Você está na página 1de 4

Neoliberalismo: o mercado como princípio fundador, unificador e autorregulador da

sociedade.

Elivane Leandro da Silva

“Educação Escolar – Políticas, Estrutura e Organização” de José Carlos Libâneo, João


Ferreira e Mirza Seabra, 10º Edição - Editora Cortez, é um livro que busca proporcionar aos
futuros professores e gestores tanto do sistema de ensino quanto das escolas, uma
perspectiva dos aspectos sociopolíticos, históricos, legais, pedagógicos-curriculares e
organizacionais do ensino brasileiro, proporcionando uma visão geral crítica e compreensiva,
no qual esses educadores estarão inseridos.

A partir da página 95 até a 119 o autor discute a influência do Neoliberalismo, que


regula e unifica a sociedade através do mercado, nessas paginas estarão nosso foco. A partir
daí o autor classifica o capitalismo/liberalismo como macrotendências assumindo duas
posições. A primeira é a concorrencial e a segunda estatizante. Na primeira há livre
concorrência, estímulo à iniciativa privada e a sociedade deve investir na educação a fim de
alcançar o pleno desenvolvimento. Já a segunda assume uma posição igualitarista-social, ou
seja, uma economia administrada pelo Estado, o qual teria a responsabilidade de desenvolver
uma educação e seleção de indivíduos da forma mais natural possível.

Nas páginas seguintes o autor descreve a posição de vários autores que defendem
ideias conservadoras, positivistas e alguns autoritaristas e elitistas, os quais, de alguma forma
vão influenciar o que temos hoje no Brasil: o capitalismo. Para melhor visualização o autor
expõe um esquema na página 99 para esclarecimento dos acontecimentos mundiais e a
posição dos defensores do Neoliberalismo. No quadro seguinte o autor relaciona o
liberalismo/capitalismo com os projetos de modernização descrevendo o novo liberalismo e
neoliberalismo de mercado. Há certa tensão histórica implícita entre essas duas vertentes.

A ideia da igualdade na vertente social/liberalista nasce do ideal de que todos vivem


sob as mesmas leis, governado pelo estado, e sem distinção perante a mesma. Esse ideal
aparece primeiramente com os gregos e depois de muito tempo reaparece com a Revolução
Francesa. Essa corrente de pensamento circunda a ideia de igualdade para todos, onde o
estado objetiva uma economia planificada e por meio da universalização do ensino tornaria a
sociedade moderna, científica, industrial e plenamente desenvolvida. Essa vertente está
explícita na história do Brasil na era Vargas (1930-1945). Embarcando nesses ideais, o Estado
brasileiro adotou “programas de educação e de saúde pública, assistência à agricultura,
regulação de preços, de seguros sociais e outros”. A legislação trabalhista foi outro fruto desse
período, além do salário mínimo, férias remuneradas e aviso prévio. Em geral foram vários os
direitos sociais ampliados.
A segunda vertente, o paradigma da liberdade econômica, nasceu com o modo de
produção capitalista, acentuando a relevância da iniciativa privada. Agora o cenário muda e
continuará a mudar. O capitalismo mundial recria o mercado impondo a liberdade econômica,
cobrando eficiência e qualidade dando vida à competitividade pregando uma sociedade
aberta. Nesse novo ideal que se fortalece a cada dia sob o paradigma da liberdade econômica,
eficiência e qualidade, a ação do Estado começa a ter limitações, especialmente as políticas
públicas em especial na educação. Antes o discurso era igualdade para expansão do ensino,
agora se limita o ensino com o objetivo de modernização econômica, transferindo a
responsabilidade do ensino à iniciativa privada, que de fato preza pela qualidade e
competitividade.

Verifica-se algo em comum nesse percurso, as duas vertentes parecem reconhecer que
a responsabilidade em universalizar o ensino fundamental é de extrema importância,
especialmente com base nos três princípios: eficiência, equidade e qualidade, a fim de atender
às demandas dessa nova fase de projeto de modernização capitalista. É possível verificar essa
preocupação através de documentos, conferencias e encontros de vários órgãos internacionais
e nacionais. A base dos conceitos e valores, agora tidos como necessários e julgados como
diversidade, competitividade, desempenho, ranking, eficiência, descentralização, integração,
autonomia, dentre outros são fundamentados na esfera privada. O banco mundial passa a
defender o investimento em educação para que uma sociedade de livre mercado melhore sua
produtividade e crescimento econômico. No entanto, os defensores do neoliberalismo
argumentam que, nessa perspectiva, o que na verdade houve, foi perda na qualidade de
ensino, isolando o sistema de educação e dificultando o avanço da capacitação e da aquisição
de novos conhecimentos científico-tecnológicos.

No âmbito da educação, o novo capitalismo mundial trouxe novas exigências.


Novamente o autor demonstra tensões entre as duas vertentes especificadas, especialmente
no que tange educação de qualidade para todos. O fim do socialismo e o fortalecimento do
capitalismo solidifica a supremacia de uma sociedade aberta regida pelas leis do mercado,
especialmente no âmbito da economia, politica e educação. A partir daí o neoliberalismo de
mercado cresce e se solidifica.

Mas o que seria o neoliberalismo de mercado? Uma corrente doutrinária do


liberalismo que se opõe ao social-liberalismo ou novo liberalismo. Esta critica a autonomia do
Estado e a regulação social, defendendo a liberdade econômica e afirmando o mercado como
principio fundador, autounificador e autorregulador da sociedade. Nessa corrente, a economia
de mercado é gerida pela empresa privada, ou seja há uma intervenção mínima do Estado e
liberdade total do mercado com uma sociedade aberta, concorrencial e competitiva.

O autor expõe, no entanto, vários países que aderiram a essa corrente doutrinária e
que já é possível verificar o fracasso dessas políticas. Sugeriu-se então que os países
subdesenvolvidos voltem às tradições liberais para encontrar o próprio desenvolvimento
econômico. Muitos países, incluindo da América Latina aderiram a essa sugestão.

Mas o neoliberalismo de mercado cresce e fortalece apregoando uma liberação total


do mercado e a transferência de todas as áreas e serviços do Estado para a iniciativa privada.
Para o autor, há de se admitir que o capital se expressa ter vida própria e globaliza-se de forma
natural e espontânea.

No neoliberalismo, a democracia seria um meio apenas para garantir a liberdade


econômica. Aqui não há objetivo de coletividade muito menos de construção social justa,
humana e solidária.

No que diz respeito à educação, na perspectiva do neoliberalismo, o Estado desobriga-


se cada vez mais em relação a ela. O que se torna uma contradição, pois a discussão sobre a
qualificação do trabalhador diz estar atrelado a uma formação escolar básica, única, geral,
abrangente e abstrata, sendo uma qualificação permanente. Um novo modelo de trabalhador
começa a ser exigido pelo mercado e, além disso, agora se exige também um novo
consumidor. Mas nenhum deles terá sucesso caso não forem educados para atenderem a
essas novas exigências. Nesse sentido o Banco Mundial exige uma educação escolar articulada
a esse novo paradigma produtivo, com a intenção de garantir acesso aos novos códigos da
modernidade capitalista. Ou seja, uma qualidade total da educação para atender ao sistema e
às necessidades do mundo atual.

Para o autor a administração eficiente e a tecnologia educacional complementam-se.


Enquanto que a administração busca a racionalização do trabalho e o controle produtivo, a
tecnologia educacional se preocupará com o método científico na busca pela eficiência,
eficácia e qualidade no processo pedagógico. Vinculando assim a educação ao novo paradigma
produtivo – o neotecnicismo (Corrente pedagógica que visa formação do aluno para o sistema
produtivo/industrial, dando prioridade para uma formação mais intelectual racionalizada
focado no desemprenho profissional).

Nessa mesma perspectiva estão universidades públicas, ameaçadas e em permanente


crise. No neoliberalismo até mesmo a relevância social das mesmas são questionados e como
se não bastasse, defendem seu autofinanciamento e privatização como única forma de sair da
crise e ser mais competitiva, racional, tendo qualidade e eficiência. Essas instituições só
alcançarão eficácia total quando se inserirem em uma busca constante de qualidade total,
agregando valores a seus serviços redescobrindo assim, sua natureza, missão e identidade.

Os desafios são óbvios. Essa nova configuração estrutural e educacional de liberdade


econômica, eficiência da qualidade definem de forma grotesca e urgente, novas formas,
reestruturação e reformulações no setor educacional. Sendo que as mesmas devam
corresponder à essas novas exigências.

Você também pode gostar