Você está na página 1de 13

J. H.

Delgado de Carvalho

O novo regime de alimentos devidos a filho maior ou emancipado;


contributo para a interpretação da Lei n.º 122/2015, de 1/9

1.1. Objetivos da lei. – A Lei n.º 122/2015, de 1/9, procura dar resposta a uma
questão particular respeitante ao atual regime de exercício das responsabilidades
parentais no caso de rutura da vida familiar, por motivo de divórcio, separação
judicial de pessoas e bens, declaração de nulidade ou anulação de casamento, e
ainda, por força da remissão legal operada pelo n.º 2 do art. 1911.º do CCiv, no
caso de cessação da coabitação entre os progenitores.

O atual regime de alimentos devidos a filho maior ou emancipado penaliza as


mulheres que estão divorciadas ou separadas dos pais dos seus filhos, mas com
as quais estes continuam a residir para além da maioridade e até haverem
completado a sua formação profissional.

O regime jurídico agora consagrado destina-se a proteger essencialmente as


mães divorciadas, mas também as mães solteiras que se encontrem separadas
do progenitor dos seus filhos, pondo termo à desigualdade entre filhos de pais
casados ou unidos de facto e os filhos de casais divorciados ou separados.

É hoje comum que, mesmo depois de perfazerem 18 anos, os filhos continuem a


residir em casa do progenitor com quem viveram toda a sua infância e
adolescência e que, na esmagadora maioria dos casos, é a mãe.

Embora a obrigação de alimentos fixada durante a menoridade não cesse com a


maioridade do filho enquanto este não tenha completado a sua formação
profissional (cfr. art. 1880.º do CCiv), prevalecia na jurisprudência o entendimento
segundo o qual o pedido de alimentos, formulado em processo pendente (cfr. art.
989.º, n.º 2, do NCPC) ou na instância renovada de processo findo (cfr. art. 282.º,
n.º 1, do NCPC), apenas podia ser apreciado até ao momento em que o filho
completasse 18 anos. A maioridade gerava a inutilidade superveniente da lide no
que se refere à subsistência da obrigação para além desse momento.

Esta solução conduzia a que, na prática, coubesse ao filho, caso quisesse


continuar a receber a pensão de alimentos, propor contra o pai uma ação especial
de alimentos, instaurada por apenso à ação em que aquela prestação tivesse sido
fixada (ação de divórcio litigioso, processo de regulação das responsabilidades
parentais ou ação de alimentos devidos a menores)1. Nessa ação especial (cfr.

1 Não havendo fixação de alimentos para a menoridade, o pedido de alimentos a filho maior ou emancipado
deve ser apresentado na Conservatória do Registo Civil, nos termos do procedimento especial previsto e
regulado nos arts. 5.º a 10.º do Dec.-Lei n.º 272/2001, de 13/10. O n.º 2 do art. 5.º deste diploma exclui o
J. H. Delgado de Carvalho

arts. 186.º a 188.º da OTM2, ex vi do art. 989.º, n.º 1, do NCPC), o filho deveria
provar que não completou a sua educação e formação profissional e que é
razoável exigir o cumprimento daquela obrigação ao progenitor não convivente
pelo tempo normalmente requerido para que essa formação se complete. Até à
fixação judicial da prestação alimentícia, o encargo do sustento e da formação
com o filho maior é assumido, de facto, pelo progenitor com quem ele continua a
residir.

A realidade demonstra que, muitas vezes, o filho, depois de atingir a maioridade,


não instaura a ação de alimentos contra o pai, sendo que só ele tem legitimidade
processual para deduzir esse pedido. A inação ou relutância do filho verifica-
se sobretudo nos casos em que há um histórico de violência doméstica.

O contexto familiar e social exposto justifica uma solução legal que procure
salvaguardar, no âmbito do regime do acordo dos pais relativo a alimentos em
caso de divórcio, separação ou anulação do casamento, a situação dos filhos
maiores ou emancipados que continuam a prosseguir os seus estudos e formação
profissional, reconhecendo, nomeadamente, legitimidade processual ativa ao
progenitor que assume o encargo de pagar as principais despesas do filho maior
para promover judicialmente a distribuição dessas mesmas despesas com o outro
progenitor.

1.2. O que muda. – Os progenitores são responsáveis pelo pagamento de


alimentos aos filhos mesmo após os 18 anos, desde que estes ainda não tenham
completado a sua formação profissional e pelo tempo normalmente necessário
para o fazer, desde que seja razoável exigir ao progenitor aquela obrigação (cfr.
art. 1874.º, n.º 2, 1878.º, n.º 1, e 1880.º do CCiv).

Embora não houvesse dúvidas de que a obrigação de prestação de alimentos


fixada a filho menor não se extinguia automaticamente com a maioridade deste
(cfr. art. 989.º, n.º 2, do NCPC; arts. 1880.º e 2013.º, do CCiv), na prática, a
subsistência dessa obrigação dependia de um impulso processual do filho, já
maior, que, em processo especial instaurado contra o progenitor, tinha de
demonstrar não ter ainda completado a sua formação profissional e estarem
reunidos os demais pressupostos do art. 1880.º do CCiv. Isto porque se
considerava que o pedido de alimentos em processo pendente ou formulado na
instância renovada de processo findo apenas podia ser apreciado até ao
momento da maioridade.

O n.º 2 aditado ao art. 1905.º do CCiv dispensa o filho maior de alegar e provar
tais pressupostos até que complete 25 anos de idade, competindo ao progenitor

pedido de fixação de alimentos a filho maior quando este pedido constitua incidente ou dependência de ação
pendente.
2
Com a correspondência, sem alterações significativas, aos arts. 45.º a 47.º do Regime Geral do Processo
Tutelar Cível, que regula o processo aplicável às providências tutelares cíveis e respetivos incidentes, aprovado
pela Lei n.º 141/2015, de 8/9, e que entrará em vigor no dia 8 de outubro de 2015 (cfr. art. 7.º deste diploma).
J. H. Delgado de Carvalho

não convivente, atingida a maioridade do seu filho, requerer contra este a


cessação ou alteração dos alimentos, nos termos previstos na parte final daquele
normativo, uma vez que a continuação da prestação de alimentos para além
desse momento é agora automática. É, pois, ao progenitor obrigado que cabe o
ónus de alegar e provar os pressupostos que tornam inexigível a permanência da
obrigação alimentar.

A situação do filho maior ou emancipado que continue a prosseguir os seus


estudos e formação profissional passa a ser salvaguardada no âmbito do regime
do acordo dos pais sobre o exercício das responsabilidades parentais, mais
concretamente do regime relativo a alimentos em caso de divórcio, separação ou
anulação do casamento. O princípio da igualdade (cfr. art. 13.º da Constituição)
implica que se deva adotar uma idêntica solução no âmbito da regulação das
responsabilidades parentais no caso de cessação da união de facto, mesmo que
a filiação se encontre estabelecida apenas quanto a um dos progenitores e, no
momento da cessação da coabitação entre o único progenitor e o unido de facto,
este último esteja a exercer, a seu pedido e por decisão judicial, as
responsabilidades parentais em conjunto com aquele (cfr. os n.ºs 2 e 5 do novo
art. 1904.º-A aditado ao Código Civil pela Lei n.º 137/2015, de 7/9).

Se os progenitores não regularem a situação do filho que continua a prosseguir os


seus estudos e formação profissional para além da maioridade, mantém-se a
obrigação de alimentos nos termos fixados para a menoridade do filho.

Uma outra importante alteração que o novo regime introduz é a possibilidade de o


progenitor que assume a título principal o encargo de pagar as despesas de
sustento e educação de filho maior exigir do outro progenitor a comparticipação
daquelas despesas (cfr. o n.º 3 aditado ao art. 989.º do NCPC). Perante a inércia
do filho, depois de perfazer 18 anos, reconhece-se legitimidade processual ativa
ao progenitor a quem cabe o encargo de pagar as principais despesas do filho
maior, concitando à repartição dessas mesmas despesas pelo outro progenitor. 3

No entanto, essa legitimidade apenas pode ser exercida no âmbito da ação


prevista no n.º 3 aditado ao art. 989.º do NCPC, que, de forma apropriada,
podemos designar como ação para a contribuição do progenitor não convivente
nas despesas com a educação e formação profissional de filho maior ou
emancipado.

O reconhecimento de legitimidade direta ativa tem um importante alcance prático:


o progenitor convivente pode impor ao outro progenitor, para o futuro, a
distribuição, total ou parcial, das despesas com o sustento e educação de filho
maior, ficando dispensado de alegar e provar as despesas concretamente
suportadas por si, com vista ao seu reembolso, de acordo com o disposto no art.
592.º, n.º 1, do CCiv (sub-rogação legal). A legitimidade processual reconhecida
ao progenitor convivente na ação para a contribuição nas despesas com filhos
maiores ou emancipados, embora não exclua a ação sub-rogatória, permite exigir
3 Sobre a distinção entre o direito a alimentos devidos a filho maior e o direito à contribuição estabelecida no n.º
3 do art. 989.º do NCPC, cfr., infra, n.ºs 1.3. e 1.5.
J. H. Delgado de Carvalho

a comparticipação, para o futuro, do progenitor não convivente naquelas


despesas e enquanto se mantiver a razoabilidade dessa repartição, assim como
permite a cobrança coerciva das contribuições vencidas e não pagas até esse
momento. A legitimidade processual reconhecida ao progenitor convivente pelo
n.º 3 aditado ao art. 989.º do NCPC é extensível à fase executiva.

De outra parte, por força do princípio da igualdade, a legitimidade processual


atribuída ao progenitor convivente pelo n.º 3 aditado ao art. 989.º do NCPC não é
apenas reconhecida ao progenitor que esteve casado com o progenitor obrigado
a prestar alimentos ou que deste se encontra separado de facto, mas também
deve ser reconhecida ao progenitor que esteve unido de facto com o progenitor
não convivente ou que com este não viveu em condições análogas às dos
cônjuges (cfr. arts. 1911.º, n.º 2 e 1912.º, n.º 1, do CCiv).

1.3. Natureza e âmbito do direito à contribuição. – No caso de os progenitores


terem regulado, no domínio do acordo sobre o exercício das responsabilidades
parentais subsequente à rutura da vida familiar, a situação de filho maior ou
emancipado que continua a prosseguir os seus estudos e formação profissional, o
âmbito do direito a alimentos é o previsto no art. 2003.º do CCiv, a saber, aquele
direito compreende tudo o que é indispensável ao sustento e vestuário, bem como
as despesas relativas à saúde, formação profissional e educação do filho.

Por seu turno, o n.º 3 aditado ao art. 989.º do NCPC, numa leitura apenas literal
do preceito, leva à conclusão de que, na ação instaurada pelo progenitor
convivente, os alimentos ficam limitados ao sustento e educação de filho maior.
Nesta interpretação, as despesas com a saúde parecem ficar excluídas da
comparticipação. Todavia, se o propósito do legislador foi o de impor a repartição
do encargo de pagar as principais despesas de filho maior, deve considerar-se
que as despesas relativas à saúde daquele também estão compreendidas no
direito à contribuição (extensão teleológica). Aliás, uma interpretação restritiva do
preceito conduziria à discriminação dos filhos maiores portadores de deficiência.

O direito à contribuição reconhecido ao progenitor convivente pelo novo n.º 3 do


art. 989.º do NCPC, pode ser concebido de duas formas distintas, sendo que a
opção por uma delas tem reflexos ao nível do regime substantivo e processual
aplicável: aquele direito pode apresentar-se como direito a uma prestação
alimentícia ou como direito à comparticipação nos encargos da vida familiar.

Em causa está, essencialmente, a interpretação do n.º 3 aditado ao art. 989.º do


NCPC. Com arrimo no elemento gramatical de interpretação, o texto ou a letra
daquele normativo, mais concretamente o uso do verbo “exigir” com o sentido de
impor um dever ou uma obrigação a alguém, permite conceber o direito à
contribuição como direito à comparticipação nos encargos familiares. O
destinatário da prestação será, assim, o progenitor convivente, pois é este quem
tem o poder de compelir o outro progenitor a repor a situação de contribuição para
as despesas da vida familiar em termos que assegurem um nível de vida
J. H. Delgado de Carvalho

adequado, tão próximo quanto possível daquele que existia antes da rutura
familiar. Mas também o elemento teleológico conduz a considerar a contribuição
como um encargo familiar no período subsequente à separação dos progenitores,
pois o legislador procura com a medida agora implementada atender à situação
socioeconómica e familiar das mães divorciadas ou separadas dos pais dos seus
filhos que continuem a assumir o encargo do sustento e da formação daqueles
que com elas residem, mesmo depois de atingida a maioridade.

Acresce, ainda, que o intérprete deve presumir que o legislador é coerente, pois o
sistema jurídico deve formar um todo harmonioso, racional e lógico (cfr. art. 9.º,
n.º 3, do CCiv). É, por isso, legítimo ao intérprete recorrer a uma norma mais clara
e explícita para fixar a interpretação de outra norma (paralela) mais obscura ou
ambígua.

O art. 992.º do NCPC regula um problema normativo paralelo ao previsto no n.º 3


do art. 989.º do mesmo código, embora a necessidade de suportar as despesas
familiares, que é objeto de tutela legal, se verifique no período subsequente ao
divórcio ou separação dos progenitores. E se quanto àquela norma não há
dúvidas em considerar que a mesma estabelece um encargo matrimonial, a
contribuição prevista neste último normativo deve também ser concebida com
idêntica natureza. A medida implementada pela Lei n.º 122/2015 justifica-se
(contexto da lei) pela constatação de que, sobretudo em momentos de crise
económica, são as mães as mais penalizadas com o sustento e formação dos
filhos; por isso, o legislador quis tornar extensível esse encargo matrimonial aos
casos de cessação da coabitação entre os progenitores e enquanto for necessário
o amparo do filho maior. O direito à contribuição atribuída ao progenitor
convivente é, pois, um direito novo e distinto – já não um sucedâneo – do direito a
alimentos devidos a filho maior ou emancipado. Sobre a permanência da
prestação alimentícia no período pós-rutura familiar trata antes o n.º 2 aditado ao
art. 1905.º do CCiv.4

Por alguma razão, em termos sistemáticos, o direito à contribuição vem


consagrado no Código de Processo Civil (cfr. n.º 3 do art. 989.º, do NCPC) e não
no domínio do art. 1905.º do CCiv. Este sim, dispõe sobre o direito a alimentos
devidos a filho (menor e maior). Por isso, o elemento decisivo, a nosso ver, é o
elemento sistemático de interpretação.5

Nesta perspetiva, o direito à contribuição é próprio do progenitor convivente,


sendo este o titular da pensão cuja finalidade é contribuir para os encargos
familiares, apresentando-se aquele direito como correspondente ao direito
exercido na ação com vista a contribuição do cônjuge para as despesas

4 Sobre a titularidade do direito a alimentos devidos a filho maior, cfr. infra, n.º 1.5.
5 Muito embora em termos de forma de processo aplicável, e como melhor se desenvolve infra, n.º 1.4., por
força da remissão feita na parte final do n.º 3 do art. 989.º do NCPC se deva empregar, mutatis mutandis, o
regime previsto para os alimentos devidos a menores, ou seja, o regime previsto na OTM, nomeadamente nos
seus arts. 157.º e 186.º a 188.º (cfr. arts. 28.º, e 45.º a 47.º do RGPTC). Esta tramitação processual não
descaracteriza, todavia; a natureza de encargo familiar do direito à contribuição atribuída ao progenitor
convivente.
J. H. Delgado de Carvalho

domésticas, embora no período pós-rutura familiar (cfr. art. 992.º, do NCPC)6.


Deste modo, na ação para a contribuição nas despesas com filhos maiores ou
emancipados o progenitor convivente não age na qualidade de representante do
seu filho, não só porque não é necessário suprir a incapacidade judiciária deste,
mas também pela simples razão de que esse progenitor é parte no processo
(dominus litis); mas o progenitor convivente também não é substituto processual
(legal) daquele, porque atua na defesa ou prossecução de um interesse que é
seu, e não próprio do filho. Não obstante, a pensão atribuída ao progenitor
destina-se a comparticipar no sustento deste. Está, pois, presente na solução
legal uma ideia de repartição ou distribuição das despesas com o sustento e
educação de filho maior ou emancipado, sendo essas despesas perspetivadas
ainda como despesas familiares.

O crédito à comparticipação das despesas de filho maior não tem natureza


alimentar, por se considerar a contribuição como um encargo familiar no período
subsequente à separação dos progenitores. Este crédito não beneficia, por isso,
do regime de penhorabilidade parcial de rendimentos pelos quais pode ser
satisfeito (cfr. art. 738.º, n.º 4, do NCPC) e da hipoteca legal prevista no art. 705.º,
al. d), do CCiv; no entanto, as prestações vencidas prescrevem no prazo de 5
anos (cfr. art. 310.º, al. g), do CCiv) e, uma vez que os progenitores estão
divorciados ou separados, não se verifica a causa de suspensão da prescrição
prevista ma alínea a) do art. 318.º do CCiv. O meio adequado para a cobrança
coerciva daquele crédito é a execução por alimentos, que corre por apenso à
ação de contribuição (cfr. art. 989.º, n.º 3, parte final, do NCPC).

Como se referiu, o legislador concebe o direito à contribuição reconhecido ao


progenitor convivente como direito à comparticipação nos encargos da vida
familiar. Não obstante, o juiz pode decidir, ou os pais acordarem, que essa
contribuição seja entregue, no todo ou em parte, ao filho (cfr. n.º 4 do art. 989.º do
NCPC).

O progenitor não convivente demandado pode opor-se (defesa por exceção) à


comparticipação com base nos mesmos fundamentos que servem para formular o
pedido de cessação ou de alteração da prestação de alimentos fixada para o
período da menoridade do filho (cfr. art. 1905.º, n.º 2, do CCiv), isto é, pode alegar
e provar que o processo de educação ou formação profissional do filho se
encontra concluído à data da proprositura da ação ou foi livremente interrompido
por este ou, ainda, se fizer prova da irrazoabilidade da partilha das despesas.

Um caso em que é admissível invocar a cláusula de razoabilidade, tornando


inexigível a comparticipação, é quando o filho viole gravemente os seus deveres
para com o progenitor não convivente (cfr. art. 2013.º, n.º 1, al. c), do CCiv,
aplicável por analogia). Com efeito, não é exigível a este progenitor continuar a
contribuir para os encargos da vida familiar, respeitantes a despesas com o
sustento e educação de filho maior, quando este não cumpre, em relação a ele,
os deveres de respeito, auxílio e assistência a que alude o art. 1874.º do CCiv.
6 A constatação desta similitude entre as duas ações permite sustentar a admissibilidade de fixação de uma
contribuição provisória (cfr. art. 157.º da OTM, art. 28.º do RGPTC e art. 992.º, n.º 2, do NCPC).
J. H. Delgado de Carvalho

1.4. Forma de processo aplicável à ação para a contribuição nas despesas com
filhos maiores ou emancipados. – Por força da parte final do n.º 3 aditado ao art.
989.º do NCPC, esta ação tem natureza especial e segue a forma de processo
prevista e regulada nos arts. 186.º a 188.º da OTM [correspondentes aos arts.
45.º a 47.º do RGPTC (providência tutelar cível para a fixação de alimentos
devidos a criança)]7. O pedido para a contribuição nas despesas de filho maior
que não pode sustentar-se a si mesmo está, pois, excluído do procedimento
especial previsto e regulado nos arts. 5.º a 10.º do Dec.-Lei n.º 272/2001, de
13/10. A parte final do n.º 3 aditado ao art. 989.º do NCPC, devido à formulação
utilizada (“nos termos dos números anteriores”), é explícita em mandar aplicar os
termos do Código de Processo Civil; por sua vez, o n.º 1 do art. 989.º do NCPC
torna aplicável, mutatis mutandis, o regime previsto para os alimentos a menores,
ou seja, o regime previsto na OTM, nomeadamente nos seus arts. 157.º e 186.º a
188.º.8

Esta ação é instaurada pelo progenitor com quem o filho reside contra o
progenitor não convivente na secção de competência especializada (secção de
família e menores), na secção de competência genérica da instância local ou na
secção cível em que esta se encontre desdobrada, consoante os casos (cfr. arts.
6.º, al. d) e 8.º do RGPTC; e art. 123.º, n.º 1, al. e), da LOSJ9). A ação é
distribuída autonomamente quando não exista processo no qual se tenha
estabelecido o regime de alimentos a menor, pois, nesta hipótese, não são
aplicáveis os art. 282.º, n.º 1, e 989.º, n.º 2, do NCPC; de modo diverso, quando
esse processo exista, esteja pendente ou não, o pedido de contribuição nas
despesas com filho maior ou emancipado, por força do disposto na parte final do
n.º 3 aditado ao art. 989.º do NCPC, constitui incidente do processo no qual foi
fixada a pensão de alimentos para a menoridade e, por via disso, corre por
apenso a este, renovando-se a instância se o processo se encontrar já findo. Esta
solução impõe-se por força do disposto nos art. 282.º, n.º 1, e 989.º, n.º 2, do
NCPC.

De qualquer modo, o objeto da ação prevista no n.º 3 aditado ao referido art. 989.º
do NCPC não é alterar a pensão de alimentos fixada para a menoridade, mas
antes obrigar o progenitor não convivente a comparticipar nas despesas com o
sustento e a educação de filho maior, desde o momento da instauração dessa
ação (por aplicação analógica do art. 2006.º, do CCiv) e até que o mesmo
complete a sua formação.

Significa isto que a ação agora prevista destinada à comparticipação das


despesas com o sustento e educação de filho maior que ainda não alcançou
independência económica pode ser instaurada, quer exista processo anterior no
qual se tenha estabelecido o regime de alimentos devidos a menor, quer não
7
A atual ação de alimentos devidos a menores passa a designar-se providência tutelar cível para a fixação de
alimentos devidos a criança (cfr. art. 3.º, al. d), do RGPTC).
8 Cfr. arts. 28.º, e 45.º a 47.º do RGPTC.
9 Aprovada pela lei n.º 62/2013, de 26/08.
J. H. Delgado de Carvalho

exista esse processo, e o filho, por relutância, não tenha apresentado na


Conservatória do Registo Civil o pedido de alimentos para efeitos do disposto no
art. 1880.º do CCiv, dando início ao procedimento especial por alimentos a filho
maior ou emancipado, previsto e regulado nos arts. 5.º a 10.º do Dec.-Lei n.º
272/2001.

Não sendo a contribuição que vier a ser judicialmente fixada cumprida


voluntariamente pelo progenitor a ela obrigado, o pedido executivo segue a
tramitação da execução especial por alimentos, nos termos dos art. 933.º e ss. do
NCPC, que corre por apenso à ação em que esse contribuição foi estabelecida.

Como o regime processual adequado para estabelecer a contribuição a favor do


progenitor convivente é de jurisdição voluntária (cfr. art. 150.º, da OTM10), deve
admitir-se o pedido de cessação ou de alteração da contribuição fixada por
decisão judicial ou no acordo dos progenitores homologado (cfr. art. 988.º, n.º 1,
do NCPC), correndo esse pedido por apenso ao processo que fixou aquela
contribuição (cfr. n.º 2 do art. 989.º, do NCPC, aplicável ex vi do n.º 3, parte final,
do mesmo preceito legal).

1.5. Ação de cessação ou alteração da prestação de alimentos fixada na


menoridade. – Com a alteração introduzida no art. 1905.º do CCiv, mediante o
aditamento do n.º 2 pela Lei n.º 122/2015, os filhos passam a ter automaticamente
direito à pensão de alimentos que lhes foi fixada durante a menoridade, e até que
completem 25 anos11. O titular do direito a alimentos é o menor ou a criança12.
Existem vários preceitos legais que concebem o direito a alimentos como sendo
um direito próprio dos menores (cfr. art. 36.º, n.º 5, da Constituição; art. 27.º, n.ºs
1 e 2, da Convenção Sobre os Direitos da Criança; arts. 146.º, al. e), e 186.º, da
OTM; e arts. 1874.º, n.º 2, 1878.º, n.º 1 e 1905.º, do CCiv). De harmonia com
estes normativos, o dever de assistência constitui uma obrigação dos pais,
assumindo estes a posição de devedores e aqueles a de credores. Este dever
apresenta-se, durante a vida em comum dos progenitores, como um dever de
contribuição para o sustento dos filhos, sendo, nesta perspetiva, concebido como
uma contribuição para os encargos familiares (cfr. art. 1874.º, n.º 2, do CCiv); e,
cessando a convivência dos pais por qualquer motivo, aquele dever é concebido
como obrigação de prestar alimentos, vinculando o progenitor não convivente (cfr.
arts. 1905.º, n.º 1, 1909.º, 1911.º, n.º 2 e 1912.º, n.º 1, todos do CCiv).

O dever de assistência tem origem no vínculo da filiação (cfr. art. 1874.º, do


CCiv), mas também nos poderes-deveres que efluem da possibilidade de
exercício das responsabilidades parentais (cfr. art. 1878.º, n.º 1, do CCiv). O n.º 5

10 Correspondente ao art. 12.º do RGPTC.


11 Sobre a distinção entre o direito a alimentos devidos a filho maior e o direito à contribuição estabelecida no
n.º 3 do art. 989.º do NCPC, cfr., ainda, supra, n.º 1.3.
12 De acordo com a nova terminologia adotada pelo RGPTC, que corresponde ao conceito de criança empregue
no texto da Convenção Sobre os Direitos da Criança, adotada pela Assembleia Geral nas Nações Unidas em 20
de Novembro de 1989 e ratificada por Portugal em 21/9/1990.
J. H. Delgado de Carvalho

do novo art. 1904.º-A aditado ao CCiv pela Lei n.º 137/2015, de 7/9, valida esta
nossa afirmação: quando a filiação da criança se encontre estabelecida apenas
quanto a um dos progenitores e ocorrendo a cessação da coabitação entre o
único progenitor e o unido de facto, este último pode ser obrigado a prestar
alimentos ao enteado no caso de, nesse momento, exercer, a seu pedido e por
decisão judicial, as responsabilidades parentais em conjunto com aquele (cfr. n.ºs
2 e 5 do art. 1904.º-A, do CCiv).

A vinculação do padrasto a uma prestação de alimentos, em caso de cessação da


convivência entre este e o único progenitor, legitima-se na circunstância de, num
dado momento da vida da criança, aquele ter participado, de forma
responsabilizante, no seu processo educativo e de desenvolvimento da
personalidade.

A rutura da vida familiar não deve, no entanto, perturbar o processo natural de


formação e crescimento da criança, de sorte que o pai ou o padrasto se mantêm
obrigados a prestar alimentos para que a criança mantenha, depois da separação
dos corresponsáveis parentais, um nível de vida adequado ao seu
desenvolvimento físico, mental, espiritual, moral e social.

Esta obrigatoriedade de pagamento da prestação de alimentos só cessa se o filho


maior já tiver completado a sua formação profissional, no caso de essa formação
ter sido interrompida por livre iniciativa do filho ou se o obrigado a alimentos fizer
prova da irrazoabilidade da sua exigência.

Um dos casos em que não é razoável ao filho maior continuar a exigir do pai
alimentos é quando aquele completa 25 anos de idade (cfr. n.º 2 do art. 1905.º, do
CCiv). Pode-se, no entanto, discutir se este limite é absoluto. A consagração de
um limite de idade no n.º 2 do art. 1905.º do CCiv tem de ser vista de forma
separada da previsão do art. 1880.º do mesmo código: enquanto este último
preceito legal se aplica aos filhos de pais que coabitam, seja qual for a natureza
da relação de convivência ou comunhão de vida que os une, aqueloutro artigo só
se aplica aos filhos de casais divorciados ou separados. Os pressupostos da
previsão do n.º 2 do art. 1905.º do CCiv integram uma baliza temporal que termina
nos 25 anos de idade; mas no âmbito do art. 1880.º, do mesmo código, atende-se
a todo o tempo razoavelmente necessário para a completude da formação
profissional.

Deste modo, há que entender que o n.º 2 do art. 1905.º do CCiv estabelece uma
presunção legal de necessidade de alimentos até àquele momento. Não afasta,
por isso, a hipótese de, mediante a aplicação da cláusula de razoabilidade
prevista no art. 1880.º do CCiv, ser reconhecido ao filho maior de 25 anos o direito
à prestação de alimentos, dependendo esse reconhecimento das circunstâncias
específicas de cada caso concreto. Entre outros, menciona-se o exemplo de filho
deficiente ou que por motivos graves de saúde não completou a formação
profissional até aos 25 anos.
J. H. Delgado de Carvalho

10

O art. 1880.º do CCiv não estabelece um direito a alimentos diferente daquele que
resulta dos arts. 1874.º, n.º 2, e 1878.º, n.º 1, como aparentemente parece incutir
o n.º 2 do art. 2003.º, do mesmo código. O direito a alimentos devidos a filhos
maiores é o mesmo direito, em termos de amplitude e natureza, que é
reconhecido aos filhos menores; por isso que o art. 1880.º do CCiv prevê a
continuação do direito a alimentos fixado para a menoridade e da correlativa
obrigação dos pais para além do momento da maioridade dos filhos.

É esta conceção do direito a alimentos devidos a filho maior que está presente no
regime processual consagrado nos n.ºs 1 e 2 do art. 989.º do NCPC, e que obsta
à inutilidade superveniente da lide nos processos pendentes na data da
maioridade. Deverá, pois, entender-se que o pedido de alimentos devidos a filho
maior que constitua incidente ou dependência de ação pendente é referente à
mesma causa de pedir desta ação e que as partes também são as mesmas; o
filho, durante a menoridade, já era titular desse crédito. Uma importante
consequência prática, em termos processuais, desta proposição é a
exequibilidade da decisão que fixou os alimentos ou do acordo dos progenitores
sobre o regime de alimentos: tanto aquela decisão como este acordo eram títulos
executivos para o filho menor exigir alimentos do progenitor não convivente, e
continuam a constituir título executivo para o filho exigir esse direito no quadro
legal do art. 1880.º do CCiv.

Em suma: se o filho maior de 25 anos demonstrar que sem culpa (grave) sua não
pôde completar a formação profissional, e por aplicação da cláusula da
razoabilidade ainda for admissível exigir ao progenitor não convivente que este
continue a assegurar o sustento e educação do seu filho de forma a suprir a
incapacidade económica deste, àquele deve ainda ser reconhecido o direito a
alimentos pelo tempo que ainda se considere razoavelmente necessário para que
ele esteja em condições de prover ao seu próprio sustento, à semelhança do que
sucede com os filhos de pais casados ou que coabitam.

Só que, neste caso, não se aplicando o n.º 2 do art. 1905.º, mas antes o art.
1880.º do CCiv, terá de ser o filho maior de 25 anos a alegar e provar os
pressupostos da existência da obrigação de alimentos. Por sua vez, este pedido
de alimentos, porque já nada tem a ver com a menoridade, deve ser apresentado
na Conservatória do Registo Civil, no âmbito do procedimento especial criado
pelo Dec.-Lei n.º 272/2001, pois não tem aplicabilidade o n.º 2 do art. 989.º do
NCPC.

Embora a lei não o diga expressamente, também é permitido ao progenitor não


convivente requerer contra o filho maior (titular do direito aos alimentos) a
atualização ou alteração da pensão de alimentos fixada durante a menoridade do
filho para que essa prestação vigore em termos diferentes a partir da maioridade
daquele e até que se complete a sua formação profissional.

No caso de os alimentos terem sido fixados judicialmente (em ação de divórcio


litigioso, processo de regulação do exercício das responsabilidades parentais ou
ação de alimentos devidos a menores), a ação de cessação ou de alteração da
J. H. Delgado de Carvalho

11

prestação alimentícia fixada durante a menoridade do filho é instaurada pelo


progenitor não convivente na secção de competência especializada (secção de
família e menores), na secção de competência genérica da instância local ou na
secção cível em que esta se encontre desdobrada, consoante os casos, e é
deduzida por apenso ao processo no qual foi proferida a decisão condenatória
que fixou alimentos para a menoridade, cuja tramitação processual, por força do
disposto no n.º 1 do art. 989.º do NCPC, é a prevista nos art. 186.º a 188.º da
OTM13, não se aplicando o processo especial regulado nos n.º 3 e 4 do art. 936.º
do NCPC.

Com efeito, o art. 936.º do NCPC só se aplica ao pedido de cessação ou de


alteração da prestação de alimentos fixados a filho maior ou emancipado. Quando
o pedido se destinar à cessação ou alteração da prestação de alimentos fixada
para a menoridade, o processo aplicável é antes o que resulta do n.º 2 do art.
989.º do NCPC. Este normativo não pressupõe que o processo no qual se hajam
fixado alimentos durante a menoridade deva estar pendente no momento em que
o progenitor obrigado a alimentos formula o pedido de cessação ou de alteração
dessa prestação alimentícia; esse processo pode encontra-se já findo, como
decorre explicitamente do n.º 2 do art. 989.º do NCPC: como este normativo
designa duas situações alternativas – as quais, por isso, não se completam –, tal
como se infere da utilização da conjunção “ou”, e se uma das situações é quando
esteja a correr o processo em que foi proferida a decisão sobre alimentos a
menor, então, a situação alternativa a esta só pode verificar-se quando esse
processo não se encontre pendente. Nesta situação, a instância do processo
findo considera-se renovada com vista a prosseguir para apreciação e decisão do
pedido incidental. Esta solução não é uma novidade, pois decorre da disposição
geral constante do n.º 1 do art. 282.º do NCPC.

De outra parte, é preciso ter em consideração ainda o disposto no n.º 2 do art. 5.º
do Dec.-Lei n.º 272/2001. Nos termos deste normativo, está excluído do
procedimento especial regulado nos art. 5.º a 10.º do referido diploma legal o
pedido de alimentos a filho maior ou emancipado que constitua incidente ou
dependência de ação pendente. Esta circunstância implica que o processo
aplicável continua a ser tramitado nos termos previstos no NCPC.

Um caso em que isso sucede é precisamente aquele em que é formulado um


pedido de cessação ou de alteração da prestação alimentícia fixada para a
menoridade, sendo esse pedido incidental deduzido por apenso ao processo no
qual aquela prestação haja sido estabelecida por decisão ou por acordo dos
progenitores quanto a essa questão homologado judicialmente. É este o sentido
do n.º 2 do art. 989.º do NCPC: impõe que as providências respeitantes à
cessação ou alteração da pensão de alimentos fixada durante a menoridade
sejam tramitadas como incidentes a correr por apenso ao processo no qual
aquela prestação haja sido estabelecida, esteja esse processo pendente ou já
findo.

13
Com a correspondência, sem alterações significativas, aos arts. 45.º a 47.º do RGPTC.
J. H. Delgado de Carvalho

12

Em suma, o n.º 2 do art. 989.º do NCPC estabelece um processo que, por ser
especial em relação ao processo de alimentos a menor, afasta a aplicação do
processo previsto nos n.º 3 e 4 do art. 936.º do NCPC. Atendendo a isto, o pedido
formulado pelo progenitor não convivente com vista à cessação ou alteração da
prestação alimentícia judicialmente fixada durante a menoridade do filho é
deduzido por apenso à ação em que os alimentos tiverem sido
estabelecidos (ação de divórcio litigioso, processo de regulação do exercício das
responsabilidades parentais ou ação de alimentos devidos a menores); do mesmo
modo, a execução especial por alimentos deve correr por apenso a esse
processo, pois também constitui um pedido incidental (cfr. art. 989.º, n.º 2, do
NCPC).

Acresce que, se o processo previsto no n.º 2 do art. 989.º do NCPC, é o processo


que deve ser observado no caso de ser o filho maior a requerer a alteração ou a
atualização da pensão fixada durante a sua menoridade, não existem razões para
que deva ser outra a forma de processo quando o autor desse pedido seja o
progenitor obrigado a alimentos. Em ambos os casos, os pedidos têm natureza
incidental e, por isso, devem ser deduzidos por apenso ao processo que fixou a
pensão de alimentos para a menoridade, a qual se pretende fazer cessar ou
apenas modificar.

De modo diverso, se a prestação de alimentos tiver sido fixada no acordo sobre o


exercício das responsabilidades parentais alcançado no âmbito do procedimento
de divórcio por mútuo consentimento decretado pelo conservador do registo civil,
ao abrigo do Dec.-Lei n.º 272/2001, o pedido de cessão ou de alteração da
prestação alimentícia formulado pelo progenitor não convivente deve ser
apresentado na Conservatória do Registo Civil, observando-se a tramitação
processual prevista nos art. 5.º a 10.º do Dec.-Lei n.º 272/2001. Porque não existe
processo judicial anterior que tivesse fixado a pensão de alimentos válida para a
menoridade, não são convocáveis os art. 282.º, n.º 1, e 989.º, n.º 2 do NCPC; não
é de aplicar também o regime previsto nos n.º 3 e 4 do art. 936.º do NCPC, uma
vez que este é geral em relação ao procedimento especial consagrado no Dec.-
Lei n.º 272/2001.

No âmbito de aplicação do novo n.º 2 do art. 1905.º do CCiv, o pedido de


cessação de alimentos formulado pelo progenitor não convivente pode ser
deduzido por exceção nos embargos de executado deduzidos à execução movida
contra si pelo filho maior com base no acordo de regulação das responsabilidades
parentais; a sentença que for proferida neste incidente tem força de caso julgado
material quanto à inexistência da obrigação (cf. art. 732.º, n.º 5, do NCPC).

1.6. Aplicação no tempo. – Quer o regime processual, quer os aspetos


substantivos criados pela Lei n.º 122/2015 entram em vigor no dia 1/10/2015. Em
termos de implicações processuais das novas medidas adotadas no âmbito do
regime de alimentos devidos a filho maior ou emancipado, deve ser observado o
princípio da aplicação imediata da lei nova. À vista disso, nos processos que
J. H. Delgado de Carvalho

13

tenham por objeto a regulação do regime do acordo dos pais relativo a alimentos
fixados para a menoridade do filho em caso de divórcio, separação ou anulação
do casamento e que se encontrem pendentes na data da entrada em vigor da Lei
n.º 122/2015, mesmo naqueles em que o acordo sobre o regime de alimentos já
se encontre homologado, pode ainda ser prevista, a requerimento dos
progenitores, a situação do filho para depois da maioridade deste e até que
complete a sua formação profissional, sem ultrapassar os 25 anos de idade.

Não tendo os progenitores salvaguardado, no âmbito desse acordo, a situação do


filho maior que continua a prosseguir os estudos e formação profissional, há que
entender que o filho, que atingiu entretanto a maioridade, dispõe de título
executivo contra o progenitor obrigado a alimentos, com vista a obter o
pagamento das prestações vencidas e não pagas desde o dia 1/10/ 2015, dando
à execução a decisão que fixou judicialmente em seu benefício a prestação
alimentícia durante a menoridade ou o acordo dos progenitores homologado.

Em matéria de títulos executivos, vale o princípio da aplicação imediata e para o


futuro do novo elenco (art. 12.º, n.º 1, do CCiv), sobretudo quando a lei nova cria
novos títulos – e, por conseguinte, os títulos formados ao abrigo da lei antiga
podem ser dados à execução depois da entrada em vigor da lei nova. A
justificação reside na circunstância de a exequibilidade de um documento (lato
sensu) se definir pela lei em vigor à data da instauração da execução; a lei que
atribui força executiva a um título não atinge os efeitos jurídicos do ato jurídico
nele documentado, apenas consagra uma opção do legislador de, ao reconhecer
idoneidade, suficiência e credibilidade ao documento, permitir ao credor o acesso
imediato à execução. Por conseguinte, desde que não se faça uma aplicação
retroativa da lei que criou o novo título executivo – no caso que nos ocupa, desde
que a pretensão executiva não inclua as prestações vencidas antes da entrada
em vigor da Lei n.º 122/2015 –, não é violada a confiança do devedor de
alimentos.

J. H. Delgado de Carvalho

Você também pode gostar