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Ciência

PLANETA AQUÁRIO

André Julião

E ngana-se quem pensa que os peixes


formam a comunidade mais rica dos
oceanos. Enquanto cerca de 16 mil es-
pécies deles são conhecidas em todo o mundo,
estima-se que em apenas um litro de água sal-
gada haja 18mil tipos de bactérias.Mais:segun-
do os cálculos dos cientistas, quase um bilhão
de espéciesdesses seres microscópicos habitam
os mares. A informação é apenas uma das sur-
presas levantadas pelo maior estudo sobre a
biodiversidade oceânica já realizado. Divulgada
na semana passada e batizada de Censo da Vida
Marinha, a pesquisa durou dez anos e envolveu
2,7 mil pesquisadores de 670 instituições, pro-
venientes de mais de 80 países.
"O mais surpreendente é a constatação de
que os oceanos são riquíssimos, muito mais
interconectados do que se pensava e passam por
mudanças que ainda não compreendemos", diz
Paul Snelgrove, um dos cientistas participantes
do estudo e autor do novo livro "Discoveriesof
the Census of Marine Life" ("Descobertas do
Censo da Vida Marinha"), uma das publicações
resultantes da pesquisa. "Há bastante trabalho
sendo feito, mas também existe uma urgência
quanto à sustentabilidade", afirma.
Outro exemplo de como a vida nos oceanos
é interligada é uma criatura de meio milímetro.
O Ceratonotussteiningerié parecido com uma
lacraia e nunca tinha sido visto até 2006. O in-
vertebrado foi achado a 5,4 mil metros de pro-
fundidade, na costa atlântica da África. Para
surpresa dos biólogos,ele foi encontrado nova-
mente a uma distância de 13 mil quilômetros,
no Pacífico Central. Outro registro intrigante
diz respeito ao deslocamento de certas espécies.
A migração do atum de barbatana azul do Pa-
cífico, por exemplo, nunca havia sido monito-
FOTOS: C!::DRICO'UDEKEM O'Acez; JAN MICHEL5: IFREMER.
A.FIFI5, 2006: DARRYL FELDER,
LSU; LAURENCE MADIN, WHOI; DAVID SHALE: TIN-YAM CHAN,NATIONAL T AIWAN OCEAN
UNIVERSITV, KEELUNG: KEVIN RASKOFF, MONTEREY PENINSULA COl,LEGE: PABLOJ. LOPEZ-
GONZALEZ UNIVERStDAD DE SEVILLA .
A maior pesquisa sobre a biodiversidade marinha já realizada registra
1,2 mil novas espécies - e mostra como sabemos pouco sobre os oceanos

rada em detalhes antes do censo. Sabe-se


agora que esses peixes de até 15 quilos cruzam
três vezes o oceano em 600 dias.
No Brasil, embora as pesquisas tenham
avançado nos últimos tempos, há pouco sendo
feito para conhecer profundamente a fauna
marinha. Nosso olhar para o oceano pode ser
explicado em parte por uma frase proferida por
um cientista francês à bióloga Lucia Campos,
uma das brasileiras que colaboraram com o
estudo. "Ele disse que nós vamos à praia, mas
muitas vezes sentamos de costas para o mar",
conta Lucia. SegundoapesquisadoradaUniversida-
de Federaldo Riode Janeiro,existemcercade dezmil
espécies brasileirascatalogadas,mas esse número
deverepresentarapenas28% de nosso patrimônio.
"É importante que haja mais investimentos
no conhecimento da nossa biodiversidade
marinha, seus benefícios e papéis no funcio-
namento dos ecossistemas", afirma a bióloga.
Esse conhecimento é essencial para a conser-
vação. O País participa entre 18 e 29 de outu-
bro da Convenção sobre Diversidade Biológi-
ca (CDB) das Nações Unidas, no Japão, sem
ter cumprido a meta de preservar 10% dos
ecossistemas costeiros e marítimos - apenas
1,5%dos hábitats marinhos dispõe dessa pro-
teção. A importância de novas pesquisas é
resumida pelo canadense Snelgrove:"Conhe-

~
.
cer a vida nos oceanos pode nos tomar me-
Confiraa versãoem
vídeo da reportagem
... emIstoe.com~br
lhores guardiões
do que temos sido
atéagora." .