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Auto de Contraordenação n.

º: 401975320
NP: 700679/2018
E.A.: 111111111
Exmo. Senhor
Presidente da Autoridade Nacional de Segurança
Rodoviária

Patrícia Isabel Coimbras Marques, Arguida nos autos supra referenciados e neles melhor identificada,
notificada que foi, do atendido auto de contraordenação vem, muito respeitosamente, ao abrigo do
disposto na alínea b), do n.º 2 do art.º 175.º do Código da Estrada (doravante, CE) apresentar defesa
escrita,

O que faz nos termos e com os fundamentos seguintes:

I. Dos Factos:

a) Dos Factos constantes do Auto de Contraordenação

1.º
A Arguida foi notificada do auto de contraordenação acima referido.
2.º
Do qual resulta a prática de uma alegada infração estradal por parte da Arguida,

3.º
Que terá ocorrido no dia 02-02-2018, pelas 22h57m,

4.º
Na EN6, 7.875, Oeiras, Comarca de Lisboa Oeste, distrito de Lisboa,.

5.º
Utilizando o veículo ligeiro de passageiros com a matrícula 15- AB-33.

6.º
Tendo sido presenciada pelo autuante 109 – Mário Tomás, como expressamente resulta do mencionado
auto de contraordenação.
7.º
Na descrição sumária que é imputada à Arguida no supramencionado auto de contraordenação pode
ler-se: “O ref. veic. circ. dentro da localidade., p/ menos, à vel. de 77 km/h, correspondente vel.
registada de 82 km/h deduz. a margem de erro legalm. prevista, sendo o limite max. de vel. permitido no
local de 50 km/h. A veloc. foi veridicada através do equip. Jenoptik MultaRadar C, aprov. p/ IPQ(D.
Aprov. Mod. n.º 111.22.16.3.40 de 25OUT16) e aprov. p/ uso p/Desp. N.º 13511/2016, da ANSR, de
11NOV, COM verif. Per. IPQ em 02/03/17.”
8.º
Nestes termos, entendeu o Agente Autuante que tal conduta violou o disposto nos n.ºs 1 e 2 do art.º
27.º, na alínea c) do n.º 1 do art.º 145.º e nos n.ºs 2 e 3 do art.º 147.º, em conformidade com os art.ºs
136.º e 147.º todos do CE.

9.º
Conduta essa que que é punível com coima de € 120,00 a € 600,00,

10.º
E com uma sanção acessória de inibição de conduzir de 1 a 12 meses.

b) Das Desconformidades do Auto de Contraordenação:

11.º
Entende a Arguida que não lhe houveram sido comunicados todos os elementos de prova
imprescindíveis ao exercício do seu direito de defesa.

12.º
Desde logo, resulta que da referida notificação não resulta a qualidade da autoridade ou do agente de
autoridade que presenciou a alegada infração,

13.º
Para além de que, é também patente que a descrição sumária dos factos constantes do Auto de
Contraordenação se encontra formulada em termos conclusivos, vagos e genéricos,

14.º
Dele não resultando, pois, de forma minuciosa, as circunstâncias concretas em que a alegada infração
foi praticada,
15.º

2
E a hipotética motivação que subjaz àquela contraordenação.

16.º
Por outro lado, e atendendo a que a alegada infração foi verificada e registada através de equipamento
cinemómetro-radar cumpre, desde logo, referir que o mencionado equipamento, de resto, como
qualquer aparelho, não é infalível,
17.º
E muito menos imune a avarias ou deficiente utilização.

18.º
Para além de que, como bem se compreenderá, nada garante à Arguida que o que resulta da descrição
sumária do Auto corresponde ao efetivamente captado pelo referido aparelho.

19.º
Por outro lado, sempre se terá ainda que considerar que não resulta demonstrado e apreendido que os
elementos de prova no presente processo de contraordenação tenham sido obtidos através de um
equipamento cinemómetro-radar aprovado nos termos legais e regulamentares.

20.º
Ora, tendo em conta que aquele aparelho capta imagens que são suscetíveis de revelar a identidade da
Arguida,
21.º
O que, permite, pois, que a Arguida possa ser diretamente identificada, em claro desrespeito pelo
direito à reserva da intimidade da sua vida privada,

22.º
Revela-se necessário que o referido equipamento seja objeto de comunicação à Comissão Nacional de
Proteção de Dados (doravante CNPD),
23.º
Porém, in casu, não se provou que o mencionado radar tivesse sido objeto de tal comunicação.

24.º
De facto, a notificação remetida à Arguida é completamente omissa quanto a esse aspeto, o que pode
levar a Arguida a concluir que aquela comunicação à CNPD nunca ocorreu,

25.º

3
O que, consequentemente, inquina, por completo, o presente processo!

26.º
Resulta ainda do referido Auto que o equipamento cinemómetro-radar foi alvo de verificação “(…) IPQ
em 02.03.17.”
27.º
Todavia, e como bem se compreenderá, a Arguida não se pode bastar com afirmações deste tipo,

28.º
Afirmações que não têm qualquer consistência probatória!

29.º
De facto, e salvo o devido respeito, não obstante do referido auto resultar a enunciação de uma data em
que terá alegadamente ocorrido uma verificação periódica,

30.º
Nada garante à Arguida que o cinemómetro-radar Jenoptik MultaRadar C, de de 25 de Outubro de 2016
tenha sido, efetivamente, sujeito à verificação periódica anual prevista,
31.º
Tanto que, a data constante daquela notificação pode, perfeitamente, resultar de lapso de escrita por
parte do Sr. Agente.
32.º
Assim, e caso se admita que aquele aparelho não foi objeto de verificação na data referida no Auto,

33.º
Atendendo a que estes instrumentos de medição são aparelhos bastante sensíveis,

34.º
Pode mesmo suceder que o cinemómetro-radar não dispusesse, aquando do alegado registo
fotográfico, da qualidade metrológica dentro das tolerâncias admissíveis relativamente ao modelo
respetivo.

35.º
Deste modo, sempre se revelaria necessário, sob pena da desconsideração total deste meio de prova,
ser junto e comunicado à Arguida o parecer/documento, emitido pela entidade legalmente competente,
do qual conste expressamente que, na data indicada no Auto, o cinemómetro-radar MULTANOVA

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MUVR-6FD de 19 de Maio de 2016 localizado na Avenida Almirante Gago Coutinho nº 87, sentido N-S,
Lisboa, haja sido objeto de verificação periódica,

36.º
Só assim podendo a Arguida confiar que o aparelho, no momento da prática da alegada infração, se
encontrava em perfeito estado de funcionamento.

Subsidiariamente, e sem em nada conceder ao


acima exposto,

37.º
Por outro lado, ainda que se admita que a factualidade e os elementos constantes do Auto são
suficientes e idóneos para que a Arguida possa exercer o seu direito de defesa, o que apenas por mero
dever de patrocínio se equaciona e à cautela, sempre se dirá que,

38.º
A arguida é uma condutora cuidadosa e diligente, que, no âmbito da sua vida pessoal e atividade
profissional, percorre centenas de quilómetros por ano,
39.º
Que emprega sempre todo o cuidado, zelo e atenção necessárias no exercício da condução,
40.º
Cumprindo escrupulosamente as regras do CE,
41.º
E, em específico, os limites gerais de velocidade ali estabelecidos,

42.º
Conhece bem o local da alegada infração, por onde passa habitualmente, e tem plena consciência de
não ter causado, com o seu comportamento, qualquer perigo para terceiros.

43.º
Na verdade, a ora Arguida está absolutamente convicta que, no dia em causa, ao longo de todo o
percurso efetuado, não atingiu a velocidade registada no auto de contraordenação,

44.º
Isto é, à hora da prática da alegada contraordenação a Arguida circulava sem descurar a atenção
necessária na condução do seu veículo,

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45.º
Acresce referir que, a Arguida tem plena consciência que, atendendo às características da via e do seu
veículo, conjugado com as condições meteorológicas existentes naquele dia e hora, conduzia em
perfeita segurança, tanto para si como para terceiros.

46.º
Assim, e nesta medida, a Arguida considera absolutamente excessiva a velocidade indicada no auto de
contraordenação.
47.º
Não podendo, por isso, a Arguida deixar de tecer sérias dúvidas quanto ao conteúdo da notificação e do
Auto de Contraordenação que lhe houveram sido remetidos.

II. Do Direito:
a) Da Nulidade do Auto de Notícia por Violação da Alínea b) do Artigo 283.º do CPP:

48.º
Tal como resulta da alínea a), do n.º 1 do art.º 170.º do CE, “Quando qualquer autoridade ou agente de
autoridade, no exercício das suas funções de fiscalização, presenciar contraordenação rodoviária,
levanta ou manda levantar auto de notícia, o qual deve mencionar: (…) a qualidade da autoridade ou
agente de autoridade que a presenciou (…)” [sublinhado e negrito nossos].
49.º
Assim, resulta claro que a menção à qualidade da autoridade ou agente de autoridade que presenciou a
contraordenação revela-se, nos termos previstos no CE, uma formalidade essencial,

50.º
De facto, só assim se compreende que o legislador tenha expressamente previsto a necessidade do Auto
fazer referência à qualidade do agente,
51.º
Razão pela qual, e precisamente porque o auto não foi levantado e assinado nos termos do n.ºs 1 e 2 do
art.º 170.º do CE, não se pode considerar que este faça fé sobre os factos presenciados pelo autuante
(n.º 3 do art.º 170.º do CE).

52.º
De salientar que, é hoje doutrina e jurisprudência pacíficas que qualquer Arguido tem o direito de se
defender perante a concreta e hipotética violação jurídica contraordenacional da qual vem acusado com
o maior grau de minúcia, a fim de se possibilitar o seu efetivo direito de defesa,

6
53.º

Deste modo, face a tudo o supra exposto, sempre se terá que alegar e invocar para os devidos efeitos
legais a nulidade do auto de notícia e da decisão administrativa que, com base nele, foi proferida, com
fundamento na violação do disposto na alínea b), do n.º 3 do artigo 283.º do CPP (aplicável ex vi dos
artigos 132.º, do CE e n.º 1 do art.º 41.º do Decreto-Lei n.º 433/82, de 27 de outubro) e na violação do
disposto no n.º 1 do art.º 32.º da CRP.

Subsidiariamente, sem conceder

c) Da Nulidade do Auto por Falta de Comunicação à CNPD:

54.º
Nos termos do n.º 1 do art.º 13.º da Lei n.º 1/2005, de 10/01, “Com vista à salvaguarda da segurança
das pessoas e bens na circulação rodoviária e à melhoria das condições de prevenção e repressão das
infrações estradais é autorizada a instalação e a utilização pelas forças de segurança de sistemas de
vigilância eletrónica, mediante câmaras digitais, de vídeo ou fotográficas, para captação de dados em
tempo real e respetiva gravação e tratamento, bem como sistemas de localização, instalados ou a
instalar pela entidade competente para a gestão das estradas nacionais e pelas concessionárias
rodoviárias, nas respetivas vias concessionadas.” [sublinhado nosso].

55.º
Ademais, estabelece o n.º 3 do art.º 3.º do Decreto-Lei n.º 207/2005, de 29 de novembro que “A
instalação dos meios de vigilância eletrónica bem como a captação de imagens devem ser direcionadas,
tanto quanto tecnicamente possível, para os veículos que sejam objeto da ação de prevenção ou de
fiscalização; os meios de vigilância, designadamente câmaras digitais, de vídeo ou fotográficas, e
sistemas de localização adquiridos pelas forças de segurança para os efeitos previstos no presente
decreto-lei constam de inventário próprio e são notificados à Comissão Nacional de Protecção de Dados
(CNPD)” [sublinhado nosso],

56.º

Estabelecendo o art.º 5.º do mesmo diploma legal que “As forças de segurança responsáveis pelo
tratamento de dados e pela utilização dos meios de vigilância eletrónica notificam a CNPD das câmaras
fixas instaladas, com identificação do respetivo modelo, características técnicas e número de série e dos
locais públicos que estas permitem observar, bem como do nome da entidade responsável pelo
equipamento e pelos tratamentos de dados.”[sublinhado nosso].

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57.º

Sucede que a Arguida desconhece, por completo, se tal notificação à CNPD ocorreu.

58.º
De facto, o respetivo Auto é completamente omisso quanto a este facto,

59.º
Dele não resultando, pois, a mínima referência quanto ao facto do radar utilizado para verificação da
velocidade da Arguida ter sido objeto de comunicação à CNPD.

60.º
Sendo que, e se depreendermos que aquela comunicação à CNPD não se verificou, o aparelho utilizado
para a deteção de velocidade constituirá, necessariamente, um meio de prova ilegal.

61.º
O que consequentemente determina a nulidade do auto de notícia, e, por violação do art.º 5.º do
Decreto-Lei n.º 207/2005, de 29 de novembro, que as provas obtidas pelo cinemómetro-radar não
possam ser valoradas (n.º 3 e 4 do art.º 170.º do CE).

Subsidiariamente, sem conceder,

62.º

Subsidiariamente, caso se entenda que o Auto de notícia não se encontra ferido de nulidade, o que
apenas por mero dever de patrocínio se concebe, sempre se terá que considerar que a Arguida não
praticou a contraordenação de que vem acusado.

63.º
De facto, a Arguida tem plena convicção de que, no dia 02-02-2018, pelas 22h57m, na EN6, 7.875
Oeiras.
64.º
Isto é, a Arguida circulava a velocidade necessariamente inferior a 81 km/h,
65.º

Respeitando, por isso, o limite de velocidade legalmente imposto para aquele local (n.º 1 do art.º 27.º
do CE),

66.º

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Com toda a atenção e diligência exigíveis naquele concreto local,

67.º
Razão pela qual se terá necessariamente que concluir que a Arguida não praticou qualquer facto típico,
ilícito e culposo,
68.º
Pelo que deverá a sua presente defesa ser julgada procedente, com todas as consequências legais.

Subsidiariamente, sem conceder,

b) Da Não Aplicação Automática da Sanção Acessória de Inibição de Conduzir:

69.º
Acautelando, por mero dever de patrocínio, e caso se entenda que nenhum dos fundamentos supra
aduzidos deverá proceder, – no que se não concede – sempre se defenderá que, in casu, não existe
qualquer fundamento que possa justificar a aplicação de sanção acessória de inibição de conduzir.

70.º
Ora, a aplicação de uma sanção acessória nunca pode ser automática – como parece resultar do auto –
dado que o Legislador, avisadamente, revelou o cuidado em empregar o adjetivo “sancionável” (ou seja,
“suscetível de ser sancionado” || “que pode, mas não tem de, ser sancionado”) nos próprios n.º 3 do
art.º 136.º e n.º 1 do art.º 138.º, ambos do C.E.,

71.º
Obrigando antes a um juízo autónomo sobre a perigosidade do condutor, que se deve fundar em factos
que a demonstrem ou comprovem, como, de resto, decorre do n.º 1 do art.º 139.º do C.E. (“a medida e
o regime de execução da sanção determinam-se em função da gravidade da contraordenação e da
culpa, tendo ainda em conta os antecedentes do infrator relativamente ao diploma legal infringido ou
aos seus regulamentos”).

72.º
Neste sentido, resulta do Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa de 09/10/2002 que “A pena
acessória (…) não é de aplicação automática, pois deve ser graduada em função do grau de ilicitude, da
medida da culpa, da personalidade do arguido e das demais circunstâncias atenuantes e agravantes (…).
Aquelas penas não são de aplicação automática.”

73.º

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Assim, importa concluir que caso se entendesse, o que não se admite, que a sanção acessória de
inibição de conduzir é de aplicação automática no caso das contraordenações, tal consubstanciaria,
necessariamente, uma interpretação inconstitucional daquele regime por violação do princípio “nulla
poena sine culpa”.

74.º
Ora, no caso sub iudice, como decorre dos factos já alegados, a Arguida é pessoa idónea e responsável,
que conduz frequentemente e com reconhecida segurança,
75.º
Nunca tendo, em momento algum, com a sua condução, colocado em risco, a vida, a integridade física
e/ou bens de terceiros.
76.º
Neste seguimento, ainda que, em abstrato, a sua conduta fosse sancionável com sanção acessória de
inibição de conduzir veículos motorizados – não se justifica, no caso concreto, a aplicação de qualquer
sanção acessória.

Nestes termos e nos melhores de Direito, deverá a


presente defesa ser recebida e julgada procedente,
com todas as demais consequências legais, sendo os
presentes autos arquivados.

A Arguida,

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