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Uma ca.deira e duas magás..

presenga judaica no texto clariciano*

Berta Wá1dman

Náo me po¡" mmúr porque náo ie pode ¡omr uma cadeira e daaJ ma¡ás.
Eu sou uma cadeira e dua! ma[áI. E náo me somo:

I.

Encontro fortuito de objetos distantes, o conjunto composto de uma ca-


deira e duas mcás, ao mesmo tempo que suspende o antropomorfismo, man-
tém seu mqo, justamente para que sua negatividade trabalhe, tornando possí-
vel, assim, identificar uma form que sugere um corpo de mulher sentada.
O assento sustentado por quatro pés sinaliza a metade inferior do cor-
po, enquanto as duas maqás (os dois seios) indiciam a superior. Se as macás sáo
o fruto da mcieira, m cadeira, a árvore é invisível, transformda que foi pela
máo do homem. Como somar, neste corpo reduzido á condigáo de matéria pe-
recível e reciclável, natureza e cultura? Imagem caudatária de uma certa litera-
tm de caráter fantástico do século xlx que alavancou a desarticula¬áo da figu-
ra humna no surrealismo2, esse corpo que recusa a unidade pode ser tomado
como emblema da obra de Clarice Lispector, uma poética da fragmentacáo.

* O cstudo que sc le[á a seguir rep[oduz trechos dos ensüos "A retórica do sfléncio em Clarice Lispector'' e "O fftrangerio ern Clarice L*-
to['' induídos no hvro Emgp4f,oj , ffim,..p,ffc#f&,'riá¬,.a4 m¢ /¡.#w4 4mJ,.4'.m co"gpoza"¢ (Sáo Paulo: Perspccüva/Fundacáo de Ampa-
ro á Pequisa do Estado de Sáo mo - Fapesp/ASodacáo Universitíria de CultmJüca, 2003, pp. 313 e 15-33, respccüvamcnte).

24l
Conduzindo a reflexáo para o que interessa a este trabalho relevar, ob-
servo que há uma divisáo nítida, na imagem acima, e a tendéncia será a de agre-
gar tragos identitários que_ se ligaráo, por pregnáncia, a cada um das partes.
Como pf_?tendo observa_Lmarcas do judai'si±n9__t?_x_t_9__!: autora, comeco por
tentar situar rastros de sua.orige±JII±±isa, queslío em si mesma complexa, pois
/ 1
até hoj¬ dificil res onder: uem é udeu? O ue éser E, por extensáo,
é possi,vel distinguir tragos judaicos na expressáo arti'stica?
O judai'slpo de escritores como l.L.Peretz e Scholem Aleichem, por
exemplo, tem a mrioi±±s!syáncia para qu±er abordagem séria de empreendi-
mento literário, porque seus mmdos ficciomis foram moldados sobre o pano
de fimdo da vida judaica do leste europeu.
Entretanto, náo é clara a a reensáo do udai,smo em um escritor
ue náo
uie__uma 1±gI+±gsiLmjudaica (i'diche, hebraico,1a_dino, haki±ia), nem descreva um
meio ti ou se filie a. tradi Óes literárias ue sáo reconhecivel-
mente judaicas3
A dificuldade em apreender tragos judaicos em escritores judeus estí no
fato de que serjudeu tem significagóes diferentes
para cada sujeito - e, desse mo-
o, a questáo náo com orta res únicas ou definitivas. Por isso é dificil che-
gar
-_ ao judai'smo na escrita de Clarice Lispector, tarefa que náo elimina, é claro,
E==
a in_sé_rid_± autora na iteratura Éira, apenas introduz ao repertório de lei-
turas de sua obra um ingrediente a mais: a consideracáo de seu lado imi
rante e
á suposicáo de ue esse fato tra a conse üéncias no ni'vel da lin
Sabe-se que a
jp_co_rporacáo dos imigrantes ao Brasil, almente na
virada do século x, mexeu com a com eral do ondo em
de reavalia o conceito
- _-__ de énea com base na mesti em fórma-
da pela heran a ibérica, africana e
i±±íg:±±iLm±ge_fp_que as comemora
confirmar. Sabc-sc,
a5iOnOda:qO:edeOss:eiSdCeOnbt:i:::te:::mgá: o projeto homogéneo de nacáo náo se
sustenta, porque esconde um corpo fragmentado - no qual uns tém mais direi-
'++ -
tos que outros, e grupos étnicos con±i_nuam á margem (.é o caso dos índios, por
exemplo) - e maquia as injusti¬as da reprodusáo de posieóes culturais desiguris
resultante da dominagáo entre grupos.4

I±iHaS±?±±9£Í9±iei±picidade desefiyQlvLidiptintropologia e á im_


portáncia alcangada pelos estudos ítnicos, articularmente nos Estados

242
/

¡.u,emcaod:ef*1bpe:tl: `+- -_ - O +
1

modo, á medida ue o conceitoj1íéasaLf2iHdg±gJ:Í:sdibilidade, o de?±i.a


1.1 :1:J_J_ _ J_ot-tl:a

re com a
vem sendo a.plic nos estudos literários e culturais, sem
óe em contato os anta ónicos
va de qu?
cindidos, numa
ante muta áo, cu as fronteiras cul-

turais se transformam
decorre desse . A premis-
Mas a literatura interessa a escrita que
a em1 transferiria. também
a de que a Cena violenta
sabásica é _torn_i_n_do
ossível ao desloca.do sentir-se "em ca.sa'', lan-
lingu_age_rlt, '', confome expressáo do historia-
¡ado que é ao «lugar de alteragóes itinerantes
dor francés Michel de Certeau5.
a COn áo do ser udeu e do ser brasileiro, vé-se que
Quando se unto de
sío termos que caminham untos. Cada um deles carrega_ um
referentes li ados a realidades
entrelugares, o ponto de intersec-
Ma;é PuDoJyiJ., ei a.
lVlab Cpossível, _ literatura
,,+i_L_____ o_faz, escavar os

cío de identidades, línguas, culturas, tradiqóes, que evita a polaridade de biná-

íaɱ
rios, forjando uma terceira posi‡o que reconhece as duas outras, mas flui epi
trilho próprio6. Isso porque o criador é o depositário de um legado que o mns-
cende e se expóe no nível da linguagem, pedindo, de certo modo, para ser lido,
e "im passar a existir. O sujeita"e á organiza¬áo simbólica mduz um situa-
¡áo onde náo se vive jamais inteiramente no presente, sendo este pressionado
issaiJ.u.
pelo passado

~
naO e
/

:.Í=:
mas_i±ma realidade socia1 transmitida
tes e de instituicóes

grupal e coletivo, que


e sustentada a.través de esfor os conscien-
onsáveis

"+-l---- ____- +l _ L
a_nlZa

aurlCe Halbwa.chs, e,rn La rnírrioíre collecúvé , swster[+a cTft_


uestáo estritamente individual, pois contém um nível compartilhado,

Para tal autor, a história come¢a onde termina a tracliqao, omc iiiu". 4 iuiiLLv
ria coletiva.
Já Pierre Noras e K. Pomian9, da éco/e ¢,4%4/cf, sustentam que a memó-
ria e a história mantém relagóes radicdmente diferentes cop o pass±, enLguan-
e a memória

243
to na primeira este continua no presente sob forma reatualizada, a segunda rom-
pe com o passado, reconstituindo-o por meio dos vesti'gios que dele sobraram.
Regulando o foco para a situacáo dos judeus, Y.H.Yerushalmi" acrescen-
ta que a história nunca fQijLg±a_rd_iá d_q memória udaica, o
que se confirma na
escassa produgáo historio ráfica de iniciada com o movimento da f7ÁrJ-
Á¢/Áífi, no século xlx, oriundo doiluminismo,
que tem seu eixo em farta produ-
J. _ _ ___
¬áo de obras históricas completamente desvinculadas do padráo de memória.
Na história do judai,smo, o século xlx inauura uma cisáo
entre memória e h lS-
tória. Tiata-se a ui da memória ue obri a a lembrar.
Outra é a memória invo-
lu_n_tZ= A mercé das coisas do mundo que, a sua maneira, refratam uma gra-
___ O__
. ^
mática da existéncia, sua organizagáo pode ser pensada em confomidade com
as figuras da linguagem - símile, metáfora, metoni'mia, sinédoque - de modo
que cada coisa é, m verdade, muitas coisas, dependendo do que está a seu la-
do, do que as contém, ou do lugar de onde foram retiradas. Neste caso, esque-
cer é manter uma figura inc?mpleta, fltando-1he, por exemplo, o segundo ter-
mo de uma comparasáo. E graeas a esse tipo de memória que o passado
flutuante pede passage_p e se deposita de diferentes modos no texto hterário. É
gracas a ela, ainda, que podemos identificar tragos literários que ultrapassam as
intengóes do autor.

II.

Nascida em 1920, na Ucránia, ClariceLispector chegou com a fam,lia ao

ra Recire e, em se uida, foi viver no o de Janeiro,


cidade em que completou
sua formacáo e se casou. Ao escrever que "a minha
rimeira li'n ua foi o
ués. Se eu fflo russo? N áo, náo, absolutamente.
eu tenho a li'n
creio que a ficcionista comete uma imprecisáo. As
rimeiras alavras
que ouviu
i o i,diche, pois seus
pais náo provinham de uma européia e sim de um
shtetl;3 or+de os judeus fflavam esse idioma e náo o
russo. Túdo indica ue a me-
nina tenha sido iniciada em dois sistemas lingüi'sticos
simultaneamente. Um de-
les ela calouT Clarice náo se refere ao i'diche, embora fosse usado em
sua casa. Consta que seu ai lia jornais neSSa
1i,ngua, e elaprópria freqüentou a
escola israelita em Recife o Co1égio Hebreu
_Brasileiro -, trajetória CO-

244
mum aos filhos de imigrantes judeus no Brasil. Essa lín ua silenciada (
aparece de forma encoberta numa referéncia da escritora a seu pai, na crónica
«Persona'': «[...] Quando elogiavam demais alguém, ele resumia sóbrio e calmo:

í, ele í uma pessoa''.14 A designagáo COmO ualifica erlativa é tra-


dugáo direta do ídiche: Er z'í ¢ 77zc/z#cÁ (em portugués, ele é uma pessoa)l5.
Ser brasileira e fazer parte da literatura brasileira sáo eleigóes da ficcio-
nista, repetidas em diferentes contextos. Ironicamente, a "língua _presa'' assiLna-
ronúncia identifica_da como estran
Enquanto cursava direito, entre 1939-1943, Clarice Lispector trabalhou
como redatora_ na Agéncia Nacional, iniciando uma atividade ornalística
durará por toda sua vida. É im ortante lembrar ue ela se fixa. nesse em
durant_e ; Estado Novo, tendo aquele órgáo oficial de informacáo sido criado
em 1934 por Getúlio Vargas, que o subordinou ao Ministério da Justica e Ne-
gócios lnteriores. Ele seria o embriáo do futuro De artamento de lmprensa e
Propaganda (Dlp) sut:_idTdi; diretamente i Presidéncia da_ Re ública_. Clari-

ce L_ispector trabalhava ali com fiituros romancistas de renome (Lúcio Caldo-


so, António Callado, entre eles), eri'odo em ue um contin ente a
vel de intelectuais e artistas pr( iversos os de colaboracáo á política
cultural do regime Vargas, além de múltiplas formas de assessoria em assuntos
iú_i competéncia e interesse.16
É importante lembrar que nesse mes'mo período o nazi-fascismo recru-
raciais vigiam, os campos de
concentragáo esta_vam funcionando, h avia um
OS ju_d_eus, epl particularLgrp seus assapo_rtes marcadQs, trombavam em difi_r
/
culdades oara entrar no alS, Ou ue eram comunistas, ou, sim lesmente,
udeus, embora esses im edimentos também valessem ara outras
hindus assim como essoas ou os de outras ade-
sóes ideológicas, como___o_s_apiarquistas. Ainda durante essa época, mais exata-
mente em 1943, Lasar Seg41_faz uma exposicáo no Rio de Janeiro e sua pintu-
ra é qualificada, á maneira_ nazista, de «a!:IELJ_egener±Ld_a'", provocando uma
onda anti-semita nos
_Ésses dados jornais
estáo daevocados
sendo época. para indicar
roblema com
íodo. o que
era o de ser udeu nesse período, clue se confirma na carta escrita. em
por André Carrazonni, diretor da em resa ,4 ^roz'Ág, onde Clarice Lis ector tra-

245
brihava como redatora, a Oswaldo Aranha, entáo ministro das Relacóes Exte-
riores. A carta - um esforco para agilizar o processo de mturahzagáo de Clari-
ce Lispector como brasileira, o que ela tentava desde que atingira a maioridade
- ressdta as qúidades de inteligéncia, de profissiond competente e sobretudo
sua perfeita in_tegra¢áo aos hábitos brasileiros. Carrazonni reforga, em tom en-
fático, o último atributo.. o de sua brasilidade:

Foi com surpresa que a soube estrangeira, tal a s_Ta mneira de ser,
táo nossa que a torna legi'tima filha do Brasil. Realmente, a nacioúida-
de, nesse caso, constitui um acaso. Clarice veio para o Brasil com mes
de idade. Aqui aprendeu a ler e a escrever. Aqui formou o seu espi'rito,
como verdadeira brasileira.ls

Em entrevista de 1976 dada a Edilberto Coutinho19, Clarice tenta des-


vencilhar-sc de seu judai'smo: «Sou judia, vocé sabe. [...] Eu enfm sou brasilei-
ra_, pronto e ponto''.
Retomando o cor o cindido em uma cadeira e duas macá
a autora ar-
ticula dis untivamente o scr brasileira e
judia, preterindo esta condicáo em no-
me daquela, sem conse no entanto, apagá
Contrariamente i sua dis osigáo, uma referéncia
udaica - mais abstra-
ta- inscreve-se em seu texto
onho a analisar. Há nele uma
busca reiterada (da coisa? do real? do im
ável? do im ronunciável? de Deus.))
que conduz a linguagem a seus limites expressivos, atestando, contra
a presun-
entendimento, ue há um resto ue náo é desi
nável, nem re resentí-
vel. Neste sentido, a escritura, se
undo
_ Clarice Lispector,
permanece, talvez in-

:=-=---:===---
mentários exegéticos
gar á divindade,
p_re;sos aJo Pentateuco, ue remetem ao des ejo de se ache-
tarefa de antemáo fadada ao
dada a particularidade

pretacáo multiplicadora - eis a heranca


judaica por exceléncia, e a ela o texto
de Lispector náo fica incólume.

246
do concentrado em U7# Jopro ó/¬ w!'Z¢, diálogo desarticulado entre um autor e
sua personagem. É esse que ifirma:

Há u_m siléncio total dentro de milp. Assusto-me. t:omo explicar


que esse silé-n-cio é aquele que chamo de o Desconhecido. Tenho medo
Dele. Náo porque pudesse Ele infa-ntilmente me cq?tigar (castigo í coisa
dchomcns).É um medo cTuc uem do que me ultmpds§a. E qu; í eu t¢m-
bím.?orqueigmde_a min_ha grandezd,TS_

Aí, o si1éncio é identifica.do com o descol com aquilo que ul[raj


passa aquele que enuncia, havendo uma clara alusáo tanto ao inconsciente,
quanto a Deus, ambos amplamente mencionados na obra da autora-, este, co-
mo o.(inolpinável', e o "inatingi'vel'', e o inconscz.ente como «aquele que náo
sabe'', como o lugar dos «sonhos que sáo o modo mais profundo de olhar".
O si1éncio, na obra de Clarice Lispector, é tanto um tema com o qual
seus personagens estáo ás voltas, iomo uma atmosfera que marca O eSPa¬O ln-
terno dessas mesmas personagens, ou como algo que está no horizonte do pro-
cesso de criagáo da autora, que sinaliza para ele quando, por exemplo, identi-fi-
ca o romance 4 Ác)ffz! éí¢ éií#g4r como "um siléncio''.
A linguagem carrega em sLo_ siléncio ao lembrar que algo sempre deve
ausentar-se para que ela po?sa se presentificar. O iiú=fica de hdo é o si1éncio,
que, no entanto, signi1Ca e marca otexto com a projegáo de sua sombra. Dai,
o interesse da autora em preservar as entrelinhas: «Mas já que se há de escrever,
que ao menos náo se esmaguem c_om palav_r_as as entrelinhas''.26
Por outro lado, cria-se um impasse, pois sevalorizam
, os es os em bran-
co, o náo-dito, a o si1éncio, admite-se o fracais_Q_da lingua em, 1StO é,
=i¡ flHiiHHriE [IE HEm iHm
±Qi±Íi_f±±s±:Í_so sei±g_igan±a qu±±±9££J:Í:siende aproximar
da nebulosidade do ue náo tem nome. A escritura de Clarice Lispector nío
nomeͱLoJnominá]I§l, náo designa o indeterminável como se fosse um oljeto
do mundo. Ao contrário, através do esforgo e do malogro de sua linguagem, ela
faz sentir que algo escapa e r_esta náo determinado, náo apresentado. Assim, ela
inscreve uma auséncia.
Em A4oz.Jef y /Ár re/z¿z.o'z 7#o;¢o£ez'J£#7, Jean-Frangoise Lyotard, ao comen-
tar o texto de Freud A4oz'Jéí e o A4o#oáez'J/7", refere-se á idéia,de que a lei mai-

248
"inominável'', o que náo pode ser determinado pela palavra, e que fiincionam co-

mo dínamo dessa linha em movimento. Esta zona encoberta, is vezes chamda


de «desconhecido'', é o ponto para onde a ficgáo de Clarice Lispector retorna, re-
giáo onde se inscreve, a meu ver, a ((verdade'' que a escritora busca. E para buscí-
la seu texto opera por desdobramentos através dos quais elavisa a promover a per-
cep¢o do inominado. Por isso seus escritos guardam certa familiaridade com
outras escrituras afinadas com a procura de uma verdade que vive oculta, Esse
a crenga vivida{omo fi-
delidade inabalável a uma yerdad_e, é _préprio dos textos da tradi¬áo j
melhor, é rio do modo como esses textos váo construindo uma

IV

Outro rastro do judaísmo pode ser observado na presenga constante de


referéncia ou cita áo bi,blica28 na obra de Clarice Lispector. Mas, além da pre-
senga judaica, verificam-se também a cristá, a1ém de ue
populares, o q
sugere o seu empenho de integragáo no quadro particular das experiíncias reli-
giosas brasileiras, marcado pelo sincretismo. Todavia, é certo que a Bi'bliíi he-
braica lhe serviu de base e, no que concerne á lei, a recorréncia a essa fonte tem
um peso na obra da autora. '
Além das citacóes expli,ci.tas, como ocorre, por exemplo,
cm A uia crucí!
ó/"twp#9, onde o ti,tulo remete aoespago do marti'rio de Cristo, reforgado por
cpígrafes provenientes dos textos fundamentais das religióes judaica e cristá (j¢/-
mos, Lamentatóe! de Jeremia§ cRc), ou em 4 hom da e¡tr_e/ffcujo
, nome da pro-
tílgorista remc+e a,o L±i!!:o dos macabeuP1 ,há algumas obsessóes que fazem eco
ao texto bi'blico, e dizem respeito a uma conce áo de mundo e de realidade
mobiliz±±9±a_±a±!g±QL]!£gS±±g!]]Pjg±Í±
Os animais, Or eXem lo, entram em sua obra como ingrediente de es-
trutura áo do mundo, e dividem-se em duas categorias que náo se confúndem:
aqueles que se identificam com a narradora/autora e aqueles que repelem qú-
quer identificagáo: "Ás vezes eletrizo-me ao ver bicho. Estou agora ouvindo o
grito ancestral dentro de mim: parece que náo sei quem é mais a criatura, se eu
ou o bicho. E confiindo-me toda. Fico ao que parece com médo de encarar ins-
tintos abafados que diante do bicho sou obrigada a assumir''.32

7ln
Os animis passíveis de identificaqáo sáo os domesticáveis (cavalo, ca-
chorro), isto é, aqueles que podem ser integrados no sistema de valores do ho-
mem (pdavra, trabdho etc.). Já os animais do segundo grupo sáo selvagens, re-
pelem
r,.Jl\,J-L* a+- domestica‡o,
".. ,
--____ estáo fora da 1íngua c formam um bolsáo de
- -----_i__ __ _alnrñpc h,` l,f`mm com o mundo (formigas, be-
agressividade que perturbaús relagóes do homem com o mundo
s;uros, percevejos, sapos, barata).
«Eu fizera o ato proibido de tocar no que é imundo''." Essa passagem do

romnce 4p4ri¢o ,,g#¿o G.f7., aponta para uma proibi¢áo que


____ atribui impo:-
J_ _É1~:-^
zona de perigo.
táncia ao que é imundo, podendo arrastar o homem a uma
impuros e
1
ossíveis entre
A normatizaqáo dos animais puros e
a_ autora a co-
o homem e eles está inventa.riada. em £g#,,¡'co 11..13, e é certo
ens desse livro a_parecem citadas entre aspas,

en=Lt*
\,) \/`-----veíe=Zseteeías.usmeaeSm&ct=qeu=itO?=1esit=it=,3=PtíC:Ce±_'ii_íf_d_-=r-íít±
' __ , l l _® _ __ _ ~.-----r®

ra em repelir com todas as armas esse inseto do espa¬o doméstico, no romnce,


a mmdora, apesar da repulsáo e do horror que ele lhe provoca, identifica-se com
sua miséria de ente vivo e solitário e o póe na boca, á maneira de um
~ _hóstia.
-_\_J*-

s animais da for¬a
omem renunciar á elimina
de elimi-
maculante. A li¬áo teológica. está contida, exatamente, no movimento
_n;gáoTTo animal, já que mcularespacos,
espacos, coisas
coisas e nomemreduzo
e homens lcuu4 lugar
u "6a.da
__di-
_
1 1

vnian¬dáaodtoe.&t=tlit)o&,qdu=slil`ta¢uEi `%oan`+vf*iaii-Te_s_e__a_t_é1_?.art^intivpdner1=-`
puro está subsumida aos cuidados com a higiene e ao respeito * conven¬óes
que nos sáo próprias, a impureza é um critério usado por antropólogos para
classificar as religióes em primitivas e modernas. No primeiro caso, as prescri-
góes relativas ao sagrado e á impureza seriam inseparáveis; n_9 segundo, & re-
gras relativm á impureza desaparecem da religiáo_, sendo relegadas á cozinha, ao
chuveiro, aos servigos de saneamento, á medicina etc. A observáncia dos pre-
ceitos, positivos e negativos, tem a sua eficácia, porque pode trazer a prosperi-
dC¬a`teO`*YUo.=i:Sis-st=io-=-no¢áo de smtiiade-dlvlna que os honens de-
vem alcancar em sua própria vida.35
O caminho da escritora será o do questionamento dos preceitos e náo o>
da obediéncia.:

25l
Eu me sentia imunda____
como a Bíblia
______ falai..ic.
_ i_i_.i_ dos uu.
imundos.
uuiiiiuuó.Por
ror lt
foi que a Bíblia se ocupou tanto dos imundos, e fez uma lista dos an
mais imundos e proibidos? Por que se, como os outros, também eles l
viam sido criados? E por que o imundo era proibido? Eu fizera o ato f
bido de tocar no imundo.36

É radicd, no romance ,4 p4;x¢o Jgz4do G.f7., a transgressáo da auto


porque, dém de pór na boca a barata, um animd impuro, ela deslocará pam(
se inseto i'nfimo e impuro a imgem de Deus, fazendo que o pequeno e o f"
to contenham o infinito, que o impuro possa conter a pureza, e os fios que vi]
culam o pequeno e o grande confluam na comunháo do neutro, mtéria com
a todos os seres, representada na mssa pastosa da barata esmagada: «[...] quer
o Deus naquilo que sai do ventre da barata - mesmo que isto, em meus antigc
temos humanos, signifique o pior, e, em termos humanos, o infiemal.''37
É transgressivo também o caminho a que a personagem se langa, a papJ
\J _3__, _J
tir do momento em que vé m parede o desen-ho d: empregada Jamir. Um
mndo hipnótico a conduz para zonas inusitadas, um infemo sem pecado r
castigo, que lhe proporciom alegria demoníaca, aliviada da ameaga de per(
se. A arcaica sede de orgia que ocorre no J¢G4#4 realiza-se, no romance, no
terior de uma forma litúrgica anticristá (missa negra) e antijudaica (ocorre
Sábado, que é sagrado e deve ser guardado), obedecendo a uma 1ógica de
___O--_ -- `.\J
\ 1
nho onde o potencial mágico do arrebatamento om'rico ganha relevo. A1ém dis
so, esse percurso enla¬a aspectos vinculados ás religióes
afro-brasileiras. O cava-
1o que chama a persomgem para o festim notumo, ao mesmo tempo que serve
de presenca através da qual o humano reconhece em si o lado instintivo, ele re-
presenta também aquele que tem o privi1égio de ser «montado'' pelo orixá, em
conformidade com o ritual afiro brasileiro, tomando-se o veículo que permite i
divindade voltar á terra para cumprir diferentes objetivos.
Diante do amnjo sincrético, qual o papel da Bíblia? Será a inflexáo li'-
blica (que soa, ás vezes, em filsete) presente no estilo de Lispector um am-
dilha, (haneira necessariamente sonsa de se apresentar uma visáo profam, des-
sacralizada'' da realidade, como quer Américo Pessanha?38 Ou será possi'vel
pensar que, apesar da oposigáo á escrita legitimada por um'a tradigáo, ainda as-
sim inantém-se um vínculo, que faz eco a essa tradigáo?

252
O tema da submissáo da ordem, deliberada por Deus na Bíblia, Í um tó-
aísmo: num universo ontologicamente bom,
?ico que se destaca com vigor no Ju
r-__ _L

a ordem é primeiramente-fiindada sobre o respeito á lei e sobre o castigo para o


crirne. Assim, Adáo e Eva sáo expulsos do paraíso, Caim é castigado por seu as-
sassimto, o dilúvio pune os crimes dahumanidade, e o fogo destrói Sodom, num
encadeamento que respeita as rela¬óes de causdidade. O proibido é a condicáo
da ¿,; e da OJdc?%, mntendo com elas um relaqáo indissolúve1. Parágrafio úni-
co no primeiro pacto (G;?%,z', 2: 17), toma-se código em xo¢o (O Decflogo), em
¿"/,Í'" e em Z)c!#g/Ü/2o^/%Í'o. Entretanto, no romance de Clarice Lispector, a in-
terpretacáo do interdito, da lei, de sua mnsgressáo e punigáo, é gerido por um
sistema náo nomeado, que ninguém consegue formular, nem mesmo G.H., que
é lacónica a esse respeito ao afimar simplesmente.. ((vivia num sistema',39.

Eu náo poderia mais me escusar riegando que náo conhecia a lei


_ pols c-:niiiei-se e se COnhJeCer a? "Tdo é? 1ei lT_e_,_=_esJ=_0__1r?\cna.=
qável, náo pode ser infringida, e ninguém pode escusar-se dizendo que
náo a conhece. Pior: a barata e eu náo estávamos diante de uma lei a que
devíamos obediéncia: nós éramos a própria lei ignorada a que obedecía-
mos. O pecado renovadamente origina é este: tenho que cumprir a mi-
nha lei que ignoro, e se eu náo cumprir a minha ignoráncia, estarei pe-
cando originalmente contra a vida.
No jardim do Paraíso, quem erao monstro e quem náo era?40

Segundo o texto, a lei ignorada, a única que deve ser obedecida, é a de


se deixar levar pelo imprevisível. É a obediéncia constitutiva de ág%4 w.a4 res-
ponsável pela radicaliza¬áo de sua diferenea em relacáo aos géneros literários
onde náo se integra mis.. "Estou esperando a próxima frase, [...] a próxima
frase me é imprevisível',4', afima a escritora. Entregue a um trabdho de desa-
propriagáo, de despojamento, ela está á escuta do enigma da escritura, traba-
lho que náo conta senáo com a contingéncia das frases que podem ou náo vir,
com a eventualidade do que pode tanto ser como náo ser. A ateneáo voltada
pm a obra como ocorréncia testemunha singularmente a precipita¬áo do ines-
perado, do que náo é (ainda) determinado, a irrupcáo do evento que desorg?-
niza a experiéncia e as significa¬óes estabelecidas. Ora, a fun¬áo da lei é preci-

253
samente a de conjurar, eliminar a eventualidade do indeterminado,
cendo uma relagáo inequi,voca entre norma e conduta, transgressáo e
punicáo)
visando sempre a uma estabilidade institucional. Sáo os fundamentos dessa es-
tabilidade que a autora discute em um de seus textos prediletos -
nho'', em que um marginal responsável por delito de assassinato é morto pel
poli'cia com treze tiros. Ai', a narradora recusa a discussáo forense e abstrata
para buscar respostas em sua própria subjetividade a pergunta: "Por que est
doendo a morte de um faci,nora?"42 Ora, se a justiga tem de ser a manteneJo
ra da lei, ao assassinar, ela a transgride. E ela transgride também porque pro
tege uns e náo outros; ricos e náo pobres. Recuando para uma nova no¢áo d
justiga, a narradora póe em circulacáo a /'#rrz'f¢ pyéyz'4 aquela que deve atua
sobre aquilo que é energia básica em nós, e que ela chama também de /!,#,o
g7iáío Zc wz'¢ impedindo que o impulso vital se transforme em violéncia. As-
sim, Mineirinho torna-se assassino porque foi exclui,do dessa justica e
numa estrutura social que abandona alguns.
Esse texto de dificil classificagáo além de ser um libelo contra a exclus¡o so-
cial, um questionamento do sentido histórico de justiga, é também um comentá-
rio da lei bi'blica expressa no mandamento #¢-o?%¢£z7á. Baseado mais em precei
tos do que em dogmas, ao judai,smo importa o que se deve fazer mais do que en
que se deve acreditar. As leis morais que regulam as relagóes humanas devem se
conduzidas de acordo com a necessidade de justisa, compaixáo e paz. O assassim
to é considerado como particularmente horroroso, porque destrói umser criado i
imagem e semelhanqa de Deus (Gn9; Ex20, Dt5, S4!z!,gé/,;7? 4:5). No caso de
neirinho, filha a justiga prévia e a conduta humana náo está mais modelada pelos
atributos divinos, acenando para uma crise nas relagóes entre os homens.
A matéria viva da barata é anterior á classificagáo puro/impuro, assim co-
mo o gráo de vida de Mineirinho está antes de sua existéncia social e histórica.
A busca de uma espécie de estágio primeiro da vida, flutua no horizonte do
to, na contramáo dos preceitos e da lei.

V.

Com o nome de sua protagonista - Macabéa -, Clarice Lispector mns


póe para 4 Áo#¢ Z¢ ¬rfr¬/¢ elementos simbólicos de um registro matricial judai

254
co. A referéncia que se faz é ao ¿;wo ¿o, A44c4G¬% dois volumes náo-canóni-
cos da Bíblia, considerados apócrifos pelos judeus. Ambos foram transmitidos
em grego, ms o primeiro foi prowelmente traduzido de um original hebrai-
co, que se perdeu.
Pode-se dizer que o tem dos dois ¿;t"of ¿of A44c4Ge% é a resisténcia,
pois eles mmm o conflito entre os judeus (a famí1ia dos Macabeus) e seus
opressores gregos. O nome da protagonista, remete imediatamente ao texto bí-
blico, direciomndo o olhr do leitor para dois planos textuais paralelos que, de
algum modo, dialogam, mesclando simis que se ressignificarn.
Como os mcabeus, Macabéa é vítim da opressáo dos poderosos, um
pobre nordestim perdida m cidade grande e, como eles, ela resiste.
A rela¬áo tragada entre os dois planos náo é simples, pois a exclusáo da
protagonista das relagóes de produ¢áo, e sua decorrente exclusáo socioculturri,
aelevam evidentemente como figura símbolo do exército de excluídos que com-
póe a populagáo brasileira. Mas há uma situacáo específica
r em
l que
T . se_insere
J__ hÁ^a
iluminar na contraface do £!.vro áf A44-
persona_gem
r ___ _ (J l quel permite, a meu ver,

4c?# um judaísmo em crise, pois Macabéa é também excluída da linguagem,


ela que é relacionada ao povo, que á fálta de território, aglutinou-se em tomo
do Livro. É em torno dessa questáo que vou me deter, deixando de lado outros
aspectos importantes do romance.
Macabéa é apresentada, no início da namtiva, prestes a ser despedida do
emprego. Quase andfabeta, ela desempenha a duras penas o trabdho de dati-
lógrafa. Fora de lugar, deslocada, copia lentamente letra por letra priavras que
náo alcan¬a compreender (¢,ígzÁ" ou dcJ;g%."Ám?. Seu trajeto no livro será o
de buscar um entrada m linguagem, enquanto vai sendo contada pelo mrra-
dor que enuncia com ironia o mlogro de sua personagem, ressaltando justa-
mente o que ela falha ser.. "J4 ¿4tz./óg"4# vivia num espécie de atordoado nim-
bo, entre céu e infemo, nunca pensara em (eu sou eu'''.43
Perdida entre as palavras, querendo, porém, encontrar*e nelas, a prota-
gonista vive um espécie de aliem¬áo, como que lan¢ada para fora do mundo
e de si própria:

- Náo sei bem o que sou, me acho um pouco... de qué?...Quer


dizer náo sei bem quem eu sou.

255
- Mas vocé sabe que se chama Macabéa, pelo menos isso?
- É verdade. Mas náo sei o que está dentro do meu nome.44

A ignoráncia com relagáo á origem bi'blica de seu nome e a impossibflidade


de alcan¬ar esse conhecimento, dada a distáncia entre ela e a infiormcáo, deslocam
a protagonista para um lugar á deriva, pois a matriz do nome mantém-se inacessi'-
vel, impedindo a personagem de estabelecer algum possi'vel lago de pertenga. Im-
tada pela amiga, Macabéia procura apoio nas palavras da cartomante: "Macabía fi-
cou um pouco aturdida sem saber se atravessaria a rua pois sua vida já estava
mudada. E mudada por palavras - desde Moisés se sabe que a palavra é divina.''45
Mas a vida as desmente. Assim, Macabéa atravessa a rua e é atropelada
por um automóvel. Aí, a palavra humana apresentada ao leitor com o peso da
palavra de Deus mostra-se oca e degradada.
Excluída da cadeia simbólica, a escrita barrada e a linguagem gaga fazem
que a tradigáo esbarre em Macabéa, que intercepta seu caminho, apontando pa-
ra a desagregagáo.
É também sob o signo da desagregacáo que o romnce 4 Áo# ó/¢ ,,J"g¢
se apresenta para o leitor. Tematizando a crise da literatura como representagáo,
uma outra história corre paralela a história de Macabéa. Nela avulta a figura do
narrador que disputa para si o lugar de protagonista. Quebrando a linearidade
da construgáo, esse narrador aglutina seus questionamentos em torno da per-
gunta «por que escrevo''?46 Tematizando metaficcionalmente o ato narrativo, ele
fila de si no vácuo deixado pelo esbogo da figuragáo de sua criatura: "É o se-
guinte: ela como uma cadela vadia era teleguiada exclusivamente por si mesma.
Pois reduzira-se a si. Também eu, de fracasso em fracasso, me reduzi a mim mas
pelo menos quero encontrar o mundo e seu Deus.''47
Na hipótese de Macabéa ser lida como o elo de uma cadeia partida, o ro- _i

mance que a conta também se mostra desarticulado. Tocados pela feiura e pe-
quenez da protagonista, os grandes temas se amesquinham, embora o comá-
rio também seja verdadeiro. As perguntas tolas e mal formuladas da personagem
a respeito do que a palavra alcanga dizer, por exemplo, sáo retomadas em outra
instáncia da narrativa, transformando o pequeno e o grande em escalas relati-
vas e intercambiantes que justificam a sinalizagáo que se faz no livro á ,4/,',, w
paíl dd¡ marauílhas, deIJc,nírs CíTrroNl.

..-.-:ij

256
se _ a\ien*áo de Mwti)e'a pode ser eTtJen11ta==+t:"=. C.?rrO"?=ite&1hti
ra de um judaísmo em crise, de uma proscri¢áo dm £fcr;£%#, é precisamente
o rituú de sua imolacáo que desencadeia a possibilidade de outra escritura, a
possibihdade de continuar escrevendo. Mas essa possibilidade exercitada póe em
questáo o próprio ato de escrever. Aí, como num jogo de espelhos, "1iena¬áo
intransponível de Macabéa aponta para a impoténcia do namdor-dati1ógrafo
que náo consegue p"r o fio da narrativa de come¬o a fim, que aponta par"
fracasso do outro mrrador, n"erdade Clarice Lispector, que admite a faléncia
da foma e o impasse em que se encontra a fic‡o quando pretende expressar o
que náo tem nome.
Assim, sobrepostos em cadeia náo ordenada, personagem, narrado" aT
tora trazem para o corpo do texto os sinais de uma impossibilidade de conti-
nuar. O fato de essa ruptura sintonizar e expor um descaminho próprio da mo-
demidade náo ehmim a virtualidade de o romance propiciar, pelo avesso, uma
visáo do judaísmo problematizada pela escritora.
EOsltids&uLtlstinreOsDsL=ie`_idt`tiaduuamt't_r=i_i_,t_r?_t_ert\OT:qnteiiOdr#sfitt£uenfit
rido, remete á tradigáo m;á4,¢.cds comentários bíblicos, onde ffi £fc".f"#
demarcam um campo significante original, a partir do qual se abre um leque
sdeemm1=sun? =%t Sd`osnsLiL*tai.'ófe.L_i:u_ii__a_=_Pilra1íentá=i=?oSs:notL:do?
de "impulso midráshico', de modo a fazé-1o integrar os comentários laicos, o ro-
mance 4 hm ók ,,#/pderia ser considerado um m!¿¢,he, na segunda
metade do século xx, póe em pé um cenário do passado, fazendo caminha"om
novo almto os protagonistas de uma história que é vivida agora no Brasi"n-
tretanto, a distáncia tempord (e tudo que ela carrega) obriga a leitur" circu-
lar por pavimentos cujas pontes precisam ser construídas.
A história recente cria novas posi¬óes e contingéncias para seus protago-
nistas - os Macabeus - sumarizados numa única figura- Macabéa, que se apre-
senta desde o início com a marca do deslocamento, um"ez que migra do nor-
deste par" sudeste do país, de uma sociedade rural e arcaica pm um"rbana
e modemauáo cabendo no processo geral de modernizae-ao a queu"erdade,
poucos tém acesso. Apresentad"omo Tm corpo estrmho no Rb de Janeiro
(«Como é que sei tudo o que vai se seguir e.que ainda desconhe¬o, já que nuT
ca o vivi? É que numa rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o senti-
mento de perdicáo no rosto d"ma mo¬a nordestina,,48), a estrmheza da per-

257
sonagem encorpa, quando a ela se soma sua correlagáo com a fonte bíblica. Tró-
pega, a trajetória de Macabéa conduz o leitor a um novo epílogo, diverso e opos-
to aquele impresso no ¿z'2w é/oJ A4tzc¢cÍ¢,.
Ressalvadas todas as transformcóes históricas que marcam a distáncia
de um texto a outro, e náo_sáo poucas, fiá que se ressaltar algo precioso para o
judai'smo que se p_erde no meio do caminho: a esperanca, a crenga num pos-
sível redengáo.

W.

Se a ficgáo de Clarice Lispector vincula-se ao judai'smo através dos ((im-


pulsos midráshicos'', que alavancam o retomo ás fontes, eh também se opóe a
ele de diferentes mneiras. Para comegar, a escritora justapóe ás citagóes bíblicm
elementos originários de outras tradigóes. A presenga do Novo Testamento, de
trasos sincréticos relacionados ás práticas religiosas no Brasil, forma um solo hi,-
brido que impede reduzir o vínculo a um única fonte, radicando o texto num
espaso geográfico (o Brasi1) e num tempo definido (a modemidade). Por outro
lado, é importante ponderar, no que diz respeito á transgressáo dos preceitos bí-
sicos, que em geral se parte da suposieáo de que tanto o texto bi'blico como a
obra de Clarice Lispector caminham na mesm diregáo, o que náo é correto.
Tanto o j?c7##£c%o como o A4í/m,4 partem da revelagáo para a prática
dos preceitos que incluem os papéis, leis e rituais a serem obedecidos. Já a au-
tora parte daquilo que ela percebe como limite e aprisionamento na vida do
dia-a-dia, para perfazer o sentido inverso e atingir o neutro, a pulsáo de vida
primária. Assim, ela esbam na lei, porque é preciso atravessá-1a para ir ao en-
contro desse elemento originário da vida. A Bíblia, entretanto, suporta essa via
de máo dupla, pois ao ser a matriz fundante do aprisiommento, já que ao ins-
taurar a lei a existéncia ganha seus limites, ela é também o lugar da origem, da
palavra revelada, acionando a partir dela um movimento ininterrupto de co-
mentários. Inominável, essa palavrq manter-se-á no horizonte da escritura de
Clarice Lispector como a coisa imtingi'vel, a «qmrta dimensáo da pdavra'', si-
nalizando pelo esforco em dizer e pelo malogro da linguagem em náo dcangar
dizer, que algo escapa e resta náo determimdo, transferindo para a letra o limi-
te que é da ordem da lei.

258
Retomndo a resposta de Lispector á entrevista já citada - «Sou judia,
vocé sabe. [...] Eu, enfim, sou brasileira, pronto e ponto''49 -, a autora alude di-
retamente á sua origem, ms imprime um giro tal na frase, que acabar se des-
1
talvez a forma. de
vencilhando da primeira afirmaqáo. Essa operaeáo_
Clarice Lisr
riosamente, tém a marca dessa mesma operacáo
uma metáfora
afi-rmando e ne ando o vínculo identitário, faz-se e desfaz-se
resistente á unificacáo, co-
bil que assim mesmo dilata múltipla e imprevisível,
mo uma cadeira_ e duas ma‡s.

Dr:ra': iít:r%#:'b::tJf;rU;,"nW;J;;u;;:;í;íi;;;iralde
BemWaldmm, profis]om de ltiemiw? h.eb:aica: n?CamPina.
r?:erit!adeelCreueZ:nn::.iO_:tiF::+b:?oC:ok,&:
::__:_:.O^:a^:::em::ne.O:t:aMl:te:)Í:_
r:'acee#se#U_Wí':££Wseug:;i:'¬:[ ii:;d., revista e íumentada, Sáo Paub.. ECuta, 1992).

NOTAS
I LlspEcToR, Clarice. 4#4 ".%. BJo de Janeiro: Artenova, 1973,.p. 75.
2 Cf. MORAES, Eliane Robert. O copo ,'pJfít¢/. Sáo Paulo: Ilummuras, 2003.
3 JmER. Robert. Tewish drc_s md nighmarcs''. ,%. NEsHER, mm Wirth (org.). WIJ4f "ewí,, /;.,er¢mr,? madelphiaUcmsdcm
The Jewish Publication Society, 1994, pp. 53-6l.
4 A respeito do "untog porém em hgulo gcrd, ürm García Cmclini: "Si bien el patrimomo siwe para mificff a cada nación, lü dc-
siguauadS en su formción y apropriación exigen estudiarlo t_bién como espacio de lucha materid y simbó1ica entre lffi cl#es, las
emim y los grupos.'' Cf. mcLiNi¡ Néstor García (em tradu¢áo brgileira de Aia Regina Lessa e Heloísa Pczza Cintrio). CWwff W-
¿rj'ót4j, Sáo Paulo.. Edusp, 1997.
; VeJa-se, a propósito, o cnsrio de Rosana Kohl Bines, "Escrita diaspórica (?) na obra de S_uel Rawet". J" V%cff, n. 2, Sáo mo: Hu-
mmitasflaculdadc de Filosofia, Lems e Cienciff Hummas da Universidade dc Sáo Paulo, 2000. Neste ensrio, a autora avaha de quc
modo a di*ora, incorporada á tr_a do texto, trmsfoma-se. em heg.oria da dispersáo da identidade, do sentido, de no¬Óü de ver-
dade c de origem, sendo a dissemimgáo dc significantes t"uais a ela vmculados concebida, ainda, como um modelo crí"o a coma-
pelo dos discursos naciondist* ancorados numa correspondéncia estrelta e mtas vezff explosiva entre língu, pátria e ra¬a.
6 Em 7#, /o,#.o# o/c#m, üdon: Routledge, 1994), Homi Bhabha defende o concdto de híbrido como um proc® de?c?ociaGáo,
m entrelugaL um interstício, quc abrc a possibilidade de um cuhra consideru a diferen¬a independente de u" hierarqm mposta.
7 Pmis: Presscs Universitaircs de Fmce, 1968. Edicáo brmileira: 4 %m'".¢ co/,,;v4Traducáo de Laurent Lcón Schaffer. Sáo mo: Vér-
ticc, 1990.
8 Cf. NoRA, Pierre, £,, /,'c#x d, 4g mémo¡.,c. Paris: Gallimard, 1984.
9 Cf. "L" KHysztof, "De l'hstoire, partie de la mémoire, á la mémoirc, objet dc l'histoirc''. Jm Révw, d, mé'@¿yf,9wc ¬' # ""/¿.
mémo,+¬, Á;J,o;rc,. n. 1, mar. 1998, Paris.. PUF.
10 Cf "usii."i, Yosscfmyim, Z#". /cwJM fJ,,,", ¢#,.,w;J, mcmo, Wmhington.. Universiv ofWisHngton Press, 1982. Edi-
¢áo braflei[a: Zz%"- Z7;,,ó"q#,c4 , %ú,4j#;c4 Traduíao de Lina G. Ferreira. Rio de Janeiro: Imgo, 1992.
T_- __ 1

1 1 Ilurninismo judaico, liderado poI Moscs Mendelssohn.


12 Ap#Nádia Ba"elh Gothb. C4#J.cc - Um4 wd{ g%'c co"# Sáo Paulo: Ática, 199;, p. 65.
l4 Povoado onde viviam os judeus do leste europcu, fflantes do ídiche.
15 LlspEcToR, Clafice. ,4 ¿¿,co¿,r£¢ do mwú. Rio de Janeiro.. Nova Frontcira, 1984, p. 99.
16 É cmioso obsemr que, embora o vocáHo em ídiche tenh se origmado do almáo - ,,r Á4cmcÁ - o scntido superlawo é próprio
daquele idioma.
" A questáo dos mtdectms ffliados ao regime autoritáno que remunerava seus semcos está muito bcm aprcscntada c mdisada no livro
de Sérgio Miceh ,#g/,c";, , c4"c ,"íge#¬ m B@;/ Í,92"945J, Sáo Paulo: Difel, 1979. Já a inform¬áo da atividade jomdística
da escritom Jmto á Agencia Naciond, futu[o Dlp, foi erirai'da do livro citado dc Nádia Battcua Gotlib.

259
18 E#zm'c# KT"fé o temo utihzado pclos nazis'as para desígnar e denegrir aquela que eles consideravam como anti-arte, arte "impura",
em rehgáo a outra tida como cxprcssáo racid purificada da verüdeira arte alcmá. Cf. L.Mauer, CL'art dégénéré, l'eugenisme á l'oemc",
Élrtzz'm, n. ll, 2003, pp. l99-226.
19 A referéncia á cafta, sua cita9áo e dados biogríficos form extrúdas do citado livro de Nádia Battella Gotlib, C¿,,c, - y"4 "¿¢ g%
JCJOm¡1 PP. l65-l66.
2fi ',:=::,:"::?:r=J±,_S±_L::?fc_`:r':.,:?:atu_r?_.4 pfpe+ T!rra._de li:em±u_r: Ó- sexo c+ filclore ó camval Ó.ftteboi ¢ tebri_
JGo c, o#oJ fÍ" 4b wdZ. Rio dc Janciro/Brmíha: Civiliza9áo Br"leiraflnstituto Naciond do Livro, 1980, pp. 165-170. Seguc a ci-
ta9áo completa: "Sou judja. vocé sabe. Mas náo acredito nessa besteira de judeu ser o povo cleito de Deus. Náo é coisa nenhum. Os
demáes é que dcvcm ser, porque fizeram o que fizeram. Que grande elei¡áo foi essa, para os judeus? Eu, enfim, sou br"ileira, pronto
e ponto,,.
21 Cf. meu livro EmepJzm c raffroJ, citado anteriormente.
22 Rio de Janeiro: Francísco Alvcs, 1997. Ver, a propósíto, J1 ¿xp,ffi4ro,'#c¢ 7¡¢ o¿% ó¢ C4z".c, £,.,p,cf% de Nelson H. Vieira, em Jh
m4# ó¢ A44/c', n. 9. Organiza¬áo de Bcrta Wddman e Vilma Aféas. Campinas: Instituto de Estudos da Lingmgem/Universidade de

Eo=<p?"`%i..:_933.).:JTo^ l!l_v=_!_:ri^h
1995), Vieira estuda o lolnance ,4 ÁoÍ4:oices' in b"Pi4n
d¢ ¿rri em sualitemtun: +?ro.p!e;ic
cxpressño di"oui;-iidit:rii`Gñl-i[.'_áf..-G£'=[&s:'`tpu:isysc3[`uf\I.IdUf'
jüca, assim como a obra da autora de modo gerd.
23 CANDIDO, Antonio. J# VZr,.oJ ¿Jcr¡.,oJ. Sáo Paulo: Duas cídades, 1970, pp. 125-131.
24 LlspEcToR, Clarice. C," Jop'o ¿c %'db..p4gfo-¿i 8. ed., Rio dc Jancíro: Nova Fronteim, 1978, p. 72.
2.5 Ibidem. p. L2;9_
26 LlspEcToR, Claricc. J4 p¿¢o ,cg#do CfJ. Edigáo crítica. Coordenagáo dc Bcncdito Nunes. Paris/Brasília/Sáo Paulo: Association Ar-
chivcs de la Li"érature Latino-Anéricaíne, dcs Cara1.b¬s ct Africainc du xx Siéde/Consclho Nacíonal de Desenvolvimento Gentífico
c Tecnológico do Brasil - cNpq/Scipione, 1996, p. 295.
27 Buenos Aires: Amarrortu Editores, vol. )MII, 1939.
28 Cf. dgum tcxtos quc tratTn das fontes jücas m obra de Clarice Lispcctor. De Alfredo Margarido, "A relagáo Animüs-Bíblia m olra
de Claricc LispcctoP, rev"ta Coíóg#;'o ¿cfffij n. 126-127, jul.-dez. 1992; de Jhariles G. Hill,.CReferenci_ cristiams y judaicu en Á
mffé."o cffm e ,4 p4riño J¬g%# G.f7.", e de Jhtonio Maura, "Resonancias Hcbrricas en la obra de Chrice Lispector" (ambos en-
saios intcgram a revista ,4móropoJ, n. 14, Barcelona.. Extra 2, l997).
29 LlspEcl.oR, Claricc. Á %'4 c7.Ífcz'í do copo. Rio de Janeiro: Artenova, 1974.
30 LISPECTOR, Clarice. 4 ¿or¢ dt¢ ¿J»g4L Rio de Janeiro: José Olypio, l977.
3l Os livros l e ll dos Macabeus sáo apócrifos, ísto é, náo fazem partc do cánone dos livros do Antigo Testamcnto. O cánone judaico fioi
fixado aproximadamente no find do século l d.C., sendo incluídos somente livros escritos em hebraico (ou parciahente em aramü-
co), considerados como datados cm tcmpo náo posterior a Esdras (síc. Iv a.C.).
32 LISpECTOR, Clarice. ,4g*f¢ %.zw, Rio de Janeiro: Artenova, p. ;0.
33 LISPECTOR, Claricc. Áp4,*¢~o Jcg##óío G.fJ., p. 47.
34 LlspECToR, Clarice, ,4 ¿g7.¢-o fJ»z#,t¢. Rjo de Janeiro: Editora do Autor, l964.
35 Ver, a propósito, o livro da antropóloga Mary Douglas, J)w¬zz cp,"go fPm.9/ "dd%c,/. Traduqáo de Sónia Pe[eira da Sih. Lisboa:
Edic6cs 70, s-d (cm particular o capítulo lll, '.As abomimgóes do Levítico'').
36 LlspEcToR, Clarice. 4 p4íxéo Jcg%ú G.fZ Edisáo crítica. Coordenacáo de Benedito Nuncs. Paris/Brastlia/Florianópolis: Associatíon
Archives de la Littératurc Latino-Amérícaine, dcs Cafa.i.bes et Africaine du Jqc Si¿cle/Comclho Nacional de Dcsenvolvilnento Cicntr
fico e Tecnológíco do Brasil - cNpq/Editora da Universidade Federd de Sama Catarim, 1996, p. 46.
37 Ibid-,p. 55.
38 pEssANm, José Américo. "Clarice Lispector: o itinerário da paixáo''. ,# júz"4?, ¿c A4#J, edicáo citada, p. 195.
39 Ibídcm, p. lO2.
40 A_paixá"egundo G.H., p. 113.
41 ,4g7Á4 oÍ'v4. Rio de Janeiro: Artenova, p. 16.
42 A legiáo eStmngeim, p. 253.
43 ,4 Ácm!z ó# ¬f»4 p. 52, grifo meu.
44 Ibidem, p.73.
45 Ibídem, p.98.
46 Cf. a mflisc dc 4 h4 c# c'*4 dc autoria de Lúcia Helem, em JV,m m% #cm mc,#,4 ff,!%,á"'oJ ,4 e"Á¢ f" C4m, ¿zp,,,o,/.
Rio de Janeiro: Editora da Universidade FederaI Fluminense, 1997.
47 A hom d4 cStrela, p.23.
48 Á6!'Ám, p. 26, grifos meus.
49Cf.nota19.

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