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+ Marcelo Gleiser

A vida vista de longe


Os cientistas da Terra é que devem ir em busca dos ETs

MARCELO GLEISER,
é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover
(EUA), e autor do livro "A Harmonia do Mundo"

"A vida busca a vida", escreveu o celebrado astrônomo e divulgador


de ciência Carl Sagan. Sendo assim, é no mínimo curioso que ainda
não tenhamos recebido visitas de extraterrestres.

Afinal, mesmo se nos limitarmos à nossa galáxia, a ilha de cerca de


300 bilhões de estrelas da qual o Sol e os seus planetas fazem
parte, há estrelas e planetas demais para que nenhum tenha
desenvolvido vida, incluindo a mais rara vida inteligente. Esse é o
famoso paradoxo de Fermi: dado o número de estrelas da Via
Láctea e os seus 10 bilhões de anos (o dobro da idade do Sol), os
ETs teriam tido tempo de sobra para desenvolver tecnologias
capazes de cruzar as enormes distâncias interestelares e vir nos
visitar. E a verdade é que, tirando as hipóteses absurdas de Erich
von Däniken, segundo a qual ETs estiveram já por aqui e ajudaram
a construir as pirâmides egípcias, as linhas de Nazca e outros
projetos grandiosos de nossos antepassados (e descontando os
relatos de indivíduos sem maior prova do que narrativas ou fotos
suspeitas), os ETs nunca estiveram por aqui. Se estiveram, não
parecem estar interessados em contatar cientistas ou políticos para
um papo mais sério, limitando-se a exibir suas espaçonaves nas
noites e a realizar experimentos com o aparelho reprodutor
humano.

Dada esta crua realidade, são os cientistas da Terra que devem ir


em busca dos ETs. O problema que enfrentamos são as enormes
distâncias. Infelizmente, o espaço entre as estrelas é muito grande
e essencialmente vazio. Temos procurado por vida na nossa
vizinhança, nos planetas e nas luas do Sistema Solar. Mas, até
agora, não encontramos nada, e é pouco provável que encontremos
mesmo uma mísera bactéria no subsolo marciano, ou no oceano
sob a espessa camada de gelo que cobre Europa, uma das luas de
Júpiter. A vida, mesmo não sendo exclusividade do nosso planeta, é
rara.

Tomemos como exemplo nossa estrela vizinha, a Alfa-Centauro. Em


números arredondados, ela fica a 5 anos-luz do Sol: a luz demora
cinco anos de lá até aqui. Isso equivale a uma distância aproximada
de 50 trilhões de quilômetros (5 x 1013km). Com tecnologias atuais,
em que espaçonaves atingem velocidades de cerca de 50 mil km/h,
demoraríamos em torno de 115 mil anos para chegar lá...
Obviamente não será esse o caminho para descobrirmos se existe
vida fora da Terra. Seria realmente fascinante se inteligências
extraterrestres tivessem desenvolvido tecnologias capazes de cobrir
essas distâncias com mais eficiência.

Por que eles não vêm aqui nos explicar como se faz? O jeito é
procurarmos por vida remotamente. ETs que tivessem telescópios
dotados com espectrógrafos poderiam analisar a composição
química da atmosfera terrestre. Veriam a enorme quantidade de
oxigênio e água; veriam ozônio, metano, óxido nitroso, e
concluiriam que aqui existem ciclos de conversão de energia solar
em metabolismo típico de seres vivos. Oxigênio, em particular, é um
excelente sinal de vida. Em geral, quando presente, é rapidamente
usado na oxidação de rochas. Livre, como por aqui, é prova de que
algo o está produzindo com muita eficiência. Algo vivo.

Vários projetos futuros farão o mesmo; procurarão por vida na


atmosfera de planetas girando em torno de outras estrelas. A vida,
se existir, dependerá da estrela que lhe provê energia; estrelas mais
fracas do que o Sol poderão ter plantas pretas, para fixar mais
energia; nas mais fortes, as plantas terão de refletir parte da luz;
nas estrelas que emitem muito ultravioleta, a vida terá que ser
embaixo d'água para se proteger da radiação. Se vida busca vida,
parece que somos nós que teremos que encontrá-la.

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth


College, em Hanover (EUA), e autor do livro "A Harmonia do
Mundo"

Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe1307200804.htm