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Psicoterapia: Analítica

Funcional
Criando Relações Terapêuticas
Intensas e Curativas

Robert J. Kohlenberg
Universidade de Washington
Seattle, Washington

Mavis Tsai
Psicóloga Clínica
Seattle, Washington
T ra d u ç ã o
O r g a n iz a d o r a
Rachel Rodrigues Kerbauy

' Traduzido por


Fátima Comte
M ali D elitti
Maria Zilah da Silva Brandão
Priscila R, Oerdylt
Rachel Rodrigues Kerbauy
Regina Christina Wielenska
Roberto A . Banaco
Roosevelt Starling

R eim pressão

ESETe©
Editores Associados
Santo André, 2006
K ohlenberg R obert I. (1 9 9 !)
Psicoterapia Analítica Funcional: Criando Relações Terapêuticas Intensas e
Curativas / Robert J. K ohlenberg e M avis Tsai.

Inclui referências bibliográficas e índice remissivo


IS B N 8 5 -8 8 3 0 3 -0 2 -7
1. Terapia C omportamental, 2.Psicoterapeuta e paciente. I. Tsai. M avis. II. Titulo
[DNLM : 1. Comportamento. 2, Relações terapeuta-paciente. 3. Terapia psicana-
lítica. 238 págs.
W M. 460 . 6 IC79f]
R C 489.B 4K 65 2001
616.89’ 14 2 -cc2 0 91-21357
CIP.

Versão em Língua Portuguesa

Editora: Teresa Cristina Cume Grassi

Revisora: Irene Forlivesi

Título do original (inglês)


Functional Analytic Psychotherapy
Creating Intense and Curative Therapeutic Relationships

Copyright© 1991 Plenum Press, New York


A Division of Plenum Publishing Corporation
233 Spring Street, New York, N.Y. 1033

Direitos exclusivos para Língua Portuguesa


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Aplicação Clínica da
Psicoterapia Analítica Funcional

A aplicação clínica da FAP será discutida em term os de certos tipos de


com portam ento do cliente e do terapeuta, os quais ocorrem ao longo da sessão
de terapia. Os com portam entos do cliente são seus problem as, progressos e
i interpretações. Os com portam entos do terapeuta são m étodos terapêuticos, que
incluem evocar, notar, reforçar e interpretar o com portamento do cliente.

P R O B L E M A S D O C L IE N T E E C O M P O R T A M E N T O S
C L IN IC A M E N T E R E L E V A N T E S

Tudo que um terapeuta pode fazer para auxiliar os clientes ocorre durante
a sessão. Para o behaviorista radical, as ações do terapeuta afetam o cliente
através de três funções de estím ulo: 1) discrim inativa, 2) eliciadora e 3)
reforçadora. U m estímulo discrim inativo refere-se às circunstâncias externas
nas quais certos com portam entos foram reforçados e onde, conseqüentem ente,
tom am -se m ais prováveis de ocorrer. A m aior parte de nosso comportamento
está sob controle discriminativo e é usualmente conhecido como comportamento
v o lu n tá r io (c o m p o rta m e n to o p e ra n te ). U m c o m p o rta m e n to e lic ia d o

19
20 C apítulo 2

(comportamento respondente) é produzido de modo reflexo e é costumeiramente


denominado involuntário, A função reforçadora (discutida no Capítulo 1) refere-
se às conseqüências que afetam o comportamento. Cada ação do terapeuta possui
um ou mais destes três efeitos. Por exemplo, uma ação do terapeuta poderia ser
perguntar ao cliente “O que você está sentindo agora?” O efeito discriminativo
afirma que “agora é apropriado você dizer como se sente.” A questão, entretanto,
poderia também ser aversiva para o cliente e, assim, puniria o comportamento
que precedeu a questão do terapeuta; esta é a função reforçadora. A função
eliciadora da pergunta poderia fazer o cliente enrubescer, suar e induzir outros
estados coiporais. Os motivos pelos quais o cliente reage destas formas à pergunta
sobre sentimentos encontram-se em sua história de vida.

Ao assumirmos que (1) o único modo do terapeuta ajudar o cliente é


por meio das funções reforçadoras, discrim inativas e eliciadoras das ações do
terapeuta, e que (2 ) estas funções de estímulo no decorrer da sessão exercerão
seus m aiores efeitos sobre o comportamento do cliente que ocorrer na própria
sessão, então a principal característica de um problem a que poderia ser alvo da
FAP é que ele ocorra durante a sessão. A lém disso, os progressos do cliente
tam bém deverão ocorrer durante a sessão e serem naturalmente reforçados pelos
reforçadores existentes na sessão. O mais importante é que os reforçadores sejam
as ações e reações do terapeuta em relação ao cliente.

Três comportamentos do cliente que podem ocorrer durante a sessão


são de particular relevância e são denom inados comportamentos clinicamente
relevantes (CRB).

C R B 1: P roblem as do cliente que o co rrem n a sessão

CRB ls referem -se aos problem as vigentes do cliente e cuja freqüência


deveria ser reduzida ao longo da terapia. Tipicamente, os C R B ls são esquivas
sob controle de estímulos aversivos. Tal com portam ento pode ser ilustrado por
casos clínicos reais, como os descritos abaixo:

1. Uma cliente cujo problem a é não ter amigos e que afirma “não saber
conquistá-los” exibe comportamentos como: evitar contato visual, res­
ponder a perguntas falando excessivam ente, de um modo impreciso e
tangencial, tem um a “crise” atrás da outra e exige ser cuidada, fica
A plicação C línica da FAP 21

enfurecida se o terapeuta não Lhe fornece todas as respostas, e freqüen­


temente queixa-se de que o mundo não se importa com ela e lhe reservou
a pior parte.

2. U m hom em cujo principal problema é evitar relacionamentos amorosos


sempre decide, antecipadamente, sobre o que vai falar na terapia, vigia
o relógio para encerrar a sessão pontualm ente, afirma que só poderá
ter sessões quinzenais em função de lim itações financeiras (embora
sua renda anual seja superior a trinta m il dólares), e cancela a sessão
subseqüente àquela em que fez um a im portante revelação a respeito
de si mesmo.

3. U m hom em que se descreve com o “erem ita” diz que gostaria de


construir um a relação de intimidade, está há três anos em terapia e
continua periodicam ente a brincar com seu terapeuta afirm ando que
este só se interessa pelo dinheiro do cliente e secretam ente o rejeita.

4. Uma m ulher cujo padrão é mergulhar em relacionamentos inatingíveis,


apaixona-se pelo terapeuta.
5. U m a m ulher, que foi abandonada por pessoas que “se cansam ” dela,
inicia temas novos ao final da sessão, freqüentem ente am eaça se matar
e apareceu bêbada na casa do terapeuta no meio da noite.

6. U m hom em , com ansiedade para falar, “congela” e não consegue se


com unicar com o terapeuta na sessão.

C R B 2: P ro g resso s do cliente q u e o c o rre m n a sessão

D urante os estágios iniciais do tratam ento, estes com portam entos não
são observados ou possuem um a baixa probabilidade de ocorrência nas ocasiões
em que ocorre um a instância real do problem a clínico, o CRB1. P or exemplo,
considere um cliente cujo problem a é se afastar e vivenciar sentimentos de baixa
auto-estim a quando “as pessoas não lhe dão atenção” durante conversas ou
outras situações sociais. Este cliente pode dem onstrar um padrão sim ilar de
com portam entos de afastam ento durante um a consulta na qual'o terapeuta não
presta atenção às suas palavras e interrom pe seu discurso antes que term ine de
falar. Prováveis C RB2s para esta situação incluem um repertório de com por­
tamento asseitivo que dirigiria o terapeuta de volta para o que o cliente estava
22 Capítulo 2

dizendo, ou a discriminação do crescente desinteresse do terapeuta pelo que


estava sendo dito até o momento em que, de fato, interrom peu o cliente.

O caso abaixo ilustra o desenvolvimento dos CRB2s de um a cliente.


Joanne, um a mulher brilhante e sensível, que buscou terapia em função de um a
ansiedade constante, insônia e recorrentes pesadelos de estupro. Em bora ela
suspeitasse ter sido abusada sexualmente pelo pai na infância, ela não guardava,
especificamente, lembranças de tal abuso. Ela melhorou gradualmente no decoirer
dos seis anos de terapia com o segundo autor. Alguns dos CRB2s fortalecidos
em diferentes momeiltos do tratamento foram:

1.Recordar-se e responder com emoção. Durante a infância, Joanne


viveu uma década de indizível terror, envolvendo dor física e emocional provocada
por quem supostamente deveria amá-la, o pai. Recordar e reagir emocionalmente
a estes eventos não foi reforçado. Ao invés disso, era funcional esquecer e reagir
de forma não-emocional, e ela evitou estímulos que poderiam evocar sentimentos
indesejáveis. Sua esquiva era pervasiva, e associada às experiências precoces
de não ser validada, passou a sentir-se desprovida de um senso de s e lf (ver
Capítulo 6). Joanne evitou reviver sentimentos como dor, terror, im potência e
furianão estabelecendo relacionam entos de intimidade. Ela não era aberta, não
confiava nos outros e não se m ostrava vulnerável. U m objetivo terapêutico foi
reduzir a esquiva generalizada e aum entar os CRB2s de lembrar-se e viver a dor
pelo ocoirido. Gradualmente, Joanne foi encorajada a aum entar seu contato
com as recordações vívidas de tortura física e emocional, um processo que foi
terrivelmente penoso.

2.Aprender a dizer o que deseja (ou seja, que suas necessidades são
importantes e merecem atenção). Como ocorre com quase todos os sobreviventes
de abuso sexual, Joanne foi reforçada por dar ao seu pai o que ele desejava, mas
fortemente punida por ter seu próprio desejo. Ela codificou este fato como não
tendo o direito de esperar algo dos outros e aprendeu que “desejar é ruim ” . Eu a
encorajei a desejar- e gradualmente estes CRB2s foram fortalecidos. Deste modo,
tentei reforçar qualquer pedido que eu pudesse, com referência a aspectos como
os téfnas a discutir, a duração e freqüência das sessões e reasseguram entos
verbais. A lém disso, foi explicado a Joanne que suas necessidades eram
importantes e que se eu ou outra pessoa não as preenchessem, ela não deveria se
Aplicação Clínica da FAP 23

considerar “m á” por tèr desejos, necessidades. U m incidente importante ocorreu


por volta do quarto m ês de terapia, quando m e ligou às 23:30 hs., durante um
episódio de flash b a ck. Joan n e estava em pânico e gritava. N a m edida em que
reconheci seu telefonem a com o um CRB2, perguntei-lhe se gostaria de ter um a
sessão naquele momento, o que ela aceitou de imediato. Mais tarde Joanne contou-
m e ter sido muito difícil aceitar a oferta, embora estivesse apavorada e precisasse,
de fato, estar com igo. Q uando respondi à sua necessidade, o “querer” foi
reforçado. Subseqüentem ente, Joanne aprendeu a me solicitar sessões extras e
conversas pelo telefone quando isto fosse necessário, e seu com portam ento de
expressar suas necessidades e desejos se generalizou para outros relacionamentos.
Com o aumento da força destes CRB2s, ocorreu mudança correspondente quanto
a sentir que “desejar” é aceitável e que suas necessidades são im portantes.

3. Confiar. Com o as reações de seu p ai eram erráticas e im previsíveis,


Joanne foi reforçada por antecipar e tom ar-se hipervigilante com relação a tal
com portam ento da parte de terceiros. Ela contou-m e que levou seis m eses até
que passasse a confiar que eu viria pontualm ente à sessão, conforme com binado
com ela. “E u tinha todos esses m edos - de que você me julgasse louca ou me
ferisse, de que m eus sentim entos lhe assustassem e o fizessem se afastar de
mim. M ais do que m e reconfortai', você me fez examinar o que eu estava sentindo
em relação a você. Eu dizia que não o faria e você me respondia que você
precisava confiar na sua experiência.” Então Joanne tom ou-se m enos vigilante
na busca de um a ação errática de m inha parte, o que, por sua vez, facilitou o
crescim ento de nossa relação. Eu tam bém foi capaz de m anter m inha palavra,
sendo coerente com m eus pontos de vista, e não agi de m aneira im previsível.

4.A ceitar o amor. A pós três anos em terapia comigo (esteve em terapia
por cinco anos, antes de vir m e procurai), Joanne descreveu um problem a da
vida diária de relacionam ento interpessoal. D isse que, bem no fundo, sentia não
saber com o am ar ou com o ser amada. Eu lhe fiz m ais perguntas, buscando
descobrir exatam ente o que ela queria dizer, para elaborar o problem a em termos
com portam entais. Joanne tinha dificuldade para fazê-lo. Tentando saber se isto
ocorria na sessão, perguntei-lhe se conseguiria aceitar m eu am or no m om ento,
ela disse que não, que sentia-se fechada. Em bora fosse um processo privado,
cujas dim ensões fossem difíceis de descrever, julguei que um CRB1 estava
ocorrendo naquele momento.
24 C apítulo 2

T: C o m o é sentir-se fechada?

C: É co m o se m eu c o ração estivesse fechado.

T: Totalmente fechado?

C: T alv ez 5% aberto.

T: Gostaria que você tentasse abrir até 20% e aceitasse meu amor por você.

C: Está aberto uns 25%.

T: Ótimo! Você conseguiria uns 40%?

Este processo foi mantido, e Joanne relatou ser capaz de “abrir seu
coração” cada vez mais. Eis uma descrição do que ela sentiu durante aquela
sessão: “Tomei coragem para me abrir e deixar o amor entrar. Foi uma mudança
de foco em meu corpo e mente. Ainda que estivesse consciente do m eu medo,
terror e sofrimento causados pelas experiências com m eu pai, enfoquei o que
sentia em relação a você, no presente, em oposição aos meus medos. Deixei que
existissem duas verdades simultâneas: que m eu pai abusou de m im , e que você
era um a pessoa com quem eu podia m e sentir segura e amada. Continuei
afirm ando para m im m esm a que queria abrir espaço para receber o amor. Eu
m antenho a tensão nos meus músculos quando me fecho, principalm ente no
m eu peito, como se o m úsculo ficasse congelado. Então a sensação física de me
abrir é o relaxamento do músculo, respirar m ais profundam ente, deixar o ar
entrar em m eu corpo, sentir a respiração. E como a sensação da abertura de
um a lente em m eu coração.”

Não fica claro quais processos comportamentais estão envolvidos na


“ aceitação do am or” , mas a descrição que Joanne faz de sua experiência sugere
algum as possibilidades. N ossa interpretação é que não ser capaz de aceitar o
am or foi um comportamento específico, principalmente privado, o qual a manteve
distante e reduziu a aversividade de relacionar-se com o seu pai. Considerando
alguns aspectos de sua descrição, algumas destas respostas foram provavelmente
evocadas pelo abuso sexual. A despeito da aversividade, ela perm aneceu em
contato com seus sentimentos, e sua esquiva foi extinta, suas respostas físicas
m udaram , e surgiu, em paralelo, um sentimento de “aceitação do am or”.
A plicação C línica cia FAP 25

Esta sessão foi um im portante divisor de águas para Joanne, porque


aprendeu que possuía controle sobre “aceitar, ou não, o amor'.. Isto a auxiliou
no desenvolvimento de relacionamentos amorosos mais íntimos.

C R B 3: In te rp re ta ç õ e s do c o m p o rtam en to segundo o cíiente

O CRB.3 refere-se à fala dos clientes sobre seu próprio comportamento


e o que parece causá-lo, o que inclui “interpretações” e “dar razões” . O melhor
CRB3 envolve a observação e interpretação do próprio com portam ento e dos
estímulos reforçadores, discriminativos e eliciadores associados a ele. Descrever
conexões funcionais pode ajudar a obter reforçam ento na vida diária. M aiores
detalhes poderão ser obtidos no tópico Regra 5.

Os repertórios de CRB3 tam bém incluem descrições de equivalência


funcional que indica semelhanças entre o que ocorre na sessão e na vida diária.
Por exemplo, Esther, um a m ulher com cerca de quarenta anos, há quinze anos
pennanece sem qualquer contato íntimo de natureza sexual. Após seis anos em
FAP com o segundo autor, Esther se envolveu com um hom em que conheceu na
igreja. Seu CRB3 era: “A razão pela qual entrei em u m relacionam ento íntimo
é porque você esteve ao m eu lado. É um a m udança fenom enal. N ão fosse você,
eu não estaria lá. Com você encontrei o prim eiro lugar seguro, onde eu tinha
com o falai- sobre o que sentia, pude descobrir razões pelas quais seria desejável
eu tomar-me sexualizada. Por um certo período de tempo estive mais abertamente
atraída por você, e você aceitou meus sentimentos. Aprendi que seria m elhor eu
preservar m inha totalidade e sentir-me sexual, do que vestir um a armadura e
sentir-me vazia. E eu pude praticar a ser direta com você.” Este tipo de afirmação
pode ajudar a aum entar a probabilidade do cliente transferir seus ganhos na
terapia para a vida diária. Neste caso, o comportamento a ser transferido auxiliou
a aum entar o reforçam ento de estar se relacionando intimamente.

T erap eu tas, p o r vezes, co n fu n d em re p ertó rio s de CRB3 com o


comportamento ao qual eles se referem. Um a cliente afirmar que se afasta sempre
que se tom a dependente de um relacionam ento (CRB3) difere de realm ente se
distanciar durante um a sessão porque está se tom ando dependente do terapeuta
(CRB1). É lamentável que alguns terapeutas focalizem sua atenção sobre estes
repertórios que descrevem um com portam ento problem ático e não conseguem
observar a ocorrência dos com portam entos problem áticos (CRB1) ou dos
progressos (CRB2).
26 Capítulo 2

A valiação inicial

De início, os procedimentos de avaliação da FAP não diferem daqueles


rotineiram ente usados pelos terapeutas em sua prática clínica. O cliente é
solicitado a relatar seus problem as e outras condições de sua vida. Entrevistas,
auto-relatos, material gravado, questionários e registros são utilizados para definir
o problema, gerar hipóteses sobre variáveis de controle e m onitorar o progresso.

U m a vez que oiterapeuta já tenha alguma idéia sobre o problem a e suas


variáveis de controle, inicia-se a avaliação da eventual ocorrência destes
comportamentos na sessão. O terapeuta hipotetiza se um C R B 1 estaria ocorrendo
em um dado momento, ou apresenta um a situação supostamente capaz de evocai'
o CRB1, Estes procedimentos, hipotetizar e evocar, serão discutidos m ais à
frente.
A FAP centraliza sua avaliação em um a questão-chave, que o terapeuta
continuamente pergunta ao cliente durante o tratamento: “Isto está acontecendo
agora?”, “isto” referindo-se ao CRB1. Algum as variações possíveis: “Como
você se sente, agora, a seu próprio respeito?” , “Neste exato m om ento você está
se afastando?”, “O que acabou de acontecer se parece com o que fez você buscar
atendim ento?”, “A dificuldade que você teve de expressar os seus sentimentos
agora é a m esm a que você tem com sua m ãe?”, “O que você sente agora...é
semelhante à ansiedade de se expressar verbalmente que te fez buscar terapia?”

A FAP não possui procedim entos especiais para avaliai' a validade do


auto-relato do cliente em resposta a um a questão de avaliação. Por um lado, a
resposta baseia-se num evento que acabou de ocorrer, talvez dois segundos antes.
Portanto, pode ser menos sujeito às distorções que o tempo e a distância produzem
nos relatos de eventos que ocorreram no passado. Por outro lado, o CRB1
provavelm ente é acompanhado de respostas que interferem na auto-observação
e tam bém pode sofrer viéses pela exigência im plícita na pergunta do terapeuta.
A vantagem de avaliar o comportamento vigente, entretanto, é que o terapeuta
pode observar diretamente o comportamento que o cliente está descrevendo.
Isto perm ite avaliar a confiabilidade inter-observadores, contar e registrar
respostas e constitui-se num a oportunidade de estimar a correlação entre relatos
verbais e o comportamento ao qual ele se refere.
Aplicação Clínica da FAP 27

T É C N IC A T E R A P Ê U T IC A : AS C IN C O R E G R A S

D ado que a p sic o te ra p ia é um p ro cesso in teracional com plexo,


envolvendo com portam ento m ultidetenninado, nossas sugestões "de técnica
psicoterapêutica não pretendem ser completas ou excluir o uso de procedimentos
não descritos aqui. Pelo contrário, outros m étodos de terapia podem ser
com plem entados ou am pliados para auxiliarem terapeutas a obterem vantagem
de oportunidades que de outro m odo poderiam passar despercebidas. Por
exem plo, os m étodos da terapia cognitiva poderiam ser usados junto com a
FAP, pois esta oferece recursos terapêuticos para trabalhar com pensamentos
irracionais ou pressupostos errôneos (ver Capítulo 5).

N ossas técnicas são dispostas sob a form a de regras. Ao contrário do


significado am eaçador ou rígido que é associado ao uso comum do termo,
propom os que as regras sejam com preendidas segundo o conceito skinneriano
de com portamento verbal (Skinner, 1957, p. 339), depois elaborado por Zettle e
Hayes (1982). N este contexto, as regras da FAP são sugestões para o com por­
tamento do terapeuta, as quais resultam em efeitos reforçadores para o terapeuta.
É m ais um a questão de “experim ente, você vai gostar”, do que “é m elhor que
você faça assim ” .
A lém disso, as regras não oferecem aos terapeutas a orientação específica
para cobrir todo m om ento ou situação da sessão. Espera-se que os terapeutas
atuem de form a a depender de sua experiência e de outras teorias. N o início da
terapia, o tem po é geralmente gasto na coleta da história de vida e de descrições
dos problem as clínicos. Segue-se um a etapa exploratória com o cliente para
investigar com o poderia agir para melhorar sua situação. Em qualquer ponto
deste processo, a adoção de regras da FAP poderia m udar o foco do tratamento
para o CRB. O foco pode ser m om entâneo ou dom inar a cena. Deste modo,
nenhum procedim ento é excluído, m as, a qualquer mom ento, seguir regras da
FAP p o d eria cond u zir à identificação e u tilização de um a oportunidade
terapêutica.

R e g ra 1: P r e s ta r aten ção aos CKBs


Esta regra é o coração da FAP. N ossa principal hipótese é que seguir
esta regra m elhora o resultado da terapia. Portanto, quão m aior for a proficiência
do terapeuta em identificar CRBs, m elhores os resultados. Também hipotetiza-
28 C apítulo 2

se que seguir a Regra 1 conduzirá a uma crescente intensidade; ou seja, reações


emocionais mais fortes entre cliente e terapeuta durante a sessão.

Numa sessão de terapia, a conseqüência primária do comportamento


do cliente é a reação do terapeuta. Caso o terapeuta não proceda a uma observação
clara do comportamento do cliente, suas reações poderão ser inconsistentes ou
antiterapêuticas, o que comprom eteria o progresso. Em outras palavras, se o
terapeuta não estiver ciente dos comportamentos clinicamente relevantes do cliente
que ocorrerem durante a sessão, o reforçamento dos progressos no momento de
sua ocorrência será algo do tipo “pegar ou perder”. Ainda que estar consciente
e prestar atenção não garantam que melhoras sejam reforçadas e comportamentos
desfavoráveis sejam extintos ou punidos, isto aumenta a probabilidade de reações
apropriadas do terapeuta.

' O problema contraterapêutico gerado pela ausência de consciência é


fam iliar àqueles que trabalham com crianças com perturbações graves. O
p rim e iro a u to r r e c o rd a -s e q u ão d o lo ro so foi e n s in a r u m a c ria n ç a
institucionalizada a calçar suas próprias meias - ele nunca havia feito isto e até
que ele sistematicamente conseguisse calçá-las foi necessária um a hora de treino
diário, ao longo de várias semanas. Seus pais levaram o garoto para um a visita
à sua casa e observaram-no sair da cama e calçar as meias. Eu mal continha o
júbilo pelo progresso alcançado. Mas assim que ele calçou as meias, seus pais o
advertiram por calçar cada pé de um a cor diferente, im ediatamente arrancaram
um a delas e substituíram-na por outra de cor adequada. O cliente teve um ataque
de birra. Obviamente os pais não conseguiram perceber que calçar as m eias era
um CRB2, membro de um repertório cuja ausência, ou baixa probabilidade de
ocorrência, estava diretamente relacionada ao problema. Se os pais estivessem
presentes às entediantes semanas de treinamento, sua percepção teria mudado e,
provavelmente, seriam capazes de reforçar naturalm ente o comportamento de
calçar as meias. É pena que alguns psicoterapeutas, com freqüência, não estejam
atentos aos comportamentos clinicam ente relevantes que ocorrem na sessão e
tendem a reagir de um m odo não-terapêutico, como os pais da criança autista.

Como se afirmou antes, é mais provável que se reforce apropriadamente


o comportamento clinicamente relevante que ocorre na sessão se o terapeuta
observar atentamente o que se passa. Vamos exam inar o caso de Betty, em
tratamento com o prim eiro autor, com queixa de ansiedade para se expressar
verbalm ente, pânico, falta de assertividade perante figuras de autoridade,
especialmente do sexo m asculino (por exemplo, supervisores e executivos da
empresa onde trabalha). Durante a sessão, ela m e pediu que ligasse para seu
A plicação C línica da FAP 29

clínico e solicitasse, em seu nome, um a nova receita dos tranquilizantes que lhe
foram prescritos e estavam term inando. Acrescentou que tinha muito medo de
fazê-lo. Tive diversas, e fortes, reações negativas encobertas. Primeiro, não
gostei da idéia por geralm ente desencorajar a m edicação, em benefício dos
m étodos com portam entais. Segundo, pensei que renovar a receita estava sob
responsabilidade de Betty, não minha. Terceiro, imaginei que esta seria uma
chance para a cliente praticar, interagindo com seu m édico, o comportamento
assertivo. P or fim , considerei que telefonar para o m édico é um a tarefa
desagradável, que parecia um a interferência sobre m eu horário. Por outro lado,
em função da R egra 1, sabia que o pedido era, definitivam ente, um CRB2, um
com portam ento assertivo na sessão, dirigido a um a figura m asculina de
autoridade, o qual, até então, estava ausente no repertório de Betty. Estando
ciente disso, concordei em ligar para o médico e cum primentei-a pela expressão
direta ao m e fazer seu pedido.

A im p o rtân cia da R egra 1 não pode ser enfatizada em dem asia.


Teoricam ente, seguir a R egra 1 é tudo o que precisam os para o tratam ento ter
sucesso. Ou seja, um terapeuta habilidoso em observar a ocorrência, na sessão,
de instâncias do com portam ento clinicam ente relevante, tenderá a reagir,
naturalm ente, no sentido de reforçar, extingüir e punir o com portam ento em
questão, propiciando o desenvolvim ento de alternativas úteis para a vida diária.

A observação de repertórios como os especificados pela Regra 1 é prática


usual entre terapeutas psicodinâmicos e de ecléticos reconhecidos como bastante
competentes. Isto é esperado porque as ocorrências de CRB que são rotuladas
como transferência servem com o estím ulos discrim inativos importantes na
terapia de orientação psicodinâm ica. Além disso, seria esperado dos terapeutas
com vasta experiência, independente de sua orientação teórica, que m ostrassem
os tipos de com portam ento da R egra 1 em função do fato de que perceber o
CRB (m esm o sob a form a de estar atento a questões transferenciais) facilita o
progresso clínico, o que automaticamente reforça o comportamento do terapeuta
de seguir a R egra 1. Poder-se-ia esperar que este reforçam ento acontecesse sem
que o terapeuta estivesse consciente.

A creditam os que os efeitos da Regra 1 refletem-se nos resultados de um


estudo recente sobre os produtos das interpretações psicanalíticas (Marziali,
1984). N esta pesquisa, as interpretações feitas pelo terapeuta foram categorizadas
do seguinte modo: 1) Interpretações T: mencionavam o comportamento do cliente
que e sta v a o c o rre n d o n a sessão; 2) In te rp re ta çõ es DL: re feria m -se ao
com portam ento que ocorria fora da sessão, na vida diária; 3) Interpretações P:
30 Capítulo 2

referentes ao comportamento do cliente que ocorreu em seu passado. A melhora


do cliente se correlacionou com o núm ero de interpretações T. Na perspectiva
da FAP, a interpretação T significava que o terapeuta estava observando CRBs
(ou seja, emitindo o mesmo comportamento especificado pela Regra 1). Quanto
mais se prestar atenção no CRB, m aior o progresso do cliente. Ao nosso ver, as
melhoras decorreram das contingências fornecidas pelo terapeuta, que tendem a
ocorrer naturalmente, já que ele estava observando o processo. A interpretação,
por si só, poderia ter contribuído para a melhora, mas, segundo a FAP, seria
m enos importante do que a contingência do terapeuta reforçai’naturalm ente as
reações de melhora àpresentadas na sessão.

R e g ra 2 : E v o car C R B s

Em nossa opinião, um relacionam ento terapeuta-cliente ideal evoca


CRB1 e cria condições para o desenvolvim ento do CRB2. O grau em que isto é
alcançado depende, é claro, da natureza dos problemas de vida diária do cliente.
E possível que um terapeuta distante, afastado, no estilo “tela em branco” fosse
a pessoa certa para alguns clientes. U m a dada m edida de passividade poderia
oferecer ao cliente a chance de se desenvolver com independência (ver Capítulo
6 sobre o tratamento de problem as que afetam o “eu”). Em termos genéricos,
entretanto, a maioria dos clientes precisa aprender a desenvolver relações de
intimidade, o que significa que o relacionam ento terapêutico deveria evocar o
comportamento do cliente que evita o estabelecimento da intimidade (CRB1).
Se o cliente tiver habilidades de relacionam ento adequadas para interagir com
um terapeuta passivo e distante, quase nada aprenderia em termos de intimidade.
Por outro lado, um terapeuta ativo e caloroso poderia evocar os problemas do
cliente e abrir espaço para progressos. U m cliente que deseja estabelecer
relacionamentos de proximidade, mas que teme o envolvimento, pode claramente
se beneficiar com um terapeuta que expresse afetividade.

As descrições que clientes fazem sobre o que desejam em um a relação


terapêutica apontam a importância de um relacionamento capaz de evocar certos
comportamentos. Como certo cliente afirmou, “Terapia é construir um a relação
de amor. Se você conseguir superar seus bloqueios com um a certa pessoa,
conseguirá fazê-lo coin outras.” Outro cliente expressou sentimentos similares:
“Se m aus relacionam entos m e bagunçaram , então precisarei de bons relacio­
nam entos que ine ajudem a ficar curado. E esta foi um a boa relação.”
Aplicação Clínica da FAP 31

Peck (1978) opinou sobre o que tom a a psicoterapia efetiva e bem


sucedida:

É hum ano envolver-se e lutar. É desejo do terapeuta servir aos propósitos, de


estim ular o crescimento do cliente - vontade de sustentar-se pelas própria pernas,
de envolver-se realm ente num nível emocional de relacionamento; lutar, de fato,
com o paciente e consigo mesmo. E m suma, o ingrediente essencial de um a
terapia significativa e profunda é o amor. (p. 173)

G reben (1981), que citam os no inicio do livro, pensou de m odo similar


ao de Peclc:

Psicoterapia não é um conjunto de regras elaboradas sobre o que alguém não


deve fazer: regras sobre quando ou o que falar, sobre como tirar férias, lidar com
os momentos perdidos, etc. É algo m uito mais simples que isso. É o encontro de
trabalho entre duas pessoas, trabalho duro e honesto. Poderia afirm ar que é um a
jornada de amor. (p.455)

N ossa interpretação sobre os pontos de vista de Peck e G reben é que o


cliente aprende a se envolver num relacionam ento real. U m terapeuta que am a e
se envolve plenam ente com um cliente cria um ambiente terapêutico que evoca
C R B ls correspondentes.
A lém da postura geral assum ida pelo terapeuta, há outras formas do
am biente ser estruturado para evocar CRBs. Em bora não visem tal objetivo,
técnicas específicas usadas por vários psicoterapeutas podem ser efetivas por
evocarem o CRB. A lguns exem plos são: 1) Associação livre, que pode ser vista
com o a apresentação de um a tarefa não estruturada que impele à introspecção e
evoca o CRB correspondente (ver C apítulo 6); 2) Hipnose, que pode evocar o
CRB relacionado a renunciar ao controle; 3) Lições de casa: pode evocar CRBs
relacionados a contra-controle ou a obediência excessiva; 4) Exercícios de
imaginação: possibilitam evocar CRBs relacionados a estar sob restrição,
em ocionado ou em processo criativo. A reestruturação cognitiva, a técnica das
cadeiras vazias, relatar sonhos e a terapia do grito prim ai certam ente evocam
C R B ls apropriados para alguns clientes. O problem a com estas técnicas é que
o terapeuta que as utiliza pode estar tão sob controle de alter egos, de nossa
sabedoria interior, do conteúdo inconsciente ou da distorção cognitiva, que o
CRB não é identificado ou é visto com o m ero subproduto.
32 C apítulo 2

Outras abordagens incluem: 1) pedir que o cônjuge do clienle venha às


sessões, se o repertório relevante, em termos do problema de relacionamento do
cliente, somente emergir em sua presença (aconselhamento de casal); 2 ) iniciar
a sessão de uma cliente bulímica com a atividade de almoço, caso os CRBs só
ocorram após as refeições; 3) restringir, por um tempo, os comentários que
indicam que o cliente recebe a aceitação ou aprovação do terapeuta, caso o
CRB se refira às dificuldades de se relacionar com quem não é explícito em
term os de aprovação e aceitação.

O último exemplo levanta um problem a que pode ocorrer quando um


terapeuta deliberadam ente altera um aspecto de seu com portam ento para
aum entar as chances de obter o CRB. O terapeuta pode ir longe demais ao
dispor condições para evocar o CRB e sua credibilidade pode sofrer danos devido
à natureza de tal reforçamento arbitrário. Por exemplo; um terapeuta pode simular
raiva para evocar o CRB num cliente cujas dificuldades são provocadas por
pessoas que se enfurecem. Em bora a raiva possa resultar num a interação
terapêutica importante, o cliente pode vir a reconhecer que a raiva não era real.
M as sim um comportamento fingido pelo terapeuta, em benefício do cliente. No
fu tu ro , a expressão de raiva do terap eu ta poderia, justificadam ente, ser
interpretada como um estratagema, o que im pediria, é claro, a evocação do
CRB. A lém disso, o cliente poderá se tornar incapaz de confiar nas expressões
ou verbalizações afetivas do terapeuta. Tal efeito, é desnecessário afirmar,
lim itaria seriamente o progresso.

A situação descrita acim a precisa ser diferenciada de outra na qual o


problem a do cliente é a falta de confiança que interfere em relacionamentos im ­
portantes. Tal desconfiança não se origina de interações com o terapeuta, como
no exemplo citado, mas possui um a longa história e sua ocorrência na relação
terapêutica é coerente com sua história. E m tal caso, duvidar da sinceridade das
reações do terapeuta constitui-se num CRB e deveria ser foco de tratamento.
Seria particularmente lamentável se um terapeuta fortalecesse a falta de confiança
ao conduzir indevidamente um a tentativa de estabelecer condições provocadoras
do CRB. Um a salvaguarda seria o terapeuta explicar ao cliente as razões pelas
quais iria, a partir daquele mom ento, alterar o seu comportamento.

R e g ra 3: R e fo rç a r CRB2s

É difícil por a Regra 3 em prática. Os únicos reforçadores naturais dis­


poníveis, na sessão, para o cliente adulto, são as ações e reações interpessoais
A plicação C línica da FAP 33

entre cliente e terapeuta. Por um lado. o reforçador temporal e fisicamente


contíguo ao com portam ento-alvo é o agente prim ário de m udança na situação
terap êu tica. P or outro lado, os b ehavioristas, cientes da im portância do
reforçam ento, tendem a utilizar procedim entos arbitrários que comprometem a
eficácia da intervenção. Como Ferster (1972a) afirmou, “os reforçadores naturais
são, às vezes, intrigantes porque parecem reforçar tanto o com portam ento e,
ain d a assim , seus e fe ito s p arecem esv a n e c e r quan d o se te n ta u sá-lo s
deliberadam ente.” (p. 10.5).

H á abordagens diretas e indiretas para se prover reforçam ento natural.


A s abordagens diretas consistem no que um terapeuta pode fazer na hora em
que se requer um reforçador; entretanto, apresentam um m aior risco de pro­
duzirem reforçamento arbitrário. As abordagens indiretas propiciam a ocorrência
do reforçam ento natural por m eio da manipulação de outras variáveis, diferentes
do que se faz imediatamente após o comportamento, com risco m enor de parecer
arbitrário.

Abordagens Diretas

É evidente que o terapeuta que planeja dizer “muito bem “ ou demonstra


reações exageradas sem pre que o cliente solicita reforçam ento corre o risco de
ser arbitrário. E sta é, provavelm ente, a razão pela qual W achtel (1977) afirmou
que os com portam entais eram extremam ente exuberantes no uso de elogios, o
que “vulgariza” a relação. Tentativas deliberadas de recom pensar um cliente
adulto, guiadas pela regra “quando o cliente dem onstrar um progresso, faça um
gesto positivo ou faça um elogio”, conduziriam facilmente ao reforçam ento
arbitrário. Portanto, com o regra geral, é recom endável evitar procedim entos
que especifiquem de antemão a reação do terapeuta, o que parece ocorrer sempre
que ‘tiram os um reforçador da cartola’ sem relação algum a com a história
específica de relação terapeuta-cliente. Por exemplo, se fossemos imaginar algo,
com função reforçadora, para dizer a um cliente, viriam à nossa m ente frases
com o “m uito bem ” ou “que ótim o!”. Estas form as específicas de resposta
poderiam facilm ente ser arbitrárias porque foram criadas fora do contexto da
relação cliente-terapeuta no qual ocorreria o reforçamento.

7. Reforce uma classe ampla de respostas nos clientes. Aos clientes é


m ais naturalm ente reforçador dispor, em seu repertório, de um a classe am pla de
respostas porque ela tende a ser generalizável para outras situações. Examinemos
34 Capítulo 2

o caso-de um homem, obsessivo-com pulsivo, que está sendo encorajado pelo


terapeuta a se soltar mais em seus relacionam entos com família e amigos. Ele
gradualmente começa a chegar atrasado às sessões, tenta obter tempo extra ao
final das mesmas e atrasa o pagamento das consultas. U m a reação estrita do
terapeuta seria chamar o cliente às falas, ao passo que reforçaríamos um a classe
de respostas m ais am pla se considerássem os os com portam entos m enos
responsáveis do cliente como m anifestações de progresso (CRB2).

2. Compatibilize suas expectativas com os repertórios atuais dos clientes.


Isto significa estar atento ao nível atual de habilidades do cliente em quaisquer
áreas nas quais o cliente esteja tentando im plem entar mudanças (por exemplo,
comunicar-se melhor, descrever sentimentos, controlar impulsos) sem estabelecer
expectativas excessivamente elevadas. O conceito de modelagem pode auxiliar
na identificação dos repertórios vigentes. Por exemplo, o segundo autor atendeu
um a cliente chamada Agnes, diagnosticada como borderline, segundo o DSM-
HI-R, que apresentava flutuações de humor, era explosiva e verbalmente abusiva.
Freqüentemente ela encerrava a terapia de m odo abrupto, sem aviso prévio nem
provocação aparente. Tinha que enfrentar, em sua vida diária, estes mesmos
problemas, o que a levou a passar por inúmeras e breves tentativas prévias de
terapia, porque os terapeutas a consideravam insuportável. A pós um ano de
terapia, no qual demonstrei rara capacidade de paciência e tolerância para com
este comportamento, Agnes novamente parou, ameaçou com eter suicídio, e
afirmou estar fazendo isto em função de eu não m e importar com ela, demonstrado
pela limitação do m eu tempo reservado para ela. Embora pudesse ver este
comportamento como a gota d ’água que transbordaria o copo, o conceito de
modelagem me auxiliou a discriminar este evento como um CRB2 em potencial,
e que deveria ser reforçado. Agnes estava, de fato, pela primeira vez, descrevendo
variáveis externas como causa de seus rom pantes, antes de sair em disparada
consultório afora. Reforcei sua m elhora dizendo-lhe como eu poderia melhor
preencher suas necessidades, e negociei com ela sobre a duração e freqüência
das nossas sessões. Pela modelagem , a raiva e o com portam ento abusivo de
Agnes reduziram-se gradualmente, sendo substituídos por pedidos e descrições
diretas.

3. Amplifique seus sentim entos para torná-los mais salientes. Por vezes
ajuda adicionar algum com portam ento verbal à reação básica frente ao cliente,
de m odo a garantir ou aumentar a eficiência terapêutica. Em bora a natureza do
reforçador não se m odifique fundam entalm ente ao longo do processo, a
Aplicação Clínica da FAP 35

amplificação pode ser importante do ponto de vista terapêutico. Este cuidado se


traduz no terapeuta sendo muito cuidadoso na explicação de suas reações ao
cliente, bem como ao descrever eventos privados ou reações sutis que possam
não ser discrim inadas de imediato. A título de ilustração, considerem os um
cliente que se preocupa com a questão da intim idade e sente falta de amizades.
A o se com portar na sessão, ele produz no terapeuta reações espontâneas, de
natureza privada. Estas respostas podem incluir: 1) predisposições para agir de
m odo íntimo e carinhoso, e 2 ) respondentes privados que correspondem a “sentir-
se próxim o” . Como estes comportamentos não são discriminados pelo cliente,
ou possuem pouco valor reforçador, o terapeuta poderia descrever alguma reação
interna e dizer: “E u m e sinto particularm ente próxim o de você agora”. Sem a
am plificação, tais reações básicas im portantes exerceriam pouco ou nenhum
efeito reforçador sobre o com portam ento do cliente que as causou.

4. Esteja ciente de que seu relacionamento com o cliente existe para o


beneficio deste. Quaisquer intervenções que estejam em andamento, é importante
que o terapeuta sempre se interrogue sobre o que é m elhor para o cliente naquele
m om ento e a longo prazo. Para ilustrai' este princípio, vamos exam inar a relação
entre o conceito de reforçam ento natural e o tipo de terapia proposto por Cari
Rogers. Em bora Rogers estivesse vinculado a um a abordagem m uito diferente
da FAP, as características do terapeuta naturalm ente reforçador lembram, em
diversos aspectos, a postura cuidadosa e genuína de Rogers. Conhecido por sua
oposição ao “uso do reforçam ento” corno form a de controle sobre as outras
pessoas, Rogers certam ente não tentaria fazê-lo. M as uma análise cuidadosa de
suas reações aos clientes indica que há contingências (Truax, 1966), pois Rogers
reagia diferencialm ente a certas classes de com portam ento do cliente. Deste
m odo, ele produzia um padrão de reforçamento.
Ao nosso ver, a atenção de Rogers provavelmente manifestava-se como
um interesse, preocupação, sofrimento ou envolvimento, que terminavam, natural­
m ente, punindo C R B ls e reforçando CRB2s e CRB3s. Deste modo, sugerimos
que a proposição rogeriana é um método indireto de fortalecer a ocorrência de
contingências naturalmente reforçadoras. Um terapeuta que dá atenção, confoime
a formulação aqui apresentada, é alguém naturalmente reforçador, ou governado
pelo que é m elhor para o cliente.
N a medida em que na relação terapêutica há um desequilíbrio de poder,
é especialm ente importante obedecer a esta diretriz. Do contrário, os clientes
poderiam ser facilmente abusados e feridos. Clientes que se envolvem sexualmente
36 Capítulo 2

com seus terapeutas sâo um destes casos. Peck (1978) discutiu muito bem porque
é difícil conceber que um cliente se beneficie do relacionam ento sexual com o
terapeuta:

Caso eu tivesse um caso sobre o qual concluísse, após cuidadoso e sistemático


exame, que o crescimento espiritual do meu paciente seria substancialmente
beneficiado pelo nosso relacionamento sexual, eu aceitaria a idéia. No entanto,
em quinze anos de atividade profissional, nunca encontrei um caso assim, e acho
difícil imaginar que isto sequer seja possível. Antes de mais nada, o papel de um
bom terapeuta é ser um' bom pai, e pais não se relacionam sexualmente com os
filhos por uma série de razões, todas bastante fortes. A tarefa de um pai é estar a
serviço da criança, e não usá-la para sua satisfação pessoal. Cabe ao terapeuta
servir ao cliente, sem fazer uso dele para preencher suas necessidades. A tarefa
patem a é encorajar a criança em direção à independência, e o terapeuta deve
seguir este exem plo. É difícil entender que um terapeuta que se relacione
sexualmente com um cliente não o fizesse por razões pessoais, ou que estivesse,
por meio de tal atitude, promovendo a independência do cliente, (p. 176)

5. Se usar reforçadores atípicos, fa ça-o som ente p o r tempo limitado,


como fo rm a de transição. Ocasionalmente, um terapeuta pode desejar utilizar
reforçadores atípicos em um a fase de transição do tratam ento, até que os
reforçadores naturais assumam o controle. Mas esta atitude requer grande cautela.
Além disso, recom enda-se contar ao cliente porque isto está sendo feito, e que
depois haverá substituição pelo reforçamento natural. Ferster (1972b) afirmou
que alguns dos usos bem sucedidos de reforçadores atípicos como alimento ou
elogios devam-se “à form a como eles tom am o comportamento do cliente mais
visível ao terapeuta e ao próprio cliente.” U m a vez que tal consciência se
estabelece, reações do terapeuta naturalmente reforçadoras despertariam, no
cliente, repertórios relevantes que acompanham os reforçadores arbitrários.
Vejamos o caso de um cliente que apresentava altas taxas de faltas no trabalho
e na terapia. Obviamente, sem contato é difícil desenvolver a aliança terapêutica.
Surpresas sob a form a de recom pensas m ateriais de baixo valor, como material
de papelaria, ou brinquedos podem ser oferecidas como indução da presença
regular às consultas. N a m edida em que se desenvolvem novos repertórios que
tom am a terapia em si suficientemente reforçadora, estas recom pensas podem
ser retiradas gradualmente.

6, Evite a punição. Em conformidade com a proposição do behaviorismo


radical, que se opõe ao uso da punição, até agora se enfatizou o reforçamento
A^plicação Clínica da FAP 37

p o sitiv o . O s estím u lo s aversivos som ente d everiam ser usados quando


procedim entos que envolvam o reforçamento positivo se mostrarem ineficazes
A oposição ao uso terapêutico de estím ulos aversivos baseia-se em seus
problem áticos efeitos colaterais: 1 ) pode gerar esquiva da terapia, 2 ) propicia a
agressividade em geral, 3) o comportamento produtivo acaba substituído por
fuga e esquiva. Ferster apontou que a m aior parte do controle aversivo que
ocorre entre pessoas é, na sua essência, arbitrário. Portanto, faz sentido evitar,
sempre que possível, o uso de controle aversivo no tratamento de adultos atendidos
em nossos consultórios.

H á casos, entretanto, nos quais os C R B ls do cliente consistem em


com portam ento de fuga e esquiva, o que im possibilita a ocorrência de CRB2s,
ou seja, o desenvolvim ento de repertórios m ais efetivos. N estas situações, o
terapeuta pode tentar bloquear a esquiva reapresentando ao cliente o estímulo
discrim inativo que originalmente evocou a fuga ou esquiva. Consideremos, por
exem plo, um a simples questão feita pelo terapeuta; “Como foram os exercícios
de relaxam ento durante a semana?” , num contexto no qual o cliente concordara
com a tarefa. Para alguns, a pergunta seria um estím ulo aversivo, que evocaria
fuga ou esquiva do cliente, seja mudando o assunto, m entindo ou respondendo
de m odo ambíguo.

Estas reações (por exemplo, fornecendo um a resposta indireta) poderiam


se relacionar com um a série de problemas do cliente em termos de relacionamentos
interpessoais. Se o terapeuta m uda de tópico e “parte para outra” , haveria
reforçam ento da esquiva CRB1, sem que se possibilite o desenvolvimento de
u m repertório significativo do cliente, pleno de im plicações, relacionado a “ser
direto”. Portanto, a técnica principal para enfraquecer a esquiva seria introduzir,
novam ente, o estím ulo aversivo, o que, no caso acima, eqüivale a repetir a
pergunta sobre o cum prim ento dos exercícios de relaxam ento.

N o ssa im pressão é que C R B ls de esquiva ocorrem freqüentemente na


terapia, talvez em toda sessão. O terapeuta pode sem pre se interrogar - “O que
esta resposta consegue evitar?” . É difícil detectar a esquiva porque a situação
aversiva pode ser extrem am ente idiossincrática, dificultando que o terapeuta
consiga perceber o que ocorre. N o exemplo anterior, o cliente poderia começar
a sessão já se referindo a um a crise, antes m esm o que o terapeuta lhe pergunte
sobre o relaxam ento. A crise pode, ou não, ser esquiva do conversar sobre a
lição de casa. A não ser que o terapeuta tenha form ulado hipóteses a respeito
dos C R B 1s referentes à tarefa, a crise seria um a esquiva bem sucedida. O conceito
de esquiva, do ponto de vista funcional, freqüentem ente tem pouco a ver com o
38 Capítulo 2

cliente estar consciente do que ocorre e é, basicam ente, um comportamento


modelado pelas contingências. Conforme salientou-se antes, o efeito de qualquer
contingência pode ser o fortalecimento ou enfraquecimento de um comportamento,
e não teria a ver com a capacidade do cliente estar ciente da contingência em
vigor (ver capítulo 5 para um a discussão sobre consciência e comportamento
modelado pela contingência).

N ão se recomenda bloquear todas as respostas de fuga e esquiva porque


o bloqueio funciona como controle aversivo e isto acarreta todos os efeitos
indesejáveis a ele associados. D e modo correspondente, deveria ser aplicado
com moderação no contexto de um am biente prim ordialm ente baseado em
reforçamento positivo e estar de acordo com o nível atual de tolerância do cliente
aos estím ulos aversivos. A tolerância se refere a um a reação dim inuída e ao
efeito desorganizados da estimulação aversiva. O reforçamento positivo resultante
do novo comportamento que se desenvolve após a aversividade inicial gerada
pelo bloqueio da esquiva, acaba por facilitar o aumento da tolerância. Um
repertório verbal que corresponda às variáveis de controle envolvidas na esquiva
(Regra 5) também pode auxiliai' no aumento da tolerância. Um exemplo seria:
“Vou lhe perguntar novamente sobre o relaxam ento porque você não respondeu.
Faço isto porque acho que sua ausência de resposta é como quando sua esposa
lhe pergunta sobre seu dia e vocês terminam com sentimentos de irritação. Esta
talvez seja um a oportunidade para fazermos algo a respeito do problem a.”

7. Seja você mesmo, na medida do possível, considerando as restrições


impostas pelo relacionamento terapêutico. O terapeuta, enquanto membro da
com unidade verbal, tem acesso a reforçadores naturais contingentes a um
com portam ento específico que ocorre na sessão. Para ter acesso a estes
reforçadores naturais, o terapeuta pode observar as reações espontâneas privadas
que ocorrem logo após o comportamento do cliente. Tecnicamente, a reação
privada não é p e r se reforçadora, mas vem acom panhada por disposições para
agir publicamente de formas que são naturalm ente reforçadoras. Outro método
é perguntar a si mesmo “Como a comunidade responderia a este comportamento?”
N enhum a das alternativas garante que o reforçador obtido seja natural e,
tampouco, terapêutico, mas é um ponto de partida. Três fatores deveriam ser
levados em conta para determ inar se as reações privadas do terapeuta são
provavelmente reforçadoras: 1 ) o repertório atual do cliente; 2 ) o que é melhor
para o cliente; 3) o repertório que deverá ser desenvolvido no cliente.
Aplicação Clínica da FAP 39

Abordagens indiretas

A té aqui discutim os abordagens diretas que propiciem o reforçamento


natural do com portam ento apresentado pelo cliente na sessão. Como se apontou
anteriorm ente, há riscos envolvidos no uso da abordagem direta. Ou seja, pode
ser arbitrário o terapeuta seguir- um a regra sobre o que fazer na hora de reforçar,
visto que a regra não faz parte do processo quando o reforçamento ocorre no
am biente natural. Por exem plo, um bom pai geralmente age em função do que é
benéfico para a criança, sem que tenha que seguir um a regra, ou estar consciente
a respeito do que fazer. A s abordagens indiretas, por outro lado, buscam auxiliar
a m anipulação, no am biente natural, de variáveis diferentes daquilo que se faz
im ediatam ente após a detecção do CRB. Por exemplo, terapeutas evitam estar
fam in to s o u ex austos d u ran te o trab alh o , alim entam -se e buscam estar
descansados ao início de suas sessões. Isto pode ser entendido como um a forma
indireta de to m ar m ais provável que o terapeuta reforce naturalm ente os
progressos do cliente. Ou seja, os cuidados do terapeuta com seu bem estar
físic o p o d em to m á-lo m ais atento, pacien te, com preensivo e, portanto,
naturalm ente reforçador.

1.A m pliar a percepção do que reforçar. É importante lem brar que as


m udanças podem assum ir diferentes formas e ocorrem em ritmos distintos.
M elhorar nossa percepção do que reforçar é o com portamento enunciado pela
Regra 1 e, dentre os m étodos indiretos, é o mais importante. Há m ais chance das
reaçõ es espontâneas do terap eu ta serem naturalm ente reforçadoras se o
com portam ento do cliente for entendido como um progresso clínico.
2. Avalie o seu impacto. A idéia geral é rever detalhadamente as interações
terapêuticas. Registrai' as sessões em áudio e vídeo, ou dispor de pessoas
qualificadas para observarem a sessão (como ocorre nas clínicas-escola) poderia
auxiliar o processo. Este fe ed b a ck favorece o aperfeiçoamento das reações do
terapeuta (Regra 4).
3. P ratique boas ações, que propiciem benefícios às pessoas em geral.
Outra proposta é o terapeuta se engajar em comportamentos cujo único reforçador
disponível (para o com portam ento do terapeuta) fosse beneficiar terceiros.
Sugere-se, por exemplo, aumentar o número de boas ações em prol de estranhos,
engajar-se em trabalho voluntário, auxiliar pessoas economicamente desfavore­
cidas, com fom e, entre outras. Faça-o freqüentemente; se possível, todo dia.
Espera-se, deste modo, fortalecer repertórios que beneficiem terceiros, o que
40 Capítulo 2

caracteriza um dos aspectos do reforçainento natural. Se o repertório fortalecido


for transferido para a sessão, pode aumentar a disponibilidade do reforçamento
natural, favorecendo a qualidade da terapia.

4.. Selecione clientes apropriados à FAP. Na medida em que a FAP requer


que o reforçamento natural disponível na situação terapêutica seja relevante aos
comportamentos do cliente relacionados ao problema, a seleção de clientes que
provavelmente: a) tenham problemas que ocorram durante a sessão, e b) sejam
afetados pelas reações do terapeuta, seria um a quarta abordagem que, de modo
indireto, propicia a ocorrência do reforçam ento natural.

R eg ra 4: O bserve os efeitos potencialm ente reforçadores cio com portam ento


â o te ra p e u ta em relação aos CMBs do cliente

A Regra 4 deriva-se diretamente de princípios analítico-comportamentais


que enfatizam a im portância dos efeitos das consequências do comportamento
sobre sua futura probabilidade de ocorrência. Em bora um a m udança no
comportamento do terapeuta possa ser um subproduto do seguimento dessa
regra, ela, em si, especifica somente que o terapeuta observe o relacionamento
reforçador durante a sessão e não sugere ao terapeuta que intencionalmente
modifique seu próprio comportamento. O bservar a relação reforçadora pode
apresentar efeitos importantes sobre os resultados da terapia. Por exemplo, se o
terapeuta observar que suas reações parecem punir o comportamento desejável
do cliente mas que ocorrem com baixa freqüência, isso pode levar a m udanças
no com portam ento do terapeuta, que se to m ará positivam ente reforçador.
Entretanto, é também possível que o terapeuta continue a punir o comportamento
favorável mesmo após identificar a natureza antiterapêutica da punição. Neste
caso, o desenlace seria um a decisão de encam inhar o cliente a outro terapeuta
o u o próprio terap eu ta se subm eteria à terapia visando m o d ificar estes
comportamentos específicos.

A observação do terapeuta dos efeitos reforçadores de suas reações


sobre o comportamento do cliente pode favorecer o seguimento da Regra 5 e o
desenvolvimento de comportamentos similares no c lie n te -C R B 3 .0 modo mais
óbvio pelo qual isto ocorreria seria o terapeuta inform ar ao cliente sobre a auto-
observação: “Notei que cada vez que você com eçou a falar sobre suas crenças
espirituais eu mudei de assunto e você não m ais o trouxe à tona.” Deste modo,
o terapeuta fornece um modelo ao estabelecer um a relação funcional para o
cliente.
Aplicação Clínica da FAP 41

A Regra 4 pode tam bém levar o terapeuta em busca de maneiras de


fortalecer os efeitos de reações que seriam reforçadoras para o CRB mas que
não são percebidas pelo cliente. Por exemplo, imagine um cliente do sexo
m asculino com dificuldades de expressão de sentimentos em função de uma
h is tó ria de te r sid o rid ic u la riz a d o ou criticad o quando o fazia.. E stes
com portam entos não aumentaram de freqüência, a despeito do terapeuta ouvir
atentam ente com expressões faciais de empatia e tecer comentários, ditos com
voz suave, em cada ocasião na qual o cliente expressou um sentimento. Quando
inquirido a respeito, d escobriu-se que as reações do terapeuta não eram
discernidas pelo cliente porque o ato de expressão dos sentim entos evocava
emoções tão intensas (respondentes internos colaterais) que a estimulação externa
não era percebida. Após o terapeuta ampliar a reação empática falando com
voz clara e alta, ocorreu um aum ento da taxa de comportam entos de expressar
sentim ento do cliente.

É recom endável evitar o início do tratamento, se parecer provável que


as contingências naturais não favoreçam a m elhora de um cliente específico.
Isto se aplica quando a Regra 4 leva o terapeuta a concluir que a m aioria das
reações frente ao cliente serão punitivas e que essas reações negativas não se
re la c io n a m com o p ro b le m a do cliente, tal com o “As p esso as reagem
negativam ente frente à m inha pessoa”. O terapeuta pode reconhecer que não
gosta do cliente por razões que provavelmente não se modificarão em breve (por
exem plo, o cliente desperta no terapeuta as lem branças de um pai adotivo cruel
ou um cônjuge que fugiu com o/a amante na semana anterior).

R e g ra 5: F o rn e ç a in te rp re ta çõ e s de variáveis qu e afetam o com portam ento


do cliente

N ossa hipótese é que as interpretações com portam entais especificadas


pela R egra 5 irão auxiliar na produção de regras m ais efetivas (Zettle & Hayes,
1982) e aum entar o contato com as variáveis de controle. Esses aspectos são
discutidos com m aiores detalhes mais tarde.
Ao se perguntar: “Porque você fez aquilo?”, respondemos com um motivo
ou interpretação. Em geral, a razão inclui um a descrição do que fizemos (ou
pensamos, sentimos, ouvimos) e um a afirmação acerca das causas. O que fizemos
e dissem os a respeito depende, é claro, de nossas histórias pessoais. Do mesmo
m odo, as observações e interpretações do com portamento feitas pelo terapeuta
42 Capítulo 2

são em função de um a história, o que inclui sua experiência clínica e formação


teórica. Entretanto, independente de quem o faça, um motivo é apenas uma
unidade de comportamento verbal, um a sequência de palavras. De todo modo,
cada terapia parece incluir ensinar ao cliente a atribuição de m otivos que, aos
olhos do terapeuta, sejam aceitáveis. Especificamente, o terapeuta cognitivista
ensina os clientes a explicarem seus problemas e progressos à luz de suas crenças
ou supostos, enquanto que o terapeuta da FAP espera que os motivos se reportem
à história de reforçamento e variáveis de controle atuais. O cliente da psicanálise,
por outro lado, deve atribuir razões em termos de conflitos infantis e memórias
reprim idas. A disseminação da atribuição causal em psicoterapia é ilustrada
pela descrição que Woolfollt e M esser (1988) fazem da psicanálise: um processo
no qual o cliente relata o que ocorreu e fornece explicações, que serão
interpretadas pelo analista, acompanhadas por um a explicação diferente. A
análise está completa quando as razões tanto do cliente quanto do analista
confluírem para o mesm o ponto.

Enquanto terapeutas, esperamos que as razões que fornecemos aos nossos


clientes os auxiliem em seus problem as da vida diária. Dependendo da razão
fornecida e da história do cliente, é possível, entretanto, não surtir' efeito algum,
ou mesmo, se configurar em uni obstáculo p aia o cliente. Ao nosso ver, há dois
m odos pelos quais a atribuição de motivos pode afetar o cliente.

Primeiro, a razão pode conduzir a um a prescrição, instrução ou regra.


A interpretação “Você está agindo com sua esposa do mesmo modo como o fez
com relação à sua mãe”, pode facilmente ser compreendida como uma prescrição
ou regra que o cliente entende como “N ão seja injusto com sua esposa; procure
tratá-la de outro modo já que, obviamente, ela não é sua mãe. E se você a tratar
bem, seu relacionamento conjugal vai melhorai'.” Se a regra ou instrução irá de
fato ter alguma valia, dependerá do quão precisa é sua correspondência com o
am biente natural. Por exemplo, imaginemos duas razões que podem ser dadas
por um a menina que pegou um biscoito quando não deveria fazê-lo. Uma razão
poderia ser “O demônio me obrigou a fazer.” Esta razão não corresponde às
condições ambientais que controlaram seu com portamento. Por outro lado,
afím iar “Peguei o biscoito porque não comia nenhum há m ais de um a semana,”
corresponde aos eventos ambientais e sugere possíveis intervenções que poderiam
influenciar o roubo de biscoitos (por exemplo, autorizá-la a comer biscoitos
mais freqüentemente).

Em segundo lugar, um a razão pode am pliar o contato com as variáveis


de controle e aumentai- a densidade do reforçamento positivo e negativo (Ferster,
Aplicação Clínica da FAP 43

1979). U m a analogia com a pesquisa animal pode ilustrar esse princípio. Ratos
foram colocados po r um certo período de tempo em duas caixas experimentais
diferentes nas quais recebiam choques inescapáveis. Em uma das caixas, choques
não contingentes foram m inistrados em intervalos aleatórios. N a outra caixa, o
mesmo número de choques não contingentes foram ministrados, mas cada choque
foi antecedido p o r um a luz de aviso. Quando lhes era dada a possibilidade de
escolher, os ratos invariavelm ente preferiam a condição sinalizada. O m esm o
dado foi obtido com alim ento sinalizado e não sinalizado. As escolhas dos ratos
indicaram que um sinal auxiliou a m elhorar sua experiência. Do mesm o modo,
um a interpretação poderia sinalizar eventos para os humanos.

Por exemplo, um a cliente aprende durante a FAP que a razão pela qual
sente-se, às vezes, rejeitada durante a sessão é função da atenção do terapeuta e
m ais, que esta atenção se relaciona com o quão perturbado ou com pressa o
terapeuta pareça estar no início da sessão. Tal interpretação poderia aum entar a
chance da cliente observar o hum or do terapeuta no início da sessão e afetar
significativam ente a sua experiência frente a um lapso de atenção por parte do
terapeuta. Disso resulta que a cliente estabelece um m elhor contato (ela observa
quão perturbado está o terapeuta) e experiencia a desatenção do terapeuta como
sendo m enos aversíva.

Especificações de Relações Funcionais

O repertório verbal a ser desenvolvido por terapeutas envolve afirmações


que relacionam eventos durante a sessão por meio de símbolos como S d R -4 Sr.
Isto representa um com portam ento operante no qual 1) o Sd é o estím ulo
discriminativo ou a situação antecedente cuja influência sobre a ocorrência dei?
varia com a história de reforçam ento; 2) o R é a resposta ou com portam ento
operante influenciado pelo Sd; e 3) Sr é o reforçam ento ou efeito da resposta no
ambiente.
Por exemplo, “Quando líie perguntei como você se sentiu a meu respeito
(o Sd), você m e respondeu falando sobre sua experiência na prisão (a R), que é
um tópico no qual você sabe que eu tenho interesse. Eu recompensei sua esquiva
discutindo sobre a prisão e não sobre seus sentim entos a m eu respeito (o Sr).”
E m geral, é preferível utilizar a linguagem cotidiana, mas pode-se discutir a
conveniência de ensinar ao cliente a linguagem comportamental. Contudo,
afirmações parciais de relações funcionais são m elhores do que omiti-las (por
44 C apítulo 2

exemplo, “Sempre que lhe pergunto sobre seus sentimentos em relação a mim
[Scf], você muda de assunto [/?]”).

Os repertórios da Regra 5 que correspondem ao comportamento que


ocorre na sessão são preferidos, se comparados àqueles correspondentes a eventos
que ocorrem em outro lugar. Ainda m elhores são os repertórios verbais que
relacionam variáveis de controle que ocorrem fora da sessão àquelas que ocorrem
na sessão, pelo fato de propiciarem a generalização.

N o caso a seguir.ilustrarem os o uso da Regra 5. Audi, um a lésbica


negra, na faixa dos vinte anos, buscou terapia com o segundo autor porque
desejava “modificar padrões antigos que me impedem de aproximar-me das
pessoas.” De início, ela tinha dificuldade de falar sobre seus sentimentos e de
demonstrar qualquer tipo de afeto na terapia e descrevia ter comportamento
similar em outros locais. Com cerca de seis meses de tratamento, no intervalo
e n te um a sessão e outra, Andi espontaneamente começou a me escrever lembretes
com um a expressão mais afetiva. Considerando a escassez de expressão de
A ndi nas sessões, fiquei encantada, li e respondi as anotações, as quais
aumentaram em freqüência e tamanho. Estava ciente (Regra 1) da possibilidade
de que as anotações fo ssem um passo na direção certa, em term os do
desenvolvimento de relações de intim idade (CRB2) e sabia que o conteúdo das
anotações incluía descrições de variáveis de controle (CRB3).

Após um ano de terapia ela escreveu: “Estou apavorada pela dependência


que estou sentindo. N ão imagino você fora da m inha vida. Um a coisa é tomar-
m e dependente da terapia, mas pior é depender de um a pessoa específica, a
terapeuta. E mais, terapeutas existem em todos os lugares, mas não há muitas
terapeutas feministas nascidas no Terceiro M undo, situadas politicam ente à
esquerda do liberalismo, que compreendem a comunidade lésbica e que gostam
da m aneira como escrevo.”

O diálogo abaixo ocorreu na sessão seguinte:

T: E tudo verdade, mas você deixou de lado o fato de que nosso relacionamento é
especial e único e que eu realmente me importo com você. (Eu sabia que este é um
estímulo discriminativo [SW] para o tipo de comportamento de intimidade ausente
em Andi [CRB2] e que evoca a esquiva bem como as dificuldades na manutenção
de relacionamentos de intimidade [CRB1]).
C: Muitas pessoas se importam comigo, mas aquelas características a diferenciam.
(Andi respondeu de uma maneira que me desconsiderou; eu provavelmente estava
Aplicação Clínica da FAP 45

na posição que outras pessoas candidatas ao relacionamento íntimo estiveram,


quando expressaram se importarem com Andi - um CRB1),
T: Eu me sinto diminuída quando você afiima isso.

Andi estava visivelm ente chateada com esta reação. Descrevi então
aspectos im portantes da relação funcional “Andi, quando disse que realm ente
m e im portava com você e quis reiterar meus sentim entos, você reagiu de uma
maneira impessoal. Esta reação puniu m eu comportamento de lhe contar o quanto
m e im porto com você e fez com que eu sentisse que m eus sentimentos não eram
relevantes. A cho que sei porque você reagiu deste m odo, você não quer que eu
cultive m eus cuidados e sentim entos positivos com relação a você.”

A ndi discorreu sobre este tem a e descreveu como, em geral, lhe era
difícil escutar m ensagens carinhosas, de elogio ou sintonizadas com seus
sentim entos - um padrão que interfere na aproxim ação de pessoas.

Ê nfase nos processos comportamentais

Com o um a estratégia geral, o terapeuta reinterpreta as afirmações do


cliente em term os de relações funcionais, um a história de aprendizagem e
com portam ento. Tais interpretações com portam entais enfatizam a história e
reduzem a im portância de entidades mentalistas e não-comportamentais. Isto é
im portante para o cliente porque dirige sua atenção aos fatores que acabam
gerando as intervenções terapêuticas.

Por exemplo, Angela, em tratamento com o primeiro autor, não confiava


em si mesma, possuía baixa auto-estima, sentia-se insegura nos relacionamentos
e com dificuldade para pedir aos outros o que desejava deles.

C: Eu sinto que eu não tenho direito de existir. É como se eu não devesse viver,
comigo tudo dá problema. Eu acho que fui covarde como um rato. Quando aprendi
a dirigir eu congelava na minha vez de atravessar um cruzamento. Eu achava que
eu nunca tinha o direito de me meter entre os carros. Isto ainda me é um pouco
traumático, embora eu já tenha melhorado um pouco. De qualquer modo, tudo
isso já me indica que alguma coisa está errada. .Mas e agora? [pausa longa] (A
maior parte destas descrições, especialmente a da encruzilhada, poderia indicar
46 Capítulo 2

como Angela se sente agora, ao se relacionar comigo. Ver o Capítulo 3 sobre


análise do comportamento verbal do cliente.)
T: Eu não sei. Eu posso te apresentar meus pensamentos ou você poderia escolher um
rumo a seguir. (Estou possibilitando amplificar minhas reações privadas.)
C: Ah! Mas eu não tenho um rumo.
T: Você quer que eu te conte quais são meus pensamentos?
C: Ou você poderia escolher um rumo. (A expressão facial e o tom de voz indicam
que ela não quer saber de meus pensamentos.)
T: É verdade, eu poderia escolher um ramo. Me parece que a idéia de lhe contar
quais são meus pensamentos não lhe ateai. Acho que você não gosta dessa idéia.
Você poderia me falar mais a respeito? (A esquiva de Angela de ouvir meus
pensamentos é um CRB1 porque relaciona-se às dificuldades que possui para manter
relações de proximidade.)
C: Bom, acho que é um tipo de... acho que não... acho que não é meu jeito. Sabe de
uma coisa? Eu acho que eu fico dando voltas ao redor mas meio que não fico...
T: ...pessoal?
C : (acenando com a cabeça) Hu-hum. Eu meio que escolho ficar na superfície.
T: Veio alguma coisa agora na tua cabeça quando eu falei que podia te contar os
meus pensamentos? Alguma idéia despertou na tua mente?
C: Foi uma coisa meio idiota. Eu penso como se fosse um desses pontos meio que
perigosos, sabe como é? Eu simplesmente recuo. Eu acho que não é uma boa idéia.
Quer dizer, às vezes é uma boa idéia, eu acho, mas nem sempre. Talvez algumas
vezes. Acho que eu não quero responder à tua pergunta. (Uma descrição de um Sã
aversivo e um CRB de esquiva da intimidade, da confiança, do escutar o desejo
dos outros.)
T: Hu-hum. Ok, então eu quero te contar os meus pensamentos. Quando você disse
que não tinha direito de existir, eu me lembrei do quanto sua mãe ficou chateada
quando você caiu no riacho porque isto a incomodava. Este foi mais um exemplo
de como ela te ensinou a não ter o direito de existir, de causar qualquer transtorno
a alguém. (Uma interpretação baseada na história de aprendizagem e a definição
de “não ter o direito de existir” em termos de não se engajar em comportamentos
que causassem problemas aos outros.)
T: Nós nos confrontamos aqui quando você não queria de forma alguma que eu ficasse
em apuros ou que eu saísse do meu rumo para caminhar em direção ao seu, ou
' ainda, que eu, de alguma forma, me acomodasse a você. Isto é parecido com a
encruzilhada. Você não quer que os outros tenham que esperai'. Se eles quiserem
Aplicação Clínica da FAP 47

seguir, não deveriam ser impedidos de fazê-lo. (Estou fazendo um paralelo entre a
vida diária e a relação cliente-terapeuta apontando a contingência de evitar causar
problemas.)
T: Então, este é um tipo de idéia sobre como eu acho que você funciona. E uma outra
coisa que eu pensei é o quanto parece que eu sou importante para você, você me
tem em alta conta. De fato, acho você maravilhosa e mesmo quando eu me permito
contar isto, minhas palavras não parecem ter algum impacto sobre você. Eu acho
que você não querer conhecer meus pensamentos tem algo a ver com isto. De
alguma maneira você não entra em contato com isto. É teu jeito de ser. Bom, isto
é o que eu penso. (Deste modo teve inicio uma ampliação do comportamento
privado e se introduziu na sessão uma situação de vida diária na qual recebe
feedback positivo e o carinho dos outros sem ser muito influenciada por isto. É
também uma tentativa de redefinir o problema em termos comportamentais, um
comportamento de esquiva difícil de descrever. A interpretação pode ser vista
como uma regra encoberta: “não faz sentido você reagir frente a mim como o fez
em relação à sua mãe”.)
C: Tá bom, considerando que eu deveria acreditar em você e não na minha mãe, eu
não sei como fazer isto. (Seria apropriado fornecer aqui uma interpretação
comportamental de sua experiência de “não saber como fazer isto”, que corresponde
à diferença entre comportamento modelado pela contingência e comportamento
governado por regra, tal como é discutido no Capítulo 5. A interpretação enfatizaria
que o problema não é como acreditar em mim mas sim a emissão e o reforçamento
do novo comportamento de ser assertiva e causar algum problema.)

E X E M P L O D E C A SO C L ÍN IC O

G ary buscou terapia com o prim eiro autor devido a um a história de


relacionam entos pessoais que com eçavam bem m as tom avam -se, algum tempo
depois, superficiais e pouco satisfatórios, terminando em função dos sentimentos
“ruins” que surgiam. A lém disso, ele apresentava, há um longo tem po, uma
depressão que flutuava em função da qualidade dos relacionamentos interpessoais
do m om ento. Atualm ente ele estava envolvido num relacionam ento importante
com um a m ulher, o qual parecia seguir o trágico destino dos relacionamentos
anteriores.
G ary parecia afetivo e cativante, não aparentando qualquer dificuldade
p ara se relacionar comigo nos estágios iniciais da terapia. D e início, coletou-se
48 Capítulo 2

a história e o tratamento incluiu intervenções diretivas tais como: terapia racional-


emotiva. ensaio comportamental e terapia conjugal, O contrato inicial de 10
sessões foi ampliado para 20. ao longo de um período de nove meses. Nesta
primeira fase da terapia, as discussões sobre o problema de Gary centravam-se
no comportamento atual ou rem otam ente distante ocorrido fora da sessão.
Identificou-se que seu problema teve origem nos primórdios da infância. Tais
discussões lhe auxiliaram a alinhavar um repertório verbal razoavelm ente
plausível, correspondente à relação entre sua história de vida e as variáveis de
controle atuais que afetavam seu problem a clínico.

D este m odo, ao térm ino de 20 sessões, G ary aprendeu que seus


relacionam entos pareciam azedar quando ficava chateado ou irritado com sua
p a r c e ir a , sem d is c u tir su a s p re o c u p a ç õ e s co m e la . E le se to rn a v a
progressivam ente mais deprimido, a parceira reciprocam ente retribuía com
depressão ou raiva e, por fim, ocorria o rom pimento. No início do tratamento,
Gary concordou em expressar seus sentimentos negativos para sua namorada.
Ele concordou porque sentiu que, se não o fizesse, incidiria numa falta de abertura,
a qual fomentaria sentimentos ruins e uma óbvia deterioração do relacionamento.
Em bora Gary estivesse consciente do problema e tivesse se submetido à terapia
cognitiva, ao ensaio comportamental e à terapia de casais, todas com o objetivo
de tentar resolver o problem a, m esm o assim ele não conseguiu expressar
adequadam ente os sentimentos negativos e o relacionam ento chegou ao fim tal
como os anteriores.

A cada sessão subseqüente ao rompimento, Gary parecia m ais reticente


e deprimido. Perguntado sobre sua crescente depressão, Gary afirm ou que ela
devia-se ao luto pelo relacionam ento perdido e sua inadequação pessoal. Eu
tam bém observei que, nas sessões, houve piora na gravidade da depressão e,
por isso, focalizei o tratamento em seu estado depressivo, nos pensam entos
próprios negativos e na desesperança de viver um relacionamento bem sucedido.

Com a aplicação da R egra 1, hipotetizei que os problemas de Gary se


manifestavam na sessão. Ao perguntar ao cliente se estava bravo comigo ou se
havia qualquer sentimento negativo, ele negava e afirmava que seu estado reticente
e a depressão não tinham nada a ver comigo. Embora não estivesse completamente
convencido, abandonei temporariam ente o tem a da relação terapêutica e me
centrei na terapia comportamental para depressão. Entretanto, o m eu desconforto
foi aumentando progressivam ente durante as sessões e encontrei dificuldades
para dar seguimento à interação. D a parte de Gary, ele parecia estar se tornando
m ais deprimido ainda. Quando sugeri que Gary fosse a um m édico para se
A plicação Clínica da FAP 49

avaliai" a possibilidade de medicação anti-depressiva, ele explodiu num discurso


raivoso dizendo que os m édicos nunca sabiam o que estavam fazendo e que
causavam m ais m alefícios do que benefícios.

H ipotetizando que os com entários de Gary sobre os m édicos foram


estim ulados p o r sua reação a m im , (ver Capítulo 3, Causas M últiplas), teci a
seguinte interpretação com portam ental (Regra 5):

Ti Parece que está acontecendo agora - o seu problema, quero dizer. Nossa relação
começou de maneira legal, muito descontraída e aberta. Você não tinha dificuldade
em me contar sobre seus sentimentos e problemas e eu esperava ansiosamente
por nossas sessões. A forma como nossa terapia começou, se assemelha à forma
como a maioria de seus relacionamentos passados começaram. Então, as coisas
foram se tornando ruins. Você não conseguia expressar em voz alta para Joyce
os seus sentimentos negativos, apesar de termos tentado várias abordagens
terapêuticas. O seu relacionamento terminou. Voeê foi ficando deprimido e menos
aberto em nossas sessões. Isto foi piorando gradualmente até o ponto atual -
você tem muito pouco a dizer e eu estou achando as sessões frustrantes, porque
eu não sei o que fazer para ajudar.
C: É similar ao que aconteceu no passado e eu ando pensando em terminar. (Uma
evidência adicional de que está acontecendo um CRB1.)
T: Então nosso relacionamento está mesmo destinado ao passo final que parece ter
ocorrido tão freqüentemente no passado. Ele chega ao fim deixando um sabor
amargo. (Para uma comparação entre comportamento intra-sessão e na vida
diária, ver Capítulo 3.)
C: Eu me sinto deprimido e mal com isto tudo. É o que sempre acontece e eu me
frustro porque não sei o que fazer.
T: Ótimo, agora você tem uma chance de modificar o nosso relacionamento e não
se sentir mal ou frustrado. Ou você deixa nosso relacionamento terminar como
os outros e você continua infeliz e deprimido ou você pode agir de outro modo e
talvez sentir-se melhor.
C: O que você quer dizer com agir diferente? Eu não sei como fazer isto.
T: Baseado no seu padrão passado, devem existir sentimentos negativos e/ou hostis
em relação a mim.
Ci Tudo o que eu sei é que estou deprimido e quero ajuda porque me sinto mal.
(Esquiva do CRB1.)
T: Você não respondeu à minha pergunta. Eu disse que eu achava que você tinha
50 Capítulo 2

sentimentos negativos ou hostis em relação a mim. (Regra 3, bloqueio da esquiva.)


G Eu não tenho, vamos falar da minha depressão. (Esquiva do CRB 1.)
T: Acho que você está evitando alguma coisa relacionada a mim que lhe incomoda.
Quando você começou a terapia, eu disse que tentaria lhe ajudar. Agora você me
pede ajuda e eu tento conduzi-lo a um tema que você não acha que esteja relacionado
e tenta mudar de assunto. (Regra 2, apresentando a situação evocadora - estou
novamente tentando ajudar agora, o que já não funcionou anteriormente; levanta-
se a hipótese de que o insucesso de minhas intervenções anteriores em ajudar
evocou em Gaiy sentimentos negativos e a esquiva subseqüente. Aqui são também
demonstradas a Regra 3, bloqueio da esquiva, e a Regra 5, uma inteipretação
comportamental.)
C: Eu fiz tudo que você me pediu para fazer e, mesmo assim, Joyce me abandonou.
(CRB2)
T: Você fez o que pedi, Joyce o abandonou e ...
C: E você não me ajudou como prometera. (CRB2, a primeira vez na qual uma queixa
é diretamente expressa a mim.)
T: Eu tentei, mas não deu certo, e você fez tudo o que eu pedi. Eu me sinto mal com
isso e me pergunto o que eu deveria ter feito diferente para que Joyce e você
pudessem permanecer juntos. Acho importante você ter trazido isto à tona, e quero
desta vez ver o que pode ser feito. (A Regra 3 está sendo seguida, ou seja, o
refòrçamento natural de uma queixa é levá-la a sério e tentar fazer algo a seu
respeito. Em sessões subseqüentes, observei em Gary um aumento de expressões
de insatisfação com a terapia e comigo, Regra 4.)

O relacionamento terapêutico intensificou-se após este ponto com um


aumento das expressões de reações emocionais entre Gary e eu. N a medida em
que as sessões centraram-se quase que exclusivamente no nosso relacionamento,
Gary revelou mais detalhes sobre seu desapontamento para comigo e falou sobre
temas correlatos à questão da confiança. Sentimentos positivos de carinho e
afeto foram tam bém manifestados. Os C R B ls de esquiva anteriores surgiram
em m enor freqüência, m as sempre que detectei a incidência de um deles,, fiz o
bloqueio e favoreci o desenvolvimento, em Gary, de um novo repertório de
expressão aberta de sentimentos negativos referentes à confiança, desapontamento
e raiva. Gary tom ou-se capaz de observar o com portam ento clinicam ente
relevante no momento em que ocorria (CRB3), o que por sua vez produziu um
relacionam ento terapêutico de maior qualidade. Os repertórios desenvolvidos
na terapia foram prontam ente transferidos para o am biente externo, e Gary
relata estar vivendo a mais satisfatória relação íntim a que jam ais experienciou.