Você está na página 1de 416

Comentário à ÉtiCa a niCômaCo de aristóteles (i-iii)

O Bem e as virtudes

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

a niCômaCo de aristóteles (i-iii) O Bem e as virtudes Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 1 Volume
a niCômaCo de aristóteles (i-iii) O Bem e as virtudes Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 1 Volume

1

Volume i

7/21/14 1:25 PM
7/21/14
1:25 PM

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 2 7/21/14 1:25 PM
Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 2 7/21/14 1:25 PM
2 7/21/14 1:25 PM
2
7/21/14
1:25 PM

tomás de aquino

Comentário à ÉtiCa a niCômaCo de aristóteles (i-iii)

O Bem e as virtudes

Volume i

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

e as virtudes Volume i Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd Edição, tradução e notas Paulo Faitanin e
e as virtudes Volume i Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd Edição, tradução e notas Paulo Faitanin e

Edição, tradução e notas Paulo Faitanin e Bernardo Veiga

Edição, tradução e notas Paulo Faitanin e Bernardo Veiga Instituto Aquinate 3 7/21/14 1:25 PM

Instituto Aquinate

3 7/21/14 1:25 PM
3
7/21/14
1:25 PM

coordenador do projeto “projeto comentário de tomás à ética a nicômaco” Bernardo Veiga

revisão

Instituto Aquinate

projeto gráfico, diagramação Ilustrarte Design e Produção Editorial

logo do instituto aquinate Wood engraving by Reynolds Stone, in Saint Thomas Aquinas, Selected writings, New York: The heritage Press, 1971, p. 1.

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

, New York: The heritage Press, 1971, p. 1. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd Ficha Catalográfica 4
, New York: The heritage Press, 1971, p. 1. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd Ficha Catalográfica 4

Ficha Catalográfica

4 7/21/14 1:25 PM
4
7/21/14
1:25 PM

sumário

Apresentação

13

 

liVro i

Da diversidade de fins. Da felicidade, o fim que é a própria felicidade é o Sumo bem. Da dupla parte da alma, da divisão das virtudes.

19

lição 1 – Mostra acerca do que se trata a filosofia moral, qual

o

seu sujeito, qual o fim, e qual é a diversidade de fins.

21

lição 2 – Há nas coisas humanas algum fim que é o melhor, cujo conhecimento é necessário e que pertence à ciência mais principal, que é a Política.

31

lição 3 Como deve ser o aprendiz e o mestre desta ciência:

mostrando que nem o jovem, nem o que segue as paixões é um seguro aprendiz desta ciência.

39

lição 4 O que alguns pensaram sobre a felicidade: e qual é

a

diferença entre os sábios e os homens comuns que falaram

sobre o sumo bem; que o sumo bem é a própria felicidade, e como deve estar disposto o discípulo da filosofia moral.

47

lição 5 Entre as diversas opiniões sobre a felicidade, pergunta-se qual é a mais verdadeira, exclui-se o erro da maioria, e examina-se se a felicidade existe na virtude. 54

lição 6 Impugna-se a opinião dos que propõem a felicidade em um bem separado, e investiga-se se este bem existe.

63

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

em um bem separado, e investiga-se se este bem existe. 63 Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 5
em um bem separado, e investiga-se se este bem existe. 63 Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 5
5 7/21/14 1:25 PM
5
7/21/14
1:25 PM

lição 7 O bem separado não é convenientemente definido como bem em si; e expõe quanta conveniência há entre platônicos e pitagóricos na definição do bem. 70

lição 8 Se houvesse a ideia de bem, ou do bem separado, isto não seria por causa desta ciência que o investiga, porque o seu estudo pertenceria a outra ciência.

79

lição 9 Investiga-se o que é a felicidade. Que a felicidade é

fim último: e são postas as condições de acordo com o fim último.

o

83

lição 10 Investiga-se a definição de felicidade, como todas as verdadeiras partes da definição e, claro, o gênero e as diferenças: e busca a operação própria do homem, que parece ser a operação da virtude racional.

92

lição 11 Encontrada a definição de felicidade, mostra o que resta ser feito e, claramente, mostra como o cooperador da verdade deve adquirir o tempo e como também o conduz ao esquecimento.

99

lição 12 Confirma que a definição de Aristóteles de felicidade é verdadeira, com o testemunho de outros sábios, que falaram sobre a felicidade, na boa fé deles, que comumente são afirmados e ditos por todos.

105

lição 13 O deleite existe na operação da virtude e demonstra- -se o que confere a felicidade; e, igualmente, discute-se em que convém e em que falha, pela opinião de Aristóteles, acerca da opinião dos outros que disseram ser a felicidade com

a deleitação da virtude, que faz distinguir suas opiniões, que

propunham que são requeridos bens externos para a felicidade. 113

lição 14 Investiga-se de qual causa a própria felicidade procede, se da divina, da humana ou do acaso.

120

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

felicidade procede, se da divina, da humana ou do acaso. 120 Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 6
felicidade procede, se da divina, da humana ou do acaso. 120 Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 6
6 7/21/14 1:25 PM
6
7/21/14
1:25 PM

lição 15 Questiona-se se nesta vida alguém poderia ser feliz:

e igualmente discute-se a opinião de Sólon, de que ninguém

se tornou nesta vida feliz; e questiona-se se, depois da vida,

alguns mortos possam se dizer felizes. 127

lição 16 Não se deve considerar que o miserável e o feliz se encontram nas mãos da boa sorte, como o bem e o mal, que se dirigem segundo a razão, o que muito pouco depende da sorte. Demonstra-se, acima, que um virtuoso é feliz por alcançar todas as boas sortes.

134

lição 17 Algo da fortuna dos amigos contribui para a felicidade. E pergunta-se, como pelas vicissitudes dos amigos se afetam os vivos, e como do mesmo modo são afetados os mortos. Por fim, conclui-se que, se alguns mortos forem afetados pelos infortúnios dos amigos, aquela afecção não será do mesmo modo que possa mudar a condição deles. 143

lição 18 Se a felicidade conta-se entre o número dos bens mais honrosos, e se determina que ela é louvável, pois parece ser algo perfeito e melhor. O que se corrobora a partir dos louvores humanos e divinos e considera a opinião de Eudoxo. 149

lição 19 Aristóteles começa o discurso sobre a virtude, cujo conhecimento pode ser benéfico para a felicidade. Diz,

acima, que contemplar isso pertence à ciência sobre a virtude

e

deve-se demonstrar tomando isso por fundamento, ou seja,

que o próprio desta ciência é contemplar e tratar de algumas partes da alma.

156

lição 20 Divide a parte irracional da alma em nutritiva e sensitiva, e demonstra que não pode ser a parte nutritiva da alma humana, que de nenhum modo participa da razão; mas a sensitiva, embora seja contrária, todavia, declara que, de algum modo, participa da razão, desde que a mesma seja regida e dominada pela razão.

162

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

desde que a mesma seja regida e dominada pela razão. 162 Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 7
desde que a mesma seja regida e dominada pela razão. 162 Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 7
7 7/21/14 1:25 PM
7
7/21/14
1:25 PM

liVro 2

Da virtude no gênero, e sua essência. Onde são dispostos o acordo do meio-termo entre os extremos e os vícios que se opõem às virtudes, cujas prescrições são conduzidas para o meio. 171

lição 1 A virtude moral se faz pelo costume nos homens, não por natureza, cujo exemplo parece ser que os homens virtuosos realizam, com frequência, ações virtuosas praticadas por eles, às quais no mínimo o homem estaria habituado se a virtude existisse em nós por natureza. 173

lição 2 As ações de virtude são geradas pelo hábito, que deve estar de acordo com a reta razão, e elas se corrompem, seja por escassez, seja por excesso, mas são salvas pelo meio-termo, que se demonstra por uma comparação entre as virtudes e as ações corpóreas e as ações e virtudes da alma. 181

lição 3

– Sinal de uma virtude já gerada é a alegria ou a

tristeza que sobrevém às ações: o que se prova pelo estudo dos homens que tendem para a virtude, e pela matéria da virtude, pela pena que se chama medicina da alma, e pela corrupção da virtude.

188

lição 4 As virtudes não são comparadas às artes, porque as virtudes são princípios das ações, mas as ações que se fazem segundo a arte têm em si mesmas o que convém para a arte ser boa.

196

lição 5 Para chegar à definição de virtude, toma por fundamento que há três coisas na alma: a saber, as paixões, as potências e os hábitos e demonstra que as virtudes não são paixões, nem potências, mas as coloca no gênero dos hábitos.

202

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

nem potências, mas as coloca no gênero dos hábitos. 202 Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 8 7/21/14
nem potências, mas as coloca no gênero dos hábitos. 202 Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 8 7/21/14
8 7/21/14 1:25 PM
8
7/21/14
1:25 PM

lição 6 Declara-se como a virtude é um hábito, onde se põe certas condições comuns da virtude, e torna manifesta suas próprias diferenças, tanto como propriedade das ações, quanto da natureza mesma da virtude. 210

lição 7 – Coloca-se a definição de virtude, cujo próprio é consistir num meio-termo, como o excesso e a escassez ocorre acerca dos extremos e dos pecados, por isso que o mal (como dizem os pitagóricos) pertence ao infinito. Enfim, demonstra-se como a própria virtude também poderia ser uma extremidade.

218

lição 8 Manifesta-se a definição de virtude, mostra-se que em cada uma das virtudes o meio-termo é bom e louvável, mas o extremo é detestável e vicioso: o que prova distinguindo cada uma das virtudes e vícios.

226

lição 9 Prossegue-se com as virtudes das honras, tanto as grandes como as pequenas e trata, em sua maior parte, da declaração das virtudes e dos vícios, isto é, como se lhes têm nos extremos e nos meios-termos, o que faz tanto com as virtudes referentes aos atos humanos, quanto em algumas das paixões louváveis.

233

lição 10 Entre as virtudes e os vícios encontra-se dupla oposição: uma dos vícios entre eles, mas outra dos vícios em relação às virtudes. Prova-se, então, que é mais importante a oposição entre os vícios de uns com outros, do que dos vícios com as virtudes; e que um dos extremos é mais contrário à virtude do que o outro.

242

lição 11 Dequemodosepodeadquirirumavirtude.Paraaqual estabelece três modos, embora seja difícil para o homem tornar- se virtuoso: um, afastar-se dos extremos; dois, considerar aquilo para o qual somos por natureza propensos; e três, precaver-se dos prazeres.

249

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

por natureza propensos; e três, precaver-se dos prazeres. 249 Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 9 7/21/14 1:25
por natureza propensos; e três, precaver-se dos prazeres. 249 Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 9 7/21/14 1:25
9 7/21/14 1:25 PM
9
7/21/14
1:25 PM

liVro 3

Dovoluntárioeinvoluntário,edascoisasqueseguemovoluntário, da fortaleza, da temperança, das suas espécies e dos seus extremos.

257

lição 1 Trata do voluntário e do involuntário: é primeiro do próprio involuntário que do voluntário, mostrando o que seja involuntário por violência, e como é por ignorância.

259

lição 2 – Aos atos voluntários se devem louvor e censura, honra e pena. Às ações feitas por medo, não se deve louvor, mas apenas perdão.

266

lição 3 – Trata do involuntário da parte da ignorância, onde estabelece três diferenças acerca da própria ignorância, que se referem às diversas ações feitas por ignorância. 273

lição 4 – Demonstra-se o que é espontâneo ou voluntário e define-se como aquilo cujo princípio está no próprio agente com ciência das circunstâncias.

282

lição 5 – Trata da escolha, que coloca no gênero do voluntário e mostra que a escolha não é desejo, nem impulso, nem opinião e investiga a diferença que há entre escolha e a vontade, pois a própria escolha parece próxima à vontade.

287

lição 6 – Prossegue-se a discutir que a eleição não é o mesmo que a opinião, nem mesmo se a opinião for sobre as ações praticadas por nós.

295

lição 7 – Propõe-se a questão sobre a deliberação, a saber, se é sobre todas as coisas; são excluídas as eternas, as uniformes, as que são feitas por muitos, as casuais, as mais remotas, das quais não parece haver deliberação. 300

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

as mais remotas, das quais não parece haver deliberação. 300 Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 10 7/21/14
as mais remotas, das quais não parece haver deliberação. 300 Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 10 7/21/14

10

7/21/14 1:25 PM
7/21/14
1:25 PM

lição 8 – Não há deliberação dos fins, mas dos meios relativos ao fim: que apesar de ser o primeiro na intenção, é, todavia, o último na realização.

308

lição 9 – Compara-se nesta lição, a escolha com a deliberação, onde mostra como de algum modo é o mesmo e como de outro modo um precede ao outro.

314

lição 10 – Responde a certa questão com duas partes: que foi da opinião de alguns de que a vontade não se dirige senão ao bem por si, e a de outros que o bem é apenas aparente.

317

lição 11 – Virtude e vício estão em nossa capacidade, tanto nas ações, quanto nos hábitos.

322

lição 12 – Suprimem-se as raízes da opinião dos que dizem ninguém ser voluntariamente mal e demonstra-se que os hábitos da alma, pelos quais se diz que o homem é injusto ou negligente, são voluntários enquanto gerados nele, não, porém, por serem gerados depois.

329

lição 13 – Disputa contra os que negam haver em nós uma potência cognitiva do bem, e destrói os seus fundamentos e razões, tal como ocorreu mais acima, contra os que afirmavam não haver alguma maldade no voluntário. 335

lição 14 – Já inicia a tratar da coragem, que parece ser o meio-termo da audácia e do medo: e diz que os objetos são as coisas más e terríveis, mas não todas.

343

lição 15 – Declara-se que o que é terrível não é do mesmo modo para todos, mas, o que é terrível para a criança não o é para o homem virtuoso, que inclusive teme como o homem, mas por medo não se afasta do reto juízo da razão. 352

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

homem, mas por medo não se afasta do reto juízo da razão. 352 Sao Tomas de
homem, mas por medo não se afasta do reto juízo da razão. 352 Sao Tomas de

11

7/21/14 1:25 PM
7/21/14
1:25 PM

lição 16 – Trata de alguns atos de fortaleza, que parecem de fato convirem com a fortaleza, que são atos de fortaleza política e militar, porque estes de fato parecem semelhantes aos fortes.

361

lição

17

– Trata do terceiro gênero não verdadeiro de

fortaleza, que parece ser certo furor, que impele o homem ao ato de fortaleza.

369

lição 18 – A propriedade da fortaleza não se tem igual à dos medos e audácias: mas se diz mais louvável quando retamente se tem acerca das temíveis. Demonstra como, ao cessar de fato

a tristeza e o prazer, se gera a fortaleza, sendo o prazer do forte mesclado de tristeza, e a tristeza de prazer. 376

lição 19 – Trata da temperança, que se encontra na potência concupiscível: que parece ser o meio-termo dos prazeres: cuja especial matéria embora seja o prazer, considera-se, porém, o prazer do animal.

382

lição 20 – Dirige-se primeiro à sua declaração, que foi dita, a saber, que a temperança e a intemperança são dos sentidos do tato e do gosto, porém mais do tato do que do gosto.

391

l ição 21 – Forte, temperante e intemperante, declara-se como se tem o cessar das tristezas, dos prazeres, e das concupiscências: demonstra-se quais estão longe da natureza

humana, quais são insensíveis, e quais e como são prazerosas,

o

que deseja o temperante.

400

lição 22 – Compara-se a timidez à intemperança, que é mais espontaneamente percebida que a timidez, por isso se diz que se é mais detestável pela timidez. Demonstra-se como é espontânea, tanto no vício da intemperança, como no pecado da timidez: enfim, coloca-se que a comparação seja entre a intemperança e os delitos das crianças. 405

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

seja entre a intemperança e os delitos das crianças. 405 Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 12 7/21/14
seja entre a intemperança e os delitos das crianças. 405 Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 12 7/21/14
12 7/21/14 1:25 PM
12
7/21/14
1:25 PM

ApresentAção

Tomás de Aquino [1225-1274], filósofo e teólogo dominicano, es- creveu diversas obras — e muitas delas são efetivamente grandiosas, não apenas em quantidade, mas em tamanho. Desenvolveu muitas outras atividades intelectuais nas Universidades e nas Instituições, seja na docência ou na produção de obras, como as Sumas, as Ques- tões Disputadas e os Comentários de alguns textos das Sagradas Es- crituras. Mas, ademais dos inúmeros opúsculos, sem dúvida, uma das maiores tarefas de repercussão acadêmica, para além de sua época, com grande influência e importância histórica quanto ao método e por ter sido o próprio Tomás o principal expoente desta atividade em seu tempo, foi a tarefa a que se dedicou e que o tornou conhecido como Comentador de Aristóteles. Com uma metodolo- gia original, ordenada, comparativa, analítica, crítica e elucidativa, coerentemente conectado ao sentido, significado e referência dos termos do texto, diferenciada da tão difundida paráfrase, enorme- mente válida em sua época, os seus comentários puderam ganhar status, para além da Escolástica, perdurando do Renascimento aos nossos dias. Não raro, em razão dos títulos que tais atividades obtiveram de- pois da sua morte e pelas reiteradas edições, especialmente as mais conhecidas, Leonina, Parma, Vivès e Marietti, podemos defini-las sob aspectos diferentes, mas complementares: o estilo de comentar por Paráfrase, Sentenças ou/e Exposição, embora estas maneiras de ler e explicar o texto não se desvinculem do gênero literário comen-

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

o texto não se desvinculem do gênero literário comen- Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 13 7/21/14 1:25
o texto não se desvinculem do gênero literário comen- Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 13 7/21/14 1:25
13 7/21/14 1:25 PM
13
7/21/14
1:25 PM

tário 1 , em seu sentido geral. Se tais comentários se tornaram im- portantes para Tomás e, consequentemente, uma das mais célebres contribuições do Aquinate para o ulterior estudo da obra e do pen- samento do filósofo grego Aristóteles [384-322], isto, sem dúvida, se deveu a três fatos: a grande influência do seu Mestre, Alberto Magno [1206-1280], que via neste labor um modo de entender e de divulgar o pensamento filosófico aristotélico não dissociado da teologia e da ciência; o fato mesmo da proliferação de exposições árabes da obra e do pensamento aristotélico, nem sempre condizentes com a própria obra e com o pensamento do referido autor e, contundentemente, opostas à fé cristã; e, por fim, mas não sem importância, o exímio e destacado valor da contribuição de Guilherme de Moerbeke [1215- 1286] 2 para este projeto, ao propor, ademais de revisar as traduções antigas e novas ou mesmo propor inteiramente as suas, encetar um estilo analítico, preciso, literal e de estrita observância semântica de produzir suas versões latinas para o uso de quem as pediu, tendo em vista os dois fatos acima referidos. Os comentários de cada obra são estabelecidos segundo a di- visão argumentativa, que o Aquinate entende que é apresentada e desenvolvida pela obra de Aristóteles, em cada Livro, como uma unidade separada, mas complementar ao todo, se assim podemos dizer, em relação à atual análise crítica que se faz da unidade do todo de algumas obras de Aristóteles, quanto à possível ordem dos livros. Retomando a questão dos métodos, alguns opinaram que To - más comentou dividindo a obra, segundo os Livros, em lições, ou- tros, porém, admitiram que ele seguiu a divisão capitular, segundo

1 Cfr. San Tommaso d’Aquino , Commento all’Etica Nicomachea di Aristotele . Te - sto latino di S. Tommaso e traduzione italiana. Volume 1. [Libri 1-5]. Bologna:

ESD, 1998, pp. 20-22.

2 Um breve estudo clássico sobre a vida e o labor de tradução de Moerbeke ver em:

Grabmann, M. Guglielmo di Moerbeke O.P. il tradutore delle opere di Aristotele. Miscellanea Historiae Pontificiae, 11. Pontificia Universitas Gregoriana. Roma:

Università Gregoriana Editrice, 1946.

14 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

1946. 14 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 14 7/21/14
1946. 14 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 14 7/21/14
14 7/21/14 1:25 PM
14
7/21/14
1:25 PM

a divisão estabelecida pela edição que teve em mãos em sua época.

Mas, de um modo geral, prevaleceu, nas diversas edições e nas mais importantes, a didática divisão por Lições, bem próximo ao giro argu- mentativo do Estagirita. As lições são literalmente leituras, mas não

meramente ‘leituras’, mas uma leitura atenta, que procura entender, dividir as argumentações, analisar os argumentos, compará-los com

outros do mesmo autor em outras obras, ou com os de outros autores que comentaram a mesma obra, ao mesmo tempo em que busca fundamentá-los com outros argumentos próprios, outros exemplos para, assim, explicar o sentido dado pelo autor com o intuito de sin- tetizar a ideia contida no argumento e de propor uma conclusão que seja a mais clara possível e de modo coerente, correspondente com a ideia original do autor. De fato uma original análise hermenêutico- semântica, ou seja, uma crítica interpretativa dos diversos sentidos dos termos apresentados no texto. O Instituto Aquinate, em parceria com a Mutuus Editora, ini- cia a empreitada de publicar uma série de textos inéditos, editados em vernáculo, em edição simples, acessível, com breve apresentação

e notas à tradução, com o intuito de pouco ou quase nada interferir

na obra, deixando o leitor com o mínimo necessário para ele mesmo

ir diretamente ao texto de Tomás. A intenção é divulgar não só entre o

público acadêmico, mas entre os diversos admiradores do aristotelismo

e tomismo, as principais ideias desses autores contidas nos referidos

textos. Neste espírito, no âmbito da filosofia moral, nasce o Projeto Co- mentário de Tomás à Ética a Nicômaco. Este projeto é coordenado por Bernardo Veiga (Instituto Aquinate), doutorando em filosofia pela UFRJ (bolsista Capes). Este volume é uma edição e tradução do pro- fessor Dr. Paulo Faitanin (UFF), junto com Bernardo Veiga. Para esta edição e tradução foram utilizadas as seguintes edições para o texto da Ética de Aristóteles: texto grego da edição de Bywater 3 ;

3 Aristotelis, Ethica Nicomachea. Recognovit brevique adnotatione critica in- struxit. I. Bywater. Oxonii: E Typographeo Clarendoniano, 1894. Disponível em:

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

Clarendoniano, 1894. Disponível em: Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd apresentação • 15 15 7/21/14 1:25 PM
Clarendoniano, 1894. Disponível em: Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd apresentação • 15 15 7/21/14 1:25 PM

apresentação • 15

15 7/21/14 1:25 PM
15
7/21/14
1:25 PM

texto latino da edição Leonina de Gauthier 4 . Cotejamos com diver- sas outras traduções: portuguesa 5 , espanhola 6 , francesa 7 e inglesa 8 . Já para a edição e tradução do texto latino do comentário de Tomás utilizamos a edição de Alarcón no Corpus Thomisticum e compara- mos a nossa tradução com outras traduções: espanhola 9 , francesa 10 , italiana 11 e inglesa 12 . Quanto às notas da nossa tradução, valemo-nos, quando se fez necessário, seja para confrontar, conferir ou comple-

http://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus:text:1999.01.0053 O texto da ética foi provavelmente escrito por volta de 335 a.C., quando da época do Liceu. Forma parte dos estudos éticos de Aristóteles, além da Ética a Nicômaco, a Ética Eudêmica.

4 Sancti Thomae de Aquino, Sententia libri Ethicorum. Libri I-III. [Opera omnia

iussu Leonis XIII P. M. edita

1969. Disponível em: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k9498r.r=.langEN.swf

Segundo Gauthier, o texto que Tomás de Aquino teve em mãos para comentar não foi nem a tradução latina de Grosseteste, nem a tradução revista de Moer- beke, mas uma de um anônimo. SANCTI THOMAE AQUINATIS, In decem libros Ethicorum Aristotelis ad Nicomachum expositio. Editio tertia. Cura et studio P. Fr. Raymundi M. Spiazzi, O. P. Taurini: Marietti, 1964. Utilizamos esta obra como base para a tradução dos títulos dos livros e das lições.

, t. 47/1: Praefatio]. Romae: Ad Sanctae Sabinae,

5 Aristóteles, Ética a Nicômacos. Tradução, introdução e notas por Mário da Gama Kuty. São Paulo: Unb. 4ª ed. 2001.

6 Aristóteles, Ética Nicomáquea. Traducción y notas por Julio Pallí Bonet. Ma- drid: Gredos, 1998.

7 Aristote, L’Éthique à Nicomaque. Traduction et notes par Jules Tricot. Biblio- thèque des Textes Philosophiques Paris: Vrin, 1990.

8 Aristotle, The Nicomachean Ethics of Aristotle. Translated by W.D. Ross. Lon- don: Oxford University Press, 1925.

9 Aristóteles, Comentario a la Ética a Nicómaco de Aristóteles. Traducción por Ana Mallea. Pamplona: EUNSA. 2000.

10 Saint Thomas d’Aquin, Commentaire de saint Thomas d’Aquin aux dix livres de l’Éthique à Nicomaque d’Aristote. Traduction par Yvan Pelletier. 2 e . Ed. Corri- gée. Laval : Faculté de Philosophie. 1999. Edition numérique http://docteurange- lique.free.fr

11 San Tommaso d’Aquino, Commento all’Etica Nicomachea di Aristotele. Testo la- tino di S. Tommaso e traduzione italiana. Volume 1. [Libri 1-5]. Bologna: ESD, 1998, pp. 37-393 [Livros 1-3].

12 Thomas Aquinas, Commentary on the Nicomachean Ethics by Thomas Aquinas. 2 volumes. Translated by C. I. Litzinger, O.P. Chicago: Henry Regnery Company,

1964. Disponível em: http://josephkenny.joyeurs.com/CDtexts/Ethics.htm

16 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

16 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 16 7/21/14 1:25
16 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 16 7/21/14 1:25
16 7/21/14 1:25 PM
16
7/21/14
1:25 PM

tar, das referências do aparato bibliográfico das edições pesquisadas, grega e latinas dos textos e das respectivas versões que consultamos para a produção do texto em vernáculo. Propomos uma tradução o quanto possível literal do texto latino da edição Leonina, mas frequentemente indo ao texto grego para co- tejar com o texto latino para, assim, apresentar uma versão íntegra e literal. Em seguida, na busca de uma terminologia adequada para os lusófonos, recorreu-se aos recursos propostos por outras versões para outros idiomas. Desta maneira, a metodologia da tradução consistiu em primeiro lugar em verter do latim direto para o português, sem- pre recorrendo ao texto grego nos casos em que faltava ou sobrava algo no texto latino em relação ao texto grego da edição válida ou para procurar direto do grego uma versão para o português adequada

e coerente não só com a ideia aristotélica, mas, em especial, com o

comentário de Tomás. Em segundo lugar, para ambos os textos, tanto o da Ética de Aris-

tóteles quanto o do Comentário de Tomás, foi de suma importân- cia recorrer a outras versões para consultar suas respectivas soluções para as passagens de difícil compreensão e tradução. De antemão, reconhecemos nossas limitações de oferecer uma mais apurada

e atenta revisão textual, de não poder pesquisar outras fontes que

efetivamente melhorariam muito a nossa proposta de tradução de ambos os textos. Somos conscientes de tudo disso. Portanto, ao caro leitor-pesquisador, ademais da compreensão para estas questões que obviamente aparecerão nesta primeira edição, pedimos, sobretudo, que proponham críticas e sugestões para uma futura edição, se esta for digna e meritória de crédito e de continuidade. Neste volume apresentamos a edição e tradução inédita do Co- mentário à Ética a Nicômaco de Aristóteles: o Bem e as Virtudes, Li- vros I-III. Esta obra é autêntica 13 e data da estada de Tomás em Paris,

13 Cf. Mandonnet, P. O.P. Des écrits authentiques de S. Thomas d’Aquin. Seconde édition revue et corrigée. Fribourg (Suisse): Imprimerie de l’oeuvre de Saint- Paul, 1910, p. 104; Grabmann, M. Die Werke des hl. Thomas von Aquin. Münster

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

Werke des hl. Thomas von Aquin . Münster Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 17 a presentação •
Werke des hl. Thomas von Aquin . Münster Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 17 a presentação •

17

a presentação • 17

7/21/14 1:25 PM
7/21/14
1:25 PM

provavelmente, em 1271-1272 14 . É uma obra composta de 10 livros. O Livro I trata do fim da ação humana e da felicidade. O Livro II considera a virtude e o vício. O Livro III analisa a ação humana vo- luntária e as virtudes da fortaleza e da temperança.

Paulo Faitanin e Bernardo Veiga.

Westf.: Aschendorffsche Verlagsbuchhandlung, 1949, p. 284; Michelitsch, A. Thomasschriften. Untersuchungen über die schriften Thomas’ von Aquin. Graz und Wien : Verlagsbuchhandlung ‘Styria’, 1913, p. 178.

14 Cf. Torrell, J.-P. O.P. Iniciação a Santo Tomás de Aquino. Sua pessoa e obra. Tra- dução Luiz Paulo Rouanet. São Paulo: Edições Loyola, 1999, p. 399; Weisheipl, J. A. O.P. Friar Thomas D’Aquino, His Life, Thought & Works. Washington, D.C: The Catholic University of America Press, 1983, p. 399.

18 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

1983, p. 399. 18 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd
1983, p. 399. 18 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd
18 7/21/14 1:25 PM
18
7/21/14
1:25 PM

liVro i

Da diversidade de fins. Da felicidade, o fim que é a própria felicidade é o Sumo bem. Da dupla parte da alma, da divisão das virtudes.

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

é o Sumo bem. Da dupla parte da alma, da divisão das virtudes. Sao Tomas de
é o Sumo bem. Da dupla parte da alma, da divisão das virtudes. Sao Tomas de
19 7/21/14 1:25 PM
19
7/21/14
1:25 PM

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 20 7/21/14 1:25 PM
Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 20 7/21/14 1:25 PM

20

7/21/14 1:25 PM
7/21/14
1:25 PM

lição 1 15

Mostra acerca do que se trata a filosofia moral, qual o seu sujeito, qual o fim, e qual é a diversidade de fins.

texto de Aristóteles

Capítulo 1

[1094a] [1] toda arte e toda indagação, assim como toda ação e todo propósito, visam a algum bem. por isso, foi dito acertadamente que o bem é aquilo a que to- das as coisas visam. mas nota-se uma certa diversidade entre os fins; alguns são atividades, outros são produtos distintos das atividades [5] de que resultam. onde há finalidades distintas das ações, os produtos são por natureza melhores que as atividades. mas, como há muitas atividades, artes e ciências, suas finali- dades também são muitas; a finalidade da medicina é a saúde, a da construção naval é a nau, a da estratégia é a vitória, a da economia é a riqueza.

15 Utilizamos a numeração de Bekker para identificar o texto de Aristóteles. Quando apenas aparecer a numeração, sem referência a uma obra, será relativa à Ética a Nicô- maco. A lição 1 é referente ao trecho 1094a1-a18.

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

a Nicô- maco . A lição 1 é referente ao trecho 1094a1-a18. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd
a Nicô- maco . A lição 1 é referente ao trecho 1094a1-a18. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd
21 7/21/14 1:25 PM
21
7/21/14
1:25 PM

onde, [10] porém, tais artes se subordinam a uma única aptidão – por exemplo, da mesma forma que a produção de rédeas e outras artes relativas a acessórios para a monta- ria se subordinam à estratégia, de maneira idêntica umas artes se subordinam sucessivamente a outras. As finalidades das artes principais [15] devem ter precedên- cia sobre todas as finalidades subordinadas; com efeito, é por causa daquelas que estas são perseguidas. não haverá diferença alguma no caso de as próprias ativida- des serem as finalidades das ações ou serem algo distinto delas, como ocorre com as artes e ciências mencionadas.

Comentário de tomás de Aquino

1. Tal como diz o Filósofo no princípio da Metafísica 16 , é próprio do sábio ordenar. O motivo é que a sabedoria é a mais elevada perfeição da razão, cuja finalidade é conhecer a ordem. De fato, ainda que as potências sensitivas conheçam algumas realidades de modo absoluto, conhecer, porém, a ordem de uma coisa em relação à outra é próprio apenas do intelecto ou da razão. Con- tudo, há dois tipos de ordem nas coisas. Uma é a ordem das par- tes de algum todo ou de alguma pluralidade das partes entre si, como a das partes de uma casa, que se ordenam umas com as outras; outra, porém, é a ordem das coisas em relação ao fim. E esta ordem é mais importante do que a primeira. De fato, como diz o Filósofo no livro XI da Metafísica 17 , no exército, a ordem

16 Aristóteles, Metaphysica, I, 2, 982 a 18. As indicações das obras de Aristóteles serão iniciadas pela referência ao livro da obra, depois à lição de Aristóteles e logo em segui- da à referência de Bekker.

17 Aristóteles, Metaphysica, XII, 12, 1075 a 13 ss.

22 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

1075 a 13 ss. 22 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de
1075 a 13 ss. 22 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de
22 7/21/14 1:25 PM
22
7/21/14
1:25 PM

das partes entre si é, por causa da ordem de todo o exército, em relação ao general. No entanto, a ordem se relaciona com a ra- zão de quatro modos. Com efeito, há certa ordem que a razão não faz, mas apenas considera, como é a ordem das coisas natu- rais. Há outra ordem, porém, que a razão faz no próprio ato ao considerá-lo, por exemplo, quando ordena seus conceitos entre

si e os significados dos conceitos, que são as vozes significativas;

terceiro, é a ordem que a razão estabelece nas operações da von- tade ao considerá-la; quarto, porém, é a ordem que a razão faz

nas coisas exteriores ao considerá-las, e a razão é a própria causa da ordem das mesmas, como a da arca e a de uma casa.

2.

E

porque pelo hábito da ciência se aperfeiçoa a investigação da

razão, conforme essas diversas ordens que a razão particularmen-

te

considera, existem as diversas ciências. De fato, à filosofia na-

tural convém considerar a ordem das coisas que a razão humana

considera, mas não faz. Assim, abaixo da filosofia natural, com- preendemos a matemática e a metafísica. Contudo, a ordem que

a

razão faz no próprio ato ao considerá-lo pertence à filosofia

racional, que consiste em considerar a ordem das partes entre si, e a ordem dos princípios nas conclusões. Mas, a ordem das ações voluntárias pertence à consideração da filosofia moral. A

ordem que a razão faz nas coisas exteriores constituídas pela ra- zão humana ao considerá-las pertence às artes mecânicas. Dessa forma, portanto, é próprio da filosofia moral, a qual se ocupa a presente intenção, considerar as operações humanas, enquanto são ordenadas entre si e para o fim.

3.

Digo, porém, operações humanas, as que procedem da vontade do homem, segundo a ordem da razão. Na verdade, as operações que se encontram no homem, que não são sujeitas à vontade e à razão, não se dizem propriamente humanas, mas naturais, como

é

evidente nas operações da alma vegetativa, que, de nenhum

modo, caem sob a consideração da filosofia moral. Dessa forma, portanto, o sujeito da filosofia natural é o movimento, ou a coisa

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

natural é o movimento, ou a coisa Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 1 •
natural é o movimento, ou a coisa Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 1 •

liVro

i, lição

1

23

23 7/21/14 1:25 PM
23
7/21/14
1:25 PM

móvel, assim, também, o sujeito da filosofia moral é a operação humana ordenada ao fim, ou, também, o homem enquanto é agente voluntário em razão de um fim.

4. Contudo, deve-se saber que, porque o homem naturalmente

é um animal social, pois necessita de muitas coisas para a sua

vida, as quais ele por si só não pode assegurá-las, consequen- temente, o homem por natureza é parte de uma multidão de homens, da qual se lhe provém o auxílio para viver bem. De fato, necessita de duplo auxílio. Primeiro, para as coisas que são necessárias para a vida, sem as quais não pode transcorrer na vida presente. E, para isso, o homem é auxiliado pela fa- mília, da qual é parte. De fato, qualquer homem recebe dos seus pais a geração, a nutrição e a disciplina e, de modo se- melhante, também, os demais indivíduos que formam parte da família doméstica, que se ajudam entre si para o necessário à vida. Segundo, o homem é ajudado pela sociedade, da qual é parte, para a perfeita suficiência da vida, a saber, para que o homem não apenas viva, mas para que viva bem, tendo todas as coisas suficientes para a vida. E, assim, o homem é assistido pela sociedade política, da qual ele mesmo é parte, não apenas quanto às coisas corporais, a saber, enquanto na cidade há mui-

tos bens artificiais, às quais a família não alcança sozinha, mas também há o relativo às coisas morais, por exemplo, em relação aos jovens insolentes, aos quais a admoestação paterna não é suficiente para corrigi-los, na medida em que são refreados por medo das punições do poder público.

5. Mas, deve-se saber que este todo, que é a sociedade civil ou a família, tem apenas a unidade de ordem, na medida em que não

é algo uno por si mesmo. E, por isso, uma parte desse todo pode

ter operações que não são operações do todo, tal como o soldado no exército pode ter uma operação que não é a de todo o exér- cito. Contudo, esse mesmo todo tem alguma operação que não

é própria de alguma parte, mas do próprio todo, por exemplo,

24 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

por exemplo, 24 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 24
por exemplo, 24 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 24
24 7/21/14 1:25 PM
24
7/21/14
1:25 PM

um conflito de todo exército. Do mesmo modo, a tração do na- vio é uma operação dos tripulantes que conduzem o navio. Há, porém, um todo que tem uma unidade não só de ordem, mas de composição, ou conexão, ou, também, de continuidade, na

medida em que a unidade é algo uno essencialmente. E, por isso, não há operação da parte que não seja do todo. Com efeito,

o movimento contínuo é o mesmo movimento do todo e da par-

te e, de modo semelhante, no composto ou no que está unido,

a operação da parte é principalmente a do todo. E, por isso, é

necessário que à mesma ciência pertença a consideração desse todo e de suas partes. No entanto, não pertence à mesma ciência considerar tudo o que apenas tem uma unidade de ordem e de suas partes.

6. E é por isso que a filosofia moral se divide em três partes, das quais a primeira considera as operações de um único homem ordenado para um fim, chamada monástica 18 . A segunda, porém, considera as operações da sociedade doméstica, chamada econô- mica 19 . A terceira, considera as operações da sociedade cívica, chamada política 20 .

7. Portanto, Aristóteles, ao começar a ensinar a filosofia moral, na primeira parte do seu livro, que se chama Ética, isto é, Moral, propõe um proêmio, onde trata de três pontos. Primeiro, mos- tra, pois, qual é a sua intenção. Segundo, o modo como tratará, onde diz: ‘Deve ser dito, porém, se certamente será suficiente’ 21 etc. Terceiro, como deve ser o estudante dessa ciência, onde diz:

‘Ora, cada um julga bem os assuntos que conhece’ 22 etc. Acerca do primeiro faz duas afirmações: primeiro, destaca certas coisas necessárias para mostrar a tarefa proposta. Segundo, manifesta

18 Moral individual.

19 Moral familiar.

20 Moral social.

21 Refere-se ao início da Lição 3. Aristóteles, Ethica Nicomachea, I, 3, 1094 b 11.

22 Igualmente, indica a Lição 3. Aristóteles, Ethica Nicomachea, I, 2, 1094 b 26.

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

Ethica Nicomachea , I, 2, 1094 b 26. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 1
Ethica Nicomachea , I, 2, 1094 b 26. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 1

liVro

i, lição

1

25

25 7/21/14 1:25 PM
25
7/21/14
1:25 PM

o propósito, onde diz: ‘se há, pois, algum fim’ 23 etc. Acerca do primeiro, faz duas afirmações: primeira, propõe a necessidade do fim; segunda, compara os hábitos e os atos humanos com

o fim, onde diz: ‘Mas, como há muitas atividades’ etc. Acerca

do primeiro, faz três afirmações: primeira, propõe que todo ser humano se ordena para um fim; segunda, mostra a diversidade dos fins, onde diz: ‘Mas nota-se uma certa diversidade entre os fins’ etc.; terceira, compara os fins entre si, onde diz: ‘onde há finalidade distintas das ações’ etc. Acerca do primeiro faz duas afirmações: primeira, expressa o que intenciona. Segunda, mos- tra o propósito, onde diz: ‘por isso, foi dito acertadamente’ etc.

8. Acerca do primeiro, deve-se considerar que dois são os princípios dos atos humanos, a saber, o intelecto, ou razão, e o apetite, que são princípios que movem, como se diz no terceiro livro Sobre a alma 24 . No entanto, no intelecto ou na razão, consideram-se os princípios especulativos ou os práticos. Mas, no apetite racional, consideram-se a eleição e a execução. E tudo isto é ordenado para algum bem como para um fim, pois o verdadeiro é o fim da especulação. Logo, quanto ao intelecto especulativo, põe a doutrina por meio da qual se transmite a ciência do mestre ao discípulo. De fato, quanto ao intelecto prático, põe a arte que é a reta razão do fazer, como está no livro VI dessa obra 25 ; e, quanto ao ato do intelecto apetitivo, põe a eleição. Quanto à execução, põe-se o ato. No entanto, não faz menção à prudência, que está na razão prática, como também a arte, porque pela prudência se dirige propriamente a eleição. Logo, diz que cada um deles apetece claramente algum bem como fim.

9. Depois, quando diz: ‘por isso, foi dito acertadamente’ etc., ma- nifesta, então, a intenção, pela definição de bem. Deve-se con-

23 Não foi possível identificar esta citação nesta lição. Aristóteles, Ethica Nicomachea, I, 2, 1094 a 18.

24 Aristóteles, De anima, III, 15, 433 a 9.

25 Aristóteles, Ethica Nicomachea, VI, 4, 1140 a 10-11.

26 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

1140 a 10-11. 26 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd
1140 a 10-11. 26 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd
26 7/21/14 1:25 PM
26
7/21/14
1:25 PM

siderar que o bem se enumera entre as primeiras realidades de tal modo que, segundo os platônicos, o bem é o ente primeiro. Ora, segundo a verdade das coisas, o ente e o bem são convertí- veis 26 . No entanto, as primeiras coisas não podem ser conhecidas por algo anterior, mas são conhecidas pelos posteriores, como a causa é conhecida pelos próprios efeitos. Contudo, como o bem é propriamente o motivo do apetite, descreve-se o bem pelo mo- vimento do apetite, como costuma se manifestar a força motriz pelo movimento. E, por isso, diz que os filósofos adequadamente enunciaram que o bem é o que todos apetecem.

10. Não há objeção de que alguns desejam o mal, pois não dese- jam o mal senão em razão do bem, a saber, enquanto o estimam como sendo um bem. E, assim, a intenção deles, por si mesma, se diz em relação ao bem, mas, por acidente, cai sobre o mal.

11. Assim, quando Aristóteles diz-se que o bem é o que todos apete- cem 27 , não se deve entender apenas para os que têm conhecimen- to, que apreendem o bem, mas também para os que carecem do conhecimento, que tendem ao bem por um apetite natural, não enquanto conheçam o bem, mas porque são movidos ao bem por algum cognoscente, a saber, pela ordenação do intelecto divino 28 , ao modo como a flecha tende ao alvo pela direção do arqueiro. Mas o próprio tender ao bem é apetecer o bem e, por isso, disse que o ato apetece o bem, enquanto tende ao bem. Não é, porém, um único bem ao qual todas as coisas tendem, como foi dito aci- ma. E, portanto, não se descreve aqui um único bem, mas um bem considerado em comum. Porque nada é bom a não ser en-

26 Segundo alguns dicionários, por exemplo, o Houaiss, ‘convertível’ significa o que se pode converter; conversível, e ‘conversível’ significa o que se pode converter; convertí- vel. Portanto, podem ser tomadas como sinônimos neste contexto.

27 Aristóteles, Ethica Nicomachea, I, 1, 1094 a 2.

28 Ordenação no sentido de orientação por iluminação e não por mandato que seja con- trário à liberdade, pois a liberdade mesma é um dom de Deus. Por isso, esta ordenação cumpre a própria orientação para a qual tende a liberdade.

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

para a qual tende a liberdade. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 1 • 27
para a qual tende a liberdade. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 1 • 27

liVro

i, lição

1

27

27 7/21/14 1:25 PM
27
7/21/14
1:25 PM

quanto é certa semelhança e participação do sumo Bem, o mesmo sumo Bem que é, de algum modo, apetecido em todo bem. E, assim, pode-se dizer que é um único bem o que todos apetecem.

12. Depois, quando diz: ‘Mas nota-se uma certa diversidade entre os

fins’ etc., mostra, então, a diferença dos fins. Acerca disso, deve- se considerar que o bem final ao qual tende o apetite de cada coisa, é a sua perfeição última. Contudo, a primeira perfeição se possui pelo modo da forma. A segunda, porém, pelo modo da operação. E, por isso, é necessário existir a diferença dos fins, que alguns fins sejam as próprias operações, e que outros sejam as próprias obras, isto é, certas produções que estão para além das operações.

13. Para evidência disso, deve-se considerar que há dois tipos de ope- ração, como foi dito no livro IX da Metafísica 29 : uma, que perma- nece no próprio operante, assim como ver, querer e entender; e, desse modo, a operação se diz propriamente ação; outra, porém,

é a operação que transita para a matéria exterior, que se chama

propriamente fazer e, esta, se divide em duas: às vezes, pois, se toma alguma matéria exterior só para usá-la, como o cavalo na equitação e a cítara para a música. Às vezes, porém, se toma

a matéria exterior para mudá-la, segundo alguma forma, como

quando o artífice faz uma cama ou uma casa. Portanto, a pri-

meira e a segunda destas operações 30 não têm algo feito que seja

o fim, mas ambas são o fim delas mesmas; a primeira, porém, é

mais nobre do que a segunda, enquanto permanece no próprio operante. Entretanto, a terceira operação 31 é como certa geração, cujo fim é a coisa gerada. E, por isso, nas operações desse terceiro tipo as próprias obras são os fins.

29 Aristóteles, Metaphysica, IX, 8, 1050 a 23 ss.

30 A primeira exemplificada por ver, querer e entender, a segunda por fazer algo na ma- téria exterior.

31 A exemplificada por fazer uma cama ou uma casa.

28 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

ou uma casa. 28 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd
ou uma casa. 28 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd
28 7/21/14 1:25 PM
28
7/21/14
1:25 PM

14. Depois, quando diz: ‘onde há finalidade distintas das ações’ etc. expõe, então, a terceira, que diz que em tudo que é feito, que está para além das operações como fins, é necessário que, nisto que é feito, a obra seja melhor do que a operação, assim como a coisa gerada é melhor do que a geração. O fim é, pois, melhor do que as coisas que estão para o fim. De fato, as coisas que são para um fim têm razão de bem pela sua ordenação para o fim.

15. Depois, quando diz: ‘Mas como há muitas atividades’ etc., com- para, de fato, os hábitos e os atos, com o fim. E acerca disso, faz quatro afirmações. Primeira, evidencia que as coisas que são diver- sas estão ordenadas a diversos fins. E diz que, como são muitas as operações, as artes e as ciências, é necessário que seus fins sejam

diversos, pois os fins e as coisas que são para o fim são proporcio- nais. O que, de fato, evidencia por isto, que na arte da medicina

o fim é a saúde, na arte da construção de navios, são os navios, na

arte militar, a vitória, na economia, isto é, na administração domés- tica, é adquirir as riquezas, o que, de fato, confirma a opinião de muitos. Prova, porém, isto, no primeiro livro da Política 32 , ao dizer que as riquezas não são o fim da economia, mas os instrumentos.

16. Segundo, onde diz: ‘Onde, porém, tais artes se subordinam a

uma única aptidão’ etc., estabelece a ordem dos hábitos entre si. Com efeito, ocorre que um hábito operativo, que chama virtude, depende de outro. Assim como a arte que faz os freios está su- bordinada à arte da equitação, porque aquele que deve cavalgar instrui o artífice sobre a forma de fazer o freio. Do mesmo modo, assim é com o arquiteto, isto é, o principal artífice em relação

a isso. E a mesma razão em relação às outras artes, que fazem

outros instrumentos necessários para a equitação, por exemplo,

a sela, ou outras coisas semelhantes. A equitação, porém, é orde-

nada à arte militar. Com efeito, os soldados, diziam os antigos, não são apenas cavaleiros, mas um homem que luta pela vitória.

32 Aristóteles, Politica, I, 6, 1256 a 1 ss.

liVro

i, lição

1

29

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

, Politica , I, 6, 1256 a 1 ss. liVro i, lição 1 • 29 Sao
, Politica , I, 6, 1256 a 1 ss. liVro i, lição 1 • 29 Sao
29 7/21/14 1:25 PM
29
7/21/14
1:25 PM

Por isso, sob a arte militar não está apenas a equitação, mas toda arte ou virtude ordenada para as operações bélicas, assim como

a fabricação de flechas, de catapultas ou de qualquer coisa seme-

lhante. E, do mesmo modo, outras artes subordinam-se a outras.

17. Terceiro, onde diz: ‘as finalidades das artes principais devem ter precedência’ etc., propõe a ordem dos fins, segundo a ordem dos hábitos. E diz que em todas as artes ou virtudes há uma ver- dade corrente de que os fins das artes principais 33 são absoluta- mente mais desejáveis do que os fins das artes ou virtudes que dependem das artes mais importantes. Prova-o deste modo: os

homens perseguem, isto é, buscam, estes, a saber, os fins das artes ou virtudes inferiores por causa daqueles, isto é, por causa dos fins superiores. Contudo, o texto é oclusivo e assim deve ser lido:

“Onde, porém, tais artes se subordinam a uma única aptidão ( ) as finalidades das artes principais devem ter precedência sobre todas as finalidades subordinadas” etc. 34

18. Em quarto, mostra que não difere quanto à ordem dos fins, se

o fim for a obra ou a operação. E diz que nada difere enquanto

pertence à ordem, que os fins delas são as operações, ou algo feito além da operação, como aparece na doutrina já exposta. De fato, o fim da fabricação dos freios é a operação do freio. Ora, o fim da equitação, que é mais importante, é a operação, a saber, cavalgar. Mas o inverso se tem na arte medicinal e na arte de fazer exercícios, pois o fim da medicina é produzir algo, isto é, a saúde. Contudo, o fim do exercitar-se, que está contido nela, na medicina, é a operação, isto é, o exercício.

33 O termo latino ‘architectonicarum’ [architectura] tem o sentido aqui de arte principal, portanto das artes que são as mais importantes. Não tem o sentido de ‘arquitetura’ tal qual se toma este termo em nossos dias. Em nossos dias, a arquitetura [lat. arquitectura, do gr. arché que significa ‘primeiro (a), principal’ e téchne que significa ‘arte’, mas tam- bém, ‘produção’, ‘construção’], é a arte ou a técnica de projetar e edificar ambientes, seja para a habitação humana ou para fins subalternos a estes, como para a projeção e contrução de praças, túneis etc.

34 Aristóteles, Ethica Nicomachea, I, 1, 1094 a 14-17.

30 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

1094 a 14-17. 30 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd
1094 a 14-17. 30 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd
30 7/21/14 1:25 PM
30
7/21/14
1:25 PM

lição 2 35

Há nas coisas humanas algum fim que é o melhor, cujo conheci- mento é necessário e que pertence à ciência mais principal, que é a Política.

texto de Aristóteles

Capítulo 2

[1094a] [18] se há, pois, algum fim das ações que queremos por si mesmo, então desejamos as outras por causa deste fim e não [20] por causa do fim de todas as outras (pois, se procedesse até o infinito, o desejo, deste modo, seria vazio e vão), então, fica manifesto que, de um modo geral, este fim será o bem e o melhor. portanto, o seu conhecimento tem uma grande importância para a vida, tal como o alvo tem para os arqueiros que bus- cam acertar, e mais principalmente para nós, que devemos alcançar o que é necessário 36 .

35 1094a1-a18.

36 O texto grego permite, pela unidade fraseológica apresentada, a possibilidade de uma tradução na forma interrogativa. Contudo, optamos, pela mesma permissão desta unidade fraseológica, em razão da função enfática apresentada, traduzi-la de modo afirmativo. E isto por tais razões: seja porque a unidade fraseológica permite, dando afirmativamente mais ênfase ao processo argumentativo, seja porque a versão latina do texto grego segue a forma afirmativa. E, por razão de fidelidade ao texto latino, sobre o

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

afirmativa. E, por razão de fidelidade ao texto latino, sobre o Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 31
afirmativa. E, por razão de fidelidade ao texto latino, sobre o Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 31
31 7/21/14 1:25 PM
31
7/21/14
1:25 PM

se, porém, [25] for isto, deve-se tentar conceber 37 , ao menos,

o que é este fim e a qual das ciências ou faculdades pertence seu estudo. ora, em qualquer caso, parecerá ser a mais importante e

a melhor das ciências. tal ciência parece certamente ser a

política. de fato, a esta se deve a existência das demais ciências nas cidades [1094b] [1], e o que cada um deve aprender e até quando deve ordenar-se a esta ciência. ora, vemos que as mais

honradas das virtudes existem sob esta ciência, como a militar,

a econômica e a retórica.

ora, como esta ciência usa das demais ciências [práticas] e, além disso, [5] propõe leis sobre o que se deve fazer e sobre as quais se deve abster, certamente o fim desta ciência se inclui nos das outras, portanto, este fim, em qualquer caso, será o bem humano. se, pois, for o mesmo fim para um [indivíduo] e para a cidade, parece que o da cidade será maior e mais perfeito para alcan- çar e manter. de fato, é desejável manter o bem de um [10] só indivíduo, porém é melhor e mais divino manter o de um povo e o das cidades. portanto, esta investigação se inclina, de fato, para o que é esta ciência política.

qual Tomás teceu seu comentário, optamos verter tal unidade pela forma afirmativa e não interrogativa.

37 Preferimos traduzir perilabein [de perilambáno] por conceber, pois melhor conota o que Tomás comentará sobre a questão.

32 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

a questão. 32 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 32
a questão. 32 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 32
32 7/21/14 1:25 PM
32
7/21/14
1:25 PM

Comentário de tomás de Aquino

1. Se há, pois, algum fim para as ações, deve-se demonstrar as pre- missas que são necessárias para este propósito, e o Filósofo faz isto aqui para manifestar o propósito, ou seja, para demonstrar a

que se refere principalmente a intenção dessa ciência. E, acer- ca disso, faz três coisas. Primeira, mostra pelas premissas que há algum fim ótimo nas coisas humanas. Segunda, mostra que é necessário conhecê-lo, onde diz: ‘Portanto, o seu conhecimento tem uma grande importância para a vida’ etc. Terceira, mostra

a que ciência pertence o seu conhecimento, onde diz: ‘Ora, em

qualquer caso, parecerá ser a mais importante’ etc. Acerca do primeiro utiliza três argumentos, dos quais o principal é que cada fim é tal que por ele queremos outras coisas e a ele queremos por

si mesmo e não por alguma outra coisa, e esse fim não é apenas

bom, mas também é ótimo, e isso aparece porque sempre o fim, em razão do qual se buscam outros fins, é o mais importante,

como é evidente pelo dito acima. Ora, é necessário que exista algum fim assim. Logo, nas coisas humanas, há algum fim que

é bom e ótimo.

2. A premissa menor se prova pelo segundo argumento, que con- duz ao impossível, que é este: é evidente pelas premissas que um único fim seja desejado por outros. Portanto, ou é alcançado por algum fim, que não seja desejado por causa de outro, ou não. Se sim, ter-se-á encontrado o propósito. Porém, se não se encontra tal fim, segue-se que todo fim seja desejado por causa de outro fim. E, assim, será necessário proceder até o infinito. Ora, isso é impossível, que por fins (finitos) 38 se proceda ao infinito. Logo,

38 O argumento mostra que se o fim desejado se subordina a outro, isso significa que ele é limitado por estar subordinado a outro fim. Portanto, o fim subordinado a outro é dito finito, porque termina o seu desejo ao alcançar aquele ao qual se subordina. Segue-se,

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

aquele ao qual se subordina. Segue-se, Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 2 • 33
aquele ao qual se subordina. Segue-se, Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 2 • 33

liVro

i, lição

2

33

33 7/21/14 1:25 PM
33
7/21/14
1:25 PM

é necessário que exista algum fim que não exista por causa de

outro fim desejado.

3. Ora, que é impossível proceder por fins (finitos) ao infinito, ele prova pelo terceiro argumento, que também conduz ao impos- sível, deste modo: se se procede ao infinito no desejo dos fins, a saber, que sempre um fim é desejado por causa de outro até o infinito, o homem nunca alcançaria os fins desejados aos quais persegue. Ora, seria inútil e vão que alguém desejasse o que não pode alcançar. Logo, o fim dos desejos seria inútil e vão. Ora, esse desejo é natural, pois, como foi dito acima, o bem é o que naturalmente todas as coisas desejam. Logo, se seguiria que o desejo natural seria vão e vazio. Ora, isso é impossível, porque o desejo natural não é outra coisa senão uma inclinação inerente às coisas, pela ordenação do primeiro motor, que não pode ser

supérfluo. Portanto, é impossível que por fins (finitos) se proceda ao infinito.

4. E, assim, é necessário que exista algum fim último, por cuja ra- zão todas as outras coisas são desejadas, e o próprio fim último não seja desejado por causa de outro. E, assim, é necessário que exista algum fim ótimo das coisas humanas.

5. Depois, quando diz: ‘Portanto, o seu conhecimento tem uma grande importância para a vida’ etc., mostra que o conhecimen- to desse fim é necessário ao homem. E, acerca disso, faz duas coisas. Primeiro, mostra que é necessário ao homem conhecer tal fim. Segundo, mostra o que é necessário para conhecê-lo, onde diz: ‘Se, porém, for isto, deve-se tentar conceber, ao menos,

o que é este fim’ etc. Conclui, pois, o primeiro pelo dito, que se

há algum fim ótimo para as coisas humanas, o seu conhecimento tem grande importância para a vida, isto é, confere muito auxílio

então, que é absurdo que se tenda ao infinito mediante fins que são subordinados a outros fins, portanto, finitos, pois é contraditório que se vá até ao infinito com coisas que são em si mesmas finitas.

34 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

finitas. 34 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 34 7/21/14
finitas. 34 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 34 7/21/14
34 7/21/14 1:25 PM
34
7/21/14
1:25 PM

à toda vida humana. O que, de fato, aparece por tal raciocínio: o homem não pode retamente perseguir nada que se dirija a outro,

a não ser que conheça aquilo para o qual deva se dirigir. E isso fica claro pelo exemplo do arqueiro que lança a flecha direta-

mente, mirando o alvo para o qual ela se dirige. Ora, é preciso que toda vida humana se ordene ao fim último e ótimo da vida humana. Logo, para a retidão da vida humana é necessário ter

o conhecimento do fim último e ótimo da vida humana. E o

motivo disso é que sempre a natureza das coisas que estão [orde- nadas] para o fim deve ser tomada do próprio fim, como também se prova na Física II 39 .

6. Depois, quando diz: ‘Se, porém, for isto, deve-se tentar conceber, ao menos, o que é este fim’ etc., mostra o que se deve conhecer

acerca desse fim. E diz que, se for assim, o conhecimento do fim ótimo é necessário para a vida humana. É necessário saber qual

é o fim ótimo e a que ciência especulativa ou prática concerne

considerá-lo. Com efeito, por disciplinas, entende as ciências es- peculativas, por virtudes, porém, as ciências práticas, porque são os princípios de certas operações. Diz, porém, que se deve tentar determinar o fim para afastar a dificuldade que se apresenta ao considerar o fim último da vida humana, tal como se faz nas considerações de todas as causas altíssimas. Mas diz que é neces- sário tomar figurativamente, isto é, por verossimilhança, porque tal modo de considerar convém às coisas humanas, como se dirá abaixo. Ora, desses dois pontos, o primeiro, de fato, pertence ao tratado dessa ciência, porque tal consideração é acerca do tema que essa ciência considera. Mas o segundo pertence ao proêmio, em que se manifesta a intenção desta ciência.

7. E, por isso, imediatamente, logo a seguir, quando diz: ‘Ora, em qualquer caso, parecerá’, etc., mostra à qual ciência pertence a consideração desse fim. E, acerca disso, faz duas coisas. Primeira,

39 Aristóteles, Physica, II, 9, 200 a 5 ss.

liVro

i, lição

2

35

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

, Physica , II, 9, 200 a 5 ss. liVro i, lição 2 • 35 Sao
, Physica , II, 9, 200 a 5 ss. liVro i, lição 2 • 35 Sao
35 7/21/14 1:25 PM
35
7/21/14
1:25 PM

propõe um argumento para demonstrar o propósito. Segunda, prova o que havia suposto, onde diz: ‘De fato, a esta se deve a existência’ etc. Primeiro, pois, propõe o argumento para o propó- sito, que é este: o fim ótimo pertence à mais importante ciência,

e maximamente à arquitetônica 40 . E isso é evidente pelas premis-

sas acima ditas. Deve-se dizer, pois, que sob a ciência ou a arte

que se refere ao fim, estão contidas as ciências que são acerca daquelas que estão para o fim. E, assim, é necessário que o fim último pertença à ciência mais importante, enquanto versa sobre

o mais importante fim existente e maximamente arquitetônico 41 ,

enquanto ensina aos demais o que é necessário fazer. Ora, a ciên- cia política parece ser assim, a saber, a mais importante e a mais

arquitetônica. Logo, pertence a ela considerar o fim ótimo.

8. Depois, quando diz: ‘De fato, a esta se deve a existência’ etc., prova

o que foi suposto, ou seja, que a Política é tal ciência. E, primeiro,

prova que ela é a mais arquitetônica. Segundo, que é a mais impor- tante, onde diz: ‘Se, pois, for o mesmo fim para um’ etc. Acerca do primeiro faz duas coisas. Primeira, atribui à Política, ou à Cívica, as coisas que pertencem à ciência arquitetônica. Segunda, a partir disso, conclui o seu propósito, onde diz: ‘Ora, como esta ciência usa’ etc. Contudo, dois pontos pertencem à ciência arquitetônica, dos quais um é que ela mesma ensina a ciência ou a arte das coisas que estão sob ela, em relação ao que deve ser feito, assim como a equitação ensina a arte de fazer freios. Outro, porém, é utilizá-la para o seu fim. E o primeiro destes convém à ciência política, ou cívica, tanto quanto se relaciona com as ciências especulativas, como com as práticas, ainda que, porém, de modos distintos. De fato, as ciências práticas também se ordenam à Política, quanto ao seu uso, a saber, para agir ou não agir, e quanto à determinação do ato. Com efeito, orienta ao artesão não apenas quanto ao que deve

40 Toma-se aqui ‘arquitetônica’ no sentido de ciência principal, primeira.

41 Aristóteles, Ethica Nicomachea, 1094 a 27.

36 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

, 1094 a 27. 36 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de
, 1094 a 27. 36 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de
36 7/21/14 1:25 PM
36
7/21/14
1:25 PM

ser utilizado na sua arte, mas, também, ao que deve ser utilizado de material para fazer tais facas. De fato, ambos são ordenados ao fim da vida humana.

9. Mas a ciência política refere-se à ciência especulativa apenas quanto ao uso, mas não quanto a determinação da ação, pois

a política ordena que alguns ensinem ou aprendam geometria.

Com efeito, esses tipos de atos, enquanto são voluntários, perten- cem à matéria moral e são ordenados ao fim da vida humana. No entanto, o político não ensina ao geômetra as conclusões sobre o triângulo, pois isso não depende da vontade humana, nem do que é ordenado à vida humana, mas depende da razão das próprias coisas. E, por isso, diz que a política antes ordena quais disciplinas devem ser realizadas na cidade, a saber, tanto as práticas quanto as especulativas e quem, quanto e por quanto

tempo, deve ensinar.

10. Contudo, outra propriedade da ciência arquitetônica, a saber, o uso das ciências inferiores, pertence à política apenas em relação às ciências práticas. Por isso se lhes convém que sejam preciosís- simas, isto é, virtudes nobilíssimas, ou seja, porque vemos que as artes operativas estão sob a política, a saber, a arte militar, a econômica e a retórica, das quais a política se utiliza para o seu fim, isto é, o bem comum da cidade.

11. Depois, quando diz: ‘Ora, como esta ciência usa’ etc., conclui, então, a partir das duas premissas, o propósito. E diz que, como

a política, que é prática, utiliza as restantes disciplinas práticas,

conforme foi dito, e como ela mesma legisla sobre o que é ne- cessário para operar e do que se abster, como primeiro se disse, cuja consequência é que esse fim, enquanto arquitetônico, nela está contido, isto é, ela contém sob si os fins das outras ciências práticas. Por isso, conclui que isto, a saber, o fim da política, é o bem humano, isto é, o ótimo entre as coisas humanas.

12. Depois, quando diz: ‘Se, pois, for o mesmo’ etc., mostra que a política é mais importante, em razão do próprio fim. Com efei-

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

em razão do próprio fim. Com efei- Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 2 •
em razão do próprio fim. Com efei- Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 2 •

liVro

i, lição

2

37

37 7/21/14 1:25 PM
37
7/21/14
1:25 PM

to, é evidente que cada causa tanto é melhor e anterior quanto

a mais efeitos se estende. Por isso, também o bem, que tiver a

razão da causa final, será tanto melhor, quanto a mais coisas se estender. E, por isso, se um bem for o mesmo para um único

homem e para toda a cidade, parecerá muito melhor e mais per- feito adquirir, isto é, procurar, e salvar, a saber, conservar, aquilo que é o bem de toda a cidade do que o que é o bem de um único homem. Com efeito, compete ao amor que, de fato, deve existir entre os homens, que um homem procure e conserve também

o bem de um só homem, mas é muito melhor e mais divino que

esse bem se estenda a todos os povos e cidades. Ou, por outro lado: se, de fato, for amável que isso se estenda a uma só cida-

de, será, porém, muito mais divino, que isso se estenda a todos os povos, nos quais estão contidas muitas cidades. Contudo, diz isso ser mais divino, o que mais pertence à semelhança de Deus, que é causa universal de todos os bens. Mas, esse bem, a saber,

o que é comum a uma ou várias cidades, tende a certo método,

isto é, arte, que se chama política. Por isso, a ela mesma pertence maximamente considerar o fim último da vida humana, por ser

a mais importante.

13. No entanto, deve-se saber que se diz que a Política é a mais im-

portante, não absolutamente, mas no gênero das ciências ativas, que são acerca das coisas humanas, das quais a Política considera

o fim último. De fato, a ciência divina, que é mais importante

em relação a todas as ciências, considera o fim último de todo

o universo. Assim, diz que à Política pertence a consideração do

fim último da vida humana, a qual determina também neste li- vro, porque a doutrina deste livro contém os primeiros elementos

da ciência política.

38 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

política. 38 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 38 7/21/14
política. 38 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 38 7/21/14
38 7/21/14 1:25 PM
38
7/21/14
1:25 PM

lição 3 42

Como deve ser o aprendiz e o mestre desta ciência: mostrando que nem o jovem, nem o que segue as paixões é um seguro aprendiz desta ciência.

texto de Aristóteles

Capítulo 3

[1094b] [11] deve ser dito 43 , porém, se certamente será suficiente o que for apresentado segundo o assunto supos- to. É certo, pois, que não é semelhante investigar todas as discussões, nem todas as artes 44 . ora, as boas e justas [15], as quais a política investiga, têm tantas diferenças e tantos erros que parecem apenas existir na lei 45 , mas não na natu- reza. ora, alguns bens têm tal erro, porque em muitos ocorre

42 1094a1-a18.

43 O verbo légo na 3a pessoa do singular no presente optativo médio, légoito, foi traduzi- do em latim por dicetur, de dico, na 3a pessoa do singular no futuro indicativo passivo, cuja versão para o vernáculo proposta foi a seguinte: ‘deve ser dito’, guardando sua voz passiva, mas também, conforme o original grego, o modo optativo passivo, que convém ser traduzido, neste caso, pelo modo imperativo.

44 O termo demiourgouménois traduzido por conditis, de fato, seria melhor traduzido por ‘que fazem trabalhos manuais’, a saber, artesãos ou artistas. Preferimos traduzir como ‘artes’, pelo seu sentido genérico que inclui, para além dos trabalhos manuais, outras artes, inclusive das quais Aristóteles mencionará mais abaixo.

45 Traduzimos nómo, literalmente por ‘na lei’, mas também guardando o sentido de no costume, enquanto constituído e estabelecido como regra convencional.

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

, enquanto constituído e estabelecido como regra convencional. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 39 7/21/14 1:25 PM
, enquanto constituído e estabelecido como regra convencional. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 39 7/21/14 1:25 PM
39 7/21/14 1:25 PM
39
7/21/14
1:25 PM

a perda deles. de fato, alguns já pereceram por causa das ri- quezas, enquanto outros por causa da coragem. portanto, é preferível falar de tais artes [20] e, a partir delas, de modo rudimentar e figurativo, demonstrar a verdade, sobre estas que com mais frequência são ditas e das que se pode deduzir uma conclusão. Certamente, deve-se receber do mesmo modo cada uma das declarações. de fato, é instruído quem somente investiga com certeza cada [25] gênero, até onde a natureza do estudo permite. na verdade, parece insensato 46 aceitar argumentos persuasivos de um matemático e pedir demonstrações de um retórico. ora, cada um julga bem os assuntos que conhece e é um bom juiz destes assuntos. Assim, [1095a] [1] é certamen- te instruído sobre cada assunto, mas o é completamente quem é instruído sobre tudo. por isso, não é próprio do jovem ser estudante da política, pois é o mais inexperiente dentre os que possuem uma vida de experiências, mas as discussões partem delas 47 e são so- bre elas. Ademais, vivendo como seguidores das paixões, [5] ouvem em vão e inutilmente, porque o fim não é o conhecimento, mas a ação. mas em nada difere ser jovem na idade ou juvenil no caráter, porque a deficiência não é por causa do tempo, mas por viver segundo as paixões e perseguir cada uma de-

46 Não encontramos correspondência semântica entre advérbio grego paraplésion [de para-plesso – que significa ‘ficar louco’, o qual traduzimos por ‘insensato’, seguindo outras versões cotejadas] e o adjetivo latino proximum [de propior – que significa ‘mais próximo’], que consta na versão latina utilizada por Tomás em seu comentário. Talvez, salvo melhor juízo, ocorreu um equívoco ao verter para o latim aquele advérbio grego, pois há outro semelhante advérbio grego para-plésios [de para-plesiazo – que significa ‘estar próximo de], razão pela qual se teria traduzido para o latim por proximum.

47 A saber, das experiências.

40 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

40 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 40 7/21/14 1:25
40 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 40 7/21/14 1:25
40 7/21/14 1:25 PM
40
7/21/14
1:25 PM

las, pois, para tais pessoas, o conhecimento se torna inútil, tal como para os incontinentes. [10] no entanto, para os que produzem e realizam os desejos segundo a razão, será, de fato, muito útil saber acerca dis- so. Certamente, são suficientes como introdução as coisas ditas sobre o discípulo desta ciência e, de algum modo, foi demonstrado o que propomos.

Comentário de tomás de Aquino

1. ‘Deve ser dito, porém, se certamente será suficientemente’ etc. Depois que o filósofo mostrou qual é o bem que se busca principalmente nesta ciência, nesta parte determina o método conveniente desta ciência. E primeiro, por parte do que ensi- na, onde diz: ‘Certamente, deve-se receber do mesmo modo’ etc.; segundo, por parte de quem aprende. Acerca do primeiro expõe tal razão. O modo de manifestar a verdade em qualquer ciência deve ser conveniente ao que lhe está sujeito como a matéria dessa ciência. De fato, por isso é evidente que a certeza não deve ser buscada, nem investigada do mesmo modo para todos os discursos, pelos quais raciocinamos por alguma coisa. Como tampouco no fabricado, isto é, nas coisas que foram fei- tas pela arte, o modo de operar não é semelhante em todos; mas cada artífice opera a partir da matéria, segundo o modo que lhe é conveniente, conforme opera a partir da terra, da argila, do ferro. Contudo, a matéria moral é tal que não é conveniente à certeza perfeita. E isso é evidente pelas duas coisas que pare- cem pertencer à matéria moral.

2. Primeiro, porque as ações virtuosas também pertencem princi- palmente à matéria moral, que aqui chama de justas, das quais

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

que aqui chama de justas , das quais Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 3
que aqui chama de justas , das quais Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 3

liVro

i, lição

3

41

41 7/21/14 1:25 PM
41
7/21/14
1:25 PM

sobretudo se dirige a ciência política. Acerca delas não há entre os homens um juízo certo, mas há uma grande diferença no que os homens julgam delas. E nisso ocorre múltiplos erros. De fato, aquilo que alguns consideram justo e honesto, outros têm por injusto e desonesto, conforme a diferença de tempo, de lugar e de pessoas. Com efeito, algo é considerado vicioso em um tempo ou em uma região, que em outro tempo ou em outra região, não

é considerado vicioso. E por essas diferenças ocorre que uns opi- nam que nada é naturalmente justo ou honesto, mas só o que for determinado como lei. De fato, essa mesma opinião será tratada melhor no livro V desta obra 48 .

3. Segundo, porém, à matéria moral pertencem os bens exteriores, dos quais o homem se utiliza para um fim. E acerca desses bens, também ocorre se deparar com os erros já ditos, porque nem sempre são tidos por todos do mesmo modo. Com efeito, alguns têm se beneficiado por esses bens, outros, porém, obtiveram prejuízos por eles. Com efeito, muitos homens pereceram por ocasião das suas riquezas, como quando morrem pelos ladrões. Outros, pois, pela sua força corporal, por confiar incautamente nela, expuseram-se a perigos. E, assim, deve-se evidenciar que

a matéria moral é múltipla e disforme, não tendo uma certeza

para todos os casos.

4. E, porque, segundo a arte da ciência demonstrativa, é necessá- rio que os princípios estejam conformes com as conclusões, é amável e desejável para os que tratam de tais coisas, isto é, de coisas tão variáveis, e procedem a partir de outras similares, que mostrem a verdade. Em primeiro lugar, pois, grosso modo, isto é, aplicando os princípios universais e simples ao particular e composto, no qual se dão os atos. Com efeito, é necessário que em qualquer ciência operativa se proceda de modo compositi-

48 Aristóteles, Ethica Nicomachea, V, 10, 1134 b 18 ss.

42 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

1134 b 18 ss. 42 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de
1134 b 18 ss. 42 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de
42 7/21/14 1:25 PM
42
7/21/14
1:25 PM

vo 49 , porque, ao contrário, na ciência especulativa é necessário que se proceda de modo resolutivo 50 , resolvendo o composto em princípios simples. Segundo, então é necessário mostrar a verda- de figurativamente, isto é, de modo verossímil. E isto é proceder a partir dos princípios próprios desta ciência. De fato, a ciência moral é relativa aos atos voluntários, a vontade, porém, é movida não só pelo bem, mas por um bem aparente. Terceiro, porque devemos falar de coisas que frequentemente ocorrem, isto é, nos atos voluntários, que a vontade não os realiza por necessidade, mas que inclina de modo mais forte a um do que a outro, para que também procedamos a partir deles, para que os princípios sejam mais conformes às conclusões.

5. Depois, quando diz: Certamente, deve-se receber do mesmo modo’ etc., mostra, então, que os estudantes da moral devem aceitar o dito modo de determinar. E diz que cada um (deles) deve receber cada coisa de tal maneira que se diga do mesmo modo, isto é, conforme o que convenha ao assunto. E isto porque ao homem disciplinado, isto é, bem instruído, convém buscar tanta certeza em cada assunto quanto a natureza de cada coisa permita. Com efeito, não pode existir tanta certeza em assun- to variável e contingente como numa questão necessária, que sempre possui o mesmo modo. E, portanto, o estudante bem disciplinado não deve buscar mais certeza, nem manter menos do que seja conveniente à realidade de que se trata. Na verdade, se estivesse próximo a isto, parece que seria uma falta, se algum

49 Por modo ‘compositivo’ [compositivus] entende-se o procedimento de ir do mais sim- ples para o mais complexo, como proceder da causa para os efeitos, pois as causas são mais simples do que os efeitos: Cfr. Sum. Theo. I-II, q. 14, a. 5, c.

50 Por modo ‘resolutivo’ [resolutivus, mais conhecido por resolutio] entende-se o pro- cedimento de análise, oposta ao modo ‘compositivo’, pois a resolução consiste em ir do mais complexo (particular) para o mais simples (universal), como proceder pela abstração pela qual são separadas todas as condições materiais e individuais da subs- tância individual: Cfr. C. Gentiles. II, c. 100, n. 4; Sum. Theo. I, q. 12, a. 4, ad 3; In II Metaphys. Lec. 1, n. 6 [Edição Alarcón: Corpus Thomisticum].

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

Alarcón: Corpus Thomisticum]. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 3 • 43 43 7/21/14 1:25
Alarcón: Corpus Thomisticum]. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 3 • 43 43 7/21/14 1:25

liVro

i, lição

3

43

43 7/21/14 1:25 PM
43
7/21/14
1:25 PM

estudante aceitasse que um matemático utilizasse da persuasão do retórico, e se esperasse do retórico demonstrações tão certas quanto as que devem proferir o matemático. Com efeito, o que sucede nesses casos se dá por não considerar de modo conve- niente o assunto. Pois a matemática é acerca de tema ao qual se encontra, de todo modo, a certeza. Contudo a retórica se ocupa

acerca de assunto cívico, na qual há múltiplas variações.

6. Depois, quando diz: ‘Ora, cada um julga bem os assuntos que conhece’ etc., mostra, então, como deve ser o estudante dessa ciência. E, primeiro, mostra qual é o estudante insuficiente. Se- gundo, qual é o inútil, onde diz: ‘Ademais, vivendo como segui- dores das paixões’ etc. Terceiro, mostra o estudante adequado, onde diz: ‘No entanto, para os que produzem e realizam os dese- jos segundo a razão’ etc. Acerca do primeiro faz duas afirmações. Primeira, destaca as coisas necessárias para mostrar o proposto.

E diz que cada um não pode ter um bom juízo a não ser sobre

aquelas coisas que conhece. E, assim, aquele que é instruído acerca de um gênero qualquer pode bem julgar acerca deste, que pertence a esse tema. Ora, aquele que está bem instruído acerca de todas as coisas pode absolutamente bem julgar acerca de todas.

7. Segundo, onde diz: ‘Por isso, não é próprio do jovem ser estu- dante da Política’ etc., conclui o proposto, a saber, que o jovem não é um estudante adequado da política e de toda a ciência moral que está compreendida sob a política, porque, assim como foi dito, ninguém pode julgar bem a não ser sobre as coisas que conhece. Contudo, é necessário que todo estudante julgue bem sobre as coisas que escuta, a saber, para admitir o que é bem dito e, porém, não admitir as coisas mal ditas. Logo, é necessá- rio que não haja um estudante adequado a não ser que tenha algum conhecimento do que deve ouvir. Ora, o jovem não tem

o conhecimento das coisas pertinentes à ciência moral, que ao

máximo se conhece pela experiência. De fato, pela brevidade do

44 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

brevidade do 44 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 44
brevidade do 44 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 44
44 7/21/14 1:25 PM
44
7/21/14
1:25 PM

tempo, o jovem não tem experiência das ações da vida humana,

e, porém as razões da ciência moral procedem das coisas que são

pertinentes às ações da vida humana e, também, referem-se a essas coisas, como se dissera que o liberal guarda pouco para si

e dá muito aos outros, talvez, um jovem, por causa da sua inex-

periência, não saiba julgar se é verdadeiro, e o mesmo sobre as

outras coisas cívicas. Por isso, é evidente que o jovem não é um conveniente estudante da ciência política.

8. Depois, quando diz: ‘Ademais, vivendo como seguidores das paixões’ etc., mostra, então, quem é um estudante inútil dessa ciência. Onde, deve-se considerar que a ciência moral ensina os homens a seguir a razão, e dissipar aquilo a que inclinam as paixões da alma, que são a concupiscência, a ira e coisas seme- lhantes. Nas quais, de fato, tendem-se de dois modos. Um modo, por eleição: por exemplo, quando alguém se propõe a satisfazer

a sua concupiscência. E a esses Aristóteles chama de seguidores

das paixões. Outro modo, quando alguém se propõe a se abster dos deleites nocivos, mas, às vezes, é vencido pelo ímpeto da paixão, de tal maneira que, contra o seu propósito, segue-se o ímpeto da paixão. E tal é chamado de incontinente.

9. Diz, portanto, que aquele que é seguidor das paixões, de modo

vão, isto é, sem qualquer eficácia, estuda essa ciência, inutilmen- te, isto é, sem atingir o seu devido fim. Com efeito, o fim dessa ciência não é só o conhecimento, ao qual talvez poderiam che- gar os seguidores das paixões, mas o fim dessa ciência é o ato hu- mano, assim como todas as ciências práticas. Aos atos virtuosos, porém, não chega quem segue as paixões. E, assim, nada difere quanto ao que exclua como estudante dessa ciência o jovem pela idade ou o jovem pelos costumes, a saber, o seguidor das paixões, porque assim como o jovem pela idade carece de aptidão para

o fim dessa ciência, que é o conhecimento, também aquele que

é jovem pelos costumes carece de aptidão para o fim, que é o

ato, não, pois, por causa da carência da idade, mas porque vive

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

da carência da idade, mas porque vive Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 3 •
da carência da idade, mas porque vive Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 3 •

liVro

i, lição

3

45

45 7/21/14 1:25 PM
45
7/21/14
1:25 PM

conforme as paixões e segue cada um as coisas às quais as paixões se inclinam. Contudo, para tais, é inútil o conhecimento dessa ciência, assim como também para os incontinentes, que não se- guem a ciência que possuem das realidades morais.

10. Depois, quando diz: ‘No entanto, para os que produzem e rea- lizam os desejos segundo a razão’ etc., mostra, então, qual é o estudante adequado para esta ciência. E diz que conhecer as rea- lidades morais é muito útil para que, segundo a ordem da razão, cumpram todos os seus desejos e ajam exteriormente.

11. Conclui, porém, por último, aquelas coisas que foram ditas no proêmio, dizendo que todas, principalmente, foram ditas na úl- tima parte, acerca do estudante; e no meio, qual é o modo de demonstração; e o que propomos, isto é, aquilo ao qual principal- mente tende esta ciência.

46 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

ciência. 46 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 46 7/21/14
ciência. 46 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 46 7/21/14
46 7/21/14 1:25 PM
46
7/21/14
1:25 PM

lição 4 51

O

que alguns pensaram sobre a felicidade: e qual é a diferença entre

os

sábios e os homens comuns que falaram sobre o sumo bem; que o

sumo bem é a própria felicidade, e como deve estar disposto o discí-

pulo da filosofia moral.

texto de Aristóteles

Capítulo 4

[1095a] digamos, portanto, resumindo, que, dado que todo conhecimento e [15] eleição desejam algum bem, o que dize- mos desejar a política é o bem, que é o mais excelso de todas as boas ações. sobre seu nome quase todos concordam, pois tanto a maioria quanto os mais instruídos dizem que é a felicidade. de fato, viver bem e agir bem [20], eles estimam ser o mesmo que ser feliz. mas sobre o que é a felicidade, divergem-se. e muitos não se- guem o mesmo que propuseram os sábios, pois alguns, de fato, pensam que são as coisas mais visíveis e manifestas, como o prazer, a riqueza ou a honra. outros, porém, outras coisas distintas. mas muitos a identificam com coisas dife- rentes: se enfermo, com a saúde, se pobre [25], com a rique- za, porém, conscientes de sua própria ignorância, admiram

51

1095a14-b13.

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

de sua própria ignorância, admiram 5 1 1095a14-b13. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 47 7/21/14 1:25 PM
de sua própria ignorância, admiram 5 1 1095a14-b13. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 47 7/21/14 1:25 PM
47 7/21/14 1:25 PM
47
7/21/14
1:25 PM

os que declaram algo grande e superior a estes. Alguns, con- tudo, estimaram que, além destes muitos bens, existe outro, bom por si mesmo, e que é a causa do ser de todos os bens. portanto, talvez seja, de fato, inútil examinar todas as opi- niões sustentadas, porém é suficiente examinar as que mais [30] parecem preponderantes ou que se estimam ter alguma razão. mas não nos esqueçamos que diferem as razões que partem dos princípios e as que chegam aos princípios. na verdade, platão, com razão, duvidou disto e questionou ‘se a via é a que vem dos princípios ou a que leva aos princípios’ 52 , como [1095b] [1] no estádio, a partir dos juízes 53 , indica-se se é a via para o término ou o contrário. Assim, pois, deve-se come- çar com o mais conhecido. mas isto é duplo: uma para nós, mas outra em absoluto. talvez, então, deve-se começar com o que seja mais conhecido para nós. por isso, é preciso ser bem conduzido nos costumes [5] para suficientemente ser um discípulo das coisas boas e justas e, sobretudo, da política. pois o princípio é o que é, e se isto estiver suficientemente claro, ele não necessitará do por que é. mas ele já os tem ou é certamente capaz de facilmente co- nhecer os princípios. porém, os que não têm ambas as coi- sas, que ouçam as palavras de Hesíodo: [10] “pois isto é o melhor: que ele mesmo conheça tudo. no entanto, depois, é bom também que ele escute bem de quem sabe. mas quem não sabe por si nem põe na alma o que aprendeu do outro, este é um homem inútil” 54 .

52 Platão, Republica, VI, 21, 511 b.

53 Optamos traduzir apò ton athlotheton ‘a partir dos juízes’. De fato, o subs. masc., deste termo significa ‘organizador e presidente de certos jogos públicos’.

54 Propusemos uma tradução livre [Hesíodo, Trabalhos e Dias, 293 ss]. Caso o leitor deseje consultar outras traduções, recomendamos as seguintes: Hesíodo. Os trabalhos e os dias. (primeira parte) Tradução de Mary de Camargo Neves Lafer. São Paulo:

48 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

São Paulo: 48 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 48
São Paulo: 48 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 48
48 7/21/14 1:25 PM
48
7/21/14
1:25 PM

Comentário de tomás de Aquino

1. ‘Digamos, portanto, como resumindo’ etc. Terminado o proê- mio, aqui Aristóteles se aproxima da discussão sobre essa ciên- cia. E é dividida em três partes. Na primeira, discorre sobre a felicidade, que é o sumo bem entre os bens humanos que leva à consideração da felicidade, que é a operação conforme a virtude. Na segunda parte, considera as virtudes, onde diz: ‘se, porém, a felicidade for certa operação da alma segundo a virtude perfei- ta’ 55 , etc. Na terceira, completa o seu tratado sobre a felicidade, mostrando como e qual operação da virtude é a felicidade. Isto o fará no livro décimo 56 , onde diz: ‘razão pela qual é preciso pelos costumes’ etc. Acerca do primeiro faz duas afirmações. Primei- ra, fala sobre a intenção. Segunda desenvolve o proposto, onde diz: ‘Sobre seu nome quase todos concordam’, etc. Diz, então, primeiro, resumindo o que foi dito acima, que como todo co- nhecimento e eleição desejam algum bem, isto é, ordenam-se até algum bem desejado como fim, deve-se dizer que esse é o bem ao qual a ciência política se ordena que, a saber, é o sumo bem de todas as operações, isto é, entre todos aos quais pode chegar a ação humana. Com efeito, foi dito acima que se deve considerar dois pontos sobre o fim último dos bens humanos: a saber, o que é, que aqui é proposto para consideração; e a qual ciência pertence, o que já foi tratado no proêmio.

2. Depois, quando diz: ‘Sobre seu nome quase todos concordam’, etc., discorre sobre a felicidade. E acerca disso faz duas afirma- ções. Primeira, apresenta as opiniões de outros sobre a felicida-

Iluminuras, 1990; Hesíodo. Teogonia / Os trabalhos e dias. Tradução de Ana Elias Pinheiro & José Ribeiro Ferreira. Lisboa: Imprensa Nacional, 2005.

55 Tomás refere-se à passagem do texto aristotélico que se encontra na lição 19. Cfr. Aris- tóteles, Ethica Nicomachea, I, 19, 1102 a 5.

56 Aristóteles, Ethica Nicomachea, X, 7, 1177 a 12 b 26.

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

Nicomachea , X, 7, 1177 a 12 b 26. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição
Nicomachea , X, 7, 1177 a 12 b 26. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição

liVro

i, lição

4

49

49 7/21/14 1:25 PM
49
7/21/14
1:25 PM

de. Segunda, discorre sobre a mesma, segundo a sua própria opi- nião, quando diz: ‘mas, vamos voltar de novo à busca do bem’ 57 etc. Acerca do primeiro, faz duas afirmações. Primeira, expõe

as opiniões dos outros sobre a felicidade. Segunda, examina-a,

onde diz: ‘Mas falemos a partir de onde nos desviamos’ 58 etc. Acerca do primeiro, faz duas colocações. Primeira, expõe as opiniões sobre o fim último dos homens. Segunda, determina

de que modo se deve examinar as opiniões, onde diz: ‘Portanto, talvez seja, de fato, inútil examinar todas as opiniões’ etc. Acer- ca disso, faz duas afirmações. Primeira, mostra o que convém a todos. Segunda, em que diferem, onde diz: ‘Mas sobre o que é a felicidade, divergem-se’ etc.

3. Expõe, então, primeiro, dois modos nos quais todos coincidem segundo o fim último. Primeiro, de fato, no nome, porque mui- tos, isto é, tanto os homens do povo quanto também os mais excelentes, isto é, os mais sábios, chamam a felicidade de sumo bem dos homens. Segundo, quanto a certa noção comum do nome, porque todos estimam o bem viver e o bem operar (o mesmo que ser) que é ser feliz.

4. Depois, quando diz: ‘Mas sobre o que é a felicidade’ etc., mostra em que diferem as opiniões dos homens, acerca da felicidade.

E diz que há, em especial, um desacordo, isto é, homens se di-

vergem sobre a felicidade. E isso de três maneiras diferentes. A primeira, na qual se toma que a maioria das pessoas não conhece de modo semelhante ao dos sábios. De fato, as pessoas comuns estimam a felicidade como coisas que são notórias e manifestas, como as coisas que são consideradas pelos sentidos, as quais são manifestas à multidão e, assim, notórias, que não precisam de nenhuma exposição esclarecedora, assim como são os prazeres,

57 Aristóteles, Ethica Nicomachea, I, 9, 1097 a 15.

58 Aristóteles, Ethica Nicomachea, I, 5, 1095 b 14.

50 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

5, 1095 b 14. 50 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de
5, 1095 b 14. 50 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de
50 7/21/14 1:25 PM
50
7/21/14
1:25 PM

as riquezas, as honras e outras coisas semelhantes. Mas o que os sábios pensaram sobre isto, expõe por último.

5. Segunda, porém, que há diferença entre as pessoas. Das quais, alguns estimam que a felicidade está no bem sensível, como o avaro estima as riquezas, o intemperante os prazeres, o ambicio- so as honras.

6. Terceira, porém, a diferença de cada um para consigo mesmo. Com efeito, a condição do fim último é ser maximamente dese- jado. Por isso, o homem estima ser a felicidade aquilo que maxi- mamente deseja, mas a carência de algum bem aumenta o seu desejo. Por isso, o enfermo, que carece de saúde, julga-a como sumo bem. E pela mesma razão, o pobre julga ser as riquezas. E, de modo semelhante, aqueles que reconhecem a sua ignorância, admiram como felizes aqueles que podem dizer algo grandioso e que excede as suas inteligências. E tudo isto pertence às opiniões da maioria.

7. Mas certos sábios, a saber, os platônicos 59 , estimam além desses diversos bens sensíveis, que há um único bem que existe por si mesmo, isto é, que é a essência mesma da bondade separada, as- sim como diziam que a forma separada do homem era o homem em si, e que o bem é a causa de que todas sejam boas, a saber, enquanto participam daquele sumo bem.

8. Depois, quando diz: ‘Portanto, talvez seja, de fato, inútil exami- nar’ etc., mostra como é necessário examinar as referidas opi- niões. E acerca disso, faz três afirmações. Primeira, mostra quais dessas opiniões são necessárias examinar. Segunda, em qual or- dem, onde diz: ‘Mas não nos esqueçamos que diferem as razões’ etc. Terceira, de que modo é necessário o estudante estar dispos- to, para que possa compreender bem as coisas ditas, onde diz:

‘Por isso, é preciso ser bem conduzido nos costumes’ etc. Diz,

59 Refere-se a Platão e a seus discípulos da Academia; o mesmo em Ethica Eudoxo, I, 8, 1217 a 2 ss. Cfr. Pseudo Dionísio, De divinis nominibus, I, parág. 3 (PG 3, 593).

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

nominibus , I, parág. 3 (PG 3, 593). Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 4
nominibus , I, parág. 3 (PG 3, 593). Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 4

liVro

i, lição

4

51

51 7/21/14 1:25 PM
51
7/21/14
1:25 PM

então, primeiro, que examinar todas as opiniões que se têm sobre

a felicidade seria mais inútil do que o parecer de um filósofo,

porque algumas são inteiramente irracionais, mas é suficiente que se investigue aquelas opiniões que têm uma maior razão na superfície, ou por causa de alguma aparência, ou, ao menos, porque muitos estimam esta opinião.

9. Depois, quando diz: ‘Mas não nos esqueçamos que diferem as ra- zões’ etc., mostra em que ordem se deve raciocinar sobre essas opiniões e absolutamente sobre toda matéria moral. E destaca uma diferença no processo do raciocínio. Alguns raciocínios são os que procedem dos princípios, isto é, das causas aos efeitos, as- sim como das demonstrações pela causa. Contudo, outros racio- cínios, inversamente, partem dos efeitos às causas ou princípios, estes não se demonstram pela causa, mas apenas porque é assim.

E isso, também, distinguiu Platão 60 , perguntando se era necessário

proceder dos princípios ou até os princípios. E propôs o exemplo das corridas dos estádios. Com efeito, havia certos juízes, isto é,

auxiliares dos atletas que corriam no estádio, pois de fato os juí- zes permaneciam no princípio do estádio. Algumas vezes, pois, os atletas começavam a correr auxiliado pelos juízes e procediam até

o término, outras vezes, pois, faziam o inverso. E, assim, também

é dupla a ordem no processo da razão, como foi dito.

10. E para sabermos em qual ordem é necessário proceder em cada matéria, deve-se considerar que sempre é necessário iniciar pelo mais conhecido, porque pelo mais conhecido devemos chegar ao

desconhecido. No entanto, o mais conhecido pode ser de duas maneiras. Uma, para nós, assim como as realidades compostas e sensíveis. Outra, absolutamente e conforme a natureza, a saber, simples e inteligíveis. E porque adquirimos conhecimento racio- cinando, é necessário que procedamos até aquelas coisas que nos são mais conhecidas. E se uma mesma coisa for mais conhecida a

60 Platão, Republica, VI, 21, 511 b.

52 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

21, 511 b. 52 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd
21, 511 b. 52 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd
52 7/21/14 1:25 PM
52
7/21/14
1:25 PM

nós e absolutamente, então a razão procede dos princípios, como na matemática. Se, porém, umas forem mais conhecidas absolu- tamente e outras mais a nós, então será necessário proceder ao contrário, assim como nas coisas naturais e nas morais.

11. Depois, quando diz: ‘Por isso, é preciso ser bem conduzido nos costumes’ etc., mostra de que modo é necessário estar disposto o

estudante de tal matéria. E diz que, porque é necessário come- çar pelas coisas mais conhecidas a nós, isto é, por certos efeitos considerados acerca dos atos humanos, é necessário que quem seja um estudante apto da ciência moral tenha um bom conhe- cimento e experiência dos costumes da vida humana, isto é, dos bens exteriores e justos, a saber, das obras virtuosas, e universal- mente sobre todas as coisas cívicas, assim como as leis e as ordens políticas e outras semelhantes que possam existir. E isso porque

é necessário tomar as coisas morais como princípio, porque é as-

sim. O que se toma, pois, pela experiência e pelo costume como, por exemplo, que a concupiscência é superada pela abstinência.

12. E se isso for manifesto para alguém, não ser-lhe-á muito ne- cessário, para operar, conhecer o porquê operar, assim como também basta ao médico, para curar, saber qual erva cura tal enfermidade. No entanto, requer-se conhecer pelas causas para

o saber que se procura nas ciências especulativas. Mas tais, a

saber, os que têm experiências nas coisas humanas, ou têm por

si mesmos os princípios das operações, considerando-os por si,

ou facilmente os tomam de outro. De fato, àquele que nenhu- ma destas convém, ouça a sentença do poeta Hesíodo 61 , que diz que é ótimo, a saber, quem pode entender por si mesmo. E ele também é bom, pois recebe bem o que por outro é dito. Aquele, porém, que não pode entender por si mesmo, nem pode guar- dar na alma o que ouve de outro, é um inútil, ou seja, quanto à aquisição da ciência.

61 Hesíodo, Os trabalhos e os dias, 293, 295.

liVro

i, lição

4

53

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

, Os trabalhos e os dias , 293, 295. liVro i, lição 4 • 53 Sao
, Os trabalhos e os dias , 293, 295. liVro i, lição 4 • 53 Sao
53 7/21/14 1:25 PM
53
7/21/14
1:25 PM

lição 5 62

Entre as diversas opiniões sobre a felicidade, pergunta-se qual é a mais verdadeira, exclui-se o erro da maioria, e examina-se se a felici- dade existe na virtude.

texto de Aristóteles

Capítulo 5

[1095b] mas falemos a partir de onde nos desviamos. de fato, o bem [15] e a felicidade não lhes parecem irracional estimar, a partir das coisas que são desta vida. Certamente, para a maioria e para os mais vulgares, é o pra- zer. por isso, amam a vida prazerosa. Com efeito, três são os tipos de vida tidos como mais exce- lentes: a que agora foi dita, a política, e a terceira é a contem- plativa. de fato, muitos, de um modo geral, [20] parecem ser escra- vos ao elegerem uma vida de animais. mas encontram a razão porque muitos destes que estão no poder são semelhantes, nas paixões, à sardanapalo 63 .

62 1095b14-1096, a10.

63 Sardanapalo [talvez, uma corruptela do nome Assurbanipal] foi o último rei da Assíria [690-627 a.C.] que se dedicou a uma vida de prazer. Há duas versões do seu epitáfio que são recordados por Ateneu [cerca de 200 d.C.], um que contém as seguintes palavras:

‘Comer, beber, jogar: já que todo o resto não passa senão como um estalar de dedos’; a outra: ‘Eu tenho o que eu comi, e as obras maravilhosas de libertinagem e de amor que

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

eu comi, e as obras maravilhosas de libertinagem e de amor que Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd
eu comi, e as obras maravilhosas de libertinagem e de amor que Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd
54 7/21/14 1:25 PM
54
7/21/14
1:25 PM

outros, porém, os mais agraciados e atuantes, buscam a honra. pois, talvez, esta seja o fim da vida política. mas isto parece ser mais superficial do que o que se investi- ga. parece, pois [25], que as honras estão mais nos que hon- ram do que no honrado, no entanto, o bem é próprio de quem

o possui e conjeturamos ser difícil de ser tirado.

ora, ademais, parecem buscar a honra por crerem ser eles mesmos bons. procuram, por conseguinte, ser honrados pe- los prudentes e por aqueles que são conhecidos pela virtu- de. por conseguinte, fica manifesto que, de acordo com [30] eles, a virtude é melhor. todavia, talvez, e mais certamente, alguém estime este fim da vida política.

esta, porém, também parece ainda mais imperfeita. pois pa- rece ser possível possuir a virtude e dormir, e não praticá-la durante a vida.

e também o virtuoso [1096a] [1] padece muitos males e in-

fortúnios. mas, vivendo assim, certamente, ele não será feliz,

exceto se mantida esta tese. no entanto, sobre isto basta. de fato, isto suficientemente foi dito nas discussões comuns 64 .

porém, a terceira é a contemplativa, acerca da qual [5] será feito, em seguida, um exame. mas a vida para ganhar dinheiro é um tipo de vida não natural 65 .

e claramente a riqueza não é o bem que se busca, pois são

úteis e meios para outros. por isso, antes, os primeiros são ditos fins, pois certamente alguém os estima e são amados

eu fiz e sofri e que toda a minha riqueza é perdida’. Tradução livre dos editores e tradutores do texto desta edição. Para outras informações sobre a sua vida e ditos ver: Athenaei, Deip- nosophistae Libri XV. Tomus II. Lipsiae: Sumptibus Ottonis Holze, 1868, pp. 228-231.

64 Não é certo se esta frase se refere a tratados escritos (seja do próprio Aristóteles, como diálogos e outras obras populares perdidos, ou os de outros filósofos), para debates filo- sóficos como os diálogos de Platão, como Aristóteless mesmo menciona: Cfr. De caelo, 279a 30: ‘nas discussões filosóficas comuns’; De Anima, 407b 29: ‘as discussões que se produziram em público’.

65 Refere-se à avareza.

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

6 5 Refere-se à avareza. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 5 • 55 55
6 5 Refere-se à avareza. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 5 • 55 55

liVro

i, lição

5

55

55 7/21/14 1:25 PM
55
7/21/14
1:25 PM

por si mesmos. mas, ainda que realmente não pareça ser o bem em si, muitos argumentos [10] foram compostos para isto. entretanto, estes certamente são descartáveis.

Comentário de tomás de Aquino

1. ‘Mas falemos a partir de onde nos desviamos’ etc. Depois que o Filósofo se referiu a outras diversas opiniões sobre a felicidade, aqui investiga a verdade das referidas opiniões. E, primeiro, trata das opiniões dos que falam da felicidade moralmente, a saber, os que põem a felicidade em alguns dos bens desta vida. Segundo, trata da opinião dos que falam sobre felicidade não moralmente,

a saber, dos que põem a felicidade em algum bem separado, onde

se diz: ‘Mas, talvez, seja melhor investigar o bem universal’ 66 etc. Acerca do primeiro faz duas afirmações: primeira, propõe aquilo que é comum a todas essas opiniões; segunda, trata da diversidade

das opiniões. Parece, portanto, que o Filósofo faz uma digressão que conduz ao seu principal propósito, para determinar o modo de proceder e retorna ao principal propósito, então se volta para as opiniões sobre a felicidade. E diz que, de um modo não irracional, alguns parecem estimar que o bem final, que se chama felicidade, seja algo que pertence a esta vida, a saber, à humana. É, pois, o

fim de todas as operações da vida. E, de fato, as coisas que são para

o fim são proporcionais ao fim. Por isso, é provável que a felicida- de seja algo contado entre os bens pertinentes a esta vida. Mas, sobre isto, abaixo, dir-se-á o que é verdadeiro.

2. Depois, quando diz: ‘Certamente, para a maioria e para os mais vulgares’, etc., pergunta, então, acerca da verdade naquilo que

66 Aristóteles, Ethica Nicomachea, I, 6, 1096 a 11.

56 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

6, 1096 a 11. 56 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de
6, 1096 a 11. 56 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de
56 7/21/14 1:25 PM
56
7/21/14
1:25 PM

se diversificam. E acerca disso faz duas afirmações. Primeira, trata das opiniões que mais parecem se aproximar da verdade. Na segunda, se refere à opinião mais próxima da verdade, onde se diz: ‘Mas a vida para ganhar dinheiro é um tipo de vida não

natural’ etc. Acerca do primeiro faz três distinções. Primeira, trata da opinião que põe a felicidade nas coisas que pertencem

à vida prazerosa. Na segunda, da opinião que põe a felicidade

no que pertence à vida política, onde se diz: ‘Outros, porém, os mais agraciados e atuantes, buscam a honra’, etc. Na terceira, faz menção à vida contemplativa, onde se diz: ‘Porém, a terceira é a contemplativa’ etc. Acerca da primeira, faz três afirmações. Pri- meira, propõe a opinião. Segunda, conforme o que ocorre, dis-

tingue os três tipos de vida, onde se diz: ‘Com efeito, três são os tipos de vida’, etc. Terceira, pergunta pela verdade da proposição proposta, onde se diz: ‘De fato, muitos, de um modo geral’ etc.

3. Diz, então, em primeiro lugar, que entre os bens desta vida, uns elegem os prazeres, onde põem neles a felicidade. E isso é feito não apenas pela multidão, isto é, pelos homens do povo, que frequentemente declinam ante todos os prazeres; mas, também, os que são mais sérios, ou pela autoridade da ciência e do ensi- namento, ou também pela honestidade da vida. De fato, tam- bém os epicuristas 67 , que estimavam o prazer como sumo bem, cultivavam diligentemente as virtudes, mas por causa do prazer,

a saber, para que nem os vícios contrários os impedissem delas.

67 Epicuro [ca. 341-270 a.C], nasceu em Samos. A ética epicurista se resume no fato de que o verdadeiro bem é o prazer, onde o máximo prazer identifica-se com a ausência de dor. Há a ausência de dor na alma – ataraxía – e a ausência de dor no corpo – aponía – e ambas são consideradas como o sumo prazer. Há que se distinguir a doutrina de Epicuro da do hedonismo dos cirenaicos, pois no epicurismo o sumo prazer é alcan- çado sobre certa medida, mas no hedonismo, ademais desta diferença, estabelece que os prazeres do corpo superam os da alma. Sobre a doutrina de Epicuro ver: Diogenis Laertii, De vitis, dogmatis et apophthegmatis clarorum philosophorum libri decem. Ed. H.G. Huebnerus. Vol. 2. Lipsiae: Sumptus fecit et venundat Carolus Franciscus Koehlerus, 1831, Lib. X, 1-154, pp. 437-609.

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

1831, Lib. X, 1-154, pp. 437-609. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 5 • 57
1831, Lib. X, 1-154, pp. 437-609. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 5 • 57

liVro

i, lição

5

57

57 7/21/14 1:25 PM
57
7/21/14
1:25 PM

Com efeito, a gula, por imoderação da comida, gera dores ao corpo, e por causa do furto alguém pode ser preso. E, assim, de diversos modos os diferentes vícios impedem o prazer. E, como o fim último é o mais amável, por isso, aqueles, que põem o prazer como sumo bem, amam maximamente a vida prazerosa.

4. Depois, quando diz: ‘Com efeito, três são os tipos de vida’ etc.,

distingue os três tipos de vida: a prazerosa, da qual agora foi dita,

a política e a contemplativa, e diz ser esta maximamente exce-

lente. Para comprovar isso, deve-se saber que, assim como se dirá mais abaixo no livro IX 68 , cada um considera a sua vida como aquilo que maximamente lhe afeta, ao filósofo o filosofar, ao ca- çador o caçar, e o mesmo das outras coisas. E porque o homem

maximamente é afetado pelo fim último, é necessário que as vi- das se diversifiquem segundo a diversidade do fim último. Mas o fim tem razão de bem. O bem, contudo, se divide em três tipos,

a saber, no útil, no deleitável e no honesto. Dos quais, o deleitá-

vel e o honesto têm razão de fim, porque cada um é apetecível por ele mesmo. O honesto se diz, pois, que é o bem segundo a razão que, de fato, é acompanhado de certo deleite. Por isso, o deleitável, que se contrapõe ao honesto, é o deleitável segundo o sentido. A razão, porém, é especulativa e prática.

5. Denomina-se, então, vida prazerosa a que constitui os prazeres sensíveis como fim, a vida política, a que constitui o fim no bem da razão prática, por exemplo, no exercício das ações virtuosas. Contudo, a vida contemplativa, é aquela que constitui o fim no bem da razão especulativa, a saber, na contemplação da verdade.

6. Depois, quando diz: ‘De fato, muitos, de um modo geral’ etc., trata da opinião já dita. E acerca disso faz duas afirmações. Pri- meira, reprova-a. Segunda, infere a razão que conduz a ela mes- ma, onde se diz: ‘Mas encontram a razão’, etc. Acerca da pri- meira, deve-se considerar que a vida prazerosa, que põe o fim no

68 Aristóteles, Ethica Nicomachea, IX, 12, 1172 a 1-8.

58 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

1172 a 1-8. 58 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd
1172 a 1-8. 58 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd
58 7/21/14 1:25 PM
58
7/21/14
1:25 PM

prazer do sentido, necessariamente deve pôr o fim nos máximos deleites, os quais seguem as operações naturais, a saber, aquelas pelas quais se conserva a natureza de acordo com o indivíduo, pelo alimento e bebida e de acordo com a espécie, pela união sexual. Ora, desse modo, os deleites são comuns aos homens e às bestas. Por isso, a multidão dos homens, que coloca o fim nesses prazeres, parece inteiramente com as bestas, elegendo tal vida como uma vida ótima, na qual nos torna como bestas. Com efei- to, se nisso consiste a felicidade do homem, pela mesma razão, as bestas seriam felizes, desfrutando dos prazeres da comida e do coito. Portanto, se a felicidade é o bem próprio do homem, é impossível que nisso consista a felicidade.

7. Depois, quando diz: ‘Mas encontram a razão’, etc., demonstra a razão que induz a essa opinião. E diz que aqueles que sustentam essa opinião o fazem porque muitos dos que estão constituídos de poderes mais altos, como os reis e os príncipes, que são con- siderados muito felizes pelos súditos, vivem de maneira similar à vida de certo rei dos assírios chamado Sardanapalo, que foi total- mente dedicado ao prazer e, por isso, consideram que o prazer é o ótimo, como sendo o máximo desejado pelos poderosos.

8. Depois, quando diz: ‘Outros, porém, os mais agraciados’ etc., investiga as opiniões pertencentes à vida ativa ou política. E primeiro, quanto à honra. Segundo, quanto à virtude, onde se diz: ‘Todavia, talvez, e mais certamente’ etc. E isso de modo ra- cional. De fato, a vida política ou ativa tende ao bem honesto. Contudo, diz-se honesto, como condição de honra, por isso esta parece pertencer também à própria honra e à virtude, que é a causa da honra. Acerca do primeiro faz três afirmações. Primei- ra, apresenta a opinião. E diz que aqueles que são excelentes, isto é, os virtuosos e ativos, dedicados à vida ativa, põem a felicidade na honra.

9. Segunda, onde se diz: ‘Pois, talvez, isto seja o fim da vida políti- ca’ etc., infere essa razão. Porque quase todo fim da vida política

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

quase todo fim da vida política Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 5 • 59
quase todo fim da vida política Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 5 • 59

liVro

i, lição

5

59

59 7/21/14 1:25 PM
59
7/21/14
1:25 PM

parece ser a honra, que se retorna como prêmio aos que agem bem nessa vida civil. E, então, é provável aos que cultivam a vida política que lhes pareça que a felicidade consista na honra.

10. Terceira, onde se diz: ‘Mas isto parece ser mais superficial’ etc.,

rejeita essa opinião por duas razões. Das quais, a primeira, afirma dizendo que diante da verdadeira noção de felicidade assinalada, interpretamos, isto é, conjeturamos que a felicidade é certo bem, que é próprio do homem feliz, pois lhe convém maximamente,

e que lhe é difícil de obter-se. Ora, isso não corresponde à honra, porque a honra mais parece consistir no ato de quem presta a honra e no seu poder, do que também no próprio que é honra- do. Logo, a honra é algo mais extrínseco e superficial do que o bem que se procura, a saber, a felicidade.

11. Expõe a segunda razão, onde se diz: ‘Ora, ademais, parecem

buscar a honra’ etc., que é esta: a felicidade é algo ótimo que não se busca por outra coisa. Ora, há algo melhor do que a honra, ou seja, aquilo por causa do qual ela é buscada. Com efeito, esses homens parecem buscar a honra para obter uma sólida opinião sobre si mesmos, a de que são bons, e que os outros creem nesta opinião e, por isso, buscam ser honrados pelos prudentes, que são de reto juízo e por aqueles que os conhecem e que melhor podem julgá-los. E buscam ser honrados conforme a virtude, pela qual algo é bom, como se dirá no segundo livro 69 . E, assim,

a virtude é algo melhor do que a honra, pois por ela se busca a

honra. Logo, a felicidade não consiste na honra.

12. Depois, quando diz: ‘Todavia, talvez, e mais certamente’ etc., trata da opinião que põe a felicidade na virtude. E acerca disso faz duas afirmações. Primeira, apresenta a opinião. E diz que, talvez, alguém estimaria, pela razão já dita, mais o fim da vida política, que é a virtude, do que a honra.

69 Aristóteles, Ethica Nicomachea, II, 5, 1106 a 14-16.

60 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

1106 a 14-16. 60 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd
1106 a 14-16. 60 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd
60 7/21/14 1:25 PM
60
7/21/14
1:25 PM

13.

Segunda, onde se diz: ‘Esta, porém, também parece ainda mais imperfeita’ etc., reprova por duas razões. Das quais a primeira é esta: a felicidade parece ser certo bem perfeitíssimo. Ora, a virtu- de não é assim. Com efeito, às vezes, se encontra sem a operação que é conforme a sua perfeição, como é evidente naqueles que dormem e, porém, quem tem o hábito da virtude, e naqueles que têm o hábito da virtude e em toda a sua vida não ocorre a opor- tunidade de agir conforme essa virtude, como é evidente maxi- mamente na magnanimidade e na magnificência, porque algum pobre possui um hábito similar, que, porém, nunca pode fazer algo magnífico. Logo, a virtude não é o mesmo que a felicidade.

14.

A

segunda razão, onde se diz: ‘E também o virtuoso padece mui-

tos males e infortúnios’ etc., é esta: ocorre que alguém tendo o hábito da virtude (sofra o mal) e seja desafortunado. Ora, nin- guém dirá que ele é feliz, a não ser alguém que queira obstina- damente defender a sua posição contra as razões expostas. Logo,

a

felicidade não é o mesmo que a virtude. E diz que, em relação

ao proposto, é suficiente. Mas já foi dito o suficiente nos escritos em circulação 70 , isto é, em certas cartas ou versos que compôs acerca da felicidade.

15.

Depois, quando diz: ‘Porém, a terceira é a contemplativa’ etc.,

faz menção à vida contemplativa. E diz que a terceira vida, a saber, a contemplativa, será investigada mais abaixo, a saber, no décimo livro 71 .

16.

Depois, quando diz: ‘Mas a vida para ganhar dinheiro’ etc., trata de certa opinião menos racional, na qual coloca a felicidade no que tem razão de bem útil, a saber, no dinheiro. E isso repugna a noção de fim último. De fato, o útil se diz de algo que se ordena ao fim. E dado que o dinheiro tem uma utilidade universal em

70 A expressão em circulação (in encycliis, em latim) pode ser considerada como sinôni- mo de discursos exotéricos. Veja também a nota acima inserida, na edição em vernácu- lo do texto da Ética de Aristóteles.

71 Aristóteles, Ethica Nicomachea X, 7, 1177 a 18-b 4.

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

Nicomachea X, 7, 1177 a 18-b 4. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd li V ro i, lição
Nicomachea X, 7, 1177 a 18-b 4. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd li V ro i, lição

li V ro

i, lição

5

61

61 7/21/14 1:25 PM
61
7/21/14
1:25 PM

relação a todos os bens temporais, então esta opinião que põe a felicidade no dinheiro tem alguma probabilidade.

17. Contudo, Aristóteles a reprova por duas razões. Das quais a pri- meira é esta: o dinheiro forçosamente se adquire e forçosamente se gasta. Mas isso não convém à felicidade, que é o fim das ope- rações voluntárias, logo a felicidade não consiste no dinheiro.

18. A segunda razão, onde se diz: ‘E claramente a riqueza não é o bem que se busca’ etc., é esta: não buscamos a felicidade como um bem que não é buscado por causa de outro. Ora, o dinheiro é buscado em razão de outras coisas, porque tem razão de bem útil, como foi dito. Logo, a felicidade não consiste no dinheiro.

19. Conclui, porém, por último, sobre as coisas que foram ditas aci- ma, a saber, o prazer, a honra e a virtude, que podem ser esti- mados como fins últimos, porque são buscados por si mesmos, como foi dito e, todavia, não está neles o fim último como foi mostrado, ainda que diversas pessoas tenham composto muitos discursos para sustentar que a felicidade consiste nesses bens já ditos. Mas, essas opiniões devem ser deixadas de lado.

62 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

de lado. 62 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 62
de lado. 62 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 62
62 7/21/14 1:25 PM
62
7/21/14
1:25 PM

lição 6 72

Impugna-se a opinião dos que propõem a felicidade em um bem separado, e investiga-se se este bem existe.

texto de Aristóteles

Capítulo 6

[1096a] mas, talvez, seja melhor investigar o bem universal e procurar saber como é definido. Ainda que tal investigação se torne hostil, por causa da auto- ridade de um amigo ao introduzir as ideias. no entanto, talvez, parecerá certamente melhor, e será neces- sário, ao menos para a [15] preservação da verdade, sacrificar as amizades 73 , especialmente para os filósofos. na verdade, ambos são amigos, mas é sagrado honrar mais a verdade. mas os que introduziram esta opinião não produziram as ideias, nas quais diziam anterior e posterior, pelo que nem constituíram a ideia de números. ora, diz-se que o bem existe naquilo que [20] é algo, em tal qualidade e na relação. mas o

72 1096a11-a34.

73 O termo tà oikeía vertido como familiaria, permite-nos traduzir por amizades, uma vez que significa pessoa íntima, próxima, sem ser necessariamente um parente, mas, inclusive podendo sê-lo, ainda que não seja este o caso, senão o de amizade mesmo que unia Platão e seu discípulo Aristóteles.

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

de amizade mesmo que unia Platão e seu discípulo Aristóteles. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 63 7/21/14
de amizade mesmo que unia Platão e seu discípulo Aristóteles. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 63 7/21/14
63 7/21/14 1:25 PM
63
7/21/14
1:25 PM

que existe por si mesmo, a substância, é anterior por natu- reza ao que é por relação (pois esta deriva e se assemelha ao acidente do ente). portanto, certamente nem haverá certa ideia comum nestes. Ademais, porque o bem igualmente é dito do ente, (pois tam- bém é dito daquilo que é, como de deus e [25] do intelecto 74 , da qualidade, nas virtudes, da quantidade, no mensurado, da relação, no útil, do tempo, na circunstância, e do lugar, no quarto e outras coisas semelhantes), é manifesto que certa- mente não será comum o que é universal e o uno. de certo, não se dirá de todas as categorias, mas de apenas uma. todavia, além disso, porque destas coisas que [30] existem a partir de uma única ideia, só há também uma única ciên- cia. e, de fato, haveria uma certa ciência de todos os bens. mas agora há muitas ciências sobre uma categoria, como a da circunstância, pois na guerra é a estratégia, na doença é a medicina, e na moderação na comida é, de fato, a medicina 75 , mas nos trabalhos são os exercícios.

Comentário de tomás de Aquino

1. ‘Mas, talvez, seja melhor investigar o bem universal’, etc. Depois que o Filósofo reprovou as opiniões dos que põem a felicidade

74 Optamos traduzir nõus, seguindo a versão latina vertida por intellectus, por ‘intelecto’, pois o termo grego permite-nos tal versão. Ademais, fica coerente com o comentário de Tomás sobre este texto.

75 Toda a sentença grega referente à passagem não foi vertida para o latim, cuja versão, aproximadamente, que propomos, é a seguinte: et moderationis in cibo quidem me- dicinalis]. Optamos, mesmo na ausência da versão latina, incluir sua tradução para o vernáculo, sem prejuízo para a compreensão do comentário de Tomás sobre este texto.

64 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

este texto. 64 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 64
este texto. 64 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 64
64 7/21/14 1:25 PM
64
7/21/14
1:25 PM

em alguns dos bens mostrados, aqui reprova a opinião dos que põem a felicidade em certo bem separado. Acerca disso, faz duas afirmações. Primeira, mostra que é necessário investigar essa opi- nião. Segunda, começa a reprová-la, onde se diz: ‘No entanto, os que introduziram esta opinião’, etc. Acerca da primeira, faz três colocações. Primeira, propõe a utilidade dessa investigação. Segunda, mostra o que parece repugnar essa investigação, onde se diz: ‘Ainda que tal investigação se torne hostil’, etc. Terceira, mostra que ele não deve se afastar da busca dessa verdade, onde se diz: ‘Mas, talvez, parecerá certamente melhor’, etc. Acerca da primeira, deve-se considerar que aquele bem separado no qual os platônicos fazem consistir a felicidade do homem, dizem ser o bem universal pelo qual se dizem participar todos os bens. Diz, portanto, que investigar acerca de se esse bem universal existe e examinar de que modo o afirmam, talvez, seja melhor do que investigar as opiniões precedentes, pois é uma investigação mais filosófica do que a anterior, como é mais pertinente à considera- ção do verdadeiro bem e do último fim do que o anterior, se essas opiniões são consideradas em si mesmas. Se, porém, forem consi- deradas na medida em que pertençam ao propósito, de investigar as opiniões anteriores, parece que foi mais conveniente ao propó- sito. E, por isso, disse talvez 76 , que é o advérbio da dúvida.

2. Depois, quando diz: ‘Ainda que tal investigação se torne hostil’ etc., expõe o que poderia retrair a investigação de tal opinião. E diz que essa busca é contrária a sua vontade, porque essa opinião foi introduzida pelos seus amigos, a saber, pelos platônicos. De fato, ele mesmo foi discípulo de Platão. Mas, ao reprovar a sua opinião, pareceria que diminuiria a sua honra. Mas, por isso, por maior força de razão diz isto aqui do que em outros livros, nos quais reprova a opinião de Platão, porque reprovar a opinião

76 “Mas, talvez, seja melhor investigar o bem universal e procurar saber como é definido”:

Cfr. Aristóteles, Ethica Nicomachea, I, 6, 1096 a 11-12.

liVro

i, lição

6

65

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

Nicomachea , I, 6, 1096 a 11-12. liVro i, lição 6 • 65 Sao Tomas de
Nicomachea , I, 6, 1096 a 11-12. liVro i, lição 6 • 65 Sao Tomas de
65 7/21/14 1:25 PM
65
7/21/14
1:25 PM

de um amigo não é contrário à verdade que se busca, princi- palmente, nas ciências especulativas, mas é contrário aos bons costumes, dos quais principalmente se trata neste livro.

3. Depois, quando diz: ‘No entanto, talvez, parecerá certamente melhor’ etc., mostra que ele não deve retrair isso. Na verdade, parece ser melhor, isto é, mais honesto e conforme os bons cos- tumes e, também, é inteiramente necessário que o homem não tema se opor aos mais próximos para o proveito da verdade. Com efeito, esse passo é necessário para os bons costumes, que sem ele não se poderia conservar a virtude. Exceto, pois, que o homem prefira os familiares à verdade, então seguir-se-á que, por defen- der os amigos, o homem proferiria falsos juízos e falsos testemu- nhos. O que é contra a virtude. E, apesar de preferirem aquele modo, pela razão pertinente a todos os homens, convém preferir a verdade aos amigos, de modo especial os filósofos, por serem professores da sabedoria, que é o conhecimento da verdade.

4. No entanto, que seja necessário preferir a verdade aos amigos, mostra por esta razão. É bem verdade que aquele que é mais amigo, deve ter mais deferência. Contudo, como temos amizade com ambos, a saber, com a verdade e com o homem, devemos mais amar a verdade do que o homem, porque ao homem deve- mos amar principalmente por causa da verdade e por causa da virtude como se diz no livro VIII dessa obra 77 . A verdade é este amigo mais excelente ao qual se deve reverência de honra. E a verdade é também algo divino, pois ela em Deus se encontra primeiro e de modo principal. E, por isso, conclui que é santo honrar antes a verdade do que os amigos humanos.

5. Com efeito, o peripatético Andrônico 78 diz que a santidade é o que faz os homens fiéis e servos do que é justo para com Deus.

77 Aristóteles, Ethica Nicomachea, VIII, 4, 1156 b 6-12.

78 Aristóteles (Pseudo), De laudabilibus bonis, f. 52rv [Bibliothéque Nationale de Pa- ris, Mn. Lat. 7695 A]. Texto equivocadamente atribuído a Andrônico de Rodes. Ver

66 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

de Rodes. Ver 66 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd
de Rodes. Ver 66 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd
66 7/21/14 1:25 PM
66
7/21/14
1:25 PM

Este foi também o parecer de Platão, que reprovando a opinião de seu mestre Sócrates disse que é necessário cuidar mais da ver- dade do que de qualquer outra coisa. E, em outra parte, diz: Só- crates é certamente um amigo, mas a verdade é um amigo maior; e, em outro lugar: de Sócrates há pouco para se cuidar, mas da verdade há muito 79 .

6. Depois, quando diz: ‘Mas os que introduziram esta opinião’ etc., reprova a posição de Platão que diz que a felicidade do homem consiste em certa ideia comum de bem. E acerca disso faz duas afirmações. Primeira, mostra que não há uma ideia comum de bem. Segunda, mostra que, se ainda houvesse, ela não seria con- siderada a felicidade, onde se diz: ‘Mas talvez esta questão deva ser deixada agora’ etc 80 . Acerca da primeira, faz duas afirmações. Primeira, mostra que não há uma ideia comum de bem. Segun- da, questiona sobre o modo de falar dos platônicos para nomear essa ideia, onde se diz: ‘Mas, certamente, alguém perguntaria’ etc 81 . Acerca da primeira, deve-se considerar que Aristóteles não pretende reprovar a opinião de Platão, enquanto este defendia um bem separado, do qual dependia todos os bens, pois o pró- prio Aristóteles no livro XII da Metafísica 82 sustentava que havia certo bem separado de todo o universo, ao qual todo universo se ordena, como o exército ao bem do general. No entanto, Aris- tóteles reprova a opinião de Platão, enquanto este afirmava que o bem separado é certa ideia comum a todos os bens. Ao qual reprova utilizando-se de três razões.

também: Gauthier et Jolif, Aristote. L’Éthique à Nicomaque. t. I, Intr., p. 64* cum adn. 175.

79 Uma forma próxima encontra-se em: Platão, Phaedo 91b-c. Ver, também: Liber de vita et genere Aristotilis [Ed. I. Düring, p. 154]

80 Aristóteles, Ethica Nicomachea, I, 8, 1096 b 30.

81 Aristóteles, Ethica Nicomachea, I, 7, 1096 a 34.

82 Aristóteles, Metaphysica, XII, 1975 a 11-15.

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

, Metaphysica , XII, 1975 a 11-15. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 6 •
, Metaphysica , XII, 1975 a 11-15. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 6 •

liVro

i, lição

6

67

67 7/21/14 1:25 PM
67
7/21/14
1:25 PM

7. Das quais, a primeira é tomada da mesma posição dos platôni- cos, que não formavam alguma ideia naqueles gêneros nos quais se encontra um anterior e um posterior, assim como é evidente nos números. De fato, o binário é naturalmente anterior ao ter- nário e assim, por isso, os platônicos não diziam que o número comum era certa ideia separada, mas concebiam cada um dos números ideais separados, como o binário, o ternário e outros se- melhantes. E essa razão é que isso em que se encontra o anterior e o posterior não parece ser de uma única ordem e, por conse- quência, nem participa igualmente de uma mesma ideia. Mas nos bens se encontra o anterior e o posterior. O que é evidente por isto, que o bem se encontra naquilo que é o que é, isto é, na substância e, de modo semelhante, na qualidade e, também, em outros gêneros. É evidente, porém, que o que é ente por si mes- mo, a saber, a substância, é naturalmente anterior a tudo aquilo que não tem o ser senão em comparação à substância, assim como a quantidade, que é a medida da substância, e a qualidade, que é a disposição da substância, e o ser para algo, que é a apti- dão da substância. E o mesmo ocorre nos outros gêneros, todos são assimilados por uma prolongação do ente, isto é, da substân- cia, que é ente, principalmente, a partir da qual propagam e se derivam todos os outros gêneros. Estes, também, se dizem entes, na medida em que ocorrem na substância. Por isso, conclui que não pode existir uma ideia comum de bem.

8. A segunda razão onde expõe: ‘Ademais, porque o bem igual- mente é dito do ente’ etc. Para a evidenciar isso, deve-se saber que Platão dizia que uma ideia é a razão e a essência de todas as coisas que participam dessa ideia. Do que se segue que das coisas que não há uma razão comum, não poderia haver uma única ideia. Ora, dos diversos predicamentos não há uma única razão comum. Com efeito, nada se predica univocamente deles. Contudo, o bem, assim como o ente, que são conversíveis, se encontra em qualquer predicamento, assim como no que é o que

68 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

que é o que 68 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de
que é o que 68 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de
68 7/21/14 1:25 PM
68
7/21/14
1:25 PM

é, ou seja, na substância, o bem se diz de Deus, em quem não cabe malícia, e do intelecto, que é sempre reto. No entanto, na qualidade, o bem é a virtude, que torna bom quem a possui. Na quantidade, porém o comedido, que é o bem em tudo o que está sujeito à medida. Na relação, pois, é o bem útil, que é o bem com relação ao fim. Porém, quando é o tempo, a saber, o oportu- no, e onde, o lugar conveniente para andar, como o quarto. E o mesmo é evidente nos outros gêneros. Logo, é evidente que não há um único bem comum, que, a saber, seja a ideia ou a razão comum de todos os bens, pois de outra forma seria necessário que o bem não se encontrasse em todos os predicamentos, mas em um só.

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

todos os predicamentos, mas em um só. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 6 •
todos os predicamentos, mas em um só. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 6 •

liVro

i, lição

6

69

69 7/21/14 1:25 PM
69
7/21/14
1:25 PM

lição 7 83

O

bem separado não é convenientemente definido como bem em

si;

e expõe quanta conveniência há entre platônicos e pitagóricos na

definição do bem.

texto de Aristóteles

Capítulo 6

[1096a] mas, certamente, alguém perguntaria [35] o que querem dizer com a ideia em si de cada coisa, e se em si no [1096b] [1] homem e num homem, é a mesma noção que a de homem. na verdade, enquanto homem, nada diferem. se, porém, for assim, nem diferirão quanto ao bem. mas, de fato, nem o bem será melhor por ser eterno. ora, nem é mais branco 84 o que dura mais que isto [5] que tem a dura- ção de um dia 85 .

83 1096a34-b29.

84 O advérbio leukóteron [de leukós, ‘branco’] não foi vertido para o texto latino que usamos. No entanto, optamos por incluir sua tração no vernáculo, sem prejuízo para o comentário do Aquinate.

85 O genitivo singular grego tou ephemerou, traduzido para o latim por unius diei, per- mite-nos, salvo melhor juízo semântico ou fraseológico, verter para a expressão ‘que tem a duração de um dia’, pois o adjetivo polychronion, no sentido de antigo, inclui o sentido de algo que dura mais de um dia. Nada obstaculizaria verter literalmente tou ephemerou por ‘do efêmero’. Contudo, para dar ênfase de que se trata de uma com- paração para marcar a individualidade em oposição, neste caso, com a universalidade, poder-se-ia dizer que cem anos são efêmeros se comparados à eternidade.

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

dizer que cem anos são efêmeros se comparados à eternidade. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 70 7/21/14
dizer que cem anos são efêmeros se comparados à eternidade. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 70 7/21/14

70

7/21/14 1:25 PM
7/21/14
1:25 PM

ora, é mais provável o que os pitagóricos parecem dizer acer- ca disso, pois propõem o uno na lista dos bens. e nisto, es- peusipo 86 certamente parece segui-los. mas, sobre isto, pois, que seja exposto então em outra discussão. Contudo, das coisas que foram ditas acerca disso emerge cer-

ta dúvida, por não ter tratado os discursos de todo bem e [10]

demonstrado. ora, foi dito que os bens 87 que são perseguidos

e amados por si mesmos são de uma espécie 88 . no entan-

to, os que são produzidos ou de algum modo conservados, ou os que são proibitivos dos contrários por causa daqueles,

existem de um outro modo. É manifesto, então, porque cer- tamente se deve dizer o bem de dois modos, este que existe por si, porém outro que existe por causa daquele. separemos, [15] então, dos úteis, os que são bons em si mesmos, e observemos se são ditos segundo uma ideia. mas quem certamente poria aqueles existentes por si mes- mos? seriam os que são buscados isolados de outros, como

o saber, o ver e certos prazeres e honras? estes, pois, ainda que sejam buscados por causa de outro, todavia, alguém cer- tamente poria um bem em si dos bens. ou [20] não há outro bem além da ideia? Como seria vã a ideia.

86 Espeusipo (Atenas, cerca de 393 aC -. 339 aC). Filósofo Grego considerado por Dió- genes de Laércio sobrinho de Platão, a quem sucedeu na direção da Academia em 357 ou 347 a.C. Sobre o seu pitagorismo: Cfr. Diogenis Laertii, De vitis, dogmatis et apophthegmatis clarorum philosophorum libri decem. Ed. H.G. Huebnerus. Vol. 1. Lipsiae: Sumptus fecit et venundat Carolus Franciscus Koehlerus, 1828, Lib. IV, c. 1. 1-12, pp. 260-263.

87 Optamos incluir o termo ‘bem’ na nossa versão, quebrando a literalidade, tendo em vista facilitar a compreensão do desenvolvimento do argumento.

88 Optamos pela literalidade da versão latina, embora em nada dificultaria se traduzísse- mos eidos por ideia, mas como Aristóteles enfatiza o uso do termo idéa para indicar a teoria platônica, justifica-se traduzir, neste contexto, eidos por espécie.

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

neste contexto, eidos por espécie. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 71 li V ro i , l
neste contexto, eidos por espécie. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 71 li V ro i , l

71

li V ro

i ,

l ição

7

71

7/21/14 1:25 PM
7/21/14
1:25 PM

se, dentre estas, forem as que são boas por si mesmas, a no- ção do bem precisaria parecer a mesma em todas elas, como a de brancura é a mesma na neve e na pintura. mas da honra, da prudência e do prazer são certamente outras noções dife- rentes [25] enquanto que boas. portanto, o bem comum não corresponde a uma ideia única. mas como é definido? não é, pois, pelo acaso de ser homôni- mos 89 . porém, certamente, por ser um único ser ou por todas tenderem para um. ou mais por analogia, pois, assim como a visão é boa no corpo, o intelecto é bom na alma e, certamen- te, uma coisa em outra coisa.

Comentário de tomás de Aquino

1. ‘Mas, certamente, alguém perguntaria’, etc. O Filósofo mostrou acima que não há uma única ideia comum de todos os bens. Contudo, como o bem separado os platônicos não só o chama- vam ideia de bem, mas também bem por si, aqui Aristóteles se propõe a indagar se isto se diz convenientemente. E acerca dis- so, faz duas afirmações. Primeira, mostra que esse bem separado não é nomeado convenientemente bem por si. Segunda, mos- tra que sustentar que o bem separado é um bem por si se opõe a dizer que é uma ideia comum a todos os bens, onde se diz:

‘Mas das coisas que foram ditas’, etc. Acerca da primeira faz três afirmações. Primeira, mostra que esse bem separado não se diz convenientemente bem por si. Segunda, exclui certa resposta, onde se diz: ‘Mas, de fato, nem o bem será melhor por ser eter-

89

Traduzimos homonymois por homônimos, não seguindo a versão latina aequivocis, sentido dado por Aristóteles na interpretação de homonymon no livro Categorias.

72 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

Categorias . 72 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 72
Categorias . 72 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 72
72 7/21/14 1:25 PM
72
7/21/14
1:25 PM

no’, etc. Terceira, compara o dito com a opinião dos pitagóricos, onde se diz: ‘Ora, é mais provável o que os pitagóricos parecem dizer’ etc.

2. Acerca da primeira, deve-se considerar que a esse bem separado,

que é a causa de todos os bens, é necessário pôr no mais alto grau de bondade do que o das coisas que estão junto a nós, porque é o último fim de todos. Mas, pelo dito, parece que não está em um grau mais elevado de bondade que os outros bens. E, por isso,

é evidente que cada uma das ideias separadas, Platão as chama

existente por si, assim como chama o homem por si e o mesmo para o cavalo, chama-o o cavalo por si. É evidente, porém, que uma e mesma é a noção de homem, a que está junto de nós e

do homem por si, isto é, separado. E isso é evidente porque o homem separado e o homem que existe na matéria não diferem enquanto homem, mas diferem conforme outra coisa, enquanto

aquele é imaterial e esse é material, assim como o animal co- mum e o homem não diferem pela noção de animal, mas dife- rem nisto, que o homem acrescenta o racional sobre o animal. Assim, também parece que, na noção de homem, o homem se- parado não difere deste homem, mas aqui o homem acrescenta

a matéria. Portanto, pela mesma razão esse bem separado que

chama o bem por si não terá outra natureza na bondade do que a que tem este bem particular, porém poderá haver uma diferença quanto a outras coisas que estão fora da noção de bem.

3. Depois, quando diz: ‘Mas, de fato, nem o bem será melhor por ser eterno’ etc., exclui certas respostas. Com efeito, poderia al- guém responder que aquele bem por si é melhor porque é per- pétuo. Estes, porém, são corruptíveis. Contudo, o que é durável parece ser melhor e mais elegível. Ora, para excluir essa respos- ta, que ser perpétuo não faz com que aquele bem por si seja melhor. É verdade que o perpétuo difere do não perpétuo pela duração. Ora, a diferença da duração de alguma coisa está para além da noção da própria espécie, assim como a vida que só dura

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

assim como a vida que só dura Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 7 •
assim como a vida que só dura Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 7 •

liVro

i, lição

7

73

73 7/21/14 1:25 PM
73
7/21/14
1:25 PM

um dia e a vida que é perdurável não diferem em razão da vida, mas só diferem na duração. Logo, se o bem se toma como uma

única espécie, a duração estará fora da noção de bem. E, assim,

a partir disso que é algo perdurável, não difere segundo a noção

de bem, como sendo melhor do que se só durasse apenas um dia.

4. Ora, se sustentarmos que não há uma só espécie ou ideia de bem, como afirmaram os platônicos, mas que o bem se diz como

o ente em todos os gêneros, então isto mesmo que é mais durável

será um bem nesses mesmos gêneros no tempo, por isso acres- centa à bondade. E, assim, o que é durável será melhor. Mas isto

não se pode dizer, se o bem é uma espécie por si e, assim, segue-

se que tampouco é melhor por ser perpétuo.

5. Depois, quando diz: ‘Ora, é mais provável o que os pitagóricos parecem dizer’ etc., compara a posição platônica com a pitagóri-

ca. Acerca disso, deve-se considerar que, segundo os platônicos,

o bem e o uno teriam uma mesma razão. E, por isso, susten-

tavam que é o mesmo o uno por si e o bem por si, porque era necessário que colocassem o uno como primeiro bem por si.

O que, de fato, não fizeram os pitagóricos. Mas punham o uno

como algo contido na consideração do bem, sob o qual punham:

a

luz, o uno, a quietude, o masculino, a direita, o finito, o ímpar,

o

reto, o quadrado; e, ao contrário, porém, sob o mal punham:

as

trevas, a pluralidade, o movimento, o feminino, a esquerda,

o

infinito, o número par, a curva e outra parte mais comprida.

6. Portanto, Aristóteles diz que quanto a esse ponto é mais provável

o

que disseram os pitagóricos do que os platônicos, porque não

se

restringiram a sustentar uma só noção de bem. E por isso, Es-

peusipo, que era sobrinho de Platão, filho da sua irmã, e sucessor

na sua escola, neste ponto não foi seguidor de Platão, mas antes

dos pitagóricos. Entretanto, diz Aristóteles que sobre isso já se referiu em outra obra, a saber, na Metafísica 90 .

90 Aristóteles, Metaphysica, I, 986 a 22-26; XI, 1066 a 13-17; XII, 1072 b 30 ss.

74 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

1072 b 30 ss. 74 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de
1072 b 30 ss. 74 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de
74 7/21/14 1:25 PM
74
7/21/14
1:25 PM

7.

Depois, quando diz: ‘Contudo, das coisas que foram ditas’ etc., mostra que dizer que esse bem separado é um bem por si, opõe-

se a dizer que há uma única ideia de todos os bens. Acerca disso

faz três afirmações. Primeira, mostra que o bem por si não pode

ser uma ideia comum de todos os bens. Segunda, que não pode haver uma ideia comum de todas as coisas que se dizem bens

por si, quando diz: ‘Separemos, então, dos úteis, os que são bons em si mesmos’ etc. Terceiro, responde a essa questão, onde se diz: ‘Mas como é definido?’ etc. Diz, então, primeiro que contra

o dito pelos platônicos, ocultamente aparece certa dúvida por

causa disto: quando se fala daquele bem por si, não parece que os seus discursos se digam de todo o bem, nem quanto à aparên- cia mesma das palavras, nem se faz conveniente em relação às coisas. E isso, porque diversas são as espécies ou noções de bens.

8. Com efeito, se dizem uma única espécie ou noção de bem, aqueles que por si mesmos são perseguidos, isto é, que são bus- cados ou desejados, e queridos por diligência, isto é, amados. E segundo outro sentido, dizem-se bens os que de alguma maneira fazem ou conservam aqueles que são os bens por si mesmos. Terceiro modo, de fato, diz-se que alguns bens impedem os seus contrários. Assim, portanto, é evidente que o bem se diz de duas maneiras. Com efeito, uns são bens por si mesmos, a saber, os primeiros, dos quais foram ditos, que são buscados por si mes- mos. Os outros, porém, a saber, os que produzem ou conservam e, também, os que impedem os contrários, dizem-se bens por causa daqueles que são bens por si. E, assim, é evidente que a noção de bem por si não pode ser apta para todos os bens.

9. Depois, quando diz: ‘Separemos, então, dos úteis, os que são bons em si mesmos’ etc., mostra que uma noção de bem por si não pode convir a todos os bens por si. E primeiro diz qual é a sua intenção. Acerca disso, deve-se considerar que os bens que produzem ou conservam os bens por si e impedem os contrários se dizem bens por serem úteis. Portanto, porque é evidente que

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

Portanto, porque é evidente que Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 7 • 75 75
Portanto, porque é evidente que Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 7 • 75 75

liVro

i, lição

7

75

75 7/21/14 1:25 PM
75
7/21/14
1:25 PM

tais não se aplicam à noção de bem por si, separamos desses bens os que são bens por si, e vemos se se pode dizer bem, segundo uma única ideia, a que denomina o bem por si.

10. Segundo, onde se diz: ‘Mas quem certamente poria aqueles existentes por si mesmos?’ etc., para investigar isso, propõe cer- ta questão: quais bens, a saber, devem ser postos a existir por si

mesmos? E demarca essa questão em duas partes. Das quais, na primeira, pergunta se devem chamar-se bens por si a quaisquer bens isolados que são buscados, isto é, ainda que existam só, a saber, que não se seguiria deles nenhuma utilidade, como sa- ber, ver, certos prazeres e honras. Com efeito, esse tipo de coisa, por mais que, às vezes, busque-se por alguma outra, para a qual são úteis, no entanto, não valem para nenhuma outra, se fossem boas e desejáveis por si. Contudo, na segunda parte da questão, pergunta se nada mais é bom em si a não ser apenas a ideia.

11. Terceiro, onde se diz: ‘Como seria vã a ideia’ etc., deduz esta segunda parte imediata da questão. E conclui que se nenhum outro fora um bem em si, a não ser a ideia, esta será uma ideia inútil, isto é, sem eficácia. Com efeito, a ideia se põe como cer- to exemplar cuja similitude está impressa em outros. Contudo, um exemplar, ao qual nada se assemelhe, é supérfluo. Por isso, segue-se que a ideia seja vã, se nenhum outro fosse bem por si.

12. Quarto, onde se diz: ‘Se, dentre estas, forem as que são boas por

si mesmas’ etc., deduz a primeira parte. E diz que, se todas as

referências anteriores fossem bens por si, por participar da ideia, que é o bem por si, será necessário que em tudo apareça a mes- ma noção de bem, como na neve e na cera há a mesma noção de brancura, porque eles participam de uma só forma. Ora, isso não

parece ser verdadeiro no que foi dito. Com efeito, a honra e a prudência e o prazer têm diversas noções não só próprias como,

a saber, a noção de honra, enquanto é honra, difere da noção

de prudência enquanto é prudência, mas também enquanto são bens, pois não há uma única noção de bem em todos eles, nem

76 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

eles, nem 76 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 76
eles, nem 76 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 76
76 7/21/14 1:25 PM
76
7/21/14
1:25 PM

são apetecíveis segundo um mesmo motivo. Por isso, se segue que aquilo que chamam bem em si não é algo comum, como uma única ideia comum a todos os bens.

13. Depois, quando diz: ‘Mas como é definido?’ etc., responde à certa questão tácita: como esses bens se dizem bens segundo as diversas noções? E isso, de fato, tem lugar na questão, porque algo se diz de muitos modos, por diversas razões, e ocorre de dois modos. De um modo, conforme as noções inteiramente diversas que não têm relação com algo uno; e esses são chamados equí- vocos por acaso, porque, a saber, ocorre que um homem coloque um único nome a uma coisa e outro põe esse mesmo em outra coisa, como é evidente especialmente nas coisas denominadas com o mesmo nome por diversos homens. De outro modo, um nome se diz de muitas coisas conforme noções não totalmente diversas, mas por conveniência em algo. Às vezes em que, de fato, se referem a um só princípio, como algo se diz militar, ou porque é um instrumento do soldado, como a espada, ou porque serve para protegê-lo como a armadura, ou porque é um veículo, como o cavalo. Outras vezes, de fato, porque se referem a um único fim como a medicina se diz sã, porque produz a saúde, a dieta, de fato, porque conserva a saúde, e a urina porque é sinal da saúde. E, às vezes, segundo diversas proporções em relação ao mesmo sujeito, assim como se diz que uma qualidade é ente porque é uma disposição do ente por si, isto é, da substância, a quantidade porque é, de fato, a medida da mesma e, assim, das outras, ou segundo uma única proporção para os diversos sujei- tos. Com efeito, tem a mesma proporção a vista com relação ao corpo e o intelecto com relação à alma. Por isso, como a vista é uma potência de um órgão corporal, assim, também, o intelecto é a potência da alma, sem a participação do corpo.

14. Assim, portanto, Aristóteles diz que o bem se diz de muitos mo- dos, não segundo noções profundamente diferentes, assim como sucede nas coisas que são equívocas por acaso, mas enquanto

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

são equívocas por acaso, mas enquanto Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 77 liVro i, lição 7 •
são equívocas por acaso, mas enquanto Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 77 liVro i, lição 7 •

77

liVro

i, lição

7

77

7/21/14 1:25 PM
7/21/14
1:25 PM

todos os bens dependem de um primeiro princípio de bondade, ou enquanto se ordenam a um único fim. Com efeito, não quis Aristóteles que aquele bem separado fosse a ideia e a razão de to- dos os bens, mas o princípio e o fim. Ou, também, todos os bens se dizem melhor segundo uma analogia, isto é, por uma mesma proporção, tal como a visão é o bem do corpo, e o intelecto é o bem da alma. Por isso, prefere esse terceiro modo, porque se toma segundo a bondade inerente às coisas. Contudo, os dois primeiros modos se tomam segundo a bondade separada, pela qual não se denomina algo propriamente assim.

78 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

assim. 78 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 78 7/21/14
assim. 78 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 78 7/21/14
78 7/21/14 1:25 PM
78
7/21/14
1:25 PM

lição 8 91

Se houvesse a ideia de bem, ou do bem separado, isto não seria por causa desta ciência que o investiga, porque o seu estudo pertenceria a outra ciência.

texto de Aristóteles

Capítulo 6

[1096b] [30] mas, talvez, esta questão deva ser deixada ago- ra. Certificar, pois, acerca daqueles outros temas certamente será mais próprio da filosofia. porém, algo símile ocorre sobre a ideia. se houver, de fato, um bem que seja predicado comum ou separável e que o mesmo exista por si, será manifesto que certamente não será praticado nem alcançado pelo homem. no entanto, agora, algo tal 92 [35] se investiga. porém, talvez, para alguém certamente parecerá ser melhor [1097a] [1] conhecer este bem para a aquisição e prática dos bens. pois, ao ter este bem como exemplo conheceremos melhor os bens que são bons para nós e, se conhecermos, poderemos alcançá-los.

91 1096b30-1097a14.

92 A expressão toiouton ti [tale aliquid], vertido por ‘a algo tal’, refere-se à intenção de Aristóteles de investigar algo que possa ser praticado [prakton] e alcançado [kteton] pelo homem [anthropo].

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

praticado [prakton] e alcançado [kteton] pelo homem [anthropo]. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 79 7/21/14 1:25 PM
praticado [prakton] e alcançado [kteton] pelo homem [anthropo]. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 79 7/21/14 1:25 PM
79 7/21/14 1:25 PM
79
7/21/14
1:25 PM

de fato, este argumento tem certa probabilidade, mas parece discordar da ciência. [5] todos, pois, tendem a algum bem por cujo conhecimento deste procuram suprir o que lhes fal- ta, na medida em que não é bem racional que todos os artífi- ces ignorem e nem investiguem tal auxílio. todavia, parece inútil. o que ajudaria o tecelão ou o artesão em sua arte conhecer este bem em si? [10] ou como um mé- dico ou um soldado seria melhor por ter contemplado a pró- pria ideia? de fato, não parece, pois, que um médico tenha a intenção de conhecer a saúde em si, mas a saúde do homem e, talvez, mais esta do que aquela, pois o médico pretende curar cada homem. na verdade, já foi dito bastante sobre isto.

Comentário de tomás de Aquino

1. ‘Mas, talvez, esta questão deva, pois, ser deixada agora’ etc. De- pois que o Filósofo mostrou que não há uma ideia comum de bem, agora mostra que, ainda que exista, não pertenceria ao propósito, na medida em que ela mesma fosse a investigação da felicidade. E acerca disso, faz três afirmações. Primeira, prova o proposto. Segunda, apresenta certa resposta, onde diz: ‘Porém, talvez, para alguém certamente parecerá ser melhor’ etc. Tercei- ra, a exclui, onde diz: ‘De fato, este argumento tem certa pro- babilidade, mas parece discordar da ciência’ etc. Diz, portanto, primeiro, que essa questão, a saber, de que modo o bem se diz segundo uma ou diversas opiniões, é necessário agora não in- vestigar, pois determinar isso com certeza pertence mais a outra parte da filosofia, a saber, à metafísica. E, de modo semelhante, também, a consideração da ideia de bem não é própria à presen- te intenção. E, a partir desses raciocínios, assinala que se existisse

80 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

se existisse 80 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 80
se existisse 80 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 80
80 7/21/14 1:25 PM
80
7/21/14
1:25 PM

um único bem univocamente predicado de todos, ou se também existisse por si mesmo, seria evidente que não será por tal bem que o homem agirá ou o alcançará. Agora, porém, buscamos algo assim, operável e alcançável.

2. Com efeito, buscamos a felicidade, que é o fim dos atos huma- nos. Ora, o fim do homem ou é o mesmo que a sua operação

ou é alguma coisa exterior. De fato, esta última pode ser o fim do homem ou porque é algo feito por ele mesmo, como a casa

é o fim da edificação, ou porque é algo possuído, assim como um campo é o fim de uma compra. Contudo, é manifesto que

o bem comum ou separado não pode ser a operação mesma do

homem, tampouco é algo feito pelo homem. Nem ainda parece algo possuído pelo homem, tal como se possuem as coisas que se usam nesta vida. Por isso, é evidente que esse bem comum ou separado não é o bem humano que agora procuramos.

3. Depois, quando diz: ‘Porém, talvez, para alguém certamente pa-

recerá ser melhor conhecer este bem’ etc., apresenta certa res- posta. Com efeito, alguém poderia dizer que esse bem separado, ainda que não seja feito ou possuído pelo homem, é, porém,

o exemplar de todos os bens realizados e possuídos. Contudo,

para procurar o exemplar deve-se querer buscar o que existe

conforme o exemplar. E, por isso, parece oportuno, que alguém conheça o próprio bem separado por causa dos bens possuídos

e realizados. E isto porque, tendo o bem separado como cer-

to exemplar, poderemos conhecer mais e, consequentemente, obter melhor as coisas que são um bem para nós, assim como os que observam certo homem podem descrever de modo mais apropriado a sua imagem.

4. Depois, quando diz: ‘De fato, este argumento tem certa proba- bilidade, mas parece discordar da ciência’ etc., refuta com dois argumentos a resposta dada. Dos quais o primeiro é tomado do que se observa comumente. E diz que a resposta dada parece ser verossímil, mas parece discordar com o que se observa em todas

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

com o que se observa em todas Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 8 •
com o que se observa em todas Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd liVro i, lição 8 •

liVro

i, lição

8

81

81 7/21/14 1:25 PM
81
7/21/14
1:25 PM

as ciências. Com efeito, todas as ciências e artes, como foi consi- derado acima, apetecem algum bem, e cada uma delas examina aquilo que é necessário para conseguir o fim buscado. Contudo, nenhuma usa o conhecimento daquele bem separado. Isso não seria razoável se dele se seguisse alguma ajuda. Logo, em nada contribui para os bens realizados e possuídos o conhecimento desse bem separado.

5. Coloca o segundo argumento, onde diz: ‘Todavia, parece inútil.

O que ajudaria o tecelão ou o artesão em sua arte conhecer este

bem em si?’ etc., que é tomado a partir da própria natureza das coisas. E diz que esse bem separado é inteiramente inútil para

as ciências e as artes, quanto ao exercício delas, porque o tecelão

ou o artesão em nada são auxiliados no exercício das suas ativida- des adquirindo o conhecimento do bem separado. E, também, quanto à aquisição da ciência e da arte. Com efeito, nenhum médico ou soldado é mais eficiente porque contemplam a ideia separada de bem. Ressalta, pois, o argumento: que é preciso um exemplar, para que seja necessário examiná-lo para saber se o seu ser é conforme ao operado. Ora, a arte não é exercida mediante certo bem comum ou abstrato, mas no concreto e no singular

e que ela seja realizada pelo homem, pois o médico não tende

à saúde em abstrato, mas em concreto, a saber, a ela, que é do

homem e no singular, isto é, o que é deste homem, porque cura

não o homem universal, mas o singular. Por isso, se segue que

o conhecimento do bem universal e separado não é necessário

nem para a aquisição das ciências, nem para o exercício delas.

6. Mas, por último, conclui terminando apenas o que foi dito das opiniões sobre a felicidade.

82 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii)

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

a felicidade. 82 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 82
a felicidade. 82 • Comentário à ÉtiC a a niCômaCo (i-iii) Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd 82
82 7/21/14 1:25 PM
82
7/21/14
1:25 PM

lição 9 93

Investiga-se o que é a felicidade. Que a felicidade é o fim último: e são postas as condições de acordo com o fim último.

texto de Aristóteles

Capítulo 7

[1097a] [15] mas, vamos voltar de novo à busca do bem, para saber o que é. parece, pois, que o bem difere em uma e outra operação e arte. uma, pois, na medicina, outra na guerra e, de modo semelhante, no resto. que é, então, o bem de cada um? A causa de que o resto é operado? ora, isto na medicina é a saúde, na guerra [20] é a vitória, na arquitetura é a casa, mas em outra, outro. ora, em toda operação e eleição o fim buscado é, pois, a causa de todo o restante pela qual todas são operadas. portanto, se há um fim de todas as operações, este será, pois, o bem buscado pela operação. se, no entanto, há muitos, o discurso certamente deve chegar a este próprio que transcende. isto [25], porém, devemos tentar esclarecer mais. ora, por- que parece haver muitos fins e escolhemos alguns deles por causa de outros, como a riqueza, as flautas e, no geral, todos

93

1097a15-b21.

Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd

como a riqueza, as flautas e, no geral, todos 9 3 1097a15-b21. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd
como a riqueza, as flautas e, no geral, todos 9 3 1097a15-b21. Sao Tomas de Aquino_diagramacao.indd
83 7/21/14 1:25 PM
83
7/21/14
1:25 PM

os instrumentos, é manifesto, portanto, que não são todos perfeitos 94 . ora, o ótimo parece o que é perfeito. portanto, se há, pois, apenas uma coisa perfeita, esta certamente será a que procuraremos [30], e se há muitos destes, procurare- mos o mais perfeito. ora, o mais perfeito dizemos ser o que

é por si mesmo perseguido, este que nunca é elegível por