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Aprendendo a submeter sua vida amorosa ao Senhor Elisabeth Elliot

Aprendendo a submeter sua vida amorosa ao Senhor

Elisabeth Elliot

Aprendendo a submeter sua vida amorosa ao Senhor Elisabeth Elliot
O arco-íris é feito da luz do sol e de chuva. A luz solar que transformou

O arco-íris é feito da luz do sol e de chuva. A luz solar que transformou meu

mundo numa radiação de cores, foi a descoberta do amor de Jim Elliot. A

chuva foi

o

[

...

]

fato

de

que [

...

]

Deus o havia chamado para permanecer

solteiro. Talvez pela vida inteira ...

O arco-íris é feito da luz do sol e de chuva. A luz solar que transformou

Como amar apaixonadamente e manter-se sexualmente puro? Devo ou não devo

casar? E se sim, com quem? Quais são os papéis dos rapazes e das moças nos

relacionamentos? Como colocar a vontade de Deus acima dos desejos pessoais?

Quais são os limites aceitáveis pela Bíblia em relação à interação entre

namorados? Jim e Elisabeth Elliot amaram tanto ao Senhor Jesus que

dedicaram suas vidas à causa do Mestre. Jim foi martirizado por índios

equatorianos nos anos de 1950, enquanto Elisabeth dedicou toda a sua vida à

obra do Senhor, fosse testemunhando acerca da obra missionária ou

discipulando a juventude acerca da pureza exigida de um cristão. A história de

amor deles foi relatada por Elisabeth neste livro, cujo título original é Passion

and Purity (sem tradução no Brasil, por isso a tradução e a elaboração desta

cópia adaptada), publicado em 1984, no qual a autora descreve a trajetória do

casal com o objetivo de mostrar que sim, é possível amar alguém

profundamente e manter-se puro. Mais do que um livro sobre a história de

amor de um casal, Paixão & Pureza é um manual de como andar neste mundo

sendo um farol que ilumina o caminho por onde passamos. A história desse

casal certamente arrancará algumas lágrimas e também trará lições valiosas

para sua caminhada com Cristo, ajudando você a viver em pureza!

Agora você tem a oportunidade de ler uma parte do livro em

português, aproveite!

Como amar apaixonadamente e manter-se sexualmente puro? Devo ou não devo casar? E se sim, com

Prefácio

Na minha época, nós teríamos chamado de casos de amor ou romances. Agora,

eles são chamados de relacionamentos. A palavra amor tem passado por maus

momentos. Para muitas pessoas isso não significa nada mais nada menos do

que dormir com alguém, não importa a que sexo o outro possa pertencer.

Adesivos para carros substituem com uma imagem de um coração vermelho a

palavra amor, a qual é aplicada para qualquer coisa, qualquer um, em qualquer

lugar. Em algumas reuniões cristãs, pessoas são convidadas a se virar e olhar a

pessoa ao lado delas, cara a cara, mesmo que este indivíduo seja um perfeito

desconhecido, e dizer, com um largo sorriso e sem o menor traço de

acanhamento, “Deus ama você e eu também”, provando essa afirmação com um

forte abraço. Isso aparentemente faz com que algumas destas pessoas se sintam

bem. Talvez, seja possível até convencê-las de que elas obedeceram ao segundo

comando mais forte já posto sobre os seres humanos: amar uns aos outros como

Cristo os amou. Não é de se surpreender que as pessoas busquem outras

palavras para descrever o que sentem por um indivíduo do sexo oposto. É novo.

É legal. É realmente puro. É especial. “O que é especial?” Às vezes pergunto.

“Bem, você sabe, isso, o relacionamento.” “O relacionamento, exatamente?”

“Bem, eu não sei, você sabe, é como, eu quero dizer, é apenas muito legal.”

Uma professora me escreveu recentemente sobre a “crescente amizade” com um

homem que trabalhava com ela. Ele tinha ido a um estado distante, e ela estava

se sentindo muito solitária e incerta sobre o futuro. Ela não tinha certeza sobre o

que exatamente sua relação tinha sido ou era agora ou poderia vir a ser, mas ao

ter contato com os meus escritos sobre assuntos do coração, ela queria saber

mais. “Eu quero saber um pouco do que você estava pensando, se possível.

Quais foram os seus sentimentos? O que passava pela sua mente? Será que suas

emoções estavam muitas vezes em conflito com o seu pensamento? Se você

puder gastar alguns minutos e escrever de volta, eu iria me agarrar a quaisquer

palavras de sabedoria que você tivesse”. Claro que gastei alguns minutos. As

cartas continuam chegando, me bombardeando com perguntas sobre essa área,

sugerindo que a experiência de uma geração, ainda que esta possa ser diferente

da experiência de outras gerações, possa ajudar a mostrar como os jovens se

Prefácio Na minha época, nós teríamos chamado de casos de amor ou romances . Agora, eles

sentem no que se refere às questões do coração. Aqui estão trechos de outras

cartas: “Estou escrevendo para você como uma jovem mulher que procura o

mais honestamente possível ser obediente a Deus, conhecer a sabedoria e o

discernimento, para ser agradável e fiel e esperar Nele. Minha caminhada com

Cristo é sim uma só. Me falta conhecer a liderança espiritual de uma mulher que

seja mais velha do que eu, sei que algumas coisas deveriam ser ensinadas pelas

mulheres mais velhas às mais novas. Eu sei que você é uma serva, e espero que

você possa responder”. "Como uma mulher deve se comportar, se o homem não

está cumprindo o seu papel?" "Como saberei que esta mulher é certa para

mim?" “Até onde podemos ir sem um compromisso de casamento?" "Até onde

podemos ir, se tivermos esse compromisso?”

"Qual é o nosso papel enquanto esperamos o homem de Deus?" “Você parece

tão forte e inabalável na sua fé. Cada vez mais, eu digo a Deus que eu não

aguento mais isso. Eu desisto. Digo ao Senhor que estou louca. Você nunca

vacila e sente que não pode ir em frente? Você nunca teve momentos em que

pensou em desistir?” "Você quis lutar com o desejo de estar com Jim todos os

anos enquanto estavam separados?" "Você quis lutar com o fato de estar

solteira, mas seu coração ansiar por Jim?" “Se Tom não tivesse aparecido em

minha vida, todos os meus pensamentos estariam focados no Senhor. Não

haveria conflito. Isso me incomoda muito, estou sozinha e choro tão facilmente,

quase como se meu coração estivesse se partindo. Isso é parte do plano de

Deus?” "Como você lidou com a impaciência de querer estar com o homem que

amava?" Eu respondo todas as cartas que chegam. Vejo-me tantas vezes

tentando colocar em palavras as lições que saíram da minha própria

experiência. Estive lá onde estes homens e mulheres estão. Eu sei exatamente o

que eles querem dizer. Temo que minhas respostas a eles possam parecer,

muitas vezes, secas e diretas. “Oh, ela é muito teimosa. Ela não tem qualquer

simpatia. Ela é do tipo forte; ela nunca agonizou como eu tenho agonizado. E a

maneira como ela dá conselhos! Faça isso, não faça isso, confie em Deus, ponto

final. Eu não posso lidar com isso”. Eu ouvi as objeções. Eu já as ouvi sem

querer, também. Em cafeterias de faculdades, depois de uma palestra que eu

dei; próximo à mesa eles estão folheando meus livros, sem saber que a autora

está sentada a sua esquerda, com ambos os ouvidos abertos. Eu pensei que se eu

sentem no que se refere às questões do coração. Aqui estão trechos de outras cartas: “Estou

colocasse essas coisas em um livro, elas não pareceriam tão secas e diretas como

geralmente acontece em cartas curtas, de uma página. Talvez eu deva dizer o

suficiente sobre minha própria história para servir como prova de que eu estive

lá. Seria possível dizê-lo sem ser piegas? Sem parecer estar muito distante da

realidade de pessoas cujo vocabulário é diferente, mas cujos gritos são ecos

claros da minha própria história? Eu espero que eu possa fazê-lo. Mas, para

fazer isso, devo correr o risco de me expor bastante. Eu preciso mostrar meus

próprios anseios e alguns do Jim, minhas próprias fraquezas, meus deslizes,

porém jamais todos eles (se você soubesse o quanto eu deixei de fora!).

Apresento apenas algumas amostras. Assim, o livro cresceu. Cartas escritas para

mim durante os últimos cinco ou dez anos são citadas. Meus próprios diários de

trinta a trinta e cinco anos atrás. Cartas de Jim Elliot. Declarações que se

aplicam aos princípios abordados no livro. A estrutura do livro é a história de

cinco anos e meio de amor por um homem, Jim, aprendendo a ser disciplinada

nas áreas do desejo, da solidão, da incerteza, da esperança, da confiança e do

compromisso incondicional com Cristo, um compromisso que exigia que,

independentemente da paixão que pudéssemos sentir, tínhamos que ser puros.

Pra ser franca, este é um livro sobre virgindade. É possível amar

apaixonadamente e não dormir junto. Eu sei. Nós conseguimos. Tenho eu algo a

dizer, então, àqueles que já tenham dormido juntos? Eu teria que ter a cabeça

enterrada na areia para imaginar que meus leitores solteiros são todos virgens.

Aqueles que já entregaram sua virgindade também escrevem para mim, alguns

deles em desespero, achando que eles estão para sempre banidos da pureza. Eu

escrevo para lhes dizer que não há pureza alguma em qualquer um de nós a não

ser pelo sangue de Jesus. Todos nós, sem exceção, somos pecadores e

pecaminosos, alguns de uma maneira, outros de outra. Se eu puder ajudar

algumas pessoas a evitar o pecado, eu quero fazer isso. Se eu puder mostrar aos

outros que a mensagem do evangelho é a possibilidade de um novo nascimento,

um novo começo e uma nova criação, eu quero fazer isso. A vida amorosa de um

cristão é um campo de batalha crucial. Lá, como em nenhum outro lugar, será

determinado quem é senhor: o mundo, o eu e o diabo, ou o Senhor Jesus Cristo.

É por isso que assumi o risco. Minha própria história de amor pode ser mais ou

colocasse essas coisas em um livro, elas não pareceriam tão secas e diretas como geralmente acontece

menos de interesse para alguns; as cartas do tipo “Dear Abby” 1 e minhas

respostas podem ser divertidas; mas a minha principal preocupação é que os

leitores considerem a autoridade de Cristo sobre a paixão humana e voltem seus

corações para a pureza. Na providência de Deus, eu tive três chances para

refletir e tentar praticar os princípios sobre os quais escrevo aqui. Fui casada

três vezes: com Jim Elliot, morto por índios na selva equatoriana; Addison

Leitch, morto por câncer; e Lars Gren, que se sente bem no dia em que estou

escrevendo isso. Lars já durou quase seis anos, tempo maior do que Jim ou

Addison, então ele diz que é o “líder na corrida.” Ele pode me superar! Eu não

vou contar as histórias de todos os três. A parte de Jim Elliot deve bastar como

uma estrutura para o que eu quero dizer. Aqui está uma cronologia dessa

história:

1947- Ambos éramos estudantes da Faculdade Wheaton, Illinois. Ele visita a

nossa casa em Nova Jersey no Natal.

1948- Jim confessa seu amor por mim logo após eu me formar. Verão, eu em

Oklahoma, ele viajando com uma equipe de evangelismo. Nenhuma

correspondência entre nós. Outono, sua decisão de começar a escrever para

mim quando eu for para o Canadá para a escola de teologia.

1949- Jim se forma, vai para casa em Portland, Oregon. Eu trabalho em

Alberta, em seguida, ele visita sua casa.

1950- Jim em casa, trabalhando, estudando, preparando-se para o trabalho

missionário. Eu, na Flórida. Passamos dois dias em Wheaton quando meu

irmão Dave Howard se casou.

1951- Nos encontramos novamente quando Jim veio pro Leste falar em

reuniões missionárias em Nova York e Nova Jersey.

1952- Fevereiro, Jim navega para o Equador. Abril, eu navego para o Equador.

Passo vários meses em Quito, vivendo com famílias equatorianas para aprender

espanhol por “imersão”. Agosto, Jim se muda para Shandia na selva oriental

para trabalhar com índios Quichua. Setembro, eu me mudo para San Miguel na

selva ocidental para trabalhar com índios Colorados.

1 Coluna de jornal escrita por uma mulher que dá conselhos aos leitores

~ 8 ~
~ 8 ~

1953- Janeiro, nos encontramos em Quito, Jim me pede para casar com ele.

Noivado anunciado. Junho, eu me mudo para Dos Rios, selva oriental, para

começar o estudo de Quichua, cumprindo a condição da proposta de casamento

de Jim, “eu não vou me casar com você até que você aprenda.” 08 de outubro,

casamos em Quito.

1955- Nasce nossa filha Valerie.

1956- Jim morre pelas lanças dos Aucas.

*Para a história completa, leia Através dos Portais do Esplendor [Through Gates

of Splendor], à Sombra do Onipotente [Shadow of the Almighty], e os Diários de

Jim Elliot [The Journals of Jim Elliot].

1953- Janeiro, nos encontramos em Quito, Jim me pede para casar com ele. Noivado anunciado. Junho,

1

Eu, Senhor, solteira?

Não havia uma grade vista da janela. A principal visão eram as latas de lixo por trás do refeitório. As janelas fechadas não impediam os ruídos do início da manhã nem o mau cheiro vindo da cozinha. Entretanto, eu estava muito contente por ter aquele pequeno espaço. Era um quarto individual, algo que eu esperava e que finalmente consegui quando me tornei uma veterana na faculdade. Tinha uma cama, uma escrivaninha, uma estante de livros, e no canto, próximo à janela, uma mesinha com uma cadeira e uma luminária. Um lugar de tranquilidade e silêncio, um "lugar secreto", daquele tipo mencionado por Jesus, destinado à oração. Eu estudava e fazia algumas das minhas orações à mesinha. Havia algumas árvores Maple 2 , um olmeiro antigo atrás das latas de lixo e eu sempre me distraía com os esquilos que viviam lá. Eu os observava se preparando para o inverno, destruindo o que viam pela frente, transportando de modo frenético suas provisões, reclamando, conversando e balançando as caudas. Eu via as folhas das árvores mudarem de cor e cair, observava a chuva grudá-las à estrada. Eu via a neve cair nestas árvores e nas latas de lixo. Não é nem um pouco difícil me colocar naquela cadeira próxima à mesinha. Hoje em dia, quando me sento a uma mesinha diferente e leio cartas de jovens confusos, eu me torno aquela garota novamente, que olhava a neve. O que eu usava não era tão diferente do que se usa nos dias de hoje, os estilos, geralmente fecham um ciclo em uma média de 35 anos. Eu tinha três saias, três suéteres e algumas blusas, e fazia o possível para mesclá-las, para que parecesse que eu estava usando roupas novas. As quartas-feiras eram fáceis.

2 Conhecida no Brasil como Bordo de Açúcar (Acer Saccharum)

~ 10 ~

Todos na aula dos veteranos usavam o mesmo casaco de lã azul com o emblema da faculdade costurado acima do bolso do peito. Meu cabelo me dava muito trabalho. Era loiro. Não tinha uma ondulação sequer, e crescia mais de dois centímetros e meio por mês. Como teria sido fácil usá-lo longo e liso, mas isto era impensável à época. Meus cachos eram resultado de um trabalho improvisado. Eu só podia pagar por um permanente [procedimento para ondular os cabelos] por ano. No resto do tempo, eu usava o antigo sistema de alfinetes para fazer cachos, enrolando mechas de cabelo com os dedos, todas as noites, antes de dormir, prendendo-as com um grampo. Se eu não podia fazer muito pelo meu cabelo, eu podia fazer menos ainda pelo meu rosto. Assim como a maioria das garotas, eu queria ser bonita, mas parecia-me fútil tentar interferir muito naquilo que eu havia recebido, por isso eu só usava uma dose moderada de batom claro (algo chamado Tangee, 3 que custava dez centavos) e um pouco de pó no meu nariz. Eu precisava daquela salinha aconchegante naquele ano, talvez como nunca antes. Alguns assuntos que iriam determinar os rumos da minha vida deveriam ser encarados. No verão anterior, eu havia terminado de orar para saber se eu deveria ou não ser uma missionária. Eu deveria. Após passar pelo o que meus amigos da igreja Plymouth Brethren chamariam de exercício e o que as pessoas hoje em dia chamariam de luta, estava finalmente claro. A dificuldade não estava relacionada a uma falta de vontade de cruzar um oceano ou viver sob um teto de palha, mas ao fato de eu querer saber se aquilo era minha ideia ou de Deus, e se eu deveria ser uma cirurgiã (eu amava dissecar coisas) ou uma linguista. Eu cheguei à conclusão de que foi Deus que me chamou e que a chamada era para linguística. Eu pedi confirmação da parte do Senhor e a obtive. Assim foi. Mas havia outro assunto, de modo algum encerrado. Era o assunto para o qual Deus sabia que eu precisaria de um “lugar secreto”. Era a respeito de ficar

3 Marca de cosméticos americana, popular por seu batom que muda de cor de acordo com o tom de pele da usuária. Esse batom ficou bastante famoso a partir dos anos de 1940s.

~ 11 ~

sozinha, pelo resto da minha vida. Eu dizia, “eu, Senhor, solteira?” O assunto

parecia surgir entre mim e meus livros de grego, quando eu sentava à mesinha; entre mim e minha Bíblia, quando eu tentava ouvir Deus falar. Esse assunto era uma obstrução as minhas orações e o objeto de sonhos recorrentes. Eu falava constantemente com Deus sobre esse assunto. Eu não me lembro de ter falado com mais ninguém sobre isso por vários meses. As duas moças com quem eu dividia o espaço do qual meu quarto ocupava um terço não eram do tipo extremamente popular de quem eu teria inveja. Elas eram garotas calmas e sensatas e um pouco mais velhas que eu. Uma delas estudava música e passava a maior parte do tempo tocando o seu instrumento no conservatório; a outra, uma ex-integrante da reserva feminina da Marinha Americana,

habilidosa no tricô de meias do tipo Argyle (em formato de diamantes e

losangos). De fato, ambas fizeram incontáveis pares de meias e luvas de tricô

e as enviaram por encomendas postais. “Quando você tem uma agulha nas mãos”, Jane me disse um dia, “você está perdida, não está?” Comparada

àquelas duas moças, eu estava. Após a faculdade, Jane se casou. Bárbara ainda está solteira. Eu não me recordo de qualquer conversa com elas sobre amor e casamento (embora nós devamos ter tido alguma), mas tenho muita certeza de que para cada uma de nós três, a solteirice significava uma coisa apenas:

virgindade. Se você fosse solteira, isso significava que você não havia dormido com homem nenhum. Se você ficasse solteira permanentemente, você nunca iria dormir com homem algum. Isso foi há cem anos atrás, é claro. Mas, mesmo há cem anos atrás qualquer pessoa que acreditasse nisso e agisse de acordo seria vista como alguém estranho por muitas pessoas. Talvez, fôssemos a minoria, não tenho certeza disso. Certamente a maioria professava crer que a atividade sexual seria limitada para os casados, quer suas vidas privadas mostrassem ou não tal convicção. Contudo, neste momento, no começo do século XXI, os tempos mudaram, é o que dizem. Durante anos, a sociedade dependeu de algum tipo de ordem no que se refere ao sexo. Um homem tomava uma esposa (ou esposas) dentro de alguma regulamentação instituída e vivia com ela (ou elas)

~ 12 ~

segundo regras reconhecidas. Ele “se envolvia” com mulheres de outros somente para a sua destruição. Uma mulher sabia que possuía um tesouro incalculável, sua virgindade. Ela o guardava com cuidado para o homem que pagaria por este presente, através do compromisso do casamento com esta mulher e somente com ela. Até mesmo nas sociedades nas quais a poligamia era permitida, havia leis que regulavam as responsabilidades dos cônjuges, regras das quais dependia toda a estabilidade de tal sociedade. De alguma maneira, achamos que podemos passar por cima das regras e não receber a recompensa por isso. Os tempos mudaram, dizemos. Finalmente, somos “emancipados” de nossas inibições. Temos o Sex and the Single Girl (O Sexo e a Garota Solteira) 4 . Temos liberdade. Podemos, de fato, “fazer tudo e não se apegar”. As mulheres podem ser predadoras, se quiserem, assim como os

homens. Homens não são homens, a menos que eles o provem isso através da sedução de quantas mulheres eles puderem seduzir, ou quantos homens,

porque agora podemos escolher segundo a “preferência sexual”. Podemos

dormir com gente do sexo oposto ou do mesmo sexo. Não importa. Uma mera

questão de gosto e todos nós temos “direito” em relação aos nossos gostos.

Todo mundo é igual. Todo mundo é livre. Ninguém se apega mais ou precisa negar-se qualquer coisa. Na verdade, ninguém deve negar a si qualquer coisa que se queira muito, é perigoso. Não é saudável. É doentio. Se te faz sentir bem e você não o faz, você é paranoico. Se não te faz sentir bem e você o faz, você é um masoquista. A razão pela qual minhas colegas de quarto e eu críamos que a solteirice era sinônimo de virgindade não era o fato de sermos estudantes universitárias de cem anos atrás, quando todo mundo cria nisso. Não era porque não tínhamos conhecimento. Não era porque fôssemos tão ingênuas para saber que as pessoas cometem fornicação e adultério há milênios. Não era porque não fôssemos emancipadas ou simplesmente

4 Sex and the Single Girl é um livro de 1962 da escritora americana Helen Gurley Brown, escrito como um livro de conselhos que encorajava as mulheres a se tornarem financeiramente independentes e a vivenciarem relações sexuais antes ou sem o casamento.

~ 13 ~

estúpidas. A razão era porque éramos cristãs. Valorizávamos a santidade do sexo. Eu me sentei à mesinha, próxima à janela e pensei bastante sobre casamento.

Eu sabia o tipo de homem que queria. Ele teria que ser um homem que valorizasse a virgindade, a sua própria e a minha, tanto quanto eu valorizava. O que as mulheres querem hoje? O que os homens querem? Refiro-me ao que

eles desejam lá no fundo. O que eles realmente querem? Se os “tempos”

mudaram, os desejos humanos também mudaram? E os princípios? Os princípios cristãos mudaram? Eu digo não às últimas três perguntas. Um enfático não. Estou convicta de que o coração humano tem fome de constância. Ao comprometer a santidade do sexo por encontros casuais nos quais há contato físico íntimo, nós perdemos algo do qual não podemos nos privar. Existe uma apatia, uma certa monotonia, um completo tédio na vida como um todo, quando a virgindade não é mais protegida e valorizada. Ao buscarmos satisfação em toda parte, não a encontramos em lugar algum.

~ 14 ~

2

A vida que não me pertence

Um jovem pregador britânico chamado Stephen Olford ministrou palestras na

capela de nossa faculdade durante semana. Duas coisas que ele disse ficaram

guardadas em mim: ele citou o livro dos Cânticos dos Cânticos, Mulheres de

Jerusalém, eu as faço jurar: Não despertem nem incomodem o amor enquanto

ele não o quiser 5 ”. Na interpretação do palestrante sobre esta passagem,

ninguém, homem ou mulher, deveria se inquietar em relação à escolha do

futuro cônjuge, mas deveria estar “adormecido (a)”, na vontade do Senhor, até

que Deus os “despertasse”. A outra coisa que ele nos aconselhou foi termos um

diário espiritual. Eu estava determinada a seguir seu conselho em relação às

duas situações. Eu comprei um fichário marrom e pequeno, quase do mesmo

tamanho da minha pequena Bíblia de couro marrom, recebida dos meus pais no

natal de 1940. Eu os mantinha sempre juntos. Eu escrevi em uma das páginas

do caderno as palavras gregas que significam “para mim o viver é Cristo

...

” Na

primeira página eu copiei uma estrofe do hino de Annie R. Cousin, baseado nas

palavras de Samuel Rutherford:

Ó Cristo, Ele é a fonte, A profunda e doce fonte do amor! Quanto mais provo das fontes da terra, Mais beberei das fontes celestes:

Lá, para um oceano de plenitude, Sua graça se expande, E glória, glória, habita Na terra do Emanuel.

5 Cap.8, versículo 4.

~ 15 ~

No capítulo 2, Elisabeth Elliot fala sobre honrarmos ao Senhor com nossas

vidas, pois Ele nos criou para sermos Dele e honrá-lo em todas as áreas de nosso

viver. Ela menciona que aprendeu duas coisas: a não despertar o amor até que

Deus o faça e a escrever em um diário a sua jornada espiritual. Ela cita vários

versos bíblicos, poemas e hinos que edificaram sua vida grandemente durante

aquele período de incertezas da juventude.

Já o capítulo 3 se inicia com estas palavras: “a confusão que acompanhava

minhas orações mais sinceras, não me surpreende agora. Se existe um Inimigo

das Almas (e não tenho a menor dúvida de que existe), uma coisa que ele não

suporta é o desejo pela pureza. Dessa forma, as paixões de um homem ou uma

mulher se tornam o seu campo de batalha. O Amante das Almas não impede que

isso aconteça. Eu estava perplexa, porque eu achava que Ele me pouparia, mas

Ele não o faz. Ele quer que aprendamos a usar nossas armas

....

Elisabeth

menciona a situação de confusão em que se encontrava, se envolvendo com

alguns rapazes nos chamados dates (quando os rapazes convidam uma moça

para sair), mesmo sabendo que nenhum daqueles moços se encaixaria no perfil

de marido que ela tinha em mente. Ela também sofria com as dúvidas sobre sua

solteirice. Elisabeth menciona em seu diário que conheceu Jim Elliot (“boa

conversa, um rapaz maravilhoso”) em 23 de março de 1947. Ela discute a carta

de uma jovem que tinha dúvidas sobre um rapaz que não tomava iniciativa no

relacionamento. Elliot menciona o constante anseio feminino pelo amor de um

homem, enquanto este homem sempre deseja perambular, experimentar e

conquistar, mesmo que lá no fundo ele também deseje o aconchego de um lar e

a presença de uma esposa piedosa. Falando de sua luta na área sentimental

Elisabeth afirma: “foi na área sentimental que meu coração foi sondado,

esquadrinhado e exposto, o processo de purificação tinha começado ” ....

~ 16 ~

4

Paixões Indomáveis

Elliot trata das dificuldades enfrentadas por aqueles que desejam entregar suas

paixões ao Senhor. A autora afirma que nada é mais difícil de controlar do que

um coração apaixonado, “controlar nossas paixões e desejos obstinados nos

custará algo”, ou seja, você jamais conseguirá domar suas paixões se não estiver

disposto a pagar um alto preço por isso. A recompensa? A paz que sentimos

quando obedecemos ao Senhor! Ela prossegue falando de seu interesse por Jim

Elliot: “havia um estudante no campus que eu estava observando há um tempo,

desde aquele dia em março quando eu o conheci e conversei com ele. Meu irmão

Dave insistia para que eu me aproximasse dele, desde então, mas sem muito

sucesso [

...

]

Eu reparei no Jim na Foreign Missions Fellowship (Sociedade das

Missões Transculturais), ele era sincero, comprometido, direto (particularmente

com aqueles que não se interessavam por missões). Eu o notei nas filas do

refeitório com pequenos cartões brancos nas mãos, memorizando verbos gregos

ou passagens da Bíblia. Eu ouvi seu nome semestre após semestre ser lido em

alta voz em homenagens. Finalmente, Dave o convidou para ir conosco a nossa

casa em Nova Jérsei para o natal. Tivemos conversas bem longas depois que a

família foi dormir. Quanto mais Jim falava, mais eu via que ele se encaixava na

visão que eu tinha de um marido. Ele amava louvar hinos, e conhecia vários de

cor. Ele amava ler poesia. Amava lê-las alto. Ele era um homem de verdade,

forte, de ombros largos, sem rodeios e amigável, e eu o achava muito lindo. Ele

amava a Deus. Esta era a suprema dinâmica de sua vida. Nada mais interessava.

Ele estudava grego, assim como eu. Depois do natal eu esperava que ele sentasse

perto de mim nas aulas de vez em quando. Ele sentava. Ele sentava perto de

mim com frequência, mesmo quando às vezes ele tropeçava nas pessoas para

conseguir um assento. Isso era possível

...

?

Será que ele estaria interessado ...

?

Minhas esperanças cresceram, mas bem timidamente.” Elisabeth segue falando

de seus contatos com Jim, que a convida pra sair e tomar uma Coca-Cola,

enquanto a repreende sobre a timidez que a impedia de ser mais amigável com

~ 17 ~

as pessoas e de ser ainda mais usada por Deus. Sobre os conselhos de Jim e seu

caráter de liderança cristã, Elisabeth recorda: “Eu fiquei um pouco magoada.

Mas fiquei feliz de ver a franqueza de Jim, feliz de ser importante para ele,

importante o bastante para ele falar a verdade pra mim de maneira firme. Essa

sinceridade era item da minha “listinha”, esse era o tipo de homem que eu

procurava” [

...

]

cada encontro aumentava a suspeita de que eu poderia estar me

apaixonando por este homem. Um sentimento delicioso, mas não muito sensato

para uma moça que planejava ir ao campo missionário

...

[

...

]

“Como podemos

colocar aos pés do Senhor o tesouro do amor que se sente?”

No capítulo 5 Elisabeth diz: “Deus esquadrinhou o coração dos homens no

Antigo Testamento. [

...

]

Deus continuou a sondar os corações no Novo

Testamento”. Elisabeth menciona histórias de homens que foram testados por

Deus, tais quais Abraão e Paulo e se mostra perplexa diante do fato de que

intelectualmente ela conseguia entender a fé destes homens diante das provas

pelas quais passaram, mas quando olhava para sua situação com Jim Elliot,

Elisabeth tinha uma opinião bem diferente

...

“Gigantes da fé como Abraão e

Paulo tinham que ser provados com grandes provações. Eu era apenas uma

universitária tentando me sair bem nos estudos, orando por direção na minha

vida, atraída por um homem muito interessante cujo interesse principal era o

Reino de Deus. Há algo de errado nisso? Se você deseja ir até o fim

...

essa

questão não apareceu apenas intelectualmente. Meu coração e meus

sentimentos estavam envolvidos agora e eu preciso dar uma resposta. Deus

estava me sondando naquele momento. Eu queria ir até o final [por Cristo]?

Sim, Senhor. Você quer ser digna de mim? Sim Senhor. Você quer conhecer

Cristo Jesus como Senhor? Certamente, Senhor [

...

].

Que tipo de Deus é esse

que exige que entreguemos tudo? O mesmo Deus que ‘não poupou a seu próprio

Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos dará juntamente com ele, e

de graça, todas as coisas?’

Ele entrega tudo.

Ele pede tudo.

02 de abril: temo dar lugar a minha vontade e arruinar minha utilidade

para Deus. É muito fácil dar vazão aos meus sentimentos

...

ir contra a voz do

Senhor quando Ele diz, ‘esse é o caminho, ande nele’.

~ 18 ~

Eu queria ser amada. Nada de novo nisso. Nada que separe minha geração de

qualquer outra. Mas eu queria algo profundo. No meio de toda a tolice do meu

diário, no meio do joio que o vento do Espírito levava pra longe, havia algum

trigo

[

...

]

Milhares de perguntas inundavam minha mente, as mesmas

indagações que encontro nas cartas que recebo. Eu achava que algumas das

minhas eram novas. Não eram. Mas a pergunta que precede todas as outras e

que determina o curso de nossas vidas é ‘O que eu realmente quero?’ Seria amar

o que Deus ordena [

...

]

e desejar o que Ele promete? Eu queria o que eu queria

ou o que Ele queria, não importa o quanto isso custasse? Até que a vontade e as

paixões sejam postas debaixo da autoridade de Cristo, não começamos a

entender e muito menos a aceitar o senhorio Dele. A cruz, ao entrar na vida

amorosa, revelará a verdade do coração. Eu sabia que meu coração seria pra

sempre um caçador solitário, a não ser que ele se estabelecesse ‘onde a

verdadeira alegria se encontra’.”

No capítulo 6, Elisabeth menciona a história de uma jovem cujas ideias eram

bastante mundanas no que se refere ao ideal de marido e trata de um ponto

nebuloso para as mulheres cristãs num mundo secular e sem Deus: a

mentalidade sedutora de que devemos buscar um esposo segundo os padrões

sociais e não segundo o caráter de um homem cristão. Elliot corrige a visão

equivocada da moça em relação ao tipo de homem que ela deve desejar para

casar, mostrando que condições financeiras e posições neste mundo não devem

nortear a mente de uma jovem quando esta for escolher com quem casar.

Elisabeth ainda desconstrói a visão deturpada da jovem, que achava que Deus

daria um moço a ela porque como filha de Deus Ele deveria lhe dar os desejos

do seu coração para que ela fosse feliz! Elliot afirma que esse pensamento da

moça tem origem lá no Éden, com Eva deixando o mandamento do Senhor para

dar ouvidos à serpente que lhe disse que Deus escondia algo melhor dela ...

Elisabeth ensina à moça que o desejo do Senhor é que ela seja santa.

De modo resumido, o capítulo trata da velha questão: se Deus me ama, por que

Ele não me deu um marido? A partir daí, satanás tenta dizer coisas do tipo: você

não é amada como as outras moças, ninguém deseja casar com você

...

Elisabeth

alerta para as ideias que o diabo implanta nas mentes das moças. Elas precisam

saber que o valor delas está em Cristo e não num esposo!

~ 19 ~

O capítulo 7 assim se inicia: “o primeiro encontro para o qual Jim me

convidou aconteceu num encontro missionário na Igreja Moody em Chicago, no

fim de abril [

...

]

Não é de surpreender que ele tenha escolhido um evento como

esse ao invés de um concerto ou um jantar".

  • 01 de maio de 1948: Hoje foi um dia de teste. Uma carta chegou [

...]

e me

pôs de joelhos [

...

].

  • 02 de maio: passei toda a manhã com o Senhor [

...

]

é difícil lidar com essa

coisa nova. Quero fazer a vontade de Deus, mas não sei se meus desejos são

errados e devem ser ‘extirpados’ [ ] ...

A carta, é claro, era de Jim. [

...

]

essa ‘coisa nova’ era o forte sentimento que de

repente acordou quando eu pensava que estava aprendendo a ficar ‘adormecida’

na vontade de Deus. Eu estava bem acordada.

  • 06 de maio: [

...

]

Como Deus pode operar Sua vontade em mim se eu estou

tomada pelos meus próprios desejos? Que seja feita a Tua vontade.

Eu estava daquele jeito! Queria que os meus desejos fossem os desejos de Deus,

e se eles não fossem os desejos de Deus, eu desejava que meu desejos

desaparecessem, mas os desejos continuavam lá” ......

~ 20 ~

8

Amor que não falha

Como posso saber o que Deus quer que eu faça, se eu não sei o que quero fazer?

[

...

]

Por que não começar dizendo a Deus que você fará tudo o que Ele diz? Você

é o servo. Ele é o Mestre. É a única maneira racional, não é? Além do mais, há a

possibilidade de que o que Ele disser seja algo que você vai gostar. Elisabeth

prossegue mencionando acerca do estado da juventude à época (1984), a qual

buscava uma vida de prazeres sem compromissos e não pensava duas vezes na

hora de conseguir o que queria. Elliot fala que o lema dessa juventude era: " o

que vou ganhar com isso?" e " eu não ligo pra o que acontece com o outro".

Elliot prossegue: "há mais de um milhão de gravidezes por ano entre as

adolescentes solteiras com menos de 20 anos [

...

]

O que elas querem, elas

conseguem, e conseguem de todo jeito. Onde foi que aprenderam isso?

Algumas, infelizmente, com os próprios pais, os quais não assumem a

responsabilidade do casamento, do lar, dos filhos e os trocam por outro 'estilo

de vida', outro parceiro, outra carreira, outra oferta de felicidade que sempre vai

iludi-los. Se uma mãe ou um pai, pelo seu comportamento, dizem, 'é minha

vida, é isso o que quero, o resto que se exploda', seus filhos vão seguir o

exemplo. Quem lhes mostra outra alternativa? Seria ingênuo supor que não há

alguns prazeres ao longo do caminho. Há muita coisa que as pessoas acham

divertidas. Há emoções, gratificações e 'experiências'". Há um caminho que ao

homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte. Até no riso o

coração sente dor e o fim da alegria é tristeza. [Provérbios 14.12-13] Há outra

maneira: amar o que Deus ordena e desejar o que Ele promete. Isso só se

consegue pela oração e obediência. Isso nos leva para o lado oposto, nos leva ao

lugar onde as coisas não dependem de tendências e opiniões mutáveis. É um

lugar no qual o coração de um homem pode descansar, e o coração da mulher,

também [ ]." ...

~ 21 ~

[ ... ] Nos dias que se seguiram a nossa conversa na lagoa, eu orei por

[

...

]

Nos dias que se seguiram a nossa conversa na lagoa, eu orei por aquela

harmonia santa. Parecia impossível que aquela torrente de paixão pudesse ser

trazida para o rio calmo dos propósitos de Deus para Jim e para mim, mas eu

orei por isso, assim mesmo. Havíamos sentado na grama perto da lagoa, e

conversamos a respeito de como cada um de nós havia agonizado em relação à

questão da solteirice, sabendo que as nossas chances de encontrar um

pretendente no campo missionário seriam muito limitadas. Jim falou que não

tinha intenções de procurar uma pretendente. Ele havia encontrado a que

desejava. "Seu me casar, sei com quem será, claro, se ela quiser". Ele deu aquele

famoso sorriso irradiante. Eu também sorri. Ele se apressou em dizer: "mas não

estou propondo, não posso fazer isso, Bett, e você terá que entender isso. Não

posso te pedir em casamento e não posso te pedir para se comprometer com o

que quer que seja. Eu nem mesmo posso te pedir para esperar. Eu entreguei

você e todos os meus sentimentos por você a Deus. Ele terá que resolver isso da

~ 22 ~

forma que Ele desejar". Ele podia? minha mente estava cheia de indagações. Eu

agradeci a Deus por um homem que coloca o Senhor em primeiro lugar. Eu não

poderia ter ficado tão empolgada por quem não tivesse a mesma fome espiritual

que eu. Mas Jim não era apenas espiritual. Ele era muito físico. Ele tinha o

biotipo de um lutador: pescoço forte, peitoral, braços e pernas musculosas. Ele

tinha cabelos castanhos, pele clara, olhos azuis, lindos dentes e um belo queixo

quadrado.

"Eu desejo você Bett", ele disse. Ele não era de rodeios. "Somos iguais em nosso

desejo por Deus. Fico feliz por isso. Mas somos diferentes, também. Eu tenho o

corpo de um homem e você tem o corpo de uma mulher, e, francamente, eu te

quero. Mas você não é minha". Eu não era dele, era de Deus. Isso estava claro.

Mas o que Deus ia fazer com tudo isso? Ele estaria interessado no drama de dois

universitários, será que nossa causa não escapou da vista Dele? Ele se

preocuparia conosco, quando Ele está ocupado com não se sabe quantos

mundos?

"Ergam os olhos e olhem para as alturas. Quem criou tudo isso? Aquele que põe em marcha cada estrela do seu exército celestial, e a todas chama pelo nome. Tão grande é o seu poder e tão imensa a sua força, que nenhuma delas deixa de comparecer!" Isaías 40:26

Nenhuma estrela, nem planeta, nem meteorito ou um quasar, não, nem mesmo

um buraco negro ou uma Anã Negra (tipo de estrela) está faltando. Deus os fez.

Ele sabe seus nomes, sabe exatamente onde eles estão. Será que Ele pode vigiar

cada um de nós?

"Por que dizes, ó Jacó, e tu falas, ó Israel: O meu caminho está encoberto ao Senhor, e o meu juízo passa despercebido ao meu Deus? Não sabes, não ouviste que o eterno Deus, o Senhor, o Criador dos fins da terra, nem se cansa nem se fatiga? É inescrutável o seu entendimento. Dá força ao cansado, e multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor. Os jovens se cansarão e se fatigarão, e os moços certamente cairão; Mas os que esperam no Senhor renovarão as forças, subirão com asas como águias; correrão, e não se cansarão; caminharão, e não se fatigarão". Isaías 40:27-31

[

...

]

Eu estava chocada ao perceber que não conseguia pensar, ler ou orar, a não

ser sobre Jim Elliot. Ele aparecia em cada pensamento, cada linha que eu lia na

Bíblia ou em qualquer outro lugar. Ele se misturava com a morfologia, a sintaxe

~ 23 ~

e a fonética que eu estava tentando enfiar na cabeça. Ele distraía minhas

orações. É muito bom saber que o Senhor tem compaixão de todos que O

temem, sabe do que somos feitos e que somos apenas pó. Deus amava nós dois,

sabia exatamente o quanto Jim e eu nos amávamos e usou até os desvios para

nos trazer de volta. [

...

]

Quem está doente de amor, está doente de fato. E o Pai

celeste entende isso. Ele nos guia pelo caminho até a glória, se nosso coração

estiver ligado no Reino. [ ] ...

Meu pai aconselhou seus três filhos a nunca dizerem 'eu te amo' a uma mulher

até que eles pudessem dizer também, 'case-se comigo'. Eles também não

deveriam dizer 'case-se comigo' a menos que tivessem dito antes, 'eu te amo'.

Quanta dor e confusão seriam evitadas se os homens seguissem essa regra. Jim

não a seguiu, é claro. Ele me disse que me amava. Ele não me pediu em

casamento. Eu fiquei emocionada, impressionada, devastada. Melhor saber que

é amada, do que não saber de nada, era meu pensamento. Pode-se sofrer

sozinho, mas saber que o amor é recíproco, aumenta consideravelmente o

desejo para que esse amor seja consumado. Posso recomendar o plano de ação

de Jim para outros? Nunca, nem em milhões de anos. Eu tenho quase certeza de

que ele não ia querer que ninguém fizesse disso uma doutrina. Mas a situação

era incomum. Não que ele houvesse sido chamado para uma vida inteira de

celibato. Ele não sabia se seria para a vida inteira. Ele não precisava saber. Ele

fora chamado para ficar solteiro, sem compromissos pelo menos até que ele

ganhasse experiência no campo missionário. Ele sabia que havia despertado o

amor em uma moça dedicada e que ele podia confiar nela com a informação que

ele quis dar a ela. Era um risco. Ele sabia disso e assumiu este risco. Eu não me

joguei de uma ponte. Deus nos protegeu. Mas eu me atormentava com a questão

do humano versus o sagrado. Seria possível amá-lo tão intensamente quanto eu

o amava e ser pura o bastante para desejar nada mais no mundo do que a

santidade e a alegria dele? Só posso dizer que eu tentei. " O que mais te

atrapalha do que as tuas paixões não mortificadas completamente debaixo da

vontade de Deus?", escreveu Thomas Kempis em Imitação de Cristo. [

...

] Vamos

ser sinceros com nós mesmos diante de Deus [

...

]

Se suas paixões estão

afloradas, admita, tanto para você, quanto para Deus e não para o objeto de sua

paixão. E depois, dê as rédeas para Deus. Submeta sua vontade a Ele. Deseje

~ 24 ~

obedecê-lo, peça a ajuda Dele, ele não vai obedecer por você. Não me pergunte

como. Ele sabe como. Você verá*.

* Compilação de alguns capítulos do livro.

~ 25 ~

08 de outubro de 1952 Oh, eu não sei como te dizer, Betty, ou mesmo se

08 de outubro de 1952

Oh, eu não sei como te dizer, Betty, ou mesmo se eu deveria, mas nossos [ele

junto com outros rapazes missionários] meses em Quito, me colocaram em um

nível emocional totalmente diferente em relação a você comparado ao que eu

sentia antes. Soaria errado dizer que onde você tem tido paz desde o dia que

nos despedimos, eu só tenho tido inquietações de um desejo maior do que

nunca? Onde você tem tido paz, eu me encontro numa perfeita guerra. [

...

] Eu

poderia mencionar o louco desejo de que os anos passem logo; a antiga

rebelião em perguntar: "porque tem que ser assim com a gente?" ...

~ 26 ~

27 de outubro de 1952

Eu tenho sido muito abençoado nas últimas duas semanas com muitos sonhos

com você, os quais, agora que tento lembrá-los, se vão e não são mais do que

uma impressão arrebatadora. Aquela agonia ao levantar, quando me viro

para o lado e não encontro você lá é algo que não consigo suportar por muitos

dias seguidos. Ainda assim e como sempre, o Espírito me dá o conforto do

conhecimento da vontade de maneira simples e frequentemente eu converso

com Ele sobre meu desejo por você, querida, e O questiono acerca da

prolongada negação de um desejo por algo tão bom. E eu oro para que o que

Ele faz por mim, Ele faça por você.

Dezembro de 1952

Esta carta chegará tão próximo do seu aniversário, quanto qualquer coisa que

eu possa lhe dar. Eu bem sei que você fará 26 anos e que nós sempre víamos

esta idade meio que uma linha limítrofe da juventude. Mas isso não me

amedronta. Você continua tão jovem e virgem em meus pensamentos neste

momento quanto você esteve cinco anos atrás, e até mais do que muitas moças

bem mais jovens e eu te amo com o mesmo vigor de menino que sempre me

deixou apegado a você.

Dezembro, 1952

Algumas noites se resumem a ficar acordado, imaginando como seria ficar a

sós com você de novo; outras são turvas com sonhos selvagens, tudo desde

abraços até discussões; e ainda outros, como aconteceu ontem; isso é comum

até mais ou menos 4h30 da manhã. Então aparecem lampejos de esperanças e

planos que se formam e se dissolvem na mente, alguns trechos de conversas,

cenários e o louco desejo para que o alarme dispare, a "doença da esperança

adiada", o grito interno que diz: "até quando?". Às vezes eu acho que será

impossível encontrar e falar com você casualmente, dizendo: "olá, Bett", na

~ 27 ~

presença de outras pessoas, tenho certeza que minha voz vai partir ou eu farei

alguma coisa que nos deixará sem graça. Mas suponho que será como sempre,

a saudação, o breve olhar nos teus olhos, o aperto de mão e as conversas

fiadas sobre coisas que não têm importância. Bem, se o Senhor me preservar

em perfeito juízo até lá, eu serei grato, pois, francamente, eu nunca me senti

assim antes.

[A próxima carta de Jim Elliot foi escrita após o pedido de

casamento que ele fez à Elisabeth]

Janeiro de 1953

Será que algum dia eu serei capaz de te dizer, Betts, o que eu sinto ao ouvir

você me chamar de "querido"? E só em saber que somos completos e pra

sempre comprometidos um com o outro, dando um ao outro poder e prazer,

vendidos um ao outro, pelo bem de nós dois. A bondade e a retidão disso é

indizível. Como poderei expressar o que sinto em gratidão a Deus pelos

direitos e responsabilidades do teu amor? E o que eu deveria te dizer? Não sei.

Somente isto, minha querida Betts, que eu estou fissurado em você com uma

afeição que eu nunca poderei expressar e guardar pra você. com um amor que

é ao mesmo tempo pura ternura e pura força, as quais meu próprio corpo,

tanto no pico da suavidade, quanto no pico do poder, não consegue declarar de

modo satisfatório. Eu te amo. Isso já significou "eu confio em você' e "eu te

valorizo e te admiro". Agora significa que eu, de alguma forma, sou parte tua,

contigo, em ti.

Janeiro de 1953

Estava quente hoje e eu mal pude me forçar a por concreto em duas pilastras ...

trabalho duro, e agora estou pronto pra dormir. Mas nem de perto pronto pra

dormir como estaria se você estivesse aqui. Oh, ser capaz de te trazer aqui,

querida e fazer o que tenho sonhado em fazer com as tuas roupas e sentir

mesmo a pele limpa das tuas belas pernas longas contra as minhas pernas

~ 28 ~

masculinas. Trovoadas celestes! Que bênção ofegante seria esta noite. Mas

esta noite vai esperar por nós e será, como você mesma disse, "perfeita"

quando chegarmos lá. Eu anseio te acariciar esta noite, e sussurrar que te

amo, porque agora, eu sou,

fanaticamente

-seu

- Jim.

22 de março de 1953

Como eu poderia te falar, querida, depois de ter mencionado de maneira

descuidada, os seus atributos físicos, que agora eu penso que eles sejam

maravilhosamente concebidos? Eu sei que quando chegar o tempo de eu os ver

por completo eu direi como disse Salomão, "como és formosa, meu amor".

Para mim é satisfatório saber que eles já estão prometidos a mim e que apenas

esperam o tempo de Deus para serem revelados. Você sabe quão ansioso eu

estou?

Abril de 1953

Eu te amo mais intensamente hoje à noite, com um senso de poder, uma

grande e crescente esperança dentro de mim para a consumação do nosso

amor. Não é o desejo tranquilo que geralmente está em mim, mas os punhos

cerrados e o grito de querer te possuir e ambos os braços ansiosos para te

apertar contra mim. É o coração explosivo e o olhar selvagem de paixão, o

sorriso que faz o estômago apertar. Você não pode entender isso de maneira

alguma, e eu não peço que você tente, é apenas uma das maneiras que eu te

amo e ela me toma enquanto eu escrevo. O amor não é somente algo tranquilo

em mim. É uma tensão e uma audácia, um chamado para agarrar e

conquistar...

Boa noite, minha destemida amada e que o Deus que te ama mais

do que eu te guarde durante a noite.

* As cartas foram retiradas dos capítulos 39 e 40.

~ 29 ~

Este livro foi traduzido e adaptado por Deijenane Santos, mestre em ciência

política (UFPE), jornalista e tradutora. Para conhecer o trabalho dela, acesse:

Facebook.com/deijenane.santos; Instagram: @deijenane.santos. Suas páginas

trazem conteúdos que falam da vida à luz da Bíblia.

*Esta obra não tem fins lucrativos.

~ 30 ~