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Registro de Yumen

Tradução: Marcos Beltrão


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Introdução

Yunmen nasceu 864 em Jiaxing, China e faleceu em 949, tendo vivido no Monte Yunmen,
de onde pegou seu nome.
REGISTRO DE YUNMEN

CORRESPONDENDO À OCASIÃO

1. Tendo chegado ao Salão do Dharma (para instruir a assembléia), o Mestre permaneceu


silencioso durante muito tempo e então disse:
“O dom de dar voz ao Dao é positivamente difícil de descobrir como fazer. Mesmo que
cada palavra esteja de acordo, ainda há uma infinidade de outras formas; quanto mais ainda
se ficar tagarelando sem fim? Então do que adianta falar a vocês agora mesmo?
“Apesar de cada uma das três coleções de escrituras Budistas ter sua esfera específica – o
vinaya diz respeito ao estudo da disciplina monástica, os sutras estudam a concentração da
meditação, e os tratados estudam a sabedoria – os cinco veículos do cânone Budista de três
partes e os oito ensinamentos dos cinco períodos realmente todos se reduzem a somente
uma coisa, quer dizer, o veículo único. É perfeito e imediato – e extremamente difícil de ser
sondado. Mesmo que você o pudesse compreender agora mesmo, ainda seriam tão
diferentes deste monge de manto remendado como o céu está da terra. Se na minha
assembléia a habilidade de alguém se manifestar numa frase, vocês a avaliarão em vão.
Mesmo que, para fazer progresso, vocês esmiuçassem todo o ensinamento do Chan com
suas milhares de diferenças e miríades de distinções, seus erros ainda consistiriam de
procurar proclamaçòes da boca de outros.
“Então como devemos nos aproximar do que foi transmitido? Falando aqui sobre o
‘perfeito’ e o ‘imediato’? Por isso ou aquilo? Não me compreendam erradamente: vocês
não devem me ouvir dizer isso e então especular que ‘não perfeito’ e ‘não súbito’ sejam o
correto!
“Deve haver algum homem verdadeiro aqui! Não se baseiem em alguma afirmação
pretenciosa de algum mestre ou frases passadas adiante que vocês divulgam por aí como
suas compreensões! Não me compreendam erradamente. Não importa qual seja seu
problema agora: tentem resolvê-lo bem agora em frente da assembléia!”
Naquele momento o Governador Ho da Prefeitura estava presente. Ele fez o cumprimento
costumeiro e disse, “Seu discípulo requer sua instrução”.
O Mestre replicou, “Essa erva daninha não é diferente das outras”.

2. Um funcionário perguntou, “É verdade que o Dharma de Buda é como a lua na água?”


O Mestre replicou, “Mesmo uma onda pura não tem forma de penetrar até a lua”.
O funcionário insistiu, “Por qual caminho o senhor chegou lá, Reverendo?”
O Mestre respondeu, “De onde surgiu esta segunda pergunta?”
O funcionário prosseguiu, “E quanto à minha situação agora?”
O Mestre disse, “O caminho através deste desfiladeiro da montanha encontra-se totalmente
bloqueado”.

3. Alguém perguntou ao Mestre Yunmen, “Desde a antiguidade, os velhos mestres


transmitiram a mente através da mente. Hoje eu lhe pergunto, Mestre: O que é que o senhor
usa?”
O Mestre disse: “Quando há uma pergunta, há uma resposta”.
O questionador prosseguiu, “Neste caso é algo inútil?”
O Mestre replicou, “Nenhuma pergunta, nenhuma resposta”.
4. Alguém perguntou, “E quando a galinha bica o ovo e o pintinho sai da casca?”
O Mestre disse, “Crack!”
O questionador prosseguiu: “Isso se aplicaria a mim?”
O Mestre disse, “Devagar! Devagar!”

5. Alguém perguntou, “Qual é minha preocupação central?”


O Mestre replicou, “Ei, essa pergunta realmente me pegou!”

6. Alguém perguntou ao Mestre Yunmen, “E quanto à uma frase que é separadamente


transmitida fora das escrituras?”
O Mestre disse, “Venha, apresente esta pergunta para toda a assembléia”.

7. O Mestre disse,
“Não digam que estou enganando vocês hoje! Simplesmente não posso evitar fazer essa
cena confusa diante de você; se um homem de olhar límpido aparecesse, eu seria digno de
uma risada! Mas agora mesmo não posso evitar isso.
Então me deixem perguntar-lhes: Qual o problema com vocês até aqui? O que lhes falta? Se
eu disser que não há problema algum então já enterrei vocês; vocês mesmos devem chegar
à realização! Não dêem rédea solta às suas bocas para fazer muitas perguntas. Seus
corações estão escuros como piche e um destes dias algo de muito importante vai
acontecer!
“Se você tiver uma disposição hesitante, então podem dar uma olhada no ensinamento dos
velhos mestres e olhar aqui e ali para descobrir o que eles queriam dizer. Vocês querem
chegar à compreensão, não? A razão pela qual não são capazes de o fazer é precisamente
porque suas próprias ilusões acumuladas desde aeons inumeráveis é de tal espessura que
quando em suas vidas vocês ouvem alguém falando do Dharma, vocês duvidam. Buscando
uma compreensão perguntando sobre o Buda e seu ensinamento, sobre ir além e voltar ao
condicionado, cada vez mais você fica longe disto. Quando você dirige sua mente nesta
direção, você já se perdeu; quanto mais ainda se usar palavras para o descrever? E se ‘não
direcionar a mente nesta direção’ fosse a resposta? Por que, algo errado? Cuidem-se!”

8. Alguém perguntou, “Em que harmonia você canta, Mestre?”


O Mestre replicou, “No do vigésimo quinto do mês do décimo segundo mês1!”
“E se eu o cantar?”
“Devagar! Devagar!”

9. Alguém perguntou, “Qual foi a intenção do Patriarca quando veio do Oeste?”


Mestre Yunmen replicou, “Tão límpido quanto o dia”.

10. Alguém perguntou, “Qual é o caminho além?”


O Mestre disse, “Nove vezes nove é oitenta e um2”. ‘

11. Alguém pergunou, “O que é o meu ‘eu’?”

1
Isso é justo antes do fim do ano; pode corresponder a “são onze da noite”. É uma forma de dizer que o tempo
urge.
2
Uma coisa muito básica, que qualquer um com um mínimo de educação sabe, querendo dizer que a pessoa
não chegou ao básico ainda.
O Mestre disse, “É passear nas montanhas e apreciar os rios”.
“E o que é o seu ‘eu’?”
O Mestre replicou, “Sorte sua que o disciplinador não está por aqui”.

12. Alguém perguntou, “E quanto ao Buda, o instrutor?”


O Mestre respondeu, “Isso é rude demais!”

13. “Qual é o ensinamento de toda a vida do Buda?”


“Falando em harmonia com a ocasião”.

14. Alguém perguntou a Mestre Yunmen, “O que é o olho do ensinamento genuíno?”


O Mestre disse, “Está por toda parte!”

15. Alguém perguntou, “O que quer dizer ‘Sentar corretamente e contemplar a verdadeira
realidade’?”
O Mestre disse, “Uma moeda perdida no rio é encontrada no rio”.

16. Alguém perguntou a Mestre Yunmen, “O que é a prática de um monge?”


O Mestre replicou, “Não pode ser compreendida”.
O questionador prosseguiu, “Por que não pode ser compreendida?”
“Somente não pode ser compreendida”.

17. Um monge perguntou, “Qual é o significado dos ensinamentos Budistas?”


O Mestre perguntou de volta, “Que sutra você está lendo?”
O monge replicou, “O Sutra da Sabedoria”.
O Mestre citou, “ ‘Todo conhecimento é puro’. Você já viu isso sequer em sonhos?”
O monge disse, “Deixemos de lado ‘Todo conhecimento é puro’; qual é o significado dos
ensinamentos?”
O Mestre replicou, “Se em seu coração você não tivesse fracassado a alguém, não estaria
ficando vermelho! Mas eu deixo você passar sem as trinta pancadas que merece”.

18. Alguém perguntou, “O que é o olho do verdadeiro ensinamento?”


Mestre Yunmen disse, “O vapor do arroz cozinhando”.

19. Alguém perguntou, “O que é a concentração (samadhi) perfeita?”


O Mestre replicou, “Cale a boca a menos que eu lhe peça!”

20. Alguém perguntou, “O que é o lugar de onde provém todos os budas?”


Mestre Yunmen disse, “Onde as Montanhas do Leste caminham por sobre as águas”.

21. Alguém perguntou, “Por favor, Mestre, me mostre como entrar!”


O Mestre disse, “Chupando o mingau, comendo arroz”.

22. O Mestre disse,


“Não tenho escolha; se eu lhes disser agora que nada é a questão, eu já enterrei vocês.
Conquanto vocês queiram fazer progressos e buscar uma compreensão intelectual buscando
palavras e cassando frases e colocando perguntas e indagações por intermédio de mil
diferenças e miríades de distinções: isso tudo somente resulta numa língua lisonjeira e
conduz vocês mais e mais para longe do Caminho. Onde isso tudo vai acabar?
“Se esta questão pudesse ser achada em palavras – os três veículos, as doze divisões do
ensinamento certamente não têm falta de palavras, não é fato? – então porque falaríamos de
uma ‘transmissão fora dos ensinamentos das escrituras’? Se a sabedoria fosse uma função
do estudo de interpretações, isso seria meramente como aquela dos santos dos dez estágios
que, apesar de estarem disseminando o Dharma tão intensamente quanto chuva e nuvens,
ainda assim foram severamente repreendidos pelo Buda, porque percebiam suas auto-
naturezas como se através de um véu de gaze. Com isso sabemos que qualquer tipo de ‘ter
mente’ está tão longe do que importa aqui quanto o céu da terra.
“Contudo, quando uma pessoa chega até aqui, falar de fogo não queima sua boca. Ele pode
discutir a questão todo o dia sem que jamais toque seus lábios e dentes e sem pronunciar
uma só palavra. Apesar dele comer todo o dia e usar seu manto o dia todo, ele nunca toca
um só grão de arroz nem um só fio.
“De qualquer forma, isso ainda é somente conversa sobre nossos ensinamentos; mas você
realmente deve torná-los seus! Se dentro destas paredes uma frase tiver uma energia nela,
então você pensará sobre ela em vão. Mesmo que você aceitar alguma frase que você ouvir,
ainda são sonhadores durante o dia”.
Naquele momento, um monge perguntou, “E quanto a uma frase com esta?”
O Mestre replicou, “Apresentado”.

23. Alguém perguntou, “O que é ‘estar silencioso enquanto falando’?”


O Mestre disse, “Uma excelente oportunidade acaba de ser desperdiçada!”
O questionador prosseguiu, “E o que é ‘falar enquanto se está silencioso’?”
O Mestre disse, “Oh!”
O questionador continuou, “Como é quando não se está nem falando nem silencioso?”
Com seu bastão o Mestre cassou o questionador para fora do salão.

24. Alguém perguntou, “O que é a espada de Yunmen?”


O Mestre disse, “Fundador”.

25. Alguém perguntou, “O que é o lugar de onde todos os budas provém?”


Mestre Yunmen disse, “Próxima pergunta por favor!”

26. Alguém perguntou a Mestre Yunmen, “O que é a concentração absoluta que


compreende cada partícula de poeira?”
O Mestre replicou, “Água no balde, comida na tigela”.

27. “E quanto ao lugar do não pensamento?”


O Mestre replicou, “A cognição não o pode sondar”.

28. “E quando se faz um super esforço sincero?”


“É isso aí!”

29. O Mestre disse,


“Todas as doze divisões dos ensinamentos dos três veículos o explicam de cá para lá, e os
velhos monges de todo o império proclamam grandiosamente, ‘Venham, tentem o
apresentar para mim até os últimos detalhes!’: tudo isso já é remédio para um cavalo morto.
“Contudo, quantos existem que chegaram a tal distância? Não espero encontrar sequer um
eco disso em suas palavras ou uma espada afiada oculta em uma de suas frases.

Um piscar de um olho – mil diferenças.


Quando a mente está parada, as ondas estão calmas.

Que vocês todos descansem em paz!”

30. Alguém perguntou, “O que é o ensinamento fundamental?”


Mestre Yunmen disse, “Nenhuma pergunta, nenhuma resposta”.

31. Alguém perguntou ao Mestre Yunmen, “E quanto a: ‘O Mundo Triplo é somente


consciência, e as miríades de coisas nada mais são que consciência’?”
O Mestre disse, “Hoje não respondo a nenhuma pergunta”.
O questionador insistiu, “Por que você não responderá a nenhuma pergunta?”
O Mestre disse, “Será que você chegará a uma compreensão daqui a dez mil anos?”

32. Alguém perguntou a Yunmen, “O que é aquela espada tão afiada que corta um cabelo
que caia sobre sua lâmina?”
O Mestre disse, “Cortado!”
Ele acrescentou, “Swoosh!”

33. Alguém perguntou, “O que é a radiância para dentro e para fora?”


Mestre Yunmen perguntou de volta, “Em qual das duas direções sua pergunta está
direcionada?”
O questionador disse, “O que é buscar a luz?”
O Mestre disse, “Se alguém subitamente lhe perguntasse isso, o que você diria?”
O questionador continuou, “E depois que já se alcançou a luz?”
O Mestre replicou, “Esqueça a luz; primeiro me mostre o ‘buscar’.”

34. Alguém perguntou ao Mestre Yunmen, “O que é a frase mais urgente?”


O Mestre disse, “Comer!”

35. Alguém perguntou, “O que é a mente original?”


O Mestre disse, “Você levantou a lebre; está completamente manifestada”.

36. Alguém perguntou a Yunmen, “O que é a essência de um monge de manto


remendado?”
O Mestre disse, “Sua vez!”
O questionador insistiu, “Por favor, Mestre, me diga!”
O Mestre disse, “Estou tocando a harpa para um búfalo!”

37. Tendo entrado no Salão do Dharma Mestre Yunmen disse:


“Irmãos! Vocês sem dúvida visitaram muitos lugares procurando pelo conhecimento para
resolver o problema da vida e da morte; e por toda parte que vocês foram devem ter havido
mestres que lhes deram palavras expedientes de compaixão. Agora, existe alguma frase
deles que vocês não pudessem penetrar? Adiantem-se e tentem relatá-la de forma que eu a
possa discutir com vocês! Algo por aí? Algo por aí?”
Justamente quando um monge havia se adiantado e ia pousar uma pergunta, o Mestre disse,
“Vá embora! Vá embora! Você está para lá de Bagdá”.
Com isso o Mestre deixou seu assento.

38. Alguém perguntou a Mestre Yunmen, “O que é a coisa mais urgente para mim?”
O Mestre disse, “O próprio eu que está temeroso que não saiba”.

39. Alguém perguntou, “O que é o mugir do búfalo de barro no pico da neve?”


O Mestre disse, “Montanhas e rios correm embora!”
“E quanto ao relinchar do cavalo de madeira de Yunmen?”
Mestre Yunmen replicou, “Céus e terra escurecem”.

40. Alguém perguntou ao Mestre Yunmen, “E quanto a se fazer o que bem entende?”
O Mestre disse, “Sua vez!”

41. Tendo entrado no Salão do Dharma, Mestre Yunmen disse,


“Se, trazendo um caso à baila eu fizer com que vocês o aceitem imediatamente, já estou
espalhando cocô em suas cabeças. Mesmo que você compreenda todo o mundo quando eu
levanto um só cabelo, ainda estaria fazendo uma operação numa pessoa saudável.
“De qualquer maneira, primeiro vocês têm que realmente atingir este nível de realização. Se
ainda não estiverem lá, não devem fingir que lá estão. Ao invés, dêem um passo atrás,
busquem sob seus próprios pés, e avaliem o que eu estou dizendo!
“Na verdade, não existe a menor coisa que pudesse ser uma fonte de compreensão ou de
dúvida para vocês. Ao invés, todos vocês têm a uma coisa que é importante, todo e cada
qual de vocês! Sua grande função se manifesta sem o menor esforço de sua parte; vocês não
diferem em nada dos budas e patriarcas! Mas já que a raiz de suas fés sempre foi
extremamente rasa e a influência de suas ações más é massiva, vocês se encontram
subitamente usando muitos chifres de demônios. Estão todos levando suas tigelas de
mendigação por vilarejos e choupanas; por que vocês se vitimizam tanto? Há algo que lhes
falta? Qual de vocês não tem sua parcela?
“Apesar de vocês poderem aceitar o que estou dizendo, ainda estão em péssima forma.
Vocês não devem nem cair para os truques dos outros nem aceitar suas diretivas. No
momento em que virem um velho monge abrir a boca, todos tendem a enfiar aquelas
grandes rochas garganta abaixo, e quando se reúnem em pequenos grupos para discutir suas
palavras, são exatamente como aquelas moscas varejeiras na merda que pululam para
engolir porcaria! Que vergonha irmãos!
“Os velhos mestres não podiam senão gastar todas suas vidas para ajudar a vocês todos.
Então deixaram cair uma palavra aqui e outra ali para lhes darem uma pista. É possível que
vocês tenham compreendido tais coisas; deixem-nas de lado e façam algum esforço vocês
mesmos, e certamente ficarão um pouco familiares com este assunto. Rapidamente!
Rapidamente! O tempo não espera por ninguém, e a expiração não garante que vá haver
necessariamente uma nova inspiração! Ou será que vocês têm um corpo e mente
sobressalentes para dissipar? É absolutamente necessária a atenção plena de você! Cuidem-
se!”

42. Alguém perguntou, “O que é a frase primária?”


O Mestre disse, “Nove vezes nove igual oitenta e um”.
O monge se inclinou.
O Mestre disse, “Venha até aqui!”
O monge foi até em frente ao Mestre. O Mestre lhe bateu.

43. Alguém disse, “Ouvi um ensinamento que fala da pureza da sabedoria que a tudo
abarca. Que pureza seria essa?”
Mestre Yunmen cuspiu nele.
O questionador prosseguiu, “E quanto a algum método de ensinamento dos velhos
mestres?”
O Mestre disse, “Venha cá! Corte fora seus pés, troque seu crânio, e tire fora a colher e
talheres de sua tigela; agora pegue seu nariz!”
O monge perguntou, “Onde se acharia tais métodos de ensinamento?”
O Mestre disse, “Seu saco de vento!” E lhe bateu.

44. Alguém perguntou ao Mestre Yunmen, “O que é o Chan (j. Zen)?”


O Mestre replicou, “É isso mesmo!”
O questionador prosseguiu, “O que é o Dao (caminho)?”
O Mestre disse, “OK!”

45. Alguém perguntou: “E quando ‘todas as coisas são o Dharma de Buda’?”


O Mestre replicou, “As vovózinhas de uma cidade caipira de três casas se ajuntam na
encruzilhada. Compreende?”
“Não”.
O Mestre disse, “Você não está sozinho na sua não compreensão; com certeza mais alguém
não compreende!”

46. Tendo entrado no Salão do Dharma, Mestre Yunmen disse:


“Coloquei todo o universo em cima de suas sobrancelhas de um só golpe”.
“Vocês todos me ouviram dizer isso, e contudo não tenho a menor esperança que vocês se
animem, dêem um passo à frente e me apliquem uma boa cacetada. Bem, tomem seus
tempos e examinem em detalhe se ou não vocês têm o universo inteiro em suas
sobrancelhas ou não! O que quer isso dizer?
“Apesar de vocês poderem compreender isso aqui: logo que vocês se juntam à minha
assembléia, vocês apanham tanto que suas pernas quebram. No momento que vocês me
ouvem dizer que há um sábio trabalhando em alguma parte, deveriam me cuspir no rosto
imediatamente e ofender meus olhos e ouvidos. Mas já que vocês não estão à altura disso,
imediatamente aceitam qualquer coisa que as pessoas digam. Isso já tomba na categoria de
ação secundária.
“Não ouviram falar que no momento em que Deshan viu um monge entrar pelo portão, ele
pegou seu bastão e o expulsou? E que Muzhou, vendo um monge entrar pelo portão, disse,
“É um caso evidente, mas eu deixo você passar sem as trinta pancadas que tão ricamente
merece”.
“E como devemos lidar com o resto? Com esse monte de sacos de vento que engolem todo
o pus e baba dos outros, podem se lembrar de montes de lixo, e apresentam seus lábios de
burros e bocas de cavalo por toda parte, se vangloriando: ‘Posso fazer perguntas de cinco
formas alternativas’? Mesmo que você faça perguntas de manhã até de noite com as
respostas lhe levando até a noite: Você verá algo, mesmo em sonhos? Como você aplicará
sua força em benefício alheio?
“Vocês se parecem com aquelas pessoas que, quando alguém convida os monges para uma
festa doada, dizem: ‘A comida está boa, mas o que há para conversar com o doador’?
Algum dia vocês terão que encarar o Rei do Inferno, Yama – e ele não aceitará suas
tagarelices!
“Meus irmãos, se houver um que tenha atingido, ele passa seus dias em conformidade com
o comum. Se ainda não atingiram, devem evitar de qualquer maneira fingir que o fizeram.
Não devem desperdiçar seus tempos, e necessitam prestar atenção muito detida!
“Os antigos positivamente tinham palavras rastrejadoras que poderiam ajudar. Por exemplo,
meu professor Xuefeng disse: ‘Todo o mundo nada mais do que você’. Mestre Jiashan
disse: ‘Me peguem na ponta dos cem capins, e reconheçam o imperador no meio da praça
ebuliente do mercado’. Mestre Luopu disse, ‘No momento em que surge uma só grão de
poeira, todo o mundo está ali contido. Na ponta de um só cabelo do leão, todo o corpo do
leão aparece’.
“De qualquer forma, tente ter uma firme pegada no significado do que querem dizer estes
três ditados, pensando sobre todos os ângulos – e depois de meses ou anos uma entrada se
manifestará! Esta questão não permite que um outro entre por você; é cada um por si, como
uma missão especial solitária. Se alguns monges velhos aparecerem no mundo, é somente
para agirem como testemunhos para vocês. Se vocês acharam alguma entrada ou alguma
chave, não perca você mesmo de vista. Se de fato você ainda não alcançou, nenhum método
aplicado por um professor valerá de nada.
“Meus irmãos, vocês todos que gastam da mesma forma suas sandálias em peregrinações e
dão as costas aos professores e pais – vocês absolutamente devem fitar suas vistas nisto! Se
você ainda não achou nenhuma chave mas se deparou com um mestre habilidoso que vai
atrás de você como um cachorro que morde um javali, e que não liga para sua própria vida e
não tem medo de entrar na água suja por você, e se ele tiver algo de bom para ser mascado:
então pisquem seus olhos e levantem as sobrancelhas, dependurem suas tigelas alto na
parede, e durante dez ou vinte anos se esforcem ao máximo! Não se preocupem em não
completar seus esforços: deva acontecer que não consigam nesta vida, não deixarão de
obter um corpo humano na próxima, e então resultará que terão economizado esforço
quanto a esse ensinamento. Assim vocês não desperdiçarão esta vida à toa, e não deixarão
na mão os patronos do Budismo, seus professores e seus pais.
“Vocês devem ter cuidado! Não desperdicem tempo vagabundeando nas provínicas e
vadiando nos distritos, perambulando milhares de quilômetros com seus bastões em cima
dos ombros, gastando um inverno aqui, um verão ali, gozando as belas montanhas e rios e
fazendo tudo aquilo que gostariam, sendo dados bastante comida doada e facilmente
obtendo possessões mundanas. Que vergonha isso é, que vergonha! Vocês conhecem o
provérbio: ‘Querendo obter um quilo de arroz ele acaba perdendo as provisões de seis
meses’. Do que adianta tais peregrinações? Como ousam vocês consumir as doações dos
piedosos doadores, seus vegetais oferecidos ou mesmo um só grão de arroz?
“Vejam por si mesmos! Não existe ninguém que fique em frente a vocês e o tempo não
aguarda ninguém; um dia você estará por morrer e seu olhar tombará na terra. Como fará
dali em diante? Não deve se parecer com um caranguejo que, caindo na água fervente, agita
loucamente suas pernas! Grandes palavras não lhes ajudarão muito neste caso, seus sacos
de vento!
“Não desperdicem o tempo descuidadamente. Uma vez tendo perdido o corpo humano você
não obterá um outro durante aeons incontáveis. Esta não é uma questão trivial! Não se
baseiem em nada presente. Se mesmo uma pessoa secular disse, ‘Deva eu ouvir o Caminho
de manhã, poderei morrer contente de tarde’: quanto mais esse não é o caso conosco
monges? Qual é o problema com o qual temos que lidar? Devem fazer um grande esforço!
Cuidem-se!”

47. Alguém indagou, “E quanto a ‘dar a vida’?”


“Se você não tivesse fracassado a alguém em seu coração, não ficaria avermelhado”.
“E quanto a ‘tomar a vida’?”
“A pessoa não deve leiloar as possessões de um monge até três dias depois de sua morte”.
“E se a pessoa nem der nem tomar?”
Mestre Yunmen cassou o questionador para fora do salão com seu bastão.

48. Alguém perguntou, “Se a pessoa matar o próprio pai e mãe, a pessoa pode se arrepender
em frente do Buda. Onde a pessoa vai para se arrepender se matar os Budas e patriarcas?”
O Mestre disse, “Exposto!”

49. Alguém perguntou, “Existe algo errado quando a pessoa sequer dá origem a um só
pensamento?”
O Mestre replicou, “Tanto como a montanha Sumeru3”.

50. Alguém perguntou, “Quais são as características de seu ensinamento, Mestre?”


“Possa vir um erudito e lhe contar”.

51. Alguém perguntou, “A vida e a morte aqui estão; como lidar com elas?”
O Mestre disse, “Onde estão?”

52. Tendo entrado no Salão do Dharma para uma instrução formal, Mestre Yunmen disse,
“Vocês monges não devem pensar falsamente; o céu é o céu, a terra é a terra, a montanha é
a montanha, o rio é um rio, um monge é um monge, um leigo é um leigo”.
Depois de longa pausa ele disse, “Vamos, tentem pegar essa colina para mim!”
Então um monge perguntou, “Como é quando eu vejo que uma montanha é uma montanha
e um rio é um rio?”
O Mestre disse, “Por que o portão triplo do mosteiro passa através deste salão?”
O monge prosseguiu, “Se isso é assim não estou mais iludido”.
O Mestre disse, “Me devolva minhas palavras!”

53. Tendo entrado no Salão para uma instrução formal, Mestre Yunmen disse depois de um
longo silêncio:
“Há alguém que o possa descrever? Aquele que consiga dê um passo à frente”.
A assembléia permaneceu silenciosa.
3
A montanha de proporções míticas que é dita formar o cerne da terra.
O Mestre pegou seu bastão e disse, “Meu desafio anteriormente era uma pequena trincheira
cheia de merda, e levantar o bastão agora é uma trincheirona”.
O Mestre desceu de seu assento.

54. Alguém perguntou, “As miríades de coisas se reduzem ao uno. Agora não estou
perguntando pelo uno, mas a que se reduzem as miríades de coisas?”
Mestre Yunmen disse, “Você veio até aqui para trocar palavras comigo e me trapacear!”

55. Alguém perguntou a Yunmen, “Fiz tudo que pude e vim até aqui. Você aceitará?”
O Mestre disse, “Nada de errado com esta pergunta!”
O questionador disse, “Deixando de lado esta pergunta: você aceitará?”
O Mestre disse, “Examine cuidadosamente sua primeira pergunta”.

56. Tendo entrado o Salão do Dharma para uma instrução formal, Mestre Yunmen disse:
“Hoje vou apresentar um caso da tradição Chan para vocês”.
Toda a assembléia estava ouvindo atentamente. Depois de um tempo, um monge se
adiantou e se inclinou. Quando estava por colocar uma pergunta, Mestre Yunmen foi até ele
com seu bastão, gritando:
“Vocês parecem aqueles exterminadores do Budismo, aqueles monges que recebem comida
doada na plataforma elevada de meditação e dizem, ‘O que há para ser conversado com o
doador?’ Bando de desordeiros!”
Usando seu bastão, Mestre Yunmen cassou todos eles para fora do salão imediatamente.

57. Alguém perguntou a Yunmen, “Agora que toda a assembléia está reunida como nuvens,
sobre que você falará?”
O Mestre disse, “O texto que se segue é longo demais. Vamos pospô-lo para algum outro
dia!”
O questionador continuou, “E quanto a deixar para lá?”
O Mestre disse, “Preso!”
“Onde estou preso?”
Mestre Yunmen disse, “Logo que você engole comida na plataforma elevada de meditação,
começa a contar lorota”.

58. Tendo entrado no Salão do Dharma, o Mestre disse:


“Mesmo que uma palavra, no instante mesmo que pronunciada, coloque todo o mundo em
paz, ainda é a expressão de uma técnica de salvação. O que então deveria dizer um monge
de manto remendado? Se ele discutir aqui o que os Budas e patriarcas queriam dizer, o
caminho único do Sexto Patriarca será destruído. Mas há alguém aqui que o consiga
consertar? Se houver, que se adiante!”
Naquele momento um monge perguntou, “E quanto a dizer algo que transcenda os budas e
que vá além dos patriarcas?”
O Mestre disse, “Bolinho de gergelim”.
O monge prosseguiu, “O que tem isso a ver?”
O Mestre disse, “Exatamente, o que tem isso a ver?”
Com isso o Mestre disse, “Sem ter compreendido absolutamente nada, vocês pedem frases
que transcendam os budas e os patriarcas no momento em que ouvem falar da intenção dos
professores patriarcais. O que você está chamando ‘buda’, e o que você está chamando
‘patriarca’ quando fala de frases que transcendam budas e vão além dos patriarcas? E
quando você pergunta sobre escapar dos três reinos (de desejo sensual, forma e sem forma):
me traga estes três reinos! Existe alguma faculdade perceptiva como ver, ouvir, sentir ou
saber que detenha vocês? E que objeto de percepção é agradável a vocês? Vocês estão
familiarizados com algum vaso de ensinamento? E o que vocês consideram como pontos de
vista diferenciados?
“O que podem sábios fazer quando vocês se incham e dizem: ‘Todo meu corpo nada mais é
do que a verdade’, e ‘Todas as coisas exibem a essência’? Isso está fora do alcance. E
quando eu digo a vocês ‘Bem agora, o que está se passando?’, eu já enterrei vocês. Se vocês
realmente não têm uma chave para tal, então durante um tempo se interiorizem e
investiguem completamente por si mesmos: O que, além de usar um manto, comer, mover o
intestino e urinar é a questão? Do que adianta dar origem a tantos tipos de pensamentos
iludidos sem qualquer razão?
“Novamente, há um bando de pessoas que se ajuntam casualmente em grupos, conseguem
citar uns ditos dos antigos, tentando memorizá-los, os avaliam com seus pensamentos
iludidos e dizem: ‘Compreendi o ensinamento Budista!’ Se ocupam com nada senão
discussões e desperdiçam seus dias seguindo seus caprichos. Então eles começam a sentir
que isso não se adequou as suas imaginações; viajam através de milhares de vilarejos e
muitas choupanas e dão as costas aos seus pais bem como professores. Vocês estão agindo
desta forma, bando de desordeiros. O que é essa peregrinação frenética com a qual estão tão
ocupados?”
E o Mestre os cassou para fora com seu bastão.

59. Alguém perguntou a Yunmen, “É dito que a pessoa não deve sair de casa para virar
monge sem o consentimento dos pais. Como então seríamos capazes de sair de casa?”
O Mestre disse, “Raso!”
O questionador disse, “Não compreendo”.
O Mestre observou, “Profundo!”

60. Alguém perguntou a Mestre Yunmen, “Como é quando todos os poderes estão
exaustos?”
O Mestre disse, “Traga-me o Salão de Buda; então eu discutirei isso com você”.
O questionador disse, “Isso não seria uma questão diferente?”
O Mestre gritou, “Bah! Saco de vento!”

61. Tendo entrado no Salão do Dharma para uma instrução formal, Mestre Yunmen disse:
“É bem conhecido que virtude rasa é que está na moda, e que esta geração está vivendo no
fim do período de imitação do Budismo; então hoje em dia, quando monges vão para o
norte eles chamam isso de ‘venerar Manjusri4’ e quando vão para o sul eles dizem que é
uma ‘jornada para Nanyue5’. As pessoas que vão em tais peregrinações, apesar de se
chamarem ‘monges mendicantes’, somente desperdiçam as doações dos fiéis. Que
vergonha! Que vergonha! Quando questionados, são tão ignorantes quanto a laca é preta;
eles somente passam seus dias fazendo o que bem entendem. Se houvessem alguns deles
que, estudando muito e se informando, conseguissem absorver alguns ditados e estivessem
4
O bodhisattva da Sabedoria. O local de veneração de Manjusri é no Monge Wutai.
5
A cadeia de montanhas Nanyue, onde grandes mestres moraram tais como Nanyue Huairang (677-744) e
Shitou Xiquian (700-790).
procurando por palavras parecidas, sejam aprovados como superiores e estupidamente
descartam homens superiores, assim criando o karma do infortúnio.
“Não digam, quando algum dia o Rei do Inferno, Yama, lhes agarrar, que ninguém lhes
avisou! Quer você seja um principiante inocente ou um veterano, deve mostrar algum
espírito e coragem! Não memorize em vão ditos de outros: um pouco só de realidade é
melhor do que muita ilusão. De outra forma, simplesmente você está se enganando.
“O que está acontecendo com vocês? Se adiantem e digam-me!”

62. Alguém perguntou a Mestre Yunmen, “Positivamente estou no caminho errado. Por
favor, Mestre, me dê alguma instrução!”
O Mestre disse, “Do que você está falando?”

63. Alguém perguntou, “Qual é o significado do ensinamento Budista?”


O Mestre disse, “A resposta ainda não está pronta”.
O questionador perguntou, “Qual era sua resposta, Mestre?”
O Mestre disse, “E eu achando que você era esperto...!”

64. Alguém perguntou, “O que é a verdadeira essência de ser um monge?”


Mestre Yunmen disse, “Você, monge aí, dê um passo a frente!”
O monge em questão deu um passo a frente.
O Mestre disse, “Bah! Para fora!”

65. “Como posso compreender sua uma frase, Mestre?”


“Corra, quase não tem tempo sobrando”.

66. “Não estou perguntando sobre a essência da doutrina Budista mas gostaria de saber o
que se encontra no centro de sua tradição”.
O Mestre replicou, “Bem, você colocou sua pergunta; agora rapidamente faça três
reverências”.

67. Alguém perguntou, “Como é curada a doença dos budas e patriarcas?”


“Descubra o que está errado e tudo se endireitará”.
“Como será curada?”
“Felizmente você é forte!”

68. O Mestre entrou no Salão do Dharma para uma instrução formal. Quando a assembléia
se ajuntou e sentou, ele pegou seu bastão, apontou na frente dele e disse:
“Todos os budas de todo o universo, incontáveis como grãos de pó, estão todos aqui na
ponta do bastão, disputando sobre o ensinamento Budista e tentando ganhar o argumento.
Agora há alguém aqui que os possa dissuadir? Se ninguém pode fazê-lo, deixem-me tentar
fazê-lo para vocês”.
Com isso um monge disse, “Por favor, Reverendo, dissuada-os!”
O Mestre disse, “Vocês são um bando de espíritos de raposa selvagem6!”

69. Alguém perguntou, “Como é quando tudo é engolido de uma só engolida?”


O Mestre disse, “Então estou na sua barriga”.
6
Expressão usada para denunciar impostores no zen.
“Por que estaria você na minha barriga, Mestre?”
O Mestre replicou, “Devolva-me minhas palavras!”

70. Tendo entrado no Salão do Dharma para uma instrução formal, Mestre Yunmen disse
depois de um longo silêncio:
“Isso me compromete muito!” E desceu de seu assento.

71. Tendo entrado no Salão do Dharma para uma instrução formal, Mestre Yunmen disse:
“Eu disse o que havia para ser dito...”
Um monge se adiantou, inclinou e queria colocar uma pergunta. Mestre Yunmen pegou seu
bastão e lhe bateu, dizendo:
“Você não pode distinguir o bem do mal. Bando de impostores! São todos como este
monge; como ousam receber as oferendas puras das pessoas pias! Os seres sencientes com
karma ruim estão todos aqui – e que pedaço de cocô seco vocês estão querendo mastigar?”
E Mestre Yunmen cassou todos os monges imediatamente para fora do salão com seu
bastão.

72. Alguém perguntou a Mestre Yunmen, “O que é o Chan?”


O Mestre disse, “Poderíamos concordar em nos livrar desta palavra?”

73. Alguém perguntou a Mestre Yunmen, “O que é a fonte original?”


O Mestre disse, “São as doações de quem que você recebe?”

74. Tendo entrado no Salão do Dharma para uma instrução formal, Mestre Yunmen disse:
“Vocês todos que se perdem em peregrinações: todo e cada um de vocês, quer venham do
sul do Rio Amarelo ou do norte do mar, tem seu lugar natal. Agora, vocês sabem que lugar
é este? Tentem, adiantem-se e digam-me – eu verifico para vocês! Alguém? Alguém?
“Se vocês não conhecem seus lugares natais então eu enganei vocês. Gostariam de saber?
Se seu lugar natal é no norte, há ali Mestre Zhaozhou e Manjusri nas montanhas Wutai;
ambos estão aqui. Se seu lugar natal é no Sul, ali estão Xuefeng, Wolong, Xiyuan e Gushan
que estão todos bem aqui! Se vocês não os vêem, não finjam que o fazem! Vêem? Vêem?
Senão, observem-me cavalgar por aí montado no Salão do Dharma! Cuidem-se!”

75. Alguém perguntou a Yunmen, “O que é ‘Forma nada mais é do que o vazio’?”
O Mestre disse, “O bastão está acertando no nariz de vocês”.

76. Um monge perguntou, “O que é a mente?”


O Mestre disse, “Mente”.
O monge prosseguiu, “Não compreendo”.
O Mestre disse, “Não compreende”.
O monge perguntou, “Então finalmente o que é?”
O Mestre replicou, “Bah! Dê uma andada por algum lugar quieto onde você quiser”.

77. Alguém perguntou, “Como é quando a pessoa percebe que os três reinos são somente
consciência e as miríades de coisas são meramente produzidas pela cognição da pessoa?”
O Mestre replicou, “Ocultando a língua da pessoa”.
“E como é isso?”
O Mestre disse, “Su-lu, su-lu7”.

78. Tendo entrado no Salão do Dharma para uma instrução formal, Mestre Yunmen disse:
“Deixo vocês falarem tanto quanto quiserem. Da manhã até a noite, ninguém está
bloqueando suas bocas para impedir que falem. Bem?”

79. Mestre Yunmen entrou no Salão do Dharma para uma instrução formal e a assembléia
se reuniu. Depois de longo tempo ele levantou seu bastão e disse:
“Vejam! Vejam! As pessoas do Uttara-kuru8 do norte viram a dificuldade que vocês
tiveram ajuntando lenha e como presente para vocês estão realizando um torneio de luta
livre no quintal do mosteiro. Acrescente-se a isso que estão recitando para vocês do Sutra
da Sabedoria: “Oh, pureza da sabedoria que tudo abrange, não dual, indivisa, sem
diferenças, não separada...”
Um monge então perguntou, “E quanto a esta ‘pureza da sabedoria que abrange tudo’?”
Mestre Yunmen disse, “Na Índia eles cortariam fora sua cabeça e braços9; aqui você pode se
auto indiciar e sair fora”.

80. Alguém perguntou a Yunmen, “O que é o raso dentro do profundo?”


O Mestre disse, “Montanha, rio, terra”.
“O que é o profundo dentro do raso?”
O Mestre replicou, “Terra, montanha, rio”.
O questionador continuou, “O que é a profundidade?”
O Mestre disse, “Indo à Índia de manhã e voltando para a China de noite”.

81. Alguém perguntou a Mestre Yunmen, “Os mil expedientes habilidosos todos levam de
volta à fonte. Imagino sobre que se trata realmente a fonte”.
O Mestre disse, “Onde existe uma pergunta, existe uma resposta. Rápido, digam-no
rápido!”
O monge disse, “Sim...”
O Mestre disse, “Longe do alvo”.

82. “O que é a espada de Yunmen?”


“Sacada!”
“E quem a está brandindo?”
O Mestre disse, “Su-lu, su-lu10”.

83. “Qual é o propósito da vinda do Oeste do Patriarca Bodhidharma?”


O Mestre replicou, “Vá adiante, diga-me que não há nenhum!”
O questionador continuou, “Não compreendo!”
O Mestre observou, “Esta foi uma pergunta estupenda!”

84. Tendo entrado no Salão do Dharma para uma instrução formal, Mestre Yunmen disse:
7
Encantamento para afastar maus espíritos e vibrações.
8
O continente situado ao norte ao redor do Monte Sumeru, que é o centro. De forma quadrada, seus habitantes
são ditos ter o rosto quadrado. É julgado ser superior porque suas pessoas podem viver mil anos e produzem
comida sem esforço, e onde não existe sofrimento.
9
Na Índia esse era o destino de quem perdia um debate público. Uma coisa realmente selvagem.
10
Encantamento contra o baixo astral.
“Percebo que apesar do meu ensinamento do segundo e terceiro nível, todos vocês ainda
são incapazes de o obter. Então qual é o propósito de usar em vão roupas de monges?
Compreendem? Deixe que eu explique simplesmente: Quando em algum ponto do futuro
vocês forem a lugares variados e virem algum Venerável levantar seu dedo ou erguer o
espanador de moscas11 e dizer ‘isso é o Chan’ e ‘isso é o Dao’, vocês devem levar seus
bastões, esmagar sua cabeça e ir embora! De outra forma terminarão entre os seguidores de
Deva Mara e arruinarão nossa tradição.
Se realmente não compreendem, estudem por enquanto algumas palavras rastejadoras. Eu
digo a vocês que todos os budas do passado, presente e futuro de terras tão inumeráveis
quanto grãos de areia, inclusive os vinte e oito patriarcas Hindus e seis Chineses, estão
todos no topo do bastão; eles expõe o ensinamento Budista, manifestado em virtude de seus
poderes espirituais de formas diferentes, e deixam suas vozes serem ouvidas à vontade nas
dez direções, sem o menor obstáculo. Compreendem? Se não compreendem, não finjam
que compreendem. Bem então: Vocês examinaram detidamente o que acabei de dizer e
realmente o constatam? Mas mesmo que atingissem tal plano, não poderiam sequer sonhar
em ser um verdadeiro monge. Sequer encontrariam um num vilarejo de três casas!”
O Mestre repentinamente pegou seu bastão, desenhou uma linha no chão e disse: “Todos os
budas e patriarcas estão aqui”. Desenhou uma outra linha e disse, “Todos saíram daqui.
Cuidem-se!”

85. Alguém perguntou, “O que é o corpo de Shakyamuni?”


O Mestre disse, “Um pedaço seco de cocô”.

86. Alguém perguntou a Yunmen, “Mestre, você me diria, por favor, qual é o significado
cardeal de nossa tradição Chan?”
O Mestre disse, “No Sul há o Mestre Xuefeng, no Norte Mestre Zhaozhou”.

87. Alguém perguntou a Yunmen, “Apesar de ser minha preocupação principal, não
consigo achar um caminho para dentro. Por favor, Mestre, me mostre um caminho para
dentro”.
O Mestre disse, “Justamente na sua presente preocupação, há um caminho para dentro”.

88. “Como na verdade experimento o caminho único de poder sutil?”


O Mestre disse, “Depois de trinta anos!”

89. “Como é quando nem o poder sutil de despertar nem quaisquer objetos com os quais
olhos se deparam satisfarão a pessoa?”
O Mestre replicou, “Vire esta frase de cabeça para baixo!”

90. Tendo entrado no Salão do Dharma para uma instrução formal, Mestre Yunmen disse:
“O Bodhisattva Vasubandhu se transformou sem significado algum neste bastão de
madeira”.
Então ele desenhou uma linha no chão com seu bastão e disse:
“Todos vocês budas, incontáveis como grãos de areia, se emaranhem em palavras aqui!”
Com isso o Mestre deixou seu assento.

11
Símbolo da autoridade de um monge de cortar sua própria ignorância.
91. No Salão do Dharma, Mestre Yunmen disse:
“Serei cândido com vocês; conheço alguém quando o encontro. Mas apesar desta conversa
de mulheres velhas vocês não compreendem. Todos os dias vocês se estufam de comida, e
depois das refeições perambulam para cima e para baixo do Salão de Monges até o Salão do
Dharma. Que tipo de vaso de ensinamento estão procurando? Bando de raposas selvagens!
Que diabos estão todos fazendo aqui?”

92. Alguém perguntou, “Está começando o outono e o período de treinamento de três meses
está terminando. No futuro se alguém repentinamente me questionasse, como exatamente
deveria responder?”
“Fora daqui, toda a assembléia!”
“O que fiz de errado?”
“Anda, me devolva o dinheiro de comida de noventa dias de treinamento de verão”.

93. “Somente recentemente cheguei ao seu assento do Dharma e ainda não estou inteirado
do seu estilo de ensinamento”.
O Mestre replicou, “Bem, o que poderia eu dizer sem as suas perguntas!”

94. “É dito: ‘Nos países de todos os pontos do compasso existe somente um tipo de
ensinamento’. O que é esse ensinamento?”
“Por que você não pergunta uma outra coisa qualquer?”
O questionador disse, “Obrigado, Mestre, por sua orientação”.
O Mestre imediatamente gritou, “Kwatz!”

95. Alguém perguntou a Mestre Yunmen, “Como é quando a árvore murchou e as folhas
caíram?”
O Mestre disse, “É a manifestação total: o vento dourado do outono”.

96. Alguém perguntou a Yunmen, “E quanto à pérola na lapela12?”’


O Mestre disse, “Você pode dizer?”

97. Alguém perguntou a Mestre Yunmen, “O que é um sucessor na tradição dos


patriarcas?”
O Mestre disse, “Parece bom!”

98. Mestre Yunmen entrou no Salão do Dharma e disse, “Um bodhisattva lutando pela
sabedoria deve ser capaz de conhecer as doenças dos seres sencientes; então ele será capaz
de conhecer suas próprias doenças, as doenças dos bodhisattvas lutando pela sabedoria.
Bem, se existe alguém aqui que possa compreender isso, ele deve dar um passo à frente e
tentar demonstrá-lo para todos nós!”
Ninguém na assembléia disse qualquer palavra.
Então o Mestre disse, “Se não podem fazer isso, então não me impeçam de dar uma andada
onde quer que eu queira”.

12
História do Sutra do Lótus, em que um bom amigo que ficou rico esconde uma preciosa pérola na lapela do
outro que permaneceu pobre enquanto ele caiu bêbado.
99. Tendo entrado no Salão do Dharma para uma instrução formal, Mestre Yunmen disse,
“Hoje estou enrolado com palavras com vocês: merda, cinzas, mijo, fogo! Estes porcos
sujos e cachorros sarnentos não podem sequer distinguir o bem do mal e estão ganhando a
vida num poço de merda!
“Deixem-me dizer a vocês: vocês devem agarrar todo o universo, a terra, as doze divisões
dos três veículos e os ensinamentos verbais de todos os budas dos três reinos e todos os
mestres de todo o império imediatamente em suas sobrancelhas! Mesmo que você fosse
capaz de compreender isso aqui e agora, ainda seria um camarada sem sorte que está
pulando num poço de merda por nenhuma razão absolutamente. Se alguém como essa
pessoa viesse à minha assembléia de monges de manto remendado, eu lhe bateria até que
suas pernas quebrassem!”
Três monges então se adiantaram simultaneamente e se inclinaram. O Mestre disse: “Uma
só acusação lida com vocês três”.

100. Alguém perguntou, “Como podemos ir rapidamente além dos três reinos (de desejo
sensual, forma e sem forma)?”
O Mestre disse, “Como podemos rapidamente ir além dos três reinos?”
O questionador disse, “É isso!”
O Mestre observou, “Se é isso, então está tudo acabado para você!”

101. Alguém perguntou a Yunmen, “E quando eu limpo tudo de uma só tacada?”


O Mestre disse, “O que faria você sobre mim?”
O questionador replicou, “Isso é seu problema!”
O Mestre exclamou, “Seu saco de vento!”

102. “O que é o Dao?”


O Mestre replicou, “Quebrar além desta palavra”.
“Como é quando a pessoa quebrou além?”
“Por mil quilômetros, o mesmo humor”.

103. Alguém perguntou, “Um velho monge disse, ‘Realizei o princípio último’. O que é
esse princípio último?”
O Mestre disse, “O que está em minhas mãos?”
O monge insistiu, “Estou perguntando sobre o princípio último”.
O Mestre bateu-lhe com seu bastão, gritando: “Buu! Buu! Justamente quando está
esmagado você diz, ‘Por favor me ensine isso!’ Onde quer que vão, pessoas como você
sabem exatamente como espremer as coisas para dentro do esqueminha seus. Dê um passo
à frente e deixe-me perguntar: Você geralmente está na plataforma de meditação e sustenta
discussões sobre ‘transcender particulares’ e ‘descer para eles’, e sobre ‘ir além dos budas’
e ‘transcender os patriarcas’. Agora diga-me: Um búfalo d’água sabe algo sobre ‘ir além
dos budas e transcender os patriarcas’?”
O monge replicou, “Justo há um minuto atrás, alguém já perguntou isso!”
O Mestre replicou, “Esse tipo de frase é algo que você pode aprender na plataforma elevada
de meditação. Não é preciso dizer o óbvio e dizer que ‘tem’ quando tem e ‘não tem’ quando
não tem.
O monge disse, “Se o búfalo d’água tem o significado de ‘transcender os budas e ir além
dos patriarcas’: qual a razão então para que tenha uma pele e chifres?”
O Mestre disse: “Sabia que você era do tipo que memoriza palavras”.
Mestre Yunmen acrescentou: “Vamos, vamos! Deixe-me perguntar novamente: todos vocês
carregam o bastão em cima dos ombros e dizem que ‘praticam Chan’ e que ‘estudam o
Dao’ e que estão procurando pelo significado de ‘ir além dos budas e transcender os
patriarcas’. Bem, aqui está minha pergunta para vocês: o significado de ‘ir além dos budas e
transcender os patriarcas’ está presente em todas suas ações durante as vinte e quatro horas
do dia – andando, de pé, sentado, deitado, cagando, mijando – e em toda parte inclusive nos
vermes particulares e nos carneiros negociados em baias na praça do mercado? Se houver
alguém capaz de me contar, que dê um passo à frente! Se ninguém for capaz de tal, não me
impeçam de dar uma caminhada onde eu quiser, leste ou oeste!”
Com isso, Mestre Yunmen deixou o assento de professor.

104. “Qual era o propósito da vinda do Oeste de Bodhidharma?”


O Mestre replicou, “Você deve estar faminto depois de uma viagem tão longa: tem comida
e arroz na plataforma de meditação!”

105. Um monge perguntou, “Qual era o objetivo de Bodhidharma quando ele veio do
Oeste?”
O Mestre replicou, “Uma pergunta de você, Venerável, e eu dou aquele pulo de três mil
quilômetros”.
O monge disse: “Obrigado, Mestre, por sua instrução”.
Mestre Yunmen disse, “Espere, espere, diga-me: o que quer dizer isso que acabei de dizer
para você?”
O monge não teve o que responder.
O Mestre respondeu: “Volte novamente em trinta anos: então eu lhe darei trinta pancadas
com meu bastão!”

106. Tendo entrado no Salão do Dharma para uma instrução formal, Mestre Yunmen disse:
“O Buda atingiu o Caminho quando surgiu a estrela da manhã”.
Um monge perguntou: “Como é quando a pessoa atinge o Caminho quando surge a estrela
da manhã?”
Mestre Yunmen disse, “Venha até aqui e eu lhe mostrarei”.
O monge se aproximou. Mestre Yunmen lhe bateu com o bastão e o cassou para fora do
Salão do Dharma.

107. Mestre Yunmen entrou no Salão do Dharma para uma instrução formal.
Um monge se adiantou, inclinou e disse: “Por favor, Mestre, responda às nossas
perguntas!”
Mestre Yunmen disse, “Olá, como vão?”
Quando os membros da assembléia olharam para o Mestre ele imediatamente deixou seu
assento.

108. Mestre Yunmen entrou no Salão do Dharma para uma instrução formal. Houve um
longo silêncio. Então um monge se adiantou e inclinou.
O Mestre disse, “Tarde demais!”
O monge consentiu, “Sim”.
O Mestre disse, “Seu ignorante!”
109. Tendo entrado no Salão do Dharma para uma instrução formal, Mestre Yunmen disse:
“Existe alguém aqui que seja capaz de colocar uma pergunta? Vamos, perguntem algo!”
Um monge se adiantou, inclinou e disse: “Por favor, Mestre me examine!”
O Mestre disse: “Joguei um anzol esperando pegar uma baleia – mas o que foi que pesquei?
Um sapo!”
O monge disse: “Não se engane, Reverendo!”
Mestre Yunmen disse: “Ali você mordeu mais do que pode engolir, o que acha?”
O monge não disse nada.
Mestre Yunmen lhe bateu.

110. Alguém perguntou a Yunmen, “Por que é que Samantabhadra cavalga um elefante
enquanto que Manjusri um leão?”
O Mestre disse: “Não tenho nem um elefante nem um leão; Cavalogo o Salão de Buda e
vou embora através do portão triplo do mosteiro”.

111. Como é quando a sabedoria que a tudo envolve está presente e não há obstáculos?”
O Mestre replicou, “Limpem o chão e o borrifem com um pouco de água: Sua Excelência, o
Primeiro Ministro está chegando”.

112. Alguém perguntou: “O que é aquilo que é transmitido separadamente dos


ensinamentos dos três veículos?”
O Mestre disse, “Se você não me perguntar eu não respondo. Mas se você indagar, vou à
Índia de manhã e volto à China de tarde!”
O questionador disse, “Por favor Mestre, indique isso para mim!”
O Mestre replicou, “Casinho sem esperança!”

113. “Qual era a intenção do Patriarca Bodhidharma ao vir do Oeste?”


O Mestre replicou, “De que adianta ficar falando durante o sono em plena luz do dia?”

114. “Qual é o sentido fundamental do ensinamento Budista?”


O Mestre disse, “Você está encarando o sul para ver a constelação do Grande Urso (que
está no norte)”.

115. Um monge perguntou, “Qual é o estilo característico de sua casa, Mestre?”


O Mestre replicou, “Você tomou os votos cedo demais!”

116. Alguém perguntou a Yunmen, “Desde que vim a seu assento do Dharma, Mestre, eu
não compreendo. Por favor, me confira alguma instrução!”
O Mestre disse, “Posso cortar fora sua cabeça?”

117. Alguém perguntou, “Por favor, Mestre, me instrua; faça com que eu me livre da
confusão de uma vez por todas!”
O Mestre replicou, “Qual é o preço do arroz em Xiang-zhu?”

118. Alguém perguntou a Mestre Yunmen, “Como é quando dois veneráveis se deparam
um com o outro?”
O Mestre disse, “Não aconteceu por acaso”.

119. Mestre Yunmen entrou no Salão de Dharma e disse,


“Indra e o velho Shakyamuni estão brigando sobre o Budismo no jardim do mosteiro; que
brigona!”
Com isso o Mestre deixou seu assento.

120. “O que realmente pretende o Sexto Patriarca de Caoqi?”


O Mestre disse, “Eu gosto de ficar escandalizado. Não gosto de ser agradado”.
“Por que isso é assim?”
“Se você encontrar com um espadachim na estrada, ofereça-lhe uma espada; e para alguém
que não for poeta, não lhe ofereça uma poesia”.

121. No Salão do Dharma para uma instrução pública, Yunmen disse, “Amigos monges,
vocês devem compreender em que consiste um monge de manto remendado. Bem, o que é
aquilo em que se constitui um monge de manto remendado?”
(nenhuma resposta).
Ele acrescentou, “Grande Perfeição da Sabedoria! Hoje temos um grande trabalho
comunal”.
E ele desceu de seu assento.

122. Alguém indagou a Yunmen, “Qual era o propósito da vinda de Bodhidharma do


Oeste?”
O Mestre disse, “Montanhas, rios e a terra”.
O monge insistiu, “Existe algo além disso?”
O Mestre disse, “Existe”.
O questionador prosseguiu, “E o que seria tal coisa?”
O Mestre disse, “O Velho Shakyamuni está ficando na Índia, e o Bodhisattva Manjusri
reside na China”.

123. Um monge perguntou, “Como é quando pai e mãe faleceram?”


O Mestre replicou, “Deixemos ‘faleceram’ de lado por ora: quem são seus pais e mães?”
O monge disse, “Profunda é a dor”.
O Mestre disse, “Estou vendo, estou vendo!”

124. Alguém perguntou a Mestre Yunmen, “Se vier uma pessoa por completo ignorante:
como você o ajudaria?”
O Mestre replicou, “Tanto o caso dele quanto os seus são cuidados por uma só acusação”.

125. Um monge perguntou a Mestre Yunmen, “Para o benefício de quem você ensina?”
O Mestre disse, “Venha mais perto e pergunte mais alto!”
O monge adiantou-se e perguntou novamente.
O Mestre lhe bateu.

126. Alguém perguntou a Mestre Yunmen, “Qual a sua idade, Mestre?”


O Mestre replicou, “Sete vezes nove é igual a sessenta e oito”.
O questionador perguntou, “Por que seria sete vezes nove igual a sessenta e oito?”
O Mestre disse, “Subtraí cinco anos para você”.

127. Tendo entrado no Salão do Dharma para uma instrução formal, Mestre Yunmen disse:
“Monges Reverendos! Apesar de vocês dizerem ‘O que foi?’ vocês ainda estão colocando
uma cabeça em cima de uma cabeça e gelo em cima de neve, piscando um olho no caixão e
queimando moxa numa cicatriz de moxa queimada. Isso é realmente doloroso! Mas o que
se pode fazer sobre o assunto?
“Todos vocês devem tentar cada qual por si obter um melhor renascimento. Não fiquem
futilmente vagabundeando pelos distritos e províncias chinesas! Vocês somente querem
agarrar algumas palavras triviais e estão esperando que a boca de algum mestre se mova;
então perguntam sobre o Chan e sobre o Dao, ‘para cima’ e ‘para baixo’, ‘o que é...’ e ‘e
se...’ e você enfia tudo que anotou em grandes rolos de papel de cópia bem para dentro de si
mesmos. Onde quer que vão se ajuntam em pequenos grupos ao redor de lareiras, e muitas
vozes murmuram especulando: ‘Estas são palavras imparciais e eloqüentes e aquelas outras
são palavras concebidas in loco; estas são palavras baseadas em eventos e aquelas palavras
que incorporam – incorporam o mestre ou mestra em sua casa’. E uma vez tendo engolido
tais palavras nada mais fazem do que falar em seus sonos, dizendo, ‘Compreendi o Dharma
de Buda’. É perfeitamente óbvio que através de tais peregrinações vocês nunca atingirão o
descanso!
“E então existe aquele outro grupo que, tão logo ouçam falar de descanso, fecham os olhos
enquanto ainda no inferno. Gastam suas vidas num buraco de rato, sentam sob uma
montanha escura onde fantasmas perambulam, e dizem, ‘Encontrei um lugar de entrada’.
Será que vêem algo mesmo em sonhos? Que crime seria surrar à morte dez mil desse tipo
de gente? Isso é chamado ‘desde o começo nenhuma chance de se encontrar com alguém
realizado’. Finalmente, são somente sacos de vento.
“Se realmente houver algo, vejam: venham e demonstrem para mim, eu o discutirei com
vocês! Não considerem em vão que vocês não sabem a diferença entre o bem e o mal, e não
fiquem mantendo essas reuniões sem sentido para serem apanhados na rede de palavras!
Não me deixem pegar vocês fazendo isto, já que seu pegar vocês nessa atividade, eu teria
que surrar vocês e cortá-los ao meio. Não digam que eu não avisei.
“Há sangue debaixo de suas peles? Do que vale se auto-vitimizar onde quer que vão?
Bando de exterminadores do Budismo! Nada mais são que uma matilha de raposas
selvagens! Para que estão aqui?”
E Mestre Yunmen imediatamente cassou os monges com seu bastão para fora do Salão do
Dharma.

128. Alguém perguntou, “Os Honrados das dez direções todos possuem um só portão para a
liberação última. Onde está tal portão?”
O Mestre disse, “Não consigo dizer”.
O questionador prosseguiu, “Mestre, por que você não consegue dizer?”
O Mestre replicou, “Se você, somente você, apresentar o problema então eu posso”.

129. Alguém perguntou a Mestre Yunmen, “Requisito sua instrução, Mestre!”


O Mestre disse, “ABCDEF”.
O questionador: “Não compreendo”.
O Mestre: “GHIJKL”.
130. Tendo entrado no Salão do Dharma para uma instrução formal, Mestre Yunmen disse:
“Suas pestanas se estendem horizontalmente em todas as direções, suas sobrancelhas
penetram céus e terra até o mundo dos mortos, e o Monte Sumeru bloqueou suas gargantas.
Agora, há alguma coisa no que eu disse que vocês tenham compreendido? Se
compreenderam: peguem o Vietnam e o esmaguem contra a Coréia!”

131. Tendo entrado no Salão do Dharma para uma instrução formal, Mestre Yunmen disse:
“Saiam, saiam! Vocês estão infindavelmente se enganando!”
Então Mestre Yunmen perguntou à assembléia: “Será que até dizer o que acabei de dizer
um erro?”

132. “O que pretendia o fundador Bodhidharma quando veio do Oeste?”


“Você não deve fazer tal pergunta!”
“Sim”.
“Bah! Sequer você compreende o que eu disse!”

133. Alguém perguntou, “Quando você faz oferendas aos arhats hoje, eles vêem para
recebê-las?”
Mestre Yunmen disse, “Se você não perguntar, eu não responderei”.
“Por favor, Mestre, me diga!”
O Mestre disse, “Eleve suas mãos em louvor em frente ao portão do templo principal, e
ofereça incenso no Salão de Buda”.

134. Alguém perguntou a Mestre Yunmen, “Qual é a questão principal para monges de
manto remendado?”
O Mestre disse, “No Sul há o Mestre Xuefeng; no Norte, há o Mestre Zhaozhou”.
O questionador continuou, “Por favor, Mestre, não complique as coisas!”
O Mestre disse, “Você não deve evitar sua pergunta!”
O aluno disse, “Sim.”
O Mestre lhe bateu.

135. Tendo entrado no Salão do Dharma para uma instrução formal, Mestre Yunmen disse:
“Bem, o que tem sido desde os tempos antigos a pergunta? Bem agora não posso evitar
dizer o seguinte: Que coisa existe no universo inteiro que seja um objeto ou que esteja em
relação a você? Se houver a menor coisa que constitua um obstáculo ou constrição para
você, pegue-a e traga-a aqui para mim! O que é aquilo que você chama de ‘buda’ ou
‘patriarca’? O que é aquilo que você chama de montanha, rio, terra, sol, lua ou estrelas? E
o que você considera os quatro elementos e cinco componentes? 13
“Quando eu falo desta forma, eu o chamo de ‘conversa de avó de um vilarejo de três
choupanas’. Se eu conhecesse um verdadeiro peregrino e ele me ouvisse falar assim, ele
não poderia ser criticado se me pegasse pelas pernas e arrojasse degraus abaixo.
“Contudo eu pergunto a vocês: por que razão isso é assim? Não tomem vantagem de suas
bocas lisonjeiras para conversa ao acaso aqui. Para ser capaz de falar livremente, em
primeiro lugar você deve ser capaz de ser este tipo de pessoa! Se de repente o chão no qual
13
Quatro elementos: Terra, água, fogo e vento. Cinco skandhas (componentes dos seres humanos): 1. forma,
matéria, 2. recepção, sentimento, 3. concepção, percepção; 4. volição, funcionamento mental; e 5.
discriminação, consciência.
você se queda fosse examinado por mim, você ficaria encurralado e teria suas pernas
quebradas; haveria algo de errado com isso?
“Isto sendo compreendido: há alguém bem agora que gostaria de me questionar sobre a
essência de nossa tradição Chan? Que eu replique com uma frase de virada e então vá onde
quer que queira!”
Justo quando um monge ia perguntar algo, o Mestre o acerto com seu bastão em cheio na
boca. Então deixou seu assento.

136. Mestre Yunmen entrou no Salão do Dharma e disse,


“Eu tenho uma frase, mas não ousaria supor que vocês a entenderiam. Mas existirá aqui
alguém que seja capaz de citar uma?”
Depois de longo silêncio ele disse, “Sempre achei que apenas esse bárbaro tivesse barba
vermelha, mas vejo que há mais bárbaros de barba vermelha!”
Com isso o Mestre deixou seu assento.

137. Tendo entrado no Salão do Dharma para uma instrução formal, Mestre Yunmen disse:
“Não posso senão ficar dando remédio para um cavalo morto. Estou dizendo para vocês: ‘O
que é? É o leste ou oeste, norte ou sul, ser ou não ser, ver ou ouvir, lá em cima além, ou
aqui embaixo aquém, assim ou não assim?’
“Isso é chamado de conversa de vovó. Mas quantos de vocês atingiram tal reino? Quer
estejam de acordo com isso ou não: possa isso acontecer num lugar calmo!”
Com isso o Mestre deixou o salão.

138. Tendo entrado no Salão do Dharma para uma instrução formal, Mestre Yunmen disse:
“Velhos monges por toda parte dizem, ‘Vocês devem perceber aquela coisa única sem som
ou forma’. Com palavras desta espécie eles enganam os filhos das pessoas. Dentro de seus
pequenos templos estão iludindo a si mesmos; nem mesmo em sonhos viram o significado
da tradição de nosso professor original! Por qual razão consomem as doações dos fiéis?
Quando seus tempos tiverem se esgotado, todos terão que reembolsar os doadores, não
importa quão cheios de pânico fiquem!
“Somente você, cada qual de vocês, deve fazer o esforço por si mesmo! Cuidem-se!”

139. Alguém perguntou, “O que é o corpo do Dharma puro e imaculado?”


Mestre Yunmen disse, “A cerca florida!”
Um monge perguntou, “Estaria certo de compreendê-lo assim?”
O Mestre disse, “Um leão de pelo dourado!”

140. Yunmen foi ao Salão do Dharma e ao ouvir o som dos sinos, disse,
“O mundo é tão vasto e grande; por que teria eu que envergar o manto de monge de sete
tiras ao som de um sino?”

141. Tendo entrado no Salão de Dharma para uma instrução formal, o Mestre disse:
“Não se deve adicionar o gelo à neve! Cuidem-se!”
Com isso o Mestre deixou o assento do professor.

142. Tendo entrado no Salão de Dharma para uma instrução formal, o Mestre disse:
“Esses velhos enganadores por toda parte! Sentando em cadeiras redondas de mestre e em
bancadas de meditação, querem adquirir fama e lucro. Perguntados sobre os Budas,
respondem ‘Buda’ e perguntados sobre os patriarcas respondem ‘patriarca’, e cagam e
mijam. O que dizem é justamente como informação passada entre vovózinhas da terra.
Sequer sabem distinguir o bem do mal.
“Aqui todos vocês são idênticos a eles; deveriam até ter dificuldade de beber água com uma
consciência limpa!”

143. Tendo entrado no Salão do Dharma para uma instrução formal, o Mestre disse:
Cada um já tem a luz radiante – e contudo quando ela é fitada, não é vista: escura e
obscura!”
Com isso o Mestre deixou seu assento de professor.

144. Tendo entrado no Salão do Dharma para uma instrução formal, o Mestre disse:
“Todos vocês que vêm e vão sem razão: O que estão buscando neste mosteiro aqui? Eu
somente sei como comer, beber e cagar. Para que mais serviria eu?
“Vocês estão fazendo peregrinações por toda parte, estudando o Chan e perguntando sobre
o Dao. Deixem-me perguntar-lhes: O que conseguiram adquirir em todos estes lugares?
Tentem apresentar isso!”
Novamente ele disse: “No meio tempo, vocês estão enganando o Mestre em suas próprias
casas. Isso estaria certo? Quando conseguirem achar um pouco de limo na minha bunda,
vocês a lambem, achando que é o próprio ser de vocês e dizem: ‘Compreendo o Chan,
compreendo o Dao!’ Mesmo que você consiga ler todo o cânone Budista – e daí?’
“Os velhos mestres de antigamente não podiam evitar tal estado de coisas. Quando viam
vocês correndo para aqui e para lá desorientados, eles lhe disseram ‘sabedoria suprema
(bodhi) e nirvana’. Eles realmente enterraram vocês; fincaram uma estaca e amarraram
vocês a ela. Novamente constataram que vocês não compreenderam, então disseram: ‘Não é
bodhi, não é nirvana’. Conhecendo este tipo de coisa já mostra que vocês estão sem sorte;
mas para fazer as coisas ainda piores, vocês estão buscando comentários e explicações de
outros. Seus exterminadores do Budismo, vocês sempre foram assim! E onde isso lhes
trouxe hoje?
“Quando eu estava peregrinando há algum tempo atrás, havia um bando de pessoas que me
davam explicações. Não tinham má intenção, mas um dia eu lhes compreendi e percebi
como eram dignos de uma risada. Se não falecerem nos próximos quatro ou cinco anos, eu
vou pegar estes exterminadores do Budismo e quebrarei suas pernas!
“Nos dias de hoje existem muitos monges de templo por toda parte que são falsos: por que
vocês não se juntam a eles? Que pedaço de cocô seco vocês estão buscando aqui?
O Mestre desceu de seu assento e bateu e cassou os monges do salão com seu bastão.
DITOS ESSENCIAIS DOS APOSENTOS DO MESTRE

145. Instruindo a assembléia, o Mestre disse,


“Céus, terra e todo o mundo em todas as dez direções são feitos em pedaços pela pancada
do meu bastão.
“Se você abandonar todos os ensinamentos escritos Budistas bem como a vinda de
Bodhidharma do Oeste, não adianta. E contudo se você segurá-los não valerá sequer um
grito”.

146. Instruindo a assembléia, o Mestre disse:


“Os vinte e oito fundadores Hindus e os seis Chineses bem como todos os professores do
império estão todos na ponta deste bastão.
“Mas mesmo que você consiga compreender e esmiuçar isso completamente, ainda estaria
somente a meio caminho dali. Enquanto você não abrir as mãos, nada mais é que um
fantasma de uma raposa selvagem!”

147. Um dia o Mestre disse:


“Por causa de suas compaixões, todos os veneráveis desde os dias de antanho sustentaram
discussões que caíram nas ervas daninhas; através de suas palavras vocês os conhecerão.
Não estariam em tal posição se eles somente sustentassem conversas que deixassem as
ervas daninhas. Então existem anedotas coletadas e condensadas. Vocês não ouviram a
seguinte história:

O Reverendo Yangshan perguntou a um monge, “De onde vem você?”


“Das montanhas de Lu”, replicou o monge.
Yangshan disse, “Neste caso, você visitou o Pico dos Cinco Veteranos?”
“Nunca estive lá”, respondeu o monge.
Yangshan arrematou, “Você nunca esteve na montanha!”

Mestre Yunmen disse: “Essas palavras são todas exemplos de ter conversas nas ervas
daninhas por compaixão”.

148. O Mestre disse de certa feita:


“Se você disser que ‘essa mente mesma é o Buda’, provisoriamente você aceita o escravo
como mestre e a vida-e-morte como o nirvana. Isso é precisamente como cortar fora a
cabeça da pessoa indo atrás da vida. Falando sobre budas e fundadores e suas intenções
respectivas é como roubar suas próprias pupilas enquanto procurando por ameixas de
sabão”.

149. Mestre Yunmen citou:

Uma pessoa de antigamente disse: “Xiangyan despertou para o Dao ao ouvir um som, e
Mestre Lingyun se iluminou ao ver as cores dos vales e montanhas”.

Mestre Yunmen disse: “E quanto a ‘despertar para o Dao ao ouvir um som’ e ‘se iluminar
ao ver uma cor?’
Então ele disse: “O Bodhisattva Guanyin está pegando uma moeda e indo comprar um
bolinho de gergelim”.
Abaixando sua mão, ele acrescentou: “Eu vejo! É somente um enroladinho!”

150. O Mestre disse de certa feita:


“A lanterna é você mesmo. E contudo quando você segura sua tigela e come sua comida, a
comida não é você mesmo”.
Um monge perguntou, “E quando a comida sou eu mesmo?”
O Mestre gritou, “Sua raposa selvagem! Caipira!”
Ele acrescentou: “Vamos, vamos! Não foi você que disse que a comida é você mesmo?”
O monge disse, “Sim”.
O Mestre exclamou: “No ano do burro você vai chegar a alguma compreensão, caipira”.

151. O Mestre disse de certa feita: “O verdadeiro vazio não destrói o ser, e o verdadeiro
vazio não difere da forma”.
Então um monge perguntou: “O que é o verdadeiro vazio?”
O Mestre respondeu: “Você ouve o som do sino?”
O monge replicou: “É o som do sino”.
O Mestre gritou: “Você vai chegar a alguma compreensão no ano do burro?”

152. Mestre Yunmen citou um verso de Sanping14:

Esse ver e ouvir não é ver e ouvir.

Mestre Yunmen disse: “O que você chama de ver e ouvir?”


(Continuando a citação, ele disse,)

Não mais som ou forma que poderia se revelar a você.

O Mestre disse: “Alguém quer enfiar o seu remo aqui?”


(Ele continuou a citar,)

Se você realizar isso bem aqui, então nada ficará pegando.

O Mestre disse, “Tem alguma coisa pegando?”


(Ele terminou a citação,)

E a essência e a função não prejudicam nem a distinção nem a não-distinção.

O Mestre disse, “A palavra é a essência, a essência é a palavra”.


Novamente ele levantou seu bastão e observou, “Esse bastão é a essência, e a lanterna é a
função. É distinguir sem distinguir. Vocês não leram a frase ‘Todo conhecimento é puro’?”

153. O Mestre contou a seguinte história:

14
Sanping Yizhong viveu de 781 a 872 DC.
Um monge perguntou a Mestre Zhaozhou, “Acabei de me juntar ao mosteiro e peço o seu
ensinamento”. Zhaozhou perguntou, “Você já comeu a refeição?” O monge replicou,
“Sim”. Zhaozhou disse: “Então lave a tigela”.

Mestre Yunmen disse: “Bem, digam-me: o que Zhaozhou disse era um ensinamento ou
não? Se você disser que era: o que foi que Zhaozhou disse ao monge? Se você disser que
não era: por que o monge em questão atingiu a iluminação?”

154. Mestre Yunmen mencionou a seguinte história:

Um monge pediu a Xuefeng por instrução. Xuefeng lhe disse: “O que é?” Como estas
palavras o monge atingiu um grande despertar.

Mestre Yunmen disse: “O que foi que Xuefeng lhe disse?”

155. Mestre Yunmen mencionou as seguintes palavras por Panshan15:

Quando tanto a luz quanto os objetos iluminados são esquecidos: o que é isto?

Mestre Yunmen disse: “Apesar dele falar assim, ainda está somente no estágio
intermediário. Isso ainda não é o caminho para a quebra além”.
Um monge então perguntou: “O que é o caminho para a quebra além?”
Mestre Yunmen disse: “O Pico de Flores de Tiantai, a ponte de pedra de Zhaozhou”.

156. Mestre Yunmen mencionou a seguinte história:

Xuefeng disse a um monge: “Venha mais perto!” Quando o monge fez como dito, Xuefeng
disse: “Vá embora!”

Depois de contar esta história, Mestre Yunmen perguntou a um monge: “Como pode você
dizer uma frase de cumprimento com suas mãos postas sobre o peito16? Se você disser uma
tal frase, se encontrará com Xuefeng!”

157. Mestre Yunmen citou um dito do Terceiro Patriarca (da obra Inscrição sobre a
Confiança na Mente):

Quando a mente não surge, as miríades de coisas não têm erro.

Mestre Yunmen disse: “Isso foi tudo que ele compreendeu!”


Então ele soergueu seu bastão e acrescentou: “Há algo de errado no universo inteiro?”

158. Mestre Yunmen mencionou a seguinte história:


15
Panshan Baoji, datas desconhecidas, era um sucessor de Mazu. A citação toda, proveniente do livro
Registro da Transmissão da Lâmpada, lê:
Quanto à lua da mente: é solitária e perfeita, e sua luz engloba as miríades de fenômenos. Se sua luz não
brilhar nos objetos, os objetos tampouco têm existência. Quando tanto a luz quanto os objetos são
esquecidos: o que é isto?
16
Gassho.
Um monge perguntou ao Mestre Ganfeng17: “É dito: ‘Os Honrados pelo Mundo das dez
direções têm todos um só portão para a liberação última’. Imagino onde seria tal portão!”
Ganfeng desenhou uma linha com seu bastão e disse: “Aqui está!”

Mestre Yunmen levantou seu leque e disse, “Quando este leque pula para o céu mais
elevado, bate no nariz de Indra, e quando dá uma pancada na carpa do Mar do Lestre, a
chuva cai em torrentes! Compreendem?”

159. Mestre Yunmen relatou a seguinte história:

Yangshan perguntou a um monge: “Onde você esteve por último?” O monge replicou:
“No sul”. Yangshan pegou eu bastão e disse: “Lá eles falavam disto?” O monge
respondeu: “Não”. “Se não falavam disso, falavam daquilo?” O monge disse, “Não”.
Yangshan então mandou que o monge tomasse seu lugar no salão, e o monge fez como
dito. Yangshan o chamou uma vez mais. O monge respondeu, “Sim?” Yangshan disse:
“Chegue mais perto”. O monge foi mais perto. Yangshan então lhe bateu.

Mestre Yunmen disse: “Se Yangshan não tivesse dito aquelas últimas palavras, como podia
ter descoberto a pessoa?”

160. Mestre Yunmen contou a seguinte história:

Xuefeng disse a um monge: “Venha aqui!” Quando o monge fez como requisitado,
Xuefeng disse: “Onde você está indo?” “Estou indo para o trabalho de grupo”, o monge
respondeu. Xuefeng disse, “Vá!”

Mestre Yunmen observou: “Este é um exemplo de ‘conhecer a pessoa por suas palavras’.”

161. Mestre Yunmen mencionou o seguinte episódio:

Jiashan estava sentando quando Dongshan18 chegou e disse: “Como vai?” Jiashan
replicou: “Assim, assim”.

Mestre Yunmen disse no lugar de Dongshan: “O que fará você se eu não comprar o que
você faz?”
No lugar de Jiashan, Yunmen deu um grito.
Novamente Mestre Yunmen abordou as palavras de Jiashan, “Assim, assim” e disse: “Eu
vejo que você está somente num buraco de sapo!”
Então ele acrescentou: “ ‘Assim, assim’ – contudo difícil de chegar perto”.

162. Mestre Yunmen citou o verso de um fundador19:


17
Yuezhu Ganfeng (datas desconhecidas) era um discípulo de Dongshan Liangjie (807-869)
18
Dongshan Liangjie (807-869).
19
Mahakasyapa: o verso todo:
Cada dharma é o que o Dharma é sobre:
Nem ensinamento nem não ensinamento.
Mas como poderia haver num ensinamento
Cada entidade (dharma) separado é o que o ensinamento é originalmente sobre.

Mestre Yunmen disse: “Andando, de pé, sentado e reclinado não são o que o ensinamento
Budista é originalmente sobre. Nada absolutamente – seja montanhas ou rios ou a terra ou o
seu vestir e comer dia e noite – é o que o ensinamento Budista é originalmente sobre. O que
está errado com isso?”
Novamente Mestre Yunmen citou:

O ensinamento é na raiz um ensinamento sem objetos.

O Mestre levantou seu bastão e disse: “Isso não é ‘na raiz sem objetos’.”

163. Mestre Yunmen citou as palavras do Sr. Bao20:

Assim como o meu “eu” é vazio, todas as entidades separadas (dharmas) são vazios. Isso
se aplica a tudo que existe, não importa o que seja.

Mestre Yunmen disse: “Contudo quando se está de pé não se está consciente de estar de pé,
e quando você anda não está consciente de estar andando; e os quatro elementos maiores
(que constituem o universo físico) e os cinco componentes (dos seres vivos) não podem ser
apreendidos. Venham, onde vocês estão vendo as montanhas e rios e a terra? Você,
justamente você que todo dia pega sua tigela e come arroz: o que você chama ‘arroz’? Onde
existe um só grão de arroz que seja?”

164. Mestre Yunmen citou:

Todos os sons são a voz de Buda; todas as formas são a forma do Buda.

O Mestre pegou um espanador de moscas e disse: “O que é isto? Se você disser que é um
espanador de moscas, não compreende sequer o Chan de uma vovozinha de um vilarejo
caipira de três choupanas”.

165. O Mestre disse de certa feita: “Querem vocês conhecer os mestres fundadores?”
Indicando com seu bastão, ele disse: “Estão todos pululando ao redor de suas cabeças!
Querem conhecer suas pupilas? Estão bem debaixo de seus pés!”
Ele acrescentou: “Este tipo de orientação é oferecer chá e comida a fantasmas e espíritos.
Contudo, estes fantasmas e espíritos não ficam satisfeitos”.

166. O Mestre disse de certa feita: “Conversando sobre vocês sobre a sabedoria iluminada,
liberação final, talidade e liberação quer dizer queimar incenso de bordo e oferecê-lo a
vocês. Falar a vocês de budismo, fundadores quer dizer queimar incenso ‘calor dourado’ e
oferecê-lo a vocês. Falando a vocês sobre transcender os budas e ir além dos fundadores
quer dizer queimar incenso em garrafa e oferecê-lo a vocês. Tomem refúgio no Buda, seu
ensinamento e na comunidade monástica!”
Tanto o ensinamento quanto o não ensinamento?
20
Desconhecido.
Com isso ele deixou o Salão do Dharma.

167. O Mestre um dia levantou seu bastão e mencionou um ensinamento que dizia:

A pessoa comum em toda sinceridade diz que este bastão existe, representantes dos dois
veículos do ensinamento Budista explicam que não existe, os pratyekabudas dizem que
existe como uma ilusão, e os bodhisattvas vazio como é.

Então Mestre Yunmen disse: “Quando um monge de manto remendado vê este bastão, ele
somente o chama de um bastão; quando ele anda, ele somente anda; e quando ele senta,
somente senta. Em tudo isso não pode ser movido”.

168. De certa feita, quando o Mestre havia terminado de beber chá, ele levantou a xícara e
disse: “Todos os budas dos três períodos terminaram de ouvir o ensinamento; eles
perfuraram o fundo desta xícara e estão indo embora. Vêem? Vêem? Se não
compreenderem, procurem no dicionário!”

169. Mestre Yunmen citou as palavras de Panshan:

Quando a luz do sujeito que conhece não é aquela que confronta os objetos e os objetos
não são coisas existentes tampouco: quando tanto sujeito e objeto são esquecidos, que
coisa além disso haverá?

Mestre Yunmen disse: “Se todo o mundo é a luz do sujeito: o que é aquilo que você chama
‘si mesmo’? Mas mesmo que você tivesse conhecido esta luz, os objetos ainda estariam
fora de seu alcance. Que luz e objetos de merda existem? E sem nem sujeito nem objeto
podem ser apreendidos: o que mais existe?”
Ele acrescentou: “Estas são anedotas coletadas e condensadas pronunciadas por compaixão
pelas pessoas de antigamente. Percebam do que se trata bem aqui e agora com a maior
clareza! Não adianta desistir. E contudo se você não desistir...!!”
Então o Mestre levantou suas mãos e disse: “Su-lu! Su-lu!”

170. Mestre Yunmen citou as palavras de Fu Dashi21:

O rio da meditação segue as correntes e contudo está calmo: as águas do samadhi vão
junto com as ondas e contudo estão límpidas.

O Mestre pegou seu bastão, bateu com força no assento e disse,


“Todos os sons são a voz do Buda, e todas as formas são a forma do Buda. E contudo
quando você segura sua tigela e come sua comida, você sustenta um ‘ponto de vista de
tigela’; quando você anda, sustenta um ‘ponto de vista andante’; e quando senta, sustenta
um ‘ponto de vista sentado’; Todo bando de vocês se comporta assim!”
O Mestre pegou seu bastão e os expulsou imediatamente.

21
Fu Dashi (497-569) era um famoso leigo Chinês do período das Seis Dinastias, famoso por seus esforços de
aliviar os sofrimentos das pessoas e por espalhar o Budismo.
172. Mestre Yunmen citou as palavras do Iluminado Durante a Noite22.

A ação espiritual dos seis sentidos está vazia sem ser vazia; o brilho perfeito da peculiar
jóia mani é forma sem forma.

O Mestre levantou seu espanador de moscas e disse, “Esta é a luz perfeita, é a forma sem
forma. O que vocês chamam forma? Venham, tentem debater essa comigo!”

173. Citando o Sutra da Sabedoria, Yunmen disse,

Oh, pureza da sabedoria que a tudo abarca, não dual, não divisa, sem diferença, não
separada...

Ele apontou para um pilar e disse, “Quanto tem isso a ver com o Sutra da Sabedoria?”

174. O Mestre citou uma escritura que dizia,

Os sutras e encantamentos mágicos, de fato todas as letras e palavras, não estão em


absoluto em conflito com a verdadeira forma.

Yunmen levantou seu bastão e perguntou, “O que é isto? Se disserem que é um bastão, vão
para o inferno. Se não for um bastão, o que é?”

175. O Mestre disse de certa feita, “As ações dos mestres Chan tais como estalar os dedos,
rir, levantar sobrancelhas, piscar olhos, pegando um malho, levantando um espanador de
insetos e às vezes desenhando um círculo: tudo isso nada mais do que pegadores de
pessoas23. Aquilo que é chamado Dharma de Buda nunca ainda foi expresso em palavras.
Se tivesse sido, nada mais teria sido do que o cair de um cocô ou o spray do mijo.

176. Numa refeição doada, o Mestre deu uma dentada num bolinho de gergelim e disse,
“Mordi o nariz de Indra. Indra está agonizante!”
Então ele apontou com seu bastão para os pés dos monges e disse: “Ele está bem debaixo
dos seus pés, transformado no velho Shakyamuni! Vêem? Vêem?”
“O Rei do Inferno, Yama, ouve minha conversa e está rindo alto, dizendo: ‘Há, há, monge,
você está à altura disto, nada posso fazer com você! Mas se alguém não estiver à altura, ele
está completamente nas minhas mãos!’”

177. Mestre Yunmen relatou a seguinte conversa:

Um monge perguntou a Xuansha, “O que sou eu mesmo?”


Xuansha disse, “Somente você mesmo”.

22
Este seria Yongjia Xuanjue, que é dito ter recebido a transmissão do Sexto Patriarca depois de uma estadia
de uma noite no templo do patriarca.
23
São varas compridas com anzóis amarrados nelas que permitem pegar criminosos perigosos mas que
também eram usadas por bombeiros para salvar pessoas presas em incêndios.
Mestre Yunmen observou, “Homens imensuravelmente grandes foram pegos na armadilha
das palavras”.
Um monge perguntou a Yunmen, “O que é eu mesmo?”
O Mestre disse, “Aquele que, quando uma pessoa da rua convida vocês monges para uma
refeição doada, está logo se apressando para entrar na fila”.

178. Numa refeição doada, o Mestre levantou um bolinho de gergelim e disse: “Ofereço a
comida somente ao povo Chinês do Sul de Jiangxi e para as regiões ao leste e oeste do rio
Zhe. Não ofereço nenhuma comida para as pessoas do Norte”.
Um monge perguntou, “Por que você somente oferece comida às pessoas de Jiangxi e as
regiões leste e oeste do rio Zhe, mas não às pessoas do Norte?”
O Mestre respondeu, “Porque no Norte da China o clima é frio e os dias curtos, e duas
pessoas partilham da mesma tigela”.

179. Mestre Yunmen citou a seguinte história:

Xuefeng disse, “Um homem sentado próximo a uma cesta de arroz está com muita fome e
uma pessoa perto de um rio está morrendo de sede”.
Xuansha comentou, “Uma pessoa sentada numa cesta de arroz está com muita fome, e
uma pessoa com água até sua cabeça está morrendo de sede”.

Mestre Yunmen disse, “Seu corpo todo é arroz, seu corpo todo é água!’

180. Mestre Yunmen citou um velho poema:

Na perfeita tranqüilidade a forma do vazio é refletida.24

O Mestre estendeu suas mãos e disse, “Onde se pode atingir as montanhas, rios e terra?”
Ele acrescentou,

A sabedoria a tudo abarca e não conhece impedimentos.

Mestre Yunmen disse, “O bastão vai à Índia e vem de volta para a Coréia”.
Então ele bateu na plataforma e disse, “Isso é seu nariz!”

181. Um monge perguntou, “O que sou eu mesmo?”


Mestre Yunmen disse, “Eu, este velho monge, entro na lama e na água”.
O monge exclamou, “Então eu vou esmagar meus ossos e fazer meu corpo em pedaços”.
O Mestre gritou e disse, “A água de todo o grande oceano está em sua cabeça. Fale rápido!
Fale rápido!”
O monge foi deixado sem palavras.
Em seu lugar, o Mestre disse, “Eu sei que você, Mestre, teme que eu não seja
completamente genuíno”.

182. O Mestre disse de certa feita: “Mesmo que a pessoa possa afirmar que em todo o
universo nada está fora do lugar, ainda é somente uma frase. Quando você não percebe a
24
Parte do poema de iluminação do Mestre Danxia citado no Coleção dos Salões do Fundador.
uniformidade, pode ser chamado ‘metade da questão’. Mas mesmo que você esteja lá, deve
perceber que há um momento em que o todo está em jogo”.

183. Mestre Yunmen disse de certa feita: “As muitas explicações sobre a sabedoria
iluminada e liberação final, sobre a talidade e natureza de buda são todas discussões que
descem ao reino do condicionado. Quer a pessoa pegue o martelo ou levante o espanador de
insetos, novamente haverão explicações sem fim. Mas tais discussões valem algo no fim
das contas”.
Um monge perguntou: “Por favor, Mestre, diga algo que esteja além do condicionado!”
O Mestre replicou: “Todos vocês têm estado de pé durante muito tempo. Rapidamente se
inclinem três vezes!”

184. Mestre Yunmen mencionou três tipos de pessoas: “O primeiro se ilumina quando ouve
uma palestra, o segundo desperta ao ser chamado, e o terceiro se volta e vai embora ao
ouvir qualquer coisa que seja apresentada. Digam-me, o que quer dizer se voltar e ir
embora?”
Ele acrescentou: “O terceiro também merece trinta pancadas”.

185. Mestre Yunmen citou as palavras:

Eu dou a vocês remédio de acordo com sua doença. Bem todo o mundo são plantas
medicinais; qual é você?

Mestre Yunmen disse, “A pessoa se depara com uma erva daninha que finalmente é uma
orquídea na verdade”.
Um monge disse, “Por favor, Mestre, me instrua mais”.
O Mestre bateu palmas uma vez, levantou seu bastão e disse: “Pegue este bastão!”
O monge o pegou e quebrou em dois.
O Mestre observou, “Mesmo assim você merece trinta pancadas”.

186. Mestre Yunmen mencionou a seguinte história:

No fim do período de treinamento de verão Cuiyan disse numa palestra formal, “Tenho
estado falando a vocês monges durante todo o verão; vejam se ainda tenho sobrancelhas
sobrando!”
Baofu disse, “Ladrões têm um coração intranqüilo25”.
Changqing disse, “Crescidas26!”

Mestre Yunmen disse, “Grudado!”

187. Mestre Yunmen citou o Sutra do Coração, que diz:

Não existe nem olho, nem ouvido nem língua nem corpo nem mente.

25
Provérbio Chinês que quer dizer má consciência.
26
Os Chineses dizem que falar muito faz com que as sobrancelhas cresçam.
O Mestre disse, “Porque vocês têm olhos que vêem, são incapazes de ver que não há oho. E
já que estão olhando justamente agora, não podem dizer que não há visão.
“Mesmo assim, vocês vêem tudo – e o que estaria errado com tal coisa? E contudo nada
pode ser apreendido. Que objeto do sentido existe?”

188. Mestre Yunmen citou:

A luz do Buda serenamente brilha em mundos tão numerosos quanto os grãos de areia do
Rio Ganges.

Ele perguntou a um monge, “Não será este um verso de Chang Zhuo o Gênio?”
O monge replicou, “É”.
Yunmen disse, “Fracasso!”

189. Mestre Yunmen disse,

Um monge perguntou ao Mestre Shishuang27: “Os ensinamentos Budistas contém o que os


fundadores Chan tinham como objetivo?” Mestre Shishuang disse, “Sim, contém”.
O monge prosseguiu perguntando, “E o que é o objetivo dos Fundadores que está contido
nestes ensinamentos?” Mestre Shishuang disse, “Não o busque dentro dos livros!”

Mestre Yunmen disse em lugar de Shishuang, “Não seja ingrato para mim! De qualquer
maneira, do que adianta sentar numa trincheira cheia de merda?”

190. Mestre Yunmen citou o seguinte episódio:

Mestre Chuyuan de Shishuang disse: “Você deve saber que existe uma frase da
transmissão especial fora da tradição escrita”.
Um monge perguntou a Shishuang, “Qual é esta frase da transmissão especial fora da
tradição escrita?”
Mestre Shishuang disse: “Uma não frase”.

Mestre Yunmen disse, “Uma não frase é tanto mais ainda uma frase!”

191. Mestre Yunmen mencionou o seguinte episódio:

Mestre Dongshan disse: “Você deve saber que existe algo que vai além do ‘Buda’”
Um monge perguntou, “O que é aquilo que vai além do Buda?”
Mestre Dongshan replicou, “Não Buda”.

Mestre Yunmen comentou: “Ele é chamado ‘não’ porque não pode ser nem nomeado nem
atingido!”

192. Mestre Yunmen mencionou o seguinte:

27
Shishuang Quingzhu (807-888). Este mestre era famoso por ter praticado meditação durante vinte anos sem
deitar e por ter recusado um manto púrpura honorário oferecido por um imperador Tang.
Pronunciamentos tais como “A Pureza do corpo do Dharma nada mais é do que qualquer
som e forma” são sem dúvida afirmações muito sutis.

Mestre Yunmen perguntou: “E quanto a esta ‘pureza’ sem qualquer sutileza?”


Ele acrescentou, “E quanto ao corpo do Dharma?”
Quando ninguém respondeu o Mestre disse, “Os seis não o conseguem absorver”.

193. De certa feita disse o Mestre:


“Enquanto a luz ainda não se revelou, existem dois tipos de doenças: 1. A primeira consiste
em ver a si mesmo encarando objetos e ficando no escuro sobre tudo. 2. A segunda consiste
de ser capaz de ser capaz de atravessar o vazio de todos as entidades (dharmas) separados –
e contudo ainda existe algo que está lá oculto como um objeto.
“Pontos de vista sobre o corpo dos ensinamentos também exibem dois tipos de doenças: 1.
Tendo sido capaz de atingir o corpo dos ensinamentos Budistas, a pessoa ainda tem pontos
de vista subjetivos e está à margem daquele ensinamento por que ainda não se livrou do
apego por aqueles pontos de vista. 2. Apesar da pessoa poder ter penetrado até o corpo do
ensinamento Budista, a pessoa ainda é incapaz de o abandonar. Mas se a pessoa examinar
completamente o ensinamento, é morto como uma pedra. Também isso é uma doença.

194. Mestre Yunmen mencionou o seguinte episódio:

O Buda perguntou a um seguidor de uma outra religião: “O que em seu ponto de vista é
essencial?”

Mestre Yunmen respondeu no lugar do seguidor: “Ei, velho monge, eu vi através de você!”

O seguidor da outra religião respondeu: “O que eu acho que essencial é não ser pego por
qualquer coisa que seja”.

Mestre Yunmen respondeu no lugar do Buda: “Sua vez!”

O Buda disse: “Você realmente acha que é essencial não ser pego por qualquer coisa que
seja , não é?

Mestre Yunmen respondeu no lugar do seguidor: “Ei, Gautama, não perca o ponto de sua
pergunta!”

195. Mestre Yunmen citou as palavras de Mestre Xuefeng:

Todo mundo é você. E contudo você continua a achar que existe algo mais...”

Mestre Yunmen disse: “Você não leu no Sutra Shurangama que diz, ‘Seres sencientes estão
todos de cabeça para baixo; eles se iludem e cassam atrás das coisas’?”

196. Mestre Yunmen citou:

O que quer que seja como realmente é contém tudo.


O Mestre disse, “Então o que você chama montanhas, rios e a terra?”
Ele acrescentou, “Justamente todas estas entidades são todas caracterizadas pelo vazio.
Nem surgem nem desaparecem e não são nem conspurcadas nem puras”.

197. O Mestre de certa feita levantou seu bastão e disse à assembléia:


“Este bastão virou um dragão e engoliu todo o universo. As montanhas, rios e a terra – onde
podem eles ser achados?”

198. Numa refeição doada, o Mestre levantou sua colher e hashis de comer e disse: “Não
ofereço esta comida aos monges do Sul. A ofereço somente àqueles do Norte”.
Naquele momento havia um monge que perguntou: “Por que você não oferece a comida aos
monges do Sul?”
O Mestre replicou, “Por que os quero tapear!”
O monge perguntou, “E por que você oferece comida aos monges do Norte?”
O Mestre respondeu, “Uma flecha, dois alvos”.
Um outro monge tomou disto e perguntou, “Bem então, qual é sua opinião sobre o que você
disse sobre oferecer comida àqueles monges do Norte, mas não aos do Sul?”
O Mestre disse, “Muito bem, junte-se ao clube!”

199. De certa feita, Mestre Yunmen bateu com seu bastão num pilar e disse, “Será que
todos os ensinamentos escritos Budistas o disseram ou não?”
O Mestre respondeu a si mesmo dizendo, “Não”.
Quando ninguém reagiu, ele acrescentou: “Bah! Seus espíritos de raposa selvagem!”
Um monge perguntou, “Bem, e quanto às suas intenções ao dizer isso, Mestre?”
O Mestre disse, “O Sr. Zhang bebe vinho e o Sr. Li fica bêbado”.

200. Mestre Yunmen citou um professor nacional que tinha dito: “Falando sobre
‘gradativo’: indo contra o comum está de acordo com o Dao. Falando sobre ‘imediato’: não
há sequer uma sugestão de uma pista”.
Mestre Yunmen disse, “As ações de pegar o martelo, levantar o espanador de insetos, ou
estalar os dedos – vamos, examinem todos estes! Também eles não são sem qualquer
pista”.

201. De certa feita o Mestre levantou seu bastão e disse: “Todo o universo, a terra, matando
e dando a vida: tudo isso está neste bastão aqui”.
Um monge então perguntou, “E quanto a matar?”
O Mestre replicou, “Uma confusão completa!”
O monge prosseguiu, “E quanto a dar a vida?”
O Mestre disse, “Se você quer ser o garçom do arroz...”
O monge continuou, “E quando a pessoa nem mata nem dá a vida?”
O Mestre se levantou e exclamou, “Oh, Grande Perfeição da Sabedoria!”

202. O Mestre disse uma vez, “Se encontrar com alguém quer dizer nada mais do que
aplicar o despertar na estrada”.
Então ele levantou seu bastão e disse, “O bastão não é o caminho. Nem é a conversa o
caminho”.
203. Mestre Yunmen citou as palavras: “O corpo do Dharma come arroz, e o corpo vazio
fantasmagórico nada mais é do que o corpo do Dharma”.
O Mestre disse, “Todo o universo e a terra: onde estão eles? As coisas variadas não podem
ser seguras – e contudo vocês engolem estas coisas vazias em seu vazio. E quanto a
investigar isso? Ora, ora, eu achava que poderia haver algo deste tipo de conversa!”

204. De certa feita, o Mestre disse: “Na nossa tradição existe uma liberdade total; a pessoa
pode matar ou dar a vida como requerer a situação”.
Um monge perguntou: “E quanto a ‘matar’?”
O Mestre disse: “Foi embora o inverno e veio a primavera”.
O monge disse: “Como é quando o inverno foi embora e a primavera veio?”
O Mestre disse: “Então você está fazendo muito barulho e confusão em todas as quatro
direções do compasso como um bastão em cima dos ombros!”

205. Se dirigindo à assembléia, Mestre Yunmen disse:


“Eu deixo que vocês o digam de qualquer maneira que queiram, mas vocês não são
descendentes de nossa tradição. Mesmo que fossem, seria apenas algo sem significado. Os
ensinamentos das doze divisões de todos os três veículos Budistas são conversa durante o
sono, bem como a vinda de Bodhidharma do Oeste. Agora se alguns velhos veneráveis
fundaram mosteiros para explicar o ensinamento Budista para o benefício das pessoas, não
haveria nada errado em pegar uma espada afiada e matar cem, mil, dez mil deles!”
Ele acrescentou, “Ora, ora, eu achava que adiantava alguma coisa esse tipo de conversa”.

206. Um dia o Mestre disse: “Pegando o martelo e levantando o espanador de moscas,


estalando os dedos e levantando as sobrancelhas, perguntando e respondendo – tudo isso
não se iguala ao ensinamento tradicional de ‘ir além’.”
Um monge perguntou, “E quanto à tradição de ensinamento de ‘ir além’?”
O Mestre replicou, “Mesmo que as famílias de Jambo28 pudessem todos responder a isto.
Mas tomemos um exemplo que você esteja sentado num distrito de cidade animado: os
pedaços de porco que são mostrados nas mesas de manhã, e os vermes nas privadas,
sustentam conversas sobre transcender Buda e ir além dos fundadores?”
O monge disse, “Não diria que sim”.
O Mestre exclamou, “Você não diria que sim! Se eles sustentam tais discussões,
simplesmente dizer que ‘eles sustentam’ não adianta; e se não sustentam tais discussões,
dizer que ‘não sustentam’ tampouco o fará. Tais palavras e até mesmo o que você mesmo
experimentou, eu digo diretamente, não adiantam: seu ponto de vista é preconcebido”.

207. De certa feita o Mestre disse,


“Eu costumava dizer que todos os sons são a voz de Buda, todas as formas são a forma de
Buda e que todo o mundo é o corpo do Dharma. Assim eu, de forma completamente inútil,
produzi pontos de vista que encaixam na categoria de ‘ensinamento Budista’. Bem agora,
quando vejo um bastão, somente o chamo de ‘bastão’, e quando vejo uma casa,
simplesmente a chamo de uma ‘casa’.”

28
A árvore de Jambo (Eugenia jambolana) deu seu nome a um dos quatro (na tradição Budista) ilhas ou
continentes que cercam o Monte Sumeru central.
208. Mestre Yunmen disse de certa feita, “Cria sem criar, e usa sem usar”.
Então ele levantou seu bastão e disse, “Isso não é usar sem usar. O que vocês chamam de
um ‘bastão’?”

209. O Mestre trouxe à baila um dito:

Todos os veneráveis sem exceção seguem a lei de wuwei29


– e contudo não têm diferenciação.

O Mestre acrescentou, “Este bastão não é o ensinamento de wuwei; não há nada que seja o
ensinamento de wuwei”.

210. Se dirigindo à assembléia, Mestre Yunmen disse:


“Apesar de vocês terem atingido a liberdade do ser obstruído por qualquer coisa que
encontrarem e conseguirem alcançar o vazio das palavras, frases e todas entidades – a
realização que montanhas, rios e a terra nada mais são que entidades, e que conceitos
tampouco podem ser alcançados – e mesmo que você esteja equipado com o assim
chamado samadhi e o ‘mar de nossa natureza original’: ainda é nada mais do que ondas se
levantando sem que haja vento. Mesmo que você esqueça o conhecimento dualista do
despertar – o despertar nada mais é que a natureza de buda – e sejam chamados ‘homens
despreocupados’, ainda assim devem perceber que tudo se concentra em uma coisa: ir
além!”

211. De certa feita o Mestre disse:


“Nada existe que não explique o ensinamento Budista. Batendo um sino ou batendo um
tambor não é exceção. Se tal é o caso, nada será o ensinamento Budista e nada não será”.
Ele acrescentou: “A pessoa não deveria afirmar que quando fala, isso é o ensinamento
Budista, e quando não se fala, não é o caso. Mesmo o que eu acabei de dizer ainda não
atinge o ponto. Bem, enquanto beneficiar às pessoas, pode estar bem...”

212. Um dia o Mestre envergou seu manto comprido e disse, “Estou jogando fora o corpo
do Dharma”.
Ninguém respondeu.
O Mestre perguntou, “Me perguntem!”
Então um monge perguntou, “O que quer dizer jogar fora o corpo do Dharma”.
O Mestre replicou, “Vejo que você está pegando o ponto”.

213. Mestre Yunmen citou a seguinte história de Xuansha:

Os velhos veneráveis por toda parte falam muito de fazer uso de qualquer coisa para guiar
seres sencientes. Se de repente encontrassem alguém com as três doenças30: como seriam
capazes de lidar com ele? Já que ele é cego, não veriam ele pegar o martelo e levantar o
espanador de moscas. Já que é surdo, não ouviria as palavras mais eloqüentes. E já que é
mudo, podem querer que ele fale, mas ele não pode. Então como lidariam com ele? Se não
o puderem conduzir, então o ensinamento Budista é inútil.
29
Não ação
30
Cegueira, surdez, mutismo.
Um monge pediu instrução a Yunmen. O Mestre disse: “Se incline!” O monge fez uma
prostração e se levantou. Yunmen o empurrou com seu bastão e o monge recuou. Yunmen
observou: “Bem, cego você não é”. Então ele disse ao monge para novamente se aproximar.
Quando o monge se quedou diante dele, ele disse: “Tampouco é surdo”. Então Yunmen
levantou seu bastão e perguntou, “Compreende?” O monge disse, “Não”. E Yunmen
observou, “Tampouco parece que é mudo”. Com isso o monge atingiu a compreensão.

214. Mestre Yunmen mencionou o seguinte velho dito:

No momento em que uma palavra é trazida à baila, o mundo fica completamente contido
nela.

O Mestre disse, “Bem, digam-me, que palavra é esta?”


Ele mesmo respondeu, “Quando os pássaros cantam na primavera, eles o fazem na
cordilheira oeste da montanha”.
Então o Mestre disse a um monge que lhe perguntasse.
O monge perguntou, “O que é tal palavra?”
O Mestre disse, “Hic!”

215. Mestre Yunmen citou um dito de Mazu:

Todas as palavras pertencem à escola de Kanadeva31; considera estas a coisa principal.

Mestre Yunmen disse, “Excelente dito! Só que ninguém pergunta sobre isto”.
Um monge perguntou então, “E quanto à escola de Kanadeva?”
Mestre Yunmen replicou, “Você pertence ao mais baixo nível dos noventa e seis tipos de
heréticos da Índia!”

216. Mestre Yunmen citou as palavras do professor do Dharma Seng Zhao:

Todas as entidades (dharmas) individuais são sem diferença –


Contudo a pessoa não deve esticar as pernas do pato ou encurtar aquela da garça, nivelar
os picos e encher os vales, e então achar que não são diferentes!

Mestre Yunmen disse, “O comprido é por natureza comprido, enquanto que o curto é
curto”.
Novamente o Mestre disse: “Uma coisa ocupa sua posição, e seu aspecto mundano
permanece sempre”.
Então ele levantou seu bastão e disse, “Esse bastão não é algo que permaneça para sempre,
não é?”

217. Mestre Yunmen mencionou um velho ditado: “Mesmo um só pensamento contém a


sabedoria perfeita”.

31
Décimo quinto patriarca Hindu, Kanadeva é considerado por alguns como autor do Tratado do Cem, um dos
três textos mais importantes da tradição do Madhyamakika Chinês.
O Mestre levantou seu bastão e disse, “Todo o universo está em cima deste bastão. Se puder
penetrar isto, tampouco existe então um bastão à vista. Mesmo assim, você estaria em má
forma”.

218. Mestre Yunmen relatou a lenda de acordo com a qual o Buda, imediatamente depois
do nascimento, apontou com uma mão para o céu e com a outra para o chão, andou um
círculo de sete passos, olhou para os quatro quadrantes, e disse, “Entre o céu e a terra, eu
sou o único Honrado pelo Mundo”.
O Mestre disse, “Tivesse eu testemunhado isso naquele momento, teria lhe derribado morto
com um potente golpe e o alimentado aos cães para trazer paz para a terra!”

219. Mestre Yunmen relatou a seguinte história:

Changqing32 perguntou ao Gênio, “Os ensinamentos Budistas dizem que seres sencientes o
usam todo dia e contudo não sabem. Os textos Confucionistas também afirmam que a
pessoa o usa todo dia e contudo não sabe. Agora o que é aquilo que a pessoa não sabe?”
O Gênio replicou, “A pessoa não sabe o Grande Caminho”.

Mestre Yunmen disse, “Exatamente, é isso que ele não sabe!”

220. Mestre Yunmen mencionou que Changqing havia pego seu bastão e dito, “Se você for
capaz de conhecer este bastão, o estudo de sua vida terminou”.
O Mestre disse, “Você é capaz de fazê-lo – então por que não deixa por isso mesmo?”

221. Mestre Yunmen mencionou a seguinte anedota:

Quando Yunyan33 estava varrendo o chão, Daowu34 lhe disse: “Do que vale tanto esforço
menor?”
Yunyan replicou, “Você deveria saber que existe alguém que não tanto esforço menor!”
Daowu disse, “Bem, esta já é uma segunda lua!”
Yunyan levantou a vassoura e disse, “Que lua será esta?”
Daowu sacudiu suas mangas e foi embora.

Mestre Yunmen observou, “Quando um escravo se encontra com seu igual, se comiseram
mutuamente”.

32
Changqing Huileng (854-932), um co-discípulo de Yunmen sob Mestre Xuefeng Yicun.
33
Yunyan Tansheng (Jap. Ungan Donjo: 780-841)
34
Daowu Yuanzhi (769-835)
FRASES COM RESPOSTAS NO LUGAR DA AUDIÊNCIA

222. Mestre Yunmen perguntou a um monge, “A Coréia e a China são o mesmo ou


diferentes?”
Mestre Yunmen respondeu em prol do monge, “O Salão dos Monges, o Salão do Buda, a
despensa da cozinha, o portão principal”.

223. No salão, Mestre Yunmen disse,


“Digam-me, que nível de atividade é quando os velhos budas transam com os pilares?”
Ninguém respondeu.
O Mestre disse, “Me perguntem que eu digo”.
Um monge perguntou que nível de função era, e o Mestre respondeu, “Uma fatia de seda,
trinta em dinheiro”.
No lugar das primeiras palavras sobre budas e pilares, o Mestre disse, “Quando nuvens se
ajuntam na Montanha do Sul, chove canivetes na Montanha do Norte”.
O monge continuou sua pergunta, “E quanto a ‘uma fatia de seda, trinta em dinheiro’?”
O Mestre replicou, “Está fechado!”

224. Um dia Mestre Yunmen disse, “O que é aquilo sobre o qual você delibera e
concentra?"
No lugar dos monges, Mestre Yunmen respondeu, “O sal é caro, o arroz é barato”.

225. Um dia Mestre Yunmen disse, “O que é realizado quando a pessoa menciona as duas
palavras, ‘Buda’ e ‘Dharma’?”
Ele respondeu no lugar da audiência, “Sapos mortos!”

226. Um dia Mestre Yunmen disse, “Os antigos encaravam um muro e fechavam o portão.
Mas podiam penetrar através aqui?”
No lugar da audiência, Yunmen disse, “Que pedaço de cocô seco é isso aqui!”
Ele acrescentou, “Um”.

227. Mestre Yunmen entrou no Salão do Dharma e quando a assembléia havia se reunido e
sentado, ele disse, “Há um grande erro; verifiquem cuidadosamente”.
Ele disse no lugar dos monges, “Para isso não há necessidade de mais ninguém”.

228. O Mestre perguntou a um monge de certa feita, “Como vai?”


No lugar do monge ele replicou, “Estou com fome”.

229. Instruindo a assembléia, Mestre Yunmen disse, “É mencionado uma vez e em seguida
ninguém mais fala do assunto. E quanto àquilo que é só mencionado uma só vez?”
Ele prosseguiu, “Se você não está de acordo com isto, busque algum caminho de entrada!
Mesmo tendo budas tão inumeráveis quanto grãos de pó em sua língua e ensinamentos
sagrados do cânone Budista inteiro sob seus pés não é nem de perto tão bom quanto o
despertar! Agora, há alguém que esteja desperto? Adiante-se e tente expressá-lo!”
No lugar da assembléia silenciosa ele disse, “É isso que você tem que encarar quando tem
filhos”.
Quanto às suas primeiras palavras sobre o apresentar uma vez ele disse em lugar dos
ouvintes, “Apesar da capital Changan ser agradável, não é um lugar para uma longa
estadia”.

230. Quando catando chá, o Mestre disse, “Catar chá é chato. Venham, façam-me uma
pergunta!”
Quando ninguém respondeu, ele continuou, “Se você não puder dizer nada, recite o ABC. E
se não conseguir sequer isso, desenhe letras!”
No lugar da audiência silenciosa, ele disse, “Pode ser que valha uma tentativa...”
Respondendo às primeiras palavras sobre pegar chá é chato, ele disse no lugar da audiência,
“Trabalho, e contudo não resulta em nada”.

231. No salão, o Mestre levantou seu bastão e disse, “Ei, olhem! Todo o cosmos está
tremendo, tudo ao mesmo tempo!” Então desceu de seu assento.
No lugar da audiência silenciosa ele disse, “Ufa!”

232. De certa feita, Mestre Yunmen disse, “O que é uma frase que não tapeia as pessoas?”
No lugar da audiência ele disse, “Não me digam que esta tem tal efeito!”

233. Um dia o Mestre disse, “Quando você exerce toda sua força, o que diz?”
No lugar dos monges, Yunmen disse, “Cinco bolinhos de gergelim e três tigelas de chá”.

234. Um dia o Mestre disse, “O que é a pergunta que desnuda tudo?”


No lugar do monge indagado, Yunmen respondeu, “Bata no monge próximo a mim!”

235. Uma vez, quando o Mestre havia terminado de falar, ele ficou de pé, bateu com seu
bastão na sua cadeira de meditação, e disse, “Com tantas armadilhas de palavras até agora,
para que lugar serei eu banido? Camaradas espertos compreendem, mas estúpidos estão
sendo completamente tapeados por mim”.
No lugar dos ouvintes, o Mestre disse, “Colocando gelo em cima da neve”.

236. De certa feita o Mestre disse, “O ensinamento Budista não precisa ser fixado em
palavras; mas digam-me: o que é o mais valioso no mundo?”
No lugar dos ouvintes, Yunmen disse: “Não me digam que é uma dúzia por um real!”
Ele acrescentou, “Que pedaço de cocô seco!”

237. Se dirigindo à assembléia, Mestre Yunmen disse, “Vejam, vejam! Eu morri!”


Fingindo ter um colapso, ele disse, “Compreendem?”

238. Um dia o Mestre disse, “Eu me emaranho em palavras com vocês todo dia; não posso
prosseguir até de noite. Venham, me perguntem algo aqui e agora!”
No lugar dos ouvintes, Mestre Yunmen disse, “Só temo que o Reverendo Yunmen não
responderá”.

239. Uma vez o Mestre disse, “O que é a uma frase que está bem debaixo dos seus pés?”
No lugar da audiência ele disse, “Existe um?”
240. Um dia o Mestre disse, “Não estou pedindo que vocês coloquem de lado a verdade
última do Dharma de Buda. Mas há alguém que conheça a verdade convencional?”
No lugar da audiência ele disse, “Se eu disser que existe uma tal coisa, serei preso pelo
Reverendo Yunmen”.

241. De certa feita Yunmen disse, “Quando Bodhidharma veio do Oeste, por que teve
dificuldades em arranjar sucessores?”
No lugar da audiência silenciosa ele disse, “Sem essa gente!”

242. Quando o Mestre de certa feita havia acabado de falar, ele se levantou e disse, “Se hoje
à noite vocês compreenderem tudo, se levantem cedo, peguem uma espada e cortem fora
minha cabeça: isso acabará com minha tagarelice!” Então ele levantou seu manto, sacudiu-
o, e disse, “E quanto a isso?”
No lugar de um monge ele disse, “Não devo desapontá-lo, Mestre”.

243. Se dirigindo à assembléia, Mestre Yunmen disse, “Não estou perguntando sobre antes
do décimo quinto dia; tentem dizer algo sobre depois do décimo quinto dia”.
Yunmen respondeu a si mesmo em prol dos ouvintes, “Todo dia é um bom dia”.

244. No Salão do Dharma, o Mestre ficou silencioso durante muito tempo e então disse,
“Estou fazendo um terrível tolo de mim mesmo”. Com isso deixou seu assento.
No lugar dos monges ele disse, “Aha, não somente nós!”

245. De certa feita o Mestre citou uma pessoa de antigamente que havia dito,

Cada qual tem a luz radiante – contudo quando olhada não é vista: escura e obscura. E
quanto àquela luz radiante?

Em prol da audiência silenciosa ele disse, “A despensa da cozinha, o portão principal”.


Ele acrescentou, “Preferiria não ter nada!”

246. Numa refeição doada o Mestre perguntou a um monge, “Se esqueça de todas as frases
que você aprendeu jamais nos mosteiros e diga-me, que tal a comida?”
Em prol dos monges silenciosos ele disse, “Não tem sal e vinagre suficiente nos legumes”.

247. De certa feita ele disse, “Somente você, e todos vocês que estão em peregrinação,
devem saber que existe uma forma de entrar. Agora existe alguém que o possa expressar em
palavras? Adiantem-se e tentem dizê-lo!”
Em prol da audiência silenciosa ele disse, “Eu também, não devo desapontar o Mestre”.

248. O Mestre disse à assembléia:

Dentro há uma jóia. Está oculta no corpo humano35.

Ele disse: “Eu pego a lanterna dentro do Salão de Buda e a coloco em cima do portão
principal do mosteiro. E quanto a isto?”
35
Este é um dito de Seng Zhao.
Como ninguém respondeu, em prol da audiência, ele replicou, “Se a pessoa busca coisas, as
intenções da pessoa são varridas para longe”.
Ele acrescentou, “O trovão rola, as nuvens estão se ajuntando”.

249. Mestre Yunmen se dirigiu à assembléia dizendo, “Não quero nenhuma palavra de
nossa tradição. Agora digam-me em suas próprias palavras: O que é o ‘si mesmo’ no
ensinamento de nossa escola patriarcal?”
Em seus lugares ele simplesmente estendeu ambas mãos.

250. Quando um monge veio para instrução, o Mestre levantou seu manto e disse, “Se você
conseguir colocar isso em palavras, cairá na armadilha de meu manto. Se não conseguir,
então estará sentado na caverna de um demônio. O que fará?”
Ele respondeu em prol do monge, “Estou exausto”.

251. De certa feita Mestre Yunmen perguntou, “O que está errado com alguém que está no
escuro quanto a si mesmo?”
Ele respondeu em prol dos monges silenciosos, “Isso não deve ser um problema para um
grande homem!”

252. Um dia Mestre Yunmen disse, “Se você sentando no salão de meditação sob seu
manto e tigela, eu estou enrolando vocês à morte. E se você vier correndo do Salão do
Dharma, eu corri vocês à morte. Qual é a frase que lhes tirará destes apuros?”
Ele disse em prol de seus ouvintes, “Rápido!”

253. De certa feita o Mestre disse, “Nas terras das dez direções não há nada senão o
ensinamento do veículo único. Digam-me, seu si mesmo está dentro ou fora do veículo
único?”
Em prol da audiência silenciosa ele disse, “Entrem!”
Ele acrescentou, “Lá está você!”

254. Um dia ele disse, “Vocês acham que o ser é o ser. Como podem evitar tal coisa?”
Em prol dos monges ele disse, “Azar o seu!”

255. De certa feita Mestre Yunmen disse, “É tão difícil descobrir onde está o problema!”
Em prol dos monges ele disse, “Descubra!”

256. O Mestre disse de certa feita, “Vê?”


Ele respondeu a si, “Vejo”.
Ele prosseguiu, “O que você vê?”
Em prol daqueles presentes ele replicou, “Uma flor”.

257. Um dia ele disse, “Já fazem onze dias que vocês entraram o período de treinamento de
verão. Bem, vocês já ganharam entrada? O que dizem?”
Em prol dos monges ele replicou, “Amanhã será o décimo segundo dia”.

258. De certa feita Mestre Yunmen mencionou um velho dito:


O que entra pelo portão não seu tesouro de casa.

Então Yunmen perguntou, “E quanto ao portão?”


Ele respondeu em prol dos monges, “Mesmo que fosse capaz de dizê-lo, de nada
adiantaria”.

259. O Mestre disse de certa feita, “Não estou perguntando sobre ensinamentos verbais de
nossa tradição. Isso é o céu. Aquilo é a terra”. Indicando a si mesmo, ele disse, “Isso sou
eu”. Indicando um pilar ele disse, “Aquilo é um pilar. O que é o ensinamento Budista?”
Em prol da audiência silenciosa ele disse, “Isso também é muito difícil...”

260. Um dia Mestre Yunmen disse,


“As pessoas aprendendo o ensinamento Budista são numerosas como os grãos de areia do
Rio Ganges. Venham, façam uma afirmação das pontas dos cem capins!”
Em prol da assembléia silenciosa ele disse, “Todas!”

261. Um dia Mestre Yunmen disse, “Não quero que me contem nem sobre antes de hoje
nem sobre depois de hoje: venham, digam-me algo somente sobre hoje!”
Em prol da audiência ele disse, “Só se for agora!”

262. Um dia Mestre Yunmen disse, “Venham, façam uma pergunta fora do ensinamento
Budista!”
Em prol dos monges ele replicou, “Mesmo um só já é demais”.

263. Quando Mestre Yunmen viu um monge que vinha lhe visitar, ele deu uma batida num
pilar e disse, “Você veio até aqui para me enganar!”
Em prol do monge ele respondeu, “Que sorte que tive que ele somente bateu no pilar”.
Mestre Yunmen bateu no monge e disse, “Soltando fumaça para o benefício de outrem”.
EXAMES CRÍTICOS

264. O Mestre perguntou a um monge, “De onde você vem?”


O monge replicou, “Eu estava cultivando o chá”.
O Mestre perguntou, “Você pega o chá ou o chá pega as pessoas?”
O monge não soube o que dizer.
Em seu lugar, Mestre Yunmen respondeu, “O Mestre já disse tudo; não há nada que eu
posas acrescentar”.

265. Mestre Yunmen perguntou a um monge, “Você é o consertador do mosteiro?”


O monge respondeu afirmativamente.
O Mestre disse, “Todo o universo é casa. Quem é o mestre da casa?”
O monge não soube o que dizer.
O Mestre disse, “Me pergunte que eu digo”.
O monge perguntou, e o Mestre replicou, “Ele faleceu”.
Em prol do monge ele replicou à primeira pergunta, “Quantas pessoas ele enganou?”

266. O Mestre perguntou a um monge, “De onde você vem?”


O monge replicou, “Prestei meus respeitos à stupa do Sexto Patriarca”.
O Mestre perguntou, “O que foi que ele lhe disse?”
O monge perguntou de volta, “O que você diz, Mestre?”
Mestre Yunmen disse, “E eu tinha a impressão que você fosse um camarada esperto!”
O monge não soube o que responder.
Mestre Yunmen respondeu em prol do monge, “Fiz somente o que era correto e adequado!”

267. O Mestre perguntou a um monge, “Você vê a lanterna?”


O monge replicou, “Não a posso ver mais”.
O Mestre disse, “O macaco está apegado ao pilar”
Yunmen replicou em lugar do monge, “Estou profundamente agradecido de ter recebido o
coração profundo de seu ensinamento Budista, Mestre”.
À primeira pergunta ele replicou em prol do monge, “Preferiria não ter nada!”

268. Numa refeição Mestre Yunmen perguntou a um monge, “O mingau é absorvido pelo
arroz e o arroz pelo mingau. Onde está o problema? Se você puder me dizer, o discutiremos
mais”.
O monge não soube o que dizer.
O Mestre respondeu em lugar do monge, “Bom mingau, bom arroz”.
Ele acrescentou, “Não diga que isso é conversa de reverendo numa toca de sapo”.

269. Quando Mestre Yunmen viu as letras que significam “tesouro do dragão”, ele
perguntou a um monge, “O que é aquilo que vem do tesouro do dragão?”
O monge não soube o que dizer.
O Mestre disse, “Me pergunte, eu direi!”
Então o monge perguntou e o Mestre replicou, “O que vem é um sapo morto”.
Em prol do monge embasbacado ele disse, “Um peido!”
Novamente ele disse, “Pães de vapor, biscoitos de vapor”.
270. Mestre Yunmen perguntou a um monge, “De onde você veio?”
O monge replicou, “Do distrito de Chen em Hunan”.
O Mestre perguntou, “E onde você gastou o período de treinamento de verão?”
O monge, “No lugar do Mestre Xichan”.
Yunmen inquiriu, “Que ensinamento ele expôs?”
O monge abriu suas mãos e as deixou dependuradas dos lados do corpo.
O Mestre lhe bateu.
O monge disse, “Ainda estou falando!”
O Mestre abriu suas mãos.
O monge não soube o que dizer.
O Mestre lhe bateu e o cassou para fora.
No lugar do monge ele disse, “Estou indo, estou!”

271. O Mestre perguntou a um monge que estava lendo uma escritura Budista, “Qual é o
título na capa?”
O monge ergueu a escritura.
O Mestre disse, “Também tenho esta!”
O monge disse, “Já que você tem esta, por que pergunta?”
O Mestre replicou, “Como não perguntaria?”
O monge perguntou, “Qual é o problema?”
O Mestre disse, “Você não nota o fedor de seu próprio cocô!”
No lugar do monge embasbacado, Yunmen retorquiu, “Foi só hoje que eu o notei pela
primeira vez!”
Ele acrescentou, “O bastão de Deshan, o cachorro de Zihu36”.
E mais ainda: “Reverendo, essa sua pergunta é incrivelmente inteligente!”

272. Mestre Yunmen perguntou a um monge, “Um velho disse, ‘No reino do não dualismo
não existe o menor obstáculo entre si mesmo e outros’. E quanto ao Japão e Coréia neste
contexto?”
O monge disse, “Não são diferentes neste contexto?”
O Mestre observou, “Vá para o inferno”.
No lugar do monge, Yunmen disse, “Não se deve produzir pontos de vista infernais”.
Ele acrescentou, “Como se pode obter a jóia e voltar?”

273. Mestre Yunmen perguntou a um monge, “De onde veio você?”


O monge disse, “De Chadu na província de Jiangxi”.
Yunmen perguntou, “Onde você praticou durante o verão?”
O monge replicou, “No mosteiro Baoxi na província de Hunan”.
Yunmen perguntou, “E quando você foi embora de lá?”
O monge respondeu, “Em agosto”.
Mestre Yunmen observou, “Eu lhe poupo as trinta pancadas do bastão que você tão
ricamente merece”.

36
Mestre Zihu colocou um sinal em seu portão que dizia: “Zihu tem um cachorro; em cima ele pega as cabeças
das pessoas; no meio ele pega a barriga da pessoa; abaixo ele pega as pernas das pessoas. Se você hesitar,
perderá corpo e vida!” Sempre que Zihu via um novato, ele imediatamente gritaria, “Cuidado com o
cachorro!” Logo que o monge voltasse sua cabeça, Zihu imediatamente voltaria para o quarto do abade.
No dia seguinte o monge veio ver o Mestre e lhe disse: “Ontem eu fui poupado de trinta
pancadas por você, Mestre, mas não tenho a menor idéia qual foi minha culpa”.
O Mestre gritou, “Seu saco de arroz! Jiangxi, Hunan e você ainda continua desta forma!?”
Com estas palavras o monge teve a grande iluminação. Então ele disse, “Daqui em diante
eu irei para um lugar onde não exista contato com seres humanos e construirei para mim
uma choupana de palha. Não plantarei sequer um grão de arroz nem armazenarei um só
maço de vegetais, e receberei os sábios que vêm e vão de todas as direções. Arrancarei
pregos e puxarei cavilhas para eles, tirarei seus chapéus gordurosos, jogarei fora seus
casacos fedorentos, e verei para que eles fiquem limpos e livres e verdadeiros monges de
manto remendado. Não é isso maravilhoso?”
Yunmen atirou de volta, “Seu saco de arroz! Você é do tamanho de um coco, e contudo
abre uma boca tão grande!”

274. Mestre Yunmen perguntou a um monge, “Você vai pegar lenha hoje à tarde?”
O monge disse, “Sim”.
O Mestre disse, “Um antigo disse, ‘Mesmo que você não veja um só objeto, suas pupilas
estão lá’.”
Quando estava juntando lenha, Mestre Yunmen atirou fora uma haste de lenha e disse,
“Todas as escrituras Budistas explicam justamente isto”.

275. O Mestre perguntou a um monge, “Você está lendo o Sutra do Diamante?”


O monge replicou, “Sim”.
Citando esta escritura o Mestre disse,

Todos os objetos (dharmas) são não dharmas: justamente isto é chamado “todos os
objetos”.

Então ele levantou seu leque e disse, “Você chama isto de um leque. Isto é um conceito. Eu
o levanto – mas onde está ele? Do que vale ficar cheio de pensamentos iludidos da manhã
até a noite?”

276. Quando Mestre Yunmen viu de certa feita um monge lendo uma escritura ele disse,
“Para ler escrituras a pessoa deve estar equipado com o olho que lê escrituras. À lanterna,
ao pilar e a todo o cânone Budista nada falta”.
Segurando seu bastão, ele prosseguiu, “Todo o cânone Budista está bem aqui na ponta desta
bastão. Venham, onde vocês vêem um só ponto que seja? E contudo o cânone está
completamente aberto:

Assim ouvi falar: As terras em todas as dez direções, abarcando os mundos tão numerosos
quanto grãos de areia...

277. Mestre Yunmen perguntou a um monge, “Quem fez este pão de gergelim?”
O monge o levantou.
O Mestre disse, “Colocando isto de lado; isso é algo que você aprendeu na plataforma de
meditação. Quem fez este pão de gergelim?”
O monge disse, “Mestre, é melhor você não me enganar!”
O Mestre disse, “Seu cabeça oca!”
REGISTRO DE PEREGRINAÇÃO

278. Yunmen primeiramente visitou o mestre Chan Muzhou Daozong. No momento em


que Muzhou viu Yunmen se aproximando ele fechou a porta. Com o que Yunmen bateu na
porta, e Muzhou perguntou: “Quem é?”
Yunmen replicou, “Sou eu!”
Muzhou perguntou, “Para que você está aqui?”
Yunmen disse, “Ainda não estou claro sobre mim mesmo. Por favor, Mestre, me dê
orientação!”
Muzhou abriu a porta, deu uma olhada, a fechou novamente e se retirou.
Desta maneira Yunmen voltou para bater na porta por três dias consecutivos. No terceiro
dia, quando Muzhou foi entreabrir a porta, Yunmen forçou sua entrada. Muzhou o agarrou
e disse, “Fale alguma coisa, fale alguma coisa!”
Yunmen hesitou.
Muzhou o empurrou para fora, dizendo, “Coisa completamente inútil”.
Com isso Yunmen atingiu a iluminação.

279. Quando Yunmen chegou no vilarejo ao pé do Monte Xuefeng, ele se encontrou com
um monge a quem perguntou, “O reverendo subirá a montanha hoje?”
O monge disse que sim, e Yunmen disse, “Eu confio a você um caso para perguntar para
Mestre Xuefeng, mas você não deve dizer que são palavras de outra pessoa!”
O monge consentiu, e Yunmen continuou: “Depois que você chegar no mosteiro, você verá
o abade sentar no assento elevado no Salão do Dharma para dar um sermão formal. Logo
que a assembléia se reunir, se adiante e diga imediatamente: ‘Ei, velho camarada, porque
não se livra da canga de ferro ao redor do seu pescoço’?”
O monge seguiu exatamente as instruções de Yunmen. Quando Xuefeng ouviu o monge
falar assim ele desceu do seu assento, bloqueou seu peito, o agarrou e disse, “Fale rápido,
fale rápido!”
Quando o monge não respondeu Xuefeng o soltou e disse, “As palavras que você disse não
são suas”. O monge insistiu que eram. Mas quando Xuefeng disse, “Assistente, traga a
corda e a vara!”, o monge admitiu, “Não foram minhas as palavras, mas de um monge de
Zhejiang no vilarejo. Ele me disse para vir aqui e dizer o que disse”. Xuefeng disse, “Vocês
da assembléia, vão ao vilarejo e tragam este guia espiritual de quinhentas pessoas!”
No dia seguinte Yunmen subiu a montanha. Logo que Xuefeng lhe viu, ele perguntou, “O
que lhe possibilitou atingir um tal estado?” Yunmen abaixou a cabeça. Depois disto eles
foram como dois pedaços de um encaixe.

280. Um monge perguntou, “O que é aquilo que vai além do corpo do Dharma?”
Mestre Yunmen replicou, “Está muito bem para você falar de ‘além’. Mas o que quer dizer
com ‘corpo do Dharma’?”
“Por favor, Mestre, considere o que eu disse!”
Yunmen disse, “Bem, considerações aparte, como fala o corpo do Dharma?”
“Assim, assim!”
Yunmen observou, “Isso é algo que você poderia cozinhar na plataforma de meditação.
Deixe-me perguntar: Pode o corpo do Dharma comer arroz?”
O monge ficou sem fala.
281. Mestre Sushan37 disse a sua assembléia: “Antes dos anos de Xiantong, eu podia
compreender somente o que está na beira do corpo do Dharma. Desde os anos de Xiantong,
sou capaz de compreender aquilo que vai além do corpo do Dharma”.
Yunmen perguntou, “Ouvi você dizer que antes dos anos de Xiantong, você podia
compreender somente o que estava na beira do corpo do Dharma e que depois dos anos de
Xiantong você podia compreender o que ia além do corpo do Dharma. Isso está correto?”
Sushan disse que sim.
Yunmen perguntou, “Então o que está na beira do corpo do Dharma?”
Sushan replicou, “Camélias murchas”.
Yunmen: “E o que está além do corpo do Dharma?”
Sushan respondeu: “Nenhuma camélia murcha”.
Yunmen perguntou: “Posso explicar a razão?”
Sushan disse, “Prossiga!”
Yunmen disse: “Camélias murchas revelam o que está na beira do corpo do Dharma, e
nenhuma camélia murcha revelam o que está além do corpo do Dharma, não é assim?”
Sushan replicou, “É fato”.
Yunmen perguntou, “Mas o corpo do Dharma abarca tudo, não é?”
Sushan respondeu, “Como não o faria?”
Yunmen apontou para um balde de água e disse, “O corpo do Dharma abarca isso?”
Sushan disse, “Monge, não compreenda o que está na beira do balde de água!”
Yunmen se inclinou.

282. Yunmen visitou Caoshan38. Caoshan instruiu sua comunidade da seguinte maneira:
“As pessoas por toda parte somente adotam padrões preconcebidos. Por que vocês não lhes
dizem uma frase de virada para que se livrem de suas dúvidas?”
Yunmen perguntou a Caoshan: “Por que não se conhece a existência daquilo que é mais
imediato?”
Caoshan: “Justamente porque é o mais imediato!”
Yunmen: “E como se tornar completamente íntimo com isto?”
Caoshan: “Não se voltando para isto”.
Yunmen: “Mas como se poderia se conhecer o mais imediato se não se volta para tal?”
Caoshan: “É então que se o conhece melhor”.
Yunmen consentiu: “Exatamente, exatamente!”

283. Yunmen perguntou a Caoshan, “O que é a prática de um monge?”


Caoshan replicou, “Comer arroz dos campos do mosteiro”.
Yunmen disse, “E se a pessoa fizer exatamente isto?”
Caoshan replicou, “Você o pode realmente comer?”
Yunmen disse, “Sim, posso”.
Caoshan: “Como você faz tal coisa?”
Yunmen: “Qual a dificuldade de por roupas e comer arroz?”
Caoshan disse, “Por que você não diz que está usando chifres e usa uma pele de couro
(como um animal)?”
Yunmen se inclinou.

37
Sushan Guangren (837-909) era um herdeiro do Dharma de Mestre Dongshan Liangjie.
38
Caoshan Benji (Jap. Sozan Honjaku; 840-901) discípulo de Dongshan Liangjie.
284. Quando Mestre Yunmen foi ver Tiantong39, Tiantong disse, “Você conseguiu atingir a
questão?”
Mestre Yunmen respondeu de volta, “O que está você dizendo, Reverendo?”
Tiantong replicou, “Se você não compreendeu, então você está envolvido com o que está
diante de você”.
Mestre Yunmen disse, “Se você compreendeu, então você está envolvido com o que está
diante de você!”

285. Yunmen perguntou a Ganfeng40, “Professor, requeiro uma resposta!”


Ganfeng perguntou: “Você já veio para mim?”
Yunmen replicou, “Então estou atrasado”.
Ganfeng disse, “Ah é? Ah é?”
Yunmen disparou de volta, “Sempre achei que era um larápio; mas agora percebo que você
é pior ainda!”

39
Provavelmente um discípulo de Dongshan Liangjie.
40
Yuezhou Ganfeng era um herdeiro do Dharma de Dongshan Liangjie.