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Aprendendo a submeter sua vida amorosa ao Senhor

Elisabeth Elliot

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O arco-íris é feito da luz do sol e de chuva. A luz solar que transformou meu
mundo numa radiação de cores, foi a descoberta do amor de Jim Elliot. A
chuva foi o [...] fato de que [...] Deus o havia chamado para permanecer
solteiro. Talvez pela vida inteira...

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Como amar apaixonadamente e manter-se sexualmente puro? Devo ou não devo
casar? E se sim, com quem? Quais são os papéis dos rapazes e das moças nos
relacionamentos? Como colocar a vontade de Deus acima dos desejos pessoais?
Quais são os limites aceitáveis pela Bíblia em relação à interação entre
namorados? Jim e Elisabeth Elliot amaram tanto ao Senhor Jesus que
dedicaram suas vidas à causa do Mestre. Jim foi martirizado por índios
equatorianos nos anos de 1950, enquanto Elisabeth dedicou toda a sua vida à
obra do Senhor, fosse testemunhando acerca da obra missionária ou
discipulando a juventude acerca da pureza exigida de um cristão. A história de
amor deles foi relatada por Elisabeth neste livro, cujo título original é Passion
and Purity (sem tradução no Brasil, por isso a tradução e a elaboração desta
cópia adaptada), publicado em 1984, no qual a autora descreve a trajetória do
casal com o objetivo de mostrar que sim, é possível amar alguém
profundamente e manter-se puro. Mais do que um livro sobre a história de
amor de um casal, Paixão & Pureza é um manual de como andar neste mundo
sendo um farol que ilumina o caminho por onde passamos. A história desse
casal certamente arrancará algumas lágrimas e também trará lições valiosas
para sua caminhada com Cristo, ajudando você a viver em pureza!

Agora você tem a oportunidade de ler uma parte do livro em


português, aproveite!

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Prefácio

Na minha época, nós teríamos chamado de casos de amor ou romances. Agora,


eles são chamados de relacionamentos. A palavra amor tem passado por maus
momentos. Para muitas pessoas isso não significa nada mais nada menos do
que dormir com alguém, não importa a que sexo o outro possa pertencer.
Adesivos para carros substituem com uma imagem de um coração vermelho a
palavra amor, a qual é aplicada para qualquer coisa, qualquer um, em qualquer
lugar. Em algumas reuniões cristãs, pessoas são convidadas a se virar e olhar a
pessoa ao lado delas, cara a cara, mesmo que este indivíduo seja um perfeito
desconhecido, e dizer, com um largo sorriso e sem o menor traço de
acanhamento, “Deus ama você e eu também”, provando essa afirmação com um
forte abraço. Isso aparentemente faz com que algumas destas pessoas se sintam
bem. Talvez, seja possível até convencê-las de que elas obedeceram ao segundo
comando mais forte já posto sobre os seres humanos: amar uns aos outros como
Cristo os amou. Não é de se surpreender que as pessoas busquem outras
palavras para descrever o que sentem por um indivíduo do sexo oposto. É novo.
É legal. É realmente puro. É especial. “O que é especial?” Às vezes pergunto.
“Bem, você sabe, isso, o relacionamento.” “O relacionamento, exatamente?”
“Bem, eu não sei, você sabe, é como, eu quero dizer, é apenas muito legal.”

Uma professora me escreveu recentemente sobre a “crescente amizade” com um


homem que trabalhava com ela. Ele tinha ido a um estado distante, e ela estava
se sentindo muito solitária e incerta sobre o futuro. Ela não tinha certeza sobre o
que exatamente sua relação tinha sido ou era agora ou poderia vir a ser, mas ao
ter contato com os meus escritos sobre assuntos do coração, ela queria saber
mais. “Eu quero saber um pouco do que você estava pensando, se possível.
Quais foram os seus sentimentos? O que passava pela sua mente? Será que suas
emoções estavam muitas vezes em conflito com o seu pensamento? Se você
puder gastar alguns minutos e escrever de volta, eu iria me agarrar a quaisquer
palavras de sabedoria que você tivesse”. Claro que gastei alguns minutos. As
cartas continuam chegando, me bombardeando com perguntas sobre essa área,
sugerindo que a experiência de uma geração, ainda que esta possa ser diferente
da experiência de outras gerações, possa ajudar a mostrar como os jovens se

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sentem no que se refere às questões do coração. Aqui estão trechos de outras
cartas: “Estou escrevendo para você como uma jovem mulher que procura o
mais honestamente possível ser obediente a Deus, conhecer a sabedoria e o
discernimento, para ser agradável e fiel e esperar Nele. Minha caminhada com
Cristo é sim uma só. Me falta conhecer a liderança espiritual de uma mulher que
seja mais velha do que eu, sei que algumas coisas deveriam ser ensinadas pelas
mulheres mais velhas às mais novas. Eu sei que você é uma serva, e espero que
você possa responder”. "Como uma mulher deve se comportar, se o homem não
está cumprindo o seu papel?" "Como saberei que esta mulher é certa para
mim?" “Até onde podemos ir sem um compromisso de casamento?" "Até onde
podemos ir, se tivermos esse compromisso?”

"Qual é o nosso papel enquanto esperamos o homem de Deus?" “Você parece


tão forte e inabalável na sua fé. Cada vez mais, eu digo a Deus que eu não
aguento mais isso. Eu desisto. Digo ao Senhor que estou louca. Você nunca
vacila e sente que não pode ir em frente? Você nunca teve momentos em que
pensou em desistir?” "Você quis lutar com o desejo de estar com Jim todos os
anos enquanto estavam separados?" "Você quis lutar com o fato de estar
solteira, mas seu coração ansiar por Jim?" “Se Tom não tivesse aparecido em
minha vida, todos os meus pensamentos estariam focados no Senhor. Não
haveria conflito. Isso me incomoda muito, estou sozinha e choro tão facilmente,
quase como se meu coração estivesse se partindo. Isso é parte do plano de
Deus?” "Como você lidou com a impaciência de querer estar com o homem que
amava?" Eu respondo todas as cartas que chegam. Vejo-me tantas vezes
tentando colocar em palavras as lições que saíram da minha própria
experiência. Estive lá onde estes homens e mulheres estão. Eu sei exatamente o
que eles querem dizer. Temo que minhas respostas a eles possam parecer,
muitas vezes, secas e diretas. “Oh, ela é muito teimosa. Ela não tem qualquer
simpatia. Ela é do tipo forte; ela nunca agonizou como eu tenho agonizado. E a
maneira como ela dá conselhos! Faça isso, não faça isso, confie em Deus, ponto
final. Eu não posso lidar com isso”. Eu ouvi as objeções. Eu já as ouvi sem
querer, também. Em cafeterias de faculdades, depois de uma palestra que eu
dei; próximo à mesa eles estão folheando meus livros, sem saber que a autora
está sentada a sua esquerda, com ambos os ouvidos abertos. Eu pensei que se eu

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colocasse essas coisas em um livro, elas não pareceriam tão secas e diretas como
geralmente acontece em cartas curtas, de uma página. Talvez eu deva dizer o
suficiente sobre minha própria história para servir como prova de que eu estive
lá. Seria possível dizê-lo sem ser piegas? Sem parecer estar muito distante da
realidade de pessoas cujo vocabulário é diferente, mas cujos gritos são ecos
claros da minha própria história? Eu espero que eu possa fazê-lo. Mas, para
fazer isso, devo correr o risco de me expor bastante. Eu preciso mostrar meus
próprios anseios e alguns do Jim, minhas próprias fraquezas, meus deslizes,
porém jamais todos eles (se você soubesse o quanto eu deixei de fora!).
Apresento apenas algumas amostras. Assim, o livro cresceu. Cartas escritas para
mim durante os últimos cinco ou dez anos são citadas. Meus próprios diários de
trinta a trinta e cinco anos atrás. Cartas de Jim Elliot. Declarações que se
aplicam aos princípios abordados no livro. A estrutura do livro é a história de
cinco anos e meio de amor por um homem, Jim, aprendendo a ser disciplinada
nas áreas do desejo, da solidão, da incerteza, da esperança, da confiança e do
compromisso incondicional com Cristo, um compromisso que exigia que,
independentemente da paixão que pudéssemos sentir, tínhamos que ser puros.
Pra ser franca, este é um livro sobre virgindade. É possível amar
apaixonadamente e não dormir junto. Eu sei. Nós conseguimos. Tenho eu algo a
dizer, então, àqueles que já tenham dormido juntos? Eu teria que ter a cabeça
enterrada na areia para imaginar que meus leitores solteiros são todos virgens.
Aqueles que já entregaram sua virgindade também escrevem para mim, alguns
deles em desespero, achando que eles estão para sempre banidos da pureza. Eu
escrevo para lhes dizer que não há pureza alguma em qualquer um de nós a não
ser pelo sangue de Jesus. Todos nós, sem exceção, somos pecadores e
pecaminosos, alguns de uma maneira, outros de outra. Se eu puder ajudar
algumas pessoas a evitar o pecado, eu quero fazer isso. Se eu puder mostrar aos
outros que a mensagem do evangelho é a possibilidade de um novo nascimento,
um novo começo e uma nova criação, eu quero fazer isso. A vida amorosa de um
cristão é um campo de batalha crucial. Lá, como em nenhum outro lugar, será
determinado quem é senhor: o mundo, o eu e o diabo, ou o Senhor Jesus Cristo.
É por isso que assumi o risco. Minha própria história de amor pode ser mais ou

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menos de interesse para alguns; as cartas do tipo “Dear Abby”1 e minhas
respostas podem ser divertidas; mas a minha principal preocupação é que os
leitores considerem a autoridade de Cristo sobre a paixão humana e voltem seus
corações para a pureza. Na providência de Deus, eu tive três chances para
refletir e tentar praticar os princípios sobre os quais escrevo aqui. Fui casada
três vezes: com Jim Elliot, morto por índios na selva equatoriana; Addison
Leitch, morto por câncer; e Lars Gren, que se sente bem no dia em que estou
escrevendo isso. Lars já durou quase seis anos, tempo maior do que Jim ou
Addison, então ele diz que é o “líder na corrida.” Ele pode me superar! Eu não
vou contar as histórias de todos os três. A parte de Jim Elliot deve bastar como
uma estrutura para o que eu quero dizer. Aqui está uma cronologia dessa
história:

1947- Ambos éramos estudantes da Faculdade Wheaton, Illinois. Ele visita a


nossa casa em Nova Jersey no Natal.
1948- Jim confessa seu amor por mim logo após eu me formar. Verão, eu em
Oklahoma, ele viajando com uma equipe de evangelismo. Nenhuma
correspondência entre nós. Outono, sua decisão de começar a escrever para
mim quando eu for para o Canadá para a escola de teologia.
1949- Jim se forma, vai para casa em Portland, Oregon. Eu trabalho em
Alberta, em seguida, ele visita sua casa.
1950- Jim em casa, trabalhando, estudando, preparando-se para o trabalho
missionário. Eu, na Flórida. Passamos dois dias em Wheaton quando meu
irmão Dave Howard se casou.
1951- Nos encontramos novamente quando Jim veio pro Leste falar em
reuniões missionárias em Nova York e Nova Jersey.
1952- Fevereiro, Jim navega para o Equador. Abril, eu navego para o Equador.
Passo vários meses em Quito, vivendo com famílias equatorianas para aprender
espanhol por “imersão”. Agosto, Jim se muda para Shandia na selva oriental
para trabalhar com índios Quichua. Setembro, eu me mudo para San Miguel na
selva ocidental para trabalhar com índios Colorados.

1
Coluna de jornal escrita por uma mulher que dá conselhos aos leitores

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1953- Janeiro, nos encontramos em Quito, Jim me pede para casar com ele.
Noivado anunciado. Junho, eu me mudo para Dos Rios, selva oriental, para
começar o estudo de Quichua, cumprindo a condição da proposta de casamento
de Jim, “eu não vou me casar com você até que você aprenda.” 08 de outubro,
casamos em Quito.
1955- Nasce nossa filha Valerie.
1956- Jim morre pelas lanças dos Aucas.
*Para a história completa, leia Através dos Portais do Esplendor [Through Gates
of Splendor], à Sombra do Onipotente [Shadow of the Almighty], e os Diários de
Jim Elliot [The Journals of Jim Elliot].

~9~
1

Eu, Senhor, solteira?

Não havia uma grade vista da janela. A principal visão eram as latas de lixo
por trás do refeitório. As janelas fechadas não impediam os ruídos do início da
manhã nem o mau cheiro vindo da cozinha. Entretanto, eu estava muito
contente por ter aquele pequeno espaço. Era um quarto individual, algo que eu
esperava e que finalmente consegui quando me tornei uma veterana na
faculdade. Tinha uma cama, uma escrivaninha, uma estante de livros, e no
canto, próximo à janela, uma mesinha com uma cadeira e uma luminária. Um
lugar de tranquilidade e silêncio, um "lugar secreto", daquele tipo
mencionado por Jesus, destinado à oração. Eu estudava e fazia algumas das
minhas orações à mesinha. Havia algumas árvores Maple2, um olmeiro antigo
atrás das latas de lixo e eu sempre me distraía com os esquilos que viviam lá.
Eu os observava se preparando para o inverno, destruindo o que viam pela
frente, transportando de modo frenético suas provisões, reclamando,
conversando e balançando as caudas. Eu via as folhas das árvores mudarem de
cor e cair, observava a chuva grudá-las à estrada. Eu via a neve cair nestas
árvores e nas latas de lixo.
Não é nem um pouco difícil me colocar naquela cadeira próxima à mesinha.
Hoje em dia, quando me sento a uma mesinha diferente e leio cartas de jovens
confusos, eu me torno aquela garota novamente, que olhava a neve. O que eu
usava não era tão diferente do que se usa nos dias de hoje, os estilos,
geralmente fecham um ciclo em uma média de 35 anos. Eu tinha três saias,
três suéteres e algumas blusas, e fazia o possível para mesclá-las, para que
parecesse que eu estava usando roupas novas. As quartas-feiras eram fáceis.

2
Conhecida no Brasil como Bordo de Açúcar (Acer Saccharum)

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Todos na aula dos veteranos usavam o mesmo casaco de lã azul com o
emblema da faculdade costurado acima do bolso do peito.
Meu cabelo me dava muito trabalho. Era loiro. Não tinha uma ondulação
sequer, e crescia mais de dois centímetros e meio por mês. Como teria sido
fácil usá-lo longo e liso, mas isto era impensável à época. Meus cachos eram
resultado de um trabalho improvisado. Eu só podia pagar por um permanente
[procedimento para ondular os cabelos] por ano. No resto do tempo, eu usava
o antigo sistema de alfinetes para fazer cachos, enrolando mechas de cabelo
com os dedos, todas as noites, antes de dormir, prendendo-as com um grampo.
Se eu não podia fazer muito pelo meu cabelo, eu podia fazer menos ainda pelo
meu rosto. Assim como a maioria das garotas, eu queria ser bonita, mas
parecia-me fútil tentar interferir muito naquilo que eu havia recebido, por isso
eu só usava uma dose moderada de batom claro (algo chamado Tangee,3 que
custava dez centavos) e um pouco de pó no meu nariz.
Eu precisava daquela salinha aconchegante naquele ano, talvez como nunca
antes. Alguns assuntos que iriam determinar os rumos da minha vida deveriam
ser encarados. No verão anterior, eu havia terminado de orar para saber se eu
deveria ou não ser uma missionária. Eu deveria. Após passar pelo o que meus
amigos da igreja Plymouth Brethren chamariam de exercício e o que as
pessoas hoje em dia chamariam de luta, estava finalmente claro. A dificuldade
não estava relacionada a uma falta de vontade de cruzar um oceano ou viver
sob um teto de palha, mas ao fato de eu querer saber se aquilo era minha ideia
ou de Deus, e se eu deveria ser uma cirurgiã (eu amava dissecar coisas) ou
uma linguista. Eu cheguei à conclusão de que foi Deus que me chamou e que
a chamada era para linguística. Eu pedi confirmação da parte do Senhor e a
obtive. Assim foi.
Mas havia outro assunto, de modo algum encerrado. Era o assunto para o qual
Deus sabia que eu precisaria de um “lugar secreto”. Era a respeito de ficar

3
Marca de cosméticos americana, popular por seu batom que muda de cor de acordo com o tom de
pele da usuária. Esse batom ficou bastante famoso a partir dos anos de 1940s.

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sozinha, pelo resto da minha vida. Eu dizia, “eu, Senhor, solteira?” O assunto
parecia surgir entre mim e meus livros de grego, quando eu sentava à
mesinha; entre mim e minha Bíblia, quando eu tentava ouvir Deus falar. Esse
assunto era uma obstrução as minhas orações e o objeto de sonhos recorrentes.
Eu falava constantemente com Deus sobre esse assunto. Eu não me lembro de
ter falado com mais ninguém sobre isso por vários meses. As duas moças com
quem eu dividia o espaço do qual meu quarto ocupava um terço não eram do
tipo extremamente popular de quem eu teria inveja. Elas eram garotas calmas
e sensatas e um pouco mais velhas que eu. Uma delas estudava música e
passava a maior parte do tempo tocando o seu instrumento no conservatório; a
outra, uma ex-integrante da reserva feminina da Marinha Americana,
habilidosa no tricô de meias do tipo Argyle (em formato de diamantes e
losangos). De fato, ambas fizeram incontáveis pares de meias e luvas de tricô
e as enviaram por encomendas postais. “Quando você tem uma agulha nas
mãos”, Jane me disse um dia, “você está perdida, não está?” Comparada
àquelas duas moças, eu estava. Após a faculdade, Jane se casou. Bárbara ainda
está solteira. Eu não me recordo de qualquer conversa com elas sobre amor e
casamento (embora nós devamos ter tido alguma), mas tenho muita certeza de
que para cada uma de nós três, a solteirice significava uma coisa apenas:
virgindade. Se você fosse solteira, isso significava que você não havia
dormido com homem nenhum. Se você ficasse solteira permanentemente,
você nunca iria dormir com homem algum.
Isso foi há cem anos atrás, é claro. Mas, mesmo há cem anos atrás qualquer
pessoa que acreditasse nisso e agisse de acordo seria vista como alguém
estranho por muitas pessoas. Talvez, fôssemos a minoria, não tenho certeza
disso. Certamente a maioria professava crer que a atividade sexual seria
limitada para os casados, quer suas vidas privadas mostrassem ou não tal
convicção. Contudo, neste momento, no começo do século XXI, os tempos
mudaram, é o que dizem. Durante anos, a sociedade dependeu de algum tipo
de ordem no que se refere ao sexo. Um homem tomava uma esposa (ou
esposas) dentro de alguma regulamentação instituída e vivia com ela (ou elas)

~ 12 ~
segundo regras reconhecidas. Ele “se envolvia” com mulheres de outros
somente para a sua destruição. Uma mulher sabia que possuía um tesouro
incalculável, sua virgindade. Ela o guardava com cuidado para o homem que
pagaria por este presente, através do compromisso do casamento com esta
mulher e somente com ela. Até mesmo nas sociedades nas quais a poligamia
era permitida, havia leis que regulavam as responsabilidades dos cônjuges,
regras das quais dependia toda a estabilidade de tal sociedade. De alguma
maneira, achamos que podemos passar por cima das regras e não receber a
recompensa por isso. Os tempos mudaram, dizemos. Finalmente, somos
“emancipados” de nossas inibições. Temos o Sex and the Single Girl (O Sexo
e a Garota Solteira)4. Temos liberdade. Podemos, de fato, “fazer tudo e não se
apegar”. As mulheres podem ser predadoras, se quiserem, assim como os
homens. Homens não são homens, a menos que eles o provem isso através da
sedução de quantas mulheres eles puderem seduzir, ou quantos homens,
porque agora podemos escolher segundo a “preferência sexual”. Podemos
dormir com gente do sexo oposto ou do mesmo sexo. Não importa. Uma mera
questão de gosto e todos nós temos “direito” em relação aos nossos gostos.
Todo mundo é igual. Todo mundo é livre. Ninguém se apega mais ou precisa
negar-se qualquer coisa. Na verdade, ninguém deve negar a si qualquer coisa
que se queira muito, é perigoso. Não é saudável. É doentio. Se te faz sentir
bem e você não o faz, você é paranoico. Se não te faz sentir bem e você o faz,
você é um masoquista. A razão pela qual minhas colegas de quarto e eu
críamos que a solteirice era sinônimo de virgindade não era o fato de sermos
estudantes universitárias de cem anos atrás, quando todo mundo cria nisso.
Não era porque não tínhamos conhecimento. Não era porque fôssemos tão
ingênuas para saber que as pessoas cometem fornicação e adultério há
milênios. Não era porque não fôssemos emancipadas ou simplesmente

4
Sex and the Single Girl é um livro de 1962 da escritora americana Helen Gurley Brown, escrito como
um livro de conselhos que encorajava as mulheres a se tornarem financeiramente independentes e a
vivenciarem relações sexuais antes ou sem o casamento.

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estúpidas. A razão era porque éramos cristãs. Valorizávamos a santidade do
sexo.
Eu me sentei à mesinha, próxima à janela e pensei bastante sobre casamento.
Eu sabia o tipo de homem que queria. Ele teria que ser um homem que
valorizasse a virgindade, a sua própria e a minha, tanto quanto eu valorizava.
O que as mulheres querem hoje? O que os homens querem? Refiro-me ao que
eles desejam lá no fundo. O que eles realmente querem? Se os “tempos”
mudaram, os desejos humanos também mudaram? E os princípios? Os
princípios cristãos mudaram? Eu digo não às últimas três perguntas. Um
enfático não. Estou convicta de que o coração humano tem fome de
constância. Ao comprometer a santidade do sexo por encontros casuais nos
quais há contato físico íntimo, nós perdemos algo do qual não podemos nos
privar. Existe uma apatia, uma certa monotonia, um completo tédio na vida
como um todo, quando a virgindade não é mais protegida e valorizada. Ao
buscarmos satisfação em toda parte, não a encontramos em lugar algum.

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2
A vida que não me pertence

Um jovem pregador britânico chamado Stephen Olford ministrou palestras na


capela de nossa faculdade durante semana. Duas coisas que ele disse ficaram
guardadas em mim: ele citou o livro dos Cânticos dos Cânticos, “Mulheres de
Jerusalém, eu as faço jurar: Não despertem nem incomodem o amor enquanto
ele não o quiser5”. Na interpretação do palestrante sobre esta passagem,
ninguém, homem ou mulher, deveria se inquietar em relação à escolha do
futuro cônjuge, mas deveria estar “adormecido (a)”, na vontade do Senhor, até
que Deus os “despertasse”. A outra coisa que ele nos aconselhou foi termos um
diário espiritual. Eu estava determinada a seguir seu conselho em relação às
duas situações. Eu comprei um fichário marrom e pequeno, quase do mesmo
tamanho da minha pequena Bíblia de couro marrom, recebida dos meus pais no
natal de 1940. Eu os mantinha sempre juntos. Eu escrevi em uma das páginas
do caderno as palavras gregas que significam “para mim o viver é Cristo...” Na
primeira página eu copiei uma estrofe do hino de Annie R. Cousin, baseado nas
palavras de Samuel Rutherford:

Ó Cristo, Ele é a fonte,


A profunda e doce fonte do amor!
Quanto mais provo das fontes da terra,
Mais beberei das fontes celestes:
Lá, para um oceano de plenitude,
Sua graça se expande,
E glória, glória, habita
Na terra do Emanuel.

5
Cap.8, versículo 4.

~ 15 ~
No capítulo 2, Elisabeth Elliot fala sobre honrarmos ao Senhor com nossas
vidas, pois Ele nos criou para sermos Dele e honrá-lo em todas as áreas de nosso
viver. Ela menciona que aprendeu duas coisas: a não despertar o amor até que
Deus o faça e a escrever em um diário a sua jornada espiritual. Ela cita vários
versos bíblicos, poemas e hinos que edificaram sua vida grandemente durante
aquele período de incertezas da juventude.
Já o capítulo 3 se inicia com estas palavras: “a confusão que acompanhava
minhas orações mais sinceras, não me surpreende agora. Se existe um Inimigo
das Almas (e não tenho a menor dúvida de que existe), uma coisa que ele não
suporta é o desejo pela pureza. Dessa forma, as paixões de um homem ou uma
mulher se tornam o seu campo de batalha. O Amante das Almas não impede que
isso aconteça. Eu estava perplexa, porque eu achava que Ele me pouparia, mas
Ele não o faz. Ele quer que aprendamos a usar nossas armas....” Elisabeth
menciona a situação de confusão em que se encontrava, se envolvendo com
alguns rapazes nos chamados dates (quando os rapazes convidam uma moça
para sair), mesmo sabendo que nenhum daqueles moços se encaixaria no perfil
de marido que ela tinha em mente. Ela também sofria com as dúvidas sobre sua
solteirice. Elisabeth menciona em seu diário que conheceu Jim Elliot (“boa
conversa, um rapaz maravilhoso”) em 23 de março de 1947. Ela discute a carta
de uma jovem que tinha dúvidas sobre um rapaz que não tomava iniciativa no
relacionamento. Elliot menciona o constante anseio feminino pelo amor de um
homem, enquanto este homem sempre deseja perambular, experimentar e
conquistar, mesmo que lá no fundo ele também deseje o aconchego de um lar e
a presença de uma esposa piedosa. Falando de sua luta na área sentimental
Elisabeth afirma: “foi na área sentimental que meu coração foi sondado,
esquadrinhado e exposto, o processo de purificação tinha começado....”

~ 16 ~
4
Paixões Indomáveis

Elliot trata das dificuldades enfrentadas por aqueles que desejam entregar suas
paixões ao Senhor. A autora afirma que nada é mais difícil de controlar do que
um coração apaixonado, “controlar nossas paixões e desejos obstinados nos
custará algo”, ou seja, você jamais conseguirá domar suas paixões se não estiver
disposto a pagar um alto preço por isso. A recompensa? A paz que sentimos
quando obedecemos ao Senhor! Ela prossegue falando de seu interesse por Jim
Elliot: “havia um estudante no campus que eu estava observando há um tempo,
desde aquele dia em março quando eu o conheci e conversei com ele. Meu irmão
Dave insistia para que eu me aproximasse dele, desde então, mas sem muito
sucesso [...] Eu reparei no Jim na Foreign Missions Fellowship (Sociedade das
Missões Transculturais), ele era sincero, comprometido, direto (particularmente
com aqueles que não se interessavam por missões). Eu o notei nas filas do
refeitório com pequenos cartões brancos nas mãos, memorizando verbos gregos
ou passagens da Bíblia. Eu ouvi seu nome semestre após semestre ser lido em
alta voz em homenagens. Finalmente, Dave o convidou para ir conosco a nossa
casa em Nova Jérsei para o natal. Tivemos conversas bem longas depois que a
família foi dormir. Quanto mais Jim falava, mais eu via que ele se encaixava na
visão que eu tinha de um marido. Ele amava louvar hinos, e conhecia vários de
cor. Ele amava ler poesia. Amava lê-las alto. Ele era um homem de verdade,
forte, de ombros largos, sem rodeios e amigável, e eu o achava muito lindo. Ele
amava a Deus. Esta era a suprema dinâmica de sua vida. Nada mais interessava.
Ele estudava grego, assim como eu. Depois do natal eu esperava que ele sentasse
perto de mim nas aulas de vez em quando. Ele sentava. Ele sentava perto de
mim com frequência, mesmo quando às vezes ele tropeçava nas pessoas para
conseguir um assento. Isso era possível...? Será que ele estaria interessado...?
Minhas esperanças cresceram, mas bem timidamente.” Elisabeth segue falando
de seus contatos com Jim, que a convida pra sair e tomar uma Coca-Cola,
enquanto a repreende sobre a timidez que a impedia de ser mais amigável com

~ 17 ~
as pessoas e de ser ainda mais usada por Deus. Sobre os conselhos de Jim e seu
caráter de liderança cristã, Elisabeth recorda: “Eu fiquei um pouco magoada.
Mas fiquei feliz de ver a franqueza de Jim, feliz de ser importante para ele,
importante o bastante para ele falar a verdade pra mim de maneira firme. Essa
sinceridade era item da minha “listinha”, esse era o tipo de homem que eu
procurava” [...] cada encontro aumentava a suspeita de que eu poderia estar me
apaixonando por este homem. Um sentimento delicioso, mas não muito sensato
para uma moça que planejava ir ao campo missionário... [...] “Como podemos
colocar aos pés do Senhor o tesouro do amor que se sente?”

No capítulo 5 Elisabeth diz: “Deus esquadrinhou o coração dos homens no


Antigo Testamento. [...] Deus continuou a sondar os corações no Novo
Testamento”. Elisabeth menciona histórias de homens que foram testados por
Deus, tais quais Abraão e Paulo e se mostra perplexa diante do fato de que
intelectualmente ela conseguia entender a fé destes homens diante das provas
pelas quais passaram, mas quando olhava para sua situação com Jim Elliot,
Elisabeth tinha uma opinião bem diferente... “Gigantes da fé como Abraão e
Paulo tinham que ser provados com grandes provações. Eu era apenas uma
universitária tentando me sair bem nos estudos, orando por direção na minha
vida, atraída por um homem muito interessante cujo interesse principal era o
Reino de Deus. Há algo de errado nisso? Se você deseja ir até o fim... essa
questão não apareceu apenas intelectualmente. Meu coração e meus
sentimentos estavam envolvidos agora e eu preciso dar uma resposta. Deus
estava me sondando naquele momento. Eu queria ir até o final [por Cristo]?
Sim, Senhor. Você quer ser digna de mim? Sim Senhor. Você quer conhecer
Cristo Jesus como Senhor? Certamente, Senhor [...]. Que tipo de Deus é esse
que exige que entreguemos tudo? O mesmo Deus que ‘não poupou a seu próprio
Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos dará juntamente com ele, e
de graça, todas as coisas?’
Ele entrega tudo.
Ele pede tudo.
02 de abril: temo dar lugar a minha vontade e arruinar minha utilidade
para Deus. É muito fácil dar vazão aos meus sentimentos... ir contra a voz do
Senhor quando Ele diz, ‘esse é o caminho, ande nele’.

~ 18 ~
Eu queria ser amada. Nada de novo nisso. Nada que separe minha geração de
qualquer outra. Mas eu queria algo profundo. No meio de toda a tolice do meu
diário, no meio do joio que o vento do Espírito levava pra longe, havia algum
trigo [...] Milhares de perguntas inundavam minha mente, as mesmas
indagações que encontro nas cartas que recebo. Eu achava que algumas das
minhas eram novas. Não eram. Mas a pergunta que precede todas as outras e
que determina o curso de nossas vidas é ‘O que eu realmente quero?’ Seria amar
o que Deus ordena [...] e desejar o que Ele promete? Eu queria o que eu queria
ou o que Ele queria, não importa o quanto isso custasse? Até que a vontade e as
paixões sejam postas debaixo da autoridade de Cristo, não começamos a
entender e muito menos a aceitar o senhorio Dele. A cruz, ao entrar na vida
amorosa, revelará a verdade do coração. Eu sabia que meu coração seria pra
sempre um caçador solitário, a não ser que ele se estabelecesse ‘onde a
verdadeira alegria se encontra’.”
No capítulo 6, Elisabeth menciona a história de uma jovem cujas ideias eram
bastante mundanas no que se refere ao ideal de marido e trata de um ponto
nebuloso para as mulheres cristãs num mundo secular e sem Deus: a
mentalidade sedutora de que devemos buscar um esposo segundo os padrões
sociais e não segundo o caráter de um homem cristão. Elliot corrige a visão
equivocada da moça em relação ao tipo de homem que ela deve desejar para
casar, mostrando que condições financeiras e posições neste mundo não devem
nortear a mente de uma jovem quando esta for escolher com quem casar.
Elisabeth ainda desconstrói a visão deturpada da jovem, que achava que Deus
daria um moço a ela porque como filha de Deus Ele deveria lhe dar os desejos
do seu coração para que ela fosse feliz! Elliot afirma que esse pensamento da
moça tem origem lá no Éden, com Eva deixando o mandamento do Senhor para
dar ouvidos à serpente que lhe disse que Deus escondia algo melhor dela...
Elisabeth ensina à moça que o desejo do Senhor é que ela seja santa.
De modo resumido, o capítulo trata da velha questão: se Deus me ama, por que
Ele não me deu um marido? A partir daí, satanás tenta dizer coisas do tipo: você
não é amada como as outras moças, ninguém deseja casar com você... Elisabeth
alerta para as ideias que o diabo implanta nas mentes das moças. Elas precisam
saber que o valor delas está em Cristo e não num esposo!

~ 19 ~
O capítulo 7 assim se inicia: “o primeiro encontro para o qual Jim me
convidou aconteceu num encontro missionário na Igreja Moody em Chicago, no
fim de abril [...] Não é de surpreender que ele tenha escolhido um evento como
esse ao invés de um concerto ou um jantar".
01 de maio de 1948: Hoje foi um dia de teste. Uma carta chegou [...] e me
pôs de joelhos [...].
02 de maio: passei toda a manhã com o Senhor [...] é difícil lidar com essa
coisa nova. Quero fazer a vontade de Deus, mas não sei se meus desejos são
errados e devem ser ‘extirpados’ [...]
A carta, é claro, era de Jim. [...] essa ‘coisa nova’ era o forte sentimento que de
repente acordou quando eu pensava que estava aprendendo a ficar ‘adormecida’
na vontade de Deus. Eu estava bem acordada.
06 de maio: [...] Como Deus pode operar Sua vontade em mim se eu estou
tomada pelos meus próprios desejos? Que seja feita a Tua vontade.
Eu estava daquele jeito! Queria que os meus desejos fossem os desejos de Deus,
e se eles não fossem os desejos de Deus, eu desejava que meu desejos
desaparecessem, mas os desejos continuavam lá”......

~ 20 ~
8
Amor que não falha

Como posso saber o que Deus quer que eu faça, se eu não sei o que quero fazer?
[...] Por que não começar dizendo a Deus que você fará tudo o que Ele diz? Você
é o servo. Ele é o Mestre. É a única maneira racional, não é? Além do mais, há a
possibilidade de que o que Ele disser seja algo que você vai gostar. Elisabeth
prossegue mencionando acerca do estado da juventude à época (1984), a qual
buscava uma vida de prazeres sem compromissos e não pensava duas vezes na
hora de conseguir o que queria. Elliot fala que o lema dessa juventude era: " o
que vou ganhar com isso?" e " eu não ligo pra o que acontece com o outro".
Elliot prossegue: "há mais de um milhão de gravidezes por ano entre as
adolescentes solteiras com menos de 20 anos [...] O que elas querem, elas
conseguem, e conseguem de todo jeito. Onde foi que aprenderam isso?
Algumas, infelizmente, com os próprios pais, os quais não assumem a
responsabilidade do casamento, do lar, dos filhos e os trocam por outro 'estilo
de vida', outro parceiro, outra carreira, outra oferta de felicidade que sempre vai
iludi-los. Se uma mãe ou um pai, pelo seu comportamento, dizem, 'é minha
vida, é isso o que quero, o resto que se exploda', seus filhos vão seguir o
exemplo. Quem lhes mostra outra alternativa? Seria ingênuo supor que não há
alguns prazeres ao longo do caminho. Há muita coisa que as pessoas acham
divertidas. Há emoções, gratificações e 'experiências'". Há um caminho que ao
homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte. Até no riso o
coração sente dor e o fim da alegria é tristeza. [Provérbios 14.12-13] Há outra
maneira: amar o que Deus ordena e desejar o que Ele promete. Isso só se
consegue pela oração e obediência. Isso nos leva para o lado oposto, nos leva ao
lugar onde as coisas não dependem de tendências e opiniões mutáveis. É um
lugar no qual o coração de um homem pode descansar, e o coração da mulher,
também [...]."

~ 21 ~
[...] Nos dias que se seguiram a nossa conversa na lagoa, eu orei por aquela
harmonia santa. Parecia impossível que aquela torrente de paixão pudesse ser
trazida para o rio calmo dos propósitos de Deus para Jim e para mim, mas eu
orei por isso, assim mesmo. Havíamos sentado na grama perto da lagoa, e
conversamos a respeito de como cada um de nós havia agonizado em relação à
questão da solteirice, sabendo que as nossas chances de encontrar um
pretendente no campo missionário seriam muito limitadas. Jim falou que não
tinha intenções de procurar uma pretendente. Ele havia encontrado a que
desejava. "Seu me casar, sei com quem será, claro, se ela quiser". Ele deu aquele
famoso sorriso irradiante. Eu também sorri. Ele se apressou em dizer: "mas não
estou propondo, não posso fazer isso, Bett, e você terá que entender isso. Não
posso te pedir em casamento e não posso te pedir para se comprometer com o
que quer que seja. Eu nem mesmo posso te pedir para esperar. Eu entreguei
você e todos os meus sentimentos por você a Deus. Ele terá que resolver isso da

~ 22 ~
forma que Ele desejar". Ele podia? minha mente estava cheia de indagações. Eu
agradeci a Deus por um homem que coloca o Senhor em primeiro lugar. Eu não
poderia ter ficado tão empolgada por quem não tivesse a mesma fome espiritual
que eu. Mas Jim não era apenas espiritual. Ele era muito físico. Ele tinha o
biotipo de um lutador: pescoço forte, peitoral, braços e pernas musculosas. Ele
tinha cabelos castanhos, pele clara, olhos azuis, lindos dentes e um belo queixo
quadrado.
"Eu desejo você Bett", ele disse. Ele não era de rodeios. "Somos iguais em nosso
desejo por Deus. Fico feliz por isso. Mas somos diferentes, também. Eu tenho o
corpo de um homem e você tem o corpo de uma mulher, e, francamente, eu te
quero. Mas você não é minha". Eu não era dele, era de Deus. Isso estava claro.
Mas o que Deus ia fazer com tudo isso? Ele estaria interessado no drama de dois
universitários, será que nossa causa não escapou da vista Dele? Ele se
preocuparia conosco, quando Ele está ocupado com não se sabe quantos
mundos?
"Ergam os olhos e olhem para as alturas. Quem criou tudo
isso? Aquele que põe em marcha cada estrela do seu exército
celestial, e a todas chama pelo nome. Tão grande é o seu poder
e tão imensa a sua força, que nenhuma delas deixa de
comparecer!" Isaías 40:26

Nenhuma estrela, nem planeta, nem meteorito ou um quasar, não, nem mesmo
um buraco negro ou uma Anã Negra (tipo de estrela) está faltando. Deus os fez.
Ele sabe seus nomes, sabe exatamente onde eles estão. Será que Ele pode vigiar
cada um de nós?

"Por que dizes, ó Jacó, e tu falas, ó Israel: O meu caminho está


encoberto ao Senhor, e o meu juízo passa despercebido ao meu
Deus? Não sabes, não ouviste que o eterno Deus, o Senhor, o
Criador dos fins da terra, nem se cansa nem se fatiga? É
inescrutável o seu entendimento. Dá força ao cansado, e
multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor. Os jovens
se cansarão e se fatigarão, e os moços certamente cairão; Mas
os que esperam no Senhor renovarão as forças, subirão com
asas como águias; correrão, e não se cansarão; caminharão, e
não se fatigarão". Isaías 40:27-31

[...] Eu estava chocada ao perceber que não conseguia pensar, ler ou orar, a não
ser sobre Jim Elliot. Ele aparecia em cada pensamento, cada linha que eu lia na
Bíblia ou em qualquer outro lugar. Ele se misturava com a morfologia, a sintaxe

~ 23 ~
e a fonética que eu estava tentando enfiar na cabeça. Ele distraía minhas
orações. É muito bom saber que o Senhor tem compaixão de todos que O
temem, sabe do que somos feitos e que somos apenas pó. Deus amava nós dois,
sabia exatamente o quanto Jim e eu nos amávamos e usou até os desvios para
nos trazer de volta. [...] Quem está doente de amor, está doente de fato. E o Pai
celeste entende isso. Ele nos guia pelo caminho até a glória, se nosso coração
estiver ligado no Reino. [...]
Meu pai aconselhou seus três filhos a nunca dizerem 'eu te amo' a uma mulher
até que eles pudessem dizer também, 'case-se comigo'. Eles também não
deveriam dizer 'case-se comigo' a menos que tivessem dito antes, 'eu te amo'.
Quanta dor e confusão seriam evitadas se os homens seguissem essa regra. Jim
não a seguiu, é claro. Ele me disse que me amava. Ele não me pediu em
casamento. Eu fiquei emocionada, impressionada, devastada. Melhor saber que
é amada, do que não saber de nada, era meu pensamento. Pode-se sofrer
sozinho, mas saber que o amor é recíproco, aumenta consideravelmente o
desejo para que esse amor seja consumado. Posso recomendar o plano de ação
de Jim para outros? Nunca, nem em milhões de anos. Eu tenho quase certeza de
que ele não ia querer que ninguém fizesse disso uma doutrina. Mas a situação
era incomum. Não que ele houvesse sido chamado para uma vida inteira de
celibato. Ele não sabia se seria para a vida inteira. Ele não precisava saber. Ele
fora chamado para ficar solteiro, sem compromissos pelo menos até que ele
ganhasse experiência no campo missionário. Ele sabia que havia despertado o
amor em uma moça dedicada e que ele podia confiar nela com a informação que
ele quis dar a ela. Era um risco. Ele sabia disso e assumiu este risco. Eu não me
joguei de uma ponte. Deus nos protegeu. Mas eu me atormentava com a questão
do humano versus o sagrado. Seria possível amá-lo tão intensamente quanto eu
o amava e ser pura o bastante para desejar nada mais no mundo do que a
santidade e a alegria dele? Só posso dizer que eu tentei. " O que mais te
atrapalha do que as tuas paixões não mortificadas completamente debaixo da
vontade de Deus?", escreveu Thomas Kempis em Imitação de Cristo. [...] Vamos
ser sinceros com nós mesmos diante de Deus [...] Se suas paixões estão
afloradas, admita, tanto para você, quanto para Deus e não para o objeto de sua
paixão. E depois, dê as rédeas para Deus. Submeta sua vontade a Ele. Deseje

~ 24 ~
obedecê-lo, peça a ajuda Dele, ele não vai obedecer por você. Não me pergunte
como. Ele sabe como. Você verá*.

* Compilação de alguns capítulos do livro.

~ 25 ~
08 de outubro de 1952

Oh, eu não sei como te dizer, Betty, ou mesmo se eu deveria, mas nossos [ele
junto com outros rapazes missionários] meses em Quito, me colocaram em um
nível emocional totalmente diferente em relação a você comparado ao que eu
sentia antes. Soaria errado dizer que onde você tem tido paz desde o dia que
nos despedimos, eu só tenho tido inquietações de um desejo maior do que
nunca? Onde você tem tido paz, eu me encontro numa perfeita guerra. [...] Eu
poderia mencionar o louco desejo de que os anos passem logo; a antiga
rebelião em perguntar: "porque tem que ser assim com a gente?"...

~ 26 ~
27 de outubro de 1952

Eu tenho sido muito abençoado nas últimas duas semanas com muitos sonhos
com você, os quais, agora que tento lembrá-los, se vão e não são mais do que
uma impressão arrebatadora. Aquela agonia ao levantar, quando me viro
para o lado e não encontro você lá é algo que não consigo suportar por muitos
dias seguidos. Ainda assim e como sempre, o Espírito me dá o conforto do
conhecimento da vontade de maneira simples e frequentemente eu converso
com Ele sobre meu desejo por você, querida, e O questiono acerca da
prolongada negação de um desejo por algo tão bom. E eu oro para que o que
Ele faz por mim, Ele faça por você.

Dezembro de 1952

Esta carta chegará tão próximo do seu aniversário, quanto qualquer coisa que
eu possa lhe dar. Eu bem sei que você fará 26 anos e que nós sempre víamos
esta idade meio que uma linha limítrofe da juventude. Mas isso não me
amedronta. Você continua tão jovem e virgem em meus pensamentos neste
momento quanto você esteve cinco anos atrás, e até mais do que muitas moças
bem mais jovens e eu te amo com o mesmo vigor de menino que sempre me
deixou apegado a você.

Dezembro, 1952

Algumas noites se resumem a ficar acordado, imaginando como seria ficar a


sós com você de novo; outras são turvas com sonhos selvagens, tudo desde
abraços até discussões; e ainda outros, como aconteceu ontem; isso é comum
até mais ou menos 4h30 da manhã. Então aparecem lampejos de esperanças e
planos que se formam e se dissolvem na mente, alguns trechos de conversas,
cenários e o louco desejo para que o alarme dispare, a "doença da esperança
adiada", o grito interno que diz: "até quando?". Às vezes eu acho que será
impossível encontrar e falar com você casualmente, dizendo: "olá, Bett", na

~ 27 ~
presença de outras pessoas, tenho certeza que minha voz vai partir ou eu farei
alguma coisa que nos deixará sem graça. Mas suponho que será como sempre,
a saudação, o breve olhar nos teus olhos, o aperto de mão e as conversas
fiadas sobre coisas que não têm importância. Bem, se o Senhor me preservar
em perfeito juízo até lá, eu serei grato, pois, francamente, eu nunca me senti
assim antes.

[A próxima carta de Jim Elliot foi escrita após o pedido de


casamento que ele fez à Elisabeth]

Janeiro de 1953

Será que algum dia eu serei capaz de te dizer, Betts, o que eu sinto ao ouvir
você me chamar de "querido"? E só em saber que somos completos e pra
sempre comprometidos um com o outro, dando um ao outro poder e prazer,
vendidos um ao outro, pelo bem de nós dois. A bondade e a retidão disso é
indizível. Como poderei expressar o que sinto em gratidão a Deus pelos
direitos e responsabilidades do teu amor? E o que eu deveria te dizer? Não sei.
Somente isto, minha querida Betts, que eu estou fissurado em você com uma
afeição que eu nunca poderei expressar e guardar pra você. com um amor que
é ao mesmo tempo pura ternura e pura força, as quais meu próprio corpo,
tanto no pico da suavidade, quanto no pico do poder, não consegue declarar de
modo satisfatório. Eu te amo. Isso já significou "eu confio em você' e "eu te
valorizo e te admiro". Agora significa que eu, de alguma forma, sou parte tua,
contigo, em ti.

Janeiro de 1953

Estava quente hoje e eu mal pude me forçar a por concreto em duas pilastras...
trabalho duro, e agora estou pronto pra dormir. Mas nem de perto pronto pra
dormir como estaria se você estivesse aqui. Oh, ser capaz de te trazer aqui,
querida e fazer o que tenho sonhado em fazer com as tuas roupas e sentir
mesmo a pele limpa das tuas belas pernas longas contra as minhas pernas

~ 28 ~
masculinas. Trovoadas celestes! Que bênção ofegante seria esta noite. Mas
esta noite vai esperar por nós e será, como você mesma disse, "perfeita"
quando chegarmos lá. Eu anseio te acariciar esta noite, e sussurrar que te
amo, porque agora, eu sou,
fanaticamente
-seu
- Jim.

22 de março de 1953

Como eu poderia te falar, querida, depois de ter mencionado de maneira


descuidada, os seus atributos físicos, que agora eu penso que eles sejam
maravilhosamente concebidos? Eu sei que quando chegar o tempo de eu os ver
por completo eu direi como disse Salomão, "como és formosa, meu amor".
Para mim é satisfatório saber que eles já estão prometidos a mim e que apenas
esperam o tempo de Deus para serem revelados. Você sabe quão ansioso eu
estou?

Abril de 1953

Eu te amo mais intensamente hoje à noite, com um senso de poder, uma


grande e crescente esperança dentro de mim para a consumação do nosso
amor. Não é o desejo tranquilo que geralmente está em mim, mas os punhos
cerrados e o grito de querer te possuir e ambos os braços ansiosos para te
apertar contra mim. É o coração explosivo e o olhar selvagem de paixão, o
sorriso que faz o estômago apertar. Você não pode entender isso de maneira
alguma, e eu não peço que você tente, é apenas uma das maneiras que eu te
amo e ela me toma enquanto eu escrevo. O amor não é somente algo tranquilo
em mim. É uma tensão e uma audácia, um chamado para agarrar e
conquistar... Boa noite, minha destemida amada e que o Deus que te ama mais
do que eu te guarde durante a noite.

* As cartas foram retiradas dos capítulos 39 e 40.

~ 29 ~
Este livro foi traduzido e adaptado por Deijenane Santos, mestre em ciência
política (UFPE), jornalista e tradutora. Para conhecer o trabalho dela, acesse:
Facebook.com/deijenane.santos; Instagram: @deijenane.santos. Suas páginas
trazem conteúdos que falam da vida à luz da Bíblia.

*Esta obra não tem fins lucrativos.

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