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JOGO DE CORPO

Inspirado pela capa desta edição, nosso colunista deixa os


mistérios do Universo de lado e mergulha em um tema
totalmente terreno: a ciência da atração sexual.

Marcelo Gleiser,
de 50 anos, é professor do Dartmouth College, nos Estados Unidos,
e autor de cinco livros sobre ciência e conhecimento

É bem verdade que discutir política, religião e futebol em geral dá


briga. Mas, quando se trata de beleza, a discórdia é bem mais
amena. Cresci indo à praia de Ipanema praticamente todo final de
semana. E nada mais comum do que, na passada de uma moça,
digamos, bem proporcionada, ver dezenas de cabeças masculinas
girarem na sua direção como se fossem atraídas por um imã. As
moças, por sua vez, são sempre mais discretas, mas não há
dúvidas de que o mesmo ocorre com elas. Descontadas as devidas
peculiaridades culturais, existe algo de universal no critério humano
de beleza, ou, falando mais francamente, de atração sexual.
Um amigo meu uma vez comentou, meio cinicamente, que todas
as relações sociais giram em torno do sexo. Trivializando um pouco
as coisas, homens competem pelo poder para impressionar as
mulheres. Por sua vez, elas se embonecam para ganhar a disputa
pelos melhores machos. E que disputa é essa? Ao nível mais
básico, é a luta pela preservação da espécie como um todo e, em
particular, dos nossos genes. Não sei se vou tão longe quanto
Richard Dawkins em afirmar que somos, em essência, escravos dos
nossos genes egoístas, mas não há dúvida de que uma diferença
básica entre homens e mulheres está nas suas funções sexuais.
Enquanto um homem pode ter filhos com 50 ou mais parceiras,
espalhando os seus genes feito sementes ao vento, as mulheres,
devido ao longo período de gestação, têm de ser bem mais
cautelosas nas suas escolhas.
Qual a melhor parceira? Aquela que gerará a prole mais saudável,
os filhos e filhas que levarão adiante seus genes, ajudando, com
seus braços fortes e ventres férteis, a sobrevivência da família. Qual
o melhor parceiro? Aquele que é forte e saudável, o melhor
guerreiro, o melhor caçador, o filho do chefe que, tudo indica, será o
futuro chefe. Em termos quantitativos, parece que existe mesmo
uma preferência milenar entre os homens por mulheres com quadris
aproximadamente 70% maiores do que a cintura. As estatuetas da
Vênus do Paleolítico, esculpidas há 28 mil anos, têm essa
proporção. A modelo magrinha Twiggy, famosa nos anos 1970, e as
mulheres gordinhas de Peter Paul Rubens, o grande pintor do
século 17, também. Acho que, se sairmos com a fita métrica pelas
praias do Brasil, serão as moças que estiverem perto dessa
proporção que atrairão o maior número de olhares – veja bem, não
estou propondo este experimento!
Essa proporção de quadril para cintura não é acidental. As
mulheres com essa relação são as mais férteis e, portanto, as mais
cobiçadas pelos machos que visam semear seus genes mundo
afora. Ela é determinada pelos hormônios sexuais, o estrogênio em
particular. Mesmo que nos últimos 28 mil anos tenhamos
desenvolvido códigos de comportamento social que amenizam
nossos impulsos mais primitivos – e, amor à parte, o casamento é
um grande paliativo do possível caos hormonal –, em nossa
essência continuamos sendo animais. Vemos isso não só no nosso
comportamento individual como também em grupo. Não acredito
que seja difícil para o leitor lembrar de situações em que isso ficou
bem claro.
Aprender sobre nós mesmos, mesmo que um pouco incômodo, é
muito importante. O fato de podermos associar certos
comportamentos sociais à química dos hormônios – quem tem filho
adolescente sabe muito bem do que estou falando – não significa
que estejamos completamente à mercê do fluxo e refluxo de
substâncias bioquímicas em nossos corpos. Pelo contrário, é
conhecendo a nós mesmos que podemos evitar situações
embaraçosas, usando uma arma que os outros animais não têm: o
poder de reflexão. O conselho “pense antes de agir” é muito sábio.
Por outro lado, o nosso córtex frontal não deve de modo algum inibir
totalmente os nossos impulsos. Apenas torná-los mais... humanos.

Fonte:
Revista Galileu, junho de 2008, nº 203, pág 41 – Horizontes –

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