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Augusto Bastos: vida e obra – resumo

Francisco Soares
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

Introdução
Para se compreender o significado e a importância de Augusto Bastos no
panorama histórico da literatura angolana, é preciso inseri-lo na
respetiva cronologia e conhecer as teias de relações literárias e pessoais
que, no seu tempo, estabeleceu. No seio dessas redes de relações, a
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produção literária se inseria com sentido muito prático: servia para
instruir e esclarecer os colonos recentes e os jovens locais, para receber
algum dinheiro também e para dar recados a personagens importantes
no seu tempo e lugar, contribuindo com isso tudo para remodelar uma
semiosfera em movimento contraditório ao da sua própria realidade
nessa época de ascensão do colonialismo branco, positivista, europeísta,
assimilador e para o qual não havia posições intermédias: ou se era
civilizado e, portanto, europeu; ou se era selvagem e, portanto, africano.
E os europeus vinham civilizar a África…

Na cronologia da literatura africana, após o vagaroso apagamento do


grupo de Luz e crença e de Ensaios literários, de que Paixão Franco se
veio a afastar, as notícias que tenho de publicações mais e menos líricas,
todas elas dispersas entre periódicos escassos, remetem para um
costumismo formal, acinzentado nas soluções artísticas e, de vez em
quando, agitado retoricamente com pontos de exclamação, reticências,
desgastadas e enfadonhas declarações de amor à mulher ou à terra,
protestos de elevados e impetuosos sentimentos nobres, nada mais –
além de algumas involuntárias imperfeições. O equivalente, no nossa
pobre e incipiente comunidade literária, ao penumbrismo no Brasil, mas
sem a qualidade e propriedade dele.

Entretanto a narrativa hesitava entre o positivismo etnográfico e a


moralização conservadora de Augusto Bastos, atingindo (já passado o
limite da literariedade, mas não o da oratória) a denúncia social de Assis
Júnior (com o Relato sobre os acontecimentos de Ndalatando e Lucala1,
na segunda década do século) e, na terceira década, antecedendo Castro
Soromenho, a novela exemplar de Óscar Ribas, O resgate de uma falta
(1929), que se seguia às Nuvens que passam (1927) e a que se foram
seguindo obras de interesse etnográfico, a par de narrativas revelando
um exímio escritor, apurado, requintado, com particular capacidade para
representar os estados psíquicos que antecipam as decisões das

1 Atente-se ao título: Relato, como os documentos seiscentistas. A correlação não é


fortuita, pois o texto possui uma estrutura que recorda a dos relatos.
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personagens – algo ainda tímido e abreviado no seu mestre Augusto


Bastos.

Por este rápido esboço vê-se, desde logo, a posição do autor no campo
literário – que era, entre nós, humilde arimo.

Não compreendo, pois, que, no período a que me reporto, as crónicas da


literatura angolana coloquem normalmente um hiato que, pelos títulos 3

citados (e pelos que vou citar ainda), nunca existiu. Existiu, sim, com
personalidade própria, ainda que sem alcançar a grandeza artística de
outras literaturas do mundo nesse tempo. E o que a distinguiu das
congéneres portuguesa e brasileira, tanto quanto em Moçambique, foi
que nestes anos se começou a colocar em literatura, cada vez mais, a
problemática da discriminação racial a par do empobrecimento ou
marginalização dos filhos da terra no seu próprio território. Não é que
não surgissem, ao mesmo tempo, no Brasil, escritos abrindo já a questão
racial; mas isso não podia ocorrer em simultâneo com a perda de poder
económico dos filhos da terra, porque essa designação de filhos da terra
(ou seja: nascidos na colónia) tinha um alcance antropológico diverso do
outro lado do lago, num país independente: os escravos eram geralmente
negros e os negros eram geralmente pobres, não podiam, portanto, perder
o que não tinham. Os filhos da terra, em Angola (ainda uma colónia), era
um designativo de população quase toda mestiça e negra, tanto quanto
essas categorias possam fazer algum sentido, ou seja: tinham a pele mais
escura que a da generalidade dos europeus. Por isso é que em Angola se
colocam, simultaneamente, o problema da discriminação racial e da
perda de poder económico dos filhos da terra para os colonos recentes,
oriundos de Portugal, de pele clara, protegidos por um poder colonial e
preciosos instrumentos económicos – como o Banco Nacional
Ultramarino, fundado em Lisboa “por Carta de Lei de 16 de maio de 1864,
sendo seu fundador Francisco de Oliveira Chamiço.”

Mário Pinto de Andrade acompanhou, em As origens do nacionalismo


africano (Andrade, 1998), o princípio dessa caminhada nas primeiras
décadas do século XX, no que diz respeito ao discurso político e
panfletário, particularmente ao que chamou, com toda a propriedade,
“prosa polémica” (Andrade, 1998, p. 50). Levou, no entanto, algum tempo
até que essa reação política negrista viesse a transfigurar-se em literatura
– o que, entre nós, em Angola, só começou mesmo com Geraldo Bessa
Victor nos anos trinta. O que escrevemos nesses anos encontra, portanto,
paralelo, ao nível dos temas e dos motivos como das escolhas estilísticas
e discursivas, encontra paralelo com João Albasini em Moçambique e a
geração pré-Claridade em Cabo Verde – neste caso, com a diferença de
se escrever muito mais obra em verso e muito mais interessante e melhor
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articulada com a prosa jornalística, panfletária e política. Ainda com o


sublinhado, por parte dos angolenses, na reivindicação do seu papel no
processo de desenvolvimento que legitimava o colonialismo,
eufemisticamente a civilização, reclamando a sua participação com todos
os direitos e apresentando propostas concretas para resolver o ‘problema
da colonização de Angola’ (Lemos, Bases, 1936) no quadro do império
português. 4

Após o apagamento de Luz e crença, a produção literária, cultural e


jornalística reabre-se principalmente com a obra de Augusto Tadeu
Pereira Bastos, a quem Geraldo Bessa Victor dedicou o primeiro volume
de uma série planeada sob o título «Intelectuais angolenses dos séculos
XIX e XX» (Victor, Augusto Bastos, 1975). Nascido em 1873, ele faz bem
a transição do século XIX (cuja porta ajudava a fechar, ou a deixar
entreaberta) para o século XX (no qual intervém até à sua morte, em
1936). Vejamos em pormenor:

O autor benguelense foi colaborador no Almanach ensaios literários


publicado em Luanda em 1901, impresso na Tipografia do Povo, como tal
referido por Mário António e Manuel Ferreira.

Esse Almanach está bem caracterizado por Mário António em A formação


da literatura angolana. O seu diretor, Francisco das Necessidades Ribeiro
Castelbranco, descendia de famílias ilustres, antigas e bem colocadas na
colónia desde, pelo menos, o século XVIII. Agregou ele, nos Ensaios, toda
a elite crioula de Luanda, mais alguns autores, entre os quais o nosso
crioulo benguelense, tão próximo de um assimilado. A caracterização do
grupo escrita por Mário António serve, ao mesmo tempo, Augusto Bastos,
a geração e as suas publicações, justificando-se a longa transcrição:

O fim-de-século, simultaneamente frívolo e sério, aí se pronuncia [reporta-se a uma


citação de Francisco Castelbranco apresentando os Ensaios literários] na
associação entre «gosto da literatura» e «distracção», nessa primeira publicação do
seu tipo, dirigida e colaborada por angolanos. Esse mesmo espírito é o que
determina o lançamento dos novos «Ensaios Literários — Propaganda e Instrução»,
publicação semestral, datada de Luanda, 1902, mas impressa em Lisboa,
Imprensa de Libânio da Silva, no mesmo ano. Aí se encontram publicados nomes
que assinalarão, nos anos futuros, o percurso crioulo, com suas faces de protesto,
ambiguidade ou submissão, ao longo do processo colonial que acompanhariam.
Nesse número se incluem colaborações de Francisco Castelbranco, com sua
vocação de historiador, biografando Geraldo António Victor, o general africano
heroicizado pelos seus feitos em Angola e na Guiné; de Augusto Bastos, que «O
Angolense» de 1917 haveria de incluir na sua lista de «heróis» ao tempo da
arremetida contra o que restava da sociedade crioula e que havia de ser englobado
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na onda histórico-colonial dos anos quarenta2, pela sua assídua colaboração em


«A Província de Angola» e que Alberto de Lemos haveria de biografar no seu volume
de Nótulas históricas, pela sua obra publicada, designadamente pela Sociedade
de Geografia de Lisboa e em Angola, onde, em 1928, foi incumbido da organização
e instalação do Arquivo Histórico de Angola, do que resultaria a sua colaboração,
antes citada, na Imprensa; e de António de Assis Júnior, que viveria toda a
primeira metade do século XX, motivado por condições similares, desde as de
1917 às de 1940, com a publicação nesse intervalo do livro que haveria de ser
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considerado o iniciador da prosa de ficção angolana e com vária e constante
afirmação de um nacionalismo que sofreu os embates das circunstâncias
históricas.
Que esses angolanos transportavam a herança do século anterior é evidente a
partir de factos como o de reproduzirem textos dos iniciadores da Literatura
Angolana, como Cordeiro da Matta e Pedro Machado, na poesia e na prosa,
respectivamente. Com efeito, Ensaios Literários publicaram o poema «Negra!», de
J. D. Cordeiro da Matta, extraído do livro Delírios, com o seu testemunho
romântico-africano, do mesmo modo que o órgão seguinte da sociedade crioula
angolana, «O Angolense», um tanto mais tarde, iniciaria a publicação do Scenas
d’África, tentativa de romance realista de Pedro Machado, que conhecera já mais
de uma publicação em Lisboa, quando do seu aparecimento, primeiro em folhetim.
Trazia, portanto, esse almanaque, ao público do século XX, a lembrança do que
havia sido o esforço dos angolanos que tinham feito o brilho da imprensa crioula
luandense do século XIX […]”

Augusto Bastos faz, portanto, bem a ligação entre a Luz e crença e a


geração seguinte – tanto quanto António de Assis Júnior, bem mais
conhecido e quatorze anos mais novo que ele. Se isso justifica o destaque
a ele dado por mim, sobretudo em Notícia da literatura angolana, a
consideração da sua obra nos serve também de teste a uma hipótese
teórica ultrapassada: a de que a biografia não tem qualquer importância
para o estudo dos textos.

Quando me centro no estudo dos textos o que procuro ver é a sua


organização e o quanto ela se prepara em função de um público previsível
para o autor e como ela, por isso, joga connosco. A nossa primeira tarefa
de críticos penso que seja essa. Para nos concentrarmos nela, não nos
distraímos com a biografia do autor. Os estudos biográficos foram
conduzidos a um beco sem saída quando se pretendeu ver na obra uma
espécie de alegoria da vida (em partes ou no todo) de quem se apresenta
como «eu» perante a sociedade. Mas isso não significa serem totalmente
irrelevantes as relações entre a pessoa do escritor e a obra. Há, pelo
menos, um aspeto para o qual essas relações são pertinentes: é o das
limitações que podemos deduzir de uma biografia para parcialmente
explicar as limitações da própria obra. Além disso, podemos identificar

2Augusto Bastos morre em 1936; na verdade essa onda começara antes e com ele
contribuindo decisivamente, no que aos filhos da terra diz respeito.
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na biografia de um escritor alguns momentos que ele próprio relata como


importantes e que depois concita para uma composição, com maior ou
menor disfarce. Não quer dizer que a semiose que se produz ao lermos
essa peça tenha de estar condicionada pela circunstância que, na
biografia, se liga a ela; quer antes dizer que determinado acontecimento
pode ser o motivo aproveitado pelo autor para certa passagem ou nível
ou fase da peça que escreve, porque se trata de um acontecimento que 6
ele conhece bem. A circunstância biográfica torna-se, então, produtiva,
não para ver na obra a projeção dela, mas até para contrastar o momento
que a motivou e o que disso foi posto na obra. Esse contraste nos revelará
qualquer coisa acerca da intenção significante de um escritor e dos
princípios orientadores da obra e permitirá vermos como a supressão de
alguns aspetos vai condicionar a leitura do livro, ou do episódio, numa
direção específica. Veremos alguns desses momentos na biografia de
Augusto Bastos e, também, por ela, compreenderemos melhor essa
geração, que foi sem dúvida ambígua, quase bipolar, mas ainda viu nessa
postura a última possibilidade de não perder completamente margem de
manobra no processo da sua própria defesa e continuidade enquanto
grupo no seio do império colonial português – como pomposamente se
dizia então.

Nascimento e formação
A data do seu nascimento manteve-se polémica. Luís Kandjimbo, na
sequência de vários outros e, desde logo, Gastão Vinagre no obituário a
Augusto Bastos, nos escreve que ele nasceu a 16-8-1872 (Victor, Augusto
Bastos, 1975, p. 9). A campa, simples, no cemitério de Benguela (ao
contrário do que já foi veiculado na imprensa), indica outra data:16-7-
1874. O registo de batismo, porém, diz-nos que nasceu a 16-9-1873,
batia uma hora da madrugada na Igreja do Pópulo. Essa data vai ser
confirmada várias vezes, incluindo pelo próprio autor, ao longo da sua
vida.

Também o nome da mãe, que Luís Kandjimbo diz ser Laurinda Rosa
(creio que Mário António escreveu o mesmo, não recordo em que texto),
segundo o registo de nascimento seria “Lauriana”, só e sem “Rosa”. Não
conheço, ainda, nenhum texto – seu, ou de outra pessoa – que dê mais
informações acerca dela – que tem um vago paralelo em A boneca de
Quilengues, de Arnaldo Santos, ou no Yaka de Pepetela. O batismo
regista somente a notícia de ser “preta” e não saber escrever... O pai
nasceu em “Cabeceiras de Bastos”, segundo o mesmo registo, conservado
num dos antigos livros de registos da Igreja de N.ª Sr.ª do Pópulo, em
Benguela.
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Para cabal esclarecimento dos leitores o transcrevo:

No dia onze de Dezembro de mil oitocentos e setenta e cinco, n’esta Igreja de Nossa
Senhora do Populo de Benguela, diocese d’Angola e Congo, baptisei e puz os
Santos Oleos a um individuo do sexo masculino a quem dei o nome de Augusto
Thadeo, que nasceo no dia deseseis de Setembro de mil oitocentos setenta e três,
a uma hora da madrugada, filho illegitimo de Manoel Thadeo Pereira Bastos,
negociante, natural de Cabeceiras de Bastos, e da preta Lauriana, neto paterno
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de Antonio Thadeo Pereira Bastos, negociante, digo, e de Maria Thereza Pereira
Bastos, naturaes de Cabeceiras de Bastos, ingora-se o nome dos avós maternos;
foram padrinhos de solemnidade Jozé Augusto da Silva Pereira, negociante,
natural de Povoa de Lanhoso, e Marianna Clara da Silva, natural de Loanda, de
que se fez este assento, […] duplicado, que depois de ser lido e conferido foi por
mim assignado, pelo pae, e pelo padrinho = O baptizado era da cor parda. A mãe
e a madrinha não sabiam escrever

A insistência nas outras datas, mesmo quando da sua morte, não deve
ser aleatória. Desconheço, porém, razões para o fazerem. Confirmando o
registo de batismo, uma local do Jornal de Benguela refere o aniversário
do autor a 16-9-1920 (não menciona a idade (Redação, 1920)). Por aí
podemos, pelo menos, confirmar que ele nascera a 16 de setembro e,
estando certos o dia e o mês, o mais provável é que também o ano seja o
de 1873. Em uma autobiografia mascarada, que irei já referir a seguir,
ele próprio diz que foi para Lisboa com 15 anos, em uma segunda
autorreferência especificando que partiu em 1888 – ora, 1888-15=1873.

Esta sua curta autobiografia será muito útil. O semanário O Lobito, que
saía aos Sábados, logo no primeiro ano de publicação (fizesse, embora,
renascer das cinzas outro título), ou seja, em 1930, publica uma série de
artigos intitulada «Angola de outros tempos», assinada pelo nosso
historiador. O jornal iniciara a 2 de agosto e publicara uma nota a
chamar “o interesse dos nossos leitores” para a “valiosa contribuição” do
“nosso camarada de redacção e conhecido e apreciado publicista snr.
Augusto Bastos”. A nota é importante ainda porque dá conta da aura que,
já então, mesmo entre colonos, envolvia a figura pública do escritor,
“cujos trabalhos de reconstituição historica a muitos títulos se impoem”
(s.n., 1930). No n.º 3, de 16 de agosto, começa a colaboração do Augusto
Bastos, com um texto exaltando a Restauração de Angola (que se
comemorava a 15 de agosto) e ocupando a primeira página (Bastos A. , A
Restauração de Angola 15 de Agosto de 1648-1930, 1930). Não admira o
destaque dado à colaboração: para além do interesse histórico, ao mesmo
tempo exaltava a colonização portuguesa e seus heróis, num tom que
atraía a confiança do segmento colonial. O número seguinte (n.º 4, de 23
de agosto) deu lugar ao início do pequeno folhetim autobiográfico, no qual
o autor se escondia sob o falso nome e caracterização verdadeira de um
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“rapaz africano” chamado “Armindo”, cujo pai se chamaria ali, numa


ficção assumida como tal pelo artigo, “Maurício”. Um procedimento
idêntico foi depois seguido por Óscar Ribas, a quem Augusto Bastos
iniciou na escrita literária, nomeadamente na autobiografia Tudo isto
aconteceu (Ribas, 2009).

O primeiro número desse não assumido folhetim autobiográfico abre com


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o quadro da partida do moço africano para Lisboa, com informação de
mês e ano. Transcrevo para que o leitor vá conhecendo melhor o seu e
nosso autor:

Em uma noute do mez de Março do ano de 1888, levantava ferro do importante


porto de Benguela o vapor «Ibo», da carreira de navegação da firma «Benchimol &
Sobrinho», nesse tempo afamada sociedade comercial com negócios em Angola.
(Bastos A. , Angola de outros tempos, 1930)

Algumas notas a citação suscita, complementares ainda que paralelas. A


adjetivação do porto de Benguela (“importante”), apesar de publicada no
jornal O Lobito, insere-se nos anos de forte polémica na qual a velha
cidade crioula se ressentia por estar a ser ultrapassada pela nova cidade
portuária, funcionando esta na interligação do comércio internacional
com a linha do Caminho de Ferro de Benguela, que ia até à rica região
mineira do Katanga, no então Congo Belga, como lhe chamavam. Com tal
adjetivo, A. Bastos mima a sua terra natal e faz uma jogada diplomática
evitando ser taxado de ‘traidor’ por escrever para um jornal do Lobito –
de resto com muitas ligações a Benguela também. Hoje parece ridículo,
mas as discussões entre benguelenses e lobitangas acabavam, nesse
tempo e durante mais duas ou três décadas, muitas vezes, em brigas com
ofensas corporais sérias que podiam levar à morte dos protagonistas.

Outra referência contextual significativa é à empresa Benchimol &


Sobrinho. Como o próprio artigo informa, ela teve uma fábrica de tecidos
de algodão em Luanda, “que, infelizmente, pouco tempo durou”. Os
Benchimol tinham propriedades em Benguela, onde foram comerciantes
de sucesso. A empresa era detida pelos dois irmãos Salomão e Abraão
Benchimol e seu sobrinho Samuel, “israelitas que, como afamados
comerciantes que eram, grande influência exerceram em Angola”. Extinta
a firma, Abraão Benchimol ficou ligado

ao antigo colonial e considerado comerciante de Angola e de Lisboa, António de


Souza Carneiro Lara, que foi o chefe da conceituada e opulenta firma Souza Lara
& C.ª, de que Abraão Benchimol foi um dos gerentes em África, como o fôra, anos
antes, na Catumbela, da firma Bensaúde & C.ª, considerada ao tempo como a
mais importante, e a que se atribuia uma fortuna ou capital de dez mil contos, que
actualmente equivaleria a um capital de duzentos mil contos.
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É de ressaltar a importância dada à figura de Abraão Benchimol e ao seu


apelido (que aliás continua por mais um parágrafo). O destaque não vem
só de eles serem ‘israelitas’, mas sobretudo de se tratar de comerciantes
bem-sucedidos que, tal como Manuel Tadeu Pereira Bastos, haviam de
gerar uma descendência mestiça, ‘euroafricana’ como se dizia, e cujo
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prestígio até hoje perdura na memória benguelense. Aí estava já uma
subtil diferença face às crónicas coloniais e veremos depois, ao longo dos
‘episódios’, que Augusto Bastos constantemente faz excursos, não só de
cariz comercial, para ressaltar famílias enraizadas e, geralmente,
mestiçadas entre peles claras e escuras, ou, como se diz comummente,
brancos e negros. O que o inscreve numa linha recorrente da nossa
literatura antiga, a de se reclamar de uma patrologia local a construir.

Faz pensar ainda, nas duas citações destacadas, a influência da


linguagem comercial e a atenção dada às informações empresariais. O
autor, além do gosto que podia fazer nisso, sabia que o seu público
principal era constituído por colonos-empresários, caixeiros-viajantes ou
só caixeiros, contabilistas, alguns filhos da terra proprietários e
empresários e empregados de comércio ‘coloniais’ e ‘africanos’. A sua
linguagem, enquanto jornalista, no breve folhetim, para além de mostrar
o quanto o autor dominava o ramo, constituía já um apelo ao mercado,
um aliciamento do cliente potencial que o era, também, de O Lobito. Mas
não se pense que ficava só no panorama literário lusófono. A linguagem
muito formal era também usada pelos comerciantes da época ao falarem
com clientes distintos (ou seja: endinheirados) e, talvez por automatismo,
ressurge literariamente em obras como as Memórias de Bulhão Pato
(Pato, Memórias, 1894-1907) e o relato (folhetinesco) da viagem de
Benalcanfor (Ricardo Guimarães) ao Cairo (Guimarães, 1876) – o
jornalista e escritor era, de resto, filho de um grande comerciante do
Porto.

É de notar, ainda, na primeira das citações destacadas, o facto de haver


uma companhia local de navegação. Passado pouco tempo, as referências
e os anúncios ficarão reduzidos às grandes companhias coloniais e
estrangeiras.

O artigo segue retornando ao “vapor «Ibo»”, no qual “embarcou para


Lisboa, aonde ia estudar, um rapaz africano, de cerca de quinze anos de
edade, a que daremos o nome de Armindo” (Bastos A. , Angola de outros
tempos, 1930). O “cerca de” justifica-se pelo facto de o autor ainda não
ter essa idade, pois só faria 15 anos em setembro. Mas o retorno ao
momento do embarque, fraturante e ampliador como sucedeu mais tarde
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com M. António ao partir para Portugal, é neste caso um recuo estratégico


para se fazer a biografia do pai.

Manuel Tadeu Pereira Bastos emigrou para o Brasil muito novo, de onde
veio para Angola com um grupo de colonos que se instalou em
“Mossamedes”. Ali assentou praça no exército, sendo mais tarde
transferido para o Batalhão de Caçadores de Benguela, chefiado pelo
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mítico Geraldo António Victor – ainda no posto de Capitão. O cruzamento
biográfico do autor com o futuro General começa aqui, desdobrando-se
depois em Lisboa (onde o conheceu pessoalmente) e no próprio facto de
se ter casado com uma sua filha. Nesta passagem, porém, ele ainda só
nos diz que também foi pai de um neto de outro conhecido, rico e antigo
comerciante local, o filho da terra Martinho Lopes Cordeiro, nascido em
Caconda e amigo de seu pai, “conhecido pelos indígenas pelo nome de
«Gangula» («Ferreiro»)”. (Bastos A. , Angola de outros tempos, 1930)

Martinho Lopes Cordeiro merece, também, nesse primeiro eipsódio, uma


síntese biográfica que o distingue dos comerciantes cuja biografia se
resume aos pontos salientes da vida empresarial ou meramente
profissional. O elogio biográfico é-nos útil ainda por mais dois motivos.
Em primeiro lugar, o episódio no qual o fazendeiro “praticou a façanha
de ter lutado corpo a corpo com um leão, em viagem entre o Dombe e o
Luacho”. Quem já leu as suas Aventuras africanas de Augusto Bastos há
de encontrar pontos de contacto com este episódio:

[…] em consequência de o ter ferido com um tiro, o leão se atirou a Gangula, furioso
com o ferimento que recebera e o homem, defendendo-se com um admirável
sangue-frio, apenas teve tempo de proteger com um cobertor ou chale-manta que
levava consigo o seu musculoso braço esquerdo, que apresentou à fera e com que
lhe aparou o embate, estabelecendo-se entre homem e leão uma luta homerica,
corpo a corpo, de que aquele saiu vitorioso esmagando a cabeça da féra com
violentas e repetidas pancadas que lhe vibrou com o cano de ferro da espingarda,
de que lembrou de se servir como de uma clava.

O musculado herói merece ainda mais umas linhas interessantes do


ponto de vista informativo e da caracterização da personagem – para as
quais remeto agora o leitor. Antes vale realçar outra intertextualização,
desta vez com as Aventuras policiais do repórter Zimbro. É que Martinho
Lopes Cordeiro foi “farmacêutico prático” em Benguela, na farmácia de
Manuel António dos Santos Reis, este “natural do Brasil”, que também
foi fazendeiro na mesma zona de Cordeiro e de Manuel Tadeu. A presença
de ‘brasileiros’ nos lembra o comerciante Jacinto da Cunha, assassinado
pelo ‘máscara azul’ em uma das Aventuras policiais, mas, mais próximo
do que isso, a figura do farmacêutico e do seu ajudante (aquele amigo do
detetive Zimbro, este do seu ajudante Manuel da Silva), que são
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fundamentais para o desenlace da intriga de O sinal da morte, outra das


aventuras publicadas no Jornal de Benguela.

Pouco depois de nascer o escritor, o seu pai (“pelos anos de 1874 ou


1875”) abriu “de sua conta uma casa comercial em Benguela. Em 1886
ou 1887” foi gerente comercial da casa de um antigo companheiro de
trabalho, José Clemente de Azevedo. No ano seguinte vendeu tudo e
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retirou-se para o “vale do Luacho”, no Dombe Grande, explorando a “sua
fazenda de cana, denominada «Rio Seco».” Faleceu em Dezembro de 1890,
em casa de um amigo, vítima da gangrena “que lhe atacou um braço”.
Contava 47 anos então, pelo que estaria, em dezembro de 1843, no
começo da vida – quando Maia Ferreira estudava em Lisboa. (Bastos A. ,
Angola de outros tempos, 1930)

Augusto Bastos viveu na casa de seu pai, na qual aprendeu a tocar piano
muito cedo. As lições e a vocação tornaram-no um compositor e pianista
exímio, segundo Bessa Victor incluindo temas de “motivação angolense”,
valsas que executava ao piano depois de as criar, entre outros tipos
musicais e de que ficou famosa a obra (valsa?) As furnas do Lobito (título
que encimará ainda uma curta narrativa publicada no jornal O Lobito).
Foi, também, pintor celebrado no meio local, não sei se mesmo em
Benguela recebera lições de pintura, mas retratou, entre outros, “dois de
outros tantos vultos proeminentes da República Portuguesa: António
José de Almeida e Teófilo Braga” (Victor, Augusto Bastos, 1975, p. 13).

Fez os estudos da Escola Primária na cidade natal, mas, segundo Gastão


Vinagre, não pôde realizar o exame respetivo por não os haver aí na
altura. Bessa Victor discute a afirmação, mas baseado na suposição de
que Augusto Bastos teria partido para Lisboa com sete anos. Gastão
Vinagre afirma que Augusto Bastos trabalhou ainda algum tempo no
estabelecimento comercial do pai (Vinagre, 1936). A princípio, pareceu-
me também difícil que o tivesse feito, embora nesse tempo as crianças
fossem muito cedo iniciadas à vida profissional. A informação que tinha
era a que tinha lido em Bessa Victor, a de que aos seis ou sete anos partiu
para Lisboa, não sei se com a irmã Ana (ou se ela partira antes, como
disse Gastão Vinagre), a fim de completar os estudos e realizar o exame.
Estávamos em 1879, ano da primeira aventura policial do repórter
Zimbro que li no Jornal de Benguela, onde a publicou já quase no fim da
vida. Porém, na autobiografia mascarada a que me referi, ele próprio nos
diz que partiu em 1888, com cerca de 15 anos de idade (Bastos A. , Angola
de outros tempos, 1930), pelo que deve ser verdadeira a afirmação de
Vinagre, seu colega e amigo. Também será verdade que a irmã Ana já
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estudava em Lisboa (“no Colégio de Nossa Senhora das Dores, sito na rua
Castilho, e de que era proprietaria Dª Maria Monteiro” (Bastos A. T.,
Angola de outros tempos, 1930)). Mais ainda, uma segunda irmã,
Arménia de seu nome, estudava na capital portuguesa desde 1881
(Bastos A. T., Angola de outros tempos, 1930), a qual “algumas vezes” o
nosso estudante visitou (Bastos A. T., Angola de outros tempos, 1930).
Uma terceira irmã vivia com o pai em Benguela e o seu falecimento levou 12
Manuel Tadeu Pereira Bastos a vender tudo o que tinha na cidade,
retirando-se para a sua fazenda no Luacho, como disse atrás (Bastos A.
, Angola de outros tempos, 1930).

A viagem para Lisboa, que terminou “às 9 horas de uma noute do mês de
Abril” de 1888, marcou bastante o futuro escritor. O vapor Ibo, no qual
havia embarcado em Benguela, avariou na viagem, chegando a Luanda à
vela. Os passageiros foram transferidos, por isso, para o vapor Portugal,
da Companhia Nacional de Navegação. Fortuita, mas interessante
alteração... A partir de Luanda ele pode ver e ouvir de perto, ao longo de
todo o percurso, o já famoso major Henrique de Carvalho, que voltava da
não menos famosa viagem à Lunda. Na pouco disfarçada autobiografia
que publicou em O Lobito (Bastos A. , Angola de outros tempos, 1930),
refere-se à “simpática figura” (Augusto Bastos gosta desta expressão) de
Henrique de Carvalho, que destaca na galeria de heróis coloniais. Aí
confessa que Armindo “não se fartava de olhar para a figura prestigiosa
de Henrique de Carvalho e de lhe escutar as palavras.” O repórter Zimbro,
que vai protagonizar as suas Aventuras policiais e também foi “simpática
figura”, nessas aventuras aparece vindo para Angola e Benguela para
cobrir as viagens dos famosos exploradores da época, entre os quais
Henrique de Carvalho.

O major impressionou vivamente o nosso escritor e parece provável que


isso tenha influído na sua admiração por alguns dos heróis portugueses
da colonização ou da exploração do continente, começando pelo par que
retrata nas aventuras coloniais e que refiro mais à frente. A aproximação
de Augusto Bastos ao positivismo terá começado por aí, pela conceção
positivista da História que tinha o expedicionário português. Henrique de
Carvalho representava bem o papel da nova ideologia colonial: positivista,
nacionalista, legitimando-se pela civilização da África portuguesa,
colocando os novos colonizados numa alteridade absoluta e
necessariamente atrasada. A série Aventuras africanas ressente-se muito
desta mentalidade, embora vá colocar-lhe travões e diferenças,
reconhecendo a extraordinária inteligência, lealdade e coragem de um
jovem negro, de ascendente nobre local e desapossado, bem como
alertando para realidades da terra que urgia desmitificar ou aclarar.
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

Ao chegar a Lisboa em tão ilustre e portuguesa companhia, deslumbrou-


se Augusto Bastos com a primeira visão da cidade, evocando para o seu
leitor a capital dos séculos XV e XVI... Algo parecido com o que, várias
décadas depois, aconteceria a Mário António, de coração transplantado.

Em Lisboa se manteve até 1891, quando, por morte do pai, regressou à


terra natal, no ano da mística revolta republicana do Porto. Os três anos
13
passados em Lisboa permitiram-lhe realizar estudos que o habilitaram
para toda a vida. Bessa Victor e outros afirmam que ele ia para se formar
em Medicina e estava para iniciar esses estudos quando o pai faleceu.
Júlio de Castro Lopo assegura mesmo que o jovem Bastos se chegou a
matricular em Medicina, recebendo em seguida a notícia do falecimento
do progenitor. É possível que sim, que tenha feito o secundário em três
anos. Só pela reforma de 1894-1895 (que ele já não apanhou) passaram
eles a durar quatro anos, com mais três de curso complementar. No
resumo biográfico publicado em O intransigente, Gastão Vinagre confirma
que Augusto Bastos partira de Benguela com essa determinação (de
estudar Medicina (Vinagre, 1936)). Não podendo realizar o seu sonho,
tornou-se um verdadeiro autodidata, um leitor imparável e atento, ao
mesmo tempo em que foi conhecendo melhor as tradições orais
circundantes.

Assim que chegou à capital portuguesa foi para o Hotel Pelicano, frente
ao Largo de Sta Justa, onde “teve Armindo a felicidade de conhecer
pessoalmente o General Geraldo António Victor”, que aí se encontrava a
tratar “das suas enfermidades.” (Bastos A. , 1930) Geraldo António Victor
fazia o contraponto angolense de Henrique de Carvalho: ambos militares
e heróis da colonização, este não era positivista, era um filho da terra,
colocava-se na mesma comunidade intermédia e interpretativa do autor
e fornecia-lhe um modelo para a sua integração no projeto imperial.
Augusto Bastos tece-lhe logo o mais entusiasmado elogio e resume a
história da sua alcunha, que depois Bessa Victor (seu neto) vai consagrar
em obra própria (Victor, Quinjango no folclore angolense, 1970):

General Geraldo Antonio Victor, que, pelos seus feitos militares 3 em Angola
mereceu aos indígenas o cognome de «Quinjango» («alfange» ou «espada») e uma
canção guerreira, que lhe foi dedicada e em que é exaltado o seu nome

A colocação do General Quinjango a seguir aos heróis coloniais articula,


na sequência autobiográfica, o passado mais distante com o convívio do
autor em Lisboa, que muito nos interessa. Mas também é uma forma
reatar a patrologia angolense e de reafirmar o discurso dos filhos da terra

3 Por gralha está lá “milhares” em vez de “militares”.


Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

na época, um discurso do tipo: ‘concordamos, vamos construir o império,


mas, embora sendo o império português, vejam bem que nós também
participámos da sua construção, tivemos sempre um papel aí’. A
conclusão, lógica, é: ‘temos um lugar a preservar, não se esqueçam disso.
Eu, pela minha parte, exalto Portugal, mas coloco-me entre os heróis
africanos da colonização’. O número seguinte ocupou-se, justamente,
com uma biografia exaltante do famoso General. Quase no fim, Augusto 14
Bastos narra o primeiro momento em que o viu:

Armindo, que já de nome conhecia o herói de Jabadá, ficou-se, durante minutos,


pela primeira vez que o viu numa das salas do Hotel Pelicano, a contemplar e a
admirar a figura imponente 4 desse homem, cujo nome, militarmente, enchia a
Guiné e essa Angola de outros tempos, devido ao prestígio das suas façanhas

A biografia termina com uma nota pessoal que liga definitiva e


biologicamente o autor ao seu herói:

E mal suspeitava Armindo, que o destino havia de permitir, que um dia já homem,
e em Angola, viesse a ser pai dos bisnetos do General Victor.

Ficou o nosso estudante apenas oito dias no Hotel Pelicano. Logo em


seguida foi internado no Colégio

de Nossa Senhora da Conceição, da Rua do Poço dos Negros, fazendo esquina


para a Rua de São Bento, instalado no Palácio conhecido por «Palácio da Flor da
Murta», mandado construir por D. João V para a sua amante
(Bastos A. T., Angola de outros tempos, 1930)

O círculo de amizades que mais frequentava em Lisboa passava por


conterrâneos, a maioria deles mestiços, o que refiro, não pela cor da pele,
mas por estarem na mesma situação do autor: com antecedentes
europeus e africanos, nascidos e criados em Angola mas estudando em
Lisboa, filhos de pessoas que se destacaram na colónia. Um dos
conviventes e condiscípulos era Amílcar Carreira, que de Lisboa partiu
mais tarde para prosseguir estudos no estrangeiro. De facto, veio a ser
regente agrícola formado na Bélgica e, no regresso, exerceu, com
reconhecimento geral, em vários pontos de Angola, a sua profissão. Para
além de excelente profissional, esteve ligado a um dos últimos periódicos
dos filhos da terra (o Cuanza-Norte), dirigiu a revista Angola da Liga
Nacional Africana quando do seu relançamento em 1933 e foi pai de

4Recorde-se que a figura de Henrique de Carvalho era “simpática”, a de Geraldo


António Victor é “imponente”. A do repórter Zimbro, por acaso talvez, une atributos
das duas, sendo dado como robusto e também de “simpática figura”.
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

Henrique Teles Carreira (Iko Carreira), nacionalista do MPLA e Ministro


da Defesa de Agostinho Neto.

Augusto Bastos foi também condiscípulo de Guilherme Plantier Martins,


sobrinho do historiador Oliveira Martins, que viria depois para Angola
trabalhar e viver e cujo convívio colocava, mais uma vez, o nosso autor
próximo da configuração cultural e mental de Henrique de Carvalho:
15
positivismo, nacionalismo colonial, complexo de superioridade em
relação ao colonizado legitimando a ‘civilização’.

Outro condiscípulo foi José Eduardo Sobral Fernandes. Era o irmão mais
velho do artista plástico (pintor, escultor, desenhador, cenografista e
figurinista), matemático e inventor Constantino Sobral Fernandes
(Constantino Álvaro Sobral Fernandes), este nascido em Lisboa, em 1878
(portanto cinco anos mais novo que o nosso autor). Conforme se vê pelo
número seguinte, Constantino Sobral Fernandes foi o condiscípulo com
quem Augusto Bastos mais intensamente conviveu, constituindo o seu
duplo ou espelho, perante o qual, por contraste ou por analogia (esta
implícita), o autor se caracterizou. Armindo, nessa altura, “revelava as
suas irresistíveis tendências para as ciências e citava com entusiasmo e
admiração os nomes mais célebres em astronomia, matemática, física,
mecânica, filosofia, história e geografia”. Enquanto isso, o privilegiado
interlocutor apresentava “alma de poeta e de artista” e “fanaticamente
enfileirava ao lado dos ídolos de Armindo os nomes dos homens mais
notáveis na poesia, na oratória, na pintura, na música, na escultura e na
arquitetura” – entendendo-se “sempre bem os dois estudiosos amigos.”
(Bastos A. , Angola de outros tempos, 1930) É possível que as conversas
entre os dois e a dedicação de Constantino à pintura tivessem contribuído
para, mais tarde, o próprio autor se dedicar, nos tempos livres, a essa
arte, compondo por exemplo um famoso quadro (famoso na oralidade
local) da baía do Lobito.

Foi também condiscípulo dos dois irmãos Viana Costa, um dos quais
Eduardo Viana Costa. Ao referi-los aponta o nome de outros dois irmãos,
José Vilhena de Lagos e António Vilhena de Lagos. Quanto ao segundo,
afirma que ele depôs nos autos relativos à revolta do Bailundo: “(que mais
tarde veio para Angola, onde assistiu, em 1902, aos acontecimentos da
célebre revolta do Bailundo, sobre o que prestou declarações em auto).”
(Bastos A. T., Angola de outros tempos, 1930) E aqui tocamos num ponto
intrigante da autobiografia de Augusto Bastos e da sua própria biografia
intelectual: é que, tendo outro ficcionista e filho da terra, a 20 de
novembro de 1892, iniciado em Benguela o primeiro periódico da cidade,
A semana; regressado já o também advogado provisionário e também
ficcionista Augusto Bastos de Lisboa nesse ano; nunca este se refere a
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

Pedro Félix Machado, nem ao semanário. Para além da coincidência na


velha cidade crioula num momento crucial a vários títulos, recorde-se
que o autor de Scenas d’África advogou a favor do comerciante Eduardo
Braga nesses anos (1892 ou 1893), com um discurso que publicou em
separata. Recorde-se também que o processo estava relacionado com
revoltas ‘indígenas’ (ou seja: de resistência à colonização por parte de
reinos para-coloniais) e a campanha protagonizada por Paiva Couceiro 16
no âmbito das ‘guerras do Nano’ (terminando com a deposição e prisão
de Ndunduma), e que o próprio Eduardo Braga publicou um folheto
defendendo-se, tendo esse folheto sido anunciado em A semana. Recorde-
se, ainda, que Pedro Félix Machado esteve em Lisboa e na Europa,
provavelmente gastando uma parte da herança paterna, entre dezembro
de 1890 (quando faleceu Manuel Tadeu Pereira Bastos) e abril de 1892.
Recorde-se, por cima, que também estivera em Lisboa (a julgar pela data
de um dos seus poemas) em 1889. Ou seja: as vidas e destinos dos dois
se cruzaram em Lisboa e Benguela, estando ambos profundamente
envolvidos com o comércio e os comerciantes locais e os meios
‘africanistas’ de Lisboa. O que torna estranho que Augusto Bastos nunca
refira Pedro Félix Machado, ainda por cima sendo os dois mestiços
culturais (e biológicos), de uma classe social intermédia, filhos de
portugueses que chegaram a Angola vindos do Brasil e mais ou menos
na mesma época, sendo os dois escritores e jornalistas, exímios cultores
da língua portuguesa, ambos próximos do realismo e, mesmo, do
positivismo, e tendo Augusto Bastos a tendência para realçar, como
Cordeiro da Matta, as figuras ilustres de filhos da terra, desde que
estivessem ligadas a Benguela, ou a si próprio, tendo-se destacado por
algum motivo. É um enigma que fica, por enquanto, por desvendar.

Vida profissional e política


Quando regressou a Benguela, nesse ano de 1891, tinha 18 anos –
embora seja dito que regressou com 19, mas isso daria 1892 (estariam a
calcular a partir de 1872?). O seu “arcaboiço bonacheirão e alegre” devia
já notar-se tal como quando o conheceu quem publicou, anónimo, a
notícia da sua morte na revista Angola, da Liga Nacional Africana (LNA,
1936). Sendo necessário fazer face às necessidades familiares, ele iniciou
a vida profissional como empregado de comércio, segundo Gastão
Vinagre, Alberto de Lemos e Geraldo Bessa Victor (Victor, Augusto
Bastos, 1975, p. 10). Ainda no mesmo ramo, assegurava a função de
guarda-livros (segundo Júlio de Castro Lopo, Geraldo Bessa Victor e,
antes deles, Gastão Vinagre), talvez a maioria desses anos na empresa
Segurado Pacheco, “chegando a fazer-se um guarda-livros e contabilista
perito” (Vinagre, 1936). Assumiu funções como solicitador, iniciando-se
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

em janeiro de 1916, ano em que há vários anúncios no Jornal de


Benguela nos quais assim se apresenta, quer só, quer e sobretudo a par
do polémico advogado, católico e maçom, Baltazar de Aguiam, com quem
partilhou escritório (Redação, 1916). Foi advogado provisionário, à falta
de outros (segundo O intransigente, “exerceu durante algum tempo a
advocacia em Benguela”), tendo-se notabilizado logo pela sua vocação
retórica e “pelos seus dotes de inteligência” (Vinagre, 1936). Bessa Victor 17
transcreveu um relato apaixonado, extraído à imprensa da época (O
comércio de Benguela, no caso), da sua estreia como advogado (Victor,
Augusto Bastos, 1975, p. 10), que terá sido retumbante. A estreia em
tribunal deu-se a 24.7.1917, aproveitando o “novel advogado” para
perorar acerca da “filosofia da justiça e do direito penal moderno,
segundo as teorias da escola positiva” (Victor, Augusto Bastos, 1975, p.
10). Nesse mesmo ano, em que esteve preso sob a falsa acusação de criar
um movimento de ‘mata-brancos’ e incentivar as revoltas do Seles e do
Amboim (e, depois, do Libolo), publicou anúncios enquanto advogado,
recebendo os seus clientes na “Rua Cinco de Outubro (em frente ao Hotel
Paris)” (redação, 1917). Enquanto solicitador e advogado e, quiçá, por
outros motivos mais, deslocou-se muitas vezes ao interior da província
de Benguela, conforme se lê pelas locais do Jornal de Benguela, por
exemplo dos anos de 1913 e 1916, consultados número a número. Essas
viagens lhe trariam um conhecimento indispensável para compor as
Aventuras africanas, que foram saindo logo a seguir a esses anos e à sua
prisão. Certamente que também as aproveitava para desenvolver os seus
estudos etnográficos e linguísticos, que não se resumem aos dados
colhidos em Benguela.

Enquanto jornalista disseminou os seus trabalhos, no mínimo, por Jornal


de Benguela, O Lobito, A Província de Angola, para além de ter chegado a
fundar uma publicação em Lisboa, tendencialmente desportiva, cujo
exemplar não pude consultar na Biblioteca Nacional pelo péssimo estado
em que se encontra (intitulava-se Campeão popular e definia-se como
“revista litteraria theatral tauromachica e sportiva”). Infelizmente isso era
fundamental para esta biografia, porque o nome do redator coincide com
o do nosso estudante, mas o número inaugural sai a 5-6-1898, quando
Augusto Bastos estava em Benguela, para onde regressara em 1891.

Os assuntos abordados nas colaborações para os jornais eram os mais


variados, com especial incidência na etnologia dos povos da sua região,
de que nos legou estudos linguísticos e de costumes, e nas notas
históricas que terão saído em A província de Angola (Victor, Augusto
Bastos, 1975). Escreveu também “escorços biográficos de homens
notáveis na vida colonial e especialmente na angolana” (Vinagre, 1936),
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

no seguimento dessa já referida recorrência de construção de uma


patrística local.

Como político teve uma carreira agitada, cheia de altos e baixos.

Foi escrivão da antiga Câmara Municipal da Catumbela, cerca de 1910,


a julgar pelo referido na curta biografia de Gastão Vinagre em O
intransigente (Gastão Vinagre só o conheceu em 1922, deve ter ouvido 18

isto do próprio Augusto Bastos). Bessa Victor resume alguns dos cargos
públicos que exerceu: “vogal suplente do Conselho Legislativo de Angola,
membro da Junta Distrital de Instrução Pública de Benguela, secretário
da Associação Comercial de Benguela” (Victor, Augusto Bastos, 1975, p.
10) - nesses anos absolutamente controlada pela maçonaria local
(Curibeca, ou Kuribeka, ou, ainda, Kuribeca – escolha o leitor de acordo
com a sua religião). Mas a sua vida pública requer alguns parágrafos
mais, em particular no aspeto político, onde a ambivalência típica dos
filhos da terra nessa época teve equivalente na relação ambígua das
autoridades coloniais e dos próprios colonos com ele.

Pelas atas publicadas no Jornal de Benguela percebemos que Augusto


Bastos foi dos mais ativos participantes no Congresso Distrital, então
realizado (começou a 22.06.1913), tendo sido secretário da respetiva
Junta Organizadora (Costa, 2015, pp. 52, 245). O encontro recolheu as
participações dos elementos mais destacados nos vários ramos de
atividade no distrito, hoje província, que era então muito mais vasto,
incluindo Bié e Huambo. Junto com ele se distinguiram, entre outros,
Alberto de Lemos, um dos grandes intelectuais angolenses da primeira
metade do século; Baltazar d’Aguiam, advogado de quem iremos ainda
falar adiante; e Adolfo Pina5, jornalista que ali casou e veio depois, em
Luanda, a fundar A província de Angola (a 16.8.1923), o mais famoso e
continuado jornal da colónia. Ficou integrado na Comissão encarregue
das Questões da Colonização e Etnografia, da qual produziu relatório
aprovado pelo Congresso e elogiado por Alberto de Lemos (Victor, Augusto
Bastos, 1975, p. 14). A sua participação levantava dados etnográficos e
demonstrava já uma calorosa dedicação aos interesses do distrito, que
foi timbre da sua atuação política. Foi, de facto, um bom regionalista e,
para ele, a colonização tinha de constituir, obrigatoriamente, um fator de
desenvolvimento, só assim se justificando – o que estava em sintonia
(prudente) com a legitimação da ocupação territorial de África pelas
potências europeias. Para assegurar o verdadeiro desenvolvimento era
preciso garantir duas condições: primeira, a sua condução por uma
política cientificamente e positivamente enformada; segunda, a

5 V. os números de 9 e 16 de Julho.
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

“complementaridade entre colonizador e colonizado” nesse processo, “em


soluções consentâneas para ambos que teriam a sua origem numa
cooperação económica visível e participativa do lado do colonizado.”
(Costa, 2015, p. 132)

Politicamente, Augusto Bastos era um conservador tolerante, ao mesmo


tempo realista e idealista, prático, de sentido estratégico, e íntegro, de
19
uma moralidade e humildade que só os grandes ideais sustentam e que
a realidade pequena destrói ou dilui. Geraldo Bessa Victor apontava o
“fundo romântico do seu temperamento, apesar da consciência realista
que sempre o guiava na visão e tratamento dos problemas”. Essas duas
vertentes, a par dos condicionalismos político-sociais da época, terão
contribuído para que se tornasse, ao mesmo tempo, um conservador e
um homem apostado na renovação, no desenvolvimento, com ideias
avançadas para a época – por exemplo as que se relacionavam com a
regulação do trânsito automóvel, a higiene pública e a saúde ambiental.
Gastão Vinagre o classifica e explica assim:

Formado o seu espírito em pleno último quartel do século XIX, antes do movimento
renovador do 31 de janeiro de 1891, era […] politicamente, sem ser nunca
militante, um conservador; mas, por feitio, por estrutura, um tolerante, que
respeitava as mais arrojadas doutrinas esquerdistas.

Foi mais do que isso, como veremos. A sua carreira tem dois pontos de
destaque: a prisão em 1917, sob acusação de nativismo; a vereação no
pelouro que seria hoje o de ambiente e urbanismo (foi eleito vereador em
1921), coroada com a presidência da Câmara Municipal de Benguela
(1924-1925), de que foi ilegalmente demitido, com todo o executivo
camarário.

O crescimento social e profissional do autor na comunidade urbana da


Benguela colonial era cada vez mais reconhecido, o que podia causar
invejas e temores. Ao mesmo tempo, a frontalidade e lucidez com que
parecia expor as suas teses, a autonomia de raciocínio e, por vezes,
mesmo de ação, tornavam-no alvo de suspeição. Acabaria preso, como
disse, em 1917. Houve toda uma preparação para encenar um pretenso
movimento de ‘mata-brancos’ em Benguela, criando um clima de
suspeição que levava a desconfiar de simples conversas em voz baixa
entre duas ou três pessoas com tom de pele menos claro. Por momentos,
o clima inquisitorial resultou (Costa, 2015, pp. 243-244), mas o
movimento era uma inventona, usada para pressionar a saída do
governador (cuja permanência Augusto Bastos e outros defenderam6), o

6A investigadora portuguesa Cátia Míriam Costa encontrou, no Arquivo Histórico


Ultramarino, uma pasta relativa ao nosso autor, muito elucidativa no que diz respeito
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

“amigo dos pretos” – alcunha que lhe deram certos colonos, evidenciando
a consideração que tinham pelos ditos. Isso mesmo se vê nas páginas do
Jornal de Benguela desses dias que antecederam e acompanharam a
prisão, depois a soltura, de Bastos e outros injustiçados. Eram muito
poucas as vozes razoáveis. A maioria das opiniões e, por vezes, notícias,
apenas visavam criar o tal clima de suspeição contra os filhos da terra,
não passando de boatos ou de exageros. Rapidamente as forças morais 20
da cidade reagiram, entre as quais a própria maçonaria terá funcionado
muito bem, e o nosso escritor foi libertado ao fim de poucos dias. Mas o
procedimento visando a repressão dos nativistas imitou e aproveitou
movimento parecido em Luanda e no Quanza-Norte, pelo que as vítimas
de Ndalatando e Lucala perceberam que as de Benguela também eram
vítimas das mesmas forças e intenções. A julgar pelo jornal Angolense da
época, no seu número inaugural (29.9.1917, pp. 2-3), ele foi detido em
junho de 1917, no âmbito da repressão a eventuais movimentos
nativistas (Costa, 2015, p. 246). Mais ainda que em outros casos (sendo
o mais notório o de António de Assis Júnior), as acusações não se vieram
a comprovar.

Por momentos breves, olhemos mais perto para fazermos ideia do que se
passou.

As revoltas do Seles e do Amboim foram também instrumentalizadas por


esse sector colonial. É o caso de Luiz Figueira, que residia no
“Luzi=Lungué-Bungo” e, portanto, acompanhou muitas vítimas
portuguesas dessas revoltas. Estou a citá-lo porque é um exemplo típico.
No n.º 6 do Jornal de Benguela (Figueira, Correspondência, 1917) desse
ano, dá-nos uma sintomática versão das causas da última revolta.
Segundo ele, a revolta no interior se ficou a dever à libertação do soba
Bando, que se tinha revoltado contra os portugueses em 1915 e foi preso
e, sendo solto nesta altura, voltou com fama de ter resultado o seu
regresso de um feitiço e empolgou novamente as populações contra os
portugueses. Assim, garante Luiz Maria Figueira, a revolta não ficara a
dever-se ao imposto de cubata, como diziam muitos. A revolta ficara a
dever-se à libertação do soba. A 6-5-1917, o correspondente lamenta que
a autoridade militar não se faça sentir no interior, nem proteja o comércio
(Figueira, Correspondência, 1917). O cerne do problema, para ele,

à sua prisão. Segundo a pasta, “Augusto Bastos presidiu a uma comissão que tentava
manter no seu posto o governador do distrito de Benguela em 1917, ano em que se
deram as primeiras prisões e mais incisivas repressões sobre os nativistas em Angola,
com maior incidência para a cidade de Luanda.” A investigadora lembra que era
governador-geral Norton de Matos. Os dados foram recolhidos depois na sua tese de
doutoramento (Costa, 2015).
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

continuava sendo esse, a falta de repressão sobre ‘o gentio’, que impedia


ou perturbava ‘o comércio’.

O proprietário do jornal (M. de Mesquita) colaborou na criação do clima


de suspeição e temor que legitimaria a repressão. Num editorial do início
de maio, dá o «Alerta!». Entre outras meditações sobre o assunto, repare-
se nestas duas:
21
[…] parecem-nos revoltas de mais. Não recordando os acontecimentos do Sul,
todavia bem recentes, tivemos há pouco a revolta de Alem Quanza, que teve seu
início no Alto Cuito, estendo-se para os Luchazes, Lungué-Bungo, Moxico, Huambo
(Chitembo) e Bié.
[…] o gentio tem a sua polícia, bem melhor que a do Govêrno, e de um exttremo ao
outro da colónia todos os selvajens sabem, mais ou menos exajeradamente, o que
se passa.
(Mesquita, 1917)

A sugestão é a de uma espécie de golpe de Estado, ou revolta


generalizada, organizada e, como se vê por denúncias relativas à
passagem de agentes anglófonos pelo ‘mato’, incitando as populações
contra Portugal, uma revolta coordenada a partir dos EUA (fez-se menção
a um provérbio, contado aos ‘gentios’ por um desses agentes, em que se
dizia que Portugal é o ovo e a América é a panela).

Não eram só colonos os que apostavam na criação de um ambiente de


susto. Sabemos que, na movimentação comercial para o interior, que
acompanhava a implantação de administrações locais em toda a colónia
tal como definido pela Conferência de Berlim, muitos filhos da terra
procuravam recuperar algum poder económico indo comerciar para o
mato a par de novos colonos. Era, muito provavelmente, o caso de Manuel
de Oliveira Fançoni, pelo sobrenome um descendente da antiga família
de origem (também) italiana, que já levava em Angola cerca de um século
e fazia parte do mesmo grupo que ramificara nos Victor (incluindo o
poeta, biógrafo de Augusto Bastos e o seu avô Kinjango, o general Geraldo
António Victor). Ele dá notícia das “Proesas do gentio”:

[…] assalto do gentio no lugar de Camissamba, a uma comitiva de carregadores


que se dirijem a Cangamba, comitiva que sustentou fogo durante um dia inteiro
com os assaltantes.

Esta notícia já tinha chegado há mais de duas semanas, mas não queria acreditar
nela, porque custava-me a acreditar que tendo sido êsse gentio batido pelo
sargento Afonso Pereira da Silva […].

(Fançoni, 1917)
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

Fançoni subscreve do Muangai, a 18-3-1917 (o tempo que levava o


Correio!). Ele escreve vários artigos sobre a revolta. Assume-se
comerciante no mato e, ao que parece, de sucesso, espalhado por aqueles
“interiores”. A notícia sugere, como as anteriores, estar a colónia perante
uma revolta bem armada, portanto apoiada a partir do estrangeiro e para
a qual a solução consistiria no aumento da eficiência militar e da
repressão. 22

Apesar de até o proprietário do jornal entrar na campanha de suspeições,


estas posições não foram unânimes no periódico, aberto mas de cariz
dominante colonial, autonomista e maçónico. No começo de julho,
Maurício Marques da Paixão entra na liça para apontar as verdadeiras
causas da revolta. É uma clara denúncia. Fala da forma como o imposto
de cubata é cobrado, da extorsão dos indígenas por soldados e seus
comparsas locais, incluindo roubo de “malas, criação de toda a especie,
esteiras, etc; prendem crianças, mulheres e velhos […] e exigindo
mulheres formosas não se importando se são casadas ou solteiras, como
o signatário teve ocasião de presenciar numa das suas viagens ao
Interior; eis o terceiro e talvez se pudesse incluir no primeiro e principal
causador desta tão cruenta revolta. Isto quanto Seles” (Paixão, 1917).

Nesses primeiros meses de 1917, Augusto Bastos continuava a fazer-se


anunciar como advogado nas páginas do Jornal de Benguela. O seu par,
o advogado Baltazar d’Aguiam, católico e maçom como disse, estava bem
sobre a crista da onda reativa protagonizada pelos comerciantes e, de
resto, já dera provas antes de defesa de práticas, a todos os títulos
condenáveis, usuais em muitos desses comércios (Neto, 2016 [2010]). Ele
encontrava-se, segundo notícia de 18-5-1917, em Novo Redondo, de onde
saiu para Benguela num barco a gasolina, nomeado representante de
uma Comissão de Defesa de Novo Redondo (Sumbe), povoação que
estaria isolada pela revolta. Próximo destes coloniais, colaborando no seu
jornal dileto, nada faria prever que viessem acusar o nosso escritor da
chefia de um movimento nativista com ligações às revoltas “do Sertão”.

Mas a reação em defesa de Augusto Bastos foi tal que logo saiu da prisão.
De regresso à vida livre, continuou, também, a trabalhar como solicitador
e advogado de provisão. Realizou uma sólida recuperação de prestígio,
sendo eleito vereador da Câmara Municipal da cidade em 1921. Aqui
entra a sua segunda grande maka política.

O ponto culminante desta carreira política local atingiu-o exercendo o


cargo de Presidente da Câmara Municipal de Benguela. Acedeu a esse
posto sendo Vereador, porque o Presidente se retirou por motivos de
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

viagem e, uma vez indicado o seu nome, os colegas de vereação votaram


nele maioritariamente. Nem todos, porém, terão estado de bom grado
nesse ato. Digo-o porque alguns se recusaram a comparecer às sessões
da Câmara a que presidiu. Mas não só: procurando-se substituí-los,
alguns dos eventuais substitutos se recusaram também a aparecer, ora
não justificando, ora arguindo questões pessoais. O curto mandato foi
marcado, aliás, por uma polémica vinda de trás e que ditará o seu fim, 23
podendo, pelo menos em parte, a polémica explicar essas ausências, mas
podendo ser que tais ausências significassem resistência a um filho da
terra e consequente manobra de bastidores visando demiti-lo (não era
novidade, o mesmo acontecera com Joaquim Luiz Bastos no século XIX),
aproveitandos os ‘resistentes’ a polémica para derrubarem o ‘africano’.
Mas vamos aos pormenores e às datas.

O início do mandato dá-se ainda em 26 de outubro de 1923 (como


Presidente em exercício), sendo reeleito (pelos vereadores) em Janeiro de
1924 e acabando compulsivamente o mandato em Fevereiro de 1925.

A sua atuação foi decisiva, apesar de breve. Geraldo Bessa Victor deve ter
conhecido razoavelmente os factos, porque a elogia com propriedade,
embora sucintamente. Vejamos alguns pontos a favor do elogio ao seu
mandato.

Na sessão ordinária de 9-10-1924, sob presidência de Augusto Bastos,


decide-se “o encanamento de água” para o futuro “Palácio do Comércio e
Indústria”, caso o plano de construção fosse aprovado – e efetivamente
foi, durante o seu mandato. Esta canalização pode ser vista como
privilégio concedido aos empresários locais e que, no entanto, devia ser
para toda a população. Não se tratou disso, Augusto Bastos preparava
tudo para estender a satisfação das necessidades básicas a toda a
população, mas o encanamento para o Palácio empresarial visava
estimular uma classe fundamental para o progresso da cidade naquele
momento. Era, portanto, parte de um plano desenvolvimentista, do início
desse plano.

O espaço reservado à construção era o do “Largo do Hospital Velho”.


Sendo, como tudo indica, o mesmo edifício que se chamou Palácio do
Comércio (depois sede do partido-Estado), o “hospital velho” ficaria
portanto na zona dos Correios, ao lado da Escola que ainda hoje ali existe.
Estender-se-ia, portanto, a cidade desde o bairro piscatório do Quioche
(Kioche), junto ao rio Cavaco, pela zona do novo hospital, zona do atual
quartel, pela Igreja do Pópulo, até esse Largo, no que a tal paralelo diz
respeito, e prolongando-se depois em direção ao Largo da Peça, no qual
os grandes casarões e quintais recordavam o tempo em que as
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

expedições, vindas do interior, acampavam lá dentro para o comerciante


manter o exclusivo do negócio. Inicialmente afastado em relação ao
centro da cidade, hoje está o Largo, como se sabe, num dos limites da
‘zona de asfalto’. O afastamento em relação aos edifícios institucionais
era propositado, pois o comércio precisava de ‘recato’, alguma discrição
para esconder o que fosse menos legal, ou disfarçar atividades e lucros
ilegítimos. O resto da cidade espalhava-se por ambas as margens do 24
antigo curso do rio Coringe, que deaguava junto ao Hospital novo, nessa
época também desviado para a linha atual.

Visando superar as dificuldades com água salutar para os mais


elementares cuidados, o “encanamento” do precioso líquido foi muito
solicitado na altura por empresas e particulares, que davam o material,
e a Câmara sempre aprovava e canalizava, junto com outros
melhoramentos deste mandato, relativos à electricidade e infra-
estruturas básicas. Isto implica ser a extensão de um serviço público
básico limitada às posses de quem o pedia mas é preciso levar em conta
que, dessa forma, a distribuição de água se ia generalizando sem se ficar
na dependência de dinheiros públicos que, ou não vinham, ou
demoravam a chegar. Em sessão de 27-01-1923, Augusto Bastos, ainda
vereador, pedia “que em face das reclamações dos munícipes a quem
foram deferidas várias petições para canalização de água que se comece
a fazer desde já as referidas canalizações começando ///7 pelo Hospital.
– Disse ainda o senhor Vereador Bastos que desejava saber em que altura
está o processo respeitante por falta de cumprimento da construção do
tanque de abastecimento de agua, pois é sua opinião que o serviço da
construção se deve concluir”8. Isto mostra o sentido político das
intervenções de Augusto Bastos: começar pelo Hospital, onde a existência
de água corrente era indispensável e serviria a todos e alargar o serviço
rapidamente a todos os que o pediam. Vê-se que ele tinha, ao mesmo
tempo, uma perceção social e prática, muito concreta, das tarefas a
realizar por um executivo camarário.

Era antiga a sua preocupação com a saúde ambiental e estava marcada


nas sessões da vereação desde que foi eleito para ela. Concordante é a
sua vigilância relativamente à limpeza pública. Na sessão de 24-11-1922
ele pede que se reduza “o pessoal da limpeza devendo primeiramente
proceder-se a uma rigorosa fiscalização e chamando à responsabilidade
o respetivo encarregado”9. A princípio, redução do “pessoal de limpeza”
parece o contrário do que foi: fiscalizar essas contratações e prestações a

7 As três barras oblíquas indicam mudança de página.


8 Livro de Atas da CMB, fl. 247.
9 Id., fl. 212-v.
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

partir do “respetivo encarregado”, que, pelos vistos, era ineficaz e, talvez,


corrupto.

Em sessão de 12-01-1923 o vereador Bastos “lembrou ao sr. Presidente


que o Bairro de Benfica [o ‘bairro indígena’ da época] necessita da limpeza
achando-se ali amontoado bastante lixo”10. E já numa das primeiras
intervenções depois de eleito ele recordara “a necessidade de mictorios e
25
retretes”11. Na mesma sessão de 3-2-1922 ele recorda a necessidade de
“criação do posto medico dentro do Edificio [do Mercado]” (fl. 105r). Estas
intervenções demonstram que o seu plano era abrangente, não feito
somente para ricos da zona de conforto, mas para todos, olhando-se o
conjunto urbano de forma englobante.

Durante a sua atuação, deu-se a peste bubónica. Para enfrentar a peste


bubónica foram desencadeadas várias ações preventivas, por proposta
sua, entre as quais a demolição de prédios velhos. Era já conhecida a sua
preocupação com ruínas, uma vez que, na sessão de 12-01-1923,
“lembrava mais proceder-se em harmonia com a lei no que respeita aos
muros e prédios em ruínas” (id.). Ainda antes, em sessão de 10-2-1922,
o vereador Bastos vira aprovada a ordem de serviço relativa a “limpeza e
regas da cidade”, bem como à aquisição de meios para os mesmos fins12.
Aprovaram-se também nesse dia duas intimações importantes para a
higiene pública: aos “Municipes que tenham aglomeramentos de
indigenas dentro dos quintaes” no sentido de “retiral-os emediatamente”;
e “intimar a limpesa de quintaes e terrenos”13. Calculo que o vereador
responsável pelo pelouro estivesse por trás destas aprovações, revelando-
se diligente e preocupado. Na sessão seguinte (14-2-1922) a “Comissão
de melhoramentos sanitarios” pede que seja construído um “crimatório
para queimar os lixos da Cidade e para organisação de uma brigada
sanitaria de trabalhadores para se proceder a limpesa da cidade”14. Mais
uma vez, estamos perante sinais ou fragmentos de um plano englobante
para a saúde ambiental da cidade.

Nessa perspectiva (da saúde e do bem-estar públicos) se decide ainda


reforçar, ao longo do seu mandato como presidente, e apressar o “aterro
do leito do Rio Coringe [rio pluvial] e suas margens”, que “atravessa a
cidade”. Note-se que em 1916 já se dizia que “a cidade era atravessada
antigamente pelo rio Corinje (grafavam dos dois modos). A necessidade
de regularizá-la levou a Câmara Municipal a desviar o rio para uma vala

10 Id., fl. 239-v.


11 Id., acta da sessão de 3-2-1922, fl.105r.
12 Fl. 106v do livro de Atas desse ano.
13 Fl. 106r do livro de Atas desse ano.
14 Fl.107r do livro de Atas desse ano.
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

que construiu, direita ao mar, seguindo paralelamente à avenida da


Igualdade”, que não sei a qual das ruas de hoje corresponde, mas será a
que vai dar à rotunda do cine-Kalunga se a vala se manteve sempre no
mesmo lugar. Na noite de 21 para 22 de Abril desse ano, “as águas
cresceram grandemente; a barrajem feita foi arrombada e todas
irromperam com grande violência pelo antigo leito do Corinje, direitas ao
largo do Brasil, onde se dividiram em várias torrentes caudalosas que 26
invadiram as ruas vizinhas, descendo com maior violência pela rua do
Brasil, largo T. Braga, praça da República e rua do Mercado, onde se
precipitaram para a parte do leito não aterrada, no terreno pertencente
ao sr. J. Fonseca Costa, formando um grande lago, ameaçando as casas
vizinhas”15. Em 5 de Maio de 1916, o dr. Manuel de Oliveira Machado
propusera que se fizesse mais uma vala para as águas do Corinje,
“cimentada, que atravesse a cidade na direcção do antigo Corinje”. Nada
fora feito. Em 1924 ainda estava por aterrar o antigo leito, com todos os
prejuízos que já em 1916 se fizeram sentir…

Consequentemente, os proprietários dos terrenos junto ao rio, ou


incluindo margens e leito, foram intimados a realizar, em pouco tempo,
o aterro nos seus terrenos. Esse aterro uniu a cidade (visto que o rio a
cortava ao meio) e livrou o seu centro de um foco de imundície, doenças
e inundações. Entretanto, alguns proprietários não terão gostado do
‘ultimatum’ e isso os levaria a reagir na sombra contra o vereador.

Dentro do mesmo âmbito propôs o Presidente, em reunião de 23-10-


192416, “ser encanada a água, W.C. etc.” nas “Escolas Oficiaes”, sendo
as despesas respetivas descontadas na renda a pagar ao senhorio –
prática ainda hoje corrente na cidade (melhorias a descontar na renda).
A proposta foi aprovada. A democratização do fornecimento de água
continuava, no âmbito mais genérico de uma saudável gestão ambiental,
e levara já o vereador Bastos a lembrar ao Presidente que era preciso
concertar “a bomba da cacimba do Bairro indigena tanto mais que o
chafariz do largo Eleodoro Salgado não funciona bem /// por depender
de nova canalização” e recorda mais ser necessário concertar “o marco
fontanário do Mercado”17. Em sessão anterior (24-11-1922) ele fizera a
proposta (aprovada pela Câmara) de se “colocar um guarda no chafariz
do Largo da Peça e outro na R. Eleodoro Salgado”18, para assegurar a
distribuição e preservar os equipamentos. Ele interpelara também o
Presidente da Câmara, em dado momento, sobre a falta de água na

15 Jornal de Benguela, n.º 17, 28.04.1916, p. 4.


16 Ata n.º 133, fl. 9 do livro de Atas desse ano.
17 Fl. 223 do livro de atas relativo a esse ano, sessão de 15.12.192.
18 Fol. 212v do livro de atas relativo a esse ano.
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

cidade19, pedindo esclarecimentos acerca da causa. Sem dúvida, estava


a levantar muitas tampas e as panelas ferviam…

Enquanto Presidente propôs ainda, e viu aprovada, “a regulamentação


da circulação dos automóveis e todos os carros que tenham motor de
explosão bem como o exame aos conductores profissionaes e amadores,
por meio de jury”. Lembre-se que, nesses inícios da circulação automóvel,
27
a falta de regras espalhava a arbitrariedade, os transeuntes limitavam-se
a fugir quando se aproximava um carro e este podia não ser bem
conduzido… A medida do vereador Augusto Bastos era, por isso, muito
oportuna.

O bem-estar da população era visto no seu conjunto, não passava só pela


regulamentação do trânsito, nem só pela melhoria das condições físicas
do ambiente. Numa sessão anterior, de 16 de novembro de 1923, Augusto
Bastos, já Presidente em exercício, propôs que, “para solemnizar” o 1.º de
Dezembro, se tomassem várias iniciativas, entre as quais “convidar a
banda de música do senhor Luís Gomes Sambo a tocar no Jardim Público
nesse dia e de futuro, aos Domingos e quintas feiras”20.
Consequentemente, na reunião de 3 de dezembro de 1923, decide-se “pôr
em arrematação o arrendamento da exploração do botequim no Jardim
Público”, para servir “bebidas e refrescos” nos dias festivos e às 5.as F.as e
Domingos “em que a banda de música ali for tocar”21.

Em várias sessões decide-se também, de forma geral, aumentar os


salários dos trabalhadores da Câmara, ou subsídios. Ao mesmo tempo
demonstrava Augusto Bastos, já enquanto vereador e depois, como
Presidente, os gastos excessivos da Câmara. Em sessão de 29-12-1922
logo se insurgira contra o preço a que foi comprada lenha pela Câmara,
obrigando o vereador responsável a explicar que o fez por não haver na
altura mais ninguém a vendê-la22. Estava, possivelmente, ele próprio, a
comprar lenha… para se queimar.

Em sessão de 12-01-1923 votou-se o orçamento para a visita do


Presidente da República. Votou-se uma verba de 100.000$00 e o vereador
Bastos foi o único a votar contra “por achar excessiva a verba”23. Era,
sem dúvida, corajoso e consequente.

19 Fl. 209v do livro de atas relativo a esse ano, sessão de 17.11.1922.


20 Fl.134v do livro de atas relativo a esse ano.
21 Fl. 138v. Recorde-se que Luís Gomes Sambo deixou em Angola uma descendência

ilustre até hoje. Era, também, ervanário, exercendo a medicina natural.


22 Livro de Atas relativo a esse ano, fl. 232v.
23 Id., fl. 239r.
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

Em conclusão, o seu mandato municipal (enquanto vereador e, depois,


Presidente) não se resumia ao de um conservador, mas era também o de
um modernizador consciente e, diríamos hoje, ecológico – além de um
radical anticorrupção, quer dizer, um perfil moral próximo do das suas
personagens ideais.

Claro que uma política destas incomodava os poderes estabelecidos e


28
ainda mais protagonizada por um filho da terra, por ‘civilizado’ que se
apresentasse ou parecesse (e, de facto, ele é que pretendia civilizar). Mas
a gota que fez transbordar o copo foi a luta de Augusto Bastos contra a
Companhia Elétrica do Lobito e Benguela, com influência forte sobre o
governo local e o da colónia. A demissão compulsiva e ilegal, do
Presidente e de todo o executivo camarário, parece-me mesmo
relacionada com desavenças entre a Câmara e a Companhia Elétrica de
Lobito e Benguela, pelo que é preciso estudá-las para percebermos o que
se passou, até porque se pretendeu sujar o seu nome durante o processo
na imprensa.

As desavenças de A. Bastos com a CELB talvez viessem já de 1916. Pelo


menos é desse tempo um processo no qual Baltazar d’Aguiam e Augusto
Bastos entram (o primeiro como advogado e o segundo como solicitador).
Pelo artigo publicado por B. d’Aguiam no Jornal de Benguela, eles
estariam na defesa dos réus (d'Aguiam, 1916)24. O processo envolvia o
que veio a ser nos anos seguintes a CELB e que então se chamava «The
Lobito, Benguela & Catumbela Electric Light & Power C.ª Ltd.», como
acusadora, sendo ré a C. M. do Lobito. A carta é uma carta aberta ao Juiz
de Direito da Comarca de Benguela, Dr. Arnaldo Diniz da Silva Vianna,
com quem o advogado cortara relações precisamente por causa deste
processo. O nome do nosso autor é largamente citado nessa carta e daí
extraí as informações. O juiz teria agido irregularmente, levando a pasta
respetiva para casa, não a tendo entregue quando lh’a solicitaram para
consulta e desculpando-se com o nosso escritor.

Como se diz nas estórias: passou tempo. Em sessão de 20-10-1922, a


Câmara delibera oficiar “a Antonio da Costa” no sentido de colocar
algumas lâmpadas que faltam “pela cidade lembrando novamente a
instalação de luz no Bairro Benfica”25. O referido cidadão responde
dizendo que procederá em conformidade, o que é reportado à Vereação
na reunião seguinte. Mas em seguida pede esclarecimentos e pede que
sejam contadas todas as lâmpadas que faltam, o que efetivamente se fará
mais tarde, faltando ao todo 21.

24 N.º 11, 17-03-1916, pp. 6-7.


25 Livro de Atas relativo a esse ano, fl. 201v
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

Na sessão de 8 de dezembro de 1922 a Câmara delibera sobre o


orçamento “da Luz Electrica” para instalar electricidade no bairro
indígena. O Vice-Presidente lembrou que “aquele Bairro não é o que fica
destinado aos indigenas e que em face da última portaria /// sobre
Bairros indigenas já foi escolhido novo local”. O vereador Bastos propôs
então que fosse instalada a luz apenas nas casas dos europeus que ali
moram e que lá ficarão (visto não serem indígenas) e a proposta foi 29
aprovada, sendo informado disso “o Administrador da Luz Electrica Snr.
Carlos Godinho”. Confesso que não percebi a limitação aos europeus,
mas talvez Augusto Bastos, em face dos interesses coloniais, visse por aí
uma forma de fazer chegar a luz ao Bairro, que depois se estenderia, ou
simplesmente quisesse agradar a um setor hostil à partida.

Na sessão de 22-12-1922 o vereador Bastos pediu a palavra para, entre


outras coisas, instar a que se insista com a companhia elétrica para
colocar os postes que estavam em atraso26. Na sessão de 27-12-1922 o
vereador Vale propôs que não se procedesse à instalação elétrica nos
Paços do Concelho, dado o preço excessivo pedido no orçamento. A
proposta foi aprovada27. No dia 5 de janeiro de 1923 foi discutida pela
Câmara a proposta de aumento do preço da luz para privados e Câmara
(feita por António da Costa, seu concessionário), dando-se como
compensação “energia eléctrica a fim de poder ser accionada uma bomba
de 2 polegadas para o abastecimento de Águas da Cidade”28. O Presidente
lembra que o caso é complexo e pede para se realizarem estudos primeiro,
mas Augusto Bastos declara-se frontalmente contra, sejam quais forem
os estudos, visto “que aquilo que agora se oferecia como compensação
[...] já constava da condição sexta das modificações do contrato feitas em
16 de Junho de 1921 em cuja condição todavia não se fixava o diâmetro
da bomba a empregar”29. Visto que os restantes vereadores concordaram
com ele, apesar de sublinharem Presidente e Vice-Presidente a
conveniência de realização de estudos, consideravam “o caso liquidado”.

A Ata da reunião de 27-01-1923 (Augusto Bastos era já Vereador) faz


referência ao ofício n.º 306, “no qual se pedia para mandar numerar os
postes de iluminação”. Só essa numeração permitia controlo público do
que efetivamente se instalara.

Na sessão de 26 de outubro de 1923, Augusto Bastos, ainda na qualidade


de vereador, reclama da CELB por esta já ter enviado aos contribuintes
nota avisando que vai cobrar o novo preço da luz aprovado pelas Câmaras

26 Livro de Atas relativo a esse ano, fl. 228r.


27 Id., fls. 228-v e 229-r.
28 Id., fl. 234r.
29 fl. 234v.
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

de Benguela e do Lobito. Argumenta o vereador Augusto Bastos que essa


decisão ainda não subiu às instâncias superiores e, sem ser aprovada
superiormente, não pode executar-se. Propõe que se avise o público e a
Companhia disso mesmo. Estranhamente a Ata não menciona qualquer
votação relativa ao assunto.

Na sessão de 16 de novembro de 1923 discutiu-se um pedido da CELB


30
para que se despachasse rapidamente o assunto do aumento. O pedido
foi indeferido pelo mesmo motivo: ainda não tinha sido superiormente
aprovado o aumento e, portanto, a CELB também não poderia começar a
cobrar o aumento já desde 1 de novembro do ano anterior, como
pretendia.

Nessa mesma sessão é discutida uma queixa de Albertino Teixeira da


Silva contra a Companhia Elétrica, por esta lhe querer impor a compra
de um transformador no valor de 650 escudos. Alegava o queixoso que,
pelo contrato firmado entre a Câmara e a CELB, a ligação devia ser feita
sem essa imposição. O pedido é deferido porque realmente, pelo contrato
estabelecido, a Companhia não podia fazer exigências dessas, “como já
esta Câmara em tempo lhe fez ver”. O diferendo foi subindo de tom até se
chegar a uma situação-limite, em que a CELB tornou pública a
divergência de forma a criar na população um mal-estar contra o
executivo camarário, justificando assim a sua demissão. Dado o
agravamento da situação, é convocada pelo Presidente (agora já Augusto
Bastos) uma sessão extraordinária, para 4.2.1925, de que dá conta a Ata
n.º 143, que é preciosa porque faz o historial de todo o processo.

A CELB publicou no famoso Jornal de Benguela um “incidente” que levou


o Presidente a propor ao executivo a publicação, nos periódicos locais, de
uma nota oficiosa para esclarecer a população. Foi feita, ali mesmo, a
recapitulação dos eventos e o Presidente acusou a Companhia de
apresentar sobrefaturações à Câmara, por exemplo numa fatura em que
se cobravam 122 lâmpadas a mais (o que implicava uma despesa mensal
acrescida em 660$75 cada mês). Perante isto a Câmara tinha deliberado
não pagar à Companhia até que esta reconhecesse o erro e o emendasse.
Num primeiro momento a CELB reagiu, insistindo em que não era um
erro. Só três meses mais tarde, no princípio de novembro de 1924,
reconheceu as razões da Câmara, dizendo que a responsabilidade era de
um seu “electricista” e que, portanto, ela (CELB) estava a agir de boa fé.
A 7 de janeiro de 1925 a Companhia pediu novamente que se liquidassem
as faturas em atraso e, numa sessão realizada no dia seguinte – sessão
na qual os vereadores reelegeram Augusto Bastos como Presidente –
mandou-se processar o pagamento. Estando o mesmo já em processo na
Secretaria há 14 dias, a CELB escreve novamente ao executivo camarário
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

pedindo que se processasse imediatamente o pagamento sem perguntar


pelas causas do atraso ou pelo ponto da situação – ignorando a decisão
tomada a 8 de Janeiro e que lhe tinha sido comunicada. Nessa carta a
Companhia dá um prazo de oito dias à CMB para efectuar o pagamento,
alegando que não obtivera resposta ao seu pedido de 7 de janeiro. A
Câmara Municipal de Benguela responde três dias mais tarde, a 24 de
janeiro de 1925, dizendo que a culpa da morosidade no pagamento era 31
da própria Companhia, que não tinha mandado numerar os postes e, por
isso, provocou a devolução das faturas (o contrato previa a numeração
dos postes, o que nunca foi feito e possibilitou a cobrança de 122
lâmpadas a mais e respetivos consumos). Reafirmou também o
Presidente, nesse ofício de 24 de janeiro, que mandara, na sequência da
sessão de 8 de janeiro, liquidar as faturas. As mesmas seriam liquidadas
no mês de fevereiro, depois de arrecadadas as receitas das Alfândegas,
por não haver antes dinheiro para fazê-lo. Tudo foi reafirmado pelo
executivo camarário em ofício à Companhia, após deliberações em
reunião extraordinária realizada a 30 de janeiro, sendo aprovado tudo
por unanimidade. A Companhia, entretanto, começara a exigir juros de
mora indevidos, visto que reportava os juros ao momento em que tinham
sido enviadas as faturas erradas (Setembro) e não ao momento em que
reconheceu o erro (Novembro). Ato contínuo, a CELB faz sair no Jornal
de Benguela o comunicado no qual acusa a Câmara da responsabilidade
pela situação.

A celeuma criada gerou o ambiente de confusão propício à demissão do


executivo. Esta foi feita pelo Governo-geral da Província em duas
portarias saídas no Boletim Oficial n.º 6 desse ano (2.ª série). A primeira
“determina a dissolução desta Câmara”, alegando que não tinha havido
eleições, e a segunda “a nomeação de uma Comissão Administrativa
Municipal composta de 5 vogais” – em vez da marcação de um ato
eleitoral. O executivo em exercício ponderou, entre outras coisas, que não
foram feitas eleições no fim do mandato ordinário, mas que a
responsabilidade pela situação não era da CMB, uma vez que é o
Governo-geral que as convoca. Argumentou ainda que os mandatos se
prolongam até serem eleitos novos membros e, de facto, os vogais eleitos
na eleição anterior tinham escolhido Augusto Bastos como Presidente. Se
os mandatos se prolongam, não há razão para demitir o executivo,
devendo o Governo-geral marcar eleições. Ora, o Governador-geral, não
só demite o executivo em exercício como também não marca novas
eleições, nomeando a comissão administrativa para tapar o vazio legal e
gerir a cidade por tempo indefinido. Por tudo isso considerou a CMB que
as portarias eram nulas e decidiu continuar com os trabalhos até à
ocorrência das eleições. A força, porém, não estava do seu lado: aparece
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

logo em seguida uma Ata relativa à reunião da comissão administrativa


de 21 de fevereiro, que inicia os seus trabalhos como se nada tivesse
acontecido e trabalha ainda por muito tempo sem sequer se colocar a
questão das eleições, que pelos vistos eram adiadas com medo dos
resultados. É de notar que nenhum dos membros da comissão
administrativa pertencia ao executivo anterior, portanto nenhum deles
fora eleito. Convém também recordar que, oficialmente, Portugal 32
encontrava-se num sistema democrático…

Pelo que percebi, foi assim a História, que, mais uma vez, havia de
contribuir para criar ressentimentos entre os cidadãos locais e os
governos coloniais.

Depois de muitas vicissitudes e de ter sido novamente reabilitado, o Alto-


comissário Vicente Ferreira convidou Augusto Bastos a organizar o
Arquivo Histórico de Angola, mas o seu sucessor desde logo se
desinteressou pelo trabalho, perdendo-se com isso muita documentação,
segundo Gastão Vinagre. Augusto Bastos faleceu a 10 de Abril de 1936,
pelas 22h, de morte súbita (ataque cardíaco). Ainda que tenha havido, no
início, alguma confusão com as datas, logo se emendou e verificou ser
esta.

Vida literária
Augusto Bastos manifestou sempre maior inclinação para a pesquisa
científica (História incluída) e o pensamento racional (em linhas
aproximadamente positivistas) do que para a produção literária. Era, sem
dúvida, um criativo, mas a sua criatividade, que chegou a manifestar-se
pela pintura e pela composição musical, estava direcionada num sentido
ora político ora, sobretudo, investigativo.

Na mal disfarçada autobiografia que publicou nas páginas de O Lobito ele


se comparou a um condiscípulo e amigo precisamente nesses termos: o
amigo era o artista por excelência (como foi, de facto, na vida), ele se
inclinava para a racionalidade e as ciências. A literatura de Augusto
Bastos ressente-se dessa inclinação pessoal.

A sua atividade mais estritamente literária passou pela narrativa, não lhe
conheço nenhum poema lírico nem nada que se aproxime. Como já disse
em outro momento, uma narrativa que segue as pisadas de Pedro Félix
Machado em Scenas d’África e da Nga mutúri, de Alfredo Troni — quer
pelo seu realismo; quer no que de incipiência literária elas enfermavam
(embora Félix Machado fosse já um narrador mais acabado e o seu
romance bem mais desenvolvido, tanto quanto Alfredo Troni um narrador
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

mais maduro). Em tudo o resto são diferentes: Augusto Bastos quase não
recorre à ironia, que é um dos dotes superiores da arte de Félix Machado
e de Alfredo Troni; a documentalização excessiva e as passagens
etnográficas de Bastos, inseridas em plena narrativa sem qualquer
cerimónia, são também sabiamente evitadas por Troni e Machado; a
sofisticação do enredo em Félix Machado não tem paralelo, também, no
benguelense. Ainda assim, a sua narrativa tem interesse para uma 33
História da Literatura Angolana.

Que eu tenha lido, publicou Augusto Bastos as seguintes “aventuras”: A


vida nas selvas30, Os gigantes lusitanos através dos mares31 e Aventuras
policiais do repórter Zimbro32 (inicialmente com o nome de Memórias
policiais do repórter Zimbro). Li também alguns números de As furnas do
Lobito, folhetim publicado no jornal O Benguela (17.11.1906 – 7.3.1907),
cujas cópias me foram facultadas por António Fragoso Trindade em
Luanda. Há outros títulos anunciados, mas estes foram os que encontrei
e, mesmo assim, creio que nunca uma série inteira como nela terá
pensado o autor. É nestes folhetins, portanto, que me baseio.

O silenciamento a que foi votado Augusto Bastos pela crítica é talvez


devido ao fato comum de se lhe atribuir uma mentalidade colonial, ou de
assimilado. Acho, no entanto, mais forte razão para pouco se falar dele
no fato de as constantes erupções cutâneas de um discurso positivista,
etnografista, quando não meramente jornalístico, perturbarem a
literariedade exigida a uma narrativa artística no seu tempo. Tirando
isso, as narrativas do escritor são limpas, em estilo claro e clássico,
afetado momentaneamente por diálogos formais próximos do quotidiano
do comércio – que, por isso, embora fossem reais e quotidianos, não
entravam na literatura realista. A obra não deixa, porém, de constituir
um dos elos que liga o século XIX ao século XX, Pedro Félix Machado a
Óscar Ribas, numa vertente simetrizada, em balizas temporais mais
estritas, entre Pedro da Paixão Franco e António de Assis Júnior.

30 2 pequenos volumes, um de 1917, segundo Gerald Moser (AAVV, 1986) – Cátia


Míriam Costa indica 1919 (Bastos A. T., O caçador de Leões, [1917]; 1919) – e outro de
1919 (Bastos A. T., Debaixo de um Búfalo, 1919). Título completo da série:
31 Em 1919 também. Título completo da série: Litteratura nacional / Os gigantes

lusitanos através dos mares / ou / Aventuras Extraordinárias da epopeia


ultramarina portuguesa / Colecção histórico-romântica. Destes apenas
encontrei e consultei o primeiro número da série, Dois heroes de Dezasete
anos, passado no norte de África (Bastos A. T., Dous heroes de dezasete
annos, 1919).
32 Estas já em 1931-1932.
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

Se Augusto Bastos escreveu ficções que se prestam ao desqualificativo de


coloniais, apesar de ser natural de Benguela33, isso não deve sustentar
equívocos e levar-nos a excluí-lo do estudo da formação e do
funcionamento de um sistema literário em Angola. Para a história da
formação de um sistema literário, o que pensou o poeta sobre o mundo
não é excludente da respetiva identidade literária. Veja-se o caso de
Céline em França, para exemplo. Relevante é sempre como escreveu, 34
melhor, como o seu texto organiza uma leitura e o seu pensamento
importa na medida em que estruture a organização da obra e a
manipulação dos conteúdos, além de se tornar um conteúdo também e,
como tal, poder ser mera simulação.

No caso concreto da obra de Augusto Bastos, creio mesmo que o termo


“colonial” não é o mais apropriado. Nascido em Angola e mandado
estudar para Lisboa, onde não pôde passar ao nível universitário pela
morte prematura do pai, ele seria bem mais um “estrangeirado” que um
“colonial” e, mesmo assim, estrangeirou-se por três anos apenas em
Lisboa. Mas note-se que se pode ser um estrangeirado mesmo sem nunca
ter saído do país (Macedo, sd, p. 47). Aqui se trata de alguém que procura,
na sua terra, dar a prossecução possível a um projeto de pensamento
iniciado fora dela, projecto naturalmente embebido na dominante
cultural mais vulgarizada na época, o positivismo, que trará uma retórica
de bisturi e de gabinete a uma das fases mais agressivas da colonização
portuguesa, mas que Augusto Bastos procurou humanizar.

De acordo com o espírito na época dominante entre a sociedade crioula,


que por momentos, estrategicamente, vibrou de portuguesismo ou
lusismo com o golpe republicano em Lisboa, Augusto Bastos reconhecia-
se português e realçava os “relevantes serviços” que o protagonista de
uma das suas histórias “prestou ao governo e à nação no titânico
trabalho da submissão dos povos indígenas e no estabelecimento da
nossa soberania”34. Para além de ressoar, no “titânico trabalho da
submissão”, a voz do grandioso Quinjango, escritos como este se
engajavam ainda, tanto quanto as convicções regionalistas, federalistas
e descentralizadoras do autor, na utopia de uma relação de “amizade”
com os portugueses fundada na “equiparação absoluta de direitos”, como
protagonizava A voz d’África em julho de 1930 (Andrade, 1998, p. 117).
Para além da defesa da sua ação de classe a coberto do manancial
simbólico do Império, atitude que não ficaria inédita na história literária

33 V., mais à frente, a referência a Fernando Reis. Leia-se a propósito o capítulo


«Literatura colonial : de colonizadores ou de colonizados?», incluído por Mário António
em A formação da literatura angolana (pp. 219 e ss) (Oliveira, A formação da literatura
angolana, 1985, p. 219ss).
34 O Caçador de leões, p. 5.
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

angolana, a narrativa que nos legou representa uma curiosidade especial,


que misturava o exotismo do urbano pelo rural, que era o dos seus
leitores, à mentalidade científica portadora das vinhetas “positivas” e à
preocupação pedagógica em desmitifcar o mesmo exotismo que
pontilhava no cenário.

Em boa parte, o que em Augusto Bastos se pode qualificar de «exotismo»


35
deriva de um espectro de leitura idêntico ao que levou a nossa geração
de 1878 a escrever poemas bilingues. Era uma questão de ‘gosto público’.
O público, essencialmente europeu ou europeizado, procurava o exótico,
sendo exótica a tradição do outro (a de sua mãe). O grande mercado para
uma narrativa de flora e fauna local era, sem dúvida, constituído por
colonos, ou candidatos a “coloniaes”, ou familiares deles e curiosos
portugueses, ou, finalmente, urbanos angolenses desenraizados. A
narrativa, entretanto, foi simultaneamente usada por ele para, ao mesmo
tempo, universalizar traços locais – função que Óscar Ribas levará o mais
longe possível em toda a sua obra.

Representando para tais leitores, o benguelense narra em tons épicos o


início da colonização da Huíla na série A vida nas selvas; mas, atestado
pelo cânone cientificista que bebera em Lisboa e desenvolvera em
Benguela, firma em letra de lei, por investigação histórica desenvolvida,
a instalação e disseminação da colónia de Moçâmedes em O caçador de
leões e descreve, em Debaixo de um búfalo, a carta geográfica e a
distribuição étnica da zona onde a ação decorre. Descrição redigida com
a camoniana segurança de quem maneja por experiência o saber
(experiência de que dão notícia as suas idas constantes ao interior), tanto
quanto por leitura o disciplina. Nesses momentos, afasta-se a narrativa
da literariedade e do próprio género, passando-se, em bruto, ao ensaio
etnográfico. Mais tarde Ruy Duarte de Carvalho misturou ambas as
disciplinas (antropologia e narrativa) mas com uma sensibilidade
artística infelizmente ausente no nosso benguelense.

A atitude ou o exotismo de Augusto Bastos avança, no tanto, algo de novo


(o rigor positivista alimentado pela vivência local) à expectativa colonial.
Um segundo sinal de diferença em face do público-destinatário das
narrativas é, como disse, a preocupação em corrigir os mitos que havia
sobre África e sobre a “selva”, ao inverso do que realizou Cadornega, que
nos deixa de herança o que teria sido o acervo mítico da «ilha» crioula de
Massangano.

O aproveitamento do gosto exótico para desfazer as desfigurações,


segundo Luís Forjaz Trigueiros já antigo na literatura de viagens
portuguesa (Oliveira, A formação da literatura angolana, 1985, pp. 228-
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

229), vem encontrar-se aqui com a tradição didática dos sermões, e que
não deixa de se notar nos escritos políticos de Manuel Patrício Correia de
Castro e de Joaquim António de Carvalho e Menezes. Estou a referir-me
ao didatismo, sublinho, pois no resto se trata de realidades e livros bem
diferentes. Com o preocupado regresso à descrição realista, não
fantasiosa, junta Augusto Bastos ao cientificismo o didatismo, e isso não
o liga só ao passado, visto que ainda chega hoje a um Sousa Jamba, 36
quando o vemos deplorar no livro inaugural as mitificações repetidas
pelos guerrilheiros da UNITA. Esta preocupação didática e realista é
transversal no decurso da formação da nossa literatura.

Tal preocupação leva o nosso benguelense a perder duas páginas num


diálogo, entre o caçador mucubal e o seu companheiro branco, só para
nos esclarecer acerca da dala, desmitificando o que sobre ela punha a
circular “a gente da terra” (Bastos A. T., O caçador de Leões, [1917]; 1919,
pp. 9-10) – que não deixa de ser aqui uma expressão curiosa. E,
didaticamente, quem desfaz os enredos é um jovem mucubal perante o
seu companheiro de caça, branco, filho de um colono-modelo, criatura
laboratorial entretanto criada numa fazenda de chicoronhos próximo do
Lubango. O ensinamento continua ainda quando, mais à frente, o
narrador sublinha a cautela com que os caçadores se aproximam da
serpente morta: “passados só cinco minutos, por cautella, depois que a
dala deixou de se mover, se approximaram” (Bastos A. T., O caçador de
Leões, [1917]; 1919, p. 12).

O didatismo de Bastos não se resume a conselhos práticos, pois também


educa representando os valores morais que deviam governar as relações
sociais no entender do autor, como passarei a mostrar.

Em O Caçador de leões, um filho de fazendeiros, atento e capaz, salva um


caçador mucubal seu amigo; em Debaixo de um búfalo sucede o contrário,
ficando nós a saber que o mucubal o salvara do búfalo. Os dois jovens35
constituem-se personagens modelares e simétricas: ambos inteligentes,
respeitam-se, nutrem amizade um pelo outro, são leais e sinceros, para
além de corajosos e prudentes.

Claro que a ideação social que estrutura os episódios é conservadora,


hierarquizada, e de uma ordem que não admite retorno, ou troco. O jovem
mucubal trata sempre o seu amigo fazendeiro, respeitosamente, como
“Senhor” – ainda que ambos sejam da mesma idade e companheiros de

35A escolha de dois jovens para protagonistas acentua a preocupação didática da


obra, num recurso (o de espelhar o leitor-alvo no protagonista) que Pepetela vai
recuperar em As aventuras de Ngunga, uma ficção que nasce, pelas próprias palavras
do autor, para servir ao mesmo tempo de manual linguístico e moral aos mais novos
que estavam nas zonas controladas pelo MPLA.
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

caça; e protege-o, de acordo com as recomendações (não os pedidos) dos


colonos pais; o jovem branco assume igualmente um definido papel em
relação ao caçador amigo e seu salvador: respeita-o, segue os seus
conselhos, fala “em pura lingua do paiz” tanto quanto o correspondente
mucubal em português “correto” e “desembaraçado”, levando Cangombe
a reconhecer-se “pasmado de o ouvir fallar tão bem a nossa língua como
se fosse aqui nascido”36; mas o filho do fazendeiro, do proprietário e 37
ocupador das terras, atesta no trato a sua suserania, dirigindo-se ao
amigo na segunda pessoa do singular, enquanto o mucubal o chamava
de “Senhor”.

Não se propõe a superioridade racial propriamente, faz-se um retrato


conservador da superioridade social imposta pelos novos esquemas
económicos trazidos com a colonização. Se fosse um problema de raças,
não se representavam os dois protagonistas adjetivados por igual, com
epíteto de belos fisicamente, modelares moralmente e paradigmas do que
se entendia por inteligência. Os dois entroncam numa crónica relatada
positivamente, ora pela gesta dos colonos, ora pela descrição etnográfica,
uma baseada na leitura de documentos escritos e outra baseada na
observação da oralidade. Mas uma espécie de propedêutica social
aconselha a que nenhum dos dois saia do lugar em que a sociedade os
deu à luz. A raça (representada pela cor da pele) é, aí, uma coincidência
de superfície que vem colorir e atormentar uma ordem inquestionável: a
de quem manda sobre quem obedece, a do vitorioso e sua descendência
sobre o derrotado e sua descendência.

A conclusão literária a extrair a esta curta análise é a de que o didatismo


do autor assenta arraiais sobre um falso realismo descritivista, falso
porque falseado enquanto discurso artístico pela análise social do
etnólogo positivista com provas públicas dadas; falso, ainda, porque é
realista na técnica sem o ser ideologicamente. A composição das suas
tramas é, mais do que realista, sociologicamente orientada, não intimista,
visando modelar costumes. Era essa uma das funções do folhetim. Leia-
se o que sobre o assunto diz Mário António n’A formação da literatura
angolana: “as qualidades do jornalista [...] continuavam-se no escritor.
Era uma literatura [a folhetinesca] interessada em refletir e corrigir o
real”. É por aí que ele concretiza o paradoxo do realismo: retratar
cientificamente a sociedade que ao mesmo tempo se está corrigindo por
via de uma personagem-modelo, ou de uma atitude modelar, portanto
mais do que real, ideal, irreal.

36p. 8. Note-se como esta narrativa se estrutura toda em função da leitura, obediente
ao género que a modeliza, o do folhetim. Aqui, o que o amigo é levado a pensar é o que
se deseja que seja o leitor levado a pensar.
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

A intenção moralizadora, que tem como pano azul um verdadeiro diálogo


entre classes, etnias e culturas na “selva”, projeta sobre a instância da
personagem o traço que marca um discurso de autor que viola a natureza
da representação: “o senhor nada tem que me agradecer pelo que fiz, que
não foi senão um dever, porque todos os homens se devem socorrer uns
aos outros”. Para que o leitor entenda verosímil o nível de linguagem do
jovem mucubal, que é quem ficticiamente fala, o artista coloca um aviso 38
que parece um arranjo de última hora: “O mucubale exprimia-se com
correcção e desembaraço, e revelava logo ser uma excellente, como não
menos intelligente, creatura.” (Bastos A. T., O caçador de Leões, [1917];
1919, p. 8) A passagem serve também de sino para chamar a curiosidade
do recetor sobre a figura do jovem negro, que é o ponto fundamental para
desmiticar o que se diz acerca dos ‘selvagens’, ou dos habitantes das
selvas (onde já havia brancos – seriam selvagens?). Mas o narrador força
a nota pondo essa fala parcimoniosa e própria de leitores eruditos numa
personagem da oralidade, igualmente nobre mas da oralidade. É pouco
provável que este português literário fosse próprio, aliás, de qualquer das
personagens. Particularmente aquela construção “que não foi senão um
dever”, porque ela entra para a língua portuguesa por influência da
sintaxe francesa que, por sua vez, se devia a um índice forte de leituras
em francês durante o século XIX sobretudo.

A ficção de Augusto Bastos encerra, como se vê, um feixe de traços


vantajosos e desvantajosos para a literatura, que recorrem antes e depois
dele. É claro que, em outras tradições, houve também muitas épocas
dominadas pelo docere, pela preocupação que leva a utilizar a poesia
como veículo de ensinamento. Mas a recorrência do didatismo ao longo
da cronologia literária angolana torna-o num traço próprio por
insistência, abrindo a cada época um sabor exato (neste caso o do
costumismo ruralizado, modificando um cronótopo que vinha do fim do
século passado e que era essencialmente urbano). Ora, no panorama
anterior e urbano, quem foge a isso é justamente Pedro Félix Machado,
ao que o seu parnasianismo não será estranho, tanto quanto um realismo
coerente. E é de Pedro Félix Machado – um escritor física e socialmente
próximo do benguelense – que Augusto Bastos nunca fala.

Também verificando as estruturas postas em funcionamento pelo


etnógrafo e político benguelense nos folhetos que publicava, muito
certamente pagando-os ele próprio antes da venda os custear,
encontramos uma íntima ligação com a tradição literária crioula,
especialmente a novecentista, mais em particular a da geração de 1878.
Mais uma vez, Pedro F. Machado é que era original relativamente a essa
tradição; Augusto Bastos sai de dentro dela – o que a nenhum dos dois
retira angolanidade. Mas um traço estrutural – e que se prende
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

igualmente com relações inter-sistémicas – vem reunir Pedro F. Machado,


com as Scenas D’África, a Nga Mutúri, de Alfredo Troni e as Aventuras de
Bastos. Qualquer delas foi primeiro publicada em folhetins distribuídos
por diversos números de jornais e só depois coligida num único volume.
Daí que, num sentido que procurarei apurar, estejamos perante uma
tradição folhetinesca.
39

Folhetins aos pares


A formação da literatura angolana entrou numa velocidade de sistema
quando a globalização da literatura se fazia, em grande parte, por
folhetins através da imprensa escrita. No meio de nós, o processo de
naturalização dos folhetins começou por leituras, o que é natural, e
passou para a fase de apropriação poucas décadas mais tarde.
Rapidamente os escritores locais aperceberam-se da função crítica,
política e da possível função identitária do folhetim, como do jornalismo
em geral. Alguns, ainda que sensíveis à rentabilização política ou
identitária, exploraram mais a função poética; outros optaram
diretamente pelo uso político explícito – que não constituiu uma
especificidade.

Quando chegamos ao tempo de publicação de Augusto Bastos e de


António de Assis Júnior (1887-1960), estava completo o processo de
aclimatação da espécie, depois de Nga Mutúri (1882) e de Scenas d’Africa
(1891) terem conseguido uma forte impressão local. O angolense, jornal
a que ambos os escritores estiveram ligados, escolheu precisamente
Scenas d’África – ? – Romance íntimo, de Pedro Félix Machado, para
folhetim “no seu número inaugural” (em 1907), como lembraram M.
António (Oliveira, A formação da literatura angolana (1851-1950), 1997,
p. 56) e Bonavena (Bonavena, 2012, p. 44), inserindo-o numa
identificação que se procurava re-cortar e com-firmar.

António de Assis Júnior e Augusto Bastos estavam mais próximos do que


se pensa hoje, tendo ambos sido vítimas da repressão que se seguiu às
inventonas de ‘mata brancos’ da época (no caso de ambos, 1917). A sua
proximidade se nota igualmente na segunda série d’O angolense (a de
1917), fundamental para a defesa dos interesses dos filhos da terra face
à agressão colonial do século XX, como também para a criação de uma
identidade local, ao mesmo tempo alternativa à portuguesa e às das
etnias ou nações circundantes – a que também estiveram ligados. Aí
publica Assis Júnior (que foi, também, diretor do jornal) o famoso Relato
sobre os acontecimentos de Ndalatando e Lucala, depois impresso na
tipografia do periódico (a Mamã Tita (Costa, 2015, p. 70)). E Augusto
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

Bastos fica arrolado entre os heróis no grupo dos nativos vítimas da


repressão colonial, ainda que os termos usados não fossem estes
exatamente, facto lembrado já por Alberto de Lemos (Lemos, Nótulas
históricas, 1969, pp. 127-130).

Augusto Bastos é o segundo escritor, em Benguela, a usar a vantagem


da relação da imprensa com a literatura. O primeiro foi Pedro Félix
40
Machado, que fundou na velha cidade crioula A semana (1892-1893),
onde publicou diversos contos curtos, um deles interessante por se tratar
de uma espécie de conto fantástico passado numa fazenda do interior. É,
porém, com Augusto Bastos que se aproveita por inteiro, já não tanto a
genérica relação imprensa-literatura, mas a estrutura, função e presença
do folhetim nas páginas dos jornais em Benguela.

António de Assis Júnior fez o mesmo aproveitamento, para o que


interessa agora com O segredo da morta, publicado primeiro nas páginas
de A vanguarda, em 1929, sob a regulação genológica do folhetim
(Calzolari). Augusto Bastos, nas aventuras publicadas em 1917 e 1919,
usava já essa regulação genológica para as construir e, através dela,
segurar a atenção do leitor, ora manipulando suspensões e suspense, ora
aludindo à aventura seguinte ou anterior, ora diretamente anunciando o
que vem na aventura seguinte, sem desvendar por completo o enredo. E
veio a publicar, em folhetim, no Jornal de Benguela – e talvez em O Lobito
– no começo da década de 30, os seus contos policiais.

Significa isto que, na pequena sociedade literária angolana e angolense,


essa espécie mista, a meio caminho entre literatura popular e jornalismo,
se manteve com valor e vigor de cânone e de solução narrativa durante
as primeiras três décadas do século XX.

Assis Júnior, explicitamente, fala em preservar e dar a conhecer as


tradições angolanas de uma comunidade específica, mas absorvente,
quando apresenta o seu romance-folhetim. Por isso também, mescla na
linguagem das personagens e, por vezes, na sua própria, provérbios ou
ditos ou palavras oriundos da tradição quimbundo.

Aqui, a textualização dos dois companheiros afasta-se, diverge, ainda que


a sua autocolocação numa semiose de fronteira se mantenha. Augusto
Bastos estuda e publicita as tradições em torno de Benguela através,
sobretudo, de ensaios e artigos etnográficos, ou inserindo nas suas
narrativas secções, notas e fragmentos etnográficos até no estilo. Mas
não insere fragmentos da oratura banto no discurso narrativo. Também
não monta a intriga numa derivação da cosmogonia banto, ou
especificamente quimbundo, umbundo, hanha, mucuísse, etc. Isto
mesmo se nota comparando O segredo da morta e Aventuras policiais do
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

repórter Zimbro. O nódulo central da intriga passada no Dondo só


funciona se acreditarmos em pragas rogadas à beira da morte e se
raciocinarmos numa lógica animista, pois os desenlaces da estória são o
resultado de uma praga e de uma crença animista. Pelo contrário, os dois
nódulos centrais dos “episódios” do repórter Zimbro são dois assassínios
praticados na cidade de Benguela, motivados por malfeitores europeus
disfarçados, através de instrumentos conhecidos e visualizáveis, em 41
enredos racionalmente resolvidos pelo magnífico investigativo. A
realidade artística dos crimes está validada pelo pacto e pela comunidade
imediata de leitura sem qualquer apelo à crença animista, ou espiritista
(segundo testemunhos pessoais, Augusto Bastos ter-se-ia aproximado do
espiritismo no fim da vida, mas isso não estruturou a sua escrita). O que
não implica menor investimento nas questões identitárias, antes outra
maneira de proceder à estratégica defesa de um espaço razoável de
manobra para o grupo dos filhos da terra, assumidamente africanos –
esse o objetivo comum com o Assis Júnior de Relato sobre os
acontecimentos de Ndalatando e Lucala e da Liga Nacional Africana
(1930).

Tendo isto em conta, retornemos ao nosso autor e examinemos os


folhetins do repórter Zimbro. Como acabamos de ver, a divulgação por
folhetins era comum no tempo, assente que estava ainda a lei do mercado
literário na empatia entre as opções estéticas do leitor e as do autor. A
esmagadora maioria dos periódicos fazia gala em ilustrar as suas páginas
com essas peças de vulgarização narrativa (e às vezes político-partidária)
que detinham, naturalmente entre outras, a função de segurar uma fatia
o mais vasta possível de leitores. Nesse quadro, diz Heron Alencar, citado
por Mário António, que os ficcionistas dos jornais dominavam uma
“técnica, muito sua, de interessar o leitor, de prendê-lo ao desenrolar da
intriga. Esse segredo de manter a atenção do leitor presa à ação da
história levou não poucos escritores de renome, na Europa, a utilizarem
recursos técnicos próprios de folhetim, a fim de ganhar leitores” (Oliveira,
A formação da literatura angolana (1851-1950), 1997, p. 183). Foram os
casos de Augusto Bastos e de Assis Júnior, os mais destacados
folhetinistas do seu tempo em Angola.

O folhetinista era levado a cingir-se a um formato não dispendioso,


portanto normalmente pequeno, para cada episódio. Por sua vez o
episódio tinha de formar uma unidade narrativa suficientemente
completa para ser lida sem as outras e cativar mesmo o leitor que não
tivesse lido as anteriores. No interior das cenas, ou no final, ou
cumulativamente, havia que prender a atenção, ora adensando mistérios,
ora remetendo assumidamente para o próximo número do periódico. Em
resumo, isto implica uma estrutura comprimida, uma linguagem concisa
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

e “prática”, e uma totalidade para cada cena que a tornasse


autossuficiente sem deixar de acordar a curiosidade do leitor para o que
estava por vir.

O fecho dos episódios, apesar de os encerrar, tinha que deixar, portanto,


algo em aberto, em suspenso. Isso é determinante para o estilo de um
escritor. O autor apura, por causa dessas condicionantes, processos de
42
suspensão diegética e de anúncio ou profecia da narração, nos termos
em que Genette as descreve nas Figures III, um verdadeiro manual
aristotélico para a narrativa do século XX.

A transformação do folhetim numa série, por via da sua inclusão num


conjunto de “aventuras”, é o passo a seguir pelo escritor quando as suas
estórias são bem recebidas. Acostam-se dessa forma enredos em
sucessão que, por norma genológica, devem ter um mesmo sentido de
leitura, um “fio” que os una (seja o ambiente referencial, o
posicionamento social do narrador, ou pelo menos uma personagem que
repete em várias estórias). Com um grau muito superior de
homogeneidade e complexidade, é isto que acontece nas telenovelas hoje,
que têm de satisfazer as mesmas condicionantes de receção, embora
perante um gosto diferente e através de recursos cénicos e suportes
técnicos muito sofisticados. Num grau superior de literariedade e
extensão, foi também assim que escreveu Ariano Suassuna o
monumental Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-
e-volta, publicado em 1971 (Suassuna, 1972).

Foi entre o folhetim simples e a coleção de folhetos que se estruturou a


dispositio, mesmo o macrotexto, das curtas narrativas de Augusto
Bastos. Ele separava-as em “fascículos”, deixando bem claro na capa que
os cadernos faziam parte de uma série, e apelando ainda, fático e
apelativo, à leitura do número seguinte, anunciado na contracapa. Fez
isso com a sequência «Os gigantes lusitanos através dos mares ou
aventuras extraordinárias da epopeia ultramarina portuguesa». Esta, por
sua vez, com a congénere «A vida nas selvas», integrava uma colecção
«romantico-historica», onde se prolonga a contradição já notada em Pedro
Félix Machado, de escrever ele um romance de análise social intitulado
“romance íntimo”37, pois “historica” remete para o conceito positivista de
verdade que se irá representar no interior das obras, e “romantico” remete
para uma época literária em que a simbolização dos sentimentos íntimos

37Lembre-se as “poesias íntimas” que fazem a autobiografia lírica de Arcénio de


Carpo, ou seja, o Dedo de Pigmeu. O íntimo de P. F. Machado designa o próprio
segredo que liga duas das principais personagens.
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

imperava sobre o realismo. Ambas as séries foram fortemente marcadas,


nos paratextos, pelas funções fática e apelativa da linguagem.

Para além de marcar os números da série, e o título, no topo da capa


repetia-se: “Publicação em fascículos”. No verso da contra-capa
solicitava-se: “Leia no próximo numero”. Depois indicava-se o título do
número seguinte, o qual sugeria o cerne do episódio que relatava: Debaixo
43
de um búfalo. No caso da série lusitanista, logo a partir do volume II, em
vez de se chamar a atenção para o cerne do episódio, destaca-se uma
personagem recorrente, “Pedro Galego”, que surge no título do “nº 2” com
As proezas de Pedro Galego, e ressurge na contra-capa d’A viagem
maravilhosa, onde se anuncia “«O terror dos piratas» / Em que apparece
em scena a sympathica e heroica figura de / PEDRO GALLEGO”.

Não só nos envoltórios do livro encontramos o recurso. Também no


decurso da narração deparamos com frases que obrigam o leitor a
recordar-se do número anterior, e com outras que o remetem para o
seguinte. Veja-se, por exemplo, A Vida nas selvas.

O folheto inaugural da série termina assim: “no próximo número


contaremos ao leitor a origem das relações de amizade entre o jovem
Nestor e o seu companheiro de caça — o mucubale Cangombe” (Bastos
A. T., O caçador de Leões, [1917]; 1919, p. 16). Efectivamente, o “nº 2”
finaliza em simetria com o primeiro, evocando a cena com a qual se
iniciava o anterior: os dois amigos no quadro da família colonial reunida.
Reforçando a coligação entre ambos os volumes, o narrador do segundo
conclui elucidando-nos que “foi assim que se iniciaram as suas relações
de caça e de amizade” (Bastos A. T., Debaixo de um Búfalo, 1919), como
quem retomasse o fecho do livro inicial (e reativando, simultaneamente,
recursos típicos da narrativa oral). É uma estrutura que se aparenta à
que Mário António observou em Scenas d’África: “as imposições da
produção folhetinesca parecem ter ditado a estrutura e o
desenvolvimento do romance, cujo primeiro volume termina com um
espaço de interrogação a que o segundo vai responder” (Oliveira, A
formação da literatura angolana (1851-1950), 1997, p. 183).

Por sua vez, o texto interior do volume inaugural, no que talvez signifique
o subsídio a um deslize, remetia já para o segundo, pois nele afirma a
dado passo o narrador: “tinha passado esse dia da primeira aventura de
Nestor” (Bastos A. T., O caçador de Leões, [1917]; 1919, p. 5). Ora, até
chegarmos a tal página, não deparamos com nenhuma aventura de
Nestor, apenas com a crónica impessoal da colonização de Mossâmedes
e da Huíla. Certamente que “esse dia” se refere ao episódio contado no
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

número seguinte, cuja anterioridade diegética é claramente afirmada em


relação ao tempo da intriga do primeiro volume.

O provável deslize nos alerta para que o autor investiu a posteriori na


dispositio dos diversos números, trocando uma sequência linear (que já
na altura era a comum em Angola, como se vê pela Nga Mutúri) por outra
analéptica, depois de escritos os episódios que cada volume constitui,
44
eventualmente compostos numa só unidade antes de publicados, de
resto numa edição “popular”.

Não é só a dispositio dos volumes a ter significado aqui. A própria


organização das séries em que eles se incluem diz-nos mais alguma coisa.
A sequência das aventuras marítimas estava incluída em outra.
Enquanto «A Vida nas Selvas» anunciava um conjunto intitulado
“Aventuras Africanas”, a série «Os Gigantes Portugueses através dos
Mares» integrava-se num segundo conjunto, subintitulado “Literatura
Nacional” (no sentido de portuguesa). Os títulos dos folhetos da série
africana, por sua vez, antecipam títulos da literatura colonial escrita
pelos caçadores de elefantes, como a do livro do irmão de Teixeira de
Pascoaes, João Teixeira de Vasconcelos (Vasconcelos, África vivida -
memórias de um caçador de elefantes, 1957; Vasconcelos, Caçada ao
búfalo, 1961). E não deixam de remeter, no seu conjunto, para “scenas”
de África.

As duas séries bipartiam a obra do ficcionista em motivação “lusitana” e


motivação “africana”, mostrando claramente a cisão extrema entre um
filho da terra e um aportuguesado que viviam na mesma pessoa. A
primeira ficção de Augusto Bastos é, portanto, no aspeto ideológico, uma
cabal demonstração do ambíguo panorama mental que se apresentava
aos filhos do país no entrechoque das diversas correntes de opinião e de
interesses que o atravessavam — e, a cada passo, o torpedeavam,
principalmente a seguir à Conferência de Berlim.

Esta bipartição, a divisão por pares, é, de resto, uma das características


dominantes da narrativa do nosso benguelense, como passo a mostrar,
agora que deixei mais detalhada a marca da estrutura de folhetim sobre
a sua obra.

As duas séries de aventuras que dividem a ficção publicada por Augusto


Bastos nos anos 10 do século passado ficaram sem sequência na década
seguinte. Só no começo da terceira década do século o autor voltou ao
folhetim e à narrativa, agora para inaugurar a ficção policial em Angola.
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

As Aventuras policiais do repórter Zimbro (1931-1932), de Augusto Bastos,


constituem, de facto, o primeiro policial da literatura angolana. Porém,
não foram até hoje tidas em consideração nas narrativas sobre a
formação da nossa literatura. Isso deve-se ao facto de se terem
‘adormecido’, ou desaparecido. Explico-me:
Apesar de Júlio de Castro Lopo (que conviveu com o autor) e Geraldo
Bessa Victor (que conheceu bem o autor) as referirem, a obra, se 45

publicada em livro, ninguém hoje a viu, nem ninguém a comentou com


detalhe, mostrando leitura aturada ou repetida do original. Entretanto, a
passagem das Aventuras a livro parece confirmar-se nas páginas do
Jornal de Benguela:
“Aventuras policiais do reporter Zimbro

O nosso presado amigo Augusto Bastos, que publicou, em folhetins, neste


jornal, duas novelas policiais da sua autoria, resolveu mandar imprimir,
em folhetos, a sua continuação.

O primeiro fasciculo, que acaba de ser publicado, intitula-se O Misterio dos


dedos sangrentos, e constitui um dos mais notaveis trabalhos do afamado
reporter Zimbro, que a fertil imaginação de Augusto Bastos criou e soube
tornar imorredoiro.

A capa do interessante trabalho do nosso novelista policial vem animada


com a figura insinuante do afamado reporter – detective – figura que se
ajusta perfeitamente á ideia que dele se pode conceber, atravez a sua
descrição, nas paginas animadas das suas novelas.

O Misterio dos dedos sangrentos encontra-se á venda na Papelaria de M.


de Mesquita, onde se recebem pedidos.

(ANÓNIMO, 1932, p. 4)

Um fascículo, portanto, era vendido em Benguela em 1932, na papelaria


do proprietário do jornal. Entretanto não se depara com esse registo em
nenhuma biblioteca. Nas degradadas coleções de jornais da Biblioteca da
Administração Municipal de Benguela, encontram-se duas aventuras e
meia (as duas que a notícia refere, mais o começo de outra), publicadas
sob a forma de folhetim, no Jornal de Benguela – um dos melhores jornais
de Angola na primeira metade do século XX. A terceira aventura está
pouco mais do que iniciada, sem sequência. Creio ser a que depois veio
a lume em folhetim separado e que o periódico anuncia.
As duas aventuras editadas no jornal, por todos estes motivos e porque
ninguém mais ligou ao assunto, não mereceram nenhum estudo. Mas
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

estamos agora em condições de encetá-lo, depois de as reencontrarmos e


de as termos disponibilizado aos leitores.

Estruturas paralelísticas e sua função


Quando escreveu seus contos policiais, Augusto Bastos era já um
veterano do folhetim e da publicação em pagelas, cujo conteúdo se 46
moldava pela forma, a estrutura e a função do folhetim.
Não admira. Em primeiro lugar por motivos internos: o folhetim foi,
talvez, o formato mais lido ao longo do século XIX em Angola. Foi também
o mais praticado pelos nossos narradores, com destaque para o já
referido Pedro Félix Machado. Nessa prática ainda, o jornalista
benguelense acompanhava o curso global do romance popular do seu
tempo (Hecquet, 2009, p. 401). Recordemos que, por exemplo, em 1904,
Jaurès lançava o L’Humanité com destaque especial para essa secção,
tendo nela publicado nada menos que Émile Zola.
Ao impulso ainda forte recebido pelo folhetim nessa época se juntava o
gosto pelo mistério, pelo suspense e pelas figuras retóricas afins. Ao fazer
a viragem para o policial e os géneros de suspense, que se incrementa no
período entre as duas Grandes Guerras, como já notara Fidelino de
Figueiredo (Figueiredo, 1944), Augusto Bastos assediava o público
europeu da colónia, sem deixar de mimar (é o termo) o público local, que
seguia pelo mesmo diapasão.
Além disso, havia estímulos económicos. Na época, os angolenses
usavam muito o folhetim curto, autênticas pagelas, com capas em que o
papel tinha a mesma gramagem que no miolo. Era um produto barato,
prático (de leitura breve, além de aliciante), legível e vendável em
qualquer lado. Recorriam às pagelas para lançarem títulos rentáveis,
assegurados por efeitos imediatos – apelando ao gosto popular do
momento. A publicação, como no jornal, por episódios (cada folheto um
episódio) ia garantindo, através do suspense criado sobre a estória
seguinte, a fidelização dos leitores, que podiam dispor de alguns tostões
por mês para comprar o próximo número. Não era só ambição literária,
que também havia, mas uma via para arranjar um suplemento ou
complemento financeiro. Augusto Bastos, com as Aventuras policiais do
repórter Zimbro, foi dos mais estratégicos nisso: publicou duas ou três
aventuras nos jornais da terra e, depois de criado o sucesso e o suspense
em torno das seguintes, cancelou a publicação nesses jornais passando
a anunciar e fazer noticiar neles a saída dos folhetins-pagelas.
Isto não significa inexistência de um projeto e de um propósito literários.
A comparação entre as várias narrativas escritas e publicadas por ele
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

revela uma consciência literária definida, recorrente, conservadora, uma


espécie de receita realista contextualizada e moralizadora, repetida na
medida mesma do seu sucesso naquele modesto meio. Receita que, no
entanto, se depurou das primeiras Aventuras (publicadas em 1917 e
1919) para as últimas (publicadas em 1931 e 1932), acentuando o cariz
artístico e retirando as notas etnográficas ou históricas.
A receita vinha, segundo Hecket, dos tempos do Segundo Império francês, 47

dominando a segunda fase do romance popular (até 1870). Nela, o herói


extraordinário corrige os crimes e, portanto, repõe a ordem. Os crimes
não são imputáveis à sociedade, mas a indivíduos sem escrúpulos. Trata-
se, portanto, de narrativas populares ideologicamente conservadoras e é
mesmo esse o nosso caso, embora com subtilezas que não podemos
desprezar.
A principal característica da terceira fase do romance popular, existência
de uma condenação injusta (ou, pelo menos, errada) de que o falso réu
recupera (mais rapidamente) pelo bom exemplo dado nesse momento
difícil, assiste à primeira das Aventuras policiais, intitulada A máscara
azul, em que se acaba descobrindo que uma segunda personagem usou
a mesma máscara para se fazer passar pela primeira e a primeira tem,
entretanto, um comportamento exemplar na prisão, que suscita a trágica
piedade do leitor e corrobora a sua reabilitação moral ao se descobrir o
engano. Na segunda aventura, intitulada O sinal da morte, pelo contrário,
o crime descobre-se, os seus autores são castigados, mas as duas
inocentes vítimas (o pai, que morre; a filha, que fica órfã e só) sofrem a
perda irreparável provocada pelo crime.
Lendo as aventuras do repórter Zimbro no Jornal de Benguela é possível
identificar os fios de continuidade que ligam os vários folhetins do autor,
além daqueles que derivam das regras do género. Uns são verbais, outros
não-verbais. Um deles é o da estruturação por pares, ou seja, uma
estruturação não-verbal. Podemos explorá-la centrando-nos na
composição das personagens em pares, aspeto puramente literário, sem
que seja intrinsecamente linguístico.
Em A vida nas selvas (1917, 1919) são dois jovens, um filho de colono
vivendo no mato e um filho da terra de linhagem nobre e desapossada.
Nas Aventuras extraordinárias da epopeia ultramarina portuguesa são
Dois heróis de dezassete anos. Nas Aventuras policiais do repórter Zimbro
são, também, dois: o próprio protagonista e o seu assistente, Manuel da
Silva. Qualquer dos dois, por sua vez, tem uma dupla ocupação.
Dentro das Aventuras policiais outros pares aparecem. Por exemplo: há
dois médicos, há dois mascarados com o mesmo disfarce, há dois
“negociantes e proprietários europeus” e dois “proprietários africanos”,
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

há dois empregados de um comerciante brasileiro, há um duplo crime


(roubo e homicídio), há um par de amantes a envenenar um comerciante
rico lesando a sua filha.
A pergunta que venho colocar agora é: para que servem tais pares na
ficção de Augusto Bastos e, particularmente, nos “episódios” policiais?
Sendo mais específico ainda: para que servem na composição das
personagens dessas Aventuras? 48

Vejamos o primeiro par (primeiro porque sempre, ou quase sempre,


ocupa o centro da cena e condiciona o foco narrativo). O detetive Zimbro
é um jornalista português que Bastos imagina ter vindo para Benguela
para acompanhar os grandes exploradores como Serpa Pinto,
Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens. Na primeira dessas aventuras (A
máscara azul), que então se titulavam Memórias (Memórias policiais do
repórter Zimbro), cuja publicação começa a 2.11.1931, é-nos resumido o
historial da chegada a Angola de Zimbro:

Entre essas pessoas, que passaram a noute no[sic] camara ardente,


encontrava se o reporter Zimbro, que para cá viêra de Portugal, enviado por
um importante jornal de Lisboa, para o qual trabalhava e que o
encarregára de, enviando-lhe periodicamente as suas notas de
reportagem, trazer aquele jornal ao corrente dos trabalhos e sucessos das
grandes expedições que a Nação á Africa enviára, chefiadas pelos nossos
patrioticos exploradores Major Serpa Pinto, que atravessou o continente
negro, de Angola á costa oriental, e oficiais da Armada Hermenegildo
Capelo e Roberto Ivens, que nessa época, fizeram a viagem de Benguela
ás terras de Iaca e mais tarde fizeram tambem a travessia da Africa.
O reporter Zimbro fôra companheiro de viagem daqueles três ilustres
exploradores, de Lisboa a Benguela.
(BASTOS, 1931, p. 4)

Seis dias mais tarde (11.11.1931) avança que o repórter ia dedicar ao caso “a sua atenção
e aptidões policiaes, de que era dotado e de que em Lisboa já dêra exuberantes provas
revelando-se um autentico e excepcional detective.” (BASTOS, 1931, p. 4) E acrescenta,
poucas linhas depois:

Como enviado do grande jornal de Lisboa, trouxêra o reporter Zimbro


importantes cartas de apresentação.
Em poucos mezes, relacionou se com as autoridades e com as principaes
figuras da sociedade de Benguela, o que lhe facultava obter daquelas,
sempre que lhe era necessario, as concessões convenientes, para seguir
qualquer pista tendente a conduzi-lo á descoberta de algum crime e do seu
autor, como por mais de uma vez sucedeu.
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

(BASTOS, 1931, p. 4)

No capítulo (VI) e dia (12) seguinte nos apresenta o par do jornalista-


detetive:

49
O reporter Zimbro aliára aos seus trabalhos de reportagem jornalistica e
de investigação policial um rapaz africano, inteligente, vivo, chamado
Manuel da Silva, com bossa literaria e que de cá costuma de tempos a
tempos enviar umas cronicas para o «Jornal do Comercio e das Colónias»,
e para o «Diário de Noticias», ecolabora/ção [sic] charadistica para o
«Almanach de Lembranças», e com o qual o reporter lisboeta travou relações
poucos dias depois da sua chegada a Benguela.

Rapidamente se estabeleceu entre os dois uma grande simpatia, tornando


se amigos inseparaveis e tendo Zimbro encontrado em Manuel da Silva,
que se tornou o seu braço direito em Africa, um bom e precioso auxiliar, um
leal e dedicado colaborador.

Por agora, não preciso dizer muito acerca deste par, além de chamar a
vossa atenção para a tendência de adjetivar por pares também, uma
tendência verbal convergente. Quanto ao resto, o leitor atento já reparou
no mesmo que eu:
1. Zimbro é português e vem de Portugal já reconhecido e
recomendado; Manuel da Silva é “africano”, também jornalista e
literato, escrevendo para periódicos portugueses;
2. o português é o grande detetive e jornalista; o africano é o seu
“precioso auxiliar, um leal e dedicado colaborador”;
3. o português mantém a posição dominante que tem, de facto, na
sociedade colonial; o africano instruído mantém a função
coadjuvante que detinha na mesma sociedade.
Uma situação parecida encontramos em A vida nas selvas (O caçador de
leões; Debaixo dum búfalo), onde o tratamento entre os dois jovens
protagonistas assinala a posição dominante do filho do colono e a função
coadjuvante do filho da terra, de resto confirmada em várias passagens e
já referida atrás. Ambos, porém, revelam uma extraordinária inteligência,
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

uma correta sensibilidade ao outro, o conhecimento da língua do outro e


a partilha de valores.
O desnível indiciado pelo tratamento entre os dois adolescentes, ou pelo
destaque actancial do repórter português, acontece apesar de, nas duas
séries de Aventuras (e sobretudo na primeira), ambos os membros do
respetivo par revelarem excecionais e idênticas capacidades. É certo que
o repórter Zimbro vai muito mais longe e mais depressa que o seu 50

assistente, como sucedia com Sherlock Holmes e Watson (par cuja


primeira aventura foi publicada em 1887). Zimbro é mais experiente e
viajado, mas Manuel da Silva é também “inteligente, vivo”, tornando-se
ambos “amigos inseparáveis”. No caso de A vida nas selvas encontramos
outro par de “amigos inseparáveis”, havendo maior preocupação em
colocar as suas capacidades no mesmo patamar. Aí, porém, se trata do
filho do colono já criado na terra e do filho da terra já crescendo com a
presença colonial, ao passo que Zimbro é um reinol e Manuel da Silva
cresce, não com a, mas na presença colonial.
Passemos ao segundo par destas “novelas policiais” (assim lhes chamou,
também, o Jornal de Benguela na época). O segundo par mais importante
para o caso é o dos “dois físicos da terra”, “o dr. Africano” e “o dr. Pinto”.
Cada apelido nos remete para uma origem: o Dr. Africano pertence às
famílias da terra, “era irmão do antigo professor e advogado provisionario
de Benguella – Henrique dos Santos e Silva”, cujo apelido se articula ao
de uma prestigiada família angolense até hoje; o Dr. Pinto nos remete
para uma ascendência de cristãos novos portugueses – embora não seja
obrigatória a conclusão, na verdade muito generalizada e o que há mais
é Pintos em Angola e Portugal sem qualquer marca de novos conversos.
Na segunda Aventura (O sinal da morte) o par de físicos é constituído pelo
mesmo Dr. Africano e pelo Dr. Semedo. Curvo Semedo era um apelido
prestigiado, que os angolenses conheciam bem, incluindo na profissão de
médico (então chamado “físico”). Na estória, o Dr. Semedo é o médico
assistente do comerciante envenenado, mas não dá com o estranho caso,
que só o repórter Zimbro, com o apoio de Manuel da Silva, irá deslindar.
Apresentando uma grande seriedade e humildade, ele diz que precisa de
consultar o seu colega, o Dr. Africano: “o meu ilustre colega é um físico
abalizado” (BASTOS, 1931, p. 6). Claro, o que o torna mais abalizado
ainda é que um médico português bem cotado afirme isso dele e, só por
esta ilustração, já se vai percebendo uma das funções da criação de pares
nos folhetins de Augusto Bastos.
Com os médicos encontramos o ponto de equilíbrio entre as duas
componentes daquela sociedade colonial – a africana e a europeia. Ambos
são bons “físicos”, a competência do Dr. Africano é reconhecida pela
cidade e pelo seu colega Semedo, igualmente sério, dedicado, competente.
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

Curiosidade biográfica, ambos são de uma ciência de que o repórter


Zimbro e o próprio autor detinham alguns conhecimentos.
Um terceiro par a considerar é o duplo par de proprietários no começo de
A máscara azul (1931). Entram em cena logo no princípio, deixando de
ser úteis nos capítulos seguintes. Eis a sua entrada:

51
Não tardou tambem que alguns visinhos mais chegados, atrahidos pela
gritaria, e entre eles os antigos negociantes e proprietarios europeus
Coimbra e Carmo, bem como os proprietarios africanos Antonio Lemos e
Antonio Marques
(BASTOS, 1931, p. 6)

Observação para notar entretanto é a de que os nomes das personagens


aparecem também como duplos: dois europeus de quem sabemos só o
apelido, começado por C em ambos os casos; dois africanos, de quem
sabemos nome e apelido, começando ambos os nomes próprios por A.
Mais um indício de que a estruturação em dois, em duplos ou pares, é
muito profunda e é sistemática no processo criativo do autor.
É notório, ainda, que os comerciantes sejam europeus e faz sentido que,
por isso, nos dê o seu apelido em vez do nome. Esse era um hábito no
comércio (dominado por europeus), onde, geralmente, os apelidos davam
nome às firmas e os comerciantes eram mais conhecidos e tratados pelos
apelidos que pelos nomes próprios (o tratamento pelo nome próprio
implicava já uma proximidade maior entre os interlocutores). Os dois
africanos são proprietários e não se nomeiam como comerciantes. Isto
corresponde a uma situação comum na época.
Em A máscara azul, entre os proprietários, é um dos europeus que toma
sempre a dianteira, faz as perguntas às personagens e, no geral, decide
ou ordena. É também ele que, depois das informações e das sugestões de
Vitorino, dá a ordem final de irem buscar “o Dr. Africano” a casa do
comendador Lagos. A ordem final é dada a dois empregados do
negociante brasileiro assassinado e roubado (Jacinto da Cunha – a
maioria dos nomes das personagens é também constituída por pares).
Por acaso, também estes dois operários são apresentados com nome e
apelido, começando os apelidos pela mesma letra (M). Se, por aí, há
coincidências assinaláveis, há uma diferença muito significativa: é que
os empregados se limitam a cumprir, automaticamente, mecanicamente,
as ordens, encaixando assim, por automatismo, a sua função diegética
na norma que lhes era prescrita por aquela sociedade.
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

Usando a ‘teoria dos papéis’ da Psicologia Social, observamos que o autor


fez coincidir aqui dois tipos na atuação destas personagens: o papel
desempenhado pelos pares corresponde ao prescrito e pode supor-se que,
também, ao subjetivo (Almagia, 1998, pp. 62-63), mas o cumprimento
das ordens por automatismo leva a pensar num comportamento amorfo,
numa ausência de acordo subjetivo com a norma, ou seja, leva a pensar
em mera e cega obediência, numa obediência à partida, na mera 52
obediência à prescrição (do género: ao aceitar este emprego, é tácito que
sigo as ordens que me dão sem pensar nelas ou, muito menos, me
pronunciar acerca delas). Era de esperar, da parte de empregados e
naquela sociedade, mas a coincidência dá-se com mais notoriedade
(porque passa a incluir o tipo subjetivo) no caso de Manuel da Silva e de
quase todos os coadjuvantes acima de um certo nível social (o mais
baixo). Os diálogos entre Manuel da Silva e Zimbro, por mais de uma vez,
espelham a perceção (e teste) do coadjuvante relativamente à imagem que
ele pensa que o protagonista possa ter de si. O adjuvante experimenta-a
no diálogo e por isso o diálogo permite manter a relação dos dois dentro
de balizas que o coadjuvante assinala também. Essa é a sua margem,
mínima sem dúvida, de participação na prescrição – correspondente à
que detinha naquela sociedade. Pela concordância dos três tipos de papel
(prescrito, subjetivo e de concordância ativa), a que se dá o par principal
do enredo, se provoca também a semiose utópica do folhetim, pois isso
elimina qualquer conflito (Almagia, 1998, p. 64) por via da constituição
de um grupo primário (Almagia, 1998, p. 65) que faz e negoceia (assim,
limitadamente para o coadjuvante) a metonímia da ordem social.
A proliferação de pares, acontecendo com tanta frequência e nos mais
variados níveis, denota sem dúvida uma espécie de mola criativa do
escritor. Em qualquer autor podemos estudar esse tipo, quantificável, de
mola criativa. O filósofo português Álvaro Ribeiro, por exemplo, tende a
desenvolver os seus parágrafos por pequenos passos de raciocínio
realizados em três etapas, uma espécie de repetição estilística das
operações do silogismo. Num campo diferente, os informáticos criaram
sistemas e programas complexos baseados em combinações as mais
variadas com o número 1 (positivo) e o não-número 0 (negativo). Muitos
poetas, ao contrário, centram-se nas unidades singulares, únicas,
obsessivamente rodando em torno de uma personagem, um tipo de ação
e de episódio, uma característica psicológica explorada até aos limites,
uma metáfora-mãe para a qual as outras todas são conduzidas, enfim,
tendem para compor por isomorfismo e isotopia. No teatro, por uma regra
que se universalizou (ou já o era antes de ser explícita), há o solilóquio
(concentração da fala num caracter, à qual pode ser reduzida toda uma
peça) e o colóquio, sendo que, neste último, habitualmente as
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

personagens conversam por pares, embora haja muitas peças em que os


diálogos entre três personagens (uma delas podendo ser coletiva – ou
coro) se prolonga durante bastante tempo. Augusto Bastos, pela
tendência que manifesta para números pares, aproxima-se do cânone
teatral ao reduzir, em geral, os diálogos a duas personagens.
As razões profundas dessas molas criativas, a psicologia não se deparou
com elas ainda, pelo menos até onde conheço. No caso de Augusto 53

Bastos, o par marca forte presença mesmo na biografia: escreveu duas


etnografias ou monografias (uma de Benguela, outra da Catumbela),
deixou-nos um par de aventuras africanas emparelhando com aventuras
coloniais, casou-se duas vezes e das duas vezes teve filhos, esteve ligado
profissional e politicamente a duas Câmaras Municipais, as suas
parcerias profissionais foram sempre com mais uma só pessoa. Há,
portanto, uma co-incidência entre a recorrência da estrutura paralela na
sua vida e na sua obra. Mas não sabemos o que leva um escritor a decidir-
se por estruturas paralelas ou isomórficas ou triádicas.
Na obra literária, em princípio, uma tal recorrência não nos assinala só
a mola criativa, nem é mera coincidência. Ela provoca uma semiose
própria, permitindo e suscitando relações plausíveis e significantes com
a realidade social por analogia.
Se repararmos, tirando os pares de “físicos”, em todos os outros a
composição por pares, para além de mola criativa do autor, apresenta-
nos o quadro social típico da cidade colonial e de forma utópica.
É verdade que Benguela se dividia em, pelo menos, três grupos, por assim
dizer sociais: o dos comerciantes e proprietários muito ricos; o dos altos
funcionários e profissionais de profissões liberais e comerciantes e
proprietários que viviam desafogadamente; o dos pobres ou remediados,
que era a maioria esmagadora da população, desde os serviçais e criados
até microempresários, como hoje se diria. Também, classificando quanto
à origem, tínhamos três grupos pelo menos: o dos vindos de fora; o dos
que nasciam na cidade, ou em Luanda; o dos oriundos do interior, ou do
‘mato’. Geralmente se classificava, ainda, a população quanto à cor da
pele, considerando-se três grandes grupos: brancos, mestiços e negros.
As fronteiras entre estes vários grupos eram diluídas, porosas e eles se
cruzavamApesar dos ‘rigorosos’ preconceitos e das injustiças, que desde
o berço limitavam uns fisicamente e outros moralmente, era difícil, por
vezes, saber se um alto funcionário estaria mais ao nível dos grandes
proprietários do que dos médicos ou dos advogados, ou se estes não eram
também riquíssimos proprietários e empresários; era difícil definir alguns
como brancos ou mestiços (muitas vezes um mestiço claro e com cabelo
mais liso passava por branco), definir outros como negros ou mestiços
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

(muitas vezes se confundiam mestiços escuros, ou cafusos, e negros). Era


mesmo difícil delimitar com muito rigor a fronteira a partir do local de
nascimento, pois os filhos da terra e de colonos, havendo dinheiro,
podiam nascer fora da colónia, mas viver ali sempre, indo só nascer fora.
De igual modo, um filho de colono e um ‘filho da terra’ nem sempre se
integravam no mesmo grupo em todos os outros aspetos, apesar de
ambos terem nascido ali. Também entre os que nasciam no interior ou 54
na cidade colonial a fronteira se diluía, porque muitas vezes um filho da
cidade ia nascer, por acaso, no interior e uma grávida vinda do interior
podia ter um filho, por acaso, na cidade. Estas classificações são todas
relativas, porque falamos de algo muito mais fluído que definido, a
própria vida humana em decurso imprevisível.
É pela necessidade de examinarmos em pormenor as relações entre as
diversas partes, ou cristalizações, que nos atemos a classes bem
definidas, as quais derivam de generalizações e cortes sincrónicos
operados em cima de um rio, de águas correntes, para operar sobre
elementos artificialmente isolados. A base para isso é que havia pessoas
que se definiam e se podiam definir (havia reconhecimento social dessa
definição) como pertencendo aos mais poderosos, aos mais ricos; outras
eram nitidamente quase escravos, muito pobres. Há, portanto,
‘substância’ para cada grupo ou classe, não se conseguindo, porém,
fronteiras definidas. Entretanto, para nos orientarmos em progressão
geométrica no conhecimento do passado, erigimos as tais classes e
grupos e, no caso de Angola, sempre falamos em três – o que julgo ter
exemplificado.
Aí é que entram de novo os paralelismos de Augusto Bastos e marcam
diferença. Nas suas ficções há a perceção de três grupos, sem definição
muito rigorosa entre eles, mas os pares que vai constituindo como
personagens para as suas intrigas estão afetados apenas a dois grupos:
os dois mais endinheirados e bem colocados na escala social, havendo
uma vaga correspondência dessa colocação com a cor da pele (com
domínio da cor intermédia na classe intermédia e da cor mais clara na
classe mais alta). A cor de pele é, por vezes, nomeada brutalmente,
sobretudo quando se refere uma pessoa pobre, que está no fundo da
escala social e é escura: “preto”, “preta” (o mesmo termo que usaram para
designar a mãe do autor no registo de batismo). Os ‘indígenas’, ou
‘gentios’ – apesar de várias vezes se defender a sua dignidade e a sua
cultura (sobretudo nos ensaios) – são também nomeados de quando em
quando e com expressões diacríticas, tal como acontece em O segredo da
morta, de Assis Júnior. O tratamento “preto”, ou “preta”, despersonalizam
a figura, transformam a possível personagem num simples figurante (que
não precisa de nome, faz parte do cenário) e num autómato (dado que
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

apenas age, não se lhe trabalha a psicologia própria). Para a intriga


destas Aventuras, os pobres e escuros formam o pano de fundo, o cenário
‘lá atrás’. A intriga desenrola-se, claramente, no segmento colonial,
adjuvado pelo intermédio.
Os posicionamentos sociais, assinalados ao nível da expressão
linguística, emparelhando com os enquadramentos de Augusto Bastos,
eram típicos da sua própria colocação social, integrando-se nos 55

“africanos”, “filhos da terra”, geralmente mestiços, ocupando uma função


intermédia e podendo exibir um estatuto intervalar, com pelo menos um
antepassado oriundo da Europa, ou do Brasil, ou branco – mas sempre
antepassado proprietário, ou negociante, ou alto funcionário (militar ou
civil, para o caso tanto faz) – e dominando, o intermédio ou africano, a
língua, tanto quanto os códigos sociais da classe dominante (no caso: do
colonizador). É neste sentido, julgo, que Augusto Bastos discursa perante
o Ministro das Colónias em 1929 e que O intransigente (um jornal
colonial) o adjetiva como “representante da população africana da cidade”
(O Intransigente, 1929, p. 4).
No seu caso, como sabemos, era filho de um grande negociante e
proprietário português, que enriquecera entre nós, e de uma menina da
terra cuja origem desconhecemos (o processo que os une, um ‘hábito da
terra’, é referido e descrito em qualquer das duas aventuras). A
personalidade materna é, no mínimo, obnubilada pela ficção paroquial e
nos escritos do autor. À mulher e à africana, nesse espaço e nesse tempo,
não reconhecia a burocracia o completo estatuto de ser humano, com
família, origens e personalidade a levar em conta. No registo de batismo
a mãe era, apenas, a “preta Lauriana”, que não sabia assinar o seu nome.
Quanto aos pais dela, “ingnora-se [sic] o nome dos avós maternos”. A
madrinha tinha nome ‘cristão’: “Marianna Clara da Silva” (até mais de
cristão novo…), sendo natural de Luanda. Podemos, portanto, aventar a
hipótese de também a mãe do escritor pertencer a famílias angolanas da
zona de Luanda, portanto não oriunda propriamente do ‘gentio’, mas
daquela sociedade intermédia que vinha sendo constantemente
espezinhada e, quando possível, proletarizada e à qual pertenciam tanto
Augusto Bastos quanto Assis Júnior, fossem eles mais escuros ou mais
claros. Mas essa origem materna é mera suposição minha. De resto, a
madrinha também não sabia ler – facto comum, mesmo nas grandes
famílias angolenses do século XIX e apesar do avanço que teve o ensino,
nas cidades coloniais, a partir do liberalismo. A mãe de Maia Ferreira,
por exemplo (que se matrimoniou no ano de 1823, mas pertencia a uma
família com juízes e letrados de várias gerações), não sabia ler e pertencia,
no entanto, à mais poderosa rede familiar de filhos da terra nesse tempo,
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

com ramificações para o Rio de Janeiro e, até, Recife, além das


portuguesas (Pacheco, 1990).
Facto comprovado pelo seu labor intelectual é o de Augusto Bastos
conhecer bem as várias povoações e populações do interior, a língua
umbunda (umbundu) e as culturas populares dessas regiões – tanto
quanto conhecia e dominava, mais que muitos colonos, os códigos, as
ciências, as técnicas e a língua do grupo dominante. Ou seja: quer pela 56

ascendência, quer pelo saber, ele se colocava também nas comunidades


intermédias, ou de fronteira, das cidades coloniais angolanas e podia, se
quisesse, dar uma personalidade ficcional a um indígena (como fez na
série A vida nas selvas), tanto quanto a um colono pobre (podiam sê-lo
os empregados de Jacinto da Cunha, como podiam ser africanos). Mas a
visão, realista e conservadora, que nos trouxe dessas cidades, através
dos pares de personagens que inventou, é a visão dos dois grupos onde
se inseriam, por um lado, o seu pai e, por outro, ele próprio. O que torna
mais estranho ainda que um terceiro grupo, ou classe, fique na qualidade
de ‘massa’ anónima, agindo fora de qualquer personalização. Só a
recorrência obsessiva do par pode, aparentemente, justificar esta
redução, que no entanto se articula ao apagamento da mãe no registo de
batismo e na obra.
Não é, tão só, uma visão realista (apesar de Eça de Queiroz relegar ao
mesmo pano de fundo as raras personagens pobres que refere – em muito
menor número do que as de Camilo Castelo Branco). Por um lado, por
ser redutora (reduzindo o panorama a dois grupos principais e uma
espécie de sombra de fundo que era a vasta e vaga classe desfavorecida),
não se dá aqui uma visão completa. Também não é realista por idealizar
as relações entre os dois grupos, não sei se por utopia colonial ou se,
como Assis Júnior, estratégia visando salvaguardar o que fosse possível
da margem de manobra dos ‘filhos da terra’ nesses tempos.
Por isso nos mostra, sobretudo, europeus e africanos com habilitações e
capacidades idênticas, trabalhando juntos em prol do mesmo objetivo (o
desenvolvimento), corrigindo malévolas atitudes individuais, como tinha
sido característico do romance popular no Segundo Império francês.
Apesar da paridade, não toca (nem as suas personagens o fazem) no
domínio dos europeus sobre os africanos, que o aceitam e se prestam ao
papel de colaboradores, nem (menos ainda) no domínio dos ‘senhores’
sobre os seus, passe a metáfora, vassalos. Ele, que foi preso por
nativismo, demitido compulsiva e ilegalmente da presidência da Câmara
Municipal (Prefeitura) de Benguela, não quis arriscar mais. Ilustrava o
que pretendia (que lhe reconhecessem a dignidade) através do respeito
paradigmático de cada membro do par pelo outro. Esse respeito pela
dignidade do outro assinalava a idealização da relação de subserviência
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

com margem de manobra para os sub-servidos, através da lembrança do


respeito mútuo, recordando aos colonos um dever urbano que os
caracterizaria antes. Resulta, por isso, a redução a pares numa utopia
colonial, como observou Cátia M. Costa (Costa, 2015). Sim, mesmo sendo
apenas estratégica, a estratégia passava por criar essa utopia. Uma
idealização cuja distopia a própria vida do escritor se encarregou de
fazer... 57

Entretanto, o que me interessa mais aqui é verificar o que assegura, na


constituição das personagens por pares e, portanto, artisticamente, o que
cimenta ou solidifica a proposição do respeito ideal entre europeus e
africanos. Quais os recursos artísticos que lhe garantem uma semiose da
utopia imperial em versão africana.

Funcionais e convergentes
Quando falo em pares, é claro, penso em grupos de dois. A relação entre
duas pessoas (em que se inspira qualquer escritor para constituir um par
de personagens) assume vários aspetos e daí podemos extrair vários tipos
de pares. A tipologia que me parece funcionar nas Aventuras de Augusto
Bastos é, primeiro, a de pares funcionais ou disfuncionais. Em geral, os
pares estatuídos pelo escritor benguelense são funcionais e no preciso
sentido em que ambas as pessoas estão envolvidas na mesma ação com
propósitos coincidentes e colaboram, com sucesso, para a efetivação
desses propósitos.
Os pares funcionais e disfuncionais podem ser convergentes ou
divergentes. Um par funcional divergente é, por exemplo, aquele em que
duas pessoas trabalham por métodos opostos e, até, com objetivos
opostos, alcançando, porém, um resultado coincidente ou comum. Num
campo diverso, o já citado par 0-1 (ou vice-versa) é um par divergente
(negativo-positivo), mas funcional, na medida em que pela sua
combinação se constroem estruturas complexas e funcionais. Um par
divergente e disfuncional, esse, geralmente, é causa para divórcios…
Os pares de personagens apresentados por Augusto Bastos se mantêm,
porém, convergentes e funcionais (em matemática, seriam pares 0-0’, X-
X’ e não X-Y ou O-1). Eles agregam-se com objetivos idênticos, possuem
uma idêntica moral e dirigem-se para a mesma meta dentro da mesma
cronologia, assegurando assim o alcance dos objetivos. A sua
disponibilização como personagens estáticas, previsíveis dentro do
modelo moral e costumeiro do autor e dos leitores, alivia a intriga, torna-
a mais simples e garante uma atuação mais eficaz, sem recuos, dúvidas,
protelamento de decisões ou de ações, problemas de consciência,
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

tormentos filosóficos. São personagens ‘práticas’ e, também nisso,


modelares para aquela sociedade, para os seus leitores previsíveis.
A tendência para a máxima redução, máxima economia de recursos e
páginas também, típica do folheto como do cordel, estende-se à ação. De
maneira geral, ela não se complica de qualquer outra forma. Há, somente,
um tipo de final, que se protela, como no final dos concertos do fim do
Romantismo, em que o remate, o fecho da peça, ia repetindo-se numa 58

espiral de intensidade acrescida até parar bruscamente. Chegado ao


desenlace, Augusto Bastos arrasta por um pouco o remate,
acrescentando mais uma peripécia (por exemplo, a fuga do assassino de
Jacinto da Cunha quando foi apanhado a primeira vez; o melodrama após
a descoberta do casal envenenador em O sinal da morte – que termina
com mais mortes), explorando ao limite a intensidade final da narrativa,
a sua expectativa. Naquela sociedade complexa, diversa, tensa, tudo se
passa como se existíssemos numa inteira normalidade e confiança,
reposta sempre no fim. Desta forma, como no romance popular associado
ao Segundo Império em França, garante-se, além da utopia, o
costumismo e conservantismo desejado pela classe dominante. Prolongar
o suspense final é, para além de usar uma tática folhetinesca, acentuar
o inevitável retorno à normalidade social.
Um último fator importante havemos de levar em conta, relativamente a
este ponto, que diz respeito à semiose utópica mas, igualmente, à
conservadora – porque se trata aqui, um tanto contraditoriamente, de
uma utopia conservadora. Como na cena em que os vizinhos aparecem
depois da morte do comerciante Jacinto da Cunha (em A máscara azul),
as ações e as decisões cabem geralmente aos europeus. Os africanos
agem só por execução de ordens ou decisões dos europeus. A única
exceção de relevo é a de Matilde, filha de um riquíssimo fazendeiro
português e de uma mulher africana (aí é que Augusto Bastos aproveita
para resumir e caracterizar o processo que lhe deu origem, igualando-se
a Matilde nesse aspeto). Na qualidade de filha, vendo o pai (casado já com
uma europeia, mais nova do que ele) morrer aos poucos, sem ninguém
descobrir a causa da moléstia fatal, era necessário que tomasse uma
decisão, que tivesse alguma iniciativa para salvá-lo. Mas a decisão que
tomou foi a de pedir apoio ao repórter Zimbro. De acordo com os padrões
ali reservados à mulher e ao africano, ela nada investigou ou descobriu
por si própria, transferiu a ação para o protagonista, europeu exemplar
(e nestas Aventuras há europeus nada exemplares), assumindo o papel
de destinadora e, logo em seguida, passando a coadjuvante. É na função
de coadjuvante, na esteira das indicações de Zimbro, que ela descobre a
chocante verdade sobre o envenenamento do pai.
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

O realismo redutor e convencional (ou conservador) de Augusto Bastos


assegura assim que a intriga se desenrole sempre entre europeus: eles é
que decidem, eles é que protagonizam as ações boas e más, eles é que
engendram os enredos e os descodificam, entre eles estão malfeitores e
benfeitores, as causas das afrontas do Mal e das vitórias do Bem. Todo
aquele enredo é uma ‘maka de brancos’. O que também reflete a realidade
social envolvente e, por tabela, vai livrar as personagens intermédias de 59
conotações negativas. Essas atuam sob orientação dos europeus
moralmente louváveis. Se algum africano ajuda um malvado europeu,
será da classe inferior, morando no subúrbio pobre onde se esconde o
assassino e se mitiga a fome. A classe intermédia, na qual o autor se
integra, é tendencialmente boa, só dá o seu contributo a favor do Bem.
De onde uma leitura subtil pode concluir que um futuro melhor havia de
passar por ela…
A comunidade, ou grupo intermédio (em que o autor e Matilde e Manuel
da Silva e o Dr. Africano se integram), estava em nítido recuo nesse
tempo, mesmo em Benguela. Os censos populacionais indicam uma
diminuição da percentagem de mestiços em face do aumento dos colonos
e filhos brancos e do previsível aumento dos ‘negros’. Estes últimos
acumulavam a miséria com as derrotas dos últimos reinos
independentes, por exemplo o do Bailundo, com revoltas que serviram de
alibi para acusar injustamente Augusto Bastos de organizar um
movimento de ‘mata-brancos’. Por sua vez, a comunidade intermédia na
qual o escritor se integrava, como os ‘negros’, estava economicamente
enfraquecida pelo fim do comércio da borracha, que dera
autossustentação aos reinos umbundos (umbundu), especializados no
comércio no interior de África, permitindo-lhes substituir os lucros do
tempo da escravatura por algum tempo. A ocupação de postos de chefia
no aparelho de Estado, coincidentemente, fugia cada vez mais das mãos
dos filhos da terra – com honrosas e solidárias exceções. Os processos
fraudulentos e ilícitos de apropriação de terras eram mesmo como
descritos por Assis Júnior no Relato sobre os acontecimentos de
Ndalatando e Lucala, reportados de quando em quando por algum artigo
discordante no Jornal de Benguela, a propósito das revoltas do Seles e de
Amboim. A altíssima taxa de juro do Banco Nacional Ultramarino
reforçava o endividamento dos empresários e proprietários locais,
enquanto a internacionalização do comércio, que eles não tinham
condições para acompanhar, os asfixiava mais ainda. Finalmente, Norton
de Matos representava, ao mais alto nível da hierarquia oficial, o intuito,
agora republicano, de destruir o segmento crioulo de Luanda e Benguela
promovendo uma nova colonização, branca e europeia, que o salazarismo
levará até onde lhe permitiram os seus medos (de que a população branca
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

declarasse a independência), numa aceleração de branqueamentos


(populacional, cultural, organizacional, administrativo, empresarial,
eclesial) nunca antes vista.
Neste quadro, a realidade social de Benguela era gerida e movida pelas
intrigas, decisões e ações dos colonos. O papel dos filhos da terra (já para
não falar nos ‘indígenas’, com duplicidades estratégicas divergentes) era
o de meros coadjuvantes (ou, quando muito, cautelosos e disfarçados 60

oponentes) nessas intrigas a que se foi chamando, cada vez mais


pomposamente, a construção do Império português em África. O que
importava era a funcionalidade, mais que a identidade, era estar-ali,
estar-com, estar junto ao colono, agindo com ele ainda que sem decidir,
para manter algum espaço de manobra, de sobrevivência mesmo, que
permitisse, na melhor das hipóteses, proporcionar estudos aos filhos e
uma colocação razoável (intermédia) na administração pública. Nesse
jogo de sobrevivência, junto ao novo poder económico e ao antigo poder
político, os ‘indígenas’ eram a massa amorfa usada sem qualquer prurido
pelos colonos e com a qual os filhos da terra não se podiam conotar, sob
pena de serem acusados de ‘mata-brancos’ e de ‘selvagens’. A única forma
de os ajudar era defender (em nome do Império, sempre) a sua ‘civilização’
pela extensão do ensino e do trabalho assalariado a todo o território da
colónia.
Foi esta a posição comum a Assis Júnior e à Liga Nacional Africana (dos
anos 30) que Augusto Bastos retratou, com tanto realismo quanto
conservantismo, nas Aventuras policiais do repórter Zimbro. Entretanto,
numa coincidência mais com a sua biografia, fez a ação passar-se em
1879. Tratava-se de colocar a ação dos pares num período no qual os
filhos da terra, apesar de tudo, detinham ainda uma posição razoável na
hierarquia da cidade colonial. É por isso que, a partir dos mais variados
motivos, Augusto Bastos nos expõe o que era a vida naquele tempo
sublinhando implicitamente (não chega isto a ser um paradoxo,
sublinhar implicitamente) as relações respeitosas entre colonos e
angolenses, que se foram deteriorando até ao ponto denunciado por Assis
Júnior em 1917 e, pouco antes, na Voz de Angola clamando no deserto
(1901).
Assim o autor nos propõe um grande par, implícito sem dúvida, o par
‘antigamente-hoje’, que é distópico e divergente, mas se poderia tornar
funcional caso o ‘antigamente’ pudesse corrigir o ‘hoje’ – uma utopia, sem
dúvida, mais ingénua que a maioria das outras. Era um ‘antigamente’
mau, de dominação, mas uma dominação mais atenuada, em que os
filhos da terra tinham papel, ou seja, margem de manobra – o que deixara
de acontecer entretanto. E, nesse aspeto, seria produtivo igualmente
fazermos a comparação com O segredo da morta, que se passa, mais ou
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

menos na mesma altura, no Dondo. Em ambos os casos, porém, o par


distópico, disfuncional e divergente pode ser apresentado a uma
sociedade colonial e preconceituosa como lembrança intencional,
maneira subtil do subordinado chamar a atenção do chefe para a
despromoção de que tem sido vítima, apesar das suas qualificações e
prestações.
61
Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

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Augusto Bastos: vida e obra – resumo / Francisco Soares

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