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Como se prepara o novo terremoto financeiro

POR REDAÇÃO
– ON 16/09/2018
CATEGORIAS: CRISE FINANCEIRA, DESTAQUES, MUNDO, POSTS

Dez anos depois da crise de 2008, ex-premiê britânico expõe os ingredientes fatais: bancos sem
controle, Estados e sociedades devastados pela “austeridade”, descoordenação global e disputa
Ocidente X China

Gordonn Brown, entrevistado por Larry Elliott, no Guardian | Tradução: Inês Castilho

Um mundo sem líderes avança como sonâmbulo para a repetição do colapso econômico do fim de
2008 e inicio de 2009 — porque falhou em remediar as causas da crise financeira de uma década
passada – alertou o ex-primeiro ministro Gordon Brown. Primeiro-ministro britânico durante o
período em que o colapso do banco de investimentos norte-americano Lehman Brothers colocou todos
os maiores bancos em risco, ele disse que após uma década de estagnação a economia global está
agora se dirigindo para uma década de vulnerabilidade.

Falando ao Guardian de sua casa na Escócia, Brown fez uma análise contundente de como os grandes
problemas de 2009 permaneceram sem solução, e afirmou ser necessária uma ação muito mais dura
para evitar fraudes por parte dos banqueiros.

Brown foi fundamental na criação do G20 – um órgão formado pelas principais nações desenvolvidas
e em desenvolvimento do mundo –, mas disse que a cooperação que ajudou a evitar uma segunda
Grande Depressão foi substituída por um mundo no qual os países refugiaram-se em silos
nacionalistas. “Corremos o perigo de caminhar como sonâmbulos para um crise futura”, disse Brown,
quando lhe pediram para avaliar os riscos de uma repetição de 2008. “Terá de haver um severo
despertar para a escalada dos riscos, mas estamos num mundo sem líderes”.

O ex-primeiro ministro, que liderava um governo trabalhista e perdeu as eleições de 2010 após a
recessão mais longa e profunda da era pós-guerra da Grã-Bretanha, disse haver agora menos espaço
para reduzir as taxas de juros do que há dez anos, nenhuma evidência de que os ministérios das
finanças teriam permissão pra cortar impostos ou aumentar gastos públicos e nenhuma garantia de que
a China seria tão ativa na oferta de estímulos.

“A cooperação que foi vista em 2008 não seria possível numa crise pós-2018, tanto em termos de
bancos centrais como de governos trabalhando juntos. Teríamos um exercício de transferência
incessante de culpas, em vez de respostas ao problema”. À luz da guerra comercial lançada pelos EUA
contra Pequim, Brown duvidou que a China fosse tão cooperativa numa segunda vez. “O
protecionismo de Trump é a maior barreira para construir a cooperação internacional”, disse.

Depois de suceder Tony Blair no cargo de primeiro ministro, em junho de 2007, Brown teve apenas
uma curta lua de mel antes e surgirem os primeiros sinais de problema. Ele disse que ainda falta, na
economia global, um sistema de alerta precoce para monitorar os fluxos financeiros, capaz de informar
o que foi emprestado, para quem, e em quais termos. “Temos lidado com as pequenas coisas, não com
as grandes”, disse ele.

Brown admitiu que o trabalhismo deveria ter sido mais duro contra a City (o centro financeiro global
situado em Londres), nos anos de expansão que levaram à crise. “Nós não sabíamos o que estava
acontecendo em várias instituições, algumas delas ilegais e que estavam sendo acobertadas”. Mas
insistiu em que o clima na época era de desregulamentação ainda maior das finanças. “Eu era criticado
por ser muito duro em termos de regulação e impostos”.

Desde a crise, os bancos foram forçados a reservar mais capital para proteger-se contra possíveis
perdas, e introduziu-se um sistema de restituições de bônus, para dissuadir os banqueiros de assumir
muitos riscos. Mas Brown disse que as ações contra as piores práticas financeiras não foram
suficientemente duras, e os bancos esperam ser novamente socorridos no caso de uma futura crise. “As
penas para fraudes não aumentaram suficientemente. Os banqueiros não têm medo de ser presos por
mau comportamento. Não se enviou mensagem forte o suficiente de que o governo não irá resgatar
instituições que não colocaram a casa em ordem.”

A crise de 2008 teve raízes no mercado imobiliário dos EUA, quando os prejuízos sofridos pelas
hipotecas subprime espalharam-se como dominó no interior do sistema financeiro global, até levar ao
colapso do banco financeiro norte-americano Lehmans Brothers [em 15 de setembro de 2008]. Brown
disse que da próxima vez a causa seria diferente. “É muito difícil dizer o que irá dispará-la [a próxima
crise], mas estamos no final do ciclo econômico em que as pessoas assumem riscos maiores. Há
problemas nos mercados emergentes.”

Brown disse que uma área de preocupação deve ser o pesado crédito comercial e industrial oferecido
por bancos-sombra pouco ou nada regulados, num momento em que as taxas de juros dos EUA estão
subindo. “[A crise] Pode surgir na Ásia, por causa da quantidade de empréstimos no sistema bancário
paralelo”. O ex-primeiro-ministro do Reino Unido acrescentou: “Num mundo interconectado há uma
escalada dos riscos. Tivemos uma década de estagnação e agora estamos próximos de uma década de
vulnerabilidade”.

Recordando a paralisia dos mercados financeiros, uma década atrás, Brown disse que os governos
tentaram compensar a falta de confiança entre os bancos cooperando mais de perto. “Na próxima crise,
um colapso da confiança no sistema financeiro seria ampliado pelo colapso da confiança entre os
governos. Não haveria a mesma vontade de cooperar, mas sim uma tendência a culpar um ao outro
pelo que deu errado.

“Os países se retraíram em silos nacionalistas, e isso nos trouxe o protecionismo e o populismo.
Problemas que são globais, assim como nacionais e locais, não estão sendo enfrentados. Os países
estão em guerra uns com os outros sobre comércio, mudanças climáticas e proliferação nuclear.”
Brown foi contundente a respeito das políticas de “austeridade” perseguidas pela coalizão que assumiu
o poder depois dele perder as eleições de 2010. “A ‘austeridade’ baseava-se numa análise de que a
causa da recessão global era o alto nível de dívida pública, ao invés da ação irresponsável do sistema
financeiro. Ninguém que tivesse olhado para o problema seriamente chegaria a essa conclusão, mas os
conservadores mantiveram tal postura durante cinco anos.”

O problema, acrescentou Brown, não foi que o governo tomou mais emprestado para impulsionar o
crescimento, mas que o estímulo não foi grande o suficiente. “Nós subestimamos o poder da política
fiscal por causa de uma aversão a déficits e dívida. Voltamos a crescer rapidamente, mas não pudemos
sustentar o crescimento por causa da consolidação fiscal excessivamente rápida. Saímos da recessão
em 2009 mas voltamos a ela em 2011. Por que? A retirada de apoio do governo nos custou empregos e
prosperidade, mas também a capacidade de reduzir o déficit no longo prazo.”

Indagado se a atual primeira-ministra, Theresa May, concordava com a análise de Brown, seu porta-
voz disse, na quinta-feira: “Não. Desde 2008 nós construímos um dos sistemas regulatórios mais
robustos no mundo, projetado especificamente para garantir estabilidade financeira e proteger os
contribuintes”. Questionado se o Reino Unido não sofreria consequências adversas, mesmo com o
possível afrouxamento da regulamentação nos EUA, o porta-voz disse: “Nos últimos anos,
reformamos a regulamentação da City e implantamos um sistema incrivelmente robusto, um dos mais
robustos do mundo, certificando-nos ao mesmo tempo de que é globalmente competitivo. Tomamos
medidas para nos certificar de que nosso sistema é resiliente e robusto.”