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Maio

2010
662
Problemas Nacionais v. 56
Conferências pronunciadas nas reuniões
semanais do Conselho Técnico da
Confederação Nacional do Comércio
de Bens, Serviços e Turismo

Sumário
O Brasileiro ............................................................... 3
Nelson de Mello e Souza

O Club dos BRIC (Uma nova configuração


do multilateralismo) ................................................ 24
Marcos Castrioto de Azambuja

Sem embargo da ordenação em contrário –


A adaptação da norma portuguesa
à circunstância colonial ........................................... 39
Arno Wehling

O novo perfil da indústria automobilística ............... 63


Sydney A. Latini

Síntese da Conjuntura
Vento a favor ........................................................... 85
Ernane Galvêas

São de responsabilidade de seus autores os conceitos emitidos


nas conferências aqui publicadas.
Solicita-se aos assinantes comunicarem qualquer alteração de endereço.
As matérias podem ser livremente reproduzidas integral ou parcialmente,
desde que citada a fonte.

A íntegra das duas últimas edições dessa publicação estão disponíveis no endereço
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Confederação Nacional do Comércio


de Bens, Serviços e Turismo

v. 56, n. 662, Maio 2010

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Publicação Mensal
Editor-Responsável: Gilberto Paim
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Carta Mensal |Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e


Turismo – v. 1, n. 1 (1955) – Rio de Janeiro: CNC, 1955-
100 p.
Mensal
ISSN 0101-4315

1. Problemas Brasileiros – Periódicos. I. Confederação Nacional do Co-


mércio de Bens, Serviços e Turismo. Conselho Técnico.
O Brasileiro

Nelson de Mello e Souza


Ex-Chanceler da Universidade Estácio de Sá;
Membro da Academia Brasileira de Filosofia

A despeito do substancial volume de estudos sobre o processo da


formação histórica da nacionalidade brasileira, ainda há alguns
ângulos a serem trabalhados. Entre eles proponho que se considere a
questão relativa ao momento desse processo em que surge o “brasi-
leiro” não só como fenômeno subjetivo de autoidentidade específica,
senão também como realidade sociocultural. Os estudos existentes
não nos esclarecem. Talvez porque não considerem necessário o
esclarecimento. Fazem, isto sim, muitas observações incidentais,
algumas importantes a respeito do tema. Nada mais.

A questão nos parece básica para o estudioso da sociologia da história


e da cultura.

***

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No que se refere à interpretação do Brasil e suas características
formativas, somos herdeiros de nossos clássicos. Formamos uma
geração de epígonos, aprofundando pesquisas e ideias em torno dos
modelos propostos pelos autores que começaram a surgir no início do
século XX ganhando consistência na década de 30, a grande década
dos clássicos. Nela surgiram os talentos jovens de Gilberto Freyre,
Sergio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr., Afonso Arinos, Pedro
Calmon, Azevedo Amaral, Roberto Simonsen, além da consolidação
do prestígio de Oliveira Vianna com seu trabalho sobre a Formação do
Povo Brasileiro. Seus textos deram sentido ao estudo de nossa forma-
ção como povo, corrigindo as posições dogmatizadas dos pioneiros.
Tentaram ajustar-se à nova ciência social que amadurecia contestando
as visões relativamente simplificadas dos tempos de Silvio Romero
e Euclides.

Não obstante todos os seus méritos, não lhes foi possível livrar-se
inteiramente das limitações da época. Alguns continuaram a envolver
sua ciência em posições ideológicas herdadas desse mesmo passado
que se corrigia. Só para ilustrar um caso paradigmático tanto Oliveira
Vianna quanto Azevedo Amaral continuaram a manter suas visões
deterministas com base em diferenciais étnicos. Aos olhos da crítica
contemporânea distorções similares podem ser percebidas na obra
de muitos outros. É visível aqui e ali respingos teóricos envolvidos
pelo determinismo climático herdado de Buckle e Huntington em
Gilberto Freyre, por exemplo, além do curioso uso que esse consa-
grado clássico faz de conceitos como “sangue africano” e “ sangue
infiel”. Tão claras violações antropológicas aparecem com frequência
em Casa Grande e Senzala. Por outro lado, generalizou-se nessa déca-
da, estimulada pela obra de Caio Prado Jr., a adoção da perspectiva
reducionista de perfil marxista.

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Talvez devido ao fato de estarmos na aurora de uma nova época de
reflexões, não foi possível colocar o estudo de nossa formação fora do
alcance das primitivas tendências para aceitar determinismos raciais,
culturais, econômicos, religiosos e climáticos. A observação legitima
a geração dos epígonos, dando a todos nós um papel relevante nos
avanços corretivos, adendos e complementações. Hoje em dia não
se aceitam mais visões deterministas. Sabemos que o determinismo,
por definição, nega a dialética histórica, enquanto os conceitos mais
dinâmicos defendidos pelo marxismo, os de luta de classes e de
espoliação colonial, dificilmente podem ser aplicados, com validade
objetiva, a uma colônia que nos seus três primeiros séculos formativos
jamais deu mostras concretas de questionar seu estatuto de colônia e
a uma sociedade formada pelo princípio da hierarquização estamental.
Para muitos, a luta de classes não é percebida como realidade social
modeladora de nossa vida política e de nosso processo decisório. Os
primeiros conflitos giravam em torno das formas de tratar o índio. As
revoltas da Cachaça no Rio de 1660, as de Beckmann no Maranhão
no mesmo período bem como as difíceis e sangrentas lutas contras
as reduções de Guairá foram exemplos de discórdias que separavam
os métodos propostos pelos jesuítas dos defendidos pelo poder se-
cular. Sociologicamente falando, ambos pertencem à mesma classe
social dominante. Por outro lado as lutas entre famílias e grupos de
interesse local, configurando contradições e choques de tipo clânico
para controle de terras e do poder decisório das câmaras, marcavam
nossa dinâmica política. Tudo dentro da lógica estamental, como
bem o indicam Oliveira Vianna e Raimundo Faoro. Além de disputas
fiscais contra autoridades reinóis. O tema foi bem trabalhado em tese
de doutorado defendida na USP por Luciano Raposo de Almeida
Figueiredo, denominada Revoltas, Fiscalidades e Identidade Nacional na
América Portuguesa, trabalho de 1966.

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Pode-se dizer que os anos 30 não lograram livrar-se inteiramente de
versões, visões e confusões interpretativas relevantes, esquecimentos
preocupantes e negligências temáticas desanimantes. A pouca im-
portância conferida ao tema do surgimento do “brasileiro” é apenas
um desses aspectos.

Mas há outros que nos ajudam a questionar o grau de refinamento


do pensar sociológico da época, convalidando o papel dos epígonos.
Entre eles é possível indicar conceitos trabalhados de modo anacrô-
nico. Exemplo claro é classificar como “feudalismo” o processo de
hierarquização do poder e ordenamento social da nova sociedade
monocultora e escravocrata que surgia. Gilberto Freyre pressente o
equívoco. Mas não avança como desejávamos e cede à pressão do-
minante para considerar feudal o modelo brasileiro. O que faz é um
ajuste. Usa o termo, mas o faz de modo quase metafórico falando, a
página 86 do volume I de Casa Grande e Senzala de “formas sociolo-
gicamente feudais, jamais de um feudalismo de fundo substancial”.
Não obstante, o conceito de “feudal” fica rondando sua obra, com
todo o elenco de suas imprecisões. Outro exemplo é tratar de forma
inexata e parcial o conceito de “cultura”. Muitos autores ainda tendem
a limitá-lo ao tipo de formação intelectual de nossas elites letradas.

Na prática, portanto, essa fase inicial dos estudos de nossa formação


não chegou a um balanceamento objetivo dos fatos parciais para
integrá-los com vistas à compreensão do Todo.

Caso ainda mais claro é o da história, obediente ao modelo aceito


e defendido por Francisco Adolfo de Varnhagen, o Visconde de
Porto Seguro. Este pioneiro de nossa historiografia científica, es-
critor do século XIX seguiu o paradigma de sua época. E passou-o
adiante. Considerava o objetivo do historiador reduzido à pesquisa

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documental em busca de solidez comprovada para a descrição dos
fatos. Era linha descritiva dentro de um modelo que não considerava
relevante o processo subjetivo de escolhas que levava à formulação
das hipóteses-guia. Não levanta a questão ideológica já que sua
época não favorecia esse levantamento. Destarte, a história seria o
levantamento de fatos relacionados com a ação das lideranças, as
lutas políticas, sedições e guerras. Trata-se de seleção privilegiada de
alguns fatos em detrimento de outros, bem ao estilo de seu mestre
Ranke. O fenômeno revela as distorções que surgem de escolhas
não conscientes. Um exemplo ilustra o que se quer dizer. Em sua
longa e pesquisada história da formação brasileira, em três grossos
volumes, Varnhagen dedica umas poucas linhas ao episódio de Pal-
mares. Palmares, com seu nicho sociocultural próprio, durou cerca
de um século. Mais tempo do que durou, entre nós, todo o Império.
Seus feitos foram incorporados a nossa mitologia popular, seu líder
teve seu nome quase deificado. Não obstante o tratamento dado ao
tema foi o de um distúrbio social irrelevante, sem interesse para uma
história objetiva do Brasil.

O autor nos pareceu inteiramente correto em não lhe dar importância


como fenômeno de luta de classes. Palmares representava um proces-
so de rebeldia e fuga, busca de isolamento espacial. Não se tratava de
reivindicação ativa de direitos. A distorção revela-se quando o autor
não percebe o simbolismo do episódio. Especialmente a partir da
época em que escrevia, 200 anos depois de Palmares. Na linha de
uma história como a que hoje se pratica Palmares surgiria sob outra
luz. Revelaria as dificuldades internas inerentes à ordem escravocrata.
Dificuldades que acabaram por derrubá-la.

Se outra fosse sua visão da história não lhe teria sido difícil adotar
essa perspectiva. Afinal, bem antes de Varnhagen, um jesuíta que não
era historiador muito menos sociólogo, João Antonio Andreoni, o

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Antonil escreve Cultura e Opulência do Brasil. A época era entre 1697
e 1709. Nele nos descreve a dinâmica do poder e o perfil gerencial
de um Engenho de Açúcar. Suas descrições nos fazem entender a
lógica perversa de uma realidade dentro da qual não seria difícil surgir
“Palmares”. Na verdade, teria de surgir em um sistema cuja prática
do poder absoluto revela dinâmica indiferente à vida, sujeição abjeta
do trabalho nas moendas e nas fornalhas, descuido com a vida alheia,
perversidades comuns que condena nos feitores e os castigos legí-
timos que absolve como prática necessária para manter a disciplina
e punir relaxamentos. No conjunto Antonil trabalha sobre a tensão
perene que surgia desde logo, no bojo de uma sociedade escravista e
monocultora, a definir seu perfil desde o primeiro século de vida da
colônia. Sociedade que ainda se mantinha aos tempos de Varnhagen.

Só o contexto revelado nos permite a inteligência dos fatos. Sua


descrição objetivamente neutra não logra captar a verdade que flui
da vida, envolvida em acontecimentos simultâneos, confluentes e
articulados em torno de eixos de caráter social e cultural.

Exemplo, talvez melhor que Varnhagen sobre as distorções ideológi-


cas que predominavam nos tempos, é o de Nabuco. Em seu levanta-
mento cuidadoso da história do Império, através da descrição da vida
de seu pai como um dos principais estadistas desse mesmo Império,
não nos fala uma única vez dos problemas de base que atingiam
uma sociedade empobrecida, com forte exclusão social, deseducada,
agrária, de baixa produtividade, exportadora de commodities, longe do
ritmo que os tempos vinham impondo ao mundo industrial que surgia
na Europa e nos Estados Unidos. O Brasil de Nabuco foi retirado
do contexto da época. O que mereceu sua atenção especial foram
os feitos e fatos relativos a processos, disputas e sistemas eleitorais.
Aceitou como normal para definir um político o dom de recursos

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oratórios e conciliatórios capazes de colaborar para visões de acerto
entre partes e partidos, além de examinar com cuidados de exegeta as
ações e inações do Imperador como líder político. Na farândula das
casacas, na alvura dos coletes, nos acordos de corredor e na bravura
inútil dos discursos consolidava-se a imagem específica de nosso
homem de Estado, o modelo do bom político agindo na formação
de um Brasil de costas voltadas para si mesmo. Parecíamos não ter
um País a construir nem uma herança contra a qual lutar para de nós
afastá-la. A exceção da época pode ser Capistrano de Abreu. Ao ligar
a cultura do vaqueiro do sertão às necessidades de gado como energia,
transporte, carne e couro da sociedade monocultora que surgia com
os Engenhos, Capistrano, sem dúvida, inovou.

Explica-se essa limitação da época porque o pensamento social emer-


gente no século XIX considerava o Brasil como sociedade inserida em
seu próprio paradigma. Herdeira de estruturas coloniais bem defini-
das, nela formou-se um povo miscigenado, uma estrutura produtiva
agrícola, monocultora e escravocrata sem competência para seguir o
rumo da industrialização. Como a época conferia valor diferencial às
diversas etnias acabou gerando fatos depressivos de nossa autoesti-
ma. Acabamos nos vendo a nós mesmos como inferiores, produto
de “três raças tristes” tal como nos define o poeta Olavo Bilac. A
inferioridade foi assumida e legitimada pela psicologia diferencial das
raças, a privilegiar a chamada de “ariana”. Aliada à teoria geográfica
acima referida, tão ao gosto de Silvio Romero e de Alberto Torres,
formava um conjunto teórico que não deixava ao Brasil e ao brasileiro
maiores opções.

Quando os autores dos anos 30 inovam, ainda exibem certos traços


preocupantes desse passado ideológico. Ao sustentarem o valor
do mestiço, sua adaptabilidade, principalmente a importância do

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português na criação de uma grande civilização nos trópicos, ambas
formuladas pioneiramente na obra de Gilberto Freyre, mostram a
força e perseverança dessas teses que não logravam superar. Valorizar
o mestiço é racismo ao contrário. O importante para definir o destino
de um povo não é ser ou não miscigenado, já que todos de alguma
forma o são, e sim ter construído uma sociedade favorável à forma-
ção do trabalho produtivo, da educação adequada a esse trabalho, de
modo a participar dinamicamente do processo de desenvolvimento
adequado à época.

Quanto ao luso tropicalismo é igualmente, uma forma de aceitação


das teses geográficas antigas. Se ao português devemos a glória de
haver construído a maior civilização dos trópicos é devido à energia
com a qual superou as dificuldades de uma geografia infeliz. Pode
não ter logrado grande coisa em termos comparativos com a Euro-
pa temperada, mas sem dúvida, em paralelos simétricos com outras
sociedades tropicais nada se lhe compara.

O conjunto danificou o processo de compreender nossa formação


como povo e essas confusões conceituais em nada ajudaram para
nos entender na gênese sociológica do brasileiro. O fenômeno não é
privilégio de Gilberto Freyre. Haja vista o tratamento como sinônimo
de termos como “cultura”, “sociedade” e “civilização” que perdura
até hoje. Surge com o Pedro Calmon e o Afonso Arinos dos anos
30, mas ainda a vemos por aí rondando nossas mentes, e servindo
como o título aprovado para batizar a magnífica coletânea de estudos
publicada sob a direção de Sergio Buarque de Holanda. O nome esco-
lhido foi o de História Geral da Civilização Brasileira quando é evidente,
pelo texto, que se trata de uma história da formação da “sociedade”
brasileira. Inexiste “civilização brasileira” e sim uma sociedade e uma
cultura brasileira. Hoje sabemos, especialmente depois da obra de A.

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Toynbee, que toda a civilização é uma cultura, mas nem toda cultura
é uma civilização.

Conceitos aplicados sem precisão embaralham a origem formativa


de um tipo que acabou surgindo da dialética colonial, diferenciado
pelos seus costumes, falas, modos de ser, valores e visões de mundo.
Tipo que “faz do Brasil, Brasil”, como nos diz Roberto da Mata.

A confusão torna difícil esclarecer quando seria possível e até correto


falarmos de “brasileiro”, com sua “cultura” e sua identidade definida,
especialmente diferente do português que nos fez.

Gilberto Freyre retrata como luso-brasileiros senhores de engenho


que jamais duvidaram de sua herança portuguesa nem de sua obediên-
cia e dependência da Corte. Doações de terra recebidas em regime de
sesmarias e comando do comércio que praticavam com a Metrópole
o faziam senhores. Difícil para eles considerarem-se “brasileiros”. O
nome de “Nova Lusitânia” dado no primeiro século, por Duarte Coe-
lho a sua capitania, revela o fato. Oliveira Lima o nota e usa o mesmo
nome, “A Nova Lusitânia” no texto que se insere na obra História
da Colonização Portuguesa no Brasil, nome indicativo de uma visão de
mundo peculiar onde “Brasil” não fazia parte do sentimento comum.
No século XVII, Pero Coelho de Souza deixa a região da Paraíba para
iniciar um novo polo colonial mais ao norte. Dá-lhe o nome clássico
de “Nova Lusitânia” e à vila criada o de “Nova Lisboa”. Quando
Gilberto Freyre, no desenvolvimento do texto, indica o “desamor
do português do Brasil” – nome que adota e não o de brasileiro –
pela terra, pela lavoura, o fato lhe parecia evidente. A despeito da
miscigenação tanto de raças quanto de costumes, falas, alimentos,
diversões, formas de dormir e de amar nada agia para transformar
portugueses leais a Portugal merecedores de todas as deferências e

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vantagens do poder colonial, em “brasileiros”. Infelizmente o autor
não prossegue em sua linha. Não suspeita que esse desamor escon-
de algo fora do lugar. Denominá-los “luso-brasileiros”, isto é, nem
portugueses, nem brasileiros é pouco.

Se “brasileiro” é apenas o português aqui nascido, não difere em quase


nada do português alentejano, o que nasce no Alentejo.

Nada se pode comparar à força de um modelo aceito com apego


reverencial para forjar o imaginário e criar uma consciência de co-
munhão. O modelo era a Metrópole da qual todos dependiam. Os
desacertos que vieram a surgir na própria dinâmica da vida colonial
residiam mais na luta para que os portugueses nascidos na Colônia
tivessem seus direitos tão respeitados quanto os dos portugueses
reinóis. No acesso a cargos públicos e militares, no tratamento fiscal,
na aplicação das leis, no acesso às ordens religiosas. Boxer nos diz, a
página 274 de seu estudo sobre a expansão ultramarina de Portugal,
que a Ordem dos Carmelitas Descalços, instalada em Olinda em
1688, fim do século XVII, recusava-se a admitir noviços nascidos no
Brasil. Seguiu a linha dos preconceitos legitimados pela administração
pública, pelas forças militares, até pelas corporações de ofício. Os
coloniais eram portugueses, mas considerados, por serem coloniais
mestiços, portugueses de 2ª categoria.

Nas lutas existentes na Colônia estes portugueses de 2ª categoria


revelam seu desconforto com o fato. São lutas, como a dos Masca-
tes, por exemplo, em defesa de interesses que alegavam estar sendo
prejudicados pelo apoio das autoridades da Colônia aos reinóis, ou
portugueses de 1ª categoria. Não eram lutas em defesa do Brasil.
Mesmo porque “Brasil” era uma realidade ganglionar, não mais que
uma constelação de focos de povoação separados uns dos outros

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por distâncias imensas e comunicações inviáveis. O senhor de enge-
nho vivia para si e sua região, ligado economicamente à Metrópole
pelo comércio do açúcar e a importação do que não produzia em
seu “oikos”. Unia-se apenas a seus pares por interesses sociais, ma-
trimoniais e patrimoniais. Nada tinha a ver, por exemplo, com os
problemas e o tipo de vida do extremo sul. Ignoravam os problemas
cotidianos das capitanias do Sul, entre elas São Paulo, Mato Grosso e
Rio Grande. Só lhes prestavam atenção quando precisavam contratar
por lá especialistas nas lutas contra os índios e os quilombolas. Não
lhes interessou, por exemplo, o fato do Rio de Janeiro haver sido
conquistado e dominado por cerca de um mês, nos anos iniciais do
século XVIII, por uma esquadra francesa dirigida por uma autoridade
ligada à corte de França.

O que se define em Casa Grande e Senzala portanto, em termos de


formação do “brasileiro” pode ser complicado já que o Brasil não
podia ser explicado pela sociedade patriarcal que surgia dos engenhos.
Affonso Taunay em crítica que o próprio Gilberto reproduz em um
dos prefácios de seu Casa Grande e Donald Pierson em um estudo
publicado no American Sociologica Review em outubro de 1947, estão
entre os que protestam contra esse reducionismo.

Caio Prado por seu lado, monta sua interpretação propondo o enten-
dimento da formação do Brasil pela arquitetura socioeconômica de
um sistema espoliativo adotado pela Metrópole. O objetivo exclusivo
era o de sugar para si os recursos da colônia. Na feliz expressão de
Alfredo Bosi, seria essa a “dialética da colonização”. Trata-se de um
determinismo histórico imposto.

Interessante o que sustenta essa hipótese de trabalho. Sugere a


existência de uma divisão de interesses entre “colônia” explorada e

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“metrópole” exploradora. Divisão que não parece haver existido na
formação do imaginário colonial, como vimos mais acima e como
nos procura mostrar Luiz Felipe Alencastro em seu Trato dos Viven-
tes. Neste bom texto recente está exposto o contrário, a identidade
de interesses entre os agentes econômicos envolvidos no processo
colonial nos dois lados do Atlântico. A diferença de interesses acaba
surgindo é claro. Surge lá pelos fins do terceiro século. Mas carece de
funcionalidade objetiva como construção de uma identidade nacional.
Fácil constatar o afirmado. Se houvesse essa rancorosa dicotomia,
esse sentido de espoliação, essa visão de opróbio e jugo por parte da
Metrópole, gerando um mínimo de coesão e identidade própria entre
os coloniais, seria difícil entender a euforia, o entusiasmo incontido de
nossas massas e de nossas elites, aceitando até o sacrifício de perderem
suas casas para os fidalgos recém-chegados, com a vinda da Corte
em 1808. Receber o rei português era entendido como motivo de
orgulho por estes “humilhados e ofendidos”. Por quê? Evidentemente
porque nem se sentiam humilhados nem ofendidos e sim súditos
legítimos de Sua Majestade Real. O predomínio da mente colonial e
a persistente identificação dos nativos com a realeza de Portugal é o
que nos revela a apoteótica recepção da Corte portuguesa. Se estes
fatos ainda marcavam a psicologia dos nativos nas vésperas de nossa
independência, fica difícil entender como pode haver surgido o “bra-
sileiro” tão cedo na história, com seus interesses claramente opostos
aos de Portugal, como propõe Caio Prado. Na verdade a carência
de identidade própria foi um fenômeno que perdurou entre nós a
ponto de Evaldo Cabral de Melo, no seu Um Imenso Portugal escrito
em 2002, afirmar que o Brasil se fez império antes de se fazer nação.

Laura Mello e Souza no seu importante trabalho sobre o século XVII,


chamado O Sol e a Sombra sublinha a originalidade de Caio Prado Jr.
em ver um sentido no projeto colonizador. O que lhe faltou indicar,

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embora seu texto elabore sobre o assunto com bastante lucidez, é
que neste sentido não se continha, pelo menos nos séculos iniciais, o
desenvolvimento de um novo País, com seus interesses próprios nem
a criação de uma sociedade diferente e independente de Portugal.

Evidentemente, a Colônia só poderia ser concebida como uma exten-


são política, administrativa e principalmente econômica da Metrópole.
A região seria parte do Império. A “Nova Lusitânia” ou a “Amé-
rica Portuguesa”, ideia que se consolidava no imaginário colonial,
surgindo desde cedo como título da obra de Gândavo no primeiro
século, permanece viva até inícios do século XVIII como vemos em
sua repetição no título da obra de Rocha Pita, 200 anos depois, no
século XVIII. Sociedade emotiva, administrativa e economicamente
ligada a Portugal, entendida e aceita como sua extensão ultramarina,
era como se entendia a Colônia.

Para fechar o trio de autores paradigmáticos dessa década dos 1930,


no que nos importa deles considerar para o desenvolvimento do tema
proposto, vejamos um conceito que aparece em Sergio Buarque de
Holanda, logo no início de seu clássico Raízes do Brasil. Nele revela-
-se como era duvidoso o conceito do que é ser brasileiro. Para ele o
brasileiro surgiu para a história desde os primeiros tempos, e surgiu
como um “desterrado em sua própria terra”. O paradoxo é elegante,
mas a imprecisão sociológica nos parece clara. Especialmente quando
olhamos mais de perto para esse “brasileiro desterrado”. A verdade da
colonização é nela surgir um tipo sem ligação emotiva com a terra nem
ânimo de a ela pertencer. Gente alheia e distante, por aqui chegada
em busca de enriquecimento rápido. Gente que em seu sentimento
íntimo nunca se percebeu senão como português e por isto podia
até ser um desterrado, como muitos de fato o eram, mas desterrados
por estarem em uma terra que não consideravam “sua”. Os “brasi-

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leiros” de Sergio Buarque eram “portugueses” vivendo em contínua
nostalgia de Portugal, de suas lembranças, cultivando histórias de
“sua” terra verdadeira. Quanto ao chamado “Brasil”, a atitude que
prevalecia naqueles tempos iniciais era de completa indiferença. O fato
foi corretamente percebido na fina interpretação de nosso primeiro
historiador, Frei Vicente Salvador. Ele nos afirma, com a autoridade
de um nascido no Brasil, na Bahia, já entrando o segundo século de
nossa formação, que nossos “brasileiros” só pensavam em amealhar
riquezas para logo regressar ao que consideravam sua verdadeira terra.
A crítica nos parece sociologicamente mais adequada ao imaginário
colonial dos primeiros tempos que a de nosso importante sociólogo
do século XX.

Além dessas imprecisões de nossos principais estudiosos sofremos,


em nossa busca de quando surge o brasileiro, com a visão simplifi-
cada dominante, segundo a qual o Brasil já nasce inteiro a partir de
sua descoberta em 1500.

Muitos chegam a considerar a Carta de Caminha como nossa cer-


tidão de nascimento. Assim afirmam, entre tantos outros, a italiana
Luciana Stegagno Picchio e os brasileiríssimos Oliveira Lima e Ade-
raldo Castelo. Na verdade sabemos todos ser comum abrirmos uma
história de nossa literatura, a literatura “brasileira” e lá ver a Carta de
Caminha, esse escriba português que mal teve tempo de andar um
pouco pela praia, como documento a ser considerado. Para a história
que aprendemos desde criança nos bancos do segundo grau, nosso
“ginásio”, o tema não é objeto de questionamento. O Brasil surge
com Cabral. Seu registro está na Carta de Caminha. Não se aceita
que o episódio de 1500 não coincide com o nascimento de povo
algum. Nem de Brasil nenhum. Muito menos de uma nação. Pela
sociologia da história o que a data registra é um evento dramático, o

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choque de culturas e visões de mundo entre sociedades separadas por
estádios técnico-científicos que vão do neolítico ao mundo europeu
dos quinhentos. Estavam longe uma da outra pela cultura afastando
qualquer possibilidade da mútua compreensão.

O processo da expansão ultramarina de Portugal teve por objetivo


principal quebrar o monopólio de Veneza sobre o comércio das
especiarias controlado por seus parceiros otomanos. Fato mais do
que sabido por todos nós. Mas havia um lado místico, solidamente
encravado no antigo espírito das cruzadas medievais e principalmente
nas lutas da reconquista.

Parece evidente que os portugueses não pensavam inicialmente em


colonização e sim em comércio e exploração. Mesmo porque seria
inviável colonizar um Oriente cuja civilização já era tão ou mais im-
ponente que a da Europa.

Não obstante, ao descobrir terras diferentes, virgens de contatos


europeus, terras povoadas por gente primitiva e ágrafa, panteísta e
tecnicamente ao nível do neolítico, o lado místico já revelado na Carta
de Caminha sobre a missão evangelizadora de Portugal uniu-se ao
do interesse por novas riquezas e posse das terras.

Passados os primeiros anos de completa indiferença, em que a terra


foi até arrendada a cristãos novos para efeito de comerciar a “ibira-
pitanga”, a madeira de tinta desejada pela indústria têxtil de Flandres
e da Normandia, decidiu a Coroa portuguesa partir para um projeto
de fixação de bases firmes que servissem como polo de apoio para
a busca do ouro e da prata que já fluíam para as cortes espanholas.
Os fatos colaboram para desmontar a versão aceita sobre a data do
surgimento real do Brasil. Segundo Luiz Filipe Barreto em seu im-
portante, mas pouco estudado livro Os Descobrimentos e o Renascimento;

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 3-23, maio 2010 17


formas de Ser e de Pensar nos séculos XV e XVI, a descoberta da terra de
Santa Cruz, como a denominou Cabral, foi uma história de esqueci-
mento. Acharam-na e a abandonaram; acharam-na e a esqueceram.
Importava a Ásia e o comércio das especiarias.

Decorreram cerca de 30 anos e muitas dificuldades com os franceses


que frequentavam as costas estreitando laços de solidariedade com
tribos locais para que os portugueses voltassem a se lembrar da região.

O envio de Martim Afonso de Souza, um fidalgo amigo do Rei D.


João III e primo de seu conselheiro mais importante, foi parte desse
renascer do interesse. Viajou com uma esquadra, colonos voluntários
e degredados forçados, gado, sementes, armas e técnicos de constru-
ções dentro de um projeto específico para fixar um ponto de apoio
permanente na região. De preferência perto das rotas da prata, da rede
de comunicações fluviais e das trilhas abertas na mata pelos indígenas,
o peabiru, ligando a região de Piratininga a Assunção.

A partir da viagem de Martim Afonso foi sendo formada, em São


Vicente e no Planalto, uma sociedade que se aproveitou da colabo-
ração de tipos que viviam com os índios e já falavam seus idiomas.

Construída em simbiose com a terra e seus costumes surgia uma


sociedade não só proposta senão também considerada como simples
extensão de Portugal e colonizada por portugueses, especialmente
depois de fixar o processo colonizador com os Governos Gerais e a
ação missionária dos primeiros jesuítas.

Segundo Varnhagen, em conhecida observação feita logo no primeiro


volume de sua História do Brasil, nestes tempos iniciais, “brasileiro”
era nome dado a quem se dedicava ao comércio da ibirapitanga, o
pau-brasil, uma profissão, como “baleeiro”, “carpinteiro”, “pedrei-

18 C a r t a M en sa l • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 3-23, maio 2010


ro”, “tanoeiro” etc... Por paradoxal que possa parecer dentro desse
conceito um “brasileiro” podia ser francês, já que os franceses eram
bem ativos neste comércio. Os primeiros náufragos e degredados
jamais deixaram de se considerarem “portugueses”, súditos do Rei,
como portugueses eram os primeiros colonizadores. Mesmo adian-
te, já com a economia dos engenhos consolidada, lá pelos fins do
primeiro século, o trabalho de Gabriel Soares de Souza não nos fala
senão de coloniais portugueses estabelecidos na região.

Portanto, admitir que o Brasil surge em 1500 e a Carta de Caminha


é sua certidão de nascimento, dando a essa crença inexata a força de
um consenso é algo difícil de explicar.

Sabemos que nem todo consenso exprime uma verdade. Muitos


se apoiam em verdades enganosas das quais surge um processo de
anestesia intelectual. Caso das visões cosmológicas geocêntricas que
dominaram a ciência medieval por séculos. Fechado por certezas que
nele se emparedam, ganham em vigor obstinado e presença negativa.

A formação do Brasil examinada tão brevemente nos indica que a


consciência clara de ser “brasileiro” surge bem tarde em nossa história
não sendo relevantes tomar como referência as ações nativistas do
século XVIII. Eram ilhas isoladas em um oceano de mesmice colo-
nial, vigorando a perspectiva de Pombal e as ações de Maria I sobre
o conceito de “colônia”, aceitas pela imensa maioria.

Justamente por isto nossa alma coletiva foi tocada pelo fato histórico
da Independência, quando “nos tornamos império antes de nos tornar
nação”. Tentou-se um “despertar” da consciência nacional. A ponto
de ser relativamente comum a curiosa mudança de nomes para adotar
nomes indígenas e até topônimos índios por parte de membros de
nossa elite. O movimento romântico, que o seguiu, foi também um

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 3-23, maio 2010 19


exemplo dessa busca ansiosa do que, afinal, constituía o “ser brasi-
leiro”, identificar nossa especificidade como povo. Curiosamente,
nele teve papel relevante um francês, Ferdinand Denis, que defendia
já sermos capazes de produzir uma literatura nossa. Foi Denis que
cunhou o termo “brasiliana”, símbolo desse sentimento. O Grupo
por ele inspirado reuniu-se em torno da revista Niterói, nome indígena,
editada em Paris. Dele faziam parte Gonçalves de Magalhães e Araújo
Porto Alegre, entre alguns outros. Ao regressar obtiveram o estímulo
do Império para o seu projeto nativista. Mais adiante ganharam o
apoio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro fundado em
1938. Tornou-se relevante com a poesia e a literatura indigenista,
todos correndo atrás do que seria, afinal, o “brasileiro”.

O que o fenômeno nos revela é algo a ser refletido. Significa que em


meados do século XIX, depois de 300 anos de colonização efetiva
e vida própria, o fato de ser “brasileiro” ainda era um problema
a ser definido. Mais adiante, com a voga do debate em torno de
nossa autenticidade levando a discutir-se o tema da alienação e do
mimetismo europeu de nossas elites com o decorrente sentimento
de inferioridade cultural de nossa gente, o problema ressurge com
outras conotações. Silvio Romero em sua Introdução à história da lite-
ratura brasileira nega que nossa literatura seja “brasileira” e sim cópia
mimética da literatura europeia. Pouco antes o tema havia levado seu
desafeto Machado de Assis a escrever o seu importante texto Instinto
de Nacionalidade, em uma crítica suave, mas evidente, ao que se fazia
no Brasil. Na mesma linha, em sua A Vida Literária do Brasil – 1900,
Brito Broca vem a denominar de “parisismo” a mania de imitar e
endeusar Paris, nas modas, nos costumes, nas falas, nas preferências
estéticas e literárias. Cruz Costa não deixa de observar o mesmo fato
em seu História das Ideias no Brasil.

20 C a r t a M en sa l • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 3-23, maio 2010


Parece claro que um povo que adota como postura coletiva imitar
modelos estrangeiros, no caso parisienses e londrinos, às vezes ale-
mães e norte-americanos, carece de autoconfiança, nega valor a si
mesmo, criando dificuldades para firmar uma identidade nacional
positiva. Quando se prefere imitar o outro consolida-se um fenôme-
no de psicologia coletiva que coloca em pauta a própria identidade.

Se é correto aceitar que tão longe em nossa história, em pleno sé-


culo XIX, virada do XX, ainda se discutia o que era ser brasileiro,
a sugestão derivada é estarmos bem longe das fáceis aceitações de
batismo do “Brasil”. Justifica-se a ansiedade de um estudioso compe-
tente como nosso companheiro Arno Wehling. Arno abre as páginas
iniciais de seu importante História do Brasil Colonial com a indagação
aflita sobre quando, afinal, já é possível e correto falar de “Brasil”
e de “brasileiros”. Evidentemente que sem Brasil não há brasileiros
sendo perfeitamente correta a inversão. Isto é, sem a consciência
de ser “brasileiro” não se pode falar de “Brasil”. Se uma “nação” é
antes de tudo um fenômeno psicológico de emoção e identificação
coletivas, produzindo um sentimento de identidade dentro de um
universo simbólico que se torna comum a todos os seus membros, a
dúvida que nos formula Arno Wehling e perpassa alguns sociólogos
e historiadores modernos parece uma questão real.

Carlos Drummond de Andrade escreveu um poema denominado


“Hino Nacional”, constante de seu livro Brejo das Almas. Seu objetivo
foi tentar a recomposição de um processo complexo dentro do qual
se forjava, à época, um simbolismo nacional. Ao fim do poema afirma
a melancólica conclusão “Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os
brasileiros?”. Obviamente o poeta tenta a terapia do choque pela via
do absurdo, para dramatizar a inquieta peripécia histórica que resulta
na formação de nossa nacionalidade. Ao tempo em que escreve o

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 3-23, maio 2010 21


poema, 1934, havia uma proposta do Governo de Vargas para superar
nosso complexo de inferioridade racial e climática. Ele ainda andava
em nossos corações como vimos mais acima. O Brasil seria capaz
de autonomia decisória, de afirmação de seus interesses, mantendo-
-se alheio ao drama que ia nascendo na Europa. Decisivo seria gerar
um sentimento coletivo de orgulho afastando de nós o cálice fatal
que nutria um imaginário dominado até então pela visão pessimista
de nós mesmos. Drummond sugere a busca do Brasil profundo,
fora do artificialismo de qualquer criação artificial do Estado. Dessa
forma sua inquietação parece coincidir com a dos modernistas que
buscaram definir nossa brasilidade em fins dos anos 20. Drummond
ajustava-se ao pensamento de vanguarda, rejeitando um Brasil que
“não existia” por oscilar entre dois absurdos. Ou se apresentava como
abstratamente ufanista, figura antecipada por Ambrósio Fernandes
Brandão no início do século XVII, legitimada por Afonso Celso no
início do XX, ou triste e pessimista como o desenhara Paulo Prado
no seu Retrato do Brasil. Drummond abria a luta contra nossa alienação
deslocando para o vazio histórico o tronco que ainda nos prendia
ao passado colonial e ao presente da desconfiança em nós mesmos.

Acompanhar a gradual emersão histórica da consciência de ser “brasi-


leiro” é acompanhar as tensões que foram surgindo entre os “filhos da
terra” e os “reinóis” que monopolizavam os postos da administração
e do mando, do comércio e do controle fiscal.

Essa descrição de fatos é trabalho para outra ocasião. Por ora é per-
tinente apenas levantar a questão de ser problemático aceitar desde
logo a formação prematura de uma consciência de nossos interesses,
assumindo posição contra a espoliação da Metrópole, defender que
nos sentimos como uns desterrados em nossa própria terra e de
termos como modelo formador de nossa nacionalidade a sociedade
patriarcal nordestina.

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Para captarmos o Brasil e sua essência temos de entender o estilo e
a formação histórico-social de seu tipo cultural. O que nos uniu em
torno da ideia de um Império centralizado e o que nos diferenciou
em termos de subculturas específicas como as do sertão. Na litera-
tura encontramos dados admiráveis. São os autores regionalistas os
que melhor retratam essa desunião que se faz unida em torno de
uma ideia de pátria comum. Na literatura social urbana, na vida dos
vaqueiros tão bem descrita por Capistrano de Abreu, na aventura
das bandeiras, nas linhas de um tosco capitalismo mercantil que
surgia com os tropeiros em suas andanças pelo interior, na fixação
dos núcleos pelos grotões no caminho do ouro de que tanto nos fala
Antonil vai surgindo essa diversidade que se unifica em torno de uma
ideia comum. Toda uma cultura nova a cultura brasileira foi sendo
gerada lentamente em torno dessas realidades locais tendo como
polo de união certas crenças comuns, a linguagem, gostos, danças,
música, hábitos compartidos. Por isto parece-me justa a observação
de Drummond, ainda uma vez citado como referência, ao dizer que
em dúvida, temos de ir ao Cascudo, isto é, levantar o trabalho sobre
nossos costumes, crenças, lendas, mitos e referências sociais, práticas
lúdicas e amorosas, esforço de pesquisa realizado no Dicionário do
Folklore Brasileiro por Luiz da Câmara Cascudo.

O tema, portanto nos parece merecer a consideração desse importante


Conselho porque, revelando aspectos de nosso passado, debate a he-
rança recebida pelo presente. Admite implicitamente, ao equacionar
o complexo de inferioridade que nos aceitou como povo inferior,
incapaz de ir além de um País essencialmente agrícola, tratar-se de
problema que interfere com os projetos de educação, desenvolvimen-
to tecnológico e autonomia decisória relacionados com nosso futuro.

Palestra pronunciada em 16 de março de 2010

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O club dos BRIC
(Uma nova configuração
do multilateralismo)

Marcos Castrioto de Azambuja


Vice-Presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais – CEBRI

l . Luigi Pirandello chamou uma de suas peças: Seis Personagens em


busca de um Autor. Os BRIC, isto é o Brasil, a Rússia, a China e a
Índia poderiam ser descritos como quatro países em busca de uma
agenda comum.

2. Em algumas reuniões de think tanks de que tenho participado em


Moscou, Delhi e Beijing, com representantes dos outros BRIC ou
em reuniões que se ocupam desse novo quarteto o reconhecimento é
invariável de que cada um dos quatro reúne plenamente as condições
para integrar o diretório central do poder mundial. O que não se
identifica, com a mesma facilidade, é o conjunto de temas ou causas
em que os quatro poderiam agir de forma concertada. Somos gran-
des entidades individuais mas somos vistos como animais políticos
de índole, trajetória e vocação diversas e com objetivos nacionais de
difícil harmonização.

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3. Escolhi usar os BRIC como gancho para essa palestra porque esse
grupo representa uma novíssima configuração no extenso e extrema-
mente diversificado universo dos arranjos multilaterais e porque, ao
tratar de sua criação, posso fazer certas generalizações sobre o status
atual desse vasto exercício que se chama de diplomacia multilateral
ou diplomacia parlamentar.

4. Não seria possível considerar os BRIC como projeto sem mostrar


antes, em linhas muito gerais, como operam os principais grupos de
atores na vida internacional.

5. Precisaria falar antes, portanto, do multilateralismo em algumas de


suas várias vertentes e manifestações. Deixarei, inteiramente de lado,
o bilateralismo que continua a ser o arroz com feijão do relaciona-
mento diplomático e que, deverá manter essa posição enquanto a
organização internacional se construir a partir dos Estados-Nações
que continuam a ser os building blocks do sistema de relacionamento
internacional.

6. Aqui vou partir da aceitação da premissa de que o bilateralismo


continua a ter a mais ampla vigência e que a arquitetura multilateral
nem dispensa nem substitui, agora e no futuro previsível, o papel
central de cada Estado em seus contatos individualizados com outros
Estados seus parceiros, sócios, vizinhos e mesmo adversários.

7. Neste papel vou cuidar, em traços muito gerais, do desenho do


multilateralismo estável e estruturado que é uma figura bem mais
recente do que o bilateralismo na história das relações diplomáticas.
Vou cuidar aqui apenas do multilateralismo expresso nas relações
entre agências e agentes governamentais e deixarei de lado, portanto,
o crescente e cada vez mais importante universo das relações entre
instituições não governamentais de todo tipo.

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 24-39, maio 2010 25


8. Começaria dizendo que um dos imperativos da organização mul-
tilateral da vida internacional tem sido duplo: o de buscar a univer-
salidade e o de preservar a seletividade.

9. A complementaridade dos dois impulsos é evidente: a universali-


dade traz a legitimidade democrática e o engajamento de todos em
temas que a todos interessam e a seletividade busca eficácia, precisão
de foco e a otimização da capacidade de ação executiva.

10. Os grandes exercícios de ordenamento internacional que até hoje


existiram procuraram atender simultaneamente a esses dois objetivos,
assim foi, na Liga das Nações e, depois e até agora, nas Nações Unidas.
Em ambas os desenhos básicos previa a existência de assembleias
gerais e outros foros, com a presença paritária de todos os membros,
e de órgãos e Conselhos de composição restrita, dos quais o Conselho
de Segurança da ONU é o mais eloquente exemplo.

11. A grande novidade no jogo das relações internacionais, desde o


fim do século XVIII, tem sido a convicção de que seria possível não
só obter como manter uma paz duradoura entre as nações. A busca,
consistente e organizada, da paz é ainda uma novidade na longa
história das relações entre povos e nações.

12. As guerras têm sido a mais antiga e constante companheira de


viagem da humanidade. A paz, até data muito recente, foi sempre
um interregno precário e, quase sempre, apenas uma pausa até que
novas forças fossem reunidas e o ciclo de conflitos reiniciado. A paz,
quando existiu, ou dependia de um frágil e sempre precário equilíbrio
de forças ou era a expressão do poder da potência então hegemônica:
assim a Pax Romana, a Pax Britânica, e finalmente e mais recente-
mente a Pax Americana.

26 C a r t a M en sa l • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 24-39, maio 2010


13. Um trabalho seminal na mudança desse estado de coisas foi o
ensaio filosófico de Immanuel Kant no fim do século XVIII sobre a
paz perpétua entre as nações. Foi a primeira e mais influente tentativa
de propor bases para que entre aos estados e as nações se criassem
regras do jogo que permitissem um convívio harmonioso, estável e
em bases aceitáveis por todos.

14. A história dos 200 anos seguintes mostrou como esses projetos
eram prematuros e como era poderosa a sua componente utópica.
Contudo a procura dessa paz e a construção de novas ordens inter-
nacionais que devem se renovar para refletir realidades cambiantes e
onde cada vez mais temas e mais atores interagem iria continuar e esse
seria reiteradamente visto como o caminho a seguir pela sociedade
internacional sobretudo quando as guerras entre grandes potências
foram ficando mais onerosas em termos materiais e humanos e sua
relação custo-benefício difícil de sustentar. Com a chegada das armas
de destruição em massa a equação foi profunda e, talvez, definitiva-
mente alterada.

15. A Liga ou Sociedade das Nações criada pelo Tratado de Versailles


no fim da Primeira Grande Guerra teve vida efêmera mas foi o pri-
meiro grande ensaio na busca de soluções institucionais permanentes
para a solução dos problemas internacionais.

16. As Nações Unidas, ao terminar a Segunda Guerra Mundial, reto-


mam o exercício e se dotam de mecanismos mais adequados (embora
ainda largamente insuficientes). Sua sobrevida por mais de 60 anos
é significativa como é, também, o aumento de sua composição dos
cerca de 50 membros iniciais até os quase 200 atuais.

17. Além das duas grandes experiências com organismos multilate-


rais de vocação universal (cujo âmago é o projeto do reforço da paz

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 24-39, maio 2010 27


e da segurança em escala global) as exigências da via internacional
levaram à criação de outras entidades estáveis: as Agências Especia-
lizadas do sistema das Nações Unidas, as organizações regionais, as
alianças militares (hoje apenas a OTAN tem conteúdo efetivo), as
instituições mais ou menos formais de foco temático, finalmente, o
sistema regulatório da vida econômica mundial expresso nos acor-
dos e nas instituições criadas em Bretton Woods (Banco Mundial e
Fundo Monetário Internacional) e no foro negociador criado pouco
depois originalmente chamado GATT, hoje Organização Mundial
do Comércio (OMC).

18. A necessidade incontornável em um mundo cada vez mais inter-


dependente é a de criar instituições ou arranjos capazes de responder
às necessidades de coordenação e previsibilidade que as novas cir-
cunstâncias exigiam. É a matéria pacífica que as telecomunicações, a
saúde, a navegação aérea, o turismo, para citar só uns poucos exemplos
retirados de um extenso menu de projetos colaborativos, reclamam
instituições e regras do jogo que confiram aos sistemas que se pre-
tende regular uma medida adequada de abrangência, confiabilidade
e eficácia.

19. Em muitos terrenos essa organização da vida internacional já é


matéria pacífica. Ninguém discute a utilidade da União Postal Inter-
nacional, da Organização Internacional para a Aviação Civil ou da
Organização Meteorológica Mundial. Há muitos outros exemplos e
as chamadas Agências Especializadas do sistema das Nações Unidas
são um mapa da amplitude e complexidade do sistema cooperativo
multilateral.

20. Contudo, durante mais de 40 anos (entre 1949 e 1989) a agenda


mundial ficou em larga medida engessada como consequência daquele
enfrentamento de poder e de ideologias que se convencionou chamar

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de Guerra Fria. O mundo – fundamentalmente então bipolar – se
dividia ao longo de dois eixos: o eixo Norte-Sul o eixo Leste-Oeste.
O primeiro separava os países ricos e os países pobres e o segundo
diferenciava as economias de mercado as centralmente planificadas.

21. A vitória no fim da Guerra Fria das potências industrializadas


e democráticas sobre o modelo de socialismo real capitaneado pela
União Soviética foi tão rápida e tão completa que não pareceu, sobre-
tudo aos Estados Unidos, útil proceder a uma revisão de premissas
e à definição de novos rumos como costuma acontecer ao fim dos
grandes ciclos históricos.

22. Em lugar de renovar e redinamizar o multilateralismo os Estados


Unidos preferiram ver em sua vitória um “fim da história” e se in-
clinaram por um modelo hegemônico extremo que ficou conhecido
como o unilateralismo.

23. Uma série de fatores levaram (como era fácil prever) ao esgota-
mento desse modelo: a crescente complexidade da vida internacional,
os limites do poder norte-americano, a inserção de novos temas na
agenda de caráter nitidamente global (o meio ambiente e os direitos
humanos sendo os mais visíveis), a eclosão de novos radicalismos de
que o “11 de Setembro” é a mais dramática ilustração e a emergência
de umas poucas outras novas grandes entidades nacionais (penso aqui
nos BRIC) como atores indispensáveis na definição dos rumos da
vida internacional no começo do século XXI. Sem falar nos custos
de duas guerras simultâneas e até agora longe de serem conclusivas
no Iraque e no Afeganistão.

24. Essa talvez longa introdução me traz ao meu tema central para o
nosso encontro que é procurar entender o que os BRIC representam e
podem representar no desenho do novo relacionamento internacional.

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 24-39, maio 2010 29


25. À associação informal desses quatro gigantes dei o título de “Club”
para acentuar o seu caráter voluntário, flexível e não assentado, por-
tanto, em nenhum instrumento jurídico de valor obrigatório. Não
há – nem deverá haver – nenhum Tratado criando ou regulando a
cooperação entre os BRIC. O Grupo nasceu porque as estruturas de
poder preexistentes não os acolhiam de forma adequada e porque
as mudanças na geometria da vida internacional obrigavam a que
revisões fossem feitas na composição dos diretórios que expressam
o poder mundial. Os BRIC nascem porque a ordem internacional
virtualmente engessada não criava espaços e estruturas para que
esses novos grandes participantes na cena internacional pudessem
agir como era natural e previsível que fizessem.

26. É uma redução simplista atribuir a um alto executivo de Goldman


Sachs a invenção dos BRIC. Sua foi a ideia, sem dúvida brilhante, de
criar o acrônimo que teve o mérito de cristalizar ideias que já tinham
considerável aceitação. A ideia de que aos quatro grandes emergen-
tes caberia um papel cada vez mais importante no desenho da nova
ordem internacional que já tinha trânsito na OCDE e em vários
focos nacionais e internacionais de pensamento e reflexão mas o
trabalho de Jim O’Neill teve o mérito de fixar as ideias já em gestação
e de, ao propor ele os parâmetros de um exercício prospectivo que
se estenderia até o ano 2050, sugerir que os novos quatro grandes
emergentes seriam não apenas parceiros necessários mas talvez as
potências líderes mundiais dentro de umas poucas décadas.

27. Várias outras combinações de grandes atores emergentes têm


sido propostas. Às vezes a equação inclui o México e a África do Sul.
Em outros exercícios aparecem a Indonésia e o Egito. Em outros
a Coreia, a Turquia ou a Arábia Saudita. Subsiste o fato de que em
todos os modelos o núcleo duro é sempre formado pela associação
dos quatro designados pela sigla BRIC.

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28. A atual crise econômica mundial evidenciou que se G-8 ainda
é indispensável não é mais suficiente para procurar superar as cir-
cunstâncias do momento em que vivemos. Como também não o são,
em sua configuração atual, o Banco Mundial e o Fundo Monetário
Internacional.

29. Diante de uma grande crise – como aquela que ainda atravessa-
mos – e com a necessidade de agir com extrema urgência o único
caminho possível era aproveitar e dinamizar algo que já existisse:
assim foi escolhido, para conter e talvez apagar o incêndio, o G-20
de respeitável trajetória como foro de aproximação e consultas dos
responsáveis pelas finanças das 20 principais economias mundiais.
Ao serem atribuídas ao G-20 novas tarefas e funções aproveitou-se
o que já existia embora perdure entre muitos a convicção de que o
G-20 é numeroso demais para que possa manter os níveis de eficácia,
coesão e velocidade de tomada de decisões que caracterizavam o G-6
original aos quais se juntou mais tarde o Canadá formando o G-7 e,
depois, a Rússia configurando o atual G-8.

30. O ingresso da Rússia naquele grupo foi uma acomodação neces-


sária mais que foi, creio, em certa medida, incômoda para a própria
Rússia – isolada e em alguma medida rejeitada por sócios com os
quais não compartilhava nem valores nem estilo e também não foi
plenamente satisfatória para os sócios originais – rompendo-se, em
alguma medida, as relações de intimidade e o grau de afinidade que
caracterizam o G-6 original. Vou lhes pedir que olhem esses quadros
para que possamos identificar o que chamei de principais “Diretórios
de Poder”.

31. A letra G está sobrecarregada. São muitos os grupos que ela abriga
desde um eventual mas improvável G-2 (que reuniria apenas os Esta-
dos Unidos e a China) até o G-77 que apesar de guardar o número de
sua composição original acolhe hoje 130 países em desenvolvimento.

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 24-39, maio 2010 31


32. A multiplicação de formas de associação revela a multipolaridade
tão característica do nosso tempo, a preferência por formas asso-
ciativas informais, vale dizer não assentadas necessariamente sobre
tratados e não dotadas de secretariados e orçamentos próprios nem
dispondo de sedes fixas. Isto revela o fato de que superadas as disci-
plinas militares e ideológicas da Guerra Fria os Estados se organizam
em termos de uma geometria extremamente variável, definindo-se
sócios e parceiros à luz de interesses setoriais e específicos.

33. Dos grupos que selecionei apenas o Conselho de Segurança da


ONU é regido por Tratados ou outros instrumentos internacionais
da mais alta hierarquia. Os demais são quase todos ordenados por
entendimentos com graus diversos de informalidade. O caso mais
eloquente dessa informalidade são os BRIC que não se assentam
sob nenhum instrumento formal fundador e dependem, para cada
encontro de um processo preparatório aberto e flexível – e para o
qual não existe sequer um cronograma obrigatório.

34. Poderia – e talvez devesse – incluir outros sistemas ou grupos que


reúnem países de grande hierarquia internacional. Poderia começar
por aqueles que integram a OCDE e que é uma associação de sócios
que antes exprimiam uma parcela muito grande do poder econômico
mundial. Hoje sem a Índia, a Rússia, a China e o Brasil como membros
plenos dquela organização continua seguramente relevante mas não
tem a representatividade que antes ostentava.

35. Duas outras entidades poderiam talvez ser mencionadas como


exemplos de eficácia seletiva.

36. A dos países que integram o Tratado da Antartic e o Grupo de


Supridores nucleares. Em ambos os casos o preço da entrada é elevado
e os membros de um ou outro círculo tem de dar provas de capaci-

32 C a r t a M en sa l • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 24-39, maio 2010


tação científica e tecnológica além de aceitarem, em um e outro caso,
regras rigorosas de conduta. O Brasil é membro de ambos os grupos.

37. Poderia alongar essa lista onde faltam ainda umas poucas entidades
marcadas pela seletividade de sua composição mas seria alongar-me
além do tempo de que disponho. Acentuo apenas como o fracasso
nas tentativas de reformar o sistema das Nações Unidas tem levado
a que se criem sistemas de circulação e controle periféricos alguns
nascidos para terem uma vida precária mas que continuam ativos
e valiosos enquanto não se faz a indispensável revisão do sistema
central de gestão da sociedade internacional.

38. Ao isolar cada grupo deixei de assinalar que se trata – essencial-


mente – de um jogo em que cada ator pode desempenhar mais de
um papel. Assim, por exemplo, a Rússia é membro permanente do
Conselho de Segurança, integra o Grupo dos 8 e também está no
Grupo dos 20 como está também entre os BRIC.

39. As outras grandes potências também tem uma presença múltipla


e mesmo os emergentes de safra mais recente: o Brasil e a Índia, estão
entre os cinco do chamado Grupo de outreach do G-8, como estão
também no G-20 e também são BRIC.

40. Como disse logo no começo o primeiro e principal desafio dos


BRIC é identificar uma agenda que lhes permita atuar dentro de uma
linha de coerência e previsibilidade. Os nossos grandes números como
se pode ver nestes quadros são tão impressionantes que qualquer
comentário adicional pode parecer supérfluo e redundante.

41. Não somos, entretanto, um grupo de parceiros afins como eram


os Sete antes do ingresso da Rússia. Não fomos moldados por expe-
riências históricas, simétricas ou convergentes. Nossa aliança não se

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forjou em um passado de lutas em uma trincheira comum. Nossos três
sócios foram antes adversários do que aliados ao longo dos tempos.
Seus arsenais nucleares e seus mísseis se destinam, em parte, a fazer
frente a ameaças que pudessem vir de um deles.

42. Os Sete, são democracias capitalistas ocidentais e seus regimes


políticos e econômicos, desde 1945, eram e são muito afins. Seus va-
lores derivam, do Iluminismo, da Revolução Francesa, da Americana
e do Cristianismo em sua expressão católica ou protestante. A Rússia
vai se conformando a esse modelo.

43. Já os BRIC não são farinha do mesmo saco. Três dos quatro
BRIC são importantes potências nucleares e espaciais; nós e a Índia
somos democracias representativas; a Rússia é uma democracia ainda
marcada por importantes vestígios do modelo autoritário anterior
enquanto que a China, governada por um partido único, é uma com-
plexa e mesmo inédita atualização do comunismo.

44. A China e a Índia não são apenas civilizações seminais como são
também o berço de importantes religiões. Quase o mesmo pode ser
dito da Rússia com a sua Igreja Ortodoxa e, sobretudo, se identifi-
carmos o marxismo-leninismo como uma quase religião laica o que
parece claro em várias de suas manifestações. O Brasil por formação
e cultura se aproxima muito mais dos valores expressos pelo G-8 do
que das matrizes dos seus sócios no Club dos BRIC.

45. Seria lícito então perguntar se um quarteto tão díspar pode encon-
trar denominadores comuns e agir de forma concertada. A resposta
só será afirmativa se as ambições de coordenação entre os BRIC
forem modestas, sobretudo no início, e se houver a busca pragmática
daquilo em que podemos nos colocar de acordo.

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46. O que nos une é uma intenção expressa e implícita de encontrar
para cada um de nós um espaço maior no processo de desenho do
mundo que se está construindo. Em outras palavras os quatro BRIC
devem encontrar no desenho do futuro aquilo que não encontram
na sua trajetória passada. O que a nossa associação sugere é que,
juntos, queremos ser vistos como fatores incontornáveis (e de alguma
forma associados) no desenho do mundo que está em processo de
construção.

47. O que faz a nossa associação extremamente interessante é essa


disposição compartilhada de fazer com que o mundo do século XXI
abra maior espaço para a nossa crescente e talvez irresistível influência.

48. Quatro gigantescos países pretendem que seus fatores quantitati-


vos se transformem em instrumentos qualitativos determinantes. A
leitura de nossos números é simplesmente impressionante mas não é
fácil transformar essas dimensões de grandeza em ação concertada.
Tivemos a medida da divergência de nossas políticas na rodada de
Doha. Não olhamos o meio ambiente ou os direitos humanos com
os mesmos olhos. Aí reside o principal desafio.

49. Na recente reunião presidencial de Ekaterimburgo os BRIC agi-


ram com prudência e relativa modéstia de objetivos. Ao fazerem a
crítica da ordem econômica internacional não caíram na tentação de
adotar posições retóricas e declamatórias. Os quatro BRIC não são
incendiários mas estão por vários caminhos (e as imensas reservas
de que dispõem em dólares é um deles) profundamente ligados ao
sistema que governa o mundo. Não querem ver o circo pegar fogo.
Parece-me importante que os BRIC resistam à tentação de se dotar
da parafernália que identifica as grandes instituições mundiais. Não é
preciso uma sede, nem contratar um secretariado permanente, nem
trabalhar na produção regular de declarações e comunicados. Também

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não me parece que se deva aprovar qualquer tipo de orçamento fixo
operacional para o funcionamento do grupo.

50. Os governantes dos quatro BRIC resistiram também em Ekate-


rimburgo, à tentação ilusória de imaginar que as dificuldades que os
Estados Unidos, a Europa Ocidental e o Japão enfrentam, sejam o
prenúncio de uma inexorável decadência.

51. Vamos ver se na próxima reunião de cúpula do Grupo – dessa


vez no Brasil em 2010 – possam os quatro, em alguma medida, se
distanciar das generalidades dentro das quais até agora tem operado e
possam entrar nos detalhes onde, além do demônio habitual, podem
residir algumas oportunidades de colaboração.

52. Não parece provável que, no curto prazo, possam os BRIC ter
um impacto significativo – como grupo – sobre a paisagem ma­
croeconômica mundial. Como disse antes os quatro sócios, por
algum tempo, deverão continuar a ter uma influência que deriva mais
de suas massas críticas individuais do que como decorrência de sua
capacidade de definir e implementar uma ação coordenada.

53. A previsão é de que encontros entre autoridades dos BRIC se


tornem mais frequentes e que entre eles se vá construindo uma maior
confiança recíproca e um conhecimento mais preciso da realidade
de cada um.

54. É provável que os BRIC venham a adotar modelos de associação


parecidos aos que adota o G-8 vale dizer que cada sócio indicará
um “Sherpa” que será um coordenador a nível nacional e que terá
a responsabilidade de manter os contatos e o enlace com os demais
parceiros entre uma reunião presidencial e a seguinte à medida que
se irão criando canais de contato e informação até agora inexistentes.

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55. Minha impressão é também de que os BRIC resistirão às tentati-
vas – pelo menos no futuro previsível – de ampliar a composição do
Grupo (há muitos candidatos querendo entrar no “Club”) e antes e
com passos medidos irão procurar desenvolver métodos de trabalho
que lhes permitam superar desconfianças, dificuldades reais e desco-
nhecimento recíproco. Por algum tempo, imagino, os quatro deverão
permanecer quatro.

56. Existe, acredito, um amplo espaço para que atores não gover-
namentais (acadêmicos, empresariais etc.) aproveitem o impulso
que o projeto BRIC oferece e que, como decorrência do exercício
entre brasileiros, indianos, russos e chineses, se proceda a um amplo
exercício de busca de conhecimento mútuo e de identificação de
oportunidades.

57. Volto a um ponto inicial. Não é fácil harmonizar políticas entre


grandes países com grande autoconfiança interna, vigorosa projeção
internacional e bem definidos objetivos internos e externos. As alian-
ças costumam se organizar em torno de um sócio hegemônico mas
não é fácil ver como algum dos quatro gigantes desse jogo estará dis-
posto a, de alguma maneira, subordinar-se à uma pretendida liderança
do outro, mesmo a China que entre os quatro se destaca em várias
e importantes dimensões não teria a capacidade – e talvez mesmo a
intenção – de procurar influir de forma excessiva sobre os demais.
O jogo dos BRIC é um processo que para ter alguma possibilidade
de êxito, deve ser realizado por pequenos passos e grandes cautelas.
Dito em outras palavras: neste jogo só há caciques e nenhum índio.

58. O que se pode afirmar é que os BRIC obtiveram, desde o primeiro


momento, grande visibilidade e provocaram um intenso interesse de
opinião pública. É muito prestigioso ser um deles. É, em parte, por
isso, que desejei dar destaque ao grupo dentro da moldura do tema

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sobre o qual lhes falo hoje. Parece-me difícil imaginar qualquer grande
reunião ou decisivo projeto internacional futuro em que não estejamos
presentes os quatro e que pouco a pouco possamos ir adquirindo uma
personalidade própria. Não será fácil mas longe está de ser impossível
sobretudo, como acentuei, se os objetivos forem modestos e que se
reconheça os limites reais de nossa capacidade – fora alguns poucos
terrenos selecionados – de formular políticas comuns e de encontrar
uma linguagem também comum.

59. Quando finalmente ocorrer a reforma e a atualização do sistema


central que deveria reger a vida internacional e que é expresso pelas
Nações Unidas e por sua constelação de órgãos e agências associados
é provável que diminua a proliferação de arranjos mais ou menos
informais de que os BRIC são um exemplo. Contudo enquanto esse
aggiornamento não acontecer – e levando-se em conta que o poder tem
horror ao vazio – os espaços irão sendo preenchidos por grupos como
os BRIC que deverão perdurar (e mesmo prosperar) até que uma
abrangente nova ordem internacional esteja plenamente em vigor.

60. Mesmo se e quando isto vier a ocorrer não desaparecerão os


grupos de afinidades e os relacionamentos especiais ditados pela
geografia, pela história ou por percepções compartilhadas do que
cada ator pode fazer, sozinho ou associado a outros parceiros. Os
hábitos de diálogo e coordenação, que o exercício dos BRIC começam
a criar, pode ser que perdurem e mesmo se consolidem. Vamos ver.

Palestra pronunciada em 25 de agosto de 2010

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Sem embargo da ordenação
em contrário – A adaptação
da norma portuguesa à
circunstância colonial
Arno Wehling
Professor Emérito da UniRio; Professor Titular da UFRJ (aposentado),
e da Universidade Gama Filho; Presidente do Instituto Histórico
e Geográfico Brasileiro.

U m dos problemas mais evidentes que se colocavam aos dirigen-


tes locais portugueses era o de como administrar os domínios
com um mínimo de unidade, organicidade e eficiência. Isso envolvia,
entre outros aspectos, o fazer efetivamente valer os atos emanados
de Portugal, inclusive as normas administrativas e jurídicas.

Não são poucas as queixas e lamentos, ao longo do período colonial,


de autoridades que criticavam a inobservância das decisões tomadas
na metrópole ou mesmo nas sedes administrativas brasileiras mais
importantes, como as capitais dos estados do Brasil e do Maranhão
ou as cabeças de capitanias gerais.

Em relação à inobservância, havia algumas atitudes possíveis:


rejeitá-la, punindo os inobservantes; aceitá-la tacitamente, ignorando
o desacato; ou admiti-la, amoldando-se à realidade.

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 39-62, maio 2010 39


As três atitudes foram correntes nos séculos de colonização, mas
é a terceira que aqui nos ocupa: admitir a inobservância da norma,
adaptando-a à realidade colonial.

Como paradigma dessa situação peculiar, pode ser apontada a expres-


são “sem embargo da Ordenação em contrário”. Ela era usualmente
utilizada para caracterizar o tratamento de exceção, como uma auto-
rização, dada em caráter excepcional pelo rei ou por sua delegação
para que a norma (nesse caso, a própria lei), não fosse cumprida em
determinado caso singular, mantendo-se, entretanto em plena vigência
para todos os demais.

Configura-se, assim, o seguinte quadro: a norma jurídica (ou admi-


nistrativa) é mantida pela autoridade real, reconhecendo assim sua
necessidade e sua força coercitiva, determinando-se apenas a sua
suspensão, temporária e casuística, em uma situação concreta.

Diga-se, preliminarmente, que tal solução era prerrogativa do rei


enquanto legislador e que independia do fato de ocorrer no reino ou
nos domínios. A condição colonial, todavia, acentuou e multiplicou
as possibilidades de sua ocorrência.

A circunstância colonial

A extensão territorial, a multiplicidade de núcleos de colonização e


sua diversidade, novos elementos econômicos e sociais e relações de
poder frente à experiência europeia, foram acentuando o processo
de diferenciação do Brasil em face da sua matriz europeia.

Essa diferenciação representou duplo desafio para órgãos públicos,


administradores locais e conselheiros metropolitanos: adequar nor-

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mas jurídicas e processos e procedimentos institucionais ao universo
colonial, atendendo simultaneamente às necessidades de um mínimo
de unidade política e a realidades que se plasmavam e replasmavam
em função de variáveis locais1; e criar novas normas, que se referiam
especificamente às condições coloniais, embora no espírito geral que
lhes dava conteúdo e forma, como foi o caso das “Constituições
primeiras do Arcebispado da Bahia” para o âmbito eclesiástico e do
direito de família, da legislação referente aos indígenas e da legislação
mineradora.

Tais desafios implicavam em atitudes e soluções distintas das adotadas


na metrópole e que se evidenciaram ao longo do período colonial.
A criatividade era uma imposição do meio e se ela surgia no âmbito
social, como a adaptação à alimentação ou às habitações e no âmbito
político, como, por exemplo, na alteração do número de vereadores
na São Paulo quinhentista, era também uma verdade em relação aos
operadores jurídicos.

A flexibilização das normas, sobretudo aquelas de âmbito processual,


foi uma necessidade desde cedo percebida e praticada nos “audi-
tórios” judiciais. Antonio Vanguerve Cabral, com a autoridade de
ter exercido a prática jurídica no Brasil como advogado e ouvidor
da capitania privada de Itamaracá, comentava que os operadores
jurídicos – juízes, advogados e mesmo tabeliães – necessitavam, no
Brasil, de serem criativos nos atos processuais, criando estratégias
desconhecidas nas Ordenações, de modo a não impedir o andamento
dos processos.2

Na corrente contrária a essa tendência, verificou-se igualmente um


esforço normatizador nas Relações da Bahia e do Rio de Janeiro,
maior do que o verificado em seus congêneres portugueses, a Rela-

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ção do Porto ou a Casa da Suplicação. Atente-se para o fato de que
as evidências desse esforço são mais nítidas na segunda metade do
século XVIII, no contexto da centralização político-administrativa e
dos esforços pela unificação jurisprudencial verificados nos períodos
pombalino e pós-pombalino, mas que existem igualmente no tribunal
baiano desde o século anterior.3

Que razões encontramos explicitadas nos documentos coloniais,


passíveis de atestar a adaptação da norma a essa circunstância?

A percepção da alteridade – A percepção da alteridade foi uma constante


autoevidente durante a colonização. Desde a preocupação dos primei-
ros jesuítas em flexibilizar preceitos religiosos considerados acidentais
e não essenciais, na terminologia escolástica e o entendimento que
um “outro Portugal” se construía, no testemunho de Fernão Cardim4,
a concepção de um domínio que prolongava e ao mesmo tempo se
distinguia de Portugal foi se impondo. Não é de surpreender que ela
penetrasse o universo jurídico, desde os procedimentos cartoriais até
as discussões nos contenciosos judiciais.

Se as fórmulas cartorárias, as Ordenações e todo o restante do re-


ferencial jurídico vinham da metrópole, sua adaptação foi processo
lento mas diuturno de aculturação, semelhante ao que ocorreu em
tantos outros aspectos da vida colonial.

A percepção da continentalidade – A percepção da pluralidade dos


“brasis”, com a constatação da preexistência de grupos indígenas
extremamente diversificados e logo a da diversidade de experiência
dos próprios colonizadores impuseram-se facilmente. No último
terço do século XVI já havia clara consciência das duas situações:
os cronistas referem-se à multiplicidade de etnias indígenas ao lon-
go do litoral entre o Rio Grande do Norte e Santa Catarina, tanto

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quanto à construção de identidades particulares luso-brasileiras em
São Vicente, no Rio de Janeiro, na Bahia e em Pernambuco. Essa
percepção, nos dois sentidos, não fez senão aprofundar-se nos dois
séculos seguintes, com a interiorização crescente e a constituição de
novas unidades políticas e frentes de colonização.

Por todos os testemunhos, pode valer o de Rocha Pita, no início do


século XVIII, quando disse ser a terra “larguíssima”, com muitas
diferenças internas5, o que corroborava as percepções, simultâneas e
cumulativas, de continentalidade e de diversidade cultural, econômica
e política. Esse último aspecto, aliás, justifica a fácil identidade do País
como um Império, recuperando algumas das concepções medievais
desse como uma multiplicidade de unidades políticas e culturais.

A percepção de um “tempo processual” diverso – Já se afirmou a existência


de um “tempo administrativo”6 para caracterizar a demora e mesmo
o descumprimento de determinações oficiais no plano da adminis-
tração pública colonial. Com ainda maior razão pode-se constatar
a existência do que se poderia denominar de “tempo processual”
diverso daquele praticado pela justiça metropolitana.

Ele consistia na dilação exagerada – pelos padrões originais por-


tugueses – dos prazos processuais ou em soluções atípicas, para a
continuidade ou a instauração do processo.

São muitos os exemplos.

Em caso de sentença à pena capital, normalmente a execução far-se-


-ia no perímetro de competência originária do Tribunal da Relação,
isto é, 15 léguas ao seu redor. Entretanto, admitia-se que as más
condições carcerárias das vilas, a inexistência de cárceres nas aldeias
ou as facilidades para a fuga do condenado que estivesse detido em

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regiões remotas eram razões suficientes para que fosse executada a
sentença fora daquela área. Nessa hipótese, seguia-se todo o ritual
prescrito nas Ordenações7, mas usava-se, fora do texto legal, a prática
de tirar a sentença do processo e enviá-la ao juiz da região, para que
esse a executasse. Como verdugos existiam apenas nas Relações, era
realizado o seguinte procedimento, descrito por Vanguerve Cabral:

“E se for em algum lugar distante, onde não possa ir algoz, em seu


lugar o juiz da execução obrigará a um homem dos que costumam
matar no curral as reses; o que vi praticar em Pernambuco na execução
da morte... (de um)... sapateiro, onde se obrigou a um negro forro,
que matava reses no curral, a servir naquela ocasião de algoz (e não
querendo exercitar o ofício por vontade, o obrigam por força e então
também vai preso...) e se lhe pagou seu estipêndio: e vi também que
se lhe deu (além do estipêndio) a cama e vestidos que o condenado
tinha, como manda a Ordenação, livro I, título 33, parágrafo 8.”8

Observe-se, portanto, que nessa sucessão de procedimentos seguia-


-se as Ordenações na medida do possível, abrindo-se espaço para
atuações diferentes do ali prescrito, para que o fim atingido (nesse
caso, a execução da sentença por meio não previsto no texto legal),
se efetivasse.

O exame de corpo de delito, pelo determinado nas Ordenações,


seria ordenado pelo juiz ao cirurgião. Entretanto, sua insuficiência
demonstrou que, tanto no Reino quanto nos domínios, admitiu-se
frequentemente o prático, fato que chegou a ser normatizado, para
o caso metropolitano, em assento da Casa da Suplicação, de 1760.9
Sabe-se, todavia no Brasil de um caso ainda mais extremo, pois estan-
do na Relação da Bahia o único cirurgião da região e na ausência de
qualquer prático coube ao juiz realizar ele próprio o exame de corpo
delito, sob risco de perda das provas.10

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A ausência no sertão e a sucessão consequente, com a distribuição
da herança, são exemplo de outra situação decidida fora dos padrões
cartoriais determinados pelas Ordenações. A própria figura jurídica
do testamento sofreu uma adaptação à realidade do sertão, essa por
sua vez guardando certa analogia com a do testamento que antecedia
a morte em alto mar.11 Um alvará real tardio, de 1794, acabaria cor-
roborando a antiga prática colonial, pois admitiu no Brasil o uso de
instrumento particular em situações nas quais o instrumento público
era inviável. Assim, a legislação extravagante supria a deficiência das
Ordenações, tornando legal uma prática jurídica que se confrontou
com elas por quase dois séculos.

Talvez a situação mais típica de desobediência à norma tenha sido


o das cartas de seguro. Representavam instrumento processual im-
portante que permitia ao réu de um processo criminal manter-se em
liberdade pelo prazo de um ano. Eram concedidas a requerimento do
advogado da parte pelos tribunais da Relação. A lei admitia apenas
uma prorrogação, por idêntico prazo. Entretanto, no Brasil e também
em Angola, a situação exacerbou-se: sabe-se de exemplos de uma
terceira carta com frequência, havendo situações de até seis cartas,
como as encontradas na jurisdição do Tribunal da Relação do Rio de
Janeiro12. Nesse caso, eram os próprios desembargadores ouvidores
do crime que assim agiam, submetidos a uma realidade que a13 norma
não conseguia enquadrar.

A percepção da escassez de meios da Coroa. A elite dirigente metropolitana


tinha aguda percepção da diversidade de procedimentos na terra, di-
tados pela distância e pelo consequente afastamento do rei. O padre
Vieira já registrara a preocupação dos administradores que ficavam
em Lisboa:

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 39-62, maio 2010 45


“Nos Brasis, nas Angolas, nas Goas, nas Malacas, nas Macaus, onde
o rei se conhece só por fama e se obedece só por nome; aí não são
necessários os criados de maior fé e os talentos de maiores virtudes.
Se em Portugal, se em Lisboa, onde os olhos do rei se vêm e os
brados do rei se ouvem, faltam à sua obrigação homens de grandes
obrigações, que será in regionem longinquam? Que será naquelas regiões
remotíssimas onde o rei, onde as leis, onde a justiça, onde a verdade,
onde a razão e onde até o mesmo Deus parece que está longe?”

No caso dos agentes judiciais, como desembargadores, ouvidores


e mais tarde juízes de fora, eles transigiam sistematicamente com a
realidade colonial. Assim ocorreu, por exemplo, no caso das citações
pelos meirinhos, alcaides e outros oficiais. Essa prática era proibida
pelas Ordenações, que limitava aos magistrados superiores e aos juízes
de fora e juízes ordinários a sua emissão.

A ausência ou escassez de juízes de fora, ouvidores, desembargado-


res e mesmo juízes ordinários, fez com que se admitisse a prática da
citação pelos meirinhos e alcaides, embora carecessem de fé pública.
No caso dos juízes ordinários, o problema estava na distância entre a
sede da vila e os locais mais afastados do termo municipal.

Embora tal situação pudesse ocorrer também em Portugal, ela foi


muito sentida no Brasil. Ainda para esse ponto é precioso o teste-
munho de Vanguerve Cabral:

“Também no Brasil costumam fazer citações os meirinhos, alcaides,


juízes e mais oficiais de vintena. E sendo eu Ouvidor na capitania
de Itamaracá, querendo ver se podia desviar que os tais meirinhos e
alcaides pudessem fazer citações, dei disso parte à Relação da Bahia,
e me responderam que usasse dos estilos que nessa matéria achei,
em carta de 19 de maio de 1704. E assim que estes e semelhantes

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estilos se devem observar, enquanto não se determinar o contrário:
porque os meirinhos e alcaides não tem fé, nem se lhes permite pela
Lei fazerem citações; aos juízes sim”.14

Essa questão insere-se no problema mais amplo da modesta penetra-


ção da justiça do Estado no âmbito colonial. São repetidos os relatos
que associam “vexações” e prejuízos às partes à ausência de letrados,
ou seja, de magistrados que representem o rei e sua legislação. Exce-
tuando a presença sistemática dos ouvidores nas sedes das capitanias
e dos desembargadores das duas Relações, mesmo no século XVIII
a introdução dos juízes de fora contribuiu relativamente pouco para
diminuir a dimensão dessas dificuldades.15

A percepção de traços distintivos locais. A realidade colonial impôs trata-


mentos distintos, em geral corroborados pelas instâncias judiciais
locais, podendo ou não se converter em normas legais sob a forma
de legislação extravagante.

Do primeiro caso, há exemplos quanto à citação de indígenas e à


presença de escravos em juízo.

A citação de indígenas em causas cíveis ou criminais era em geral


considerada de difícil execução, porque perigosa. Assim, dava-se ao
citado as mesmas oportunidades para vir a juízo, porém a execução da
medida poderia não se ocorrer, embora tendo todos os efeitos legais e
correndo o processo à revelia. Era fórmula consuetudinária local que
poderia, quando muito se fundamentar em manifestações doutriná-
rias, que por sua vez se referiam apenas à realidade metropolitana.16

A presença de escravos em juízo, tanto monocráticos quanto co-


legiados, era outro traço distintivo da colônia. Embora existissem
escravos em Portugal, a realidade demográfica no Brasil, sobretudo

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nos séculos XVII e XVIII, fazia com que o problema que tal fato
representava fosse muito mais evidente na colônia. A discussão so-
bre a natureza de sua presença ante o juiz, se como representado, se
como o próprio autor, envolvia a questão de ser ele sujeito ou objeto
de direito. Em princípio, o entendimento era o de que, no direito
penal, ele era simultaneamente sujeito (como ser humano) e objeto
(como bem econômico) de direito, porque considerá-lo apenas nessa
segunda condição implicava na sua inimputabilidade penal. No direito
civil ele aparecia como objeto, em especial no direito das obrigações
e secundariamente como sujeito, no âmbito do direito de família.17

Na pesquisa que realizamos sobre a presença do escravo no Tribunal


da Relação do Rio de Janeiro, constatamos que, diferente do que
determinava a legislação, aliás, escassamente normativa sobre ele, a
situação do escravo aparecia, no âmbito criminal, como agente (de
motu próprio ou a mando) e como paciente, enquanto no cível surgia
como objeto de propriedade e sujeito de relações familiares.18

O apoio às elites locais algumas vezes fez-se de modo formalmente


contrário ao determinado nas Ordenações. Em alguns casos, a solução
encontrada foi posteriormente incorporada à legislação extravagante.

O caso dessa natureza mais conhecido foi o da proteção dispensada


aos senhores para que não ocorressem execuções em seus engenhos,
no contexto da crise que afetou os preços do açúcar na segunda
metade do século XVII. Praxe citada por Vanguerve, admitida em
Pernambuco, dava por sua vez, proteção especial às dívidas de mor-
gados e capelas.19

Sabe-se que o ter tido cargos nas câmaras municipais isentava os ofi-
ciais de serem executados nas “fábricas dos seus engenhos”; trata-se
de uma portaria de 4 de dezembro de 1694. Também Gaioso refere à

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prática no Maranhão, pedindo, aliás, sua ampliação, à semelhança do
que ocorria em Minas Gerais, para o evitar o confisco de escravos.20

Aqui estamos em terreno escorregadio. Há manifestações adminis-


trativas e na legislação extravagante protegendo os bens dos lavra-
dores, na intenção explícita de evitar a queda na produção, mas duas
questões surgem.

Em primeiro lugar, a da extensão da medida: impede-se totalmente a


execução, na prática cancelando-se a dívida, executa-se no bem indi-
cado como garantia (máquinas e escravos) ou limita-se ao sequestro
dos frutos, isto é, da produção de um determinado período, até a
cobertura do valor devido, como Gaioso, por exemplo, defende?
Essa questão foi largamente debatida na doutrina da época, como
se encontra nos comentários de Pegas, de Borges Carneiro e nas
Decisiones de Phoebo. A indicação de Vanguerve sobre os morgados
e capelas de Pernambuco parece demonstrar que o mesmo ocorreu
na jurisprudência.

Uma segunda questão diz respeito ao que aqui se discute. Atos


dessa natureza consistiam em uma adequação da norma à realidade
agroexportadora e escravista colonial, simplesmente admitida na
prática judicial com apoio na doutrina e na jurisprudência, ou de fato
não ocorreram enquanto não existisse manifestação administrativa
ou legal por parte da autoridade metropolitana? A crise econômica
da segunda metade do século XVII, o crescente endividamento dos
agricultores de cana livre e senhores de engenho e o caráter casuístico
da legislação e de sua aplicação tornam plausível a hipótese de que
ocorreu a suspensão, ou pelo menos a dilação, das execuções, mas
somente uma pesquisa pontual poderá esclarecer a questão.

Mesmo o topo do funcionalismo colonial não se encontrava isento

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da necessidade de resolver problemas cuja solução implicava con-
frontar as Ordenações do Reino. Um, entre outros exemplos, era
o da proibição de os ministros de letras contraírem matrimônio
com naturais do território sob sua jurisdição. Assim, juízes de fora,
ouvidores e desembargadores estavam impedidos de se casarem no
exercício de suas funções sob pena de perda do cargo. Nos comen-
tários dos doutrinadores, a medida era caracterizada como forma de
evitar o estabelecimento de laços com os interesses locais, a fim de
não comprometer a isenção dos julgados.

Tal situação ocorreu ao Desembargador Francisco Lopes de Sousa


Faria Lemos, natural do Rio de Janeiro, de cujo tribunal tornou-se
desembargador em 1799, com 42 anos. No mesmo ano recebeu
resposta à solicitação feita para casar-se com a sobrinha:

“Faço saber que atendendo ao que representa Francisco Lopes de


Sousa Faria Lemos, Desembargador da Relação do Rio de Janeiro,
hei por bem conceder-lhe a necessária licença e faculdade para poder
efetuar e celebrar o matrimônio que tem contratado com sua sobri-
nha D. Maria Inês de Sousa Barroso na forma que ele suplica, não
obstante os impedimentos que resultam das minas Reais Ordenações
e proibições em contrário e em que sou servido dispensar... sem
embargo da Ordenação, livro. 2, título 40.”21

Nesse caso, além de suprir a dispensa eclesiástica dada a relação de


parentesco, a licença real ainda contraditava duplamente o espírito
da legislação, já que admitia o casamento de um desembargador que
era natural da terra com pessoa de idêntica condição.

50 C a r t a M en sa l • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 39-62, maio 2010


Em busca de significados

O problema aqui examinado só se torna claro, obviamente, com o


entendimento do pano de fundo da sociedade e do Estado do Antigo
Regime em seus desdobramentos jurídicos.

A norma jurídica do Antigo Regime – no caso em tela, a aplicação


das Ordenações Manuelina e Filipinas no Brasil – pressupunha três
condições inerentes, o caráter casuístico, a ductilidade e a propensão
ao pluralismo das fontes.

O casuísmo, cuja imagem foi tão mal construída no mundo liberal-


-constitucional posterior à Revolução Francesa, vem sendo objeto de
sucessivas reinterpretações, sobretudo na historiografia institucional
e jurídica.

No Antigo Regime, a concepção básica da normatividade jurídica era


o casuísmo, entendida, grosso modo, como a aplicação de princípios
gerais de natureza teológica, filosófica, política e especificamente jurí-
dica às situações concretas. A amplitude da norma, assim percebida,
dava margem a todo um universo jurisprudencial e doutrinário e a
aplicações não raro contraditórias, como tão bem analisou para o
contexto castelhano-americano o historiador Victor Tau Anzoátegui.22

O crescimento da centralização política em alguns estados e a maré


montante do racionalismo filosófico e jurídico ao longo dos séculos
XVII e XVIII foi contrapondo a esta concepção do direito e da
justiça uma outra. Sistemática e disciplinadora, essa nova percepção
acabou por se impor na transição do absolutismo setecentista ao
constitucionalismo revolucionário.23

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 39-62, maio 2010 51


Decorrente desse fundamento casuístico, a norma jurídica tornava-se
necessariamente dúctil e propensa ao pluralismo.

Esperava-se do magistrado que esse aplicasse a lei do reino ou as de-


mais normas admitidas pela ordem jurídica com ductilidade, atento a
compatibilização dos princípios gerais ao caso concreto. Essa flexibi-
lidade estendia-se à própria administração pública, já que seus órgãos
sempre se mostraram sensíveis tanto às pressões e contrapressões
oriundas do centro ou da periferia do poder oficial, quanto às dos
interesses coletivos ou individuais que conseguissem fazer-se ouvir
junto a eles. O sucesso da fórmula de Foucault sobre a circularidade
do poder junto aos historiadores do Antigo Regime tem muito a ver
com essa constatação.

Muitos são os exemplos que podem ser lembrados. O exame de


processos que tramitaram na segunda metade do século XVIII pelo
Tribunal da Relação do Rio de Janeiro atesta a situação, embora já se
trate de um momento em que existe forte tendência à uniformização
legislativa e jurisprudencial, resultado do centralismo pombalino. Mas
mesmo após da lei da Boa Razão, de 1768, cujo principal objetivo
era justamente erradicar o que considerava excessivo doutrinarismo,
verifica-se a persistência das soluções tradicionais, inclusive com a
autorização para o recebimento do direito comum, bête noire de alguns
juristas pombalinos.24

Exemplo tópico que também pode ser recordado é o da proibição


de parentesco entre os vereadores, determinada pelas Ordenações
Filipinas, livro I, título LVII. A intenção era nítida: impedir a cons-
tituição de oligarquias nas câmaras municipais.

Mas o jurisconsulto Pegas, na segunda metade do século XVII,


comentou que “em lugares pouco povoados não se observava essa

52 C a r t a M en sa l • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 39-62, maio 2010


Ordenação”, dada a impossibilidade de se constituírem as câmaras
de outra forma.

A tolerância real aparentemente acabou em 1698, pois neste ano um


decreto e uma portaria reiteraram que se respeitasse o texto legal.
Entretanto, exatos cem anos depois aparecem no Índice Cronológico
de João Pedro Ribeiro os avisos de 21 e 27 de agosto de 1798, no
mesmo sentido.25

Por extensão desse espírito da lei, também aos tabeliães era proibi-
do que pai e filho, irmãos, primos em primeiro grau e tio e sobri-
nho possuíssem cartórios na mesma vila e cidade. O jurisconsulto
Phoebo, comentando as Ordenações Manuelinas, dizia que “o cos-
tume havia revogado essa Ordenação”, no que seria contestado por
Pegas a propósito das Filipinas, embora esse reconhecesse a existência
de jurisprudência a favor desse entendimento no século XVII.

Nesses casos não há, aliás, distinção entre a prática metropolitana e


a colonial, sendo de admitir que ocorresse com mais frequência no
Brasil, dadas as condições precárias de institucionalização das vilas
e a também a força dos régulos do sertão, conforme se denunciava
corriqueiramente na documentação. Podemos conjecturar que o es-
tudo sistemático da composição das diferentes câmaras corroboraria
essa hipótese, à semelhança do que acontecia com a inobservância
do número de vereadores determinado pelas Ordenações Manuelinas
na câmara da São Paulo quinhentista.

A propensão à pluralidade da norma, por sua vez, retirava das Orde-


nações qualquer papel de referencial absoluto em termos jurídicos.
Aos esforços espasmódicos pela centralização legislativa, que encon-
tramos ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII até o consulado
pombalino, quando ela se torna uma política estatal visando seguir o

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 39-62, maio 2010 53


exemplo das “nações polidas da Europa”, contrapõe-se a realidade
fundamental do pluralismo normativo. Esse pluralismo derivava da
própria vida social concreta do Antigo Regime, profundamente plural
com seus estamentos, suas corporações, seus estatutos e suas privis
legis particulares, senão singulares.

Assim, a diversidade aparentemente caótica da colônia, que tanto


chocou o espírito de sistema de historiadores do mundo liberal-cons­
titucional, como Varnhagen ou João Francisco Lisboa, ou mesmo
marxistas, como Caio Prado Jr., encontrava suas raízes não somente
na realidade americana, mas na sua própria matriz europeia.

Essa concepção pluralista, que se aplica tanto à estrutura interna dos


estados quanto às relações entre eles, fecha o discurso primeiro do
Tratado Político de Rocha Pita e era relativamente comum no pensa-
mento político da monarquia absoluta.

“De tudo o que tenho mostrado se colhe, por consequência, que uma
só cabeça não pode servir a muitos corpos, nem uma só voz faz em
consonância a muitos coros, e que a suma grandeza não pode existir
muito tempo sem ruína sua e prejuízo do mundo, pois as grandes
monarquias são como as árvores de mais sublime altura e de mais
grossos troncos que, em vindo ao chão, oprimidas de seu próprio
peso ou combatidas dos rigores do tempo, levam debaixo de si muitas
de menor grandeza, e os anos que permanecem superiores às outras,
a todas humilham e assombram, e que no equilíbrio das repúblicas
pode conservar-se o mundo, pois se assim como no microcosmo
do corpo humano, que também é muito abreviado e se compõe de
qualidades contrárias, mas em competente grau proporcionadas, ne-
nhum com excesso considerável crescer e se avantajar às outras, não
perigará a vida, assim também, se no mundo material as potências

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da terra estiverem em tal proporção ordenadas, que não atropelem e
excedam umas às outras, não se arruinará o mundo.”26

No plano mais pragmático da hierarquia das fontes jurídicas, houve


discussões entre os especialistas sobre a relação entre os estilos da
Casa de Suplicação e as Ordenações, isto é, entre as decisões sumu-
ladas da corte superior e a lei.

Admitiam alguns que o estilo interpretava e até revogava a lei, cons-


tasse ela das Ordenações ou fosse extravagante. Isso abria caminho
para a revogação da lei real pela esfera judicial, o que em princípio
não representava nenhum problema teórico em um universo jurídico
no qual o rei era legislador e julgador. Na prática, porém, concentrava
excessivo poder nas mãos dos magistrados.

O entendimento de que o estilo poderia modificar as Ordenações


foi repelido no assento de 10 de março de 1640, na própria Casa da
Suplicação, ainda sob a dominação espanhola, mas reafirmado em
época tão tardia quanto 1783, o que faz supor sua inobservância em
algumas situações.27

*•*

Qual a situação dos procedimentos inovadores de origem colonial em


relação à ordem normativa portuguesa, em particular as Ordenações
do reino?

Para responder à pergunta, é preciso pelo que se discutiu até aqui


admitir que tratamos de uma realidade casuísta, pela qual em princípio
mantém-se a norma, mas convive-se com a exceção, em grau menor
ou maior de tolerância conforme a época, a força centralizadora da
monarquia, a compreensão das implicações políticas das soluções

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 39-62, maio 2010 55


jurídicas e a consideração, no caso do Brasil, de fatores intrínsecos
a esse domínio.

Fixado esse ponto, encontramos as seguintes situações possíveis:

a) Justaposição da inovação à norma – dada a inovação, ela é simplesmente


agregada à norma, sem implicar em reformulação dessa em nome
de nenhum princípio geral ou postulado de coerência sistemática. A
forma como isso se dá pode ser pelo meio mais usual da legislação
extravagante, compreendida lato sensu (lei propriamente dita, decreto,
aviso, portaria). Dessa situação, que incorpora a inovação ao mundo
jurídico pela via da legislação extravagante, pode ser lembrada a fi-
gura do juiz do povo, que existiu na colônia no contexto da luta pela
restauração portuguesa e se extinguiu no início do século XVIII,
sem afetar a letra das Ordenações sobre os juízes ordinários, mas
simplesmente sobrepondo-se a ela.

b) Revogação da Ordenação por legislação extravagante – é o caso mais “mo-


derno” de não ocorrer justaposição ou conciliação de contrários, mas
alteração do texto das Ordenações por determinação expressa da lei
extravagante. Foi o que aconteceu com os alvarás de 13 de novembro
de 1642 e 6 de dezembro de 1651, que revogavam a disposição que
permitia ao juiz ordinário ser analfabeto.28

c) Admissão da excepcionalidade, sem revogação da Ordenação em contrário – é


disso que preferencialmente tratamos aqui, como característica mais
típica do casuísmo, ductilidade e pluralismo das fontes do Antigo
Regime. Ela ocorria de forma explícita, quando o próprio rei admitia
a exceção, ou de forma tácita, representada por seu acolhimento nos
tribunais do reino ou dos domínios, particularmente a Casa da Su-
plicação, ou pelo reconhecimento dos efeitos jurídicos de seus atos.
Existem muitos exemplos.

56 C a r t a M en sa l • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 39-62, maio 2010


Na forma explícita, correspondia à fórmula declaratória “sem em-
bargo da Ordenação em contrário”, como no caso da autorização
para os casamentos, na terra jurisdicionada, dos ministros de letras.

Na forma tácita, pode ser lembrada a mencionada tolerância com


o parentesco de vereadores e tabeliães, a aceitação de validade dos
atos de câmaras municipais cuja composição numérica se fazia em
desacordo com o determinado nas Ordenações, mas que se admi-
tiam para certos locais e momentos históricos ou ainda as citações
judiciais que observavam as circunstâncias da terra e não a norma
processual vigente.

A não aplicação da norma implicava em admitir a excepcionalidade


da situação que se buscava solucionar pela aplicação de um remédio
casuístico, válido apenas in casu, não obstante poder ser invocado em
situações semelhantes como precedente.

Tratava-se, para o caso concreto, de solução juridicamente consoli-


dada, sem risco de anulação, mas que se subordinava à norma geral
contrária para todos os demais casos contemporâneos ou futuros.
A evolução posterior da solução tinha fortuna diversificada: poderia
consolidar-se como norma jurídica subsidiária às Ordenações, como
“costume da terra” no caso das citações judiciais e das escrituras
por instrumento particular, norma por sua vez admitida tacitamente
no primeiro exemplo ou por lei extravagante, no segundo; ou sim-
plesmente ser recusada a partir de certo momento, eliminando-se a
admissão de excepcionalidade, como ocorreu no caso do parentesco
dos vereadores e tabeliães.

d) Admissão da excepcionalidade, sem revogação da lei extravagante em con-


trário – a admissão de excepcionalidade para descumprimento de lei
extravagante seguia o mesmo curso das normas contidas nas Orde-

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 39-62, maio 2010 57


nações. Assim, a impossibilidade de cumprir determinada legislação
extravagante implicava em seu reconhecimento expresso ou tácito
pela ordem normativa vigente.

Exemplo claro dessa situação ocorreu após a promulgação da lei da


Boa Razão, quando os juristas pombalinos procuraram restringir ao
máximo o uso do direito romano, como forma de combater a dis-
persão doutrinária e jurisprudencial que viam ocorrer em detrimento
“das Leis Pátrias, fazendo-se uso somente das dos Romanos”.29
Embora tenha sido muitas vezes interpretado como o puro e sim-
ples banimento do direito romano da ordem jurídica portuguesa,
constata-se na verdade que continuou a se admitir a invocação de
preceitos desse, porém com a prévia autorização do Desembargo do
Paço nos processos, sobretudo em matéria de constituição de provas.
A principal razão arguida por aqueles que combatiam a sua admissão
estava no estímulo às dilações processuais que, segundo eles, a sua
prática provocava. Entretanto, foi corrente nos tribunais portugueses
e coloniais não apenas a solicitação de seu uso, na fórmula de pedir
licença “pela prova de direito comum”, como a sua admissibilidade
pelo Desembargo do Paço.30

Ao que se constata, portanto, a norma portuguesa, nas Ordenações


ou fora dela, inclusive nas leis extravagantes de origem pombalina,
revelou-se igualmente casuísta, dúctil e pluralista, contra a expecta-
tiva dessa burocracia ilustrada, preocupada em “tudo nivelar ante o
absolutismo”.

A experiência colonial foi sem dúvida elemento fundamental para


aprofundar casuísmo, ductilidade e pluralismo, funcionando como
contrafação portuguesa ao princípio do se acata pero no se cumple do
direito indiano espanhol.

58 C a r t a M en sa l • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 39-62, maio 2010


Notas

1 Arno Wehling, O Estado no Brasil Filipino, in Feliciano Barrios (ed.),


El gobierno de um mundo, Virreinatos y Audiências em la América Hispânica,
Cuenca: Universidade de Castilla-La Mancha, 2004, p. 943-988. Maria
José Wehling, O Estado do Maranhão na União Ibérica, idem, p. 989-1.022.

2 Antonio Vanguerve Cabral, Prática Judicial, Lisboa, A. P. Galram,


1729, p. 69.

3 Ibidem. Stuart Schwartz, Burocracia e sociedade no Brasil colonial, São


Paulo: Perspectiva, 1979. Arno Wehling e Maria José Wehling, Direito
e justiça no Brasil colonial, o Tribunal da Relação do Rio de Janeiro, Rio de
Janeiro: Renovar, 2004.

4 Fernão Cardim, Tratados da Terra e Gente do Brasil, Lisboa: CNCDP,


1997, ed. de Ana Maria Azevedo, p. 9.

5 Sebastião da Rocha Pita, História da América Portuguesa, São Paulo:


Edusp-Itatiaia, 1978, p. 21.

6 Heloisa L. Bellotto, “O estado português no Brasil: sistema admi-


nistartivo e fiscal”, in Maria Beatriz Nizza da Silva, O Império Luso-
Brasileiro, Lisboa: Estampa, 1986, p. 261ss. Arno Wehling e Maria José
Wehling, Formação do Brasil colonial, Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
2008 (1994), p. 335.

7 Ordenações Filipinas, Livro V, tit. CXXXIX.

8 Antonio Vanguerve Cabral, op. cit, p. 124.

9 Assento CCCXXX, da Casa da Suplicação, de 20 de novembro de

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 39-62, maio 2010 59


1760. Cândido Mendes de Almeida, Auxiliar Jurídico, Lisboa: FCG,
1985, vol. I, p. 250.

10 Antonio Vanguerve Cabral, op. cit., parte II, p. 44, com previsão
nas Ordenações, L. I, tít. LXV.

11 Waldemar Ferreira, História do direito brasileiro, São Paulo: M. Li-


monad, 1954, p. 186.

12 Arno Wehling e Maria José Wehling, Direito..., op. cit., p. 565.


Vanguerve menciona casos de três cartas concedidas em Angola e
Pernambuco; Antonio Vanguerve Cabral, op. cit, parte I, p. 36-38.

13 Antonio Vieira, “Sermão da 3a dominga da Quaresma”, in Antonio


Vieira, Sermões, Lisboa: Lello e Irmão, 1951, vol. IV, p. 162.

14 Antonio Vanguerve Cabral, op. cit, parte I, p. 4.

15 Sobre a questão da modesta implementação dos juizados de fora


ao longo do século XVIII, em contraste com a aceleração percebida
no período joanino brasileiro, Arno Wehling, O estado joanino no
Brasil, in Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, vol. 435,
abr./jun. 2007, p. 82ss.

16 O universo do costume é praticamente desconhecido no mundo


colonial brasileiro. Para a dominação espanhola, o potêncial conflito
entre a lei metropolitana e o costume local é estudado por Victor Tau
Anzoátegui, El poder de la costumbre, Buenos Aires: IIHD, 2001, p. 43ss.

17 Arno Wehling, “O escravo ante a lei civil e a lei penal no Império”,


in Antonio Carlos Wolkmer, Fundamentos de história do direito, Belo
Horizonte: Del Rey, 2001, p. 374ss.

60 C a r t a M en sa l • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 39-62, maio 2010


18 Arno Wehling e Maria José Wehling, Direito..., op. cit., p. 497.

19 Antonio Vanguerve Cabral, op. cit., parte I, p. 104.

20 Raimundo José de Sousa Gaioso, Compêndio histórico-político dos


princípios da lavoura do Maranhão, São Luis: Sudema, 1970, p. 250.

21 Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Chancelaria de D. Maria


I, Livro 60, fl. 54.

22 Victor Tau Anzoátegui, Casuismo y sistema, Buenos Aires: IIHD,


1992, p. 97ss.

23 Para um contexto não ibérico, mas que guarda semelhanças estru-


turais do Antigo Regime, François Olivier Martin, Les lois du Roi, Paris:
L.G.D.J., 1997, p. 290ss. Hilton L. Root, La construction de l’État moderne
em Europe – La France et l’Angleterre, Paris: PUF, 1994, p. 311ss.

24 Arno Wehling e Maria José Wehling, Direito..., p. 447ss.

25 Cândido Mendes de Almeida, Comentário, in Ordenações Filipinas,


Livro I, p. 154.

26 Sebastião da Rocha Pita, Tratado Político, Rio de Janeiro: INL,


1973, p. 49-50.

27 Cândido Mendes de Almeida, Auxiliar…, vol. I, p. 278.

28 Cândido Mendes de Almeida, Comentário, Ordenações.. Livro I,


p. 189.

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 39-62, maio 2010 61


29 Lei da Boa Razão, in Cândido Mendes de Almeida, Auxiliar...,
vol. II, p. 454.

30 Arno Wehling e Maria José Wehling, “O reformismo ilustrado e


o problema do direito comum”, in Direito..., p. 463.

Palestra pronunciada em 19 de maio de 2010

62 C a r t a M en sa l • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 39-62, maio 2010


O novo perfil da indústria
automobilística

Sydney A. Latini
Economista

A
“ indústria do automóvel vem sofrendo os efeitos da crise eco-
nômica global mais do que muitos outros setores. Tão profun-
damente, de fato, que está sendo compelida a repensar seu modelo
empresarial completamente. Cada crise faz-nos reconsiderar nossa
maneira tradicional de ver as coisas. Essa última crise está nos obri-
gando a agir nessa direção mas com a complexidade adicional, que já
vem se configurando há muito tempo, de adotar soluções coerentes
do ponto de vista ambiental.”

Assim Sérgio Marchione, principal executivo dos grupos FIAT e


Chrysler, inicia sua entrevista à publicação The Economist, sob o título
“Rethinking the car industry” (Repensando a indústria do automóvel).

A partir dos anos 70, a indústria japonesa, de um modo geral –

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 63-84, maio 2010 63


particularmente a indústria automobilística – adquiriu capacidade
competitiva inédita, superando as empresas ocidentais nos padrões
de qualidade, eficiência e rendimento, o que estimulou a disseminação
de um modelo japonês, “lean production”, sustentado por métodos
como “just in time”, “total quality control”, “total quality manufac-
turing”, “Kaisen” e outros.

As fábricas americanas e europeias continuam dominando excelen-


te tecnologia, no mínimo igual à dos japoneses, ou até melhor. Os
japoneses, no entanto, são quase sempre superiores na capacidade
de melhorar fábricas e equipamentos existentes, aperfeiçoando fer-
ramentas, eliminando defeitos, aumentando o aproveitamento da
área útil e assim por diante. A conclusão é que os americanos, ao que
parece, encontram dificuldade para aproveitar ao máximo o que têm.

Os avanços pioneiros do Japão e dos NICs (Newly Industrialized


Countries) sobre as economias europeia e norte-americana, median-
te formas e processos produtivos diferentes nos países ocidentais,
atingiram de modo especial a indústria automobilística, provocando
alterações inéditas em sua capacidade produtiva, no caráter da com-
petição e no desempenho industrial.

Em conferência sob o título “Lições do capitalismo japonês”, publi-


cada na Carta Mensal de dezembro de 1993, tivemos oportunidade
de analisar as consequências da competição asiática (da japonesa em
particular àquela época) sobre a economia americana.

Os dois choques do petróleo (1973 e 1979) e mais recentemente a


grave recessão abalaram profundamente a economia mundial. Ainda
dessa vez, a indústria automobilística, foi das primeiras a acusar o
golpe.

64 C a r t a M en sa l • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 63-84, maio 2010


Acrescente-se aos fatores conjunturais mencionados, os próprios
problemas internos das três grandes fábricas sediadas em Detroit e
encontraremos a explicação para o terrível abalo que sacudiu quase
mortalmente sobretudo a General Motors, a maior fábrica de veículos
do mundo durante décadas e o símbolo por excelência do vigor do
capitalismo americano, agora, também severamente abalado.

Quando caiu o muro de Berlim, em 1985 e desmoronou o império


soviético e seu regime comunista, ficou cada vez mais evidente para
os observadores mais atentos que a derrota do comunismo não signi-
ficava, necessariamente, a vitória automática do capitalismo, sobretudo
do capitalismo anglo-saxão. A dominação absoluta do Estado sobre
a economia, que caracterizava o regime comunista soviético e seus
satélites, asfixiou sua economia durante décadas, até o reconhecimento
de sua ineficiência pelos seus próprios seguidores. Sua abolição, no
entanto, parece não estar endossando o reconhecimento tácito da
eficiência de um liberalismo econômico que nega a corresponsabi-
lidade do Estado na promoção do desenvolvimento e do bem-estar
social, ao lado da iniciativa privada, protegendo-a, estimulando-a e
vigiando-a, sem asfixiá-la.

A tragédia que se abateu sobre a economia mundial, a partir de 2008,


e atingiu principalmente os Estados Unidos, o paraíso da economia
liberal, ocasionou a maior humilhação de sua empresa-símbolo, a
General Motors, que, para sobreviver, viu-se na contingência de
transferir o controle de seu capital ao governo dos Estados Unidos. A
maior (ou uma das maiores) empresa privada americana foi estatizada
(espera-se que provisoriamente).

Em 1908 ocorreram dois acontecimentos na história da indústria


automobilística que teriam significação duradoura: William C.

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 63-84, maio 2010 65


Durant partindo de sua base na Buick Motor Company, constituiu a
General Motors Company – predecessora da atual General Motors
Corporation – comprando 39 empresas, incluindo Cadillac, Pontiac,
Oldsmobille, Chevrolet, bem como vários fabricantes de autopeças,
administrando-as como empresas autônomas.

No mesmo ano Henry Ford anunciou o modelo T. Cada um desses


acontecimentos representa mais do que as companhias e os res-
pectivos carros. Representa diferentes pontos de vista e filosofias
diferentes. A história teria de designar a essas filosofias papéis de
liderança na indústria automobilística em períodos sucessivos. O de
Henry Ford teria de vir primeiro para durar dezenove anos – vida
do modelo T – trazendo-lhe fama imortal, cujo bicentenário vem de
ser comemorado e também relembrado em palestra neste conselho.

Enquanto Henry Ford baseou seu sucesso na fabricação do modelo


único, de preço acessível à classe média, a General Motors apostou
no lançamento de um novo modelo a cada ano, de cada uma das
marcas que constituíam o seu conglomerado de unidades industriais
autônomas.

O trabalho pioneiro de William C. Durant está ainda para receber o


reconhecimento que merece, segundo observadores mais atentos da
história do automóvel.

A filosofia de Durant surgiu na era do modelo T e teria de realizar-se


mais tarde, não por meio dele (Will Durant), mas de outros, cabendo
destacar Charles Erwin Wilson e Alfred P. Sloan Jr., os construtores
das redes de distribuição de veículos – as franquias – responsáveis
pela rápida aceitação do uso do automóvel pela sociedade americana
e sua disseminação no mundo.

66 C a r t a M en sa l • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 63-84, maio 2010


Até 2008, quando foi superada pela Toyota, a GM foi a maior fábrica
de automóveis do mundo, produzindo, até o início da crise, acima de
9 milhões de automóveis e caminhões por ano em 34 países. Tem (ou
tinha) 463 subsidiárias e empregava (ou emprega) 234.500 pessoas,
91.000 das quais nos Estados Unidos onde também proporciona
assistência à saúde e benefício de pensão a 493.000 aposentados, só
nos Estados Unidos gasta (ou gastava) 50 bilhões de dólares por ano
comprando autopeças e serviços de uma rede de 11.500 fornecedores
despendendo 476 milhões de dólares por mês. Entre todos os núme-
ros positivos que exibe, um negativo se destaca: contra-ativos de 82,2
bilhões de dólares, a GM tem um passivo de 172 bilhões. Um ano
antes constatando que a GM enfrentava um sério problema de caixa,
o responsável pelo setor financeiro tentou levantar US$ 3 bilhões,
mediante a venda de obrigações ou ações. Quando ficou claro, depois
do colapso do Lehman Brothers em setembro último, que não havia
também chance de sucesso, tentou vender alguns ativos fixos. Isso
também falhou. Mais recentemente conseguiu vender sua fábrica do
Hummer, ao que parece, por preço bem inferior aos 500 milhões de
dólares que pretendia. Em novembro a cotação das ações de GM
caiu para 3 dólares. A única possibilidade que pareceu ainda viável foi
recorrer ao governo federal dos Estados Unidos. Outra chance ainda
se ofereceu com as negociações, finalmente bem-sucedidas, com a
União dos Trabalhadores na Indústria Automobilística (UAW) que
resultariam na transferência das dívidas do programa de assistência
médica a um fundo administrado pela referida união de trabalhadores
e na redução de benefícios aos empregados que passassem a ser ad-
mitidos, aos mesmos níveis praticados pelas suas concorrentes, como
Toyota e Honda. Um mês depois (em outubro) a cotação das ações da
GM elevou-se para 43 dólares, a mais elevada dos últimos três anos.

Grande esforço foi realizado para reduzir custos e aprimorar a quali-

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 63-84, maio 2010 67


dade de tal forma que os preços de venda dos carros de suas marcas
tornem-se competitivos com os do seu grande concorrente, a Toyota.

De acordo com os mais autorizados analistas da indústria automo-


bilística, no entanto, o sucesso das subsidiárias da GM no exterior,
principalmente nos países de economia emergente, foi talvez o prin-
cipal fator para reanimar o seu desempenho, em termos globais, e
reacender a esperança em sua recuperação, tendo em vista que suas
vendas no exterior passaram a representar 65% das vendas totais. A
GM há muito tempo tornou-se uma das mais importantes produtoras
na América Latina (principalmente no Brasil e no México), mas na
China e na Rússia, mais recentemente, foi uma das primeiras fabri-
cantes estrangeiras a implantar fábricas. Na China, em “joint-venture”
com a SAIC (Shangai Automotive Industry of China) a GM tem agora
uma participação de 12% de um mercado que, segundo indicam as
previsões mais atentas, ultrapassará muito cedo a sua participação no
mercado dos Estados Unidos.

O Governo dos Estados Unidos que subscreveu 30 bilhões de dólares


da GM, em aditamento aos 20 bilhões anteriormente postos à sua dis-
posição, recebeu 60,8% das ações da empresa. O governo canadense
que está disponibilizando US$ 9,5 bilhões, terá uma participação de
11,7% no capital acionário da GM. O fundo da UAW terá 17,5% e
os portadores de ações 10%. Não obstante o tamanho se sua partici-
pação, o governo dos Estados Unidos tem demonstrado sempre ser
um acionista relutante e que permanecerá ausente da administração
da empresa. Espera que dentro de 18 meses (a partir de setembro de
2009) a GM volte a ter condições de oferecer novamente suas ações
no mercado aberto, e que estabilize sua participação de vendas no
mercado de veículos, em torno de 18,5%. Mas terá menos marcas
e revendedores e seus concorrentes estarão atentos à sua retração

68 C a r t a M en sa l • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 63-84, maio 2010


no mercado. A Volkswagen, por exemplo, está planejando um as-
salto. Está construindo uma nova fábrica nos Estados Unidos com
capacidade para produzir 250.000 veículos por ano e está disposta a
triplicar sua participação no mercado de 2% para 6% até 2018, com
vendas de 800.000 unidades.

Na Chrysler o enfrentamento da crise parece estar ocorrendo de


forma menos dramática. A FIAT, que ficará responsável pela adminis-
tração da empresa, terá 20% da nova companhia, que poderá chegar
a 35% se forem atingidos certos objetivos. Um fundo da união de
trabalhadores terá 55% e o governo 10%.

A FORD adotou uma estratégia mais conservadora diante da crise


generalizada, abstendo-se, até agora, de recorrer ao governo. Os
observadores mais atentos da indústria automobilística – que vimos
mencionando no decorrer desse comentário – notam que “os poucos
americanos que compram carros levando em conta razões patrióticas
estão mais inclinados a prestigiar os produtos da FORD, em home-
nagem à sua resistência em evitar o pedido de socorro ao governo,
como fizeram seus tradicionais concorrentes americanos”.

Detroit, a ex-poderosa capital mundial do automóvel, vive seu ocaso.


Grandes montadoras americanas e europeias definham. É o fim da
indústria automobilística? Não. É o começo de uma nova era para
um dos setores mais importantes da economia mundial.

Enquanto nos Estados Unidos a indústria automobilística enfrenta


à mais grave crise de sua história em meio também à mais rigorosa
recessão de que se tem memória, na outra extremidade do mundo –
principalmente na China e na Índia – esse mesmo segmento industrial
desfruta de desenvolvimento sem precedente, como já havia ocorrido

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 63-84, maio 2010 69


há algumas décadas no Japão e na Coreia. É o renascimento da Ásia
que prossegue.

A China produziu e vendeu em 2009, 13,6 milhões de carros, um


aumento de 45% em relação ao ano anterior. Com isso o país já é o
maior produtor de automóveis do mundo, como vem de anunciar a
Associação da Indústria Automobilística da China.

No corrente exercício de 2010 a China deve fabricar e vender 15


milhões de automóveis o que significa um aumento de 10% em re-
lação ao ano passado, ainda de acordo com previsão daquela mesma
entidade.

Impactado pela crise financeira internacional, o setor automobilístico


da China não deixou de necessitar das interferências do governo.
Em janeiro de 2009, o governo promulgou o Programa de Reajuste
e Revitalização do Setor Automobilístico para promover a fusão e
reestruturação de empresas, intensificar a renovação autônoma e
criar novas vantagens para competição no mercado. Orientado pelo
governo lançou uma série de políticas e medidas para a promoção
do consumo de carros. Graças a esse esforço a produção e vendas
de carros superou a marca de 1 milhão de unidades por mês, por
vários meses consecutivos. Cabe notar que o mercado chinês tem um
grande potêncial, já que a densidade de automóveis de passageiros/
habitantes ainda é de 218 habitantes por veículos (a maior do mun-
do). Se incluirmos no cálculo os veículos comerciais (principalmente
caminhões) esse número cai para 107 por habitantes, também a maior
do mundo. Comparados com os do Brasil esses índices (no final do
ano 2000) eram os seguintes: habitantes/automóveis de passageiros,
13,0; habitantes/total de veículos, 10,9. Quando comparado com os
Estados Unidos a realidade do mercado americano na mesma data

70 C a r t a M en sa l • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 63-84, maio 2010


era a seguinte: habitantes/automóveis de passageiros, 2,1; habitantes/
total de veículos, 1,2.

Entre 1995 e 2005 a frota particular de veículos na China aumentou


mais de dez vezes chegando a 13,8 milhões de unidades. Ao fim de
2008, eles já eram quase 20 milhões.

O impacto no comportamento da população é visível. Assim como


aconteceu no Ocidente, muitos chineses começaram a usar o carro
para ir aos “shoppings” das grandes metrópoles ou para viajar ao
campo nos fins de semana. “Drive-Thru”, postos de gasolina, estacio-
namentos e clubes de carros nascem e proliferam em uma velocidade
espantosa. Revistas especializadas e lojas de acessórios para carros
surgem às centenas e, desde 2004, o país é sede de uma corrida de
Fórmula 1, o G.P. de Xangai.

A China tem mais de uma dezena de fábricas de veículos de marcas


locais independentes. A Cherry é uma empresa jovem (começou
em 2000), a maior entre as de capital 100% chinês. Atua tanto no
mercado interno, quanto externo. Em pouco tempo construiu 11
instalações industriais em 10 países, exporta para mais de 70, porém
para nenhum do chamado primeiro mundo. Instalada no Uruguai em
sociedade com o grupo Argentino Macri, começa a vender agora,
segundo anúncio, o utilitário esporte compacto Tiggo. Embora se
caracterize operação de simples montagem, as regras do Mercosul
permitem a exportação ao Brasil sem pagamentos do pesado imposto
de importação de 35%. Pretende dispor de uma rede de mais de 70
concessionárias e venda no total, 10.000 unidades.

Dono de uma fortuna de mais de US$ 5,1 bilhões, Wang Chuanfu, o


homem mais rico da China proprietário da montadora BYD (a sigla
pode ser traduzida como “Build Your Dream”; construa seus sonhos

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 63-84, maio 2010 71


na versão oficial, ou como “Bring your Dollars”, traga seus dólares,
em uma tradução mais informal), sonha com o Brasil, quer produzir
carros no País e já está à procura de parceiros. Será a 12ª unidade
da empresa no mundo que, fora da China, produz automóveis na
Índia, na Romênia e na Hungria. Segundo declarações recentes de
Wang Chuanfu, a BYD será a maior montadora da China em 2015 e
a maior do mundo em 2025.

A BYD é tida como uma das mais avançadas do mundo nas pesqui-
sas para o desenvolvimento de modelos elétricos e híbridos. O seu
modelo híbrido F3DM, recarregável, custa o equivalente a R$ 35
mil, metade do preço estimado para o Volt, a grande aposta da GM.

A grande posição de vanguarda da BYD, que está desenvolvendo


modelos capazes de rodar 300 quilômetros com uma única recarga
elétrica, também atraiu um sócio muito especial. Recentemente, o
financista Warren Buffet, considerado o homem mais rico do mundo
e dono da Berkshire Hathaway, comprou uma participação de 10%
na BYD.

Segundo se anuncia, até agora, Wang Chuanfu já sondou dois po-


tenciais sócios no Brasil. O primeiro, o bilionário Eike Batista, que
assim como Wang Chuanfu, é também o homem mais rico de seu
País. O segundo, o empresário Carlos Alberto de Oliveira Andrade,
sócio da montadora coreana Hyundai.

Já passou o tempo em que montadoras como a Shangai Automotive


Industry, a First Automotive Works e Dongfeng Motor dependiam
de “joint ventures” com fábricas estrangeiras para a produção de
automóveis. Hoje, essas montadoras se associaram com a Brilliance
Auto, a Cherry, a Geely e muitas companhias locais tanto para lançar
quanto anunciar planos para produzir veículos de marca. Em 2007 a

72 C a r t a M en sa l • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 63-84, maio 2010


China exportou mais de 500 mil carros e caminhões – mais de 70%
deles de marcas chinesas – para a África, Leste Europeu, América
Latina, Rússia e Sudesse Asiático.

A indústria chinesa caracteriza-se, por enquanto, por um emara-


nhado de marcas e participações cruzadas, envolvendo inclusive
os governos central e provinciais. Sem contar as associações com
marcas estrangeiras consolidadas. FIAT e RENAULT são as únicas
que não possuem acordos de produção lá. É comum comparar as
trajetórias de japoneses e coreanos com a nova onda que se forma
no Oriente. Afinal os japoneses levaram 40 anos para chegar aonde
estão e os coreanos 30 anos, por que dúvidar de que os chineses não
o farão em 20 anos?

De fato, hoje a indústria mundial de peças e componentes está mais


livre e solta para vender para quem quiser. Estúdios de desenho in-
dependentes podem ser contratados em qualquer tempo.

“A China é o lugar perfeito para se pensar qual será o futuro da mo-


bilidade”, diz o designer Olivier Boulay, de 52 anos, diretor de design
da divisão chinesa, uma das cinco que a Mercedes opera no mundo.
Boulay se mudou para a China o ano passado. “É meu trabalho
aqui – dessacou recentemente – direcionar a equipe a ser criativa e
imaginar o futuro mundial do automóvel a partir de Pequim”. Bou-
lay preconiza uma mudança profunda na indústria automobilística.
Enquanto o mercado chinês se expande, as montadoras mundiais
tomam cada vez mais decisões de design na China. O resultado é que
as tendências locais de consumo são refletidas em modelos vendidos
em todo o mundo.

As grandes montadoras, a General Motors Co., a Volkswagen AG


e a Toyota, estão despejando recursos na China, que tornou-se o

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 63-84, maio 2010 73


maior país produtor de automóveis do mundo. As consequências
dessa mudança ficaram claramente visíveis no Salão do Automóvel
de Tóquio, realizado em novembro último.

Depois de sair da recuperação judicial, em julho de 2009, a GM


transferiu sua sede internacional para Xangai, onde tem sua principal
“joint venture” no país, com a Shangai Automotive Industry Corp. E
a Ford Motor Co. decidiu recentemente transferir sua sede na região
da Ásia e Oceania de Bancoc, na Tailândia, para a China.

A GM já tem três carros mundiais projetados com aspectos inspirados


na China: os modelos La Crosse e Regal, da marca Buick e o Chevy
Cruise. O La Crosse surgiu de um carro-conceito chamado Invicta
GM desenvolvido pelos centros de design da montadora em Xangai
e Warren, no Estado americano de Michigan.

Em um turbilhão de inovações, os chineses prometem para o final


desse ano a chegada ao mundo do primeiro carro elétrico com auto-
nomia de 400 quilômetros segundo afirmam, o dobro dos projetos
da concorrência.

É natural que esses novos mercados em ascensão – China, Índia e


Brasil, entre eles – atraiam as montadoras tradicionais e abram espaço
para o surgimento de uma nova indústria. E é delas que vêm algumas
das maiores inovações no mercado de carros. O Nano, da indiana
Tata Motors, não é um prodígio da tecnologia. Sua maior qualidade
está no fato de ter sido concebido para um mercado da base da pirâ-
mide mundial, para pessoas que sonham em ter um automóvel, mas
que jamais comprariam um modelo convencional. Ao apresentar seu
carro, Ratan Tata, dono da Tata Motors, usou o que os teóricos W.
Chan Him e Renée Manborque chamaram de “estratégia do oceano
azul”. Ele criou um novo mercado. Esse novo mercado tem como

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consequência um deslocamento geográfico. A fábrica provisória
da Nano fica em Pantuagar, ao norte da Índia, e emprega cerca de
10.000 funcionários diretos e indiretos, que ganham em média 1,40
dólar por hora trabalhada.

Os candidatos a roubar um grande naco do poder de Detroit devem


passar por muitas provas para demonstrar a consistência de seus
avanços. A produção chinesa, por exemplo, ainda não enfrentou o
teste de fogo de mercado mais rigoroso, como o dos Estados Unidos.
As dúvidas que pairam sobre o Nano dizem respeito à sua confiabi-
lidade mecânica e à segurança, além da capacidade da Tata Motors
de conseguir produzir um volume capaz de atender a demanda pelo
modelo. A viabilidade comercial do projeto começou a ser testada nos
últimos meses, quando se iniciaram as vendas do modelo compacto
e esportivo de 2.000 dólares. Somente nos cinco primeiros dias a
Tata Motors registrou mais de 50.000 pedidos pelo sistema em que
o cliente preenche um formulário e paga o equivalente a 10 dólares
para fazer a reserva do automóvel (para efeito de comparação, esses
50.000 pedidos equivalem a 18% da produção total mensal brasileira
de carros comerciais leves).

As grandes mudanças na configuração de poder da indústria auto-


mobilística mundial devem ser aceleradas pela crise financeira que
aprofundou as fragilidades das velhas montadoras e gerou um colap-
so sincronizado na indústria mundial de automóveis. Dos Estados
Unidos à Ásia, os mercados começaram a enfrentar problemas em
2008, quando uma queda de quase 10% nas vendas globais de veí-
culos interrompeu um ciclo de seis anos de recordes em vendas. Em
2009, a demanda por carros deve ter caído mais de 20%, segundo
estimativas mais recentes. “O que está acontecendo hoje nunca foi
visto antes em tempos de paz”, afirmam os principais analistas da
indústria automobilística mundial.

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 63-84, maio 2010 75


A escassez de crédito e a crise de confiança dos consumidores atin-
giram em cheio um mercado dependente de financiamentos. Nos
Estados Unidos e na Índia, por exemplo, cerca de 75% dos veículos
zero-quilômetro são financiados. No Brasil, a proporção é superior
a 50%. Entre os grandes mercados, a China é uma exceção, com
um índice em torno de 20%, que vem aumentando, ainda assim,
nos últimos meses do ano passado as vendas ficaram estagnadas,
algo inédito em quase duas décadas. Nos Estados Unidos, ao longo
desses dois últimos anos, as Big Three sofreram retrações de vendas
variando de 20% a 30%.

Parece evidente que o cenário de problemas generalizados é passa-


geiro e que, quando essa crise chegar ao fim, haverá perdedores e
ganhadores. E a luta para ficar do lado dos vencedores, no caso do
setor automobilístico, extrapola os limites dos negócios. É quase uma
questão de Estado. “A indústria automobilística é a mais importante
do mundo, por isso há tantos interessados em salvá-la”, afirmou re-
centemente à revista EXAME, o consultor Jim Harbom, ex-diretor
da Chrysler que se tornou uma das vozes mais respeitadas do setor
quando previu, nos anos 80, a possibilidade de avanço das montadoras
japonesas sobre os Estados Unidos. Desde que assumiu a Presidência,
Barack Obama – que tem em Michigan uma de suas principais bases
eleitorais – tenta achar alternativas para dar sobrevida à Chrysler e à
General Motors. Em cerca de um ano, montadoras japonesas – entre
elas a líder Toyota – pediram pacotes de incentivo governamental.
O Estado alemão oferece desconto de 3.300 dólares aos consumi-
dores que trocarem seus carros velhos por modelos novos e menos
poluentes. Com o incentivo as vendas cresceram 40%, beneficiando
sobretudo a Volkswagen. Desde o início do programa, as vendas da
montadora triplicaram. Com isso, a crise chegou a Wolfsburg, onde
fica a sede da montadora, em uma intensidade bem diferente da do

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vendaval que apanhou Detroit. No Brasil, a redução do IPI na ven-
da de carros e o maior acesso ao crédito ajudou o mercado a voltar
a patamares semelhantes aos atingidos em 2008, o melhor ano da
indústria automobilística no Brasil, até então.

Apesar da gravidade do quadro atual da indústria, os especialistas


apostam que há chance para uma recuperação a partir do exercício
corrente de 2010, com a volta da demanda aos números pré-crise
em 2012. No momento da retomada, os países emergentes são os
favoritos a sair na frente. O principal determinante, que vai além das
vantagens de custo de produção e da mão de obra: é neles que estão os
compradores. É para brasileiros, chineses, indianos e indonésios que as
montadoras de todo o mundo venderão em longa escala. Como fazer
isso na Alemanha ou na Itália, onde há quase tantos carros quanto
habitantes? Uma montadora que pretende ganhar espaço nos próxi-
mos anos vai ter de dar prioridade aos emergentes. Até 2015, segundo
as previsões mais autorizadas, o crescimento do setor no País para o
mercado brasileiro encostará no japonês em termos de participação
nas vendas mundiais de veículos, com 5,4%, ante 6%. Diante desse
tipo de projeção, as multinacionais tendem a acelerar iniciativas não
apenas para vender mais carros no Brasil mas também no sentido de
transformar o País em uma base de exportação mundial de carros.

Um exemplo de crescimento da importância das operações brasileiras


no cenário mundial é o da Mitsubishi Motors. A empresa brasileira
não tem nenhuma participação acionária da Mitsubishi no Japão.
O empresário paulista Eduardo Souza Ramos é o controlador do
negócio. Ele começou em 1991 como importador de modelos da
marca e, oito anos depois, montou uma fábrica para produzir carros
licenciados pela montadora japonesa. “Demorei oito anos para ser
recebido pela primeira vez no Japão e 18 anos para que eles viessem

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 63-84, maio 2010 77


conhecer as operações brasileiras”, revelou Souza Ramos em entrevis-
ta à revista EXAME. Nesse período era quase impossível conseguir
licenças para produção local dos modelos mais modernos. Sobraram
ao País apenas as linhas mais antigas, já descontinuada nos principais
mercados. De um ano para cá, porém, tudo mudou. Em outubro de
2008, Osama Masuka, presidente mundial da Mitsubishi, veio co-
nhecer a operação brasileira e, em seguida, Souza Ramos embarcou
para o Japão. Voltou de lá trazendo a autorização para produzir aqui
qualquer modelo, incluindo os que devem ser lançados no Japão nos
próximos cinco anos.

O Brasil é uma grande base de produção de automóveis sem ter uma


indústria nacional. Outros países emergentes, como a Índia e a China,
têm estratégias diferentes. A China abriga hoje 14 grandes montadoras
nacionais. O governo chinês trabalha para fundir empresas, reduzindo
esse número para, no máximo, dez montadoras. A ideia é que o país
tenha as suas Big Three, algumas delas com vendas anuais de mais de
2 milhões de veículos, o equivalente hoje ao volume de marcas como
a Chevrolet nos Estados Unidos.

O fortalecimento das indústrias indiana e chinesa poderá ainda ser


acelerado com a aquisição de marcas estrangeiras. Em 2008, a india-
na Tata Motors comprou as divisões de luxo da Ford, Jaguar e Land
Rover, por 2,6 bilhões de dólares.

O conjunto de erros que levaram Detroit à beira do precipício parece


elementar demais quando vistos aos olhos de hoje, mas as medidas que
poderiam evitá-los não eram tão simples e óbvias nos momentos em
que deveriam ser tomadas. Os custos trabalhistas que as montadoras
carregam hoje são absurdos. Mas seria a melhor tática bater de frente
no passado com a United Auto Workers, o poderoso sindicato de

78 C a r t a M en sa l • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 63-84, maio 2010


Detroit, que chegou a paralisar as fábricas da GM na cidade por 67
dias em 1970, durante uma histórica discussão trabalhista?

Apesar da situação periclitante em Detroit e dos enormes desafios


diante da nova concorrência, ninguém ainda pode decretar a morte
das Big Three.

É possível que, em um processo de recuperação judicial, a empresa


seja dividida em duas partes. A banda podre teria suas dívidas com
credores e fornecedores suspensos, enquanto a “GM boa” ficaria com
as marcas Chevrolet e Cadillac, mas sem os encargos pesados que
esses negócios carregam hoje, ajudando a formar o núcleo de uma
nova e mais eficiente companhia. Segundo os mesmos acontecimen-
tos parecem indicar, as Big Three vão continuar ocupando um espaço
relevante, embora não voltem a desempenhar a liderança mundial.
Em outros termos: Detroit terá um lugar garantido na nova ordem
da indústria automobilística, porém não será mais a única força – nem
a mais importante.

Paralelamente à crise financeira a indústria automobilística vem en-


frentando outro desafio: a preconizada proximidade da era do carro
elétrico. A rigor, o desafio da substituição do petróleo por outros
combustíveis alternativos, por razões conhecidas: as reservas cada vez
menores de combustível fóssil e a poluição crescente que provoca no
meio ambiente. O uso do etanol, puro ou misturado à gasolina (nos
motores flex-fuel), foi a grande contribuição do Brasil a esse esforço.
Mais de 80% dos veículos automotores produzidos no Brasil são do-
tados daqueles motores. Mais recentemente muito se tem comentado
sobre a proximidade da era do carro elétrico. Tema obrigatório nos
salões internacionais de automóveis, os organizadores da exposição
de Detroit, em janeiro último chegaram a criar uma “avenida” elétrica
só para abrigar expositores que tinham algo a exibir nesse campo.

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 63-84, maio 2010 79


Na realidade, já há veículos puramente elétricos à venda em alguns
países, que possibilitarão em breve recarregar a bateria em uma to-
mada (plug-in). A Tesla vende nos Estados Unidos, sob encomenda,
um carro esporte movido só a bateria. A Mitsubishi foi a primeira a
comercializar um subcompacto no Japão e agora nos Estados Unidos
e na Europa. A chinesa BYD apresentou um carro com novo tipo de
bateria. A Nissan anuncia que vai aceitar pré-encomendas do Leaf. Já
a Chevrolet Volt, que a GM chama de elétrico de autonomia estendida
por um motor/gerador a combustão, começa com 100 exemplares
para os estados da Califórnia e Michigan e pretende vender 10.000
unidades em 2011. A aliança Renault-Nissan faz apostas pesadas:
segundo seu presidente, o brasileiro Carlos Ghosem, em 2020, 10%
dos automóveis vendidos no mundo serão elétricos. Algo como oito
milhões de unidades naquele ano.

De fato, não falta apoio aos elétricos. O Presidente Obama deseja ter
um milhão de veículos na ruas até 2015, com incentivos financeiros.
É preciso considerar, porém, o aumento de consumo de energia
elétrica e o consequente aumento de combustível fóssil para sua
geração e os investimentos necessários para alimentar milhões de
veículos. Ninguém pode ser contra o carro elétrico – econômico,
silencioso e não poluente – mas sem resolver a equação peso-preço-
volume-autonomia-abastecimento, que há mais de um século teima
em resistir, se alcançará apenas uma solução de nicho e não produção
em grandes séries.

O automóvel brasileiro de marca brasileira

Por quanto tempo continuaremos a produzir no Brasil somente carros


de marcas estrangeiras?

80 C a r t a M en sa l • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 63-84, maio 2010


Na década de 50 do século passado, Silveira Sampaio, um espirituoso
comentarista da cena brasileira, escreveu uma peça teatral intitulada
“No país dos Cadillacs”, de grande sucesso. A peça era uma sátira
à nossa extrema dependência de mercadorias importadas. Os auto-
móveis eram o objeto de maior cobiça e o Cadillac era o símbolo
de todas as burlas praticadas para contornar os regulamentos que
proibiam ou dificultavam sua importação, em uma conjuntura de
extrema escassez de divisas.

Na peça teatral de Silveira Sampaio o Brasil aparecia como um País


desenvolvido, que despertava a atenção dos países satirizados como
subdesenvolvidos (simbolizados pelos Estados Unidos). Ao contrário
do que ocorria na realidade, em vez dos brasileiros comprarem dólares
no mercado negro, eram os americanos que compravam cruzeiros
no mercado negro. As mercadorias brasileiras eram contrabandeadas
para os Estados Unidos para escapar dos controles de importação. Os
automóveis da marca DE SOUZA (para lembrar o norte-americano
DE SOTTO), de marca brasileira, era contrabandeado para os Es-
tados Unidos. A sátira localizou muito bem a conjuntura de início
dos anos 50.

Como é notório, a partir de 1956 o Brasil foi pioneiro no planejamento


da implantação da indústria automobilística, incentivando a instalação
no País de subsidiárias das principais fábricas sediadas no exterior.
Hoje a indústria automobilística instalada no País tornou-se o carro-
-chefe do processo de industrialização do Brasil, com a produção de
veículos em condição de utilizar praticamente 100% de autopeças
de produção nacional.

Foi a primeira etapa do esforço de criação de uma indústria automo-


bilística brasileira.

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 63-84, maio 2010 81


Cabe agora realizar a segunda etapa que é a fabricação no Brasil de
veículos automotores de marca brasileira e de concepção brasileira
para atender às peculiaridades do mercado brasileiro e a demanda
crescente de outros países emergentes.

Mas são a China e a Índia que estão surpreendendo o mundo com o


seu progresso nesse setor.

Em entrevista à agência USI no dia 2 de março de 1952, um ano


antes de morrer, Farguhar – o grande “promoter” de expressivos
investimentos estrangeiros no Brasil – disse: “Quando cheguei ao
Brasil em 1905, reinava a impressão entre os brasileiros de que o pro-
gresso econômico e a industrialização só poderiam ser conseguidos
por intermédio de estrangeiros. Desde então, houve uma mudança
notável. Agora os brasileiros fazem tudo sozinhos. Noto um novo
espírito de confiança que é bom augúrio para o futuro.”

Referências:

1 – Oliver Kabuth. “Pioneering versus Following in Emergence Ma-


rkets” – “The Case of the Automotive Industry in China and Brazil”.
Bamberg, Alemanha: Universidade de St. Gallen, 2003.

2 – Sergio Marchione (CEO dos grupos FIAT e CHRYSLER).


“Rethinking the car industry”. The Economist, “The World in 2010”.

3 – “A Giant Falls”. The Economist, 3-ob-2009.

4 – Microline Maynard. “Um símbolo Americano humilhado”. Jornal


do Brasil, cad. Economia, 7-10-2009.

82 C a r t a M en sa l • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 63-84, maio 2010


5 – “The Chinese Car Industry – The ambition of Geely”. The Eco-
nomist, 1-08-2009.

6 – “GM nearbankcruptcy – Chapter 11 beckons”. The Economist,


23-09-2009.

7 – “Desempenho do Setor de Autopeças” – SINDPEÇAS (Sindi-


catos Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Auto-
motores) – 2009.

8 – Alvaro Fagundes e Paulo de Araújo. “Países emergentes puxam


venda global de carros”. Folha de S. Paulo, 6-01-2010.

9 – “Como a China começa a moldar os futuros carros do mundo”,


Valor Econômico, 28-10-09.

10 – “Adeus, Velho Mundo... Olá novo mundo!”. Isto É, 22-10-2008.

11 – Leonardo Ottuch. “O homem mais rico da China sonha com o


Brasil”. Dinheiro, 2-12-2009.

12 – Tatiana Gianini, Marcello Onaga e Tiago Maranhão. “Nasce uma


nova indústria automobilística”. EXAME, 22-4-2009.

13 – Fernando Calmon:

– “Quem tem medo dos chineses”. Jornal do Brasil, 20-9-2008.

– “Forte emoção na indústria automobilística”. Jornal do Brasil, 6-1-09.

– “Agilidade chinesa”. Jornal do Brasil, 29-8-09.

– “Pés no chão”. Jornal do Brasil, 12-09.

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 63-84, maio 2010 83


– “Em busca de inspiração”. Jornal do Brasil, 10-10-09.

- “Solução para poucos”. Jornal do Brasil, 6-3-10.

Palestra pronunciada em 13 de abril de 2010

84 C a r t a M en sa l • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 63-84, maio 2010


Síntese da Conjuntura
Vento a favor

Ernane Galvêas
Ex-Ministro da Fazenda

H á algum tempo, escrevemos em uma destas crônicas que o


Brasil tem tudo para dar errado, mas está dando certo. É como
o besouro que, pelas leis da aerodinâmica, não poderia voar, mas
voa. De errado, de muito errado, é o estilo de Governo caminhando
lentamente para uma maior intervenção estatal, no contexto de uma
“república sindicalista”, em que o poder político foi assumido pelos
líderes sindicais apoiados na esquerda festiva do PT, em sociedade
com os “liberais fisiológicos” do PMDB. No campo político, essa
“cultura” foi responsável pela corrupção, impunidade, enriquecimento
ilícito e empreguismo nepotista, assim como pela continuidade do
excessivo peso do Estado (40% do PIB), da opressão fiscal, do déficit
orçamentário e da crescente dívida pública. No mesmo sentido, há
uma preocupação ideológica anticapitalista, de afastamento e opo-
sição aos Estados Unidos, que se reflete em todas as dimensões da
política externa.

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 85-96, maio 2010 85


No curto prazo, nada disto parece ter importância. A economia
está “bombando”, uma nova classe média (nível C) está ávida de
consumo e uma nova classe rica (nível A e B), de empreiteiros, ban-
queiros, diretores das grandes empresas, acumulando uma riqueza
impressionante. O comércio, a indústria, a agricultura e o fluxo dos
transportes nas estradas transpiram prosperidade, exibindo recordes
na produção e nas vendas da indústria automobilística e dos bens de
consumo durável. A inflação contida em torno de 4% a 5% propiciou
um ganho inusitado no poder de compra dos salários, atraiu capitais
produtivos e especulativos do exterior, ampliou e difundiu o crédito
em todas as direções, levando a Bolsa de Valores e de Futuros a uma
euforia contagiosa. A economia nacional, em menos de seis meses,
ultrapassou a pior crise econômica dos últimos 80 anos, acumulou
mais de 245 bilhões de dólares de reservas cambiais e vai retomando
os níveis históricos do crescimento econômico-social.

A curto prazo, insistimos, não dá para perceber os riscos da estati-


zação, do consumo subsidiado, da falta de investimentos na infraes-
trutura e no campo tecnológico. O País está crescendo e claramente
melhorando a distribuição da renda nacional. O médio e o longo
prazos não preocupam e, até mesmo, reforçam as expectativas de
enriquecimento, diante das notícias alvissareiras das fabulosas riquezas
do Pré-Sal. Pairam no ar as promessas de um socialismo redentor.
Não há preocupação de que o risco-País possa nos afastar dos BRICS
e nos levar na direção dos PIIGS.
O que se pode querer mais? Com a palavra, os pessimistas de plantão.

Os juros do Banco Central

O Banco Central explicou, na última Ata do Copom, porque o Juro


SELIC foi mantido em 8,75% e as perspectivas são de alta, em face
do comportamento da inflação.

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“Houve consenso entre os membros do Comitê quanto à necessidade
de se implementar um ajuste na taxa básica de juros, de forma a conter
o descompasso entre o ritmo de expansão da demanda doméstica e a
capacidade produtiva da economia, bem como para reforçar a anco-
ragem das expectativas de inflação”. E mais: há necessidade de “subir
os juros, de forma a conter o descompasso entre o ritmo de expansão
da demanda doméstica e a capacidade produtiva da economia, bem
como para reforçar a ancoragem das expectativas de inflação”.

Essa é a linguagem monocórdica do BC. Mas o que não dá para en-


tender é a contradição ostensiva entre a política monetária e a política
fiscal. O Conselho Monetário na mesma época decidiu manter em
6% os juros do BNDES (TJLP), que continua expandindo o crédito
sofregamente, assim como o Banco do Brasil e a Caixa Econômica
Federal.

O Governo está altamente empenhado em estimular o consumo e os


investimentos. Conseguiu isso, durante a crise, apesar do crescimento
zero em 2009. Para 2010, estima-se uma elevação do PIB entre 5%
e 6%, porque os investimentos estão crescendo de 17 para 19% e os
Bancos públicos (BNDES, BB e CEF) estão expandindo o crédito a
toda força. Aí, chega o Banco Central e diz que tudo isso pode gerar
inflação e, portanto, é hora de elevar os juros para reprimir a demanda
agregada (consumo + investimento).

Para ser objetivo, qual a inflação que amedronta o BC? A inflação que
vem de fora, do mercado internacional, das Bolsas de Commodities? A
inflação dos preços administrados (energia, comunicações, escolas,
saúde)? A inflação produzida pelos choques de oferta de alimentos
(por deficiência de um mecanismo regulador do estoque) ou da ação
intempestiva da Vale, duplicando o preço do minério de ferro?

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 85-96, maio 2010 87


No contexto da teoria e da prática econômica, o que se sabe é que
os empresários começam a fazer novos planos de investimentos e a
ampliarem os investimentos antigos, a partir do momento em que o
índice de capacidade ociosa se aproxima ou ultrapassa 85%. É nessa
hora que o nosso BC decide refrear os investimentos, com a sua dis-
cutível taxa Selic. Se alguém está certo, alguém está errado. O Banco
Central ou o Ministério da Fazenda?

O clima e o homem

No mundo inteiro, sob a coordenação da ONU, discute-se as mudan-


ças climáticas e o aquecimento da Terra, como uma possível causa da
imensa tragédia que poderá resultar da elevação do nível dos oceanos.

Cientistas e não cientistas do IPCC, contratados pela ONU, atribuem


esse fenômeno à ação antropogênica, isto é, condenam o homem pela
emissão dos gases de efeito estufa (GEE), principalmente o dióxido de
carbono (CO2 ) produzido pela queima dos combustíveis de petróleo
e gás, e também pelo desmatamento das florestas e queima para fins
siderúrgicos ou formação de áreas agropecuárias.

As teses do IPCC estão sendo refutadas por um número cada vez


maior de cientistas, geólogos e ambientalistas.

O Brasil adotou uma posição precipitada de apoio ao IPCC, na ex-


pectativa de lucrar com a venda de certificados de carbono, de acordo
com o “mercado de desenvolvimento limpo” previsto no “Protocolo
de Kyoto”, e receber uma substancial compensação financeira pela
floresta não desmatada, prevista no Programa REDD. Na última reu-
nião de Copenhague (COP 15), o Brasil assumiu dois compromissos
sérios: 1) contribuir para a criação de um Fundo de US$ 10 bilhões

88 C a r t a M en sa l • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 85-96, maio 2010


de ajuda aos países pobres; e 2) reduzir, voluntariamente, entre 36,1%
e 38,9%, até 2020, as emissões de GEE, assim como reduzir a zero
o desmatamento.

É discutível a posição brasileira. Há evidências de que o tema das


mudanças climáticas está sendo conduzido à vista de interesses polí-
ticos e comerciais. Nesse contexto, há o risco de que seja aprovada a
instituição de um “selo verde”, como instrumento de discriminação
no comércio internacional. O Brasil será a grande vítima do “selo
verde”, uma ameaça ao nosso próspero setor agropecuário.

Atividades econômicas

Indústria

Segundo o IBGE, a indústria acelerou o ritmo de crescimento em


fevereiro e já retornou ao nível de atividade de maio de 2008, re-
gistrando expansão de 1,5% ante janeiro e de 18,4% em relação a
fevereiro/09, com destaque para o setor de bens de capital (+1,7%)
e um ligeiro arrefecimento em bens intermediários. Na indústria pau-
lista houve crescimento de 1,1% entre janeiro e fevereiro e de 16,2%
sobre fevereiro/09, com elevação de 1,6% nos salários nominais e
6,6% nas horas trabalhadas.

Depois de ter registrado uma queda de 7,6% no último quadrimestre


de 2008 e 7,5% em 2009, a produção industrial promete uma taxa
positiva entre 6% e 9,5% em 2010.

Pesquisa da CNI revela que dos 19 setores da indústria de transfor-


mação, 16 registraram aumento do uso da capacidade instalada em
fevereiro deste ano em relação a igual período do ano passado, quando
ainda sob os impactos da crise financeira.

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 85-96, maio 2010 89


E a recuperação mais vigorosa se deu nos setores de metalurgia bá-
sica, que passou de 70% para 83,2%; do parque automobilístico, que
aumentou de 78% para 87,6%; e o de máquinas, aparelhos e materiais
elétricos, que subiu de 74% para 81,6%. A experiência da crise revelou
que a indústria nacional está preparada para crescer.

É bem possível, como adverte o BNDES, que as metas de investi-


mentos, previstas para 21% do PIB, neste ano não sejam atingidas
(16,7% em 2008). O Governo está elaborando um novo modelo de
concessões, a partir do setor ferroviário, visando estimular os inves-
timentos na infraestrutura. O BNDES continuará sendo o agente
principal dessa ação.

A produção automobilística, carro-chefe da indústria, está registran-


do impressionante expansão neste ano: produziu 331 mil veículos
em março, 32,5% acima de fevereiro e 20,3% superior a março/09,
acumulando no trimestre +24,4%. Algo semelhante ocorreu com o
licenciamento: + 60,1% , +30,3% e +17,9%, respectivamente. No
trimestre, as vendas de máquinas agrícolas subiram 51,9% e as ex-
portações 58,8%. Inacreditável.

Segundo a ABPO, as vendas da indústria de papelão ondulado (em-


balagens) aumentaram 16,5% em março sobre fevereiro e 20,6%
em relação a março/09. As vendas de cimento cresceram 20,6% no
trimestre, em resposta aos incentivos fiscais e expansão dos financia-
mentos destinados à habitação popular. Em relação à safra 2008/09,
a atual revela um forte aumento de 7,3% na produção de açúcar e
moderados 1,4% em etanol (Única).

O setor industrial vive grandes expectativas derivadas do PAC 2 e do


Pré-Sal. Os investimentos chineses estão chegando.

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Comércio

As vendas do comércio varejista cresceram 1,6% em fevereiro, ante


janeiro, e 12,3% em relação a fevereiro/09 (IBGE). Segundo a Abras-
ce, os shoppings venderam mais 14,4% no 1º bimestre, em relação ao
ano passado, com destaque para as áreas de lazer e cinema (+26,3%)
e lojas de eletrodomésticos, sob efeito da redução do IPI.

A Fecomércio-RJ estima que as vendas do comércio varejista neste


trimestre estão crescendo acima de 10%, em relação ao ano passa-
do, com destaque para o fato de que 81,6% das famílias da região
metropolitana do Rio estão com orçamento equilibrado ou supera-
vitário (77,5% em 2009). O atraso no pagamento das contas fixas
(água, telefone, condomínio, escola etc. ) caiu de 20,4% em 2009 para
18,6% neste ano. A forte expansão do comércio continua ancorada:
1) na expansão do crédito; 2) nos ganhos do mercado de trabalho; e
3) nos incentivos fiscais. Os números são impressionantes, especial-
mente em alguns Estados do Nordeste.

Em seu último Relatório Trimestral de Inflação, o Banco Central


afirmou que “o comércio varejista não apenas deverá continuar
registrando resultados positivos ao longo dos próximos trimestres,
mas, também, que a expansão deverá se intensificar”.

Segundo a Abras, as vendas reais dos supermercados, que haviam


caído 6,3% em janeiro, voltaram a crescer 6,7% em fevereiro, acu-
mulando alta de 7,7% em relação ao 1º bimestre de 2009.

Os consórcios de carros e imóveis bateram recordes de venda no 1º


bimestre, com expansão de 5,5% e 46,4%, respectivamente. Em con-
trapartida, as vendas de consórcio de eletroeletrônicos caíram 28,3%.

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As vendas do comércio varejista de Pernambuco, a julgar pelo mo-
vimento da rede Eletroshopping, cresceram 20% no 1º trimestre.

No setor de transporte aéreo doméstico, registrou-se expressivo


aumento de 32% em março, sobre março/09 (ANAC).

É importante registrar que a “nova classe média” brasileira (classe


C) chegou a 92,85 milhões, ampliando sua participação no total da
população de 45% para 49%, enquanto as classes D e E encolheram
de 40% para 35%. Nos últimos cinco anos, 30 milhões de brasileiros
ascenderam à classe C.

Agricultura

A CONAB estima que a safra de grãos neste ano atingirá o recorde de


146,3 milhões de toneladas, 8,3% acima da safra anterior, devido ao
favorável regime de chuvas no País. A produção de soja deve alcançar
67,4 milhões de toneladas (+17,9%) com elevação de 6,8% da área
cultivada, enquanto a área de milho (2ª safra) terá aumento de 24,8%
em Mato Grosso e 13,8% em Goiás. Ainda segundo a CONAB, haverá
redução de área plantada de arroz, milho (1ª safra), feijão e algodão.

Com o aumento da produção, está previsto que a renda agrícola


chegará a R$ 175,5 bilhões neste ano (R$ 164,9 bilhões em 2009),
voltando ao nível pré-crise.

O Banco do Brasil desembolsou em crédito rural R$ 26,4 bilhões, de


julho/09 a março/10, sendo R$ 6,6 bilhões para agricultura familiar.

Mercado de trabalho

Segundo o IBGE, o emprego industrial em fevereiro cresceu 0,6%


sobre janeiro e 0,7% em relação a fevereiro/09, mas ainda acumula

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queda de -0,2% no primeiro bimestre, com destaque para São Paulo
(+1,4%). Entre os setores, foram os seguintes resultados: segmentos
de papel e gráfica (8,2%), têxtil (4,6%) e alimentos e bebidas (1%).
Doze das 18 áreas pesquisadas anunciaram contratações no mês.

O número de horas pagas na indústria aumentou 1,5% entre fevereiro


e janeiro e 1,6% na comparação com fevereiro/09. A folha de paga-
mento real do setor teve ganho de 2,7% mês a mês e 2,8% ano a ano.

Entre os setores que mais contrataram em fevereiro: serviços com


85.604, indústria de transformação com 63.024 e construção civil
com 34.735.

Em março, o nível de emprego na indústria paulista subiu 2,05%


ante fevereiro, sem ajuste sazonal (+45 mil), e +1,64% sobre mar-
ço/09, acumulando no ano +3,66% (+79 mil). Destaques: produtos
alimentícios com 25.623 vagas, petróleo e de biocombustíveis, com
5.795 postos e produtos de borracha e material pláticos, com 1.514.

Segundo o DIEESE, o nível de desemprego na região metropolita-


na de São Paulo e mais seis capitais brasileiras aumentou de 11,8%
em janeiro para 12,2% em fevereiro, porém, ainda ficou abaixo dos
13,5% de fevereiro/09.

O nível de emprego na construção civil aumentou 1,5% em fevereiro


ante janeiro (mais 39.058 trabalhadores com carteira assinada). No
acumulado dos dois primeiros meses, o emprego cresceu 4,14%
(+101.813).

Setor financeiro

A captação líquida das cadernetas de poupança, em março, ficou


em apenas R$ 538 milhões, mas o acumulado no trimestre chegou a

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 85-96, maio 2010 93


R$ 4,2 bilhões. O Banco do Brasil reforçou sua caixa com captação
de R$ 1,0 bilhão, mediante colocação de LFs no mercado interno.

No mercado de capitais, as emissões da dívida e ações somaram


R$ 24,2 bilhões até março, montante quase três vezes superior ao
registrado no mesmo período do ano passado.

Para fazer face à rápida expansão dos empréstimos do BNDES, o


Tesouro Nacional já adiantou R$ 180 bilhões e está efetivando a
entrega de mais R$ 80 bilhões.

Inflação

A inflação, que ganhou força em janeiro e fevereiro, começou a


arrefecer em março, com a queda do IGP-DI/FGV de 1,09% para
0,63%, do IGP-M/FGV de 1,18% para 0,94% e do IPA-DI/FGV
de 1,38% para 0,52%. No ano, o IGP-DI acumula alta de 2,76%.

Ainda pressionado por uma forte alta dos alimentos, o IPCA ficou
em 0,52% em março, abaixo do 0,78% de fevereiro, acumulando alta
de 5,17%, em 12 meses. No primeiro trimestre, o IPCA subiu 2,06%.

Segundo o DIEESE, o valor médio da cesta básica em 17 capitais,


aumentou em fevereiro, com destaque para São Paulo (+10,5), Recife
(+9,7%), João Pessoa (+7,5%) e Brasília (+9,0%). No Rio de Janeiro,
segundo a Fecomércio-RJ, o custo da cesta básica, no primeiro tri-
mestre, teve aumento de 6,45%, devido à alta dos alimentos, frutas,
legumes e verduras ocasionada pelas fortes chuvas (choque de oferta).
Em São Paulo, segundo a Fecomércio-SP os produtos alimentícios
subiram de preço 1,37%, em março. O IPC do FIPE-SP encerrou o
mês de março com alta de 0,34%, ante 0,74% em fevereiro.

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Setor fiscal

O governo central apresentou déficit de R$ 1,1 bilhão em feverei-


ro, depois de ter registrado superávit de R$ 13 bilhões em janeiro.
O déficit de fevereiro foi puxado pelas contas da Previdência, que
encerraram o mês com um saldo negativo de R$ 3,8 bilhões. No bi-
mestre, porém, o governo central obteve superávit de R$ 12,8 bilhões,
o equivalente a 2,45% do Produto Interno Bruto (PIB). Nos últimos
12 meses encerrados em fevereiro, o superávit primário atingiu
R$ 49,1 bilhões (1,54% do PIB). A meta para este ano é de 2,15%.

Em consequência, no bimestre, o Governo reservou (superávit pri-


mário) apenas R$ 17,0 bilhões para pagar R$ 28,1 de juros, resultando
um déficit nominal de R$ 11,1 bilhões (2,12% do PIB). Como assi-
nalamos em trabalho anterior, daí resultou o saldo da dívida pública
de R$ 2.015,6 bilhões, R$ 42,2 bilhões acima do saldo em 31/12/09.

Em decreto expedido no final de março, o Governo federal decidiu


fazer um represamento de gastos de R$ 29,1 bilhões, dos quais R$
17,9 bilhões de investimentos. Estão em curso no Congresso Nacio-
nal vários projetos que poderão agravar as contas públicas, entre os
quais um que flexibilize a lei de Responsabilidade Fiscal que promove
um reajuste dos aposentados acima da inflação e que acaba com a
contribuição previdenciária dos aposentados. Este último, de caráter
retroativo a 1991, poderá representar perda de R$ 14 bilhões para
o INSS.

Setor externo

As exportações, no mês de março, atingiram US$ 15,7 bilhões e as


importações US$ 15,1 bilhões, acumulando no trimestre US$ 39,2

Carta Mensal • Rio de Janeiro, v. 56, n. 662, p. 85-96, maio 2010 95


bilhões (+25,8%) e US$ 38,3 bilhões (+36%), respectivamente. O
saldo da balança comercial ficou em US$ 895 milhões, cerca de 30%
do saldo de março/09.

A Vale não só conseguiu impor aos compradores de minério de ferro


a duplicação do preço de venda (US$ 160/CIF p/ton), como a sua
revisão contratual a cada três meses. Em consequência, o faturamento
de US$ 12 bilhões em 2009 deverá subir para US$ 22 bilhões neste
ano, melhorando consideravelmente as previsões da balança comer-
cial. No 1º trimestre, as exportações da Vale aumentaram 25,7%.

No campo internacional, há um certo alívio financeiro, na medida em


que a UE mobilizou € 30 bilhões para socorrer a Grécia e estabilizou a
cotação do euro. Nos Estados Unidos, o déficit fiscal de março atingiu
US$ 65,4 bilhões, mas o déficit externo mensal continua abaixo de
US$ 40 bilhões, as vendas no varejo cresceram e foram criadas 162
mil vagas de trabalho.

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