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O

MUNDO RESTAURADO

EM contraste com a imagem do Kissinger que os meios de comunicação de massa nos fazem
consumir diariamente, este livro nos mostra a face menos conhecida e por certo a mais
reveladoramente autêntica do conselheiro especial do Presidente Nixon. Autêntica porque foi ela
sem dúvida que o habilitou a desempenhar um papel marcante na atual política externa dos Estados
Unidos. Neste livro, o infatigável negociador norte-americano cede lugar ao scholar, ao estudioso da
Ciência Política, ao intérprete da História, ao teórico das relações internacionais.

Embora O Mundo Restaurado tenha por tema um período aparentemente longínquo da vida
européia — a fase final das guerras napoleônicas, o rescaldo das hostilidades e a atuação de
estadistas como o britânico Castlereagh e o austríaco Metternich, que tomaram a si o encargo de
restabelecer o equilíbrio internacional do poder — a análise brilhante do professor Kissinger traça
analogias que dão a seu trabalho forte sabor de atualidade. Manejando com segurança um
instrumental teórico que lhe permite elucidar os conceitos doutrinários da política do
conservadorismo no século XIX, expõe as soluções encontradas pelo pensamento conservador para
os problemas suscitados por uma era revolucionária. Com isto nos faz entrever as formas
embrionárias dos conflitos europeus que amadureceram durante precisamente cem anos para
explodir por fim nas duas Grandes Guerras da primeira metade do século XX.

Por outro lado, a abordagem do papel da diplomacia, que logrou transformar uma cruzada punitiva
numa série de compromissos e tratados que, apesar de imperfeitos, evitaram por longo tempo novos
derramamentos de sangue, leva o leitor a pensar em situações concretas dos nossos dias. Deste
modo, o livro ajuda a compreender o desempenho pessoal do Kissinger mediador, do homem que
não somente negociou as condições do cessar-fogo no Vietnã como também, através de suas
gestões, vem preparando o caminho para uma paz permanente.

O AUTOR

Nascido em 1923, Henry Alfred Kissinger é professor de Administração Pública na Universidade de


Harvard e membro do corpo decente do Centro de Relações Internacionais da mesma universidade.
Exerce também as funções de Diretor de duas outras instituições de Harvard: o Seminário
Internacional e o Programa de Estudes de Defesa. É autor de vários livros sobre temas de sua
especialidade. Destacam-se, entre outros, Nuclear Weapons and Foreign Policy, que obteve o Prêmio
Woodrow Wilson de 1958, The Necess.ty for Choice: Prospects of American Foreign Policy (1961) e
The Troubled Partnership (1965). Tem publicado numerosos artigos e ensaios em Foreign Affairs,
Harper’s Magazine e New York Times Sunday Magazine.

Sobre sua atuação como mediador, escreveu recentemente o colunista Hugh Sidey, da revista Time:
“Kissinger trouxe para a diplomacia uma compaixão especial pelo sofrimento humano e uma
compreensão dos problemas políticos de outros homens. Sem pressa, sabe ouvir durante horas a fio,
perscrutando a mente dos adversários de outros tempos, a fim de captar o que pensam, as questões
com que se defrontam, o que desejam. (...) É um enfoque diplomático totalmente novo.”
HENRY A. KISSINGER

O MUNDO RESTAURADO

Tradução de

Heitor Aquino Ferreira

1973
Título do original norte-americano: A WORLD RESTORED

Copyright © 1957 by Henry Kissinger

Direitos reservados para o Brasil:

Copyright da Livraria José Olympio Editora, S.A.

Rio de Janeiro, República Federativa do Brasil.

Este livro não pode ser vendido em Portugal e suas Províncias.

Capa

Eugênio Hirsch

FICHA CATALOGRÁFICA

(Preparada pelo Centro de Catalogação-na-fonte do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, GB)

Kissinger, Henry Alfred, 1923-

K66m O mundo restaurado; trad. de Heitor Aquino Ferreira. Rio de Janeiro, Livraria José
Olympio Editora, 1973. xii, 324p. ilust. 21 cm.

Bibliografia

1. Europa — História — Séc. XIX. 2. Europa — Política — Séc. XIX. 3. França — História —
Revolução. 4. Viena. Congresso, 1814-1815. I. Título.

73-0067 CDD-940-28
A

William Y. Elliott
AGRADECIMENTOS

Na preparação deste livro, tive conselho e ajuda de muitas pessoas que me permitiram abusar de
seu interesse ou boa disposição. Sinto-me especialmente em dívida com as seguintes:

Com McGeorge Bundy, por muitas conversações estimulantes e pela apreciação de parte do
manuscrito.

Com Carl J. Friedrich, por encorajar-me em minha tentativa de combinar um estudo de história com
o estudo da política.

Com Klaus Epstein, por ter lido quase todo o manuscrito e moderado algumas das minhas
generalizações com seu extraordinário conhecimento histórico.

Com Stephen Graubard, pela leitura de parte do manuscrito e pelo estímulo de tantas noites de
conversação.

Com John Conway, por sua refinada interpretação da natureza do conservadorismo.

Corrine Lyman reviu todo o original e fez excelentes sugestões.

Nancy Jarvi datilografou o manuscrito.

Sem a paciência de minha esposa, e sua ajuda, este livro jamais se completaria.

Dediquei o livro ao Professor William Y. Elliott, a quem devo muito mais, intelectual e pessoalmente,
do que algum. dia poderei pagar.

Desnecessário dizer que as falhas deste livro são todas minhas.

H. K.

1/ INTRODUÇÃO

É MUITO NATURAL uma era que se defronta com a ameaça da extinção termonuclear voltar seus
olhos com nostalgia para outros períodos em que a diplomacia trazia no bojo penalidades menos
severas, em que as guerras eram limitadas e uma catástrofe quase inconcebível. Tampouco é
estranho, em tais circunstâncias, que alcançar a paz se torne a preocupação dominante, e que a
própria necessidade de paz atue como fonte do impulso-motor de sua consecução.

Mas alcançar a paz não é tão fácil quanto desejá-la. Não sem razão se associa a história à figura de
Nêmesis, que defrauda o homem ao atender-lhe os desejos de forma diferente ou conceder em
demasia aquilo que ele pede em suas preces. As épocas que, em retrospecto, parecem ter sido mais
pacíficas, porfiavam menos pela paz. As que buscavam a paz sem descanso revelaram menor
capacidade de obter a tranquilidade desejada. Sempre que a paz — entendida como abstenção de
guerra — foi o objetivo principal de uma potência, ou grupo de potências, o sistema internacional
esteve à mercê do membro mais inescrupuloso da comunidade das nações. Toda vez que a ordem
internacional reconheceu que não podia transigir com certos princípios, mesmo em favor da paz, a
estabilidade, baseada no equilíbrio de forças, tornou-se, pelo menos, imaginável.

A estabilidade, portanto, muitas vezes resultou, não de uma procura da paz, mas de uma
legitimidade aceita por todos. Esta “legitimidade” a que me refiro não deve ser confundida com
justiça. Significa apenas um consenso internacional sobre a natureza de combinações que
funcionem, e sobre fins e métodos admissíveis para política exterior. Supõe a aceitação da estrutura
da ordem internacional por todas as grandes potências, pelo menos até o ponto em que nenhum
Estado esteja tão insatisfeito que, a exemplo da Alemanha após o Tratado de Versalhes, expresse
sua insatisfação por meio de uma política externa revolucionária. Uma ordem legitimada não torna
os conflitos impossíveis, mas limita-lhes a amplitude. Pode haver guerras, mas serão feitas em nome
da estrutura existente, e a paz que vier será justificada como uma melhor expressão do consenso
geral, da “legitimidade" A diplomacia no sentido clássico, conciliação de divergências pela
negociação, só é possível nas ordens internacionais “legitimadas”.

Sempre que existir uma potência que considere opressiva a ordem internacional ou a maneira como
se legitimou, as relações entre ela e as demais potências serão revolucionárias. Em tais casos, o
problema já não é a conciliação de divergências dentro de um dado sistema, mas sim o próprio
sistema. Podem ocorrer contemporizações, mas serão concebidas na forma de manobras táticas de
consolidação de posições para o ajuste de contas inevitável, ou de instrumentos para minar o moral
do antagonista. Sem dúvida, a motivação da potência revolucionária pode ser defensiva, e sinceros
seus protestos de que se julga ameaçada. Mas o traço distintivo de uma potência revolucionária não
é sentir-se ameaçada — tal sensação é inerente à natureza de relações internacionais baseadas em
Estados soberanos — e sim o fato de que nada mais pode restituir-lhe a confiança. Somente a
segurança absoluta — a neutralização do adversário — é considerada garantia suficiente, e assim o
desejo de segurança absoluta por parte de uma potência significa insegurança absoluta para todas
as demais.

A diplomacia, arte de conter o emprego da força, não pode operar em tal ambiente. Constitui um
erro presumir-se que a diplomacia sempre consegue acomodar disputas internacionais quando
existe “boa-fé” e “desejo de chegar a um acordo”. Pois numa ordem internacional revolucionária,
cada potência parece, a seu adversário, carecer exatamente dessas qualidades. Os diplomatas ainda
podem reunir-se, mas já não conseguem persuadir, pois deixaram de falar a mesma língua. Na falta
de um consenso sobre o que seja uma exigência razoável, as conferências diplomáticas ficam na
repetição estéril de posições básicas e acusações de insinceridade, ou protestos contra
“despropósitos” e “subversão”. Transformam-se em encenações que visam a engajar num dos
sistemas em oposição as forças ainda não comprometidas.

Para as potências há muito acostumadas à tranquilidade, e sem experiência de reveses, esta é uma
lição difícil de absorver. Embaladas por um período de estabilidade que lhes parecera permanente,
sofrem da quase impossibilidade de acreditar na afirmação da potência revolucionária quando diz
que tenciona demolir a estrutura existente. Os defensores do status quo mostram, então, tendência
a tratar a potência revolucionária como se seus protestos fossem meramente táticos; como se ela,
no fundo, aceitasse a legitimidade existente, apenas exagerando na apresentação de seu ponto de
vista para fins de barganha; como se a motivassem agravos específicos a aplacar por meio de
concessões limitadas. Os que alertam a tempo contra o perigo são considerados alarmistas; os que
aconselham adaptação às circunstâncias são os equilibrados e sensatos, pois têm do seu lado todas
as boas “razões”: os argumentos aceitos como válidos na estrutura existente. O “apaziguamento”,
nos casos em que não seja ardil para ganhar tempo, é o resultado da incapacidade de enfrentar uma
política de objetivos ilimitados.

Mas é da essência de uma potência revolucionária possuir a coragem de suas convicções, o desejo,
na verdade a ânsia, de levar seus princípios às últimas consequências. Qualquer outra coisa que a
potência revolucionária venha assim a conseguir tende a corroer, senão a própria legitimidade da
ordem internacional, pelo menos o comedimento com que essa ordem funciona. A característica de
uma ordem estável é a espontaneidade; a essência de uma situação revolucionária é o seu
constrangimento. Os princípios de obrigação, num período de legitimidade, são pressupostos com
tanta naturalidade que quase não se mencionam, o que faz com que tais períodos pareçam à
posteridade superficiais e farisaicos. Numa situação revolucionária, os princípios são tão
fundamentais que constituem tema constante. A própria esterilidade desse afã em breve retira-lhes
todo o significado, sendo muito comum verem-se os dois lados de uma controvérsia invocar sua
versão particular da “verdadeira” natureza da legitimidade em termos idênticos. E estando os
sistemas antagônicos, em situações revolucionárias, menos preocupados com o acerto de diferenças
do que com a subversão de lealdades, a diplomacia cede lugar à guerra ou a uma corrida
armamentista.

II

Este trabalho tratará de uma década que coloca estes problemas em nítido relevo: a conclusão e as
consequências das guerras da Revolução Francesa. Poucos períodos tão bem ilustram o dilema
posto pelo surgimento de uma potência revolucionária, a tendência para os termos mudarem de
significado e até mesmo os relacionamentos mais comuns alterarem sua importância. Uma nova
filosofia proclamava Ousadamente que remodelaria a estrutura de compromissos existente, e a
França Revolucionária lançou-se a efetivar essa pretensão. “Como se legitima a autoridade?” Assim
formulou Rousseau a questão básica da política e, por mais que tentassem, seus opositores não
conseguiriam eliminar a pergunta. Daí em diante, as disputas não mais diziam respeito à conciliação
de divergências dentro de uma estrutura aceita, mas à validade da própria estrutura; a luta política
tornara-se doutrinária: o equilíbrio de poder, que se estabelecera tão intrincadamente durante o
século XVIII, de repente perdeu a flexibilidade, e o contrabalanço europeu veio a parecer uma
proteção insuficiente para as potências, frente a uma França que proclamava a incompatibilidade
de suas máximas políticas com aquelas dos demais Estados. Mas o tíbio esforço da Prússia e da
Áustria para reintegrar o legítimo governante da França na antiga posição somente acelerou o élan
revolucionário. Um exército francês com base no alistamento compulsório, inconcebível até para o
mais absolutista soberano pela graça de Deus, derrotou os exércitos invasores e transbordou sobre
os Países Baixos. Depois surgiu um conquistador que anelava transformar em realidade as
reivindicações morais da Revolução Francesa. Sob o impacto de Napoleão, desintegrou-se não
apenas o sistema de legitimidade do século XVIII, mas com ele as salvaguardas físicas que, ao
menos para os contemporâneos, aparentavam ser os requisitos prévios da estabilidade.

O Império Napoleônico, com toda a sua extensão, demonstrou, não obstante, a fragilidade de uma
conquista não aceita pelos povos subjugados. Embora Napoleão tenha consumado a derrubada do
conceito existente de legitimidade, não conseguiu substituí-lo por outro. A Europa foi unificada do
Niemen ao Golfo de Biscaia, mas a força tomara o lugar do compromisso; os feitos materiais da
Revolução Francesa deixaram para trás sua base moral. A Europa estava unida, mas apenas no
sentido negativo, na sua oposição a um poder tido como estrangeiro (a indicação mais segura da
ausência de legitimidade), uma consciência de “não-identidade” que logo se viu dotada de
pretensões morais e se tornou a base do nacionalismo.

Quando Napoleão foi derrotado na Rússia, o problema de erigir uma ordem legítima apresentou-se
à Europa em sua forma mais concreta. A oposição é capaz de criar amplos consensos, talvez os mais
abrangentes que se podem obter, mas seus membros, unidos pelo que não lhes agrada, podem
chegar aos maiores desentendimentos quando se trata do que colocar em seu lugar. Esse o motivo
por que o ano de 1812 é o ponto de partida de nosso exame. Encarado sob qualquer prisma — e tem
havido grande variedade de interpretações, que vão da apologia moral da autodeterminação
nacional ao destino trágico do Herói — aquele ano marcou o momento em que se evidenciou que a
Europa não seria organizada pela força. Mas a alternativa não era tão evidente. Saltava aos olhos
que havia forças novas desencadeadas no mundo, clamando pela participação popular no governo.
Mas também era evidente que essas forças haviam sido responsáveis por um quarto de século de
turbulência. A Revolução Francesa infligira um golpe talvez mortal no direito divino dos reis; no
entanto, os representantes desta mesma doutrina foram chamados a pôr termo a um longo período
de derramamento de sangue. Em tais circunstâncias, o que surpreende não é a imperfeição do
acordo resultante, mas sua sensatez; não é o “reacionarismo”, segundo as orgulhosas doutrinas da
historiografia do século XIX, mas o equilíbrio. Pode não ter atendido a todas as esperanças de uma
geração idealista, mas deu a essa geração algo talvez mais precioso: um período de estabilidade que
permitiu a realização de suas esperanças sem uma guerra de vulto ou uma revolução permanente. E
nosso relato terminará em 1822, quando a ordem internacional que emergiu do conflito
revolucionário assumiu a forma que manteria por mais de uma geração. O período de estabilidade
que se seguiu foi a melhor prova de que uma ordem "legítima” se compusera, uma ordem aceita por
todas as grandes potências, que a partir daí buscaram seus ajustamentos dentro dessa estrutura, ao
invés de buscá-los em sua derrubada.

A estabilidade readquirida pela Europa em meio ao caos aparente resultou sobretudo do trabalho de
dois grandes homens: Castlereagh, o Secretário de Negócios Exteriores britânico, que negociou o
acordo internacional, e o ministro da Áustria, Metternich, que o legitimou. Isso não quer dizer que
uma ordem internacional brotou de intuição pessoal. Todo estadista deve tentar a conciliação do
que considera justo com o que admite possível. O que se considera justo depende da estrutura
interna do Estado; o que é possível depende de seus recursos, posição geográfica e determinação, e
dos recursos, da determinação e da estrutura interna de outros Estados. Sendo assim, Castlereagh,
apoiado no conhecimento da segurança insular da Inglaterra, tendia a opor-se apenas à agressão
aberta. Mas Metternich, estadista de uma potência situada no centro do Continente, aspirava
sobretudo a prevenir convulsões. Convencida da inexpugnabilidade de suas instituições internas, a
potência insular criou uma doutrina de “não- interferência” nos assuntos internos de outros
Estados. Angustiado pela vulnerabilidade de sua estrutura interna numa era de nacionalismo, o
poliglótico império austro-húngaro insistia num direito generalizado de interferência, para vencer a
inquietação social onde quer que surgisse. Como a Grã-Bretanha só viria a se sentir ameaçada se a
Europa caísse sob a dominação de uma única potência, Castlereagh interessava-se primordialmente
na criação de um equilíbrio de forças. Mas como um equilíbrio de poder apenas limitaria a extensão
da agressão, sem impedi-la, Metternich objetivava escorar a balança desenvolvendo uma doutrina
da legitimidade e instituindo-se como seu guardião.

Ambos ao mesmo tempo falharam e foram bem sucedidos: Castlereagh, em tornar a Grã-Bretanha
parte permanente do concerto da Europa; Metternich, na preservação do princípio da legitimidade
que tanto lutara para estabelecer. Mas suas realizações não foram insignificantes: um período de
paz que durou quase cem anos, uma estabilidade tão difusa que deve ter contribuído para o
desastre. Pois no longo intervalo de paz perdeu-se o sentido do trágico; perdeu-se a consciência de
que os Estados podem morrer, as sublevações podem ser irreparáveis, o medo pode tornar-se em
recurso de coesão social. A histeria de júbilo que varreu a Europa ao eclodir a Primeira Guerra
Mundial denunciou uma quadra de estultícia, mas também uma era de segurança. Revelava a fé no
milênio; a esperança por um mundo que tinha todas as bênçãos da época eduardiana, tornada ainda
mais aprazível pela ausência de competições armamentistas e do receio de guerra. Qual dos
ministros que declararam a guerra em agosto de 1914 não retrocederia horrorizado se visse a
configuração do mundo de 1918, para não falar do atual? *

O fato de que um mundo assim era inconcebível em 1914 é um tributo à obra dos estadistas de que
trata este livro.

* Um que teve essa intuição, e retrocedeu, foi, evidentemente, o Secretário de Negócios Exteriores
britânico, Lord Grey.
2/ O ESTADISTA CONTINENTAL /

NA TAREFA DE CONSTITUIR uma nova ordem internacional, que a derrota de Napoleão na Rússia
tão inesperadamente impôs à Europa, os problemas da Áustria assumiram uma característica quase
simbólica, tanto por razões geográficas como históricas. Situada no centro da Europa, em meio a
poderes potencialmente hostis, desprovida de fronteira naturais, com uma composição poliglótica
de alemães, eslavos, magiares e italianos, a Áustria era o sismógrafo da Europa. Tinha a certeza de
ser a primeira vítima de qualquer convulsão maior, pois a guerra só poderia incrementar os
elementos centrífugos de um Estado cujo único laço de união era a coroa comum. Sendo tão
extrema para a Áustria a exigência de estabilidade, e porque a lei é a expressão do status quo, a
Áustria sustentava a idéia do limite, a importância do equilíbrio, a necessidade da lei e a santidade
dos tratados: “A Áustria,” disse Talleyrand, “é a Câmara dos Pares da Europa.”

Porém mais ainda que sua posição geográfica, sua estrutura interna simbolizava os dilemas da
Europa. Até o final do século XVIII, o Império Austríaco estivera entre os mais vigorosos Estados
europeus. Ainda em 1795, Stein, o patriota prussiano, podia comparar favoravelmente a monarquia
austríaca com a da Prússia. Mas agora, com exércitos russos avançando impetuosamente para
oeste, ressoavam ao longe os primeiros ribombos que transformariam o Império Austríaco na
“prisão de nações”. Não que seu sistema de governo se tornasse mais opressivo, mas apenas porque
sua legitimidade viria a ser cada vez mais questionada. A prisão não é só uma condição física, mas
também um estado psicológico. Não ocorreria a ninguém, no século XVIII, que o Imperador
Habsburg era um estrangeiro, apenas porque representava uma dinastia alemã. Como no século
XIX isso estava se tornando senso comum, e porque a defensiva torna as adaptações, difíceis, a
política da Áustria estava destinada a tornar-se cada vez mais inflexível. O Império Austríaco não
mudara, mas a história começava a ultrapassá-lo.

Os esfarrapados remanescentes do Grande Exército que apareceram na Europa Central, no inverno


de 1812, representavam, portanto, para a Áustria um augúrio de sucesso e de perigo: de sucesso
porque, com o colapso do exército de Napoleão, a Áustria pela primeira vez em três anos seria
capaz de conduzir uma política verdadeiramente independente, uma política não limitada pela
consciência de que a sobrevivência dependia da vontade de um homem; e de perigo, porque ainda
não se divisava o que havia de emergir do caos da desintegração do poder francês. As novas
doutrinas de nacionalismo e administração racionalizada só podiam ser dissolventes para uma
estrutura tão complicada, tão refinada mesmo, como esta última sobrevivente do período feudal.
Tampouco havia certeza de que a pressão do ocidente não estava para ser substituída por análoga
ameaça do Leste. Como evitar a impotência e a dissolução? Como obter paz e também equilíbrio,
vitória e também legitimidade?

Quando o destino dos impérios está em jogo, as convicções de seus estadistas são o meio de
sobrevivência. E o sucesso depende da correspondência entre essas convicções e os requisitos
especiais do Estado. Era destino da Áustria que em seus anos de crise ela fosse dirigida por um
homem que era o epítome de sua própria essência; era seu destino, não sua fortuna, pois, como na
tragédia grega, o sucesso de Clemente von Metternich tornou inevitável o colapso final do Estado
que ele tanto lutou por preservar.

Do mesmo modo que o Estado que representou, Metternich foi o produto de uma era em processo
de superação. Nasceu no século XVIII, do qual Talleyrand iria dizer que ninguém que tivesse vivido
depois da Revolução Francesa saberia jamais como a vida podia ser deliciosa e encantadora. E as
certezas do tempo de juventude nunca abandonaram Metternich. Os contemporâneos podiam
escarnecer de sua invocação das máximas do bom senso, de seu fácil filosofar, de seus elegantes
epigramas. Não compreendiam que fora um acidente da história que projetara Metternich numa
porfia revolucionária tão estranha ao seu temperamento. Assim como o século que o formara, seu
estilo era mais afeito à manipulação de fatores considerados à medida que iam surgindo do que a
uma luta de vontades, mais apto a realizar-se pela proporção que pela escala. Era uma figura
rococó, finamente cinzelada, complexa, toda superfície, qual um cristal minuciosamente talhado.
Seu rosto delicado não denotava profundidade, sua conversação era brilhante porém desprovida da
seriedade fundamental. À vontade tanto no salão como no Gabinete, encantador e condescendente,
personalizava o beau-idéal da aristocracia do século XVIII, que se justificava não pela autenticidade,
mas por sua existência. E se nunca chegou a um acordo com a nova era não foi por falta de
compreensão da sua seriedade, mus porque a desdenhava. Também nisso seu destino foi o mesmo
da Áustria.

Eis o homem que por mais de uma geração governou a Áustria, e com frequência a Europa, com os
mesmos métodos de manipulação quase indiferente que aprendera na juventude. Mas não havia
sinuosidade capaz de ocultar o fato de que ele estava engajado numa disputa revolucionária, e isso
emprestava uma tensão não desejada as manobras mais sutis de Metternich. Ele poderia obter a
vitória, mas não a compreensão, e por esse motivo veio a utilizar a mais altiva das asserções do
Iluminismo, a crença na universalidade dos preceitos da razão, com crescente falta de
espontaneidade, como uma arma na luta revolucionária. Se Metternich tivesse nascido cinquenta
anos antes, ainda teria sido um conservador, mas sem a necessidade de escrever dissertações
pedantes sobre a natureza do conservadorismo. Circularia pelas salas de recepção do alto mundo do
momento, com seu inegável charme, conduzindo distante e sutilmente sua diplomacia com os
rodeios que eram o símbolo da certeza, de um mundo em que todos entendiam os imponderáveis da
mesma maneira. Ainda teria brincado com a filosofia, que esta era a voga do século XVIII, mas não a
teria considerado instrumento de política. Já num século que parecia ser de revolução permanente,
a filosofia passava a constituir o único meio de extrair universalidade das teses de contingência. Eis
por que Metternich se opôs tão insistentemente à identificação de seu nome com esse período,
atitude não muito coerente com sua vaidade. Se houvesse um “sistema Metternich”, suas
realizações teriam sido pessoais, e sua batalha, sem sentido. “Personalizar uma idéia”, insistia ele,
“leva a conclusões perigosas, como a de um indivíduo poder ser uma causa; falaz concepção, pois
quando se aplica quer dizer que a causa não existe, é simplesmente simulada.” Constitui o dilema
do conservadorismo o fato de ter que combater a revolução anonimamente, pelo que é, não pelo que
diz.

Aconteceu então que Metternich, em sua incessante batalha contra a revolução, voltou às doutrinas
da época em que foi educado, interpretando-as, porém, com uma inflexibilidade que teria sido
desnecessária quando ainda eram aceitas naturalmente, e que lhes distorceu a essência, na
aplicação. Ele ainda era da geração para a qual “o grande mecanismo de relógio” ou a “idade de
ouro” significava algo mais que um sonho. Existia uma justeza no universo que correspondia às mais
nobres aspirações do homem; um mecanismo bem ordenado, cuja compreensão assegurava o
sucesso, e cujas leis não podiam ser impunemente violadas: “Os Estados, assim como os indivíduos,
frequentemente transgridem as leis, a única diferença sendo a severidade de sua punição.” “A
sociedade tem suas leis, exatamente como a natureza e o homem. Com as velhas instituições ocorre
o mesmo que com os homens velhos: nunca mais podem ser jovens. (...) Assim é a ordem social, e
não pode ser diferente porque é a lei da natureza (. . .) o mundo moral tem suas tormentas, tal qual
o mundo material.” “Não se pode cobrir o mundo de ruínas sem esmagar o homem sob elas.”
Metternich usava desses truísmos da filosofia do século XVIII para opor-se à revolução e ao
liberalismo, não porque fossem perniciosos mas porque eram antinaturais, não porque lhe
desagradasse viver no mundo que seus adversários tentavam criar, mas porque tal mundo estava
condenado ao fracasso. A revolução era uma afirmação da vontade e do poder, mas a essência da
existência era a proporção, sua expressão a lei, e seu mecanismo uma balança.

Por tais motivos o estadista conservador era o realista supremo, e seus oponentes os “visionários”.
“Eu sou um homem da prosa,” Metternich insistiu em seu testamento político, “e não da poesia.”
“Meu ponto de partida é a contemplação tranquila dos assuntos deste mundo, não do outro, do qual
nada sei e que constitui o objeto da fé, em estrita oposição ao conhecimento. (...) No mundo social (
... ) é preciso atuar friamente, com base na observação e sem ódio ou preconceito. (...) Eu nasci para
fazer história, não para escrever novelas, e se presumo corretamente é porque sei. A invenção é
inimiga da história, que só sabe das descobertas, e só o que existe pode ser descoberto.” Aí estava o
mito do rei-filósofo, o governante ideal do século XVIII, pairando, frio, sereno, superior, sobre o
plano onde os sentimentos pessoais dominam. O estadista operava a ciência dos interesses dos
Estados, sujeito a leis inteiramente análogas às do mundo físico. O estadista era um filósofo que
entendia estes aforismos, que cumpria suas tarefas, porém com relutância, pois que elas o distraíam
da única fonte de verdadeira fruição, a contemplação da verdade; era apenas responsável perante
sua consciência e a história — aquela, porque continha sua visão da verdade, e esta porque
proporcionava a única verificação de sua validade.

A reação contra a presunção e o rígido conservadorismo de Metternich, ao longo de mais de um


século, tendeu para a forma de negação da realidade de seus feitos. Mas um homem que veio a
dominar toda coligação de que participou, que era considerado por dois monarcas estrangeiros
mais digno de confiança que seus próprios ministros, que durante três anos foi praticamente o
Primeiro-Ministro da Europa, não podia ser um homem sem importância. Sem sombra de dúvida, os
sucessos que gostava de creditar à superioridade moral de seus conceitos deviam-se, mais
frequentemente, a extraordinária proficiência de sua diplomacia. Seu gênio era instrumental e não
criativo; excedia na manipulação, não na construção. Preparado na escola da diplomacia de
gabinete do século XVIII, preferia a manobra artificiosa ao ataque frontal, ao mesmo tempo que , o
racionalismo muitas vezes o levava a tomar um manifesto bem composto por uma ação acabada.
Napoleão disse dele que confundia política com intriga, e Hardenberg, o embaixador de Hanover
em Viena, escreveu a seguinte análise dos métodos diplomáticos de Metternich durante o auge da
crise de 1812: “Tendo em alta conta a superioridade de sua aptidão(...) adora a sutileza em política,
considerando-a essencial. Uma vez que não dispõe de energia suficiente para mobilizar os recursos
de seu país ( ... ) tenta substituir força e caráter por astúcia. ( ... ) O melhor para ele seria que um
golpe de sorte — a morte de Napoleão ou grandes sucessos da Rússia — viesse a criar uma situação
que concedesse à Áustria um papel importante.” * Friedrich von Gentz, que foi durante muito
tempo o colaborador mais chegado de Metternich, deixou talvez a melhor síntese dos métodos e da
personalidade de Metternich: “Não era homem de fortes paixões e medidas corajosas; não era um
gênio, mas um grande talento; frio, calmo, imperturbável e calculista par excellence.” Este era,
então, o estadista a quem o destino da Áustria estava entregue em 1812: doutrinário, mas à maneira
universalista do século XVIII; sinuoso, porque a própria certeza de suas convicções tornava-o
extremamente flexível na escolha de meios; prático e indiferente; friamente dedicado à arte de
governar. Sua qualidade característica era o tato, a sensibilidade para a nuance. Um homem assim
podia ter dominado o século XVIII, mas seria formidável em qualquer época. Estrategista medíocre,
mas grande tático, era um mestre na batalha já montada, em períodos nos quais o cenário era dado
e os objetivos impostos de fora. O ano de 1812 foi um período assim, e a questão para Metternich
não era tanto a libertação da Europa, mas a restauração do equilíbrio, moral e físico.

II

Metternich, o mais austríaco dos estadistas, não viu a Áustria até seus treze anos, e lá não viveu até
os dezessete. Nascido na Renânia, educado em Estrasburgo e Mainz, e criado em Bruxelas, onde
seu pai era Governador-Geral dos Países Baixos, Metternich teve a educação típica do aristocrata do
século XVIII. Cosmopolita e racionalista, sempre esteve mais à vontade em francês que em alemão.
No entanto, por mais típico que Metternich fosse da aristocracia setecentista, não acompanhou sua
esperançosa avaliação da Revolução Francesa. As guerras de Napoleão não lhe pareciam iguais às
guerras do século XVIII, batalhas estereotipadas, de objetivos limitados, que deixavam intocada a
estrutura básica do contrato. Nem julgava possível satisfazer-se o conquistador pela transigência,
moderá-lo pela concessão ou obrigá-lo pela aliança. “As nações todas cometeram o erro”, escreveu
ele em 1807, “de atribuir a um tratado com a França o valor de uma paz, sem preparar-se
imediatamente de novo para a guerra. Não é possível a paz com um sistema revolucionário, seja
com um Robespierre, que declara guerra aos castelos, ou um Napoleão, que declara guerra às
Potências.” E essa crença era reforçada por sua convicção de que o princípio da solidariedade dos
Estados suplantava o da revolução: “Estados isolados somente existem como abstrações de
pretensos filósofos. Na sociedade dos Estados, cada Estado tem interesses ( ... ) que o ligam aos
demais. Os grandes axiomas da ciência política derivam do reconhecimento dos verdadeiros
interesses de todos os Estados; é nos interesses gerais que a garantia de existência deve ser
buscada, enquanto que os interesses particulares — cujo cultivo é considerado sabedoria política
pelos descontentes e míopes — têm importância apenas secundária. A história moderna demonstra
a aplicação do princípio de solidariedade e equilíbrio ( ... ) e da ação conjunta dos Estados contra a
supremacia de uma única potência, de forma a forçar a volta ao direito comum. (.. .) Que é feito,
então, da política egotista, da política de fantasia e do proveito mesquinho?”

Mas em 1801, quando Metternich iniciou sua carreira diplomática, a solidariedade dos Estados
parecia inatingível, pois “nada é mais difícil de harmonizar que princípios eternos e incontestáveis e
um sistema de conduta adotado em direta oposição a eles”. Só restava a tarefa de criar um
equilíbrio de poder, mas não, evidentemente, para garantir a paz universal, e sim para obter um
armistício aceitável. Os primeiros relatórios diplomáticos de Metternich, quando, na idade de vinte
e oito anos, foi designado ministro plenipotenciário da Áustria na Saxônia, revelam a concepção
desse equilíbrio, que havia de guiar-lhe a política por toda a vida: o poder da França devia ser
reduzido; a Áustria e a Prússia deviam esquecer seu passado recente, as guerras travadas pela
posse da Silésia. A política natural de ambas era a cooperação e não a competição. O equilíbrio só
era possível com uma Europa Central forte, apoiada pela Inglaterra, pois os interesses de uma
potência exclusivamente comercial e os de uma potência inteiramente continental jamais
conduziriam à rivalidade.

Mas um equilíbrio baseado em considerações de poder é, de todos, o mais difícil de estabelecer,


particularmente num período revolucionário que se segue a uma paz prolongada. Embalados pelas
reminiscências da estabilidade, os Estados propendem a buscar segurança na inatividade e a
confundir impotência com ausência de provocação. O conquistador deve ser domado pela razão, e
talvez pela colaboração; através de políticas, em suma, que não podem admitir ameaças mortais ou
destruição total. Em geral, as coligações contra revoluções surgem somente após uma longa série
de traições e levantes, pois as potências que representam a legitimidade e o status quo não podem
“saber” que seu antagonista é inacessível à “razão” enquanto isso não ficar demonstrado. E essa
demonstração só se dará quando o sistema internacional já estiver transtornado.

Metternich haveria de ter essa experiência quando, em 1804, foi enviado a negociar uma aliança
com a Prússia. Encontrou uma corte que via na preparação para autodefesa a mais certa das
provocações de guerra, e na ação combinada a semente da perdição universal. Quase sozinho entre
seus contemporâneos, Metternich percebeu a fraqueza da Prússia, ainda envolta na auréola de
Frederico, o Grande, mas desfibrada por um longo intervalo de paz. “Existe aqui,” escreveu ele à
sua maneira extravagante, “uma conspiração de mediocridades ( ... ) unidas pelo pavor comum a
qualquer ação decisiva. (...) Não há quem lembre ao rei que seu exército poderia talvez ser utilizado
com maior vantagem no campo de batalha do que nas planícies de Berlim e Potsdam. A monarquia
prussiana, que talvez tenha triplicado em tamanho desde a morte de Frederico II, o Grande,
declinou em poderio real. Frederico Guilherme III, com toda certeza, não empregará, do centro de
seus vastos domínios, uma linguagem que não era estranha a Frederico II nos muros de uma capital
que nunca deixou de ser um acampamento armado.”

A construção do equilíbrio, portanto, dependia não apenas de poderio mas da resolução de usá-lo.
Se o temor à França impedia a ação conjunta, talvez o medo à Rússia ajudasse a adotá-la. “Só na
Rússia ganharemos a Prússia,” disse Metternich, e iniciou uma campanha diplomática que trouxe
tropas russas às fronteiras da Prússia com um ultimato de aliança ou guerra. Mas o Rei da Prússia
recusou-se a aceitar uma infração tão patente das “relações normais” dos Estados, e ameaçou
resistir pela força das armas. A guerra só foi evitada pela precipitação de Napoleão, que atravessou
com suas tropas um pedaço de território prussiano, chamando para si a ira da ultrajada probidade
de Frederico Guilherme, ira que ele nunca conseguira merecer como conquistador decidido a
dominar a Europa. Tudo parecia arranjado. Um negociador prussiano foi mandado a Viena para os
acertos finais de um tratado de aliança; o exército prussiano deslocou-se para os flancos das forças
francesas que invadiam a Boêmia, tropas russas atravessavam a Polônia. Uma decisiva derrota de
Napoleão parecia aproximar-se.

Mas os homens tímidos, em face de grandes oportunidades, parecem mais normalmente inclinados
à ansiedade que à ousadia. As tradições de um século de expansão ininterrupta, as “regras” da
diplomacia de gabinete, segundo as quais as maiores vantagens tinham que ser conseguidas na
hora da maior necessidade, combinaram-se para fazer a Prússia retardar o compromisso final. É da
essência da mediocridade preferir a vantagem tangível ao intangível ganho de posição. Assim, a
Prússia escolheu esse preciso momento para regatear sobre uma fronteira militar ao longo do
Weser e apresentar uma proposta de mediação armada em termos “razoáveis” a fim de obter uma
prova a mais da perfídia de Napoleão. ** Em vão recitou Metternich sua lição do equilíbrio, da
segurança baseada nas relações dos Estados e não na extensão territorial; inutilmente indagou
como podia uma potência ser mediadora num caso em que era parte. O problema não era de lógica.
Enquanto a Prússia hesitava, o exército francês girou para o sul e derrotou os austríacos e russos
em Austerlitz.

De novo atingia-se um ponto em que a teoria das guerras limitadas aconselhava a paz, enquanto a
realidade do conflito revolucionário exigia perseverança. A luta de Metternich era agora com seu
próprio governo. Insistia em que aquilo que parecia a onipotência de Napoleão era apenas o reflexo
da desunião de seus oponentes, que os exércitos aliados combinados ainda eram muito mais fortes
que o de Napoleão. Recomendou que a derrota fosse francamente admitida, mas servisse de base
moral para um esforço renovado. Mas se a Prússia utilizou a crise para tirar vantagens, a Áustria
viu nela uma oportunidade de reduzir as perdas e negociou a paz em separado. Entrementes, o
exército de Napoleão entrou em posição contra a Prússia, não ainda para destruí-la, mas para
intimidá-la, levando-a a acumpliciar-se através da incorporação de Hanover, e assim isolar-se da
Grã-Bretanha. E os exércitos russos regressaram à Polônia. “Cem mil homens derrotaram cinco
vezes esse efetivo,” exclamou Metternich. “Onde está o maná? Quando Deus vai surgir das alas?” E
acrescentou que se achava num estado de desespero condicional, mas que somente a morte,
destruidora de todas as esperanças, podia tornar seu desespero incondicional. Não é de
surpreender que daí em diante Metternich aspirasse a retardar o comprometimento austríaco para
depois do de todos os aliados potenciais; que desconfiasse dos protestos de lealdade com base em
promessas de cumprimento futuro; que só formasse alianças depois de um período de deliberação
exasperante para os que ansiavam pela cooperação austríaca, mas essencial para testar a fortaleza
moral da Coalizão.
III

Faz parte da natureza dos estadistas que adotam uma política de pequenas vantagens buscar na
vacilação um substituto para a ação. Uma política que se deixa influenciar por acontecimentos —
que, na expressão usual, “aguarda a evolução dos acontecimentos” — quase certamente tenta
remediar uma decisão que se reconhece errada, mediante a adoção do extremo oposto, sem
considerar a possibilidade de soluções intermediárias. Assim a Prússia, cujas hesitações causaram,
em grande parte, o desastre de 1806, de repente acordou para a compreensão de que, malgrado a
anexação de Hanover, sua posição relativa enfraquecera, e temerariamente lançou-se à guerra com
a França, o que tão desesperadamente tentara evitar durante o ano anterior. Mas Napoleão não
seria derrotado em combate singular. A Prússia sofreu em Iena e Auerstadt o mesmo fado da Áustria
em Austerlitz. Uma vez mais, o prometido apoio russo mostrou-se ilusório. Depois de uma derrota
russa em Friedland, Napoleão e Alexandre encontraram-se numa jangada no rio Niemen, em Tilsit,
para concluir a divisão do mundo.

Mas a derrocada definitiva da estrutura existente pareceu, paradoxalmente, restaurar a confiança


de Metternich no triunfo final. Pois agora a desproporção entre as bases materiais e morais de
Napoleão era evidente, as potências intermediárias haviam sido eliminadas, passara o tempo das
vitórias ilimitadas em guerras limitadas. A vitória, a partir de agora, dependeria do poder interno, e
Napoleão, falhando no estabelecimento de um princípio de obrigações para manter suas conquistas,
veria seu poder solapado pela constante necessidade de aplicação da força. Metternich, nesse
ínterim, tornara-se embaixador em Paris, de onde remetia uma torrente de conselhos, atenciosos e
sutis, respeitosos mas incansáveis, recomendando a reorganização interna, uma duradoura reforma
militar, a evasiva ante as sugestões de Napoleão em favor do desarmamento, o fortalecimento da
coesão nacional. “A opinião pública”, escreveu Metternich em 1808, “é uma das armas mais
poderosas; como a religião, penetra nos recantos mais recônditos onde as medidas administrativas
perdem a influência; desprezar a opinião pública equivale a desprezar os princípios morais. (...) [A
opinião pública] requer um culto todo seu. (...) A posteridade mal acreditará que considerávamos o
silêncio uma arma eficaz neste; século de palavras”. E sumariava suas metas num eloquente
despacho, escrito pouco depois dos acontecimentos de Tilsit, em 1807: “Dia virá, graças à sabedoria
de nosso governo, em que trezentos mil homens desempenharão o papel principal numa Europa
dominada pela anarquia generalizada; virá num desses momentos que sucedem sempre às grandes
usurpações. Ninguém pode prever a data, se bem que nada a retarde exceto a vida de um único
indivíduo, que não tomou medida alguma para prevenir o caos inevitável”. A força podia conquistar
o mundo, mas não conseguia legitimar-se. Era missão da Áustria preservar sua integridade como
repositório de tudo o que restava dos velhos princípios e das velhas formas, e isso, no decorrer do
tempo, estava destinado a trazer-lhe poderosos aliados.

A guerra de Napoleão na Espanha parecia confirmar as expectativas de Metternich. Pela primeira


vez, Napoleão defrontou-se com um inimigo que não se rendeu depois de uma batalha perdida, e
cujos recursos não foram aumentar os da França. Os reveses iniciais do exército secundário de
Napoleão liquidaram o mito de sua invencibilidade. “Descobrimos um grande segredo”, escreveu
Metternich em 1808, “Napoleão não tem senão um exército, a Grande Armée, e os recrutas
franceses não são melhores que os de qualquer nação”. Tinha como certo que a Espanha seria
derrotada militarmente, mas não achava que pudesse ser pacificada. Uma vez que o caráter de
Napoleão não lhe permitia pensar em retirada, a Espanha permaneceu como um sorvedouro de
recursos franceses em homens e material. Ainda mais importante era a vitória moral. Austerlitz
tinha demonstrado que era um risco ser inimigo de Napoleão; Iena, que era desastroso permanecer
neutro; mas a Espanha provou, sem dúvida, que era fatal ser amigo de Napoleão.

Quais eram, então, as alternativas? Agir por si próprio, argumentava Metternich, e não perder
tempo reparando perdas passadas. Não havia a menor dúvida de que Napoleão visava à destruição
da Áustria, pois, pela extensão e pelos princípios que representava, a existência desta era
incompatível com sua dominação universal. Mas havia um limite para as usurpações, conforme a
Espanha havia demonstrado. Um opositor resoluto, além disso, agora encontraria aliados até
mesmo no interior da França, em todos os indivíduos saciados de glória e desejosos de gozar suas
recompensas despreocupadamente; sobretudo, em Talleyrand e Fouché, que Metternich qualificava
de marujos prontos para amotinarem-se contra um piloto excessivamente ousado, mas só depois
que a nave houvesse batido em algumas pedras. Qualquer guerra fora dos limites naturais do Reno,
dos Alpes e dos Pirineus não era mais guerra da França, mas guerra de Napoleão, era o que dizia
Talleyrand, segundo Metternich.

Mas Metternich não procurava aliados apenas no interior da França. Uma vez mais, trouxe à
discussão seu velho plano de um entendimento austro-russo. Recomendou que se abordasse o Czar
diretamente, com uma franca exposição da determinação e das dificuldades da Áustria, conjugada a
uma proposta específica de cooperação militar. Explicou ao Ministro do Exterior russo, Roumazoff,
então em Paris, que era antinatural a aliança da Rússia com a França e impossível uma paz
duradoura na Europa sem um centro forte. As homílias sobre a natureza do equilíbrio, entretanto,
mostraram-se inúteis. Em 1809, tal qual em 1805 e 1806, a Rússia deixou-se quedar passivamente,
enquanto o conquistador avançava para suas fronteiras.

Assim, a Áustria viu-se engajada, em 1809, numa guerra pela sobrevivência, guerra empreendida,
pela primeira e última vez no período de Metternich, em nome da identidade nacional e por um
exército de conscritos. Até mesmo Metternich foi arrastado pelo entusiasmo nacional, tão estranho
à sua visão cosmopolita. “[Napoleão] baseia suas esperanças de sucesso”, escreveu ele a seu chefe,
Stadion, “na lentidão de nossos movimentos, no descanso que vamos tirar depois de nossos
primeiros sucessos, ou no desânimo ( ... ) e na paralisia que sucederá a nossa primeira derrota. (...)
Adotemos, então, seus próprios princípios. Não nos consideremos vitoriosos até o dia seguinte à
batalha, nem batidos senão quatro dias depois. ( ... ) Empunhemos sempre a espada numa das mãos
e o ramo de oliveira na outra, prontos sempre a negociar, mas negociar avançando. (.. .) Um homem
não pode correr os mesmos riscos que um velho Império. ( ... ) Estamos, pela primeira vez, fortes
em nós mesmos, atuemos em consequência ( ... ) nunca nos esqueçamos que o ano de 1809 é ou o
fim de uma velha época ou o início de uma era nova”.

Mas não iria ser nem uma coisa nem outra. Talvez exista um mecanismo de correção no universo,
mas não funciona num tempo finito e muito menos a prazo curto. O melhor exército jamais criado
pela Áustria foi vencido, e o Imperador, não desejando arriscar tudo, pediu paz. Nunca mais, sob
Metternich, havia a Áustria de tentar atitudes solitárias, ou colocar em jogo seu destino contando
com a disposição moral de seu povo. A guerra de 1809 não foi, portanto, nem o fim nem o início de
uma era, mas antes um ponto de inflexão e uma continuação. Ponto de inflexão, porque confirmou a
hesitação já pronunciada do Imperador quanto a contar com maior apoio das nacionalidades
poliglotas que compunham seu Império. A partir de então ele buscaria a segurança na estabilidade,
na mínima mutação possível das instituições existentes. E foi a continuação de um modo de governo
que perdera seu élan e autoconfiança, que sabia de seus limites, mas raramente de seus objetivos,
particularmente nos assuntos internos, e garantia-se contra os riscos recorrendo ao cuidadoso
envolvimento do maior número possível de aliados. Os fundamentos do “sistema Metternich” foram
lançados em 1809.

Esse foi também o ano em que o Imperador Francisco convidou Metternich para Ministro do
Exterior, posto que não deixaria por trinta e nove anos. Foi simbólico das lições que a Áustria tirou
da guerra o fato de o homem que mais do que qualquer outro a instigara tornar-se agora o arquiteto
da paz, aquele que haveria de reparar pela astúcia, paciência e manipulação o que se perdera pelo
empenho total.

IV

Um Estado vencido na guerra e ameaçado de dissolução tem duas amplas escolhas: oposição aberta
ou persuasão. Se trata a derrota como uma inculpação à firmeza de ânimo nacional mas não ao seu
poderio, tratará de compensar a deficiência no campo de batalha com maior mobilização de seus
recursos, mais forte elevação de seu moral, até que outra oportunidade mais favorável lhe permita
tentar de novo a luta armada. Foi esta a atitude da Áustria depois de 1805. Ou pode convencer-se
de sua impotência física e esforçar-se por salvar sua substância nacional pela adaptação ao
vencedor. Esta não é necessariamente uma política heróica, muito embora em certas circunstâncias
possa ser a mais heróica de todas. Cooperar, sem perder a individualidade, ajudar sem sacrificar a
identidade, trabalhar pela libertação sob o disfarce da servidão e num silêncio forçado, que maior
provação moral existe?

Esta foi, em todo caso, a política da Áustria depois de 1809, imposta, ao menos em parte, por sua
incapacidade física. Pois a paz privou a Áustria de um terço de seus territórios, de seus bastiões
defensivos e de sua saída para o mar. No litoral do Adriático, a nova província francesa da Ilíria
prenunciava futuras intenções acerca da Hungria, enquanto o Ducado de Varsóvia, ao norte,
representava uma hipoteca da boa conduta austríaca. E o Império encontrava-se em tal ruína
financeira que Napoleão nem sequer limitou-lhe o exército, sabedor de que a Áustria não possuía
recursos suficientes para manter uma força substancial. “Se após 1805”, disse Metternich ao
Imperador em sua primeira exposição de diretrizes, “a Áustria estava ainda suficientemente forte
para trabalhar pela libertação geral(. . .) será agora obrigada a buscar sua segurança na adaptação
ao sistema francês. Não é preciso frisar o quanto nos encontramos deslocados neste sistema, tão
contrário a todos os princípios de uma política corretamente concebida. (...) Nunca mais, porém, se
poderá pensar em resistência sem o auxílio russo. Aquela corte vacilante talvez acorde mais
depressa quando não puder mais ganhar sozinha a recompensa que lhe advém dessa infeliz política.
(...) Só nos resta uma saída: conservar nossa força para dias melhores, trabalhar pela nossa
preservação com meios mais brandos — e não olhar para trás”.

Todos os elementos da política de Metternich estão aqui reunidos: a convicção da incompatibilidade


entre um sistema de conquista e uma comunidade internacional organizada, a falta de confiança na
Rússia, a falha das alianças, a flexibilidade tática para atingir um objetivo que, por refletir leis
universais, era inevitável, ainda que parecesse tão remoto. Metternich propunha uma política que
hoje chamaríamos de “colaboração”. Política que só pode ser levada a efeito por um Estado muito
seguro de sua fortaleza moral ou esmagado pela consciência de sua impotência moral. É uma
política que impõe uma tensão especial aos princípios internos de obrigação moral, pois nunca pode
ser legitimada pelos seus motivos reais. Seu sucesso depende da aparência de sinceridade, da
capacidade, como certa vez disse Metternich, de fazer papel de bobo sem o ser. Mostrar o
verdadeiro objetivo é cortejar a desgraça; ser demasiadamente bem sucedido é favorecer a
desintegração. Em tais períodos, o velhaco e o herói, o traidor e o estadista, distinguem-se não por
seus atos, mas por seus intuitos. Em que ponto a colaboração passa a prejudicar a substância
nacional, em que estágio ela se torna um pretexto para uma saída fácil são problemas que só podem
ser resolvidos por quem viveu a provação, não por especulação abstrata. A colaboração só pode ser
levada a bom termo por um organismo social de grande coesão e moral elevado, porque pressupõe
um grau de confiança em seus líderes que torna inconcebível a traição. A força moral da Áustria,
com que Metternich contava para chegar à vitória na guerra, falhou nesse objetivo; mas salvou a
Áustria num período de paz humilhante.

A política de Metternich era, então, esta: manter abertas todas as opções, conservar a máxima
liberdade de ação, mas limitar todos os cometimentos à necessidade de ganhar a confiança
francesa. A Áustria ingressou no Sistema Continental contra a Inglaterra, mas nunca rompeu
relações com ela. Metternich manteve-se em estreito contato com Hardenberg, o representante
diplomático de Hanover, e portanto, indiretamente, do Príncipe Regente da Grã-Bretanha. Chegou
ao ponto de expressar o desejo — através de Hardenberg — de que as relações entre a Áustria e a
Grã-Bretanha não apenas fossem as mais amistosas mas chegassem inclusive à troca de
informações e consultas. Com a Rússia mantinham-se relações corretas, mas deixando ver que a
indulgência francesa, e não a assistência russa, era considerada a base da política austríaca. A
condição para a sobrevivência austríaca era um relaxamento da pressão francesa. Mas não se
afrouxaria a pressão, nem as negociações teriam significado fora de um quadro de confiança. E a
confiança pressupunha um princípio com o qual Napoleão julgasse possível concordar, que
identificasse os interesses da França e da Áustria, pelo menos até certo ponto. Como conciliar as
pretensões de dominação universal com as necessidades de equilíbrio, do Estado para o qual todo
limite era um desafio e do Império que via na limitação a condição de sobrevivência?

Havia, no entanto, um ponto fraco na estrutura napoleônica, que Metternich nunca se cansara de
apontar: que a legitimidade depende da aceitação, não da imposição; que, a despeito de todas as
suas conquistas, a sorte do Império Francês dependia da vida de um homem. Metternich apelou,
então, para o senso de insegurança do parvenu para criar o único liame que Napoleão reconheceria
como um “direito de reivindicação”. Permutou legitimidade por tempo, um desejo de permanência
por uma promessa de sobrevivência. Preparou o casamento da filha do Imperador Francisco, Sua
Majestade Apostólica e último Sacro Imperador Romano, cuja casa reinara quinhentos anos, com
Napoleão, o Corso, que governara uma década. “Sempre que Napoleão destrói algo”, escreveu
Metternich ao Imperador em 1810, “fala de garantias. Essa expressão, em seu sentido usual, é
dificilmente compatível com suas ações. Comumente, uma garantia repousa no estado das relações
políticas. ( ... ) Mas Napoleão não tem apreço pelo aspecto político das garantias; visa mais à
realidade, a certeza. Assim, cada usurpação torna-se para ele uma garantia de seu poderio e de sua
existência. ( ... ) Nesse sentido ele fundamenta cada derrubada de trono (...) na ficção da
autodefesa. (...) No casamento com a filha de Vossa Majestade, Napoleão encontrou uma garantia
que buscara em vão (...) na queda do trono austríaco”. Assim, Metternich superou o abismo entre
duas legitimidades opostas que caracteriza as situações revolucionárias, empregando ousadamente
o conceito de legitimidade de Napoleão — o único que este reconhecia — contra ele próprio. E
assim como as conquistas de Napoleão se deveram ao fato de seus adversários não conceberem
uma política de objetivos ilimitados, a derrubada final de Napoleão foi causada por sua própria
incapacidade de compreender a instabilidade das relações dinásticas.

Metternich não esperou muito para tirar vantagem de sua nova posição. Visitou Paris com a
finalidade de ajudar a nova Imperatriz a aclimatar-se — e de adivinhar o lance seguinte de
Napoleão. Obteve pouquíssimas concessões: uma leve redução da indenização austríaca, permissão
para colocar no mercado belga uma emissão de títulos e para ser mediador entre o Papa e
Napoleão. Mas voltou com uma valiosa convicção: que era inevitável um ataque francês à Rússia,
que isso ocorreria provavelmente no verão de 1812, e que a Áustria teria uma folga, por esse motivo
ao menos. Embora a Áustria aproveitasse o intervalo para restaurar suas finanças, a iminência de
guerra apresentou novo dilema, pois agora a aliança russa, desejada havia tanto tempo e tão
desesperadamente, parecia só depender da vontade, o equilíbrio continental estava de novo ao
alcance da mão. Mesmo a Prússia, desde Tilsit reduzida a potência de segunda classe, iniciou
sondagens para uma aliança. Porém Metternich bem sabia que após a derrota de 1809 o Império
Austríaco não podia mais permitir-se nenhum erro. Sabia que outra guerra perdida, ou mesmo
prolongada, levaria a sua desintegração, e não confiava no poderio físico da Prússia ou no vigor
moral da Rússia. Por outro lado, ponderava Metternich num memorando ao Imperador, uma aliança
com a França estava fora de cogitações, pois desgastaria a fonte da força austríaca, sua asserção de
superioridade moral, enquanto que a neutralidade provocaria a hostilidade da Rússia sem ganhar a
amizade da França. Privaria a Áustria de qualquer voz ativa nos futuros arranjos de paz,
condenando-a ao papel de potência de segunda linha.

Uma série de paradoxos pode despertar a curiosidade do filósofo, mas constitui o pesadelo do
estadista, pois este deve não só contemplá-los mas resolvê-los. Uma aliança com a Rússia podia
levar à derrota de Napoleão, mas podia também fazer incidir o peso da guerra sobre a Áustria e
terminar outra vez numa traição russa. Uma aliança com a França prejudicaria a posição moral da
Áustria, enquanto a neutralidade armada esgotaria seus recursos materiais. Assim, a Áustria
chegara exatamente ao ponto em que a colaboração começa a render menos dividendos, à fronteira
entre a luta passiva e a perda da vontade. Metternich tentou escapar a este dilema limitando seu
comprometimento, enquanto as outras potências estendiam os seus. Pretendia retomar para a
Áustria alguma liberdade de ação, enquanto utilizava a crise para desenvolver seu poder. O meio
que escolheu foi um outro passo no caminho da acomodação com a França, mas cauteloso de uma
forma que atestava a desconfiança íntima de Metternich. Negociou-se uma aliança com a França,
estipulando que um corpo auxiliar austríaco de trinta mil homens atuaria sob comando direto de
Napoleão e utilizaria suprimentos franceses. Em troca, Napoleão garantia a integridade do Império
Austríaco e prometia à Áustria não apenas compensações territoriais em proporção ao seu
empenho, mas um “monumento comemorativo”, um acréscimo territorial e presumivelmente “fora
de proporção”, para simbolizar a duradoura harmonia entre a França e a Áustria. Qualquer que seja
a opinião sobre a moralidade desse passo, não há dúvida de que levou aos objetivos de Metternich.
A Áustria pôde armar-se, não apenas sem a oposição mas com o encorajamento da França.
Assegurou voz ativa nas negociações de paz e conseguiu a expressão simbólica de um estatuto
preferencial no sistema francês. O acréscimo territorial dependia da vitória francesa — caso em que
serviria de contrapeso à França — e não teria significado se a França fosse derrotada. Não sem
razão podia dizer Metternich que o esforço bélico austríaco não era uma guerra de conquista, nem
uma guerra defensiva, mas uma guerra de conservação. Era uma aliança infiniment limité.

Restava agora tornar clara a limitação do compromisso austríaco. Metternich disse a Hardenberg
que a Áustria não tivera alternativa, que nunca deixaria de considerar-se o núcleo da resistência a
Napoleão. Mas acrescentou que resistência às claras era uma loucura até que a Áustria fosse mais
forte, e exortou a Grã-Bretanha a reforçar sua ação diversionária na Espanha. Ao mesmo tempo
afirmou à Rússia que a Áustria não tinha intenção agressiva e fez a surpreendente proposta de que
a Áustria e a Rússia combinassem a conduta da guerra, de maneira a preservar o corpo auxiliar
austríaco e eximi-lo de uma participação mais séria na operação principal. Sugeriu que a Rússia
concentrasse tropas na Galícia para justificar a inação austríaca e dar pretexto à formação de outro
corpo de exército. Mas furtou-se às solicitações russas para reduzir aquelas propostas a escrito.
Determinado a não arriscar a existência da Áustria na primeira batalha, Metternich empenhou-se
com toda a destreza de suas manobras em conseguir aquele isolamento que uma localização insular
oferecia a potências mais favorecidas, até que tivesse medido exatamente a constelação de forças e
pudesse deixar a Áustria desempenhar sua verdadeira e tradicional parte: a organização da
Coalizão e a legitimação da paz.

Esta era, portanto, a posição de Metternich quando lhe chegaram as primeiras notícias do desastre
francês na Rússia. A guerra de 1805 dera-lhe a lição da fragilidade das alianças, e a de 1809 a de
sua necessidade. Os acontecimentos de 1805 haviam-no convencido de que o perigo iminente podia
justificar tanto o isolamento como a Coalizão, que a política continental não podia ser conduzida acl
hoc. O desastre de 1809 levou-o a crer que o élan nacional não era o substitutivo para uma base
material. Ao longo desse período, a conduta da Rússia fora ambígua. Ajudara a destruir as potências
que lhe podiam servir de barreira contra a França e, até ver seus próprios territórios ameaçados,
fugira do combate após a primeira derrota. Agora, quando tropas russas avançavam para Oeste,
Metternich receava seus sucessos tanto quanto sua irresolução. Não lutara quase uma década em
favor do equilíbrio só para substituir a supremacia do Ocidente pela dominância do Oriente. E não
restituíra à Áustria um pouco de alento só para arriscar tudo num acesso de entusiasmo. Quando a
Rússia fez ver que era chegado o momento para mudar de lado, Metternich replicou que a presente
posição da Áustria não era de sua escolha, que uma potência cuja própria existência dependia do
reconhecimento da santidade das relações estabelecidas em tratado não podia simplesmente
quebrar uma aliança, e que a política austríaca não se baseava em sentimentos mas no cálculo frio.

De fato chegara o momento em que, como Metternich previra, trezentos mil homens podiam
representar o papel principal numa Europa dominada pela anarquia. Mas a Áustria dispunha apenas
de um quinto daquele número, e metade se encontrava na Rússia com Napoleão. Mais importante
ainda: a Áustria precisava testar não só a disposição russa mas a espécie de guerra que iria
enfrentar. Pois a Áustria estava interessada não na autodeterminação de nações mas no privilégio
de Estados históricos. Uma guerra do povo podia acarretar a dissolução do Império poliglótico, uma
cruzada nacional podia levar à derrocada das dinastias, nas quais se baseava a posição germânica
da Áustria. “Como é violenta a queda de um grande homem”, exclamou Metternich. (“Que la chute
d’un grand homme est lourde.”) “(...) Todos os planos das pobres potências centrais cifram-se
apenas em não serem trituradas (zermalmt)”. Tudo dependia, então, não só da derrota de Napoleão
mas da maneira como ocorresse, não apenas da criação de uma Coalizão mas também do princípio
em nome do qual esta lutaria.

“Se um grande Estado é forçado a agir numa situação de grande perigo”, disse Metternich durante
a Guerra da Criméia, numa situação que nunca deixou de comparar à de 1813, “deve pelos menos
assegurar para si a posição de liderança suprema”. Isso era ainda mais importante para o grande
Império Central, colocado em meio a Estados contendores de retaguardas protegidas pelo mar ou
pelas estepes: “Antes de entrar numa guerra, a Áustria deve estar segura não apenas da situação
militar, mas de sua posição moral”. No entanto, estava bem claro o que a posição moral da Áustria
exigia: uma guerra de Estados, não de nações, uma Coalizão legitimada por uma doutrina de
conservadorismo e estabilidade, e surgida, se possível, em nome dos tratados existentes, não pela
sua ruptura.

Além disso, as considerações de poder inspiravam prudência a Metternich. É que Napoleão, a


despeito de vencido na Rússia, ainda era senhor dos Países Baixos, da Itália e da Ilíria. As potências
alemãs secundárias da Confederação do Reno ainda eram satélites seus; a Prússia, sua aliada. E
Metternich ateve-se a sua política moderada pela convicção de que chegara a hora de tirar partido
da sua familiaridade com o caráter de Napoleão. “Napoleão e eu passamos anos juntos”, escreveu
em 1820, “como num jogo de xadrez, cuidadosamente observando um ao outro; eu a dar-lhe xeque-
mates, ele a esmagar-me e às peças do xadrez”. Isto simbolizava a controvérsia do período: o
homem da vontade e o homem da razão, o princípio da universalidade e o senso do limite, a
afirmação do poder e a pretensão de legitimidade. Mas além de outras coisas, os acontecimentos de
1812 demonstraram que o jogo não mais podia ser vencido pela pulverização do adversário ou das
peças; que devia ser jogado de acordo com suas próprias regras, com prêmio na sutileza e não na
força bruta. Quanto mais Napoleão recalcitrasse em reconhecer essa verdade, mais certa seria sua
derrota final. Reivindicações universais, quando apoiadas por forças substanciais ou contrariadas
por insuficiente resolução, podem, com seu próprio peso, desintegrar a estrutura das relações
internacionais. Quando, no entanto, os meios são limitados e o antagonista resoluto, a lembrança de
grandes sucessos pode causar a ilusão que é um prelúdio do desastre.

O tipo de jogo que Metternich decidiu pôr em prática não era, além do mais, o da manobra ousada,
que tudo arriscava num rápido xeque-mate. Era, ao contrário, vagaroso e astuto, um jogo em que a
vantagem estava na gradual transformação da posição, em que os lances do adversário eram
utilizados primeiro para imobilizá-lo, depois para destruí-lo, enquanto o jogador dispunha em ordem
seus recursos. Um jogo em que a ousadia estava na solidão com que precisava ser jogado, fazendo
frente à incompreensão e à injúria de amigos e inimigos; em que a coragem estava na
impassibilidade quando um movimento errado poderia levar ao desastre, e a perda de confiança ao
isolamento; em que a grandeza advinha da perícia dos movimentos, e não da inspirada concepção.
Foi um jogo ao fim do qual a Áustria conseguira o Comando Supremo da Aliança, desviara a guerra
de seus territórios, baseara a Coalizão nos Gabinetes e não nos povos, e desse modo assegurara a
paz, cuja legitimação era coerente com a continuação de sua existência. Não foi heróico, mas salvou
um império.

O gambito de abertura de Metternich foi uma mensagem ao chargé d’affaires austríaco junto ao
quartel-general francês em Vilna, enviada no dia 9 de dezembro, quando já se sabia que Napoleão
fracassara, porém não se conhecia a seriedade da derrota. Sutil e sarcástica, a um tempo
conciliatória e ameaçadora, deu o tom das ações subsequentes e determinou que tipo de jogo seria
aquele. Sua importância residia menos no conteúdo, que era apenas o primeiro passo de uma
complicada manobra cujas implicações não seriam visíveis por sete meses, que no tom, na
demonstração de independência, que Metternich considerava o equivalente à saúde no indivíduo.
Começava por um resumo irônico da situação existente: “A Áustria é por demais respeitosa para
permitir-se uma opinião sobre as disposições militares do maior comandante do século. Era um
problema novo, o Gabinete de S. Petersburgo já havia dado tantas provas de sua inconstância que
até mesmo [o grifo é meu] o mais cauteloso dos cálculos permitia supor que uma empresa de tal
forma contrária a toda probabilidade, como a tomada de Moscou ( ... ) induziria Alexandre a
negociar. Mas a esperança não se realizara; a Rússia, que julgara tão fácil abrir mão dos interesses
de seus aliados, não podia ser levada a abrir mão dos seus”.

Esse parágrafo precedia uma longa análise das possibilidades militares e psicológicas, análise que
em resumo dizia que todas as vitórias da Grande Armée nada tinham conseguido, que a conquista
da Rússia era impossível e que inexistia motivação para uma paz em separado. Qual era, então, a
solução? Os bons ofícios da Áustria, respondia Metternich, para a negociação de uma paz geral.
Somente a Áustria, afirmava, podia abordar as outras nações sem ofender-lhes a dignidade,
porquanto estava unida à França por laços de família. O Estado que refreava cinquenta milhões de
pessoas no centro da Europa tinha o dever de falar de paz, até mesmo com a França, ao menos para
manter as aparências. Essa ameaçadora afirmação de boa-fé da Áustria era seguida de outra
ambiguidade: “O Imperador dos Franceses parecia estar prevendo o que hoje acontece quando me
dizia frequentemente que o casamento [com Maria Luiza] transformara a face da Europa. Aproxima-
se o momento, talvez até já tenha chegado, em que Napoleão tirará vantagem real dessa afortunada
aliança”. E Metternich concluía com uma frase, que salientou e sublinhou, de uma sutil falta de
sensibilidade e tortuosa ousadia: “Quando nosso augusto chefe soube da evacuação de Moscou,
resumiu a essência de sua atitude nestas poucas palavras: ‘É chegado o momento de mostrar ao
Imperador dos Franceses quem sou’. Restringir-me-ei a repetir estas palavras de Sua Majestade,
tão simples e ao mesmo tempo tão enérgicas, e autorizo-o a comunicá-las ao Duque de Bassano
[Ministro do Exterior francês]. Qualquer comentário apenas lhes diminuirá a força”.

Assim lançou Metternich a campanha que deveria levar a uma Coalizão contra Napoleão, com um
oferecimento de paz a seu antagonista. Dessa maneira deu o primeiro passo para obter a aprovação
francesa para a transformação da aliança em neutralidade, da neutralidade em mediação e da
mediação em guerra, tudo em nome dos tratados existentes e inicialmente motivados pela
preocupação com o grande aliado. Pode-se perguntar por que Metternich tinha de escolher
procedimento tão indireto, um método tão emaranhado e tão difícil de legitimar. Por que não tentar
adaptar a estrutura interna austríaca ao élan nacional que varria a Europa? Mas um estadista tem
de trabalhar com o material disponível, e a estrutura doméstica da Áustria era rígida, muito mais
rígida, paradoxalmente, que a internacional. Mas antes de examinarmos o impacto da estrutura
interna austríaca sobre a política exterior de Metternich, voltemo-nos para outro estadista, o
Ministro do Exterior da potência que mais persistentemente combatera Napoleão. Também ele
tentou animar uma Coalizão, e ele também entrou em cena apresentando um plano de paz.

* Este relatório, escrito para o Príncipe Regente da Grã-Bretanha (que era, naturalmente, também
Eleitor de Hanover, e estava ansioso por alinhar a Áustria contra Napoleão), talvez seja importante
tanto pela revelação das frustrações que as maquinações cuidadosas de Metternich causavam em
alguns de seus contemporâneos, como pelos comentários que contém sobre os métodos de
Metternich.

** Interessante notar que a mediação armada foi exatamente a política de Metternich em 1813. Ver
capítulos IV e V. Historiadores prussianos têm sustentado que a mediação armada colimava dar à
Prússia oportunidade de mobilizar seu exército.
3/ O ESTADISTA INSULAR

A MEMÓRIA DOS ESTADOS é o teste da integridade de sua política. Quanto mais elementar é a
experiência, mais profundo é seu impacto sobre a interpretação que uma nação faz do presente à
luz do passado. É até mesmo possível que uma nação passe por uma experiência tão esmagadora
que se torne prisioneira do passado. Não era esse, porém, o caso da Grã-Bretanha de 1812. Ela
absorvera seu choque e sobrevivera. Mas embora sua estrutura moral permanecesse inabalada,
emergiu da provação de quase uma década de isolamento com a decisão de nunca mais permanecer
sozinha.

Se pudéssemos fixar de antemão o homem capaz de levar a efeito essa resolução, poucos seriam
mais improvavelmente escolhidos que Lord Castlereagh, o Secretário do Exterior britânico que
assumiu o cargo no momento mesmo em que a Grande Armée se estava reunindo no Niemen.
Nascido na Irlanda, de uma família antiga ainda que pouco notável, recebera a educação típica da
aristocracia rural britânica, numa época em que os contatos com o Continente eram poucos e os
assuntos estrangeiros confinavam-se a improvisadas coalizões contra a maré revolucionária. Sua
carreira fora bem alicerçada mas sem nada de especial. Seus primeiros atos públicos ligaram-se ao
esmagamento da Rebelião Irlandesa e ao fechamento do Parlamento Irlandês, atos que ajudaram a
estabelecer-lhe a reputação de ogro do liberalismo. Fora Secretário da Guerra no governo de Pitt, e
esta associação lançou as bases de sua futura política. A maior parte desse período ele viveu
obscurecido pelo colega muito mais brilhante, Canning. Em 1809, após um malfadado duelo,
tiveram ambos que abandonar as funções públicas. Castlereagh voltou em 1812, como Secretário do
Exterior e líder da Câmara dos Comuns, no Gabinete de Lord Liverpool, que não se esperava
durasse mais de alguns meses. Tão famosa era a “especialização” de Canning em política exterior
que Castlereagh ofereceu abrir mão, em seu favor, do Foreign Office, se pudesse manter a posição
de líder da Câmara dos Comuns. Mas a tal ponto pareciam fracas as perspectivas do Gabinete
Liverpool que Canning recusou, para não voltar a atingir sua meta por mais outra década. O lugar
de Castlereagh na História chegou, portanto, quase como um “em tempo”, tão discreto como a sua
personalidade.

Foi, no entanto, esse homem, mais que nenhum outro, quem forjou novamente uma conexão
européia para a Grã-Bretanha, quem sustentou a Coalizão e negociou o acordo que em suas linhas
gerais havia de durar mais de cinquenta anos. Os psicólogos poderão refletir em como foi possível a
este par irlandês, cuja carreira não oferecera qualquer indicação de concepções profundas, tornar-
se o mais europeu dos estadistas britânicos. Não se poderia imaginar alguém mais diferente de
Metternich, seu grande companheiro de elenco. Metternich era elegante, fluente, racionalista;
Castlereagh, sólido, pesado, pragmático; o primeiro, espirituoso e eloquente, ainda que um pouco
pedante; o segundo, desajeitado de expressão, embora eficaz no debate; Metternich era doutrinário
e sinuoso; Castlereagh, prático e direto. Poucos indivíduos terão deixado atrás de si tamanha
pobreza de reminiscências pessoais. Glacial e reservado, Castlereagh percorreu seu caminho
solitário, tão humanamente inacessível quanto sua política veio a ser incompreensível para a
maioria de seus compatriotas. Dizia-se dele que lembrava um desses esplêndidos cumes de neves
eternas, gelado, belo, distante, de uma estatura que ninguém alcançava e que muito poucos
desejariam alcançar. Somente após sua morte trágica o mundo entendeu o preço da solidão.

Entretanto, como símbolo da experiência britânica, Castlereagh não poderia estar mais na medida.
Pois a guerra não foi feita pela Grã-Bretanha contra uma doutrina revolucionária, muito menos em
nome de uma doutrina alternativa, mas contra uma pretensão universal; não pela liberdade, mas
pela independência; não por uma ordem social, mas por um equilíbrio. Aí estaria uma fonte perene
de desentendimentos com as nações do Continente, particularmente com a Áustria. Para as nações
continentais, era uma guerra não só pela independência, mas pela independência delas, em função
de sua experiência histórica; para a Grã-Bretanha, era por uma Europa onde o domínio universal
fosse impossível. Para a Áustria, era uma guerra pela sobrevivência de uma ordem social; para a
Grã-Bretanha, uma guerra para a criação das “grandes massas” necessárias à contenção da França.
Em 1821, enquanto Metternich arquitetava uma doutrina da intervenção universal para combater
aquilo que considerava o perigo da revolução mundial, Castlereagh relembrou-o de que as guerras
napoleônicas tinham sido travadas pela Grã-Bretanha com base em considerações materiais nas
quais os interesses britânicos estavam evidentemente envolvidos, e não em virtude de vagas
enunciações de princípios.

Os objetivos britânicos são, por esse motivo, mais facilmente expressos em termos negativos.
Refletiam a política de uma potência insular para a qual o Continente, caso fosse dominado por um
poder único, representava uma ameaça mortal; de uma estrutura social cônscia de tal singularidade
— e a consciência é mais importante que o fato da singularidade — que só se sentia ameaçada pelas
transformações internas de outros países quando envolviam uma forçosa expansão para o exterior.
Era uma concepção defensiva de política externa que via a Grã-Bretanha no papel de reguladora do
equilíbrio europeu. E sendo concebido em termos políticos, mais do que sociais, o equilíbrio devia
depender de um balanceamento entre Estados de poder aproximadamente igual, e não de um
princípio de legitimidade. A Grã-Bretanha, que combatera a projeção para o exterior da Revolução
Francesa, lutava por uma Europa cuja estrutura proibisse a conquista. A Áustria e os demais
Estados continentais, que foram levados à beira da dissolução pelo fato da Revolução Francesa e
pela impossibilidade, geográfica e psicológica, de isolamento, lutavam por uma Europa cuja
“legitimidade” tornasse inconcebível a conquista universal. Como um estabilizador de equilíbrio não
pode exercer sua função a não ser que as diferenças entre as outras potências sejam maiores que
suas diferenças coletivas com o próprio estabilizador, o pesadelo britânico era uma paz continental
que excluísse a Grã-Bretanha. Como uma sociedade não pode funcionar constantemente na
defensiva contra forças que lhe atacam o mito, o pesadelo europeu era a revolução permanente.

Não quer isto dizer que os estadistas britânicos não preferissem algumas estruturas domésticas a
outras. Mas sua preferência baseava-se na maior probabilidade de tais governos manterem o
equilíbrio europeu. O Gabinete Liverpool era um adversário de Napoleão infinitamente mais
intolerante com a continuação de seu governo do que o próprio gabinete austríaco. Mas essa
oposição nada tinha a ver com a “legitimidade” dos Bourbons; provinha da convicção de que a paz
com Napoleão não podia ser permanente. “Quem nos diz”, comentou Castlereagh quando Napoleão
escapou de Elba, “se [Napoleão] dirigir de novo os destinos da França, que a Europa pode ficar
tranquila, segura e independente. Acho que nessa questão surgida agora na França se encontra um
problema mais importante, o de saber se a Europa pode voltar àquele sistema moral (. . .) pelo qual
os interesses da humanidade devem ser preservados, ou se permaneceremos, como nos últimos
vinte anos, sob a necessidade de manter um sistema de política militar; se a Europa apresentará no
futuro o espetáculo de um conjunto de nações livres ou armadas”.

Quando Castlereagh se opunha à revolução, não o fazia, como Metternich, porque ela fosse
antinatural, mas porque era perturbadora. O opróbrio lançado sobre Castlereagh pelos liberais
interpreta erradamente as suas intenções. Sempre que julgava poder fazê-lo com segurança, ele
advogava medidas moderadas e conciliadoras, ainda que nunca “liberais”. Mas o repouso da Europa
era da maior importância; as doutrinas de governo precisavam subordinar-se à tranquilidade
internacional. “Não é insurreição o que queremos na Itália, mas uma força disciplinada submetida a
soberanos em quem possamos confiar”, escreveu em 1818 a Lord William Bentinck, que estava
envolvido num esquema para conceder as bênçãos da constituição britânica aos relutantes
sicilianos. E prosseguiu com a seguinte doutrina da primazia da política exterior sobre a interna; do
equilíbrio de potências sobre o equilíbrio da estrutura social: “Não posso dizer que chegue a desejar
que a experimentação por demais extensa em ciência de governo, já em curso pela Europa inteira,
seja imediatamente aumentada por criações similares na Itália. É impossível deixar de perceber a
aproximação de uma grande mudança moral na Europa, e os princípios de liberdade estão em
franca operação. O perigo é que a transição pode ser repentina demais (...) para tomar o mundo
melhor ou mais feliz. Temos novas constituições em vigor na França, na Espanha, na Holanda e na
Sicília. Vamos ver os resultados, antes de encorajar novas tentativas. (. ..) Na Itália é ainda mais
necessário abstermo-nos, se desejamos agir em concerto com a Áustria e a Sardenha”. Isto exprimia
a desconfiança do tory britânico em relação à mudança súbita ou doutrinária, e a crença do
estadista britânico na natureza reguladora da Coalizão.

Era na Coalizão nascida na guerra que Castlereagh buscava uma permanente expressão de
equilíbrio. Já que via na guerra uma defesa contra a hegemonia, era perfeitamente natural que
considerasse a aliança uma proteção contra agressão futura. Como as guerras revolucionárias
haviam assumido tal proporção porque a universalidade das pretensões de Napoleão solapara toda
a confiança, a restauração da boa-fé nas relações internacionais era uma condição prévia para a paz
permanente. “Se os ressentimentos não se contiverem”, escreveu ele em 1814 a sua criança-
problema, Lord William Bentinck, “(...) não é para a conjugação militar de esforços, mas para a
guerra entre nós mesmos, que nos devemos preparar, e, a menos que as facções se coloquem em
relações não só cordiais mas de mútua confiança, causarão exatamente o mal que desejam evitar”.
Em poucas palavras, a Grã-Bretanha, potência cujo único interesse continental era a estabilidade,
devia atuar como mediadora nas rivalidades. Relativamente indiferente às reivindicações paroquiais
dos Estados do Continente, podia propugnar pelas soluções que favorecessem a tranquilidade geral.
Mas a Grã-Bretanha só poderia fazê-lo se não se tornasse suspeita de intuitos egoístas. Por isso,
Castlereagh nunca deixava de insistir na moderação, numa paz de equilíbrio e não de predomínio;
num desígnio de harmonia e não de vingança. Enquanto viajava para o quartel-general dos
Soberanos Aliados na Basiléia, disse a seu acompanhante, Ripon, “que uma das dificuldades que
esperava encontrar nas próximas negociações adviriam da carência de relações de confiança entre
as grandes potências como um todo; e que muitas exigências podiam ser modificadas se se
pusessem as respectivas partes em comunicação irrestrita que abrangesse, em discussões travadas
num clima de confiança, todas as grandes questões pendentes”. E em; meio a uma de suas
periódicas disputas com um Gabinete sempre desconfiado de complicações continentais, escreveu:
“Nossa reputação no Continente, como característica de nossa solidez, poder e confiança, é de um
peso muito mais real que qualquer aquisição”.

Havia um ponto apenas em que uma nação insular não podia ceder: o dos direitos marítimos. Tendo
o domínio dos mares permitido à Grã-Bretanha sobreviver a dez anos de isolamento, os direitos
marítimos adquiriram uma importância desproporcional a sua real significação. Mas quem vai
queixar-se da interpretação que um povo dá a seu passado? É o único meio que ele tem de enfrentar
o futuro, e o que “realmente” aconteceu é muitas vezes menos importante que o que se supõe ter
acontecido. O bloqueio e o direito de revistar navios neutros eram considerados os mais
importantes fatores na liquidação do domínio de Napoleão, e Castlereagh apenas recitava um
truísmo da política britânica quando escreveu a Cathcart, plenipotenciário britânico junto ao Czar:
“A Grã-Bretanha pode ser afastada de um Congresso mas não de seus direitos marítimos, e se as
nações continentais reconhecem os próprios interesses, não se arriscarão a isto”.

Até então os pontos de vista de Castlereagh sobre política externa estavam em harmonia com os do
país, ou pelo menos podiam tomar-se aceitáveis. Mas quando Castlereagh começou a transformar a
aliança contra Napoleão numa organização internacional para a preservação da paz, ia separar-se
não só do país e do Gabinete mas também de seus aliados. Pois a cooperação, baseada num
compromisso efetivamente limitado à agressão francesa, era muito pouco para as nações
continentais e excessiva para a estrutura interna britânica. As nações continentais não se poderiam
satisfazer com uma aliança tão limitada porque sua margem, de segurança era por demais estreita.
Ficava muito bem para Castlereagh alertar Metternich contra a condução de uma política exterior
tão cheia de precauções. Metternich não tinha um canal da Mancha atrás do qual pudesse julgar os
acontecimentos e através do qual pudesse intervir no momento de máxima vantagem. Sua
segurança dependia da primeira batalha, não da última; a precaução era sua única política. E um
governo europeu, embora limitado por compromissos, era demais para a estrutura interna britânica.
Canning, não Castlereagh, falou pela nação quando preveniu que um compromisso de comparecer
regularmente a congressos europeus enredaria a Grã-Bretanha numa política nova e questionável:
“Isso envolverá [a Grã-Bretanha] profundamente em todas as discussões políticas do Continente,
quando nossa verdadeira política sempre foi não interferir a não ser em grandes emergências, e
então com um poder determinante”.

Esta era a doutrina da não-interferência, o outro lado da crença no caráter peculiar das instituições
britânicas. Expressava a convicção de que transformações em governos estrangeiros não podiam
afetar as instituições britânicas, de que as ameaças à segurança britânica eram de natureza
política, não social. Quem possuísse a foz do Escalda era importante para a Grã-Bretanha porque
dela dependia o controle incontestado dos estreitos. Não interessava quem ocupasse o trono em
Nápoles — pelo menos depois da derrubada de Murat. O corolário disto era uma tradução em
termos internacionais do credo político da sociedade britânica. O direito de cada nação a sua
própria forma de governo era um axioma reconhecido pelas duas bancadas da Câmara dos Comuns.
A interferência externa nos negócios de outros Estados podia ser justificada por absoluta
necessidade, muito embora nunca aprovada; podia ser tolerada, porém jamais admitida como
direito universal. E era o Parlamento e a opinião pública que entravam com a condição limitadora
da política exterior de Castlereagh: “Nós atuamos partindo da necessidade que se nos impõe de
manter sempre nossa posição numa forma que, se apresentada no Parlamento, justifique nossas
cautelas”. Castlereagh falou pelo Parlamento, senão por si mesmo, quando respondeu a uma
proposta do Czar, de intervenção européia contra a revolução na Espanha: “Quando o equilíbrio
territorial da Europa se altera, [a Grã-Bretanha] pode interferir com eficácia, mas ela é o último dos
governos da Europa que deve, ou pode, arriscar-se a comprometer-se em qualquer questão de
caráter absoluto. (.. . ) Encontrar-nos-ão em nosso posto quando um verdadeiro perigo [meu grifo]
ameaçar o sistema da Europa: mas este país não pode agir, e não agirá, motivado por abstratos
princípios de prevenção. A aliança em vigor não tinha semelhante propósito em sua formação
original. Nunca foi explicada assim ao Parlamento; houvesse sido, certamente não teria recebido a
sanção do Parlamento”.

Todos os elementos da política de Castlereagh estão reunidos neste despacho: o equilíbrio da


Europa é político em sua natureza, e a Grã-Bretanha lutará contra qualquer tentativa de rompê-lo.
Mas a ameaça deve ser evidente, não hipotética; e a ação deve ser defensiva e não preventiva. As
revoluções, mesmo indesejáveis, não constituem verdadeiro perigo. “A política do Imperador”,
Castlereagh disse a Lieven, o embaixador russo, em resposta a uma tentativa de usar-se a aliança
para reprimir uma revolução em Nápoles, “é uma esperança vã, um magnífico fantasma que a
Inglaterra, principalmente, não pode perseguir. (...) Propõe-se, no momento, a dominar a revolução;
mas enquanto essa revolução não aparecer numa forma mais nítida(. . .) a Inglaterra não está
disposta a combatê-la. Em qualquer outra questão puramente política ela sempre deliberaria e
agiria da mesma forma que todos os demais Gabinetes”.

“Em qualquer outra questão puramente política” — eis aí a doutrina diplomática de uma potência
insular convencida da inexpugnabilidade de suas instituições internas. Esta distinção entre o
elemento político e o elemento social continuaria inadmissível para Metternich, o estadista
continental. Mas a diferença ainda não era nítida em 1812. A ameaça ao equilíbrio era evidente;
óbvia a necessidade de uma Coalizão. A revolução, sob o disfarce de uma ditadura militar, tinha de
ser reprimida, fosse em nome do equilíbrio territorial ou do social. Portanto, era perfeitamente
natural que Metternich abrisse sua campanha com um oferecimento de paz a fim de criar um
arcabouço moral, enquanto Castlereagh propunha um acordo territorial para obter um equilíbrio
físico.

II

Castlereagh apresentava-se em sua melhor forma quando os objetivos estavam determinados,


quando havia uma Coalizão a ser mantida, um acordo a ser negociado, uma disputa a ser resolvida.
Tal era a situação em 1813, e seu objetivo a libertação da Europa e a restauração do equilíbrio de
poder. Mas a Europa não havia de ser libertada sem a derrota de Napoleão. Para Castlereagh isto
era tão evidente que as sutilezas de Metternich lhe pareciam subterfúgios e evasivas. Do estadista
da “sinceridade”, que podia contemplar a Europa com a segurança que lhe davam o canal e uma
década de relativo isolamento, não caberia esperar simpatia alguma por uma política que falava em
paz enquanto preparava a guerra, ainda mais quando o sucesso dessa política dependia de sua
aparente sinceridade. Portanto, deu ele uma dura resposta às proposições de Metternich, que em
seu fraseado legalístico revelavam uma concepção de relações exteriores em que as aparências são
a única realidade. Tal réplica pôs à mostra, bruscamente, a própria ambiguidade dos argumentos
especiosos de que dependia o sucesso da política de Metternich: a Áustria era uma auxiliar da
França. Só poderia ter entrado na guerra contra a Rússia sob alegação de necessidade ou de
justiça. Na primeira hipótese, a Áustria tinha obrigação, uma vez retirada a pressão da necessidade,
de pôr fim ao seu engajamento e levar em consideração seu próprio interesse. Se, no entanto, a
Áustria considerava justa a guerra de Napoleão, estava na realidade solicitando à Grã-Bretanha que
acompanhasse o sistema continental. A Grã-Bretanha não podia, portanto, cooperar com os esforços
austríacos de paz, enquanto a Áustria não houvesse mostrado uma disposição de independência.

Mas Castlereagh temia muito mais uma paz continental que excluísse a Grã-Bretanha do que os
esforços da Áustria para induzir a Grã-Bretanha a negociar prematuramente. Qualquer solução,
ainda que insatisfatória, era preferível a manter afastado do equilíbrio internacional o elemento
regulador. Nada mais natural, portanto, que Castlereagh tentasse animar as potências continentais
dando aos objetivos britânicos a formulação mais abrangente, e se voltasse em busca de inspiração,
para Pitt, seu grande mentor. Pitt, em 1804, enfrentara uma situação semelhante à de Castlereagh
em 1813. Naquele ano, como em 1813, a Europa debatia-se para restaurar seu equilíbrio contra
uma tentativa de dominação universal, embora a natureza da ameaça ainda não fosse de todo
conhecida e persistisse a ilusão da possibilidade de uma acomodação em separado. Ao mesmo
tempo que Metternich tentava convencer uma Prússia titubeante da impossibilidade de coexistência
pacífica com uma França napoleônica, o jovem Czar da Rússia, Alexandre, enviara um agente à,
Grã-Bretanha para negociar uma Coalizão e conseguir ajuda financeira britânica. Ainda em sua fase
liberal, o Czar não se satisfazia com uma aliança para reduzir ou derrubar o Império de Napoleão. A
Coalizão devia ser uma cruzada, sua finalidade a paz universal.

O sóbrio Pitt deve ter-se espantado com o projeto visionário exposto pelo enviado russo. A velha
Europa, afirmava Alexandre, fora-se para sempre, e outra, nova, tinha de ser criada; nada aquém da
derrubada dos últimos vestígios do feudalismo e da reforma das nações pela adoção de
constituições liberais poderia restaurar a estabilidade. Nem mesmo o Império Otomano era
considerado sem salvação. E para que nenhuma potência perturbasse a harmonia dos Estados
constitucionais, Alexandre adicionou certo número de salvaguardas: os Estados deveriam submeter
suas contendas à mediação de terceiros; qualquer Estado que desafiasse a nova Europa teria sobre
si uma imediata Coalizão de todas as outras potências; a Grã-Bretanha e a Rússia, em virtude de sua
posição geográfica, seriam fiadoras do acordo. Havia algumas referências a arranjos territoriais,
particularmente com respeito à Sardenha, e um plano muito vago para a organização da Alemanha,
mas não interessavam realmente a Alexandre. A paz devia ser assegurada pela harmonia social; a
guerra, evitada por se tornar inconcebível.

Todavia, Pitt não estava disposto a empreender uma cruzada pela liberdade constitucional. Nem
desejoso de abrir mão dos direitos marítimos britânicos, o que sugeria o Czar como contribuição
britânica à boa vontade internacional. Por outro lado, não queria que a Coalizão se emaranhasse
numa disputa sobre filosofia política. Para escapar ao dilema e induzir o Czar a postergar suas
propostas de melhorias sociais até a conferência de paz, Pitt procurou dar ao objetivo principal
britânico, a redução do poder francês, expressão concreta. Chegou-se assim ao Plano Pitt de paz,
gorado em 1805, mas ressuscitado em 1813 para formar a base do acordo do pós-guerra.

O plano de Pitt começava por reduzir as sugestões russas a três objetivos básicos com os quais ele
estava de acordo: “(a) Livrar do domínio da França aqueles países que ela subjugou desde o início
da Revolução e reduzir a França aos seus antigos limites de antes daquele tempo; (b) realizar, com
relação aos territórios recuperados à França, os acertos que lhes tragam tranquilidade e bem-estar
e, ao mesmo tempo, constituam uma barreira, mais efetiva no futuro, contra usurpações por parte
da França; (c) elaborar, com a restauração da paz, um acordo e garantia geral para proteção e
segurança mútua das diferentes potências e para o restabelecimento de um sistema geral de direito
público na Europa”.

Essas proposições eram simplesmente formulações abstratas de metas desejáveis. Pitt, então,
tratou de esboçar a estrutura que lhes daria realidade. Não tendo a Grã-Bretanha e a Rússia
ambições territoriais, argumentava ele, e sendo ambas capazes de adotar um ponto de vista geral,
competia-lhes chegar ao acordo sobre a natureza do equilíbrio europeu e assegurar sua aceitação
pelas outras potências.

E, como a hegemonia francesa adviera da redução das potências secundárias à condição de


satélites, o novo equilíbrio de poder devia basear-se na influência fiscalizadora das Grandes
Potências. Sem dúvida, a restauração da independência nacional devia ser o principal objetivo da
aliança, mas existiam vários Estados que haviam demonstrado, por seu rápido colapso ou pela
subserviência à França, incapacidade para o autogoverno. Seus territórios deviam ser usados para
induzir as Grandes Potências a aderir à Coalizão e criar as “grandes massas” destinadas a conter a
França. Os Estados marcados para a extinção incluíam Gênova, as possessões eclesiásticas da
margem esquerda do Reno e as possessões espanholas no norte da Itália. A Áustria e a Prússia
seriam as principais beneficiárias, a Áustria na Itália e a Prússia na Alemanha. Induzindo a Áustria a
tornar-se uma potência influente na Itália, Pitt esperava eliminar a rivalidade entre a Áustria e a
Prússia na Alemanha que fornecera tantos pretextos para intervenção francesa.

A Europa devia, então, organizar-se numa sociedade de cinco potências principais: Grã-Bretanha,
França, Rússia, Áustria e Prússia. A França seria rodeada por um anel de potências secundárias,
cada qual com uma barreira de fortalezas para absorver o primeiro assalto e com uma potência
maior de reserva. A Holanda, apoiada pela Prússia, guardaria o Norte; a Sardenha, garantida pela
Áustria, o Sul; a aliança austro-prussiana, o Centro. O esquema seria protegido por um tratado geral
entre todas as Grandes Potências garantindo o acordo territorial e por um tratado em separado
entre a Rússia e a Grã-Bretanha, efetivamente garantindo a garantia.

Ali estava retratada, em poucas páginas esparsas, numa linguagem vulgar, a natureza do
comprometimento britânico. Devia ser uma guerra pela segurança e não pela doutrina, contra a
conquista universal, não contra a revolução. Sua meta era um equilíbrio estável de poder, a ser
atingido pela redução da França e pelo crescimento das Potências Centrais, protegido por uma
garantia territorial como expressão do equilíbrio e por uma garantia especial das potências
“abnegadas” como um símbolo de boa-fé internacional. Somente em dois pontos a Grã-Bretanha se
mostraria inflexível: direitos marítimos, sobre os quais o plano de Pitt guardava significativo
silêncio, e uma Holanda livre do controle de uma potência importante.

O pragmatismo deste plano era sua força e sua fraqueza. Redundou numa unidade de propósitos
que permitiu à Grã-Bretanha atingir suas metas mais importantes antes de qualquer outra potência.
Mas também implicava uma concepção mecânica das relações internacionais que não levava em
consideração as relações mutáveis entre as potências. O equilíbrio visado se baseava numa
concepção defensiva: a ameaça de uma França agressiva. Enquanto esta ameaça fosse
universalmente admitida, bastava para legitimar o equilíbrio de poder. Quando novos problemas
surgissem, no entanto, e diferentes ameaças se fizessem sentir, a natureza do equilíbrio teria de ser
revista. Nesta nova definição, a antiga unanimidade dificilmente poderia ser retomada, pois é só nos
períodos revolucionários que as ameaças assumem alcance universal; só então podem generalizar-
se as coalizões defensivas. A própria estabilidade da paz tende a desintegrar a aliança dos tempos
de guerra se a única coisa que a mantém unida é a lembrança do perigo comum.
Mas isto ainda estava longe. Com a Grande Armée derrotada e o isolamento britânico
aparentemente por acabar, Castlereagh ressuscitou o plano de Pitt ao remetê-lo a Cathcart com a
seguinte carta: “O arranjo político da Europa talvez seja mais difícil de decidir neste momento
inicial. (...) Os principais aspectos sobre os quais estamos de acordo, isto é, que para deter a França
precisamos de grandes massas, que a Prússia, a Rússia e a Áustria devem ser(. . .) mais poderosas
do que nunca, e que os Estados inferiores devem ser chamados a ajudar ou a pagar pela omissão na
resistência. (...) Como ponto de partida para o raciocínio, envio-lhe (. . .) um documento sobre o qual
se fundou a confederação em 1805; o Imperador da Rússia provavelmente não tem este papel no QG
(lembro-me bem de ter tido mais de uma conversa com o Sr. Pitt sobre seus pormenores, antes que
ele o escrevesse [grifo de Castlereagh]). Algumas das sugestões podem hoje ser inaplicáveis, mas é
um esboço tão bem feito para a restauração da Europa, que muito me agradaria que Vossa
Excelência o reduzisse a proposições separadas e conseguisse chamar para o assunto a atenção de
Sua Majestade Imperial”. Dessa maneira, o Plano Pitt constituiu a idéia geral da política de
Castlereagh. Tão bem sucedido seria ele na consecução daquelas metas, que em 1815 pôde
apresentar o Plano Pitt perante a Câmara dos Comuns como justificativa para o acordo de Viena.

Todavia, em abril de 1813 o plano era prematuro. Pois ainda não se tinha certeza se haveria guerra
ou paz, e, no caso de guerra, de que espécie seria. A Coalizão estava por formar-se; o novo exército
de Napoleão, por ser experimentado. A Áustria ainda estava empenhada em suas complicadas
providências e falava de mediação, enquanto Castlereagh mal podia conter a impaciência. O grande
defensor da Coalizão não podia atuar enquanto a Coalizão não se formasse. Nesta tarefa Metternich
estava empenhado, e até que a concluísse tudo o mais teria que esperar.


4/ METTERNICH E A DEFINIÇÃO DO
EQUILÍBRIO POLÍTICO

“[A POLÍTICA] é uma peça em muitos atos”, escreveu Metternich certa ocasião, “que se desenrola
inexoravelmente uma vez erguido o pano. Declarar então que não haverá sessão é um absurdo. A
peça será apresentada, ou por intermédio dos atores (...) ou por meio dos espectadores, que sobem
ao palco. (. . .) Pessoas inteligentes há, no entanto, que não consideram isto a essência do problema.
Para eles, o essencial está na decisão de subir ou não o pano, de reunir os espectadores, e na
qualidade intrínseca da peça”. Em fins de 1812, ao levantar-se o pano, surgiu um palco em total
desarrumação, no qual um cuidadoso cenógrafo estava movendo imperceptivelmente as peças até
criar um quadro a seu gosto. E como o cenógrafo não desejava revelar logo a natureza do arranjo
que buscava, resistia, às vezes com impertinência, a todas as pressões de fora para que apressasse
o trabalho.

Ao oferecer a Napoleão seus bons ofícios em prol de uma paz geral, Metternich iniciara uma política
da qual sabia não haver retorno. Quisesse ele apenas ser exonerado da pesada aliança francesa,
poderia oferecer sua ajuda a uma paz em separado com a Rússia e recolher-se à neutralidade em
caso de recusa. Mas ao focalizar uma paz geral, envolveu os interesses do Império Austríaco da
forma mais direta. Se Napoleão deixasse de aceitar as condições que Metternich estava elaborando,
não restaria outra opção senão formar nas fileiras dos seus inimigos. Pois as condições seriam, por
definição, o esboço da única Europa que a Áustria podia julgar compatível com sua segurança.
Metternich, que se orgulhava de conhecer o caráter de Napoleão, podia ter pouca esperança de que
Napoleão aceitasse, não porque as condições fossem mesquinhas, mas porque eram condições.

Foi, portanto, sem ter qualquer dúvida sobre a gravidade do ato, que Metternich desencadeou uma
campanha diplomática em nome da aliança francesa, ao fim da qual a liderança austríaca, moral e
militar, da Coalizão antifrancesa era um fato que dispensava negociação. Dependendo, o sucesso
dessa campanha, de uma ilusão de sinceridade, havia que evitar qualquer atitude que pudesse
colocar em dúvida os intuitos austríacos. As solicitações russas de uma declaração de política foram
contornadas ou ficaram simplesmente sem resposta, e quando Lord Cathcart despachou um
emissário para acelerar a entrada da Áustria na guerra, Metternich mandou dizer, em resposta, que
não conhecia nenhum Lord Cathcart, e que, quando estivesse disposto, trataria com a Grã-Bretanha
em Londres. E como a posição de barganha da Áustria dependia da ilusão de independência, a
liberdade de ação passou a ser a meta principal de Metternich. “O primeiro de todos os interesses é
a independência”, escreveu Metternich no início de janeiro de 1813. “Grandes sucessos de qualquer
dos contendores, sem exaustão de suas forças militares, eram uma perspectiva que só podia criar
novos embaraços à Áustria. (.. .) [Mas] no início de 1813 a Áustria está forte graças ao
depauperamento das outras duas Cortes Imperiais. (. . .) Por esta razão é que imprimimos a todos os
nossos passos em relação à França aquele sentimento de independência cuja percepção tornar-se-á
mais positiva a cada dia que passa”.

Mas era uma independência de natureza paradoxal evidenciada pela obliquidade das medidas, pelo
tom da linguagem, pela vacilação no atendimento dos desejos de Napoleão; uma independência que
se mostrava ainda mais efetiva por se exercer em nome da sujeição. Sua primeira expressão foi a
forma das instruções para o emissário austríaco Bubna, enviado a Napoleão ostensivamente para
adaptar a aliança às novas circunstâncias, mas na realidade para descobrir-lhe as intenções e
prever qualquer embaraçosa proposta francesa. As instruções, que deviam ser repetidas a
Napoleão, levantavam outra vez a questão da mediação austríaca, ligando-a ao destino a ser dado
ao corpo auxiliar austríaco, que representava o núcleo do poder da Áustria. Começavam pela usual
referência ambígua à derrota de Napoleão: malgrado uma infindável série de erros, malgrado a
falta de um único talento militar, a Rússia saíra vitoriosa. Uma vitória de incalculáveis
consequências. “O povo da Europa”, afirmava ambiguamente Metternich, “aprendeu nos últimos
vinte anos a julgar poderios militares. Não pode ser enganado quanto às prováveis consequências
dos recentes acontecimentos”. A única solução era a paz, mediada pela Áustria, que devia grandes
favores a Napoleão, mas tinha obrigações ainda maiores para com seu próprio povo. Mas se
continuasse a guerra, insistia Metternich, era evidente que a causa comum [grifo meu] seria melhor
servida por um recuo do corpo auxiliar austríaco até a Galícia, onde se juntaria ao corpo de
observação, para cuja criação Metternich obtivera licença em 1812 providenciando uma “ameaça”
russa. Criando o clima moral para a independência, Metternich ia tendo o cuidado de reunir os
meios que a tornassem efetiva. Napoleão aprenderia que um abraço muito ardente pode esmagar.

Seguiu-se uma controvérsia tão estilizada quanto uma peça teatral japonesa, com regras outro tanto
complicadas. Pois ambos os lados precisavam disfarçar a natureza real da questão, manter as
aparências e continuar com as opções em aberto: Napoleão, para refazer seu exército, arrastar a
Áustria consigo e por meio da lisonja ou intimidação levá-la a tapar a brecha deixada pelo colapso
do Grande Exército; Metternich, a fim de ganhar tempo e experimentar a firmeza de seus possíveis
aliados, cobrir sua retirada caso os julgasse deficientes e criar o poder com que desafiar Napoleão
sem expor a Áustria ao primeiro ataque. Era um teste de resistência, no qual alguns golpes
precisavam ser dados com grande decoro, e aceitos como se não pudesse haver discrepância entre
aparência e realidade. Era um teste de paciência, em que as alfinetadas tinham de ser recebidas
com graça e sorrisos, e a ambiguidade ignorada como se a vida não pudesse ser diferente. Um
homem que se acostumou a comandar acha quase impossível aprender a negociar, porque a
negociação é uma admissão de poder finito. Porém uma nação situada no centro da Europa não
pode encontrar segurança a não ser num mundo em que a negociação seja o padrão normal de
relações. Para Napoleão, tudo dependia de mostrar sua permanente onipotência; para Metternich,
de demonstrar as limitações do poder francês.

Isso conduziu a um diálogo estranho e inconcludente, pois ambos os lados relutavam em insistir nas
implicações totais de suas posições. Napoleão, na primeira entrevista com Bubna em 31 de
dezembro, acentuou a superioridade dos meios franceses, sua resolução de invadir outra vez a
Rússia e exigiu a duplicação do corpo auxiliar austríaco. Metternich, que recebera propostas
similares do embaixador francês em Viena, respondeu, no dia 3 de janeiro, que a continuação de
uma guerra tão “antipolítica” representaria um enfraquecimento moral da monarquia. Acrescentou,
sinistramente, que muita coisa dependera, para a Áustria, da correta avaliação dos recursos
franceses, de modo que ela não podia enganar-se quanto ao verdadeiro estado deles, e que a
Áustria sabia distinguir muito bem entre recrutas e um exército. O Ministro do Exterior francês,
Conde de Bassano, ponderou que Metternich estava equivocado sobre o real poderio francês e que
um observador austríaco mais experimentado, indo a Paris, estaria logo em condições de esclarecê-
lo sobre a imensa força de Napoleão. A ameaça presente no despacho de Metternich de 9 de
dezembro, dos cinquenta milhões contidos pela boa vontade austríaca, não passara despercebida,
mas Bassano avisou que uma guerra entre a Áustria e a França seria uma guerra pela sobrevivência
e não uma guerra política. Metternich, que sabia muito bem disso, não estava, entretanto,
interessado em recriminações, e muito menos numa prova de força. Como podia a Áustria,
respondeu ele mansamente, ser acusada de comparar seus recursos com os da França, quando tudo
que pretendia era apenas proteger seu território, o de um aliado francês, contra as hordas da
Rússia? A Áustria, que mantinha sob controle cinquenta milhões de pessoas, concluiu Metternich
com uma insistência oblíqua equivalente a uma afirmação de poder, merecia o apoio moral e não a
desconfiança da França. Entrementes, no dia 7 de janeiro, Napoleão escrevera uma carta
bombástica ao Imperador austríaco catalogando outra vez seus recursos e exigindo o dobro do
corpo auxiliar austríaco e o direito de trânsito para tropas francesas através do território austríaco,
em troca de subsídios franceses.

Tudo agora dependia do destino do corpo auxiliar austríaco, propositalmente composto de quadros
e chave de qualquer mobilização de forças. O primeiro objetivo da política austríaca — mobilidade
política — fora atingido. Pois Napoleão, por ocasião de sua entrevista de 31 de dezembro com
Bubna, afirmara sua disposição de aceitar o esforço austríaco de paz, mas insistira em que se
apoiasse num aumento do corpo auxiliar. Napoleão demonstrava assim a extensão de seu engano.
Atribuía as hesitações austríacas a covardia e, para superar o que tomava por temores da Áustria,
tratava de lhe dar consciência de sua força; mas Metternich buscava a força com o fim de poder
desafiar Napoleão, se necessário. Napoleão via no corpo auxiliar o escudo atrás do qual poderia
restabelecer seu exército, Metternich considerava-o o núcleo da independência austríaca. Como o
parvenu corso identificava obrigação com relações pessoais, não podia conceber que um pai
pudesse fazer guerra ao marido de sua filha. Tendo a Casa de Habsburg aprendido em seu reinado
de quinhentos anos que a história transcende ao indivíduo, levava em conta apenas considerações
que lhe pudessem assegurar a permanência.

Schwarzenberg, o comandante do corpo auxiliar, foi autorizado a negociar diretamente com seu
igual russo, e utilizou essa permissão para inventar uma batalha “teórica”, cujo emaranhado faria o
orgulho de um general chinês. Insistiu com o comandante russo para que deslocasse suas operações
do sul para o norte do corpo austríaco, e sugeriu um flanqueamento que não deixaria outra opção
além de uma retirada para a Galícia. Metternich aprovou essa manobra e por fim ordenou ao corpo
auxiliar que recuasse até Cracóvia. Em, 30 de janeiro, Schwarzenberg foi autorizado a assinar um
armistício de duração indefinida.
Dessa maneira foi salvo o corpo auxiliar, e a Áustria recuperou sua liberdade de ação através de
uma manobra quase demasiadamente sutil de diplomacia de Gabinete. Duas missivas seguiram para
Napoleão em nome do Imperador Francisco mas preparadas por Metternich, a primeira em
resposta às requisições de Napoleão de 7 de janeiro, a segunda comunicando a retirada de
Schwarzenberg do Vístula. A primeira carta, datada de 23 de janeiro, começava uma vez mais, como
era agora quase obrigatório, com protestos de amizade austríaca, combinados com uma exposição
dos reveses franceses e, portanto implicitamente, do relativo poderio da Áustria: “(...) tenho
percebido, com um sentimento de dor, que Vossa Majestade já não me concede a confiança(. . .) da
qual me julgo merecedor após tantas e tão repetidas mostras de minha amistosa preocupação. (...)
Não tento enganar a mim mesmo, isto é, não credito ao mérito militar do inimigo desgraças que
resultam de circunstâncias inteiramente alheias à vontade humana. (. . .) Estou longe de duvidar
dos meios militares da França. Muito ao contrário, neles baseio (. . .) a esperança de paz”. Com esta
frase irônica Metternich registrava o catálogo do poderio francês e dele tirava conclusão
precisamente oposta à que pretendia Napoleão, de que constituía um argumento mais em favor da
paz.

Na realidade, prosseguia a carta, a Áustria excedera os desejos de Napoleão. Não sessenta, mas
cem mil homens, seriam mobilizados: “Em posição nos flancos do inimigo, destinam-se a intimidar a
Rússia e inspirar cautela até mesmo à Inglaterra”. Porém mesmo esse palavreado grandiloquente
terminava sendo mais um argumento pela paz, pois somente a esperança de paz podia induzir os
povos da Áustria a fazer os sacrifícios necessários à criação dessa força. A carta era, portanto, um
subterfúgio e uma cilada. Rejeitava todos os pedidos de Napoleão em nome de um esforço comum, e
usava deste subterfúgio para comprometer Napoleão mais a fundo com a mediação austríaca. O
corolário de que o poderio austríaco recém-criado teria que ser empregado — por definição, dir-se-
ia — contra a potência que aos olhos do Gabinete austríaco impedira o acordo, Metternich deixava-o
para o futuro.

A segunda carta, datada de 24 de janeiro, continha o ponto crucial da posição austríaca. Deixava
bem claro que os cem mil homens, que tão generosamente estavam sendo preparados, seriam
concentrados na defesa da Áustria, e não empregados em favor da França. Apesar do tom submisso,
nada podia ocultar o fato de que a passagem através da Polônia agora estava aberta. Com um
cinismo que bem mostrava a crescente certeza de Metternich de que ao nível da diplomacia de
gabinete ele era o mestre, a carta explicava que o recuo do quartel-general da Grande Armée —
aquele pseudo-exército, como Metternich maliciosamente o descrevia numa carta anexa —
interrompera as comunicações com Schwarzenberg. “Numa emergência de tal magnitude, em que o
representante de Vossa Majestade abandonara seu posto de comando, fui forçado a cuidar do bem-
estar do meu corpo auxiliar por medidas diretas. (.. .) Não tenho dúvida de que minhas ordens
coincidem com as intenções de Vossa Majestade”. Quando Bubna leu esta passagem para Napoleão,
este deu sinais de profunda emoção, não de fúria, narrou Bubna, mas de consternação ante uma
inesperada reviravolta nos acontecimentos, cuja gravidade Napoleão bem avaliava. A retirada do
corpo austríaco e a insolência das comunicações de Metternich eram mais que um ato de
independência; davam uma demonstração da impotência de Napoleão. Pela primeira vez, Napoleão
nada podia fazer senão aceitar medidas a que em qualquer outra situação teria respondido com uma
declaração de guerra.

A diferença entre as defecções da Prússia e da Áustria é sintomática dos problemas desse período.
O armistício que Yorck, o comandante do corpo auxiliar prussiano, concluiu em Tauroggen tornou-se
símbolo da independência nacional e da libertação de uma servidão ao estrangeiro. Foi prontamente
repudiado pelo Rei prussiano que recordava Napoleão como o vencedor de Iena e Auerstadt. A
retirada do corpo austríaco foi realizada como uma ação de Estado, e desta forma participada a
Napoleão. A Prússia rompeu com Napoleão violando tratados existentes; a Áustria recobrou sua
liberdade de ação em nome deles. Uma política de élan patriótico ou de diplomacia de gabinete, de
uma guerra dos povos ou uma guerra de Estados, estas eram as alternativas de 1813. Metternich
não tinha dúvidas sobre a alternativa que a Áustria devia escolher, e criar-lhe o enquadramento foi
seu objetivo seguinte.

II

Se Castlereagh conhecesse toda a extensão das atividades de Metternich, não ficaria tão
preocupado com a possibilidade de um acerto em separado com a França. Retomada a liberdade de
ação, todos os esforços de Metternich passaram a objetivar a manutenção de uma situação fluída,
atraindo as demais potências e paralisando Napoleão. Pois Metternich compreendia que suas
atitudes tornavam impossível à Áustria permitir outra vitória total francesa. Um Napoleão de poder
limitado podia aceitar a autonomia austríaca porque não tinha outra escolha. Mas um Napoleão
vitorioso provavelmente não perdoaria esta amizade que paralisava, esta mediação que isolava.

A retirada do corpo austríaco servira, na realidade, a um duplo propósito. Concentrara as forças do


Império e, abrindo caminho através da Polônia, fornecera uma prova da resolução russa. Metternich
sabia muito bem que altos chefes do exército russo, inclusive seu comandante Kutusoff, eram
favoráveis a deter a perseguição do Grande Exército na fronteira russa. Agora, com tropas russas
cruzando o Vístula, esse perigo desaparecera, mas o vulto das operações russas dependia em parte
do apoio prussiano. Depois das perdas do ano anterior, a Rússia não dispunha de forças para
continuar avançando pela Europa Central sem auxílio. Metternich dedicou-se, então, a trazer a
Prússia para a guerra e comprometer a Rússia em operações além-fronteiras.

O austríaco empregou desta forma sua recém-obtida “mobilidade” para desviar o curso dos
acontecimentos das fronteiras da Áustria e permanecer de parte até que a Rússia definisse mais
firmemente seus objetivos. Metternich tinha razão em temer o sucesso russo quase tanto quanto a
irresolução russa. Um documento preparado pelo patriota polonês Czartorisky caíra em suas mãos
em “circunstâncias extraordinárias” — é de presumir que através de um ataque de “assaltantes de
rua”, o método predileto de atuação da polícia secreta austríaca. Pedia a reunificação de todas as
províncias polonesas num Reino da Polônia, ligado à Rússia apenas pela pessoa do monarca. Mas
Metternich, que combatera o estabelecimento, por Napoleão, do Ducado de Varsóvia como um
símbolo do nacionalismo polonês, não estava disposto a ver aquele nacionalismo realizado em
consequência da derrota de Napoleão. O método que escolheu para tratar desse caso ilustra bem a
sinuosidade de seus processos e a variedade de seus recursos: passou os documentos capturados a
Napoleão. Fornecendo, dessa maneira, uma prova de sua lealdade, numa questão que era preferível
ver ventilada na imprensa francesa do que na austríaca, demonstrava a Napoleão, ao mesmo tempo,
a inutilidade de qualquer esperança de paz em separado com a Rússia. * Pois a Rússia dificilmente
poderia pretender a liquidação do Ducado de Varsóvia, criação pessoal de Napoleão, sem ter obtido
uma vitória definitiva. Começou assim a disputa sobre a Polônia, que duraria dois anos e por pouco
não atirou a Europa em outra guerra.

Entretanto, uma discussão sobre o destino da Polônia ainda era prematura. A Prússia ainda não se
decidira, e a Rússia não era capaz de avançar muito mais, desapoiada. A essa altura, a Prússia
enviou um negociador, Knesebeck, a Viena para propor uma aliança e pedir conselhos.

A Prússia encontrava-se num dilema atroz. A derrota de 1806 a reduzira à condição de potência de
segunda classe e a uma extensão territorial de apenas um terço de sua área antiga. Seu papel na
guerra contra a Rússia evidenciara a posição de vassalagem a Napoleão. Servira de base de
suprimentos para o Grande Exército; seu corpo de exército lutara sob o comando de um marechal
francês. Agora, exércitos russos marchavam para oeste, e o mesmo destino da Polônia parecia
reservado à Prússia, que Frederico, o Grande, elevara à categoria de grande potência por um ato de
vontade. O Gabinete prussiano, prevendo os acontecimentos através da perspectiva da passada
impotência, estava paralisado pelos riscos inerentes a todas as contingências: um novo avanço
francês, grandes vitórias russas, paixões populares ou neutralidade austríaca. Conhecia o objeto de
seus receios, mas não conhecia a natureza de seus objetivos nem a extensão de seu poder. O avanço
dos russos apenas aumentou seus problemas. Emissários russos, insistindo por uma declaração
contra Napoleão, ameaçavam reter a Prússia Oriental em caso de vitória, enquanto uma onda de
entusiasmo nacional fustigava o restante do Estado, e Stein, o ex-Ministro prussiano, reunia em
assembléia os estados-sociais da Prússia Oriental em desafio ao Rei. Uma guerra de aniquilação ou
a desintegração nacional pareciam ser as únicas alternativas da Prússia. A missão de Knesebeck era
um apelo para não se abandonar a Prússia na Europa às duas grandes potências periféricas, a
Rússia e a França.

Isto colocou Metternich em posição difícil. Ao contrário dos estadistas mais provincianos da “escola
austríaca”, ele nunca deixou de considerar uma Prússia forte condição para a segurança austríaca e
o equilíbrio europeu. Mas em janeiro de 1813 a Prússia só podia fortalecer-se à custa da França,
não através de uma aliança com a Áustria. Uma aliança, além de acabar com a mediação austríaca,
praticamente antes que se iniciasse, teria fortalecido o “grupo da paz” da corte prussiana, que
imaginava um centro neutro separando os grandes contendores, como se a neutralidade dependesse
de um ato de volição e não do nível de força para torná-la efetiva. Mas a recusa da aliança podia
lançar a Prússia inexoravelmente nos braços da Rússia, e estender a influência russa
profundamente na Europa Central. Como envolver a Prússia na guerra e ainda deixar aberta a
possibilidade de cooperação futura? Como comprometer a Rússia e evitar sua preponderância?

Metternich esquivou-se a este dilema tratando a identidade de interesses austro-prussiana como


uma coisa tão evidente que dispensava um convênio explícito. Cópias de todos os despachos para
Paris haviam sido sempre encaminhadas ao ministério prussiano para mostrar a crescente
independência do tom austríaco. Agora Metternich avançou mais um passo. Em sua primeira
entrevista com Knesebeck reafirmou que a Áustria, longe de temer uma aliança prussiana com a
Rússia, na realidade a recebia com satisfação como uma prova da decisão russa. Em seguida enviou
um despacho ao seu embaixador em Berlim, sugerindo que a Prússia reconstituísse seu exército na
Silésia a pretexto de defender o Oder e, acrescentava sardonicamente, longe do pernicioso exemplo
do General Yorck. Demonstrando assim à Prússia que ambas as Potências Centrais podiam jogar ao
estilo austríaco, Metternich identificava os interesses austríacos com a causa prussiana. Ainda não
se comprometia a ajudar a Prússia a atingir seus objetivos mas não podia permitir que a Prússia
sofresse todas as consequências da ira de Napoleão.

Mas se Metternich desejava uma mudança de lado dos prussianos para atrair a Rússia à Europa
Central, ao mesmo tempo queria que a Prússia limitasse seu comprometimento, para deixar aberta
a possibilidade de cooperação futura, particularmente na questão polonesa. A Prússia, apoiada pela
Áustria, deveria servir de obstáculo às ambições russas e não de prolongamento da política russa.
Devia ele, portanto, demonstrar que a reserva austríaca era apenas temporária e tática, melhor
adaptada para atingir os objetivos comuns. O método que escolheu foi caracteristicamente indireto:
uma análise das intenções austríacas, preparada por Knesebeck em 14 de janeiro, que Metternich
corrigiu e enviou para Berlim, acompanhada de uma carta de desmentido para proteger-se caso a
mensagem caísse em mãos dos franceses. O memorando iniciava por uma comparação entre as
posições prussiana e austríaca: a Prússia, que ao assinar seu tratado de aliança com a França havia
cedido tão evidentemente à força, tinha direito de romper os laços tão logo fosse removida a
pressão estrangeira. Mas a Áustria, unida à França pelo casamento e por um tratado assinado na
aparência livremente não podia trocar de lado sem manchar a dignidade de seu soberano. A tarefa
da Áustria seria readquirir sua liberdade com o consentimento de Napoleão, ser dispensada de seu
compromisso pela própria França. Esse objetivo fora alcançado. A partir do momento em que
Napoleão aceitara a mediação austríaca, a situação da Áustria se transformara completamente.

Mas embora a Áustria houvesse conquistado agora sua liberdade de ação, não avançaria muito,
alertava o memorando de Knesebeck, enquanto a Rússia não explicitasse suas intenções. Até a
Rússia proclamar seus objetivos, a Áustria limitar-se-ia aos passos seguintes: deslocar seu corpo
auxiliar lentamente para a Silésia; armar, em proporção direta ao avanço dos russos, cada província
à medida que entrasse em contato com forças russas; paralisar os aliados da França, demonstrando,
pelo exemplo, que as solicitações de ajuda da França podiam e deviam ser recusadas. A atitude
passiva da Áustria visava, então, a forçar a Rússia a explorar seus êxitos e encorajar a Alemanha a
trabalhar por sua própria libertação, sem depender de um esforço solitário, heróico, da Áustria.

Isso mostrava que Metternich aprendera as lições de 1805. A Coalizão devia ter a base mais ampla
possível e a Áustria não se engajaria até que os riscos estivessem minimizados. E o parágrafo
seguinte revelava que a experiência de 1809 tampouco fora esquecida. Definia o objetivo final
austríaco “como uma grande, voluntária ( ... ) aliança no centro da Europa, baseada na
independência dos Estados e na segurança da propriedade, que encontraria um sistema de justiça
para substituir o sistema existente de coalizões forçadas (...) e opor-se a quaisquer desígnios de
crescimento, de onde quer que viessem.” Cada palavra foi escolhida para o máximo efeito neste
enunciado do princípio legitimador, em nome do qual a Áustria se propunha a combater Napoleão.
Uma aliança voluntária de Estados significava a determinação de Metternich de evitar a unificação
da Alemanha sobre a base da autodeterminação nacional. Um sistema de justiça devia tomar o lugar
do sistema de força de Napoleão, porém com base na segurança da propriedade e destinado a
prevenir as devastadoras reformas pretendidas pelo entusiasmo nacional do norte. Sobretudo, a
Áustria não se batia contra Napoleão como indivíduo, mas contra a hegemonia francesa, e não
estava disposta a substituir um domínio universal por outro.

Com esse aviso contra os desígnios russos na Polônia e as ambições prussianas na Alemanha,
Metternich tornava bem clara a natureza do comprometimento austríaco: a Áustria baseava suas
esperanças de sucesso não nos ideais de uma geração impaciente mas na sabedoria da experiência
histórica, não no entusiasmo popular mas na avaliação da psicologia do conquistador. “Toda a
política da Áustria”, escreveu Metternich em uma de suas notas marginais, “funda-se no caráter de
Napoleão, e deve ser julgada à luz da experiência da Áustria com ele e com gabinetes estrangeiros,
particularmente os do sul da Alemanha”. Dessa forma, Metternich canalizava o fervor moralístico da
Rússia e a impetuosidade nacional da Prússia para um conjunto de medidas precisas que
transformavam imperceptivelmente a base moral do esforço de ambas. Era uma política cujo
aparente oportunismo tornou possível atingir por etapas um objetivo que seria rejeitado com
indignação se imediatamente exibido em seu todo; desprezava o gesto dramático e tornava assim
suas realizações ainda mais seguras pela aparência de desinteresse. Tão bem, quase
insidiosamente, Metternich implantou a legitimidade de seus objetivos, que praticamente cada um
dos objetivos austríacos lhe veio a ser oferecido por outra potência. Comparando-se o memorando
de Knesebeck com o curso afinal seguido pelos acontecimentos, quase não há discrepância. O fato
de muitos grandes sonhos não se realizarem, e libertarem-se tantas energias, é outra história.
Malgrado o fracasso de Knesebeck em obter uma aliança austríaca, sua missão deu à Prússia o
estímulo de que necessitava. O Imperador austríaco disse ao plenipotenciário prussiano que nada —
e portanto nem mesmo uma traição prussiana ao seu genro — podia prejudicar as íntimas relações
da Áustria com a Prússia. E Metternich esclarecera bem as intenções da Áustria. Em 6 de fevereiro
o Rei prussiano ordenou a formação de batalhões de voluntários. Em 8 de fevereiro Knesebeck foi
despachado em outra missão, desta vez junto ao Czar, para negociar o tratado que veio a ser
conhecido como Tratado de Kalish, que colocou a Prússia ao lado da Rússia e comprometeu a Rússia
com a luta no centro da Europa.

III

Quando Metternich encorajou a Prússia a formar sua aliança com a Rússia, prometera que a Áustria
não permitiria uma vitória francesa completa. Chegara o momento agora de criar, sob o manto de
negociações de paz, a Coalizão que asseguraria a derrota francesa. No dia 8 de fevereiro, mesma
data em que Knesebeck foi enviado ao Czar, Metternich preparou instruções para dois emissários. O
Barão Wessenberg devia seguir para Londres, e o Barão Lebzeltern para o quartel-general do Czar,
buscando persuadir essas duas potências a aceitarem a mediação austríaca. Tarefa de peculiar
dificuldade. A Grã-Bretanha devia ser levada a apreciar os problemas de uma potência continental,
que o fato de uma Coalizão contra Napoleão não era mais importante que o modo de sua formação,
que vitórias não se ganham apenas com batalhas mas com a escolha do campo de batalha. E
cumpria convencer a Alexandre que os sonhos grandiosos não são o substituto do equilíbrio de
poder. A formação da Coalizão dependeria de fazer a Grã-Bretanha compreender a importância da
legitimação do equilíbrio, e a Rússia aceitar uma definição de limites.

A parte introdutória era idêntica em ambas as instruções. Começava por um sofisma lógico: a
Áustria, dizia, não era uma mediadora mas uma intermediária. O papel do mediador era ditar os
termos de paz; a função do intermediário era levar condições de paz de um campo para o outro. A
Grã-Bretanha e a Rússia, se conscientes de seus verdadeiros interesses, deveriam transformar,
portanto, a Áustria de intermediária em mediadora. Mas antes que as condições de paz pudessem
ser definidas teria que haver acordo sobre os axiomas gerais de que elas podiam derivar.

Era inequívoca a importância dessas observações. A Áustria tinha aparecido ante a França como
mediadora e portanto estava implícito o compromisso de lutar pelas condições de paz que iria
propor, embora o fato de que esse compromisso seria dirigido contra a França — única potência em
posição de fazer os sacrifícios indispensáveis — passasse despercebido a Napoleão. Mas a Grã-
Bretanha e a Rússia foram instadas a tornar a mediação de algum valor; a definir, não as condições
de paz, mas o quadro geral que pudesse justificar a ação austríaca. O Império Central exigia
legitimidade como preço de sua entrada na guerra.

Neste ponto os dois despachos separavam-se. A parte destinada à Grã-Bretanha era um apelo ao
entendimento e uma exposição sobre as relações entre uma potência continental e uma potência
insular: “Aqueles que preferem a precipitação às medidas friamente calculadas, os sonhadores que,
desconhecendo nossos recursos e nossas relações com outras potências, ardem de desejo de atirar-
se à refrega, são incapazes de entender nosso sistema político. (...) A mais importante consideração
na presente crise é a necessidade em que nos encontramos de evitar, por todos os meios ao nosso
alcance, a passagem da guerra para o interior de nossos Estados. (...) A transformação da guerra do
Norte numa guerra do Sul (...) libertaria Napoleão do incômodo de continuar a guerra num
território exaurido, tornando-o de novo o dono da situação. (...) Se a Inglaterra consultar os
interesses que a ligam ao Continente, se apreciar o valor (...) de um equilíbrio europeu, desejará
preservar a única potência capaz de conter a ambição da Rússia e da França. (...) Não deve ver na
Áustria o poder que precisa esgotar-se, num momento em que nada garante um completo sucesso e
que o fracasso traria as mais funestas consequências. (...) teríamos perdido todas as vantagens de
nossa posição central (...) se houvéssemos adotado quaisquer outras medidas que não o presente
sistema.”

Se o despacho para Londres constituía um pedido de compreensão, as instruções para o emissário


ao Czar indicavam a desconfiança causada por uma década de ambiguidade russa. A diferença entre
a Rússia e a Grã-Bretanha, afirmava Metternich, estava na confiança que se podia depositar na
potência insular. Quanto à Rússia, seus recentes sucessos, tão inesperados e de efeito tão profundo,
só podiam ampliar a tendência para a euforia que a corte russa sempre demonstrara. Naturalmente,
uma diplomacia hábil podia explorar a instabilidade russa. Mas não podia desprezar os perigos
apresentados pelo apetite russo de conquista, sua utilização de movimentos revolucionários e a
possibilidade de que pudesse retrair-se para um isolamento arrogante após o primeiro revés. Por
estes motivos todos, a viagem de Lebzeltern fora adiada para deixar que os acontecimentos
amadurecessem. Mas agora, concluía Metternich com o orgulho de um mestre que dá os retoques
finais a sua obra, chegava o momento decisivo: “Provavelmente a mudança de política da Prússia já
foi decidida; em poucos dias os exércitos russos terão chegado ao Oder; nossos móveis exércitos
estão situados em seus flancos e até em sua retaguarda; suas operações futuras dependem de nossa
boa vontade; podemos estimulá-las ou sustá-las; chegou, portanto, o momento de negociar.” Com
estas poucas frases, práticas e prosaicas como se o entusiasmo da Europa Setentrional fosse coisa
de que nem se tivesse ouvido falar, Metternich anunciou o fim da primeira etapa de sua política. Os
protagonistas tinham-se engajado, suas opções estavam feitas. A Áustria surgia livre, em confronto
com, o cerceamento das outras potências, poderosa, em vista da necessidade que tinham dela. De
fato, esse era o momento de negociar.

Quando Lebzeltern, após várias “doenças” no caminho, chegou, no dia 5 de março, ao quartel-
general russo em Kalish, na Polônia, encontrou uma situação que corroborava o diagnóstico de
Metternich. O Tratado de Aliança com a Prússia fora assinado alguns dias antes. Garantia à Prússia
sua extensão territorial anterior a 1806, mas nada dizia quanto à localização desses territórios. A
própria imprecisão do texto, a estipulação de que territórios conquistados ao norte da Alemanha
serviriam para aumentar a Prússia, só podiam significar que o Czar tencionava utilizar as
possessões polonesas da Prússia para levar a efeito seus planos quanto à Polônia. Mas embora
Metternich soubesse dos planos poloneses do Czar, dera ordens a Lebzeltern para retardar sua
chegada o mais possível a fim de evitar a própria ação em conjunto que o negociador prussiano
buscava tão desesperadamente. Seu objetivo principal era comprometer a Rússia. Confiava em sua
capacidade de vencer mais tarde as manobras de Alexandre sobre a questão polonesa. Lebzeltern
chegou num momento de júbilo generalizado pela virada decisiva dos acontecimentos, em que os
monarcas protestavam amizade eterna e patriotas redigiam proclamações ao povo germânico.
Parecia impossível à Áustria manter-se à margem do entusiasmo nacional.

Mas o entusiasmo pode ser perigoso quando se negociam alianças, já que priva o negociador da
aparência de liberdade de escolha que é seu instrumento de barganha mais eficaz. O
plenipotenciário prussiano chegara a Kalish, na realidade, comprometido pelos arroubos de
patriotismo de sua gente; e quanto hesitou na questão polonesa, o Czar concluiu a aliança apelando
diretamente ao Rei da Prússia com protestos de sinceridade. A escolha da Prússia estava limitada
pelo fervor de seu comprometimento, mas a Áustria não deveria ser afastada pela invocação de
generalidades, muito menos por ameaças revolucionárias. “Com expressões que a um exame mais
atento se esvaem no ar, como a defesa da civilização, nada se pode definir de tangível”, disse
Metternich certa ocasião. Competia a Lebzeltern fazer com que o Czar falasse de coisas tangíveis.

Ele trouxera consigo, além das instruções, duas cartas de seu Imperador ao Czar, cujo tom amistoso
não encobria a intenção de evitar qualquer proposta concreta, e que não deixavam dúvida de que a
Áustria não se deixaria levar por vagas promessas de cruzadas morais. A mesma reserva
demonstrou Lebzeltern, instruído por Metternich no sentido de que sua única tarefa era receber
propostas. Quando o Czar, no dia 8 de março, perguntou, exasperado, o que queria realmente a
Áustria, Lebzeltern respondeu calmamente que competia ao Czar formular algumas proposições
gerais como base para a negociação. Foi então que o Czar definiu objetivos de guerra, que incluíam
a devolução à Áustria de todas as suas antigas possessões; a independência da Prússia e seu
crescimento; a libertação da Alemanha do jugo francês; e a reassunção da Coroa Imperial pela
Áustria.

Dessa maneira a Áustria obteve como oferta russa o que a Prússia não conseguira como exigência.
Garantiu não somente sua antiga extensão mas seus velhos territórios. Impôs-se uma limitação aos
desígnios do Czar para a Polônia, pois o Czar, ao responder, privara-se do terço austríaco da Polônia.
Somente a retomada da Coroa Imperial não interessava a Metternich. Ele disse a Hardenberg,
representante de Hanover, que os soberanos alemães, tendo provado da total independência,
submeter-se-iam à Áustria mas decididos a solapar sua posição. Napoleão mantivera unida a sua
Confederação do Reno por uma aura de invencibilidade e sob ameaça de força. Mas a Áustria, que
dificilmente poderia competir com a França, não podia arriscar-se a guerras futuras com uma
França reforçada por mal-humorados príncipes alemães. Uma Alemanha composta de Estados
independentes, unidos por tratado ou lei, era muito mais preferível. Não acrescentou, o que podia
ter feito, que esse arranjo asseguraria o predomínio austríaco na Alemanha. A independência
impotente resultaria em mais forte laço que a vassalagem desgostosa. O receio da hegemonia
prussiana, da invasão francesa e da convulsão doméstica constituiriam dispositivo muito mais
favorável à supremacia austríaca do que uma relíquia do Sacro Império Romano.

No dia 29 de março o Czar não apenas reiterou sua oferta inicial como acrescentou uma proposta
para que a Áustria definisse as próprias fronteiras. Dava à Áustria inteira liberdade de ação na
Alemanha Meridional e prometia apoiar qualquer proposta que Metternich decidisse fazer àquelas
cortes. E assim Metternich, no fim de março de 1813, atingira seus objetivos principais. Exércitos
russos no centro da Europa, empenhados numa luta mortal com a França. A Prússia ligada ao
inimigo comum. Somente a Áustria ainda não estava terminantemente comprometida. Suas metas
principais haviam sido reconhecidas pelos aliados ao mesmo tempo que Napoleão lhe aceitara a
mediação. Ganhava força a cada dia, não pelo entusiasmo do povo, certamente, mas por sua
disciplina e pela tenacidade de sua liderança. O motivo da luta se definira como uma guerra em prol
de um equilíbrio, por uma sociedade de Estados e não de nações, por uma Alemanha de muitas
soberanias e por uma Europa conservadora. Somente agora que o princípio legitimador da Áustria
fora reconhecido, Metternich dispunha-se a definir o que entendia por equilíbrio europeu. Constitui
um tributo a sua preparação paciente e hábil o fato de ser tido como expressão de simples justiça
aquilo que poderia ser interpretado como declaração de egoísmo austríaco.

IV

A ocasião foi um daqueles passos quase imperceptíveis para longe da aliança francesa, um daqueles
deslocamentos que abriram um pouco mais da Europa Central ao exército russo, tudo, como
sempre, em nome dos tratados em vigor. Depois que o corpo auxiliar austríaco se retraíra do
Vístula, a defesa do curso de água seguinte, o Oder, dependia de sua posição. Se recuasse para a
Silésia, os remanescentes do Grande Exército concentrados no centro do Oder teriam uma
possibilidade de bloquear a ofensiva russa até a chegada do novo exército de Napoleão na
primavera seguinte. Se recuasse para o sul, a linha do Oder seria desbordada e a cena da batalha
transferida mais duzentos e cinquenta quilômetros para dentro da Europa Central, para o Elba.
Metternich deu ordem a Schwarzenberg que marchasse para o sul, na direção de Cracóvia.

Participou essa decisão num despacho ao Conde Bubna, escrito como se uma alternativa não fosse
sequer concebível, e a pretexto de anunciar um feliz acontecimento: o Príncipe Schwarzenberg, ex-
embaixador em Paris, que negociara o Tratado de Aliança e deixara o posto para comandar o corpo
auxiliar, estava retornando a Paris, onde era sem dúvida muito necessário. Ele esclareceria
Napoleão sobre a verdadeira correlação de forças na Europa Central. A possibilidade de defender
linhas fluviais na Polônia era uma ilusão incutida por émigrés poloneses que, Metternich
acrescentava com sarcasmo, lembravam muito os émigrés franceses; não titubeavam em gastar os
meios dos outros em favor de sua própria causa, pois tinham tudo a ganhar, nada a perder e,
portanto, nada a defender. Seguia-se uma estimativa imponente das forças russas na Polônia —
muito precisa e detalhada, a despeito de não guardar qualquer relação com a realidade — uma
afirmação de que o corpo de tropas de Schwarzenberg na verdade retardara esse impressionante
exército por mais de quatro semanas, em suma, que as atitudes da Áustria destinavam-se
precisamente a conservar o poderio da aliança.

Mas Schwarzenberg não viajou logo para Paris. Mais de quatro semanas transcorreriam antes de
sua partida; e quando Metternich redigiu suas instruções para Schwarzenberg no dia 18 de março,
a Prússia já trocara de lado e o Czar já havia assegurado os objetivos austríacos. Mesmo assim,
Schwarzenberg não se dirigiu diretamente a Paris. Parou nas capitais dos Estados alemães do sul,
ainda ligados à França por tratados de aliança, e incitou-os a burlarem os pedidos franceses de
ajuda militar. Schwarzenberg só teria sua primeira entrevista com Napoleão no dia 9 de abril, e já
então a Polônia ficara bem para a retaguarda dos exércitos russos.

A missão de Schwarzenberg deu a Metternich, entretanto, oportunidade de formular sua concepção


do equilíbrio. Suas instruções a Schwarzenberg se iniciavam com um resumo histórico destinado a
pôr em relevo a necessidade de um equilíbrio de poder. Uma série de guerras perturbara todas as
antigas idéias sobre a natureza do equilíbrio. Depois de 1807 só restaram três grandes potências no
Continente, França, Rússia e Áustria, duas das quais, de resto, aliadas contra a terceira. Mas a
guerra de 1809, embora materialmente desastrosa, reforçara moralmente a Áustria. Conduzira ao
estabelecimento de relações íntimas entre a França e a Áustria, o que, por sua vez, semeara a
discórdia entre a Rússia e a França. Metternich prosseguia com um sumário de outras causas da
tensão russo-francesa, uma narração do início da guerra e dos esforços austríacos para evitá-la,
culminando tudo nesta afirmação: a derrota da França anulara todos os cálculos, um novo equilíbrio
precisava ser construído. A Áustria oferecera sua mediação justamente porque nenhuma potência
poderia estar mais interessada na restauração do equilíbrio que o Estado, cuja posição geográfica o
condenava à devastação em qualquer guerra entre as duas potências, que só podiam entrar em
contato à custa dele.

Mas no preciso momento em que a Áustria oferecera sua mediação a Napoleão, explicava
Metternich inocentemente, ocorrera um fato inesperado e de sérias consequências: a aliança da
Prússia com a Rússia. Longe, entretanto, de condenar a atitude prussiana, Metternich a considerava
decorrência lógica dos sofrimentos da Prússia desde 1806. E, para que Napoleão não tentasse
restaurar sua sorte esmagando o aliado de até bem pouco, Metternich identificava o destino da
Prússia com o da Áustria: “A atitude das potências [européias] difere tanto quanto sua situação
geográfica. A França e a Rússia têm apenas uma única fronteira, e mesmo esta pouco vulnerável. O
Reno, com sua linha tríplice de fortificações, assegura o repouso (...) da França; um clima horrível
(...) faz do Niemen uma fronteira não menos segura para a Rússia. A Áustria e a Prússia encontram-
se expostas por todos os lados ao ataque das potências vizinhas. Ameaçadas constantemente pela
preponderância daquelas duas potências, a Áustria e a Prússia somente podem encontrar
tranquilidade numa política sábia e comedida, em relações de boa vontade entre si e com os
vizinhos; sua independência (...) a longo prazo só pode ser assegurada por seu próprio poderio.
Cada enfraquecimento de uma das Potências Centrais representa o mais direto golpe contra a
existência da outra.”

A mensagem, a despeito de seu tom calmo, representava assim um desafio e uma definição de
limite. Se a análise de Metternich era correta, a guerra que Napoleão estava preparando não teria
sentido. Se a Prússia devia ser preservada e, se possível, fortalecida, a frase acerca da fronteira
francesa no Reno não era simples retórica mas representava a definição da extensão do poder
francês que Metternich considerava compatível com a paz na Europa. E as instruções a
Schwarzenberg eram um aviso a Napoleão, de que não tivesse ilusões. A adesão austríaca à aliança
francesa não se podia comprar pela perspectiva de acréscimo territorial. O Império Central não
estava interessado em vitória, mas em repouso. Não a extensão territorial, mas o poderio relativo
das potências, não o tamanho, mas a proporção, constituíam as garantias da segurança austríaca:
“O Imperador (...) jamais buscará uma vantagem ilusória na destruição de um Estado amigo. (...) A
Áustria, ajudando a destruição da outra potência intermediária, assinaria sua própria sentença de
morte.” Por meio das instruções a Schwarzenberg, Metternich anunciava que o período de
conquista revolucionária chegara ao fim; que Napoleão, o homem voluntarioso, só obteria paz
através do reconhecimento de limites; a França, que buscara a segurança no domínio, podia
encontrá-la apenas na renúncia. A Áustria estava comprometida com a restauração do equilíbrio,
contra Napoleão, se necessário. **

No espaço de alguns dias Castlereagh e Metternich haviam definido a natureza da Europa que
pretendiam criar. Concordavam em que o equilíbrio dependia de uma Europa Central forte que, por
sua vez, pressupunha uma Áustria e uma Prússia poderosas. Concordavam em que o poder da
França devia ser reduzido, embora Metternich fosse muito mais vago que Castlereagh quanto à
natureza desses limites. Isto não era, de forma nenhuma, acidental. Castlereagh montava uma
Coalizão contra a França. A lembrança do transe a que por pouco havia sobrevivido fazia com que o
estadista da potência insular buscasse neutralizar a causa da guerra, o perturbador da paz. Já para
Metternich a derrota de Napoleão não era o fim de um problema, mas a ocasião de definir um
relacionamento duradouro. Estava, pois, menos preocupado com a contenção da França que com a
distribuição de poder; menos com divisórias fortificadas que com o poderio relativo dos Estados.
Para Castlereagh, a redução da França era a garantia do repouso europeu. Para Metternich, os
limites da França dependiam da expansão da Rússia. Castlereagh apresentou o Plano Pitt com uma
de suas primeiras providências depois que as relações com o Continente foram restabelecidas.
Metternich não defendeu sua concepção do equilíbrio senão depois que uma tortuosa e vagarosa
diplomacia havia estabelecido o arcabouço moral da aliança. Para Castlereagh, o fato da
predominância de Napoleão era impulso suficiente para criar a Coalizão, faltando ajustar apenas a
questão essencialmente técnica da melhor forma de reprimir o agressor. Para Metternich, a
natureza da paz era a questão principal e, portanto, preocupava-o o problema essencialmente moral
de como legitimar o acordo.

Ao contemplar a situação em fins de março de 1813, Metternich podia sentir-se satisfeito. A Áustria
transformara-se, passando de auxiliar francesa a potência pivô da Europa, e conseguira seus termos
de paz como oferta incondicional de seus aliados futuros. Falara tão insistentemente a ambos os
lados da impossibilidade de uma paz em separado, que o fato de todas as negociações terem de ser
feitas através da Áustria veio a ser aceito como fato elementar. Mantendo assim nas mãos os fios
dos acontecimentos, Metternich podia coordenar suas medidas com o crescimento do poder da
Áustria. Em dezembro contara com cinquenta mil homens, se tanto; em janeiro, o Imperador falava
de cem mil a Napoleão, e, em sua primeira entrevista com Napoleão, Schwarzenberg indicaria a
perspectiva de duas vezes aquele número. O perigo de catástrofe, em caso de um súbito ataque,
diminuía. Tudo isso se alcançou, se não com a aprovação, ao menos com a tolerância de Napoleão, e
sem perder-se a confiança das outras potências.
Mas por mais bem sucedida que seja, uma política não dá resultados automaticamente. Metternich
tinha ainda que traduzir em realidade política a concordância aliada com seus termos; precisava
criar ainda, não só a doutrina, mas a substância do equilíbrio. Não podia duvidar de que isso era
impossível sem guerra. Estava além de toda probabilidade que Napoleão fosse abrir mão de todas
as suas conquistas alemãs e abandonar Antuérpia, sem o que a Grã-Bretanha não faria a paz. Mas
esse fato não era necessariamente claro para os outros membros do Gabinete austríaco. Se as
demais potências encontravam dificuldade em identificar as intenções de Metternich, isso também
se dava com seus colegas, alguns dos quais consideravam sua política arriscada demais, enquanto
outros clamavam contra ela, por considerá-la desonrosa e ignóbil, numa Europa de entusiasmo
universal. O Imperador, recordando quatro guerras perdidas, e sempre mais inclinado a conservar
que a conseguir, atinha-se teimosamente a uma esperança de paz, quase a qualquer preço. E
durante todo esse tempo, as outras potências pediam, bajulavam e ameaçavam, visando a pôr fim à
atitude distante da Áustria.

Mais uma vez Metternich iniciou um número de equilibrismo tão hábil que quase não se notava que
o equilibrista deixava cair o prato; tão destra demonstração de malabarismo que não se percebia
que de repente havia uma bola só no ar. Estava determinado a fazer com que a Áustria surgisse
como a principal potência, a despeito das hesitações de seu Imperador; mas que surgisse no
momento certo e da maneira mais coerente com sua estrutura interna, malgrado os pedidos dos
aliados. Tudo dependia da causa da guerra, pois isso removeria as dúvidas do Imperador e ao
mesmo tempo estabeleceria incontestavelmente o princípio legitimador da paz. Com isso em mente,
Metternich lançou-se a transformar a Áustria de intermediária em mediadora. E enquanto uma onda
de entusiasmo nacional percorria a Europa, e sociedades patrióticas faziam planos para uma
humanidade transformada, o frio calculista de Viena preparava um casus belli que faria desses
esforços inúteis fantasias. Metternich propunha-se levar a Áustria à guerra e legitimar a aliança,
valendo-se do que era essencialmente uma dedução lógica. Tencionava demonstrar a necessidade
da guerra provando a impossibilidade da paz.

* E para que não restasse dúvida em Napoleão sobre seu isolamento e, em consequência, sobre a
importância da Áustria, Metternich induziu o embaixador russo em Viena, Stackelberg, a assinar
uma nota conjunta para Napoleão falando na impossibilidade de uma paz em separado entre a
Rússia e a França.

** Metternich não excluía uma paz continental sem a Grã-Bretanha. Mas nesse caso Napoleão teria
de demonstrar que uma continuação da guerra servia apenas aos interesses britânicos; quer dizer,
teria de consentir numa limitação tão drástica do poder francês que a Europa se sentisse segura
mesmo sem o apoio britânico. A proposta de paz continental era uma miragem, uma demonstração
de sua inutilidade.
5/ A FORMAÇÃO DA COALIZÃO /

Foi DE PAZ, então, que Metternich falou enquanto preparava a Coalizão e os dois grandes exércitos
avançavam para a Alemanha Central. Sua política chegara, agora, a um ponto de inflexão. Não fora
bem recebida pela “Escola Austríaca” da aristocracia, que teria preferido uma guerra de libertação
segundo o modelo prussiano. Na realidade, em março Metternich teve que reprimir um levante,
liderado pelo Arquiduque João, que planejou uma rebelião nacional no Tirol para forçar a mão do
Imperador. Mas o Imperador apoiara Metternich, ainda que no interesse de objetivos diferentes.
Uma década de derrotas criara no Imperador o que ia ser uma virtude cardeal dos Habsburgs
durante um século: a capacidade de resistência, de persistência obstinada. Mas ele valorizava a
resistência por si mesma, e o objetivo de sua persistência era simplesmente sobreviver. Pedantesco
e sem imaginação, o Imperador confundia estabilidade com estagnação e paz com inatividade. Até
aqui, todas as medidas de Metternich haviam conservado, como o retraimento do corpo auxiliar. Ou
evitado a ação, como a recusa ao pedido de Napoleão para transitar pelo território austríaco. Mas
poderia o Imperador ser levado a um passo positivo? Recuaria ao perceber que a inatividade de
Metternich objetivara possibilitar um comprometimento total?

Não era à toa que Metternich falava de paz. Numa hora de crise é impossível vituperar a estrutura
interna do Estado, e de qualquer maneira Metternich não era o homem para isso. A força de
Metternich não estava na criatividade, mas na habilidade de usar todos os fatores disponíveis,
arrumá-los na proporção adequada, conseguir aparentemente por acaso a melhor adaptação às
circunstâncias. A personalidade do Imperador parecia a Metternich mais inflexível que a
exasperação dos aliados. Não era, portanto, a Áustria que devia conformar-se ao espírito da hora,
mas tocava à hora servir ao espírito da Áustria. “O Conde Metternich deve fazer a vontade ao
caráter muito peculiar do Imperador,” escreveu Hardenberg num despacho de 2 de maio. “Ele
resistiria a qualquer coisa que precipitasse uma deflagração mas, guiado passo a passo, chegou a
um ponto em que uma ruptura é inevitável. (...) Mas para chegar até aqui Metternich teve que
esconder toda aparência de ambição, na verdade até mesmo seu desejo de arriscar uma guerra.
Mesmo agora só conseguiu acostumar o Imperador à idéia da necessidade de guerra se Napoleão se
recusar a uma justa paz de equilíbrio.” Exatamente como um artista de judô, Metternich arrastou
seu Imperador, mesmo quando parecia ceder, e induziu-o primeiro a criar um exército destinado a
proteger sua neutralidade e depois a usá-lo para proteger a paz.

Foi auxiliado pela incapacidade de Napoleão em absorver os fatos da nova situação. Um governante
legitimado pelo carisma ou pela força não pode aceitar facilmente o fato de, repentinamente, ter de
procurar sua segurança na autolimitação, de que os acontecimentos não se subordinam mais a sua
vontade, de que a paz não depende de seu poderio mas do seu reconhecimento da força de outros.
Um revolucionário que recorda seus oponentes, quando ainda se encontravam restringidos pelo que
então consideravam “legítimo”, acha difícil levar a sério a decisão deles quando já entenderam a
extensão do perigo. Tendo os adversários cedido facilmente quando ainda estavam travando guerras
de objetivos limitados, o revolucionário se convence de que outra batalha bem sucedida revelará
uma vez mais a pusilanimidade deles. E não consegue acreditar na fuga dos aliados porque não
admite a redução de seu poder. Era este o estado de espírito de Napoleão enquanto se preparava
para ir ao encontro de seu exército em abril de 1813. Confiante em que uma batalha vitoriosa
desintegraria a aliança, não tinha dúvidas de que a Áustria posteriormente entraria a seu lado.
Esquecera, se é que jamais soube, que suas grandes vitórias deviam-se tanto à facilidade com que
os adversários aceitavam a derrota quanto ao sucesso de suas próprias armas. Não era sem razão
que Metternich estava mais preocupado com a resolução dos aliados do que com o estado de seus
exércitos. A extensão do equívoco de Napoleão evidenciou-se durante sua entrevista com
Schwarzenberg no dia 9 de abril. Se Napoleão duvidava das intenções da Áustria, tal não
transpareceu no que disse. Em suma, solicitou a concentração de um exército austríaco de cem mil
homens na Boêmia e operações conjuntas desse exército com o corpo auxiliar na Galícia. Mais uma
vez, o que Metternich mais desejava era-lhe dado de presente, pois agora podia-se formar um
exército na Boêmia, a pedido da França, contra a qual seria dirigido. Schwarzenberg não respondeu
à parte referente ao corpo auxiliar pois desejava adiar explicações para local e momento “mais
adequados”. De fato, não seria muito adequado ao comandante do corpo auxiliar explicar que o
corpo auxiliar não existia mais.
Pois Metternich concluíra que, ante a aproximação dos exércitos aliados do Elba, o lugar para o
exército austríaco era a Boêmia, única província ainda exposta ao perigo e o melhor ponto para
ameaçar o flanco do exército francês que avançava. Assim que recebeu os primeiros relatórios de
Lebzeltern sobre a receptividade do Czar, dedicou-se a remover os últimos obstáculos a um avanço
russo; a ameaça de um flanqueamento pela Galícia. Ainda uma vez isso se faria em nome dos
tratados em vigor e, se possível, sancionado pelo próprio Napoleão. Em 25 de março Metternich
enviou mensagem a Lebzeltern propondo que a Rússia revogasse o armistício e avançasse em
ambos os flancos do corpo auxiliar austríaco, que então cederia à força das circunstâncias. Em 11
de abril Metternich enviou outro despacho protestando contra o fato de a Rússia não ter avançado
na Polônia: “Nosso papel de aliado francês está acabando; preparamo-nos para entrar em cena
como a principal potência. (...) É portanto inexplicável que não recebamos notícias da derrogação
do armistício.” Pode-se imaginar o sorriso malicioso de Metternich quando seu desejo finalmente foi
atendido e ele preparou uma furiosa carta de protesto ao Czar, a qual levava no cabeçalho, para
frisar a extensão de seu desapontamento e surpresa, a expressão “duas horas da madrugada”, e não
tinha outra finalidade além de demonstrar que prosseguia em sua lealdade ao aliado francês.

Bons motivos tinha Metternich para garantir-se com provas de sua lealdade, pois as relações com a
França estavam passando por um transe difícil. No dia 7 de abril o embaixador francês, Narbonne,
transmitira uma exigência de Napoleão de que a Áustria aumentasse seu exército e lhe coordenasse
os movimentos com os de Napoleão. “Napoleão torna a provar que está comprometido com uma
política de ilusão,” disse Metternich a Hardenberg, e tratou de explorar o erro do oponente. Pois
com a solicitação de que a Áustria passasse a sócia de mesmo nível, Napoleão admitia que a aliança
limitada do ano anterior já não se aplicava. E se o Imperador não podia ser induzido a abandonar o
status quo, mesmo para retomar território austríaco, resistiria por certo a qualquer esforço de
envolvê-lo, mesmo partindo de seu genro. Mas se não consentiria em mobilizar seu exército para
impor uma paz de equilíbrio, podia concordar em fazê-lo como protesto contra reivindicações de
ajuda “nada razoáveis”: “Doravante, tudo depende de nós”, disse Metternich ao Imperador.
“Precisamos encontrar em nós mesmos os meios de dar uma solução feliz a este que é o mais
estranho de todos os momentos...”

Seguiu-se uma porfia, entre Metternich e Narbonne, de complexidade teatral e manobra arriscada,
não menos implacável por ser levada a efeito com apurada elegância. Mas a vantagem psicológica
estava agora do lado de Metternich. Os sucessos iniciais de Napoleão haviam resultado da
incapacidade dos adversários em compreender a vastidão de seus objetivos, enquanto ele percebera
a limitação da perspectiva dos adversários. A presente superioridade de Metternich devia-se a sua
compreensão da limitação do poder de Napoleão, enquanto o antagonista ainda se presumia
onipotente. Em 1805 e 1806 Napoleão fora vitorioso porque os adversários conduziam uma política
de objetivos limitados; em 1813 foi derrotado porque atuou como se possuísse poder ilimitado. As
posições de Metternich e Napoleão, portanto, invertiam-se. A superior mobilidade de que Napoleão
sempre se orgulhara, e que na verdade fora sempre tão-somente o reflexo da inflexibilidade do
inimigo, pertencia agora a Metternich. Mas enquanto a mobilidade de Napoleão expressara-se no
campo de batalha, a de Metternich exercia-se na diplomacia de gabinete. E assim como a rapidez
dos movimentos de Napoleão confundira adversários que se atinham a regras que os declaravam
“impossíveis”, também a destreza dos lances de Metternich isolava um oponente que os
desdenhava. Napoleão jogou tudo na realidade de seu poder, Metternich na falácia desse poder.
Contar com a eficiência da diplomacia durante um período revolucionário pode levar ao desastre;
mas fiar-se na força com meios insuficientes é suicídio.

Portanto, não era somente a tortuosidade que explicava as atitudes de Metternich — embora
apreciasse extremamente a sutileza — mas uma deliberada escolha de armas. Quanto mais
intrincadas as manobras, mais certamente a luta se deslocaria do plano do fervor patriótico para o
da diplomacia de gabinete. O que parecia ser uma competição entre Metternich e Narbonne era na
realidade uma transformação da causa da guerra, de questão moral para questão legal, da
liberdade de nações para o equilíbrio de Estados. A discussão começou, no dia 7 de abril, com a
exigência de Narbonne de uma ação militar austríaca contra os aliados. Metternich sugeriu, em
resposta, que as limitações impostas pelo tratado de aliança ao poderio militar austríaco fossem
suspensas. E acrescentou ambiguamente que o Imperador não se consideraria, em qualquer caso,
amarrado ao efetivo estipulado para o corpo auxiliar, caso fossem rejeitadas suas “razoáveis”
propostas de paz. Era a primeira admissão de que Metternich planejava a “mediação armada” e
devia ter evidenciado que a aliança acabara; mas Narbonne insistiu e, no dia 20 de abril,
apresentou uma solicitação de apoio militar total da Áustria. Metternich informou-o então da
retirada do corpo auxiliar da Galícia e do fato de que ajuda militar estava fora de cogitação, uma vez
que o Imperador não podia atuar a um só tempo como mediador e combatente. Narbonne
respondeu que isso praticamente equivalia a uma declaração de guerra. Mas a ameaça com o poder
de Napoleão já não funcionava. Não era a guerra, e sim a paz, a meta da Áustria, insistiu
Metternich, mas ela estava disposta a lutar por essa causa. E a entrevista terminou com uma troca
de palavras que destacava a natureza do conflito entre a ilusão de poder e o poder da astúcia. “Mas
vocês não estão em condições,” insistiu Narbonne, “eu sei disso, porque minha missão é saber.” “E a
minha é ocultar,” replicou Metternich, “vejamos quem melhor cumpre a missão.” *

Mas Narbonne não desanimaria. Para uma ordem mundial que desaba, mesmo que tenha sido
erguida pela força, é tão difícil crer em sua desintegração quanto o é para o homem visualizar sua
própria morte. A ilusão de permanência talvez seja nosso mito mais importante, aquele, afinal, que
torna a vida suportável. Narbonne não conseguia acreditar que o sang-froid de Metternich frente à
ameaça francesa fosse “real”, tanto quanto o antagonista de Napoleão dez anos antes não podia
crer que a estrutura do século XVIII entrara em colapso. Mas uma entrevista com o Imperador, no
dia 23 de abril, fê-lo hesitar. Pois a insistência francesa deslocara o Imperador para a única posição
em que ele era capaz de assumir proporções heróicas, aquela da renitente perseverança na
inatividade. Alarmado pelo relatório de Metternich de sua conversação com Narbonne, dera ordens
para aumentar o exército da Boêmia para oitenta e cinco mil homens. Disse então a Narbonne que
não podia atacar a Rússia enquanto estivesse empenhado na mediação e, de qualquer modo, a
aliança limitada com a França não era aplicável à nova situação. Se Napoleão viesse a considerar
essa recusa uma quebra do tratado, a ruptura seria culpa de Napoleão. Estava disposto, repetiu, a
perseverar nessa política apoiado por duzentos mil homens.

Uma vez mais Narbonne voltou à carga, mas agora o período das ilusões ia chegando ao fim. Em 29
de abril, ele esteve outra vez com Metternich e informou-o de que Napoleão já se havia juntado a
seus exércitos e que isso equivalia a uma batalha vitoriosa. O fato afetava as disposições da Áustria?
A conduta da Áustria, respondeu Metternich friamente, não se apoiava na presunção de vitórias
aliadas, mas de derrotas aliadas, e estas fariam a Áustria redobrar seus esforços. No dia l.° de maio
Metternich deu uma resposta definitiva aos pedidos franceses, na qual anunciava o surgimento da
Áustria como contendora em favor do equilíbrio: “O Imperador da Áustria adotou a mais nobre
atitude possível (...) a de mediador. E quando [o Imperador] fixa um objetivo, adota também os
meios. Os meios consistem em (...) total imparcialidade e na criação de um grande poder. (...) O
Imperador deseja a paz, e nada além da paz. Não será com parcas forças que o Imperador apoiará
suas mensagens de paz e combaterá os inimigos dos interesses da França [o grifo é meu], que são
inseparáveis dos interesses de seu próprio Império.” Com essas expressões ameaçadoramente
pacíficas, Metternich completou a transformação da Áustria, de aliada em mediadora armada.
Apesar de toda a ambiguidade, a resposta de Metternich a Narbonne não deixava dúvida quanto a
seus reais objetivos: não era contra a França que a mediação austríaca se dirigia, pois a França era
componente necessária ao equilíbrio europeu. O inimigo dos verdadeiros interesses da Europa — e,
portanto, da França como da Áustria — era Napoleão. O passo seguinte de Metternich foi
comprovar esse postulado.

II

A guerra é a impossibilidade de paz. Os desígnios de Metternich eram tão simples quanto esta
afirmação, e tão complicados quanto ela. Pois da Rússia e da Prússia, que avançavam para uma
batalha com o homem ainda cercado pela aura dos sucessos passados, não se podia esperar que
apreciassem as complexidades intencionais da política de Metternich. É difícil compreender a
importância do estratagema quando se enfrenta uma situação que suplanta todos os estratagemas.
A neutralidade benevolente é sempre um papel delicado, porque exige precisamente o grau de
fingimento que inquietará os amigos, embora talvez não seja suficiente para tranquilizar o inimigo.
Sair-se bem demais pode dar na perda de aliados; falhar prematuramente pode provocar um ataque
repentino. Uma perda de confiança da parte dos aliados exporia Metternich ao completo
isolamento; uma total convicção da traição austríaca traria sobre a Áustria a força toda da ira de
Napoleão. O Czar, melindrado com as evasivas do Imperador às propostas de um encontro pessoal,
já resmungava sombriamente que esperava da Áustria atitudes militares e não diplomáticas;
tampouco estava inteiramente satisfeito com as medidas duvidosas de Metternich com respeito ao
corpo auxiliar. Por outro lado, Metternich temia que um revés inesperado pudesse atuar sobre o
temperamento instável de Alexandre e levar à desintegração da aliança antes mesmo que se
completasse.

Para vencer a desconfiança dos aliados e convencê-los da certeza do apoio futuro da Áustria,
Metternich escreveu ao Czar em 29 de abril. A mensagem era um apelo à compreensão e um
penhor de ajuda. Essa declaração, a mais inequívoca até então feita à Rússia pela Áustria, resumia-
se a uma simples assertiva: a guerra só seria vencida pela resolução, não por um transbordamento
de entusiasmo; a reunião imperturbável de forças era mais importante que uma dramática
declaração de política; a Áustria estaria ao lado dos aliados, mas a seu tempo. Começava postulando
três requisitos básicos: (a) a maior firmeza por parte dos aliados em caso de desastre, (b) o maior
entendimento entre a Áustria e os aliados, (c) o máximo desenvolvimento dos recursos militares
austríacos. A Áustria estava em condições de declarar sem reservas que uma derrota aliada
somente lhe faria redobrar seus esforços visando a embargar os movimentos de Napoleão. Mas,
continuava o despacho num trecho confidencial preparado para o Czar, o Gabinete austríaco notava
com pesar a evidente desconfiança da corte russa. E no entanto suas medidas eram apenas
adequadas à situação especial da Áustria: “Pouco dados a idéias abstratas, aceitamos as coisas
como são e tentamos, com o máximo de nossa capacidade, proteger-nos contra fantasias sobre a
realidade.”

Com esse lembrete da determinação austríaca de não se deixar levar por arroubos de exaltação,
popular ou monárquica, Metternich passava a um exame da “realidade” como a ele se apresentava.
Em 1809 o exército austríaco chegara a um completo estado de dissolução. Em 1811, teria sido
impossível mobilizar sequer sessenta mil homens. Mas agora a Áustria criara o núcleo de uma força
respeitável e crescente, a pretexto de formar um corpo auxiliar e um corpo de observação. Com
efeito, a Áustria oferecera sua mediação à França e recusara-se a ingressar na aliança russo-
prussiana. Tais atitudes, argumentava Metternich, eram inerentes à natureza do Estado austríaco. A
Áustria, Estado cuja existência dependia da santidade das relações de tratado, não podia mudar de
lado motivada apenas pelo infortúnio de seu aliado; e as medidas financeiras necessárias ao sucesso
só podiam efetivar-se em condições de paz. Mais ainda, tendo a Áustria previsto que as batalhas
decisivas se travariam entre o Elba e o Oder, concentrara seu exército na Boêmia e retardara a
participação final disso a Napoleão para causar a maior perturbação possível aos seus planos: “De
acordo com o sistema de completa fantasia que tem caracterizado Napoleão desde a última
campanha, ele contava (...) com o apoio ativo de nosso ex-corpo auxiliar; o que é mais
incompreensível ainda, ele alimentava a ilusão de que colocaríamos todas as nossas forças à sua
disposição. O oposto está ocorrendo; o corpo auxiliar está dissolvido (...) acima de sessenta mil
homens situam-se no flanco do exército francês. Se Napoleão vencer a batalha, de nada lhe
adiantará, porque os exércitos austríacos não lhe permitirão explorar o êxito; se perder, seu destino
estará decidido mais cedo, mas não com mais certeza. (...) Em qualquer caso, a Áustria suportará o
peso do esforço. Não receamos essa perspectiva; demos disso prova suficiente nos últimos vinte
anos. Mas seria inescusável que começássemos a iludir-nos quanto às forças de que necessitamos, e
que não as organizássemos antes de as colocarmos no palco.”

Era a declaração de política de uma velha potência, sábia pelos muitos entusiasmos esmagados,
cautelosa pelos muitos sonhos falhados, cansada de tantas batalhas travadas inutilmente; de uma
potência que precisava compensar a margem estreita de erro com a precisão dos cálculos. A
posição central, tantas vezes causa de invasões estrangeiras, tinha de ser utilizada visando à
máxima liberdade de ação. Era uma nova doutrina, segundo a qual a potência mais exposta devia
transformar a necessidade em virtude e utilizar o quanto se precisava dela, em hora de crise, para
obter um isolamento temporário. A habilidade de diplomacia devia criar o que a separação
geográfica concedia a outros Estados mais afortunados. Enquanto a Áustria reunia forças,
Metternich tecia os cordões de sua diplomacia com uma ambiguidade que parecia deixar todas as
opções abertas enquanto lentamente aproximava a Áustria do campo aliado. Era paradoxal que
justamente o Império Central surgisse em cena por último, depois que todas as potências já
estavam engajadas, e fosse o único Estado a mobilizar seu exército em condições de paz.

O sucesso desta política dependia de dois fatores: a estimativa correta do poderio relativo dos
contendores e a eficácia de sua diplomacia. Metternich considerava a Áustria o Estado pivô por
estar convencido de que nenhum dos lados conseguiria uma vitória decisiva sem ajuda da Áustria. E
podia traduzir esta estimativa em realidade porque a Áustria era a única das partes envolvidas
capaz de levar a efeito uma diplomacia. As relações da França com os aliados eram
“revolucionárias”; lutavam sobre a natureza do princípio legitimante e a diplomacia teria
necessariamente de evidenciar-se inútil. Mas a Áustria podia dirigir-se aos dois lados partindo de
bases que todos consideravam “legítimas”; para os aliados, a base de um equilíbrio europeu, para
Napoleão, a base de um pacto familiar. Sem dúvida, toda a sutileza de Metternich teria sido inútil
não fossem as ilusões de Napoleão. E a mais desastrosa dessas ilusões era a crença de Napoleão de
que um pai não entraria em guerra com o marido de sua filha.

III

Agora, com os dois exércitos se aproximando na Europa Central, Metternich iniciou a mediação
armada que só terminaria quando a Áustria entrasse na Coalizão contra Napoleão. Enviou dois
plenipotenciários aos quartéis-generais dos contendores, como a ilustrar que o abismo entre as
partes em luta era grande demais para ser vencido pelo contato direto, como se a batalha iminente
se destinasse a demonstrar a indispensabilidade da Áustria. Stadion, que foi mandado ao QG aliado,
levou uma proposta austríaca de condições de paz tão moderadas que ainda mais lenha
acrescentaram às suspeitas dos intuitos da Áustria. Mas as discussões sobre condições de paz ainda
eram prematuras. Pois em 2 de maio o exército aliado foi derrotado em Luetzen e, no dia 16 de
maio, derrotado outra vez em Bautzen. Tornava-se mais importante evitar o desastre que discutir
sobre os despojos da vitória.

A derrota aliada deixou o Imperador em pânico. Ante um Napoleão aparentemente invencível,


oprimido pela lembrança de 1805 e 1809, receava que o exército francês pudesse a qualquer
momento girar para o sul e invadir seus territórios. “Se Napoleão exigisse uma explicação
categórica [das intenções austríacas] neste momento,” relatou Hardenberg, o elemento de ligação
de Metternich com a Grã-Bretanha, “ele teria sem dúvida prometido neutralidade incondicional. (...)
Sei que Metternich já tem tido sérios choques com ele a respeito do grau de energia com que os
objetivos da Áustria devem ser buscados.” Metternich, portanto, outra vez falou de paz, e mandou
Bubna para o quartel-general de Napoleão. A intenção primeira fora enviar Bubna apenas para
efeito de “simetria diplomática”, com as mais vagas instruções. Porém agora, ante a insistência do
Imperador, pediu-se-lhe que transmitisse a Napoleão as mesmas condições de paz que Stadion
levara aos aliados. E numa instrução suplementar, Bubna foi exortado a falar principalmente como
emissário austríaco, não como mediador.

Napoleão, no entanto, entrara na campanha com três ilusões. Contava com um golpe esmagador
que desintegrasse a aliança. Acreditara ser capaz de negociar uma paz em separado com a Rússia
no momento que desejasse. Contava, senão com a ajuda austríaca, pelo menos com a neutralidade
austríaca. Mas para o fim de maio vencera duas batalhas, e no entanto a vitória fugira dele, em
parte porque a falta de cavalaria tornara impossível uma perseguição cerrada, porém mais ainda
porque as “regras” desta guerra impediam a rendição ou a paz em separado. No dia 18 de maio
despachara um emissário aos postos avançados russos pedindo um encontro com o Czar. Mas o
Czar recusara, insistindo em que todas as negociações fossem conduzidas por intermédio da
Áustria. Então Metternich preparou-se para utilizar uma das restantes ilusões de Napoleão, sua
confiança na boa vontade austríaca, para privá-lo dos frutos de suas batalhas vitoriosas. Enquanto
os exércitos aliados recuavam para a Silésia, Stadion foi instruído a pedir um armistício para dar à
Áustria a oportunidade de mediar.

Todas as facções necessitavam de um armistício: Napoleão, para restaurar sua cavalaria; a Rússia e
a Prússia, para reorganizar seus exércitos; Metternich, para reunir os aliados e completar a
mobilização austríaca. As vitórias de Napoleão haviam tornado necessária uma mudança no
dispositivo austríaco e o exército que devia atacar na Baviera Setentrional entrara agora em posição
para proteger os desfiladeiros que levavam à Boêmia. Além disso, em 16 de maio Stadion acertara
um plano estratégico com os aliados que, segundo o estado-maior austríaco, requeria para
implementação entre trinta e sete e cinquenta e sete dias. Mas muito mais sério que a falta de
preparação austríaca era o estado de espírito do Imperador. As mesmas pessoas que mais clamavam
por uma guerra patriótica contra Napoleão quando ele parecia fraco, insistiam agora pela paz, em
face de sua aparente invencibilidade; e o Imperador buscava desesperadamente uma fórmula para
voltar à completa inatividade. “O Imperador, Duka e todos os nossos militares estão agora exigindo
paz em altos brados”, Metternich escreveu a Stadion. “Um armistício será a maior das bênçãos. (...)
Dar-nos-á uma oportunidade de travarmos melhor conhecimento uns com os outros, acertar
medidas militares com os aliados e levar reforços aos pontos mais ameaçados.” **

No dia 4 de junho concluiu-se em Plaeswitz um armistício que devia durar até 20 de julho. Da
mesma forma que um comandante que se desloca ao campo para as operações decisivas,
Metternich, nesse momento, mudou seu centro de operações para Gitschin, um castelo na Boêmia,
mais ou menos a meio caminho entre os dois quartéis-generais adversários. Tudo dependia da
Áustria. O eixo da retirada dos aliados se escolhera de forma a manter contato com o exército
austríaco, e o desastre era certo se a Áustria permanecesse neutra. Crescia a exasperação dos
aliados. Stewart, plenipotenciário britânico junto ao QG prussiano, indubitavelmente refletia o
espírito ali reinante quando escreveu a Castlereagh no dia 31 de maio: “Nossas operações têm-se
conduzido com uma fé implícita na Áustria; recolhemo-nos (...) a uma estreita faixa de campo onde a
existência de (...) um exército torna-se bem duvidosa. Abandonamos Breslau, a comunicação direta
com Kalish, e entregamos assim a Polônia à influência de Bonaparte; e a Áustria ainda não se
declara. (...) Não estou de forma nenhuma satisfeito com a marcha das coisas, tanto nos conselhos
como nos campos de batalha.” Metternich baseara sua política na premissa de que os aliados lhe
permitiriam atingir à sua maneira um objetivo combinado, única forma aceitável ao Imperador.
Agora via-se em perigo de falhar, pois nenhum Estado, por mais tolerante que seja, arriscar-se-á ao
desastre por causa das complicações da estrutura interna de outro Estado.

Todas as dúvidas dos aliados concentravam-se no programa de paz que Stadion trouxera ao quartel-
general. A Áustria sugerira a volta da Ilíria à Áustria, a expansão territorial da Prússia no Ducado de
Varsóvia, a entrega, pela França, de suas possessões à margem direita do Reno, e a dissolução da
Confederação do Reno, o grupo de Estados alemães vassalos da França. A contraproposta aliada de
16 de maio acrescentava certo número de condições, como a independência da Espanha e um
compromisso de que a Prússia voltaria à mesma extensão territorial (mas não aos mesmos
territórios) de antes de 1806. Mas a disputa tinha fundamentos mais fortes que as condições de paz.
Os aliados estavam relutando em fazer um acordo com Napoleão, mas desejavam que seu próprio
programa refletisse pelo menos as exigências de sua segurança. Metternich, convencido de que
qualquer acordo com Napoleão era impossível, preocupava-se com o impacto psicológico das
propostas aliadas. Os aliados apresentavam condições de paz; Metternich preparava uma causa de
guerra. Os aliados tinham a preocupação de que Napoleão pudesse aceitar os termos moderados da
Áustria; Metternich preocupava-se com a possibilidade de uma intransigência aliada poder dar a
Napoleão oportunidade de levantar o povo francês e apelar ao Imperador austríaco.

A verdadeira questão girava, pois, em torno da finalidade da conferência que se aproximava. Se a


conferência se destinava a chegar a um acordo, os programas dos participantes tinham que refletir
suas pretensões máximas. Mas se era para demonstrar a impossibilidade do acordo, havia
necessidade de um programa de exigências mínimas. Numa ordem internacional estável, os
requisitos, uma vez formulados, são negociáveis. Em períodos revolucionários, as exigências, uma
vez apresentadas, tornam-se programáticas. Numa ordem estável, a conferência diplomática tenta
ajustar as diferenças entre os contendores. Numa situação revolucionária, o propósito de uma
conferência é psicológico; tenta estabelecer um motivo para ação, e dirige-se principalmente
àqueles ainda não comprometidos. Formular exigências mínimas, numa ordem estável, é abrir mão
da vantagem da flexibilidade na negociação. Formular exigências exorbitantes a um antagonista,
que de qualquer maneira vai rejeitá-las, é aumentar a dificuldade maior de um período
revolucionário: convencer os não-comprometidos de que o revolucionário é, de fato, revolucionário,
que seus objetivos são ilimitados. Isto concede ao adversário a vantagem da advocacia da
moderação sem o risco de sua realização. Em maio de 1813 o elemento não-comprometido estava no
interior da Áustria, e Metternich desejava uma conferência para pôr à mostra os objetivos de
Napoleão ao seu próprio Imperador.

Tudo dependia, portanto, de Metternich ter feito uma correta estimativa da situação. Fosse a
política de Napoleão perfeitamente flexível, ele poderia ter imobilizado Metternich aceitando suas
exigências mínimas. Mas perfeita flexibilidade em diplomacia é a ilusão dos amadores. Planejar
política na suposição da possibilidade igual de todas as contingências é confundir a arte de
governar com matemática. Uma vez que é impossível estar preparado para todas as eventualidades,
presumir a flexibilidade total do adversário tende a paralisar a ação. A pessoa que se dá conta dos
imponderáveis compreende, no entanto, que nenhum Estado pode desistir de sua visão de
“legitimidade” e nenhum indivíduo de sua raison d’être, não por ser fisicamente, mas
psicologicamente impossível. Para Napoleão, fazer uma paz continental antes de saber se poderia
ter uma paz marítima, e entregar todas as suas conquistas além-Reno e a Ilíria, teria significado que
Napoleão deixara de ser Napoleão. Metternich estava exigindo algo mais fundamental do que a
cessão de territórios: o fim de uma política revolucionária. Nesse sentido, pode-se dizer que sua
política destinava-se a salvar Napoleão de si mesmo.

Quando, então, os plenipotenciários aliados discutiram os termos de paz austríacos com Stadion, em
10 de junho, insistiram em seu programa máximo, enquanto Stadion procurou convencê-los de que
deviam deixá-lo para a conferência final de paz. Somente isso já denunciaria que Metternich não
estava interessado num programa para negociar, e sim numa causa pela qual lutar. Mas para que
não restasse dúvida, Metternich enviou mensagem a Stadion no dia 14 de junho, reafirmando sua
posição. As propostas austríacas eram essenciais, argumentava Metternich, porque “o Imperador
jamais seria levado à ação até que um congresso de paz se reunisse e ficasse demonstrado que
Napoleão não aceitaria sequer essas exigências.” Formular exigências excessivas faria o jogo de
Napoleão, dar-lhe-ia um pretexto para levantar o povo francês e fazer a guerra em nome da honra
nacional. O problema, em suma, era demonstrar, não a impossibilidade de uma paz segura, mas a
impossibilidade de qualquer paz. E para que Napoleão não estragasse todos os cálculos aceitando
as condições mínimas da Áustria, Metternich acrescentou a cláusula de que sua aceitação não
impedia a apresentação de exigências adicionais, pelos aliados, na conferência de paz.

É de presumir que esses foram os argumentos usados por Metternich no encontro com o Czar, a 19
de junho, em Opotschna, aonde fora o Czar a pretexto de visitar a irmã. Quaisquer que tenham sido
os argumentos de Metternich, as negociações entre os aliados e a Áustria chegaram a uma rápida
conclusão após a volta do Czar ao quartel-general, e resultaram, em 27 de junho, no Tratado de
Reichenbach, documento de tal ambiguidade que os historiadores usam-no até hoje para ilustrar a
intransigência de Napoleão. Declarava o tratado que a Áustria, tendo convidado as cortes da Rússia
e da Prússia a que aceitassem sua mediação por uma paz preliminar, tencionava entrar na guerra
contra Napoleão, caso este se recusasse a aceitar, até o dia 20 de julho, as quatro condições
seguintes: a dissolução do Ducado de Varsóvia; a dilatação da Prússia; a volta da Ilíria à Áustria; a
restauração de Hamburgo e Luebeck como Cidades Livres. *** Não importava que estas condições
fossem “moderadas”, que parecessem “suaves” para com o conquistador. Sua docilidade escondia
um fato de transcendental importância. Após sete meses da mais ambígua das diplomacias, a
Áustria comprometia-se a ir à guerra num tempo certo e sob condições específicas.

O Tratado de Reichenbach representa um clímax adequado ao curso tortuoso de Metternich durante


meio ano. Tão graduais haviam sido seus movimentos que um passo que poucos meses antes
pareceria o máximo da ousadia veio a ser recebido como reflexo inevitável de uma situação objetiva.
E tão competente fora sua diplomacia que a própria moderação das propostas de Reichenbach
escondia o fato de que não tinham a menor significação. Pois o tratado falava apenas nos
compromissos austríacos e não naqueles dos aliados. Mencionava um oferecimento de mediação
feito pelo Imperador da Áustria às cortes da Prússia e da Rússia, mas não dizia em que condições os
aliados o aceitavam. Comprometia-se a ir à guerra caso a França rejeitasse as quatro condições,
mas silenciava sobre a reação dos aliados caso a França concordasse. Metternich, e talvez o próprio
Imperador, não podia ter ilusões quanto às possibilidades de paz, pois ambos os ministros,
prussiano e russo, deixaram claro em despachos de 19 de junho que aceitavam as condições
austríacas apenas como base da mediação, não como expressão de seus termos de paz.

Este jogo de palavras era apenas nova ambiguidade acrescentada à expressão, já ameaçadora, de
que a aceitação por Napoleão das condições de Reichenbach apenas lhe garantiria uma paz
preliminar. Na realidade, pedia-se a Napoleão que aceitasse a fronteira do Reno, não em troca da
paz, mas da possibilidade de negociá-la. Estava fora de cogitação que o homem que tantas vezes
identificara o destino de sua dinastia com a inalterada existência de seu Império fosse concordar
com semelhante confissão de fraqueza. O verdadeiro argumento a favor da guerra era o fato de
Metternich estar seguro dessa reação. Napoleão, que apostara tudo na supremacia do poder, não
podia concordar enquanto não se convencesse de sua limitação — e no caso de não percebê-la,
enquanto não fosse tarde demais. O Imperador da Áustria, que jogara tudo na mera sobrevivência,
não podia ser induzido à guerra até ficar demonstrada a incompatibilidade entre as reivindicações
de Napoleão e um sistema de equilíbrio. O Tratado de Reichenbach fez convergirem essas duas
assertivas com a inevitabilidade de uma equação matemática. A diplomacia de Metternich chegara a
depender da avaliação correta de duas personalidades, a do Imperador e a de Napoleão. Seu
sucesso provou a realidade dos impalpáveis.

IV

Apenas um curto passo separava a Áustria da Coalizão. “Parece, agora, que Metternich é o corajoso
e que o tímido é o Imperador Francisco,” escreveu Stewart a Castlereagh em 16 de junho. “Levá-lo
ao ponto certo (...) e comprometê-lo decisivamente é o presente objetivo. (...) Sua Majestade
Imperial Francisco não vê as coisas tão favoravelmente como seria de desejar; e quando se lhe diz
que um movimento na retaguarda de Napoleão (...) aniquilaria seu genro, ele prefere imaginá-lo
dentro dos limites que os acertos pacíficos possam trazer.” O passo final da diplomacia de
Metternich foi demonstrar que acertos pacíficos eram incapazes de fixar limites a Napoleão.

O próprio Napoleão ajudou a forçar as coisas a um desenlace com um de seus movimentos


precipitados, que bem mostra sua permanente fantasia sobre a atitude da Áustria. Sabedor do
encontro de Metternich com o Czar em Opotschna, ele o convidou a que fosse até seu quartel-
general em Dresden para uma troca de pontos de vista. “Pois veja,” escreveu Metternich a Stadion,
“que minha má estrela está me chamando a Dresden. (...) A conversação não levará a nada. (...)
Considero a viagem o meio mais certo de me esclarecer bem quanto à essência da questão.”

Metternich escreveria mais tarde uma dramática narrativa de seu encontro com Napoleão em
Dresden, no dia 26 de junho de 1813; uma antecâmara repleta de ministros a ver nele a última
possibilidade de paz; um Napoleão resplandecente e um imperturbável Metternich; um chapéu
jogado ao canto e uma recusa em apanhá-lo; uma profecia, na hora da partida: “Estais perdido,
Sire.” Ainda que não relate o que de fato aconteceu, é verdadeira no sentido da história dos autores
clássicos — é psicologicamente verdadeira. Em Dresden, o homem da vontade e o homem da
proporção confrontaram-se pela última vez, e o homem da vontade foi destruído por ser incapaz do
discernimento final: a admissão de limites. O essencial da conversação está contido num breve
relato que Metternich enviou ao Imperador pouco depois de avistar-se com Napoleão. O núcleo
consistiu numa exigência de Napoleão em conhecer as condições da mediação austríaca e na
insistência de Metternich em que Napoleão primeiro aceitasse o princípio da mediação armada; na
recusa de Napoleão em ceder qualquer território, salvo uma parte da Polônia à Rússia, porque
nenhuma das outras potências “merecia” qualquer vantagem, e na evasiva de Metternich, propondo
que as questões territoriais fossem levantadas na conferência de paz. Napoleão discutia como se a
paz dependesse de sua vontade, mas havia algo de patético em sua fanfarronada, pois ele não tinha
mais o poder de tornar sua vontade efetiva. Metternich estava tentando reunir um congresso para
transferir a disputa para o plano que viera a dominar, em parte devido à insensatez de seu
adversário: o da diplomacia de gabinete. Quando Napoleão, para comprometer um adversário
fugidio e assegurar outra insignificante prorrogação do armistício, concordou com a mediação
armada austríaca e com um congresso, pisou na armadilha. Pois não era mais a paz que estava em
discussão e sim a causa da guerra.

O acordo assinado por Metternich e Napoleão em 30 de junho estipulava a aceitação francesa de


uma mediação austríaca, a prorrogação do armistício até 10 de agosto e um congresso a reunir-se
em Praga por volta de 5 de julho. A nova independência da Áustria foi ainda explicitada noutro ato,
talvez melhor que na própria aceitação por Napoleão de uma mediação armada austríaca: a
desobrigação da Áustria da aliança francesa. Em 27 de junho, Metternich solicitara que a aliança
fosse suspensa durante a mediação, por incompatível com seu propósito. Em 29 de junho, o ministro
francês de Relações Exteriores exonerou a Áustria de todas as obrigações porque “a França não
desejava constituir uma carga para seus amigos”. Portanto, a Áustria, no fim de junho de 1813,
atingira seus objetivos. Era o elemento controlador numa Coalizão que se formava contra Napoleão
e reunira, sem perturbações, 150 mil homens. Acontecesse o que acontecesse, houvesse guerra ou
paz, a estrutura interna da Áustria não seria ameaçada, porque estaria legitimada pelas únicas
garantias da existência permanente do Império Central: o equilíbrio europeu e a inviolabilidade das
relações de tratado. Tinha direito, Metternich, de escrever de Dresden ao Imperador, não sem certa
insinuação: “Onde estaria a Áustria hoje se nos houvéssemos limitado a meias-medidas?”

Porém Metternich ainda tinha que convencer os aliados da necessidade de prorrogar o armistício.
Não foi um começo auspicioso para a mediação austríaca o fato de seu primeiro ato ter redundado
numa violação do Tratado de Reichenbach, a que tão relutantemente acederam de início os aliados.
Embora os ministros aliados não fossem tão longe quanto Stewart, que, escrevendo a Castlereagh,
disse existir um entendimento secreto entre a Áustria e a França, ainda assim notavam as repetidas
postergações do comprometimento austríaco, de l.° de junho para 20 de julho, e agora para 10 de
agosto. Como saber se a Áustria seria algum dia levada à ação? Mas Metternich foi inflexível: não
podia impedir que os aliados retomassem as hostilidades no dia 20 de julho, mas nesse caso o
Imperador provavelmente declararia a Áustria incondicionalmente neutra. Acrescentou um
lembrete dizendo que a Áustria se tornara de fato a chave da Coalizão, não apenas
diplomaticamente, mas estrategicamente. A neutralidade, alertava, impediria o trânsito dos aliados
pela Boêmia, sem o qual a posição de Napoleão no Elba não podia ser contornada. A guerra, para
resumir, teria de esperar que Metternich legitimasse sua política internamente.

O Congresso de Praga, portanto, não é importante pelas negociações entre os plenipotenciários,


mas pelo impacto nos observadores, dos quais o mais crucial foi o Imperador da Áustria. Uma
correspondência entre Metternich e o Imperador esclarece as verdadeiras questões em jogo. A 12
de julho, Metternich remeteu um pedido de instruções ao Imperador que equivalia a um apelo em
favor da inflexibilidade, agora que o sucesso estava tão perto. Começava pela assertiva, sempre tão
incômoda para o Imperador, de que não se podia mais evitar uma decisão. O poder dos Estados,
arrazoava Metternich, depende de dois fatores: sua força material e a personalidade dos
governantes. A Áustria atingira o mais alto ponto a que se podia chegar pela presente política,
porém mesmo o pináculo conduz, inevitavelmente, à necessidade de decisão. A monarquia somente
poderia ser salva se Metternich pudesse contar com a maior firmeza e persistência da parte do
Imperador. Para qualquer conhecedor da psicologia do Imperador, isto representava uma afirmação
bastante ousada, apesar do tom submisso. Declarava, afinal, que um fracasso não se deveria à
fraqueza material, mas à falta de vontade; que era chegado o instante do engajamento: “Não
podemos perseverar em nossa linha atual, que se tornara necessária em virtude da momentânea
debilidade da monarquia. Na ocasião, admitir a fraqueza representava nossa única possibilidade de
reunir forças. (...) Evidentemente (...) ainda não somos tão fortes quanto já fomos, mas como peso
na balança (...) [a Áustria] é predominante. Dessa consideração, a única correta, parece que não nos
capacitamos suficientemente.”

Com esta advertência de que cômputos de poder absoluto levam à paralisia da ação, e de que a
força depende da posição relativa dos Estados, Metternich passava a um exame das eventualidades
a enfrentar pela Áustria no Congresso de Praga. Era um truísmo da política austríaca, declarou, que
a mediação só se podia exercer em favor dos aliados, que a Áustria só declararia guerra se a França
rejeitasse as bases de Reichenbach. Rejeitassem os aliados as quatro condições austríacas, era
inconcebível que a Áustria fosse juntar-se a Napoleão. Para esta eventualidade, Metternich
reservava-se o direito de apresentar suas recomendações no devido tempo. Mas o verdadeiro temor
de Metternich nada tinha a ver com os aliados, e ele o resumiu na pergunta seguinte: “Posso contar
com a firmeza de Vossa Majestade, caso Napoleão venha a rejeitar as condições austríacas? Está
Vossa Majestade (...) determinado, nesse caso, (...) a confiar a justa causa ao arbitramento das
armas?” Metternich bem sabia que a exasperação dos aliados e o desprazer crescente de Napoleão
podiam fornecer a ligação suficiente para esmagar a pérfida Áustria, fosse ela novamente apanhada
a tergiversar. A ambiguidade podia forçar o comprometimento dos outros, mas esse
comprometimento representava uma reivindicação, embora adiada. “[Se retardarmos outra vez]”,
concluía Metternich, “não teremos a paz, nem uma guerra favorável (...) mas o provável colapso da
monarquia (...) e eu me terei tornado, com a melhor das intenções, o instrumento da destruição de
toda consideração política, da substância moral e da dissolução da maquinaria de Estado.” Nem
toda a obliquidade de Metternich podia obscurecer o fato de que o destino da Europa dependia da
resolução de um homem.

O modo de pensar desse homem pode ser melhor ilustrado na resposta ao seu ministro. No
pretensioso anseio de segurança, na tímida consciência de todos os perigos, fornecia a melhor
resposta àqueles que haviam desejado empenhar a Áustria numa cruzada de modelo prussiano:
“Paz, paz duradoura,” dizia, “é o objetivo mais desejável de qualquer homem digno, e em especial
para mim, em quem recai tão pesadamente (...) o sofrimento de súditos tão honestos e de tão belas
províncias. Este deve ser nosso objetivo (...) não devemos ser enganados por vantagens
temporárias.” Este homem, que via no Império Austríaco uma propriedade pessoal, a ser
parcimoniosamente administrada por uma cuidadosa economia doméstica, não seria inspirado por
considerações de equilíbrio europeu, muito menos pela liberdade das nações. Para demonstrar sua
disposição de paz, propôs-se até a renunciar à condição “austríaca” na convenção de Reichenbach:
a reivindicação da Ilíria. Mas se Napoleão recusasse tão “razoáveis” exigências, afirmava, então a
guerra era a única solução. O Imperador Francisco entrou na guerra que veio a ser chamada
“Guerra de Libertação” com toda a resolução de um comerciante que se defende de um competidor
incapaz de ver que dividir o mercado é a melhor segurança de harmonia.

Metternich, entretanto, estava quase sobre seu objetivo. Em Kalish, obtivera a aceitação russa da
mediação austríaca; em Dresden, Napoleão consentira; agora, e este não foi o menor dos seus
feitos, o Imperador submetia-se às implicações de sua própria política. Que importava o fato de
cada um ter sua própria razão de aceitar a política de Metternich; o Czar, assegurar a Áustria como
aliada; Napoleão, paralisá-la; e o Imperador, evitar o comprometimento? Que diferença fazia se o
Czar via na mediação austríaca uma arma para a vitória, Napoleão, para a conquista e o Imperador,
para a paz? Os cordões todos estavam agora nas mãos de Metternich; só lhe faltava atar o último
nó.

O Congresso de Praga, na verdade, nunca se reuniu. Para mostrar seu desprezo, ou ganhar tempo,
Napoleão não enviou plenipotenciário senão no dia 25 de julho. O Czar enviou o alsaciano Anstett,
afronta proposital a Napoleão. Os representantes britânicos, Stewart e Cathcart, esperavam nas
coxias, dispostos a animar os irresolutos com promessas financeiras ou com a ameaça de retirar-se.
Não houve, porém, oportunidade para vacilações. Seguro em sua crença na pusilanimidade
austríaca, Napoleão deixara seu QG numa viagem de inspeção. E como Caulaincourt, seu
plenipotenciário, devia transferir a ele todas as propostas para decisão final, não se chegou a
qualquer acordo, nem mesmo sobre procedimentos. “Nossos negócios aqui”, escreveu Metternich a
Stadion em 30 de julho, “não deixam dúvida de que 10 de agosto será o último dia de nossas
relações com a França. (. . .) Caulaincourt confirmou o que eu já percebera em Dresden, que
Napoleão se ilude completamente sobre a situação real. Todos os seus cálculos havendo falhado,
agarra-se ele agora àquelas idéias que incensam seus preconceitos. Parece tão convencido, hoje, de
que a Áustria nunca tomará armas contra ele, quanto estava, em Moscou, de que Alexandre
negociaria”.

E aconteceu assim que a única ação pacífica de Napoleão para conseguir a permanência de sua
dinastia, o casamento com Maria Luisa, veio a constituir causa de aceleração de sua queda. Até
mesmo Caulaincourt pediu firmeza à Áustria, pelo menos foi o que contou Metternich ao
Imperador. **** “Conduzam-nos de volta à França, pela guerra ou pelo armistício, e trinta milhões
de franceses lhes agradecerão”, disse ele, segundo Metternich. Em 8 de agosto Metternich
transmitiu-lhe as condições austríacas na forma de ultimato. Tão completamente dominava a
situação que conseguiu de Caulaincourt uma promessa de segredo sobre seu conteúdo, tornando
assim impossível sua utilização por Napoleão para levantar o povo francês. Em vão Caulaincourt
rogou a Napoleão que “dissolvesse, pela paz, a Coalizão hostil”. Napoleão achava que podia contar
com a covardia do sogro, se não com sua lealdade. 10 de agosto transcorreu sem notícias de
Napoleão. Quando, no dia 11 de agosto, um mensageiro trouxe as contrapropostas de Napoleão,
aliás inadequadas, Metternich simplesmente respondeu: “Ontem éramos mediadores, hoje não. As
propostas francesas devem, doravante, ser endereçadas às três Cortes Aliadas”.

V
As fogueiras dos acampamentos nas colinas da Boêmia, anunciando ao exército austríaco em 11 de
agosto que ele agora estava em guerra, assinalaram o fim de uma extraordinária campanha
diplomática. Fria e determinada, ela permitira à Áustria surgir como porta-voz indiscutida da
Coalizão. A Áustria não formulara grandes concepções, não utilizara os sonhos nobres de uma
geração impaciente. Sua habilidade não esteve na criatividade, mas na proporção, na capacidade de
combinar elementos que recebia como dados. Partindo da admissão das exigências especiais da
posição central e das peculiaridades da estrutura interna da Áustria, Metternich conseguira criar
uma Coalizão em torno da inviolabilidade dos tratados e da legitimidade dos soberanos.
Transmutara a Áustria de aliada da França em inimiga, com a aprovação de Napoleão em cada
etapa. Transformara o conflito, de uma guerra de libertação nacional em guerra de gabinete em
prol do equilíbrio, como proposta do Czar. Criara um exército bem debaixo do nariz dos franceses. E
levara a Áustria à guerra por uma causa que asseguraria uma paz compatível com a estrutura
austríaca — com a aprovação de seu Imperador.

Os filósofos podem debater a estatura moral dessa política, mas os estadistas devem estudá-la com
proveito. Um antigo Império, mal restabelecido de duas guerras desastrosas, não pode ser
reformado à beira de uma luta pela sobrevivência. O estadista não pode escolher sua política como
se todas as linhas de ação estivessem igualmente abertas. Como Estado multinacional, a Áustria não
podia travar uma guerra nacional; Estado financeiramente exaurido, não podia enfrentar uma
guerra longa. O “espírito da época” contrariava a continuação de um Império poliglótico, mas seria
querer demais de seu estadista que fizesse do suicídio nacional um princípio de política. Sem dúvida
Metternich dificilmente poderia enveredar por uma política diferente, mesmo que a estrutura
interna austríaca fosse mais flexível. A razão de seu sucesso está na correspondência entre suas
convicções e os requisitos da situação austríaca. Equivale a dizer que Metternich não era um cínico
no que concernia a seus valores mais profundos.

Sua política, na forma e no conteúdo, simbolizou a natureza do Império Austríaco. A Áustria não
podia entrar numa cruzada; as cruzadas têm reivindicações universais, e a sobrevivência da Áustria
dependia de um reconhecimento de limites, da inviolabilidade dos tratados, da legitimidade. As
atitudes premeditadas, os frios cálculos, as manobras cuidadosas, tudo dava testemunho da procura
de um mundo em que desapareceriam as reivindicações universais e a hegemonia seria impossível.
Uma vez que a política austríaca não podia buscar forças na inspiração de seu povo, tinha que
atingir seus objetivos através da insistência e da sutileza de sua diplomacia. Poucas campanhas
diplomáticas mais claramente demonstram que política é proporção, que sua sabedoria depende da
relação de suas medidas entre si, e não da “esperteza” de lances individuais. Cada medida
individual era ambígua, cada passo, suscetível de diferentes explicações. Mas o resultado foi uma
Coalizão de estrutura moral bem testada, malgrado o que se pense de seu conteúdo, e cujo feito foi
a restauração da paz, depois de um quarto de século de guerra.

Todos os elementos da política futura de Metternich já aparecem neste período: a cuidadosa


preparação, a ênfase na obtenção do mais amplo consenso moral possível, a utilização da psicologia
do adversário para mais certamente destruí-lo. Sua façanha culminante foi conseguir identificar o
princípio legitimador interno da Áustria com o da ordem internacional. Com toda a razão disse o
Imperador a um visitante prussiano no seu áspero dialeto austríaco: “Escute aqui, eu não fui mais
esperto que vocês? Não fiz de maneira organizada o que vocês queriam fazer na desordem?”

Essa maneira organizada não foi mérito seu, mas de seu Ministro do Exterior. Evitara-se o desastre;
a Coalizão estava formada; a Áustria mais uma vez sobrevivera. Friedrich von Gentz resumiu assim
as realizações de Metternich: “Na plenitude do vigor e do poder de um Estado, e com meios
ilimitados, não é difícil cumprir um papel no mundo. (...) Mas levar um barco, vinte anos batido
pelas tempestades, através de recifes e sorvedouros, passando mil obstáculos e correntes
contrárias, de volta ao mar alto, é arte que não a têm muitos”.

Metternich provaria mais tarde que acertar a direção num mar calmo pode até ser mais difícil que
definir o rumo na procela, quando a violência dos elementos dá inspiração através da ânsia de
sobreviver.

* Pelo menos, esta foi a versão de Metternich para Hardenberg, e o que ele desejava fosse a
verdade, mesmo que não fosse.

** Outra indicação do estado de espírito do Imperador encontra-se numa mensagem enviada por
Stadion ao Imperador no fim de julho, mostrando o contraste entre a brilhante situação de então e o
desespero de apenas seis semanas antes: “[Após a batalha de Bautzen] o Imperador desesperou da
causa aliada. Convenceu-se de que o objetivo da guerra fora perdido, que não restava mais que
prevenir desgraças maiores concluindo a paz, mesmo em condições que não correspondessem
absolutamente às grandes metas que Vossa Majestade imaginava quando me encarregou desta
minha missão.”

*** O parágrafo em questão diz o seguinte: “O Imperador da Áustria, tendo convidado a Rússia e a
Prússia a negociar com a França com relação a uma paz preliminar que conduza à paz geral,
compromete-se a declarar guerra à França se esta não aceitar até 20 de julho as seguintes
condições:”

**** Durante sua estada em Praga, Metternich enviou extensos relatórios em que Caulaincourt e
Fouché empregam argumentos enganadoramente similares aos seus próprios.
6/ A PROVA DA ALIANÇA

ENQUANTO METTERNICH palmilhava sua sinuosa linha de ação, o estadista da potência que mais
longa e renitentemente combatera Napoleão nada podia fazer além de esperar com impaciência
impotente. Para Castlereagh, a má-fé de Napoleão era tão evidente que qualquer esforço de
demonstrá-la só podia ocultar covardia ou profundas cavilações. Realizar uma conferência só pelo
impacto psicológico de seu fracasso parecia-lhe uma evasiva sem outro significado. Uma concepção
defensiva de política externa confere grande coerência de propósitos contra uma potência que se
julga ameaçadora. Mas não é capaz de persuadir os ainda não-comprometidos. Se o perigo fosse
entendido seria desnecessário invocá-lo. Até experimentá-lo, os pedidos de ação comum mais
parecerão exortações à luta por uma causa estrangeira, ainda mais irritantes pelo farisaísmo. Por
esse motivo a Grã-Bretanha ficara só, enquanto uma potência continental atrás da outra sucumbira
à ilusão do acerto em separado ou à impotência do isolamento. Por esta razão, também, teve de
manter-se alheada enquanto a incapacidade de Napoleão em aceitar limites se ia demonstrando
pela recusa até das mais moderadas condições.

Metternich excluíra os representantes britânicos junto ao quartel-general aliado de todas as


negociações sobre condições de paz. A razão formal era a recusa britânica à mediação austríaca.
Mas seu real motivo era o medo de que a Grã-Bretanha insistisse em termos que viessem a anular
seus esforços de convencer o Imperador da necessidade da guerra. Não admira que os
representantes britânicos junto às cortes aliadas, Sir Charles Stewart no quartel-general prussiano
e Lord Cathcart junto ao quartel-general russo, olhassem Metternich com indisfarçável desalento. A
potência que nunca sofreu um desastre acha difícil entender a política dirigida com uma
premonição de catástrofe. A atitude de um aliado menos favorecido tentando limitar seus riscos só
pode parecer o mau resultado de uma esperteza decadente. O papel do Barão Wessenberg, enviado
de Metternich a Londres, não poderia ter sido mais triste. Evitado pela sociedade, nunca recebido
oficialmente pelo Príncipe Regente, sob ataques virulentos da imprensa, mal era tolerado e, certa
ocasião, pensou seriamente em mudar-se para o campo a fim de escapar à fúria da populaça. E
Stewart, fiel à missão que a si mesmo se impusera de descobrir a baixa intriga, escrevia do quartel-
general aliado: “Não posso deixar de pensar (. . .) que Metternich vai tentar alguma aliança de
família. (. . .) Se as coisas se encaminharem para um Congresso, por favor mandem alguém muito
capaz. Podem estar certos de que será muito necessário. (. . .) Vocês vão precisar de um camarada
esperto como o diabo por lá”.

A maneira como Castlereagh enxergava a cena européia na primavera e início do verão de 1813
deixava poucos motivos para satisfação. Naturalmente os exércitos aliados permaneciam no centro
da Europa, mas pareciam paralisados pela vastidão de sua oportunidade. A Grã-Bretanha, embora
não mais isolada, ainda não fazia parte do concerto de potências, em parte por causa das
dificuldades de comunicação, mas principalmente porque uma potência totalmente comprometida
não tem condições de negociação. Seu mais efetivo instrumento de barganha, a ameaça de retenção
dos subsídios aos exércitos aliados, não podia evitar negociações de paz, conforme evidenciara o
Tratado de Reichenbach, celebrado apenas três dias após a assinatura de tratados de
subsídios. * As providências de Metternich, embora muito mal compreendidas, indicavam,
realmente, que a Grã-Bretanha ainda não era parte da Europa, que uma paz continental com a
exclusão da Grã-Bretanha era, pelo menos, admissível. A Grã-Bretanha estava lutando, portanto,
além dos outros motivos, por uma ordem internacional que tornasse impossíveis os acordos
puramente continentais.

O reverso do temor de uma paz continental era a determinação de jamais ser isolada outra vez.
Praticamente qualquer arranjo seria preferível à permanente exclusão, do equilíbrio de potências,
do próprio operador da balança, à ameaça implícita de que o continente, do outro lado do canal,
fosse capaz de uma política contra a potência insular. Sendo necessário, a Grã-Bretanha estaria
disposta a concordar com uma paz muito aquém de suas expectativas se esta pudesse ser concluída
em conjunto com seus aliados. “É preciso que você se precavenha contra uma paz continental que
se faça com a nossa exclusão”, Castlereagh escreveu a Cathcart. “Muita teimosia de nossa parte
pode dar nisso, apesar de todos os tratados. (.. .) Portanto, a nossa disposição de tratar com nossos
aliados deve ser reafirmada, para que eles não tenham motivos de censura contra nós”. Só não
eram negociáveis a independência da Espanha, de Portugal e da Sicília, o cumprimento das
obrigações britânicas para com a Suécia e, naturalmente, os direitos marítimos. A potência insular
precisava manter alguns pontos de influência no Continente, se não no centro, pelo menos na
periferia, guardando as vias marítimas.

Castlereagh ainda foi mais longe. No dia 13 de julho, cedendo aos apelos dos embaixadores
prussiano e russo, aceitou a mediação austríaca, muito embora com certo rancor. Imediatamente
condicionou a concordância, indicando que a paz podia resultar tão imperfeita que não encorajasse
a Grã-Bretanha a abrir mão de qualquer de suas conquistas coloniais. Isso equivalia a reservar-se o
direito de veto ao que se estabelecesse, de vez que somente uma devolução das colônias perdidas
da França poderia induzir Napoleão a aceitar as condições austríacas. Em outra carta, Castlereagh
multiplicou os obstáculos mesmo a uma paz preliminar, concluindo com uma exortação que ao
mesmo tempo expressava sua extrema desconfiança da incompreensível política de Metternich:
“Bonaparte recebeu uma dura lição, mas enquanto tiver essa força em armas não se submeterá a
nenhum convênio que até mesmo o Conde Metternich tivesse a desfaçatez de assinar [meu grifo]
como proporcionador de sólidos princípios para o repouso da Europa”. Não percebia o quanto ele e
Metternich coincidiam em seu exame da situação. De qualquer maneira, a Grã-Bretanha não lutara
sozinha durante uma década para que as negociações a privassem agora dos frutos da vitória.

Quando chegou a aceitação britânica da mediação, a sorte já estava lançada, e a informação, em


verdade, só foi transmitida à corte austríaca quando a Áustria já havia declarado guerra, e mesmo
assim só como sinal de boa-fé. Castlereagh, daí em diante, tomou a si a tarefa de traduzir o fato da
aliança em uma consciência de sua necessidade. Confessou a Cathcart que o Congresso de Praga,
por mais improvável que fosse o seu sucesso, enchera-o de grande preocupação. Seus despachos de
setembro e outubro abundam em declarações sobre a necessidade de ação comum; em afirmativas
com ênfase no perigo comum, e apresentadas com eloquência raramente encontrada em seu estilo
afetado: “Os soberanos da Europa(. . .)”, escreveu ele a Cathcart, “começaram felizmente a
perceber que não há submissão que lhes possa assegurar paz e repouso, e que nem bem deixaram
de ser, eles próprios, objetos de hostilidade viram-se compelidos a tornar-se instrumentos nas mãos
da França (. . .) para a conquista de Estados que nada fizeram. (...) E este perigo comum [meu grifo]
que não se deve perder de vista como a verdadeira base da aliança. (.. .) Em oposição à França, uma
paz celebrada em conjunto, embora menos vantajosa em seus termos, seria preferível às maiores
concessões recebidas do inimigo como preço da discussão. (...) Só isto pode reduzir a força militar
do inimigo a seu nível natural e salvar a Europa de ser progressivamente derrotada por sua própria
vitória”. Apenas a Áustria ainda parecia irresoluta. Não sem motivo, Castlereagh continuava a
suspeitar da indeterminação de Metternich. Pois Metternich prosseguia menos interessado no
triunfo que no equilíbrio, menos num colapso da França que em limitar o poder francês. Metternich,
pretendendo evitar qualquer preponderância, queria prevenir um vácuo que estimulasse as
ambições russas. Castlereagh, que apenas temia o predomínio francês, tencionava animar a
Coalizão para os maiores esforços. Tão preocupado estava com a indecisão austríaca que lançou um
dilúvio de recomendações visando a transformar a guerra numa guerra de nações, não de Estados,
despertar o entusiasmo popular, em suma, fazer tudo quanto Metternich tanto trabalhara para
evitar. “Parece-me, na realidade, impossível”, escreveu ele a Cathcart, “deixar de ver o problema
principal, e quanto mais cedo o ministro austríaco se decidir (. . .) menos riscos ele correrá. (. . .)
Tornou-se um conflito de nações e não um jogo de estadistas, e ele vai entregar tudo nas mãos de
Bonaparte se tratar do assunto partindo de qualquer outro princípio”. O temor da defecção
austríaca chegou a levar Castlereagh a enunciar um fundamento social para a ordem internacional:
“Tem-se a impressão”, escreveu a Aberdeen, “que os ouvidos [de Metternich] não são capazes de
suportar o som da guerra, e que ele pretende sussurrar, ao invés de atroar, nos ouvidos da nação.
(...) Toda a história militar da Revolução incutiu-nos o terror de que o monstro, uma vez engendrado
no campo francês, possa soltar-se e ir procurar alimento noutro lugar. (...) O povo, agora, é a única
barreira. Ele é contra a França, e é o escudo que acima de todos os demais deve um Estado erguer
para sua proteção, quando é tão destituído, como no caso da Áustria, de uma fronteira defensável”.
Desta maneira, uma das raras incursões de Castlereagh na filosofia social resumia-se em mais um
argumento em favor da inflexibilidade com a França.

As exortações de Castlereagh baseavam-se, afinal, num equívoco. O que causava a aparente


hesitação austríaca não era uma falta de percepção da ameaça francesa, mas sim a preocupação de
Metternich com outro perigo ainda não divisado por Castlereagh. Pois enquanto Castlereagh
pensava na ação conjunta das potências “desinteressadas”, Grã-Bretanha e Rússia, para definir as
condições do equilíbrio europeu, o Czar ultimava planos que ameaçavam deixar a Europa Central
subordinada ao seu arbítrio. Ao exortar Metternich sobre os perigos da dominação universal,
Castlereagh não imaginava quanta atenção suas palavras recebiam. Apenas, Metternich observava
Napoleão com um olho e o Czar e a Polônia com o outro.
II

Era paradoxal que um Estado que deixara de existir em 1795 e um monarca que se orgulhava da
nobreza de seus princípios fornecessem os elementos de discórdia à Grande Coalizão. A Polônia,
repartida pela terceira vez em 1795, vivera apenas como inspiração de seus patriotas até que, em
1807, Napoleão fez ressuscitar o Ducado de Varsóvia na possessão polonesa da Prússia,
adicionando-lhe porções da Polônia austríaca depois da guerra de 1809. Em 1812 Napoleão utilizara
o patriotismo polonês como instrumento em sua campanha russa. Sua declaração de que
considerava aquela uma guerra polonesa aumentara-lhe as forças em 80 mil homens,
remanescentes dos quais ainda estavam com os exércitos franceses em 1813. A retirada de Moscou
destruíra a visão de uma Polônia estendida até o Dnieper. Ante o avanço dos exércitos russos para
oeste, outro destino não se apresentava à Polônia que a devolução das antigas possessões às
potências da partilha.

Mas a Polônia muitas vezes contou mais com o fervor de seus patriotas do que com sua capacidade
de escolher o lado vencedor. Com a aproximação dos exércitos russos da Polônia, Adam Czartorisky,
cujo pai presidira a proclamação da Confederação de todos os Poloneses sob os auspícios de
Napoleão, e que se demitira do exército russo naquela ocasião, recordou-se do amigo de sua
juventude, o Czar Alexandre. No dia 6 de dezembro, enviou ao Czar uma carta que continha a
seguinte passagem: “Se V. entrar vitorioso em nosso país, retomará seus velhos planos com relação
à Polônia? Será que, ao subjugá-la, conquistará também seus corações?”

A ambiguidade desta carta combinava bem com a instabilidade do destinatário. Napoleão disse do
Czar que grande era sua capacidade, mas que “algo” sempre faltava em tudo quanto fazia. E como
nunca se podia prever que detalhe específico faltaria em determinado caso, ele era totalmente
imprevisível. Metternich o descreveu como "estranha combinação de virtudes masculinas e
debilidades femininas. Muito fraco para a verdadeira ambição, porém forte demais para a simples
vaidade’’. A um só tempo místico e astuto, idealista e calculista, apresentava um amálgama
ambivalente de princípios universais justificando vantagens especificamente russas, de intuitos
elevados que apoiavam aspirações consideradas egoístas em homens de menor vulto. Era capaz de
grande abnegação, como repetidamente o comprovou durante o período da Santa Aliança. Mas
também podia ser cruel e traiçoeiro. “Ele era bem o filho do Czar Paulo [o louco]’’, disse Talleyrand.
Não se pode duvidar de que estava convencido da identificação de seus objetivos com as teses de
justiça universal. Menos ainda se discute que essas teses, em geral, coincidiram, pelo menos
durante o período inicial, com o interesse nacional da Rússia. E fora grandemente influenciado, em
sua juventude, por seu tutor suíço, La Elarpe, cuja aspiração fora educá-lo à imagem do governante
ideal do Iluminismo, o rei-filósofo que governaria com base nos preceitos universais e dispensaria a
seu povo as benesses de sua liberalidade. Quando ainda era Grão-Duque, Alexandre havia
prometido a Adam Czartorisky trabalhar pela libertação da Polônia. Promessa a que se referia a
carta.

A resposta que Alexandre enviou à carta de Czartorisky revelava a duplicidade de sua natureza. “A
vindita é um sentimento desconhecido para mim”, dizia. “Meu maior prazer é retribuir o mal com a
bondade”. Depois de asseverar que seus desígnios com respeito à Polônia não haviam mudado,
examinou a oposição que iria encontrar, tanto internamente, na Rússia, como da parte da Áustria e
da Prússia. Uma declaração precipitada impediria a Áustria e a Prússia de entrarem na Coalizão,
podendo jogá-las nos braços da França. Prometia, no entanto, que seus planos iriam assumindo
contornos à medida que a situação militar evoluísse. A nobreza de alma podia suprir motivação para
a independência da Polônia, mas a astúcia devia ser o estilo de sua obtenção.

Alexandre mostrou-se homem de palavra. O Tratado de Kalish evitara significativamente qualquer


promessa de devolução à Prússia de seus territórios poloneses e, durante o curso das negociações, a
Saxônia foi mencionada como possível compensação. Mas embora o Czar cuidadosamente evitasse
revelar toda a extensão de suas ambições, Metternich, como vimos, bem avisado estava delas. E a
Áustria não podia ser indiferente nem à expansão profunda da Rússia na Europa Central nem à
transformação da Prússia de potência oriental em potência predominantemente alemã. O
transbordamento russo quase até o Oder transformaria a Prússia, com uma fronteira leste
indefensável, em satélite russo; enquanto que uma Prússia desviada para dentro da Alemanha
poderia competir com a Áustria pelo predomínio. Metternich não tinha, portanto, pressa nenhuma
em esmagar completamente a França, e criar, dessa forma, um vácuo que apenas serviria para
reforçar a posição de barganha da Rússia, mormente enquanto a atitude britânica não estivesse
clara. Pois não se sabia ainda se a Grã-Bretanha identificaria o equilíbrio europeu com qualquer
outra coisa que não fosse a derrota de Napoleão; ou se chegaria a compreender que a melhor
defesa de Antuérpia estava na Polônia.
Castlereagh, por enquanto, estava inconsciente desses problemas; e se soubesse deles,
provavelmente iria atribuí-los às cavilações de Metternich. Para ele, a guerra ainda era uma
contenda pela restauração do equilíbrio, empreendida por potências tão calejadas pela experiência
da dominação estrangeira que isso mesmo limitaria suas ambições. Era tão inconcebível que
qualquer potência, além da França, viesse novamente a perturbar a paz, que disso não se acha
referência, direta ou implícita, em nenhuma das numerosas mensagens de Castlereagh desse
período. Ao contrário, sua tendência foi seguir o caminho demarcado pelo Plano Pitt: criar o
equilíbrio europeu em cooperação com a outra potência “satisfeita”, a Rússia; conter as rivalidades
históricas das Potências Centrais para vitalizar a aliança e garantir a pacificação européia. Por esse
motivo, tal como estipulava o Plano Pitt, todas as propostas para um acordo de pós-guerra foram,
invariavelmente, submetidas em primeiro lugar ao Czar. Só quando veio ao Continente, Castlereagh
compreendeu que o aliado natural da Grã-Bretanha era a Áustria, a potência continental, que,
malgrado as diferenças de estrutura doméstica, representava também as teses de equilíbrio e
repouso.

Esta incompreensão conduziu a um diálogo com Alexandre ainda mais irritante porque a causa real
de sua inconclusividade não se evidenciou logo. Em seus primeiros contatos com o Czar,
Castlereagh apresentou condições exclusivamente britânicas, cujo atendimento estava assegurado
pelo fato da posse britânica, como era o caso da independência de Espanha, Portugal e Sicília, ou
eram puramente teóricas, como a independência da Holanda ou a exclusão dos direitos marítimos
de qualquer conferência de paz. Por mais que o preocupasse a Coalizão, Castlereagh perseguia
estes objetivos com uma coerência quase fanática. Particularmente com relação à Holanda e aos
direitos marítimos. Já em 10 de abril escrevera a Cathcart que “dirigisse a inquieta atenção do Czar
para a Holanda. Nada menos que empurrar os franceses para o outro lado do Reno, e garantir uma
existência segura àquele país pode dar-nos uma boa barreira contra a França e uma comunicação
segura com nossos aliados no Continente”. A independência da Holanda era assunto a ser tocado
em todas as oportunidades. Porém, estando ainda longe os exércitos aliados, as respostas sem
compromisso do Czar podiam ser entendidas como simples reflexo da situação militar.

O mesmo impasse ocorreu com a questão marítima. Não obstante o fato de Castlereagh tentar
evitar qualquer discussão desse ponto, o Czar trouxe a questão à baila ao oferecer-se para arbitrar
entre a Grã-Bretanha e os Estados Unidos. De vez que aquela guerra se devera em grande parte ao
problema do “direito” britânico de inspecionar navios neutros, tocou-se num nervo exposto da Grã-
Bretanha, e Castlereagh retrucou com uma áspera advertência. “Não posso deixar [de frisar]”,
escreveu a Cathcart, “a importância de alertar o espírito do Imperador para a necessidade de
excluir, peremptoriamente, das negociações gerais qualquer menção à questão marítima. Caso
contrário, ele correrá o risco (...) de um desentendimento entre aquelas potências de cuja união
depende agora a segurança da Europa”. Quando o embaixador russo em Londres levantou outra vez
a controvertida questão, Castlereagh replicou com um despacho ainda mais longo. Reiterou que
nenhum ministro britânico ousaria transigir quanto aos direitos marítimos, acrescentando,
sombriamente, que se as Potências da Europa estavam interessadas em contrabalançar a França,
não deviam arriscar-se à dissensão entre si pela inclusão deste assunto. Tratava-se, realmente, de
um supremo interesse britânico, a ponto de ofuscar até mesmo a Grande Coalizão.

Outra dificuldade surgiu quando Castlereagh tentou implementar a idéia básica do Plano Pitt: a
negociação da aliança geral que definiria as condições do equilíbrio europeu. Dirigiu-se ao Czar,
poucos dias depois de saber do encerramento do Congresso de Praga: “Se qualquer [das potências]
intentar a paz em separado, deixará a França dona do destino das demais. É com a guerra na
Espanha que se tem preservado a Rússia e se pode libertar a Alemanha; é pela guerra na Alemanha
que a Espanha pode contemplar o fim do jugo. (...) Decidirem-se a resistir ou cair juntos é sua única
segurança, e para isto devem os confederados chegar a certos princípios fixos de interesse comum”.
Legitimava-se assim a guerra, inteiramente pela necessidade de submeter a França, e as condições
propostas refletiam este objetivo. Pediam a independência da Holanda, Sicília, Espanha e Portugal,
a remoção da influência francesa da Itália e da Confederação do Reno, e a restituição às
monarquias austríaca e prussiana da extensão territorial e da influência de que gozavam antes de
serem derrotadas por Napoleão.

Castlereagh evidentemente não tinha dúvidas de que essas propostas seriam aceitas sem hesitação.
Instruiu Cathcart no sentido de asseverar ao Czar a indelével impressão que sua conduta causara
no governo britânico; propôs que a Grã-Bretanha e a Rússia, em conjunto, concitassem as outras
potências a concordarem na aliança. Se esperava qualquer dificuldade, esta viria da Áustria, muito
embora Castlereagh estivesse convencido de que a melhor maneira de tornar ousado um aliado
cauteloso era convencê-lo de que tinha aliados moderados mas decididos. Mas o Czar mostrou-se
estranhamente difícil. A mensagem de Castlereagh chegou quando os exércitos aliados perseguiam
um inimigo atropelado após a batalha de Leipzig, e o Czar furtou-se a diversos encontros,
pretextando preocupações militares. Quando Cathcart finalmente esteve com ele, no dia 26 de
outubro, o Czar expressou concordância em princípio com a aliança proposta e sugeriu uma
discussão das cláusulas com seu ministro, Nesselrode. Em reuniões posteriores, no entanto, esteve
mais reticente. Invocou sua sinceridade, que tornava desnecessário um comprometimento formal;
trouxe outra vez à tona a questão dos direitos marítimos; insistiu em que a Grã-Bretanha
especificasse quais colônias conquistadas durante a guerra pretendia devolver e exigiu um
compromisso firme sobre futuros subsídios. Comentou, enigmaticamente, que as condições da paz
teriam de refletir a “real situação”, mas deixou de esclarecer o que entendia por essa expressão.
Era estranho, relatou Cathcart, que a Áustria, potência de onde eram esperadas as maiores
dificuldades, se mostrasse tão flexível, enquanto o Czar se apresentava tão renitente. Aqui, também,
havia equívoco, pois Metternich estava assim flexível justamente porque o Czar estivera tão difícil.

A Coalizão chegara, de fato, ao ponto crítico em que uma declaração expressa de objetivos poderia
demonstrar a desvalia dos protestos de harmonia. É da essência de uma Coalizão, quase por
definição, que os desacordos entre seus membros e o inimigo comum sejam maiores que as
divergências internas, de uns com os outros. Sendo a aparência de harmonia uma de suas mais
poderosas armas, uma Coalizão jamais pode admitir que um de seus membros represente ameaça
quase tão grande quanto o inimigo comum, talvez até maior, à medida que as vitórias alteram a
posição relativa das forças. Coalizões entre potências do status quo e potências aquisitivas,
portanto, são sempre um caso difícil, e tendem a basear-se num mal-entendido ou numa evasiva.
Num mal-entendido, porque tal Coalizão tenderá a resolver questões periféricas — aquelas que
preocupam apenas alguns dos membros e não afetam o relacionamento básico de poder — com
relativa facilidade, por meio de um reconhecimento mutuo de reivindicações especiais. E numa
evasiva, porque quanto mais demora o acerto das questões fundamentais durante uma guerra bem
sucedida, tanto mais forte a posição da potência aquisitiva se torna, militar e psicologicamente. A
derrota total do inimigo, quando mais não seja, remove um peso da balança, e apresenta à potência
do status quo a alternativa de ceder ou entrar em guerra com o aliado de ontem, cuja posição
relativa melhorou com a derrota do inimigo.

Uma potência do status quo tem de forçar, portanto, uma definição de objetivos de guerra o mais
cedo possível, chegando mesmo a utilizar o peso do inimigo, ou o medo do inimigo, em seu proveito.
Na medida em que a distância entre o aliado aquisitivo e o inimigo comum é suficientemente
grande, o desejo de vitória ou o medo da represália podem bastar para forçar a questão. Fora esta a
intenção de Metternich na campanha diplomática concluída com a entrada da Áustria na Coalizão.
Continuaria sendo sua política durante a guerra.

Em contraste, a potência aquisitiva tentará adiar o mais possível um acordo final. Neste caso, todas
as vantagens estão do seu lado. Insistindo em que a solução final tem que depender da situação
militar, tende a provocar uma guerra total que cria um vácuo de poder através da completa
destruição do inimigo. Quanto maior o vácuo, maior o distúrbio do equilíbrio e mais “naturais”
parecerão as reivindicações ilimitadas. Somente uma paz em separado pode impedi-lo, mas a
potência do status quo terá sempre grande dificuldade psicológica, se não física, de concluir a
guerra pela violação dos tratados existentes; pois seu real objetivo de guerra, a estabilidade,
depende do reconhecimento da inviolabilidade das relações de tratado. E se a potência aquisitiva
sustenta que seus objetivos são, na realidade, limitados, e oferece sua palavra em garantia,
transfere o ônus da ruptura da aliança para as potências que mais têm a ganhar com a presunção
da sinceridade de sua aliada. Não podem certificar-se da insinceridade do aliado até que este a
comprove, coisa que tentará evitar até que seja tarde demais. Com os exércitos aliados marchando
para oeste, o Czar falava eloquentemente de uma paz baseada na situação militar e santificada pela
sua boa-fé.

Mas as propostas de Castlereagh punham um dilema para Alexandre. Destinavam-se a conter a


França mas, por inferência, limitavam também a Rússia, pois, concordasse o Czar com a aliança, as
outras potências teriam assegurados os seus objetivos maiores enquanto ele nem sequer indicara os
seus. Mas se tornasse explícitos seus planos poloneses, podia forçar uma paz em separado entre
França e Áustria. Com todas as potências atendidas em seus interesses, era perigoso adiar a
questão polonesa para o acordo final, pois elas então podiam unir-se contra as pretensões russas.
Mas se tentasse incluir a questão polonesa entre os objetivos da aliança talvez não sobrasse acordo
final a negociar. E Metternich estava igualmente relutante em comprometer-se. Enquanto ao Czar
preocupava que não fosse sua concordância com os objetivos de seus aliados retirar o incentivo
para que estes anuíssem nas compensações russas, Metternich temia que a Grã-Bretanha se
retraísse do Continente uma vez satisfeitas suas condições especiais. Não estava claro, ainda, se a
Grã-Bretanha identificava sua segurança com o estuário do Escalda ou com o equilíbrio europeu.
Até que a Grã-Bretanha esclarecesse melhor sua atitude, Metternich pretendia usar a obsessão dela
pela Holanda para frustrar o Czar na Polônia.

Tanto o Czar quanto Metternich fugiram, então, à aliança, embora por motivos diametralmente
opostos. Metternich via no tratado proposto um instrumento a mais para conseguir um engajamento
britânico na defesa da Europa; o Czar considerava-o um meio de estabelecer um direito. Mas
Metternich, conhecendo as intenções do Czar, utilizou-o como anteparo detrás do qual podia
espreitar. Repetidas vezes declarou sua disposição de assinar a aliança, mas insistia na inutilidade
dela sem a Rússia. Outras vezes oferecia-se para garantir a futura aquiescência russa. “E agora,
meu prezado Aberdeen”, disse Metternich certa ocasião ao crédulo Aberdeen, novo embaixador da
Grã-Bretanha na Áustria, “apresente meus cumprimentos a Lord Castlereagh e pergunte-lhe que
novas provas vai exigir de nosso empenho e lealdade”. Por fim, quando ficou bem claro que era
impossível obter o assentimento russo, Metternich propôs a Aberdeen assinar um acordo
declarando sua disposição de assinar um acordo. Porém Aberdeen recusou-se, como Metternich sem
dúvida esperava.

Castlereagh buscava, assim, apoio de uma potência à qual estava destinado a se opor, mesmo com
risco de guerra, enquanto desconfiava do Estado que viria a ser seu principal sustentáculo.
Enquanto não se eliminasse o equívoco, a política britânica seria irrelevante. Castlereagh resumiu
sua dúvida crescente numa mensagem a Cathcart. No tom de ponderação estudada e honradez
ultrajada, fazia justiça ao legado de Pitt, que tornava impossível pensar na Rússia como potência
aquisitiva. Começava tratando dos protestos de boa-fé do Czar e de sua referência à situação militar
em evolução: a acusação de que o oferecimento de uma aliança indicava falta de confiança no Czar
não era razoável, pois a Grã-Bretanha escolhera a Rússia desde o início para confidências, e
confiara em sua “larga visão” como principal fator de sucesso no caso. Tampouco era mais
compreensível a menção do Czar à situação militar em evolução. Os sucessos aliados haviam
tornado os objetivos comuns mais fáceis de alcançar e deveriam portanto ter removido, em vez de
haver multiplicado, as dificuldades em concluir-se a aliança. Castlereagh rejeitava, indignado, a
proposta do Czar no sentido de que a Grã-Bretanha enumerasse as conquistas coloniais que
tencionava devolver. A devolução das colônias fora um oferecimento espontâneo, mas elas não
podiam ser especificadas até que as potências continentais concordassem no delineamento de um
acordo de paz. Em suma, as colônias seriam usadas para garantir que qualquer acordo
salvaguardaria os interesses fundamentais da Grã-Bretanha. E Castlereagh concluía com mais um
apelo que, em sua repetitiva insistência, expressava surpresa e descrença nas hesitações do Czar,
como se os obstáculos a um acordo adviessem de uma falha de comunicação que um mestre-escola
paciente pudesse corrigir pela reiteração frequente. A Grã-Bretanha dirigira-se primeiro à Rússia,
repetia, não porque desconfiasse dela, mas porque a Grã-Bretanha e a Rússia eram as duas
potências menos necessitadas de semelhante aliança: “Em meio à flutuante política dos Estados (...)
pareceu-me não menos um ato de sabedoria do que de dever para com o mundo, que a Grã-
Bretanha e a Rússia aproveitassem esta oportunidade de solenemente se comprometerem (...) a
opor, doravante, uma barreira à opressão da França. [Esta] determinação(. . .) daria à Europa a
melhor, se não a única, proteção de uma paz durável. (...) O governo britânico [está] em princípio
disposto a buscar seus próprios interesses através dos interesses gerais do Continente [Grifo meu].
(...) Mas, caso contrário, a Inglaterra [não será] o primeiro Estado a sofrer com uma política
isolada”.

No final das contas, esta altiva mensagem jamais foi remetida. Algo aconteceu que fez Castlereagh
decidir viajar ao Continente e participar pessoalmente das deliberações dos aliados. Devia ser
importante a reviravolta que levou um Secretário do Exterior britânico ao Continente pela primeira
vez na história. A aliança, na verdade, passava por uma prova. Pois Metternich, não desejando
assistir a um completo rompimento de seu acalentado equilíbrio, havia oferecido a paz a Napoleão
em nome da aliança.

III

Quando a Áustria declarou guerra a Napoleão em 11 de agosto de 1813, sua liderança da Coalizão
era fato indiscutível. Um marechal-de-campo austríaco era o comandante-em-chefe dos exércitos
aliados, e, por uma redobrada ironia, a escolha recaíra no Príncipe Schwarzenberg, ex-comandante
do corpo auxiliar de Napoleão. Metternich era, para todos os efeitos, o Primeiro-Ministro da
Coalizão. Foi ele quem falou pelos aliados durante as negociações de paz; foi ele quem negociou
com aqueles vassalos de Napoleão que, cada vez em maior número, tentavam juntar-se ao lado
vencedor. No dia 7 de setembro ele aderira à aliança da Prússia e da Rússia pelo Tratado de Teplitz,
que estipulava a libertação da Alemanha até o Reno e sua organização com base em Estados
soberanos. O Tratado de Teplitz representava simplesmente mais um reconhecimento, pelos aliados,
de que a guerra não era feita em nome do nacionalismo.

Havia outra razão para o aparecimento de Metternich como porta-voz da Coalizão. Infenso até o fim
a crer na entrada da Áustria na guerra, Napoleão agora imaginava que sua resolução era tão fraca
quanto demorada fora sua entrada. Já no dia 18 de agosto o Duque de Bassano propusera um
reinicio de negociações. Em 26 de setembro, o ajudante de Napoleão aparecera nos postos
avançados com uma carta do Imperador apelando para a paz a fim de evitar desgraças maiores. No
dia 17 de outubro, primeiro dia da batalha de Leipzig, Napoleão enviou outro emissário, o general
austríaco capturado, Merveldt, com um oferecimento de paz. Nada ilustra melhor a dificuldade de
um acerto, quando duas legitimidades se enfrentam, do que a sina dessas ofertas. Por mais ansioso
que Napoleão pudesse estar para acabar com a guerra, e por mais sincero que estivesse sendo, os
aliados lembraram-se de sua habilidade em dissolver coalizões por meio de ofertas de paz, e
recusaram-se a tratar com ele. Somente após Napoleão haver perdido seu exército em Leipzig,
quando, enfim, a impotência atestava sua sinceridade, foi que Metternich considerou-lhe as
propostas, e ainda assim porque a fraqueza da França aumentou seu temor da Rússia.

Quando os remanescentes do exército francês buscavam refúgio atrás do Reno, Metternich viu
chegado o momento que lhe deve ter parecido o último em que ainda era possível evitar que a
guerra se tomasse total. Todos os objetivos determinados haviam sido atingidos. Nova derrota de
Napoleão transferiria a guerra para um plano onde nenhum acordo limitava reivindicações e o
equilíbrio europeu seria gravemente ameaçado. Mas interromper o avanço durante as negociações
poderia destruir a Coalizão e dar a Napoleão oportunidade de reunir suas forças. Napoleão, o
homem do poder, não poderia aceitar um acordo enquanto não admitisse sua impotência. Mas se
essa impotência se tornasse demasiado evidente, estaria perdido um dos mais importantes
contrapesos da Rússia. Como obter uma paz de proporção contra um oponente inclinado à
autodestruição? Como evitar o vácuo quando se enfrentava um adversário que considerava o
reconhecimento de limites suicídio monárquico? Oferecendo uma paz de moderação, respondia
Metternich, e continuando a avançar. “Levemos sempre a espada numa das mãos e o ramo de
oliveira na outra”, escrevera ele, durante a desastrosa guerra de 1809, “sempre prontos a negociar,
mas só negociar avançando”. Chegara o momento de pôr em prática essas máximas. Uma oferta
moderada de paz representaria uma limitação às pretensões russas e ao mesmo tempo solaparia a
posição interna de Napoleão ao apelar para o desejo de paz do povo francês. “Forjaria”, escreveu
Metternich, “armas para os aliados com o povo [francês]”.

Mas como induzir os aliados, particularmente a Rússia e a Grã-Bretanha, a negociar num momento
de triunfo? Felizmente para Metternich os principais atores, com exceção de Castlereagh, estavam
reunidos no quartel-general aliado: três monarcas e seus ministros, acompanhados de seus estados-
maiores e nada menos de três plenipotenciários britânicos, representavam o campo ideal de atuação
para um diplomata das habilidades de Metternich. No que havia de ser a primeira de muitas
ocasiões iguais, Metternich conseguiu dominar todos os protagonistas. Estabeleceu relações
extremamente cordiais com o Czar, sempre suscetível à bajulação. “O Imperador Alexandre é seu
próprio ministro”, escreveu Cathcart. “Seus ministros regulares estão em S. Petersburgo, e os
poucos servidores confidenciais que emprega aqui não podem assumir as responsabilidades de
ministros. (...) S. M. I. bem percebe a habilidade do ministro austríaco (...) o Príncipe Metternich
tem pronto acesso a ele, e certamente S. M. I. escuta interessado as suas sugestões. (...) O Príncipe
Metternich, naturalmente, cultiva essa vantagem sempre que pode, e sua maneira franca(. . .) é
cativante no mais alto grau”. Um apelo ao interesse nacional falhara em conseguir do Czar seu
acordo com uma aliança; um apelo a seu idealismo resultou na sua aprovação de uma oferta de paz.

Lord Aberdeen, embaixador britânico na Áustria, mostrou-se ainda mais fácil de lidar. Com apenas
vinte e nove anos de idade, mal sabendo falar francês, nem de longe podia ombrear com um
diplomata habilidoso como Metternich. Sua rigidez e autoconfiança colocaram-no nas mãos de
Metternich. “Metternich é extremamente atencioso com Lord Aberdeen”, dizia um relatório de
Cathcart. Os resultados não tardaram. Metternich certa ocasião descrevera o trabalho do diplomata
como a arte de parecer bobo com inteligência, pois praticou-a no mais requintado nível com o
orgulhoso Aberdeen. “Não acho Metternich um personagem tão formidável”, escreveu Aberdeen a
Castlereagh. “Estando com ele a todo instante(. . .) será possível que não o conheça? Se fosse de
fato o homem mais sutil do mundo, certamente poderia ludibriar alguém tão pouco afeito à
falsidade, mas não é esse seu caráter. Ele é, repito, um homem não muito esperto. Vaidoso(...) mas
pode-se confiar nele”. Por seu misto de condescendência e credulidade, Aberdeen fazia jus ao
epíteto sarcástico de Metternich, que o chamava “o meu prezado simplório da diplomacia”.

Numa conferência, dia 29 de outubro, entre o Czar, Metternich e Aberdeen, decidiu-se responder às
propostas de 17 de outubro de Napoleão. O método escolhido foi um desses atos simbólicos e sutis,
tão do gosto do ministro austríaco. Napoleão oferecera a paz através de um oficial austríaco
capturado; nada mais natural, portanto, que os aliados respondessem por intermédio de um alto
funcionário francês capturado. O chargé d’affaires francês em Weimar, Saint Aignan, cunhado de
Caulaincourt, o plenipotenciário de Napoleão em Praga, foi escolhido para a missão. Num encontro
entre Nesselrode, Metternich e Aberdeen, foi decidido oferecer à França suas fronteiras “naturais”:
o Reno, os Alpes e os Pirineus; a Holanda seria independente, embora sua fronteira com a França
ficasse sujeita a negociação; a antiga dinastia devia ser restaurada na Espanha. Metternich insistiu
em que as operações militares prosseguissem durante a negociação. Tão completo era o domínio de
Metternich sobre Aberdeen que este defendeu vigorosamente essas condições, com Nesselrode, que
desejava apresentar termos muito mais severos e também junto a Castlereagh.

Mas antes de deixar os acontecimentos seguirem seu curso, Metternich acrescentou um toque final
que bem mostrava sua ânsia de acabar com a guerra. No dia 9 de novembro arranjou um encontro
entre Nesselrode, ele próprio e Saint Aignan, aos quais juntou-se Aberdeen, como que por acaso,
para expor o desejo de paz da Grã- Bretanha e sua disposição de garantir à França aqueles direitos
marítimos “que podia pretender com justiça”. O que quer que significasse esta expressão nebulosa
e a despeito do desmentido de Aberdeen de que representasse uma abdicação de qualquer parte do
Código Marítimo, estava claro que Aberdeen não compreendera o ponto vital: os direitos marítimos
tinham, para a Grã-Bretanha, um valor tanto simbólico quanto substancial. Discutindo-os nesse
contexto, Aberdeen concordava com sua negociabilidade, que os estadistas britânicos
consistentemente negavam. Em seu desejo de ter a glória da pacificação da Europa, Aberdeen
esqueceu-se de que nenhuma potência pode concordar em negociar com o que considera a condição
de sua existência.

Os termos eram mais moderados do que a situação militar permitia, porque Metternich estava,
acima de tudo, interessado em que a França permanecesse ponderável na balança européia.
Ficariam com a França territórios pelos quais gerações de franceses haviam lutado em vão: a
Bélgica e a margem esquerda do Reno. E para reforçar essa generosa oferta, Metternich remeteu
uma carta particular a Caulaincourt no dia 10 de novembro. A França, alertava ele, não devia
perder essa oportunidade de fazer a paz. Novos sucessos aliados levariam a exigências mais
severas, ao passo que vitórias francesas não as podiam reduzir. Se, conforme temia, Napoleão não
cedesse, a consequência seria uma série de agitações sem cabimento e sem limite. O oferecimento
da fronteira do Reno já não era, portanto, um apelo à autolimitação, mas sim uma definição do
poder real de Napoleão, talvez até de seu poderio máximo. Era um apelo a que Napoleão desistisse
dos delírios, não propriamente porque Metternich quisesse salvar Napoleão, mas porque desejava
salvar a Saxônia e a Polônia. Com este fim, Metternich propunha-se descobrir se era possível, para
usar a expressão de Talleyrand, que o Imperador dos Franceses se tornasse o Rei de França.

Mas tais sutilezas não prevaleciam em Fondres, onde nem sequer se percebia que estava por surgir
uma disputa em torno da Polônia. Os despachos de Aberdeen não eram tranquilizadores. O Plano
Pitt visara confinar a França às fronteiras “antigas”, pré-revolucionárias, que excluíam a Bélgica e a
margem esquerda do Reno, mas a nota a Saint Aignan propusera um acordo sobre a base de
“fronteiras naturais”. Nada estipulava uma barreira para a Holanda nos Países Baixos e, sem isto, a
Holanda pouco mais seria do que um apêndice francês. Para felicidade de Aberdeen, o Gabinete
britânico ainda não entendera as implicações totais de sua atitude descuidada com relação aos
direitos marítimos. Mas a falta de entusiasmo de Castlereagh refletiu-se em sua primeira reação aos
relatórios exuberantes de Aberdeen. Em sua cautelosa aprovação das medidas aliadas como fatos
consumados, revelava que a única contingência que a Grã-Bretanha receava ainda mais que a paz
nesses termos era a dissolução da aliança. “Não será novidade para você”, escreveu Castlereagh,
“(...) que esta nação muito provavelmente verá com desfavor qualquer acordo de paz que não
confine a França estritamente a seus antigos limites. Na verdade, a paz com Napoleão em
quaisquer [meu grifo] termos não será nada popular. (. ..) Ainda estamos dispostos a enfrentar, com
nossos aliados, os riscos da paz. (...) Mas estou convencido de que não devemos encorajar os aliados
a concluírem, às pressas, acordos imperfeitos”.

Tampouco tranquilizava Castlereagh o silêncio das propostas de Francforte com respeito a


Antuérpia. “Devo particularmente instar com você para que mantenha sua atenção sobre
Antuérpia”, escreveu ele insistentemente. “A destruição daquele arsenal é essencial à nossa
segurança. Deixá-lo nas mãos da França quase equivale a impor à Grã-Bretanha o fardo de uma
pesada e permanente máquina de guerra. Depois de tudo que fizemos pelo Continente nesta guerra,
eles nos devem, e a si próprios, a extinção dessa perene fonte de perigos para todos nós”. Noutra
missiva Castlereagh avisava que, naquelas circunstâncias, a Grã-Bretanha somente abriria mão de
suas conquistas coloniais para obter melhor fronteira para a Holanda e para a Itália. E sua
inquietação expressava-se, finalmente, num protesto contra o termo “fronteiras naturais”. Não fora
uma pretensão de direito, mas considerações de conveniência, o que havia inspirado a oferta aliada
que, uma vez recusada, não tinha de ser mantida. Castlereagh não deixava lugar à dúvida de que a
Grã-Bretanha teria grande dificuldade em reconciliar-se com uma paz nesses termos, mesmo vinte
anos depois da guerra.

Uma vez mais, no entanto, Napoleão afastou todas as dificuldades. Assim como a aceitação das
bases de Reichenbach teria anulado todos os cálculos de Metternich, também a aceitação das
propostas de Francforte poderiam ter dissolvido a Coalizão. Mas o conquistador ainda não
conseguia crer na determinação de seus inimigos. No dia 23 de novembro recebeu-se uma nota do
Duque de Bassano propondo simplesmente Mannheim como local da conferência e evitando
qualquer menção às condições aliadas, exceto à declaração do desejo britânico de fazer sacrifícios
pela paz geral. A idéia de que a Grã-Bretanha pudesse acabar sua guerra com Napoleão em troca de
concessões sobre direitos marítimos tomou de indignação o Gabinete britânico. Castlereagh enviou
duas notas acerbas a Aberdeen, instruindo-o a protestar por escrito perante os aliados contra esta
interpretação de seus comentários. Antes que Aberdeen pudesse, no entanto, desincumbir-se de sua
missão, Metternich, no dia 25 de novembro, respondera em nome dos aliados que as negociações
não poderiam começar antes que as bases de Francforte fossem aceitas.

Napoleão perdera o momento psicológico. Retardara a aceitação das propostas de Francforte a fim
de ganhar tempo para aumentar seus armamentos. Mas ao colocar a questão no plano de uma
disputa de poder, deu simplesmente aos aliados oportunidade de tomarem plena consciência da
própria força relativa. Enquanto o exército aliado girava para o sul, para um movimento de flanco
através da Suíça, Metternich rascunhou um manifesto ao povo francês, tão conciliatório que, disse
Caulaincourt mais tarde, causou mais danos do que uma batalha perdida. A guerra não era dirigida
contra a França, dizia a proclamação, mas contra o predomínio francês. Por esse motivo, o primeiro
uso que de sua vitória haviam feito os aliados fora oferecer a paz. Mas Napoleão respondera com
nova conscrição. Os aliados desejavam ver a França grande e forte, maior, de fato, do que jamais
fora sob o governo dos reis, mas queriam, também, uma existência pacífica para eles próprios e não
descansariam enquanto não alcançassem um equilíbrio de poder que se dissesse justo. Enquanto
escrevia os manifestos, Metternich tencionava evitar que a guerra se transformasse em cruzada. Se
os desígnios do Czar não podiam ser frustrados pela preservação do contrapeso da França,
Metternich propunha-se a contê-lo comprometendo-o com pronunciamentos moderados.

Se a proclamação, conforme asseverava Metternich, se destinava a aumentar o desejo de paz do


povo francês e, dessa forma, exercer pressão sobre Napoleão mesmo dentro da França, não era lá
muito necessária. Cedendo ao descontentamento popular, Napoleão substituiu o Duque de Bassano,
como Ministro do Exterior, por Caulaincourt, bem conhecido advogado da paz. Mas quando
Caulaincourt aceitou as propostas de Francforte, no dia 2 de dezembro, era tarde demais. Enquanto
os exércitos aliados aprestavam-se para invadir a França, Metternich simplesmente encaminhou a
Londres a nota de Caulaincourt e sugeriu que a Grã-Bretanha designasse um plenipotenciário.

IV

Esta era, então, a situação em dezembro de 1813: haviam-se perdido as esperanças britânicas de
uma aliança geral. Os aliados podiam concordar com a necessidade de derrotar Napoleão, mas,
para surpresa da Grã-Bretanha, tal não implicava em consenso quanto à nova estrutura da Europa.
O perigo do predomínio francês podia ser evidente, mas, surpreendentemente, não produzia o
ímpeto necessário a reorganizar o equilíbrio. No próprio instante em que Caulaincourt aceitou as
bases de Francforte, os esforços em prol de um tratado de aliança haviam chegado a um impasse no
quartel-general aliado, sendo transferidos para Londres. Mas como os embaixadores aliados não
haviam recebido plenos poderes, as negociações, mais uma vez, mostraram-se inconclusivas. Os
contatos com Saint Aignan haviam demonstrado que até mesmo os objetivos do esforço de guerra
imediato eram diversamente entendidos, e que alguns dos aliados temiam a vitória apenas pouco
menos que a derrota. A influência da Grã-Bretanha não fora proporcional aos seus sacrifícios. A
dificuldade de comunicação dava aos despachos de Castlereagh uma defasagem de pelo menos dez
dias em relação aos acontecimentos, enquanto que a autoridade dividida dos representantes
britânicos no Continente lhes tirava a eficiência. O Sinédrio britânico, como Hardenberg chamava o
triunvirato Stewart, Aberdeen e Cathcart, estava dividido pelas rivalidades internas. Aberdeen
escondera de seus colegas as negociações com Saint Aignan, desfeita que por pouco não levou à
renúncia de Stewart. Nenhum dos representantes britânicos estava, na realidade, à altura da tarefa.
Aberdeen, moço demais; Stewart, vaidoso demais; Cathcart, fleumático demais. De qualquer forma,
Stewart e Cathcart eram soldados irritados com o freio, enquanto Aberdeen nunca conseguiu
reprimir de todo uma certa piedade pelo infortúnio de Napoleão. Para conferir autoridade às
opiniões britânicas, para assumir algum controle sobre as negociações que se iam iniciar, o
Gabinete britânico deu, no dia 20 de dezembro, o passo sem precedentes de enviar seu Secretário
do Exterior em missão ao Continente.

As instruções de Castlereagh, em grande parte redigidas por ele mesmo, refletiam a visão britânica
do conflito: a importância da Coalizão como símbolo de oposição à hegemonia continental, da
Holanda como expressão da segurança de uma potência insular, da boa-fé como liame bastante da
ação comum. Muito apropriadamente, começavam por uma referência aos direitos marítimos:
“Tendo anteriormente recebido dos ministros das potências [aliadas] garantias satisfatórias quanto
à questão marítima, S. A. R. [o Príncipe Regente] houve por bem(. . .) determinar que o Secretário
de Estado de Sua Majestade para os Assuntos do Exterior seguisse em viagem para o quartel-
general dos aliados (...)”. Com o mais fundamental interesse britânico assim assegurado,
Castlereagh devia estabelecer um entendimento com os aliados, a fim de que, em negociações com
o inimigo, um interesse comum pudesse ser representado. Como o Gabinete ainda acreditava que a
impossibilidade de se chegar a um acordo devera-se, em grande parte, a uma incompreensão dos
motivos britânicos, Castlereagh devia “evidenciar um desejo de ajustar-se, até onde fosse possível,
aos interesses gerais do Continente; dar aos aliados a mais inequívoca certeza de uma firme
determinação de apoiá-los no estabelecimento de uma paz vantajosa e tudo evitar que pudesse dar
motivo à suspeita de que a Grã-Bretanha tencionava empurrá-los na direção de nossos próprios
desígnios”.

Mas era evidente que os pensamentos do Gabinete concentravam-se primordialmente nos objetivos
britânicos. Deste modo, as instruções valiam tanto pelo que emitiam como pelo que diziam.
Revelavam que a Grã-Bretanha ainda não vencera os hábitos de uma década de isolamento; que
ainda não realizara a transição de uma política insular para uma política européia. Sem dúvida, a
Grã-Bretanha falava de interesses comuns, mas querendo dizer derrota militar da França; advogava
um equilíbrio europeu, mas pensava, na realidade, em Antuérpia. Atenção apenas superficial se
dedicava à organização da Itália e da Alemanha; mas um considerável espaço tratava do
estacionamento de uma grande força aliada na Holanda. O problema da Polônia não era
mencionado; mas um memorando especial sobre a paz marítima enumerava algumas das colônias
que a Grã- Bretanha devolveria, no caso de arranjos satisfatórios nos Países Baixos. A aliança
deveria continuar após a guerra, mas o casus feoderis devia ser um ataque da França a possessões
européias das partes contratantes. Tão absorvida estava a Grã-Bretanha na luta contra Napoleão
que nem considerava a possibilidade de outras ameaças ao equilíbrio.

Quando Castlereagh partiu em sua missão ao Continente, passara o perigo da hegemonia francesa,
mas ainda não se distinguia o delineamento do perigo alternativo. A Coalizão estava formada, mas a
consciência de um perigo comum mal conseguia mantê-la. Com o inimigo reduzido em poder, os
elementos centrífugos da aliança cada vez mais se evidenciavam. Tudo indicava que Napoleão seria
derrotado, mas era incerta a possibilidade de substituir a dominação universal por algo que não
fosse o caos de facções em, luta. A política inglesa ainda se baseava na dupla ilusão de uma Rússia
“satisfeita” e de um equilíbrio europeu sustentado pela boa-fé e pela evidência de sua necessidade.
Ainda não se podia afirmar que a Grã-Bretanha conseguiria vencer sua estreita visão insular, que
seria levada a perceber que a independência da Holanda, e portanto a segurança britânica, não
passava de um aspecto do equilíbrio europeu.

Muita coisa dependia do homem que partia apressado para o quartel-general aliado. Era ele quem
teria de decidir se a segurança estava no isolamento ou no engajamento; se a necessidade de paz
seria um cimento tão bom quanto o temor da França; se a Coalizão poderia definir seus próprios
objetivos após a derrota do inimigo; se chegaria à autolimitação livre de pressões externas. Distante
das querelas paroquiais dos Estados do Continente, podia surgir como o árbitro da Europa.
Competia-lhe transformar o fato da Coalizão em realidade.

* As negociações de Metternich, evidentemente, eram de todo mal compreendidas. Já vimos que a


Grã-Bretanha só devia ser excluída da paz preliminar, que deveria participar da paz geral, e que a
Rússia e a Prússia haviam especificamente reservado esse direito. Webster (vide Bibliografia), neste
ponto, induz a conclusões erradas.
7/ A CRISE DA COALIZÃO

NADA NO PASSADO de Lord Castlereagh indicava que ele, talvez o mais europeu dos estadistas
britânicos, estivesse em vésperas de navegar para o Continente. Até então todas as suas atitudes
haviam sido impostas pelos acontecimentos. A necessidade de uma Coalizão contra Napoleão era
doutrina tão elementar da política britânica que o problema do Secretário do Exterior resumia-se na
tarefa essencialmente técnica de encontrar a melhor maneira de implementá-la. O controle do
estuário do Escalda ou a liberdade das penínsulas do Mediterrâneo representavam axiomas da
estratégia britânica, bem nítidos no Plano Pitt. Mas na época em que Castlereagh se preparava para
a viagem ao Continente a Grã-Bretanha atingira a etapa, talvez mais difícil do que a simples
persistência heróica na adversidade, em que uma nação precisa gerar seus próprios objetivos. O
mundo lá fora já não era tão esmagador que sozinho constituísse todos os desafios; a Grã-Bretanha
teria que modelar uma nova interpretação da realidade. Nada mais natural que a potência insular
começasse essa tarefa por um exame da natureza da segurança, e que Napoleão fosse, ainda uma
vez, o ponto focal.

A potência insular, na periferia dos acontecimentos, sente dificuldade em admitir que as guerras se
possam produzir por causas intrínsecas. Uma vez que seu papel é, em geral, defensivo, destinado a
prevenir a dominação universal, tende a considerar a necessidade de paz legitimação suficiente
para o equilíbrio. Num mundo em que as vantagens da paz são de tal forma evidentes — concepção
de uma potência sem reivindicações insatisfeitas — as guerras só podem ser causadas pela
malevolência de homens perversos. Dada a incompreensão de que o equilíbrio de poder possa ser
inerentemente instável, as guerras tendem para cruzadas com o fim de eliminar a “causa” da
convulsão. Em nenhum outro país, mesmo naqueles que tomara, Napoleão era mais detestado que
na Grã-Bretanha; nenhum país demonstrou mais relutância em celebrar uma paz que lhe
preservasse a dinastia.

Mesmo antes de Castlereagh deixar a Inglaterra, notícias de vitórias, de toda parte, deixavam
antever que o destino de Napoleão poderia depender da vontade dos aliados. Exércitos aliados
haviam invadido a França, pela Suíça; forças britânicas sob o comando de Wellington atravessaram
os Pirineus e foram entusiasticamente recebidas pela população local. Era o momento, opinava
Wellington, para um Príncipe da Casa de Bourbon aparecer na França. Como o navio que devia
levar Castlereagh para o Continente estava detido pela neblina em Harwich, o Gabinete transmitiu-
lhe a carta de Wellington, sem fazer segredo de sua posição favorável. Não parece ter ocorrido a
ninguém que a alternativa a Napoleão poderia ser outra pessoa que não o chefe “legítimo” da casa
de Bourbon, Luís XVIII, irmão do último Rei de França. Pedia-se a Castlereagh, na realidade, que
ajudasse a derrubar o governo com o qual fora mandado a negociar.

Não há a menor dúvida de que o Gabinete expressava os sentimentos do país. Mas Castlereagh não
concordava em ligar a segurança britânica ao destino de um indivíduo. Não havia manifestação
pública na França que pudesse dar lugar, exortava ele, à separação dos britânicos de seus aliados,
os quais considerariam qualquer atitude em favor dos Bourbons um subterfúgio para livrar-se
inclusive das negociações: “É preciso lembrar sempre que somos suspeitos de arrière pensée na
questão da paz, e deveríamos agir com mais cautela. (...) Se Napoleão nos vai conceder nossos
próprios termos, não devemos arriscar ( ... ) a aliança no labirinto da contrarrevolução”. Foi a
primeira enunciação de um princípio cardeal da política de Castlereagh: a unidade da aliança
sobrepunha-se a tudo, com exceção dos mais básicos interesses britânicos; ou, melhor, a Coalizão da
Europa era um interesse britânico básico.

Isto não significava que os interesses puramente britânicos devessem ser desprezados, mas sim que
deviam ser promovidos dentro do quadro da unidade aliada. Chegando ao Continente, Castlereagh
deteve-se em Haia, onde articulou o casamento da Princesa de Gales com o Príncipe Herdeiro de
Orange, e prometeu trabalhar pela incorporação da Bélgica à Holanda. Obteve a cessão do cabo da
Boa Esperança para a Grã-Bretanha, em troca de uma soma em dinheiro, a ser usado na construção
de fortificações na fronteira com a França. Tendo, assim, protegido os interesses britânicos mais
essenciais, Castlereagh partiu para o quartel-general aliado. Foi nessa viagem que disse a seu
acompanhante, o Conde de Ripon, de sua intenção de servir de mediador, de trazer as partes a uma
comunicação irrestrita, de remover irritações e modificar pretensões. Se a guerra fora causada pela
malícia, a boa vontade havia de ser o remédio.

E bem que ia ser necessária. As mensagens de seus embaixadores tornavam cada vez mais claro
que somente a perspectiva da chegada de Castlereagh estava adiando uma explosão no quartel-
general. “Com relação ao inimigo, nossa situação é a melhor possível”, escreveu Aberdeen no dia 6
de janeiro. “Entre nós mesmos dá-se o contrário. Tudo que estava há tanto tempo acertado volta
agora à agitação. Sua presença é absolutamente providencial. Se vem livre de qualquer
parcialidade( ... ) será capaz de realizar tudo; e não há palavras que exprimam o grande serviço que
prestará”.

Castlereagh chegava ao centro de operações no preciso momento cm que a fraqueza progressiva do


inimigo transformara radicalmente as relações entre os aliados. Enquanto o inimigo é mais forte
que qualquer membro isolado de uma Coalizão, a necessidade de união supera todas as
considerações de vantagem individual. Então os numes da paz podem insistir na definição de
objetivos de guerra que, como todos os condicionamentos, representam limitações. Quando, porém,
o inimigo está tão fraco que cada aliado tem força para atingir sozinho seus objetivos, a Coalizão
está à mercê do membro mais decidido. Ante o total colapso de um dos elementos do equilíbrio,
todas as demais potências tendem a proclamar suas reivindicações de maneira a acompanhar a
situação. Bem compreensível, então, que ao avançarem os aliados na França, quase sem oposição,
parecendo a vitória depender apenas de sua vontade, talvez até mesmo da vontade de cada aliado
individualmente — a Grande Coalizão de 1814 fosse abalada por uma disputa entre o Czar e
Metternich.

É que a vitória, por ser completa, revelou que Metternich se enganara na avaliação. Acreditara que
Napoleão só poderia ser submetido por uma combinação de pressões militares e psicológicas; por
uma guerra em nome da paz, e uma paz oferecida sob ameaça de guerra. Por isso, insistira numa
campanha de inverno, com seu impacto militar e psicológico. Quase sozinho, engendrara os
movimentos de flanco pela Suíça, contra a violenta oposição do Czar, que não desejava violar a terra
natal de seu reverenciado mestre, La Harpe, e a despeito das hesitações do Rei da Prússia, que
queria consolidar seus ganhos. Agira assim por acreditar que Napoleão ainda era forte o suficiente
para derrotar cada aliado separadamente, o que permitiria impor limites à campanha por meio da
ameaça de retirada da Áustria.

Limites que Metternich buscara numa dessas soluções delicadamente balanceadas que para o
século XVIII expressavam a certeza de um universo concebido como “grande mecanismo de
relógio”. Combatera a política exterior de Napoleão por seu ataque revolucionário à ordem
internacional. Mas admirava a política interna de Napoleão pela capacidade de controlar uma
década de convulsão social. Tentava, portanto, eliminar Napoleão como ameaça ao equilíbrio
internacional, preservando-o como protetor do equilíbrio social. Mas não há essa política que possa
combinar todas as vantagens. As mesmas qualidades que haviam feito de Napoleão um autocrata
internamente tornavam-no um revolucionário em assuntos externos. A própria intransigência que o
levara a esmagar a oposição doméstica tornou impossível para Napoleão chegar, em tempo, a um
acordo com seus inimigos externos. Ao atravessarem os aliados o planalto de Langres, o caminho de
Paris parecia aberto; a França dava a impressão de não pesar mais na balança; a guerra feita em
nome do equilíbrio perdera sua necessária limitação.

Daí em diante, cada avanço enfraqueceria mais ainda um inimigo já impotente, reforçando, assim, a
posição relativa da Rússia. A Áustria não estaria segura enquanto Napoleão não fosse reduzido a
certos limites; mas a insegurança seria a mesma com a Europa Central submetida à Rússia e com
um governo revolucionário no poder na França. Cada passo à frente aumentava a apreensão de
Metternich de que a Rússia pudesse tornar-se, no dizer de Castlereagh, a proprietária da questão
polonesa após a guerra. Na disputa que começava, todas as vantagens estavam, além do mais, ao
lado do Czar. O grande período de Metternich ocorrera quando a Áustria era o Estado-chave, tanto
militar quanto diplomaticamente. Em junho de 1813 uma vitória aliada decisiva tinha sido
impossível sem a participação da Áustria, única potência também capaz de conduzir a diplomacia,
pois detinha um “princípio legitimante” reconhecido por ambos os lados: o pacto de família, por
Napoleão, e a restauração do equilíbrio, pela Rússia e a Prússia. Porém agora o Czar podia falar em
continuar sozinho e, o que era mais importante, “possuía” — ele, e não Metternich — o “princípio
legitimante” do esforço comum.

Pois a guerra tem sua própria legitimação que é a vitória, e não a paz. Tratar de condições de paz
durante uma guerra total soa quase a blasfêmia, a calculismo mesquinho. Quando a força reina
suprema, quaisquer condições parecem restritivas, uma ameaça ao regozijo da ação comum. O mais
forte instrumento de barganha da Áustria era uma paz em separado; o argumento final do Czar era
a derrota do inimigo. Quando o Czar disse a Cathcart que um acordo de paz seria adiado até a
completa vitória, expressava o que, na mitologia das coalizões, se chama “bom senso”. Quando
Metternich ponderou a favor de outra tentativa de paz com Napoleão, mostrava, nos termos da
mesma mitologia, “timidez”. A moderação numa hora de triunfo só é reconhecida pela posteridade,
raramente pelos contemporâneos, que tendem a julgá-la concessão desnecessária. “O único mal que
permanece”, escreveu Metternich a Hudelist, chefe de sua chancelaria, “é um excesso de
vantagens. Só nos protegemos disso (. . .) pela moderação. (...) É desnecessário dizer-lhe que estou
tão atrapalhado com a plenitude do sucesso quanto estive até aqui com a amplitude do desastre”.

A contenda entre o Czar e Metternich, embora, quanto à forma, voltada habitualmente para
questões periféricas, era portanto, em substância, uma disputa sobre a natureza de um sistema
internacional estável. Alexandre buscava identificar a nova ordem internacional com sua vontade;
criar uma estrutura protegida tão-somente pela pureza de seus preceitos. Metternich buscava um
equilíbrio de forças que não dependesse tanto do autocontrole. O Czar propunha-se santificar o
período de pós-guerra pela transformação da guerra num símbolo moral; Metternich tentava
assegurar a paz obtendo uma definição de objetivos de guerra que expressasse um equilíbrio físico.
Conforme era normal com Alexandre, foi difícil desenredar o rancor pessoal e a razão de Estado, as
pretensões morais e a ambição nacional. Mas como essas motivações, como sempre, tendiam a
reforçar umas às outras, desenredá-las talvez não seja tão importante. O desentendimento começou
em torno da invasão da Suíça, que o Czar ameaçava considerar uma declaração de guerra contra a
Rússia. Metternich, porém, que julgava a comunicação direta com a Itália mais importante que o
desagrado imperial, montou uma de suas intrincadas manobras, pela qual os suíços convidaram as
tropas austríacas a proteger-lhes a neutralidade. Apresentou ao Czar um fato consumado, cedendo-
lhe, como disse a Aberdeen, o princípio da medida depois de haver conseguido a substância. A
despeito de muitos protestos de amizade, a ferida assim aberta não cicatrizou completamente por
vários meses.

Todavia, diferenças mais fundamentais logo apareceram. Metternich tentava evitar que a guerra se
transformasse em cruzada; mas sua posição de barganha enfraquecia-se com a impotência cada vez
mais evidente da França. Tentou, então, substituir a resistência francesa pela hesitação nas
operações militares, e no dia 8 de janeiro ordenou a Schwarzenberg que avançasse, mas
“cautelosamente”, e fizesse “pleno uso do desejo de paz do homem comum francês, evitando atos
belicosos”. Alexandre, por sua vez, desejava manter fluída a situação. Não se cansava de invocar
sua sinceridade, a impossibilidade da paz com Napoleão e a conveniência de evitar-se uma
discussão detalhada de fronteiras de pós-guerra até que a vitória fosse alcançada. Como alternativa
à eliminação física do poder francês, o Czar propunha garantir-se de duas maneiras: através de um
tratado pelo qual os aliados excluiriam Napoleão da solução de qualquer problema externo às
fronteiras da França e mediante o estabelecimento do Príncipe Real da Suécia, Bernadotte, antigo
marechal de Napoleão, no trono da França, em caso de derrubada de Napoleão. O Czar mostrava
assim ser tão matreiro quanto místico. A exclusão da França de toda participação nos assuntos
europeus teria eliminado a França do equilíbrio de poder por meios diplomáticos; ao passo que, na
verdade, a investidura de Bernadotte como Rei de França restabeleceria a aliança franco-russa, com
a Rússia no papel principal.

Metternich, todavia, que em 1813 se arriscara ao desastre para fundamentar a guerra no princípio
da legitimidade dos tronos, não estava disposto a terminá-la com a instalação de um governante que
fosse ele próprio de origem revolucionária. Qualquer alternativa a Napoleão seria fraca; todo
governo fraco tem que tentar tornar-se popular; qualquer governo popular traria de volta os
jacobinos. Se a queda de Napoleão fosse inevitável, Metternich não aceitaria um marechal sem o
carisma de Napoleão, embora apoiado nos elementos do seu poder, mas apenas um governante que
possuísse uma legitimidade independente da vontade popular. Nem mesmo uma regência Habsburg,
na pessoa de Maria Luisa, tentava Metternich, muito bem lembrado do destino de Maria Antonieta.
As únicas alternativas que admitia eram a dinastia existente e a dinastia “legítima”; o homem que
transcendera à revolução social ou a dinastia que somente podia existir em oposição a ela.

E Metternich não tencionava permanecer inativo enquanto o espectro de uma aliança franco-russa
reaparecia como resultado de uma guerra vitoriosa. Voltou mais uma vez à sua idéia favorita de uma
Europa Central forte e procurou afastar a Prússia da Rússia, dispondo-se a anuir à anexação da
Saxônia caso a Prússia se empenhasse contra o Czar na questão polonesa. Tampouco Metternich
permitiria que um comandante-em-chefe austríaco superintendesse a completa destruição do
equilíbrio. No dia 16 de janeiro, Schwarzenberg recebeu ordem de suspender o avanço do exército
aliado até novas instruções. A Áustria, cuja existência dependia de um reconhecimento de limites,
tanto internos quanto externos, e que combatera Napoleão por esse motivo e nenhum outro, não
pretendia inaugurar uma nova era na Europa levando a efeito uma cruzada. “Todas as nossas
obrigações foram cumpridas”, escreveu Metternich a Hudelist, “todos os antigos objetivos da
Coalizão não só foram atingidos como ultrapassados. Temos agora de esclarecer muito bem nossos
propósitos, pois com as alianças acontece, como no caso de todas as confrarias, que, não tendo uma
finalidade estritamente determinada, desintegram-se”.
Quando Castlereagh chegou ao quartel-general aliado, a Coalizão estava em maior perigo de
dissolução por causa da aparente impotência de Napoleão do que estivera antes em virtude do seu
poderio militar. O grau da rivalidade aliada revelava-se no fato de dois alojamentos aguardarem
Castlereagh em Basiléia: um na seção russa, vizinho ao Czar, o outro na ala austríaca das
instalações, junto a Metternich. Felizmente, o desejo do Czar de dar impulso ao avanço sobre Paris,
que lhe parecia inexplicavelmente sustado, foi maior que sua ânsia de conversar o mais cedo
possível com Castlereagh. Dois dias antes da chegada de Castlereagh, Alexandre partiu para o QG
de Schwarzenberg. Era evidente que a atitude de Castlereagh iria decidir o destino da Coalizão e o
resultado da guerra. Se a Grã-Bretanha limitasse seus objetivos à segurança dos estreitos, a Polônia
estava perdida e o predomínio russo substituiria o francês. Se, ao contrário, Castlereagh
compreendesse que a segurança da Grã-Bretanha dependia da estabilidade do Continente, talvez
ainda fosse possível construir uma paz de equilíbrio.

Castlereagh chegou com poucas idéias preconcebidas. Estava decidido a fazer com que a unidade
dos aliados suplantasse todas as considerações de vantagem local, mas ainda não compreendera
que o problema em tela era tão difícil justamente por não ser de natureza local. Desembarcou em
Basiléia no dia 18 de janeiro e encontrou-se logo a braços com a questão que quase dissolveu a
Coalizão: fazer a paz com Napoleão ou prosseguir no avanço sobre Paris. Pois em 9 de janeiro
Caulaincourt apresentara-se pessoalmente aos postos avançados aliados, solicitando salvo-conduto
até o QG a fim de negociar a paz. Mas a ida de um Ministro do Exterior ao quartel-general inimigo,
sem a certeza de ser recebido, foi interpretada simplesmente como um sintoma a mais da
impotência de Napoleão, e exacerbou a vontade do Czar de tocar as tropas para a frente. Por
insistência dele, respondeu-se a Caulaincourt que aguardasse a chegada de Castlereagh e que seria
informado quando os aliados estivessem prontos para negociar. Enquanto os aliados discutiam o
destino de Napoleão, como se dependesse apenas da vontade deles, Caulaincourt aguardava em
Luneville.

Entre 18 e 22 de janeiro Castlereagh e Metternich conferenciaram várias vezes sobre o futuro da


Coalizão. Castlereagh soube, com grande surpresa, dos planos do Czar com respeito a Bernadotte.
Caracteristicamente, sua preocupação maior não foi quanto ao efeito sobre o equilíbrio europeu,
mas sobre o prosseguimento da guerra: “Se não houver outros males no esquema, seu efeito de
paralisação do exército aliado deve ser decisivo. Tenho razões para crer que, até essa intenção ser
desmentida, o exército austríaco não avançará muito.” Eis então a questão do destino de Napoleão
suscitada de novo e por quem não se esperava. Castlereagh resistira ao desejo do Gabinete de
derrubar Napoleão em nome da unidade aliada. Mas agora essa unidade parecia fender-se
justamente naquele ponto, deixando a Grã-Bretanha aparentemente livre para perseguir seus
próprios objetivos.

Castlereagh, entretanto, não decidiu com a visão do ilhéu, mas com o ponto de vista europeu. “Não
há palavras que louvem Castlereagh o quanto ele merece”, relatou Metternich. “Sua atitude é
extraordinária, e seu trabalho, direto e correto. Não consigo encontrar um só ponto de divergência
com ele, e asseguro-lhe que sua disposição é pacífica, pacífica no nosso sentido.” Os dois grandes
estadistas da estabilidade haviam-se encontrado e compreendido um ao outro. “O Ministro austríaco
leva muito mais culpas do que lhe cabem,” escreveu Castlereagh. “Mas tem uma grande capacidade
de empurrar a máquina para a frente.” Castlereagh preferia uma França Bourbon como garantia
contra a sublevação política, mas estava disposto a negociar com Napoleão em benefício da unidade
aliada. Metternich preferia uma França napoleônica para evitar uma revolução social e impedir uma
aliança franco-russa, mas aceitava fazer a paz com os Bourbons em benefício da amizade britânica.
Concordaram em que Napoleão e os Bourbons eram as únicas alternativas e que deviam excluir-se
tanto Bernadotte quanto uma Regência com Maria Luisa. A escolha seria deixada à nação francesa,
mas, ao mesmo tempo, explorada a possibilidade da paz com Napoleão. “Não nos devemos
sobrecarregar de coisa alguma que possa ter a aparência de iniciativa em semelhante questão [a
derrubada de Napoleão],” escreveu Castlereagh a Liverpool. “Não poderemos levar ao extremo
nossas reivindicações se estivermos, ao mesmo tempo, envolvidos numa questão que, por dizer
respeito ao governo existente na França, suplanta todas as condições.” “Paris decidirá com quem
fazer a paz,” informava Metternich. “Será prudente de nossa parte a experiência de decidir com
quem tratar? Estivesse eu sozinho, e pudesse atuar com independência, não o faria. Mas nas atuais
circunstâncias, a necessidade de união pesa mais do que todas as outras considerações.”

Desta forma, com hesitações e desconfianças, iniciou-se uma cooperação que havia de durar até a
morte de Castlereagh. Foi bastante natural que Castlereagh, que via na Coalizão um fim em si
mesmo, surgisse como mediador das divergências, enquanto Metternich, que a entendia como
consequência de um princípio legitimante, atuasse como seu porta-voz. Quando Castlereagh e
Metternich viajaram juntos para Langres, ao encontro do Czar, ambos tinham razão de estar
satisfeitos: Castlereagh porque sabia que a Áustria, embora não saudasse a possibilidade, não se
oporia à derrubada de Napoleão se não houvesse outra maneira de obter a paz e porque Metternich
se mostrara favorável a uma barreira para a Holanda nos Países Baixos; Metternich por sentir-se
tranquilizado com relação a Bernadotte e porque, mesmo que se tornasse impossível salvar
Napoleão de si próprio, a Áustria não ficaria sozinha na Europa.

II

Mas antes que as conferências de Langres começassem, Metternich tentou, ainda uma vez, forçar
uma definição de objetivos de guerra compatíveis com o equilíbrio europeu. A oportunidade lhe veio
num memorando ao Imperador, no qual o comandante-em-chefe, Schwarzenberg, expressava a
inquietação austríaca pelo fato de parecer que a guerra se tinha transformado num esforço total,
tão incompatível com o espírito do Estado austríaco. Na maneira pedantemente “objetiva” que o
medíocre assume para transferir a responsabilidade de sua própria preferência, ele reuniu os
argumentos pró e contra uma campanha prolongada, os quais, mesmo por trás do pretexto de
solicitar ao Imperador uma decisão, não deixavam dúvida quanto a seus receios. Admitiu as
vantagens de continuar com o avanço, mas também destacou os riscos inerentes aos flancos
desprotegidos, à crescente taxa de enfermidade no exército e à dificuldade de suprimentos. No
entanto, a maior preocupação de Schwarzenberg não era a derrota, mas a vitória. As negociações
que se iam iniciar levavam-no a assinalar, assim dizia o memorando, que Langres representava a
última parada antes de Paris, o último ponto de onde a paz com Napoleão ainda era possível. Com a
habilidade, só aprendida pela prática, com que um soldado finge inocência em matérias
profundamente políticas, dizia com ênfase que, daí em diante, a luta tomaria o caráter de uma
guerra civil e que competia ao superior discernimento do Imperador fazer a escolha: “Os passos que
teremos de dar são por demais importantes para que eu não me sinta (...) obrigado a solicitar de
Vossa Majestade ordens inequívocas quanto ao seguinte: Se devo permanecer em minha atual
posição, permitir a minhas tropas um descanso de que muito necessitam, aguardar a chegada dos
suprimentos e dar a meus flancos oportunidade de se cerrarem. Ou se devo descer à planície e
iniciar ali uma campanha de incalculáveis consequências.” Colocando assim a alternativa entre a
estabilidade e o caos militar e político, Schwarzenberg punha à mostra o dilema austríaco: para
além de Langres estava a vitória, mas a vitória resultaria inútil. Pois implicaria um choque tão
violento para o equilíbrio que ameaçaria o Estado cuja existência dependia do repúdio a
transformações totais.

Os pontos de vista de Schwarzenberg contavam com apoio. O Rei da Prússia e seu círculo imediato,
embora não seus generais, Blücher e Gneisenau, estava substancialmente de acordo. O próprio
Stewart enviou a Castlereagh um memorando baseado em argumentos essencialmente similares.
Metternich, então, aproveitou a oportunidade para solicitar a seu monarca orientação e a seus
aliados uma definição de objetivos de guerra e para repisar a concepção austríaca de segurança
como equilíbrio e de paz como proporção. Iniciou seu memorando relembrando os dias que
precederam a entrada da Áustria na guerra. O grande feito aliado, dizia, fora de natureza
psicológica: ter impedido Napoleão de fingir moderação. Deveriam, agora, os aliados tomar a linha
inversa e engajar-se numa guerra de conquista? Havia qualquer outra finalidade para aquela
guerra, além de confinar a França em limites compatíveis com o equilíbrio europeu e restituir a
Áustria e a Prússia à escala de 1805? Metternich silenciava significativamente sobre os ganhos
russos. O equilíbrio, evidentemente, só podia ser rompido por eles. Quanto à dúvida em negociar
com Napoleão, umas poucas conferências com Caulaincourt revelariam o grau de sinceridade de
Napoleão, e, em qualquer caso, o destino final de Napoleão somente podia ser decidido pela nação
francesa, não pelos aliados. Mas e se Napoleão rejeitasse os termos aliados? Nesse caso, replicava
Metternich, não restaria escolha além de prosseguir no avanço e apelar à nação francesa por meio
da publicação das condições aliadas.

Assim, a cada hipótese que considerava, Metternich decidia-se por um pedido em prol da definição
de limites, sendo óbvio que desejava uma proclamação aliada tanto como meio de comprometer o
Czar como em razão de seu impacto sobre o povo francês. E concluía sumariando as questões numa
lista de perguntas, que constituíam novo esforço para induzir o Czar a declarar seus objetivos
enquanto ainda estava em campo um exército francês. Perguntava se os aliados ainda estavam
dispostos a concluir a paz com a França; se iriam impor um governante à França ou deixar a
questão dinástica à nação francesa; se, finalmente, e esta era a questão crucial, os aliados estavam
na disposição de informar, cada um aos demais, sobre suas reivindicações que fossem além do
restabelecimento das condições de 1805.

Mas na fase de predomínio de coalizões é difícil forçar a mão de uma potência aquisitiva, porque,
não havendo acordo, cada dia melhora sua posição relativa. A manhosa resposta de Alexandre
evitava qualquer discussão de objetivos de guerra, explicando que esse assunto iria apenas
perturbar a harmonia existente, tanto mais que as condições de paz dependiam da situação militar.
Eles haviam sido definidos em Basiléia de maneira diferente da de Francforte, em Langres de modo
diverso do de Basiléia, e teriam de ser redefinidos com a mudança das circunstâncias. Contanto que
o avanço prosseguisse, ele estava disposto a negociar com Napoleão. O Czar, dessa forma, colocava
um dilema que só se podia resolver com o colapso de Napoleão. Concordava em discutir o equilíbrio
europeu, mas só depois do acordo com a França. Estava pronto a negociar com Napoleão, mas faria
com que os termos dependessem do progresso das operações militares. Uma vez que estas
mudavam diariamente em favor dos aliados, o Czar reservava-se o direito de aumentar
constantemente suas condições. Em suma, a Áustria somente podia conhecer as condições de paz
de Alexandre ajudando na eliminação do poderio francês. Se Napoleão sonhara vencer a Inglaterra
em Moscou, não era de todo absurdo para Alexandre querer ganhar Varsóvia em Paris.

Castlereagh, mal informado sobre os planos poloneses do Czar * e, de qualquer maneira, não tendo
chegado ainda ao ponto de admitir a existência de outra ameaça à paz que não fosse Napoleão,
também pressionava pela continuação das operações militares. O resultado foi um desses
compromissos capciosos pelos quais as coalizões mantêm a aparência de unidade e ocultam o fato
de haver ocorrido na aliança, internamente, um deslocamento do equilíbrio. Decidiu-se negociar
com Napoleão, mas também continuar o avanço. Castlereagh rejeitou a proposta do Czar de que a
França fosse excluída até mesmo do exame das condições do ajuste europeu, mas apresentou uma
fórmula substituta que era apenas pouco melhor: as condições do acordo seriam submetidas à
França, mas exclusivamente para sua concordância, não para negociação. A França estava
temporariamente eliminada como peso na balança. Enquanto os ministros aliados preparavam-se
para discutir as condições a submeter a Napoleão, cada vez mais claro ficava que a guerra só
acabaria em Paris; que a guerra pelo equilíbrio estava criando um vácuo; que a Europa teria de
salvar seu problemático senso de proporção da ameaça de caos.

Mas as conferências em Langres revelaram também que, como quer que se chegasse ao novo
acordo, a Grã-Bretanha representaria um papel essencial, porquanto Langres marcou um passo
importante na transformação de Castlereagh em estadista europeu. Ele emergiu como o mediador
da Coalizão, e este fato permitiu-lhe obter anuência aliada para mais um passo no sentido de criar
uma “barreira” nos Países Baixos, colocando a Bélgica sob administração temporária da Holanda.
No dia l.° de fevereiro informou a Clancarty, seu embaixador na corte holandesa, que o Príncipe de
Orange podia, com segurança, inflamar os sentimentos em prol de anexações nos Países Baixos até
o Mosa. Finalmente, os aliados, abandonando as bases de Francforte, concordavam em restringir a
França a seus limites antigos. Castlereagh obtivera essas concessões da Áustria por estar cada vez
mais evidente que ele pretendia buscar a segurança britânica na estabilidade continental, ainda que
sua tendência continuasse a ser a identificação dessa estabilidade com a sujeição da França.
Sintomática, a maneira como tratou a questão colonial. Ao especificar as condições que induziriam
a Grã-Bretanha a devolver parte de suas conquistas, acrescentou às anteriores exigências de velhos
limites e de uma barreira para a Holanda nos Países Baixos a reivindicação de um acordo amistoso
entre as potências continentais “de forma que (...) havendo submetido a França graças à Coalizão,
não terminassem por lhe restabelecer a autoridade graças às divergências entre si”. Para
Metternich nenhum ajuste que deixasse o Czar de posse da Polônia seria amigável.

Embora não lhe tenha sido possível em Langres compelir o Czar a confessar as próprias ambições,
Metternich conseguiu algo talvez mais importante. Ao aprestarem-se os exércitos aliados, na
expressão simbólica de Schwarzenberg, para descer à planície, Metternich sabia que, na travessia,
ao que tudo indicava, teria Castlereagh a seu lado.

III

O Congresso de Chatillon, aberto em 3 de fevereiro, representou o último esforço para determinar


se Napoleão podia ser levado a aceitar uma paz de equilíbrio. Mas só serviu para evidenciar a
dificuldade de transpor o abismo entre sistemas opostos de legitimidade. Os negociadores não
puderam sequer aproximar-se de um acordo, por serem incompatíveis o conceito de segurança dos
aliados e o conceito napoleônico dos requisitos de sua dinastia. Napoleão considerava impossível
fazer a paz às expensas de qualquer de suas conquistas, enquanto os aliados não estavam dispostos
à paz a não ser com Napoleão reduzido aos próprios limites que cm sua opinião lhe custariam o
trono. Assim, a questão passou a simples problema de poder, e o Congresso de Chatillon a mera
ilustração da dificuldade de conseguir-se autolimitação em tais circunstâncias. Durante o
Congresso, Napoleão só mostrou desejo de fazer a paz no início, e bem no fim, quando parecia
decisivamente derrotado, com seu destino sujeito inteiramente à vontade dos aliados. Recusou-se a
considerar a paz quando algumas vitórias haviam restaurado pequena porção do equilíbrio e a paz
dependia em parte de sua vontade. O fato de confrontar-se, na pessoa do Czar, com outro
temperamento caprichoso, só fez complicar os problemas.

Aconteceu, então, que o ato final apresentou um exército hesitante a marchar sobre Paris,
enquanto, o tempo todo, um inconcludente congresso de paz debatia condições nunca aceitáveis
para o partido que parecia ter ascendência no momento. A guerra tornava-se total porque os dois
lados não chegavam a um acordo quanto à precisa relação de poder e, sobretudo, porque Napoleão
não conseguia aceitar a legitimidade de uma Europa independente de sua vontade. O período do
Congresso de Chatillon é, então, mais importante para as relações entre os aliados que no tocante a
suas negociações com Napoleão.

Quando se reuniram os negociadores em Chatillon, no dia 3 de fevereiro, Napoleão acabava de ser


derrotado em La Rothière, e transparecia a certeza de que os aliados chegariam a Paris em duas
semanas. Cada aliado se fez representar em Chatillon, embora todos houvessem concordado em
atuar como um só corpo e deixar o plenipotenciário austríaco, Stadion, servir de porta-voz. O grupo
britânico inteiro, Cathcart, Stewart e Aberdeen, se reunira sob a supervisão de Castlereagh, ele
próprio, no entanto, não credenciado como plenipotenciário. Mas os requisitos de unanimidade
condenaram o Congresso à frustração, deixando-o à mercê da potência que mais tinha a ganhar
com o retardamento. Durante a primeira fase de Chatillon, esta era a Rússia, cujo plenipotenciário
recebera ordem de nada assinar sem aprovação de Alexandre.

Isso levou a uma estranha série de sessões. Os aliados relutavam em fazer uma paz que pudesse
representar para Napoleão a única esperança de reter o poder, mesmo em termos que superavam
os mais arrebatados sonhos de qualquer um seis meses antes; enquanto Caulaincourt não ousava
aceitar os “antigos limites” sem aprovação expressa de Napoleão. Entrementes, Castlereagh
declarara a devolução das colônias dependente do acordo geral europeu, que, por sua vez, o Czar
recusava discutir até que a paz com a França fosse concluída. Isto deflagrou outra disputa circular:
a aceitação francesa dos “antigos limites” era impossível sem a devolução de suas colônias, mas o
retorno das colônias pressupunha a paz com a França, o que induziria o Czar a discutir o acordo
europeu. “Estamos representando uma comédia”, escreveu Stadion a Metternich, “interessante
apenas pela trivialidade. (...) É indecoroso jogar uma partida destas com praxes diplomáticas.”
Pouca dúvida ainda havia de que a chave da paz se encontrava, não em Chatillon, mas no quartel-
general aliado, em Troyes, e que tudo agora dependia de Alexandre tanto quanto de Napoleão.
Muito ilustrativo foi o fato de no próprio dia 9 de fevereiro, em que Caulaincourt aceitou os “antigos
limites” numa carta a Metternich, o plenipotenciário russo viajar de Chatillon para o quartel-general
“a fim de receber instruções”. Findava a primeira etapa do Congresso de Chatillon.

Alexandre já não fazia mais segredo de sua determinação de avançar até Paris, destronar Napoleão
e convocar uma Assembléia de Notáveis que escolhesse novo governante. E sua insistência na
vitória total fez com que Metternich forçasse um ato de cartas-na-mesa que por pouco não acabou
com a aliança. Uma coisa era avançar sobre Paris enquanto se demonstrava a cada passo a
impossibilidade de paz, pois a própria continuação das negociações simbolizava uma procura de
proporção e de um mundo de objetivos definidos. Mas uma corrida às cegas na direção de Paris era
a marcha para o infinito. O Império Central só podia fazer guerras de acordo com “regras” que
permitissem a expressão da vitória em termos políticos específicos. Estado situado em meio a
potências conflitantes, não podia permitir nem o vácuo nem cismas intransponíveis; tampouco podia
uma potência tão sensível a transformações internas em outros países concluir a guerra com uma
revolução. A Áustria estava mais temerosa da estrada aberta para Paris que do exército de
Napoleão.

No quartel-general de Troyes, Metternich, portanto, preparou, mais uma vez, um questionário para
forçar uma declaração de objetivos e, desse modo, agrupar os pontos de vista conflitantes. E assim
como a aliança contra Napoleão fora preparada sob o manto da mediação, também o isolamento da
Rússia — único meio que restava para determinar até onde o Czar estava disposto a ir — teve o
pretexto da definição dos objetivos da aliança. Os quesitos de Metternich abordavam estes
problemas: que responder à oferta de Caulaincourt; como determinar a vontade da nação francesa;
como tratar com os Bourbons; como governar Paris, se esta caísse. Estas questões não podiam,
como ocorrera em Langres, ser evitadas alegando-se pressão de operações militares, pois
simulavam concordar com o desejo do Czar de avançar até Paris, a fim de forçá-lo a uma definição
de seus desígnios.

A resposta de Castlereagh mostrou até onde ele chegara desde o tempo em que se opunha à
derrubada de Napoleão apenas para manter a unidade da aliança. Não mais a unidade aliada, mas
as exigências do equilíbrio constituíam agora sua preocupação maior. Definiu o problema como a
escolha entre “aceitar a paz em nossos termos ou torná-la mais segura pelo destronamento [de
Napoleão]”, e portanto deixava pouca dúvida de que, em sua opinião, o objetivo da guerra fora
alcançado. Tentar derrubar Napoleão, argumentava, seria imprudente, além de violar os
compromissos em vigor; jamais fora objetivo da invasão transformar o governo francês, mas sim
“alcançar uma paz que não se conseguiria no Reno”. Os aliados não eram competentes para
levantar a questão dos Bourbons agora que os objetos legítimos [grifo meu] de sua guerra estavam
ao alcance da mão. Quase imperceptivelmente Castlereagh terminara por aceitar a interpretação
austríaca do objetivo da guerra. Em breve saberia quanto ela diferia da do povo britânico.

Uma conferência dos ministros, no dia 12 de fevereiro, tornou explícito o cisma na aliança. Depois
que Hardenberg respondeu às perguntas de Metternich no mesmo sentido de Castlereagh,
Nesselrode transmitiu a resposta de Alexandre, que era terminante. O objetivo da campanha era
Paris, insistia o Czar, onde uma Assembléia de Notáveis decidiria sobre o futuro governante. Os
Bourbons não deviam ser nem apoiados nem abandonados. Um governador militar russo devia
administrar Paris e supervisar as eleições, como tributo à potência que havia mais tempo lutava
contra Napoleão. O Czar propunha nada menos que ser nomeado árbitro do destino da Europa.

Mas Metternich não havia cuidado da Áustria tão obstinadamente, e até aquele ponto, para
estabelecer uma ordem internacional baseada na vontade de um só homem. Apresentou um
memorando com respostas a suas próprias perguntas, rejeitando o argumento do Czar de que a
justificação moral da aliança devia ser buscada na queda de Napoleão. Ao contrário, fizera-se a
guerra visando à restauração do equilíbrio, não à transformação interna da França, e as condições
aceitas por Caulaincourt em Chatillon representavam o máximo enfraquecimento da França
compatível com o equilíbrio de poder. Exigir mais seria subverter o princípio moral da aliança. Mas
se Napoleão fosse obrigado a abdicar, continuava Metternich, então Luís XVIII, chefe legítimo da
Casa de Bourbon, era a única alternativa, porque potências estrangeiras não podiam apelar para o
povo numa questão dinástica sem solapar a existência de todos os tronos. Na verdade, o que
Metternich estava dizendo era que a Casa de Habsburgo, cuja sobrevivência dependia não de sua
aceitação mas de sua inviolabilidade, e portanto da inviolabilidade de todo governo legítimo, não
entraria numa batalha para dar à vontade popular oportunidade de ser consultada.

Tudo dependia, agora, da determinação do Czar e de sua força. Se o Czar fosse suficientemente
forte para avançar sozinho, conforme ameaçava, Metternich só poderia atingir sua meta trocando
de lado, atitude com que Castlereagh jamais concordaria e que era contrária a todos os princípios
da judiciosa política austríaca. Mas se restava ainda a Napoleão alguma força, seu peso fortaleceria
de fato a posição austríaca, e a exigência de unidade poderia impor-se a Alexandre. Assim, quando
no dia 12 de fevereiro Napoleão derrotou Blücher, tornou Metternich senhor da situação. Pois o
fracasso do exército prussiano, que avançara precisamente para provar a dispensabilidade da
Áustria, demonstrou, ao contrário, que Napoleão, embora enfraquecido, não havia de ser vencido
em combate isolado. A Áustria era outra vez necessária, e Metternich ali estava para explorar ao
máximo sua posição axial. Insistir numa definição de objetivos de guerra frente ao inimigo pode não
ser heróico e nunca é popular. Mas criar um vácuo sem necessidade pode levar à revolução
permanente.

No encontro seguinte dos ministros, em 13 de fevereiro, Metternich forçou o tema ao declarar que a
Áustria não estava em luta para restabelecer uma tirania e que buscaria uma paz em separado.
Colocado frente à desintegração de sua tão desejada Coalizão, quando o sucesso parecia tão
próximo, Castlereagh desistiu de seu papel de mediador. Propôs que se retomassem as negociações
de Chatillon, que Metternich escrevesse a Caulaincourt expressando a disposição dos aliados de
concluir um armistício se a França aceitasse os “antigos limites”, e encarregou-se de obter a
aquiescência do Czar para este programa. Seis semanas depois de partir para o Continente com a
visão de uma Europa unida pela evidente ameaça de uma supremacia francesa e estabilizada pela
cooperação anglo-russa, Castlereagh surgia como disputante, em favor do equilíbrio, contra o Czar.

Seguiu-se a primeira das muitas entrevistas tempestuosas que Castlereagh iria ter com Alexandre.
Alexandre reiterou sua determinação de chegar a Paris e lá convocar uma Assembléia de Notáveis,
sua desconfiança dos Bourbons, seu descontentamento com a timidez austríaca. Castlereagh alegou
a inconveniência de intrometer-se numa guerra civil na França, a dificuldade de captar o
pensamento da nação, os perigos de uma contenda sem objetivo. Mas o Czar mostrou-se inflexível.
Soubera que a opinião pública britânica se opunha violentamente à paz com Napoleão e mostrou
uma carta de seu embaixador em Londres dizendo que Lord Liverpool participava dessa opinião.
Castlereagh permaneceu firme, entretanto. Disse ao Czar que “atuando no cumprimento de uma
obrigação, devo guiar-me pelos ditames de meu próprio julgamento, e não me deixar influenciar por
quaisquer supostos desejos que se formem na Inglaterra na ignorância das circunstâncias reais
acerca das quais somos agora chamados a decidir”. A força e a falha de Castlereagh estão contidas
nesta sentença: a altiva afirmação de responsabilidade, não pela execução mecânica da vontade
popular, mas pela avaliação de interesses não visíveis para a multidão; e a recusa, ou incapacidade,
de influir na opinião pública. Na condução dos negócios do Estado, Castlereagh caracterizava-se
pela coragem de recusar a solução fácil e pelo isolamento trágico do herói que, não podendo
comunicar-se, deve caminhar na solidão.
A missão de Castlereagh junto ao Czar fracassou em seu objetivo imediato, mas completou o
isolamento da Rússia. As respostas ao questionário de Metternich haviam resultado no que era
praticamente uma Coalizão contra a Rússia dentro da Grande Aliança. Metternich não hesitou em
explorar sua vantagem. Quando ameaçou mais uma vez retirar as tropas austríacas, a Prússia,
temerosa de ficar à mercê de seus dois volúveis vizinhos, concordou em garantir os objetivos da
Áustria, na forma de uma convenção que Castlereagh aprovou, embora, por motivos de política
interna, não aderisse formalmente. A Convenção de 14 de fevereiro representou outra concessão,
mas esta demonstrativa da posição-chave da Áustria: estipulava que não se imporia condição
nenhuma que excedesse às bases de Chatillon, por mais esmagadora que fosse a derrota de
Napoleão; que a paz seria concluída com Napoleão, a menos que este fosse derrubado por um
movimento popular espontâneo, que, neste caso, os aliados somente tratariam com os Bourbons e
com Luís XVIII, a não ser que este se afastasse voluntariamente; que Paris, se ocupada, receberia
um governador militar russo, mas a administração real ficaria a cargo de um conselho
representativo de cada uma das potências aliadas. Se o Czar concordasse, o avanço poderia
continuar; caso contrário, a Áustria deixaria a Coalizão.

Em sua busca de vitória total, o Czar tentara explorar o desejo austríaco de estabilidade, recusando-
se a declarar seus termos até que Paris houvesse caído. Metternich fez então o feitiço virar contra o
feiticeiro e usou o desejo do Czar de tomar Paris para comprometê-lo com a extensão territorial e a
estrutura interna da França. E como a obsessão de Alexandre por Paris superava qualquer outra
consideração, ele concordou, em 15 de fevereiro, com o projeto de tratado de Metternich.
Acontecesse o que acontecesse daí em diante, a França continuaria a pesar na balança, e quem
quer que a governasse, Napoleão ou os Bourbons, não havia de ser muito amistoso para com o Czar.
A campanha podia ser retomada.

Mas é uma característica da política que se baseia em considerações puramente militares ser
imoderada no triunfo e sujeita a pânico na adversidade. Quando, em 14 de fevereiro, Blücher foi
novamente derrotado, o Czar foi dos primeiros a pressionar por um armistício, que Schwarzenberg
ofereceu ao comandante francês no dia 17 de fevereiro, a pretexto de que uma paz preliminar devia
ser assinada em Chatillon a qualquer momento. Castlereagh ficou furioso. Empenhara sua forte
posição de negociação para obter um acordo aliado quanto ao princípio de usar-se a Bélgica para
aumentar a Holanda, contanto que não fossem entregues navios à França como resultado da paz, e
que os direitos marítimos não fossem sequer discutidos numa conferência. Agora, a Coalizão, tão
longamente esperada e tão laboriosamente criada, parecia desintegrar-se no momento mesmo em
que Napoleão, finalmente, se mostrava disposto a concordar e todos os objetivos “britânicos”
haviam sido atingidos. Não admira que Castlereagh escrevesse uma carta indignada a Metternich, a
qual provou que pelo menos ele não perdera seu senso de proporção: “V. fará (...) um sacrifício fatal,
de natureza moral e política, se sob a pressão desses ligeiros contratempos, que são peculiares à
guerra, e de alguns problemas em seu Conselho, que espero estejam por findar, o grande edifício da
paz for submetido a uma desfiguração em suas proporções. (...) Se agirmos com prudência militar e
política, como poderá a França resistir a uma paz justa exigida por seiscentos mil guerreiros? Deixe-
a fazê-lo se ela assim quiser, e no dia em que expusermos os fatos ao povo francês pode ter certeza
de que Napoleão estará realmente subjugado.”

Bravas palavras que não conseguiam esconder o fato de Castlereagh estar profundamente
desencorajado. Ele foi amargo com os aliados: “Num momento, demasiado orgulhosos para escutar
o que quer que seja; noutro, tão impacientes por se verem livres da presença de nosso inimigo que o
prolongamento de Chatillon parece quase cômico.” E mandou a Liverpool uma carta exasperada que
dois meses antes teria sido uma heresia para ele. “As incriminações e recriminações entre
austríacos e russos estão no auge, e minha paciência a ponto de estourar, debatendo com ambos.
(...) Com o barco que temos não é possível fazermo-nos ao mar em busca de aventuras.” A Coalizão
devia, sem dúvida, ter perdido o brilho, quando até Castlereagh chegava a ameaçar com a
continuação da guerra sozinho: “Só o que mantém qualquer das potências firme é a consciência de
que sem a Grã-Bretanha não se pode fazer a paz. (...) Já lhes disse explicitamente que se não
querem, ou não podem, concluir uma paz baseada num princípio de poder, temos nós que ficar, para
o bem deles e nosso, em posição contra a França.”

Mas a crise em Troyes servira a uma finalidade útil. Pertenciam ao passado os dias serenos de
esperança, quando protestos de amizade eterna eram tomados como garantia de estabilidade
permanente. Foram substituídos por um reconhecimento de que os problemas da paz, embora
menos emocionantes que os da guerra, têm sua própria lógica, e só eles justificam o sofrimento das
nações. O Czar começou a aprender que podia conquistar territórios, mas não o direito sobre eles,
que sua palavra era uma garantia menos idônea que a localização de suas fronteiras. O Czar
esbarrou com uma frente unida das outras potências e, ao contrário de Napoleão, aceitou-a.
Malgrado suas vastas pretensões, havia uma perspectiva de que ele viesse a colocar a legitimidade
acima da conquista. Retornando os negociadores aliados mais uma vez a Chatillon, o esboço
começou finalmente a aparecer, não da substância, mas da forma de um acordo europeu. A Coalizão
estabelecera a natureza de suas relações internas; e embora muitas crises ainda a aguardassem, os
aliados haviam perdido as ilusões, a mais dolorosa crise na vida dos homens e das nações, e
sobrevivido. Com a consciência mais aguçada pela recém-encontrada maturidade, podiam enfrentar
agora o problema restante: a possibilidade de Napoleão aceitar uma Europa cuja estrutura era
independente da vontade dele.

* Cathcart relatara erroneamente, em 16 de janeiro, que o Czar restringia suas exigências à


fronteira no Vístula. Castlereagh parece ter acreditado nisso, pois mostrou o relatório ao Czar em
Viena, como testemunho de seu entendimento do problema.
8/ O TRATADO DE CHAUMONT E A
NATUREZA DA PAZ

AGORA ERA O MOMENTO de Napoleão fazer a paz. Em Langres, Metternich havia extorquido de
aliados relutantes o acordo em negociar com um inimigo aparentemente impotente. Mas como a paz
parecera, então, um ato de benevolência, não pôde ser concluída. Nesse meio tempo, no entanto,
Napoleão dera uma demonstração de força, e na crise de Troyes os aliados haviam chegado à
conclusão de que uma França bonapartista, desde que contida nos “antigos limites”, seria
compatível com o equilíbrio da Europa. Com a finalidade de apressar a paz, Castlereagh havia
enumerado as conquistas coloniais que a Grã-Bretanha propunha devolver à França. Quando
Metternich finalmente respondeu à carta de 9 de fevereiro de Caulaincourt com a exasperada
solicitação de um acordo mais rápido e o comentário sobre a dificuldade de agir como ministro de
uma Coalizão que incluía 50 mil cossacos, ficou claro que tudo dependia de Napoleão.

Porém Napoleão mais uma vez não compreendeu a situação. Se persistia alguma dúvida quanto à
impossibilidade de coexistência pacífica entre um sistema revolucionário e um equilíbrio “legítimo”,
a segunda etapa do Congresso de Chatillon a dissipou. O indivíduo que se legitimou pelo carisma ou
pela força tenderá a atribuir o fracasso aos maus fados, pois não poderia sobreviver à admissão de
incapacidade pessoal. E confundirá cada sucesso com o triunfo total, pois uma vitória limitada será
tão inconveniente quanto uma derrota; representaria a confissão de um poder finito. Quando
Napoleão falava em jogar os aliados para o outro lado do Reno, não estava sendo irracional; apenas
obedecia à lógica do regime carismático, que tem as suas leis, como todas as atividades humanas.
Aconteceu, assim, que a longa retirada do Elba para junto de Paris nada ensinara a Napoleão. Nos
próprios portões de sua capital ele ainda não podia aceitar o fato de seus recursos serem limitados,
de que mesmo uma sucessão de vitórias nada significaria para ele, de que a oferta aliada refletia a
realidade das relações do poder. Reforçavam-no em sua obstinação duas crenças contraditórias: de
um lado, imaginava que, por mais severamente que fosse derrotado, sempre seria capaz de fazer a
paz na base dos “antigos limites”, como se transformações internas na França fossem impossíveis.
Por outro lado, não acreditava que seu regime pudesse sobreviver à perda de todas as suas
conquistas. A exclusiva realidade do poder e a ilusão de sua legitimidade são os fatos que definem o
abismo entre a Europa e Napoleão.

Seguiu-se, em Chatillon, o segundo ato da “comédia” como a chamava Stadion, mas, como que para
mostrar a contingência de todos os planos humanos, os deuses haviam invertido os papéis. Agora,
os aliados pressionavam pela paz, e Caulaincourt, que recebera ordens de ater-se às “fronteiras
naturais”, procrastinava. Os aliados apresentaram uma minuta de tratado para uma paz preliminar,
porém Caulaincourt replicou com um exame abstrato da natureza do equilíbrio e da incoerência de
restringir a França às suas fronteiras pré-revolucionárias quando todas as demais potências
cresciam em poderio. Os aliados propuseram cancelar da minuta do tratado certas cláusulas
militares referentes à rendição de fortificações francesas, mas Caulaincourt só pedia tempo. Nesse
ínterim, no dia 21 de fevereiro, Napoleão escreveu uma carta peremptória ao Imperador da Áustria
atacando o caráter vingativo do Czar e exigindo a paz com bases nas “fronteiras naturais”.

Mas com o passar dos dias os aliados voltaram a dar-se conta da própria força. Uma vitória militar
tem sempre duas componentes, sua realidade física e seu impacto psicológico, constituindo tarefa
da diplomacia traduzir este último em termos políticos. Os aliados, assim como Napoleão,
recordando Austerlitz e Iena, haviam confundido reveses táticos com um impasse estratégico. Mas
enquanto os aliados podiam permitir-se esse erro, para Napoleão ele era catastrófico. Suas vitórias
haviam decorrido da habilidade de suas manobras, mas não alteravam a situação básica, porque
numa guerra de atrito mesmo as vitórias prejudicam a posição relativa da potência mais fraca. Logo
se viu que Napoleão não era mais o vitorioso de 1805 e 1809, não porque houvesse perdido a
técnica mas porque havia perdido o poder de torná-la efetiva. A vitória real de Napoleão fora
psicológica: ter incutido num inimigo superior o desejo de fazer a paz. Agora destruía-se a si próprio
porque era incapaz de aceitar qualquer paz não ditada por ele mesmo. Quando em 25 de fevereiro
os aliados insistiram numa resposta definitiva em data certa, Caulaincourt devia saber que a
resposta prometida para 10 de março não viria.
No intervalo ocorreu um conflito entre Napoleão e Metternich, similar aos muitos já havidos, e mais
do que nunca o objeto era a alma de Napoleão. Todos os encontros entre Napoleão e Metternich
tiveram esta qualidade faustiana. Foi através da exploração do orgulho de Napoleão — a atitude do
homem que define a si próprio pelo que parece, não pelo que é — que Metternich o atraíra, passo a
passo, para o abismo que acabou em Praga. Este mesmo orgulho agora frustrava os esforços de
Metternich para salvar Napoleão. O fim da guerra dava assim uma dupla lição: enquanto Napoleão
experimentava as fronteiras do poder, Metternich aprendia os limites da manipulação, que os
espíritos, depois de invocados, não podem ser exorcizados por um ato de vontade. Metternich nunca
pretendera mais que a limitação do poder de Napoleão, quando mais não fosse porque a derrubada
de qualquer dinastia era um sinal perigoso para a Áustria. Por necessitar agora de uma França
forte, Metternich tentava inverter o destino de que ele próprio fora agente, e exigir de Napoleão
aquilo que devia saber impossível, o reconhecimento de limites. E assim como na tragédia grega o
aviso do oráculo não basta para impedir a desgraça, porque a salvação não está no conhecimento, e
sim na aceitação, agora Napoleão não fazia caso dos rogos de Metternich, não porque deixasse de
entender seus argumentos, mas porque os desdenhava.

Em vão o Imperador rejeitou a denúncia de Napoleão da vingança russa e reiterou a disposição dos
aliados para uma paz imediata sobre a base dos “antigos limites”. Em vão Caulaincourt e
Metternich somavam argumentos de paz. “Não haverá meio de iluminar [Napoleão] sobre sua
situação?” Metternich escreveu a Caulaincourt, exasperado. “Terá ele colocado irrevogavelmente
seu destino e o de seu filho na carreta do seu último canhão? Pensará que sua ousadia e sua
coragem o protegerão do esmagamento por uma força superior? (...) Se o Imperador da Áustria
pôde ceder o Tirol em 1809, porque não pode Napoleão ceder a Bélgica em 1814?” Mas mesmo este
apelo, tão sutilmente ajustado à permanente pretensão de Napoleão à “legitimidade”, resultou
inútil. Metternich podia declarar que a Casa de Habsburgo e a Casa de Bonaparte eram
equivalentes, mas a chave da situação estava em Napoleão sentir-se oprimido pela disparidade.
Napoleão jamais deixou de afirmar que os governantes legítimos podem voltar às suas capitais, não
importa quantas batalhas hajam perdido, mas ele, o filho da Revolução, não se podia dar a esse
luxo. Porque fora incapaz — ou julgara ter sido incapaz — de transformar força em obrigação,
Napoleão tinha que jogar tudo na exibição do seu poder. Como o poder é a expressão de uma ordem
mundial arbitrária, e portanto insegura, apenas conseguiu unir a Europa numa guerra pela sua
destruição.

A intransigência de Napoleão à beira do desastre completou a demonstração que nem mesmo seu
triunfo conseguira realizar: a de que a continuação de seu governo era incompatível com a paz da
Europa, que qualquer acordo com ele não significava mais que um armistício. Quaisquer que fossem
as diferenças entre os aliados, a ameaça de Napoleão tinha, agora, primazia. Até mesmo Metternich
começava a perceber que o perigo para o equilíbrio, inerente ao colapso completo da França, era
menos importante que a ameaça contida no prosseguimento do regime de Napoleão. A tentativa de
contrabalançar o Czar com Napoleão, e derrotar a revolução social por meio de sua expressão
política, fora um pouco sutil demais. Uma revolução não se acaba por um ato de vontade, ou porque
o mundo seria mais “razoável” sem ela. Napoleão simplesmente recusou-se a jogar de acordo com
as regras do equilíbrio de poder. A guerra tornava-se total, malgrado a vitória de Metternich sobre o
Czar, porque um revolucionário acha mais fácil destruir-se do que se render.

Resultou que o tratado de aliança geral, tão laboriosa e pacientemente buscado por Castlereagh,
finalmente veio à luz. Os exércitos de Napoleão na Europa Central não tinham bastado para causar
uma unidade de propósito, mas um Napoleão empurrado de volta às portas de sua capital acabara
finalmente com todas as ilusões. Com a aproximação de 10 de março e a paz cada vez mais
improvável, os aliados afinal concordaram em medidas conjuntas e quanto às metas de seu
empreendimento.

O Tratado de Chaumont, assinado no dia 4 de março, dizia respeito principalmente ao


prosseguimento da guerra contra a França. Cada um dos aliados concordava em colocar 150 mil
homens em campanha, sendo que a Grã-Bretanha, além disso, entraria com uma ajuda financeira no
montante de cinco milhões de libras. Cada signatário comprometia-se a não concluir uma paz em
separado. Mas estas eram as cláusulas convencionais de qualquer aliança militar, significativas
apenas pela escala do esforço britânico. A verdadeira importância do Tratado de Chaumont está em
sua presunção de que a França continuaria a ser uma ameaça, mesmo após a derrota de Napoleão.
A aliança teria uma duração de vinte anos e cada potência se obrigava a fornecer 60 mil homens
contra a agressão francesa, muito embora a Grã-Bretanha se reservasse o direito de fornecer o
equivalente em subsídios. Uma vez que o Tratado de Chaumont se concluiu sobre a suposição de
que posteriormente a paz seria firmada com Napoleão, esta cláusula punha à mostra a desconfiança
reinante.

Mas o Tratado de Chaumont também dá a medida da técnica de Metternich e Castlereagh em


alcançar seus objetivos especiais. Uma cláusula adicional garantia a independência da Espanha,
Suíça, Itália, Alemanha e Holanda. A Holanda teria uma expansão territorial e uma fronteira
“adequada”; a Alemanha organizar-se-ia numa confederação de Estados independentes e soberanos.
Nada se dizia da Polônia. A expansão da Holanda incluía pelo menos Antuérpia, e a fronteira
“adequada” referia-se à Bélgica. Enquanto uma Alemanha de Estados soberanos significava o
reconhecimento de que os sonhos de uma Alemanha unificada e as aspirações de hegemonia da
Prússia no norte estavam igualmente fadados à frustração. Desta maneira, a Áustria e a Grã-
Bretanha ficaram satisfeitas, afinal, antes da Rússia. É bem verdade que o Czar tentou condicionar
seu acordo com o item holandês à assunção, pela Grã-Bretanha, dos débitos russos na Holanda. Mas
ao insistir nesta reivindicação subsidiária, ele admitia, por inferência, o princípio da anexação da
Bélgica à Holanda. O Czar conseguira retardar a solução da questão polonesa, mas ao fazê-lo com
sua insistência em objetivos periféricos, sua fobia a Paris e sua mesquinhez no caso da Holanda,
perdera a posição de barganha.

Castlereagh estava triunfante. Os objetivos britânicos especiais tinham sido alcançados através da
Coalizão; a aliança se criara e legitimara graças à ameaça da França. “Envio-lhes meu [grifo meu]
tratado”, escreveu, cheio de orgulho, num estranho tom de capricho, “que espero hão de aprovar.
Ao assinarmos, estávamos os quatro ministros sentados a uma mesa de uíste. Concordamos todos
em que nunca as apostas foram tão altas naquela mesa em jogos anteriores. Minha modéstia me
impediria de saltar à frente, mas, como eles houveram por bem fazer de nós uma potência militar,
eu estava decidido a não tocar como segundo violino. O fato é que (...) nossos compromissos
equivalem ao de todos eles juntos. (...) Que extraordinária demonstração de poder! Isto, creio eu, há
de pôr fim às dúvidas quanto ao nosso direito a uma opinião nos assuntos continentais.” Aqui estava
a essência da façanha de Castlereagh: após vinte anos de isolamento, a Grã-Bretanha era, outra vez,
parte da Europa.

No dia 9 de março Blücher venceu Napoleão em Laon. A guerra agora estava decidida, porque
Napoleão, que não podia fazer uso de suas vitórias, já não podia permitir-se uma derrota. E apenas
vinte e quatro horas separavam os aliados do prazo fatal do Congresso de Chatillon. Em sua
qualidade extraoficial de Primeiro-Ministro da Coalizão, Metternich solicitou aos plenipotenciários
que lhe encaminhassem qualquer resposta que Caulaincourt viesse a dar no dia 10 de março, em
parte para manter os cordéis de negociação em suas próprias mãos, e também para retardar a
ruptura que parecia inevitável. Isto provocou uma explosão de Stewart, perguntando o que fariam
os aliados caso Caulaincourt lhes aceitasse as exigências. Mas ele seria poupado a maiores
preocupações. A resposta de Caulaincourt foi ambígua, porque as instruções de Napoleão tinham
sido escassas. Não passava de uma insistência, levemente modificada, nos “limites naturais”.
Apenas questões processuais retardaram a conclusão do Congresso. Em 15 de março a proposta
final de Caulaincourt foi transmitida ao quartel-general, e no dia 17 de março uma proclamação
redigida por Metternich anunciava o fim do último esforço aliado para promover a paz com
Napoleão.

Mesmo a essa altura Metternich não conseguia reconciliar-se com a idéia de terminar a guerra pelo
equilíbrio político com a ameaça de transtornar sua base social, ou de ver a Revolução Francesa,
superada no Império Napoleônico, desencadear-se outra vez com seu colapso. Em 17 de março,
encerrado o Congresso de Chatillon, ele apelou mais uma vez a Caulaincourt num tom de
desesperada urgência, reveladora de que a última vitória fugira a Metternich: incutir em Napoleão
o senso da realidade, derrotar a Revolução Francesa através do seu próprio produto: “No dia em
que você estiver disposto aos inevitáveis sacrifícios em favor da paz, venha ao nosso quartel-
general, mas não venha como advogado de projetos impraticáveis. As questões são sérias demais
para permitirem que se fique a escrever romances sem pôr em perigo o destino de Napoleão. A que
se arriscam os aliados? No máximo, a ter de deixar o território da antiga [pré-revolucionária]
França. E o que teria Napoleão a ganhar? O povo belga levantar-se-ia em armas; o mesmo
aconteceria à margem esquerda do Reno.(.. .) Os desejos da Áustria ainda são os de preservar uma
dinastia com a qual está tão intimamente ligada. A paz ainda depende do seu senhor. Dentro em
breve não será mais assim. Farei o possível para reter Lord Castlereagh aqui por alguns dias.
Depois da partida dele, a paz será impossível.”

Como um exasperado professor, Metternich apresentava assim, pela última vez, os elementos do seu
acalentado equilíbrio, como se fosse inconcebível que a realidade pudesse escapar ao espectador.
Mas se os revolucionários tivessem qualquer senso de realidade, ou se ao menos seu sentido da
realidade não fosse incompatível com o sentido “legítimo”, não seriam revolucionários. Quando
Caulaincourt respondeu, em 25 de março, que agora se encontrava em condições de ir ao quartel-
general para concluir a paz, a sorte estava lançada. Falhara o último desesperado esforço de
Napoleão para cortar a linha de comunicações dos aliados. O caminho de Paris estava outra vez
aberto. E a lacônica resposta de Metternich a Caulaincourt, dizendo que o Imperador estava
ausente do quartel-general, indicava que a paz, agora tão iminente, não se concluiria com Napoleão.

A carta de Metternich pode, em todo o caso, ter superestimado a flexibilidade de Castlereagh, pois,
ao contrário de Metternich, Castlereagh não estava preocupado com uma revolução social na
França. Aquiescera nas negociações com Napoleão porque considerava os “antigos limites” e uma
Holanda acrescida suficiente garantia política para a segurança britânica. Mas o seu assentimento
em tratar com Napoleão devia ser entendido como prova de boa disposição britânica, não como uma
indicação de preferência britânica. Mantivera essa posição a despeito das cartas cada vez mais
desagradáveis sobre a reação pública na Grã-Bretanha. Os funcionários permanentes do Foreign
Office, Cooke e Hamilton, não menos que Liverpool e Clancarty, concordavam em que a paz com
Napoleão seria bem difícil de defender. “A voz corrente, nada de paz com Napoleão, está mais
generalizada do que nunca”, informou Hamilton no dia 19 de março. “A disposição do país em
relação a qualquer paz com Napoleão torna-se cada dia mais desfavorável”, escreveu Liverpool em
17 de fevereiro. “Ouço isto em toda parte e de toda a classe de pessoas”. Em 19 de março o
Gabinete deu ordem a Castlereagh para encaminhar a Londres qualquer tratado antes da
assinatura. Este despacho chegou tarde demais para influir nos acontecimentos, mas não deixava
dúvida de que a paz com Napoleão era um sacrifício pela unidade aliada, e só seria assinada pela
Grã-Bretanha em último caso.

Quando o Congresso de Chatillon se encerrou, Castlereagh, portanto, podia sentir que cumprira
com todas as obrigações impostas a ele pela boa-fé, e agora estava livre para trabalhar em favor de
suas próprias metas. “Quem dera houvesse sido possível”, relatou ao Gabinete, “com menos
sacrifícios de tempo, ter comprovado (...) a impraticabilidade de concluir-se a paz com o atual
governo da França, mas a isto, afinal, se chegou de maneira tal que (...) não pode deixar qualquer
dúvida, mesmo aos olhos da nação francesa, de que Napoleão é o verdadeiro e único obstáculo a
uma paz imediata, honrosa e sólida”. Como o poder de Napoleão desintegrava-se rapidamente, não
havia mais razão para concluir-se a paz com ele. Enquanto Napoleão, numa última e desesperada
demonstração de ousadia, limpava o caminho de Paris a fim de lançar seu exército à retaguarda dos
aliados, seu destino estava sendo decidido. Ele detivera o poder absoluto durante tanto tempo que
não lhe ocorrera que, ao chegar a Paris, a cidade poderia declarar-se contra ele.

Entre 20 e 22 de março, os aliados deram os primeiros passos para o reconhecimento dos Bourbons.
Durante toda a campanha os duques reais haviam permanecido na França, mas tinham sido
ignorados pelos aliados. Agora seu emissário, Vitrolles, era recebido no quartel-general e
encorajado a organizar um movimento em favor deles. Os aliados prometeram transferir aos
Bourbons a receita de qualquer província ocupada que se declarasse favorável e a proteger os
advogados da causa Bourbon se a paz viesse a ser concluída com Napoleão. Além disso, Castlereagh
adiantou fundos britânicos. Em 24 de março Bordéus passou-se para os Bourbons. Metternich sabia
que o jogo estava feito, que Napoleão fora eliminado como fator na balança, que a estabilidade,
interna e externa, teria de buscar-se com uma França dos Bourbons. “Fique tranquilo quanto à
nossa linha de ação”, escreveu a Hudelist. “Pode ter certeza (...) de que permaneço fiel ao meu
eterno princípio de que os acontecimentos que não podem ser evitados devem ser dirigidos, e que
só os fracos evitam a ação.”

Os acontecimentos a que se referia Metternich tomavam forma em Paris, onde Talleyrand, até então
Ministro do Exterior de Napoleão, armava uma conjura que terminaria com a restauração dos
Bourbons. De todos os seus contemporâneos, o mais parecido com Metternich foi Talleyrand.
Possuía a mesma nonchalance, a mesma sutileza e até uma inteligência mais arguta. Isto não era
simples acaso. Talleyrand e Metternich eram produtos do século XVIII, grão-senhores apanhados
numa competição que só podiam considerar vulgar e até grosseira. Eram ambos suficientemente
aristocráticos para se preocuparem não só com a substância mas também com a forma do que
realizavam. Ambos identificavam tranquilidade com equilíbrio e proporção.

E no entanto, essas semelhanças ocultavam diferenças básicas. Pois o destino não favorecera
Talleyrand; não lhe dera oportunidade de viver seus reais valores. Ser aristocrata não é um dogma,
é um fato; mas no caso de Talleyrand havia sempre uma incongruência entre as suas profissões e
seu desempenho. Forçado a entrar para o serviço religioso quando jovem, chegou a Bispo de
Auteuil, apenas para renunciar à Igreja durante a revolução. Depois de romper com a revolução,
tornou-se Ministro do Exterior de Napoleão; e agora, com os exércitos aliados chegando a Paris,
Talleyrand trabalhava pela Restauração dos Bourbons. É possível, evidentemente, encontrar uma
certa coerência nesse comportamento, uma tentativa de equilibrar, com suas mudanças de lado, os
excessos de seus contemporâneos. No entanto não se podem acusar os contemporâneos por
desconfiarem de Talleyrand, pois tinham de julgá-lo por suas ações, não pelas explicações que dava.
Sem dúvida, em tempos mais tranquilos, Talleyrand encontraria formas mais convencionais de
aplicar seus talentos. Mas há duas maneiras de vencer a tempestade, sobrepairá-la ou nadar com a
maré; por princípio ou por manipulação. Talleyrand não atingiu sua estatura máxima porque suas
ações foram sempre bem sintonizadas demais com a disposição dominante, porque coisa alguma
jamais o engajou tão completamente a ponto de levá-lo a prejudicar sua ascensão pessoal. Isto
talvez se devesse a um desejo sincero de permanecer em posição de moderar os acontecimentos;
mas quem está de fora pode ser perdoado se considerar tudo oportunismo. Assim a maior força de
Talleyrand estava sempre na precisão de suas manobras, na manipulação dos princípios dos outros,
na imaginação de fórmulas para chegar à meta comum.

Mas quaisquer que fossem os defeitos de Talleyrand, a situação em Paris, na primavera de 1814,
estava sob medida para seus talentos especiais. O Czar, nos portões de Paris, podia orgulhar-se de
afirmar que todas as opções ainda estavam abertas e que um populacho agradecido poderia decidir
até mesmo em favor de uma República, se desejasse. Os calculistas frios de Dijon, sede do quartel-
general aliado, e de Paris, providenciariam para que não se tentassem experiências perigosas. No
dia 31 de março o Czar entrou em Paris triunfalmente, enquanto Metternich e Castlereagh
permaneciam à retaguarda, em Dijon. Deixaram a glória de entrar em Paris ao Czar, por saberem
que ocupações estrangeiras, ainda que ansiosamente esperadas, aparecem, em retrospecto, como
humilhações nacionais. A mesma gente que mais ruidosamente aplaudiu a entrada do conquistador,
mais tarde, na atmosfera de autoconfiança reconquistada, atribuirá sua degradação, não à própria
covardia, mas à força das circunstâncias, e tenderá a penitenciar-se mediante a rigidez de sua
hostilidade ao estrangeiro. Tampouco foi vantajoso o papel ostensivo do Czar na restauração dos
Bourbons. Um governo fraco, acusado de instrumento de potência estrangeira, não pode legitimar-
se de maneira mais fácil que por um ataque àquela mesma potência a que deve — ou consta que
deve — sua existência. Na exultação da vitória, entretanto, isto não era lembrado. No dia 6 de abril
o Senado, sob a direção de Talleyrand e com a aquiescência do Czar, promulgou uma nova
Constituição que recolocava Luís XVIII no trono da França. A luta contra Napoleão findava com o
triunfo da legitimidade, no campo de batalha e em Paris.

Sem dúvida, era frágil a legitimidade dos Bourbons. Haviam sido reconvocados pela vontade
popular, obrigados a aceitar uma Constituição que nunca tinham visto. Mas isto equivale a dizer que
“legitimidade” não se restaura por um ato de vontade. Sua força está na espontaneidade; ela é mais
forte quando não é falada, na realidade quando nem se pode mencioná-la. Mas uma vez suscitada a
questão do padrão de obrigações vigente expresso na existência de um partido revolucionário
significativo, a estrutura social nunca mais será a mesma, ainda que triunfe a “ordem legítima”. Não
é dado às estruturas sociais retomar sua espontaneidade, tanto quanto o homem não pode voltar à
inocência perdida. * Mas se os Bourbons jamais poderiam voltar ao ancien régime, podiam
estabelecer um direito através do reconhecimento de sua legitimidade pelas potências estrangeiras.
Se tinham que depender, em parte, da vontade popular, era melhor começarem por trazer a paz que
Napoleão não pudera concluir. E como sua legitimidade dependia tanto do reconhecimento
estrangeiro, as condições da paz a ser assinada refletiriam seu prestígio internacional. Quando os
aliados começaram a deliberar, não estava em jogo apenas o equilíbrio europeu, mas também o
equilíbrio interno francês.

II

Embora toda guerra seja feita em nome da paz, existe uma tendência a definir a paz como ausência
de guerra e a confundi-la com vitória militar. Discutir condições de paz durante a guerra parece
quase indecoroso, como se a admissão de que a guerra pode acabar pudesse causar uma diminuição
do esforço. Isto não é acidental. A lógica da guerra é o poder, e o poder não tem limite intrínseco. A
lógica da paz é a proporção, e a proporção supõe limitação. O sucesso da guerra é a vitória; o
sucesso da paz é a estabilidade. A condição da vitória é o engajamento; a condição da estabilidade é
a moderação. A motivação da guerra é extrínseca: o temor de um inimigo. A motivação da paz é
intrínseca: o equilíbrio de forças e a aceitação de sua legitimidade. Uma guerra sem inimigo é
inconcebível; uma paz construída sobre o mito de um inimigo é um armistício. A tentação da guerra
é castigar; a tarefa da política é construir. O poder pode arvorar-se em julgador. Mas a arte de
governar deve olhar para o futuro.

Essas desproporcionalidades são problemas típicos dos acordos de paz ao fim de guerras totais. A
enormidade do sofrimento conduz a uma concepção da guerra em termos pessoais, do inimigo como
a “causa” da desgraça, de sua derrota como o momento de desforra. Quanto maior o sofrimento,
mais a guerra será concebida como um fim em si mesma, e as regras da guerra aplicar-se-ão ao
acordo de paz. Quanto mais total o engajamento, mais “naturais” parecerão as reivindicações
ilimitadas. O sofrimento conduz mais frequentemente ao farisaísmo que à humildade, como se fosse
um emblema de boa-fé, como se somente o “inocente” pudesse sofrer. Cada acordo de paz, portanto,
confronta-se com o destino a dar ao inimigo e com o problema mais sério de ter ou não a
experiência da guerra tornado impossível conceber um mundo sem inimigo.

A questão de concluírem as potências um acordo de paz voltado para o passado ou voltado para o
futuro depende da força social delas e da capacidade que possuam de gerar sua própria motivação.
A paz retrospectiva esmagará o inimigo de forma que ele seja incapaz de lutar outra vez; a outra
tratará o inimigo de forma que ele não queira atacar outra vez. A paz retrospectiva é a expressão de
uma ordem social rígida, agarrada a uma única certeza: o passado. Tornará impossível um acordo
“legítimo”, porque a nação derrotada, a menos que seja completamente desmembrada, não aceitará
a humilhação. Existem duas legitimidades nesses casos: os arranjos internos entre as potências
vitoriosas e as reivindicações do vencido. Entre as duas, somente a força ou a ameaça de força
regula as relações. Em sua ânsia de alcançar estabilidade através da segurança, em seu mito da
ausência de causas intrínsecas de guerra, uma paz retrovisora produz uma situação revolucionária.
Essa, aliás, foi a situação da Europa entre as duas guerras mundiais.

Reconheça-se aos estadistas que negociaram o acordo do período pós-napoleônico o mérito de


terem resistido à tentação de uma paz punitiva. Talvez isto se devesse à própria qualidade
normalmente considerada sua maior falha: a indiferença às pressões populares. Mas qualquer que
fosse a causa, eles buscavam equilíbrio e não desforra, legitimidade e não castigo. Ao invés de
considerarem a transformação interna da França um prêmio adicional ou insistirem na manutenção
de aparências, os estadistas da Coalizão de 1814 estavam dispostos a aceitar as consequências do
seu próprio mito. A implicações totais da diplomacia tenaz de Metternich, que parecera tão
timidamente obtusa enquanto a derrota do inimigo fora a consideração principal, tornavam-se agora
evidentes. Tanto ele falara na guerra em prol de um equilíbrio que nenhuma outra base parecia
admissível. Tantas proclamações lançara declarando a guerra um esforço para fazer Napoleão
aceitar condições “razoáveis” que nenhuma proposta séria de desmembramento foi apresentada.
Somente os prussianos falaram de uma França inerentemente pérfida, mas logo foram contidos. Tão
cautelosa havia sido a condução da guerra, tão cuidadosa a preparação de cada passo, que embora
a guerra se houvesse tornado total, não parecia. O infinito alcançado por etapas finitas perde seus
terrores e suas tentações. Esta é a significação final da política de Metternich em 1813-14.

Mais notável, ainda, foi a atitude de Castlereagh. Estadista da nação em que as emoções talvez
fossem as mais exacerbadas, ele se tornou, não obstante, um dos principais advogados da
moderação. Resistira à tentação de juntar-se ao Czar numa marcha sobre Paris. Ia agora resistir aos
encantos de uma segurança “absoluta”. Desta maneira o ajuste final das guerras napoleônicas
cumpriu-se em três etapas: a abdicação de Napoleão e o tratado que decidiu seu destino; a paz com
a França; o estabelecimento do equilíbrio europeu.

O destino de Napoleão não teve consequência imediata no equilíbrio europeu, mas serviu como
pedra de toque do estado de espírito dos aliados. O início do século XIX ainda não era um período
que medisse a extensão do triunfo pelo grau da desforra pessoal alcançada. Até mesmo Stewart
escreveu a Castlereagh que a provação de Napoleão merecia a compaixão que os cristãos dedicam
aos irmãos desafortunados. Quaisquer que fossem os defeitos de Alexandre, não incluíam a falta de
magnanimidade, e foi ele quem negociou o Tratado de Fontainebleau com Caulaincourt. De acordo
com suas cláusulas, Napoleão deveria manter o título imperial e receber uma renda anual de dois
milhões de francos do tesouro francês. A ilha de Elba foi transformada em principado independente,
a ser ocupado por Napoleão com plena soberania. A Imperatriz recebeu o Ducado de Parma.
Assegurou-se o futuro da família de Napoleão, de sua esposa divorciada e até mesmo de seu filho
adotivo Eugene Beauharnais, Vice-Rei da Itália. Permitiu-se a Napoleão levar um navio e uma
guarda pessoal de soldados franceses para Elba. Talvez de um ponto de vista psicológico esse
tratado não fosse tão generoso quanto parecia. Pois deve ter sido terrível para o conquistador da
Europa ser reduzido ao status de um príncipe italiano de terceira categoria.

Quando Castlereagh e Metternich chegaram a Paris, as negociações já estavam terminadas.


Inutilmente protestou Metternich contra a soberania de Napoleão sobre Elba, em vista de sua
proximidade da França e da Itália. Chegou a predizer uma nova guerra para dentro de dois anos.
Tampouco Castlereagh estava inteiramente satisfeito. Assim como Liverpool, ele teria preferido
para Napoleão uma estância “mais adequada” que Elba. E a Grã-Bretanha não estava disposta a
conceder ao Napoleão vencido um reconhecimento que lhe recusara no auge do poder. Castlereagh
conseguiu limitar o título imperial ao período de vida de Napoleão e aderiu somente àquelas partes
do tratado que diziam respeito aos arranjos territoriais. No dia 16 de abril Napoleão iniciou o seu
deslocamento para o sul. Os aliados podiam agora passar à paz com a França.

Como em todas as negociações que tratavam de ajustamentos dentro de um quadro geral dado,
Castlereagh surgiu como a figura principal. Ele chegava agora ao máximo da sua influência.
Mantivera unida a Coalizão, a despeito da hesitação dos aliados. Negociara com Napoleão a
despeito do clamor da opinião pública e, assim fazendo, lançara a base moral para a Restauração.
Como é normal em tais casos, o público agora interpretava a violência dos seus ataques como prova
de boa-fé. E o Gabinete atribuía a um desígnio profundo, embora um tanto incompreensível, o que
se devera, pelo menos em parte, à incapacidade de Napoleão em chegar à percepção da realidade.
“Esteja certo”, escreveu Cooke, “que a maior justiça é feita à grande capacidade que V. demonstrou
ao longo de toda a transação que tão formidavelmente e com tão bons resultados levou a efeito. Sua
superioridade e autoridade agora estão firmes.” Castlereagh estava bem consciente de sua posição.
Quando Liverpool instou com ele para que retornasse imediatamente para a sessão do Parlamento,
pois o Parlamento sem ele talvez não pudesse ser controlado, respondeu: “Pode parecer presunçoso
da minha parte dizer tal coisa, mas a minha permanência (...) é, acima de qualquer comparação,
mais importante que minha missão original. Cabe a você, portanto, assumir a direção (...).”

Uma das maiores preocupações de Castlereagh era consolidar a autoridade dos Bourbons e contar,
para a segurança da Europa, não com uma França prostrada, mas pacífica. Conclamou os Bourbons
a aceitarem a Constituição preparada por Talleyrand, ainda que defeituosa, ao invés de se “atirarem
numa disputa sobre metafísica política.” Queria acelerar o mais possível a retirada de tropas
aliadas. Uma vez que os Bourbons haviam concordado, antes da Restauração, em aceitar os
“antigos limites”, nada parecia impedir o caminho para um rápido acordo. Mas à medida que uma
potência atrás da outra atingia seus objetivos, a Prússia, vendo que as compensações disponíveis
para a provável perda de suas possessões polonesas para a Rússia iam decrescendo, tentou forçar
uma solução de todas as questões pendentes, redesenhar o mapa da Europa antes de concluir a paz
com a França. Não deixava de ser uma exigência racional. Embora uma potência aquisitiva tenha
mais a ganhar postergando um acordo até a conclusão das hostilidades, também tem mais a perder
numa série de arranjos parciais. Quanto maior for o número de potências satisfeitas, menos motivo
haverá para concessões. Em 29 de abril o Chanceler prussiano Hardenberg apresentou, portanto, a
minuta de um acordo de paz que daria a maior parte da Polônia à Rússia, anexando a Saxônia à
Prússia.

Mas o Czar, sempre indeciso entre o desejo de aprovação universal e as necessidades da razão de
Estado, ainda não estava disposto a confessar suas reivindicações. Pode também ter acreditado que
quanto mais protelasse, mais a Grã-Bretanha se desinteressaria do acordo final, e ele prometia a si
mesmo tirar ótimos resultados de sua próxima visita a Londres. Não restava outra escolha,
portanto, senão concluir um tratado com a França e adiar a solução da questão da Polônia e da
Saxônia. Pelos dispositivos do Tratado de Paris, a França renunciava a todas as suas pretensões
sobre a Holanda, Bélgica, Alemanha, Itália, Suíça e Malta. A Grã-Bretanha ficava com as colônias de
Tobago, Santa Lúcia e Ile de France, e a Espanha recebia a porção francesa de São Domingos. Um
artigo secreto estabelecia a independência da Alemanha e sua organização em confederação. Por
outro artigo secreto a França reconhecia a incorporação da Bélgica à Holanda. Um terceiro artigo
secreto fixava no Pó e no lago Maggiore a fronteira austríaca na Itália e restabelecia a linhagem dos
Habsburgos na Toscana.

Castlereagh podia perfeitamente achar que este tratado realizava a sua intenção de retirar do
acordo qualquer aparência de desconfiança excessiva. A França não apenas retinha seus antigos
limites mas recebia uma extensão na Sabóia e no Palatinado, aumentando em 600 mil habitantes
sua população pré-revolucionária. Não se estabeleciam restrições ao efetivo de seu exército. A Grã-
Bretanha devolvia a maior parte das conquistas coloniais, e aquelas que conservava tinham,
conforme se acreditava, importância mais estratégica do que comercial. A Holanda vendeu as
Colônias do Cabo à Grã-Bretanha, em parte para obter fundos para a construção de fortalezas de
fronteira, mas recebeu de volta as Índias Ocidentais Holandesas, cujo valor na época ainda não se
percebia. A França teve permissão de manter a posse dos tesouros de arte que acumulara em Paris
durante vinte e cinco anos de conquista. Não se exigiam reparações, o que fez Cooke escrever em
protesto: “Será uma injustiça se a França não tiver de pagar coisa alguma pela destruição da
Europa e nós tivermos de pagar tudo para salvá-la”.

O Tratado de Paris proporcionou, assim, uma paz de equilíbrio, baseada no reconhecimento de que
a estabilidade depende da inexistência de cisões básicas, e na certeza de que a tarefa do estadista
não é punir, mas integrar. Ignorou-se o mito da “segurança absoluta” que avalia a segurança apenas
pela posição dos postos fronteiriços e que, visando a refrear uma só potência, cria um desequilíbrio
entre todas as outras. Quando o plenipotenciário de Gênova insistiu em certas retificações de
fronteira, alegando necessidade estratégica, Castlereagh replicou: “Essas discussões sobre (...)
fronteiras estratégicas vão longe demais. A verdadeira defesa e segurança provêm da garantia que
lhe é dada pelo fato de que ninguém pode tocar-nos sem declarar guerra a todos os interessados na
manutenção das coisas como estão”. Assim sendo, a guerra contra Napoleão não terminou num coro
de ódios, mas num espírito de reconciliação, com o reconhecimento de que a estabilidade de uma
ordem internacional depende do grau em que seus componentes se julgam comprometidos com sua
defesa. Não foi uma paz que levasse em conta os grandes ideais de uma geração impaciente. Sua
motivação foi a segurança, não a realização de idéias abstratas. Mas segurança, depois de um
quarto de século de tormentas, não era pouca coisa.

Por certo, o equilíbrio europeu ainda não estava completo. As questões complementares da Polônia
e da Saxônia esperavam a atenção de um congresso europeu. Mas começava a tomar forma a
solução. Em Troyes, os elementos da nova ordem européia começaram a aglutinar-se. Pelo Tratado
de Paris, a França emergia como um fator possível de equilíbrio. É bem verdade que só foi
convidada ao Congresso para ratificar decisões. Mas a Restauração fizera da França um aliado
“aceitável”; nenhum abismo “ideológico” a separava mais do resto da Europa. Aceitaria qualquer
nação um veredicto desfavorável sem tentar reforçar com a França o seu lado da balança? A
resposta a esta pergunta desconcertante quanto aos limites da autocontenção seria dada pelo
Congresso de Viena.

* Vide o Capítulo XI, para um desdobramento deste ponto.


9/ O CONGRESSO DE VIENA

O ARTIGO XXXII da Paz de Paris estipulava que se realizaria um congresso em Viena para
solucionar o problema do equilíbrio europeu, ao qual seriam convidadas todas as potências
engajadas em qualquer dos lados durante a guerra. Quando esse artigo foi minutado, esperava-se
que o Congresso viesse a ter um significado eminentemente simbólico, início de uma era baseada no
respeito recíproco de Estados soberanos. Os elementos do novo equilíbrio deviam ser acertados em
Londres, aonde o Czar, o Rei da Prússia e Metternich acorreram após a conclusão do Tratado de
Paris. Foi quase um acidente, portanto, o fato de o Congresso se ter tornado palco de uma disputa
não menos rancorosa por causa das festividades que o cercavam e ainda mais áspera em virtude da
compreensão de que as questões mais importantes já não podiam ser evitadas. Pois em Viena era
preciso decidir de uma vez por todas se das guerras contra Napoleão poderia brotar uma ordem
legítima, quer dizer, uma ordem aceita por todas as grandes potências, ou se as relações
continuariam revolucionárias, baseadas em insustentáveis pretensões de poder.

Qualquer ordenamento internacional representa uma etapa no processo pelo qual uma nação
concilia sua visão de si mesma com a visão que têm dela outras potências. Para si própria, uma
nação aparece como expressão de justiça, e quanto mais espontâneo é o padrão dos contratos
sociais mais isso é verdadeiro; pois o governo só funciona eficazmente quando a maioria dos
cidadãos obedece voluntariamente, e estes só obedecerão na medida em que julgarem justas as
exigências de seus governantes. Para as demais, ela aparece como uma força ou uma expressão de
vontade. Isso é inevitável porque a soberania externa só pode ser controlada por uma força superior
e porque a política exterior deve ser planejada a partir das possibilidades do outro lado e não
simplesmente de suas intenções. Se uma potência pudesse realizar tudo que quer, lutaria pela
segurança absoluta, por uma ordem mundial livre da sensação de perigo externo e onde todos os
problemas são manejáveis como as questões internas.

Mas como a segurança absoluta de uma potência significa a insegurança absoluta das outras, nunca
é atingível como parte de um ordenamento legítimo, e só se obtém através da conquista.

Por essa razão, um ajustamento internacional aceito, e não imposto, sempre parecerá um tanto
injusto para qualquer um de seus componentes. Paradoxalmente, a generalidade dessa insatisfação
é uma condição de estabilidade, pois se uma das potências estivesse totalmente satisfeita, todas as
demais teriam de estar totalmente insatisfeitas e sucederia uma situação revolucionária. O
fundamento de uma ordem estável é a segurança relativa — e, portanto, a insegurança relativa —-
de seus membros. Sua estabilidade reflete, não a ausência de reivindicações insatisfeitas, mas a
ausência de um motivo de queixa de tal magnitude que o desagravo seja procurado no rompimento
do acordo, ao invés de realizar-se por um reajustamento dentro do próprio quadro. Uma ordem de
estrutura aceita por todas as grandes potências é “legítima”. Uma ordem que inclua alguma
potência que lhe considere opressiva a estrutura é “revolucionária”. A segurança de uma ordem
interna reside no poder da autoridade, a de uma ordem internacional está no balanço de forças e
em sua expressão, o equilíbrio.

Mas se uma ordem internacional exprime a necessidade de segurança e um equilíbrio, ela se


constrói em nome de um princípio legitimante. Uma vez que um ordenamento transforma a força
em aceitação, deve buscar traduzir os requisitos de segurança em reivindicações e as exigências
individuais em vantagem geral. É o princípio legitimante que estabelece a relativa “justiça” das
pretensões conflitantes e o modo de seu ajustamento. Não quer isto dizer que deva haver uma exata
correspondência entre as máximas de legitimação e as condições do ordenamento. Nenhuma
grande potência abrirá mão de sua reivindicação mínima de segurança — a possibilidade de gerir
uma política exterior independente — simplesmente em favor da legitimidade. Mas o princípio
legitimante define o caso marginal. Em 1919 o Império Austro-Húngaro desintegrou-se menos pelo
impacto da guerra que pela natureza da paz, pois a continuação de sua existência era incompatível
com a autodeterminação nacional, princípio legitimante da nova ordem internacional. A ninguém
teria ocorrido, no século XVIII, que a legitimidade de um Estado dependesse da unidade linguística.
Era inconcebível para os criadores da ordenação de Versalhes que pudesse haver qualquer outra
base para a autoridade legítima. Princípios legitimantes triunfam quando são aceitos como
indiscutíveis.

Embora jamais ocorra uma correspondência exata entre as máximas tio princípio legitimante e as
condições do ordenamento, a estabilidade depende de uma certa correlação. Existindo uma
discrepância substancial e uma grande potência que se julgue em desvantagem, a ordem
internacional se torna volátil, pois o apelo de uma potência “revolucionária” ao princípio legitimante
do acordo cria uma distorção psicológica. A expressão natural da política de uma potência do status
quo é a lei — a definição de um relacionamento permanente. Mas contra a ação de uma potência
permanentemente insatisfeita que apela para o princípio legitimante da ordem internacional, a
força é o único recurso. Aqueles que mais têm a ganhar com a estabilidade tornam-se, então, os
expoentes de uma política revolucionária. O apelo de Hitler à autodeterminação nacional na crise
dos sudetos, em 1938, foi uma invocação à “justiça”, contribuindo, portanto, para a indecisão da
resistência: induziu as potências ocidentais à tentativa de construção de uma ordem
“verdadeiramente” legítima com a satisfação das reivindicações “justas” da Alemanha. Somente
depois que Hitler anexou a Boêmia e a Morávia, ficou claro que visava à dominação e não à
legitimidade; só então a contenda passou ao nível de pura disputa de força.

O problema maior de um acordo internacional, portanto, é correlacionar de tal forma as pretensões


de legitimidade com os requisitos de segurança, que nenhuma potência venha a expressar sua
insatisfação por meio de uma política revolucionária, e arranjar de tal maneira o balanço de forças
que se dissuada a agressão originada por outras causas que não sejam as condições do acordo. Não
se trata de um problema mecânico. Se se pudesse construir a ordem internacional com a clareza de
um axioma matemático, as potências considerar-se-iam pesos numa balança e acertariam seus
ajustamentos para alcançar um equilíbrio perfeito entre as forças de agressão e as forças de
resistência. Mas o balanço exato é impossível, e não só pela dificuldade de prever-se o agressor. É
quimérico, sobretudo, porque as potências, embora apareçam aos estranhos como fatores numa
montagem de segurança, aparecem internamente como expressões de uma existência histórica.
Nenhuma potência submeter-se-á a um ordenamento, por bem balanceado e “seguro” que seja, que
lhe pareça negar totalmente a visão que tem de si mesma. Nenhuma consideração de equilíbrio
levaria a Grã-Bretanha a abrir mão dos direitos marítimos, ou a Áustria, de sua posição alemã,
porque as respectivas noções de “justiça” eram inseparáveis daquelas reivindicações. Há, então,
dois tipos de equilíbrio: um equilíbrio geral, que toma perigoso para uma potência, ou grupo de
potências, tentar impor seu arbítrio aos demais; e um equilíbrio particular, que define a relação
histórica de certas potências entre si. O primeiro é o dissuasor de uma guerra geral; o segundo, a
condição para a cooperação harmoniosa. Uma ordem internacional, portanto, raramente nasce da
consciência de harmonia, pois, mesmo quando há um acordo quanto à legitimidade, as concepções
dos requisitos de segurança divergirão da posição geográfica e da história das potências
contendoras. Foi justamente de um conflito desses, sobre a natureza do equilíbrio, que o Congresso
de Viena se serviu para modelar um ordenamento que durou quase exatamente um século.

Pois o problema em Viena não era simplesmente o confronto das potências do status quo, Grã-
Bretanha e Áustria, com as potências aquisitivas, Rússia e Prússia, enquanto Talleyrand observava
satisfeito, e a distância, os acontecimentos. Nem as pretensões das potências aquisitivas nem a
resistência dos Estados conservadores eram da mesma ordem. A exigência da Rússia quanto à
Polônia ameaçava o equilíbrio da Europa; a insistência da Prússia sobre a Saxônia fazia perigar
simplesmente a balança interna alemã. Quando Castlereagh falava em equilíbrio, pensava numa
Europa de hegemonias impossíveis; quando, porém, Metternich invocava o equilíbrio, incluía uma
Alemanha em que o predomínio prussiano fosse impossível. Castlereagh estava interessado em criar
uma Europa Central suficientemente forte para resistir a ataques do Oriente ou do Ocidente. O
mesmo queria Metternich, mas preocupava-se também com a posição relativa da Áustria nessa
Europa Central. Para Castlereagh, as nações continentais eram aspectos de um esforço defensivo;
mas para as nações continentais, o equilíbrio geral nada significava, se destruía a posição histórica
que para elas era a razão da existência. Para Castlereagh, o equilíbrio era uma expressão mecânica
da correlação de forças; para as nações continentais, uma reconciliação de aspirações históricas.

Isto levou a um impasse diplomático, mais inflexível ainda porque a Grã-Bretanha e a Áustria
haviam garantido a maioria de seus interesses especiais, o que deixava poucos instrumentos de
barganha à Rússia e à Prússia; impasse que só seria rompido colocando-se um peso adicional num
dos pratos da balança. De vez que a única grande potência não comprometida era a França, a
antiga inimiga emergiu como a chave do ordenamento europeu. Tomou corpo, assim, a lenda sobre
o papel de Talleyrand no Congresso de Viena, do cérebro diabólico que entrou em cena e esfacelou
uma Coalizão de potências hostis, que depois reagrupou-as à sua maneira pela invocação da palavra
mágica “legitimidade”, surgindo, finalmente, como árbitro da Europa. * Esta é uma lenda
espalhada pelos que confundem resultados com causas, e por diplomatas profissionais acostumados
a atribuir à simples técnica de negociação o que só pode ser alcançado pela exploração de fatores
mais profundos. Ganhou voga porque Talleyrand, cujo monarca não viera a Viena, viu-se obrigado a
escrever relatórios volumosos e, com o fim de cimentar sua instável posição interna, o ex-Ministro
do Exterior de Napoleão mostrou tendência a dar ênfase a sua indispensabilidade.

Não há dúvida, uma vez que o Tratado de Paris havia determinado as fronteiras da França, que
Talleyrand podia permitir-se talvez a abordagem mais desinteressada. Seu espírito e seus
comentários cáusticos ficaram famosos, a ponto de Gentz poder dizer que ele tinha a seu lado os
gargalhadores e os pensadores. Mas argumentos não diferentes dos de Talleyrand, pelo menos com
referência à aquisitividade da Rússia, tinham sido usados seis meses antes por Napoleão, sem
resultado, porque ninguém confiava nele. A verdadeira transformação da situação adviera, não dos
memorandos de Talleyrand mas da restauração Bourbon e do Tratado de Paris. Talleyrand pôde ser
eficiente porque estes atos haviam posto fim a uma situação revolucionária e inaugurado uma era
“legítima”. Teve sucesso, não porque inventasse o conceito de “legitimidade”, mas porque o
conceito estava pronto e à sua disposição.

Nada mais natural que a França, excluída do acordo europeu ao ser forçada a renunciar, pelo
Tratado de Paris, a qualquer influência fora de suas fronteiras, tentasse aglutinar um grupo de
potências numa cunha para fender a Coalizão; natural, também, que resistisse à tentação de
deslocar o centro de gravidade da Prússia para dentro da Alemanha. Tais esforços, entretanto, não
levariam a nada se a ameaça da França não estivesse eclipsada pelo perigo do Leste, se as
divergências entre os aliados não se houvessem tornado maiores que seu receio comum da França.
Enquanto a Coalizão acreditou que a lembrança do esforço conjunto dos tempos de guerra daria
força e motivo para um ordenamento, Talleyrand nada pôde. No momento em que essa ilusão se
esfumou, o problema passou a ser o dos limites da autocontenção: saber se uma potência deixaria
de se valer de um fator de peso meramente para manter a aparência de harmonia. A lógica da
situação forneceu a resposta. A França veio a participar dos assuntos europeus porque estes não se
podiam acertar sem ela.

Quando os plenipotenciários estavam chegando a Viena, entretanto, o rumo dos acontecimentos não
estava claro. Pensava-se ainda que o acordo viria célere, que a França seria pouco mais que
espectadora, que o restante da Europa teria apenas de ratificar um instrumento composto em
relativa harmonia. A Prússia parecia lutar pela Saxônia, a Rússia pela Polônia, a Áustria pelo
equilíbrio alemão, Castlereagh pelo da Europa, e Talleyrand pela participação francesa nos assuntos
europeus. Ninguém parece ter acreditado que essas posições podiam mostrar-se incompatíveis.

No processo de gerar uma reconciliação das aspirações conflitantes, o Congresso de Viena


atravessou cinco fases: (a) um período inicial em torno do problema essencialmente processual de
organizar-se o Congresso em volta da Coalizão antifrancesa; (b) uma tentativa, da parte de
Castlereagh, de solucionar os problemas pendentes, em particular a questão polonesa-saxônica,
primeiro com um apelo pessoal ao Czar, depois com a tentativa de reunir as potências da Europa
contra ele; (c) um esforço complementar de Metternich no sentido de separar os problemas polonês
e saxônico e criar uma combinação de potências unidas por um consenso de reivindicações
históricas; (d) a desintegração da Coalizão antifrancesa e a introdução de Talleyrand nas
deliberações aliadas; (e) a negociação do acordo final.

II

Ao preparar-se Castlereagh outra vez para viajar ao Continente, já não havia mais qualquer dúvida
de que os interesses britânicos deviam ser procurados na estabilidade européia. Por mais reservas
que o Gabinete pudesse fazer ao envolvimento de seu Secretário do Exterior nos assuntos
continentais, o sucesso de sua política durante aquele ano colocara-o a salvo de ataques imediatos,
mormente porque a estada do Czar em Londres causara desencantos. O herói da guerra contra
Napoleão surgira como um arbitrário autocrata que chegara a conspirar com a Oposição contra o
Governo, só conseguindo indispor-se com ambos os lados da Câmara dos Comuns. Confundindo
aclamação pública com apoio popular, Alexandre ajudou a dar crédito aos repetidos avisos de
Castlereagh de que a paz da Europa podia, muito em breve, ser perturbada pela intransigência do
Czar. Ao mesmo tempo, mensagens de representantes britânicos nas mais diversas partes da
Europa pintavam um quadro de intriga russa por demais coerente para ser ignorado. De Berlim,
Jackson relatou o comentário de um general russo de que, com 600 mil homens em armas, pouca
necessidade havia de negociar. E de Palermo, A’Court queixava-se da interferência russa nos
assuntos internos da Sicília. Fossem quais fossem as reais intenções do Czar, as atitudes de seus
representantes davam lugar ao temor de que um conquistador houvesse sido derrubado meramente
para facilitar a tarefa de outro. Nessas circunstâncias não podia mais restar dúvida de que o
assunto da Polônia seria controvertido, e a Grã-Bretanha estaria entre os principais protagonistas.
Mas Castlereagh partiu da Grã-Bretanha, com três conceitos errôneos. Ainda tinha esperança de
que Alexandre pudesse ser contido quando lhe demonstrassem como eram irrazoáveis as suas
reivindicações. Se a persuasão falhasse, preferia reunir a necessária força contra Alexandre dentro
da Coalizão antifrancesa e julgava isso relativamente simples, pelo menos tão simples quanto
demonstrar a ameaça que representava para o equilíbrio a possessão russa da Polônia. Finalmente,
caso a luta fosse inevitável, ele contava utilizar a França como reserva a entrar em cena quando se
chegasse ao impasse, como se satisfizesse à França um papel tão passivo. Até onde Castlereagh
estava disposto a ir ficou patente num despacho de 7 de agosto, dirigido a Wellington, que servia
como embaixador britânico em Paris. Wellington foi instruído no sentido de verificar “se a França
estava preparada para apoiar pelas armas seus pontos de vista sobre a questão [polonesa]” e a
solicitar o apoio francês na insistência junto à Prússia para que resistisse às pretensões russas na
Polônia. Em 14 de agosto Castlereagh aventou a possibilidade de, a caminho de Viena, deter-se em
Paris para uma troca de impressões com Talleyrand. “A situação do mundo”, respondeu Wellington a
essa proposta, “constituirá naturalmente a Inglaterra e a França em árbitros da Europa, se estas
potências compreenderem uma à outra; esse entendimento pode salvar a paz.”

Castlereagh chegou a Viena no dia 13 de setembro e iniciou imediatamente conversações


preliminares ao Congresso propriamente dito, que devia inaugurar-se a l.° de outubro. Tinha ainda
esperanças de que as decisões básicas pudessem ser tomadas antes daquela data, e de que lhe
fosse possível utilizar o fato de sua passagem por Paris para obrigar o ministro russo a concordar.
Mas aconteceu, afinal, que o mais das conversas preliminares foi gasto em questões processuais.
Logo se evidenciou que o contato de Castlereagh com Talleyrand fora prematuro e que as outras
potências só estavam dispostas a admitir a França em último caso, depois de todas as demais
combinações terem falhado. É que a lembrança do tempo de guerra ainda era a fonte do impulso
motor das relações internacionais. A unidade era considerada ainda um fim em si mesma; a
harmonia, a causa, não a expressão, da amizade. E uma vez que a unanimidade na guerra se
produzira pela ameaça da França, os aliados trataram apenas hesitante e ambiguamente do mais
profundo problema de uma ordem “legítima”: se ela é capaz de construir relacionamentos
espontâneos ou requer o mito de um inimigo como força-motriz. Acordaram em que as decisões
seriam tomadas pelos “Quatro Grandes”, mas submetidas à França e à Espanha para aprovação e
ao Congresso para ratificação. Se os aliados estivessem de acordo, seria inútil a oposição. Nem
sequer foi considerado o que sucederia em caso de desacordo, pois seria admitir que a exigência de
unidade não sobrepujava todas as outras considerações. A única desavença surgiu quanto à maneira
pela qual esse procedimento seria tornado efetivo, se materializado numa resolução formal do
Congresso, conforme propunha a Prússia, ou simplesmente executado como arranjo informal, como
preferia Castlereagh. A essa altura, no dia 23 de setembro, Talleyrand chegou a Viena, decidido a
utilizar o princípio legitimante da Coalizão antifrancesa para dissolvê-la.

Pois se governantes “legítimos” representavam a garantia da tranquilidade da Europa, não havia


razão para excluir-se da discussão a França dos Bourbons. E se o poder “legítimo” era sacrossanto,
a Prússia não tinha “direito” de despojar o tradicional Rei da Saxônia, anexando-lhe o território.
Naturalmente, os aliados haviam criado um subterfúgio engenhoso para essa violação de seu
princípio legitimante, acusando o inditoso Rei de traição, já que não havia aderido em tempo ao
campo aliado. Mas Talleyrand não teve dificuldade em pôr à mostra a fragilidade desse argumento:
“A traição”, observou mordaz, “é evidentemente uma questão de datas”.

Todavia, o fogo pesado de Talleyrand concentrou-se no esquema processual dos aliados. Protestou
contra a exclusão da França e das pequenas potências das deliberações do Congresso. Contestou a
existência legal dos “Quatro Grandes” e ameaçou transformar a França em advogada de todas as
potências secundárias agastadas com os grandes. Mas a despeito de seu brilho e sarcasmo,
Talleyrand obteve apenas algumas concessões sem importância. Decidiu-se adiar a abertura formal
do Congresso para o dia l.° de novembro e, nesse ínterim, submeter as questões pendentes ao
exame dos oito signatários do Tratado de Paris: os “Quatro Grandes”, mais a França, Espanha,
Portugal e Suécia. Os “Quatro Grandes”, entretanto, não fizeram segredo da intenção de
prosseguirem com suas discussões privadas e tratar os “Oito” como simples instrumento ratificador
ou para solucionar pontos periféricos.

A primeira incursão de Talleyrand falhou porque uma incoerência lógica não é bastante para
dissolver coalizões. O simples apelo a um princípio legitimante de nada vale contra a oposição unida
de todas as outras grandes potências que atuam como se o governo pleiteante ainda representasse
uma ameaça a sua existência. Existiam, em verdade, dois relacionamentos: um dentro da Coalizão e
outro da Coalizão em relação à França, um misto ambíguo de desconfiança e fingimento de
normalidade, que não conseguia decidir se devia confiar na força ou na legitimidade. Somente
depois que a pretensão de probidade especial, característica de coalizões, houvesse desaparecido
num conflito entre os aliados, poderia Talleyrand assumir o status de sócio igual. Mas antes deveria
realizar-se mais um teste da eficácia da “legitimidade interna” da Coalizão. Faltava verificar se o
Czar podia ser levado a limitar suas reivindicações sem ameaça de força. Castlereagh firmara-se tão
bem como primeiro campeão do equilíbrio europeu que lhe tocou entrar na arena para
experimentar a resolução do Czar.

III

Até então haviam fracassado todas as tentativas de induzir o Czar a declarar a natureza de seus
desígnios na Polônia. Nem em Langres, nem em Troyes, nem mesmo em Paris, Alexandre havia
definido suas precisas intenções. Sabia-se que desejava restabelecer um reino da Polônia, dotado de
uma constituição liberal, ligado à Rússia apenas pela pessoa do monarca; mas nada se conseguia
saber quanto a sua extensão territorial ou à natureza de suas disposições internas. Essa reserva não
era apenas um solerte artifício de barganha para adiar uma decisão final até que a França fosse
eliminada como fator na balança e a Grã-Bretanha se desinteressasse do Continente. Nada era
assim tão simples na complexa caracterização do Czar. Quando o Czar exigia liberdade de ação na
Polônia para cumprir promessas de sua juventude, era indubitavelmente sincero; mas isso tornava
uma ordem legítima ainda mais difícil de alcançar. Quando Alexandre insistia no papel influente da
Polônia, não por motivo de conveniência mas como “direito” moral, não estava transferindo a
questão a plano mais elevado, mas apresentando um dilema que podia deflagrar novo ciclo de
violência. Pois um “direito” se estabelece por aquiescência, não por reivindicação, e uma pretensão
não universalmente aceita é simples expressão de uma vontade arbitrária.

Acrescente-se que está na essência de uma alegação moral o não poder ser negociada,
precisamente por justificar-se em considerações que ultrapassam as razões de conveniência. Assim,
se o Czar era “realmente” sincero em seus protestos de dever moral, estava tornando inevitável
uma contenda revolucionária — contenda baseada na simples asserção de poder. Esse é o paradoxo
que o fanático, por mais sincero e bem intencionado que seja, introduz nas relações internacionais.
Sua própria alegação de superioridade moral conduz a uma corrosão de todo freio moral.

Seguiu-se uma série estranha e irreal de entrevistas entre Castlereagh e Alexandre; estranha pela
rudeza acompanhada de protestos de amizade sem fim, e irreal, porque Alexandre e Castlereagh
nunca chegaram a concordar nas premissas básicas. A fim de obter uma estrutura em que
pudessem negociar, os protagonistas mudavam constantemente de posição, simulando concordar
com os princípios do outro, mas interpretando-os de maneira a reduzi-los ao absurdo. Dessa forma,
Castlereagh, em certo estágio, tornou-se um ardente defensor de uma Polônia completamente
independente, enquanto Alexandre, noutra ocasião, defendia seu plano polonês como uma
contribuição à segurança européia. O fato de Alexandre se propor a basear suas reivindicações na
santidade de suas máximas ficou patente por ocasião da primeira entrevista com Castlereagh, no
dia seguinte a sua chegada. Pela primeira vez, foi explícito quanto a seus planos poloneses. Propôs-
se reter todo o Ducado de Varsóvia, com exceção de pequena parte a ser cedida à Prússia em
obediência ao Tratado de Kalish. Essas reivindicações, proclamava Alexandre, não resultavam de
ambição; constituíam, isto sim, o desdobramento de um dever moral motivado tão-somente pelo
desejo de proporcionar felicidade ao povo polonês. Quer dizer, uma vez que não eram apresentados
em nome da segurança, não podiam ameaçar ninguém. Castlereagh, em resposta, insistiu na
ameaça representada por uma Polônia constitucional para a tranquilidade das províncias polonesas
que permanecessem com a Áustria e a Prússia, e acrescentou a duvidosa afirmação de que uma
Polônia independente seria geralmente bem vista, até mesmo pela Áustria e a Prússia, mas que um
apêndice russo profundamente encravado na Europa Central constituiria permanente fonte de
inquietação. Porém o Czar deixou claro que não estava disposto a recuar de sua possessão polonesa
e a criar uma Polônia verdadeiramente independente. A primeira conferência entre Castlereagh e
Alexandre serviu apenas para demonstrar a dualidade da natureza do Czar, e que as duas posições
não guardavam correlação.

O debate repetiu-se no dia 13 de outubro, com Alexandre pretendendo refutar a afirmação de


Castlereagh de que a posse da Polônia representava uma ameaça ao equilíbrio. Embora não
admitisse que as exigências da segurança limitavam suas alegações morais, Alexandre estava
sempre pronto a invocá-las quando pareciam favorecer suas pretensões. Apresentou, então, o
curioso argumento de que seu esquema polonês, longe de estender o poder russo, na realidade o
conteria, por levar a um recuo das tropas russas para trás do Niemen. Mas quando Castlereagh fez
ver que a segurança depende do poderio total dos Estados e não da posição de seus exércitos,
Alexandre encastelou-se outra vez na tese do dever moral. Em vão Castlereagh apontou as
incoerências de Alexandre: suas pretensões morais de um lado da linha de partição, mas não do
outro; sua noção de dever limitada pelos reclamos do interesse nacional russo. Quando Castlereagh
declarou que “depende exclusivamente da disposição de Vossa Majestade Imperial (...) se o presente
Congresso constituirá uma bênção para a humanidade ou mostrará somente (...) uma corrida à
margem da lei, em busca de poder”, apenas revelava a exasperação causada pela incapacidade de
ambos em concordar com o que constituísse uma pretensão razoável. Quando o Czar retrucou que a
questão polonesa só poderia acabar de uma forma, já que ele estava na posse efetiva do país, ficou
claro que se chegara ao impasse. A disputa entre o Czar e Castlereagh evidenciara, assim, que a
persuasão seria inútil e que as relações teriam de basear-se na força, ou na ameaça de força.

IV

Enquanto negociava com o Czar, Castlereagh teve o máximo empenho em reunir essa força. Como
problema abstrato de diplomacia, sua tarefa parecia simples. Se as pretensões do Czar ameaçavam
o equilíbrio europeu, a contramedida evidente era juntar os recursos da Europa contra ele. Mas
embora o equilíbrio possa ser indivisível, aos seus componentes não parece assim. Não se podia
resistir ao Czar sem uma frente unida do resto da Europa, mas as potências da Europa não estavam
em acordo geral quanto ao verdadeiro perigo. Não desejavam ver subvertido o equilíbrio geral, mas
não se dispunham a resistir com sacrifício daquela parte dele de que sua posição histórica
dependia. Uma Rússia forte poderia dominar a Europa, mas uma Prússia com força demais podia
suplantar a Áustria, e uma Alemanha unida ameaçar a França.

Daí então ocorrer que Castlereagh, representante da potência insular, que não tinha posição
continental a defender, fosse o único estadista a pugnar por um equilíbrio geral. Hardenberg, o
ministro prussiano, mais interessado estava na Saxônia do que na Polônia; Talleyrand estava quase
tão receoso de que o problema da Polônia se resolvesse sem ele como de que se resolvesse contra
ele; e a atitude de Metternich era tão complexa quanto os dilemas com que se deparava a Áustria: a
Áustria não podia ser indiferente à expansão da Rússia na Europa Central, porque isso ameaçava
sua posição européia; nem à expansão da Prússia na Alemanha Central, porque isso ameaçava sua
posição germânica. Mas a localização geográfica da Áustria tornava uma imprudência a resistência
aberta, que faria o impacto da ação cair sobre a potência mais exposta, cancelando a política de
cooperação íntima com a Prússia, que Metternich considerava chave da segurança austríaca. A
solução óbvia era devolver à Prússia suas províncias polonesas, em troca da independência da
Saxônia. Mas as províncias polonesas da Prússia estavam fora de alcance, até que o Czar fosse
derrotado. Isto, por sua vez, era impossível sem o apoio prussiano, que a Prússia condicionava à
concordância austríaca com a anexação da Saxônia. Por outro lado, Metternich não podia contrariar
a Prússia na Saxônia, sem ajuda britânica ou francesa. Mas Castlereagh só trabalharia por
interesses europeus, não alemães, e o apoio francês, em estágio tão preliminar dos trâmites,
alarmaria as potências alemãs secundárias.

Nessa circunstância, Metternich optou por uma política de procrastinação, a fim de explorar o único
instrumento de barganha da Áustria, o fato de que as outras potências necessitavam da
aquiescência da Áustria para tornarem “legítimas” suas anexações. Por várias semanas esteve
indisponível por “doença”. Depois que se “recuperou”, foi um não mais acabar de festividades, e
seus enlevos e casos de amor eram notórios. Metternich estava decidido a separar a questão
polonesa da questão saxônica, para derrotar seus adversários separadamente; a utilizar-lhes a
impaciência por uma decisão para levá-los a um passo em falso que lhe fornecesse base moral para
a ação. Assumiu, então, o que costumava chamar a posição mais forte: a defensiva, expressão do
caráter de uma potência do status quo. “Ergui uma barricada por detrás do tempo”, disse ele ao
enviado da Saxônia, “e fiz da paciência minha arma”.

Assim, as tentativas de Castlereagh de criar uma frente unida contra a Rússia conduziram a uma
série ambígua de constelações, de coalizões sem entusiasmo e hipotéticas traições, de promessas de
apoio inflexível conjugadas a barreiras contra falsidades. Outubro inteiro Castlereagh pelejou
infatigável mas, como no ano anterior, encontrou hesitação incompreensível e cavilosas demoras.
Novamente atribuiu-se a tarefa de animar os vacilantes enquanto lhes recusava o único refrigério
que poderia incitá-los ao esforço: o apoio britânico a suas reivindicações particulares. Quando
Castlereagh exortou Hardenberg e Metternich à ação comum, foi forçado a admitir que “havia certa
desconfiança mútua (...) que não me dá direito de falar em resultados com muito otimismo”.
Queixou-se da incompreensível “timidez” de Metternich e afirmou que o ministro austríaco não
parecia fixado em nenhum plano. E admoestou Talleyrand, o qual explorava alegremente, dos
flancos, as dificuldades dos aliados, que “não competia aos Bourbons, restaurados pelos aliados,
assumir o tom de reproche (...) às combinações que haviam mantido unida a aliança”.

As questões chegaram finalmente a uma fase crítica sob a ação da Prússia, a potência que menos se
podia permitir delongas. Por certo, os Tratados de Kalish, Teplitz e Chaumont haviam garantido à
Prússia sua extensão territorial de 1805; mas sem especificar jamais onde podia a Prússia encontrar
os territórios necessários, particularmente se perdesse para a Rússia suas possessões polonesas. As
compensações disponíveis, compostas de ex-províncias ou ex-satélites da França, principalmente na
Renânia, não lhe serviam. Eram indesejáveis em virtude da separação geográfica do núcleo central
da monarquia prussiana e da religião católica de seus habitantes. Assim a Prússia pôs os olhos na
Saxônia, cobiçada desde os tempos de Frederico, o Grande, contígua a seus territórios e de
população predominantemente protestante. Mas a posição de barganha da Prússia era a mais fraca
entre as grandes potências. Ao contrário da Rússia, não estava já de posse do prêmio. Ao contrário
da Áustria, não subordinara sua participação na guerra à obtenção de condições especiais. Se,
agora, a questão polonesa se resolvesse antes do caso da Saxônia, a Prússia estaria pagando a pena
de seu engajamento total; de se haver lançado à guerra com tal fervor que sua participação nunca
se fez negociável; de negligenciar a paz porque a guerra, na verdade, se tornara um fim em si
mesma. E a Prússia precisava do consentimento da Áustria para a anexação da Saxônia, porque a
organização da Alemanha, condição indispensável à segurança da Prússia, se tornaria ilusória se a
Áustria saísse do caso da Saxônia como protetora das potências secundárias.

Não é de surpreender, portanto, que no dia 9 de outubro Hardenberg apresentasse um memorando


reconhecendo a conveniência de um “sistema intermediário baseado na Áustria, Prússia e Grã-
Bretanha”. Mas ele tornou a cooperação da Prússia na questão polonesa dependente do
assentimento austríaco à anexação da Saxônia e à ocupação provisória da Saxônia pela Prússia
como prova de sinceridade. Em sua tateante procura de aliados, em seu pretensioso esforço de
conseguir a vantagem de cada linha de ação, o memorando de Hardenberg serviu apenas para
ilustrar o dilema da Prússia: o apoio russo podia garantir-lhe a Saxônia, mas não a legitimidade;
enquanto que o apoio austríaco podia trazer a Polônia, mas não a Saxônia. O memorando de
Hardenberg foi uma súplica para que não se deixasse a Prússia dependente da boa vontade do Czar;
para que se criasse uma ordem européia baseada na amizade austro-prussiana, mas também na
posse da Saxônia pela Prússia.

Mas essa tentativa de combinar políticas incompatíveis deu a Metternich a oportunidade de separar
a questão polonesa da saxônica por meio de uma de suas enredadas manobras. Em 22 de outubro
enviou duas notas a Hardenberg e Castlereagh, cujo tom de relutante concordância com a proposta
de Hardenberg ocultava o fato de que o quadro moral que se estava criando para resistir na Polônia
mostrar-se-ia igualmente próprio para resistir na Saxônia, e que Hardenberg, no afã de cobrir-se
dos riscos, tornara inevitável sua derrota. A nota destinada a Castlereagh começava por um sumário
das razões contrárias à eliminação da Saxônia: o sinal aziago do destronamento de um governante
“legítimo”, o perigo para o equilíbrio alemão, a dificuldade em formar uma confederação germânica
se os Estados intermediários perdessem a confiança nas grandes potências. Mesmo assim, a Áustria
realizaria esse sacrifício pelo equilíbrio europeu, contanto que a Prússia resistisse no Ducado de
Varsóvia e concordasse numa divisão equitativa da influência sobre a Alemanha. Castlereagh parece
não ter notado, ou, se notou, não deu importância, que a definição do sacrifício da Áustria em prol
do equilíbrio europeu marcava também o alcance de sua reivindicação de apoio na defesa do
equilíbrio alemão, caso o sacrifício se mostrasse inútil. E ignorou uma ressalva enigmática: a de que
a anexação da Saxônia pela Prússia não devia levar a um “crescimento desproporcional”, condição
claramente impossível de satisfazer, se a Prússia antes de mais nada retomasse suas províncias
polonesas.

A nota dirigida à Prússia combinava um apelo à íntima cooperação austro-prussiana com um relato
do apoio da Áustria à Prússia durante o período crítico que levou ao Tratado de Kalish,
subentendendo, assim, que a Prússia devia sua atual posição muito mais à Áustria que à Rússia. A
política austríaca continuaria a basear-se nas mais íntimas relações com a Prússia, reforçadas por
uma Federação Germânica, mas a efetividade disso dependeria de frustrarem-se os desígnios da
Rússia na Polônia. Por essa razão, e a despeito da relutância da Áustria em endossar a eliminação
de um Estado amigo, Metternich concordava com a anexação prussiana da Saxônia, mas sob três
condições: harmonia de pontos de vista na questão polonesa, a fortaleza de Mogúncia como parte
do sistema defensivo do sul da Alemanha, e o Mosela como limite meridional do poder prussiano na
Renânia. Bastaria isto para demonstrar que Metternich estava mais preocupado com o equilíbrio
alemão do que com o europeu. Mas a ânsia de conseguir a Saxônia cegou Hardenberg e fez com que
lhe passasse despercebida outra ressalva sutil: a de que a oferta de Metternich se condicionava não
ao fato da resistência na Polônia, mas ao seu sucesso.

Assim sendo, enquanto Metternich preparava o enquadramento moral de uma ação para separar a
Prússia e a Rússia, Castlereagh olhava somente a Polônia, como se o equilíbrio europeu se pudesse
montar com a mesma exatidão de uma equação matemática. Em 23 de outubro, ele finalmente
conseguiu que a Áustria e a Prússia concordassem num plano comum de ação contra a Rússia com
base no memorando de Metternich. As três potências dispuseram-se a forçar o problema
confrontando o Czar com a ameaça de levantarem a questão polonesa no plenário do Congresso
caso não se chegasse a uma solução razoável por meio de negociações diretas. Propuseram três
soluções aceitáveis: uma Polônia independente, tal como existia antes da primeira partilha, o
remanescente da Polônia nos moldes de 1791, ou a restituição, às potências partilhantes, de suas
antigas possessões. Evidente que a independência polonesa foi incluída primordialmente como
ponto de barganha e para consumo interno britânico, pois não era de supor que o Czar concordasse
com a cessão de território considerado russo por duas gerações, e depois de uma guerra vitoriosa.

A ameaça de apelo à Europa em Congresso foi o último esforço para estabelecer o equilíbrio
europeu por uma combinação interna da Coalizão antifrancesa. Quando Metternich procurou o Czar
para apresentar o ultimato sobre a questão polonesa, foi despedido com altaneria e até desafiado
para um duelo, outra indicação de que o Czar concebia relações exteriores em termos pessoais. E
quando, em 30 de outubro, os três soberanos partiram para uma visita à Hungria, Alexandre
recorreu a seus irmãos monarcas contra os respectivos ministros. Falhou junto ao Imperador
austríaco, mas com o insípido e prosaico Rei da Prússia foi diferente, que este sempre admirara o
caprichoso Czar por sua intrepidez no desastre e pelo brilho de seu intelecto. Não foi muito difícil
convencê-lo, agora, de que as negociações secretas dos três ministros eram um ato de má-fé.
Quando os monarcas retornaram a Viena, Hardenberg recebeu ordens, na presença do Czar, de
abster-se de quaisquer novas negociações em separado com seus colegas austríaco e britânico.

Dessa maneira, em 5 de novembro, a disputa sobre a Polônia ficou em suspenso pelo momento. Os
rogos pessoais de Castlereagh haviam fracassado porque Alexandre insistira em fundamentar suas
pretensões num “direito” que transcendia aos requisitos da segurança européia; a tentativa de
reunir uma força superior mostrou-se inútil porque não houve suficiente resolução na aliança
antifrancesa para obrigar o Czar a concordar e porque problemas complexos não se solucionam
pela mera declaração de que são simples. O trabalho de alcançar uma ordem internacional baseada
no acordo e não na força parecia ter voltado à estaca zero.

Mas esta era uma impressão errônea. Pois se o fracasso de Castlereagh provara que o equilíbrio não
podia ser obtido por uma demonstração de sua necessidade, o trabalho complementar quase
imperceptível de Metternich havia criado o quadro moral para reabrir-se a questão por uma
invocação à legitimidade. E se a derrota na Polônia pudesse traduzir-se em vitória na Saxônia,
talvez a vitória na Saxônia pudesse fornecer meios para arrancar concessões na Polônia. A
procrastinação, tão irritante para Castlereagh, fora, de fato, o meio mais eficaz para Metternich
superar seus dilemas, pois a demora reforçou a melhor arma de barganha da Áustria: o fato de a
legitimidade poder ser conferida mas não extorquida, de supor assentimento e não imposição. Suas
atitudes do mês de outubro, portanto, destinavam-se principalmente a romper a frente russo-
prussiana e fornecer um fundamento moral à ação na direção que se mostrasse mais vulnerável. “A
arte mais refinada de Metternich”, escreveu Talleyrand, “é a de fazer-nos perder tempo, pois
acredita ganhar com isso”. Assim as semanas haviam passado enquanto a Europa se queixava da
frivolidade do ministro austríaco, e a velha escola de diplomatas austríacos esbravejava que seu
ministro “renano”, que apelidaram Príncipe Scamperlin, traía o Império com a Prússia. Mas na
admiração pela frase famosa do Príncipe de Ligne: “O Congresso dança, mas não anda”, não se
percebia que o Congresso dançava para uma armadilha. Quando Hardenberg ofereceu a Metternich
sua cooperação, pode ter imaginado que consolidava suas vantagens e obtinha uma garantia quanto
à Saxônia, qualquer que fosse o resultado das negociações polonesas. Mas como a resposta de
Metternich deixara a concordância austríaca com a anexação da Saxônia condicional ao sucesso de
suas medidas comuns, o esforço para ligar os dois casos tornou-se o meio de separá-los. Pois se as
negociações polonesas fossem bem sucedidas, a Prússia perderia, aos olhos da Europa, seu direito
moral à Saxônia. Se a Prússia retomasse suas possessões polonesas, a anexação da Saxônia
representaria o “crescimento desproporcional” contra o qual Metternich alertara Castlereagh. Nem
seria necessário, nessa eventualidade, que Metternich assumisse o esforço maior da oposição.
Talleyrand, com toda certeza, resistiria (na verdade foi difícil contê-lo em outubro), e os Estados
alemães secundários se aglutinariam em torno dele. O Czar, frustrado na Polônia, muito
possivelmente apreciaria a decepção da Prússia; enquanto Castlereagh, já sob ataque no
Parlamento por causa da Saxônia, não poderia apoiar a exigência prussiana de anexação.
Castlereagh, afinal, parece ter previsto a possibilidade desse desenrolar. “Na eventualidade de êxito
no esforço comum com relação à Polônia”, escreveu a Liverpool, “[a França] teria meios mais hábeis
de impor amigavelmente à Prússia alguma modificação em suas exigências sobre a Saxônia”.

Mas se as negociações polonesas falhassem, a Prússia perderia seu direito à Saxônia aos olhos da
Áustria. O isolamento da Prússia estava assegurado, com mais certeza ainda, porque o fato da sua
resistência afastaria o Czar quase tão certamente quanto o êxito da resistência. Demonstrada a
preocupação européia da Áustria ao ceder na Saxônia, a intransigência poderia agora ser defendida
pelos requisitos do equilíbrio europeu, e não alemão. E Castlereagh, tendo obtido o apoio austríaco
nas negociações polonesas, não podia mais tratar o assunto saxônico como um problema interno
alemão. Quanto à atitude da França ou dos Estados germânicos menores, não podia haver dúvidas.
A Prússia, no afã do resseguro, apenas conseguira o isolamento.

Quando em 7 de novembro Hardenberg informou Metternich das ordens do Rei e da dificuldade em


levar a efeito o plano acertado sobre a Polônia, Metternich tinha finalmente a base moral para a
ação. ** Aguardou até 18 de novembro antes de insistir no cumprimento das três condições do
memorando de 22 de outubro. Sugeriu que, tendo a ordem do Rei tornado impossível a utilização de
Castlereagh como intermediário, Hardenberg conduzisse as negociações com o Czar. Mas isto só
serviu para armar Metternich de outra prova da sinceridade austríaca e de outra razão para resistir
na Saxônia, porque, em vista da ascendência do Czar sobre o Rei prussiano, não restava dúvida
quanto ao resultado de uma proposta solitária da Prússia. Hardenberg foi obrigado a contar que o
Czar outra vez invocara a pureza de suas intenções, mas que a única concessão a que se dispunha
era declarar Thorn e Cracóvia cidades livres. Embora Alexandre houvesse dissimuladamente
deixado essa concessão na dependência da concordância austríaca com a anexação da Saxônia, a
negociação saxônica tornou-se, assim, o meio de restabelecer a fluidez da questão polonesa. Pois a
oferta do Czar, mesmo condicional, constituía sua primeira admissão de que a extensão territorial
da Polônia, afinal de contas, não estava de todo assentada.

Metternich apresentou a resposta final austríaca em 10 de dezembro. A Áustria estava interessada


no mais íntimo relacionamento com a Prússia, mas não ao preço do desaparecimento da Saxônia. A
Federação Germânica, da qual dependia o bem-estar comum, continuaria natimorta, porque
nenhum dos Estados secundários alemães iria aderir a uma organização baseada na eliminação de
um deles. Tendo sido forçada a tolerar a expansão russa na Polônia, a Áustria não podia concordar
com o crescimento prussiano na Alemanha sem romper por completo o equilíbrio. Metternich
sugeriu um plano alternativo que mantinha um núcleo da Saxônia, cedendo uma grande parte do
país à Prússia juntamente com outras compensações na Renânia. Mas todos os protestos de
amizade não obscureciam o fato de ter sido a Prússia vencida na manobra, de ter Metternich
perdido na Polônia apenas para vencer na Saxônia e depois restaurar parcialmente a situação na
Polônia usando a Saxônia.

Não fez muita diferença que em 8 de novembro o governador militar russo da Saxônia passasse a
administração provisória para a Prússia, nem que os militares prussianos ameaçassem com a
guerra. A Rússia, na periferia da Europa, podia escorar sua pretensão à Polônia no fato da
ocupação, mas uma potência situada no centro do Continente só podia sobreviver como componente
de uma ordem “legítima”, tanto na Alemanha como na Europa. Assim, embora em meados de
dezembro o Congresso de Viena parecesse haver chegado a um impasse completo, por trás do pano
preparava-se uma transformação fundamental. Um impasse não é total enquanto não estão
engajados todos os fatores, e a França ainda não estava comprometida. As contendas de outubro e
novembro haviam liquidado o mito da unidade aliada, e a ameaça da França já não parecia maior do
que aquela representada pelo aliado da véspera. Evidenciava-se que a lembrança de uma ação
comum já não bastava para inibir qualquer potência de tentar somar a França ao seu lado da
balança.

Enquanto Castlereagh se lastimava do fracasso polonês e acusava Metternich de nunca se ter


realmente interessado em resistir, ia se formando uma nova combinação sobre a questão saxônica
que imprimiria outra direção à disputa. Pois a Coalizão que podia resistir na Saxônia era, por
definição, também a Coalizão que podia resistir na Polônia. E se as reivindicações de poder fossem
derrotadas numa área, o fato limitaria, quase necessariamente, as asserções de arbitrariedade na
outra. Portanto, estava provado, afinal, que o equilíbrio era indivisível, embora a solução não tenha
surgido de uma consciência disso. Não foi em nome da Europa que a Europa foi salva, mas em nome
da Saxônia.

VI

Mas antes que essa nova combinação se pudesse formar, pressões domésticas sobre Castlereagh
quase fizeram gorar o plano finamente traçado de Metternich. Uma potência insular pode fazer suas
guerras em nome do equilíbrio europeu, mas tem a tendência de identificar as ameaças ao
equilíbrio com ameaças à sua segurança imediata. Sendo sua política defensiva e não preventiva,
isto fará depender a causa da guerra de um ato aberto que “demonstre” o perigo. Mas o perigo para
o equilíbrio só fica demonstrado quando este já está transtornado, porque um agressor sempre pode
justificar cada passo, exceto o derradeiro, crucial, como manifestação de uma pretensão limitada, e
conseguir aquiescência como preço da moderação evidenciada. Não há dúvida de que a Grã-
Bretanha entrou na luta contra Napoleão logo de início, e nela se manteve com grande persistência.
Mas a ameaça ao equilíbrio se manifestara por um ataque aos Países Baixos, e a balança de poder
veio a identificar-se com a posse de Antuérpia.

Agora, no entanto, a questão era a Polônia, país “distante”, geográfica e psicologicamente. Não
estava claro, até “comprovar-se”, que melhor se defendia o Reno no Vístula, ou que existisse outra
ameaça à paz além da França. Nesta disposição de espírito, o Gabinete considerou a disputa
polonesa um resultado irritante da rivalidade continental, a pôr em perigo tuna paz tão
custosamente obtida, e tratou-a primordialmente sob o aspecto do impacto sobre a política interna
britânica. Esse fato levou a uma discussão entre o Gabinete e Castlereagh, na qual ambos os lados
se esforçaram para convencer-se de que o desacordo era na realidade um mal-entendido, causado
por informação insuficiente, quando a distância entre eles era pouco menor que aquela que
separava o Czar de Castlereagh. Pois enquanto o Czar tentava garantir a segurança continental por
meio de sua palavra, o Gabinete britânico pretendia identificar a segurança com uma posição
insular. A arbitrariedade do poder e a irresponsabilidade do isolamento eram o Cila e o Caríbdis
entre os quais Castlereagh foi forçado a navegar.

Em 14 de outubro Liverpool escreveu a Castlereagh que “quanto menos a Grã-Bretanha tiver a ver
[com a Polônia] (...) melhor” e assinalou que, do ponto de vista do Parlamento, o plano do Czar era
preferível a uma nova partilha, pois preservava o princípio da independência polonesa. Liverpool
repetiu esses argumentos em 28 de outubro e encaminhou um memorando do Chanceler do
Tesouro, Vansittart, que simplesmente negava a realidade do perigo russo. Com a petulância da
mediocridade, a convencer-se de que a saída mais fácil é também a melhor linha de ação, Vansittart
argumentava que a absorção da Polônia adicionaria um elemento de fraqueza ao Estado russo ao
mesmo tempo que conduzia ao comércio britânico. Estas mensagens forçaram Castlereagh a
enunciar mais uma vez a conexão entre a segurança britânica e a segurança continental. Insistia em
que não se opunha à Rússia motivado pela Polônia, e sim pela Europa. Se a questão polonesa se
solucionasse em prejuízo das Potências Centrais, as demais questões se resumiriam numa contenda
entre a Áustria e a Prússia dentro da Alemanha, transformando a Rússia em árbitro da Europa
Central e deixando a Holanda indefesa. A segurança até mesmo dos mais imediatos interesses
britânicos dependia, assim, de uma política européia: “A mim me parecia melhor para a Grã-
Bretanha lutar por uma questão européia de primeira grandeza, fiel ao espírito da política que lhe
marcou a conduta durante toda a guerra, do que (...) reservar-se para um único objetivo, a saber, os
Países Baixos (...) que podiam ver-se expostos a um desagradável problema num conflito entre as
potências germânicas.

Mas a resposta de Liverpool deixou bem claro que o Gabinete mais receava a França que a Rússia, e
a guerra mais do que qualquer ameaça ao equilíbrio de potências. Uma guerra agora, sustentava
Liverpool, podia tornar-se um conflito revolucionário, ao passo que até mesmo dois anos de paz
podiam trazer uma estabilidade em que as guerras limitadas do século XVIII seriam novamente a
regra. No dia 22 de novembro o Gabinete enviou suas primeiras instruções a Castlereagh desde que
este chegara a Viena: “Desnecessário apontar-lhe”, escreveu Bathurst, “a impossibilidade de (...)
consentir no envolvimento deste país em hostilidades (...) por qualquer das matérias que até aqui
têm estado em discussão em Viena”.

Assim, no ponto crucial das negociações, Castlereagh foi despojado de seu único meio de exercer
pressão, e num momento em que o problema se tornava um caso de poder puro e simples. Pois a
Prússia, pela contemporização de Metternich, estava sendo conduzida a uma ação precipitada. À
medida que assistia ao desmoronamento de sua base moral e material, sua entonação se tornava
cada vez mais belicosa. Seus militares falavam abertamente em guerra, e até mesmo o moderado
Hardenberg insinuava medidas extremas. Mas se a posse sem legitimidade era falaz, a legitimidade
através da força mostrou-se inútil. Castlereagh simplesmente definia o dilema da Prússia ao dizer a
Hardenberg que “ele [Hardenberg] não podia considerar de bom título uma reivindicação não
reconhecida, e jamais poderia, em consciência, ou com honra (...) fazer de uma simples recusa de
aceitação causa de guerra”. Sendo estas as circunstâncias, Castlereagh não tencionava seguir as
instruções de seu Gabinete. Anunciar o desinteresse britânico seria remover o maior dissuasor da
guerra e, no afã de garantir a paz, o Gabinete teria causado o mal que mais temia. Ou, então, a
retirada inglesa da contenda levaria a uma rendição austríaca e ao completo rompimento do
equilíbrio.

Foi assim que Castlereagh e Metternich viram-se outra vez do mesmo lado numa batalha cujo
arcabouço moral fora definido pelo esperto ministro austríaco. Quanto mais intransigente a atitude
da Prússia, mais forte ficava a posição de Metternich. Sem necessidade de discussões abstratas a
Áustria apareceu como protetora das potências secundárias. Quando Metternich propôs uma
aliança à Baviera e Hanover, e a formação de uma Liga Alemã, sem a Prússia, simplesmente deu
expressão a um consenso geral. Transformando-se a disputa num teste de poder, Metternich
ocupava de novo uma posição em que estava resistindo a exigências que podiam ser consideradas
exorbitantes e injustas. Mas com a aproximação da prova decisiva de força, tornava-se necessário,
também, arrebanhar o máximo de meios. Foi neste ponto, quando desapareciam os últimos vestígios
da aliança, que Talleyrand reentrou em cena. Surgiu porque Metternich o colocou no palco, e sua
eloquência foi apenas o reflexo do desejo de anonimato de Metternich, pois este não estava
interessado em aparecer como agente da humilhação da Prússia. Queria que os acontecimentos
chegassem “naturalmente”, porque isso reduzia o perigo de rompimentos pessoais; já Talleyrand
desejava que parecessem “causados”, o que consolidaria sua difícil posição doméstica.

Talleyrand recebeu sua oportunidade de Metternich, que lhe comunicou a resposta austríaca de 10
de dezembro a Hardenberg, e, assim, tornou claro que os Quatro Grandes não haviam sido capazes
de solucionar a questão. Talleyrand respondeu num memorando incisivo, que asseverava a
superioridade das teses de legitimidade sobre os requisitos de equilíbrio e contestava a
possibilidade de se deporem reis, pois soberanos não podiam ser julgados, menos ainda por quem
lhes cobiçava os territórios. Não cabia à Prússia estabelecer o que iria tomar, sustentava Talleyrand
Ousadamente, mas ao rei “legítimo” da Saxônia definir quanto podia ceder. Magistral resumo de
todas as incoerências de dois meses de acrimônia, mas não era esse seu verdareiro significado.
Talleyrand melhor servira a França por estar “disponível” que por escrever memorandos. A
verdadeira importância da troca de correspondência foi o fato de a França participar outra vez do
concerto da Europa.

Entrementes, a Prússia chegava ao pânico. Com o fim de pôr à mostra a velhacaria de Metternich,
Hardenberg passou ao Czar algumas das cartas de Metternich sobre a questão polonesa, numa
quebra sem precedentes da ética profissional diplomática. Mas ainda uma vez neste caso, a ação
dilatória de Metternich durante o mês de outubro pagou dividendos. Pois praticamente cada atitude
de Metternich fora em resposta a uma iniciativa prussiana, e quando Hardenberg se retirara do
acordo, justificara essa atitude como um adiamento do conflito com o Czar para tempos mais
propícios. Quando, portanto, Metternich enviou ao Czar todas as suas cartas, Hardenberg foi outra
vez ultrapassado, pois não teve coragem de apresentar suas próprias cartas. Mas essa troca de
alfinetadas teve uma consequência salutar, pois mostrou ao Czar o quanto ele inquietara as outras
potências com seus planos poloneses. Depois de sua intransigente atitude de outubro e novembro,
Alexandre, afinal, atravessara uma das mudanças repentinas de disposição que o caracterizavam.
Foi-se a militância inicial, substituída pelos primeiros sintomas da exaltação religiosa que iria
dominá-lo pela década seguinte. Quando o Imperador Francisco foi procurá-lo para esclarecer o
mal-entendido, Alexandre, já de acordo com sua nova fase, ofereceu ceder de volta à Áustria, como
testemunho de sua boa-fé, o distrito de Tarnopol, com uma população de 400.000 habitantes. O Czar
podia terminar retendo a maior parte da Polônia, mas somente através de um processo de
ajustamento, que simbolizava sua necessidade do reconhecimento das outras potências.

Em desespero, a Prússia então propôs transplantar o Rei da Saxônia para a Renânia, nos territórios
destinados à Prússia. Mas nem Metternich nem Castlereagh estavam dispostos a concordar:
Metternich, porque isso transformaria o Rei da Saxônia de aliado da Áustria em vassalo da Prússia;
Castlereagh, porque, na fidelidade ao Plano Pitt, queria ver uma potência de primeira ordem
protegendo a Renânia e apoiando a Holanda. E a balança cada vez mais pendia contra a Prússia,
pois Castlereagh e Metternich lentamente insinuavam a França nos conselhos aliados. Uma vez que
parte da disputa entre a Áustria e a Prússia envolvia a questão técnica de saber onde encontrar os
territórios que recolocassem a Prússia na escala de 1805, Castlereagh propôs a criação de uma
Comissão Estatística para determinar a população dos territórios disputados. Quando se admitiu
nessa comissão um delegado francês, sob a pressão dos austríacos e dos ingleses, tornou-se
evidente que a Coalizão contra a França encontrava- se em processo de dissolução.

Apenas um pequeno passo separava Talleyrand da participação plena nas deliberações.


Castlereagh, que esperava poder evitar passo tão drástico, finalmente concordou no dia 27 de
dezembro. Em 31 de dezembro, Castlereagh e Metternich propuseram que a partir daquela data
Talleyrand participasse das reuniões dos Quatro Grandes. A Prússia estava agora inteiramente
isolada, pois o surgimento de Talleyrand era o símbolo de que as reivindicações especiais da aliança
haviam acabado antes que a Prússia colhesse os seus frutos da guerra. Nem mesmo o Czar, nas
palavras de Castlereagh, “aconselharia a Prússia a resistir, já tendo assegurado sua própria solução
na Polônia”. Assim repelida em seus últimos recursos, a Prússia ameaçou com a guerra.

Todavia, essa reação simplesmente serviu para mostrar a impotência da Prússia. Castlereagh
replicou duramente que “semelhante insinuação podia funcionar com uma potência que tremesse
por sua existência, mas só podia ter efeito contrário sobre aquelas que tinham consciência da
própria dignidade; e acrescentei que, a prevalecer semelhante estado de espírito, não estávamos
deliberando em situação de independência e melhor seria encerrar o Congresso”. Naquele mesmo l.
° de janeiro de 1815 Castlereagh propôs uma aliança defensiva entre França, Áustria e Grã-
Bretanha. Evidentemente exigiu-se de Talleyrand que garantisse os Países Baixos e reafirmasse as
estipulações do Tratado de Paris. Mas a façanha maior de Talleyrand em Viena foi precisamente
esse espetáculo de autolimitação, essa recusa a vender a participação francesa na aliança por uma
vantagem territorial, intento que teria unido todas as demais potências contra ele. Ganhou, em
consequência, algo muito mais importante: o fim do isolamento da França e o reconhecimento de
sua igualdade.

Dessa forma, quase exatamente um ano depois que partiu pela primeira vez para o Continente,
Castlereagh, numa violação direta de suas instruções, dissolveu a aliança que tanto lutara por criar,
em benefício do próprio equilíbrio que ela devia perpetuar. Foi um passo abrupto e corajoso. Uma
concepção defensiva de relações internacionais envolve o perigo da inflexibilidade, a tendência para
basear a política externa no último perigo passado, e não no perigo do momento. Pela proposta de
um pacto com o inimigo de até então, Castlereagh demonstrava saber que política nenhuma, mesmo
a mais bem sucedida, pode tornar-se fim em si mesma. Por sua decisão num momento crucial,
deixou clara sua concepção da responsabilidade do estadista: que oportunidades perdidas não se
recuperam; que o tempo de uma providência não podia, pelo menos nas condições do início do
século XIX, depender da existência de instruções. O fato de ir até mesmo além e considerar-se livre
para violar suas instruções, bem demonstra tanto a sua supremacia interna quanto a convicção de
que sua justificativa residia na confiança do Gabinete em sua política básica, e não na aprovação de
cada passo.

E a aliança de 3 de janeiro marcou a culminação de outra dessas campanhas diplomáticas pelas


quais Metternich isolava seus adversários em nome da razão universal, e não das razões de Estado.
Uma aliança com a França contra a Prússia em outubro teria causado o protesto horrorizado da
Europa. Essa mesma aliança, em janeiro, foi aclamada como defesa do equilíbrio. A resistência à
Prússia em outubro seria interpretada como expressão de um egoísmo míope; essa mesma
resistência, em janeiro, foi saudada como a proteção da legitimidade contra a pretensão da força.
Tal como na primavera de 1813, Metternich havia preparado sua posição moral sabendo esperar
mais que o adversário, utilizando sua impaciência por uma decisão para comprometê-lo
inapelavelmente. Necessitando a Prússia da aquiescência da Áustria na anexação da Saxônia,
Hardenberg propusera ações conjuntas contra o Czar. O problema saxônico viu-se assim
transformado de questão alemã em européia, por iniciativa da Prússia, e foi separado tão
habilmente do caso da Polônia que Hardenberg só compreendeu o que acontecera quando já era
tarde demais. E como o Czar se mostrara ansioso de demonstrar sua beneficência, havia oferecido
como livre concessão na Polônia o que Castlereagh não fora capaz de extorquir com ameaças. Foi
Castlereagh, não Metternich, que suportou a carga da negociação final na questão saxônica, e foi
ele, não Metternich, quem alvitrou a aliança de 3 de janeiro. A habilidade política de Metternich
compreendia o valor da nuança; que o modo era tão importante quanto o fato da realização, às
vezes até mais. A questão em Praga não fora para Metternich o fato da guerra, e sim sua causa; a
questão em Viena não foi a retomada do equilíbrio, mas a maneira de salvá-lo. A Saxônia, salva por
uma afirmação do poder austríaco, seria o início de um conflito sem fim; poupada em nome da
Europa, abriu uma ferida que podia cicatrizar.

VII

Se a aliança defensiva provocou a crise do Congresso de Viena, abriu também o caminho para sua
resolução. Em qualquer negociação está subentendido que a força é o último recurso. Mas é da arte
da diplomacia manter latente essa ameaça, deixar indeterminada sua extensão, e empregá-la só em
último caso. Pois tão logo a força se faz tangível, as negociações propriamente ditas cessam. Uma
ameaça de emprego da força que não seja para valer não recoloca a negociação no ponto em que se
achava ao ser feita. Liquida a posição de barganha, pois constitui confissão, não de poder finito mas
de impotência. Levando as questões a um ponto crítico, a Prússia viu-se frente a três potências cuja
determinação não era de se pôr em dúvida, embora o tratado propriamente dito permanecesse em
segredo. E o Czar mostrou-se um aliado morno. Uma série de soluções parciais isolara a Prússia, de
vez que potências “satisfeitas” não vão à luta por reivindicações de outra, se houver uma alternativa
honrosa.

Tocava a Metternich tomar providências para que essa alternativa se apresentasse. Já em seu
memorando de 10 de dezembro formulara um plano pelo qual a Prússia podia ser reconstituída nos
moldes de 1805 pela aquisição de territórios na Renânia juntamente com uma porção da Saxônia.
Esse plano foi agora encampado por Castlereagh, quando se evidenciou que a Prússia não efetivaria
sua ameaça de guerra. Em 3 de janeiro, depois de Metternich e Castlereagh declararem que não
negociariam sem Talleyrand, o próprio Hardenberg, para salvar as aparências, recomendou a
participação de Talleyrand. Em 5 de janeiro Castlereagh podia dizer que “o alarma de guerra
passou”. A questão saxônica foi, a partir de então, discutida oficialmente pelos agora Cinco
Grandes, e em grande parte resolvida através de negociações extraoficiais, nas quais Castlereagh
desempenhou o papel de intermediário entre Metternich e Talleyrand, de um lado, e o Czar e
Hardenberg, de outro.

As negociações que levaram ao acordo final revelaram novamente as qualidades especiais de


Castlereagh em sua melhor forma. O quadro estava, uma vez mais, determinado; era claro que
nenhuma das potências se dispunha à guerra, a Rússia talvez ainda menos que todas. Restava a
tarefa essencialmente técnica de ajustar, com paciência, perseverança e boa-vontade, os pontos de
vista conflitantes. Gentz relata que Castlereagh trabalhou infatigavelmente dia e noite para dar
solução ao problema. Havia um motivo especial para isso. Aproximando-se uma sessão do
Parlamento, Liverpool pediu-lhe, como no ano anterior, que regressasse; caso contrário, talvez a
Câmara dos Comuns se mostrasse incontrolável. Mas, como da outra vez, Castlereagh recusou-se,
insistindo em que voltaria assim que fosse possível, mas dizendo que “você bem podia esperar que
eu fugisse de Leipzig (estivesse eu lá) no ano passado (...) se acha que vou sair daqui antes que (...)
se solucione a disputa; de mais a mais, creio que não só comete uma grave injustiça com os que o
apoiam aí como me lisonjeia demais ao supor minha presença assim tão necessária”.

Nesse empenho de chegar a um acordo final, Castlereagh teve que resistir a nova tentativa
prussiana de remover o Rei da Saxônia para a margem esquerda do Reno e a um esforço da Áustria
para garantir à Saxônia a fortaleza de Torgau, no Elba. Mas com a ajuda do Czar, ele convenceu a
Prússia de que, no interesse do equilíbrio europeu, ela teria de assumir a proteção da Renânia, e
deixou claro à Áustria que a aliança defensiva apenas se referia a uma tentativa real de rompimento
do equilíbrio europeu, e não às arrumações alemãs internas. O perigo de guerra também tornara o
Czar mais flexível. Quando Castlereagh sugeriu algumas concessões na Polônia a fim de tornar o
esquema saxônico mais apetecível à Prússia, Alexandre concordou em devolver a cidade de Thorn à
Prússia. Metternich aproveitou imediatamente a oportunidade para tentar atrair o Czar a outra
série de ajustamentos e transferir-lhe o ônus pelas fronteiras insatisfatórias da Prússia. Propôs
ceder de volta à Rússia o distrito de Tarnopol em troca de outras concessões à Prússia. Embora o
Czar recusasse, a questão saxônica se estabelecera como o meio de limitar as aspirações russas na
Polônia. O que não pôde ser conseguido em nome do equilíbrio geral da Europa foi obtido através
de certo número de concessões que tornaram possíveis arranjos locais.

No dia 11 de fevereiro chegou-se a um acordo final. Na Polônia, a Áustria conservava a Galícia e o


distrito de Tarnopol, enquanto Cracóvia se tornou cidade livre. A Prússia ficou com o distrito de
Posen e a cidade de Thorn, que controlava o alto Vístula. O restante do Ducado de Varsóvia, com
uma população de 3,2 milhões de habitantes, tornou-se o Reino da Polônia, tendo por monarca o
Czar da Rússia. Na Alemanha, a Prússia obteve dois quintos da Saxônia, a Pomerânia sueca, boa
parte da margem esquerda do Reno e o Ducado da Westfália. A Áustria já obtivera garantia de
compensação na Itália Setentrional e o predomínio em toda a Itália através do estabelecimento de
dinastias dependentes em Parma e na Toscana. Estabelecia-se assim, afinal, o equilíbrio da Europa,
e com uma tintura de harmonia. Não foi alcançado com a precisão de um axioma matemático, tal
como Castlereagh imaginara, pois embora os Estados possam, para quem está de fora, parecer
simples fatores de um dispositivo de segurança, eles próprios consideram-se expressões de forças
históricas. Não é o equilíbrio como fim que lhes interessa — esta é a concepção de uma potência
insular — mas como meio de realizar suas aspirações históricas em relativa segurança. Não foi por
acidente, então, que a disputa sobre a Polônia, surgida em nome de abstratas considerações de
equilíbrio de potências, se mostrou inconcludente, e que a contenda sobre a Saxônia, envolvendo o
problema histórico da Alemanha, forneceu a chave para a solução.

Em 9 de junho de 1815 as Atas Finais de Viena foram ratificadas pela Europa reunida em
Congresso. Foi esta a única sessão do Congresso de Viena.

VIII

Há duas maneiras de construir uma ordem internacional: pela vontade ou pela renúncia; pela
conquista ou pela legitimação. Durante vinte e cinco anos a Europa estivera convulsionada por uma
tentativa de chegar-se à ordem através da força, e a lição, para os contemporâneos, não foi o
fracasso da tentativa, mas seu quase sucesso. Não é de surpreender, portanto, que em seu esforço
de criar uma alternativa os estadistas de Viena voltassem os olhos para um período anterior que
conhecera estabilidade, e que identificassem essa estabilidade com seus arranjos internos. Os
estadistas de Viena não estavam interessados em transformar a humanidade, porque ante seus
olhos esforço semelhante conduzira à tragédia de um quarto de século de lutas. Transformar a
humanidade por um ato de arbítrio, ultrapassar o nacionalismo francês em nome do nacionalismo
da Alemanha, a eles pareceria fazer a paz pela revolução, buscar estabilidade no desconhecido,
admitir que um mito, uma vez derrubado, não se recupera.

A questão em Viena, portanto, não era reforma contra reação — esta é uma interpretação da
posteridade. Em vez disso, o problema era criar uma ordem na qual a mudança pudesse chegar
através de um sentimento de obrigação, de contrato, ao invés de vir por meio de uma afirmação de
poder. Pois a diferença entre uma ordem revolucionária e uma ordem legítima sadia não é a
possibilidade de mudança mas o modo de realizá-la. Uma ordem “legítima” não estagnada completa
suas transformações pela aceitação, e isso pressupõe consenso quanto à natureza de um acordo
justo. Mas uma ordem revolucionária, tendo destruído a estrutura de obrigações existente, tem que
impor suas medidas pela força, e o Reinado do Terror de qualquer revolução é inevitavelmente um
reflexo quase exato do sucesso que ela teve em varrer a legitimidade existente. Uma ordem
“legítima” limita o possível pelo justo; uma ordem revolucionária identifica o justo com o
fisicamente possível. Uma ordem legítima enfrenta o problema de criar uma estrutura que não
torne a mudança impossível; uma ordem revolucionária confronta-se com o dilema de que a
mudança pode tornar-se um fim em si, tornando, dessa maneira, impossível o estabelecimento de
qualquer estrutura. Em nenhum dos dois casos a reforma é efetuada por um ato repentino de
intuição; esta é uma ilusão dos utopistas. Tampouco é possível construir uma ordem que não tenha
defensores do status quo ou não tenha reformadores, e a tentativa de fazê-lo leva ao delírio do
Estado totalitário ou à estagnação. A higidez de uma estrutura social está em sua capacidade de
traduzir transformação em aceitação, de estabelecer relação entre as forças da mudança e as da
conservação. Os estadistas de Viena haviam feito uma tentativa de estabelecimento dessa relação
pela força; não era estranho que tentassem construir uma alternativa baseada na “legitimidade”.

Como quer que julguemos o conteúdo moral de sua solução, ela não excluía nenhuma grande
potência do concerto europeu e dava testemunho, portanto, da inexistência de cisões insuperáveis.
O ordenamento não assentou em simples boa-fé, o que seria pedir demais da autolimitação; nem na
eficácia de uma pura avaliação de poder, o que tornaria os cálculos demasiado indeterminados.
Antes criou-se uma estrutura em que as forças eram suficientemente balanceadas, a fim de que a
autocontenção pudesse parecer alguma coisa mais que abnegação, mas que tomava em conta as
alegações históricas de seus componentes, para que sua existência se pudesse traduzir em
aceitação. Potência nenhuma houve, na nova ordem internacional, tão insatisfeita que não
preferisse buscar seus remédios dentro do quadro do ajuste de Viena ao invés de procurá-los em
sua derrubada. De vez que a ordem política não continha uma potência “revolucionária”, suas
relações tornaram-se cada vez mais espontâneas, baseadas na certeza crescente da improbabilidade
de uma convulsão catastrófica.

Não foi por uma feliz casualidade que a ordenação de Viena veio a ser tão universalmente aceita.
Durante toda a guerra Castlereagh e Metternich haviam insistido em que sua atuação visava à
estabilidade, não à vingança, e se realizaria, não pelo esmagamento do inimigo, mas pelo seu
reconhecimento de limites. Se compararmos o esboço do acordo de Viena com o Plano Pitt, e sua
legitimação com a das instruções a Schwarzenberg, veremos que a sorte, em política como em
outras atividades, não é senão um resíduo da intenção. Não quer isto dizer que a solução revelou
uma presciência que fazia todos os acontecimentos se ajustarem a uma certa visão. Castlereagh,
trocando sua convicção do equilíbrio mecânico pela de um equilíbrio histórico, mantido através da
comunicação íntima entre seus membros, separou-se cada vez mais do espírito de seu país.
Metternich, ao tentar manter a supremacia tanto na Itália como na Alemanha, foi obrigado a uma
política além de seus recursos. Sua luta cada vez mais inflexível pela legitimidade revelava uma
consciência crescente da insuficiência da base material da Áustria para a tarefa européia a que ele
a destinara. Se uma política de poder puro e simples é suicida para um Império localizado no centro
de um continente, a confiança numa legitimidade não apoiada é desmoralizante e leva à estagnação.
O estratagema pode ser um substituto da força quando os objetivos são determinados, mas não
substitui a concepção quando os desafios são internos. E a Prússia, com receios e hesitações, com
uma sensação de humilhação nacional e rendição relutante, foi forçada a participar de uma missão
alemã a despeito de si mesma. Estendendo-se agora do Vístula ao Reno, simbolizava a procura da
unidade alemã. Espalhada em enclaves por toda a Europa Central, sua necessidade de segurança,
senão sua concepção de uma missão nacional, forçou-a a tornar-se, ainda que com relutância, o
agente de uma política alemã. Situada de través em relação aos principais cursos d’água e rotas
terrestres, a Prússia veio a dominar a Alemanha economicamente antes de unificá-la fisicamente. A
derrota na Saxônia, de tão amarga lembrança, tornou-se o instrumento da vitória final da Prússia
sobre a Áustria.

Mas isso ainda estava cinquenta anos no futuro, e uma política realmente vitoriosa talvez tenha sido
impossível para a Áustria num século de nacionalismo. A tragédia pode ser o destino de nações,
como o é de pessoas, e seu significado pode muito bem consistir em viver num mundo com que não
se é mais familiar. Nesse sentido, a Áustria foi o Dom Quixote do século XIX. Talvez a política de
Metternich deva julgar-se, não pelo fracasso final mas pelo tempo durante o qual protelou o
desastre inevitável. Ao encerrar-se o Congresso de Viena, entretanto, o desastre parecia
ultrapassado. Pela primeira vez em vinte e cinco anos, os estadistas podiam voltar-se para os
problemas da paz em lugar da preparação da guerra. Ainda iriam aprender que esses problemas,
embora menos prementes, podem ser bem mais complicados. Mas pelo menos criaram uma
estrutura que poderia sobreviver a este processo de ajustamento. E antes que houvessem sequer
iniciado a tarefa tomaram consciência de que, malgrado suas diferenças, eram parte de uma
unidade maior. Nada ilustra melhor a legitimidade da ordem recém-instituída do que a reação das
potências à incrível notícia que então chegou a Viena.

No dia 7 de março soube-se que Napoleão se evadira de Elba.

* Vide, por exemplo, Nicolson, Congress of Vienna; Cooper, Talleyrand; Brinton, Talleyrand;
Ferrero, The Reconslruction of Europe.

** Há ainda outro indício, embora não haja prova, de que Metternich nunca entendeu as
negociações polonesas de outra forma senão como meio de isolar a Prússia na questão saxônica: sua
melancólica derrota na entrevista com Alexandre. Em nenhuma outra ocasião de sua carreira
escolheu Metternich o ataque frontal, nem negociou tão inutilmente nem se rendeu tão facilmente.
10/ A SANTA ALIANÇA E A NATUREZA DA
SEGURANÇA

“NA NOITE DE 6 PARA 7 DE MARÇO,” escreveu Metternich em seu fragmento autobiográfico,


“houvera uma reunião (...) dos plenipotenciários das Cinco Potências. Como o encontro se estendera
até as três horas da manhã, recomendei ao meu criado que não me perturbasse o repouso. (...) A
despeito dessa proibição, o homem trouxe-me, cerca de seis horas da manhã, uma mensagem
expressa marcada Urgente. Sobre o envelope vi apenas as palavras ‘Do Consulado Imperial e Real
em Gênova’. (...) Pousei o despacho, sem abri-lo, na mesa ao lado de minha cama. (...) Mas tendo
sido acordado, não fui capaz de adormecer de novo. Mais ou menos às 7,30 decidi abrir o envelope.
Continha apenas, em seis linhas, o seguinte: ‘O comissário inglês Campbell acaba de entrar no porto
perguntando se alguém viu Napoleão em Gênova, pois ele desapareceu da ilha de Elba. Como as
respostas foram negativas, a fragata inglesa sem mais demora pôs-se ao mar.’”

Desta maneira, que bem atestava sua convicção de não ser mais possível uma crise fundamental,
capaz de perturbar o ordenado fluir da vida, a Europa viu como era tênue sua reencontrada
legitimidade. Expressou muito bem a natureza da revolução como uma afirmação da vontade o fato
de um indivíduo solitário, cujo paradeiro era desconhecido, poder inspirar tanto terror à Europa
inteira. E o medo indicava que um acordo pode desenhar fronteiras, até mesmo às vezes estabelecer
governantes, mas que somente a duração pode trazer autoconfiança. Aconteceu, então, que os
estadistas de Viena discutiram os movimentos de Napoleão como se estivessem abertas para ele
todas as opções, como se o símbolo da revolução pudesse transformá-la em coisa real em qualquer
canto da Europa. “Ele vai desembarcar em algum ponto da costa italiana e correr para a Suíça”,
disse Talleyrand, mostrando que nem mesmo um cético consegue acreditar facilmente no colapso de
sua ordem mundial. “Não”, replicou Metternich, que melhor do que ninguém compreendia a
estrutura das revoluções, senão suas causas, “ele seguirá direto para Paris.” Pois Paris era a chave
do novo arranjo europeu; era lá, e lá somente, que Napoleão tinha como reivindicar sua própria
espécie de legitimidade: a do governo carismático. Enquanto essas discussões tinham lugar,
Napoleão subia o vale do Ródano. E na noite de 20 de março entrou em Paris.

Mas a extensão do temor da Europa mostrou também o grau de sua unidade. Havia sido possível
imaginar a paz com Napoleão enquanto a lembrança de seus triunfos criava a ilusão da
invulnerabilidade de seu poder. Mas agora não se podia mais aceitar uma ordem internacional
baseada em estruturas internas incompatíveis. No dia 13 de março, apenas seis dias após saberem
da fuga de Napoleão, os “Oito Grandes” — Áustria, Grã-Bretanha, Prússia, Rússia, Suécia, Espanha,
Portugal e a França, na pessoa de Talleyrand — publicaram uma declaração que prometia ao Rei da
França a ajuda necessária para restabelecer a tranquilidade pública. Proclamava, ao mesmo tempo,
que Napoleão, como o perturbador do repouso mundial, colocara-se fora do grêmio das relações
civis e sociais. Os exércitos, às vésperas da desmobilização, movimentaram-se outra vez. Antes que
o acordo de Viena sequer fosse ratificado, a Europa mais uma vez achava-se em guerra; e,
fornecendo a expressão simbólica final à culminação de uma era, declarou-se a guerra, não contra
uma nação, mas contra um indivíduo.

Em vão Napoleão aceitou a Paz de Paris. Em vão remeteu ao Czar cópia do tratado secreto de 3 de
janeiro, que ficara nas Tulherias. Tampouco Metternich respondeu aos seus rogos. Pois Napoleão
não era mais o governante que transcendera à Revolução, e sim um caudilho revolucionário. Podia
invocar seu desejo de paz, mas, ainda que fosse sincero, perdera a capacidade de torná-lo efetivo. O
Napoleão de 1814, apesar de todas as suas vicissitudes, possuía ainda as qualidades carismáticas
do vencedor de Iena e Austerlitz. O Napoleão de 1815 era o vencido de 1814, e a memória de sua
derrota limitava sua pretensão de poder. Seu retorno não teve a natureza de um triunfo, mas de um
protesto, levado a efeito pela usual Coalizão revolucionária de todos os dissidentes. Napoleão, o
homem da vontade, tornara-se um símbolo, princípio por meio do qual se podia combater o odiado
princípio da “legitimidade”; iria provar, em sua última entrada em cena, que, embora os homens
possam vencer idéias, as idéias duram mais que os homens. A Revolução reclamou a restituição das
suas, e Napoleão só pôde legitimar-se baseando seu governo nos Jacobinos e liberalizando a
constituição Bourbon. Mas se Metternich chegara a ter esperança de levar um Napoleão
conquistador ao reconhecimento dos limites do poder, já um Napoleão internamente baseado na
revolução não era mais aceitável como fator na balança. No dia 3 de maio, as potências aliadas
concordaram em que “se encontravam num estado de hostilidade contra o governante atual da
França, por haver a experiência mostrado que não se pode confiar em suas afirmações. (...) Estão
em guerra com o propósito de assegurar sua própria independência e a reconquista de uma
tranquilidade permanente, porque com seu atual chefe não há segurança que a França permita.”

Mas se os aliados estavam de acordo quanto à incompatibilidade entre a continuação do governo de


Napoleão e o equilíbrio da Europa, longe estavam da unanimidade quanto à solução. A nova eclosão
de guerra reabriu todos os problemas tão acrimoniosamente ajustados em Langres, Troyes e Viena.
Pois se os advogados de todas as causas derrotadas durante o ano que passara tiravam do
ressurgimento de Napoleão a conclusão de que isso ocorrera porque sua opinião não fora ouvida. O
Czar relembrou sua oposição aos Bourbons, os prussianos, sua exigência de uma paz rigorosa, e o
Gabinete de Liverpool, seu desagrado com o Tratado de Fontainebleau. Todos os advogados da
vingança, mal contidos no ano anterior, puseram-se outra vez de pé. Parecia que a revolução, não
conseguindo conquistar a Europa, podia ao menos lançá-la num turbilhão que engolfaria toda a
moderação.

Foi sobre Castlereagh que o peso maior recaiu. O exército austríaco estava na Itália, o exército
russo ainda no fundo da Polônia. Disponíveis, só forças britânicas e prussianas, reunidas às pressas
nos Países Baixos. Nenhum dos aliados estava em condições financeiras para uma guerra. Mas
enquanto Castlereagh no ano anterior fora obrigado a estimular os hesitantes, agora, se tinha algo a
fazer, era conter os ansiosos por arrojarem-se numa campanha, cujo preço, todos concordavam,
desta vez não cairia sobre os vitoriosos. Em 25 de março Wellington, o substituto de Castlereagh em
Viena, renovou as cláusulas de subsídios do Tratado de Chaumont, só que desta vez todas as
potências secundárias alemãs se incluíam. “Se vamos ter que realizar o serviço”, escreveu
Castlereagh a Wellington, “não devemos deixar nada ao acaso. (...) Deve ser feito na maior escala
(...) você tem que inundar a França com forças em todas as direções.”

Mas uma coisa era inundar a França com forças, outra era determinar em nome de que essas forças
iriam lutar. A Grã-Bretanha podia ser a potência mais desejosa de restaurar os Bourbons pela
segunda vez, mas sua legitimação interna não lhe permitia entrar numa guerra com essa causa. A
não-interferência nos assuntos domésticos de outros Estados era um princípio de política britânica
por demais arraigado para permitir sua violação, mesmo em favor dos Bourbons. “[Luís XVIII]”,
escreveu Castlereagh a Clancarty, “não pode querer de nós que percebamos mais decisivamente a
importância de sua restauração, e com a mais absoluta certeza todo esforço se fará para conduzir a
guerra de forma que leve a esse resultado, mas não podemos fazer dele um sine qua non. Potências
estrangeiras podem justificadamente fazer um pacto para a destruição da autoridade de Bonaparte,
por incoerente com sua segurança, mas o problema muda de figura se quiserem estipular
confessadamente o sucessor. Este é um assunto parlamentar.” E acrescentou numa carta a Sir
Charles Stewart, seu embaixador junto ao Rei Bourbon exilado: “ (...) John Bull luta melhor quando
não está preso a vínculos e (...) embora possamos, manejando bem, ligar a causa dos Bourbons ao
objetivo admitido [o grifo é meu] da guerra, jamais poderemos sustentá[-la] como um princípio.”

Durante abril e maio, enquanto o Czar declarava sombriamente preferir até mesmo uma República
a outra restauração, Castlereagh teve de haver-se com pressões parlamentares que o forçavam a
aparentar completa imparcialidade nas acomodações internas da França. Enquanto os Bourbons
imploravam socorro e o Continente ajuda financeira, Castlereagh tinha que preparar uma causa de
guerra compatível com o caráter de uma potência insular. Mas por maiores que fossem suas
dificuldades, recusava-se a legitimar sua política por meio de um apelo às paixões populares que
reclamavam a “punição” da França. Disse à Câmara que os Bourbons haviam dado à França um
caráter sociável, trazendo-a para o seio da família das nações, e que Napoleão só voltara porque o
exército julgara a paz contrária a suas perspectivas. A guerra era o conflito de uma Europa unida
contra a ameaça de Napoleão, e seu objetivo a reintegração da França, não sua penitência. Em 26
de maio a declaração de guerra finalmente empolgou a Câmara e Castlereagh pôde relatar a
Nesselrode: “Foi preciso alguma arte para fazer embarcar o país com entusiasmo em nova guerra.
(...) Pode crer que tudo foi bem feito, e que não faltaremos a nossos aliados e à boa causa.”

Felizmente tudo foi rápido. No dia 18 de junho travou-se a Batalha de Waterloo. Em 22 de junho
Napoleão abdicou uma vez mais em favor de seu filho. Castlereagh viu-se, assim, poupado a outra
guerra de Coalizão. Pois enquanto o Czar precipitava-se para Paris, acompanhado apenas de uma
pequena escolta de cossacos, na esperança de repetir seu triunfo do ano anterior, Wellington
engendrou uma segunda Restauração em que Luís XVIII, o governante “legítimo” da França, foi
reconvocado por uma Assembléia Nacional jacobina. E exatamente como em abril de 1814
Talleyrand colocou Alexandre ante um fato consumado em nome da magnanimidade do Czar, assim
também agora Wellington e Castlereagh apresentaram-lhe outro em nome da moderação. Alexandre
teve uma vida em que as satisfações foram apenas prelibações.

A França tornou-se outra vez “sociável”. Mas quando as quatro potências se reuniram para formular
nova paz, as esperanças de um ano antes estavam destruídas. Parecia claro que as revoluções não
terminariam com a simples exibição de sua alternativa e que a França não podia ser integrada na
comunidade de nações pela simples alteração de sua estrutura interna. Em 1814 fizera-se a guerra
ostensivamente para reduzir a França a seus “antigos limites”, e a queda de Napoleão fora um
subproduto acidental. Entretanto, a Restauração dos Bourbons foi tomada como uma transformação
essencial da situação. Em 1815 fizera-se a guerra para derrubar Napoleão mas, paradoxalmente,
atingir esse objetivo só produziu novas incompreensões. Esquecidas estavam as belas palavras do
ano anterior, da comunidade de nações restringida pela legitimidade de suas aspirações. A Europa
começava a organizar-se por medo de um inimigo, e nisto perdia sua espontaneidade. No orgulho da
vitória as quatro potências reuniram- se outra vez para impor uma paz à França, mas já não parecia
que as animava pela segunda vez um senso de proporção.

Houve um homem em Paris, no entanto, que por um breve período de três meses representou a
consciência da Europa. É difícil explicar por que coube a Castlereagh resistir ao clamor prussiano
pelo desmembramento da França, ao qual até mesmo Metternich se juntou quando pediu a
demolição do cinturão externo de fortificações francesas. Ou por que se recusou a acompanhar o
Gabinete e o Parlamento, ambos a exigirem uma paz punitiva. Contudo a França foi poupada, e o
equilíbrio da Europa salvo pelo representante da potência insular, menos exposta ao perigo de um
ataque imediato. Em nenhuma outra época de sua carreira Castlereagh se saiu tão bem quanto em
sua batalha pelo equilíbrio em Paris. Mal compreendido na pátria, sem o apoio do arcabouço moral
que Metternich providenciara em refregas anteriores, conduziu-se com a costumeira reserva
metódica, pesadamente persuasivo, motivado por um instinto sempre mais seguro que sua
capacidade de expressão. Este foi o homem sobre quem a Europa por duas gerações lançou o
opróbrio de ser o destruidor de suas liberdades, porque o equilíbrio político viera a ser tão natural
que a contenda social obscurecia tudo o mais; a tal ponto que ficou esquecido o fato de que sem a
estrutura política tão resolutamente preservada por Castlereagh não teria sobrado substância social
pela qual valesse a pena lutar.

Quando Castlereagh se preparava para discutir o tratado de paz, todas as pressões desencadearam-
se contra a moderação. Um inimigo impotente é um fato; um inimigo reconciliado, uma conjetura.
Um acréscimo territorial representa a garantia da posse; integrar um adversário na comunidade de
nações através da autolimitação é uma expressão de fé. Não é por acaso que os advogados da
“segurança absoluta” têm sempre o apoio popular a seu lado. Deles é a sanção do presente, mas a
arte de governar deve haver-se com o futuro.

Pois por mais “razoáveis” que sejam, os argumentos em favor da segurança absoluta levarão a uma
situação revolucionária dentro da comunidade internacional. Por sua insistência na
monocausalidade da guerra, criam um desequilíbrio físico e psicológico. Quanto mais punitiva for a
paz, mais insistente será a exigência de um sistema de segurança coletiva, legitimado pela ameaça
do inimigo da véspera. Mais semelhante sistema é uma confissão de rigidez, de uma paz que só se
mantém pela força esmagadora. Numa ordem que encerra uma potência permanentemente
insatisfeita, a harmonia torna-se ela própria um fim, e isso deixa o ordenamento à mercê do membro
mais inescrupuloso, o mais disposto a chegar a um acordo com a potência revolucionária. A
fraqueza aparente da potência prostrada é, portanto, enganadora, e o próprio esforço para garantir
sua fraqueza permanente pode melhorar sua posição relativa. Portanto, ao violarem o princípio
legitimante de seu acordo, ou ao mostrarem-se incapazes de fazer com que ex-inimigo o aceite
voluntariamente, as potências vitoriosas criam uma distorção psicológica. Já não podem mais as
potências do status quo apelar para a “legitimidade” em defesa de sua posição. Contra a vítima de
uma paz punitiva, devem basear suas pretensões na força. As mais necessitadas de estabilidade
tornam-se então expoentes de uma política essencialmente revolucionária. É por isso que uma paz
punitiva tende a ser mais desmoralizadora para o vitorioso que para o vencido. O requisito de
segurança absoluta leva à revolução permanente.

Mas em Paris, em julho de 1815, isto só era evidente para uns poucos. Ante as exorbitantes
exigências da Prússia e, em menor grau, da Áustria, pressionado por seu próprio governo,
Castlereagh foi forçado, uma das poucas vezes em sua carreira, a uma defesa teórica de sua
posição. Enfureceram-no as pilhagens das tropas aliadas e a ânsia das potências germânicas em
introduzir o maior volume possível de tropas na França para verem-se livres das despesas com sua
manutenção. Começava a irritar-se com a crescente intransigência do Gabinete. Com o fim de
transferir parte do ônus de sua política, Castlereagh valeu-se do Czar, que vivia então uma fase de
intensa exaltação religiosa, para fazer uma proposta de acordo de paz que equivalia a uma
reafirmação do Tratado de Paris conjugado a uma exigência de moderada indenização. Encaminhou-
a ao Gabinete com uma carta, insinuando que a Rússia não devia obter sozinha o crédito de uma paz
clemente.

Mas o Gabinete não se mostrou mais desejoso de ceder ao Czar que a Castlereagh. Já em 15 de
julho Liverpool afirmara que a tolerância do governo francês para com os “traidores” demonstrava
que ele não merecia confiança; que a segurança residia, portanto, em diminuir os meios franceses
de agressão; que os aliados tinham o direito de despojar a França de todas as conquistas de Luís
XIV; mas que como programa mínimo deviam desmantelar as fortalezas mais importantes ao longo
da fronteira setentrional e oriental, e impor uma indenização. O resultado de uma política
magnânima fora decepcionante e a Grã-Bretanha “devia a si mesma a tarefa de cuidar da própria
segurança da melhor maneira”. E como sempre, em tais períodos, recorria-se em última instância às
considerações militares, como se a componente militar da segurança gozasse de moral própria,
como se o apoio em considerações puramente militares não constituísse um sintoma de abdicação
da política. A popularidade de Luís XVIII, declarou Liverpool, não devia afetar o destino dos fortes
franceses, que dependia inteiramente do julgamento militar de Wellington: “Por mais desejosos que
estejamos de ver o governo de Luís XVIII popular na França, não nos parece justificável atingir este
alvo com o sacrifício de tudo quanto se julga importante para a segurança geral da Europa.”

Dessa maneira, Castlereagh viu-se obrigado a formular sua mais completa exposição de idéias sobre
a natureza da segurança. Em dois memorandos, de 12 e 17 de agosto, tratou da questão de
integração ou punição, de uma paz de reconciliação ou de um ajuste de desmembramento. O
memorando de 12 de agosto abordou o problema da cessão territorial. Se o desmembramento
representasse uma garantia de segurança, ponderava Castlereagh, podia-se correr esse risco, a
despeito da desavença que a repartição dos despojos causaria. Mas, pelo contrário, o
desmembramento serviria apenas para provocar a índole militar da França, sem qualquer garantia
de que as demais potências, particularmente a Rússia, mostrar-se-iam decididas a opor-se a uma
nova agressão. “Muito melhor é, para a Europa, assentar sua segurança naquilo que todas as
potências defenderão, do que pôr em risco a aliança objetivando medidas de extrema precaução.”
Em suma, a miragem da segurança absoluta destrói o que busca alcançar. Dando relevo à
componente física da estabilidade, desapercebe-se do seu aspecto moral e, enquanto reúne a força
para conter o inimigo vencido, solapa a resolução de torná-la efetiva: “Os contínuos excessos da
França podem ainda, sem dúvida, levar a Europa (...) a uma providência de desmembramento (...)
[mas] aproveitem os aliados mais esta oportunidade de assegurar aquela tranquilidade que todas as
potências tanto reclamam, com a certeza de que, se forem desapontados (...) pegarão novamente
em armas, não só com as posições dominantes em suas mãos, mas com aquela força moral que por
si só pode manter unida tal aliança.”

Se o memorando de 12 de agosto valia por uma definição da natureza da segurança, o de 17 de


agosto era uma contestação de que se pudesse conduzir a política cedendo às flutuações de curto
prazo da opinião pública. “Não tenho dúvida”, escreveu ele a Liverpool, “de que a linha do meio
seria a mais popular e que, extorquindo a cessão permanente de uma ou duas fortalezas de nomes
famosos, nosso esforço ostentaria um éclat que não é provável acompanhá-lo. (...) Mas nossa tarefa
não é colecionar troféus e sim tentar, se pudermos, trazer o mundo de volta a costumes pacíficos.
Não creio que isto seja compatível com qualquer tentativa (...) de afetar o caráter territorial da
França (...) tampouco me parece indiscutível (...) que a França, mesmo com suas presentes
dimensões, não venha a ser um sócio prestativo em vez de um perigoso membro do sistema
europeu.” Dava bem a medida do crescimento de Castlereagh como estadista, o fato de que o mais
implacável inimigo de Napoleão, o ministro que apenas quinze meses antes só podia conceber uma
Europa organizada pelo temor da França, surgisse agora como advogado de uma paz de harmonia.
E é sintomático de sua concepção do dever do estadista que Castlereagh, mesmo neste momento em
que estava praticamente sozinho, desdenhasse de concessões à opinião pública.

Desta forma, com exasperada insistência do lado de Castlereagh e relutante concordância por parte
do Gabinete, foi definido o papel da Grã-Bretanha no novo ajustamento. O fato de esse papel basear-
se nas convicções de um único indivíduo não afetou a negociação do tratado de paz. Mas o fato de
que sua motivação não conseguiu despertar o entusiasmo nem mesmo a compreensão da nação veio
a evitar sua implementação. Uma paz feita em nome da Europa só podia manter-se pela consciência
de um papel europeu. E essa consciência diminuiu com o passar da lembrança do grande perigo, e
quando a Grã-Bretanha, olhando para o outro lado do canal, viu Antuérpia em mãos amigas durante
tanto tempo que esqueceu que as coisas podiam um dia ter sido diferentes.

Castlereagh conseguira vencer as hesitações de seu Gabinete; enfrentou, a seguir, a cupidez das
potências continentais. Porquanto a Prússia, que inundara a França com 280.000 homens, exigindo
um castigo quase sempre bárbaro por seus sofrimentos passados, não pretendia privar-se, uma
segunda vez, da vingança por sua humilhação nacional. Era apoiada pelas potências secundárias,
que nada tinham a perder e tudo a ganhar, já que seus ganhos territoriais teriam necessariamente
de ser garantidos pelas grandes potências. Castlereagh, irado, investiu contra “o espírito de rapina
que durante um século fora a miséria da Alemanha”. A que ponto chegou sua exasperação mostra-o
o fato de ter até ameaçado retirar a garantia britânica aos Países Baixos se estes persistissem em
suas excessivas exigências.

Mas uma paz generosa como a do primeiro Tratado de Paris estava, agora, fora de cogitação.
Concordou-se em que a França assumiria os custos da guerra bem como parte das despesas da
construção de uma barreira de fortalezas na Neerlândia, e a indenização fixou-se em 700 milhões de
francos. Um exército de ocupação no norte da França garantiria o cumprimento do tratado e
protegeria o Rei. Finalmente, a Prússia e as potências alemãs menores conseguiram obter uma
retificação de fronteiras. A França foi reduzida a seus limites de antes da Revolução, perdendo os
territórios adicionais que lhe conferira o primeiro Tratado de Paris: Saarlouis, Landau e Sabóia. E
os tesouros de arte adquiridos durante as guerras revolucionárias foram devolvidos a seus
proprietários originais.

Se este tratado carecia da magnanimidade do primeiro Tratado de Paris, não era, porém, tão severo
que tornasse a França uma potência permanentemente insatisfeita. Os territórios perdidos tinham
importância mais estratégica do que comercial ou simbólica e continham, afinal, menos de um
milhão de habitantes. A indenização pagou-se em três anos, e o exército de ocupação retirou-se ao
fim desse período. Fez-se, portanto, uma paz de moderação pela segunda vez e, no espaço de menos
de quinze meses, as tentações de vitória total foram duas vezes obstadas pelos mesmos estadistas
que por mais de um século seriam criticados por sua cegueira para as grandes emoções que
empolgavam a Europa. Mas os representantes dessas emoções, como Stein, qualquer que fosse sua
visão social, eram todos defensores de uma paz de vingança que teria exposto a Europa a uma
porfia política sem fim.

Mas a era do equilíbrio legítimo não teria início sem dois atos que, em sua timidez, demonstraram
que a lembrança das revoluções pode ser mais perigosa que sua realidade, que só as ordens
“estabelecidas” são, enquanto as criações precisam ser explicadas. Era natural que tais atos
representassem os dois aspectos da procura de ordem: a Quádrupla Aliança de 20 de novembro de
1815 representava o equilíbrio de poder e a realidade da boa-fé; a Santa Aliança, de 26 de setembro
de 1815, anunciava a reconciliação das aspirações e a difusão dos princípios morais. Era natural
também que Castlereagh criasse o arcabouço político, mas o criador de sua expressão moral foi
uma figura paradoxal: o Czar da Rússia, que um ano antes levara a Europa à beira da guerra, mas
no momento, saciado de glória, num estado de exaltação mística, buscava renome na realização das
máximas generosas do Cristianismo.

Já no dia 17 de julho Castlereagh escrevera a Liverpool que havia cometido um grande erro, quando
da última estada em Paris, “por não opor a barreira de uma estipulação [de interdição européia]
contra o retorno de Napoleão, pois não há dúvida de que ele (...) fez com que a nação e o exército
acreditassem que poderia ser restaurado e ainda assim preservar-se a paz”. Nasceu dessa forma a
Quádrupla Aliança, que representava uma ambígua mistura do conceito de relações internacionais
de uma potência insular e do conhecimento dos elementos de estabilidade de um estadista de visão
européia.

Como em todas as suas relações com a revolução, a Grã-Bretanha estava diante de um conflito de
seus desejos com sua legitimação interna, da aspiração de preservar os Bourbons com o princípio
de não-interferência nos assuntos domésticos de outros Estados. O resultado foi um compromisso
que garantiu a Europa contra a agressão francesa, ao mesmo tempo que fugia a um engajamento
definido na ação comum contra levantes internos. Seu objetivo confessado era a proteção dos
ajustes territoriais do Segundo Tratado de Paris, e este foi sem dúvida o aspecto que mais
interessou ao Gabinete britânico. Uma vez que a balança territorial fora repetidamente perturbada
por Napoleão, abriu-se uma exceção ao princípio de não-interferência, no caso dele, no artigo
segundo da aliança, que estipulou a exclusão da família Bonaparte do trono da França. Mas e se a
França passasse por uma revolução não-bonapartista? Converter o fato de uma revolução em causa
de guerra era abandonar o princípio de não-interferência. Mas permanecer indiferente podia levar a
uma série de lutas revolucionárias. Esse dilema foi resolvido por uma evasiva segundo a qual a
potência insular admitia que a estabilidade européia tinha uma componente social, enquanto
limitava seu compromisso em deferência à opinião pública: os aliados concordavam em permanecer
“vigilantes” caso “as revoluções de novo convulsionem a França (...) e tomar as medidas necessárias
à segurança de seus respectivos Estados.” Uma revolução na França era declarada assim uma
ameaça potencial, mesmo que não passasse a qualquer ato de agressão física, mas não constituía
automaticamente caso de guerra.

Quinze meses antes, estas cláusulas, juntamente com outras disposições fixando os efetivos com
que cada potência deveria contribuir para as ações coletivas, teriam sido consideradas por
Castlereagh a culminação de seus esforços. E por certo ninguém no Gabinete identificava a
segurança britânica a não ser com a contenção da França. Mas nesse intervalo Castlereagh fora
vítima de uma tentação que sobrevêm a muitos estadistas de grandes Coalizões. Na mitologia das
Coalizões a diplomacia que precede a guerra surge demasiadamente sutil, mesquinha, e como causa
cooperante para um clima de desconfiança. Na exuberância da ação conjunta, ou enquanto sua
lembrança ainda está fresca, o desejo de paz parece motivo suficiente para alcançá-la. Assim,
Castlereagh chegara a ver na unidade de propósitos imposta por um inimigo comum o padrão
normal das relações internacionais. Na satisfação de uma “moderação” triunfante, esqueceu o
doloroso processo de ajustamento do ano anterior. Cada vez mais considerava as relações de
confiança a causa, não a expressão, da harmonia, e os requisitos de uma ordem pacífica tão pouco
ambíguos quanto as medidas para alcançar uma vitória militar. Insistiu, portanto, em que as
potências da Europa se mantivessem em contato íntimo, não apenas para controlar a França, como
propunha o Czar, mas para considerar os problemas gerais da tranquilidade européia. A concepção
de que a estabilidade podia residir no compromisso e não num equilíbrio mecânico, na precaução e
não na defesa, estava tão além da imaginação do Gabinete britânico que ninguém protestou contra
o Artigo VI do Tratado de Aliança minutado por Castlereagh e que determinava reuniões periódicas
“das Altas Partes contratantes (...) para o exame das medidas que venham a ser consideradas as
mais salutares para o repouso e a prosperidade das nações (...) e a paz da Europa.”

O sistema de Conferência pelo qual a Europa foi governada durante sete anos nasceu, assim, quase
como uma segunda reflexão. Mas em qualquer situação política existem fatores que não seguem
vontades e não podem ser mudados em uma vida. Este é o disfarce com que a Necessidade se
apresenta ao estadista, e é na luta com ela que ele assume sua característica trágica. Qualquer que
fosse o mérito da visão de Castlereagh, a experiência da Grã-Bretanha impediu-a de compreender
seu Secretário do Exterior. Na mentalidade do público, o canal da Mancha continuaria constituindo
maior garantia da segurança britânica que a estabilidade continental. Só um mal-entendido evitou
que o conflito viesse a furo em 1815: enquanto Castlereagh pensava na Europa, o Gabinete e o país
tinham a atenção fixada na França.

Outro homem havia em Paris que visava também a uma perfeição inatingível. Desde a controvérsia
de Viena, a mente de Alexandre tomava um caminho cada vez mais místico. Glória e aprovação, tão
longa e ansiosamente procuradas, de alguma forma o tinham evitado, e mesmo suas vitórias se
haviam mostrado vazias. A primeira marcha sobre Paris não resultara numa vindicação moral do
incêndio de Moscou e sim numa complicadíssima intriga que restaurara os Bourbons. E o Congresso
de Viena não conduzira a uma rendição à evidência das máximas éticas, mas a uma pugna tenaz por
questões aparentemente periféricas. É decerto correto que a política não seja conduzida pelo
impulso de um momento de exaltação, porque os estadistas têm que se interessar tanto pela
conquista como pela preservação do mundo. Mas isso não consola o fanático — nem o profeta. O
estadista vive no tempo; seu teste é a permanência de sua estrutura sob pressão. O profeta vive na
eternidade que, por definição, não tem dimensão temporal; seu teste é inerente à sua visão. O
combate entre os dois é sempre trágico, porque o estadista tem que empenhar-se em reduzir a visão
do profeta às devidas proporções, enquanto o profeta julgará a estrutura temporal por padrões
transcendentais. Para o estadista o profeta representa uma ameaça, pois uma asserção de justiça
absoluta é uma negação da nuança. Para o profeta, o estadista representa uma revolta contra a
realidade, pois a tentativa de reduzir o justo ao atingível é um triunfo do contingente sobre o
universal. Para o estadista, a negociação é a essência da estabilidade, porque simboliza o
ajustamento de pretensões conflitantes e o reconhecimento da legitimidade; para o profeta, é o
símbolo da imperfeição, dos motivos impuros a frustrarem a beatitude universal. Não foi por acaso
que Alexandre sempre se julgou incompreendido, ou que seus pares sempre desconfiaram dele. A
segurança destes era um reconhecimento de limites; a segurança dele, um momento de
transcendência. Castlereagh e Metternich, com todas as suas diferenças, buscavam um mundo de
nuança intermediária; Alexandre, um mundo de imediata perfeição.

Enquanto seguia os exércitos mais uma vez em direção à França, o Czar começou a atribuir as
rusgas de Viena à falta de inspiração religiosa dos protagonistas e novamente lhe acudiu ao espírito
uma proposta apresentada em seu nome ao Congresso, a qual preconizava uma associação fraterna
dos soberanos, guiada pelos preceitos do Cristianismo. Quando, nesse estado de espírito, Alexandre
foi surpreendido com a visita de uma certa Baronesa Kruedener, fanática religiosa que o
considerava o Salvador da Europa, não foi muito difícil interpretar sua aparição como um sinal de
Deus ou ver na nova pugna uma provação divina. Nem bem chegou a Paris, o Czar convidou a
Baronesa à sua presença, com a seguinte carta: “Encontrar-me-eis vivendo numa casinha na orla da
cidade. Escolhi este domicílio porque em seu jardim encontrei minha bandeira, a cruz.” No dia 10
de setembro o Czar montou uma espetacular revista de tropas em honra de seus irmãos soberanos.
Mas em vez de um desfile militar, teve lugar uma missa presidida pela Baronesa Kruedener.

Com esse espírito, o Czar apoiara Castlereagh em sua busca de uma paz benévola. Lançou-se,
agora, à santificação desse trabalho relacionando-o aos princípios religiosos ante os quais toda ação
era julgada. Depois de consultas com a Baronesa Kruedener, apresentou um projeto de declaração,
válida somente para soberanos e destinada apenas a suas assinaturas, documento que o Imperador
austríaco comentou não saber se o discutia num conselho de ministros ou num confessionário.
Começava por uma invocação à Santíssima Trindade e à Divina Providência: devido à munificência
de Sua graça, os soberanos haviam decidido que “a linha anteriormente adotada pelas potências em
suas mútuas relações precisava ser fundamentalmente modificada, e que era urgente substituí-la
por uma ordem de coisas baseada nas verdades sublimes da religião eterna de nosso Salvador.” A
isto seguiam-se três artigos, simbolizando a Trindade, que concitavam os monarcas e o povo a se
considerarem irmãos, e as nações, províncias de uma comunidade Cristã; os monarcas eram
exortados a governar com benevolência e desvelo e a estender auxílio uns aos outros. *

Mas por mais que Metternich ridicularizasse esse esforço, e o atribuísse a uma perturbação mental
do Czar, o trabalho representou para o cuidadoso calculista de Viena não uma proclamação religiosa
mas um documento político da maior importância. “[Metternich] não desejava,” relatou
Castlereagh, “contrariar [o Czar] numa concepção que, embora um tanto arrebatada, podia poupar-
lhe, e ao resto do mundo, muito aborrecimento, enquanto durasse. Em suma, não enxergando uma
retirada, depois de fazer algumas alterações verbais, o Imperador da Áustria concordou em
assinar.” Mas essas alterações foram de importância fundamental. Porquanto Metternich
transformou as generalidades em declarações de uma política compatível com o sóbrio espírito do
Império Central, e tão habilmente o fez que Alexandre afirmou terem as alterações implementado o
espírito de seu esforço. Em sua forma alterada, a Santa Aliança substituiu a comunidade de povos
por uma associação patriarcal de monarcas, e seu preâmbulo, citado acima, dizia: “Os Soberanos
Aliados estão convencidos de que o rumo que as relações entre as potências haviam tomado deve
ser substituído por uma ordem de coisas fundada nas verdades sublimes da religião eterna (...).”

Fora-se a urgência e a referência à necessidade de reforma fundamental; desaparecia também a


referência às relações anteriores entre os Estados, que era uma denúncia do concerto político da
Europa. A nova versão podia antes ser lida, e mais logicamente, como um ataque às transformações
trazidas pela Revolução, como promessa de um retorno à ordem, como afirmação do primado da lei
sobre o arbítrio. O Czar havia concebido a Santa Aliança programática, como a proclamação de uma
nova era, transcendendo a pequenez da história; Metternich usou-a para anunciar o fim de um
período revolucionário, e a reentrada na história. Aconteceu, assim, que a segunda cruzada de
Alexandre sobre Paris deu novamente resultados inesperados. Na vida de anticlímax de Alexandre,
o tratado que ele imaginava como a ferramenta para reformar o mundo tornar-se-ia o expediente de
proteção do equilíbrio europeu.

Ainda houve alguma dificuldade em obter-se o acordo britânico. Castlereagh, que chamou a Santa
Aliança “uma peça de sublime misticismo e contrassenso”, compreendeu que nenhuma anuência
formal a tal instrumento jamais seria aceita pelo Parlamento. Propôs, então, que o Príncipe Regente
anuísse em seu próprio nome a um tratado “onde a objeção está mais na excelência excessiva do
que na qualidade e natureza do compromisso”. Porém mesmo isto era demais para o Gabinete, que
escapou ao dilema destacando a incoerência entre o que propunha Castlereagh e os princípios da
Constituição Britânica. Afinal, o Príncipe Regente enviou uma carta a seus irmãos monarcas
expressando sua simpatia pessoal para com o trabalho que empreendiam. Dessa maneira, entre
apreensões e hesitações, com uma visão exaltada e um calculismo prudente, nasceu a Santa
Aliança, símbolo de uma era.

Quando os monarcas se preparavam para deixar Paris no fim de setembro, a paz finalmente parecia
assegurada, e o período revolucionário afinal encerrado. Tão imperceptivelmente se fizera o
ajustamento que sua maior realização, a possibilidade de aceitação universal, passou em grande
parte despercebida. Em Paris haviam-se criado os dois instrumentos que guiaram a Europa na
década seguinte e, ao mesmo tempo, marcaram a sina trágica de seus advogados: a Quádrupla
Aliança e a Santa Aliança, a esperança de uma Europa unida pela boa-fé e a procura de um
consenso moral, expressões política e ética do equilíbrio. Foi assim que a visão de uma Europa
unida destruiu as duas mais diferentes personalidades do período: o sóbrio, pedante Castlereagh, e
o fantástico, exaltado Czar; Castlereagh, através de uma intuição muito além da experiência de seu
povo; Alexandre, através de uma ação muito além da experiência da ordem internacional.

Contudo, havia em Paris um homem que conhecia os limites de suas possibilidades; aliás, os
acontecimentos demonstraram que os conhecia bem demais. Não eram para Metternich as políticas
de construção idealística ou de reforma do caráter de seu povo. O estadista do Império talvez mais
necessitado de adaptação via apenas um arcabouço rígido e entendia como sua missão forçar a
ordem internacional a adaptar-se a sua estrutura. Quase só, entre os estadistas de Paris, ele
considerava a paz um início, não um fim. A luta política findava, ia começar o conflito social.
Metternich dispunha-se a entrar nessa pugna com sua tática normal: derrotar os adversários não
com a construtividade, mas com a paciência, não transcendendo-os mas durando mais do que eles.
Ao preparar-se Metternich para sua nova batalha, a natureza de suas convicções sociais adquiriu
importância primordial.

Pois a Europa queria ver o que lhe receitaria o pretenso “doutor em Revoluções”.
* As expressões grifadas foram mais tarde eliminadas por Metternich.
11/ METTERNICH E O DILEMA
CONSERVADOR

E ASSIM FOI que a paz chegou enfim para a Europa, apenas para colocar o Império Central frente a
seu mais sério dilema. Pois enquanto a pressão do Conquistador ainda parecia generalizada, os
problemas especiais da Áustria estavam submersos no perigo comum. Mas a partir de agora cada
país devia encontrar seus próprios desafios e confrontar-se com suas dificuldades particulares. No
entanto, a Áustria era a única potência no Continente que podia ingressar no tempo de paz sem
compromissos. Sua sobriedade quando a Europa era varrida por sonhos de uma humanidade
reformada, sua insistência em que cada passo fosse traduzível em termos políticos concretos eram
apenas o outro lado da convicção de seu ministro de que as metas sociais eram todas negativas:
retirar do caos um sentido de obrigação, derrotar a revolução, não por uma contrarrevolução, mas
através de uma insistência na legitimidade. A tortuosidade da diplomacia de Metternich fora reflexo
de uma certeza fundamental: que a liberdade era inseparável da autoridade, que a liberdade era um
atributo da ordem. A Áustria, sob o domínio de Metternich, não estava interessada na reforma
enquanto esta não houvesse salvo sua substância moral, nem na mudança enquanto esta não
houvesse mantido seus valores. “O mundo está sujeito a duas influências,” Metternich escreveu, “a
social e a política. (...) O elemento político pode ser manipulado; já não o elemento social, em cujos
fundamentos jamais deve haver concessões”. No período de paz que ora começava, tudo dependia,
portanto, da concepção do ministro austríaco quanto à natureza do fundamento social.

O conservador, num período revolucionário, constitui sempre certa anomalia. Se o padrão de


obrigações ainda fosse espontâneo, a ninguém ocorreria ser um conservador, por ser inconcebível
uma alternativa séria à estrutura existente. Mas quando existe um partido revolucionário
significativo, e ainda mais quando uma revolução chegou mesmo a triunfar, duas questões
complementares são julgadas válidas, mais simbólicas em sua própria feição do que em qualquer
resposta que possam ter: Qual é o significado da autoridade? Qual é a natureza da liberdade? Daí
em diante, estabilidade e reforma, liberdade e autoridade passam a surgir como antitéticas; a luta
torna-se doutrinária e o problema da mudança toma a forma de um ataque à ordem existente, em
vez de ser uma disputa sobre assuntos específicos. Isto nada tem a ver com os rótulos dos partidos
políticos. Sociedades houve, como os Estados Unidos ou a Grã-Bretanha do século XIX, basicamente
conservadoras, de maneira que os partidos existentes podiam ser considerados ao mesmo tempo
conservadores e progressistas. Outras houve, como a França por mais de um século, onde todas as
questões foram basicamente revolucionárias, qualquer que fosse o modo de considerar os partidos,
em razão da existência de uma cisão social fundamental.

Mas que há de fazer um conservador numa situação revolucionária? Uma ordem social estável vive
com uma intuição de permanência, e a oposição ou é simplesmente ignorada ou vê-se diante de uma
tentativa de assimilação. Voltaire esteve “na moda” no século XVIII, não porque este fosse um
período revolucionário, mas porque a revolução era inconcebível. Um período revolucionário, por
outro lado, é caracterizado por sua falta de naturalidade, uma vez que a vida política perde sua
espontaneidade no momento em que o padrão de obrigações existente é desafiado. A motivação de
uma ordem estável é um conceito de dever — a asserção de que os preceitos sociais são axiomáticos
— e as linhas de ação alternativas não são rejeitadas, são inconcebíveis. A motivação num período
revolucionário é um conceito de lealdade, onde o ato de submissão da vontade adquire um
significado simbólico, quase ritualístico, porque as alternativas sempre parecem presentes. Uma
ética do dever inclui uma noção de responsabilidade que julga as ações pela orientação da vontade.
Constitui, por essa razão, uma ética de motivação, lutando por encontrar a identificação do código
individual com um padrão de moralidade que, por mais rígido que seja, deve tornar-se
individualmente aceito para ser significativo. Uma ética de lealdade envolve uma noção de
ortodoxia, porque é um meio de alcançar uma identidade de grupo. Não exclui a identidade dos
códigos individual e social, mas não a requer. “Certa ou errada, minha pátria” — eis a linguagem da
lealdade. “Agir de tal forma que nossas ações possam tornar-se, se depender de nossa vontade, leis
universais da natureza” — eis a linguagem do dever. O dever exprime o aspecto de universalidade, a
lealdade o da contingência.
Desta forma, o conservador, quando se organiza politicamente, torna-se, a despeito de si mesmo, o
símbolo de um período revolucionário. Sua posição fundamental encerra uma negação da validade
das interrogações tocantes à natureza da autoridade; mas as perguntas, ao reclamarem uma
resposta, têm demonstrado uma espécie de validade. Para o revolucionário, a posição do
conservador torna-se, portanto, uma resposta, uma vitória, ainda que a batalha imediata acabe
adversamente. Pois que adianta para o conservador sair vitorioso numa batalha de vontades? Sua
batalha não é pessoal, mas social, sua justificação não é individual, mas histórica. Não é por outro
motivo que nas controvérsias revolucionárias a posição conservadora vem a ser dominada por sua
ala reacionária — ou seja, contra-revolucionária — o grupo que luta em termos de vontade e com
uma ética de lealdade. Pois o verdadeiro conservador não se sente à vontade num conflito social.
Tentará evitar a cisão insuperável, porque sabe que uma estrutura social estável não viceja com
triunfos, mas com reconciliações.

Como pode, então, o conservador resgatar sua posição da contingência de reinvindicações


conflitantes? Como pode aquilo que é persuadir, quando sua evidência se desintegrou? Lutando o
mais anonimamente possível, tem sido a resposta conservadora clássica, de forma que se a resposta
tiver que ser dada transcenda à vontade, de forma que pelo menos a disputa ocorra num plano além
do indivíduo, de forma que o contrato possa tornar-se dever e não lealdade. Lutar pelo
conservadorismo em nome das forças históricas, rejeitar a validade da pergunta revolucionária
devido a sua negação do aspecto temporal da sociedade e do contrato social — esta foi a resposta
de Burke. Combater a revolução em nome da razão, negar a validade da inquirição com argumentos
epistemológicos, como contrária à estrutura do universo — esta foi a resposta de Metternich.

A diferença entre essas duas posições conservadoras é fundamental. Para Burke o sumo padrão da
obrigação social era a história; para Metternich, era a razão. Para Burke, a história era a expressão
do ethos de um povo; para Metternich, era uma “força” com que se haver, mais importante que a
maioria das forças sociais, mas de validade moral não extraordinária. Burke negava a premissa dos
revolucionários, de que a razão fornecia base suficiente para a obrigação social, e seu desafio
estava, portanto, destinado a não ter efeito imediato. Metternich aceitava essa premissa, mas dela
retirava conclusões diametralmente opostas às de seus adversários, e seu desafio era, portanto,
mortal. Para Burke, uma revolução era uma ofensa à moralidade social, a violação do contrato
sagrado da constituição histórica de uma nação. Para Metternich, era uma violação da lei universal
que governa a vida das sociedades, a ser combatida não por imoral, mas por desastrosa. O
conservantismo histórico abomina a revolução por solapar a expressão individual da tradição de
uma nação; o conservantismo racionalista a combate por impedir a implementação de preceitos
sociais universais.

Foi esta concepção racionalista do conservadorismo que emprestou rigidez à política de Metternich
e à sua interpretação das interrogações complementares da natureza da liberdade e do significado
da autoridade. O Ocidente chegou basicamente a duas respostas: liberdade como ausência de
controles ou liberdade como aceitação voluntária da autoridade. A primeira posição considera a
liberdade residente fora da esfera da autoridade; a última concebe a liberdade como uma qualidade
de autoridade. A versão negativa de liberdade é a expressão de uma sociedade que ultrapassa sua
estrutura política, uma sociedade que, como em Locke, existe antes do Estado e cuja organização
política é como uma companhia de responsabilidade limitada organizada para atingir determinados
objetivos. Em tal sociedade a questão conservadorismo versus reforma tende a aparecer como
questão de ênfase, de maior ou menor mudança em problemas de forma e conteúdo específicos.
Uma vez que o campo de atividade que importa ocorre fora da esfera governamental, a política tem
uma função utilitária, mas não ética; ela é útil, não moral. Uma sociedade baseada no conceito de
liberdade de Locke é sempre conservadora, qualquer que seja a forma que tomem suas contendas
políticas. Não o fora, não conseguiria fazer funcionar um sistema cuja força reside em sua coesão
social, nas coisas “que são admitidas sem discussão”. A defesa de Burke do conservadorismo não
tinha, por essa razão, aplicabilidade na cena doméstica britânica, mas dirigia-se contra sua má
compreensão por estrangeiros.

Mas o Continente nunca foi capaz de aceitar a versão anglo-saxônica de liberdade. Antes da
Revolução Francesa, isso se devia ao fato de a filosofia de Locke ter-se tornado a filosofia de uma
revolução realizada, uma doutrina de conciliação que carecia do rigor lógico de um chamado à ação.
Depois, porque a Revolução Francesa, ao contrário da britânica, produzira uma cisão social
fundamental. Sociedades coesivas podem regular-se pelo costume, o que revela que as disputas são
periféricas. Sociedades que encerram cisões fundamentais têm de apoiar-se na lei, na definição de
um relacionamento compulsório. Assim, Kant e Rousseau, não Locke, foram os representantes da
versão continental de liberdade, que a buscava na identificação da vontade com o interesse geral, e
considerava mais livre o governo, não quando governava menos, mas quando governava com
justiça. Para os conservadores britânicos, o problema social era de ajustamento: proteger a esfera
social pela concessão política no momento certo. Mas para seus correspondentes continentais, o
problema era de conservação no sentido literal, uma vez que para eles a concessão política era
equivalente à rendição social. Pois só se podem fazer concessões a alguma coisa. Quando Estado e
sociedade são duas entidades diferentes, isso não é problema. Mas quando são idênticas, a
concessão é uma confissão de fracasso, reconhecimento de uma cisão social insuperável. Assim,
mesmo no fim da vida, depois que sua época passara havia muito, Metternich ainda podia objetar a
um discurso de um partidário britânico de Peel, Sir James Graham, no qual este afirmava que a
sabedoria do estadista está em reconhecer o momento exato de fazer concessões: “Minha
concepção da ação do estadista difere completamente. O verdadeiro mérito de um estadista (...)
consiste em governar de modo a evitar uma situação em que as concessões se tornem
compulsórias.”

Com isto não queria dizer que o estadista conservador tivesse que se opor a toda mudança. Ser
conservador, escreveu Metternich, não exige a volta a um período passado, nem reação, mas
reforma cuidadosamente considerada. O verdadeiro conservadorismo supõe uma política ativa. No
entanto a reforma tinha de ser produto da ordem, não do arbítrio; tinha de confirmar a
universalidade da lei contra a acidentalidade do poder. “A palavra liberdade,” escreveu Metternich
em seu testamento político, “nunca teve para mim o caráter de um ponto de partida, mais sim de
meta. O ponto de partida é a ordem, que tão-somente a ordem pode criar liberdade. Sem ordem, o
clamor por liberdade não passa da busca de objetivos por algum partido específico, e na prática
conduzirá à tirania, sempre. Tendo eu sido um homem da ordem, meus esforços dirigiam-se à
consecução de uma liberdade real, não enganadora. (...) Sempre considerei o despotismo de
qualquer espécie um sintoma de fraqueza. Onde aparece, está condenado por si mesmo; tanto pior
onde aparece com a máscara de promover a causa da liberdade.”

Mas qual seria o significado dessas afirmações, se representassem apenas uma convicção pessoal?
Teriam constituído um “sistema”, uma interpretação a mais do tipo daquela cuja contestação havia
convulsionado a Europa por uma geração. Este dilema causou a insistente luta de Metternich contra
a atribuição de seu nome à época. Se correto, o epíteto “sistema Metternich” teria marcado a
derrota do estadista conservador tão certamente quanto a vitória da revolução. Metternich entrava
em suas batalhas não como pessoa, mas em nome da razão, não por oposição pessoal, mas em prol
da universalidade. Daí sua insistência em que representava princípios eternos, não um sistema; sua
afirmação de conhecimento superior do fundamento real dos Estados; sua postura de médico a
tratar de organismos sociais “doentes”, de revolução como enfermidade, de conservantismo como
verdade. Ao fim de trinta e nove anos de poder, Metternich ainda podia observar um mundo em
colapso com agridoce resignação, misturada com lástima por seus opositores, cuja ignorância das
reais forças sociais desencadearia um terrível holocausto: “Durante trinta e nove anos fiz o papel de
rochedo, do qual as ondas se recolhem (...) até que finalmente conseguiram engolfá-lo. Não se
acalmaram, depois, no entanto, pois o que lhes causava o turbilhão não era o rochedo, mas
desassossego intrínseco. A remoção do obstáculo não alterou a situação, nem podia. (...) Eu gostaria
de bradar aos representantes da sublevação social: ‘Cidadão de um mundo que só existe em teus
sonhos, nada mudou. Em 14 de março * nada aconteceu além da eliminação de um só homem.’ ”

Desta maneira o Iluminismo ainda teve, bem entrado o século XIX, seu último lidador, que julgava
as ações por sua “verdade”, não por seu sucesso, advogado da razão numa era de materialismo
filosófico, que nunca abandonou sua crença de que a moralidade podia ser aprendida e a virtude
ensinada. “Estes preceitos comprovaram sua validade,” escreveu ele em 1822. “[A política baseia-
se] não em novelas, mas na história; não na fé, mas no conhecimento.” Quando outro Napoleão
entrou em cena, trinta e cinco anos depois da derrota de seu grande predecessor, Metternich não
considerou o fato um fracasso pessoal, mas a ilustração de uma antevisão filosófica: “Os milhões de
votos de Luís Napoleão expressam apenas um sentimento instintivo, de que sem ordem não pode
haver vida social, e sem autoridade não há ordem. Hoje essa verdade chama-se Luís Napoleão; tão
velho ficou o mundo que a verdade tem de assumir nome pessoal, já que todos os demais caminhos
se fecharam para ela.” A verdade precisa tomar um nome de pessoa — esta é a tragédia do
conservador racionalista, da mesma forma que a história com nome pessoal é a tragédia do
conservador histórico. E a anonimidade da verdade foi também o paradoxo do Iluminismo: quando a
verdade é forte, seu fundamento é a fé, pelo menos numa teoria do conhecimento. Quando a
verdade é desafiada, transforma-se em dogma.

Mas só uma era cínica é capaz dessa compreensão, inalcançável ao contemporâneo intelectual de
Kant e Voltaire, que se orgulhava de sua seriedade e equilíbrio, simplesmente o outro lado de uma
crença na auto-evidência dos axiomas filosóficos, e que, solicitado a fazer uma dedicatória numa
fotografia sua, escreveu: “Acima de tudo sem pathos". Na velhice, Metternich conservou um
profundo interesse pelas ciências naturais, mantendo extensa correspondência com cientistas,
particularmente das ciências experimentais. E quando o Czar empreendeu a implementação de sua
exaltação religiosa na esfera social, Metternich, em 1817, escreveu este comentário: “O mundo está
atacado de uma doença especial, a do misticismo, que há de passar, como toda a epidemia. (...) Mais
fácil seria, hoje, renovar os sermões de Pedro, o Eremita, que tornar claro aos aflitos que Deus quer
deles outros serviços que não o derramamento de sangue, e que homem nenhum pode julgar a
consciência de seus semelhantes.” Não se tratava, aqui, somente do conservador protestando
contra os movimentos de massa de qualquer espécie, era também a acusação do Iluminismo contra
o Romantismo.

II

Que visões, então, as máximas de Metternich lhe revelavam? Mostravam-lhe um universo governado
pela lei, não no moderno sentido de uma interpretação, mas como predicado dos acontecimentos.
Desprezar essa lei e seus ditames de harmonia e equilíbrio não era tão moralmente errado quanto
fisicamente desastroso. E assim como no inundo político o equilíbrio refletia o balanceamento entre
as forças da agressão e as forças da resistência, também a ordem social revelava uma inquieta
tensão entre as tendências de conservação e de destruição inerentes a qualquer corpo social. A
tarefa da política era distinguir a forma e a substância dessa competição e criar o alicerce moral de
uma ordem à qual só o tempo poderia conferir espontaneidade. Isto leva a outra distinção, tão
frequentemente considerada pelo racionalista como a solução, e não a definição, de um problema:
os homens podem apenas criar Cartas, que têm o valor de proclamações programáticas; é o tempo
que erige constituições.

Metternich, em consequência, opunha-se aos esforços de seus contemporâneos em elaborar


constituições ideais, por duas razões. Eles descuidavam do fator “tempo”, não no sentido
empregado por Burke, de entidade quase santificada, mas como uma das mais poderosas forças
sociais. E eram irrealistas porque a discussão toda sobre constituições estava deslocada. Tudo que
existia estava sujeito a leis e a expressão da lei no mundo político é a constituição: “Estado sem uma
constituição é abstração, tal qual um indivíduo sem a correspondente psique”. Portanto, era
contraditório tentar alcançar a liberdade por meio de garantias constitucionais. “Direitos”, segundo
Metternich, não podiam ser criados, existiam. Se eram afirmados ou não, isto era questão acidental,
essencialmente técnica, nada tendo a ver com liberdade. Ninguém podia transgredir as leis, nem
mesmo os reis, idéia remanescente da famosa expressão de Grotius de que nem Deus podia tornar
2+2 igual a 5. Garantir direitos, portanto, era um paradoxo. Era revestir da linguagem do poder o
que só podia ser uma declaração factual, dotar de existência arbitrária o que tem validade eterna:
“Coisas que devem ser naturalmente admitidas perdem em força quando aparecem na forma de
pronunciamentos arbitrários. (...) A mania da legislação é um sintoma da doença que aflige o mundo
há 62 anos. (...) Forças naturais, morais ou materiais não constituem objetos próprios da
regulamentação humana. Que dizer de uma Carta que ao lado dos Direitos do Homem trouxesse as
leis da gravitação? (...) Objetos por engano submetidos à legislação resultam apenas em limitação,
quando não na completa anulação, daquilo que se pretendia salvaguardar.”

Aqui estavam, portanto, a crença do racionalista nos direitos como predicados do universo, a visão
do aristocrata da inseparabilidade do poder e da responsabilidade, a fé do Iluminismo na ligação
entre ordem e liberdade. Ao afirmar a existência de “direitos” transcendentes a qualquer
elaboração humana, que, na realidade, a elaboração humana só podia prejudicar, enfatizava uma
contradição fundamental da teoria democrática: a concepção da natureza humana que insistia na
capacidade de autogoverno do homem, combinada, na mesma teoria, com outra concepção da
natureza humana que limitava o alcance desse governo. Por que o homem, consciente de opressão
arbitrária, haveria de desejar oprimir os outros? Por que teriam de ser garantidos direitos
universais? Isto, evidentemente, nunca constituiu problema nos países anglo-saxões, onde a relação
entre Estado e sociedade teve uma fundação jurídica, não ética. Em tais casos, as garantias
constitucionais têm o valor da diferença entre limitações explícitas e implícitas a um governo que,
afinal, se entende limitado. Porém num “Estado ético” uma limitação explícita sobre o governo não
tem sentido. Justificando-se o Estado não pela sua utilidade, mas pela sua moralidade, não há o
tribunal a que se possa apelar de suas medidas. Se a sanção não é jurídica, e sim ética, a limitação
só pode advir de auto-restrição, não de garantias constitucionais.

Este era o desafio do estadista conservador a seus oponentes liberais: Se o conservador se tornou
involuntariamente o símbolo de um período revolucionário ao ver-se forçado a uma definição da
natureza da autoridade, o liberal se contradisse ao responder a sua própria pergunta sobre a
natureza da liberdade. É bem verdade que Metternich não tinha uma resposta própria à inquirição
com respeito à liberdade, porque a considerava inseparável da noção de autoridade. Mas do mesmo
modo, seus adversários não haviam realmente tratado do problema da autoridade, que julgavam
esgotado na definição de liberdade. E no entanto estavam em posições mais próximas tio que
imaginavam: porquanto se alguém interrogasse Metternich sobre os limites da autoridade, e seu
opositor sobre os da liberdade, teriam ambos respondido com uma palavra, indicativa de que para
elos a pergunta não tinha sentido, essencialmente: a razão, auto-evidente e soberana, que
demonstrava sua aplicabilidade em sua própria concepção, traçaria a fronteira da liberdade, como
da necessidade. Que o imperativo categórico fosse passível de diferentes interpretações, era
inconcebível a Kant. Que um Soberano substituísse a lei pela força, não era inconcebível para
Metternich, que no entanto o considerava suicida e, portanto, improvável. Foi isto que deu à luta
entre Metternich e os liberais o rancor de uma guerra civil, pelo menos do lado “democrático”.
Porquanto Metternich era um adversário que combatia o liberalismo em nome da própria
universalidade que este reivindicava, cujo estilo de argumentação representava para seus
oponentes o mesmo repto que a existência destes constituía para ele. Realmente, é difícil para uma
filosofia racionalista sobreviver à demonstração de que a mesma premissa pode levar a duas
conclusões diametralmente opostas.

III

Se Metternich considerava quimérica a busca de constituições formais, via nas revoluções um


desastre físico. Num universo caracterizado pelo equilíbrio entre as forças da conservação e da
destruição, a revolução provinha de um distúrbio da balança em favor destas últimas. Mas desde
que o equilíbrio era a condição “natural”, a revolução não podia obter mais que um deslocamento
que forçaria uma nova integração. As desordens que acompanham revoluções, portanto, eram
sintomas de um período passageiro, e sua violência um reflexo da ignorância de seus defensores:
“Revoluções são perturbações temporárias na vida dos Estados. (...) A ordem sempre termina por
regenerar-se; Estados não morrem como os indivíduos, eles se transformam. Compete aos
estadistas (...) guiar essa transformação e supervisar sua direção.” A diferença entre uma ordem
conservadora e uma ordem revolucionária não é o fato da mudança, mas a forma: “Uma
consideração que o espírito liberal em geral ignora (...) é a diferença na vida dos Estados, tal como
na das pessoas, entre o progresso a passos medidos e aos saltos. No primeiro caso, as condições
surgem como consequência de lei natural; enquanto o último rompe essa conexão. (...) Natureza é
desenvolvimento, sucessão ordenada de aparências; somente este caminho pode eliminar o mal e
promover o bem. Mas as transições aos saltos terminam exigindo criações inteiramente novas — e
ao homem não é dado criar do nada.” Civilização, portanto, era o grau em que a mudança podia vir
“naturalmente”, o ponto em que a tensão entre as forças da destruição e da conservação estava
submersa num padrão espontâneo de obrigações. Assim, a verdadeira civilização só chegou com o
advento do Cristianismo, que tornou a autoridade inviolável, a obediência sacrossanta, divina a
abnegação — a interpretação funcional de religião, do racionalista.

É expressivo do dilema conservador o fato de os pronunciamentos de Metternich sobre a natureza


da autoridade serem lugares-comuns — pois um conservador a tem como absolutamente evidente; e
os referentes ao significado da liberdade serem parcimoniosos — pois considerava a questão vazia
de significado. Mas sua análise da natureza das revoluções é lúcida e convincente. Em 1820,
enquanto articulava a série de congressos destinados a vencer pruridos revolucionários, Metternich
escreveu uma “profissão de fé” que combinava uma análise da natureza da revolução com uma
filosofia da história. Até o século XVI, sustentava Metternich, as forças da conservação e da
destruição estiveram em equilíbrio crescentemente espontâneo. Mas ocorreram, então, três fatos
que com o tempo fizeram a civilização ser suplantada pela violência e a ordem pelo caos: a invenção
da imprensa, a invenção da pólvora e a descoberta da América. A imprensa facilitou a circulação de
idéias, que assim se vulgarizaram; a invenção da pólvora alterou o equilíbrio entre armas ofensivas
e defensivas; e a descoberta da América transformou a situação, material e psicologicamente. O
influxo de metais preciosos produziu uma súbita mudança no valor da propriedade de terras, que é
o alicerce de uma ordem conservadora, e a perspectiva de rápidas fortunas trouxe um espírito de
aventura e insatisfação com as condições existentes. Logo em seguida a Reforma completou o
processo, transtornando o mundo moral e elevando o homem acima das forças da história.

Isto tudo deu lugar a um tipo de indivíduo que simbolizava a era revolucionária: o presunçoso, o
homem atrevido, produto natural de uma marcha demasiado rápida do espírito humano em direção
à aparente perfeição: “Religião, moral, legislação, economia, política, administração, tudo parece
ter-se transformado em mercadoria comum, acessível a todos. Para o presunçoso, a ciência parece
intuitiva, a experiência não tem valor; a fé nada significa para ele, que a substitui pela máscara de
uma convicção pessoal, para chegar à qual, todavia, dispensa a análise e o estudo, atividades que
lhe parecem por demais inferiores para uma mentalidade que se acredita capaz de abarcar de um
golpe todo o conjunto das questões. Leis para ele não têm valor, pois não contribuiu para sua
confecção, e está abaixo da dignidade de um homem de sua condição reconhecer limites traçados
por gerações rudes e ignorantes. O poder reside nele; por que submeter-se ao que só pode ter valia
para os desprovidos (...) de discernimento? Aquilo que ficava bem numa época de fraqueza não
servia mais para uma era de razão. (...) [Tudo isso] tende para uma ordem de coisas que
individualiza todos os elementos componentes da sociedade.” É difícil encontrar declaração mais
trágica. O que tencionava ser sarcasmo — a demonstração da desproporção entre a máscara e a
realidade — não era mais que uma descrição dos objetivos de seus adversários. Aquilo que
Metternich acreditava bastar-lhe exibir para reduzir ao absurdo, seus oponentes julgavam que
apenas requeria afirmação para comprovar-se. Era o inevitável mal-entendido revolucionário, a
relutância em admitir que a “verdade” pode não ser evidente. Enquanto Metternich tentava
desesperadamente proteger a “realidade” de seus inimigos, a questão tornou-se, aos poucos, um
debate sobre sua natureza e a natureza da “verdade”. Se a “realidade” ainda não mostrasse
ambiguidades, ele não teria sentido a necessidade de afirmá-la. Pela crescente insistência em sua
afirmação, dava testemunho de sua desintegração.

A seguir, Metternich estabelecia distinções no presunçoso, por tipo e origem. Eram os niveladores e
os teóricos: os primeiros, homens de vontades poderosas e forte determinação; os últimos, teóricos
abstratos, vivendo num mundo próprio. Mas fosse qual fosse o disfarce assumido pela presunção,
seu lugar de origem era a classe média. O aristocrata revolucionário era uma alma perdida,
destinado a tornar-se vítima da Revolução ou da degradação, obrigado ao papel de cortesão dos
seus inferiores. E a massa da população sempre desconfiava da mudança, almejando apenas igual
proteção das leis para poder prosseguir em seu árduo destino. Mas a classe média — os advogados,
os escritores, os burocratas, os semi-educados — detendo os meios de comunicação, ambiciosa mas
sem alvos, insatisfeita mas incapaz de fornecer uma alternativa, aí estava o órgão real da revolução.
Não era acidental, concluía Metternich, a revolução ocorrer, não no mais pobre, mas no mais rico
país da Europa; não no Estado mais atrasado, e sim no mais adiantado; tão desmoralizado que “a
revolução já triunfara no palácio dos reis e nos boudoirs das cidades, antes mesmo de começar a
preparar-se na massa do povo”.

A Revolução não poderia ter triunfado senão pela fraqueza do governo e pela crença num mito cuja
aplicação literal foi desastrosa: o de que as instituições britânicas podiam ser transplantadas para o
continente: “Entre as causas da tremenda confusão que caracteriza a Europa dos dias que correm,”
escreveu Metternich mais tarde, num paralelo a sua profissão de fé, “está o transplante de
instituições britânicas para o Continente, onde estão em perfeita contradição com as condições
existentes, o que torna sua aplicação ilusória ou distorcida. A chamada “escola britânica” foi a
causa da Revolução Francesa, e as consequências dessa revolução, tão antibritânica em sua
tendência, devastam hoje a Europa. Os conceitos de liberdade e ordem são tão inseparáveis na
mentalidade britânica que o último dos cavalariços de uma estrebaria receberia às gargalhadas os
reformadores que lhe aparecessem pregando sua liberdade.” As guerras da Revolução Francesa
haviam espalhado esses princípios pela Europa. O ódio a Bonaparte retardou seu calamitoso
impacto por algum tempo, e isto devido a um mal-entendido. Pois a guerra feita pelos reis contra
Napoleão travou-a o povo em parte contra seus amos, na esperança de obter deles o cumprimento
das promessas da Revolução Francesa. A criteriosa paz concluída em 1814 poderia ter inaugurado
um período de tranquilidade, mas a volta de Napoleão de Elba desfez em cem dias a realização
antirrevolucionária de quatorze anos de governo bonapartista. Desencadeando outra vez a
revolução na França, Napoleão expunha a Europa à infindável luta social.

IV

Esta era uma análise acurada da causa da inquietação que sacudia a Europa. Mas sua acuidade era
também sua perdição. Pois se o espírito revolucionário estava tão espraiado, como podia ser
combatido? Se as causas da revolução eram tão fundamentais, datando de tão longe na história, que
possível remédio existiria? Se as classes médias eram tão poderosas, como tratar com elas? Pela
gradual integração, poderia ter respondido um representante do conservadorismo histórico, como
Burke, aprendendo a moderação e capacitando-se da necessidade de adaptação. Até mesmo
Castlereagh chegou a aconselhar Luís XVIII que os revolucionários “em lugar nenhum são para ser
menos temidos que em cargos públicos, misturados com outro material. Os tiranos podem
envenenar um tipo odioso, mas o único meio que tem um monarca constitucional para refreá-lo é
empregá-lo.” Mas para Metternich, o conservador racionalista, esta solução era uma evasiva
perigosa. Para o produto do Iluminismo, problemas políticos tinham de ter a precisão de antinomias
lógicas, e ele, portanto, acentuava as diferenças, ao invés de atenuá-las. Se as forças da destruição
estavam soltas, competia ao conservador redobrar as da ordem. Se o clamor por reforma era
universal, mais um motivo para resistir em nome da autoridade.

Desta maneira, a equação liberdade = submissão voluntária â ordem, tornou-se na prática uma
definição da esterilidade, e máximas inatacáveis passaram a justificativas da inação. Metternich
nunca deixou de comparar as concessões ao clamor popular ao esbanjamento de capital; daí sua
máxima básica de que “em meio a paixões agitadas não se pode pensar em reformas; a sabedoria
nesses casos significa manter”. Daí sua oposição cada vez mais rígida a qualquer mudança, pois
mudar simbolizava a possibilidade de ceder à pressão: “Quando tudo ameaça ruir, mais do que
nunca é necessário que alguma coisa, pouco importa o quê, permaneça firme, para que o perplexo
possa encontrar um elo, e o perdido, um refúgio.” Isto explica porque preferia por Napoleão aos
Bourbons, a despeito da “legitimidade” destes; para Metternich a legitimidade não era um fim, mas
um instrumento, e quando ela entrava em conflito com os requisitos de estabilidade, tinha que
ceder. Assim, paradoxalmente, Metternich tornou-se um defensor das instituições existentes, por
mais que as deplorasse, já que sua derrubada seria um sinal ainda mais perigoso. Quando no pânico
de 1820 o Grão-Duque de Baden propôs abolir sua constituição, Metternich respondeu: “Toda
ordem legalmente estabelecida traz em si o princípio de um sistema melhor. (...) Uma Carta, em
todo caso, não é uma constituição. Compete ao governo separar o que é bom do que é mau, reforçar
a autoridade pública e proteger o repouso e a felicidade das nações contra ataques adversos.”

Foi uma luta inglória, em tour de force conducente à autodestruição, este esforço de operar
mudança através da ordem e de identificar ordem com tranquilidade no meio de um período
revolucionário. Foi na realidade, malgrado os protestos em contrário, uma tentativa de reaver a
inocência perdida, a procura de um período em que a obrigação era espontânea, uma noção
aristocrática de governo como cumprimento recíproco de deveres. O “sistema Metternich”
respondeu à questão da causa da revolução, mas não deu indicação de como lidar com ela se
ocorresse. Falava abstratamente de sua disposição para a reforma, mas nunca determinou que
medidas específicas consideraria adequadas. Ainda em 1851 Metternich não encontrava conselho
melhor a dar a seu sucessor, Schwarzenberg, que o de reforçar a aristocracia da terra, como se a
classe média ainda pudesse ser esmagada. A afirmação de que as revoluções sempre ocorrem por
culpa dos governos, que só a ação pode conservar, era inatacável. Mas na prática levava a um
círculo vicioso, pois Metternich, embora não se opusesse à reforma em princípio, a queria como
emanação da ordem, enquanto seus opositores desejavam o mesmo em nome da mudança. Resultou
um impasse, triunfo da forma sobre a substância.

A aspiração de Metternich tomou-se, então, uma busca interminável de um momento de


tranquilidade, a ânsia por uma suspensão, ainda que breve, do fluxo da vida, para o que então
acontecesse, talvez inevitavelmente, se poder representar como um princípio universal, em vez de
asseveração da vontade e da indeterminação. Era como se um físico, incapaz de medir
acuradamente a posição e a velocidade de um elétron, empenhasse todas as suas energias em fazê-
lo parar, ainda que por uma fração de segundo, porque isso lhe permitiria traçar seu curso para a
eternidade. Ou como se o motorista de um carro em disparada e sem controle, numa direção
desconhecida montanha abaixo, tentasse desesperadamente segurar o volante; pois se o fizesse, o
despenho inevitável representaria ordem e não caos. Aconteceu assim que o discernimento de
Metternich, embora agudo, tornou-se cada vez mais dogmático. Embora pudesse estar certo quando
dizia que os que nunca tiveram um passado não podem possuir o futuro, os que têm um passado
podem condenar-se ao procurá-lo no futuro.

E, no entanto, em toda essa obtusão havia um elemento de grandeza. Pois Metternich não tinha
ilusões quanto aos prováveis acontecimentos; atribuía-se a tarefa de atenuar suas inevitáveis
consequências: “A sociedade existente está em declínio. Nada se imobiliza jamais (...) e a sociedade
chegou ao zênite. Assim sendo, avançar é descer. (...) Esses períodos parecem intermináveis aos
contemporâneos, mas o que são duzentos, trezentos anos nos anais da história? (...) Minha vida caiu
num período terrível. Nasci ou muito cedo ou muito tarde. (...) Antes, eu teria gozado a vida, mais
tarde, poderia ajudar na reconstrução. Agora, passo meu tempo a escorar edifícios em decadência.”
Ele não combatia a revolução não porque era impossível, mas porque era “antinatural”. E combatia
a democracia porque “a autoridade é uma expressão do poder de permanência; embora [no governo
parlamentar] o poder apareça sob o aspecto da transitoriedade (...) ao que sei, mentes pequeninas
gostam de imaginar-se expressões de poder, mas é igualmente fora de dúvida que os opositores de
toda autoridade apreciam vê-la reduzida a termos pessoais, porque isso lhes facilita o esforço de
eliminá-la.” ** Como considerava a ordem expressão do equilíbrio, e o equilíbrio reflexo da
estrutura do universo, tinha absoluta certeza de que os “interesses básicos” dos Estados
terminariam por reafirmar-se. Mas previa que os revolucionários haviam de horrorizar-se com o
mundo que estavam inventando. Quanto maior o deslocamento tanto maior o interregno de caos. O
despotismo, para Metternich, não era a ausência de garantia de direitos, mas o governo sem
máximas universais. A tirania não era causa de revoluções, mas seu provável resultado. E quanto
mais as forças de destruição conseguissem minar a ordem social, tanto mais a autoridade — a
expressão inevitável da sociedade — teria que tomar uma forma pessoal, a visão de arbitrariedade
do conservador.

Era assim que Metternich colocava o desafio conservador, como necessidade de transcender a
afirmação da exclusiva validez da vontade, e como o requisito para limitar as pretensões de poder.
Era uma redefinição da clássica versão teológica da humildade, “Seja feita vossa vontade”, apenas a
razão tomando o lugar de Deus. Representava uma tentativa de cuidar do mais fundamental
problema da política, que não é o controle da maldade mas a limitação do orgulho. “Punir” o mau é
coisa relativamente fácil, porque é simples expressão de moralidade pública. Restringir o exercício
do poder farisaico, bem mais difícil, porque indica que o direito existe no tempo como no espaço;
que a volição, ainda que nobre, é limitada por forças que transcendem a vontade; que chegar à
autocontenção é o desafio maior da ordem social. Metternich abordava este problema afirmando
que o excesso em qualquer direção era demolidor da sociedade. A vontade individual era
condicional por ser o homem um resultado de forças que o transcendem: a sociedade e sua
expressão histórica, o Estado, que eram produtos da natureza tão certamente quanto o próprio
homem, pois refletiam as necessidades básicas de justiça e ordem. Por serem “naturais”, os Estados
têm um ciclo de vida assim como os seres humanos, incapazes apenas do descanso humano final:
eles não podiam morrer, tinham de pagar o preço de todas as suas transgressões.

Não era de estranhar, portanto, que o último ato do estadista conservador fosse de natureza
simbólica: a defesa da anonimidade, que por si só poderia corroborar suas máximas. Quando em
1848 uma deputação da revolução vitoriosa chamou sua renúncia “generosa”, o idoso Metternich
retrucou: “Eu protesto solenemente contra esse termo. Somente um Soberano pode ser generoso;
minha atitude resulta de meu senso do direito e de meu conceito do dever.” Assim, o gesto final do
“doutor em Revolução” era uma última desesperada afirmação da ordem, da precedência do direito
sobre o arbítrio, mesmo na derrota, depois de meio século de luta. E quando um dos delegados
insistiu em usar o termo “generosa”, disse Metternich: “Ao municiar, prevejo outra alegação, a de
que levei comigo a monarquia. Porém tal não é o caso. Indivíduo nenhum tem os ombros
suficientemente fortes para carregar um Império; se os Estados desaparecem é porque perdem a fé
em si mesmos.” Era também a simbolização final do dilema conservador: que a tarefa do
conservador não é derrotar, mas prevenir, a revolução; que a sociedade que não pode evitar uma
revolução, e cuja desintegração de valores foi demonstrada pelo fato da revolução, não será capaz
de vencê-la por meios conservadores; que a ordem, uma vez abalada, só se pode restaurar pela
experiência do caos.

Havia, porém, outro motivo para a rigidez das máximas de Metternich; na realidade, essa rigidez,
em muitos aspectos, simplesmente refletia a estrutura do Império que ele representava. Em todo
período existem anacronismos, Estados que parecem atrasados e até decadentes para aqueles que
não compreendem estar tratando com os mais tenazes remanescentes de uma ordem mundial
desintegrada. Mas justamente a tenacidade embotada que permitiu a sobrevivência dessas relíquias
limita-lhes a adaptabilidade. Confrontando-se com um mundo que não os compreende mais, a
rigidez toma-se sua reação instintiva às forças de dissolução.

Tal era a situação do Império Austríaco no século XIX. Construído pela tenacidade de uma só
dinastia, tornado poderoso como baluarte da Europa contra o Oriente, seus territórios combinavam
as mais variadas nacionalidades e níveis de civilização, unidos apenas pelo Imperador comum. Das
grandes estruturas feudais do período medieval, somente o Império Austríaco sobrevivera no
período moderno, interligado ainda por princípios de vassalagem correspondida, por uma série de
complexos entendimentos, pela manifesta evidência de sua necessidade. “A Áustria,” escreveu
Metternich, “é um Estado juridicamente uniforme, mas administrativamente diversificado.
Diversificado, não por um ato de vontade, mas por motivos fundamentais, dos quais o mais
importante é a diferença de nacionalidade. (...) O alicerce do Império é, portanto, a manutenção das
diferentes codificações legais dos vários componentes; esta é a nossa proteção contra o nivelamento
de todos os conceitos, característica de nosso período.”

Mas que faria um Estado dinástico numa era de centralização e nacionalismo, de administração
racionalizada e legislação codificada? O impacto do modernismo era dissolvente para uma estrutura
tão complexa, tão tênue, mesmo. Pois como poderiam instituições orgânicas racionalizar-se, quando
os relacionamentos eram tão intrincados que a simples tentativa de defini-los só serviria para
acentuar as diferenças? Qual seria a possibilidade de aplicar a lição francesa da eficiência de um
governo altamente centralizado a um Estado onde o esforço de centralização muito provavelmente
haveria de consumir toda a energia em pendências internas? A Áustria passara pela experiência da
tentativa do grande Imperador José de aplicar as lições do Iluminismo, o que quase fizera o Império
em pedaços. E se o Império Austríaco custava a aprender, nunca mais esquecia uma lição, e sua
memória era sua inflexibilidade, mas também foi sua ruína.

Metternich, portanto, combateu o liberalismo não apenas por motivos teóricos, mas também
eminentemente práticos. Considerava quimérica a busca, pelos liberais austríacos, de um Estado
moderno, centralizado, por basear-se numa concepção de governo não aplicável à Áustria. “Viena
não é Paris,” escreveu Metternich depois que a revolução liberal de 1848 tentou transformar a
Áustria num Estado unitário, “não é a cidade que consome a vida de todo o Império e que pode,
portanto, prescrever-lhe as leis à vontade. Não passa da casca de noz onde por acaso está situado o
coração do Império. (...) É a capital de todo o complexo de Estados apenas porque sucede o
Imperador ali residir, e o motivo para isto é técnico, sua situação central. (...) Todos os componentes
do Império voltam-se para o Imperador — seu verdadeiro e visível chefe. Alguém olha para um
ministério, que só representa a si mesmo? A Hungria obedecerá a suas ordens? Na verdade, como
poderia? Acaso o ministério cinge a Coroa de Santo Estevão? (...) O Imperador é tudo, Viena nada
significa.” Novamente uma análise magnífica de um dilema, a que outra vez não oferecia solução,
porque a tragédia da Áustria era precisamente a legitimidade da lealdade pessoal não ser mais
suficiente, era o fato de que o século XIX aos poucos reduziu o governo a uma expressão abstrata
que justificava seus atos pela racionalidade de cada medida e não pela “autenticidade” histórica de
seu governante.

Sua análise da estrutura do Império Austríaco fazia Metternich rejeitar a noção da responsabilidade
ministerial, não por acreditar que o poder do Imperador era absoluto, mas porque sua noção de
responsabilidade se aplicava a outra esfera de raciocínio, diferente da de seus opositores. A
responsabilidade implicava um conceito jurídico, sustentava Metternich, e por essa razão, nos
Estados parlamentares, o Parlamento era a corte suprema de justiça. Mas a Áustria não se podia
permitir uma Representação Central, justamente porque seus laços eram dinásticos, não nacionais.
Um ministério responsável admitia a soberania popular, mas a soberania popular significava a
dissolução da Áustria. Esta situação não mudaria com a criação de legislaturas nas várias partes do
Império, pois ao passo que a soberania monárquica podia ser estendida a várias nações, a soberania
popular era indivisível. Tampouco seria exequível a disposição hierárquica dos parlamentos de
diferentes nações, como o demonstrara a experiência da Grã-Bretanha e da Irlanda. O clamor por
um governo responsável era, portanto, a exigência de uma total irresponsabilidade. Não existindo
uma nação austríaca, o ministério seria responsável apenas perante si mesmo. A Áustria, produto da
história e de uma visão dinástica, só podia encontrar responsabilidade nos brocardos de seu
monarca, na corporificação de sua única visão de si mesma, o Imperador.

Outra vez uma esplêndida antinomia. Mas como haveria o monarca de reinar num século de
nacionalismo? Reforçando-se o governo para que realmente governasse e descentralizando a
administração, era a resposta de Metternich. O Império poliglótico só podia sobreviver
demonstrando o efeito benéfico de uma autoridade central e sua compatibilidade com a diversidade
cultural. Esta era a medicina de Metternich para a enfermidade básica do Império Austríaco: a
confusão de política com administração. Com o passar do século XIX, o Império anacronístico
procurou cada vez mais a precisão do cálculo, e isso mais facilmente se pode encontrar na aplicação
de normas burocráticas que no ajustamento às condições cambiantes. A administração cria a ilusão
de “mover-se por si mesma”; a rotina, que é o modo de assimilar a mediocridade, aparece ao
espectador como a condição de seu sucesso. A motivação de uma burocracia é sua busca de
segurança; mede o sucesso pelos erros evitados, não por metas atingidas; orgulha-se da
objetividade, negação da necessidade de grandes concepções — qualidades, todas, que para uma
estrutura em desintegração podem simbolizar o meio de extrair certeza do caos iminente. É
compreensível, mesmo que tenha sido desastroso, que a Áustria aplicasse critérios cada vez mais
puramente administrativos à solução de seus complexos problemas domésticos. Mas se era certo
que a Áustria não poderia executar a transição de Estado dinástico a centralizado sem se
desintegrar, daí não decorria que tivesse de importar para o período moderno o estilo de governo do
século XVIII e dos anteriores. Bem demonstrava a esterilidade da política austríaca o fato de
confundir a natureza de sua legitimação interna com a estrutura de sua burocracia e de que uma
administração superada se visse a braços, portanto, com os problemas rapidamente multiplicativos
de industrialização, nacionalismo e liberalismo. Desta maneira, a monarquia austríaca perdeu a
oportunidade de justificar-se pelo desempenho, e a oposição pôde acrescentar a acusação de
ineficiência às diferenças doutrinárias.

O sistema de administração era nada menos que uma continuação do padrão patriarcal de
obrigações do período feudal. O Imperador era não só a única fonte de autoridade, juridicamente,
mas o verdadeiro centro da política e da administração. O governo não era dirigido por ministérios,
mas através de departamentos da Corte Imperial. Seus chefes não eram ministros, mas “Hofrate”,
chefes permanentes de departamentos. Durante quase uma década Metternich foi o único servidor
com título de ministro, e pagou sua eminência vendo-se invejosamente despojado de toda a
influência interna. Além do Imperador, nada menos de três órgãos encarregavam-se de coordenar
os diferentes departamentos; mas tinham a natureza de comissões interdepartamentais, compostas
de funcionários dos próprios departamentos incluídos, e sua estrutura e funções eram tão confusas
que um eminente historiador austríaco, em 1884, foi incapaz de descrevê-las precisamente. De
qualquer maneira, só se reuniam a critério do Imperador, e apenas examinavam os assuntos que lhe
aprouvesse apresentar-lhes. A administração austríaca foi descrita como uma engenhoca de rodas
que giravam com um barulho infernal sem avançar um centímetro. Metternich disse bem, mais
tarde, que algumas vezes havia governado a Europa, mas nunca a Áustria.

Pouco adiantou que um dos primeiros atos de Metternich ao assumir o Ministério do Exterior fosse
uma proposta de reorganização, e que, logo depois, ele apresentasse um plano para criar um
Reichsrat, um Conselho Imperial, para coordenar e desenvolver a política básica. Essas tentativas, e
muitas outras, esbarravam na obstinação do Imperador. O Imperador Francisco era uma dessas
mediocridades que acreditam que a lição da experiência está na recordação mecânica. Sua noção
de sucesso era o oposto de fracasso, sua noção de causalidade era sucessão no tempo. Como as
tendências centralizadoras de seu antecessor, José II, haviam levado à luta civil, toda reforma devia
ser evitada. Como a tentativa de congregar o povo não conseguira alcançar a vitória em 1809, não
se devia depender de forma alguma do apoio popular. Casmurro e suspeitoso, pedantesco e sem
imaginação, vira tantas convulsões que tinha a mera persistência na conta de valor ético. Sua
qualidade mais característica era um pretenso estoicismo que denotava ausência de sensibilidade.
“Odeia a reflexão”, disse dele seu tio, o grande José II. “Não comunica seus pensamentos porque
teme saber da verdade. (...) Vendo que sua obstinação (...) torna-lhe dócil o ambiente, emprega-a
para conservar-se nesse conforto. (...) Uma ameaça o afeta, a mais desagradável de todas porque
reveladora de um caráter insensível, qual seja o medo do vexame, da contrariedade, que o torna
pequeno, adaptável, fácil nas promessas sem, no entanto, mudar suas opiniões, nas quais persiste
devido a um orgulho de nascimento falsamente entendido.”

Este o homem que dirigiu a Áustria por mais de uma geração, e talvez no mais crucial período de
sua história. Mentalidade trivial, julgava-se capaz de resolver pessoalmente todos os problemas,
porque para os vulgares todos os problemas são igualmente difíceis — e igualmente fáceis. Uma
sucessão de desastres ensinara-lhe apenas que a mudança era a causa, não a expressão, das
transformações. Tentava, portanto, evitá-la a todo custo e por todos os meios. Seu sistema de
controle policial era notório, e deliciava-o a leitura até mesmo dos relatórios mais sem importância.
Zeloso de suas prerrogativas, era cuidadoso na divisão do poder entre seus subordinados para
evitar qualquer influência preponderante. Mesmo Metternich, a despeito de todos os seus sucessos
nos assuntos externos, sentia-se na obrigação de prefaciar qualquer discussão de problemas
internos com uma justificativa subserviente, demonstrativa de que o assunto tinha relação com a
política externa. Nada mais natural que um homem desses buscasse refúgio na determinação de
normas burocráticas, que interferisse em cada detalhe da administração, que nem a decisão mais
comum se pudesse tomar sem sua anuência. Sua atividade era estupenda, mas atividade é o
pagamento para aplacar a consciência de mediocridade. “Ele trata dos assuntos à maneira de uma
broca”, disse a seu respeito Metternich, certa ocasião, num raro momento de exasperação, “que
penetra cada vez mais fundo até que de repente, e para surpresa sua, vai dar em algum lugar sem
ter produzido mais que um buraco num memorando.”

Sendo essas as circunstâncias, compreendem-se as cuidadosas manipulações de Metternich. Pois a


menos que o Imperador fosse levado a uma decisão, imperceptivelmente, o suficiente para que
certa mudança pudesse ser realizada sob a ilusão de estabilidade, era certo que resistiria.
Metternich não estava muito longe da verdade, quando disse, de maneira pouco usual: “Tivemos um
santo que foi para o céu porque ficou anos num pé só em cima de uma pilastra. (...) Seu mérito foi a
incômoda posição; a minha não é melhor.” Mas o impacto da personalidade do Imperador era ainda
mais desastroso internamente, e foi novamente Metternich quem nos deixou a melhor cápsula
descritiva: “Eu queria que o governo governasse, meus colegas desejavam administrar de acordo
com normas existentes. (...) Nessa situação, as providências só vinham à minha atenção depois que
haviam percorrido a escala de todos os departamentos subordinados onde sua formulação final era
preparada e de onde me vinham somente quando era necessária uma decisão urgente, o que, por
sua vez, tornava impossível fazer outra coisa senão concordar com a proposta administrativa. (...) O
grande erro do Império Austríaco (...) era a preocupação do governo com assuntos que deviam ser
tratados administrativamente. Isso paralisava a máquina governamental, sobrecarregava de
banalidades o mais alto escalão, e livrava de responsabilidade os níveis inferiores. Deveria eu ter
forçado a administração em direção diferente? Para tanto não tinha poder. Devia destroçar a
máquina? Isso apenas levaria ao colapso. Minha missão não era governar, nem administrar, mas
representar o Império junto aos países estrangeiros.”

Esta era, então, a tarefa do estadista conservador ao contemplar a ordem internacional em 1815:
Representar seu país no exterior, encobrir suas fraquezas, retardar o mais possível o inevitável.
Nessa tarefa ajudou-o a maravilhosa técnica diplomática, que durante algum tempo transformou a
debilidade num patrimônio diplomático e lhe permitiu emergir como a consciência conservadora da
Europa. A tentativa dessa diplomacia de identificar a legitimação interna da Áustria com a da ordem
internacional não foi tanto um sintoma de rigidez como talvez a única política possível numa
estrutura interna que Metternich não tinha outra alternativa senão aceitar como lhe era dada. Era,
portanto, diplomacia par excellence, manipulação pura, e o fato de carecer de uma estatura básica
deveu-se tanto à força das circunstâncias como à falta de criatividade de Metternich. “Em que
tempos vivi eu?”, escreveu Metternich em seu testamento político. “Examine quem quiser as
situações com que a Áustria e toda a Europa se defrontaram entre 1809 e 1848, e pergunte a si
mesmo se o discernimento de um homem poderia ter transformado essas crises em situações
florescentes. Eu reivindico haver reconhecido a situação, mas alego também a impossibilidade de
erigir uma nova estrutura em nosso Império (...) e por esse motivo toda minha preocupação voltou-
se para a conservação do que existia.”

Eis o epitáfio do estadista conservador: A História é maior que o indivíduo, mas embora dê suas
lições com segurança, não o faz numa só vida. E a declaração marca também os limites da
capacidade de Metternich. Pois os estadistas não devem ser julgados apenas por suas ações, mas
também por sua concepção das alternativas. Aqueles estadistas que alcançaram a grandeza final
não o conseguiram através da renúncia, ainda que justificada. Foi-lhes dado não só manter a
perfeição da ordem, mas ter a fortaleza de contemplar o caos para nele encontrar o material de
novas criações.

* 14 de março de 1848, data da renúncia de Metternich como Staatskanzler

** Ele não aplicava esta noção à Grã-Bretanha onde via a permanência da autoridade expressa na
frase His Majesty’s Government.
12/ O CONGRESSO DE AIX-LA-CHAPELLE E
A ORGANIZAÇÃO DA PAZ

QUANDO A PAZ finalmente chegou para uma Europa que se acostumara à luta incessante, foi
recebida não só com alívio mas também com certo sentimento de desilusão. Os sofrimentos de um
período de guerras revolucionárias só pode ser suportado por uma esperança no milênio, pela visão
de um mundo livre de problemas. O conflito parecendo tão onipresente, a paz é imaginada como
simples ausência de guerra; presume-se que a ordem é consequência natural do equilíbrio, e a
harmonia o preceito evidente da autopreservação. Todavia, quanto maiores são essas expectativas,
tanto mais sério é o desencanto inevitável. Tem que chegar o momento de verificar que a exaltação
da guerra não é transportável para os problemas da paz, que a harmonia é atributo das coalizões
mas não das ordens “legítimas”, que a estabilidade não é equivalente à consciência de reconciliação
universal. Pois o objetivo de uma guerra é bem determinado: a derrota do inimigo. Mas a meta da
paz é variável, é o ajustamento das diferenças entre os componentes do equilíbrio. A motivação de
uma guerra é imposta de fora, pela ameaça de um inimigo comum. A motivação da paz é o trabalho
de realizar os objetivos históricos de um Estado dentro da estrutura de um sistema de ordem.
Longos períodos de paz, por essa razão, não têm de ser necessariamente acompanhados por uma
consciência de harmonia; esta é uma ilusão da posteridade — ou das potências insulares. Ao
contrário, somente períodos convencidos da impossibilidade de desastres irrecuperáveis conseguem
propiciar a diplomacia de gabinete, com suas alianças cambiantes, que atestam a ausência de cisões
intransponíveis, com seu aparente cinismo, indicativo de que os riscos são limitados, com suas
guerras restritas, reveladoras de que as diferenças são periféricas.

“Tudo que ocorreu depois de 1815”, escreveu Metternich em 1819, “pertence ao curso da história
comum. A partir de 1815, nossa época é abandonada a seus próprios mecanismos; avança porque
não pode parar, mas já não é guiada. (...) Recaímos numa era em que um milhar de pequenos
cálculos e de opiniões triviais formam a história do dia. O mar ainda por vezes se agita, mas são
tempestades passageiras. Sem dúvida, ainda se pode emborcar num mar assim; pode-se afundar até
mais facilmente nesse mar, porque o vento é mais difícil de calcular que a tempestade; mas o
espetáculo já não é grandioso.” Os calculismos mesquinhos a que Metternich se referia constituíam
sintomas de que a estabilidade começava a ser tida como coisa normal. Quando transformações
totais tornam-se impossíveis ou inconcebíveis, a política deve concentrar-se nas mutações quase
imperceptíveis cujo efeito cumulativo pode resultar no rompimento do equilíbrio. Quando as
pretensões absolutas deixam o trono, as reivindicações variáveis passam a reinar excelsas. E
embora o espetáculo que apresentam não seja grandioso, é o modo pelo qual as ordens legítimas
implementam sua intuição de permanência. A guerra resulta na supressão da nuança; a paz assiste
ao seu regresso.

Foi um sinal da estabilidade do ajustamento de Viena o fato de as disputas, depois de 1815,


tomarem gradualmente a forma de uma controvérsia sobre a interpretação dos três conjuntos de
tratados que haviam estabelecido a nova ordem internacional: (a) os tratados de paz e as Atas
Finais do Congresso de Viena; (b) os tratados de aliança do Tratado de Chaumont e a Quádrupla
Aliança); (c) a Santa Aliança. Os tratados de paz e as Atas Finais do Congresso de Viena haviam
ajustado as combinações territoriais da Europa. Mas ainda era ponto discutível se representavam ao
mesmo tempo uma garantia desse arranjo. Qual das interpretações estava correta: a interpretação
britânica, segundo a qual a estrutura dos tratados de 1814-15 destinava-se a cuidar somente do
problema de uma nova agressão francesa, ou a de Alexandre, insistindo em que ela implicava na
garantia da ordem existente, interna e territorial? Este seria o tema do Congresso de Aix-la-
Chapelle. Os tratados de aliança dirigidos contra a França tornavam evidente que a Europa estava
sendo organizada, ao menos em parte, pelo temor de um inimigo comum. Mas com a cláusula das
conferências periódicas, Castlereagh introduzira algo inteiramente novo nas relações diplomáticas
das grandes potências: uma visão de governo europeu. E os assuntos que seriam considerados
tópicos adequados para uma discussão internacional ainda estavam indefinidos. A ameaça ao
equilíbrio era política ou social? A diplomacia de conferências poderia ser internamente legitimada
na Grã-Bretanha? Estes foram os problemas das conferências de Troppau e Laibach. A Santa
Aliança, a que todos os soberanos logo aderiram, com exceção do Papa e do Sultão, * foi uma
afirmação da difusão dos princípios morais e da associação fraterna dos monarcas. Mas preceitos
éticos tornam universais pretensões que tanto podem usar-se para justificar a interferência geral
como o auto-refreamento. Tomar-se-ia o crescente misticismo do Czar uma arma revolucionária ou
um meio de limitar a expansão russa? Esta foi a questão que levou ao Congresso de Verona.

É interessante que uma série de congressos tenha marcado as etapas de uma tentativa de organizar
a Europa sob a tutela das Grandes Potências. Pois nesses congressos evidenciou-se que a unidade
não era um fim, mas uma série de condições, que sua interpretação dependia da posição histórica e
geográfica dos protagonistas e, finalmente, que era limitada pela possibilidade de legitimar
internamente o consenso internacional. Mas em 1815 os hábitos da guerra ainda estavam muito
arraigados; a harmonia ainda era tida como um solvente mágico da discórdia, e a boa-fé como
remédio suficiente para problemas vistos como simples mal-entendidos. Ainda não se percebera que
os três principais protagonistas interpretavam a tão invocada “unidade” de maneiras inteiramente
diferentes: Castlereagh considerando-a causa, não expressão, da cooperação internacional;
Metternich, como um meio de obter sanção moral para a política austríaca; e o Czar, um passo na
direção da bênção de uma humanidade conciliada.

II

O período imediatamente posterior à Paz de Paris marcou-se pela mais íntima cooperação entre
Castlereagh e Metternich. Era uma cooperação já experimentada nas várias crises da Coalizão e,
como naquele tempo, sua unidade de objetivos resultou em parte de uma identidade de interesses, e
em parte foi imposta pela pressão do Czar. Enquanto a Grã-Bretanha buscasse sua segurança na
estabilidade continental, a Áustria seria sua aliada natural. Tanto a Grã-Bretanha como a Áustria
eram potências do status quo, a Grã-Bretanha porque a estabilidade era seu único interesse
continental, a Áustria porque a estabilidade era sua condição de sobrevivência. Ambas
concordavam, na interpretação dos elementos do equilíbrio, em que uma Europa Central forte era
um requisito da tranquilidade européia, e que uma Áustria poderosa era a solução para a Europa
Central. E ambas se achavam frente a uma Rússia inquieta, que numa geração avançara suas
fronteiras do Dnieper até além do Vístula.

A despeito de seu crescente misticismo, Alexandre continuava a ser fonte de preocupação. Viu-se
logo que as formulações gerais da Santa Aliança prestavam-se a várias interpretações. A irmandade
dos povos podia ter sido erradicada do texto, mas o espírito que a causara continuava a ter
influência. Relatórios de todas as partes da Europa mencionavam a atividade dos agentes russos.
Na Sicília, envolveram-se em intrigas com a facção jacobina; na Espanha, o embaixador russo
negociava a venda de navios russos para reequipar a esquadra espanhola — uma direta, ainda que
insignificante, ameaça à Grã-Bretanha. E depois que a Princesa de Gales recusou-se a casar com o
Príncipe Herdeiro de Orange, a corte russa aproveitou-se do constrangimento britânico, acertando o
casamento de uma Grã-Duquesa com o desprezado Príncipe. Em parte, essas atividades deviam-se
ao novo conselheiro do Czar, Capo d’Istria, um nobre grego que conseguia combinar as máximas
liberais do Iluminismo com o serviço a um autocrata, e cujo dogmatismo e suspeito pan-helenismo,
em breve lhe valeram a quase obsessiva desafeição de Metternich. Em parte, as atividades russas
tinham causa na insegurança de uma nação jovem e atrasada, ainda desacostumada ao centro dos
acontecimentos. “Os russos são todos peculiarmente sensíveis a comparações desfavoráveis”,
relatava Cathcart. “Sentem-se feridos ante qualquer superioridade evidente. (...) Odeiam-nos pelo
que não podem fazer e, sem qualquer objeto imediato onde tirar vantagem, sentir-se-ão sempre
inclinados a prejudicar nosso poder, em vez de favorecê-lo.”

Tampouco a exaltação religiosa do Czar significou um retraimento da atividade política. Ao


contrário, parecia armá-lo de novo pretexto para interferir nos assuntos internos de outros Estados.
Nem a Áustria foi poupada, embora Metternich tomasse providências para que a situação não lhe
fugisse do controle. Quando Nesselrode inquiriu se a Áustria havia reprimido as seitas pietistas,
Metternich secamente o negou, mas acrescentou imediatamente que elas não haviam sido
reprimidas apenas porque nunca foram permitidas. Concluiu com o ataque ao misticismo citado no
capítulo anterior e encaminhou a troca de notas ao Imperador, com o seguinte comentário irônico:
“Se andei tratando de alguns estranhos assuntos, foi porque quis cortar essa discussão sobre
súditos bíblicos e polícia religiosa bem antes que sequer começasse. (...) Todas as idéias do
Imperador Alexandre resumem-se sempre numa só: angariar prosélitos. Essa a razão por que
requesta os jacobinos na Itália e os pietistas no restante da Europa. Hoje, os ‘Direitos do Homem’
foram substituídos por uma preocupação com os Livros da Bíblia”. O problema das relações com a
Rússia ainda era, portanto, o mesmo de Langres, Troyes e Viena; a tentativa de um homem em
identificar a ordem européia com sua vontade. “Alexandre deseja a paz do mundo”, disse um
diplomata austríaco, “mas não pela paz e suas benesses, e sim no interesse dele mesmo; não
incondicionalmente, mas com reservas mentais: ele tem de permanecer como árbitro da paz; dele
devem emanar o repouso e a felicidade do mundo, e toda a Europa precisa saber que esse repouso é
obra dele, que depende de sua boa vontade e pode ser perturbado se lhe der na veneta.” Foi a sua
percepção de uma Rússia caprichosa, instável, intrometida, que deu conformação à política de
Metternich durante a vida de Alexandre.

Mas se Metternich e Castlereagh estavam de acordo quanto aos elementos do equilíbrio e ao


provável perigo, não pensavam necessariamente do mesmo modo quanto à política de combatê-lo.
Para Castlereagh, o fato de uma conferência era um símbolo de boa-fé, e a boa-fé motivo suficiente
para a harmonia européia. Para Metternich, a conferência era apenas uma armação que teria de
receber conteúdo através da destreza diplomática. Para Castlereagh, a unidade era causa da
harmonia; para Metternich, a expressão da identidade moral. Castlereagh pensava em moderar o
Czar mostrando-lhe que nada tinha a recear; Metternich imaginava conter Alexandre obtendo sua
concordância com uma doutrina de autolimitação. A política de Castlereagh julgava político o perigo
para a Europa. Metternich considerava a verdadeira ameaça social, e suas energias devotaram-se a
impedir o que ele chamava partido revolucionário de obter o apoio político de uma grande potência.

Essa divergência refletia a diferença de estruturas internas, assim como de posição geográfica. A
potência insular, segura na crença da inexpugnabilidade de suas instituições domésticas, podia
apoiar sua política na doutrina de não-interferência nos assuntos internos de outros Estados; o
império multilíngue, cônscio do anacronismo de suas instituições, tinha que tentar prevenir, não
limitar, transformações. A Grã-Bretanha, na periferia da Europa, podia correr o risco de um erro na
estimativa da intenção de outra potência. Metternich não tinha essa margem de segurança. Assim,
embora Castlereagh e Metternich representassem potências do status quo e adotassem políticas
externas essencialmente defensivas, o “ponto de ebulição” de Metternich era bem mais baixo.
Vivendo na convicção da invulnerabilidade, Castlereagh podia jogar com a realidade da boa-fé.
Vivendo no presságio do desastre, Metternich tinha de buscar expressões mais tangíveis de
segurança.

“Nossa posição insular coloca-nos suficientemente fora do alcance de um perigo imediato [meu
grifo] para nos permitir cursar uma política mais generosa e confiante”, escreveu Castlereagh num
despacho circular de 31 de dezembro, destinado a acalmar os temores dos representantes
britânicos com respeito aos móveis russos. “No estado presente da Europa, é incumbência da Grã-
Bretanha aplicar em favor dos desígnios de paz essa confiança que temos inspirado, exercendo uma
influência conciliadora. (...) O propósito imediato a ter em vista é incutir nos Estados da Europa (...)
um senso do perigo que superaram pela união, e das incertezas que os aguardam se relaxarem a
vigilância.” Com a autoconfiança do seguro insular, Castlereagh fez um sermão a Metternich sobre
sua “timidez” e excessiva cautela. Quando o Czar, na primavera de 1816, surgiu com um plano de
desarmamento geral, Castlereagh tomou o fato como vindicação de sua política. Embora se
esquivasse à proposta, sugerindo à Rússia seguir o exemplo da Áustria e da Prússia e desarmar-se
unilateralmente, Castlereagh enviou sua resposta a Metternich, assinalando que “um franco e
conciliatório sistema de diplomacia, firmemente ligado ao princípio da aliança (...) deve trazer ao
primeiro plano as motivações econômicas internas da Rússia e deixá-las influenciar ao máximo seus
gastos militares.” E quando Metternich sugeriu que a Grã-Bretanha e a Áustria coordenassem seus
passos vis-à-vis a Rússia, Castlereagh respondeu: “Se as apreensões apontadas na mensagem
austríaca por infortúnio se realizassem, poderia ser razoável supor que a França e a Prússia se
dispusessem a tomar, em concerto com a Áustria e a Grã-Bretanha, parte ativa na oposição [à
Rússia], mas não há motivo para crer que alguma dessas potências julgue, de momento, iminente
esse perigo. Nesse estado de coisas, eu (...) submeto à consideração do Príncipe Metternich se não
seria talvez prudente moderar a linguagem do alarma.” Quando finalmente Metternich tentou
transformar a Conferência de Embaixadores, estabelecida em Paris para supervisar a execução do
Tratado de Paz, em centro de coleta de relatórios de polícia de toda a Europa, Castlereagh
protestou asperamente: “Talvez seja demais afirmar que não poderia ocorrer o caso, na Europa, de
responder-se com uma admoestação peremptória das Grandes Potências a uma atitude de alguma
corte em particular, mas semelhante processo não deve ser uma ocorrência habitual, e em especial
não pode emanar dos ministros em conferência em Paris.” Mas no período seguinte à Paz de Paris,
estas trocas de missivas eram apenas indícios de divergências, cujas implicações totais não
deveriam surgir completamente por alguns anos, e estavam submersas numa grande identidade de
interesses. Enquanto o perigo social não se evidenciava melhor, Metternich concordava em tratá-lo
como problema austríaco, não europeu. Alexandre continuando tão excêntrico, era arriscado tentar
transformar a aliança no governo da Europa. Além do mais, as energias de Metternich estavam
concentradas na consolidação da posição da Áustria na Alemanha e na Itália, e a doutrina de
Castlereagh, de não-interferência, fornecia um esplêndido anteparo, por trás do qual era possível
levá-la a efeito sem a intromissão russa. Enquanto o problema fosse a tarefa política e
essencialmente negativa de restringir a influência russa, Castlereagh e Metternich podiam marchar
lado a lado. Se ocorriam desacordos ocasionais, não eram fundamentais e diziam mais com os
métodos que com as metas. Foi, portanto, com certa expectativa que Castlereagh aguardou a
primeira reunião de um congresso europeu em tempo de paz. O Congresso de Aix-la-Chapelle,
reunido no fim de setembro de 1818, iria provar a eficácia da diplomacia de conferência, esclarecer
mal-entendidos e repisar as evidentes vantagens da boa-fé. E conquanto as motivações de
Metternich fossem mais complexas, também ele esperava voltar o Congresso na direção do bom
emprego, quando mais não fosse para iniciar a formação do enquadramento moral para a contenda
social que ele sabia inevitável.

III

O período posterior a 1815 foi a primeira tentativa, em tempo de paz, de organizar a ordem
internacional através de um sistema de conferência, e o primeiro esforço explícito das grandes
potências em afirmar um direito de controle. Por todo o imediato período de pós-guerra, haviam
simbolizado a nova tendência as Conferências de Embaixadores em Francforte, Londres e Paris,
esta de maior importância, tratando respectivamente dos arranjos territoriais da Alemanha, da
supressão do Tráfico de Escravos, e da execução do Tratado de Paris. Mas restritas a problemas
específicos, dos quais os principais delineamentos já estavam bem traçados, não representaram
uma verdadeira prova. Ao prepararem-se os plenipotenciários para o Congresso de Aix-la-Chapelle,
no entanto, toda a amplitude dos problemas europeus se lhes apresentava ao exame. E quando
discutiram a agenda, a representação, e até mesmo a autoridade sob a qual iria reunir-se o
Congresso, evidenciou-se que a obtenção da unidade não era tão simples quanto o puro desejo.

Pois o Congresso de Aix-la-Chapelle não somente ressaltou as diferenças entre os aliados com
respeito à interpretação da ordem internacional, mas também a incompatibilidade entre as
intenções de Castlereagh e o que ele era capaz de legitimar internamente. Castlereagh estava numa
difícil e trágica posição. Ele dera origem ao sistema de conferência, que no entanto mostrou-se além
da compreensão do Gabinete ou do público inglês, para os quais os problemas do repouso europeu
geral significavam um perigoso envolvimento nos assuntos de outros Estados. Para Castlereagh, a
aliança era a expressão da unidade européia; mas para o público inglês, e o Gabinete, uma aliança
tinha que ser dirigida contra alguém, que não conseguiam entender senão como sendo a França.
Isso obrigou Castlereagh a uma sucessão de ambiguidades: aquilo que em suas relações com
potências estrangeiras ele apresentava como ditames da boa-fé parecia ao Gabinete uma concessão
relutante à pressão externa. O que desejava como símbolo da harmonia européia só podia ser
legitimado na Grã-Bretanha como mecanismo para controlar a França. Isso ficou evidente tão logo
as discussões voltaram-se para a fonte de autoridade sob a qual se devia convocar o Congresso. A
escolha estava entre o Artigo V do Tratado de Paris, que estabelecia uma revisão das relações
aliadas com a França ao fim de três anos, e o Artigo VI da Quádrupla Aliança que instituíra o
sistema de conferência para problemas gerais do repouso europeu. Castlereagh preferia basear o
Congresso na Quádrupla Aliança, porque teria simbolizado um novo método de relações
diplomáticas. Mas o único congresso europeu a que o Gabinete admitiria a hipótese de comparecer
era o que tratasse dos problemas franceses e fosse reunido com base nas obrigações do tratado de
paz.

Para complicar ainda mais as coisas, ocorria uma diferença similar de opinião entre Castlereagh e
Metternich. Pois embora a visão de Castlereagh fosse muito além da visão do Gabinete, não ia
suficientemente longe para Metternich. Castlereagh ainda era britânico bastante para basear a
aliança não mais que numa identidade de interesses políticos. Mas o próprio pragmatismo desse
enfoque tornava-o insuficiente para Metternich, que aspirava a um princípio segundo o qual
pudesse organizar a Europa para a luta social. Ele não se opunha, em tese, ao esquema russo de
uma garantia da ordem existente, mas compreendia que um sistema de segurança coletiva justifica
a interferência universal da mesma forma que a defesa comum; que torna impossíveis os conflitos
locais e reduz a ação ao nível do membro menos empreendedor da Coalizão. Metternich não tinha a
menor intenção de dar à Rússia, a mais turbulenta das potências, voz ativa em cada assunto
europeu, ou deixar a política austríaca dependente da aprovação de Alexandre. Castlereagh tentou
utilizar o Congresso para demonstrar “uma nova descoberta de governo europeu, dissipando
imediatamente as nuvens com que a diplomacia tolda o horizonte, trazendo à sua verdadeira luz
todo o porte do sistema e dando às deliberações das Grandes Potências a eficiência, quase a
simplicidade, de um só Estado.” Metternich via no Congresso a oportunidade de dar uma lição
moral à Europa sobre a inviolabilidade dos tratados e a diferença entre as pretensões do Czar e sua
capacidade de realizá-las. Por esta razão, tomou o partido do Gabinete britânico, concordando em
basear o Congresso no Tratado de Paris, por estar acima de tudo preocupado em evitar que o Czar
abrisse todo o leque dos problemas europeus. Embora diversamente motivados, Metternich e o
Gabinete britânico levaram a melhor, e o Congresso de Aix-la-Chapelle reuniu-se finalmente com
base no Artigo V do Tratado de Paris.

As instruções de Castlereagh e de Metternich refletiam essa diferença. As instruções britânicas,


redigidas principalmente por Castlereagh mas sintonizadas com a sensibilidade do Gabinete,
tratavam exclusivamente do problema da França, como se a Europa só pudesse organizar-se contra
alguém. Relacionavam os temas sob quatro títulos: a retirada do exército de ocupação; as
exigências pecuniárias dos aliados; o problema das precauções militares contra a França após a
retirada do exército de ocupação; e as relações diplomáticas dos aliados com a França. Os três
primeiros títulos apresentavam poucos problemas, de vez que Wellington já se tinha declarado
favorável à retirada do exército de ocupação e a Câmara francesa votara os meios para atender às
exigências financeiras dos aliados. Um novo sistema de precaução militar depois da evacuação da
França era desnecessário, ponderavam as instruções, pois a Quádrupla Aliança se criara
exatamente com vistas ao caso. Tudo dependia, portanto, da interpretação dada pelo Gabinete à
Quádrupla Aliança.

Mas a análise do Gabinete revelava sua relutância em assumir compromissos continentais. Não
objetava a que se considerasse causa de guerra a agressão francesa ou uma revolução bonapartista.
Mas não estava de acordo com a cláusula que dispunha sobre consultas aliadas em caso de outro
levante interno que não o bonapartista. Castlereagh recebeu ordem de não assumir novos
compromissos sobre este ponto sem autorização explícita do Gabinete, para que o Parlamento não
os interpretasse como “ameaçando a França de uma interferência sistemática em seus assuntos
internos, o que lhe comprometia a dignidade e colocava em perigo a independência”. E a
participação francesa na aliança se declarava fora de cogitação com a desculpa pouco convincente
de que “colocaria o Rei numa posição completamente falsa perante seu próprio povo”. É bem
verdade que o Gabinete concordava em convidar a França para tomar parte nas deliberações gerais
sob o Artigo VI, mas de forma tal que só servia para demonstrar que a Grã-Bretanha não era capaz
de ver outra finalidade nessas reuniões afora restringir a França: a participação francesa no sistema
de conferência justificava-se exclusivamente como um meio de consultar o Rei em caso de medidas
aliadas contra uma revolução na França e porque, de qualquer maneira, “a aliança é essencialmente
fundada numa base francesa” [o grifo é meu].

Se as instruções de Castlereagh exprimiam a incapacidade de uma potência insular em considerar a


política exterior em quaisquer outros termos que não os defensivos, o programa de Metternich,
contido numa carta ao Imperador, refletia a busca, pelo estadista continental, de um símbolo moral.
Enquanto o Gabinete falava somente na França, Metternich, cuja preocupação era a Rússia, a
mencionava somente por alto. Se Castlereagh defendia o Congresso como abertura de uma nova era
nas relações internacionais, Metternich o defendia porque estava previsto na Paz de Paris e
representaria, portanto, um símbolo da santidade das relações de tratado. Muito apropriadamente,
a carta de Metternich começava por uma análise das intenções russas: Alexandre, dividido por
motivações conflitantes, não deveria perturbar o repouso da Europa, quando mais não fosse por
causa de sua progressiva mania religiosa. Mas embora a religiosidade de Alexandre tornasse
improvável uma política agressiva, introduzia por outro lado um elemento de perturbação, por
envolver uma procura incessante de prosélitos morais e religiosos. “Daí tanta intriga que confunde
quase todos os governos; daí o dilúvio de emissários e apóstolos”.

Metternich rejeitava naturalmente os argumentos russos em favor de um Congresso segundo o


modelo de Viena. O ponto essencial desses argumentos era que um encontro restrito às maiores
potências causaria inveja aos Estados secundários, e que a falta de resultados concretos podia
comprometer o sistema de conferência em seu todo. Não havia motivo de inveja, sustentava
Metternich, porque o Congresso trataria somente da França e reunir-se-ia em cumprimento a
obrigações de tratado existentes. Quanto ao perigo de inoperância, “o melhor resultado do
Congresso será não conseguir mudar a ordem de coisas existente; este resultado significará o maior
triunfo para Vossa Majestade e para todos os demais Gabinetes, que desde 1815 (...) têm-se
recusado a alimentar a mania de inovações. Porque aquela corte, entretanto, que não tem
desperdiçado oportunidade de fazer reverências ao ‘espírito dos tempos’, que deu com suas
palavras esperanças a todos os reformadores e sectários; essa corte ficará, de fato, profundamente
comprometida, e precisamente aos olhos dos reformadores, se tudo permanecer inalterado.” Temos
aqui outra ilustração da diplomacia de Metternich, de seu emprego da inação como arma e do uso
de uma conferência pelo seu impacto psicológico: “Nossa cautela”, concluía Metternich, “até aqui
tem dado certo e não restam dúvidas de que assim será também em Aix-la-Chapelle. (...) Muito
dependia do primeiro passo. Demo-lo a tempo, com isso evitando a exposição ao perigo ou ao
descrédito. (...) Ganhamos tanto terreno com os Gabinetes britânico e prussiano que não prevejo
qualquer possível desvio de uma condução das negociações segundo nossa vontade”.
IV

Metternich não se desapontaria. A passagem do Czar através da Europa foi marcada por suas
ambiguidades usuais: um discurso em Varsóvia, expressando a esperança de que as instituições
liberais da Polônia pudessem, em breve, tornar-se modelos para outros Estados, foi seguido de
declarações de suas intenções pacíficas no percurso pelas cortes alemãs. Quando chegou a Aix-la-
Chapelle, Alexandre parecia animado dos sentimentos mais conciliatórios. Assegurou a Castlereagh
que considerava a Quádrupla Aliança a chave da estabilidade européia, insistindo em que sua
dissolução constituiria um ato criminoso. Não poderia ser considerada a admissão da França, e
muito menos engajamentos em separado com a França, como temia Metternich. Nesse ambiente,
não foi difícil estabelecer-se o relacionamento da França com a Quádrupla Aliança de forma
coerente com as instruções de Castlereagh. Em 2 de outubro firmou-se o acordo sobre a retirada
das tropas aliadas da França. Dez dias mais tarde, decidiu-se renovar a Quádrupla Aliança e não
permitir que a França ingressasse como membro. A fim de poupar a sensibilidade francesa, esta
decisão devia permanecer secreta, enquanto um protocolo público convidaria a França a participar
das reuniões, de acordo com o Artigo VI. Até este ponto, o curso dos acontecimentos parecia
justificar a fé de Castlereagh na eficácia do sistema de conferência. “A revisão empreendida de
nossos compromissos existentes”, escreveu ele orgulhosamente, “(...) não se poderia realizar pelo
curso normal da diplomacia (...) [mas] colocados como hoje estão os Gabinetes, lado a lado, os
equívocos foram imediatamente obviados e tudo indica que se evitará uma divergência de opiniões.”

Mas logo ficaria evidente que a própria rapidez do avanço do Congresso deu lugar a ilusões que
hipotecaram o futuro do sistema de conferência. Ao desvanecer-se o temor da França, admitida ao
concerto das potências, chegava ao fim o período de uma política pura- mente defensiva. A ação
conjunta, daí em diante, teria de basear-se na criação de um consenso moral e, como era de
esperar-se, foi o Czar quem deu a essa verificação sua formulação mais extremada.

Um memorando russo, datado de 8 de outubro, finalmente revelou a razão do exaltado estado de


espírito do Czar, que Castlereagh notara na primeira entrevista que tiveram. Pois o que se deduzia
de uma longa exposição filosófica era o apelo em favor de um Tratado de Garantia tanto de
territórios como de instituições internas. A Quádrupla Aliança, asseverava o memorando, era a
expressão de uma aliança geral corporificada nos tratados de paz e nas Atas Finais de Viena.
Destinava-se a tratar do problema duplo do período de pós-guerra, o temor da agressão estrangeira
e a ameaça de revoluções internas. Para neutralizar esses perigos, Alexandre propunha nada menos
que uma declaração solene de que os tratados existentes redundavam numa Alliance Solidaire e que
a Quádrupla Aliança tinha por missão proteger a Europa tanto da agressão como da sublevação
interna. Com a tranquilidade desta forma assegurada, concluía ominosamente o memorando, seria
facilitado o progresso social e maiores liberdades podiam conferir-se aos povos.

Era uma doutrina de interferência geral nos problemas internos de todos os Estados, superposta a
um sistema de segurança coletiva. Evidentemente, Castlereagh de forma nenhuma podia concordar
com essa cláusula. Nem Metternich, por mais que lhe agradasse uma garantia da ordem existente,
estava disposto a justificar sua política como adequada à reforma social, ou a deixar Alexandre pôr
seus exércitos em marcha pela Europa para combater a idéia que o Czar fazia do perigo
revolucionário. Mas embora Castlereagh e Metternich estivessem de acordo na oposição ao
esquema do Czar, divergiam quanto à maneira de tratá-lo, divergência que novamente indicava uma
cisão por trás da aparência de amizade. Castlereagh rejeitava, por impraticável e por violar a
doutrina de não-interferência, o princípio em que se alicerçava o memorando russo; ao passo que
Metternich, desejoso de manter aberta sua opção russa, aceitava o princípio do Czar, mas invocava
a própria criação de Alexandre, a Santa Aliança, para demonstrar que uma Alliance Solidaire era
desnecessária. Pela primeira de muitas vezes, Metternich induziu o Czar a abandonar um projeto
carinhosamente acalentado, convencendo-o de que na realidade não o desejava.

O memorando de Metternich datado de 7 de outubro fora preparado na previsão da proposta russa.


Tratava ostensivamente das novas relações políticas da Europa, após o fim da ocupação da França,
e não do memorando do Czar. Não obstante, seu sentido era indisfarçável. Começava por uma
análise legalística das relações de tratado existentes: O Tratado de Chaumont ainda estava em
pleno vigor porque a caducidade das cláusulas relativas à guerra com a França não podia afetar-lhe
as disposições permanentes; enquanto que a Quádrupla Aliança se acordara por um período de
vinte anos sem qualquer previsão de ab-rogação. A inclusão francesa era, portanto, impossível, de
vez que a adição de um novo membro transformaria tão fundamentalmente a aliança quanto a
retirada de um dos signatários originais. Mas estes argumentos legalísticos eram apenas
preliminares a uma eloquente discussão do problema moral, tão caro ao coração do Czar. Refletindo
a Quádrupla Aliança, ponderava Metternich, um princípio de moralidade política, e não podendo os
aliados aceitar uma garantia de sua estrutura interna por parte do país contra o qual todas as
medidas de segurança, até então, se haviam dirigido, uma nova aliança teria de limitar-se à
enunciação de princípios gerais. Isso, porém, não só era desnecessário como chegava a ser profano,
dada a existência da Santa Aliança: “Uma transação em termos gerais só poderia usurpar e roubar a
Santa Aliança, que existe [grifo de Metternich], assim como o Tratado de Chaumont, instrumentos
estes os mais úteis e dignos das intenções de seus augustos fundadores”.

O apelo à Santa Aliança mostrou-se irrespondível. Exaltando a contribuição moral de Alexandre,


Metternich tornou-lhe impossível insistir na reformulação da estrutura dos tratados. Mantendo sem
mudanças a ordem do momento, ele obteve um sinal de estabilidade numa Europa que clamava por
reformas. Como de hábito, Metternich deixou cair sobre outros a carga da atitude de frustrar o
Czar; Castlereagh, sob pressão interna, estava mais do que desejoso de entrar na refrega, e num
memorando vigoroso, de 20 de outubro, tomou a peito o problema da interpretação russa dos
tratados existentes. **

Enquanto Metternich aceitara o princípio da proposta do Czar mas lhe negara a necessidade,
Castlereagh rejeitou sem mais preâmbulos a concepção de Alexandre da ordem internacional.
Longe de representar uma aplicação de princípios morais universais, a Quádrupla Aliança era
dirigida contra perigos específicos enumerados explicitamente. O sistema de conferência não
pretendia superintender o governo da Europa, mas simplesmente interpretar os dispositivos de
tratados existentes, à luz da mudança de condições. O fato da sublevação, doméstica ou de outro
âmbito, jamais podia ser convertido em causa de guerra. Deviam, sim, os aliados considerar caso
por caso, se determinada mudança representava ameaça suficiente para justificar uma intervenção.
“O problema de uma aliança universal pela paz e a felicidade do mundo”, concluía Castlereagh,
“sempre foi campo de especulação e esperança, mas sem ser jamais reduzido a termos práticos, e
se posso arriscar uma opinião a respeito (...) não o será nunca. Deve-se entender que a idéia de uma
Alliance Solidaire (...) implica moralmente no estabelecimento prévio de um sistema tal de governo
geral que possa (...) impor a todas as nações um sistema interno de paz e justiça. (...) Portanto, até
que um sistema de administração da Europa, por uma aliança geral de seus Estados, possa ser
convertido em alguma forma prática de atuação, todas as noções gerais e absolutas de garantia
devem ser abandonadas, e os Estados mantidos dependentes da justiça e sabedoria de seus
respectivos sistemas para efeito de segurança, auxiliados pelo que outros Estados julguem dentro
de suas possibilidades oferecer como ajuda.”

Este era o problema entre a Grã-Bretanha e o Continente em sua forma mais fundamental, e dose
alguma de “boa vontade” podia ocultá-lo: A concepção britânica de assuntos internacionais era
defensiva; a Grã-Bretanha podia agir em cooperação, mas somente em caso de extremo perigo. Mas
a política das potências continentais era preventiva; sua batalha decisiva era a primeira, não a
última; seu esforço, o de evitar a materialização de um perigo extremo. A Grã-Bretanha tencionava
limitar a amplitude da agressão física, as potências continentais tentavam prevenir a ocorrência de
agressão. No Continente, a exatidão do cálculo, que a uma potência insular parece mesquinhez,
tinha de substituir o isolamento físico. A distância entre a sublimação do Czar, a insistência no mais
amplo consenso moral possível de Metternich, e uma mentalidade insular, não podia ser coberta por
boas intenções, nem por uma visão européia, nobre como fosse.

Que bem andara Castlereagh em recusar-se a considerar a proposta do Czar, evidenciou-se num
despacho do Gabinete, de 20 de outubro. Antes mesmo que a notícia da proposta do Czar chegasse
a Londres, o Gabinete sobressaltara-se ante a perspectiva de que o Congresso pudesse encerrar-se
com uma declaração anunciando encontros periódicos como instituição regular da diplomacia
européia. Nada ilustra melhor a distância que separava Castlereagh do Gabinete, que a reação
deste, de dolorosa surpresa, ante esta interpretação do Artigo VI da Quádrupla Aliança, que
Castlereagh considerava sua mais admirável realização. No esforço de evitar o mais possível
qualquer compromisso, na ressentida aceitação do anúncio de outra reunião enquanto se eliminara
a referência a congressos periódicos, o despacho deixava claro, uma vez mais, que era
simplesmente querer demais da mentalidade britânica tentar impor-lhe a concepção de uma Europa
organizada por qualquer outra coisa que não fosse um perigo comum. Sem dúvida, ofereciam-se
como razão principal as dificuldades de enfrentar um novo Parlamento de “afeições duvidosas”, mas
o verdadeiro problema era mais fundamental: “Aprovamos [uma deduração geral] no caso presente,
também com dificuldade, mas assegurando [às potências secundárias] que pretendíamos tratar
somente do simples assunto da evacuação; ao anunciar-lhes um sistema de reuniões periódicas
devemos declarar que estas se restringirão a um (...) assunto, talvez mesmo (...) a uma potência, a
França, sem constituir um compromisso de intervir em qualquer processo no qual o Direito das
Nações não justifique interferência.”

Na verdade, uma facção do Gabinete, liderada por Canning, fazia objeções ao princípio de reuniões
periódicas, considerado contrário às tradições da política britânica, porque envolveria a Grã-
Bretanha em todas as querelas continentais, ao passo que “nossa política correta sempre foi não
interferir, exceto em grandes emergências, e então, com força dominadora”. Embora a mensagem
negasse expressamente que o Gabinete compartilhasse dessa opinião, nada podia obscurecer o fato
de que a Grã-Bretanha participava do sistema de conferência devido apenas à influência pessoal de
seu Secretário do Exterior, e porque o Gabinete não encontrava maneira honrosa de desautorá-lo.

Quando este despacho chegou, a crise, como tantas vezes antes, já passara. Frente à intransigência
de Castlereagh e às evasivas de Metternich, o Czar retirara a proposta de uma Alliance Solidaire.
Alexandre, entretanto, insistia em salvar alguma coisa, pelo menos uma vaga expressão de unidade
moral da Europa. Embora Castlereagh desejasse chamar atenção o menos possível, para vencer
suas dificuldades internas, viu-se obrigado a aceitar uma declaração pela qual os aliados
proclamavam que a França, sob seu governante legítimo e constitucional, dera provas suficientes de
suas intenções pacíficas para poder tomar parte nas conferências da Quádrupla Aliança. Ao mesmo
tempo, os aliados reconfirmavam a Quádrupla Aliança num protocolo secreto. Malgrado alguns
resmungos sobre as expressões legitime et constitutionel, o Gabinete aceitou a garantia de
Castlereagh de que eram simples parte da linguagem sacramental do Czar, destituídas de
significado.

Nesse momento, exatamente quando o Congresso parecia prestes a encerrar-se com uma elevada
nota de harmonia, surgiu outra disputa, reveladora, outra vez, de que na ausência de garantias mais
tangíveis a aparência de harmonia não basta para tranquilizar nações continentais. Desta vez, era a
Prússia que desejava guardar-se num sistema de segurança coletiva. Estendendo-se do Vístula até
além-Reno, composta de duas partes principais separadas por enclaves, a Prússia mostrava-se um
tanto alarmada com a insistência de Castlereagh em que a aliança requeria interpretação de cada
caso. Propôs, então, um Tratado de Garantia cobrindo apenas as possessões territoriais das grandes
potências, e incluindo a Neerlândia e a Confederação Germânica.

Não podia haver dúvida quanto à reação do Czar à perspectiva de realizar pelo menos parte de seu
projeto favorito. Mas até Metternich sentiu-se tentado. Caracteristicamente, ele era favorável ao
tratado não só porque representaria uma admissão de autolimitação, pela Rússia, mas, o que era
mais importante, como meio de reduzir a influência do partido militar, sempre hostil à Áustria, no
interior da Prússia. Em consequência, procurou encontrar a fórmula pela qual a Grã-Bretanha
pudesse exprimir sua aprovação moral sem assumir os compromissos contratuais do tratado. Mas
foi insuperável a dificuldade de redigir-se um documento tão lato e pormenorizado, e o Congresso
se encerrou com a aparência de unidade, como desejara Castlereagh, e sem mudança nenhuma,
como planejara Metternich.

Mas por detrás da fachada de harmonia, a incompatibilidade das várias motivações ia-se tornando
manifesta. Com a França integrada ao conjunto das potências, a luta política terminava, enfim,
desaparecendo com ela o único motivo que podia tornar aceitável internamente a participação
britânica nos assuntos continentais. À medida que a Grã-Bretanha gradualmente encerrava seus
compromissos, estabeleceu-se um círculo vicioso: quanto mais fortes eram as tendências
isolacionistas da Grã-Bretanha, tanto mais Metternich, atento à fraqueza material da Áustria,
passava a depender de sua arma mais eficiente para restringir o Czar: o apelo ao fervor moral de
Alexandre. Porém, quanto mais Metternich incensava a exaltação do Czar, mais difícil se tornava
para Castlereagh tomar parte em qualquer ação conjunta. Ao findar-se o Congresso de Aix-la-
Chapelle, entretanto, ambos desejavam ocultá-lo: Metternich, porque seu poder de barganha junto à
Rússia dependia da ilusão de sua opção britânica; Castlereagh, devido a sua visão européia, que
ainda esperava fazer prevalecer contra a obtusidade de seu Gabinete e à — para ele — subalterna
busca de segurança por parte dos aliados. Todavia, deve ter sentido que o tempo das ilusões estava
terminando. Pois nesse preciso momento Metternich lançou-se a uma ação que deixou pouca dúvida
de que a batalha seguinte se travaria num plano em que Castlereagh não o acompanharia,
quaisquer que fossem suas simpatias pessoais. Apresentou dois memorandos ao Rei da Prússia,
aconselhando-o sobre a estrutura administrativa de seu Estado e alertando sobre a impossibilidade
de cumprir a promessa, feita durante os dias arrebatados de 1813, de outorgar uma constituição a
seus súditos. Os argumentos exatamente usados por Metternich interessam menos que este
primeiro passo indicativo de sua intenção de atuar como a consciência conservadora da Europa.

* O Príncipe Regente da Inglaterra expressou, numa carta pessoal, simpatia por seus objetivos.

** Embora o memorando objetivasse demonstrar ao Gabinete a vigilância de Castlereagh, e não


fosse mostrado ao Czar, argumentos similares, ainda que menos cortantes, foram indubitavelmente
utilizados durante as negociações.
13/ OS DECRETOS DE CARLSBAD E A
DOMINAÇÃO DA EUROPA CENTRAL

A MAIOR PREOCUPAÇÃO de Metternich no imediato período de pós-guerra foi a criação da


poderosa Europa Central que ele considerava condicionante da estabilidade européia e da
segurança austríaca. Por estar convencido de que uma Áustria forte era a chave da Europa Central,
a reorganização interna tornou-se sua principal preocupação. Em 1817, ele apresentou um plano
para a reforma do aparelho governamental austríaco, incluindo a descentralização da administração
e a designação de quatro chanceleres, um para cada nacionalidade. Era o intento de criar uma
identidade para o Império poliglota através da qualidade administrativa, não sem certa semelhança
com o esforço paralelo empreendido com sucesso pela Prússia, ao norte. Mas o Imperador não
combatera Napoleão para ingressar na paz com um programa de reforma, e não via motivo para
alterar fundamentalmente o sistema que conduzira a Áustria através do período revolucionário.
Sintomático da impotência de Metternich internamente foi o fato de ter sido compelido a dominar a
Europa Central exclusivamente por meios diplomáticos; mediante a criação de uma estrutura
política que, pela sua própria lógica, teria que depender do apoio austríaco; dando vida a uma
multiplicidade de soberanias, que teriam com a Áustria interesse comum em frustrar os movimentos
gêmeos de nacionalismo e liberalismo. Com efeito, nem a Alemanha nem a Itália podiam manter-se
imunes à corrente que arrepiava a Europa. Mas a inquietação social, contanto que não saísse do
controle, em verdade favorecia o intento de Metternich ao desencorajar as potências secundárias de
seguirem políticas isoladas. No período imediato do pós-guerra Metternich estava, portanto, menos
interessado em suprimir que em localizar oposição, menos em conduzir uma cruzada
antirrevolucionária que em impedir seus oponentes de conseguirem apoio de uma grande potência.
Os esforços de Metternich, portanto, eram ainda primordialmente políticos: paralisar as duas
potências que considerava revolucionárias, a Rússia na Europa e a Prússia na Alemanha.

Isto se mostrou relativamente fácil na Itália. A Áustria dominava a Itália Setentrional e Central em
virtude de sua posição geográfica e das dinastias dependentes nos Estados secundários. E assinou
um tratado com o Reino de Nápoles que colocava o exército napolitano sob controle austríaco, e
pelo qual o restaurado Rei prometia não alterar suas instituições domésticas sem consentimento
austríaco. Quando Metternich visitou as cortes italianas, em 1817, abordou em seu relatório a
existência de intensa atividade dos carbonários, fomentada em grande parte por agentes russos.
Mas confiava em sua capacidade de contornar o movimento revolucionário, por um lado associando
mais italianos à administração das províncias italianas da Áustria e por outro dando a mais larga
publicidade às atividades russas, para que o Czar se visse forçado a desautorizá-las ou suspendê-las.

A situação na Alemanha era mais complexa. Ali, a Áustria nem possuía a posição geográfica
preponderante nem tinha de lidar apenas com potências secundárias. Localizada na periferia da
Alemanha, enfrentando uma Prússia poderosa, a Áustria não podia aspirar ao domínio físico da
Alemanha; e a corrente dupla de nacionalismo e liberalismo ameaçava a posição moral da Áustria.
Nos dias inquietos de 1812, quando os patriotas prussianos sonhavam com uma Alemanha
reformada e os Liberais formulavam planos para uma panaceia nacionalista, Metternich havia,
portanto, agido tortuosa, tenaz e solertemente para neutralizar essas aspirações. Uma Alemanha
unificada levaria à exclusão da Áustria da fonte de sua força histórica, pois a Áustria, o Império
poliglota, jamais poderia ser parte de uma estrutura legitimada pelo nacionalismo. Uma Alemanha
de instituições parlamentares, ou mesmo baseada na unidade linguística, representava um desafio
constante para um Estado erguido sobre o mito da interdependência de estruturas históricas. Por
essa razão, Metternich havia procrastinado em 1813 até que se formou a Coalizão em torno de um
princípio que podia assegurar a sobrevivência da Áustria. A insistência na santidade dos soberanos
históricos garantiu uma Alemanha de múltiplos Estados soberanos, onde as reivindicações da
nacionalidade comum seriam sobrepujadas pelos direitos das dinastias, que só podiam ser
controlados por acordo — a expressão formal de um consenso moral — e não pelo domínio.

A política germânica de Metternich era, portanto, um jogo na realidade das ligações morais. Ele
desprezara a possibilidade de a Áustria reassumir a Coroa Imperial porque desejava basear a
supremacia austríaca no mito da igualdade. E permitira o deslocamento do centro de gravidade da
Prússia da Europa Oriental para a Alemanha, e do da Áustria, da Alemanha para o sudeste da
Europa, porque acreditava que a posição moral da Áustria independia de uma base territorial
coincidente com a da Alemanha. Metternich via a força moral da posição austríaca na proteção das
dinastias contra a vontade popular, na garantia dos Estados secundários contra pretensões de
poder. Uma Prússia cujas possessões se fragmentavam ao longo da Confederação, e que só podia
encontrar segurança organizando a Alemanha para fins defensivos, estava destinada apenas a
fornecer pressão externa que faria os Estados secundários se voltarem para a Áustria em busca de
apoio.

Enquanto os atores principais de Viena pugnavam pelo equilíbrio europeu, um comitê alemão
composto de Áustria, Prússia, Hanover, Baviera e Wurtemberg havia tentado dar vida à Federação
Germânica, tão frequente e ambiguamente prometida durante a guerra. Pois enquanto atos de
Estado como os Tratados de Teplitz e Chaumont preconizaram uma Alemanha de muitos Estados
soberanos, a Proclamação Russo-Prussiana ao povo alemão, que anunciara o início da Guerra de
Libertação, prometera uma constituição nacional. Mas a meta constitucional austríaca podia ser
definida com simplicidade: criar uma estrutura que forçasse o povo a agir, se possível, através de
suas dinastias e canalizasse o entusiasmo nacional para o campo da diplomacia de gabinete. Uma
vez que as negociações eram conduzidas pelos representantes de Estados dinásticos, zelosos de sua
soberania, a questão não podia estar em dúvida. O resultado foi o Ato de Confederação, que
estabeleceu a Alemanha como uma confederação composta de Estados soberanos. Os Estados
alemães abjuravam a guerra entre si e prometiam submeter disputas internas à mediação. Criavam
uma assembléia composta de representantes dos Estados individuais, nomeados por seus governos,
os onze principais Estados com um voto cada, enquanto os restantes organizavam-se em seis cúrias
que votavam como unidades. As decisões se tomariam por maioria simples, exceto nas questões
mais importantes, como guerra e paz, que requeriam maioria de dois terços. Tudo que restou da
prometida reforma constitucional foi uma cláusula programática, o Artigo XIII, que Metternich logo
destituiria de todo significado: “Cada Estado criará uma constituição baseada em assembleias.”

Não se poderia imaginar documento mais apropriado para frustrar a ação popular. A Assembléia da
Confederação era composta de representantes, não do povo, mas dos governos. O peso
desproporcional dado ao voto dos pequenos Estados, a proibição da guerra entre si, que punha um
prêmio no facciosismo, a exigência de unanimidade para emendas constitucionais, a presidência da
Áustria, tudo acentuava que a ação se conseguia apenas pela influência, não pela força. E as
necessidades de sua situação faziam os Estados secundários buscar proteção junto à Áustria, contra
a revolução interna e contra o predomínio prussiano. Veio a ocorrer que o temor da missão nacional
da Prússia tornou-se o elemento unificador interno da Confederação Germânica, sob a batuta da
Áustria; que a estrutura nacional por que tantos patriotas aspiravam foi cimentada primordialmente
por motivações antinacionalistas. Mas o problema de Metternich era mais complexo que
simplesmente isolar a Prússia. Uma Prússia insatisfeita, em rebelião contra os grilhões da
Confederação, podia tornar-se porta-voz do movimento nacional e transformar a vaga inquietação,
de um incômodo numa conflagração. Dominar a Alemanha através de um consenso moral das
potências secundárias e com apoio prussiano podiam parecer esforços incompatíveis. Mas eram o
cerne da política alemã de Metternich.

Metternich foi auxiliado pela posição difícil em que a solução de Viena havia colocado a Prússia e
pela indecisão da política prussiana que jamais conseguia optar entre suas alternativas básicas:
entre a segurança em base nacional, unificando a Alemanha, ou numa base de Gabinete, através da
amizade com a Áustria. Espraiada sobre a Europa Central, com fronteiras arbitrárias e
indefensáveis, receosa dos desígnios franceses na Renânia e das ambições russas na Polônia, era
natural que a Prússia buscasse segurança numa Confederação militarmente forte. Mas uma política
alemã agressiva com certeza assustaria as potências secundárias, zelosas de sua soberania. Por
outro lado, a Prússia julgava o apoio austríaco indispensável em qualquer guerra com a Rússia ou a
França, e isto, por sua vez, era incompatível com um esforço para consolidar a Confederação.

A Prússia levaria cinquenta anos para resolver seu dilema, que era este: a mais exposta das
potências européias tinha ao mesmo tempo as fronteiras mais indefesas. No período imediatamente
após a guerra, entretanto, isto conduziu a um tateio irresoluto com vistas a corrigir os erros do
acordo de Viena, sem uma concepção muito clara da exata direção a tomar; um empenho incerto
por uma posição alemã forte sem qualquer idéia precisa de suas condições prévias. Fazia-se
presente outra vez a desgraça da diplomacia prussiana durante toda a Guerra de Libertação: o afã
de combinar as vantagens de todas as políticas. Desejando o reconhecimento de uma paridade com
a Áustria na Confederação, a Prússia tentava assegurar a cooperação austríaca vis-à-vis a França e
a Rússia. Enquanto conduzia uma política extra-alemã condicionada à amizade austríaca, executava
uma política intra-alemã só possível com a neutralização da Áustria.

Tais incoerências eram fatais havendo um oponente da sutileza de Metternich; esta sutileza, na
realidade, consistiu precisamente em ocultar o fato de sua oposição. Quanto mais caprichosas eram
as atitudes da Prússia, mais forte se tornava a posição moral da Áustria. Quanto mais insistente era
a Prússia, mais a Áustria podia retrair-se para o campo das obrigações de tratado existentes. A
Prússia foi, assim, compelida à posição pouco invejável de demonstrar às potências secundárias a
validade das teses morais da Áustria. Não há melhor resumo da política alemã de Metternich que
suas primeiras instruções a Buol, seu representante na Assembléia de Francforte, que de acordo
com os Atos da Confederação devia atuar como presidente. Depois de recomendar com instância a
Buol que não desse muito destaque a esse título, Metternich prosseguia: “Mais importante é
eliminar as pretensões de outros que promover as nossas próprias. (...) Sua missão será utilizar a
Presidência atribuída pelo Ato de Confederação o mais vantajosamente possível para [nossos]
interesses, sem [no entanto] chamar atenção que possa despertar desconfiança (...) e desconcertar
os desígnios ambíguos de outros confederados por meio de uma certa correção na conduta de seu
cargo. Com tal proceder é de esperar que a maioria dos [Estados alemães] se sentirá atraída por
essa nossa reticência, e que não só aceitarão nossos conselhos, mas ativamente os procurarão. (...)
Obteremos mais na proporção em que pedirmos pouco.”

Em semelhante situação, a Prússia se via contrariada, para onde quer que se voltasse. Quando o
representante prussiano em Francforte propôs que a Áustria e a Prússia compartilhassem da
direção da Assembléia e do controle militar da Alemanha, deu simplesmente a Metternich meios de
mostrar a supremacia austríaca. A proposta foi secretamente comunicada às outras cortes alemãs,
enquanto Metternich respondia que a amizade austro-prussiana era tão firme que dispensava
tratado formal e que, de qualquer forma, uma cooperação aberta apenas uniria as potências
secundárias contra eles. Para cobrir sua retirada, a Prússia não teve escolha senão chamar seu
representante. Quando a Prússia exigiu paridade numérica com a Áustria no exército da
Confederação, Metternich, num refinado rodeio, mandou que o delegado austríaco votasse com a
Prússia, tranquilo por saber que os Estados secundários derrotariam a proposta. E quando o Rei da
Prússia solicitou a inclusão de suas províncias polonesas na Confederação, Metternich utilizou esta
confissão de fraqueza para demonstrar o quanto a Áustria era indispensável. Primeiro, induziu o Rei
prussiano a retirar sua proposta, convencendo-o de que ela apenas atrairia a inimizade do Czar sem
abrir qualquer perspectiva de aprovação pelas potências secundárias, depois ofereceu como
substituto uma aliança defensiva secreta austro-prussiana. O episódio marcou a base da política
alemã de Metternich: ele objetivava controlar os Estados alemães secundários através de seu temor
da Prússia, e a Prússia por seu temor em relação à França e à Rússia.

Desta maneira, a Confederação Germânica, lançada com tantas esperanças, tornou-se aos poucos
um meio de propiciar a mais ampla base moral à política austríaca. A Assembléia transformou-se
num encontro de diplomatas e teve realçada sua impotência pela insistência de Metternich em que
o representante austríaco retardasse o voto até receber instruções. O Artigo XIII dos Atos de
Confederação, que prometera a cada Estado uma constituição baseada em assembleias, foi
interpretado por Metternich como programático, símbolo de boa-fé, cuja execução ficava a cargo de
cada governo. A predominância da Áustria se mostrava não apenas pela presidência que cabia a seu
representante, mas também pelo local onde se reunia a Assembléia, a Embaixada Austríaca, e pelo
selo da Confederação, que até 1848 foi o selo austríaco. A Prússia só poderia ter saído dessa
“gravata” com uma política nacional baseada numa aliança com as sociedades patrióticas e o
movimento liberal. Mas embora essa linha fosse apoiada por alguns, o Rei e seus conselheiros
tinham ainda mais pavor da revolução que de um ataque externo. Não é de admirar que as
esperanças levadas tão alto durante a guerra dessem lugar a um amargor do mesmo nível; que a
geração mais jovem, sobretudo, se sentisse lograda em suas aspirações nacionais e que as
universidades, sob muitos aspectos as instituições mais verdadeiramente nacionais, se tornassem o
ponto focal do protesto. Mas o protesto era inútil, ante o domínio pela Áustria do mecanismo da
Confederação. E as esperanças depositadas no Czar não estavam menos fadadas ao
desapontamento. Era cada vez mais nítido que suas vagas generalidades mais provavelmente se
transformariam numa força para a repressão que numa cruzada pela liberdade. Metternich dava
outra prova de seu poder de diagnóstico, se não de criatividade, com a declaração, feita antes do
Congresso de Aix-la-Chapelle, de que a posição moral do Czar desabaria se tudo ficasse como
estava.

Assim, em fins de 1818, Metternich contava com uma Europa Central estável, tendo a Áustria como
chave. Mas o trovejar não se acalmaria, nem se evitaria a luta social pela simples exibição de uma
unidade monolítica. Foi bem expressivo do sentimento de frustração reinante na Alemanha, e
também do desencanto com o Czar, o fato de o primeiro ato revolucionário aberto ter sido o
assassínio de um publicista russo, que se distinguira por seus escritos monarquistas, perpetrado por
um desequilibrado estudante da Universidade de Iena. O assassínio de Kotzebue marca o fim da
tentativa de Metternich de organizar a Europa Central inteiramente por medidas políticas. A partir
daí ele usaria a política principalmente como meio de obter base moral para a repressão social,
numa busca infindável de um momento de ordem que assinalasse o fim da onda revolucionária e a
sobrevivência do Império Central.
II

Metternich soube do assassínio de Kotzebue em Roma, quando acompanhava o Imperador numa


viagem pelas cortes italianas. Foi informado através de uma série de cartas histéricas de seu
colaborador, o publicista Gentz, que não conseguia superar o medo de que o destino de Kotzebue
pudesse estar reservado para ele próprio. Gentz concitava a imediatas medidas repressivas e à
liderança austríaca de uma cruzada antirrevolucionária, contornando a Confederação. Mas
Metternich era por demais prudente para decidir em política no ambiente de um momento de
histeria. Viu na morte de Kotzebue não tanto um desafio quanto a oportunidade de dar uma aula às
cortes alemãs menores sobre a sabedoria das homílias austríacas. Mantendo sua tática infalível,
passou à limitação dos riscos, utilizando o pânico na Alemanha para que a Áustria recebesse das
demais cortes o oferecimento de seus próprios objetivos, para demonstrar a indispensabilidade da
Áustria por meio de uma política de desinteresse. Pois a situação parecia preparada exatamente
para justificar a pregação de Metternich nos últimos três anos. Somente a Áustria, entre as
potências maiores alemãs, parecia imune ao perigo revolucionário. Não havia sociedades patrióticas
perturbando a tranquilidade das universidades austríacas, e sua imprensa não era um órgão de
propaganda antigovernamental. Se isto constituía um tributo mais à polícia da Áustria que à sua
homogeneidade moral, fornecia, mesmo assim, uma base útil de onde operar.

Começou naquele momento, outra vez, um dos períodos de enlouquecedora inatividade de


Metternich, destinada a obrigar o inimigo potencial a revelar a extensão de seu engajamento.
Metternich estava mais do que disposto a chefiar uma cruzada antirrevolucionária, mas queria ter
certeza de envolver o maior número de outras potências, e acima de tudo a Prússia. Estava
perfeitamente pronto a ultrapassar a Confederação, nem que fosse apenas para demonstrar que
problemas importantes melhor se resolviam com base na pura diplomacia de gabinete que por um
órgão nacional, ainda que atenuado. Queria fazê-lo, no entanto, não como ato de vontade austríaca,
mas demonstrando a impotência da Confederação a fim de que as outras cortes compreendessem
“espontaneamente” que a ajuda austríaca era sua única proteção. Para quem esteja familiarizado
com a diplomacia de Metternich não é de surpreender, portanto, que ele abrisse sua campanha
diplomática — nada fazendo. Enviou a Gentz uma resposta não comprometedora, que em seu tom
de distraída indiferença destinava-se a evidenciar seu controle da situação. Dedicou um parágrafo
ao assassínio de Kotzebue, atribuído a uma conspiração nacional, e várias páginas a reflexões sobre
as maravilhas arquitetônicas de Roma e à relação entre tamanho, beleza e espiritualidade. Gentz,
que mal conseguia conter o nervosismo, alvitrou, em resposta, que o problema real não era reprimir
uma conspiração nacional e sim reformar o sistema educacional universitário que a produzira, e
anexou a carta de um cônsul austríaco na Saxônia que atribuía o torvelinho todo à Reforma. Mas de
novo seu ardor foi esfriado por um Metternich convencido de que medidas importantes, com toda
certeza, surgiriam de outras paragens, se as cartas de Gentz refletissem, um pouco que fosse, o
estado de espírito reinante entre as potências alemãs. Mostrou sua despreocupação viajando para
Nápoles, um ponto mais afastado do centro do tumulto, e respondeu que a reforma educacional se
restringiria ao sistema de disciplina acadêmica. “No que concerne à Reforma,” comentou
acremente, “não posso, do Quirinal, tratar do Dr. Martinho Lutero, e espero que no final seja
possível fazer algo de bom sem erradicar o protestantismo em seu próprio centro.”

Entrementes, os outros governos alemães entravam em pânico. O Rei da Prússia instituiu uma
comissão para investigar tendências revolucionárias e imediatamente chamou todos os estudantes
prussianos de Iena, exemplo seguido por muitas outras cortes. Tão forte foi essa corrente que o
Grão-Duque de Weimar, que se distinguira por seu liberalismo, mas tinha a infelicidade de ter a
universidade ofensora localizada em seu território, propôs que a Assembléia da Confederação
criasse um sistema uniforme de disciplina acadêmica para toda a Alemanha. Ainda que o
infortunado Duque protestasse devoção à liberdade acadêmica e à sua constituição, mais um
opositor de Metternich fora atraído a uma ação precipitada. Se até mesmo o liberal Grão-Duque de
Weimar admitia a necessidade da reforma das universidades, quem podia inculpar o ministro
austríaco por seguir-lhe o exemplo? E se a Assembléia se mostrava incapaz de enfrentar este
assunto urgente, não estaria Metternich simplesmente expressando o consenso da Alemanha ao
propor um procedimento alternativo? Por sobre os protestos do doutrinário Gentz, Metternich
ordenou, portanto, ao representante austríaco, que acompanhasse a proposta do Grão-Duque. “Não
há por que tratar esse arquijacobino (o Grão-Duque) com desrespeito,” explicava ele a Gentz. “Ele
está habituado a isso. Acho mais inteligente interpretar-lhe os desígnios favoravelmente, fazê-lo cair
em sua própria armadilha ou expô-lo como um mentiroso.” Logo se viu que a Assembléia não era o
órgão adequado à ação decisiva, o que Metternich, que a projetara, sabia muito bem. Enquanto a
proposta do Grão-Duque dormia nas comissões, a histeria dos governos alemães, que viam
assassinos brotando de todo canto, quase não tinha limites. Desacreditada a Confederação e
suficientemente demonstrada a absoluta necessidade da Áustria, chegara o momento da ação. “Não
há mais tempo a perder,” escrevia Metternich agora. “Hoje os governos estão temerosos o
suficiente para ainda agirem; em breve o medo terá chegado ao estágio da paralisia.”

No dia 17 de junho, mais de dois meses depois de saber do assassínio de Kotzebue e quando já se
encontrava finalmente a caminho do norte, Metternich transmitiu seu plano de ação a Gentz. Seguia
para Carlsbad, para um período de descanso, e providenciara para que os ministros das potências
alemãs o encontrassem naquela cidade. Suas propostas aos colegas se baseariam em axiomas,
segundo os quais os perigos morais podiam ser mais dissolventes que as ameaças físicas, a
nacionalidade comum tornava quimérico o isolamento até mesmo do menos importante dos Estados
alemães, e somente a ação concertada e preventiva poderia deter a maré revolucionária. A extensão
do perigo estava suficientemente demonstrada pelo fato de a conspiração chegar à expressão
violenta justamente na Alemanha, país onde ela tradicionalmente se restringia à pena. Culpava
disso acima de tudo as universidades e a licenciosidade da imprensa. Somente uma disciplina
acadêmica arrochada e um sistema de censura podiam inverter a tendência. Era natural que Gentz
respondesse, jubiloso: “Meus tristes presságios parecem evaporar-se quando vejo o único homem
na Alemanha capaz de uma ação livre e decisiva escalar tais altitudes (...).”

Mas Metternich nada queria deixar ao acaso. Malgrado não houvesse real perigo de a Prússia vir a
adotar uma política revolucionária, certeza também não havia sobre até que ponto ela iria no apoio
a medidas repressivas. Tampouco Metternich desejava ser colocado na posição de impor sua
vontade às potências secundárias. Um programa repressivo identificado com a Áustria poderia
reforçar a Prússia, Estado que tantos patriotas ainda consideravam o expoente de uma missão
nacional. Mas, pelo mesmo raciocínio, um programa repressivo apresentado pela Prússia solaparia
sua última vantagem restante: a capacidade de apelar para o movimento nacional. Quando
Metternich visitou o Rei da Prússia no dia 28 de julho, em Teplitz, tinha então dois objetivos:
elaborar um programa comum para as conferências de Carlsbad a fim de divorciar a Prússia do
nacionalismo alemão; e evitar que o Rei levasse avante sua promessa de outorgar uma constituição,
paralisando assim a tentativa de certos estadistas prussianos, entre eles Humboldt, de aliar a
Prússia ao liberalismo alemão.

Seguiu-se um estranho e admirável diálogo entre Metternich e o Rei prussiano, no qual Metternich,
como um austero professor, profligava os pecados da Prússia, enquanto o Rei, profundamente
atingido, tentava desesperadamente transferir a culpa aos seus próprios ministros. Pois para o Rei,
totalmente em pânico, Metternich entrava em cena como profeta e salvador. Então não havia
alertado inúmeras vezes, inclusive em Aix-la-Chapelle, contra os perigos de uma constituição? Não
previra o perigo revolucionário? “Tudo quanto V. previu aconteceu,” disse o descoroçoado Rei. Mas
Metternich era severo. A revolução, afirmou, fora simplesmente a demonstração que sempre se
segue à aula. Sua origem fora a Prússia, enquanto a Áustria permanecia inatingida. Mesmo assim, a
Áustria, animada por sua política de amizade, estava disposta a ajudar no represamento da maré
revolucionária, mas teria primeiro que determinar quais governos mereciam esse nome. Fossem
titubeantes e indecisivos, a Áustria simplesmente se recolheria à carapaça. Aterrado ante a
possibilidade de ser deixado só, na Alemanha, com a Revolução, o Rei agora culpava os
colaboradores de seu Chanceler, Hardenberg. Com o fito de retificar seus erros e demonstrar suas
boas intenções, sugeriu que Metternich, o ministro da potência que mais tinha a perder com uma
política nacional, aconselhasse Hardenberg, o Chanceler do Estado que mais tinha a ganhar com
ela, sobre a estrutura constitucional adequada à Prússia. Metternich replicou com um memorando
explicativo de que a promessa de uma assembléia do Artigo XIII do Ato de Confederação não
implicava necessariamente em instituições representativas, e também com isto concordou o Rei
prussiano. Nada poderia ilustrar melhor a preponderância de Metternich que o conselho queixoso
do Rei ao preparar-se Metternich para negociar com os ministros prussianos: “Tente, sobretudo,
comprometer essa gente [os ministros prussianos] por escrito”. Bem podia Metternich informar a
seu Imperador: “Encontrei dois elementos negativos engajados numa contenda: a fraqueza do Rei e
a impotência do Chanceler. (...) Vi que minha tarefa era reforçar a tal ponto o elemento mais ativo
do espírito do Rei, aquela tendência para a inação, que muito dificilmente ele terá coragem de dar o
mais ousado dos passos, o de introduzir uma constituição.”

O resultado foi a Convenção de Teplitz, pela qual a Áustria e a Prússia concordavam num programa
comum. Duas conferências deviam realizar-se: em Carlsbad e em Viena. A conferência de Carlsbad
trataria dos perigos imediatos e consideraria medidas para restringir a liberdade de imprensa,
regulamentar as universidades e estabelecer uma Comissão Central para investigar o movimento
revolucionário. A conferência em Viena trataria das instituições orgânicas da Confederação,
particularmente da interpretação do Artigo XIII. Além disso, Hardenberg prometeu que nenhuma
constituição seria adotada na Prússia até que se restaurasse completa ordem, e ainda assim, apenas
com assembleias no sentido “literal”, qual seja, aquele de Metternich, de deputações das classes
provinciais. Em suma, o princípio legitimante interno da Áustria tornara-se o princípio organizador
da Alemanha.
Com o campo assim cuidadosamente preparado, o resultado da Conferência de Carlsbad,
inaugurada em 6 de agosto, não dava lugar a dúvidas. O tom foi dado pelo representante de Nassau,
expressando seu mais caloroso agradecimento à Áustria que, “não sendo ela própria afetada pela
corrente revolucionária, concebeu as medidas para detê-la”. As propostas austro-prussianas foram
aceitas em sua totalidade. Cada Estado comprometeu-se a submeter à censura publicações de
menos de vinte páginas e a suprimir aquelas julgadas objetáveis por qualquer membro da
Confederação. Assim, cada Estado, e a Áustria sobre os demais, tinha um completo poder de veto
sobre todas as publicações dentro do território da Confederação. As u

niversidades foram colocadas sob a supervisão dos governos com a designação de um representante
em cada uma, encarregado de fazer respeitar a disciplina e fiscalizar o espírito das palestras. E uma
Comissão Central com sede em Mogúncia deveria investigar as atividades revolucionárias. Tão forte
era a posição de Metternich que ele pôde dar-se ao luxo de aparecer como advogado da moderação.
Foi a Prússia que insistiu na fixação em vinte do número de páginas sujeito a censura, enquanto
Metternich ter-se-ia satisfeito com quinze. E quando a Prússia propôs a criação de um tribunal
especial não só para investigar, mas para julgar revolucionários, Metternich insistiu na
impossibilidade de se julgarem indivíduos sobre a base de leis ex post facto.

Metternich realizara um tour de force: a Áustria, o Estado mais vulnerável, surgia como repositório
da força; a potência que tinha mais a ganhar com os decretos de Carlsbad aparecia como a parte
mais desinteressada. Os diferentes discursos com que os diplomatas reunidos agradeceram a
Metternich o ter-lhes sido permitido realizar a jogada dele mostravam que a conquista não
necessita tomar sempre a forma das armas: “Se nos é dado esperar que esta missão, tão difícil
quanto honrosa, para a qual nos reunistes, tenha sido concluída de forma não de todo inaceitável
para vós, devemo-lo a sua (...) sábia liderança. (...) Quando, ainda do outro lado dos Alpes, ouvistes
o clamor de indisciplinados escribas e a notícia de um monstruoso crime, (...) reconhecestes a causa
real do mal (...) e o que aqui realizamos nada mais é que aquilo por vós concebido naquela ocasião.”
O descrédito lançado pela posteridade sobre as enfatuadas cartas de Metternich desconhece o falo
de que, quase todo o tempo, elas refletiam simplesmente a realidade de situações extraordinárias. É
o caso desta missiva proveniente de Carlsbad: “Pela primeira vez [em trinta anos] surgirá um
conjunto de medidas antirrevolucionárias, corretas e positivas. Aquilo que desde 1813 desejei fazer
e que esse terrível Imperador Alexandre sempre estragou, realizei agora, porque ele não estava
presente. (...) Se o Imperador da Áustria tem alguma dúvida de que é o Imperador da Alemanha,
está inteiramente equivocado.” Paradoxal situação, muito cara ao traço fantasista de Metternich,
que, ao desistir da Coroa Imperial, Francisco tenha-se tornado Imperador da Alemanha.

Desta maneira, as Conferências de Carlsbad terminaram por uma espontânea afirmação da


predominância austríaca. Metternich era de fato Primeiro-Ministro da Alemanha, conquanto
protestasse desinteresse. A Prússia, com aquiescência dela própria, foi desviada para uma direção
que a impediu, por mais de uma geração, de identificar-se com a corrente nacional; seus ministros
mais liberais, como Humboldt, em pouco tempo foram afastados dos cargos. E a Confederação
Germânica reduziu-se a ponto de encontro de diplomatas subordinados, enquanto as decisões
realmente fundamentais eram tomadas em negociações diretas dos Gabinetes. O único órgão que
representava toda a Alemanha tornara-se um instrumento de ratificação. No dia 20 de setembro, a
Confederação aprovou, unanimemente e sem debate, as decisões tomadas em Carlsbad. Assim
findava, por enquanto, o sonho de uma Alemanha unificada.

III

Mas a vitória de Metternich não estaria completa se o que chamava movimento revolucionário
obtivesse apoio estrangeiro. Se as potências estrangeiras recusassem sanção aos decretos de
Carlsbad, a Áustria seria posta na defensiva, não apenas na Alemanha mas em toda a Europa. E com
a aproximação das conferências de Viena, as cortes alemãs meridionais, especialmente
Wurtemberg, estavam indóceis sob a tutela austro-prussiana. Metternich, em consequência disso,
convidou a Grã-Bretanha e a Rússia a aprovarem os decretos de Carlsbad. Mas isso apenas trouxe à
tona a dificuldade da posição de Castlereagh. Era impossível a qualquer estadista britânico
expressar aprovação a uma política de repressão interna, por mais que pudesse estar de acordo
com ela. Tampouco podia patrocinar o que era, efetivamente, uma doutrina de interferência geral
nos assuntos internos de outros Estados. Malgrado sua boa-vontade, Castlereagh teve de ater-se à
seguinte resposta ao embaixador austríaco: “Apraz-nos sempre ver destruídos os germes maléficos,
ainda que sem o poder de dar abertamente nossa aprovação.”
Com a Rússia foi ainda mais difícil. Capo d’Istria pintou para o Czar um quadro do perigo da
dominação austríaca da Alemanha, sem deixar de ressaltar que o principal opositor da Alliance
Solidaire de Alexandre estava agora aplicando as mesmas máximas em seu próprio benefício. O
resultado foi uma nota-circular russa, irritadiça e neutra, declarando que se os decretos de Carlsbad
diziam respeito a assuntos alemães, a Rússia não tinha como interferir, e se eram assunto europeu,
a Rússia deveria ter sido convidada a Carlsbad. No dia 4 de dezembro, Capo d’Istria chegou mesmo
a sondar Castlereagh sobre a possibilidade de uma representação conjunta à conferência de Viena.

Mas se Castlereagh não era capaz de sancionar a política de Metternich, podia ao menos evitar que
o Czar a utilizasse como escusa na exploração das dificuldades da Europa Central para seus fins. Se
o princípio de não-interferência era uma doutrina de autolimitação para a Grã-Bretanha, podia ser
usado também como escudo detrás do qual Metternich pudesse organizar a Europa Central.
Castlereagh, então, deu uma hábil resposta à proposta russa. Admitia que os Atos de Confederação
eram parte da solução de Viena, e que potências estrangeiras tinham direito de protestar contra sua
violação. Mas negava que os decretos de Carlsbad fossem mais que um esforço legítimo para
assegurar tranquilidade interna, meta que, ele estava certo disso, a Rússia aprovava. A Grã-
Bretanha não respondera oficialmente à notificação dos decretos de Carlsbad, precisamente porque
emitir opinião seria interferir nos assuntos internos da Alemanha. Ao mesmo tempo, Castlereagh
enviou mensagem a seu embaixador em Berlim deixando claro que mais não podia fazer a Grã-
Bretanha e que as potências germânicas não deviam prolongar a disputa: “Nossos aliados devem
lembrar-se de que temos um Parlamento a enfrentar e que é essencial (...) não haver discussões
acaloradas sobre política continental.”

Os decretos de Carlsbad constituíram o ponto de inflexão na política européia, o caso marginal de


cooperação austro-britânica, o limite até onde a doutrina da não-interferência podia ser usada para
localizar a luta social. Tendo sido a Áustria suficientemente forte para vencer a revolução dentro da
Alemanha sem ajuda de potências não- germânicas, a diferença entre Castlereagh e Metternich
ainda podia ser obscurecida pela utilização de armas políticas para fazer malograr a intervenção
russa. Em medidas negativas, na criação de um quadro para a inação, Metternich e Castlereagh
ainda concordavam. Mas era evidente que, tão logo a luta social ampliasse seu raio de ação, uma
doutrina da inação não satisfaria Metternich. Do mesmo modo como havia realizado o envolvimento
da Prússia em sua política alemã, iria certamente tentar envolver a Rússia em seus intentos
europeus. Isso se tornava ainda mais importante devido à demonstração pelo caso dos decretos de
Carlsbad, de que a aprovação russa podia não ser alcançável retroativamente. A prova de fogo da
unidade aliada devia chegar quando a luta se tornasse explicitamente social e de escala européia.
Ao longo do ano de 1820 as revoluções espocando nas mais diferentes partes da Europa
anunciavam que alianças, tal como seres humanos, podem viver de lembranças do passado e que o
significado da unidade teria de ser revisto à luz do presente.
14/ O CONGRESSO DE TROPPAU E A
ORGANIZAÇÃO DA EUROPA

EM FINS DE 1819, Metternich montara uma de suas intrincadas combinações que ocultavam a
fraqueza da Áustria explorando os princípios legitimantes reconhecidos pelas várias potências como
meio de ligá-las à Áustria. Empregara a Quádrupla Aliança como ponte para a Grã-Bretanha, com a
finalidade de sobrepujar a influência russa por meios políticos. E apelara para a Santa Aliança, em
suas relações com o Czar, a fim de manter aberta a possibilidade de pender novamente para o apoio
russo, se a luta social lhe fugisse ao controle. A Alemanha fora pacificada com a ajuda da Prússia e a
Confederação Germânica transformada numa extensão da política austríaca com a concordância
sôfrega das potências secundárias, na verdade, a pedido delas. As conferências de Viena haviam
terminado com uma nova definição do Artigo XIII, outra vez tão vaga que perdia o significado e
resumia-se no lugar-comum de que a promessa de assembleias não podia afetar a soberania dos
Príncipes. A Itália estava em calma.

Tudo isto se realizara sem a abertura de cisões intransponíveis. A posição central da Áustria
transformara-se num ativo diplomático pela providência constante de que as diferenças das grandes
potências entre si fossem sempre maiores que as respectivas diferenças com a Áustria, para que em
toda crise internacional a Áustria emergisse como Estado-pivô. Castlereagh considerava Metternich
o mais “razoável” dos estadistas continentais, um tanto tímido, talvez, porém ainda o mais fácil com
quem tratar, o mais moderado, o menos abstrato. Alexandre considerava Metternich o mais
ideológico dos estadistas europeus, não muito disposto, é bem verdade, a segui-lo aos píncaros, mas
ainda assim o único em condições de entender-lhe os sublimes voos da imaginação. E em assuntos
do exterior, a Prússia era satélite austríaco.

A política de Metternich dependia, então, de sua capacidade de evitar crises maiores que forçassem
um engajamento inequívoco, e de sua habilidade em criar a ilusão de intimidade com todas as
grandes potências. Era delicadamente entretecida, com finos sensores em todas as direções e tão
intrincada que ocultava o fato de que nenhum dos problemas fundamentais fora realmente
solucionado. Pois Alexandre ainda se apegava à sua idéia da Alliance Solidaire com direito de
interferência geral, enquanto Castlereagh permanecia impávido em sua insistência no propósito
exclusivamente político da aliança e na doutrina de não-intervenção. Somente uma dupla ilusão
evitava revelar-se esse conflito de concepções: enquanto o Czar cedera ao argumento de Metternich
de que a Alliance Solidaire já existia, Castlereagh julgava haver-lhe exorcizado o fantasma por meio
de sua própria interpretação da estrutura de tratados em Aix-la-Chapelle. Tendo Alexandre recuado
da pressão por suas reivindicações, que julgava reconhecidas em princípio, Castlereagh não teve
oportunidade de tornar explícito o cisma dentro da aliança. Mas essa ilusão só podia ser mantida
enquanto nenhum problema geral ocupasse a atenção dos aliados. Tão logo uma das grandes
potências tentasse invocar a aliança, ver-se-ia que as divergências de Aix-la-Chapelle persistiam,
que a unidade aliada se estava desintegrando pela impossibilidade de chegar a um acordo quanto à
natureza ou à extensão do perigo.

O ano de 1820 começou com o primeiro de uma série de levantes que deveriam transformar
fundamentalmente as relações internacionais. Em janeiro, estourou uma revolta em Cádiz, Espanha,
entre as tropas que aguardavam embarque para as colônias rebeladas da América do Sul. Embora a
princípio parecesse não ter importância, logo espraiou-se, e, no dia 7 de março, o Rei viu-se
obrigado a promulgar a constituição ultraliberal de 1812. Tratava-se, portanto, de uma revolução
concluída e não de uma articulação isolada como na Alemanha; a derrubada da ordem existente
levaria certamente a Rússia a tentar implementar sua interpretação da aliança. Já em 15 de janeiro,
antes de sequer saber dos acontecimentos na Espanha, Capo d’Istria expedira um despacho circular
que comparava o novo sistema de diplomacia fundada nos elevados preceitos da aliança com os
velhos cânones egoístas e conclamava os monarcas a pôr em prática seus princípios. Não é de
admirar que Capo d’Istria saudasse a Revolução Espanhola quase como uma bênção, vindicação
final de seu ponto de vista. Disse ao embaixador austríaco que desde o fim da ocupação da França a
aliança ficara sem o único objetivo que podia dar-lhe unidade. Numa entrevista posterior, afirmou
um tanto contraditoriamente que a Quádrupla Aliança fora suplantada pela declaração de Aix-la-
Chapelle, que ele interpretava como uma garantia dos acordos territoriais e instituições domésticas
existentes. Não causou surpresa que uma nota russa de 3 de março convocasse os aliados para
examinarem medidas comuns contra a Espanha.

Mas a reação de Castlereagh não podia ser diferente da que foi. A Grã-Bretanha, aliada da Espanha
por mais de uma década, não permitiria que a França interviesse como agente da Quádrupla
Aliança, para conseguir com a aprovação da Europa o que não fora dado a um Napoleão
conquistador. E a alternativa de tropas russas atravessarem a Europa até a Espanha não era mais
aceitável: Castlereagh deu, portanto, uma resposta acerba, mostrando a diferença entre Estados
constitucionais e autocráticos, reafirmando uma vez mais o ponto de vista britânico sobre a aliança:
“A aliança se fez contra a França. Jamais entendida (...) como uma união para o governo do mundo
ou para a superintendência dos assuntos de outros Estados.” Sem dúvida, fora projetada para
proteger a Europa contra a “potência revolucionária”; mas apenas contra seu caráter militar, não
contra seus princípios. De qualquer forma, a diferença de estruturas domésticas entre os Estados
constitucionais do Ocidente e as potências autocráticas orientais tornava a ação comum possível
somente em caso de perigo supremo. Sendo assim, nada do que ocorrera desde Aix-la-Chapelle
havia alterado a divergência fundamental decorrente de um desacordo quanto à natureza do perigo:
os estadistas continentais, ainda que discordassem na escolha das providências, consideravam a
inquietação social a ameaça principal e tentavam encará-la como problema internacional. Já
Castlereagh apenas reconhecia ameaças políticas, expressas em atos flagrantes de agressão, e
mesmo assim limitava o comprometimento britânico aos casos de ataque em força contra o
equilíbrio europeu.

Essa divergência devia-se menos a uma diferença de princípios constitucionais, como acreditava
Castlereagh, que a uma diferença de desenvolvimento histórico e, sobretudo, ao fato de na Grã-
Bretanha estar consumada a criação do Estado-nação. No Continente, o liberalismo lutava sob as
bandeiras dos princípios da Revolução Francesa, e a concordância doutrinária superava a lealdade
política. Na Grã-Bretanha, onde a Revolução Francesa confundia-se com Napoleão, o liberalismo
aparecia como planta autóctone, na forma de uma economia política utilitária. Ataques à ordem
existente ocorriam, às vezes violentos; mas como o sentimento de coesão nacional sobrepujava
quaisquer divergências internas, eram considerados problemas domésticos, tanto pelo governo
quanto pelos reformadores. No Continente, uma revolução tinha o significado simbólico de
aplicação de princípios universalistas. Mas para a Grã-Bretanha, que negava a universalidade de
tais pretensões, uma revolução tinha apenas significação prática, qual seja, constituía ou não uma
ameaça física. No Continente, onde os movimentos geminados de nacionalismo e liberalismo
somente podiam alcançar seus objetivos pela derrubada da ordem internacional, tanto a repressão
como a reforma constituíam problemas internacionais que tratar segundo os preceitos da política
externa. Na Grã-Bretanha, onde a aspiração de reformas era considerada problema doméstico, a
repressão e a reforma permaneciam no âmbito da política interna. Quando Castlereagh mencionava
um supremo perigo, referia-se a uma tentativa de domínio universal. Quando Metternich citava um
perigo supremo, estava se referindo à sublevação social. Não havia boas intenções que chegassem
para anular este abismo entre situações históricas, somente oculto até aqui pela desconfiança de
Metternich quanto às intenções russas.

Mas o intercâmbio de missivas entre Castlereagh e Capo d’Istria colocou Metternich numa posição
difícil. Não lhe interessava mais que a Castlereagh conceder ao Czar o direito de marchar com suas
tropas através da Europa, no entanto não desejava desencadear uma das súbitas mudanças de
humor de Alexandre que pudesse resultar no apoio de uma grande potência aos revolucionários.
Estava bem ciente da sensibilidade inglesa com respeito à Espanha, mas desejava também levar em
conta as sensibilidades morais do Czar. Quer dizer, inclinava-se à política de Castlereagh, mas
também aos aforismos de Alexandre. Resultou a mesma solução de compromisso de Aix-la-Chapelle;
uma concordância com o princípio da proposta de Alexandre, porém uma recusa de ação conjunta
devido a sua impraticabilidade. E como em Aix-la-Chapelle, Metternich utilizou a intransigência de
Castlereagh para patentear sua moderação e boa vontade. Uma conferência a que a Grã-Bretanha
se recusasse a comparecer, ponderou, viria somente encorajar os revolucionários e, de qualquer
forma, uma intervenção estrangeira só seria eficaz contra revoluções de importância localizada.
Mas ao mesmo tempo, Metternich buscava dirigir a mente do Czar em seu próprio benefício
sugerindo um ponto de contato moral na forma de uma conferência de embaixadores em Viena, que
ele tinha certeza de dominar. Quando Castlereagh rejeitou até mesmo esta tentativa de cultivar o
desejo russo por um símbolo de solidariedade, Metternich recuou para uma proposta de remessa de
“Instruções para Eventualidades” conjuntas aos embaixadores aliados em Paris, cobrindo a
contingência da morte de Luís XVIII. Porém a Castlereagh essas jogadas pareciam simples esforços
míopes objetivando colocar a aliança a serviço de interesses egoísticos. “Instruções para
Eventualidades” contrariavam todos os princípios de uma política externa empírica, que só
enfrentava os perigos quando surgiam. O Czar teve de satisfazer-se, portanto, com uma ação
conjunta restrita à Áustria, Prússia e Rússia.
Sem embargo, evitara-se um rompimento ostensivos. Pela última vez Metternich foi capaz de
combinar o princípio de solidariedade social com a doutrina de não-interferência; de apoiar a Grã-
Bretanha demonstrando sua lealdade ao Czar. Mas no dia 2 de julho, um acontecimento pôs fim a
todas as ilusões. Naquela data, deflagrou-se uma revolução em Nápoles, que levou à proclamação
da “constituição espanhola”. Metternich já não podia mais furtar-se a travar o seu combate em
escala européia.

II

Metternich não podia ter dúvidas quanto à seriedade do novo levante. Não se tratava do ato de um
demente fanático, qual o assassínio de Kotzebue; nem perpetrado na periferia da Europa, num país
sob a proteção britânica, como a revolução na Espanha. Nápoles era o maior dos Estados italianos,
ligado à Áustria por um tratado que lhe proibia modificar suas instituições sem consulta. Tampouco
o perigo desta revolução estava apenas em sua importância simbólica. Pela primeira vez davam-se
as mãos os movimentos nacional e liberal, ameaçando um dos pilares da política de Metternich: o
predomínio da Áustria na Itália. Era evidente que não concederia nisto sem lutar.

Para Castlereagh, contemplando os acontecimentos desde o outro lado do canal da Mancha, a


solução era óbvia: uma vez que a revolução em Nápoles ameaçava sobretudo a Áustria, à Áustria
competia abafá-la. Se necessária intervenção militar, esta devia basear-se no direito de autodefesa,
não num direito generalizado de intervenção. Perorou, portanto, ao embaixador austríaco, sobre a
“missão honrosa e delicadíssima” com que se deparava a Áustria, que a Grã-Bretanha podia
aprovar, mas à qual jamais poderia juntar-se, e concitou a uma ação unilateral austríaca contra
Nápoles.

Mas coisa alguma, na complexa política do ministro austríaco, jamais funcionou assim com tanta
simplicidade. Engajar a parte principal do poderio austríaco na Itália, deixando livre o Czar para
acossar seus objetivos na Europa Setentrional e até mesmo surgir como o apóstolo do nacionalismo;
combater os Bourbons napolitanos sem evitar que seus primos franceses restabelecessem sua
posição na Itália aparecendo como protetores, semelhante linha de ação teria sido contrária a cada
princípio da política metternichiana, preocupada sempre em fortalecer os recursos da Áustria e
travar suas batalhas com a mais ampla base moral e material. Mas uma ação conjunta das potências
continentais poderia causar a retirada da Grã-Bretanha da aliança e deixar a Áustria na
dependência da boa vontade do Czar. Para complicar ainda mais as coisas, a Áustria tinha menos de
vinte mil homens na Itália, e nada era possível fazer antes de reforçá-los. Entrementes, Metternich
dissipou quaisquer dúvidas quanto a sua determinação. Uma nota circular às cortes italianas
declarava que a Áustria protegeria a tranquilidade da Itália pela força das armas, se necessário. E
nota similar às cortes alemãs recomendava fortemente uma política de disciplina enquanto a Áustria
estivesse engajada na Itália.

A resposta de várias cortes italianas deixou evidente a precariedade da postura italiana da Áustria.
O Grão-Duque da Toscana contestou a necessidade de assistência austríaca, enquanto Gonsalvi,
Secretário de Estado Papal, expressou o receio de que a intransigência austríaca pudesse provocar
um ataque napolitano. E no dia 9 de agosto, uma nota francesa às Grandes Potências realçou as
dificuldades de Metternich. Admitia concordância com a intervenção austríaca em Nápoles, mas por
motivos técnicos, porque a localização geográfica da Áustria a tornava o mais adequado agente de
uma ação européia. A maré revolucionária na Itália, prosseguia a nota francesa, não podia ser
detida senão por uma conferência das cinco Grandes Potências, pois a força física sem uma
retaguarda moral somente agravaria o mal. E concluía com a desagradável advertência de que uma
ação unilateral austríaca podia fazer com que os Estados italianos apelassem para a França, sua
tradicional protetora, que se veria, ainda que contra vontade, à frente de um movimento
constitucional.

Nestas circunstâncias, Metternich não tencionava atirar-se a uma ação isolada. A amizade inglesa
era valiosa, mas o desgosto britânico menos perigoso que a indignação da Rússia. A saída britânica
da aliança retiraria da política austríaca boa parte de sua flexibilidade, porém a Rússia abandonada
com liberdade de ação poderia empregá-la no solapamento da posição européia da Áustria.
Metternich não esquecera sua experiência do ano anterior, quando Capo d’Istria tentara assumir o
papel de porta-voz das potências secundárias alemãs. Nunca mais Metternich deixaria sua posição
na dependência de uma aprovação russa retroativa, ou da simples boa vontade, sem outro apoio, do
Czar. Estava decidido, portanto, a bloquear as opções da Rússia, quase a qualquer preço. Enquanto
Castlereagh o exortava a uma ação decisiva, como se a intervenção austríaca dependesse
inteiramente da balança de forças da península, Metternich estava muito menos interessado no fato
da ação que no modo de agir, menos em vencer a revolução em Nápoles que em comprometer a
Rússia numa linha de ação conjunta na Itália. Colheu nesse momento os frutos de sua cuidadosa
política da primavera. Embora Castlereagh houvesse absolutamente rejeitado uma reunião de cinco
potências sobre a questão espanhola, Metternich abrandara sua rejeição com a proposta de um
encontro do Imperador com o Czar. Pôde, então, acrescentar a questão napolitana à agenda da
vindoura conferência, não um pedido de auxílio, mas uma questão mais a requerer a apreensiva
atenção dos monarcas. Preparou para assinatura do Imperador uma encantadora carta dirigida a
Alexandre, da qual constava uma referência aos “estorvos constitucionais” da Grã-Bretanha,
comparando-os, desfavoravelmente, com a posição dos monarcas da Áustria e da Rússia, “os únicos
soberanos que ainda possuem liberdade de ação.”

Mas essa tentativa sutil de atrair o Czar à concessão de seu endosso individual à intervenção
austríaca na Itália, isolando a França e mantendo aberta a conexão britânica, não deu certo. Pois
Alexandre, sentindo-se finalmente justificado, não se colocaria à margem tão facilmente. Escreveu
uma atenciosa carta pessoal ao Imperador, concordando com o encontro, em qualquer época após o
encerramento da sessão da Dieta Polonesa, para a qual Alexandre estava de partida; mas uma nota
anexa de Capo d’Istria sugeria uma conferência das cinco potências segundo o modelo de Aix-la-
Chapelle, a ter lugar concomitantemente com o encontro dos monarcas. Cada vez mais transparecia
que Metternich não conseguiria evitar uma interpretação da estrutura da ordem internacional
conducente à retirada britânica da aliança.

Durante todo este tempo, Castlereagh, que via desmoronar o trabalho de sua vida, tentava salvar a
aparência de unidade aliada exortando Metternich à ação imediata, opinando pela conveniência de
medidas unilaterais — passos que Metternich tentava acima de tudo evitar. Castlereagh não
encontrava outra explicação para a incompreensível vacilação de seu colega austríaco que o receio
do poderio físico de Nápoles, e procurava, então, tranquilizá-lo. “Se a Áustria julgar próprio meter
com firmeza as mãos à obra,” escreveu ele em 29 de julho, “não há a menor dúvida quanto a sua
competência em esmagar o Reino de Nápoles e dissolver o exército rebelde.” Outro despacho, de 6
de setembro, buscava elucidar a posição legal com respeito à revolução em Nápoles, como se o
dilema posto pela localização central da Áustria pudesse ser solucionado pela reiteração paciente
de preceitos do Direito Internacional. A aliança, insistia Castlereagh, só podia funcionar contra um
perigo ostensivo e premente. Embora uma revolução pudesse constituir ameaça, ela afetava
diferentemente as várias potências. E no caso de Nápoles, a Grã-Bretanha não estava “tão (...)
imediatamente ameaçada, segundo as doutrinas (...) até aqui sustentadas no Parlamento britânico,
[que] se justifique tomar parte numa intervenção armada.” E em conversa com o embaixador russo,
Castlereagh repetiu que a simpatia britânica por seus aliados não podia ir além de uma
neutralidade benevolente: “Podemos dar um apoio moral muito mais forte a uma causa não
estritamente nossa, que a outra na qual figuremos como parte ativa. A revolução deveria ser tratada
como uma questão especial e não geral, como um assunto italiano ao invés de europeu, e,
consequentemente, na esfera da Áustria e não na da Aliança”. Por maior que fosse a devoção de
Castlereagh à aliança, nenhum estadista britânico poderia empreender uma política em total
discrepância com a mentalidade insular. O fato de uma revolução não constituía ameaça para um
país convicto da singularidade de suas instituições, e ninguém podia tomar a sério o perigo de uma
agressão física proveniente de Nápoles.

Metternich deparava-se, assim, com uma situação em que seu aliado de maior confiança
comunicava a impossibilidade de ajuda, enquanto seu mais perigoso oponente clamava por prestar
auxílio. “A Áustria considera tudo quanto à substância”, escreveu Metternich. “A Rússia quer antes
de mais nada a forma; a Grã-Bretanha deseja a substância sem a forma. (...) A nós caberá combinar
as impossibilidades da Grã-Bretanha com as maneiras da Rússia.” Isto levou a uma aferrada ação
retardadora, visando a manter a Grã-Bretanha na aliança como contrapeso da Rússia, sem
antagonizar o instável Czar. Mas evidenciando-se a impossibilidade de armar uma política aceitável
à Rússia e à Grã-Bretanha ao mesmo tempo, Metternich estava decidido a optar pelo Czar. Explicou
a Stewart, agora embaixador britânico em Viena, que embora não fosse do interesse da Áustria a
Grã-Bretanha ficar de lado, era contra os interesses da Áustria que a Rússia e a França atuassem
separadamente. Se a Áustria não podia evitar desavir-se com um de seus aliados, preferia fazê-lo
com aquele do qual tinha menos que temer. E confirmava-o nessa política uma crise interna na Grã-
Bretanha, que a cada dia ameaçava derrubar o Gabinete Liverpool. *

Passo a passo, portanto, Metternich recuou ante a insistência russa. No dia 28 de agosto, apelou ao
Czar com os argumentos que se haviam mostrado tão eficazes em Aix-la-Chapelle. A solidariedade
da aliança, escreveu ele, era tão firme que se tornava desnecessário demonstrá-la por um congresso
formal. Em lugar disto, os aliados deviam romper relações diplomáticas com Nápoles, ao mesmo
tempo constituindo uma conferência de embaixadores em Viena como ponto de contato moral.
Metternich sabia que uma conferência dessas não lhe causaria o menor problema, pois seu domínio
sobre os embaixadores acreditados em Viena era tão completo que os críticos os designavam como
o seu harém. Talvez se Alexandre não estivesse na Polônia de qualquer maneira, teria concordado
com a proposta de Metternich. Estando porém tão próximo à cena, não suportava a idéia de grandes
acontecimentos terem lugar sem sua participação. Respondeu que o mal não podia ser combatido
sem demonstrar-se a unidade moral da Europa, e insistiu numa conferência das cinco potências a
reunir-se em Troppau no dia 20 de outubro. E Castlereagh acabou com as últimas perspectivas do
plano de Metternich simplesmente recusando-se a discutir a retirada do embaixador britânico de
Nápoles como injustificável interferência nos assuntos domésticos de outro Estado.

No fim de setembro, Metternich cedeu. Disse a Stewart que a Áustria não podia agir na Itália com
uma Rússia hostil à retaguarda, e por mais que desejasse levar em conta as suscetibilidades
britânicas, sua capacidade de ajustar-se era limitada pelos requisitos da segurança austríaca. Para
evitar uma situação ainda mais embaraçosa, a Grã-Bretanha devia enviar um representante a
Troppau, quando mais não fosse como observador. Teve pouca dificuldade em convencer Stewart,
que implorou a Castlereagh permitir-lhe ir a Troppau “como um completo não-ser, além de canal de
informação para o governo do meu país.”

Mas enquanto Capo d’Istria orgulhava-se de seu triunfo e Castlereagh invectivava a obtusidade
continental, teve lugar uma mudança quase imperceptível da situação, que permitiu a Metternich
aparecer de novo como Primeiro-Ministro da Europa. A solicitação austríaca de uma conferência em
julho teria sido interpretada como confissão de fraqueza ou de intransigência. Uma concessão
relutante em setembro demonstrava a autoconfiança da Áustria e sua moderação. Aos poucos, a
Áustria, única com interesse direto numa intervenção em Nápoles, viu-se instada a fazer o que
ardentemente desejava. Mais e mais, o ônus da ação ia-se transferindo ao Czar. Em breve, as
invocações de Alexandre a elevados princípios perderiam sua ambiguidade, e os liberais e
nacionalistas desesperariam de obter apoio estrangeiro. Como fizera um ano antes, em Teplitz,
também agora, na preparação de Troppau, Metternich imobilizou o monarca que mais temia com
um caloroso abraço.

A partir do momento em que um congresso começou a parecer inevitável, Metternich percebeu que
seu principal problema não era Nápoles, e sim a disposição de espírito do Czar. Uma entente franco-
russa esmagaria a Europa Central; uma reversão à fase liberal do Czar podia desencadear a
revolução. Mas o apoio russo poderia mostrar-se igualmente perigoso, porque o dogmatismo de
Capo d’Istria talvez obrigasse a Áustria a uma política acima de seus recursos. Metternich desejava
reprimir a revolução para simbolizar a volta à tranquilidade; Capo d’Istria queria vencê-la para
trazer à luz a nova era visualizada pela Santa Aliança. Metternich intentava uma atitude decidida de
diplomacia de gabinete; Capo d’Istria preferia uma cruzada para reformar os governos da Europa. A
correspondência de Capo d’Istria durante o período que precedeu a abertura do Congresso, mais
que evidencia suas intenções. Ele escreveu a Richelieu, Primeiro-Ministro francês, que a Rússia se
preparava para mais uma batalha contra o egoísmo e, esperava, com mais sucesso que em Aix-la-
Chapelle. Disse a Anstett, seu embaixador em Francforte, que a Áustria iludia a si mesma se
desejava obter apoio russo para criar um satélite austríaco em Nápoles. A culpa das revoluções não
era do povo, mas dos governos que haviam deixado de dar a seus povos instituições que lhes
assegurassem a tranquilidade. O problema fundamental em Troppau, então, não era a revolução em
Nápoles mas o rumo futuro da política russa, se os pronunciamentos vagos da Santa Aliança
santificariam as noções abstratas de Capo d’Istria sobre constituições nacionais ou a política de
Metternich de repressão social. Até resolver-se esta questão, a política russa denotaria
extraordinária ambiguidade, oscilando entre fianças à reforma e ameaças de intervenção contra
todas as revoluções, dependendo do estado de espírito do Czar e da influência de Capo d’Istria no
momento. Remover a fonte dessa ambiguidade era a meta principal de Metternich: “Nossa tarefa,”
escreveu Gentz, “se reduz a um item: Capo d’Istria.”

Sendo esse o quadro, Metternich partiu numa direção que somente sua arrogância podia levá-lo
sequer a considerar: lançou-se não apenas a neutralizar Capo d’Istria no Congresso, pois isto ainda
proveria a revolução com o símbolo da amizade de uma grande potência; mas a conquistar a Rússia,
nada menos que tomando ele próprio o lugar de seu ministro, a derrotar a revolução não só com a
concordância, mas sob a porfiada liderança de Alexandre. Passou a agir, portanto, no sentido de ser
designado Sumo Sacerdote da sublimação religiosa de Alexandre, intérprete oficialmente
reconhecido da Santa Aliança, para alcançar, assim, não só a legitimação, mas a santificação da luta
social.

O embaixador austríaco na Rússia, Lebzeltem, recebeu instruções de não sair de junto do Czar, e
através dele Metternich remeteu volumosos relatórios sobre uma conspiração européia, com sede
significativamente em Paris, que se dizia pretender a derrubada de todos os tronos. A recalcitrância
da Dieta Polonesa, que estranhamente relutava em aceitar a evidência gritante da generosidade do
Czar, parecia feita sob medida para ilustrar as prédicas de Metternich quanto à precedência da
ordem sobre a mudança, da estabilidade sobre a reforma. Os resultados não se fizeram esperar.
Uma resposta russa à nota circular francesa de 9 de agosto alertava sobre o perigo de uma
diplomacia “superada” naquele momento de crise. Admoestava a França por suspeitar das
motivações austríacas: “Abandone o ministro [francês] (...) qualquer sentimento de rivalidade em
relação à Áustria. Os desígnios dessa potência não devem, não podem, dar lugar [a tais
sentimentos].”

E a moderação de Metternich não deixara de ter seu efeito sobre Castlereagh. Certamente,
Castlereagh ainda protestava contra uma reunião das cinco potências. Mas ao mesmo tempo ele não
chegava a decidir-se a tornar evidente a ruptura na aliança, e receava que sua intransigência
pudesse obrigar Metternich a concessões que não lhe deixassem outra escolha. Nesse estado de
espírito, estava mais do que pronto a utilizar a saída inestimável que lhe preparara Metternich e
permitir a presença de Stewart em Troppau como observador. É bem verdade que Stewart foi
instruído a não assinar sequer um protocolo e a restringir suas observações ao equilíbrio territorial
da Europa. Mas eram evasivas para fins parlamentares. Mesmo assim, o efeito simbólico da
presença de um observador britânico era considerável, e num caso mais sério de cartas-na-mesa, o
que era mais importante, representaria um fator considerável para o lado de Metternich. Além
disso, embora Castlereagh relutasse em associar a Grã- Bretanha à derrota de revoluções, podia ao
menos impedir os demais de contrariarem os planos austríacos. Consequentemente, deixou bem
claro à França que ela não podia contar com o apoio inglês na tentativa de qualquer pacto familiar
com os Bourbons napolitanos. Repelida pela Rússia, sob pressão da Grã-Bretanha, a França não
teve saída senão abandonar seu sonho de tornar-se porta-voz dos Estados constitucionais numa
conferência européia. Para cobrir sua retirada, a França descobriu uma identidade de princípios
constitucionais entre as potências ocidentais que a obrigava a seguir o exemplo britânico e
restringir sua participação em Troppau a um papel de observadora.

Quando os principais atores do Congresso de Troppau começaram a reunir-se, Capo d’Istria, como
tantos rivais anteriores de Metternich, de repente viu-se isolado através da hábil utilização, por
Metternich, de suas próprias propostas. A Prússia era um satélite diplomático da Áustria. A Grã-
Bretanha estava representada por Stewart, cuja vaidade o tornava alvo fácil para as artimanhas de
Metternich. A França, representada por dois observadores, La Ferronay, embaixador em
Petersburgo, e Caraman, embaixador em Viena. Mas Caraman era doentiamente invejoso do colega,
e tão dominado por Metternich que nas etapas cruciais das negociações mostrava-lhe suas
instruções confidenciais. Capo d’Istria conseguira o que desejava. Reunira-se um congresso; mas
apenas para oferecer um fórum ao manipulador de Viena que ele tanto deplorava. As cinco
potências reuniram-se, mas na prática não era mais que o encontro dos Imperadores da Áustria e da
Rússia no qual Metternich insistira, com os demais participantes no papel de reservas austríacas.
Metternich o conseguira, primeiro isolando a França com ajuda da Rússia, depois usando essa
vitória para isolar a Rússia com a ajuda da França. Natural que Capo d’Istria começasse a sentir
certa inquietação. “Empreendi uma política audaciosa”, disse ele, antes mesmo da abertura do
Congresso. “Talvez audaciosa demais.”

Metternich, entretanto, não estava interessado em triunfos, mas na obtenção de uma base moral
para a ação. O isolamento da Rússia era um último recurso, arma psicológica ainda mais efetiva por
não ser nunca posta em uso explícito. Da mesma forma que chegara à dominação da Confederação
Germânica com a aquiescência prussiana ao invés de vencê-la em votação, aspirava a organizar o
grupo de potências com ajuda da Rússia, em vez de fazê-lo pelo isolamento russo. Com esse fim,
atuou em Troppau como a consciência da Europa, o guardião de seus princípios morais, para
triunfar em Nápoles pela conquista do Czar.

III

Não foi por outro motivo, então, que o estado de espírito de Metternich se aproximou da vivacidade
eufórica do seu grande período de 1813. Mais uma vez fizera a Áustria surgir como Estado-chave, a
despeito de sua vulnerabilidade, e utilizou-lhe a crise para cimentar sua posição internacional. O
Rei da Prússia, rumando para o Congresso, pediu a seus ministros que preparassem um memorando
sobre os problemas constitucionais da Prússia a ser submetido à aprovação de Metternich. E
Alexandre cada vez mais se lamentava de sua infeliz fase liberal. Nesse quadro, Metternich estava
confiante em derrotar aquele “bufão” Capo d’Istria. Ainda mais seguro de si f:caria se soubesse que
Alexandre pouco antes pusera um ponto final numa tentativa de Capo d’Istria em favor de uma
política combinada franco-russa em Troppau, porque considerava a situação interna francesa
“instável demais”.

Metternich chegou a Troppau no dia 17 de outubro, e o Czar no dia seguinte. O primeiro encontro
entre eles, pouco depois da chegada do Czar, durou três horas e seguiu o mesmo roteiro da
entrevista com o Rei da Prússia em Teplitz, no ano anterior. De novo um mortificado monarca
confessou seus erros a um severo Ministro do Exterior austríaco, este a demonstrar que a redenção
estava na unidade futura. “Entre 1813 e 1820 sete anos se passaram”, disse o penitente Czar, “que
para mim mais parecem um século. Em circunstância alguma eu faria em 1820 o que fiz em 1812.
Você não mudou, eu sim. Você nada tem do que se arrepender, eu tenho.” Capo d’Istria podia
prefigurar o Congresso como início de uma nova era; a tranquilidade restaurada como condição
para a reforma fundamental que levaria à adoção de constituições; mas se desejava sequer manter
sua posição tinha que agradar o ministro austríaco: “Iniciei nosso diálogo,” relata Metternich da
primeira entrevista de ambos em 20 de outubro, “passando para meu próprio campo, o da razão
pura. Ele já estava firmemente estabelecido. Para experimentá-lo, deixei aquele campo. Não me
seguiu. (...) ‘Isto vai longe’, disse a mim mesmo, ‘vou submetê-lo à prova de fogo.’ Fiz uma incursão
pelo apocalíptico; ele me sugeriu queimar (...) d evangelho do falso João. (...) Nesse momento,
pensei: Agora podemos fazer progressos.”

Na primeira sessão plenária, em 23 de outubro, Metternich apresentou, então, o programa


austríaco, que representava mais um esforço para atender ao desejo russo de uma expressão de
solidariedade, sem implantar princípios que forçassem a Grã-Bretanha ao isolamento ostensivo.
Metternich asseverava que nenhuma potência tinha o direito de interferir nos assuntos internos de
outros Estados, a menos que tais assuntos tivessem influência em toda parte. Mas, em
compensação, todo Estado tinha o direito de intervir quando as transformações internas em outros
Estados ameaçassem sua própria estrutura. Metternich pedia nada menos que a sanção européia a
uma doutrina de não-interferência, em nome da qual propunha, então, a liquidação da revolução em
Nápoles. Engenhosa tentativa de utilizar a intervenção austríaca em Nápoles para comprometer o
Czar com um princípio de autolimitação; para obter uma interpretação restritiva da estrutura de
tratados ao mesmo tempo que usava a aliança para reprimir a sublevação social. Se Castlereagh
estivesse presente, dificilmente poderia apresentar propostas diferentes, pois Metternich estava
sugerindo a legitimação de sua política italiana segundo os preceitos “britânicos”.

Mas Capo d’Istria não se dispunha a uma rendição tão fácil. O Czar podia ter abjurado suas
passadas extravagâncias, mas não era de crer que mesmo Metternich conseguisse induzi-lo a
retornar à pura diplomacia de gabinete. Ele insistira num Congresso para demonstrar a unidade
moral da Europa, não para reiterar um direito de autodefesa que ninguém estava pondo em dúvida.
Metternich poderia receber a substância da vitória, mas somente revestindo-a das formas que já
eram quase ritualísticas para os russos. Ocorreu um hiato nas negociações enquanto Capo d’Istria
preparava uma resposta formal, durante o qual Metternich, em longas sessões particulares com
Alexandre, travou sua batalha pela mente do Czar. Em 29 de outubro, na segunda sessão plenária, a
Prússia apresentou um memorando tão perfeita e abertamente na linha austríaca que os russos
suspeitaram ter sido preparado por Metternich.

No intervalo, transpareceram as intenções russas. “Desejava o imperador da Áustria 150.000 ou


200.000 homens para cortar o pescoço dos carbonari?”, perguntou Capo d’Istria a Stewart.
“Estavam a sua disposição. Mas se queriam appui moral para derrubar um governo, era preciso
mostrar o que lhe tomaria o lugar. A reconstrução de governos para o bem-estar da humanidade era
assunto para a consideração da grande Associação da Europa.” Nada evidenciaria melhor a
diferença entre as concepções austríaca e russa da ordem internacional: Metternich combatia a
revolução como perturbação do equilíbrio; Capo d’Istria aspirava a vencê-la porque impedia os
soberanos legais de conferirem sua beneficência a seus povos como reis-filósofos, muitas vezes na
forma mesma das reformas que advogavam os revolucionários. Um memorando russo de 2 de
novembro pôs à mostra essa diferença. Baseava a intervenção proposta, não no direito de
autodefesa, mas nos tratados de 1814-15, que se dizia representarem uma garantia da ordem
existente. E estabelecia três princípios que justificavam a intervenção da aliança: uma revolução
excluía automaticamente da aliança a potência afetada; os aliados tinham direito de tomar as
medidas necessárias para evitar a difusão da epidemia e para recolocar as potências atingidas no
seio da aliança; mas essas medidas não podiam afetar as disposições territoriais dos tratados de
1814-15.

Naturalmente, uma repetição dos argumentos de Aix-la-Chapelle; na realidade, uma aplicação do


raciocínio do próprio Metternich para rejeitar a Alliance Solidaire, de que os tratados existentes
eram suficientes para a promoção de todos os seus objetivos. Mas as generalidades de Capo d’Istria
interessavam menos a Metternich que sua aplicação ao problema de Nápoles. A finalidade da
intervenção austríaca, arrazoava o ministro russo, era capacitar Nápoles a realizar livremente suas
aspirações nacionais e garantir-lhe uma “liberdade dual”: liberdade política e independência
nacional. Em consequência, propunha ele que a intervenção austríaca se fizesse preceder de unia
pressão moral por parte das grandes potências ou da mediação de um poder neutro,
preferivelmente o Papa. Mesmo que isto de nada adiantasse, a Áustria só poderia obter a sanção da
aliança para a intervenção dando conta das instituições que pretendia estabelecer em Nápoles.
Quer dizer, Capo d’Istria pretendia nomear-se árbitro constitucional da Europa. Mas nenhum
estadista é mais forte que seu próprio apoio interno, e a essa altura Metternich tinha mais
influência junto do Czar que o ministro russo. “O único ponto em Troppau”, escreveu Gentz, “está
em quem é o mais forte, Alexandre ou Capo d’Istria.”

O ponto resolveu-se logo. Em 5 de novembro, Metternich rejeitava a interpretação de Capo d’Istria


dos tratados de 1814-15. Somente a letra dos tratados tinha o poder de obrigar, sustentava ele,
dependendo das circunstâncias a interpretação de seu espírito. Não obstante, a Áustria estava
disposta, pelo bem da Europa, a aceitar uma interpretação bastante liberal. Característica manobra
metternichiana: concordava com os princípios formulados pela Rússia, mas como concessão
austríaca, não como necessidade lógica. Aceitava a interpretação russa das disposições de tratado,
mas apenas para fixar uma tese de liberdade de ação em sua aplicação. Entregava a Alexandre o
símbolo de unidade européia que ele tanto desejava, só, entretanto, para comprometê-lo
irrevogavelmente. Capo d’Istria logo viu que era uma vitória inútil, a sua. Pois Metternich
prosseguiu rejeitando sua proposta de que os aliados entrassem num acordo quanto a uma
constituição alternativa para Nápoles, em nome daqueles mesmos princípios que acabavam de ser
formulados. A tarefa única da aliança, afirmava Metternich, era trazer de volta q Rei à família das
potências, restaurando sua liberdade de ação; qualquer interferência a mais limitava-lhe a
soberania, contrariando a própria finalidade da intervenção. Quando no dia 6 de novembro Capo
d’Istria viu-se obrigado a admitir que a soberania do Rei de Nápoles não podia ser limitada, ficou
manifesto que Metternich passara ao predomínio. Em 7 de novembro, o Czar havia forçado Capo
d’Istria a concordar, em princípio, com um plano de transigências mútuas apresentada por
Metternich. “Pelo menos, estamos em terreno sólido”, escreveu Metternich a seu embaixador na
França. “Naturalmente ainda encontraremos vários obstáculos, mas ocupamos as elevações e em
consequência venceremos a batalha. Liquidamos os expedientes do ‘desejo nacional’ e da
‘mediação’.”

O plano de concessões de Metternich concordava com os três princípios que Capo d’Istria havia
formulado, modificando-os apenas pela introdução de uma cláusula, para consumo inglês, de que a
intervenção só se devia adotar em último caso. Mas a parte substantiva do plano de Metternich
revelava que essa concordância era a maneira de pôr fim a quaisquer planos de reforma. Não se
tocava na “liberdade dual”, nem na reconstrução do governo. Ao contrário, Metternich insistia em
que as medidas para alcançar a paz interna deviam deixar-se à discrição do governante legítimo.
Desta forma, os princípios por que Capo d’Istria tão tenazmente combatera vieram com uma
doutrina de abstenção por parte da Rússia, como uma admissão de que constituíam instrumentos de
repressão mas de nada valiam como ferramentas para reforma. Metternich vencera a justa pelo
direito de interpretar os anexos da Santa Aliança. Troppau marcou, portanto, não apenas o começo
do fim para a revolução em Nápoles mas, o que era mais importante, para a política revolucionária
da Rússia.

A proposta de mediação de Capo d’Istria não teve melhor sorte. Aquilo que pretendia reaver alguma
coisa da regra constitucional, tornou-se um dos lances sutis de Metternich que isolavam seus
oponentes expondo-os a alternativas impossíveis. Pois Metternich propôs que os “bons ofícios” se
exercessem não pelo Papa, também não pela França Bourbon, que foi outra das desesperadas
sugestões de Capo d’Istria, mas pela Europa reunida em Congresso. O Rei de Nápoles deveria
comparecer perante aquele organismo e defender sua posição. Diabólica proposta. Se o Rei não
conseguisse permissão para viajar de Nápoles, demonstrada estava sua falta de liberdade; se
comparecesse, com certeza solicitaria a intervenção austríaca nos mais agudos termos. A ação de
retirar de Nápoles o Rei, provavelmente levaria a uma violenta controvérsia entre moderados e
extremados; enfraquecendo internamente o país antes que se disparasse um tiro. E o Czar não
perderia essa oportunidade de demonstrar sua generosidade perante um tribunal tão
impressionante. “Eu terei oitenta e cinco por cento da vitória”, reportou Metternich. “Com o
restante, Capo d’Istria roubará ao mundo sua tranquilidade, a razão de seu respeito, e o senso
comum de sua honra.”

Metternich tinha razão em preocupar-se com o uso que faria Capo d’Istria da única coisa que
conseguiu em Troppau: o direito de redigir a minuta do acordo. Pois embora Metternich tivesse
privado os princípios de Capo d’Istria de todo o significado, sua simples enunciação poderia romper
o fio tênue pelo qual a Grã-Bretanha ainda se ligava à aliança. Não havia limite ou restrição que
pudesse conseguir a aprovação britânica de um direito generalizado de interferência, e a França
seguiria o exemplo britânico. Por esse motivo, Metternich mantivera os representantes das
potências ocidentais na completa ignorância de suas negociações. Encorajara Stewart a ausentar-se
duas vezes para ir a Viena visitar sua jovem esposa, que estava grávida, assegurando-lhe que não se
tomariam decisões sem sua presença. E a representação dividida reduziu a França à impotência.
Quando La Ferronay protestou contra as propostas austríacas de 23 de outubro, Metternich
perguntou-lhe sarcasticamente se estava expressando sua própria opinião, a de ambos os
representantes da França ou a da França. Mas o Czar ficou furioso com o que interpretou como
nova demonstração do fraco francês pelas revoluções, e ameaçou manter a França debaixo de
vigilância militar.
Em 19 de novembro, os representantes ocidentais encontraram-se repentinamente diante de um
fato consumado. Stewart, de nada suspeitando, recém-chegado de Viena, foi convidado a uma
sessão plenária onde encontrou um documento já assinado, o Protocole Preliminaire, que continha o
plano de acomodação de Metternich. De nada adiantou que Stewart protestasse violentamente, e
que tanto ele como seus colegas franceses se recusassem a assinar. Metternich havia isolado Capo
d’Istria e comprometido o Czar antes que ficasse evidente a ruptura da aliança. Durante as
negociações, sua opção britânica continuara servindo de instrumento de barganha, e com o direito
de intervenção assegurado e o Czar sob seu domínio, já podia enfrentar "as consequências de sua
duplicidade. E tão pronunciada era a dominação pessoal de Metternich que ainda assim, tendo sido
completamente enganado, Stewart ainda buscava escusas para ele: “ (...) O caso todo parece
incompreensível, pelo menos foi um processo indelicado. (...) [Mas a Áustria], receando uma
mudança de governo na Grã-Bretanha e a mudança de propósitos da Rússia, recorre a um concerto
íntimo entre as três grandes potências monarquistas. (...) Quanto ao Príncipe Metternich, por mais
que me possa sentir temporariamente ferido (...) isso não terá qualquer efeito sobre nossos hábitos
de confiança, e nem por um instante enfraquecerá nossa amizade.”

Mas Castlereagh não seria descartado tão facilmente quanto seu irmão. Conhecia bem demais a
mentalidade do Czar para esperar que Metternich houvesse atingido seus objetivos sem algumas
concessões indefensáveis no Parlamento. Vendo seu tão acalentado sistema de conferência em uso
para fins que jamais julgara possíveis, foi-se tomando de ira: “Nunca lamentei como agora”, disse ao
embaixador russo, “não poder estar com o Imperador e submeter-lhe minhas idéias. (...) O
Imperador sempre repetiu, em todas as ocasiões, sua inabalável determinação de não contrair
novos compromissos, de não criar novos laços além dos já existentes, de não buscar novas garantias
fora da Aliança Geral. Essa determinação constitui, na verdade, a âncora da Europa. Por que mudar
agora?” Um despacho a Stewart, de 16 de dezembro, reiterava a posição britânica: Expulsar
Estados da aliança e reformar suas instituições pela força, era contrário ao Direito Internacional e
aos tratados existentes. Além disso, se os aliados pretendiam aplicar a si próprios esta doutrina, o
Act of Settlement impediria a participação britânica, e qualquer tentativa de agir doutra maneira
“seria tão revoltante a todas as classes do povo que poderia estremecer o direito de Sua Majestade
ao trono se não fosse expiada pela punição do ministro por quem semelhante conselho se desse”.
Não é dizer, com isso, que a Grã-Bretanha não deplorasse sociedades secretas e revoluções
militares. Mas, embora admitindo o direito de intervir em autodefesa, a Grã-Bretanha “não tomaria
a seu cargo, como membro da aliança, a responsabilidade moral de administrar uma polícia geral
européia”.

Contudo, grandes sonhos não cedem facilmente. Ainda assim, Castlereagh achava difícil que o
conjunto da Europa não pudesse combinar o conceito insular de não-interferência com a política
continental de prevenção. Ainda esperava que paciência e boa vontade pudessem recolocar a
aliança no relacionamento íntimo do tempo da guerra. Seu coração sangrava, disse ele ao
embaixador russo, ao ter que enviar a missiva de 16 de dezembro. Insistiu em que não se opunha
aos objetivos dos aliados, mas à promulgação de um documento oficial. E uma carta particular a
Stewart, acompanhando a mensagem, atestava ainda uma vez a relutância de Castlereagh em
desfazer-se de sua visão de governo europeu: “É singular (...) que tenha ocorrido às três cortes
reformar uma aliança que já se viu adaptar-se com grande facilidade a todas as situações difíceis
que se têm criado para a desacreditada doutrina do direito divino e da obediência passiva. Deviam
ter previsto que a Casa de Hanover não poderia manter os princípios pelos quais a Casa de Stuart
perdera o trono. (...) Cabe agora às três cortes decidir se irão enfrentar os perigos (...) sob
estandartes separados. (...) Podem lutar, no caso, como propomos, sem estabelecerem princípios
controversos. Nós não podemos aderir aos seus princípios, e se desejam ser teoristas, temos que
atuar em separado.”

Mas não adiantou. Castlereagh entendia a verdadeira realização da aliança na inatividade, que
indicaria ausência de agitações políticas. As potências continentais, sobretudo Metternich,
consideravam a aliança uma arma contra o perigo do momento, qualquer que viesse a ser. E uma
vez que, para Metternich, a luta social sobrepunha-se a tudo mais, enquanto Castlereagh recusava-
se a considerá-la problema internacional, Metternich gradualmente afastou-se de sua ligação
inglesa. O protesto de Castlereagh acabou com o Protocole Preliminaire, mas não pôde evitar um
despacho circular aliado de 8 de dezembro, redigido por Capo d’Istria, que no seu estilo
apocalíptico novamente derivava da estrutura de tratados de 1814-15 a justificativa para a
intervenção e, para piorar as coisas, chegava mesmo a insinuar a aprovação britânica. Era,
portanto, iminente a ruptura na aliança. Mas antes que ocorresse, Metternich conseguira organizar
o Continente de tal forma que a ajuda britânica era dispensável, e providenciara para que a culpa
por todas as medidas aliadas coubesse ao Czar. A despeito do gradual afastamento britânico da
aliança, as relações da Grã-Bretanha com a Áustria permaneceram mais chegadas do que com
qualquer outra potência.
IV

O Congresso de Troppau marca o ponto alto da técnica diplomática de Metternich. Não desejando,
ou não podendo, adaptar a Áustria às tendências dominantes do período, deparando-se com a
perspectiva de uma batalha contra o nacionalismo e o liberalismo, conseguiu torná-la numa luta
européia, e não austríaca, evitando, assim, demonstrar a incongruência da estrutura doméstica da
Áustria. Enfrentando o perigo de uma França ressurgente voltar à sua posição italiana por meio de
um pacto familiar e de um apelo ao constitucionalismo, conseguiu isolar a França e reduzi-la à
incapacidade. O papel dos representantes franceses em Troppau não poderia ter sido mais triste.
Aparecendo como o mais conciliatório de todos os plenipotenciários, Metternich os atraiu a uma
armadilha atrás da outra. Quando Caraman adotou a sugestão da mediação francesa de Capo
d’Istria, Metternich obliquamente o encorajou a apresentar a proposta numa sessão plenária,
apenas para abandoná-lo ante o furioso protesto do Czar contra a mediação entre soberanos
legítimos e revolucionários. E quando o confiante francês mostrou a Metternich um despacho
confidencial protestando contra o Protocole Preliminaire e comparando a intervenção em Nápoles
com o jugo imposto à França, Metternich providenciou para que Alexandre fosse informado das
vacilações de seu pretendente aliado. A reação final da França ao Protocole Preliminaire apenas
refletiu impotência: recusou-se a assinar o Protocolo mas aderiu ao convite ao Rei de Nápoles,
conseguindo assim antagonizar a Rússia e a Grã-Bretanha.

Mas contornar a França pouco teria adiantado a Metternich, não houvesse ele conseguido
neutralizar a Rússia. Teve duas escolhas: o isolamento físico da Rússia ou sua dominação moral.
Embora não excluísse a primeira, e mantivesse aberta sua opção britânica até o último momento
justamente por esse motivo, Metternich sabia que ela acabaria por forçar a Áustria a uma política
além de suas possibilidades. Todas as suas artimanhas empregaram-se, então, para conquistar
ascendência sobre o Czar. Foi ajudado pela desilusão de Alexandre com sua experiência polonesa, e
pela crescente religiosidade, mas completou ele mesmo o processo por meio de prolongadas
conversações em Troppau. Foi em Troppau que Metternich preparou sua “profissão de fé” para os
olhos do Czar, com a crítica bem feita ao homem presunçoso e sua chamada à ordem antes da
mudança. Sua referência à influência prejudicial dos teóricos aplicava-se claramente a Capo
d’Istria, bem como à identificação que estabelecia entre a preconização de constituições e a
presunção do revolucionário. Em Troppau, também, o Czar soube do motim de um regimento dos
Guardas Russos, causado pela brutalidade de seu comandante, mas facilmente explicado por
Metternich como um alastramento do vírus revolucionário e uma tentativa de elementos radicais
para intimidar o Czar.

Desta forma, as máximas da Santa Aliança, que tão esperançosamente visualizavam uma nova
ordem de sociedade, tornaram-se meios de restaurar a concepção que Metternich fazia do equilíbrio
social. Quase imperceptivelmente, o fervor moral do Czar foi transformado de força revolucionária
em conservadora, se não reacionária. Se Alexandre tinha um Primeiro-Ministro, ao findar-se a
conferência de Troppau, era Metternich e não Capo d’Istria. Alexandre mostrava quase todos os
seus despachos a Metternich antes de encaminhá-los, e não poderia repetir mais frequentemente o
catálogo de seus erros. As duas cortes prepararam instruções conjuntas a seus embaixadores em
Londres para a contingência da queda do Gabinete Liverpool, que se esperava para qualquer
momento. E Metternich, jamais satisfeito com uma linha simples, narrou isto em confiança a
Stewart, fornecendo assim uma prova tanto de sua sinceridade colmo da dificuldade de sua posição.

Se a Rússia poderia ter rompido o equilíbrio europeu com uma política independente, a Prússia
poderia ter perturbado a balança interna da Alemanha, explorando as dificuldades da Áustria na
Itália. Mas Teplitz e Carlsbad haviam solucionado o problema de uma política externa prussiana
independente. O Rei da Prússia considerava o Congresso de Troppau principalmente uma
oportunidade de obter conselhos de Metternich sobre a estrutura interna da Prússia. Somente
chegou no dia 7 de novembro, mas foi precedido pelo Príncipe Herdeiro, logo enfeitiçado por
Metternich, de quem se tornou grande admirador para o resto da vida. Quando o Rei juntou-se a
seus pares monarcas, Metternich fez bom proveito da oportunidade de expor seus pontos de vista
sobre a administração interna da Prússia, resultando em que o Rei adiou mais uma vez a aprovação
de uma reorganização comunal.

Tão forte era a posição de Metternich que ao findar do Congresso ainda demonstrou sua moderação
aceitando a proposta de Capo d’Istria da mediação pelo Papa entre o Rei de Nápoles e os
revolucionários. Mas enquanto a nota de Capo d’Istria pedia ao Papa que assistisse num ato de
conciliação, Metternich minutou uma carta ao Imperador que mencionava apenas a assistência
espiritual no castigo da revolução. E da mesma maneira como Napoleão poderia ter frustrado os
desígnios de Metternich em 1813 aceitando as bases de Reichenbach; justamente como a Prússia
podia tê-lo contrariado no Congresso de Viena recusando-se à ação conjunta, também os
revolucionários de Nápoles podiam ter dificultado muito o trajeto de Metternich, adotando uma
política de moderação. Mas em cada caso, Metternich jogou na verdade de fatores psicológicos -— e
ganhou sempre. O conflito entre moderados e extremados, em Nápoles, eclodiu com o convite ao
Rei para comparecer ao Congresso de Laibach. O convite não podia ser recusado, mas antes de sua
partida o Rei foi obrigado a jurar outra vez a constituição “espanhola” ultraliberal, atitude que
Alexandre só podia interpretar como provocação direta e que terminou de uma vez por todas com a
luta de Capo d’Istria em prol de uma constituição e da mediação.

A política de Metternich, embora de natureza essencialmente defensiva, havia tomado a única


forma pela qual um Estado consciente de sua fraqueza pode preservar o status quo sem esgotar
seus recursos: a criação de um consenso moral. Enquanto Castlereagh entendia o problema de
conter a agressão como o da reunião de uma força superior, Metternich desejava realizá-lo por um
comprometimento moral que tornasse a agressão impensável. Concepção engenhosa, se não
criadora, esta tentativa de solucionar de um só golpe os problemas da instabilidade de Alexandre e
da inquietação social da Europa, comprometendo o Czar numa cruzada antirrevolucionária,
indispondo-o definitivamente com todos os movimentos que até então encorajara com suas
ambiguidades. De novo, a habilidade diplomática conseguiu o que teria sido impossível pela pressão
física, a culminação de uma campanha decenal de Metternich: No continente da Europa, a
legitimação doméstica da Áustria tornara-se o princípio organizador da ordem internacional. E o
Congresso de Laibach, para o qual rumavam agora o Rei de Nápoles e os monarcas aliados,
simbolizou a nova natureza das relações internacionais. Pois Laibach não foi, como os congressos
anteriores, uma reunião de plenipotenciários, mas o palco donde o ministro austríaco pretendia dar
uma lição moral ao resto da Europa.

* O divórcio do Rei.
15/ O CONGRESSO DE LAIBACH E O
GOVERNO DA EUROPA

No PERÍODO DE 1854 a 1859, o octogenário Metternich escreveu uma série de memorandos ao seu
sucessor, Buol, que, assustado com a vulnerabilidade da posição da Áustria, aspirava a um sistema
de alianças quase sem olhar preço. Em seu estilo sobriamente oracular, Metternich sustentava que
o Império Central não podia se apoiar em ninguém, pois logo descobriria que seus vizinhos nem
desejavam servir de apoio nem eram suficientemente fortes para tanto. Mas tampouco a
neutralidade era possível, eis que a posição central da Áustria a condenava ao envolvimento em
todo conflito, e a neutralidade encorajaria as demais potências a formularem exigências
incompatíveis com a sobrevivência da Áustria. A solução desse dilema estava em apoiar-se sobre a
única vantagem real da Áustria: o fato de não ter intentos egoísticos quanto à Europa, de que todas
as potências do repouso deveriam gravitar inevitavelmente em direção a ela. A Áustria, portanto,
nunca esteve realmente isolada, e um comprometimento às cegas, apenas para obter aliados,
representava enfraquecimento da posição austríaca. A Áustria só se podia comprometer com metas
específicas; sua verdadeira política era definir, não passivamente aceitar, a estruturação moral das
Coalizões, por meio de uma política de não- participação nos primeiros estágios de qualquer
conflito, a fim de vender sua participação pelo único objeto que interessava a esse epítome das
potências do status quo: as condições do repouso. O isolamento, insistia Metternich, não era motivo
de alarma, contanto que seu propósito ficasse bem claro. A chave do sucesso, em diplomacia, era a
liberdade de ação e não as relações formais.

Esta foi a base da diplomacia de Metternich, ao longo de toda sua vida. Liberdade de ação, a
consciência de dispor de mais ampla faixa de opções que qualquer possível antagonista, era
proteção melhor que uma aliança, pois mantinha abertas todas as escolhas para a hora da
necessidade. Mas enquanto uma potência insular tinha assegurada a liberdade de ação por sua
posição geográfica, a liberdade de ação para uma Potência Central necessariamente dependia de
sua posição moral e de um arranjo tal dos compromissos das outras potências que as opções da
Áustria fossem sempre em maior número que as de qualquer rival em potencial. Política que exigia
frieza de nervos, pois visava a demonstrar a indispensabilidade da Áustria pela calma aceitação de
grandes riscos, de isolamento ou de acordos inesperados feitos às expensas da Áustria. Seu sucesso
dependia da avaliação correta da constelação de forças, e sobretudo de que a flexibilidade superior
da Áustria não fosse ilusória. Uma vez que suas realizações só podiam aparecer no último momento,
enquanto os riscos ficavam logo evidentes, era uma política cuja execução exigia a autoconfiança
quase arrogante que caracterizava Metternich. Dependendo de tantos imponderáveis, tornou-se
cada vez mais difícil, à medida em que a posição da Áustria se deteriorou durante o século XIX,
particularmente depois que a Prússia e a Rússia passaram a considerar a Áustria sua maior rival, a
Prússia na Alemanha, e a Rússia nos Balcãs. Como os sucessores de Metternich somente viam os
perigos sem enxergarem a concepção subjacente, substituíram sua manipulação sutil pela vacilação
pânica entre alternativas incompatíveis, o que selou o destino da Áustria.

Enquanto ele foi capaz de controlar os acontecimentos, no entanto, podiam-se discernir duas etapas
quase inevitáveis na diplomacia de Metternich durante uma crise: um período de aparente
hesitação, durante o qual o embasamento moral do esforço comum definia-se tão
imperceptivelmente que chegava como a expressão espontânea de aspirações universais; seguia-se
um ato simbólico que comprometia os aliados da Áustria com uma política de objetivos limitados
através de uma declaração pública. Dessa maneira, às tortuosas negociações da primavera de 1813
seguiu-se o Congresso de Praga, destinado a ilustrar a incompatibilidade entre as reivindicações de
Napoleão e um sistema de equilíbrio; os Decretos de Carlsbad haviam levado à Conferência de
Viena e à demonstração da unidade moral da Alemanha; e o Congresso de Troppau foi seguido do
Congresso de Laibach, este simbolizando a unidade moral da Europa — e, ao longo do processo,
comprometendo irrecorrivelmente o Czar.

O Congresso de Laibach foi, portanto, antes de mais nada, uma expressão do governo europeu que
Metternich criara em Troppau. De nada adiantou a Capo d’Istria apelar para a mediação britânica;
nem à França, que um terceiro plenipotenciário, Blacas, aparecesse para supervisionar seus colegas
e evitar que o Rei de Nápoles se comportasse muito covardemente. Metternich estava no controle
total, em grande parte devido a sua ascendência sobre Alexandre. “Ninguém crê na unanimidade
entre eu próprio e o Imperador [Alexandre], e no entanto ela é verdadeira”, escreveu ele. “A
influência dos últimos quatro meses está frutificando. O Primeiro-Ministro russo está derrotado. O
mais forte arrasta o mais fraco, de acordo com as leis da mecânica, da física e da moralidade.” O
Rei da Prússia nem sequer compareceu, mandando seu Ministro do Exterior, Bernstorff, aliás, quase
um apêndice de Metternich. Stewart, o representante britânico, foi mais uma vez encorajado a
dirigir-se a Viena para visitar sua esposa, só regressando quando as decisões básicas já estavam
tomadas e repetindo, então, a cena de inocência ultrajada de Troppau. A duplicidade do Rei de
Nápoles chegou a tal ponto que Metternich pôde aparecer outra vez como advogado da moderação.
Pois nem bem esse monarca deixara Nápoles para trás já esconjurava seu Parlamento e a
Constituição cuja defesa recém-jurara com a dramática expressão de antes ser atingido por um raio
que violar seu juramento.

Nessas circunstâncias, as decisões foram rapidamente tomadas. Alexandre chegou no dia 8 de


janeiro, e no dia 10 Metternich podia relatar: “Hoje, a menos que a terra se esboroe e o céu desabe
(...) ganhamos a partida. Capo d’Istria se contorce como o diabo em água benta, e ele está na água
benta, sem nada poder fazer.” Metternich fez surgir outro membro de seu “harém”, Ruffo, o
embaixador napolitano em Viena, e designou-o porta-voz de Nápoles, enquanto o Ministro do
Exterior constitucional, Gallo, que viera acompanhando o Rei, era obrigado a esperar em Gorz, a
curta distância. No dia 13 de janeiro, houve uma cena que bem podia ser tirada da ópera bitffe, que
tanto deliciava Metternich em Laibach. Ruffo fez sua aparição ante uma sessão plenária do
Congresso e leu um discurso preparado por Gentz e Metternich, no qual o Rei de Nápoles solicitava
aos aliados que o investissem no papel de conciliador, segundo “os preceitos de justiça, sabedoria e
magnanimidade”. Metternich respondeu, com igual ressonância, que os aliados teriam grande
prazer em “ajudar Sua Majestade a dar mais um motivo à afeição de seu povo”. Infelizmente,
porém, fora decidido em Troppau “não se reconhecer qualquer sublevação levada a efeito por
métodos criminosos e que pudesse perturbar a paz do mundo de um momento para outro”. Face a
tal intransigência, que devia fazer um monarca constitucional? O supremo sacrifício, respondeu
Metternich pela voz de Ruffo, e abrir mão da constituição sobre a qual recusavam-se os aliados a
negociar. Ruffo viera preparado com uma carta ao povo napolitano, em que o Rei informava seus
súditos sobre a violação de seu juramento “com perfeita tranquilidade perante Deus e a minha
consciência”, como meio de poupar-lhes os horrores da guerra. Não fosse, porém, haver alguma
oposição a essa mostra de magnanimidade, pois outra missiva confidencial anexa anunciava a
chegada de um exército austríaco de ocupação como “garantia” do cumprimento da vontade da
Europa.

Quando Stewart retornou a Laibach, terminara o primeiro ato da comédia, e ele foi encontrar
Metternich atarefado na preparação do roteiro do segundo, no qual o Duque de Gallo deveria ser
notificado da decisão dos aliados na presença dos representantes das demais cortes italianas. De
novo, Stewart encontrava os aliados a preparar uma declaração na negociação da qual não tivera
qualquer participação e mais uma vez foi simplesmente convidado a concordar. Ainda esta vez ele
sacudiu os ares com protestos contra o abuso de confiança, porém não conseguiu mais que a
permissão para registrar em ata que “a despeito da presença do representante britânico (...) não
tem sido ele autorizado a tomar parte no Procès Verbal das Conferências.” E mesmo esta concessão
logo se mostrou sem valor. Quando Stewart chegou, no dia 30 de janeiro, à cerimônia solene na qual
a Europa em Congresso devia anunciar sua resolução ao Ministro do Exterior de Nápoles, descobriu
que Metternich havia apresentado uma declaração inteiramente nova que realçava a solidariedade
dos aliados e omitia por completo as reservas de Stewart. Embora os delegados já estivessem
chegando, a indignação de Stewart não conheceu limites. Finalmente persuadiram-no a aceitar a
nova declaração e Metternich concordou em ler seu protesto no final. O Duque de Gallo agora é
chamado à presença do Congresso, onde Metternich, com pomposa dignidade, que contrastava com
as ásperas práticas que a precederam, informou-o das decisões aliadas, de tal forma que
praticamente cancelava as restrições de Stewart. Mas o dénouement foi um anticlímax, indigno da
aparatosa assembléia que se montara. Em lugar de um furioso protesto ou digna reafirmação de
seus princípios, o ministro da Revolução ouviu a severa leitura de Metternich com um benevolente
assentir de cabeça que exprimia sua concordância. Agradeceu os esforços de Metternich e
prometeu apoiá-los com o melhor de sua capacidade tão logo voltasse a Nápoles. A revolução em
Nápoles, que causara dois congressos europeus e mantivera as chancelarias da Europa em
torvelinho durante um ano, passou, na derrota, um atestado de sua inutilidade que todo o manejo
teatral de Metternich não conseguira demonstrar em sete meses de entretecida diplomacia.

Somente agora, quando a Áustria pôde atuar como agente da Europa, e mais de um ano e meio após
o início da Revolução, um exército austríaco cruzava o Pó. Todavia ainda mais importante do que
chegar a intervir em Nápoles com a sanção da Europa, era a influência de Metternich sobre o Czar,
que fez um diplomata britânico dizer em relatório que Metternich não poderia agir com maior
confiança se a Rússia fosse uma província austríaca. Pois a despeito de seus protestos de eterna
amizade austro-russa, que se sucediam com efusiva eloquência, Metternich, numa conversação com
Stewart, não deixou dúvidas sobre quem considerava seu real adversário: “Disse-me ele”, relatou
Stewart, “que por fim conseguiu comprometer o Imperador da Rússia aos olhos de todos os
Liberaux, não só da Itália, mas da Europa inteira.” A sequela destas conferências mostraria que ele
não se enganara em nenhum dos seus cálculos e havia conduzido a monarquia austríaca, sob o
maior dos perigos que jamais a ameaçaram, a um triunfo seguro e honrosa.

II

Antes, porém, que tais consequências positivas pudessem chegar, a Grã-Bretanha tinha de fazer-se
ouvir mais uma vez. Stewart desempenhara em Laibach o mesmo papel quase ridículo de Troppau.
Mas com a proximidade de uma sessão parlamentar, e a Oposição invectivando a interferência
externa em países independentes, Castlereagh não se podia dar por satisfeito com os ineficazes
protestos de Stewart. O resultado foi o despacho circular de 19 de janeiro, ostensivamente em
resposta à declaração aliada de Troppau, de 8 de dezembro, e que uma vez mais resumia a posição
britânica. Em seu tom de estudada moderação, na repetição pretensiosa de todos os argumentos
que se haviam mostrado inservíveis no ano anterior, a nota denotava ter sido escrita para leitura no
Parlamento, e que Castlereagh desejava nada menos que produzir uma ruptura da aliança. Todos os
argumentos da política insular repetiam-se; um direito de intervenção geral contrariava a lei
fundamental da Grã-Bretanha; mas ainda que tal objeção não existisse, a Grã-Bretanha não podia
participar de uma obrigação daquelas, porque nas mãos de “monarcas menos bondosos” poderia
levar à tirania universal. A interferência não era rejeitada como princípio, aliás o gabinete britânico
muitas vezes admitira sua necessidade na autodefesa. Mas não podia absolutamente fundamentar-
se num direito generalizado, e por certo, de forma alguma, numa interpretação dos tratados de
1815, que a Grã-Bretanha coerentemente havia rejeitado. A interferência era uma exceção, nunca
uma regra da conduta internacional.

E mesmo esse despacho, que nada continha de novo, findava com uma nota indicativa de que a
aliança da Europa era a única política exterior de Castlereagh. Concluía afirmando que a Grã-
Bretanha “rendia tributos à pureza de intenções das potências do Leste”, e que as “diferenças de
sentimento” não podiam afetar “a cordialidade e a harmonia da aliança em qualquer outro assunto,
nem abater o zelo comum em dar o mais completo efeito a todos os seus compromissos cm vigor”.
Trágica falta de sensibilidade de Castlereagh, pois recusava-se a reconhecer que a ação em comum
não mais era possível, não por culpa de quem quer que fosse, mas porque se haviam tomado
incompatíveis as concepções insulares e continentais de perigo. Castlereagh, entretanto, não podia
admiti-lo sem negar-se a si mesmo. Para ele, os desacordos não eram inerentes ao esforço de
montagem de um sistema de segurança coletiva, provinham de seu abuso; nem à natureza da
aliança, mas à tentativa de imprimir-lhe uma direção para a qual não fora preparada. Via então sua
tarefa numa justificativa da aliança e não no anúncio de sua ruptura, e uma carta de
encaminhamento da nota circular deixava transparecer a reserva interna com que esta fora escrita:
“Os senhores evitarão qualquer comentário,” dizia, “que possa dar lugar à suspeita de que as
maneiras diferentes como os governos aliados entenderam a questão venham a produzir qualquer
esmorecimento na cordialidade de sua união que, no respeitante a todos os pontos realmente
abrangidos pelo tratado, os senhores deverão ter e declarar como subsistente, em total harmonia e
vigor.” Não sem razão, o embaixador austríaco em Londres escreveu a Metternich: “Castlereagh
está como o grande apreciador de música na igreja; quer aplaudir, mas não ousa.”

Nada mais natural, portanto, que o último discurso de política exterior de Castlereagh perante a
Câmara dos Comuns fosse uma enérgica defesa da aliança, cujos erros admitia, ressaltando sua
duradoura eficácia. Pintou um quadro da atividade dos carbonários que nem Metternich teria sido
capaz de aperfeiçoar. E defendeu as razões da Áustria, cuja pureza, argumentou ele, fora
suficientemente demonstrada pela sua capacidade de obter aprovação da Europa reunida em
Congresso. O problema, portanto, não era o fato da intervenção austríaca, mas sua justificativa.
Apesar disso, essa diferença não exigia uma ruptura da aliança, muito menos uma política de
isolamento. A aliança continuava com toda validade: “Com relação à Aliança dos Soberanos
Continentais, de que se tanto tem falado, não tenho a menor intenção de recuar de sua defesa. Não
é de surpreender que os cavalheiros da oposição sintam-se um tanto amargos em relação a uma
aliança que tem desapontado seus tristes presságios. Talvez seja demais esperar da natureza
humana que contemple com paciência (...) aquilo que, enquanto existir, será um monumento à sua
estupidez. Esta aliança, que espero continue por muito tempo a cimentar a paz da Europa,
comprovou (...) o absurdo daquelas profecias a que se permitiram os honoráveis cavalheiros da
oposição, e os esquemas de política que recomendaram.”
Tinha-se aqui, nas frases pesadas do costume, proferidas com a usual calma glacial, uma visão da
unidade européia condenada ao fracasso, porque permaneceu incompreensível ao público britânico,
para quem uma aliança destinada a cimentar a paz constituía uma contradição de termos. Alianças
tinham objetivos específicos e eram dirigidas contra alguém. Na ausência de um perigo supremo,
uma política em comum com o Continente simplesmente não se podia legitimar em casa. A visão de
Castlereagh, da unidade européia atingida pela boa-fé, do governo da Europa através do simples
fato da harmonia dos aliados, era miragem que fadava seu defensor à destruição, e não menos
trágica por aparecer sob o disfarce do sóbrio pedantismo.

III

Entrementes, enquanto o exército austríaco avançava para o sul, Metternich insistia em que se
consumasse a comédia, e a plateia não fosse liberada até que se retirasse toda moral possível.
Nunca tendo sido homem de dar ao oponente vencido oportunidade de recuperar-se, Metternich
agora voltou-se para a remoção da última escusa que Capo d’Istria poderia ter para interferir: a
promessa de Troppau de dar a Nápoles instituições orgânicas que lhe assegurassem o repouso. E
assim como em Carlsbad Metternich havia acalmado as exaltadas potências germânicas, agora, em
Laibach, ele amainou a insistência do pusilânime Rei de Nápoles na sua reinstalação como soberano
absoluto. Em prolongadas negociações, Metternich persuadiu-o a aceitar uma “minuta de Lei
Fundamental para o Reino de Nápoles”, que foi submetida confidencialmente ao Czar, e aprovada.
Era um espelho acabado dos preceitos governamentais de Metternich: embora previsse uma
administração descentralizada, reforçava a autoridade do monarca, só limitada por um Conselho de
Estado com funções exclusivamente de recomendação e uma Consulta, assembléia de
representações dos Estados-classe, em Nápoles e na Sicília. Capo d’Istria apelou inutilmente ao
Czar para salvar ainda que fosse uma pequena parte de instituições representativas. O princípio
legitimante da ordem européia investia um governante “legítimo”, mesmo sendo uma figura
burlesca como o Rei de Nápoles, de um character indelibilis e não havia como apelar de suas
decisões. De qualquer maneira, Metternich agora era suficientemente forte para ultrapassar Capo
d’Istria e induzir Alexandre a silenciar seu Primeiro-Ministro. “A distância entre Capo d’Istria e o
Imperador torna-se cada vez maior,” relatou Metternich. “[Mas] o Imperador é o mais forte, por
motivos óbvios.”

Na verdade, o maior problema de Metternich agora era conter um pouco a exuberância do Czar.
“Estamos engajados num combate contra o reino de Satanás”, escreveu Alexandre, provando que
estudara bem a “profissão de fé” de Metternich. “Embaixadores não bastam para essa tarefa.
Somente aqueles que o Senhor colocou à frente de seus povos podem, se Ele lhes prodigar Suas
bênçãos, sobreviver à luta (...) com essa força diabólica.” Desde que os Gabinetes se haviam
combinado sobre a base das máximas da Santa Aliança, escreveu ele noutra ocasião, todos os
inimigos da Cristandade, todos os revolucionários, carbonários e igualitários radicais haviam jurado
vingança. Com semelhante disposição não foi difícil chegar à idéia de uma cruzada, não, é claro,
para reformar a humanidade, mas para derrotar a revolução; não para iniciar uma nova era, mas
para restaurar a tranquilidade. “Acha o senhor,” disse o Czar ao representante francês, “que o único
propósito deste encontro seja a punição de alguns carbonários? (...) Nápoles, arrastada pelo
exemplo da Espanha, devia, por sua vez, servir-lhe de exemplo. (...) Se criamos uma ordem justa em
Nápoles, talvez chegue o momento em que a França cumpra com relação à Espanha o papel que a
Áustria desempenhou em Nápoles.”

Mas Metternich não tinha intenção de permitir que a França tirasse proveito de suas laboriosas
negociações. E sabia que, na Espanha, a Grã-Bretanha não se limitaria a benevolentes protestos.
Uma intervenção aliada na Península Ibérica não resultaria apenas em discussões essencialmente
acadêmicas sobre a legitimidade de uma atitude, com a substância da qual a Grã-Bretanha
prontamente concordava; levaria a uma aberta, final e irrevogável ruptura com a aliança. E muito
embora Metternich estivesse disposto a prosseguir numa política independente, não estava em
condições de empurrar a Grã-Bretanha para a oposição aberta. Bem sabia que justamente sua
opção britânica é que lhe permitia adotar uma política de atrevimento e sangue frio, pela qual
concedia ao Czar o princípio de cada medida enquanto retinha tão completamente o controle da
substância que nenhum objetivo especificamente “russo” era atingido; quer dizer, a amizade de
Castlereagh limitava os riscos de Metternich. Enquanto a linha da Grã-Bretanha estivesse aberta, o
pior que podia suceder era uma contenda puramente política entre a Áustria e a Rússia, o que,
embora prejudicial, podia ser atenuado pela certeza do apoio britânico. Mas se a Grã-Bretanha fosse
levada à completa oposição, a política de Metternich perderia a flexibilidade e ele teria que conter
os riscos incensando os preconceitos do Czar. Metternich cuidou desse problema empregando a
tática de Aix-la-Chapelle, já agora bem experimentada. Convenceu Alexandre de que, em vista das
condições instáveis da França, uma intervenção na Espanha era prematura; mas adoçou a recusa
com a perspectiva de outra oportunidade de demonstrar a solidariedade moral da Europa, propondo
adiar a questão espanhola para outro congresso, a ser convocado para Florença no ano seguinte.
“Meu mérito maior,” escreveu Metternich, “é ter usado da minha influência para evitar que
[Alexandre] se excedesse dos limites do que é bom e correto. Pois o mau começa nas fronteiras do
bom, e tão imperceptivelmente que a inteligência não pode descobrir esse limite sem o auxílio de
um poderoso instrumento chamado tato.” Em 28 de fevereiro, o Congresso fechou formalmente com
um discurso de encerramento de Metternich. No dia 7 de março as tropas austríacas aniquilaram o
exército napolitano em Rieti. A 24 de março, o exército austríaco, que quase não sofrera baixas,
entrou em Nápoles com ramos de oliveira nas baionetas. Nada teria expressado melhor o
significado máximo da política de Metternich de paz como arma, moderação como instrumento,
consenso moral como base.

IV

Porém no mesmo instante em que tropas austríacas avançavam sem oposição para Nápoles, os
plenipotenciários ainda reunidos em Laibach eram surpreendidos pelas notícias de um
acontecimento que parecia dar razão às prédicas do chanceler austríaco sobre a interligação de
todas as revoluções. No dia 12 de março soube-se que outra revolução rebentara no Piemonte,
único Estado italiano fora da influência austríaca, levando à abdicação do Rei. Mas com a
experiência do ano anterior, Metternich cuidou dessa eclosão quase mecanicamente e com a mesma
tática que tão bons resultados dera contra Nápoles e na Alemanha. Não foi necessário convencer
Alexandre da realidade da nova ameaça, aliás, preciso foi conter-lhe a sofreguidão. “Agora
entendo,” exclamou o Czar, “porque Deus me reteve aqui até este momento. Quanto Lhe sou grato
por haver disposto as coisas de forma que eu estivesse em companhia de meus aliados. (...) Se
salvamos a Europa é porque Ele assim o quis.” Noventa mil russos movimentaram-se para constituir
a reserva de um exército austríaco que se aviou rumo à Itália, e para dissuadir a França de qualquer
pretensão de interferência. Nesse meio tempo, o embaixador russo em Turim foi autorizado por
Metternich a empreender a negociação da rendição dos revolucionários ao novo Rei, irmão do
monarca destronado, em troca de anistia — modo certo de levar dissensão ao campo revolucionário.
Em 8 de abril, um exército austríaco derrotou completamente os piemonteses.

Seria de supor que Metternich contava obter aclamação geral na Áustria para uma política que, em
duas campanhas de menos de duas semanas, liquidara duas revoluções e cimentara o predomínio
da Áustria na Itália sem exaurir os recursos morais e materiais do Império. Porém a correção de
uma política só aparece em retrospecto, enquanto os riscos evidenciam-se imediatamente. Tal era
particularmente o caso com relação a uma política como a de Metternich, tecida cuidadosamente,
sempre pronta a conceder na forma, podendo reter na substância. Do ponto de vista de vitórias
esmagadoras, os estadistas da “escola austríaca”, tendo à frente Stadion, antecessor de Metternich,
viam as realizações de Metternich como coisa normal, criticando, entretanto, os riscos por
injustificados. Não percebendo a extensão do perigo, não podiam compreender a natureza do
sucesso. A participação russa na campanha contra o Piemonte parecia-lhes uma perigosa cessão da
soberania austríaca. Aliás, questionavam a própria necessidade da campanha, em vista dos já
pesados encargos financeiros, e acusavam Metternich de ter transformado a Áustria,
desnecessariamente, de satélite britânico em satélite russo. Constitui um tributo à habilidosa
discrição, ao retraimento de Metternich o fato de até mesmo seus colegas terem aceito a aparência
da peça tão cuidadosamente montada em Laibach. Mas era uma irônica volta do destino que
Metternich, no instante de seu maior triunfo, tivesse mais dificuldades com o Gabinete de Viena que
com o Gabinete russo.

Metternich respondeu a Stadion em dois longos despachos datados de 22 de abril, que recordavam
as grandes declarações de política de 1813. Seu tom marcava-se por um aforisma e uma
interrogação: “Tenho coragem, mas não ilusões. (...) Se eu não tivesse o poder de fazer [as tropas
russas] voltar, da mesma forma como as fiz avançar, acha que jamais as teria posto em movimento?”
Esta vaidosa afirmação precedia um sumário das motivações de Metternich. Admitia que não teria
sido necessária tamanha demonstração de força para vencer as revoluções piemontesa e napolitana.
Mas sua preocupação não era com os levantes isolados do Piemonte e de Nápoles. O verdadeiro
perigo estava em outro lugar que não a Itália. “[Julguei] de meu dever liquidar o liberalismo russo e
demonstrar à Europa que os radicais ainda tinham a oposição das duas potências ainda mais livres
em suas ações. (...) Em 1821, somente valem fatos. Todas as promessas e frases do Imperador da
Rússia perderam o valor; o deslocamento de cem mil homens, (...) a despesa de doze milhões com
sua mobilização — isto é um fato. A ordem de alto — é outro fato, não menos importante. Cento e
vinte mil homens colocados junto a nossa fronteira, para só avançar a nosso pedido (...) um terceiro
fato.” E Stadion não devia ter ilusões sobre o que fora alcançado ou sobre a dispensabilidade da
Rússia: “Adveio um imenso bem; mas de pouco efeito além de simplesmente dar-nos a possibilidade
de continuar vivendo. É preciso não nos iludirmos; demos recentemente um passo na direção dessa
possibilidade. (...) O mal atingiu altitudes prodigiosas. (...) Esteja certo de que [em todas as capitais
da Europa] nossos triunfos serão considerados crimes, nossas concepções, erros, nossos pontos de
vista, estupidez criminosa.”

Não poderia haver maior admissão de esterilidade. No ponto alto de seu triunfo, quando a Europa
tinha-o quase como um Primeiro-Ministro e três monarcas não dariam um passo sem ouvi-lo; após
duas esmagadoras vitórias, Metternich não tinha a sensação de poder e glória, mas de fraqueza,
perigo e desastre iminente. Nada deixaria mais evidente a condenação do Império Central que o
pessimismo de seu chanceler no apogeu da carreira. Refratária, a Áustria, a adaptar sua estrutura
doméstica, incapaz de sobreviver com ela num século de nacionalismo, mesmo suas mais bem
sucedidas políticas significavam pouco mais que uma trégua, um debater-se em busca de aliados,
não um trabalho construtivo mas a simples tentativa de desviar de si uma parte do holocausto
inevitável. Por essa razão, a política de Metternich era diplomacia em seu mais puro sentido,
desempenho de virtuose, do tipo essencialmente instrumental, cuja própria técnica apurada
indicava sua inutilidade final, o fato de que o Império Central, que requeria estabilidade acima de
tudo, só podia sobreviver através de um tour de force.

Mas em abril de 1821 houve o tour de force, e embora não significasse uma solução final para o
dilema austríaco, evitara o desastre. Se Metternich tinha pressentimentos, não dava sinal disso ao
mundo exterior. Em sua tarefa de disfarçar a fraqueza do Estado que representava, Metternich
atuara tão bem que não se discutia a liderança da Áustria no Continente, e isso, conforme
Metternich corretamente assinalava, sem alienar-se a Grã-Bretanha. “A Rússia não nos lidera”,
concluía Metternich, “nós é que conduzimos o Imperador Alexandre, e isso por várias razões muito
simples. Ele precisa de conselhos, e perdeu todos os seus conselheiros. Considera Capo d’Istria um
chefe carbonário; desconfia de seu exército, de seus ministros, de sua nobreza, de seu povo. Em tal
situação ninguém lidera. (...) E a Inglaterra está inteiramente ao nosso lado.” Esta era a verdadeira
façanha da política de Metternich, haver liquidado o liberalismo russo e chegado a tal ponto de
domínio da mais perigosa rival da Áustria, sob a aparência de submeter-se a ela.

Em maio, a reunião de potências européias finalmente acabou. Mas antes de permitir ao Czar
expor-se à influência de sua corte, Metternich apresentou outro memorando para manter o Czar no
ponto até a reunião do ano seguinte. Seguia, em seu delineamento, a “profissão de fé” de Troppau,
com sua análise da causa das revoluções e dos perigos da presunção, sua referência à revolução
mascarada na demanda de uma constituição — indisfarçável ataque a Capo d’Istria — e sua
reiterada insistência na ordem antes da mudança. Mas enquanto o memorando de Troppau fora
escrito na eloquência do proselitista, o de Laibach falava com a confiança comedida do mestre
realizado. Apresentava o louvor, não só da Áustria, mas da sociedade do mundo, ao Czar por ter
reconhecido a doença social e também o remédio que estava na unidade da Europa. Alexandre,
acrescentava Metternich, encontraria o prêmio em sua consciência — oblíqua insinuação de que a
ajuda russa na Itália fora um dever e não constituía uma dívida da Áustria. Metternich concluía com
uma lista dos meios pelos quais a Áustria e a Rússia podiam, conjuntamente, impedir que se
espalhasse a enfermidade revolucionária. Incluíam o prosseguimento das mais íntimas relações
entre as duas cortes, instruções conjuntas aos seus embaixadores nas grandes capitais sobre os
assuntos mais importantes, uma conferência de embaixadores em Viena como ponto de contato, e a
aplicação precisa dos princípios de Laibach. O que Metternich queria dizer com esta ambígua
expressão se esclareceria nos meses seguintes.

Um despacho circular de Metternich e uma declaração dos monarcas encerrou o Congresso que,
pelo período de cinco meses, constituíra, efetivamente, o governo da Europa. O despacho circular
mostrava o contraste entre o espírito de justiça, o conservantismo e a moderação dos monarcas
aliados e os tenebrosos intentos dos revolucionários, sequiosos de tudo destruir que se alçasse
acima de uma quimérica igualdade. Frente a essa ameaça, outra escolha não tinham os governos
além de conservar tudo que fosse legalmente estabelecido. Isto não significava evitar as reformas
necessárias, mas apenas que as mudanças tinham de emanar “da decisão livre, da iluminada visão
daqueles a quem Deus conferira a responsabilidade (...) para que a sublevação não venha a usurpar
um tal grau de poder que se torne em flagelo geral.” E isto se declarava não como a opinião do
ministro austríaco, nem sequer dos monarcas congregados, mas a título de “verdade eterna”.

V
Faz parte da natureza das políticas vitoriosas que a posteridade esqueça o quão facilmente tudo
poderia ocorrer de outra maneira. Um Hitler derrubado em 1936 apareceria como um chefete
revolucionário um tanto ridículo; da mesma forma como a debandada do exército napolitano em
Rieti faz seu esforço parecer patético ao invés de perigoso. Mas se todas as revoluções de 1819-
1820 houvessem ocorrido simultaneamente, não há dúvida de que o Império Austríaco teria
desmoronado um século antes de seu desaparecimento final. Em vez disso, Metternich conseguiu
pacificar a Alemanha usando como escudo a doutrina britânica de não-interferência. E quando o
dogmatismo de Capo d’Istria e a fraqueza do Gabinete Liverpool tornaram esta linha arriscada para
o caso de Nápoles, ele sobrepujou o ministro russo ao assumir um completo domínio pessoal sobre o
Czar. Derrotou a revolução em Nápoles antes que eclodisse no Piemonte. E já pacificara o Piemonte
quando a aliança atravessou seu teste mais rigoroso com as revoluções nos Principados do Danúbio
e na Grécia — tudo isto como agente da Europa e sem desgastar os recursos morais e materiais de
seu Império. Permanecera firme ante os protestos de Castlereagh ao mesmo tempo em que
moderava o zelo ardente do Czar em efetuar uma cruzada contra a Espanha. E, resistira às críticas
da estreita “escola austríaca” de diplomatas. * Acontecera, então, que o governo da Europa tornou-
se realidade, ainda que por um instante fugaz e por uma causa estéril. Simbolicamente, no dia 5 de
maio, uma semana antes de encerrar-se o Congresso de Laibach, Napoleão morria em S. Helena. A
unificação política do Continente, que ele fora incapaz de alcançar pela conquista, acontecera pela
submissão voluntária a um princípio legitimante.

No processo de conformar a Europa à versão austríaca de legitimidade, ficara cada vez mais
evidente a incompatibilidade entre as concepções continental e insular de política externa. Com
toda sua grande simpatia pelos objetivos de Metternich, as realidades da cena doméstica britânica
forçavam Castlereagh a um isolamento cada vez maior. Quando o embaixador austríaco insinuou
que sua crescente reserva era causada pelas dificuldades do Gabinete Liverpool, Castlereagh
retrucou irritado: “Continuam frivolamente a atribuir a linha que adotamos e temos que adotar
permanentemente, às dificuldades temporárias em que se encontra o Governo, em vez de imputá-las
àqueles princípios que em nosso sistema devem ser imutáveis e que, se as três cortes perseveram
por mais tempo na proclamação aberta [grifo meu] de suas doutrinas Ultras, dentro em breve
fatalmente provocarão uma separação que é desejo de todos nós evitar.” Desta maneira começou a
surgir o esboço da configuração que a posteridade identificou com todo o período pós-Viena; as três
potências de Leste assumindo o direito de policiar a Europa, não contra o levante político mas
contra a convulsão social; enfrentando uma Grã-Bretanha cada vez mais hostil, seguindo uma
política externa independente, e a França no meio, com suas titubeantes medidas de expediente.

Mas depois de Laibach isto foi um pouco retardado, não só pela relutância de Castlereagh em abrir
mão de seu ideal da diplomacia de conferência, mas também devido a um acontecimento que por
certo tempo pareceu demonstrar que toda a disputa entre Castlereagh e Metternich era um simples
mal-entendido de palavras. É que os levantes nos Principados do Danúbio e na Grécia subitamente
colocaram para Metternich e Castlereagh o perigo da expansão da influência política russa na
direção do Mediterrâneo. E à medida em que Castlereagh observava a habilidosa utilização da base
de Laibach por Metternich, veio a compreender que uma doutrina de intervenção comum pode
constituir instrumento mais útil para impedir a ação do que a própria doutrina de não-interferência.
Não foi por menos que Metternich insistiu, no seu memorando final ao Czar, em instruções
conjuntas para medidas importantes e na aplicação precisa de seus princípios comuns. A notícia da
rebelião nos Principados do Danúbio chegara a Laibach quando o Congresso ainda estava em
sessão; e muito embora o Czar houvesse dado um cheque em branco à Áustria na Itália, Metternich
nem de longe pretendia fazer o mesmo com Alexandre nos Balcãs. A firma que Metternich
representava tinha uma política contrária à assinatura de cheques em branco, inclusive por
entender que a exigência de ação comum manteria a atividade ao nível desejado pelo membro
menos empreendedor da aliança. E o único interesse da Áustria nos Balcãs era de que tudo
permanecesse como estava.

Quanto à política de Castlereagh na crise grega, revelou que a doutrina de não-interferência não
refletia uma moralidade superior, nem mesmo, em seu todo, uma diferença de estruturas internas,
mas principalmente a consciência de segurança que advinha de uma posição insular. Pois na Grécia,
onde os interesses austríacos e britânicos estavam mais ou menos igualmente envolvidos — onde,
em outras palavras, a Grã-Bretanha sentia-se tão vulnerável quanto a Áustria — evidenciou-se, de
súbito, que a potência insular também podia apelar para a aliança e, por implicação, mesmo para a
Santa Aliança. Neste caso, até Castlereagh, surpreendentemente, saiu-se com uma doutrina da
perversidade da revolução e do perigo de uma conspiração internacional, não menos eloquente,
ainda que mais pesada, que a de Metternich. Quando se tratou, de novo, de frustrar o Czar, o velho
conluio de Metternich e Castlereagh se restabeleceu com força total, e era estranho lerem-se os
protestos de amizade de um Castlereagh ansioso por desapoiar o Czar, só excedidos no fervor pelos
de Metternich, que contava com a vantagem de um ano de experiência.


* “Estou de volta à minha boa cidade”, escreveu ironicamente após seu retorno a Viena. “É claro
que todo mundo sabia de tudo e predissera com exatidão o tempo todo. Ninguém admite que os
acontecimentos pudessem ter tomado outro rumo; tendo sido a totalidade dos acontecimentos tão
evidente e simples. (...) Tudo decorreu tão facilmente, bem como todos sempre quiseram. (...)
Depois de um sucesso, a discussão é impossível.”
16/ A INSURREIÇÃO GREGA

“SINTO-ME como se estivesse no centro de uma teia”, escreveu Metternich no início do verão de
1821, “como minhas amigas, as aranhas, que hoje aprecio depois de tantas vezes admirá-las. (...)
Assestei meus recursos morais em todas as direções (...) mas esse estado de coisas obriga a pobre
aranha a permanecer no centro de sua delicada teia. Essas teias são belas de se olhar,
artisticamente tecidas e capazes de resistir a leves ataques; mas não a um golpe de vento.” Este
aforismo ironicamente fantasista reflete a essência do “sistema Metternich”; a política de
emaranhar o adversário em seus próprios movimentos, de segurá-lo com cadeias invisíveis, na
dependência do mito de que as “regras do jogo” impediam o adversário de varrer a teia num
momento de impaciência. Metternich alcançara extraordinários sucessos com essas táticas. Mas no
preciso momento de seu maior triunfo, quando havia pacificado a Alemanha e a Itália e a tão
esperada tranquilidade parecia finalmente estar ao alcance da mão, veio o “golpe de vento”, e de
um quadrante totalmente inesperado, dos Balcãs. E embora não haja dilacerado imediatamente a
teia, fez com que sua engenhosa tessitura passasse pela mais severa prova. Ainda antes do
encerramento do Congresso de Laibach chegaram notícias de uma revolta nos Principados do
Danúbio contra os turcos.

A crise nos Balcãs criou problemas morais e materiais totalmente diferentes dos acontecimentos
recentes na Europa Central. Somente a mais ampla das interpretações podia considerar governo
“legítimo” o Império Otomano, a teocracia militante contra a qual a Europa estivera em luta durante
quinhentos anos; tampouco a associação fraterna de monarcas, imbuída das máximas do
Cristianismo, incluía o Sultão, que se recusara a unir-se à Santa Aliança, e cuja participação, de
qualquer maneira, seria uma incongruência. Mas a prevalecer a analogia com acontecimentos
recentes, mais problemas surgiriam. Pois a Rússia, não a Áustria, colheria os frutos de uma
intervenção nos Balcãs. Desde Pedro, o Grande, a Rússia se expandira à custa do Império Otomano,
tradição seguida por Alexandre nos primeiros anos de seu reinado, quando fizera uso da liberdade
de ação que lhe garantira o Tratado de Tilsit para invadir os Principados do Danúbio. Somente a
invasão de Napoleão forçara-o, em 1812, a assinar o Tratado de Bucareste, pelo qual a Rússia
assumia uma espécie de protetorado sobre os Principados do Danúbio. De acordo com seus termos,
os sátrapas turcos, os Hospedares, em Iassy e Bucareste, eram nomeados pela Sublime Porta, mas
aprovados pela Rússia, e provinham dos quadros da nobreza grega. Esta a razão por que a rebelião
“grega” eclodiu inicialmente numa área que mais grega não era que a própria Rússia, e foi liderada
por dois gregos que haviam sido oficiais do exército russo, um dos quais, Ypsilanti, fora dos
favoritos de Alexandre durante sua campanha contra a Turquia. Em fevereiro de 1821, Ypsilanti
proclamou audaciosamente que uma grande potência estava pronta a apoiá-lo, e apelou ao Czar em
nome do Cristianismo: “Salvai-nos, Majestade, salvai nossa religião de seus perseguidores, devolvei-
nos templos e altares dos quais a luz divina se irradiou para a grande nação que governais.”

Que responderia o fundador da Santa Aliança? Não se tratava de uma revolução originária da classe
média para ganhar liberdade política, mas um movimento nacional de base religiosa contra uma
potência com a qual, ainda naquele momento, estava negociando o embaixador russo em
Constantinopla, a respeito de violações repetidas e cínicas do Tratado de Bucareste. A Turquia
também não era parte do edifício de tratados de 1814-15; não estava, assim, protegida pela
interpretação russa da aliança. Além disso, Capo d’Istria, na ânsia de realizar seu ideal de
independência helênica, tomara conhecimento dos planos de Ypsilanti e secretamente o encorajara
a contar com apoio russo. As cartas de Ypsilanti chegaram a Laibach no dia 17 de março, apenas
três dias depois das notícias da revolução no Piemonte. Teria, então, a Rússia nos Balcãs o papel
que se reservara a Áustria na Itália? Seria este o resultado final das cuidadosas manipulações de
Metternich, ter criado uma doutrina que permitiria a Alexandre realizar os sonhos de Pedro, o
Grande?

Metternich, no entanto, não estava disposto a sacrificar sua concepção dos requisitos do repouso a
uma aplicação doutrinária de analogias formais. Já em 1808 ele havia declarado a preservação do
Império Otomano de fundamental interesse para a Áustria, pela razão característica de que
assegurava a tranquilidade das fronteiras meridionais da Áustria, ao passo que qualquer mudança
nessa situação somente podia trazer consigo prolongada confusão. Não podia admitir, agora, que
Alexandre alcançasse, sob a égide austríaca, o que lhe fugira como resultado de seu entendimento
com Napoleão em Tilsit. Mas de impedir uma incursão russa na Turquia era mais fácil falar do que
tratar. O grosso do poderio da Áustria encontrava-se na Itália, e era, afinal de contas, inconcebível
que a Áustria fizesse a guerra com justamente a potência que recentemente lhe colocara às ordens
cem mil homens.

Assim foi que a última polêmica entre Alexandre e Metternich veio a ocorrer num plano que o Czar
chegara a considerar seu, privativo, o das teses morais absolutas. Pois Metternich dispôs-se a
provar que Alexandre, embora senhor de suas ações, não era dono de sua vontade; que os mesmos
preceitos que haviam fornecido o princípio para a intervenção na Itália podiam gerar uma doutrina
de não-intervenção nos Balcãs. Sincera que fosse, a elevação religiosa de Alexandre tornara-se para
Metternich um “fato” político, de cuja correta exploração dependia a sobrevivência. Daí, Metternich
passou a tratar com Alexandre admitindo sua pretensão moral, mas reservando o direito de
interpretar sua aplicação em casos concretos. Entrou a provar que a analogia entre os Balcãs e a
Itália era uma ilusão, nutrida por cavilosos revolucionários para inverter a onda que subia tão
pronunciadamente contra eles: “Esta explosão é, sem dúvida, resultado de um plano cuidadoso”,
dizia um memorando apresentado por Metternich a Alexandre, “voltado contra o poder mais terrível
para esses conspiradores: a união dos dois monarcas num sistema conservador. (...) Isto é um
archote jogado entre a Áustria e a Rússia, (...) e criando a discórdia entre o mais poderoso monarca
da fé greco-ortodoxa e seu povo (...) forçá-lo a retrair do Ocidente e mantê-lo inteiramente
empenhado no Leste.” Em resumo, a mesma aliança que permitira a Metternich agir na Itália devia
usar-se para impedir a atuação russa nos Balcãs. Pelo privilégio de ajudar a Áustria a Oeste, pedia-
se a Alexandre que invertesse um século de política russa no Oriente. A amizade forneceria os
grilhões que a força não poderia impor.

Os resultados não tardaram. Alexandre disse a Metternich que “a revolução nos Ducados danúbios
não passava de nova conflagração engendrada na esperança de frustrar a aplicação dos princípios
cristãos proclamados pela Santa Aliança.” Ypsilanti foi desligado do exército russo; seu
companheiro Wladimerescu, perdeu suas condecorações russas. E Capo d’Istria, cuja única real
paixão era a independência da Grécia, recebeu ordens de mandar uma resposta a Ypsilanti com um
sermão de que a liberdade não podia ser conquistada a conspirações e aconselhando-o a
arrepender-se e desistir de seu intento. Nessas condições, não foi difícil aos turcos abafar a revolta.
Ypsilanti fugiu para a Hungria, onde sumiu numa prisão por seis anos.

O Congresso de Laibach liquidara, então, três revoluções, duas por uma doutrina de intervenção e a
terceira por uma doutrina de não-intervenção; e ambas as doutrinas legitimadas como aplicações
das máximas da Santa Aliança. Mas Metternich nada queria deixar ao acaso. Uma semana antes de
separarem-se, obteve de Alexandre a promessa de não tomar quaisquer medidas nos Balcãs sem
seus aliados. E seu memorando final declarava que a cooperação austro-russa e as instruções
combinadas a seus embaixadores constituíam o alicerce da tranquilidade européia. Metternich
conseguira evitar que o golpe de vento lhe estraçalhasse a teia. Mas o problema turco não seria
solucionado tão facilmente, nem por Metternich apenas. Pois a revolta gorada nos Ducados do
Danúbio deu o sinal para os gregos “de verdade”, na Moréia, proclamarem seu direito à
independência. Em menos de três meses, os turcos foram expulsos da Península, e a questão
oriental tomou-se o problema central da diplomacia européia.

II

O Império Otomano havia muito deixara de ser o poderoso Estado que ainda no século XVII
mantivera a Europa Central em estado de terror. Estendendo-se por três continentes, representava
uma estranha mescla de ditadura militar e relações feudais, seus componentes governados por
sátrapas, em vários estágios de independência do Sultão em Constantinopla. Mas se o Bei de Túnis,
o Emir do Egito, o Pachá da Moréia e os Hospodares dos Principados do Danúbio gozavam de
diferentes graus de autoridade, estavam todos sujeitos aos traiçoeiros ataques com os quais o
Governo Central tentava ocultar sua progressiva fraqueza e reafirmar supremacia. Entre os
vassalos europeus do Sultão, os gregos detinham uma posição favorecida, dominando cultural,
econômica e administrativamente a península balcânica. A marinha turca era em grande parte
guarnecida por marujos gregos. A universidade de Iassy tinha um forte caráter grego, e os
hospodares dos Principados do Danúbio provinham em geral da nobreza helênica. A rebelião grega
era, portanto, um ataque mortal à própria estrutura do Império Otomano. Vitoriosa a revolta, e com
a perda do controle do Egeu, como poderia a Porta conservar suas províncias mais distantes? Não
surpreende, portanto, que a reação dos turcos à perda da Moréia fosse de desespero, e que se
tornasse em verdadeiro delírio ante o apelo dos gregos a seus irmãos religionários. O antigo espírito
de fanatismo religioso voltou, causando um massacre de gregos na capital turca. No domingo de
Páscoa de 1821, o Patriarca grego de Constantinopla, e vários bispos, foram enforcados na porta de
sua catedral.

Era um desafio direto à Rússia, tradicional protetora da fé ortodoxa grega duplamente provocador
para um monarca com a mania religiosa de Alexandre e já rancoroso devido às narrações de
brutalidades turcas na repressão da revolta dos Principados do Danúbio. Além disso, Alexandre
agora estava longe da influência de Metternich, e exposto à interpretação de Capo d’Istria de seu
dever moral, ainda mais persuasiva porque apoiada de duas direções inesperadas. Em junho, um
memorando de Ancillon, o tutor do Príncipe Herdeiro prussiano, negava que o Império Otomano
fosse um governo “legítimo” e propunha que se designasse a Rússia agente da Santa Aliança na
restauração da ordem. E sua proposta foi secundada por uma voz do passado. A Baronesa
Kruedener, que havia muito caíra em desgraça, ressurgiu com a visão de uma nova cruzada, e
escreveu a seu ex-discípulo estar certa de que ele celebraria a Missa de Natal em Jerusalém. “É
preciso alma forte para resistir à influência do ambiente, e ainda maior para rompê-la”, escreveu
Metternich. “O Imperador [Alexandre] ainda se mantém na posição, mas está só.”

Sucedeu, portanto, que durante o verão Alexandre retomou sua postura característica de indecisão
fingindo constância e vacilação disfarçada em intransigência. Queria manter a amizade de
Metternich sem expor-se às censuras de seu ministro. Desejava a unidade aliada, mas também
aspirava a aparecer como o salvador da religião ortodoxa grega. As comunicações de Alexandre, por
todo julho, refletiram essa ambiguidade. Embora proclamasse sua fidelidade ao espírito de Laibach,
dirigiu-se ao Imperador austríaco, em 11 de julho, indagando se a Europa podia esperar dele que se
deixasse ficar inativo ante as atrocidades turcas. Embora recriminando o massacre dos homens de
sua fé, ele assegurava a Metternich, em 17 de julho, que só agiria em uníssono com seus aliados.
Mas Metternich, mestre consumado na exploração do termo “unidade”, não tinha a menor dúvida
de que seria quase impossível impor um limite ao herdeiro de Catarina, a Grande, uma vez iniciadas
hostilidades. E os acontecimentos que se divulgavam de Constantinopla faziam a guerra parecer
inevitável.

Todo esse tempo, o embaixador russo na Turquia, Stroganov, estivera negociando com a Porta,
sobre infrações ao Tratado de Bucareste, e também na qualidade auto-atribuída de protetor da
confissão greco-ortodoxa no Império Otomano. Stroganov era um diplomata da velha “escola russa”,
que considerava a Rússia herdeira do Império Bizantino e Constantinopla o objetivo natural da
política russa. Como recebia instruções diretamente de Capo d’Istria, o comportamento de
Stroganov não ajudou muito a melhorar a tensão, enquanto a Porta, por sua vez, tratava o ministro
russo com mais ainda que sua costumeira insolência. Pois se as atitudes de Alexandre pareciam
ambíguas no Ocidente, eram bastante claras para os suspicazes turcos, aos quais a Santa Aliança
era a convocação de uma nova cruzada, e os preceitos benevolentes do Czar subterfúgio para um
golpe de mão nos estreitos. As relações ficaram tão tensas que Stroganov saiu de Constantinopla
para um porto do Mar Negro, de onde, no dia 5 de junho, enviou longo relatório sobre crueldades
turcas.

A resposta de Capo d’Istria foi peremptória. Falava da barbaridade perpetrada contra a religião
cristã e invocava o consenso da Europa em favor da Rússia. Exigia a reconstrução imediata das
igrejas destruídas, garantias de inviolabilidade de culto, distinção entre inocentes e culpados e
segurança de uma existência pacífica para quem não houvesse participado da revolução. Uma
recusa provaria que o Império Otomano não era digno de associar-se com Estados cristãos, e a
Rússia, ao lado do restante da Cristandade, protegeria seus correligionários. Exigia-se uma resposta
da Porta para dentro de oito dias. Conforme Capo d’Istria certamente esperava, o frenético Sultão
não se dignou sequer a considerar um ultimato, e somente a intercessão do embaixador britânico,
Lord Strangford, salvou Stroganov de morrer nas mãos dos enfurecidos turcos. Quando o
embaixador tomou um navio para Odessa, em 10 de agosto, uma declaração de guerra parecia ser o
inevitável passo seguinte.

Mas Metternich não se deixava empolgar. Sabia que Alexandre buscava conquistas morais, não
políticas, e que, portanto, laços filosóficos podiam mais que contrabalançar relações políticas. Era
uma vez mais a mesma pugna de Laibach, e, como naquela ocasião, converteu-se numa exegese das
máximas da Santa Aliança. Capo d’Istria sustentava que o dever moral do Czar o compelia a uma
política ativa no Leste. Metternich argumentava que o apelo à religião do Czar era uma prova da
diabólica iniquidade do mal. Mas havendo Alexandre prometido em Laibach não se afastar de seus
aliados, a posição de negociação de Metternich era mais forte do que parecia, a despeito das
tradições da política russa e da intransigência dos turcos. Pois uma aliança só oferece a larga base
moral e material para a ação quando existe uma identidade de vontades. Como Metternich
conseguira dominar Alexandre em 1821, a Áustria reduzira a Rússia a satélite diplomático durante
sua pacificação da Itália. Como Alexandre não conseguiu uma aquiescência similar da Áustria, a
aliança deteve Capo d’Istria em seus projetos gregos. A contenda entre Metternich e Capo d’Istria
resumiu-se, então, em saber se as regras de um princípio legitimante podiam vencer as
reivindicações do interesse nacional.

Toda a impetuosidade de Capo d’Istria não conseguia ocultar o fato de que, nas palavras de
Metternich, “duas facções estão se enfrentando no mundo inteiro: os Capo d’Istrias e os
Metternichs. Como o Czar é um Metternich, seus oponentes serão abandonados à própria sorte”.
Conforme seu brilhante “retrato” do Czar provaria, Metternich entendia o caráter de Alexandre,
cuja indecisão tomava a forma de teimosa persistência em qualquer linha de ação que adotasse, em
geral depois de longa hesitação. Conduzindo a política num estado de exaltação, Alexandre tendia a
acometer decisões inevitáveis com um fanatismo simplista que ele identificava com os ditames da
moralidade. Assim, em 1807, após a derrota de Friedland, seu ódio a Napoleão transformara-se
quase da noite para o dia em admiração entusiástica; do mesmo modo, depois de forçado à guerra
em 1812, persistira numa teimosia que considerava a vindicação moral do incêndio de Moscou;
similarmente, depois de 1815, sua frustração em Viena deu lugar à disposição de misticismo
religioso. Metternich, portanto, desejava acima de tudo impedir uma mudança de linha da Rússia,
por saber que uma vez em guerra Alexandre logo a transformaria em cruzada. “Se um canhão
atirar, Alexandre nos escapará, à testa de seu cortejo [meu grifo] e então não haverá mais limite
para o que ele considerar suas leis divinamente estatuídas.”

Nesse transe, Metternich providenciou para que um verdadeiro dilúvio de relatórios de polícia
desabasse sobre o impressionável Czar, despachando tantos mensageiros que a certa altura não
tinha mais nenhum à disposição em Viena. É todos esses esforços culminavam numa proposição: O
interesse fundamental russo na Europa era suprimir a revolução social, e não vingar as crueldades
do Império Turco, por mais doloroso que isto fosse para Alexandre pessoalmente. O satânico Comitê
Central Revolucionário em Paris estava, de alguma indeterminada maneira, incitando as eclosões na
Moréia a fim de solapar a aliança que o condenava à inutilidade. “O mal que devemos combater”,
respondeu o Imperador Francisco à carta do Czar de 11 de julho, “está localizado na Europa, ao
invés de situar-se na Turquia. (...) Para perder-se qualquer ilusão quanto à natureza real de seus
alvos, basta olhar para esses que hoje se adonam tão entusiasticamente dos chamados interesses
cristãos: (...) São os mesmos que não creem em Deus algum, que não respeitam Suas leis ou as dos
homens. (...) Na unidade das cortes aliadas reside a última esperança de obstar o mal que nos
ameaça.” Este era um apelo ao Czar de Laibach para santificar sua obra pela persistência na
adversidade, para resistir à tentação talhada pela finória habilidade do Comitê Central, que tentara
estabelecer um conflito entre o dever moral de Alexandre e seus mandamentos humanitários. Mas
se em Troppau, e nas primeiras etapas de Laibach, a unidade aliada se invocara para justificar a
ação comum, ela era agora usada para construir uma doutrina de inação. E esta era a situação
quando, inesperadamente, Castlereagh reingressou na aliança como se dela jamais se houvesse
afastado.

Pois a Turquia e o controle dos estreitos não eram um problema remoto, “abstrato”, como a maneira
de reprimir a revolução em Nápoles. Já não se tratava de um caso de segurança insular a
aconselhar uma política de desinteresse satisfeito. A destruição do Império Otomano podia implicar
na perda do controle do Mediterrâneo e, quase certamente, do Oriente Próximo. Lá estava, pela
primeira vez, uma questão que significava ameaça tão grande para a Grã-Bretanha quanto para a
Áustria. E sem mais aquela não se ouviu mais falar na timidez de Metternich e em sua política de
prevenção. Aliás, Castlereagh, se a mencionava, era para criticar Metternich por não estar sendo
suficientemente precavido; na verdade, chegava a suspeitar que ele estivesse em conluio com o
Czar para o desmembramento do Império Otomano. Portanto, recebeu friamente, durante junho, os
rogos de Metternich por uma ação conjunta em Constantinopla. Mas no dia 16 de julho, sem
qualquer combinação com Metternich, Castlereagh realizou uma abertura junto ao Czar reveladora
de que, em se tratando de interesses básicos britânicos, Castlereagh também sabia apelar para a
aliança, mesmo em seu mais lato senso interpretativo. Pois o que efluía de sua carta particular para
Alexandre era um raríssimo, em Castlereagh, arroubo de eloquência, recorrendo ao Czar de
Troppau e Laibach, ao guardião da aliança, reinante magnânimo cuja bondade garantiria o repouso
europeu. Esquecidas estavam as censuras do ano anterior sobre a indevida extensão da aliança.
Ignoradas as críticas de poucos meses antes à inútil visão do Czar de um governo europeu. Até
mesmo o princípio de não-interferência nos assuntos internos de outros Estados era violado, pois a
missiva continha um ataque nada velado a Capo d’Istria.

O pretexto de Castlereagh para escrever ao Czar foi um comentário feito por Alexandre ao fim do
Congresso de Aix-la-Chapelle, três anos antes, ao dizer que Castlereagh podia tomar a liberdade de
dirigir-se diretamente a ele no caso de uma crise mais séria. A carta iniciava com uma referência
oblíqua às dificuldades internas do Czar, ligada a uma afirmação da unidade russo-britânica e da
natureza fiscalizadora da aliança, ainda recentemente limitada com tanto empenho. Não hesitara
em escrever a Alexandre, afirmava Castlereagh, “porque tenho a íntima convicção, por mais que
Vossa Majestade Imperial seja instada (...) a considerações locais pelo gênio natural de Vosso povo
[o grifo é meu], de que os pontos de vista de Vossa Majestade sobre os complexos males
corresponderão aos do governo britânico; e tenho não menos confiante esperança de que Vossa
Majestade Imperial, triunfando de todos os embaraços locais [meu grifo] (...) concederá outra, mas
não inesperada, prova da determinação de Vossa Majestade em manter a inviolabilidade do sistema
europeu, conforme consolidado pelos últimos tratados de paz.” Estranho enunciado de doutrina, em
vista do que antes ocorrera. A Turquia devia gozar da proteção de tratados que recusara assinar,
enquanto fora energicamente rejeitada sua aplicabilidade a Nápoles, um dos signatários. Não
menos notável era a interpretação de Castlereagh sobra o verdadeiro ponto em debate na rebelião
grega. Negava que se tratasse de um fenômeno isolado. Antes constituía “uma labareda desse
espírito organizado de insurreição que se está sistematicamente propagando pela Europa, e que
irrompe onde quer que se debilite o punho governante, por qualquer que seja a causa”. Nove meses
eram passados desde que Castlereagh ferreteara os esforços do Czar em combater a revolução
como “um belo fantasma, mas que a Grã-Bretanha, especialmente, se recusa a perseguir”.

Castlereagh não negava que as atrocidades cometidas pelos turcos “faziam estremecer a
humanidade”. Porém, qual Metternich, insistia em que considerações humanitárias eram
secundárias, vindo depois da necessidade de manter-se “a estrutura consagrada” da Europa, que se
desarmonizaria por inteiro ante qualquer inovação radical. Apelava, portanto, a Alexandre para que
“concedesse à posteridade uma brilhante manifestação dos princípios de Vossa Majestade Imperial
(...) exercendo em relação a esse (...) estado semibárbaro aquele grau de magnanimidade único que
poderia inspirar, ante tais provocações, um religioso (...) respeito pelo sistema que Vossa Majestade
Imperial tão decisivamente contribuiu para fazer surgir na Europa”. E a carta concluía com a
asseveração de que os recentes desacordos internos da aliança não passavam de pequenas disputas
sobre objetivos comuns e que a dedicação da Grã-Bretanha ao Czar permanecia inabalável: “Estou
(...) convencido de que cada Estado, (...) apegando-se aos hábitos de ação que lhe são peculiares,
permanecerá, não obstante, inalteravelmente fiel às obrigações fundamentais da aliança, e que o
atual sistema europeu (...) subsistirá por muito tempo, para a segurança e o repouso da Europa.”

À luz do passado recente, essa carta teria constituído uma afronta sem paralelo, não fora seu
espírito prático tão cândida ilustração da mentalidade de Castlereagh. Agora que os interesses
britânicos estavam ameaçados, já não parecia capaz de entender que o perigo podia não ser assim
tão evidente, tanto quanto no ano anterior não se mostrara disposto a admitir que a aliança podia
sofrer várias interpretações. Aqui estava o “supremo perigo” tão frequentemente invocado, e era
muito natural que Castlereagh voltasse a enxergar a aliança em toda sua prístina glória de guardiã
da paz.

Embora a primeira reação de Alexandre à carta de Castlereagh não fosse muito encorajadora, ele
foi incapaz de resistir à investida de seus dois grandes aliados. Aquilo a que aspirava em vão por
quase uma década, a aprovação de uma Europa agradecida, estava agora a seu dispor. Pela
primeira vez nenhuma consideração mesquinha limitava a aplicação universal de suas máximas, e
se o apelo aos seus ideais, na prática, redundava num pedido de autocontenção ilimitada, ainda
assim constituía uma vindicação final, mesmo um tanto atrasada. Entrementes, Metternich
conseguira que o Ministro do Exterior da Prússia declarasse o memorando de Ancillon “uma opinião
particular”, com o que todos os protestos de amizade mal ocultavam o fato de que a Rússia estava
outra vez isolada. Tudo isso juntou-se para fazer Alexandre recuar. Quando, no início de agosto,
Capo d’Istria argumentou que uma guerra nos Balcãs haveria de restaurar a antiga unidade da
aliança, Alexandre respondeu na linguagem de Metternich: “Se respondermos aos turcos com a
guerra, o Comitê Revolucionário de Paris triunfará e governo algum permanecerá de pé.” E proibiu
Capo d’Istria de mencionar a possibilidade de guerra em qualquer de seus despachos. Quando
Stroganov apresentou-se, à sua chegada de Constantinopla, foi informado da decisão de Alexandre e
instruído a concordar com ela. No dia 29 de agosto, Alexandre respondeu a Castlereagh, ainda que
um tanto ambiguamente: “Levarei minha indulgência até onde for possível.” Com muita razão,
Metternich podia escrever, em 3 de setembro: “A cada dia novas provas me chegam de que o
Imperador Alexandre lança mais raízes na minha ‘escola’. (...) Capo d’Istria quer ação, mas o
Imperador não.”

Embora muito se fizesse no sentido de evitar um início imediato da guerra, os fatores que haviam
produzido a tensão ainda existiam. A rebelião grega prosseguia com atrocidades incontáveis de
ambos os lados. Capo d’Istria continuava ministro russo, e a ele se juntaram, nos rogos por uma
ação decisiva, quase todos os diplomatas russos. E à medida em que sua angústia espiritual crescia,
Alexandre buscou refúgio numa ambiguidade desorientadora que buscava compensar cada ato de
conciliação com um pronunciamento belicoso. A decisão de Alexandre dera, assim, a Castlereagh e
Metternich apenas um intervalo para tomar fôlego, nada mais. Alexandre disse ao embaixador
britânico que eles tinham o inverno inteiro para tentar evitar a calamidade da guerra, mas poderia
ser muito bom para os aliados considerarem suas linhas de ação caso a guerra se lhe impusesse. A
solução de Metternich foi recorrer a sua saída infalível, a conferência de embaixadores em Viena,
que forneceria a Alexandre um símbolo de solidariedade, e a Metternich os meios para contrariar as
ambições da Rússia. Mas Castlereagh receou que Metternich se mostrasse muito acomodatício e, de
qualquer maneira, julgava a questão complicada demais para ser confiada a embaixadores.
Metternich, então, sugeriu um encontro pessoal com Castlereagh, para o que uma próxima visita do
Rei britânico a seus súditos no Hanover poderia servir de bom pretexto.

Quando Metternich entabulou esse assunto com Gordon, o chargé d’affaires britânico em Viena, a
idéia foi friamente recebida. Ainda impregnado da política de Castlereagh no ano anterior, de
cautelosa distância, Gordon insistiu em que negociações em separado levariam a “interpretações
falsas, ciúmes e más referências noutros lugares”. Mas ele estava defasado dos acontecimentos.
Sua visão da aliança era aquela de Troppau e Laibach, onde nenhum interesse britânico imediato
estava em jogo, ou de Aix-la-Chapelle, com a França considerada a única ameaça. Mas o caso da
Turquia era diverso, situação muito bem caracterizada no fato de Castlereagh julgar a diferença
igual à que existe entre um problema prático e uma questão de teoria abstrata, maneira, aliás, de
ver a revolução napolitana, que certamente muito surpreenderia Metternich: “Se a questão que
mais atenção exige no momento fosse uma questão de caráter ordinário, e envolvesse de imediato
tão-somente a forma particular de governo sob a qual deve subsistir algum pedaço da Europa (como
ultimamente foi a de Nápoles), meus sentimentos seriam idênticos aos seus, com relação a uma
entrevista com o Príncipe Metternich. (...) Mas a questão da Turquia é de um caráter totalmente
diferente, que encaramos na Inglaterra como de importância prática e não de significação teórica”
[grifo meu]. Dessa maneira, os dois grandes estadistas do repouso encontraram-se pela última vez
em fins de outubro de 1821, para elaborar, como tantas vezes antes, um plano comum de ação
destinado a preservar o equilíbrio da Europa.

III

A passeata de Metternich através da Alemanha foi um cortejo triunfal. Em cada corte saudado como
o homem que vencera a revolução, reportou que os Gabinetes alemães solicitavam ordens e não
conselhos. Tampouco sua recepção pelo Rei da Inglaterra foi de molde a diminuir-lhe a
autoconfiança. Muito expressivo da posição de Metternich, de consciência conservadora da Europa,
o fato de sua primeira entrevista com George IV versar consideravelmente mais sobre os assuntos
internos da Grã-Bretanha que propriamente sobre a insurreição grega. George estava decidido a
forçar a renúncia de Liverpool, e aconselhou-se com o “doutor em revoluções” sobre a melhor
maneira de agir sem provocar grande tumulto. Por sua vez, Metternich, embora não se importasse
com Liverpool, queria assegurar-se de que a mudança de governo não acarretaria a saída de
Castlereagh. Lançou-se, então, a persuadir Castlereagh a provocar a renúncia de Liverpool e a
formar ele próprio novo gabinete. Castlereagh concordou, sob a condição de Liverpool renunciar
voluntariamente; caso contrário, sairia com ele.

Quando Castlereagh e Metternich por fim voltaram-se ao exame da insurreição grega, encontraram-
se em acordo substancial. Metternich trouxera consigo um memorando que tratava da controvérsia
russo-turca em três partes. Estabelecia-se que, com o fito de obter base de negociação, a aliança
devia “considerar-se existente em pleno vigor” —- sugestão tenuemente velada de que Castlereagh
não repetisse suas farisaicas censuras do ano anterior; que Capo d’Istria era o principal obstáculo a
uma solução, e que os representantes austríaco e britânico em Constantinopla deviam tentar obter
algumas concessões da Sublime Porta a fim de afastarem-se todos os pretextos de guerra.
Castlereagh também pensava assim, e os dois ministros concordaram em combinar esforços no
sentido da manutenção da paz, em esquivar-se aos pedidos russos de esclarecimentos da atitude
britânica e austríaca em caso de guerra, e em enviar instruções paralelas aos embaixadores
austríaco e britânico na Rússia. Mas cada ministro devia empregar a argumentação apropriada a
sua situação particular para evitar a aparência de um entendimento austro-britânico contra a
Rússia. Lord Strangford, embaixador inglês na Turquia, conduziria as negociações com a Porta.
Portanto, no final de outubro, a teia de aranha de Metternich estava mais forte do que nunca. Em
Laibach ele obtivera a promessa do Czar de não tomar nenhuma atitude diplomática em separado;
no Hanover, acertara medidas coordenadas com a Grã-Bretanha. Exatamente como na primavera
crucial de 1813, Metternich representava a ponte entre os protagonistas, detentor de um princípio
legitimante reconhecido pelos dois lados, a invocação do equilíbrio político, para Castlereagh, e do
equilíbrio social, para Alexandre.

Castlereagh foi o primeiro a dirigir-se a Alexandre, embora tomasse por demais literal a liberdade
de usar argumentos especificamente britânicos. Em vez de apelar para os elevados princípios da
aliança, tentou dissuadir o Czar de tomar medidas temerárias demonstrando que “não eram
razoáveis”. Ao invés de interpretar os aforismos morais do Czar para dar base aos seus próprios
argumentos, negava inteiramente sua aplicabilidade. Conforme o combinado em Hanover,
Castlereagh recusou-se a discutir as inquirições russas sobre a atitude britânica em caso de guerra,
porque “nenhuma potência pode predizer sua atitude em caso de tão portentosa contenda”. Mesmo
que uma guerra viesse a ser inevitável, não podia concordar em que seu objetivo fosse o
estabelecimento de um Estado grego, “originado por um sistema de revoltas tão reprovado pelo
Imperador”. Se um ministro russo recomendava tal esquema, acrescentou Castlereagh, ele que o
formulasse de forma clara e inteligível, e não se esperasse receber qualquer recomendação dos
aliados da Rússia, os quais, muito ao contrário, deveriam protestar contra o esquema. Mas esse
ataque direto a Capo d’Istria foi infeliz, pois o Czar não entendia a ficção britânica da
responsabilidade ministerial, e o considerou dirigido a si próprio. O restante da missiva de
Castlereagh também não ajudou muito. Pois embora admitisse que realmente atrocidades se haviam
cometido pelos turcos, entrou por um discurso sobre a relação entre sentimento e ação de estado
que Alexandre só podia interpretar como contestação a todas as máximas que tão aparatosamente
professava: “(...) Se um estadista permitir-se regular a conduta pelos conselhos do coração em lugar
de seguir os ditames do intelecto, na verdade não vejo que limites possam ter seus impulsos. (...)
Mas é preciso nunca esquecer que ao estadista pertence a grave tarefa de prover paz e segurança
àqueles interesses mais imediatamente dependentes de seus cuidados, e que não pode arriscar o
destino da presente gera