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Teste escrito de Português

11º Ano out/17

Grupo I [100 pontos]

Lê com atenção o texto seguinte:

1 Quem haverá que não admire a virtude daquele peixezinho tão pequeno no corpo e
tão grande na força e no poder, que não sendo maior de um palmo, se se pega ao
leme de uma nau da Índia, apesar das velas e dos ventos, e de seu próprio peso e
grandeza, a prende e amarra mais que as mesmas âncoras, sem se poder mover, nem
5 ir por diante? Oh se houvera uma rémora na terra, que tivesse tanta força como a do
mar, que menos perigos haveria na vida e que menos naufrágios no Mundo!
Se alguma rémora houve na terra, foi a língua de Santo António, na qual, como na
rémora, se verifica o verso de São Gregório Nazianzeno: Lingua quidem parva est, sed
viribus omnia vincit(“a língua é pequena mas vence tudo em esforço”). O Apóstolo
10 Santiago, naquela sua eloquentíssima Epístola, compara a língua ao leme da nau e ao
freio (1) do cavalo. Uma e outra comparação juntas declaram maravilhosamente a
virtude da rémora, a qual, pegada ao leme (2) da nau, é freio da nau e leme do leme.
E tal foi a virtude e força da língua de Santo António. O leme da natureza humana é o
alvedrio(3), o piloto é a razão: mas quão poucas vezes obedecem à razão os ímpetos
15 precipitados do alvedrio? Neste leme, porém, tão desobediente e rebelde, mostrou a
língua de António quanta força tinha, como rémora, para domar a fúria das paixões
humanas. Quantos, correndo fortuna(4) na nau Soberba, com as velas inchadas do
vento e da mesma soberba (que também é vento), se iam desfazer nos baixos, que já
rebentavam por proa, se a língua de António, como rémora, não tivesse mão no
20 leme, até que as velas se amainassem(5), como mandava a razão, e cessasse a
tempestade de fora e a de dentro? Quantos, embarcados na nau Vingança, com a
artilharia abocada e os botafogos (6) acesos, corriam infunados a dar-se batalha,
onde se queimariam ou deitariam a pique se a rémora da língua de António lhes não
detivesse a fúria, até que, composta a ira e ódio, com bandeiras de paz se salvassem
25 amigavelmente? Quantos, navegando na nau Cobiça, sobrecarregada até às
gáveas(7) e aberta com o peso por todas as costuras, incapaz de fugir, nem se
defender, dariam nas mãos dos corsários (8) com perda do que levavam e do que iam
buscar, se a língua de António os não fizesse parar, como rémora, até que, aliviados
da carga injusta, escapassem do perigo e tomassem porto? Quantos, na nau
30 Sensualidade, que sempre navega com cerração (9), sem sol de dia, nem estrelas de
noite, enganados do canto das sereias e deixando-se levar da corrente, se iriam
perder cegamente, ou em Sila, ou em Caribdes (10), onde não aparecesse navio nem
navegante, se a rémora da língua de António os não contivesse, até que esclarecesse
a luz e se pusessem em vista.
35 Esta é a língua, peixes, do vosso grande pregador, que também foi rémora vossa,
enquanto o ouvistes; e porque agora está muda (posto que ainda se conserva inteira)
se vêem e choram na terra tantos naufrágios.

In Sermão de Santo António aos Peixes, padre António Vieira

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Vocabulário:

(1) Freio – travão; (2) leme – peça móvel que imprime a direção ao navio; (3) alvedrio – vontade; (4) correr fortuna-
passar trabalhos; (5) amainar – colher as velas;(6) botafogo - rastilho que se acendia para fazer disparar as antigas
peças de artilharia; (7) gávea – plataforma a certa altura dos mastros; (8) corsário – pirata; (9) cerração –nevoeiro
espesso; (10) Sila ou Caribdes - Na mitologia grega, dois monstros marinhos que moravam nos lados opostos de um
estreito; personificação dos perigos da navegação perto de rochas e redemoinhos.

Responde de forma clara e completa às seguintes questões:

1. Recorrendo ao primeiro parágrafo, aponta as características do “peixezinho”.[20 pontos]

2. Explica a comparação entre a rémora e a língua de Santo António.[20 pontos]

3. Explicita as “paixões humanas” que a língua de Santo António, como rémora, domou. [20
pontos]

4. Faz a análise estilística do excerto situado entre a linha 21 (“Quantos, embarcados na nau
Vingança) e a linha 29 (“escapassem do perigo e tomassem porto?”), dando conta de três
recursos estilísticos típicos da prosa de Vieira. [20 pontos]

5. “(…) e porque agora está muda […]se vêem e choram na terra tantos naufrágios.”(l. 36/37)

5.1. Identifica as funções sintáticas de cada um dos constituintes sublinhados.[10 pontos]

6. Identifica os atos ilocutórios presentes nos seguintes enunciados:

a) “Oh se houvera uma rémora na terra, que tivesse tanta força como a do mar, que menos
perigos haveria na vida e que menos naufrágios no Mundo!”. (l. 5-6)[5 pontos]

b) “Se alguma rémora houve na terra, foi a língua de Santo António (…)” (l. 7)[5 pontos]

Grupo II [50 pontos]

Lê atentamente o texto seguinte.

É claro que o direito de reunião (…) conhecia igualmente restrições que


praticamente o esvaziavam de sentido. As reuniões de natureza “política e
social” deviam ser previamente autorizadas pelos governadores civis. E, mesmo
relativamente àquelas realizadas no exercício de direitos estatutários legalmente
5 reconhecidos, podiam aquelas autoridades nelas fazer-se representar por
agentes com poderes para interromper os oradores, ou até suspender as
reuniões, sempre que entendessem estarem estas a desviar-se dos fins para que
tinham sido convocadas ou a infringir a legalidade. Toda a história do Estado
Novo será, aliás, pontuada por sucessivas violências policiais contra reuniões,
10 manifestações ou protestos não consentidos.
A “liberdade de expressão de pensamento”, já restringida no próprio
enunciado constitucional, (…) era alvo da particular atenção de um regime
sempre extremamente zeloso com a tutela preventiva da opinião pública,

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mesmo sobre o cuidar da sua “formação”, ou como condição para tal. Três tipos
15 de medidas foram desenvolvidas pelo Estado Novo para limitar as “perversões” e
“excessos” da livre expressão e, simultaneamente, educar as mentalidades nos
“bons” princípios: preventivas, repressivas e formativas.
A censura prévia – a mais duradoura da II República – pois existiu praticamente
sem interrupção, desde Maio de 1926 a Abril de 1974 – era o vértice e o
20 elemento essencial deste sistema, antes de mais assente na repressão
preventiva, no não correr o risco de se deixar escrever, falar ou mostrar. (…)

História de Portugal, dir. José Mattoso ( texto com supressões)

1. Para cada um dos itens que se seguem, indica a alínea correcta de acordo com o
sentido do texto:

1.1 Na primeira frase, o enunciador afirma que, no que dizia respeito ao direito de
reunião,

A) as circunstâncias propiciadoras de encontro eram reduzidas;

B) este era um direito que, apesar de legalmente consignado, tinha um conteúdo


ambíguo;

C) este era um direito que, apesar de legalmente consignado, em termos práticos


tinha um conteúdo quase nulo.

D) este era um direito cujo conteúdo, em termos práticos, era exequível;

1.2 Com a expressão “um regime sempre extremamente zeloso com a tutela
preventiva da opinião pública”, o enunciador refere-se

A) ao facto de, no que respeitava à circulação de qualquer tipo de informação, o


regime seguir o lema mais vale prevenir do que remediar;

B) ao facto de o regime considerar que a punição era uma ferramenta de controlo


da opinião suficientemente eficaz;

C) ao facto de o regime ter por boa a livre expressão de opiniões.

D) ao facto de o regime deter uma máquina de vigilância infalível;

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1.3. A “liberdade de expressão de pensamento”, já restringida no próprio
enunciado constitucional, (…) significa que

A) não havia restrições à liberdade de expressão.

B) só os intelectuais eram livres de exprimir o seu pensamento.

C) a liberdade de expressão não passava de uma farsa.

D) a liberdade de expressão estava consignada no texto constitucional.

1.4. Segundo o texto, o Estado Novo funcionou como

A) um regime democrático.

B) uma ideologia liberal.

C) um regime repressivo.

D) uma nova forma de governar.

1.5 A censura prévia foi uma forma de

A) moralizar os costumes.

B) intimidar os jornalistas.

C) alicerçar o regime político vigente.

D) evitar que se publicassem opiniões erradas.

Grupo III [50 pontos]

“Será que a terra de hoje em dia já não precisa de ser salgada?” (Sara Afonso)

Num texto argumentativo bem estruturado, de 200 a 300 palavras, responde à questão
formulada, utilizando, no mínimo, dois argumentos e um exemplo para cada um deles.

FIM

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