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MANIFESTO PELA ESCRITURA POÉTICA

A escritura poética é semente de um tempo que quer nascer.


Precisamos de sabedoria de parteira para facilitar nascimentos.

A escritura poética é uma epistemologia do sul. Busca outra concepção de mundo


atenta às contribuições dos povos indígenas originários, das comunidades
quilombolas, das produções das periferias urbanas, outras escrituras que sobrevivem
a constantes tentativas de silenciamento.

Procura-se o nome artístico do mundo.

É necessário compreender profundamente o código para modificá-lo.Adentrar as


escrituras institucionais para superá-las. Travar a batalha com a linguagem sem perder
de vista as condições materiais desiguais. Defender o direito à dignidade, à
alimentação, segurança, moradia e também bens simbólicos, fruição estética, direito e
acesso a manifestações artísticas. Para esfacelar a democracia e manter os privilégios
do mercado é necessário exilar um povo de suas narrativas de potência. Esconder a
flor que o poeta viu nascer no asfalto. Esconder o beijo dado no asfalto. Esconder os
corpos e só mostrar o asfalto. As profanas escrituras veem e cantam as flores. Veem
os beijos onde a gramática do poder só vê asfalto.

Trabalhadoras e trabalhadores das letras, uni-vos!


Os que não tiveram caderno de caligrafia. Que não ocuparam cargos de poder. Os
assalariados. Os que hão de unir seus garranchos em torno de uma mesa com ou sem
chá. O antro dos mortais da literatura nacional. Numa casa com quintal, não numa
réplica de palácio, a literatura será celebrada com festa, a língua será a convidada de
honra, a rainha do maracatu que dançará ao ritmo de poemas-tambor. Para a
comilança, serão produzidos textos com sabor. Sabor dos doces no tacho de Cora
Coralina, do munguzá de Patativa de Assaré, dos araticuns maduros de Manoel de
Barros.

A ficção, a simbologia e as narrativas míticas não se opõem a razão e ao


verdadeiro como sugere a racionalidade ocidental. A escritura poética é irmã da
oralidade e permanece atenta a esta forma de entendimento do mundo. Os primeiros
contadores de estórias eram também as pessoas que detinham a comunicação com
os espíritos, com o mistério, com os ancestrais. Nossos genes de forma atávica
carregam não somente fenótipos que determinam nossas característica físicas, mas
também o interesse em acessar o mundo e aprender com ele por meio de narrativas.

A escritura poética presta muita atenção nos sonhos. E toda forma de construção de
conhecimento humano, talvez seja isso. Sonhar outras existências.

Promover a escrita em atividades de criação com a palavra é tão importante quanto


garantir a alfabetização, daí a utilização dos termos letramento poético e alfabetização
autoral para designar esta proposição dialógica que une o entendimento do código
com a fruição e a criação estética.

No muro da educação está pixado: Para que(m) serve teu conhecimento?

A escritura poética é descolonial. É a possibilidade de construção e acesso ao imenso


legado cultural brasileiro. Possibilidade de gerar empatia a sujeitos históricos
demonizados pelo racismo institucional.

É escritura que não se quer estagnada. Que se move buscando outros pontos. Que se
modifica pelas pessoas que encontra. Pelos textos lidos nos olhos cansados. Que só
aceita entrar na academia se carregar a poeira da rua. Textos que habitam corpos.
Pesquisa que se faz em estações e avenidas, radiais, marginais. Nas páginas
rebocadas das casas periféricas, referências bibliográficas. No fone de ouvido que
embala a viagem, filosofia contemporânea.

A beleza da literatura não se resume ao objeto livro. Tampouco a estilística ou


determinada forma de escrita. A beleza da literatura reside na sua capacidade de
diálogo atemporal entre seres diversos, entre pessoas de diferentes culturas, pontos
de vista, pensamentos e desejos. Na sua possibilidade de gerar conhecimento e
empatia, que são elementos fundamentais no combate a barbárie gerada pela
ignorância humana.

Devemos batalhar pelo terreno da imaginação, pois até esta terra foi colonizada,
controlada e manipulada. Num mundo que consome imagens e narrativas num ritmo
frenético, a literatura é um espaço de resistência de imaginários. Uma literatura que
seja tudo, menos chique. Chique é um adjetivo que marca um conceito elitista que
perdura em nossa sociedade estruturada na criminalização da pobreza. E se os
pobres não escreverem suas próprias narrativas sempre serão culpabilizados.

A poesia quer ser silêncio.A escrita quer ser voz. Nascidas da impossibilidade, quando
se esgotam as palavras explicativas, quando a vida toca o sem sentido é só por meio
da palavra poética que algo sutil se reconstitui como o canto de uma benzedeira que
impede que uma ferida continue sua trilha pelo corpo.

Num mundo cada vez mais enfermo, onde pessoas tomam doses cavalares de ódio
diário (entregues em domicílio), recitar um verso olhando para os olhos de alguém é
uma medida preventiva revolucionária. A poesia é capaz de curar.

ANDRÉ PEREIRA DO AMARAL


MANIFESTO PELA ESCRITURA POÉTICA
Dissertação apresentada ao Programa de
Pós-Graduação em Artes do Instituto de Artes da
UNESP para obtenção de título de Mestre em Artes.