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menos

um

que razão a biologia

lni::câ,ní,:::a, uma

vez

afastada

a

inc:ongnlêI1CÍli.

contrário,

tornou-se

possível

mostrar

que CL Ber-

nard restabelecera, numa nova conjuntura concep- tual, a causalidade específica da força vit3.1 que os cartesianos cOllsidenwam como mágica;, porque actuava segundo uma modalidade política (o poder do rei sobre os súbditos) e não segundo a modali- dade mecânica própria do funcionamento de um

polí-

tica sob a qual se manifesta

a

democracia liberal». G. Canguilhem

relógio. Convém notar, aliás, que a modalidade

de Cl.

«é menos

a força vital no discurso

o absolutisn'tO

real

que

a fisiologia que dá a chave da totalização

oq~aIÜCl31, chave que a anatomia não

necer. Os órgãos, os sis:telrna"s de um organismo

altamente diferenciado, não existem por si mes- mos, nem uns para os outros enquanto órgãos ou sistemas, mas existem para as Ias e para os inúmeros radicais anatórnicos que lhes criam o meio interior, de composição cons- tante através da compensação de desvios que lhes é necessária. De tal modo que a sua asso-

ciação, quer

fornece aos elementos

o meio colectivo de viver

soube for-

dizer- a sua relação

de tipo social,

46

vida separada. «5e pudéssemos realizar a os instantes um meio idêntico ao que acção das partes vizinhas cria contInuamente um organismo elementar dado, este viveria liberdadeexactamente como em sociedade» última frase é de Cl. Bernard, iu «Leçons

les phénomenes

de Ia vie communs

aux ani-

et aux végétaux»

(1878), 9." lição).

(Canguilhem,

«Le toutet

la

partie

dans

Ia

pensée biologique.»

Philosophie

Études

d'histoire

et de

des Sciences, p. 330.)

leva-nos a uma nova

refere

à biologia;

«pequena

diferença,}

no

as formações

ideológicas

na biolo-

tal maneira que não são pura e simplesmente lora de jogo pela produção científica dos con- daí resulta uma vulnerabilidade específica da

(concepções

do mundo)

intervêm

quanto à exploração

do mundo podem exercer sobre ela. Tudo

de demar-

que as diferentes

con-

como se em biologia as «linhas

devessem constantemente ser traçadas de

se

a

um

que

electricidade»

há já

século,

os; «que

calmos

estão bastante

respeito.

A propósito

dos problemas

políticos

ao vitalismo,

G. Canguilhem

declara:

«o

está em questão, no caso da explora-

pelos sociólogos

nazis dos

levada

a efeito

biológicos antimecanistas, é o pro- da relação entre o organismo e a socie-

Nenhum biologista, enquanto que tal,

cuja

dar

a este

problema

uma

resposta

de autoridade

se encontra

unicamente

factos

biológicos.»

(Canguilhem, La Connaissance de Ia Vie, p. 98.)

47

MICHEL

PHCHJ:.':UX·

MICHEL

FICHANT

Ê daro

que uma

dedaraçãoanáloga,

respeitante

à física, é dificilmente •

Mas,

obje~tar.se.á,

irnagináveletotalmente •· opleSlll?pão se passa hoje: já

·•••·.·.<i>i><

•·.•· ··•

•.·•.•· ·.·

vero·

não vclTIosapolítIca interyirl10dissursoactttal dos

biologistas

análise. qpc;flão in'~l11osago:rart:;ferir.ACrescentemos

é

apellZlsqtlcse a intervenção da ideologia política

hojeII1enÓ$ .~yidente,é também

e a. c()nfiguração da ideologia política dominante, tomam muitas vezes uma nova forma, mais subtil,

qilC podemos designar por ideologia da comunica-

çé1o: hoje já não se convida directamente

tes elementos

para cooperar, mas incitam-se a comunicar. Por outras p!flavras, a ideologia da associação das for- ças individuais (ideologia que se disfarçava de eco.

se·

gundo· pláno pela. ideologia da comunicação como circulação da infar/nação (ideologia. que se tinge voluntàriamente de linguística). Cabe·nos precisar

que a. observação não põe de modo algum em

causa a importação de certos conceitos linguísticos

pelas pesquisas

apenas

tico do grande animal social (como se dizia no tempo

se

poderia

informáticas

da

electricidadé e da biologia em relação à física. Odes- vio que efectuámos permite compreender que «as pequenas diferenças» que caracterizam at3 posições relativas passam pela relação que estas ciências

nomia política) é, neste ponto,

Althusser

f~zso~~·eest~· •.particular

uma

porque .05. conteúdos,

os diferen-

de um sistema

social a associarem-se

relegada

para

teóricas

de genética molee;ular, mas

imagética

ao problema

polí-

que

tornou-se

hoje

° que

a sua aplicação

Comte),

de Auguste

chamar

~>,

«a unidade integrada das trocas

à questão

das posições relativas

Regressemos

mafltêm

com

o seu exterior,

quer

dizer,

com

os

seus efeitos extracientíficos.

48

objectar: «Porque procurar tão longe? duas ciências define·se pela relação

objectos.

Ê bem claro

é em si homogêneo

que o objecto

ao objecto

da

que

o objecto

inscrito

na «natureza

da

das

biologia

coisas»,

difere

para

tal, é necessário

supor

que

de uma ciência está escondido que esta ciência o descubra,

em qualquer

como um

Páscoa escondido

num grande

jardim;

é ne~

supor

segundo

que o jardim

uma

orga-

na

das d.iferentes ciências que o

do mundo

que

está

disposição

se reflecte

relativa

a seguinte proposição: «as relações as ciências reflectem a ordem do mundo»,

que é ideológica, quer dizer que é falsa na

que visa,

do

é o sintoma

em

que

diz respeito

ao

objecto

de uma realidade

diferente

é sintoma do facto

de as rela·

várias

disciplinas

conteúdo

pelo

não

estarem

científico

regu-

destas

pois

outra

coisa

intervém,

seus efeitos extracientíficos.

ou seja,

o

mostrou

num curso precedente que

mantém

com os seus efeitos

(espedfica-

o ensino e a aplicação) uma relação tal que,

dada

ciência, a prática

teórica

de produ.,

conhecimentos

domina as práticas

de ensino

por

da relação

110SS0

lado, um novo problema,

disciplinas den.

entre várias

49

MICHEt

Plt(~m~U]~.MICHEL FICHANT

tíficas,

que',

pode" ser resolvidO

con1 a. condição

de fazer

qual

disciplinasse

outras

daI

ção material queiconstitui o elemento dominante a

da relação his-

umdeslocam.ento

intervir

dCltónica,

pelo

Por

a prática'

palavras,

que, domina,ateIaçãoientre.várias

torna

é aquiqtleresidea,relaçãodiferen~

aprática<daapllcação."

entre'.,as.forrnas·., deapliCâçãotécnicaàprodu~

do qual se

regula

o, problema

as duas disciplinas;

',,'

,

partir

tóricaen.tre

Se aplicarmos ção entre a física

que a física

cluindo

domínio

mentos

processo

biologia

enquanto

balho

encontra

este princípio e a biologia, que

os

ramos

encontram

na

(meios

ao problemadarela-

somos

levados

lhe

são

adizer

in-

seu

instru-

em

e

conexos,

o

a qUlmica"

de

de

histôricamente

dos

aplicação

trabalho

de

o

manutenção

se combina

transformação

de produção)

econômico

prática

postos

jogo

no

produção

seu

na

e que

a

medicina,

de

tra-

de tr(3,ba-

da

da força

e adaptação

com

que

o instrumento

lho no processo

de aplicação

.de produção

económica. A prática

ao lugar

da biologia

refere-se portanto

específico

animal

humano

como

elemento

das

forças

produtivas.

 

Precisemos

um

ponto:

a

força

de

trabalho

não

se. confunde com a força motriz desenvolvida pelo

animal. Mesmo quando

«como um boi», importa distinguir entre a produção da força muscular e a actividade de direcção desta força, que

é precisamente

(a utili-

zação

ohjeoto

um

a força de trabalho. Os animais são

mia rural o homem trabalha

em certas formas

literalmente

de eeemo-

quer uma

do

de

parte

cavalo

do instrumento

de

tiro

por

(criação

de trabalho

exemplo),

fins

quer

trabalho

para

alimentares.

por exemplo, quer até objectos ideológicos (os cava-

los de corrida,

por

exemplo),

diferença,

de aplicação, não resulta

Esta

respeitante

ao lugar

das práticas

portanto

de uma imutável

50

<(I Ia lureza das coisas), ela surge ligada à tl'ansfor-

1~I;H;fío histórica lnico: o século

se torna

do

XIX,

processo

de

produção

econó-

em

biolo-

do

a

que representa

o momento

e

a

que

l;ia,

:;!.:l'VO

scodefinem

é

tambÓTl

das

c

as relações entre

aquele

em que

a física

o homem

no

máquinas,ferramentas

onde

a

divisão

do

Irabalho,

processo.

trabalho

implica

dos

trabalhadores

como

partes

do

de

um

As

rcprcscntaçÓcs

imaginárias

organismo

inquietaram

oíllcon:_cicntc

tcórico do século

o organislllo

um

lado,

COIIIOllnl conjunto

corno

de máquinas"

() organisnlO

socíed~lde de ele.

por

"surgem assim, postcriorrnente, como pro- ou deform,H,:Ües do que se passa 1l0utro local,

da

concluir,

para a manutenção

conspirando

do todo

no processo

de prodw,:ão

que

econÓmico.

rep;:;Lrc-se

a vulncrahílidade

biológica

ás

explora(;Ócs

pelas

concepçÔes

dominantes,

vulncrahilidadc

pelos

a

problemas

nos

especí-

de produ-

que

atrás,

da aplicação

económica.

se

explica

da biologia no processo

Esta

aplicaçào

apresenta-se,

com

a

maior

parte

das

vezes,

ao

mesmo

tempo,

uma

normalização

da, força

de trabalho

e como

organização

das relações s'ociais.

da normalização,

escreve

G. Canguilhem:

«Normal

é

para

o

termo

que

o

século

designar

o protótipo

A reforma

de saÚde orgânico.

XIX

vai

escolar

e

da medi-

teórica

baseia-se

na reforma

da medicina

está

estreitamente

ligada

à

reforma

Reforma hospitalar, e reforma peda-

exprimem

uma

exigência

dt~ racionali-

que surge também na política, como

na

economia

sob o efeito

do maquinismo

nascente, e que irá finalmente cons-

51

MICHEL· P:e;CHEUX· MICHEL

FICHANT

tituir

malização.»

o que

posteriorment~sechamou

LeNormal

«

etl~

a nor~

(Canguilhem,

p. 175.)

Páthologique.

.

Quanto à. orgç{J2izaçãodasr~lações sociais ela põe à hiologia llm problema que esta não pode por si sÓ resolver cient'ificamente, o· que, bem entendido, não significa de modo nenhum que ela não interve~ nha activamente nesta questão, mas sob afonna

de uma

ciências

reinscrição

humanas.

ideológica

na

conjuntura

das

Sintetizemos

os resultados

parte

da análise:

obtidos nesta

segunda

Proposição

7: As relações

entre

duas

disciplinas

a forma

científicas

um apoim·-se. Podem igualmente tomar a forma da

subordinação. Por exemplo, a física e a química, es- tão numa relação de subordinação em relação à bio- logia enquanto que disciplina centífica específica

a resposta à questão levantada pela

proposição

Proposição 8: Existe pelo menos uma disciplina científica - a biologia - para a qual as concepções do mundo não são pura e simplesmente postas fora de jogo, corno na física. Isto constitui a resposta

à questão posta na proposição

(isto constitui

de

não tomam

necessàriamente

2).

3.

Perguntamos: não estarão no mesmo caso outras

disciplinas?

Proposição 9: As diferenças enunciadas nas pro- posições 7 e 8 explicam-se pela diferença entre os domínios de aplicação da física, por um lado, e da biologia. por outro, ou seja, a diferença entre o

52

DAS CIENCIAS

dos instrumentos

para

do processo

de produ-

da

a primeira,

e o elemento

trabalho

para

a segunda.

: existem outros casos de diferença Quais são os seus efeitos específicos?

53

o curso

sobre

o efeito do corte galilaico na

apresentaram-nos

refere-se

as seguintes

à relação

aplicou

na

sua

teoria

questões:

primeira

entre

os princípios

Newton

e

se Coulomb

newtoniana

da di·

electrostática

qq'

k. ~

)

então

tudo

estava

oreparado

com

 

mm'

e a sua fórmula

f

:::.:::k.

d2'

tudo estava preparado, à excepção da possi· de pôr em relação o newtonismo e a teoria

e foi necessário um século para afastar

obstáculo

a Coulomb.

que entravava

Descrevemos

o caminho

a deste pequeno obstáculo, para mostrar que se tratava de um infeliz acaso, de uma má von·

Justamente

da ciência eléctrica, que se tinha atrasado por coquetterie que leva a mais desejada a chegar vezes em último lugar. Esperemos que

compreendido

voltaremos

que de outra

ao assunto,

coisa se tratava,

segunda

exemplos

questiio

reporta-se

ao

paptc:l

«pitorescos»

que utilizámos

e lugar

a propó~

política, da moral e da religião. Disseram·nos

55

MICHEL

P~CHEUX·

MICHEL

FICHANT

que os exemplos eram belos, mas helosdemais! Não

o reverso destes

sintomas, o lugar real da ligação entre as ideolo-

gias teóricas da electricidade e do magnetismo e

seria possível analisar brevemente

as teorias

políticas, morais· e>l'eligiosas que aí se

juntam?

repele-sec.omel1tarem.a si mesmo»os a expressãO(citado por«oBachelardfluido eléctricoacerca da electricidade no século XVIII) pondo-a em rela- ção com a lei hegeliana dos contrários, todas as coisas se negam a si próprias para se transformarem no seu oposto. A propósito do magnetismo, Hegel

l'Encyclopédie des Scien-

ces Philosophiques (segunda parte, «filosofia da

escreveu no seu Prccis de

natureZl:'l»,segunda secção: {(física»):

«A lei do magnetismo form.ula-se assim: p6los do mesmo nome repelem-se, e pólos de nome diferente atraem-se, os do mesmo nome opõem~

-se,

e

a oposição entre os do mesmo nome, não são pois, de um modo geral, fenômenos subsequen- tes ou ainda particulares em relação aum mag- netismo presumido, mas exprimem a própria natureza do magnetismo e assim a natureza do

conceito

O acordo

os

de

nome

diferente

conjugam-se

diferente

entre

os pólos

de nome

quando

se apresenta,

como actividade,

nesta

esfera.)

(Regel, Précis de l'En.cyclopédie, Vdn., 1952,

p. 119.)

Ora Regel indica ,tlgumas linhas acima que a actividade do conceito consiste em «postular o idên- tico como distinto e o distinto como idêntico», Ve.mos aqui em acção, sob um dos seus aspectos, o princípio dialéctico hegeliano da negação, princí- pio que· marca desde há um século a maior parte

56

filosofias da consciência moral, política, reli. etc.: o destino da consciência (moral, política,

que

)

não

é negar-se

é,

quer

a si mesma

dizer,

fugir

para

e

sair

se tornar

de

si,

à

desta estranha matéria eléctrica, que no XVIII se dizia «ser repulsiva a si própria». Fenómeno notável da história das ideologias este

qual a filosofia da Natureza restituiu às ideo· morais, políticas e religiosas o que estas lhe emprestado.

57