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Você não pode combater a homofobia e proteger os pornógrafos ao mesmo

tempo: uma análise sobre o que deu errado no caso Hardwick.
You Can't Fight Homophobia and Protect the Pornographers at the Same Time—An Analysis of What Went Wrong in
Hardwick.

John Stoltenberg
autor

Raphael Fortin
tradução

Assim como muitas ativistas no movimento feminista radical anti­pornografia, eu venho tentando entender a
animosidade histérica que a comunidade gay vem direcionando a nós. Quero esboçar brevemente o que eu penso
estar acontecendo – e por quê.

A situação com a qual estamos lidando remonta a muitos anos atrás, é claro, próxima ao início do movimento de 
libertação gay moderno, fim dos anos 60 e início dos anos 70. Apesar do movimento de libertação gay emergir 
logo após o movimento de libertação das mulheres, o movimento de libertação gay (majoritariamente 
masculino) jamais se focou, realmente, em como a homofobia tem sua raiz na misoginia, que é um instrumento 
de dominação masculina. É simples, o homem gay é estigmatizado porque é percebido como participante no 
status degradante das mulheres – e se ele não entende isso, jamais terá uma análise política radical.

Uso a expressão “dominação masculina” propositalmente, porque ela implica num ponto de vista irritado a 
respeito da hierarquia de classes sexuais, isto é, o sistema político de discriminação baseada no sexo. Nós 
homossexuais temos, obviamente, especial interesse em acabar com a discriminação sexual, porque a homofobia 
é, ao mesmo tempo, conseqüência e um reforço disso. O sistema de dominação masculina requer polaridade de 
gênero – com “homens de verdade” diferentes ao máximo possível de “mulheres de verdade”, e com a 
superioridade dos homens em relação às mulheres sendo expressa em espaços públicos e privados de todas as 
formas imagináveis. Homofobia é, em parte, como o sistema pune aqueles que desviam e parecem divergir disso. 
A ameaça de um insulto ou ataque homofóbico não apenas mantém os homens mirando em mulheres como 
adequadas presas sexuais; também mantém os homens como “homens de verdade”.

O sistema de polaridade de gênero requer que pessoas com pênis tratem pessoas como objetos, como coisas, 
como recipientes vazios e abertos esperando para serem preenchidos com a túrgida masculinidade, à força se 
necessário. A homofobia é, em parte, como o sistema pune aqueles cujo alvo é desviante. A homofobia é como 
um desprezo sexual direcionado aqueles cuja mera existência – porque está manchada com o status feminino – 
ameaça derreter a armadura com a qual os homens se protegem de outros homens. E para os homens que 
direcionarem esse desprezo corretamente, essa configuração homofóbica garante um nível de segurança, 
individualidade, auto­estima e poder social.

A maioria dos homens internaliza a homofobia para quem são atraídos. Dentro do corpo dos homens, a 
homofobia se torna um pavor e uma repugnância contínuos para qualquer coisa sobre si mesmos que aponte 
para uma ambiguidade de gênero; significa uma constante busca para “ser um homem de verdade” a qualquer 
custo.

A realidade política da hierarquia de gênero na dominação masculina requer que nós a façamos ressoar através 
de nossos nervos, carne e órgãos vasculares sempre que pudermos. Devemos responder orgasmicamente ao 
poder e subordinação, a violência e violação; nossa sexualidade deve ser habitada por uma reverência pela 
supremacia, pelo injusto poder de uma pessoa sobre outra. Não devemos experienciar nenhuma outra 
possibilidade erótica; não devemos vislumbrar justiça erotizada. Nossos corpos não devem abandonar a marca 
sensorial do que dominação masculina e subordinação feminina devem significar entre si – mesmo que sejamos 
do mesmo sexo. Talvez, especialmente se formos do mesmo sexo. Se você e seu parceiro sexual possuem o 
mesmo sexo, mas são eroticamente e emocionalmente presos à hierarquia de gênero, então chega­se a um ponto 
onde é preciso impor essa hierarquia em cada ato sexual realizado – caso contrário, não parece sexo.

Eroticamente e politicamente, homossexuais vivem uma dupla limitação. Discriminação e desigualdade sexual 
requerem homofobia para continuar. A homofobia resultante é o que estigmatiza nossas relações eróticas, nos faz
odiar a forma com que amamos. Ainda assim, vivendo nesse sistema de discriminação e desigualdade sexual, nós
também fomos assimilados; como homens, tornamo­nos viciados na polaridade de gênero; aprendemos como 
ódio e hostilidade podem ser sexualmente estimulantes; aprendemos a sexualizar nosso antagonismo em direção 
ao outro para nos destacarmos. A discriminação sexual ritualizou uma homossexualidade que não ousa desviar 
da fidelidade em relação à hierarquia de gênero; construiu uma homossexualidade que precisa continuar 
eroticamente ligada às estruturas sociais de dominação masculina que produzem homofobia. É um pouco como 
se apaixonar pelo seu pior inimigo – e seguir em frente.

Se é verdade o que eu disse – se, de fato, a dominação masculina simultaneamente produz uma homofobia 
eroticamente comprometida com o ódio à homossexualidade e uma homossexualidade que é eroticamente 
comprometida com a discriminação sexual – fica mais fácil compreender porque a comunidade gay, como um 
todo, se tornou histericamente hostil ao ativismo anti­pornografia do feminismo radical. Seria de se pensar que 
gays – que são perseguidos, estigmatizados e prejudicados pelo preconceito contra suas preferências sexuais pelo 
mesmo sexo – considerariam causa comum qualquer desafio contra a discriminação sexual sistemática. Seria de 
se pensar que gays, percebendo que seu próprio interesse reside na aniquilação da homofobia, seriam alguns dos 
primeiros a endossar um movimento político contra a desigualdade sexual. Seria de se pensar que gays seriam os
primeiros a reconhecer que, enquanto a sociedade tolerar e celebrar a pornografização de mulheres, ­ enquanto 
há um enorme incentivo econômico ao tráfico na subordinação sexual de mulheres – o mesmo terrorismo que 
reforça o sistema de classes sexuais continuará a massacrá­los. Seria de se pensar que homens gays não 
necessitariam da desigualdade sexual das mulheres para aproveitarem sexo – ou que um homem gay, andando 
por uma locadora de filmes pornôs, olharia prateleiras e mais prateleiras com fotos de mulheres amordaçadas, 
espancadas e amarradas e se perguntaria porque esse contexto particular da misoginia é tão importante pra ele.

Discriminação sexual: ser rebaixado ou tratado como segunda­classe ou de forma sub­humana de acordo com o 
significado social da sua anatomia. Isso é o que a pornografia reforça, é isso que o movimento feminista radical 
anti­pornografia é contra.

De diversas formas na última década, a maioria das publicações gays e lésbicas, das organizações de defesa dos 
homossexuais, dos líderes gays e porta­vozes foram bastante comprometidos em defender os direitos de 
pornógrafos. Apesar da presença de muitas lésbicas e alguns homens gays no movimento anti­pornografia, a 
maioria dos homossexuais parece acreditar – alguns cinicamente, outros sinceramente – que se nossa nação não 
impedir a indústria pornográfica de prosperar, um dia reconhecerá os direitos dos homossexuais; mas se, de 
alguma forma, você barrar os direitos dos pornógrafos, também comprometerá a libertação gay. As pessoas 
enquadram esse ponto de vista de muitas formas diferentes, é claro, mas tudo basicamente se resume em uma 
equação entre o futuro dos direitos dos gays e os direitos do livre empreendimento dos pornógrafos.

E isso não é apenas um embate filosófico de pensamentos entre organizações de direitos dos homossexuais e 
pornógrafos; há inúmeras alianças e convergências políticas: contribuição financeira substancial dos pornógrafos 
para organizações dos direitos de homossexuais, ações judiciais conjuntas entre ativistas gays e pornógrafos, 
apoio dos pornógrafos à campanhas de políticos pró­direitos de homossexuais, páginas e mais páginas de revistas
pornográficas cedidas para escritores gays condenarem o movimento anti­pornografia feminista radical, e muito 
mais. Eu não acho que ninguém precisa ser convencido de que a comunidade gay, como um todo, tende a 
enxergar, como de seu interesse político, deitar­se na cama de acordo com a vontade de Al Goldstein, Hugh e 
Christie Hefner, Bob Guccione, e Larry Flint – para não mencionar outros notáveis nomes no crime organizado.

Uma desordem ideológica entre ativistas pelos direitos de homossexuais e o movimento pró­pornografia tem 
estado no centro da discussão para descriminalizar atos de sexo homossexual. Deixe­me contar o que realmente 
aconteceu no recente caso de Hardwick.

Em 1985, a Suprema Corte concordou pela primeira vez em ouvir um caso, Bowers contra Hardwick, que 
contestaria a constitucionalidade das leis gerais dos estados contra a sodomia. Os argumentos apresentados 
primeiramente, no campo dos direitos de homossexuais, foram direcionados à chamada privacidade – uma 
doutrina legal turva que existe apenas através de inferência constitucional. O oficial de justiça William O. 
Douglas falou sobre o direito a privacidade em Griswold contra Connecticut em 1965, onde foi aplicado ao 
“sagrado recinto do quarto conjugal”. Mas o princípio da privacidade realmente acendeu as luzes libertárias com 
Stanley contra Geórgia em 1969, onde a Suprema Corte decidiu que um homem pode possuir obscenidades em 
sua casa, mesmo que essas coisas sejam criminalmente proibidas em outros lugares. Basicamente, a Suprema 
Corte declarou que “a casa de um homem é o seu castelo”, ao menos quando se trata de obscenidade; e essa foi a
estreita rachadura aproveitada pelas organizações dos direitos de homossexuais, acreditando que isso também 
deslizaria para relações de sodomia consensuais. O argumento pró­sodomia em Hardwick foi escrito e ensaiado, 
em sua maioria, por Laurence H. Tribe de Harvard; ele deixou claro que sexo homossexual privativo deveria ser 
defendido nos mesmos aspectos que possuir material obsceno privativo:

“Seria irônico se o governo fosse constitucionalmente proibido de invadir (qualquer que seja a justificativa) a casa de 
um homem para impedi­lo de obter gratificação sexual ao assistir um filme obsceno – mas fosse livre, sem nenhuma 
justificativa especial, para entrar na casa do mesmo homem, planejando interromper seus atos sexuais consentidos 
com outro adulto. A casa, certamente, protege mais do que somente nossas fantasias.”

Caso você não tenha percebido, essa desprezível comparação entre relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo
e obscenidade era a posição “liberal”.

A objetiva tática da privacidade parece ter sido oportuna e pragmática, dado o histórico hostil da Suprema Corte 
relacionado aos homossexuais. Legalmente, contudo, foi puro sofisma, assegurando relações homossexuais 
somente nos locais mais privados (quartos de motel, presumidamente, não inclusos), mas concedendo ao Estado 
o poder de deslegitimar a homossexualidade como e quando quisessem: “Não há com o que se preocupar”, Tribe 
argumentava que uma decisão favorável da Suprema Corte “lançaria dúvidas sobre qualquer programa 
administrativo que o Estado formasse para encorajar tradicionais uniões heterossexuais”. Isso só pode ser 
reafirmado por um homem heterossexual – para quem mulheres são invisíveis. E na era da AIDS, o que 
exatamente ele quis dizer com “qualquer programa administrativo”?

Politicamente, os argumentos de Tribe ficam ainda piores. Considere, por exemplo, o fato de que, para mulheres 
em relações heterossexuais, o lar é o lugar mais perigoso no mundo; é onde mulheres mais são estupradas, 
abusadas e mortas. Ainda, o argumento de Tribe baseado na privacidade embarca numa ladeira escorregadia, 
que poderia corroer seriamente a capacidade do Estado em proteger indivíduos de atos como o incesto. 
Essencialmente, apelando estreitamente ao direto da privacidade, os argumentos de Tribe fazem referência a 
alguns preceitos da dominação masculina (entre eles, direitos de liberdade sexual masculinos, reais e fantasiosos,
não importa a que custo) e não abrem nenhum precedente que possa desafiar as forças que mantém a homofobia
viva e saudável.

Não é necessário conhecimento jurídico para entender que, se seus direitos residem na venda egoísta de outros 
sem poder social, você tem um caso covarde e esfarrapado.

A Suprema Corte revelou sua decisão sobre o caso Hardwick em junho de 1986, e por uma maioria de 5 contra 4 
votos, rejeitou o argumento de que “casos anteriores haviam levado a Constituição a estender o direito a 
privacidade à sodomia homossexual”. Consequentemente, a corte decidiu que as leis anti­sodomia do Estado não 
são intrinsecamente inconstitucionais.

Pelo país, ocorreram diversos protestos enfurecidos pela decisão não­favorável da Suprema Corte no caso 
Hardwick; no auge do ultraje, eu fui abordado, simpaticamente, por amigos que assumiram que eu estava 
desolado. Mas minha resposta não foi o que eles esperavam. Eu apontei que se a Suprema Corte tivesse 
derrubado todas as leis anti­sodomia, porque havia aceitado o argumento de privacidade apresentado por Tribe, 
teria feito isso pelas razões erradas. Mesmo que meus sentimentos a respeito da decisão fossem misturados, eu 
esperava que um argumento mais honroso pudesse aparecer.

Por exemplo, uma estratégia mais corajosa seria argumentar em relação ao interesse do Estado em eliminar a 
discriminação sexual. O argumento se construiria assim:
1. Porque a homofobia perpetua e reforça a discriminação sexual, e
2. porque leis contra a sodomia perpetuam e reforçam a homofobia social,
3. seria do interesse do Estado descriminalizar relações sexuais entre homossexuais – para reduzir a 
discriminação sexual.

Um importante segmento desse argumento seria:

1. Porque a homofobia perpetua uma situação social na qual atos de violência homofóbica são mais 
esperados de acontecerem, e
2. porque leis contra a sodomia, mesmo que não reforçadas, contribuem ativamente para essas situações de
violência pessoal, legitimando preconceito social e ódio,
3. seria do interesse do Estado descriminalizar relações sexuais entre homossexuais – para garantir 
completamente uma “liberdade ordenada”

Argumentar que leis contra sodomia negam aos homossexuais direitos garantidos pela Décima Quarta Emenda 
seria dizer algo evidentemente verdadeiro e também reforçaria o conteúdo da lei contra a discriminação sexual – 
ao invés de enfraquecê­la apelando ao direito da privacidade.

Obviamente, essa estratégia pode não funcionar inicialmente, e pode precisar do apoio de alguns anos de 
ativismo e educação antes que a Suprema Corte “compreenda” (segregação, por exemplo, demorou muito tempo 
pra ser “compreendida”), mas ao menos teria uma política de direitos humanos confiável e a coragem de uma 
convicção radical: a coragem para revelar algo verdadeiro a respeito das relações internas entre homofobia, 
violência, leis, e o poder social dos homens sobre as mulheres.

Venho discutindo o caso Hardwick já faz algum tempo, em partes para revelar a aliança ideológica reacionária 
entre gays e o movimento pró­pornografia e, em partes, para sugerir como um programa anti­homofobia deveria 
ser, se o movimento pelos direitos de homossexuais algum dia levar a sério o que as feministas radicais nos 
ensinaram sobre a forma como a dominação masculina realmente age.

Enquanto o movimento pelos direitos de homossexuais se comprometer em dissociar­se do projeto feminista­
radical para extirpar a discriminação sexual e criar equidade, a libertação gay caminha em direção ao suicídio. 
Não pode existir um movimento político tentando acabar com a homofobia enquanto mantém a dominação 
masculina e a misoginia intactos. Não funcionará. Direitos de homossexuais sem justiça sexual é uma reforma da 
dominação masculina.

Enquanto a comunidade gay defender o direito dos pornógrafos para explorar e erotizar a discriminação sexual, 
nós homossexuais não temos chance. Enquanto os pornógrafos controlarem, não apenas a Constituição, mas 
também a nossa mais íntima conexão sexual com outras pessoas, nós perderemos todas as esperanças. Devemos 
nos opor à discriminação sexual, mesmo que ela nos excite. É o que coloca homossexuais em subordinação 
porque é o que coloca mulheres em subordinação, e ultimamente é o que faz com todos nós. Você não pode 
combater a discriminação sexual e proteger os pornógrafos ao mesmo tempo.