
ção de leitura do Tractatus. A "Introdução" busca esclarecer, entre
outros aspectos, quais os assuntos tratados (ibidem), as condições de
possibilidade de uma linguagem logicamente perfeita (ibidem: ix-xii),
a concepção do mundo consistente de fatos (ibidem: xiii), a teoria das
proposições (ibidem: xiv-xx), o simbolismo da forma geral da propo­
sição (ibidem: xv), a engenhosa maneira pela qual todas as proposi­
ções podem ser construídas a partir da forma geral da proposição
(ibidem: xv-xvi), o místico (ibidem: xx-xxi). Quanto ao último assun­
to, Russell chega mesmo a manifestar seu "desconforto intelectual"
com o fato de Wittgenstein relegar o objeto da ética ao campo do
inexprimível e, ao mesmo tempo, ser capaz de formular suas opiniões
éticas (ibidem: xxi) .
Apesar das boas intenções de Russell, parece que apenas o pri­
meiro objetivo de sua "Introdução", ou seja, influenciar, por meio de
sua autoridade como filósofo, os possíveis leitores para obter deles
uma atitude favorável em relação ao Tractatus, foi atingido. O obje­
tivo de fornecer um guia de leitura parece ter sido minimamente al­
cançado. Isso se explica porque Russell, em que pese sua genialidade
como filósofo, não parece ter sido ele mesmo preparado para ler o
Tractatus, distorcendo sua interpretação. Essa situação constrangedora
depreende-se das palavras do próprio Wittgenstein que, em sua carta
de agradecimento a Russell por sua Introdução, afirma não estar de
acordo muitas e muitas vezes com ela, mas ao mesmo tempo concede
que isso não tem importância e que a história os julgaria (Wittgenstein
1 977: 86).
A principal fonte das distorções geradas pela interpretação de
Russell é que ele parece não ter compreendido claramente o objetivo
fundamental da crítica tractatiana da linguagem. Assim, em vez de
interpretar o postulado das proposições elementares e signos simples
305
lnlda�·ão ao silêncio

como a condição transcendental d�. possibilidade da determinação do


sentido em qualquer linguagem, ele o interpreta como a condição que
teria de cumprir uma linguagem logicamente perfeita (Wittgenstein
1 922a: ix). Nessa perspectiva, Russell considera erroneamente que,
para Wittgenstein, a linguagem só faz sentido à medida que se apro­
xima da linguagem ideal assim postulada (ibidem: x). Esse equívoco
compromete, evidentemente, a totalidade da interpretação russelliana
do Tractatus e é responsável pela maior parte dos enganos no nível do
pormenor.
Outra importante fonte das distorções russellianas está na questão
da autofagia tractatiana. Russell parece ter desconsiderado o fato de
que a crítica da linguagem é não apenas uma atividade lógica, mas
também um ato moral. Em virtude disso, ele comenta a atitude de
Wittgenstein em face do místico da seguinte maneira:
"O que causa hesitação [na aceitação da posição tracta­
tiana] é o fato de que, no final das contas, o Sr. Wittgenstein
dá um jeito de dizer muita coisa a respeito do que não pode
ser dito, assim sugerindo ao leitor cético que possivelmente
pode haver algum escape através duma hierarquia das lin­
guagens, ou alguma outra saída. O assunto todo da ética,
por exemplo, é colocado pelo Sr. Wittgenstein na região
mística, inexprimível. Não obstante, ele é capaz de transmi­
tir suas opiniões éticas. Sua defesa seria que o que ele
chama o místico pode ser mostrado, embora não possa ser
dito. Pode ser que sua defesa seja adequada, mas, de minha
parte, confesso que ela me deixa com certa sensação de
desconforto intelectual" (ibidem: xxi) .
. Se nos colocarmos do ponto de vista tradicional sobre o que deve
ser uma argumentação adequada, Russell tem toda a razão em sua
crítica. Em vez de procurar preservar a consistência a todo custo, o
Tractatus desemboca conscientemente na contradição ao "dar um jeito
de dizer o que não pode ser dito". Enfatizando a necessidade de
coerência do discurso como o valor argumentativo mais importante a
ser preservado, Russell nem sequer é capaz de perceber que a solução
do impasse se dá por uma via predominantemente ética. Embora ad­
mita prudentemente que a posição wittgensteiniana possa estar corre-

306
A linha geral de argumentação do Tracta t u s

ta, ele sugere soluções de caráter predominantemente lógico, como a


saída através duma hierarquia de linguagens. Tendo em vista que o
Tractatus considera impossível qualquer forma de metalinguagem,
podemos perceber, a partir daí, o quanto Russell estâ perdido em sua
interpretação da obra. Parece que ele definitivamente não poderia aceitar
(ou compreender) que a crítica da linguagem, embora suicida, é estri­
tamente necessária para o processo de clarificação conceituai; que a
solução do impasse não é apenas lógica (resolver uma contradição),
mas também moral (superar uma contradição, abandonando-a, em ana­
logia com a experiência esotérica de morte e ressureição ); que, neste
quadro, a distinção tractatiana entre 'dizer' e ' mostrar' desempenha
um papel fundamental 8 •
De qualquer maneira, parece claro que, sem o aval de Russell, a
obra dificilmente teria sido publicada ou aceita pela comunidade filo­
sófica. Nesse sentido, o papel desempenhado por sua "Introdução" foi
fundamental.

VII - Observações fi nais

Neste capítulo, avançamos a hipótese de que a estratégia argu­


mentativa mais adequada para o Tractatus é aquela de tipo iniciático,
capaz de proporcionar as experiências complementares do "morrer" e
do "renascer" lógica e eticamente. O fortalecimento da hipótese deve­
rá ocorrer ao longo desta Terceira Parte. Mesmo assim, já pudemos
identificar uma série de táticas que reforçam a suposição de que ele
recorre a esta estratégia geral de argumentação. Wittgenstein adota: a)
o estilo paratático, em que as articulações entre as diversas partes
permanecem implícitas; b) os aforismas numerados de maneira obscu­
ra, permitindo mais de um percurso de leitura da obra; c) a inversão
da ordem da exposição, tomando mais dificil a penetração do texto e
a localização do argumento principal; d) o ocultamento das premissas
(ou até mesmo conclusões) mais importantes para a argumentação,
forçando o leitor a praticar a "leitura por pistas". Além disso, a divisão
da obra é tal que sua parte principal não está escrita, mas apenas

8. Este assunto será tratado em detalhe no próximo capítulo.

307
Iniciação ao silêncio

sugerida, exigindo do leitor o penoso trabalho de encontrar por si só


o sentido da vida. Essas táticas sugerem que Wittgenstein realmente
tenta estabelecer no Tractatus uma estratégia de argumentação cuja
peculiaridade é ser autofágica no dizer e clarificadora no mostrar.
Nessa perspectiva, a "Introdução" de Bertrand Russell realiza
pelo menos um de seus objetivos: apresentar Wittgenstein e promover
sua aceitação na comunidade filosófica. O segundo . objetivo, todavia,
que seria preparar adequadamente o leitor para a leitura da obra, não
é alcançado: em virtude de seus inúmeros equívocos, a "Introdução"
de Russell dificulta ainda mais a compreensão da obra notoriamente
difícil que é o Tractatus.

308
PRINCIPAIS ESQUEMAS
ARGUMENTATIVOS UTILIZADOS
NO TRACTATUS

1 - Observações prel iminares

e orno sabemos, o principal objetivo do Tractatus é mostrar não só


que existem limites para nossa linguagem, que é essencialmente
descritiva, mas também que nossa vida envolve uma dimensão supe­
rior, de caráter eminentemente intuitivo, que se encontra além dos
limites da descrição. A expressão mais elevada da descrição é a ciên­
cia natural; a expressão mais elevada da dimensão superior é a expe­
riência mística, que, para ser obtida, requer muita disciplina e um
tremendo esforço pessoal. Já vimos que isso exige uma estratégia
argumentativa específica, da qual tivemos alguma comprovação a partir
da