Você está na página 1de 7

LEWIS, Bernard. Os Árabes na História. Lisboa: Editorial Estampa, 1994.

- Dificuldade de definição étnica sobre o que é um árabe e sua possível nacionalidade

- O que definiria um árabe? A língua comum? Mas e os cristãos que falam árabe?

“Num encontro efetuado há alguns anos atrás entre vários chefes árabes, árabe foi
definido do seguinte modo: “Todo aquele que vive no nosso país, fala a nossa língua, é
educado na nossa cultura e tem orgulho na nossa glória é um dos nossos”. Camparemos
estas palavras com a definição produzida por uma fonte ocidental autorizada, o
Professor Gibb de Havard: “São árabes todos aqueles para quem a missão de Maomé e a
memória do Império Árabe constituem o cerne da história e que preservem a língua
árabe e a sua herança cultural como patrimônio comum”. Note-se que nenhuma das
definições é puramente linguística. Ambas introduzem um requisito cultural, e uma,
pelo menos, um requisito religioso”. (p. 14).

- Significado da palavra:

“[...]. Mais profícuas se revelaram as tentativas no sentido de estabelecer a ligação entre


essa expressão e o conceito de nomadismo. Foram diversos os métodos empregados:
relacionando-a com o hebraico ‘Arabha – terra escura ou estepe; com o hebraico ‘Erebh
– misturado e, portanto, desorganizado por oposição à vida organizada e ordenada das
comunidades sedentárias, rejeitadas e desprezadas pelos nômades; com a raiz ‘Abhar –
mover ou passar – de que deriva, provavelmente, a nossa palavra hebreu. A relação com
o nomadismo é comprovada pelo fato de os próprios árabes terem usado, ao que parece,
esta expressão, em tempos recuados, para distinguirem os beduínos dos habitantes de
língua árabe das cidades e aldeias, distinção que se mantém, em certa medida, até hoje”.
(p. 15).

“[...]. Heródoto e, depois dele, muitos outros escritores gregos e latinos estenderam as
expressões Arábia e Árabe a toda a península e a todos os seus habitantes, incluindo os
Árabes do Sul e o deserto a leste do Egito entre o Nilo e o Mar Vermelho. Nesta época,
a expressão parece abranger, pois, todas as regiões desérticas do Próximo e Médio
Oriente, habitadas por povos de língua semítica. É igualmente na literatura grega que a
expressão Sarraceno começa a ser divulgada. Aparece pela primeira vez nas antigas
inscrições, supondo-se que seria o nome de uma única tribo do deserto da região do
Sinai. Na literatura grega, latina e talmúdica é usada em relação aos nômades em geral,
e em Bizâncio e no Ocidente medieval foi, posteriormente, aplicada a todos os povos
muçulmanos”. (p. 16).

“Só depois do surgimento do Islão em princípios do século VII, viemos a ter


informações concretas quanto ao uso da palavra no centro e Norte da Arábia. Para
Maomé e seus contemporâneos, os Árabes eram os beduínos do deserto e no Alcorão a
expressão é usada exclusivamente neste sentido e nunca em relação ao habitantes de
Meca, de Medina ou de outras cidades. Por outro lado, a língua falada nessas cidades e a
do próprio Alcorão é designada por língua árabe. Aqui encontramos já em embrião a
ideia dominante em épocas posteriores de que a forma mais pura de Árabe é a dos
beduínos, os quais preservaram com maior fidelidade do que quaisquer outros o modo
de vida e a língua árabe originais”. (p. 17).

“[...]. Durante este primeiro período da história islâmica, quando o Islão era apenas uma
religião árabe e o Califado um reino árabe, o termo “Árabe” aplicava-se àqueles que
falavam árabe, eram membros por descendência de uma tribo árabe e, pessoalmente ou
através dos seus antepassados, eram originários da Arábia. Estabelecera a distinção
entre eles e a multidão de Persas, Sírios, Egípcios e outros que as grandes conquistas
haviam submetido ao domínio árabe, e constituía como que o rótulo do novo povo
imperial excluindo os que não pertenciam à “Casa do Islão”. (p. 18).

“A partir do século VIII, o Califado foi-se transformando gradualmente de um Império


Árabe num Império Islâmico, em que o acesso à casta dominante era determinado mais
pela fé do que pela origem. À medida que um crescente número de povos conquistados
se ia convertendo ao Islão, a religião deixou de ser o culto nacional ou tribal dos
conquistadores árabes e adquiriu o caráter universal que manteve até hoje. O
desenvolvimento econômico e o termo das guerras de conquista, que tinham constituído
a principal atividade produtiva dos Árabes, deu origem a uma nova classe dirigente de
administradores e comerciantes, de raça e língua heterogêneas, que desapossou a
aristocracia militar árabe criada pelas conquistas. Esta mudança refletiu-se na
organização do governo e dos seus funcionários”. (p. 18).

“Num ensaio sobre Maomé e as origens do Islão, Ernest Renan observa que,
diferentemente de outras religiões envoltas em mistério nas suas origens, o Islão surgiu
sob a luz crua da história. [...]. Ao fazer esta observação, Renan referia-se ao abundante
material biográfico fornecido pelo Sira, biografia muçulmana tradicional do Profeta”.
(p. 43).

- o comportamento do fiel deveria se pautar no Alcorão e no Hadith (Tradições,


pregações de Maomé)

“O período que se seguiu à morte do Profeta foi de intenso desenvolvimento da


comunidade islâmica. Houve toda uma série de questões e de conceitos novos, de ordem
social, política, legal e religiosa, que penetraram no Islão trazidos pelos povos
conquistados, e muitas das ideias e soluções encontradas foram transpostas para o
passado e postas na boca do Profeta através de Hadith forjados. Esse período foi
também de violentos conflitos internos entre indivíduos, famílias, facções e seitas no
seio da comunidade islâmica. E todos eles não encontraram melhor forma para defender
a respectiva causa senão produzindo Hadith atribuídos ao Profeta, em apoio do ponto de
vista desejado”. (p. 44).

- influências judaicas e cristãs sob Maomé

“[...]. É evidente que esteve sujeito a influências judaicas e cristãs. Atestam-no os


próprios conceitos de monoteísmo e de revelação assim como os múltiplos elementos
bíblicos contidos no Alcorão. No entanto, Maomé não leu a Bíblia. A tradição
muçulmana diz-nos que era iletrado. Pode ser ou não verdade, mas as suas versões de
episódios bíblicos sugerem que os seus conhecimentos da Bíblia foram adquiridos por
via indireta, provavelmente através de comerciantes e de viajantes judeus e cristãos,
cujas informações sofreram influências um tanto ousadas e apócrifas”. (p. 46).

- a conversão de Maomé e seu posterior ataque à religião em Meca enfureceu as elites


locais. (o autor não vê essa questão como uma luta de classes..):

“[...]. Um autor do século XIX tentou apresentar a luta travada entre a comunidade
muçulmana recém-surgida e a oligarquia de Meca como um conflito de classes em que
Maomé representava os mais desfavorecidos e a sua revolta contra a oligarquia
burguesa instalada no poder. Muito embora esta perspectiva sobreleve um aspecto
particular da pregação de Maomé em detrimento dos restantes, contém muito de
verdade, na medida em que ele foi buscar o seu apoio inicial junto das classes mais
pobres e a oposição desencadeada por Meca teve na origem razões de ordem
essencialmente econômica. A sua motivação assenta em duas ordens de fatores. A
primeira e mais importante tem a ver com o receio de que a abolição da antiga religião e
do estatuto de que gozava santuário de Meca a privassem da sua situação única e
privilegiada como centro não só de peregrinação, mas também de negócios. A segunda
prende-se com a contestação das pretensões de alguém que não pertencia a uma das
famílias dominantes. Ainda que econômica nas suas motivações, a oposição
manifestou-se mais no campo político do que no religioso, acabando por conduzir
Maomé à ação política”. (p. 47).

- A migração de Maomé de Meca para Medina:

“[...]. O povo de Medina tinha convidado Maomé não tanto por ser um homem de Deus,
mas por se tratar de um homem possuidor de um espírito e de uma força invulgares,
capaz de arbitrar e resolver as suas dissidências internas. O Islão foi-lhes útil,
incialmente, não tanto como uma nova religião mas como um sistema que lhes oferecia
segurança e disciplina. Ao contrário da população de Meca, não tinham qualquer
atração pelo paganismo e estavam prontos a aceitar, sob determinadas condições, o
aspecto religioso do Islão, desde que este fosse ao encontro das suas necessidades
políticas e sociais”. (p. 48).

- O governo de Maomé em Medina deparou-se com graves dificuldades. Alguns locais


não faziam oposição política por ele ser um “estrangeiro”; os judeus, que mesmo o
Profeta adotando algumas práticas judaicas como o jejum e a oração voltada para
Jerusalém, rejeitaram o Profeta Gentílico e opuseram-se-lhe a nível religioso. Maomé
abandonou as práticas judaicas, substituiu a oração para Meca e conferiu ao Islã um
caráter árabe e nacional. (p. 49).

“A Umma tinha, portanto, um duplo caráter. Por um lado, era um organismo político,
uma espécie de tribo nova de que Maomé era o Sheikh e os Muçulmanos e os outros os
seus membros. Todavia, possuía simultaneamente um significado essencialmente
religioso. Constituía uma comunidade religiosa, uma teocracia. Os objetivos políticos e
religiosos nunca se apresentavam realmente dissociados, nem na mente de Maomé, nem
da dos seus contemporâneos. Tal dualismo é inerente à sociedade islâmica, de que a
Umma de Maomé é o gérmen. Naquele momento e naquele lugar era inevitável que
assim fosse. Na comunidade árabe primitiva, a religião tinha de ser expressa e
organizada politicamente, já que nenhuma outra forma era viável. Só a religião podia
cimentar o estado entre os Árabes, para quem o conceito de autoridade política era
totalmente estranho”. (p. 51).

“[...]. A batalha de Badr ajudou a estabilizar a comunidade e marcou o inicio de um


novo tipo de revelação. A partir de então, as revelações de Medina são muito diferentes
das de Meca, referindo-se aos problemas práticos do governo, à distribuição do produto
das pilhagens e questões semelhantes. A vitória tornou possível uma reação contra os
Judeus e, por fim, também contra os Cristãos, agora acusados de falsificarem as suas
escrituras de modo a ocultar as profecias relativas ao advento de Maomé. O próprio
Islão começou a transformar-se. Maomé pregava agora, claramente, uma religião nova,
de que ele era o “Selo dos Profetas”. Essa nova religião era mais estritamente árabe, e
com a adoção da Caaba de Meca como local de peregrinação, a conquista da cidade
tornou-se um dever religioso”. (p. 52).

- No Ocidente Maomé tomou ares lendários e demoníacos, seja com Dante ou com
Voltaire. Também foi visto como um cardeal ambicioso que pretendia ser papa e
frustrado em seu intento tentou a carreira de falso profeta.

“A substituição dos Omíadas pelos Abássidas na chefia da comunidade islâmica


constituiu algo mais do que uma simples mudança de dinastia. Foi uma revolução na
história do Islão, uma viragem tão importante quanto as revoluções francesa e russa na
história do Ocidente. Eclodiu não como resultado de uma conspiração palaciana ou de
um coup d’état, mas por força de uma vasta e bem sucedida propaganda e de uma
organização revolucionária, representando e expressando o descontentamento de
elementos importantes das populações face ao regime anterior, o qual se foi
intensificando ao longo do tempo”. (p. 93).

- motivos para a revolução

“É na insatisfação socioeconômica da população urbana menos favorecida,


designadamente dos mercadores e artesãos mawali que proliferavam nas praças fortes
fundadas pelos Árabes, que a força impulsionadora da revolução deve ser procurada. O
fim das guerras da conquista, única atividade produtora da aristocracia árabe, classe
dominante do reino omíada, veio tornar essa classe historicamente redundante, abrindo
caminho ao estabelecimento de uma nova ordem social assente numa economia serena,
agrícola e comercial, com uma classe cosmopolita dominante de funcionários,
comerciantes, banqueiros, proprietários rurais e os Ulama, classe de sábios, juristas,
professores e dignitários religiosos, que constituíam o correspondente islâmico mais
próximo do clero. A missão foi facilitada pela inércia política e pelas dissenções
internas dos próprios Árabes e pela desertação de muitos deles do movimento
revolucionário”. (p. 94-95).

- Abássidas e o desenvolvimento do Estado:

“A mudança de dinastia conclui um processo de desenvolvimento na organização do


Estado, que havia sido iniciado já na época dos Omíadas. Do Sheikh tribal que
governava com o acordo relutante da casta árabe dominante, passava-se ao Califa
autocrata, proclamando a origem divina da sua autoridade, apoiando-se nas suas forças
armadas regulares, e exercendo-a através de uma burocracia assalariada. A importância
crescente da força como elemento de autoridade é evidenciada pela situação influente
detida pelo executor na corte abássida [...]. No novo regime, a linhagem deixou de ser
um elemento de promoção, contanto apenas as boas graças do soberano, e a aristocracia
árabe deu lugar a uma hierarquia de funcionários. A nova dignidade do Califa traduziu-
se em novos títulos. Já não era o representante do Profeta de Deus, mas muito
simplesmente o representante de Deus, de quem recebia diretamente a sua autoridade.
[...]. O Califado Abássida foi, pois, uma autocracia assente na força militar, e
reivindicando um direito quase divino. Os Abássidas eram mais fortes do que os
Omíadas na medida em que não dependiam do apoio dos Árabes, podendo governar
sem recorrer à persuasão. Por outro lado, eram mais fracos do que os antigos
despotismos orientais na medida em que lhes faltava o apoio de uma classe feudal e do
clero”. (p. 97).

“Os Abássidas chegaram ao poder na crista de uma vaga religiosa, e tentaram conservar
o apoio popular acentuando o aspecto religioso da sua autoridade. Observa-se entre os
primeiros Califas Abássidas um aliciamento persistente dos chefes religiosos e
jurisconsultos e uma insistência, pelo menos em público, na observância do bom gosto
religioso. Segundo as palavras de um historiador árabe posterior: “Esta dinastia
governou o mundo com uma política que era um misto de religião e de realeza, o
melhor e o mais religioso dos homens obedecia-lhes por força da religião e os outros
por receio”. (p. 98).

“Os Abássidas levaram a cabo vastas obras de irrigação, com a ampliação da área de
terras cultivadas e drenagem de pântanos, e os historiadores referem colheitas elevadas.
A revolução deu aos camponeses maiores direitos de propriedade e um sistema mais
equitativo de tributação, tendo por base a percentagem da colheita, em lugar de uma
taxa fixa, como anteriormente. A situação do camponês continuava, porém, a ser
precária, e com o correr dos tempos foi-se agravando por força das especulações de
ricos comerciantes e proprietários rurais, e através da introdução de mão de obra escrava
nas grandes propriedades, que contribuiu para a degradação da situação econômica e
social da mão de obra livre”. (p. 99).

“Quando os Abássidas transferiram a sede do Califado da Síria para Bagdade, o


interesse do governo central pelo Mediterrâneo decresceu, conquanto os governadores
muçulmanos, independentes, do Egito e do Norte da África mantivessem frotas que
dominavam o Mediterrâneo de uma ponta à outra”. (p. 132).
- Os árabes na Espanha

“Em vésperas das conquistas árabes, a Espanha encontrava-se debilitada e num estado
deplorável. [...]. Por um lado, havia um pequeno grupo de proprietários rurais com
enormes latifúndios, por outro uma enorme massa de servos e escravos miseráveis e
uma classe média arruinada e decadente. Os Clarissimi, ou classe privilegiada, estavam
isentos da maioria dos impostos, eram faustosos e depravados; os restantes estavam
famintos e descontentes. No campo proliferavam bandos de assaltantes constituídos por
servos e escravos desertores. Em 616, iniciou-se uma forte perseguição aos judeus na
Península, o que veio acrescentar mais um elemento para aqueles muitos que não
tinham nada a perder e tinham tudo a ganhar com uma mudança, qualquer que esta
fosse. O exército visigodo era formado sobretudo por servos recrutados. A sua
precaribilidade entende-se facilmente. As vitorias iniciais dos Árabes provocaram o
colapso quase imediato da estrutura apodrecida do Estado visigótico. Os servos
paralisaram; os judeus revoltaram-se e juntaram-se aos invasores, entregando-lhes a
cidade de Toledo”. (p. 137),

“O novo regime era liberal e tolerante, e mesmo os cronistas espanhóis descrevem-no


como sendo preferível ao domínio franco no Norte. O maior beneficio que trouxe para o
país foi a supressão da antiga classe dominante da nobreza e do clero e a distribuição
das suas terras, criando uma nova classe de pequenos proprietários, grandemente
responsáveis pela prosperidade agrícola da Espanha muçulmana. Os servos viviam
melhor, enquanto a burguesia encontrava um refúgio para as suas preocupações na
conversão em grande escala ao Islamismo e na sua identificação com os Árabes”. (p.
137-138).

“O primeiro século de domínio omíada em Espanha foi um período de perturbações,


durante o qual os Amirs de Córdova se empenhavam na pacificação do país e em
aniquilar as insurreições latentes e abertas dos diversos elementos da população. Os
Árabes eram essencialmente homens da cidade, os grandes vassalos da aristocracia
militar Jund. [...]. O termo da imigração árabe no decurso do século IX e a progressiva
fusão entre os Árabes e os espanhóis arabizados convertidos ao Islão foi enfraquecendo
progressivamente a influência das grandes famílias árabes, que nos finais da época
omíada deixaram de desempenhar qualquer papel de relevo nos negócios públicos. Os
Berberes eram em muito maior número e constituíam uma mais séria ameaça
aumentando as suas fileiras através de uma imigração constante até fins do século XI.
Nas cidades constituíam uma minoria rapidamente assimilada. Na sua grande maioria
montanheses oriundos de Marrocos, preferiram fixar-se nos distritos montanhosos,
atraídos por um tipo de vida idêntico, tendo por base a agricultura e a pecuária, e pelas
vantagens militares de um tipo de terreno familiar. Por fim, havia os próprios
Espanhóis, cristãos, judeus e conversos. As comunidades não-muçulmanas protegidas
eram mais numerosas e estavam melhor organizadas em Espanha do que em qualquer
outra parte no Islão. A política do Governo a seu respeito era, de modo geral, liberal e
tolerante, e as repressões que tiveram lugar deveram-se em grande parte a razões de
ordem política. Todavia, a conversão ao Islão, motivada mais por atração do que pr
coação, foi rápida e vasta. Em breve os Muçulamnos espanhóis de língua árabe, livres,
os resgatados e os escravos, constituíam a maior parte da população. E mesmo aqueles
que se mantiveram fiéis às suas antigas religiões adotaram a língua árabe de forma
surpreendente”. (p. 139-140).

- o que os espanhóis consideram do período árabe

“[...]. Num ensaio sério, o moderno estudioso espanhol Sanchez Albornoz enumera os
que, segundo a sua perspectiva, considera resultados perniciosos e persistentes da longa
vigília da Espanha cristã como sentinela do Ocidente contra o avanço do Islão e do
esforço constante da reconquista. O primeiro é a fragmentação política do país. A
conquista e a reconquista infirmaram a reunificação política da Península, muito mais
avançada sob o domínio romano, e através da reconquista fragmentária o antigo espírito
individualista espanhol redespertou, deixando a Espanha muito para trás do resto da
Europa no desenvolvimento e centralização política. No mesmo plano situa-se o
retrocesso econômico legado à Espanha cristã pela absorção de todas as energias
disponíveis pela tarefa da reconquista deixando poucas ou nenhumas para o
desenvolvimento do comércio e da indústria, em qualquer dos casos deslocados, ao
transferir a Espanha da órbita africana e mediterrânica, a que pertenceu durante o
período de domínio árabe, para à da Europa Ocidental, onde era uma recém chegada,
atrás dos restantes no trajeto evolutivo e colocada na periferia. Por fim, assinala que “a
influência fatal do domínio sarraceno em Espanha não atrasou apenas a vida econômica
e a organização política. Mesmo nas fibras mais profundas da alma espanhola produziu
reações prenhes de corolários lamentáveis”. O esforço constante da reconquista deu
origem a uma mentalidade bélica e aventureira e a um empobrecimento do sentido
político que levou os Espanhóis a dissiparem as suas energias em campanhas inúteis e
estéreis de expansão imperialista, enquanto que o caráter religioso da guerra provocou
um aumento excessivo e doentio do clero e da influência clerical, que tem sido a
desgraça da vida política espanhola. Um aspecto por vezes focado por estudiosos
espanhóis é o de que enquanto a civilização do califado era indubitavelmente rica e
diversificada – mais rica, de fato, do que qualquer outra da Europa Ocidental, nessa
época – não trouxe qualquer compensação para todos estes danos e estragos, dado que
grande parte dela foi banida do país juntamente com os próprios Árabes e só penetrou
de forma muito restrita a vida cultural da espanha cristã, que assentava muito mais nos
Estados independentes, pobres e atrasados, do Norte não conquistado do que na cultura
esplêndida do sul muçulmano”. (p. 145-146).

Interesses relacionados