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Atas do

II Encontro Nacional
do GT Estudos de
Gênero
Associação Nacional de História
Seção Regional do Rio de Janeiro
Anpuh-Rio

Conselho Diretor

Presidenta: Márcia Maria Menendes Motta (UFF)


Vice-presidente: Ricardo Figueiredo de Castro (UFRJ)
Secretário-geral: Edmar Checon de Freitas (UFF)
1ª secretária: Claudia Beltrão (UNIRIO)
2ª secretária: Silvana Bandoli Vargas (CP II)
1ª tesoureira: Raquel Alvitos Pereira (UFRRJ).
2ª tesoureira: Tânia Salgado Pimenta (FIOCRUZ)

Conselho Consultivo

Presidenta: Ismênia de Lima Martins (UFF/IHGB)


Secretária: Vânia Leite Fróes (UFF)
Relatora: Lucia Maria Paschoal Guimarães (UERJ)

Conselho Fiscal

Presidenta: Beatriz Kushinr (AGCRJ)


Secretário: Marcus Ajuruam Dezemone (UFF)
Relatora: Mônica de Souza N. Martins (UFRRJ)
Lana Lage da Gama Lima
Miriam Cabral Coser
Fábio Henrique Lopes
Thiago de Souza dos Reis
(Org.)

Atas do II Encontro Nacional


do GT Estudos de Gênero

Rio de Janeiro
Anpuh-Rio
2016
Encontro Nacional do GT Estudos de Gênero (2.:
2016: Rio de Janeiro, RJ)
Atas do II Encontro Nacional do GT Estudos de Gênero /
Lana Lage da Gama Lima, Miriam Cabral Coser, Fábio
Henrique Lopes e Thiago de Souza Reis (organizadores). – Rio
de Janeiro: Anpuh-Rio, 2016.

927p.: il.
Disponível em: http://www.rj.anpuh.org
ISBN: 978-85-65957-07-6

1. História. I. Lima, Lana Lage da Gama. II. Coser, Miriam


Cabral. III. Lopes, Fábio Henrique. IV. Reis, Thiago de Souza.

II Encontro Nacional do GT Estudos de Gênero


Comissão de Organização do evento

Lana Lage (UFF/UENF)


Fábio Henrique Lopes (UFRRJ)
Miriam Coser (UNIRIO)
Maria Beatriz Nader (UFES)
Lidia Possas (UNESP)
Thiago Reis (UVA/UNESA)

Comissão Científica

Alcileide Cabral (UFRPE)


Ana Maria Colling (UFGD)
Ana Paula Martins (UFPR)
Ismênia de Lima Martins (UFF)
Joana Maria Pedro (UFSC)
Losandro Tedeschi (UFGD)
Margareth Rago (UNICAMP)
Raquel Sohiet (UFF)
Suely Gomes (UFF)

Publicação aprovada pela Comissão Científica do evento

Editor: Thiago de Souza dos Reis


Os(as) autores(as):

Alcileide Cabral do Nascimento Leidy Carolina Díaz Cardozo


Alex Silva Ferrari Lidia M V Possas
Ana Carolina Eiras Coelho Soares Lisa Batista de Oliveira
Ana Maria Veiga Luciana Nogueira da Silva
Ana Taisa da Silva Falcão Luciana Silveira
Brena Oliveira Pinto Marcel de Almeida Freitas
Bruno Sanches Mariante da Silva Marcela Boni Evangelista
Camila Serafim Daminelli Maria Beatriz Nader
Daniela Auad Maria Rita Neves Ramos
Danielle Silva Moreira dos Santos Mariane Ambrósio Costa
Douglas Josiel Voks Marta de Carvalho Silveira
Elaine P. Rocha Mayllon Lyggon de Sousa Oliveira
Elda Alvarenga Mirela Marin Morgante
Elisangela da Silva Machieski Mirella Tuanny Ferreira
Elvira Mejia Herrejón Míriam Albani
Emelly Sueny Fekete Facundes Miriam Soares Leite
Érika Oliveira Amorim Nadia Maria Guariza
Erineusa Maria da Silva Natanael de Freitas Silva
Fábio Luiz Alves de Amorim Nayara Cristina Carneiro de Araújo
Gilvânia Cândida da Silva Nicolle Taner de Lima
Giovanna Costa Cinacchi Patrícia Urruzola
Gisele Morais Oliveira Paulo Brito do Prado
Graciana Martins dos Santos Rafael Chaves Vasconcelos Barreto
Inara Fonseca Raquel Borges Salvador
Ioneide M P B de Souza Renan Reis Fonseca
Isabela Brasil Magno Renata Lopes Marinho
Jaqueline Ap. M. Zarbato Rhanielly Pereira do Nascimento Pinto
Jhoana Gregoria Prada Merchán Tânia Bassi Costa
Joice de Souza Soares Vanessa Gonçalves Bittencourt de Souza
Júlia Glaciela da Silva Oliveira Veronica de Jesus Gomes
Juliana da Conceição Pereira Wéber Félix de Oliveira
Larissa Urquiza Perez de Morais Weyber Rodrigues de Souza
Leandro Teófilo de Brito
As opiniões e ideias aqui expressas são de inteira
responsabilidade dos(as) autores(as) dos artigos.
Atas do II Encontro Nacional do GT Estudos de Gênero
Rio de Janeiro, 27 e 28 de outubro de 2016.

Sumário

APRESENTAÇÃO ......................................................................................... 17

ix
ST 1A: HISTÓRIA E GÊNERO: CULTURA MEMÓRIA E
IDENTIDADES .............................................................................................. 19

A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE FEMININA NA IDADE MÉDIA: UM


DIÁLOGO POSSÍVEL ENTRE OS DISCURSOS JURÍDICO E
ECLESIÁSTICO .............................................................................................. 20

"CONHECIDA MARAFONA E DESORDEIRA": MORALIDADE E


PROSTITUIÇÃO EM UM ESTUDO DE CASO NO RIO DE JANEIRO (1900-
1910) ................................................................................................................. 36

FILANTROPIA E MATERNIDADE: RELAÇÕES ENTRE DAMAS DA


ELITE E MÉDICOS FILANTROPOS NA PRIMEIRA REPÚBLICA .......... 48

MULHERES QUINHENTISTAS EM CENA: REPRESENTAÇÕES


FEMININAS NO TEATRO DE ANTONIO RIBEIRO CHIADO .................. 65

SUBVERSÕES DO PECADO: DESEJO E SEDUÇÃO NAS MINAS


SETECENTISTAS ........................................................................................... 82

ST 1B: HISTÓRIA E GÊNERO: CULTURA MEMÓRIA E


IDENTIDADES ............................................................................................ 105

AS “VIRA-LATAS” E O TRABALHO FEMININO NA COMPANHIA


SIDERÚRGICA NACIONAL: GÊNERO E MEMÓRIA ............................. 106

CRIANDO HÍBRIDOS: MEMÓRIA, RELIGIOSIDADE E GÊNERO ....... 126

“DEMOCRACIA EN EL PAÍS Y EN LA CASA”: IDENTIDADE E POLÍTICA


NOS PERIÓDICOS FEMINISTAS CHILENOS NA DÉCADA DE 1980 .. 140

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GÊNERO E MEMÓRIA: A CONSTRUÇÃO DE HIERARQUIAS ............. 156

ST 1C: HISTÓRIA E GÊNERO: CULTURA, MEMÓRIA E


IDENTIDADES ............................................................................................ 170

A PERSISTÊNCIA DA VIOLÊNCIA CONTRA MULHERES NO BRASIL:


ALGUNS APONTAMENTOS SOBRE O GÊNERO NO TEMPO PRESENTE
........................................................................................................................ 171 x

VIOLÊNCIA DE GÊNERO E A CULTURA DO ESTUPRO NO ESPAÇO


ACADÊMICO: VULNERABILIDADES E HISTÓRIA............................... 200

ST 2: CORPO, VIOLÊNCIA DE GÊNERO E HISTÓRIA ..................... 210

A VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES IDOSAS EM DENÚNCIAS: O


CASO DA DEAM E DA DAPPI DE VITÓRIA – ES, 2002 – 2012. ............ 211

CORPOS MARCADOS, CRIMES SILENCIADOS: VIOLÊNCIAS SEXUAIS


NO CONFLITO ARMADO COLOMBIANO. .............................................. 230

DA CONSTRUÇÃO DOS SABERES À PRÁTICA – REFLEXÕES


DECOLONIAIS SOBRE A VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA NO BRASIL ..... 249

E ESSE CORPO, DE QUEM É? O ABORTO NO BRASIL E O DEBATE


SOBRE SUA DESCRIMINALIZAÇÃO ....................................................... 267

GÊNERO E HISTÓRIA ORAL: UM ESTUDO DA PROSTITUIÇÃO EM


CARAPEBA (1960-1980) .............................................................................. 281

HIGIENIZANDO A FEMINIDADE: ESPOSAS, MÃES E INFANTICIDAS


ATRAVÉS DOS DISCURSOS MÉDICOS NO RIO DE JANEIRO, 1834 –
1924 ................................................................................................................ 295

ROMPENDO O SILÊNCIO: VOZES DE MULHERES AGREDIDAS NO


INTERIOR DE MINAS GERAIS. ................................................................. 319

SACERDOTES “CONVERSANDO COM MOSSOS E MININOS EM


LUGARES EXCUSOS”: A SODOMIA CONTRA CRIANÇAS EM
PORTUGAL NO SÉCULO XVII .................................................................. 334

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VIOLÊNCIA DE GÊNERO EM BARBADOS: NOTAS SOBRE


FEMINICÍDIO NO SÉCULO XX ................................................................. 352

ST 3A: GÊNERO, SENSIBILIDADES E PODER ................................... 361

AS REPRESENTAÇÕES DE GÊNERO E O PROJETO POLÍTICO


REPUBLICANO NO PERIÓDICO GOIANO O LAR (1926-1932). ........... 362
xi
BELAS, RECATADAS E DO LAR? : UMA ANÁLISE SOBRE AS
PERSONAGENS DE ORGULHO E PRECONCEITO, DE JANE AUSTEN.
........................................................................................................................ 378

LEGISLADORAS EM AMÉLIA RODRIGUES – BAHIA: POLÍTICA,


EDUCAÇÃO E PRÁTICAS DE CARIDADE (1972 – 1982)....................... 391

LITERATURA, DESEJO E RELAÇÕES DE GÊNERO: SENSIBILIDADES


AMOROSAS EM ANÁLISE ......................................................................... 410

MULHERES BRASILEIRAS E COLOMBIANAS: ESCREVENDO SOBRE O


CORPO FEMININO E O PRAZER NA LITERATURA EROTICA NA
METADE DO SECULO XX ......................................................................... 422

ST 3B: GÊNERO, SENSIBILIDADES E PODER .................................... 435

CORPO, PODER E EMPODERAMENTO: O NÃO-LUGAR E O DISCURSO


DE SI DE LAERTE ........................................................................................ 436

DISCURSOS DE PODER E INSENSIBILIDADES DE GÊNERO ............. 454

GÊNERO E PODER: COMO E PORQUE PENSAR AS MASCULINIDADES


NUMA PERSPECTIVA HISTÓRICA .......................................................... 474

O LAMPIÃO DA ESQUINA: AS DENÚNCIAS DA LGBTFOBIA


INSTITUCIONAL NA DITADURA CIVIL-MILITAR ............................... 494

O TEATRO-FÓRUM COMO EXERCÍCIO DE PENSAMENTO POLÍTICO:


UM CAMINHO PARA DEBATER AS RELAÇÕES DE GÊNERO ........... 507

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ST 4: RELAÇÕES DE GÊNERO, INTERCULTURALIDADE E


MEMÓRIA ................................................................................................... 526

A HISTÓRICA INEXPRESSIVA REPRESENTAÇÃO DAS MULHERES


NAS ACADEMIAS CIENTÍFICAS BRASILEIRAS E NO PRÊMIO NOBEL
........................................................................................................................ 527

GÊNERO E AÇÕES POLÍTICAS CONSERVADORAS NO BRASIL E NO


ESPÍRITO SANTO: A “IDEOLOGIA DE GÊNERO” EM QUESTÃO ...... 541 xii
A GUERRA DO CONTESTADO VISTA DE UMA PERSPECTIVA DO
GÊNERO: MEMÓRIA E IDENTIDADE NA CONTEMPORANEIDADE 555

MULHER, INTERCULTURALIDADE E HISTÓRIA: REPRESENTAÇÃO


FEMININA NUMA COMUNIDADE QUILOMBOLA EM CAMPO
GRANDE/MS................................................................................................. 570

PELO DIREITO À VIDA: UMA DINÂMICA SOCIAL DE PODER SOBRE O


CORPO ........................................................................................................... 588

ST 5: PERSPECTIVAS TRANSCULTURAIS E TRANSNACIONAIS DE


GÊNERO ....................................................................................................... 604

A MULHER EM SELEÇÃO: REPRESENTAÇÕES TRANSNACIONAIS NO


CONTEXTO DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL .................................. 605

A MISSIONAÇÃO NO JAPÃO EM AGOSTINHO DE SANTA MARIA: UMA


PERSPECTIVA DE GÊNERO ...................................................................... 627

ST 06: GÊNERO E FEMINISMOS: HISTÓRIA, POLÍTICA E


EDUCAÇÃO ................................................................................................. 643

A QUESTÃO DO FEMININO NA HISTÓRIA DA FORMAÇÃO


PROFISSIONAL TÉCNICA DA REDE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO
........................................................................................................................ 644

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DO LAR PARA AS RUAS: O DEBATE PELA CONQUISTA DA


CIDADANIA POLÍTICA E OS MOVIMENTOS FEMINISTAS EM RECIFE
(1920-1934) .................................................................................................... 661

EDUCAÇÃO, TRABALHO E VOTO: A LUTA POLÍTICA FEMINISTA DA


FEDERAÇÃO PERNAMBUCANA PELO PROGRESSO FEMININO (1931-
1937) ............................................................................................................... 679

FEMINISMOS NO HISTÓRICO ESCOLAR: UMA MIRADA SOBRE A xiii


TRAJETÓRIA EDUCACIONAL DAS MULHERES NO BRASIL ............ 698

MULHER MARAVILHA: REFLEXÕES ACERCA DA REPRESENTAÇÃO


E PAPEL FEMININO NO SÉCULO XX ...................................................... 733

O FEMINISMO NAS ONDAS DO RÁDIO: A CRUZADA FEMINISTA


BRASILEIRA E A RÁDIO CLUBE DE PERNAMBUCO (1931-1932) ..... 746

ST 7: GÊNERO E CULTURAS POLÍTICAS NO BRASIL .................... 764

CENSURA PARA QUEM? GÊNERO E MORAL NO CINEMA DA


DITATURA .................................................................................................... 765

CULTURA POLÍTICA E AÇÕES VOLTADAS AOS INFANTOJUVENIS EM


FLORIANÓPOLIS: UM ESTUDO ATRAVÉS DAS LENTES DE GÊNERO:
(1979 – 1990) ................................................................................................. 781

DESCONSTRUÇÃO DE ESTEREÓTIPOS: A CAMPANHA DA


FRATERNIDADE DE 1987 .......................................................................... 795

FUTUROS HOMENS DA PÁTRIA: MASCULINIDADES NA CASA DO


PEQUENO JORNALEIRO (CURITIBA, 1957-1962) .................................. 807

GÊNERO, SEXUALIDADE E CONSERVADORISMO POLÍTICO NA


EDUCAÇÃO ESCOLAR DA JUVENTUDE................................................ 822

IMPRENSA ALTERNATIVA E CULTURAS POLÍTICAS: GÊNERO E


POLÍTICA EM “O MULHERIO” ................................................................. 839

POLÍTICA POR E PARA MULHERES: A EMANCIPAÇÃO NAS PÁGINAS


DE “O SEXO FEMININO” ........................................................................... 895

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A OPERACIONALIZAÇÃO DE UMA MASCULINIDADE POLÍTICA NA


REVISTA PLAYBOY (DÉCADA DE 1980) ................................................ 913

xiv

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Índice de Autores

A G

Alcileide Cabral do Nascimento ...................746 Gilvânia Cândida da Silva ............................. 746


Alex Silva Ferrari...........................................211 Giovanna Costa Cinacchi .............................. 48
Ana Carolina Eiras Coelho Soares .................410 Gisele Morais Oliveira ................................. 716
Ana Maria Veiga ...........................................765 Graciana Martins dos Santos ....................... 588 xv
Ana Taisa da Silva Falcão .............................. 230

I
B
Inara Fonseca .............................................. 249
Brena Oliveira Pinto .....................................391 Ioneide M P B de Souza ............................... 857
Bruno Sanches Mariante da Silva .................877 Isabela Brasil Magno ................................... 378

C J

Camila Serafim Daminelli ............................. 781 Jaqueline Ap. M. Zarbato ............................ 570
Jhoana Gregoria Prada Merchán ................. 295

D Joice de Souza Soares .................................. 895


Júlia Glaciela da Silva Oliveira...................... 140
Daniela Auad ................................................698 Juliana da Conceição Pereira ......................... 36
Danielle Silva Moreira Dos Santos................362
Douglas Josiel Voks ......................................913 L

E Larissa Urquiza Perez de Morais.................. 555


Leandro Teófilo de Brito .............................. 822
Elaine P. Rocha .............................................352 Leidy Carolina Díaz Cardozo ........................ 422
Elda Alvarenga .............................................541 Lidia M V Possas .......................................... 200
Elisangela da Silva Machieski .......................795 Lisa Batista de Oliveira ................................. 82
Elvira Mejia Herrejón ...................................454 Luciana Nogueira da Silva ............................ 627
Emelly Sueny Fekete Facundes ....................679 Luciana Silveira ............................................ 211
Érika Oliveira Amorim ..................................319
Erineusa Maria da Silva ................................ 541 M

F Marcel de Almeida Freitas........................... 527


Marcela Boni Evangelista ............................ 267
Fábio Luiz Alves de Amorim ......................... 541 Maria Beatriz Nader .............................281, 319
Maria Rita Neves Ramos ............................. 698

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Mariane Ambrósio Costa.............................. 839


R
Marta de Carvalho Silveira ............................ 20
Mayllon Lyggon de Sousa Oliveira................436 Rafael Chaves Vasconcelos Barreto............. 156
Mirela Marin Morgante ............................... 281 Raquel Borges Salvador ............................... 698
Mirella Tuanny Ferreira ................................ 661 Renan Reis Fonseca ..................................... 605
Míriam Albani...............................................644 Renata Lopes Marinho ................................ 733
Miriam Soares Leite .....................................822 Rhanielly Pereira do Nascimento Pinto ....... 494

N T xvi
Nadia Maria Guariza ....................................126 Tânia Bassi Costa ......................................... 106
Natanael de Freitas Silva .............................. 474
Nayara Cristina Carneiro de Araújo ..............822 V
Nicolle Taner de Lima ...................................807
Vanessa Gonçalves Bittencourt de Souza...... 65

P Veronica de Jesus Gomes ............................ 334

Patrícia Urruzola...........................................895 W
Paulo Brito do Prado ....................................171
Wéber Félix de Oliveira ............................... 436
Weyber Rodrigues de Souza ........................ 507

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APRESENTAÇÃO

A Associação Nacional de História – ANPUH Brasil – é uma entidade


que agrega profissionais atuantes na área de História e mantém em sua
17
organização Grupos de Trabalho (GTs) que consistem em conjuntos de
pesquisadores que se propõem a trabalhar certo eixo temático em caráter
contínuo, definindo para isso um programa de atividades, tais como debates,
pesquisas, produções, participação e promoção de eventos.
O Grupo de Trabalho Estudos de Gênero, que completa 15 anos de
fundação em 2016, reúne pesquisadoras(es) de diferentes estados do Brasil,
vinculados ao tema “Gênero”, e tem como objetivo constituir uma rede nacional
de estudos, bem como promover a criação de laboratórios vinculados a esta
temática. Hoje, no país o GT Gênero conta com mais de dez sessões regionais.
O GT de Estudos de Gênero da ANPUH/RJ, um dos responsáveis pela
organização do II Encontro Nacional do Grupo de Trabalho Estudos de
Gênero - ANPUH, desde sua formação teve como objetivo central reunir
diversos estudos que operam com a categoria de gênero para a análise histórica
em suas mais diversas abordagens, temas e fontes. Agrega professoras(es) e
alunas(os) de pós-graduação e de graduação que pesquisam temas relacionados
aos estudos de gênero.
O II Encontro Nacional do Grupo de Trabalho Estudos de Gênero -
ANPUH congregou, na sede da UNIRIO, no Rio de Janeiro, entre os dias 27 e
28 de outubro de 2016, estudantes, pesquisadoras(es) e professoras(es) do
Ensino Superior de todo o país, para a troca de experiências, apresentação e
debate de suas pesquisas e reflexões. Com a participação de pesquisadoras(es)
da História e áreas afins, o evento buscou fomentar o intercâmbio de saberes e
de práticas de pesquisa sobre as relações de gênero e enriquecer o debate, as
trocas entre pesquisadoras(es) e instituições de pesquisa, facilitando novos

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projetos, novas redes de pesquisadores e publicações em torno das relações de


gênero no Brasil.
Parte desses resultados, apresentamos ao grande público nas Atas que
ora divulgamos. Fazemos votos que novas(os) interessadas(as) possam encontrar
nos textos que as(os) autoras(es) cederam para publicação, incentivos e subsídios
para ampliar as pesquisas no campo.

18
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro
As(os) Organizadoras(es)

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ST 1A
História e Gênero: Cultura
Memória e Identidades

Coordenação
Prof. Dr. Ricardo dos Santos Batista
(UNEB)

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A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE FEMININA NA IDADE MÉDIA:


UM DIÁLOGO POSSÍVEL ENTRE OS DISCURSOS JURÍDICO E
ECLESIÁSTICO

Marta de Carvalho Silveira*

A década de 1960 trouxe à cena social o movimento feminista. As


mulheres chegaram às universidades e se tornaram produtoras de um 20
conhecimento intelectual que as tornou também um objeto de estudo. A História,
que privilegiara até aquele momento o chamado sujeito universal masculino,
ganhou novos protagonistas que foram além dos grandes personagens
masculinos e heróis nacionais. As mulheres e outros grupos sociais
desconsiderados pelos estudos historiográficos ganharam um amplo espaço de
pesquisa na academia. Sem dúvida a interação crescente com os estudos
antropológicos, particularmente com a obra de Claude Lévi-Strauss, cuja tônica
era a importância alcançada pelas relações de parentesco nas sociedades
primitivas, estimulou e fundamentou a exploração de novos temas pelos
historiadores, tais como o casamento e o papel social das mulheres.
Influenciados pela antropologia, os medievalistas da década de 1970,
iniciados por Georges Duby, iniciaram uma reflexão mais aprofundada sobre o
papel que o casamento alcançou na estruturação da sociedade feudal. As obras
Idade Média, Idade dos Homens e O cavaleiro, a mulher e o padre iniciaram
uma profunda reflexão sobre as relações matrimoniai que se desdobrou em
estudos específicos sobre a história das mulheres, tais como os três volumes
intitulados Damas do século XII e a coleção História das Mulheres, organizada
em parceria com Michelle Perrot. Estas obras produzidas por Duby
representaram um passo altamente significativo para o desenvolvimento dos
estudos referentes à história das mulheres apesar de, com exceção de a História
das Mulheres, as obras de Duby não ousaram ir além do século XII e a análise
do papel social das mulheres restringiu-se à aristocracia. As obras referidas, além
da inovação temática, propõem também o uso de novos métodos de análise e

*
UERJ

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fontes de estudo. A tônica que permeia todas as obras referidas, conforme nos
informa Patrick Boucheron, é a dominação masculina sobre as mulheres.1
Para a implementação das suas análises, Duby utilizou como fontes de
pesquisa a literatura genealógica e os discursos clericais. Chamou a atenção para
o fato de que tais materiais não eram de autoria feminina, mas sim refletiam a
visão masculina sobre o papel social considerado adequado às mulheres. Nas
palavras do autor:
21
Faço de imediato essa advertência. O que procuro mostrar não
é o realmente vivido. Inacessível. Procuro mostrar reflexos, o
que testemunhos escritos refletem. Confio no que eles dizem.
Se dizem a verdade ou não, não é isso que importa. O
importante para mim é a imagem que oferecem de uma
mulher e, por meio delas, das mulheres em geral, a imagem
que o autor do texto fazia delas e quis passar aos que o
escutaram. Ora, a imagem viva é inevitavelmente deformada
nesse reflexo e por duas razões: Primeiro, porque os escritos
datados da época que estudo – e esse caráter, no espaço
francês, não se alterou antes do final do século XIII – são
todos oficiais, dirigidos a um público, jamais voltado para o
íntimo; segundo, porque foram redigidos por homens.2

No estudo aqui estabelecido serão tratadas tanto as imagens propostas


pelo discurso clerical quanto as que foram produzidas no âmbito jurídico. Não
para que se alcance a realidade acerca do cotidiano das mulheres medievais, mas
sim as representações cunhadas no medievo sobre o modelo feminino. Para
tanto, serão utilizados como fontes de pesquisa IV Concílio Lateranense (1213)
e o Fuero Real (1255). As duas fontes têm um caráter normativo, mas foram
construídas em “lugares” diferenciados: a primeira é uma ordenação constituída
no âmbito eclesiástico e a segunda, no âmbito jurídico. Portanto, apesar da
diversidade referente à autoria, os dois documentos permitem que se entrevejam
representações muito semelhantes no que tange ao papel social a ser
desempenhado pelas mulheres laicas.
O IV Concílio de Latrão, convocado pelo papa Inocêncio III, em 1213,
representou para a Igreja medieval o ponto máximo da sua normatização.

1
BOUCHERON, P. Georges Duby. In: SALES, Véronique (org.). Os Historiadores.
São Paulo: UNESP, 2011.p. 278.
2
DUBY,G. Heloisa, Isolda e outras damas do século XII. São Paulo: Companhia das
Letras, 1995. p. 10.

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Resultado de uma série de discussões dogmáticas existentes desde o I Concílio


de Latrão (1123), convocado no momento em que a Igreja buscava firmar a sua
autoridade sobre os assuntos espirituais e estabelecer a sua autonomia frente aos
poderes laicos. Em um movimento claramente reformista, a Igreja iniciou um
processo de discussão burocrática e dogmática interna buscando diminuir a forte
influência da aristocracia em seus quadros. Em um movimento crescente, as
principais famílias nobiliárquicas gradativamente controlaram os principais
22
cargos eclesiásticos e infiltraram-se na sua estrutura da Igreja. Como nos lembra
Leandro Rust, o concílio de Latrão pode ser considerado “o maior de todos os
concílios medievais, um verdadeiro “monumento jurídico” e síntese privilegiada
da organização institucional arquitetada pelo papado dos séculos XI e XII”3, que
resultou na elaboração de setenta decretos reformatórios que dispunham tanto de
assuntos referentes à reorganização do quadro eclesiástico quanto da condução
dogmática dos laicos.
O Fuero Real é uma obra jurídica, parte de um projeto legislativo
elaborado mando de Afonso X em seu scriptorium. A necessidade de fortalecer
o seu poder frente às forças particularistas de poder presentes no reino
castelhano-leonês, que envolviam tanto as autoridades municipais quanto as
aristocráticas, em um contexto marcado pela retomada do território das mãos dos
muçulmanos, levou o monarca a organizar este código jurídico. Composto por
quatro livros subdivididos em livros e títulos que tratam de assuntos que vão
desde a natureza do poder real até as questões como casamentos, furtos,
falsificações, heranças etc., o Fuero Real oferece, em alguns dos seus títulos,
preceitos legais que definem a condição jurídica da mulher. Este código visava
substituir os inúmeros fueros que haviam sido produzidos e distribuídos por
iniciativa dos monarcas castelhanos e leoneses ao longo do processo que a
historiografia castelhana da primeira metade do século XX convencionou
chamar de Reconquista. O Fuero Real foi elaborado a partir das referências do
direito consuetudinário e das referências jurídicas das diversas famílias forais,

3
RUST, L. O concílio, o papado e o tempo: ou algumas considerações críticas sobre a
institucionalização do papado medieval (1050-1270). História: Questões & Debates,
Curitiba, n. 46, p. 165, 2007. Editora UFPR.

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do direito canônico e do direito romano. Sua proposta era difundir os modelos


legais e consequentemente comportamentais que deveriam ser adotados por
todos os habitantes do reino, tanto os clérigos quanto os laicos, tanto homens
quanto mulheres.
Ao contrário da proposta de Duby, que concentrou a sua análise no papel
social das damas francesas do século XII, neste trabalho não foi utilizada uma
categoria social feminina específica. Tanto o modelo clerical quanto o modelo
23
jurídico eram propostos para todas as mulheres, embora a sua repercussão possa
ter sido maior em uma ou outra esfera social. Estes modelos foram cunhados
para serem universais e ordenadores da sociedade, não sendo destinados a uma
categoria social feminina específica.
Como fontes normativas que são os decretos do IV Concílio de Latrão e
os títulos do Fuero Real representam estruturas discursivas produzidas pela
sociedade medieval. O uso dos códigos legislativos gerou um debate
considerável entre os historiadores e estudiosos da lei. Para alguns as leis podem
ser entendidas como uma expressão da realidade social que pode ser apreendida
através do seu estudo. Para outros, a lei é o produto de uma demanda social que
objetiva a ordenação das práticas consideradas aceitáveis por aqueles que
governam a sociedade. Desta forma, as normas não seriam um reflexo da
sociedade, mas a representação dos comportamentos por ela considerados ideais.
A riqueza das fontes narrativas repousa justamente no fato de que através delas
é possível conhecer um pouco mais acerca das situações cotidianas e dos dilemas
gerais enfrentados por uma determinada sociedade e ao mesmo tempo identificar
os modelos comportamentais considerados por ela ideais.
Um ponto nevrálgico que deve ser tocado quando se analisa as fontes
normativas é a questão da autoria, que não é individual e sim coletiva,
expressando, portanto, a visão de um dado grupo detentor de poder sobre os
mecanismos de governo ou institucionais. A contraposição das fontes
selecionadas aqui permite compreender a visão que o papa e o monarca,
juntamente com todos aqueles que ofereciam suporte ao seu governo, tinham do
comportamento considerado ideal às mulheres laicas inseridas na Igreja e no
reino. Tanto Afonso X quanto Inocêncio III, cada um por motivos específicos,

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buscavam nas normas assegurar a centralidade e a superioridade da sua


autoridade sobre aqueles que lhes estavam subordinados. As mulheres laicas
eram ao mesmo tempo súditas e fiéis e, no que se refere aos papéis sociais a elas
impostos, não há contradições entre os modelos propostos no discurso
eclesiástico e no discurso jurídico.
Em comum com as fontes literárias usadas por Duby em suas análises,
os documentos aqui utilizados têm o fato de terem sido escritas por homens que
24
criaram a sua própria representação sobre o ideal feminino. Ideal que implica no
cumprimento de três papéis sociais básicos: o de ser a filha, a esposa e a viúva
ideal.

A filha
O casamento medieval era um dos principais instrumentos de
organização da estrutura social. Afora as questões sentimentais, que não
formalmente não eram consideradas neste contexto, a união de homens e
mulheres em uma relação matrimonial significava a definição de um lugar social.
Os homens e mulheres casados gozavam de um status diferenciado na sociedade.
O casamento lançava sobre eles responsabilidades e privilégios. Ao homem
caberia ter a honra e a dignidade de chefiar uma família, sendo responsável pelo
seu sustendo e preservação. À mulher cabia antes de tudo gerar a família
tornando-se mãe e depois mantê-la unida sobre os princípios da honra e da moral
cristã.
O casamento funcionava como uma espinha dorsal que sustentava a
hierarquia social, principalmente no que se referia ao círculo aristocrático.
Tratava-se de uma prática que precisava ser regulada por aqueles que, desde o
século XII, com os ventos reformistas na Igreja e as tendências centralistas do
poder monárquico, buscavam ordenar aqueles pelos quais se consideravam
responsáveis. Controlar a prática matrimonial significava controlar, dentre
outros pontos, a sexualidade e a transmissão e a divisão dos bens familiares, já
que o casamento era, em última instância, uma decisão familiar onde o amor não
era um pré-requisito necessário, sendo na maior parte das vezes, condenável.
Como afirma Charles de la Roncière, “(...) Evidentemente, o casamento

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impõem-se como uma instituição indispensável, e até feliz, mas não é local de
amor.”4 Desta forma, tanto se referia ao âmbito eclesiástico quanto ao laico e
precisava ser por ambos ordenados. O Fuero Real, ao tratar da ordenação do
casamento, é claro em afirmar que ele deve ser feito de acordo com as regras
estabelecidas pela Igreja. Diz o Fuero Real: “Establecemos e mandamos que
todos los casamientos se fagan por aquellas palabras que manda santa iglesia, e
los que casaren sean tales que puedan casar sin pecado.” 5
25
Desde o século XII o casamento tornou-se um sacramento. Deixou de ser
um assunto que poderia ser tratado livremente pelos laicos que definiam as
regras e legavam ao clero somente o papel coadjuvante. Até ser
sacramentalizado, o casamento era elaborado pelas famílias dos noivos que além
de ver na união uma forma de ampliar e/ou preservar o seu patrimônio, o
entendiam também como um símbolo de status social. No planejamento da união
não era levado em consideração o desejo e o consentimento dos noivos, já que
se tratava de uma decisão coletiva e não individual.
O controle do casamento era, segundo Georges Duby, o conflito de duas
morais: a moral eclesiástica e a moral laica e foi estabelecido como uma forma
de sobrepor a autoridade moral da Igreja à autonomia de que gozava a
aristocracia para a definição da sua política patrimonial, que se desdobravam em
ações políticas e econômicas, além de lhe garantir um dado posicionamento
social.
A moral eclesiástica, implantada como um desdobramento dos ventos
reformistas, visava ressaltar o caráter divino do casamento, buscando retirar dele
qualquer traço de luxúria, o resguardo da virgindade da noiva até que o laço
matrimonial ocorresse de fato, o seu caráter procriativo e o combate à práticas
como o incesto, o repúdio e o concubinato. O discurso eclesiástico ressaltava
quatro pontos fundamentais que foram incorporados ao caráter matrimonial do
casamento. O primeiro ponto era assegurar que fosse dado aos noivos o direito

4
LA RONCIÈRE, Charles de. À sombra da castidade. In: BERNOS, M;
LÉCRIVAIN,P.; LA RONCIÈRE,C. de la et. GUYON, Jean. O Fruto proibido.
Lisboa: Edições 70, 1985. p. 141.
5
FUERO REAL DEL REY DON ALONSO EL SABIO. La real academia de la
historia. Madrid: Imprenta Real, 1836. Livro III, Título I; lei 1, p.64.

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de consentir na realização da união. O segundo ponto da moral eclesiástica


refere-se aos fatores que permitiriam a dissolução de um casamento. O terceiro
ponto versava sobre os critérios de licitude de um casamento. Já o quarto ponto
desta moral tratava da regulamentação das práticas sexuais.
O ato do consentimento em relação ao casamento é atestado no Fuero
Real que condena o pai ou qualquer outro que ousar casar uma filha donzela ou
viúva sem que ela expresse o seu consentimento. Caso incorram neste erro,
26
infrator deverá pagar cem maravédis, divididos entre o rei e a mulher onerada e
o casamento será invalidado. Esta pena só é suspensa se o casamento tiver sido
feito com a aprovação do rei6.
Antes de o casamento tornar-se um sacramento, eram os pais os
responsáveis por assegurar a legitimidade da união. Aos clérigos cabia somente
assegurar a sacralidade do ato aspergindo água benta sobre o leito nupcial como
uma garantia da fecundidade do casamento assegurada principalmente pelas
mulheres.
A trajetória da mulher medieval não diferia muito dos padrões sociais
vigentes atualmente. Elas nasciam filhas, tornavam-se esposas e alcançavam a
sua maturidade sendo mães. De uma forma ou de outra, respeitando-se as
diferenças culturais, os padrões e pressões sociais relativos à mulher ainda se
conservam.
Na Idade Média a concepção de infância não é a mesma que possuímos
hoje. As crianças eram entendidas e vestidas como adultos em miniatura,
recebendo sobre si também as responsabilidades próprias da maturidade. Sendo
assim, a menarca era o marco de ingresso de uma mulher na vida adulta,
independente da idade em que ela ocorresse. Em geral, as famílias aristocráticas
iniciavam as negociações para o casamento desde o nascimento. Tão logo a
mulher estava pronta para cumprir a sua principal função, que era a procriação,
era dada em casamento àquele que foi escolhido pela sua parentela.
Uma boa filha era aquela que respeitava os desígnios da sua parentela
principalmente no que se referia às questões matrimoniais. Isto fica claro no

6
FR, IV, X, 8; p. 136.

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artigo 51 do IV Concílio de Latrão que determina a proibição de casamentos


secretos. Segundo esta norma, o casamento só poderia ser considerado lícito se
ocorresse publicamente, na presença de testemunhas e do clérigo. Nem um
clérigo e nem qualquer outra pessoa que participasse de um casamento secreto
se livraria da ira da Igreja. A publicidade do casamento era um fator garantidor
da sua legitimidade e exigida também no Fuero Real que determina; “Et todo
casamiento fagase concejeramiente, e non a furto, de guisa que si fuer mester
27
que se pueda probar por muchos.”7 e estabelece como punição para quem
comente esse erro, o pagamento de uma pena pecuniária de cem maravédis ao
rei e se não tiver a quantia a ser paga, perderá todos os bens que tiver para o rei,
além de perder a sua própria liberdade, pois o seu corpo ficará à mercê do rei.
Nota-se que há por parte do rei uma tentativa de legislar sobre a legalidade do
casamento, mesmo que utilizando como parâmetro a normativa eclesiástica. Ao
mesmo tempo em que o monarca se submete à lei canônica, ele a utiliza também
como instrumento de fortalecimento da sua própria autoridade, visto que quem
se casa ilegalmente, ofende diretamente ao rei, a cabeça do corpo social, que é a
quem devem ser revertidos os ganhos gerados pela ofensa.
Além da publicidade do casamento assegurar a sua legitimidade, o artigo
50 do IV Concilio de Latrão determinava que os casamentos legítimos seriam
aqueles que se dessem acima do quarto grau de parentesco. Com esta estratégia
a Igreja dificultava em muito a livre negociação das uniões matrimoniais pelos
laicos e aumentava o controle sobre os mecanismos de dissolução do casamento
que se dava pela anulação ou pelo divórcio, possíveis de acontecer quando a
união não foi consumada, pelo adultério feminino ou pela consanguinidade
imprópria dos nubentes.
O Fuero Real reforçava esta determinação da Igreja quando condenava
legalmente a prática do incesto. A lei diz: “Ninguno non sea osado de casar con
su parienta nin con su cuñada fasta el grado que manda santa yglesia, nin de
yacer con ella, e qui contra esto ficiere a sabiendas, el casamiento non vala, e
ellos sean metidos em seños monastérios para facer penitencia por siempre;” 8

7
FR,III, I; 1, p. 64.
8
FR, IV, VIII, 1, p. 132-133.

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No jogo político e patrimonial em que se inseria a contratação dos laços


matrimoniais aristocráticos, o casamento era uma peça seminal, já que era o
responsável pela definição do lugar social das mulheres que fundamentalmente
poderia estar em três condições: solteira, casada ou viúva.
Às donzelas eram propostos dois caminhos: casar-se ou entrar para a vida
religiosa. Em se tratando das mulheres laicas, objeto da nossa análise, o destino
final era o casamento. Daí o direito de casar-se ser assegurado na própria lei,
28
conforme se lê no Fuero Real: “Si el padre o la madre, o hermanos o otros
parientes tovieren en su poder manceba en cabellos e, non la casaren fasta XXV
años, e ella despues casares sin su mandado, non aya pena por ende, casando ella
con ome quel conviere.”9
O Fuero Real é claro em definir a importância da obediência da filha nas
questões matrimoniais. Uma “manceba em cabelos”, como eram chamadas as
donzelas, só poderia casar-se com o consentimento da sua parentela e com
alguém que por ela fosse escolhido. Caso a donzela insistisse em casar-se sem o
consentimento dos pais perderia o acesso aos seus bens, não participando mais
da partilha como os seus irmãos, sendo portanto, deserdada10. No entanto, se ela
alcançar o perdão dos pais, ela poderá participar da partilha dos bens com os seus
irmãos11. Nota-se aqui a maior penalidade que poderia ser atribuída a uma
mulher solteira: a perda dos seus bens, que implicaria na perda do único
instrumento de que ela disporia para alcançar o seu destino social: o casamento.
Como alerta Georges Duby, em sua obra O cavaleiro, a mulher e o padre,
“(...) A função do casamento era a de juntar a um genitor valente, uma esposa de
tal ordem que o seu filho legítimo, esse ser que transportaria o sangue e o nome
do antepassado valoroso, fosse capaz de fazer reviver este na sua pessoa. Tudo
dependia da mulher”12. O papel fundamental da mulher no casamento era a
procriação. Ter um filho era sinal de status para a mulher e fortalecia o seu lugar
na parentela.

9
FR, III, I, 2; p. 64.
10
FR, III, I, 3; p. 64.
11
FR, III, I, 5; p. 65.
12
DUBY,G. O cavaleiro, a mulher e o padre. Lisboa: Dom Quixote, 1981, p.30.

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As virgens eram muito valorizadas pela parentela para a contratação de


casamentos considerados ideais. A virgindade assegurava a legitimidade do
primeiro filho e herdeiro, já que a primogenitura tornou-se uma condição
primordial para a delegação das heranças por volta do século XII. A virgindade
alcança um forte teor simbólico nas sociedades desde a Antiguidade até os
nossos dias. Como alerta Yvone Knibichier, em seu livro História da Virgindade
(2016), “(...) A defloração é vista como um ato mágico; simultaneamente ferida
29
que sangra e revelação do prazer, ela supostamente provoca uma alteração
definitiva na fêmea humana” 13. Mesmo fora da aristocracia, a virgindade é um
valor a ser preservado ou negociado. Há relatos de mulheres que eram
conduzidas à prostituição por parte das suas próprias famílias que, endividadas,
viam na prostituição das filhas um caminho para a sua sobrevivência. Mesmo
nesse caso extremo, e conta qualquer moralidade, as boas filhas deveriam
obedecer às designações dos seus pais.
Dada à importância que as donzelas alcançavam na sociedade medieval,
o rapto de donzelas era considerado um erro tão grave para a sociedade que
poderia levar à morte do raptor, caso fosse atestada a fornicação. No entanto, se
a fornicação não ocorresse, a pena se transmutava em pecuniária, com o
pagamento da quantia de cem maravédis. Caso o infrator não tivesse com o que
pagar, deveria ser metido na prisão até que conseguisse pagar a quantia que
deveria ser dividida entre o rei e a mulher ofendida14.

A esposa
Cumprido o papel de filha impecável, a mulher medieval era inserida no
universo matrimonial. Como esposa a mulher assumia responsabilidades sobre
a sua casa e deveres. Silvana Vecchio15 define como um dos primeiros deveres
da esposa, a obediência aos seus sogros. A mulher casada passava da custódia
da sua parentela e passava à de seu marido e dos seus parentes. Ela não poderia

13
KNIBIEHLER,Yvonne. História da Virgindade. São Paulo: Contexto, 2016. p. 112.
14
FR,IV, X, 1, p. 134-135.
15
VECCHIO,Silvana. La Buena Esposa. In: DUBY,G.e PERROT,M. Historia de las
mujeres. La Edad Media. La mujer en la família y en la sociedad. Madrid: Taurus,
1992. p. 136.

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tornar-se um elemento desagregador na sua nova moradia, mas exercendo a


pacificação e a obediência, deveria favorecer a união entre o seu marido e a sua
parentela, rompendo os laços de fidelidade com o seu grupo originário e
firmando-os com a sua nova família.
Outro dever da boa esposa era amar ao seu marido não somente no
sentido carnal quanto social. O amor não era condição para a existência de um
casamento no medievo. Alguns clérigos, como São Jerônimo, criticavam a
30
existência de um amor carnal entre os esposos, já que ele poderia favorecer a
submissão do marido à mulher, algo inadmissível, já que o marido era o
responsável pelo governo da sua esposa. Como atesta Carla Casagrande, através
da análise dos discursos eclesiásticos, há uma concepção corrente no Medievo
de que a mulher necessita da custódia constante de um elemento masculino: pais,
irmãos, tios, maridos... Isto porque a natureza feminina, radicada no simbolismo
da Eva bíblica, é marcada pela instabilidade, pela sexualidade desenfreada e
exacerbada, pela curiosidade indevida que inevitavelmente conduz às mulheres
a uma atitude inquieta e irresponsável diante do mundo que a cerca. Como afirma
Carla Casagrande: “Por tanto, las mujeres no pueden custodiarse por si mismas;
la infirmitas de su condición, que las hace débiles y privadas de toda firmeza,
exige que, junto a las vergüezas, intervengnan otras custodias.”16
O débito conjugal e a fidelidade também eram deveres de uma boa
esposa. A esposa deveria permitir ao seu marido que exercesse a sua sexualidade
no leito conjugal para fins procriativos. A procriação era o objetivo máximo do
casamento e do sexo. Os clérigos medievais, em seus escritos e sermões,
reforçavam a clara relação entre o sexo e o pecado original. O pecado original
cometido por Adão e Eva afeta a todos, homens e mulheres, no entanto quem o
introduziu no mundo foram as mulheres que, em sua desobediência a Deus,
incitaram os homens ao sexo. Não sem sentido, Eva tornou-se o grande símbolo
da natureza inconstante e pecaminosa da mulher. A luxúria, o prostituição, a

16
CASAGRANDE, Carla. La Mujer Custodiada. In: DUBY, G. e PERROT, M.
Historia de las mujeres. La Edad Media. La mujer en la família y en la sociedad.
Madrid: Taurus, 1992. p. 113.

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fornicação e o adultério são pecados tipicamente femininos, como afirma


Cristina Segura Graiño.17
A disciplinarização da sexualidade era uma das metas estabelecidas pela
Reforma Gregoriana. Freud considera a sexualidade como um dos principais
instintos humanos. O controle da sexualidade pela Igreja representaria, portanto,
o controle sobre a vontade e a força da persona, ensejando a sua total submissão
à moral eclesiástica. Para tanto a Igreja, através dos seus sermões e penitenciais,
31
definia a legalidade das relações sexuais a partir de quem a realiza (relações
realizadas entre homens e mulheres casados), do lugar onde ela pode ser
realizada (na cama do casal) e da posição adequada (a sobreposição do homem
sobre a mulher). O sexo realizado fora das regras elencadas era considerado
ilícito e passível de condenação eterna, além de poder ocasionar danos para a
criança que seria gerada a partir dessa relação. O medo de que nascessem
crianças defeituosas em função de uma relação sexual feita em durante o período
menstrual ou em dias santos era muito grande. Uma criança defeituosa era
considerada como uma falha evidente da mulher e o fruto indesejado da sua
luxúria.
O adultério representa a maior quebra de confiança que a mulher pode
exercer em relação a sua parentela, pois oferecia perigo à parentela permitindo
que um filho ilegítimo se tornasse herdeiro do patrimônio familiar. O
interessante é que o adultério não é considerado somente como um pecado
feminino. Os homens adúlteros que tivessem filhos com uma mulher que não
fosse a sua, poderia permitir que filhos bastardos tivessem acesso ao patrimônio
familiar. Daí o adultério receber a pena máxima tanto no discurso clerical quanto
no jurídico.18
O Fuero Real determinava que ficasse à cargo do marido penalizar da
forma como quisesse, inclusive com a morte, a esposa traidora e o seu amante.
A mesma pena deveria ser aplicada a ambos, não podendo haver a condenação

17
SEGURA GRAIÑO, Cristina. El pecado y los pecados de las mujeres. In:
CARRASCO, Ana Isabel Manchado e RÁBADE, María del Pillar Obradó (org.). Pecar
en la Edad Media. Madrid: Sílex, 2008. p. 213.
18
SEGURA GRAIÑO, Cristina. Op. cit., p. 223.

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à morte de um e a sobrevivência do outro. No entanto, a lei é clara em afirmar


que caso um dos envolvidos tenha filhos, a herança dos mesmos é resguardada.
No caso de a mulher ter sido forçada ao adultério, ela não deveria sofrer nenhuma
pena19. O mesmo código também prevê o adultério consentido, aquele que a
mulher comete com o conhecimento ou a mando do marido. Nesse caso
específico, o marido não pode acusar a sua esposa20. Prova de que o adultério é
um crime contra a parentela, está no próprio Fuero Real, que determina que uma
32
mulher pode ser acusada de adultério por qualquer homem que não seja o seu
marido, entretanto, se o marido não quer acusar a sua mulher e a quer perdoar, a
acusação do outro não poderá ser aceita21. Logo, a lei dá ao marido a autoridade
máxima para criminalizar ou não a ação da sua esposa. O adultério masculino
também é previsto na mesma lei que determinava que o marido adúltero que
quisesse acusar a sua mulher de adultério, não poderia fazê-lo22.

A viúva
O casamento é entendido tanto pelo discurso eclesiástico quanto jurídico
como um marco na vida da mulher laica medieval. As donzelas eram
extremamente valorizadas porque seriam inseridas em uma nova parentela com
possibilidades de ampliação de recursos para o seu grupo familiar. Às esposas
atribui-se um papel fundamental na conservação das alianças patrimoniais e na
garantia da perpetuação familiar. Que papel jurídico e eclesiástico era reservado
às viúvas?
As viúvas eram peças também seminais na engrenagem familiar. Elas
eram responsáveis por aconselhar às demais damas e donzelas, ajudando-as a
desempenhar devidamente as suas responsabilidades quanto à administração da
casa, tarefa, aliás, que poderia tornar-se muito complexa dependendo do
tamanho do patrimônio familiar. As viúvas ajudavam a manter o gineceu sob
controle, tornando-se um bastião da moralidade que deveria reinar na casa.

19
FR, IV, VII, 1, p. 131.
20
FR, IV, VII, 5, p. 132
21
FR, IV, VII, 3, p. 131
22
FR, IV, VII, 4, p. 132

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Como lembra Duby: (...) O gineceu, entrevisto pelos homens mas do qual são
naturalmente excluídos, aparece a seus olhos como um domínio “estranho”, um
principado separado do qual a dama, por delegação do seu senhor, detém o
governo.”23 As responsáveis por manter as demais mulheres ocupadas e com as
suas mentes livres do pecado. “(...) O ideal era uma divisão equilibrada entre a
oração e o trabalho, o trabalho do tecido.” 24
O papel político desempenhado pelas viúvas também poderia ser muito
33
ativo, mesmo que não exercido publicamente. As damas viúvas poderiam ser
muito atuantes em termos governamentais nos períodos de minoridade dos seus
filhos, tornando-se regentes.
Assim como às virgens, às viúvas é indicada, pelo discurso clerical, a
castidade. Liberada das suas funções sexuais, as viúvas também deveriam
manter as suas mentes livres dos pensamentos luxuriosos. Somente poderiam
voltar a exercer a sexualidade de forma legítima através de um novo casamento.
O destino das viúvas na Idade Média era manter a sua condição, sendo
custodiada pelos homens da sua família, entrar para a vida religiosa (passando
assim, para a tutela da Igreja) ou contrair um novo casamento, o que nem sempre
era do desejo da sua parentela, só se uma nova união implicasse em vantagens
patrimoniais para o grupo familiar. Logo, muitas viúvas viam-se impedidas de
casar-se novamente. Para tanto, o Fuero Real, de uma forma geral garantia às
viúvas a liberdade para contrair novas núpcias sem que os seus pais ou demais
membros da sua parentela possam impedi-las25. No entanto, esse casamento teria
que seguir algumas regras, como por exemplo, a certeza de que o primeiro
marido estava realmente morto, uma regra muito plausível para uma sociedade
onde a guerra e o deslocamento de maridos para outras localidades era muito
comum; caso contrário, o casamento seria invalidado e tanto a mulher quanto o
seu futuro esposo cairiam em poder do marido que poderia imputar-lhes a pena
que melhor lhe conviesse, inclusive a morte26. Outra regra estabelecida em

23
Duby,G. Convívio. In: ARIÈS,P. et DUBY,G. História da Vida Privada. Da
Europa feudal à Renascença. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 90.
24
Idem
25
FR, III, I, 4, p. 65.
26
FR, III, I, 11, p. 66.

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relação ao casamento das viúvas era que ele se desse passado um ano após a
morte do marido. Este segundo casamento só poderia ocorrer com a licença do
rei . Caso a viúva desrespeite esta regra, desrespeitando o prazo estabelecido e
sem o aval real, ela perderia metade de todos os seus bens que passariam para
seus filhos ou netos, caso os tivesse. Caso não os tivesse, os bens seriam dados
aos parentes mais próximos do marido morto27.

34
Conclusão
Analisando, portanto, os discursos clerical e legal, entende-se a
existência de princípios morais, pautados nos parâmetros da castidade,
direcionados às mulheres medievais, buscando a disciplinarização ao
desempenho dos papéis sociais considerados fundamentais para a sociedade em
questão, ou seja, o de filhas, o de esposas e o de viúvas. Através do bom
desempenho destes papéis, as mulheres medievais garantiam a sobrevivência e
a perpetuação tanto da sua parentela quanto da sociedade como um todo.
Os padrões morais e papéis sociais estabelecidos no medievo continuam
vigentes na sociedade atual, quando de uma forma geral espera-se que a filha
seja obediente aos desígnios dos pais, que a esposa mantenha a fidelidade ao seu
marido cumprindo as suas funções de administradora do lar e que as viúvas
sejam, símbolos da experiência e da sabedoria feminina. Como as
transformações mentais são as mais lentas de serem alteradas no processo
histórico, os modelos femininos medievais, reproduzidos pela Igreja e pelo
monarca, ainda fazem muito sentido no século XXI e influenciam direta ou
indiretamente a forma como as mulheres se comportam atualmente.

REFERÊNCIAS

FUERO REAL DEL REY DON ALONSO EL SABIO. La real academia de la


historia. Madrid: Imprenta Real, 1836.

BOUCHERON, PATRICK. Georges Duby. In: SALES, Véronique (org.). Os


Historiadores. São Paulo: UNESP, 2011.

27
FR, III, I, 13, p. 67.

ISBN: 978-85-65957-07-6
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CASAGRANDE, Carla. La Mujer Custodiada. In: DUBY, G.e PERROT,M.


Historia de las mujeres. La Edad Media. La mujer en la família y en la sociedad.
Madrid: Taurus, 1992. p. 113.
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"CONHECIDA MARAFONA E DESORDEIRA": MORALIDADE E


PROSTITUIÇÃO EM UM ESTUDO DE CASO NO RIO DE JANEIRO
(1900- 1910)

Juliana da Conceição Pereira*

Já era final de tarde do dia 15 de junho de 1907, quando o soldado


36
bombeiro Manoel Bernardino de Souza, foi até a casa de número 78 da rua Luiz
de Camões na cidade do Rio de Janeiro onde morava sua amásia Maria
Umbelina, e disparou dois tiros contra ela lhe atingindo a cabeça. Depois de
atirar na mulher, o bombeiro pegou a arma e disparou as três balas restantes
contra a própria cabeça. Das três balas, duas se perderam; mas a terceira lhe
penetrou o crânio.

De acordo com o jornal O Paiz1 tudo aconteceu porque Maria Umbelina


estava viciada com a vida desregrada de baixo meretrício que a algum tempo
levava na cidade. A história que veio noticiada na página policial informava que
por ser meretriz, Maria Umbelina não era “incentivo a um afeto sincero”, porém
sua “silhueta franzina e os seus grandes olhos negros de mulata” despertaram
uma paixão no baiano Manoel Bernardino de Souza de 21 anos, soldado da 3ª
companhia de bombeiros.

Ao conhece-la ficou tão envolvido pelo seu sentimento que o homem a


tirou do meretrício, lhe deu uma casa (na rua São Jorge) e até levou a meretriz
em viagem a Bahia para conhecer sua parentela. Mas, ela não se conformando
com as manifestações sinceras de afeto dele acabou por não o suportar, mudou
–se para a rua Luiz de Camões e “arranjou outro amante”, um praça de cavalaria
de polícia de nome Antenor. O bombeiro não aguentando tanta humilhação e
movido pelo sentimento de posse por Umbelina, resolveu dar um fim no
problema:
Bernardino de Souza ali apareceu ontem, ás 5 horas da tarde.

*
UFF
1
O Paiz, 15 de junho de 1907.

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Como todo homem que toma uma resolução sinistra, o


bombeiro entrou simulando calma e interpretou a rapariga
sobre a resolução que tomara de separar-se dele.
Umbelina confirmou-a
E uma cena como tantas outras.
O bombeiro saca o revólver e dispara contra a rapariga duas
balas, que lhe atingiram a cabeça, e ela cai pedindo socorro.
(...)
A polícia do 4º distrito chega logo e as providências não se
fazem esperar.
Maria Umbelina segue em carro leito para o hospital de
Misericórdia e o bombeiro é logo transportado em ambulância 37
de seu Corpo para a enfermaria do mesmo.

No hospital verificou-se que as balas não atingiram o crâneo de


Umbelina, somente feriram o couro cabeludo e depois de medicada, a mesma
pode voltar para a sua casa. Já Manoel Bernardino de Souza teve que ficar no
hospital devido ao seu estado de saúde ser mais delicado.

Essa não era a primeira vez que Maria Umbelina de Britto se envolvia
em uma confusão e aparecia na coluna policial de algum jornal. Por ser meretriz,
ela representava o oposto da imagem familiar, isto é, da imagem moral, que tanto
era valorizada durante a Primeira República. Mulheres com o comportamento
como o de Maria Umbelina eram mal vista perante a sociedade, sua constante
presença nos noticiários era uma forma pedagógica de mostrar para a população
qual o comportamento era inadequado para as mulheres. A partir da leitura dos
conflitos envolvendo Maria Umbelina de Britto a presente investigação pretende
analisar o conceito de imoralidade feminina nas primeiras décadas da República.

Desordeira Conhecida

Maria Umbelina de Britto constantemente estava envolvida nas páginas


policiais dos periódicos. Foi presa diversas vezes na delegacia da 4ª
circunscrição urbana por desordens ou agressões, nas ruas vizinhas ao Campo
do Santana. Durante os anos de 1900 a 1910 morou nas ruas do Núncio, Luiz
de Camões e na rua São Jorge. De cor pálida e grandes olhos de mulata, desde

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os quatorze anos levava uma vida desregrada como meretriz” 2. O Correio da


Manhã afirmava que ela era uma marafona e desordeira, conhecida nas ruas da
cidade como “macaca que pula”3. Os insultos lançados a Umbelina eram
diversos e durante a primeira década da República seu nome se tornou sinônimo
de arruaça.

Supostamente, ela era irmã de criação de Joaquim Pedro Silva soldado


do 9º regimento de cavalaria do Exército. Assassinado em dezembro do ano de
38
1901 com um golpe de facão dado por João Eugenio Lima da Silva, conhecido
como João Mulatinho, na rua Luiz de Camões. O crime durante semanas foi
lembrado nos principais jornais como um ato de covardia:
A luta foi rápida. Em um abrir e fechar de olhos viu-se
Joaquim Pedro preso, enquanto o Mulatinho lhe cravava até o
cabo, no peito, do lado esquerdo a faca de que se armara.
Sentindo-se gravemente ferido, o inditoso soldado deu ainda
alguns passos indo cair nos braços de uma mulher de nome
Umbelina, a quem costumava dar o nome de irmã.4

O João Mulatinho era um antigo praça da brigada policial que foi


expulso por mal comportamento. Seu bando era formado por Adolfo Xavier de
Melo (o inglesinho), Heitor (o caboclinho) e Salvador Mictóre (o Tetéa), que
viviam explorando as meretrizes. O crime contra o soldado Joaquim Pedro era
por motivo de vingança. De acordo com os jornais Gazeta de Notícias e o Jornal
do Brasil alguns dias antes Mulatinho, Inglesinho, Caboclinho e Tetéa estavam
como de costume em exercício de “capoeiragem” na rua São Jorge. Passando
pelo local o soldado Joaquim Pedro, ao avistar a cena foi até a 3ª delegacia e fez
a denúncia as autoridades que prenderam (por pouco tempo) os indivíduos.
Desde essa denúncia, a “sentença de morte” do soldado Joaquim estaria lavrada.5

Era esse o meio em que vivia Maria Umbelina. É provável que ela fosse
uma das meretrizes exploradas pelo bando do Mulatinho. Alguns dias depois do
crime, por volta das nove e meia da noite Maria Umbelina estava na janela de

2
Idem.
3
“Guarda Civil esfaqueado”. Correio da Manhã, 15 de junho de 1907.
4
“Sentença de morte”. Gazeta de Notícias, 4 de dezembro de 1901.
5
Ver: Jornal do Brasil, 04 de dezembro de 1901.

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sua residência quando rapidamente passou por ela o “crioulo” Agostinho Pinto
Gomes e lhe deu uma navalhada no rosto. Também a arrastou para fora e
“esbordoou-a desumanamente” até ser prendido em flagrante. A vítima afirmou
na 3ª delegacia que não conhecia o seu agressor, e o jornalista termina a coluna
perguntando se isso “não seria uma vingança? ”6.

Voltando para a notícia do envolvimento com Manoel Bernardino,


chama a nossa atenção a construção narrativa em torno do caso da vida da
39
meretriz. O redator estimula a ideia de culpabilidade da vítima. Isto é, a vida
desregrada de Maria Umbelina seria a justificativa para a ação do soldado
bombeiro Manoel Bernardino. Por estar agindo em “defesa da sua honra”7 o
soldado acaba sendo sutilmente justificado na reportagem. O jornal constrói o
perfil de Manoel como um homem honesto e trabalhador, que saiu de sua terra
natal para o Rio de Janeiro e que tinha condições financeiras de ter uma família.
Seu erro seria ter se apaixonado por uma mulher desonesta como Maria
Umbelina que viciada pelo meio que viveu desde os 14 anos, preferiu viver como
uma mulher leviana insistindo em manter sua vida desregrada. Sua experiência
apareceu nos jornais como um exemplo negativo, um modelo de como não se
deveria ser.

Seus envolvimentos amorosos eram caracterizados e expostos nos


jornais da pior forma possível. Alguns anos antes, em 1903 na rua do Núncio ela
se envolvera em uma outra confusão amorosa. Como destaca o jornal A Cidade
do Rio, nessa época ela era amante do furriel de polícia Manuel Domingues de
Oliveira, e resolvendo não mais lhe satisfazer “as exigências monetárias",
separou-se do mesmo e ainda aceitava a corte de um certo Arthur. Movido pelo
ciúme, o furriel atacou o seu rival com uma faca. Arthur que no momento estava
armado, pegou seu revólver e atirou em Manuel. Mesmo com toda essa confusão
ninguém saiu ferido, mas Manuel Domingues de Oliveira foi levado preso a 5ª
delegacia de polícia. Os redatores do Jornal do Brasil em descrição a tal caso,

6
“Navalhista Traiçoeiro: Porque seria? ”. Jornal do Brasil, 7 de dezembro de 1901.
7
Como sugere a análise de CAULFIELD, Sueann. Em defesa da honra: moralidade,
modernidade e nação no Rio de Janeiro, 1918-1940. Campinas, SP: Editora da
Unicamp, 2000.

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contam que Manuel Domingues de Oliveira era amante, na verdade, da meretriz


Ermerentina Polonia do Nascimento, irmã de Maria Umbelina. O furriel foi atrás
da ex amante que estava em um bar na companhia de Umbelina e do tal Arthur
e os atacou com seu facão. Para proteger Ermerentina e Arthur, sua irmã entrou
na frente e teve suas vestes rasgadas, sendo capturada juntamente com o furriel
pela polícia e levada presa a 5ª delegacia.

As redes de relações amorosas de Umbelina pareciam envolver sempre


40
militares. Embora não possamos saber se Manuel Domingues de Oliveira era
amante de Maria Umbelina ou de Emerentina Polonia fica evidente no jornal que
a reação do furriel só aconteceu por causa da troca de parceiros sexuais de uma
das meretrizes. A vida de “desordeira”, serviu de justificativa para os dois casos
que envolviam o ciúme de seus antigos parceiros. Mais do que ser o motivo
comum aos dois conflitos, o comportamento de Umbelina faz parte de uma
discussão muito maior que tinha como centro o conceito de honra no período
republicano.

Assim como o caso de Umbelina, muitos conflitos envolvendo


prostitutas apareciam diariamente nas reportagens do Jornal do Brasil8. Sempre
relacionados aos problemas morais da presença das mesmas na cidade, os jornais
eram um meio de estigmatizar as prostitutas como um contra ideal para as jovens
de família.9

Moralidade e Prostituição

Sueann Caulfield, no livro Em defesa da Honra10, trabalha com o


conceito de honra sexual do final do século XIX até a década de 1930, utilizando
processos sobre defloramento, estupros e pedidos de casamento. A autora
observa que a honra sexual estava ligada às bases da nação. Sem a força

8
Afirmo no Jornal do Brasil porque foi o jornal que selecionei para direcionar minha
pesquisa.
9
Conf. RAGO, Luzia Margareth. “Imagens da prostituição na belle époque paulistana”.
Cadernos Pagu (1), Campinas, Pagu/Unicamp, 1993.
10
CAULFIELD, Sueann. Em defesa da honra. Op. Cit

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moralizadora da honestidade sexual das mulheres, a modernização causaria a


dissolução da família, um aumento brutal da criminalidade e o caos social. Havia
nesse período uma tentativa de zelar pela moral pública e pelos valores da
família, vinculando-os à honra nacional. Quando os juristas impunham normas
civilizadas nas relações de gênero estavam participando de um projeto externo
de controle social. E esse controle estava em todas as partes não se localizando
somente entre mulheres pobres ou ricas. Em conformidade com essa reflexão a
41
autora Rachel Soihet afirma que nesse projeto civilizador nacional recaía
principalmente sobre as mulheres “uma forte carga de pressão acerca do
comportamento desejado- pessoal e familiar- que lhes garantissem apropriada
inserção na nova ordem, considerando-se que delas dependera, em grande
escala, a consecução desses propósitos”11. Com tal intento foram implementadas
uma serie de políticas pedagógica para disciplinar todas as famílias nos moldes
de moralidade de uma família que fosse branca burguesa.

Com base na honestidade sexual feminina a prostituição havia se


tornado um assunto cada vez mais frequente nos debates entre autoridades
públicas e os profissionais liberais no Rio de Janeiro. A prostituição pública era
uma fonte de trabalho mal vista pelos olhos dos pretensos reformadores e
moralizadores da Nação. 12

No final do Império e início da República nas ruas do Rio de Janeiro,


inúmeras prostitutas europeias pobres conviviam com brasileiras de
descendência africana. Diferente das francesas e de algumas meretrizes da elite
que eram admiradas e toleradas por homens influentes da cidade, a presença das
prostitutas pobres de cor negra e estrangeiras judias e polacas causavam
perturbação, incomodavam a “elite carioca” no seu desejo de que a capital
servisse de vitrine de civilização para o resto do mundo e também para o país.
As prostitutas pobres “representavam o mal que ameaçava os esforços para

11
SOIHET, Rachel. “A interdição e o transbordamento do desejo: Mulher e Carnaval
no Rio de Janeiro (1890-1945) ”. Caderno Espaço Feminino, Uberlândia, vol. 2, ano 2,
n. 1, 1995, pp. 15-52
12
CAUFIELD, Sueann. O nascimento do Mangue: raça, nação e o controle da
prostituição no Rio de Janeiro (1850-1942). Tempo, Niterói, n. 9, 2000, pp. 43-63.

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civilizar a população e a construir imagens do progresso cultural e social do


país.”13 Como descreve Caulfield “as campanhas de controle da prostituição
foram acionadas pelo medo do aumento da criminalidade, das epidemias e da
desordem social no Rio de Janeiro”.

O Código Penal do ano de 1890 não trazia referências à prostituição,


mas punia quem a facilitava. Os Chefes de Polícia do Rio tinham como propósito
regulamentar a prostituição, porém não obtiveram muito sucesso. O que
42
conseguiram foi concentrar algumas delas em zonas específicas da cidade, como
o Mangue, área pesquisada por Caulfield. Essas áreas mudavam frequentemente.
Havia uma inconsistência nos limites e nas regras voltadas para as prostitutas. E
a falta de uma legislação permitia que a polícia impusesse políticas de
confinamento e “supervisão” da prostituição. Sueann Caulfield conclui que as
áreas como a do Mangue “foram marcadas pela intervenção da polícia e de outras
autoridades municipais”. E que essa era uma história permeada por “conflitos e
negociações entre a polícia e as prostitutas”14. Tanto a polícia quanto as
prostitutas, como destaca a autora, atuavam dentro de um amplo contexto
político.

De acordo com a autora Cristiana Schettini Pereira, em Que Tenhas Teu


Corpo15, as “ruas do Rio de Janeiro das primeiras décadas republicanas estavam
povoadas de homens fardados que se envolviam com prostitutas em função de
seus trabalhos ou de seus momentos de folga”. A convivência entre fardados e
meretrizes era permeada por negociações diárias, como ressalta Schettini “tanto
eles, como elas procuravam legitimar suas ações e defender seus interesses
através da repartição de certos acordos e comportamentos. ” Essas negociações
se apresentavam em várias notícias dos jornais que tinham como tema o
meretrício. Maria Umbelina, também tinha laços de solidariedade com soldados

13
Idem. (p, 45)
14
Idem, (p, 63)
15
SCHETTINI, C. . Que tenhas teu corpo: uma história das políticas da prostituição no
Rio de Janeiro das primeiras décadas republicanas. Tese de doutorado. São Paulo:
Unicamp, 2002

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do exército, seu envolvimento até amoroso com alguns deles, acabava por lhe
proporcionar alguma proteção:
Eram 9 horas da noite, quando as conhecidas marafonas e
desordeiras Maria Umbelina de Brito e Otília Maria da
Conceição promoviam desordens na rua de São Jorge,
dirigindo-se reciprocamente os insultos mais baixos e soezes
acompanhando-os de luta corporal.
O guarda civil Eugenio Ferreira Lima, n. 32 diversas vezes as
chamou a ordem aconselhando-as a que se acomodassem a se
recolhessem a sua residência.
As observações do guarda respondiam elas com desaforos de 43
toda espécie.
A calma mantida pelo civil, por sabe-las protegidas de
soldados do exército, esgotou-se, dando-lhes, voz de prisão.
Houve logo intervenção de soldados do 23º batalhão do
exército em favor delas. (...)”16 [grifo meu]

Casos como esse não eram incomuns. Cristiana Schettini observa que,
desde o século XIX, os “comandantes das corporações militares já deveriam
estar acostumados a receber comunicações da repartição central da polícia sobre
briga e desordens envolvendo seus subordinados e prostitutas de janela. ”17 As
rivalidades e as hierarquias entre os policiais eram fundamentais nas negociações
de convivência desses grupos. Maria Umbelina receberia a proteção dos
soldados do Exército não só por manter algum laço de amizade (ou amoroso)
com eles, mas porque haviam rivalidades entre os soldados do Exército e os
guardas civis.

Na versão da história contada pelo jornal A União18 a discussão que


acontecia era entre as duas mulheres e os dois soldados do 23º batalhão do
Exército. Ao ver a discussão o guarda civil Eugenio Ferreira Lima “recolheu os
quatro ao xadrez”. No caminho, os praças “garantiram as mulheres que elas não
iriam para o xadrez”. Chegando na delegacia, após a prisão, na hora do
interrogatório dos presos, sorrateiramente o soldado Aristides Ferreira Negreiros
(um dos presos) “sem ser pressentido sacou uma faca” e golpeou no peito o

16
“Assombroso! Crime Revoltante: Marafonas desordeiras dentro da 5ª delegacia”.
Jornal do Brasil, 27 de março de 1905.
17
SCHETTINI, C. . Que tenhas teu corpo: uma história das políticas da prostituição no
Rio de Janeiro das primeiras décadas republicanas. Op. Cit. (p,34)
18
“Crime horroroso: Soldado sanguinário na 5ª delegacia”. A União, 27 de março de
1905.

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guarda Eugenio que estava de pé assistindo o testemunho do outro preso.


Enquanto os policias socorriam seu colega ferido, os criminosos conversavam
na porta da delegacia de forma tranquila.

Embora o crime tenha sido cometido por um praça do exército, não se


têm notícias se este foi condenado. Já Otília Maria da Conceição e Maria
Umbelina de Brito foram condenadas a vinte dois dias e meio de prisão, como
vagabundas, pelo juiz da 3ª pretoria.19
44
De fato, havia uma hostilidade na cidade para com os policiais militares.
Maria Umbelina parecia se relacionar muito bem com o pessoal do exército, já
os vários conflitos que a levaram presa a 4ª delegacia sugerem uma relação mais
conflituosa com esses guardas.

Conclusões

No meio de tanta confusão entre Maria Umbelina de Britto e homens


fardados foram as redes de amizade construídas pela meretriz, que ainda que de
uma forma pequena, lhe beneficiaram e a trouxeram as ruas novamente. Por ser
do baixo meretrício, a jovem Umbelina era retratada nas páginas jornalísticas
sempre de forma negativa. Além disso a frequência dela, e de outras
companheiras de profissão, em alguns ambientes trazia uma má imagem para o
local.

Na madrugada do dia 04 de julho do ano de 1902 em um maxixe


localizado na rua do Espírito Santo, Umbelina se envolveria em mais um
problema. O caso que foi noticiado pelo Jornal do Brasil em duas pequenas
notas não foi descrito com muitos detalhes. Não se sabe o motivo pelo qual se
deu o atrito, mas foram publicados os nomes das seis vítimas que tiveram

19
Lerice de Castro Garzoni em seu trabalho, Vagabundas e Conhecidas: novos olhares
sobre a polícia republicana (Rio de Janeiro, início século XX) argumenta que no Código
Penal de 1890 a prostituição não era um crime nem contravenção, porém o texto legal
apresentava “medidas restritivas em relação a essa atividade”. Haviam artigos que
puniam a prática do lenocínio; que era o ato de induzir ou se beneficiar da prostituição
alheia. As brechas nas leis forneciam mecanismos para que as meretrizes fossem atuadas
em outras infrações como a de vadiagem.

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ferimentos resultantes de tal acontecimento. Eram elas “Dalila Augusta da Silva,


Garrafinha, celebre desordeira, ferida na cabeça; Maria Umbelina de Brito,
Adelina Ferreira, Anna Braga, Alexandrina dos Santos, Maria Rita de Araújo e
Rita de Castro”. As mulheres que foram levadas ao Hospital da Misericórdia,
após serem medicadas “foram recolhidas presas à 4ª delegacia, onde se acham
também as donas da espelunca”. Embora esse “maxixe” já tivesse sido palco de
outras confusões, os articulistas enfatizam na notícia que pessoas de reputação
45
não frequentavam um ambiente como aquele20, que a casa era uma “espelunca
do vício” 21 e seus frequentadores eram tudo o que havia de mais “asqueroso na
escória social”. Eram os mais temíveis representantes do vício e do crime, que
viviam em companhia de mulheres da baixa reputação que promoviam
“escândalos e cenas da mais requintada imoralidade” o que era algo nocivo à
“tranquilidade pública”22.

Como não se enquadravam no perfil idealizado de mulher que era


dedicada a família, contida sexualmente sendo vigiada e protegida no espaço
privado do lar; mulheres que levavam uma vida como a de Maria Umbelina eram
caracterizadas como imorais, não eram vistas como cidadãs, mas como algo ruim
que deveria ser curado pelos reformadores da Nação.

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autobiográficas. Rio de Janeiro: Editora FGV/ Porto Alegre: UFRGS Editora,
2009, p. 255-276

20
“O Maxixe”. Cidade do Rio, 25 de fevereiro de 1902.
21
“Espelunca do Vício”. Jornal do Brasil, 05 de julho de 1902.
22
Idem

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(2012) jul/dez Gênero e Subjetividades

SOIHET, Rachel e PEDRO, Joana Maria. “A Emergência da pesquisa da


História das Mulheres e das relações de gênero” In: Revista Brasileira de
História. Nº 54 vols.27. São Paulo: ANPUH, jul - dez. 2007, p. 281-300.

ISBN: 978-85-65957-07-6
Rio de Janeiro
Ed. Anpuh-Rio
Atas do II Encontro Nacional do GT Estudos de Gênero
Rio de Janeiro, 27 e 28 de outubro de 2016.

FILANTROPIA E MATERNIDADE: RELAÇÕES ENTRE DAMAS DA


ELITE E MÉDICOS FILANTROPOS NA PRIMEIRA REPÚBLICA

Giovanna Costa Cinacchi*

Introdução: Os ideais positivistas na nova República

A consolidação da Primeira República no Brasil sofreu alguns revezes, 48


seja pelo fato de ser sido orquestrada pelas classes dominantes, de cima para
baixo, seja pelas próprias dimensões continentais e descentralização à época. O
processo republicano se constitui em torno de um projeto societário civilizador
no qual se insere um movimento intelectual de base positivista, materialista e
evolucionista, havendo maior configuração de espaços dialógicos, os quais
passam a se preocupar também com os “problemas sociais” (SCHWARCZ;
STARLING, 2015)1.

A pobreza extrema, vista como um entrave ao desenvolvimento de uma


nação que pretendia ser “civilizada” se torna, assim, alvo de críticas por
membros proeminentes de diversas classes de intelectuais, inclusive da área
médica. Em meio a teorias eugênicas pautadas no darwinismo racial, a
ocorrência de epidemias como a varíola e a gripe espanhola que dizimaram
número considerável de habitantes de algumas cidades do país, projetos
higienistas passam a ser implementados na Capital.

A medicina higienista do início do século XIX se insere no ideário


positivista republicano, dando cientificidade aos postulados racionais ora
apresentados. A evolução do Brasil como nação, que agora, republicano,
buscava ordem e progresso, se daria a partir dos princípios racionalistas
fenomenológicos legados pela sociologia comtiana e o controle do
desenvolvimento dos corpos se dá a partir dessa lógica.

*
UFF
1
Diversos movimentos sociais vão às ruas neste momento, denunciar a carestia e
reivindicar direitos e serviços sociais (SCHWARCZ; STARLING, 2015).

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A proposta higienista orientará a saúde pública no que se refere a


questões espaciais, como a Reforma Urbanística na capital da República, o Rio
de Janeiro (CARVALHO, 1987; 1990), bem como a vanguarda da área da saúde.
A saúde pública, sofre descaso no Império, o que se repetirá em grande medida
na Primeira República, como aponta Schwarcz e Starling, fazendo uso das
palavras do médico Miguel Pereira em 1916, nesse momento “O Brasil ainda é
um imenso hospital” (2015, p. 336). Isso porque as epidemias se alastravam ao
49
longo do território nacional, atingindo especialmente a população rural e a
população urbana mais pobre.

O Instituto Oswaldo Cruz, vinculado ao governo federal desponta como


uma ação importante por parte do governo republicano no que tange à
problemática da saúde, especialmente das epidemias que assolaram o país entre
o final do século XIX e início do século XX. A construção de hospitais e,
especialmente, de maternidades foi, entretanto, relegada no período republicano
tratado neste artigo. Médicos filantropos tomam para si a responsabilidade [não
sem reclamar o apoio estatal] e criam organizações de apoio à causa, como é o
caso da “Associação das Damas da caridade” e das “Damas da Cruz Verde”.

Diante do exposto, o presente trabalho tem por intuito incorporar


reflexões aos estudos das ações filantrópicas na Primeira República a partir da
discussão acerca das relações entre as mulheres da elite carioca na capital
republicana que atuavam no Instituto de Proteção e Assistência à Infância do Rio
De Janeiro (IPAI), as Damas da Assistência, e as Damas da Cruz Verde que,
tendo trabalhado na epidemia da gripe espanhola, atuaram na criação e
manutenção da Maternidade Pro-Matre com os médicos que deram origem a
estas associações.

A ideologia positivista atua como como fio condutor para a construção


do movimento filantrópico impetrado pela elite. Tendo tratado brevemente do
positivismo como orientador do fazer científico à época, trataremos a seguir do
movimento de hospitalização do parto que também se insere na lógica positivo-
higienista. Posteriormente, abordaremos a criação do IPAI e do Pro-Matre,
fazendo uso de fontes primárias e, portanto, nos apropriando do discurso dessas

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entidades diretamente. As Damas da Assistência e as Damas da Cruz Verde serão


tratadas no item conclusivo deste artigo.

Compreendemos aqui que o Brasil foi construído em torno de um


projeto societário organizado pelas elites. Não negamos, entretanto, a luta de
classes, tampouco os movimentos empreendidos pelas classes subalternizadas
neste processo. Nossa decisão por este recorte metodológico se dá pelo desejo
de contribuir para a história das mulheres e inseri-las no contexto de
50
filantropização na Primeira República, por compreendermos que estas mulheres,
mesmo quando não autodeclaradas feministas, contribuíram para que o debate
político se proliferasse, inclusive entre as mulheres.

A Hospitalização do Parto no Brasil: a filantropia na ausência do Estado

Os partos no Brasil realizados no país até fins do século XIX eram em


sua maioria domiciliares, geralmente realizados por parteiras leigas ou
diplomadas, os médicos atuando no parto em situações de complicação deste
(MOTT, 1999). Os partos realizados em hospitais ocorriam geralmente entre as
mulheres de camadas subalternizadas, mães solteiras e prostitutas, sendo
realizados por cirurgiões e geralmente incorrendo em óbitos, por não haver uma
divisão entre as alas hospitalares, o que facilitava a transmissão de doenças.

A visão do parto em hospitais como sendo adequado apenas para


mulheres “sem berço” é corroborada pela criação das Casas de Saúde nas quais
parteiras diplomadas faziam o atendimento geralmente a mulheres pobres e
escravas. A necessidade de criação de maternidades era, entretanto, fala
recorrente nos discursos de professores das escolas de medicina, bem como era
apoiada socialmente pela possibilidade de se transferir a reponsabilidade do
parto das escravas para essas instituições de saúde (MOTT, 2002).

Devemos ter em mente que o discurso médico em prol da criação de


maternidades remete a questões políticas que se engendravam no país. A alta
taxa de natalidade e baixa mortandade infantil seriam indicativos de progresso
nacional e fazem parte dos discursos nacionalistas positivados. As alocuções de

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médicos, portanto, se coadunam com o próprio desenvolvimento econômico do


país que se industrializava, necessitando, pois, de indivíduos propícios ao
desempenho de atividade laboral.2 O Estado fora convocado em ocasiões de
discursos e conferencias na área médica para a intervenção nesta seara, se
mostrando, em grande medida, alheio à problemática. Isso não esteve
desvinculado da área acadêmico-científica. A publicação em periódicos e de
estudos sobre a questão da maternidade e da infância é profícua no período ao
51
qual aqui nos remetemos, sendo os dados recolhidos publicados em veículos das
próprias instituições de saúde. Verificamos também uma organização por parte
dos médicos posicionados a favor da hospitalização do parto, sendo a Sociedade
de Obstetrícia e Ginecologia do Brasil criada já em 1897.

Mestriner (2001) aponta para um Estado “fraco” no primeiro momento


republicano. A assistência à saúde é feita pela benemerência católica. Diante do
desinteresse do Estado e, vinculados à própria formatação do movimento
filantrópico, médicos passam a encabeçar organizações benemerentes com o
apoio de membros da elite, inclusive, de mulheres que, seja pela arrecadação de
fundos, seja pelo trabalho, passam a se dedicar ao auxílio a mães e crianças
desassistidas. Cabe recordarmos que neste momento a assistência social e a
assistência à saúde não são consideradas funções públicas, devendo o Estado
atuar, quando muito, a partir do princípio de subsidiariedade, ou seja, subsidiar
indivíduos a partir das mais diversas fontes sem precisar, contudo, atuar
diretamente, sendo até o final do Brasil-Império, esses serviços prestados
exclusivamente por ações de caridade da Igreja Católica, vinculada ao governo
imperial.

Convém fazer uma distinção entre o que consideraremos aqui serem as


ações de caridade e a filantropia. Wadsworth (1999) aponta serem as ações
caritativas “movidas eminentemente pela piedade cristã”. Consideramos haver
aqui uma resignação ante a pobreza caracterizada nas ações individuais,
coletivas e mesmo institucionalizadas [como é o caso das Casas de

2
Para conhecer mais sobre os discursos higienistas positivados, ver Moncorvo Filho
(1908, 1914, 1916, 1924, 1927, 1931), PAIVA (1922) e MAGALHÃES (1922, 1924).

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Misericórdia]. A filantropia da qual falamos ainda que possuam essa dimensão


da piedade se fundamenta na noção de “utilidade social”, cujos princípios
higienistas positivistas serão orientadores das ações. (SANGLARD, 2010;
PEREIRA, 2015). No caso da filantropia praticada por grupos da elite carioca
no primeiro momento republicano, temos ainda o fato de que o fazer filantrópico
conferia prestígio a esses indivíduos, fato revelado pela exaustiva publicização
das ações, inclusive em periódicos e jornais (FREIRE, 2013). O discurso
52
higienista positivado dos médicos filantropos pode ser constatado na alocução
de Moncorvo Filho:
A philantropia, porém, diante dos céleres progressos da
sciencia, revolucionada, na metade ultima do seculo, por
incomparáveis descobrimentos e o desmesurado progresso
dos estudos sociaes, não podia permanecer sufocada em seus
antigos móldes, guardando a tradição dos seus velhos hábitos,
nem tão pouco mantendo os seus systemas sob muitas faces
repudiados já pela Medicina e pela Hygiene. (1916, p. 194).

A filantropia se vincula a uma forma de benemerência cientificizada,


imprescindível para o desenvolvimento do país:
A nossa cultura intellectual, o nosso progresso moral e
material ahi estão, de ha muito a exigir que volvamos as
nossas vistas para esse assumpto de tanta magnitude e tão de
perto toca a felicidade da Nação. (...) A proteção da infancia
surge assim não sómente como uma das condições essenciaes
do progresso collectivo, mas ainda como uma das condições
essenciaes para manter nossa harmonia social.
(MONCORVO FILHO, 1914, p. 5-6).

Assim, o projeto societário, inicialmente centrado nos discursos


acadêmico-intelectuais ou ainda, ultrapassando esta esfera, presentes em jornais
e periódicos progressistas vincula-se à formatação da elite republicana da
capital. Na Belle époque carioca, aos moldes da filantropização da elite francesa,
verificamos que esta vai ao encontro dos anseios das senhoras “de boa moral”
de circulação no espaço público sem prejuízo de seus predicados já bem
conhecidos (SANGLARD, 2010). Ora, à elite cabe bem o papel de ajudar aos
“pobrezinhos” dos discursos de Ataulpho Paiva, Artur Moncorvo Filho e
Fernando Magalhães. A pobreza exacerbada é aqui vista como uma anomia, no
sentido durkeimiano, devendo ser contida, se não pelo braço do Estado, por

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aqueles [e aquelas] que, afortunados, possuem instrumentos para fazê-lo. Longe


daqui está a perspectiva de revolução classista. Não se pretende, tampouco,
alterar o status quo: aos subalternizados resta seguir os preceitos apontados pela
elite, seja os hábitos de higiene, sejam àqueles melhor adequados para as práticas
fabris. Os apelos dos médicos preconizam uma institucionalização da assistência
às crianças e, por conseguinte, às mães que, como apontamos, se coadunam com
a visão positivada do ideário nacional.
53

O IPAI e a Pro-Matre: as redes de proteção privada se conformam

Em 1889, Moncorvo Filho funda o Instituto de Proteção e Assistência


à Infância do Rio De Janeiro (IPAI). Este funcionará a partir da política centrada
nas “Gottas de leite”, experiências brasileiras dadas à francesa. Essa política de
uma alimentação forte e de boa procedência se insere nos princípios higienistas:
o IPAI é responsável pelo controle e distribuição de leite, pela educação e
propaganda negativa das amas de leite “mercenárias”, bem como pela
organização dos consultórios de atenção materno-infantil. O funcionamento da
instituição se daria em julho de 1908. Aponta Moncorvo Filho:
A protecção da primeira infância, ninguem o ousará
constestar, é e será sempre a base da felicidade dos povos e
ahi estão para assegurar o valor dessa asserção os meritórios
resultados da Puericultura intra e extra-ulterina assignalados
em todos os certamens scientíficos (1908, p. 385).

De acordo com os relatórios publicados no periódico "A Tribuna


Médica", o IPAI contava, já no ano de sua inauguração com clínica de
atendimento médico e cirúrgico, entretanto, os serviços oferecidos que merecem
maior atenção [de acordo com os próprios relatórios] são os "Gynecologia e
Protecção á Mulher Grávida Pobre, onde é praticada a verdadeira puericultura
intra-uterina”. Outro ponto em destaque é o “exame e attestação das amas de
leite” (MONCORVO FILHO, 1908, p. 386). Além disso, chama a atenção para
a criação do Dispensário Moncorvo e das Gottas de leite.

O IPAI se insere como importante instrumento no processo de


hospitalização do parto, bem como no processo “pedagógico” orientador do “ser

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mãe” e do “fazer maternal” (FREIRE, CONSATI, 2015) e, embora não tenha se


configurado como a única iniciativa na Primeira República de modelo
institucional voltado no cuidado à infância, mostra-se inovador, abrindo filiais
em diversas cidades do país. Sobre a institucionalização e construção de um
“fazer maternal” adequado ao projeto societário científico positivista, podemos
empreender que
De um lado, os médicos higienistas legitimavam-se como
puericultores, especialistas na promoção e manutenção da 54
saúde das crianças, conquistando maior autoridade na
sociedade e no interior do corpo médico. De outro,
contribuíam para a redefinição dos papéis femininos e a
configuração de um novo papel social para a mulher: a mãe
moderna. (FREIRE, 2008, p. 160).

Quando da abertura de suas portas ao público, o IPAI situava-se na


região central da cidade do Rio de Janeiro, local de trânsito constante de
mulheres muito pobres e de mulheres da classe operária e estas [com seus filhos]
seriam seu público principal. A princípio, o IPAI viria funcionar em casa
pertencente à própria família Moncorvo. O caráter subsidiário do Estado já
aparece após quinze anos de funcionamento em sedes provisórias: em 1914, o
governo federal doa um terreno para a construção da sede oficial do Instituto
(WADSWORTH, 1999).

A este processo, inclusive fazendo parte da rede de assistência ao parto


e à infância preconizada pelo IPAI, segue-se a criação, em 1918, da Maternidade
Pro-Matre. Moncorvo Filho, que como já exposto há tempos se dedicava à
criação de hospitais-maternidades e apoiado por outros médicos como Ataulpho
Paiva e Fernando Magalhães, “sensibilizam” as Senhoras Stella Duval e
Baronesa do Bonfim [e filha], as quais organizam [sob a “tutela” do médico-
filantropo ginecologista Fernando Magalhães] grupos de trabalho para a criação
do Pro-Matre. Durante esse movimento organizativo ou pré-institucional, a
epidemia de gripe espanhola se torna um grave problema no Rio de Janeiro. Em
1918, a gripe espanhola que assola diversas cidades do país e na capital federal,
pode ser considerada uma das causas para o aumento significativo do número de
óbitos. Entre os anos de 1917 e 1918 o número de óbitos vai de 21.508 para

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35.237 (BRASIL, 1931).3 As Damas da Cruz Verde [assim se chamam as


mulheres do grupo de trabalho em torno do Pro-Matre] entram em cena em prol
do apoio aos doentes e convalescentes desta “grippe”. Como aponta Moncorvo
Filho:
O Dr. Fernando Magalhães, naquella mesma data [20 de
Outubro de 1918], por incumbencia do Governo, aproveitava
o "Hospital Pro-Matre" e transformava-o n'um "Pôsto de
Socôrro", autorisando-o aquelle a fazer as despezas
necessarias, em ordem, segundo se propoz o seu Director, a 55
receber 200 doentes. (1924, p. 62).

O processo de criação da Pro-Matre, portanto, se imiscui aos esforços


impetrados contra a epidemia de gripe espanhola. A experiência desse grupo de
mulheres da elite na área da saúde [contavam também com enfermeiras, parteiras
e auxiliares]não foi descartada, sendo utilizada tanto nas funções da
maternidade, como nos Postos de Atendimento da gripe. O Primeiro Estatuto da
Maternidade Pro-Matre é instituído em 1918 com a seguinte redação inicial:
Art. 1°. Sob a denominação "Pro-Matre", fica constituída,
com séde e domicílio nesta cidade do Rio de Janeiro, uma
associação de caridade e auxílio mútuo para os fins que abaixo
se declaram.
Art. 2°. A Associação tem por fim dispensar proteção á
mulher desvalida sem distinção de credos ou posição social.
(ESTATUTOS, 1918, p. 1).

É interessante observarmos serem pontuadas no Estatuto da Pro-Matre


as não distinções acerca de credos ou posições sociais das mulheres [mães]
assistidas. Isso porque, como já assinalamos, há distinções entre a benemerência
católica e a “caridade cientifica” dos médicos filantropos que orientavam os
grupos femininos da elite. A laicização é um processo que acaba por fazer parte
deste movimento que, apesar de não ser totalmente alheio à Igreja católica, se

3
De 1919 até 1922 as cifras diminuem em aproximadamente dez mil óbitos. Os
"Annuários" apontam para um número maior de mortes de mulheres do que de homens,
bem como número elevado de mortes de menores de quinze anos. Outrossim, dentre as
profissões com mais elevado número de óbitos se encontram os operários. Apesar da
inconstância nas publicações dos Annuários, bem como na possível perda documental,
os dados por estes coletados se mostram imprescindíveis neste trabalho pela inclusão
de estatísticas de mortandade em hospitais filantrópicos, como é o caso do Pro matre, já
inserido no Annuário de 1922 (BRASIL, 1931, 1932).

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diferencia justamente por incorporar a caridade de outras organizações,


religiosas ou não. Não se trata de piedade, no sentido de “ajudar ao próximo”,
tal qual se apresenta no Velho Testamento. Trata-se da utilidade social. “A
filantropia é uma virtude laicizada, é uma ação continuada, refletida e não mais
isolada” (SANGLARD, 2010, p. 128).

A conformação de maternidades e demais instituições de saúde na


esfera privada tendo, entretanto, vistas ao atendimento público, em especial, a
56
atender indivíduos de classes subalternizadas não é um ato de “bondade”,
simplesmente, por parte dos filantropos. Como apontamos, existe no Brasil uma
formatação das indústrias e, consequentemente, um recrudescimento das
expressões da Questão Social. A responsabilização do privado em detrimento do
público, se insere no movimento de laisse faire, ou seja, de não intervenção
estatal que por muito tempo se fez presente em discursos político-ideológicos no
país [se é que em algum momento deixou de fazê-lo].

Considerações Finais: as damas filantropas entram no mundo público

Na literatura feminista ou não-feminista que versa acerca do papel


feminino [e no caso, tratamos das mulheres das elites urbanas] na filantropia e
como isso se relaciona à inserção da mulher no espaço público, há divergências:
por um lado, a maior parte da literatura evidencia o papel de subalternidade das
mulheres nos movimentos de caráter filantrópico, por outro, uma pequena parte
dos estudos se dedica a pensar essas mulheres como parte efetiva da história,
como personagens principais e não mera coadjuvantes (MOTT, 2001). Assim, a
filantropia executada por mulheres pode ser vista como ramificação do fazer
doméstico ou como a entrada das mulheres da elite e da classe média no mundo
público. Aqui, compreendemos a filantropia feminina a partir da segunda
perspectiva.

O processo de filantropização feminina no início do século XX


recrudesce, adquirindo apoio ideológico/institucional especialmente a partir da
Primeira Guerra [1914-1918]. Os médicos cientistas possuem papel fundamental

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neste processo cuja necessidade de nacionalismo [e a ameaça socialista que já se


instaura na Europa] tornam a “questão da mulher” uma preocupação menor, esta
podendo ser incorporada ao movimento político propalado pela ideologia
dominante da elite brasileira. A filantropia feminina aqui, portanto, aparece
“conectada ao nacionalismo e também a uma visão cultural da superioridade dos
valores morais e cristãos do Ocidente, sintetizada pela palavra civilização”
(VOSNE, 2015, p. 19).
57
As mulheres passam a ser vistas neste momento, como possíveis
agentes políticos, indicando esforços em compor mais vigorosamente uma
unidade nacional (HAHNER, 1981). Desde o século XIX temos no Brasil uma
conclamação direcionada às mulheres e ao papel que essas deveriam exercer.
Nos discursos feitos por homens intelectuais, médicos e jornalistas, este apelo
aparece e a maternidade e à infância surge como uma questão que deve ser
“naturalmente” incorporada à filantropia feminina, como podemos ver nas
seguintes passagens de discurso feito por Moncorvo Filho, quando da
inauguração da unidade do IPAI na cidade de Petrópolis, apontando ser esta uma
“[...] daquellas obras que reflectem o coração da mulher [...]” (MONCORVO
FILHO, 1920, p. 11).
A mulher patrícia, que tão nobres dótes de espírito possue, tão
exemplar, generosa e affectiva como Filha, como Esposa ou
como Mãe, encarnada na pratica do Bem já demonstrou a
grandeza do seu coração contribuindo com abundância de
carícias nesta cruzada pela santa salvação dos pequeninos.
(MONCORVO FILHO, 1920, p. 09).

Se o papel da mulher “abastada” é explicitado nos discursos feitos por


médicos filantropos, Moncorvo Filho ainda reitera o papel da mulher na
filantropia de caráter nacionalista dedicada à infância e à maternidade ao afirmar
que a “[...] affectividade excessiva da mulher brasileira foi posta à prova nesse
movimento promissor pelo engrandecimento de nosso torrão patrio e é mais
grandioso ainda o papel que lhe está reservado no futuro” (MONCORVO
FILHO, 1920, p. 10-11). O médico afirma ainda que nas mulheres “[...] residem
as nossas esperanças que são as da Patria” (Ibidem).

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Assim, dentro dessa lógica de filantropizar a maternidade e,


consequentemente, de trata-la como assunto típico feminino e a partir da
cientifização do “ser mãe”, a maternidade, institucionalizada ou não passa a ser
construída. As condutas “corretas” do ser mãe, o papel de cuidadora da família,
do lar e da moral adquirem importância na formatação do processo societário
empreendido pela elite positivista.

Consideramos que as mulheres da elite carioca ao fazer parte de


58
atividades filantrópicas, adentram ao mundo público, concorrendo para uma
cada vez maior ocupação dos espaços públicos pelas mulheres. Devemos
pontuar, para fins didáticos que à mulher da classe trabalhadora, o espaço
público há muito que era por ela frequentado, ao menos a partir do trabalho,
entretanto, quando nos referimos aqui ao público, nos remetemos principalmente
à sua dimensão político.4

Como apontamos, mulheres da elite carioca, ou seja, da elite da capital


da República do Brasil no início do século XX formam as Damas da Assistência,
com atuação no Instituto de Proteção à Infância, o IPAI. Entre essas mulheres
apontamos àquelas as quais fizeram parte das comissões de mais alto gabarito,
as senhoras da elite: Baronesa Salgado Zenha, Celeste Zenha de Moraes,
Baronesa de Mesquita, Bernardina Azeredo, Cecília Mendes, Cacilda G.
Fernandes, Hannah Mendes de Almeida, Anna Siqueira de Menezes,
Guilhermina Moncorvo, Paulina Dolbeth Andrade, Brazilina Guedes e
Josephina Vianna (MONCORVO FILHO, 1924, 1927).

No início do século XX, essas senhoras, juntamente com centenas de


outras que viriam apoiar o IPAI de uma forma ou de outra, atuaram
concretamente no movimento filantrópico que neste momento recrudescia. O
IPAI, como vemos, ao atuar no cuidado para com a infância, passa a atuar em
outras frentes, como a Assistência, prestando serviços de apoio a uma parcela
pobre da população. A Educação também é uma questão abarcada pelo referido

4
As mulheres das classes operárias já faziam parte de movimentos contestatórios desde
séculos antes do período por nós retratado (MELO; BANDEIRA, 2010). Não são elas,
entretanto, objeto de nosso trabalho.

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Instituto, vez que a educação com vistas à “higiene e à boa moral” faz parte do
ideário positivo-científico adotado nos espaços da medicina, seja nos
dispensários, nas clínicas ou nos hospitais.

Na reunião em casa da família Duval, se reuniram5 Laurinda Santos


Lobo, Jeni Monteiro Amaral, Helena Figueiredo Araújo, Ernestina Passos
Bulhões de Carvalho, Nair de Azevedo Teixeira, Maria Eugenia Celso Carneiro
de Mendonça, Lo Landbery. Essas senhoras da classe alta e média alta da capital
59
Rio de Janeiro, juntamente com Stella Duval e a Baronesa do Bonfim, Jerônima
Mesquita, viriam incorporar a Obra da Cruz Verde, de Moncorvo Filho,
auxiliando nos postos de atendimento [o IPAI e suas dependências são utilizados
pelo Dr. Moncorvo Filho como postos de atendimento] os acometidos pela
“grippe hespanhola” (ABREU, 2015). A criação da maternidade se dá no mesmo
ano da epidemia de gripe e nela muitos doentes foram atendidos. Assim:
Em 1918 creava o eminente Fernando de Magalhães a
Associação "Pro-Matre" com auxilio de um grupo de
senhoras. [...] A maternidade da Pro-Matre foi installada no
predio da Avenida Venezuela, do Caes do Porto. O
estabelecimento abriu-se tendo 70 leitos, havendo a
"Associação" instituido 22 póstos urbanos de consulta e, com
o auxilio poderoso da Fabrica Alliança, um ambulatorio
obstetrico e gynecologico e uma créche em excellentes
condições de installação. Na sua séde criou uma escola de
enfermeiras e organisou os cursos da especialidade, onde
aprendem os alumnos da Faculdade de Medicina.
(MONCORVO FILHO, 1927, p. 282).

Ao inserir-se no meio de médicos e filantropos os quais, por si mesmos


já ensejavam pressupostos de organização política e social, as Damas do IPAI e
do Pro-Matre fizeram parte, intencionalmente ou não, de um movimento político
ideológico que consubstanciava a nação. No caso da Maternidade Pro-Matre,
tendo ela sido fundada pelo médico Fernando Magalhães, a continuidade e
expansão de seus trabalhos deu-se principalmente pela atuação de uma de suas
fundadoras: Stella Duval.

5
Poucos homens se fizeram presentes na reunião: o médico-filantropo e ginecologista
Fernando Magalhães e o Sr. Duval, marido de Stella e dono da casa onde o encontro
ocorrera.

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Os médicos filantropos, como buscamos aqui demonstrar, de fato foram


os orientadores do processo de filantropização o qual foi instrumentalizado para
a inserção das mulheres na esfera pública. A assunção de cargos e luta por
direitos políticos, por vezes convergiu com os trabalhos empreendidos por estas
mulheres no apoio à infância e à maternidade [nos moldes já descritos].

Apesar de terem sido orientadas, a princípio pelos postulados da


filantropia científica positivista, os quais por seu caráter moralista e normativo,
60
muitas mulheres partícipes de organizações filantrópicas se furtaram a exercer o
“papel de gênero e de classe que delas era esperado no controle das classes
populares” (VOSNE, 2015, p.25). Stella Duval, como já apontamos é um
exemplo dessas mulheres. Tendo fundado juntamente com Fernando Magalhães
a Associação Pro Matre, torna-se dela presidenta. Em 1922, juntamente com
Bertha Lutz, Jerônima Mesquita e outras mulheres da elite e da classe média,
funda a Federação Brasileira para o Progresso Feminino, a qual expressava em
seus estatutos possuía como principais reivindicações o sufrágio feminino, a
instrução da mulher, a proteção às mães e à infância e uma legislação reguladora
do trabalho feminino (SHUMAHER; BRAZIL, 2000).

Não podemos deixar de ressaltar um fato muito importante: não apenas


a representatividade das mulheres da elite que se inserem na esfera pública [e
política] notadamente masculina deve ser considerada, mas também o fato de
que as relações sociais engendradas a partir dessa penetração em um “outro
mundo” são agentes de transformação sócio-política. Ao inserirmos as Damas
da elite na história, somos capazes de compreendê-la a partir de diferentes
espectros e amplitudes. Elas, ao se reunirem e organizarem ações coletivas,
mesmo quando o faziam representando um moralismo classista, forjaram
espaços dialógicos que ultrapassaram os limites dos salões requintados onde
ocorriam as reuniões.

Se as relações entre as Damas e os médicos à princípio possa nos dar a


impressão de submissão do feminino pelo masculino, as próprias mulheres
conseguem escapar, paulatinamente a esta lógica, ao constituir projetos que,
mesmo não sendo alheios aos princípios filantrópicos positivados, as colocam

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como protagonistas na luta feminina para as políticas públicas, proteção da


mulher e igualdade de direitos.

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MULHERES QUINHENTISTAS EM CENA: REPRESENTAÇÕES


FEMININAS NO TEATRO DE ANTONIO RIBEIRO CHIADO

Vanessa Gonçalves Bittencourt de Souza*

Ao longo do século XVI, o teatro assumiu um lugar de destaque nas


celebrações portuguesas, vindo a animar festas, serões e procissões. Mais do que
65
espetáculo e entretenimento, é importante compreender o teatro quinhentista
como um importante veículo de transmissão de valores na medida em que
produzia sátiras sobre determinados grupos sociais e fixava modelos de conduta
ideal a partir da construção de personagens tipo ou personagens estereotipados.
Entre os dramaturgos quinhentistas que exploraram o recurso aos tipos, Antonio
Ribeiro Chiado destaca-se sobretudo por sua galeria de mulheres, composta por
perfis como a viúva, a escrava, esposas e filhas envolvidas em intrigas
casamenteiras. Assim sendo, o objetivo deste trabalho é analisar as
representações femininas no teatro de Chiado.

Nascido na cidade de Évora na década de 1520 e vindo a falecer em


Lisboa no ano de 1591, Antonio Ribeiro Chiado fora um frade franciscano
interessado em trovas e imitações. Teria se ausentado do cenóbio por alguns anos
para se unir a um grupo de foliões e artistas. Reconhecidamente indisciplinado,
teve seus votos anulados, mas manteve as vestes clericais ao circular pelas ruas
de Lisboa, onde fez fama de “dizidor” (poeta, improvisador) e “bargante”
(libertino). Pelo menos uma de suas peças, o Auto da Natural Invenção, teria
sido apresentada na corte de D. João III entre 1549 e 1554.

A produção de Chiado é marcada pela sátira, ridicularizando clérigos,


fidalgos, mulheres e escravos. Chiado demonstra estar atento às dinâmicas da
corte, às transformações sociais no contexto da expansão ultramarina, aos
desvios do clero e aos detalhes mais expressivos da vida cotidiana na sociedade
portuguesa, incluindo os modos de falar, vestir e comer e os conflitos e a
hierarquia no ambiente doméstico. Seus escritos compreendem trovas e cartas

*
UFF

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satíricas de fundo moralista e religioso, algumas paródias de profecias e ao


menos cinco peças de teatro produzidas entre as décadas de 1540 e 1570, a saber,
o Auto da Natural Invenção, o Auto das Regateiras, a Prática de Oito Figuras,
a Prática dos Compadres e o Auto de Gonçalo Chambão. Com exceção da
última peça citada, cujo texto permanece desaparecido, os textos das peças de
Chiado foram impressos e preservados em bibliotecas particulares e na
Biblioteca Nacional de Lisboa.
66
No Auto da Natural Invenção, o fidalgo Gomes da Rocha contrata uma
companhia de teatro para uma apresentação em sua casa. Uma série de conflitos
entre o dono da casa, os integrantes da companhia e os convidados dificulta o
andamento da apresentação, fazendo desta peça o melhor exemplo do tipo de
teatro produzido por Chiado: uma série de cenas justapostas com diálogos nem
sempre muito bem conectados. Na peça Prática de Oito Figuras uma ceia na
casa do fidalgo Ambrosio da Gama reúne um pequeno grupo de pessoas que
conversam sobre as decisões régias, fé, pecado e casamento. Não há nenhuma
personagem feminina nessa peça, mas as mulheres são mencionadas em cantigas
do personagem Ayres Galvão e nas queixas de maridos insatisfeitos. Na peça
Prática dos Compadres, por sua vez, o desaparecimento de uma capa é o estopim
de uma séria discussão entre o casal Vasco e Brasia. O Auto das Regateiras, por
fim, tem como tema central os preparativos para um casamento.

É importante observar que, em princípios da Época Moderna, o teatro


dialogava com uma literatura moralista interessada em fixar e enaltecer papéis
femininos desejáveis para jovens solteiras, esposas e viúvas. Sobre as mulheres
que não se encaixavam nesses perfis também foram produzidos textos hoje
entendidos como misóginos na medida em que expressam uma opinião negativa
sobre o feminino. Em outras palavras, era uma constante escrever sobre o tipo
de mulher que se desejava conter (FARGE; DAVIS, 1994, p. 9). Contudo, o
medievalista Howard Bloch (1995, p. 13) observa que todas as tentativas de
enquadrar mulheres em categorias, sejam elas positivas ou negativas, podem ser
entendidas como misóginas. O conceito alargado de misoginia proposto por
Bloch é viável na análise das complexas representações femininas elaboradas

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por Chiado, uma vez que as mesmas oscilam entre a valorização e a depreciação
das mulheres portuguesas. Conforme observa Eric Nicholson (1994, p. 341), “o
teatro moderno colocava a mulher em primeiro plano, em todos os seus aspectos:
negativos, positivos e frequentemente ambivalentes”.

A fixação de papéis ideais se relaciona com a compreensão do gênero


enquanto uma construção cultural e enquanto performance. Segundo a filósofa
Judith Butler (2015, p. 69):
67
O gênero é a estilização repetida do corpo, um conjunto de
atos repetidos no interior de uma estrutura reguladora
altamente rígida, a qual se cristaliza no tempo para produzir a
aparência de uma substância, de uma classe natural de ser.

Ainda de acordo com Butler (2002, p. 325), “as normas de gênero


requerem a incorporação de certos ideais de feminilidade e masculinidade”.
Nesse sentido, é importante destacar que Chiado dialogou com alguns ideais de
feminilidade e masculinidade vigentes em princípios da Época Moderna. A
construção dos seus personagens masculinos, por exemplo, explorou duas
concepções de homem ideal: o enamorado que assume uma posição submissa no
amor cortês e o homem que tutela mulheres, seja como marido ou como pai.

Entre os séculos XI e XIV, o amor cortês expressava um amor


impossível entre um homem apaixonado e devotado e uma mulher idealizada e
inalcançável, geralmente casada. Nesse contexto, a figura feminina é uma
mulher-pretexto cuja existência depende do louvor do poeta (DESAIVE, 1994,
p. 302). Na peça Prática de Oito Figuras, o trovador Ayres Galvão decide
compartilhar com os personagens Capelão e Faria uma cantiga dedicada a uma
mulher amada:
Senhora, pois sou captivo
d'esses olhos com que olhaes,
matae-me, pois começaes.
[...]
Os males, que d'improviso
vem ao triste coração,
esses causam perdição,
que os outros são tudo riso.
Senhora, fallo de siso:
Esses olhos com que olhaes,
prendeis, feris, e mataes”

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(CHIADO apud PIMENTEL, 1889, p.34)

A cantiga de Ayres Galvão caracteriza a mulher amada como sua


senhora, sendo o enamorado um cativo vitimado pelo perigoso olhar da mulher
amada. Os mesmos elementos podem ser encontrados nas trovas enviadas pelo
namorado da jovem Isabel na peça Prática dos Compadres:
Senhora, minha senhora.
senhora, cujo captivo 68
fui e sam,
com seus olhos, matadora,
me tem morto, sendo vivo,
com paixão

(CHIADO apud PIMENTEL, 1889, p. 114)

Sendo um gênero que confrontava os padrões morais do mundo cristão


feudal, o amor cortês baseava-se num desequilíbrio entre o masculino e o
feminino, pendendo a balança para uma aparente valorização da figura feminina.
Desse modo, é possível perceber que parte da construção do masculino no teatro
de Chiado tem como elementos a servidão ao amor e à dama de seu interesse.
Neste caso, a promoção da figura feminina condena o enamorado ao sofrimento,
considerando que as cantigas de amor ibéricas desenvolveram uma complexa
associação entre amor, sofrimento e morte. O amor cortês galego português que
teria inspirado o teatro de Chiado explorava intensamente as paixões, os ciúmes
e a interferência da família da amada (NUNES, 1978).

Teresa Rodrigues (1997, p. 113) afirma que “nas classes remediadas e


nobres, o costume ditava que o namoro se fizesse por carta e à distância”, uma
vez que abordagens mais diretas poderiam comprometer a honra da mulher
desejada. Ainda assim, o Namorado de Isabel em Prática dos Compadres a
surpreende aparecendo em sua casa. Ao perceber a aproximação de seu pai,
Isabel finge não conhecer o Namorado. Vasco, o pai, repreende Isabel pela
conversa imprópria com um homem desconhecido. Nesse contexto, é importante
frisar que a principal preocupação paterna é a castidade, que tornava possível a
negociação de um bom casamento e afastava manchas sobre a legitimidade dos
seus netos. Em síntese, a desonra de uma filha também representava o fracasso

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da figura paterna em termos de vigilância (KING, 1994, p. 40). Dessa forma, a


fala de Vasco resulta de um interessante jogo entre o sangue que indica a perda
da virgindade e a “ferida” da desonra paterna:
[...] a filha que má sae,
e tem a virtude na borra,
ainda que o sangue lhe corra,
a ferida é de seu pae.
Porque o mundo está em estilo:
Seu pae tem culpa n'aquillo...
Se elle a castigara... 69
De modo que abrange a vara
ao pae, se quer resistil-o”

(CHIADO apud PIMENTEL, 1889, p.120)

O discurso de Vasco é tributário de uma moralidade cristã que defendia


que os homens precisavam exercer custódia sobre as mulheres. A principal
justificativa para essa custódia seria uma suposta debilidade feminina
(CASAGRANDE, 1994, p. 122) em termos de fé e tomada de decisões. Vale
observar que o discurso sobre a debilidade feminina coincidia ainda com a
identificação da mulher como um agente de satã (DELUMEAU, 1989, p. 310).
O teatro de Chiado também reproduz a associação entre a mulher e o demoníaco,
como indica a fala do personagem Vasco em Prática dos Compadres:
Se os homens são anfarismos,
as mulheres Satanazas,
e se elas tivessem azas,
voariam aos abysmos

(CHIADO apud PIMENTEL, 1889, p. 128)

Tanto a defesa da debilidade quanto a defesa do caráter demoníaco da


figura feminina são baseados no pressuposto de que uma mulher sem tutela
representa um risco para si mesma e para os homens conectados a ela. Nesse
sentido, a insatisfação dos maridos com os gastos das esposas surge com
destaque no teatro de Chiado, conforme expressa a fala do personagem Lopo em
Prática de Oito Figuras:
Senhor, não é para crer;
é muito forte contenda
gastardes vossa fazenda
no que quer vossa mulher.

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E, ainda para mais magua,


são remás de contentar,
Alexandras em gastar,
e demandam ainda mais água

(CHIADO apud PIMENTEL, 1889, p. 42)

De certa maneira, essa fala de Lopo não apenas reafirma o topos da


“mulher gastadeira” que dilapida os bens do marido, como também repreende o
marido que é envolvido pelos apelos e desejos da esposa. Nesse sentido, é 70
importante observar que a produção de Chiado está repleta de conselhos aos
maridos. Na peça Prática dos Compadres, por exemplo, é possível encontrar
duas regras para um bom casamento. A primeira regra é apresentada pelo
personagem Compadre, homem relativamente ponderado e preocupado com o
conflito entre Vasco e sua esposa Brasia. Para que o casal possa conviver em
harmonia, o Compadre sugere: “se queres viver em paz, tua porta cerrarás”, “não
te ouça ninguém na rua o que disseres”, “guar'-te de conversações suspeitosas,
arrenegadas, damnosas” (CHIADO apud PIMENTEL, 1889). Em outras
palavras, o Compadre recomenda evitar fofocas e interferências nocivas ao
casamento. Em contraposição, Vasco acredita que a harmonia no casamento
depende do controle do marido sobre a esposa, uma figura que não seria digna
de confiança: “tomarás tua mulher com bom pau, em que te tenham por mau”,
“não te dê nada de nada, dar-lhe-has infinda pancada”, “nunca tomes seu
conselho”, “não na deixes sahir fora, senão com tua licença” (CHIADO apud
PIMENTEL, 1889). A base do discurso de Vasco é a necessidade de garantir a
correção e obediência da esposa a partir do exercício da violência.

A análise sobre a forma de falar sobre as mulheres é parte importante


da tentativa de compreender as representações femininas no teatro de Chiado,
considerando que esses discursos misóginos se relacionam com normas que
definem papéis e hierarquias sociais. O universo de representações femininas no
teatro de Chiado envolve a observação de aspectos importantes para a
organização da vida cotidiana de mulheres na sociedade portuguesa quinhentista,
tais como o casamento, a maternidade e o trabalho. Nesse sentido, é importante
avaliar de que forma as personagens femininas elaboradas por Chiado se

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relacionam com ideais de feminilidade baseados na castidade, na obediência, na


submissão e na dedicação ao lar.

Em Prática dos Compadres, Chiado explora sob uma perspectiva


cômica o tema da briga de casal, conferindo atenção às trocas de ofensas e
acusações, ao marido que ameaça agredir a esposa, ao escândalo que atrai a
atenção dos que passavam por perto. No entanto, a personagem Brasia, a esposa
ameaçada, destaca-se por conseguir ridicularizar e enfrentar o marido,
71
desferindo suas próprias ameaças:
Sou muito forte e isenta,
e não sou captiva, não:
nem m'haveis de pôr a mão”
[..]
“Eu me irei aos pés d'El-Rei
e lhe direi
cousas que não s'escreveram.
[...]
Eu darei apontamentos,
que vos lancem no Brazil

(CHIADO apud PIMENTEL, 1889, p. 103)

O que Brasia desejava, portanto, era ver o marido receber a sentença de


degredo para o Brasil. Brasia não é a única esposa agredida a se rebelar contra o
marido na peça Prática dos Compadres. Ao ouvir rumores sobre a discussão
entre Brasia e Vasco, a personagem Comadre resolve fazer uma visita para
demonstrar sua preocupação e queixa-ser do próprio marido:
[...] casei com uma má ventura,
que não tem remédio nem cura.
E' um leão para mim.
Suspeitoso,
sotrancão, malicioso,
a mesma peçonha mera,
um drago e besta fera!

(CHIADO apud PIMENTEL, 1889, p. 122)

Por fim, a Comadre relata um diálogo com uma pessoa que teria
prometido uma poção para “amansar” o seu marido:
Quero amansar um imigo,
que a isso venho cá,
e conto-lh'o pé-á-pá,

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que a meu confessor não digo.


[...]
Diz: Porventura quereis
uma boa beberagem,
com que falle outra linguagem?

(CHIADO apud PIMENTEL, 1889, p. 123)

O Index Expurgatório de 1624 determinou a eliminação do trecho da


peça que apresentava a mencionada poção, uma vez que a referência às
72
superstições populares e práticas de feitiçaria era proibida. As mulheres
predominam entre os processados por feitiçaria em Portugal no século XVI
(BETHENCOURT, 2004, p. 206), acusadas de crimes que envolviam a proteção
da casa, a manipulação de remédios e os relacionamentos amorosos. Como é
possível perceber, Brasia e a Comadre não se encaixam no ideal de feminilidade
da boa esposa submissa. Ao contrário, esboçam tentativas de enfrentamento
contra os maridos por meio de ameaças e do recurso à feitiçaria. Se essa
caracterização confere maior possibilidade de ação às mulheres e torna ainda
mais complexas e variadas as representações sobre a esposa no teatro
quinhentista, é inegável que também indica que mulheres que não se enquadram
nos perfis ideais serão alvo da sátira misógina de dramaturgos como Antonio
Ribeiro Chiado, que valorizam sobretudo a hierarquia no casamento. A defesa
da hierarquia que fixava o homem como cabeça de casal mobilizou pregadores
medievais que entendiam que a manutenção da ordem social também dependia
da manutenção da hierarquia entre homens e mulheres no casamento. Desse
modo, nas Parvoices que acontecem muitas vezes, obra satírica que demarcava
comportamentos inadequados ou nocivos, Chiado recomenda ao marido que
assuma a liderança em sua casa:
Homem que consente que sua mulher mande mais em casa
que elle.
Parvoíce.
Refrão: Mal vae a casa onde a roca manda a espada

(CHIADO apud PIMENTEL, 1889, p. 152-153)

No trecho destacado, observa-se que a roca alude à figura feminina,


enquanto a espada representa a figura masculina. Segundo Chiado, uma casa

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comandada por uma mulher não poderia funcionar bem. Esta observação é
interessante considerando que no século XVI um quinto dos lares lisboetas era
liderado por mulheres, sendo as viúvas cerca de 80% delas (RODRIGUES, 1997,
p. 119).

Além do destaque conferido às esposas, a relação entre mãe e filha


também é parte importante das peças Auto das Regateiras, Prática dos
Compadres e Auto da Natural Invenção. No Auto das Regateiras, a personagem
73
Velha acusa a filha Beatriz de não ser uma mulher virtuosa:
Tu, preguiçosa,
dorminhoca, mentirosa,
gulosa, mexeriqueira,
rapariga enliçadeira,
porque não és virtuosa?

(CHIADO apud PIMENTEL, 1889, p. 65)

A partir dessa fala é possível perceber que a mulher virtuosa seria


aquela que se dedica ao trabalho, que é moderada no comer e que evita mentiras
e fofocas. A jovem Beatriz, por sua vez, refuta as ofensas da mãe e garante ser
uma boa mulher:
Sou muito boa molher,
e mau grado a quem tiver
melhor fama

(CHIADO apud PIMENTEL, 1889, p. 65)

A discussão entre mãe e filha também está presente em Prática dos


Compadres. Assim como no Auto das Regateiras, Brasia critica a filha Isabel
por ser preguiçosa e gulosa:
Moça, vê quem está batendo,
quem anda lá n'essa porta.
Tu és viva, ou andas morta!
Abala-te! vae correndo!
As portas escancaradas!
[...]
Descansa d'ella sobr'ella,
o comer sempre anda à vela,
mas os feitos, que feitos são
da minha fresca donzella?

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Ed. Anpuh-Rio
Atas do II Encontro Nacional do GT Estudos de Gênero
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(CHIADO apud PIMENTEL, 1889, p. 98)

Isabel não tenta rebater as acusações, mas ameaça fugir de casa diante
das queixas da mãe:
Não cuidem que sou de ferro,
que algura'hora farei mingua!

(CHIADO apud PIMENTEL, 1889, p. 108)

A preocupação com o destino das filhas ocupa as mães no teatro de 74

Chiado. A conduta da filha na Época Moderna poderia lançar manchas não


apenas sobre o controle exercido pela figura paterna, como também sobre a
virtude da mãe, uma vez que prevalecia a ideia de que a moralidade feminina
fosse uma herança materna (KING, 1994, p.175). No Auto da Natural Invenção,
outra personagem de nome Velha entra em conflito com um Escudeiro
interessado em casar com sua filha. O Escudeiro faz uma serenata para a amada,
mas é recebido aos gritos pela Velha. Diante da proposta de casamento para a
filha, a Velha responde apenas “melhor a espero empregar” (CHIADO apud
SABUGOSA, 1917, p. 103) demonstrando o desejo de promover um casamento
mais vantajoso, uma vez que o Escudeiro no teatro quinhentista representava um
tipo de homem decadente que vivia de aparências.

Se a recusa da Velha é um dos vários temas da vida familiar abordados


por Chiado no Auto da Natural Invenção, os esforços da Velha de Auto das
Regateiras para realizar um bom casamento para a filha Beatriz constituem o
tema central da peça. Segundo Olwen Hufton (1994, p. 47), na Europa Moderna
“o casamento era entendido como uma instituição destinada a proporcionar
apoio e sustento a ambas as partes e uma percepção clara dos imperativos
econômicos era fundamental à sobrevivência”. Nesse sentido, a Velha tem
consciência da importância de avaliar os bens do pretendente de Beatriz,
observando que a mulher se unia às posses do marido:
Quem casa com tal como elle,
não casa com sua pelle;
mas casa c'o qu'elle tem

(CHIADO apud PIMENTEL, 1889, p. 62)

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Desse modo, a Velha recebe a visita de Pero Vaz, pai do noivo, para
discutir o que cada parte somará à união. Os bens do noivo incluem itens como
redes, cordas, remos e vela, materiais necessários ao ofício de pescador. Beatriz,
por seu lado, possui um enxoval composto por itens como colchões, cobertores,
castiçais, bacias, lençóis de linho, além de um “olival em São Bento” e um
“pinhal n’Arrentela”. Assim como no Auto da Natural Invenção, não há aqui um
marido ou pai para conduzir as negociações a favor de Beatriz, sendo a figura da
75
velha viúva a responsável pela tomada de decisões na vida familiar. O Sumario
e[m] que breuemente se contem alguas cousas assi ecclesiasticas como
seculares que ha na cidade de Lisboa de Cristóvão Rodrigues de Oliveira (1554)
indicava o número de 1635 viúvas na cidade de Lisboa até a década de 1550. O
título XXXII do livro III das Ordenações do Reino garantia a posição de
liderança familiar às mulheres em caso de viuvez: “e morto o marido a mulher
fica em posse e cabeça de casal, se com ele ao tempo de sua morte vivia em casa
tida e mantida como marido e mulher” (ORDENAÇÕES MANUELINAS,
1984). Porém, se comprovada a má administração dos bens de uma viúva, o
mesmo código jurídico indicava que os bens deveriam ser retirados de sua posse.
Vale observar que a Velha viúva era um dos tipos do teatro quinhentista que
melhor representavam a crítica a uma suposta moral corrompida e o apreço pelos
costumes numa sociedade tão impactada pelas transformações sociais e
econômicas resultantes sobretudo do processo de expansão ultramarina. Com
seu sarcasmo e maledicência, a Velha do Auto das Regateiras se enquadra no
perfil da mulher que se preocupa com essas transformações, conforme explicita
na seguinte fala:
Assim como é cousa forte
deixar d'aquentar o lume,
assim o mudar costume
é um parelho de morte

(CHIADO apud PIMENTEL, 1889, p. 61)

A boa moral, sobretudo no que diz respeito à conduta feminina, é


salientada no teatro de Chiado por meio das críticas às mulheres que traem os
maridos e do incentivo ao trabalho feminino no ambiente doméstico. Naquele

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momento, a literatura moralista argumentava que o ócio estimulava ideias


pecaminosas. Na prática, porém, o incentivo ao trabalho tinha por objetivo
manter mulheres sob controle e disciplina. Com exceção dos moços que servem
os fidalgos de Prática de Oito Figuras e dos integrantes da companhia teatral de
Auto da Natural Invenção, a maior parte dos personagens masculinos elaborados
por Chiado é ociosa, dedicando-se apenas aos jogos, às comidas e ao vinho. Em
contrapartida, nas peças Auto das Regateiras e Prática dos Compadres as
76
ocupações femininas estão em evidência.

Sendo o ofício de fiar um atributo feminino ao longo da Idade Média e


da Idade Moderna, Chiado reconstitui de forma detalhada essa dimensão da
rotina das mulheres portuguesas, tendo em vista que o trabalho resultante da
associação entre mãe e filha constituía uma importante fonte de renda nos lares
em que não havia uma figura masculina. Uma fala da Velha do Auto das
Regateiras explicita a divisão das tarefas: enquanto a Velha se ocupava da
dobadoira ou dobadoura (máquina para trabalhar fios), Beatriz deveria se
encarregar da meada (porção de fios):
Traze-m'aqui a dobadoira,
e um tanho em que m'assente;
acabae, colher mexedoira,
e ponde-lhe lá uma meada
que está dentro no cabaz,
se inda estiver em paz;
que aqui não está quedo nada,
ao rabear que ella faz!

(CHIADO apud PIMENTEL, 1889, p. 52)

Em Prática dos Compadres, por sua vez, Isabel e a jovem Silvestra


conversam sobre suas habilidades na costura:
Isabel— Mana, sabeis ponto-chão?
Silvestra — Ponto-chão, e de feição,
pesponto e cadenetas,
torcido e de cordão.
Isabel — E sabeis ponto cruzado?
Silvestra —E lumilho, e ponto real

(CHIADO apud PIMENTEL, 1889, p. 110-111)

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No século XVI mais de 9000 mulheres eram descritas como


trabalhadeiras em Lisboa (SILVA, 1982, p. 153), entre lavrandeiras, parteiras e
vendedoras de gêneros alimentícios diversos. Porém, era o setor da produção
têxtil o responsável por atrair e ocupar mais mulheres. O já mencionado sumário
de Cristóvão Rodrigues de Oliveira (1554) registrava 1066 alfaiatas, 124
tecedeiras, 815 fiandeiras e 30 mulheres que faziam redes de pescar na primeira
metade do século XVI. Essas mulheres poderiam trabalhar com materiais mais
77
refinados, como a seda, brocado, o veludo e o cetim, ou com materiais mais
baratos, como algodão, linho, fustão e lã (BOMFIM, 2008).

As tarefas domésticas também ocupam as personagens femininas de


Chiado. Queixando-se das exigências da mãe, Beatriz lista as tarefas que
costuma executar:
Eu lavar e esfregar,
varrer e esfolinhar,
e por dae-me cá aquella palha!

(CHIADO apud PIMENTEL, 1889, p. 52)

Segundo Teresa Rodrigues (1997, p. 121), as mulheres portuguesas


realizavam muitas de suas tarefas na porta de casa, sendo possível assim exercer
o controle moral da comunidade. Outras tarefas exigiam a circulação de
mulheres pela cidade, mais especificamente pelas fontes ou chafariz, pelo
moinho e pelo forno, locais coletivos femininos na Lisboa quinhentista
(RODRIGUES, 1997, p. 121). Nesse sentido, a escrava Luzia do Auto das
Regateiras é uma das poucas personagens femininas do teatro de Chiado
circulando pela cidade. Já no início da peça, a Velha manda a escrava
interromper suas orações matinais para ir ao chafariz:
Que madrugada d' Alfama,
cadella! E em cu na cama
vos pondes vós a rezar!
Não virá por ti má trama?
[...]
Cadella, tomae essa talha,
e ide logo ao chafariz,
e levae comvosco o assento

(CHIADO apud PIMENTEL, 1889, p. 51)

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Em resposta, Luzia lança uma provocação ao acusar a Velha de ser


judia, uma acusação perigosa considerando que a Inquisição portuguesa
condenava práticas judaizantes:
A mi catiba ro judeu
Nam querê ca mim razá

(CHIADO apud PIMENTEL, 1889, p. 106)

O negro e a negra foram explorados no teatro quinhentista sob uma 78


perspectiva cômica. O tom cômico de Luzia é produzido pelo conflito com sua
senhora, que desdenha de sua fé, e pelo uso da língua de preto, uma estilização
da linguagem que reforçava não apenas a sua origem estrangeira como também
uma condição de inferioridade na sociedade portuguesa (ALKMIM, 2008, p.
251).

Luzia representava as “negras do pote”, como ficaram conhecidas as


negras que lavavam roupa, vendiam água e despejavam os dejetos das casas na
Lisboa quinhentista. Mas Luzia não demonstra eficiência, retornando do chafariz
com um pote quebrado, inspirando a revolta de sua senhora:
Já me quebraste uma talha,
quatro potes, um asado,
tudo me tens já quebrado!
Já não tenho nemmigalha,
e sofrer-te é meu pecado

(CHIADO apud PIMENTEL, 1889, p. 136-137)

Luzia é uma escrava atrapalhada, constantemente ameaçada e insultada


por sua senhora. A construção dessa personagem não está condicionada aos
mesmos elementos que caracterizam as demais mulheres do teatro de Chiado,
tais como o casamento ou a preservação das virtudes.

Com base no que foi exposto, é possível perceber que as personagens


femininas do teatro de Antonio Ribeiro Chiado entram em confronto com os
ideais de feminilidade vigentes na medida em que assumem a liderança familiar,
desafiam seus maridos e namoram às escondidas. Porém, é importante observar
que a tônica misógina e satírica que ridiculariza a posição dessas personagens
nas esferas do casamento, da maternidade e do trabalho reafirma a expectativa

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de que as mulheres da sociedade portuguesa quinhentista conservem a castidade,


obedeçam aos pais e maridos e evitem o ócio.

REFERÊNCIAS

ALKMIM, Tania. Falas e cores: um estudo sobre o português de negros e


escravos no Brasil do século XIX. In: L. do Carmo & I. S. Lima (orgs.). História
social da língua nacional. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 2008, p. 247- 79

264.

BETHENCOURT, Francisco. O Imaginário da Magia - feiticeiras, adivinhos e


curandeiros em Portugal no século XVI. São Paulo: Companhia das Letras,
2004.

BOMFIM, Eneida. O traje e a aparência nos autos de Gil Vicente. Rio de


Janeiro: Ed.PUC-Rio, 2008.

BUTLER, Judith. Cuerpos que importan: sobre los límites materiales y


discursivos del "sexo". Buenos Aires: Paidós, 2002.

______________. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade.


Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

CASAGRANDE, Carla. A mulher sob custódia. In: KLAPISCH-ZUBER,


Christiane (Org). História das mulheres no ocidente: Do Renascimento à Idade
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uma explicação prévia pelo Conde de Sabugosa, Lisboa: Livraria Ferreira, 1917.

DELUMEAU, Jean. História do Medo no Ocidente: 1300-1800; Uma Cidade


Citiada. Trad. Maria Lucia Machado/ Trad. das notas Heloisa Jahn. São Paulo:
Companhia das letras, 1989.

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FARGE, Arlette; DAVIS, Natalie Zemon. História das Mulheres no Ocidente:


Do Renascimento à Idade Moderna, Porto, Edições Afrontamento, 1994, vol.3.

HUFTON, Olwen. Mulheres, trabalho e família. In: FARGE, Arlette; DAVIS,


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Zemon (Org.). História das mulheres no ocidente: Do Renascimento à Idade


Moderna.Porto: Edições Afrontamento, 1994, vol. 3, p. 23-69.

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Homem Renascentista. Lisboa: Editorial Presença, 1994, p. 191-227.

_________________. A mulher do Renascimento. Lisboa: Presença, 1994.

NICHOLSON, Eric A. As mulheres e o teatro, 1500-1800, Imagens e


representações. In: FARGE, Arlette; DAVIS, Natalie Zemon (Org.). História
das mulheres no ocidente: Do Renascimento à Idade Moderna. Porto: Edições
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NUNES, Maria Arminda Zaluar. O Cancioneiro popular em Portugal. Lisboa:


ICALP, 1978.

OLIVEIRA, Cristóvão Rodrigues de, fl. 15--Sumario e[m] que breuemente se


contem alguas cousas assi ecclesiasticas como seculares que ha na cidade de
Lisboa / [por Cristouão Rodriguez Doliueira]. - Em Lixboa : em casa de
Germão Galharde: acharssea em casa de Gil Marinho, liureiro do infante dom
Luis no terreiro do Paço onde sua A. mora, depois de 1554. Disponível em <
http://purl.pt/14435>. Acesso em: 2 de abril de 2015.

Ordenações Manuelinas, livro III, título XXXII: Que o marido nom possa
litiguar em Juizo sobre bens de raiz sem ortorgua de sua molher. Lisboa:
Fundação Calouste Gulbenkian, 1984.

____________________, livro IV, título X: Das viuvas que emalheam, e


desbaratam seus bens como nom devem . Lisboa: Fundação Calouste
Gulbenkian, 1984.

PIMENTEL, Alberto. Obras do Poeta Chiado. Lisboa: Empreza da Historia


de Portugal, 1889.

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Acesso em: 6 de abril de 2013.

81

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SUBVERSÕES DO PECADO: DESEJO E SEDUÇÃO NAS MINAS


SETECENTISTAS

Lisa Batista de Oliveira*

No século XVIII, as Minas Gerais foram submetidas ao controle das


devassas eclesiásticas, que puniam desvios morais em relação aos preceitos da
82
Igreja Católica. Visitas diocesanas que recebiam denúncias dos moradores sobre
crimes contra a fé e delitos sexuais, as devassas incentivavam a maledicência de
compadres e amigos, alterando as relações comunitárias e rompendo seus
vínculos de solidariedade. As devassas desfaziam amizades, rompiam laços de
vizinhança (VAINFAS, 1989, p. 222-226), separavam amantes. Pretendia-se
impor vigilância sobre a vida íntima dos moradores (FURTADO, 2003, p. 51) e
combater as transgressões nas Minas, marcadas pela recorrência de “crimes”
contra o sacramento cristão do matrimônio.

A difusão do sacramento do matrimônio era elemento essencial para


disseminar o cristianismo e impor o casamento cristão como espaço legítimo do
desejo (FIGUEIREDO; SOUSA, 1987). As devassas integravam um processo
de aculturação cristã pautado na repressão violenta das uniões ilícitas, que
transgrediam o sacramento do matrimônio. Uma das principais metas da Contra-
Reforma foi a difusão do sacramento matrimonial efetivada através da
criminalização das sexualidades desviantes e das religiosidades heterodoxas,
visando à destruição das solidariedades comunitárias (VAINFAS, 1989). Com o
Concílio de Trento (1545-1563), o concubinato foi condenado. A imposição do
casamento católico como única forma de acesso a relações eróticas ocorreu
através da afirmação do concubinato como transgressão. As devassas
procuravam ordenar as uniões sexuais tendo como base o caráter lícito do ato de
conjunção carnal e tinham como objetivo dividir a comunidade, submetendo-a
ao poder eclesiástico através do distanciamento dos “pecadores”, condenados a

*
UFF.

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penas pecuniárias, prisões, excomunhões e separados da vivência social


(LONDOÑO, 1988).

Ao estigmatizar as práticas sexuais ilícitas, a Igreja procurava o controle


do desejo. A doutrina cristã direciona a concepção de pecado no sentido da
procura das intenções (LIMA, 1986, p.78) e o momento mais importante é
deslocado do ato sexual em si para a inquietação do desejo. Com o Concílio de
Trento, a direção espiritual impõe regras de exame de si mesmo ao atribuir cada
83
vez mais importância na confissão a todos os prazeres e sensações ligados às
insinuações da “carne”, que torna-se a origem de todos os pecados. O
catolicismo tridentino marca uma cisão importante naquilo que Michel Foucault
chama de “tecnologia cristã da carne”, pois introduz a “obsessão pela decifração
da verdade de nossos desejos”. Inicia-se o processo de constituição da
sexualidade moderna, formada em grande medida com a pastoral cristã da
“carne” (DREYFUS; RABINOW, 1995a, p. 280; FOUCAULT, 1985), que
consiste na criação do sexo como essência identitária, instituindo-o em relações
de poder e transformando-o no locus de produção da verdade sobre os corpos e
as subjetividades (SWAIN, 2001, p. 91).

A hermenêutica cristã de si centra-se na decifração dos desejos da


“carne” (DREYFUS; RABINOW, 1995b). Para a ética cristã é preciso buscar
uma verdade sobre si contida no desejo que conduz à renúncia de si e dos
prazeres (FOUCAULT, 1988). O que estava em causa era o caráter permitido ou
proibido das relações carnais, estabelecido pela lei divina, que volta-se nesse
contexto histórico para a questão da ampliação da população mestiça decorrente
dos relacionamentos sexuais ilícitos, pois as relações amorosas entre homens
brancos livres com escravas e libertas chegaram a corresponder a 76,5 dos casos
de concubinato sentenciados nas devassas (LUNA; COSTA, 1982, p. 10). As
devassas eram instrumentos de uma política religiosa que visava à normatização
social das uniões livres (FIGUEIREDO, 1997), pois a mestiçagem advinda das
relações ilícitas era uma ameaça ao caráter estamental da ordem patriarcal
escravista. Contudo, as devassas revelam a instabilidade das uniões
sacramentadas nas Minas, espaço histórico onde práticas sexuais

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marginalizadas, excluídas pelo discurso cristão, subsistiram. Nas Minas


predominaram formas heterodoxas de organização familiar e de uniões sexuais
como o concubinato e as relações efêmeras (FURTADO, 2003, p. 267). Estáveis
ou passageiras, as relações ilícitas distanciavam-se da união sacralizada pelos
laços do matrimônio (LOPES, 1996, p. 1).

As atividades auríferas e comerciais trouxeram para as Minas um fluxo


populacional diversificado, formado por portugueses, africanos, indígenas e
84
mestiços. A interação de pessoas de tradições culturais heterogêneas constituiu
uma sociedade plural e diferenciada, caracterizada por complexas formas de
organização familiar resultantes de uma multiplicidade de relacionamentos
conjugais alternativos ao comportamento moral ditado pela Igreja Católica pós-
tridentina, que tentava controlar, sob os valores cristãos e patriarcais, práticas
culturais distintas e específicas. Atentar para a historicidade desse processo
significa problematizar um contexto histórico propício para a mestiçagem, capaz
de engendrar uniões conjugais informais decorrentes de uma intensa convivência
entre indivíduos de culturas variadas. As uniões multirraciais transformaram-se
em costumes em um espaço cultural favorável para as relações entre homens e
mulheres “com condições sociais e matizes de peles diferentes”, que optaram
por viver solteiros, estabelecendo uniões livres ou ligações efêmeras, que
“subverteram, do ponto de vista moral e normativo, as tradições de uma
sociedade escravocrata, estamental e baseada em privilégios”. Os homens
brancos livres, portugueses ou luso-brasileiros, preponderaram entre os
concubinos sentenciados nas devassas, perfazendo 92% dos casos na Comarca
do Rio das Velhas entre 1727 e 1756. Entre as mulheres mancebas
predominaram as libertas africanas, crioulas e mestiças com percentual de 58%.
Em seguida, vinham as cativas africanas e crioulas com 26,6% (NETTO, 2008).
Negras e mulatas forras, mães solteiras, chefes de seus fogos, com seus filhos
bastardos, foram as principais parceiras sexuais da população masculina mineira
(PAIVA, 2009, p. 158). Assim, busca-se inserir as uniões consensuais e as
ligações esporádicas em um intenso processo histórico-cultural de mestiçagem
decorrente de relações informais de gênero, pois nas Minas Gerais do século
XVIII foram construídas alternativas de conjugalidade marcadas pela interação

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cultural e sexual de homens e mulheres de etnias distintas. Entretanto, os


encontros amorosos pluriétnicos, fossem fugazes ou duradouros, eram
permeados por relações afetivas hierarquizadas, fortemente sexualizadas
(VAINFAS, 1997, p. 229).

Negras e mestiças eram suspeitas de prostituição e maus costumes


(DIAS, 1995, p. 93), o que revela o ideal de castidade restrito às brancas. Um
código sexual cristão e patriarcal, no qual relações escravistas estendiam-se às
85
relações de gênero, considerava cativas e forras mulheres lascivas, que se
entregavam aos prazeres sensuais devido à propensão ao pecado capital da
luxúria. A proteção patriarcal reservada às brancas de elite, que teoricamente se
enquadravam nos ideais de pureza feminina, tinha como avesso a aceitação das
relações ilícitas com negras e mestiças, mulheres “passíveis de fornicação”,
desejadas, mas degradadas pelo estigma da cor e da escravidão (VAINFAS,
1989, p. 64-65). Mas a submissão feminina decorrente dos “tratos ilícitos” foi
usada como forma de se marcar resistência em um universo cultural
extremamente hierarquizado. Ao se relacionarem intimamente com homens
brancos, escravas e libertas subverteram os padrões hierárquicos da sociedade
escravista das Minas do século XVIII, deslocando as relações de dominação e
criando poderes informais femininos definidos como contrapoderes ilícitos
fundamentados na sedução que proporcionavam uma existência mais livre.
Mulheres “desonradas”, por meio de uma inserção específica em relações
patriarcais de poder, recorreram às representações de um discurso dominante que
as consideravam moralmente degradadas e através da sedução lutaram contra as
limitações impostas por uma sociedade misógina. Relações de poder cristãs,
escravistas e patriarcais permearam as relações de gênero conduzindo à
submissão sexual das “mal-procedidas”. Mas ao vivenciarem as representações
impostas, mulheres pobres não cumpriram os termos e prescrições da cultura
dominante. Papéis informais de gênero foram criados por uma experiência
feminina que transformou um código cristão de comportamento em uma moral
sexual informal. Portanto, trata-se de delinear as vivências sexuais ilícitas do
desejo e da sedução por mulheres tidas como “mal-procedidas”. Através da
subversão do desejo e do olhar masculinos, cativas, libertas e brancas pobres

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conquistaram melhores condições de vida, construindo uma cultura feminina de


resistência fundamentada no “mau uso de si”.

A recorrência de desvios e heterodoxias era consequência do ir e vir de


homens errantes, do denso fluxo populacional masculino em uma sociedade
essencialmente urbana, onde a incidência expressiva de africanos e seus
descendentes (MOTT, 1989, p. 103), e a relativa escassez de mulheres brancas
disponíveis sexualmente contribuíram para o surgimento de organizações
86
familiares não ortodoxas e de formas não convencionais de conjugalidade.
Multiplicavam-se homens com costumes itinerantes, a ganhar a vida pelos
caminhos como mineradores, comerciantes, tropeiros. A presença masculina era
intermitente, fomentada pelo costume de concubinatos que se sucediam em
uniões efêmeras. A mobilidade intrínseca à mineração e às atividades comerciais
resultou numa população masculina flutuante que buscava enriquecimento
rápido, o que conduziu a um tipo de família criada a partir de relações
concubinárias ou eventuais, onde somente a mãe convivia com os filhos. As
mulheres tornaram-se presença predominante na vida urbana, pois permaneciam
na retaguarda do povoamento, estabelecendo relações sexuais casuais, arcando
com seus filhos bastardos. O intenso fluxo populacional das vilas, arraiais e
centros mineradores, tradicionais zonas de passagem (DIAS, 1995, p. 30-33;
FARIA, 1998), transformou as Minas setecentistas em um espaço histórico
propício aos envolvimentos ilícitos

Denunciava-se às devassas principalmente mulheres de origem africana


que viviam em uniões consensuais com seus filhos ilegítimos. Eram rotuladas
de “mal-procedidas” tanto mulheres que se entregavam a relações conjugais não
ortodoxas, auferindo benefícios ou rendimentos dos relacionamentos amorosos
ilícitos, quanto aquelas que aderiam efetivamente ao comércio sexual, o que
revela os tênues limites entre práticas desviantes e prostituição. Algumas
mulheres possuíam mais de um concubino e meretrizes despertavam amores,
estabelecendo relações de mancebia com vários homens. O “mau uso de si”
estava vinculado aos fogos chefiados por mulheres sós, dispostas,
eventualmente, a sobreviver com o ganho de seus corpos. Libertas utilizavam os

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“tratos ilícitos” como alternativas improvisadas de sobrevivência e consentiam


que suas filhas “fizessem mal de si”, criando laços de auxílio mútuo através do
“mau-procedimento”. Mães solteiras, cúmplices da vida “dissoluta” de suas
meninas, subverteram as relações familiares de dependência pessoal ao viverem
“formas não sacramentadas de convívio sexual”. O “viver meretrizmente”
designava a vida fora dos padrões convencionais de mulheres solteiras ou de
maridos “ausentes”, com todo comportamento “desregrado” confundindo-as
87
com prostitutas (PRIORE, 2009).

As vivências intensas de amores efêmeros pautavam-se na constituição


de laços comunitários e de áreas de resistência, caracterizados pela contestação
ao comportamento social ditado pela Igreja Católica. A natureza explícita das
relações amorosas ilícitas de negras e mulatas, sua prole ilegítima e sua
capacidade de congregação em casas de alcouce fizeram com que o discurso
cristão dominante problematizasse as transgressões sexuais colocando-as como
as principais responsáveis pelos “tratos ilícitos”. A prática da prostituição
exerceu função social importante, refletindo as relações de dependência que
uniam entre si, nas fímbrias da escravidão urbana, brancas pobres, cativas e
libertas (DIAS, 1985). Buscava-se uma identidade cultural fundamentada em
uma forma própria de conjugalidade e na organização de um ganha-pão, que
dependiam de densos laços de solidariedade e vizinhança que se improvisavam
(DIAS, 1995, p. 16) continuamente:
Josefa Maria de Souza concorre para que sua filha Jacinta de
São José se desoneste com hóspedes que ela recolhe e não tem
outra coisa de que viva e também vive de dar pousada para o
mesmo fim a mulheres meretrizes, como é uma bastarda [...]
por nome Rosa Maria [...] como foi algumas vezes Joana
Xavier mulher branca e uma crioula por nome Ana [...] preta
forra e Gertrudes de Oliveira mulher branca que adentro em
casa da mesma hoje sendo casada. [...] E quando os hóspedes
eram muitos e eram necessárias mais mulheres, as convocava
deste arraial e também de outras partes vinham assistir à sua
casa.

Além de “dar alcouce”, Josefa de Souza era uma prostituta que se dava
aos homens em sua pousada em Ouro Branco, no ano de 1764. No entanto, era
concubinada com João da Costa Barbosa, oficial de ferreiro e ferrador. Assim

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como a mãe, Jacinta de São José era conhecida como “pública meretriz”, apesar
de seu amancebamento com o português Manoel Gomes Chaves. Josefa abrigava
“toda a casta de passageiros”, cozinhando para eles e lhes prestando outros
serviços, sendo infamada de servi-los com “atos lascivos” (Devassas, 1762-69,
fl.65v a 71; MELLO E SOUZA, 1986, p. 184-185). As uniões conjugais
informais com homens que com elas não se casariam não diminui a ação social
dessas mulheres. Josefa de Souza proporcionava oportunidades de convívio
88
entre mulheres brancas e negras, solteiras e casadas, criando vínculos de
solidariedade femininos.

As “mal-procedidas” possuíam uma ética própria para constituir


vínculos familiares e afetivos, cercando-se de comadres e vizinhas, e
estabelecendo relações ilícitas estáveis ou esporádicas com eventuais
companheiros. A alcovitice fundamentava uma profunda solidariedade feminina
e era um laço que unia mães e filhas (PRIORE, 1992; 2009). Em 1777, o forro
Manoel Borges denunciou a sogra por alcovitar homens para sua mulher, que
não queria com ele “fazer vida”, talvez por estar na sua liberdade para “usar mal
de si” (Devassas,1767-77, fl. 21). A inserção em relações de mancebia ou redes
de alcovitagem correspondiam a uma escolha social ditada por uma cultura
feminina de resistência fundamentada na sedução que rejeitava o controle da
Igreja sobre as interações culturais comunitárias. A parda Inácia da Costa
consentia nos “pecados” de sua filha Rosana, “sempre a mãe morou com ela na
mesma casa, vendo entrar homens para tratarem [...] com [...] sua filha sem que
lhe proibisse, antes permitindo-lhe [...] para que se sustentasse”. Além de saber
dos amásios de Rosana e de consentir seus “tratos ilícitos”, Inácia era uma
alcoviteira de Mariana, que costumava “ter em sua casa algumas mulheres para
se darem a homens, sendo medianeira para que os homens lhes dêem algumas
coisas” (Devassas, 1753, fl. 139-155v).

Negras e mulatas tinham como passado cultural o hábito de africanas


que se mantinham economicamente independentes, sustentando a si próprias e
aos filhos (DIAS, 1995, p. 158). Gertrudes de Oliveira vivia “separada de seu
marido Manoel Francisco”, “que querendo por várias vezes chamá-la para sua

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companhia ela nunca quis”. Gertrudes não “fazia vida” com o marido por preferir
“viver na sua liberdade”, “dada à sensualidade” (Devassas, 1753, fl. 70v-71).
Tinha-se uma liberdade na escolha dos parceiros e a negação da estrita
submissão ao marido existente no matrimônio eclesiástico. A forra Paula
Perpétua “supondo seja casada vive como se não o fora, porque se ausenta de
seu marido todas as vezes e quando quer”. A posição passiva do marido de Paula
em relação ao adultério de sua esposa justificava-se pelo fato deste temer “que a
89
mesma lhe maquine a morte” (Devassas, 1756-57, fl. 7-7v-8). Apesar de
concubinada com outro homem, Paula relacionava-se com o marido, “a qual vive
separada dele no morro”, não obstante, algumas vezes, o seu marido ia à casa
dela e ela à casa dele (Devassas, 1750-53, fl. 58).

As africanas e suas descendentes crioulas e mulatas constituíam a


maioria do contingente feminino que vivia fora das uniões sacramentadas. As
libertas tinham um modo peculiar de se relacionar com companheiros e parentes,
vivenciando relações de gênero endogâmicas, poligâmicas ou monogâmicas e
transformando-se no centro da estrutura familiar. Para as forras viver em
concubinato representava uma valorização de tradições familiares matrifocais
com origens africanas matrilineares (NETTO, 2008). Os iorubás cultuavam as
forças femininas do cosmos. “Os rituais valorizavam a crença no extraordinário
poder feminino, mais forte do que o dos ancestrais” (PRIORE; VENÂNCIO,
2004, p. 129). Em várias sociedades africanas, “a descendência é traçada de uma
ancestral original ou de uma série de ancestrais femininas conhecidas como as
‘mães’ da linhagem ou do clã” (SLENES, 2011), prática que pode ser
considerada o passado histórico dos lares matrifocais nas Minas, formados por
negras e mulatas com suas mães, filhas e filhos, irmãs, madrinhas, comadres,
afilhados e “crias” (OLIVEIRA, 1988, p. 70). Mulheres chefes de família
mantinham laços de dependência mútua no meio em que viviam e mesmo com
filhos homens eram reconhecidas como líderes (CUNHA, 2010, p. 46) de seus
domicílios:
Antônia Nunes tem umas filhas [...] mal-procedidas,
admitindo homens em casa para fins torpes e desonestos,
estando a mãe em casa, não lhes proíbe estes desaforos, [...]
tendo dois filhos [...], um chamado José e o outro Manuel,

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estes são amancebados, o José com uma parda forra e o


Manuel com uma bastarda Margarida, as quais estão na
mesma casa morando com a dona Antônia Nunes (Devassas,
1753, fl. 71).

Em muitas sociedades africanas, não havia uma estigmatização social


da “promiscuidade”, um conceito cristão e ocidental. Existia uma certa
“liberdade sexual”. Mesmo em casos de uniões informais estáveis, semelhantes
a “casamentos”, a existência de laços duradouros não impedia a procura de novos 90
parceiros. A “honra” de uma mulher não era ofuscada pela variedade de seus
amores, desde que reconhecesse o marido ou concubino como amante principal.
Nas Minas setecentistas, a monogamia sexual nem sempre era praticada e o
significado cristão do casamento foi transformado por uma variedade de acordos
que revelam concepções mais flexíveis sobre sexualidade, parentesco e família
(SWEET, 2007). Parecem ser essas tradições que marcaram a vida da negra forra
Maria da Costa, que possuía vários amásios e “vivia escandalosamente usando
mal de seu corpo com todo homem que se lhe oferece, especialmente com
Sebastião, oficial de ferrador, que vivia meio apartado dela”. Maria da Costa
envolvia-se constantemente em brigas com o seu concubino preferido por
exercer o meretrício, sendo que em certa ocasião “se descompuseram de palavras
e pancadas por ciúmes e que do modo de viver da dita têm resultado várias ruínas
e mortes” (Devassas, 1747-48, fl. 31 a 32v).

Muitas mulheres preteriam o “casamento cristão” em favor de acordos


com origem cultural marcadamente africana, o que não impedia a eventual
existência de laços duradouros. Estabeleciam relações de parentesco
sancionadas por suas comunidades e não pela Igreja Católica. Para elas, o
“matrimônio cristão” era uma instituição de pouca importância. Devido ao
desequilíbrio numérico entre os sexos, com certa ausência de mulheres, era
comum que essas atraíssem a atenção de mais de um homem, estabelecendo
relações poligâmicas que eram um desafio às normas ocidentais (SWEET,
2007). As meretrizes das Minas do século XVIII tinham vários amásios, situação
que gerava brigas sérias. Bernarda “se dá aos homens que a procuram,
motivando discórdia” entre eles (Devassas, 1753, fl. 139v). A cabra Antônia era

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“dada a todo o gênero de vícios por razão da qual têm sucedido grandes
distúrbios” no arraial (Devassas, 1756-57, fl. 82). Os ciúmes e a “desordem”
resultantes da infidelidade feminina sugerem a resistência das mulheres de
origem africana em adotar a monogamia cristã, pois as redes de parentesco
decorrentes das relações concubinárias e ilícitas eram a essência da vida
comunitária, revelando estruturas familiares extensivas que transmitiam
tradições culturais africanas. Parceiros únicos ou múltiplos, relações temporárias
91
ou estáveis, eram destinados a formar amplas unidades de parentesco simbólico
(SWEET, 2007). Rosa Pereira da Costa dava casa de alcouce, “em forma que
nela se ajuntam todas as noites quase todas as mulheres-damas que há neste
arraial e quantidade de homens de toda qualidade, e na dita casa estão todas as
noites até fora de horas conversando [...], fazendo saraus e galhofas” (Devassas,
1734, fl. 73v, 74v, 75).

Mas uma cultura feminina de resistência baseada na sedução não foi


vivida somente por mulheres de origem africana. Crescia na retaguarda do
povoamento, em vilas de homens “ausentes”, uma população feminina ao
mesmo tempo perseguida e protegida pelos poderosos, que integrava relações de
dominação e laços de vizinhança, constituindo uma intensa rede de relações
pessoais, proteção e compadrio (DIAS, 1995). A portuguesa Bárbara da Costa,
quarenta anos, foi denunciada em 1738 por entregar sua filha Joana ao ouvidor
geral da Comarca do Rio das Velhas, José Telles da Silva. De acordo com o
boato que corria em Sabará, o mercador Gregório Freyre montara um
complicado esquema para conduzir uma misteriosa mulher de madrugada para
assistir a “festas em que se correram touros”, donde se recolhia para a casa do
ouvidor acompanhada de negros. Várias pessoas na vila comentaram a passagem
da mulher a cavalo envolta em um manto. Dizia-se que era a filha de Bárbara.
Chamada à mesa da devassa, Bárbara negou a acusação, dizendo que “sua filha
era menina e honrada” e que a concubina do ouvidor era Joana Vitória, “meretriz
pública” que pela sua dissolução foi expulsa da vila pelo vigário da Vara
Eclesiástica, mas que há tempos vivia com o ouvidor “de portas adentro”
(Devassas, 1737-38, fl. 42 a 46). O testemunho de Bárbara subverteu duplamente
o mecanismo de funcionamento das devassas eclesiásticas. Por ser mulher em

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um contexto em que somente os homens eram convocados para prestar


depoimento e por ser chamada a depor como “testemunha referida”, já que as
devassas eram processos secretos, onde as denúncias eram a razão de ser das
visitas, com o acusado comparecendo à mesa apenas para assinar o termo de
culpa e ser admoestado pelo visitador.

As “formosas sem dotes”, brancas pobres que viviam em uniões


consensuais, tiveram uma significativa atuação na inversão estratégica das
92
relações de força ao criarem alternativas para um discurso social que excluía
aquelas que não tinham função definida no que se refere à transmissão de
poderes, privilégios e à reprodução da cultura patriarcal misógina. Por não se
enquadrarem em padrões inatingíveis de status, viviam em discretas uniões
consensuais e eram mais valorizadas do que negras e mulatas por se
enquadrarem no machismo lusitano com seus ideais de pureza feminina. Brancas
pobres, que não se vestiam tão ricamente quanto algumas escravas, “mal podiam
aparecer à luz do dia”. A “pobreza recolhida” de mulheres que andavam às
escondidas após as “ave-marias” representava papéis sociais difíceis de serem
mantidos por moças pobres, sem dotes, que não se casavam. Esse excedente de
brancas sem dotes, em um contexto onde a principal função do casamento era a
manutenção do poder e do patrimônio de ricos senhores de escravos, tornava-se
objeto de desejo daqueles que sucumbiam diante das idealizações produzidas
pelo discurso patriarcal. Daí as denúncias ambíguas do “mal viver” daquelas que
se envolviam em andanças noturnas clandestinas e furtivas (DIAS, 1995).
Entretanto, não cabe aqui desvendar se a donzela Joana era a misteriosa mulher
a cavalo. Mas a irreverência de Bárbara não ficaria impune, pois ela foi
pronunciada pelo concubinato com Manuel da Costa Vianna, um mercador de
vinte e oito anos, que talvez por acaso fosse amigo de Gregório Freyre,
alcoviteiro do ouvidor (Devassas, 1737-38, fl. 46v-47). Certas brancas pobres
atuaram intensamente na construção de uma tradição cultural feminina de
resistência fundamentada na sedução, subvertendo radicalmente a ordem social
cristã através da transgressão e do “pecado”.

Nesse sentido, o problema a ser desenvolvido refere-se às formas

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alternativas de representação social da sexualidade. A Teoria Queer, ao


reivindicar uma subjetividade que não se articula ao masculino/feminino, abre
espaço para a análise de práticas eróticas que perturbam os esquemas tradicionais
das identidades sexuais. A Teoria Queer é uma política da diferença que
questiona a sexualidade enquanto “verdade intrínseca do ser”, desestruturando a
categorização do mundo em “masculino” e “feminino”. Trata-se de relações não-
normativas a partir da politização da sexualidade e da diferença através da busca
93
de alternativas de resistência aos limites históricos impostos pela
heteronormatividade, norma historicamente construída que institui uma
intimidade normatizada por uma identidade sexual (MISKOLCI, 2011; SWAIN,
2001). A subjetividade queer é uma “política subjetiva” onde o sexo binário não
seria essência identitária e nem definiria a identidade. A experiência é concebida
como inserção dos sujeitos nas práticas sociais (SWAIN, 2000) e o corpo é visto
como cultura, fundamento do processo de subjetivação do feminino e da crítica
às significações de uma cultura masculina (SWAIN, 2002) percebida como ação
simbólica.

Judith Butler subverte o caráter construído do gênero, produzido


culturalmente. O gênero pode ser teorizado como radicalmente independente do
sexo, o que sugere sua descontinuidade radical com corpos sexuados construídos
socialmente (BUTLER, 1990, p. 6-7). Butler trabalha com a desconstrução do
gênero e com a multiplicidade dos corpos. O gênero é contextual e não denota
uma essência do “ser”. A subjetividade e a identidade são expressões de um
contexto. O pós-feminismo deixa de lado a noção unitária de mulher e a ideia de
uma identidade feminina “por conceitos de identidade social que são plurais e
de constituição complexa, e nos quais o gênero seria somente um traço relevante
entre outros” (RODRIGUES, 2005). “A sexualidade não se constitui em um
campo externo a outros modos de diferença” como etnia e classe social
(LOURO, 2007). Compreender gênero e sexualidade significa articulá-los com
outras diferenças e desigualdades (MISKOLCI, 2014). Somos mulheres
diversas, marcadas por inúmeras diferenças, como condição social, sexualidade,
raça e crenças religiosas. A fragmentação da ideia universal de “mulher” nos
leva a uma interpenetração entre “História das Mulheres” e “História de

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Gênero”, caracterizada pela existência de múltiplas subjetividades e cujo


objetivo é construir uma memória histórica do passado que inclua tanto as
vivências sociais quanto as representações culturais femininas. Um enfoque do
cotidiano pode dar visibilidade à atuação informal feminina ao estabelecer um
distanciamento entre a normatização e as vivências concretas. A subversão dos
modelos culturais impostos pode ser uma arma na defesa do gênero feminino
contra as tradições misóginas (SOIHET, 1997; SOIHET; PEDRO, 2007, p. 296).
94
A reconstrução de múltiplas subjetividades nos direciona para a
desconstrução da categoria “mulher”. Mais do que reivindicar a multiplicidade
das expressões de gênero, o ativismo queer reivindica uma não-identidade. A
Teoria Queer se organiza em torno da ênfase nas relações de poder para
interpretar as estruturas subjetivas da vida social (BENTO, 2014). É uma
epistemologia política radical que contesta a busca de uma verdade profunda
sobre nós mesmos inscrita em nossos desejos. A sexualidade normatizada, com
sua verdade sobre o sexo e os prazeres, pode ser recusada pela rejeição de definir
o que somos. Uma ética que recuse o “eu profundo” criado pelo cristianismo
pode se fundamentar em práticas marginalizadas, triviais e irreais, que ajudaram
a modelar nossos corpos e almas e ainda estão ao nosso alcance. É preciso
resgatar práticas sexuais potencialmente subversivas, como as vivências
alternativas do desejo e da sedução nas Minas setecentistas, que podem se
transformar em referências para nossas estratégias de resistência. Precisamos
buscar um novo paradigma cultural que contribua para a construção de nossas
vidas dentro dos parâmetros de uma “estética da existência” foucaultiana,
escolha política que busca compreensões de si mesmo não-centradas no desejo.
A partir da ideia de que o “eu” é construído, temos que criar a nós mesmos como
uma obra de arte (DREYFUS; RABINOW, 1995; MISKOLCI, 2011).

É necessário se fundamentar nas experiências de gênero e nas vivências


femininas como forma de contestação a um conceito identitário imutável de
“mulher” (VIEIRA, 2015). Política pós-identitária com potencial subversivo, o
movimento queer volta-se para as múltiplas sexualidades, para as diversidades
sexuais e de gênero, e designa os sujeitos “desviantes” em uma perspectiva de

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contestação da heteronormatividade. O queer é uma teoria das sexualidades


contrárias ao processo de normatização e disciplina dos corpos. O termo inclui
os desviantes da sexualidade dita “normal”, que revertem o jogo, marcando a
posição queer afirmativamente. A expressão indica a diferença que não quer ser
integrada, constituída por sujeitos que não se conformam às normas pelas quais
deveriam ser definidos, ultrapassando os limites da identidade sexual. A
subversão queer busca desconstruir o processo de normalização, prática que se
95
institui como violência social (LOURO, 2007). Uma concepção dinâmica de
sujeito pode servir para explorar os contextos históricos onde ocorrem a
sexualização das subjetividades e contribui para a crítica à sexualidade como
“dispositivo normalizador”, fundamentada por um impulso ressignificador
(MISKOLCI, 2014). É uma prática de vida que contesta a normalização sexual
e de gênero por sujeitos que se designam desviantes da norma heterossexual. O
queer é aquele que se posiciona fora das normas prescritas, que se coloca à
margem.

Existe a possibilidade de subjetivação como resistência e produção de


diferença. Para a “analítica do poder” de Foucault, no centro das relações de
poder, há uma “insubmissão” que fundamenta a inversão eventual das estratégias
de dominação. Butler oferece elementos para a percepção da multiplicidade das
diferenças e das contingências sócio-históricas da subjetivação. O poder produz
subjetividades através de mecanismos de disciplina que tem efeitos constitutivos
sobre os processos de subjetivação. Por ser uma “performance” e não uma
identidade pré-existente, o gênero pode ser fonte de resistência. Há sempre uma
possibilidade de deslocamento, com potencial de transformação, inerente à
performance do masculino/feminino. Uma concepção dos processos de
subjetivação direcionada para a reelaboração das normas de gênero pressupõe a
desconstrução da diferença sexual binária através de uma ultrapassagem
subversiva das fronteiras normativas. A política queer demonstra de forma
radical a instabilidade das normas de gênero. A subversão do desejo resulta em
novas possibilidades de existência (ARÁN; JÚNIOR, 2007). Lutas contra
formas de subjetivação questionam tudo aquilo que liga o indivíduo à sua própria
identidade de um modo coercitivo. A luta por uma nova subjetividade tem como

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objetivo atacar uma técnica de poder. Temos que promover novas formas de
subjetividade através da análise das formas de resistência. Precisamos recusar o
que somos e construir o que poderíamos ser para nos livrarmos do
constrangimento político que é a individualização própria às estruturas do poder
moderno (FOUCAULT, 1995). Trata-se de fazer uma história da sexualidade
enquanto “experiência” para descobrir como os indivíduos foram levados a se
reconhecer como sujeitos de desejo, estabelecendo consigo uma relação que lhes
96
impõe procurar no desejo, a verdade de seu ser (FOUCAULT, 1988).

Corpos performatizam papéis sexuais a partir da possibilidade de


transgressão e exercício da liberdade de gênero em uma política corporal
performativa (RODRIGUES, 2015). Documentar uma multiplicidade de
diferenças através da historicização da vida cotidiana faz parte da busca de
instrumentos analíticos que dêem conta da experiência feminina em seu devir,
pois propicia a percepção de subjetividades plurais inseridas em momentos de
resistência específicos (DIAS, 1992; 1994). As percepções subjetivas femininas
devem se fundamentar na especificidade das experiências dos corpos através da
categoria “mulheres”, fundamento de uma “subjetividade feminina, múltipla em
si mesma”, “constituída na interseção de diversos níveis de experiência”
(SWAIN, 2002). Trata-se de delimitar as vivências alternativas do prazer e do
erotismo e de saber como uma cultura feminina fundamentada na sedução se
constrói num contexto de relações desiguais marcado pelo escravismo e pela
imposição da religiosidade cristã. Mulheres pobres, principalmente as libertas,
interagiram com homens, induzindo as ações desses que ocupavam um lugar
privilegiado nos relacionamentos de gênero, construindo uma cultura popular na
qual a apropriação feminina das relações sociais patriarcais era fundamental. Nas
Minas do XVIII, a participação feminina possuía um caráter estratégico,
imprescindível para a consolidação de vínculos associativos e para a difusão de
uma moral sexual informal. Assim, é preciso definir múltiplas subjetividades
femininas a partir de possibilidades plurais de sentidos atribuídas às práticas
sexuais ilícitas através das vivências do desejo e da sedução. Para isso, é
necessário demarcar os posicionamentos femininos no domínio específico
formado por relações de poder cristãs e patriarcais, para delinear papéis

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contrários aos padrões oficiais de comportamento que configuram formas


peculiares de luta, pois mulheres pobres, ao se posicionarem como mulheres
sensuais, conseguiram resistir ao inverterem estrategicamente as relações
patriarcais de poder.

É preciso questionar o conceito de identidade a partir da reconstrução


de subjetividades articuladas às experiências de gênero e à multiplicidade das
sexualidades e dos corpos (LOURO, 2004), o que resulta na crítica às
97
tecnologias intrínsecas de poder que vinculam ao sexo a essência da verdade do
ser. Para Michel Foucault, o sexo e a sexualidade enquanto eixos de
representação do “eu” integram uma realidade culturalmente construída por
convenções históricas que constituem a identidade do sujeito a partir da sua
vivência sexual. O “dispositivo da sexualidade” é um mecanismo de poder que
cria a identidade sexual como foco de inserção social e constrói corpos
biológicos enquanto essência identitária das pessoas (SWAIN, 2000).

A crítica a categorias identitárias a-históricas nos permite vislumbrar


múltiplas experiências subjetivas femininas como construções históricas
diferenciadas. Devemos relacionar as identidades de gênero a representações
culturais historicamente específicas (SCOTT, 1991, p. 16) como a imagem da
“mal-procedida”, pois construções representacionais engendram práticas sexuais
alternativas e papéis de resistência, nos levando à análise das significações
culturais e simbólicas. A apreensão de múltiplas subjetividades femininas deve
se pautar na análise dos processos de reelaboração das tradições culturais
disponíveis a partir das quais as mulheres resistiram às relações de força. As
identidades sexuais são subjetividades historicamente definidas, mas em
constante transformação, pois os sujeitos históricos nos processos de
interpretação que dão sentido às relações cotidianas transformam as
determinações culturais. As múltiplas maneiras pelas quais as mulheres
interpretam as significações dominantes transcendem o caráter normativo do
discurso. Recusar-se a tomar como referência estrita as definições dominantes
da diferença entre os sexos possibilita analisar a dinâmica das relações de poder
que tornam possíveis as experiências históricas das mulheres (VARIKAS,

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1994), o que permite incorporar à história experiências singulares e radicalmente


diferentes que escapam aos padrões sexuais normativos.

A perspectiva metodológica adotada, pautada na “analítica do poder”


de Michel Foucault (1985, p. 80), insere as subjetividades femininas no domínio
específico formado por relações de poder cristãs e patriarcais, o que determina
os instrumentos de análise que recortam as estratégias de resistência construídas
a partir dos “tratos ilícitos” e possibilita buscar nos envolvimentos amorosos
98
alternativos um caráter estratégico que desvende o posicionamento das “mal-
procedidas” nas relações de dominação, resultado da inserção específica em
relações de poder. A articulação da experiência social feminina a um código
sexual misógino propicia a visualização da reversão tática de um discurso cristão
que institui a dominação e nos permite delinear as vivências daquelas que
transformaram as relações sociais para resistir às injunções de um contexto
histórico construído com base na exploração sexual. O poder feminino de incitar
o desejo masculino suscitava vantagens inegáveis para aquelas que se submetiam
sexualmente. A interação mais efetiva no universo público e o fato de se
apropriarem mais ativamente das relações de gênero fazem parte das
contradições decorrentes dos ideais de pureza feminina restritos às mulheres
brancas de elite. O posicionamento de negras, mestiças e brancas pobres nas
relações de poder cristãs e patriarcais gerava uma autonomia de movimentos, de
inserção nas uniões conjugais e de participação nas manifestações culturais
jamais vislumbradas pelas mulheres bem posicionadas na sociedade escravista.

Nas Minas, as experiências sexuais femininas subverteram os papéis de


gênero. Por isso, a “sexualidade” enquanto eixo de poder e controle social deve
ser problematizada. As devassas engendravam relações simbólicas que
normatizavam corpos por todo um ritual de produção da verdade sobre o sexo
inscrito em redes de significações sociais específicas. A afirmação da Igreja
como instituição de poder se dava por meio de mecanismos representacionais de
controle da sexualidade e dos costumes como as devassas, que atuaram na
imposição de normas sexuais. Embora seja inegável a importância das devassas
na construção de um universo simbólico impositor de relações patriarcais de

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poder, as visitas diocesanas, com seus julgamentos e punições, não conseguiram


conter o processo de transformação dos valores cristãos pela prática cultural
popular. As percepções subjetivas que as mulheres têm de si são representações
culturais historicamente específicas, o que não exclui a transgressão dos limites
impostos aos gêneros, a transcendência dos significados dominantes atribuídos
à diferença sexual, a contestação das relações de gênero normativas. Nas Minas,
os papéis sociais designados às mulheres pobres pelos valores morais cristãos
99
foram subvertidos pelas vivências dos “tratos ilícitos” e pela incorporação da
imagem imposta da “mal-procedida”, caracterizada pela tendência ao “pecado”.

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105

ST 1B
História e Gênero: Cultura
Memória e Identidades

Coordenação
Profa. Dra. Claudia Andrade Vieira
(UNEB)

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AS “VIRA-LATAS” E O TRABALHO FEMININO NA COMPANHIA


SIDERÚRGICA NACIONAL: GÊNERO E MEMÓRIA

Tânia Bassi Costa*

Introdução

A cidade de Volta Redonda, situada na região Sul Fluminense do estado


do Rio de Janeiro, tem seu histórico associado à Companhia Siderúrgica 106

Nacional (CSN) e ficou conhecida como “Cidade do Aço”, tornando-se um


espaço industrial de trabalho marcadamente masculino. O desconhecimento
acerca de um grupo de mulheres atuando no setor produtivo dá-se entre os
operários e moradores da cidade, o que demostrou a importância do resgate da
história daquelas operárias.

Abordagens sobre a formação do operariado, agitações sindicais, o


processo de privatização e suas consequências foram objetos de vários estudos
sobre a história da empresa, porém a análise a partir da categoria Gênero não
existe nesses estudos, o que manteve, nesse sentido, uma desconsideração das
relações identitárias e de poder como elemento importante para a composição do
mundo operário.

A CSN, quando do início de sua operação, tornou-se um modelo


exemplar de empresa estatal para o país, tanto na sua produção como na
formação de um novo tipo de trabalhador, saudável, capaz e disciplinado. A
imagem da ‘Família Siderúrgica’ sempre presente nos discursos oficiais do
governo, expressava a relação de tutela e os laços da empresa com seus
funcionários, mostrando um caráter paternalista e assistencialista de acordo com
Regina Morel (1989),
Construir a “Família Siderúrgica”, implicou um conjunto de
mecanismos que variavam segundo os objetivos e alvos
visados. De um lado, para ter permanentemente a força de
trabalho saudável e produtiva, a CSN montara, com ajuda dos
médicos enfermeiras, educadores e assistentes sociais, uma
série de estratégias que tinha como alvo a família operária,
especialmente a mulher, a criança e o adolescente. De outro

*
UGB.

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lado, indicando um segundo sentido da expressão, a


Companhia estabeleceu, no espaço interno da fábrica, regras
que formulam proibições e recompensas, a fim de assegurar a
cooperação e o bom comportamento.

As “Vira-latas” da CSN formavam o único grupo de mulheres que


trabalhavam dentro da Usina desde o fim da década de 1940, quando teve início
a produção das folhas de flandres. Assim, a imagem dessas operárias não era
diferente aos olhos masculinos e mesmo aos femininos de funcionárias das áreas 107
administrativas da empresa. O próprio apelido “Vira latas”, surgido em função
do movimento realizado para a análise de marcas ou pequenas perfurações nas
chapas de aço, também expressava um sentido de marginalização e
desqualificação da figura feminina. Margareth Rago (2000) nos mostra em seu
estudo sobre o trabalho feminino e a sexualidade, como era a imagem das
mulheres no fim do século XIX e início do século XX:
Não é a toa que até recentemente, falar das trabalhadoras
urbanas no Brasil significava retratar um mundo de opressão
e exploração demasiada, em que elas apareciam como figuras
vitimizadas e sem nenhuma possibilidade de resistência. Sem
rosto, sem corpo, a operária foi transformada numa figura
passiva, sem expressão política nem contorno social. (p. 579)

Em relação ás operárias, as normas de comportamento dentro da


empresa e o rigor era maior, já que estavam em um ambiente de predomínio
masculino. Deste modo, a postura de submissão, segregação e passividade era
nítida de acordo com os relatos das antigas funcionárias. Essa segregação não
era explicitada na documentação oficial da empresa, como mostra a reportagem
de 1971 do jornal o Lingote:
Chegou a vez de a mulher ser eleita “Operário Padrão”.... Em
categoria própria, por enquanto com títulos regionais, a
trabalhadora em fábricas começa este ano sua projeção por
méritos comprovados, que vão desde a assiduidade até
conduta familiar e comunitária1

1
Jornal “ O Lingote” número 220, Rio de Janeiro, Julho/Agosto. 1971.

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Uma publicação da CSN de 1985 pode exemplificar a exploração da


mão de obra feminina, disfarçada no discurso de dedicação e profissionalismo
dessas mulheres à empresa, sobre uma hora extra feita no “dia das mães”:
Não foi presente de grego. Mas a urgência e do serviço, e
essas colegas dentro de um espírito profissional e de
companheirismo, não se fizeram de rogadas. Deram uma
prova de dedicação mostraram saber que a empresa está
nesse momento a exigir mais eficiência e competência.2

108
Para um caráter comparativo, Andréa Brandão Puppin (2001), em seu
livro de título “Do lugar das mulheres e das mulheres fora de lugar”, analisa as
relações de gênero em uma empresa petrolífera de grande porte, quanto aos
espaços definidos no interior da usina e ao discurso da empresa e destaca que:
No processo de assimilação das mulheres dentro de espaços
de trabalho masculinizados, o que vemos ocorrer é o
afloramento de ambiguidades e o estabelecimento de
discriminações ainda operantes(...) afirmamos a existência de
uma ambiguidade colocada no fato de essa conformação
diferenciada do lugar social de homens e mulheres ser a todo
instante disfarçada, negada, pelo discurso dos agentes
masculinos e pelas políticas declaradas da empresa. (p. 75)

As marcas da divisão sexual do trabalho apresentavam-se no setor de


seleção das folhas de flandres através da forte pressão de tempo, num ritmo de
trabalho imposto pela supervisão dos chefes e das toneladas dos fardos a
classificar. A função, que exige habilidade manual, meticulosidade e acuidade
visual, tendo caráter taylorista3 e sendo de execução simples e repetitiva, foi
reservada às mulheres e comparável às múltiplas atividades da esfera familiar e
doméstica, o que se podemos perceber nos depoimentos das operárias:
[...] eles ( os homens) não sabem manobrar... porque a mulher
tem até elegância. O homem pega o material, até ele virar a
mulher já virou quatro ou cinco folha... eles não tem aquele

2
Jornal “ Nove de Abril”. Número 115, Ano IX, Maio de 1985.
3
A expressão teórica do processo de trabalho parcelado é levada a efeito por Frederick
Taylor (1856-1915) no livro Princípios de Administração Científica, onde estabelece os
parâmetros do método científico de racionalização da produção – daí em diante
conhecido como Taylorismo – e que visa o aumento de produtividade com a economia
de tempo, a supressão de gestos desnecessários e comportamentos supérfluos no interior
do processo produtivo.

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traquejo, aquela elegância... ficam o dia inteiro pra fazer


aquilo. Não dá.4

[...] a mulher enxerga mais rápido que o homem... o olhar


mais rápido que o do homem...porque naquilo que você pega
a chapa pra virar você tinha que olhar daqui, quando ela caia
de cá você já tinha que olhar daqui... você não podia passar
devagarinho e passar... então o homem não conseguia ver
esses dois lados ao mesmo tempo. Pela rapidez eles acharam
que a mulher dava mais certo, como deu.5

109
Apesar da presença das “Vira-latas” desde os anos 40, foram nas
décadas de 1970 e 1980 que se verificou uma maior inserção de mulheres no
mundo do trabalho e assim ganharam maior visibilidade, criando uma
“feminilização” do trabalho industrial, principalmente em setores de operação.

Na década de 1990 o contexto neoliberal foi pouco favorável ao


trabalhador e o ‘peso’ dessa década nos levou a refletir sobre a precarização da
mulher no mercado de trabalho. Como primeiro aspecto, destaca -se a dinâmica
demográfica no país, pois com a diminuição da taxa de natalidade e/ou
fecundidade, a mulher passou a ter mais tempo disponível para se dedicar ao
trabalho. O segundo aspecto está ligado às mudanças nos postos de trabalho,
com o crescimento no setor de serviços e nas atividades secundárias no processo
produtivo, as empresas de grande porte passaram a terceirizar seus serviços, e
são justamente nesses espaços que ocorrem um crescimento da mulher no
mercado de trabalho, porém com salários mais baixos em relação ao homem e o
aumento da exploração.

Levando em consideração as relações Gênero e Trabalho neste fim de


século XX, podemos ainda sinalizar que se mantem os traços de discriminação
e hierarquização entre homens e mulheres, estando estas em situação de vasta
desigualdade. A partir dos anos 2000 verificou-se a crescente subcontratação na
estrutura industrial e a precarização do trabalho impulsionada pela flexibilização
e reestruturação do mundo do trabalho.

4
Sra. A. Depoimento cedido no dia 23 de janeiro de 2006.
5
Sra. R. Depoimento cedido dia 20 de janeiro de 2006

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Gênero e Trabalho: um debate historiográfico

O conceito de Gênero também fruto das discussões tanto políticas


quanto teóricas das últimas décadas, despertou o interesse acadêmico em
compreender a multiplicidade das identidades femininas ao longo da História.

“Mulheres, o que sabemos sobre elas?”, a indagação de Jacques Le Goff


aparente na conclusão da coletânea intitulada História das Mulheres no
Ocidente, junto com Michelle Perrot, legitimou e cristalizou esse campo 110
historiográfico no início da década de 1990. As estudiosas e estudiosos que
escrevem a História da Mulheres, consideram-se envolvidos em um esforço
altamente político de mudar o modo de como a História é escrita, embora ainda
de frágil reconhecimento acadêmico e de estruturas institucionais insuficientes.
É o que nos diz Michelle Perrot (1989) sobre a História das Mulheres:
As mulheres não são passivas nem submissas. A miséria, a
opressão, a dominação, por reais que sejam, não bastam, para
contar sua história. Elas estão sempre presentes aqui e além.
Elas são diferentes. Elas se afirmam por outras palavras,
outros gestos. Na cidade, na própria fábrica, elas tem outras
práticas cotidianas, formas concretas de resistência – à
hierarquia, à disciplina – que derrotam a racionalidade do
poder, enxertadas sobre seu uso próprio do tempo e do espaço.
Elas traçam um caminho que é preciso reencontrar. Uma outra
história. (p. 157)

A aparente restrição e segregação a história das mulheres, no final da


década de 1960, começou a ser minada e para desafiar a viabilidade da categoria
das “mulheres”, os estudos introduziram a “diferença” como um problema a ser
analisado. Era necessário um modo de pensar sobre a diferença e como a sua
construção definiria as relações entre os indivíduos e os grupos sociais.

Joan Scott (1990) destaca que durante a década de 1960, as atividades


feministas reivindicavam uma história que estabelecesse heroínas, prova de
atuação das mulheres e também explicações sobre a opressão e inspiração para
a ação. Entre a metade e o final da década de 1970, a história das mulheres
afastou-se da política, ampliando seu campo de questionamentos, documentando
todos os aspectos da vida das mulheres no passado. Finalmente na década de

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1980, houve um rompimento definitivo com a política e propiciou a história das


mulheres um próprio espaço.

A emergência da História Social, proporcionou um importante veículo


para a História das Mulheres, na qual a categoria ‘mulheres’ assumiu uma
existência como entidade social separada de seu relacionamento conceitual
situado na categoria ‘homens’. A história das mulheres passou menos tempo
documentando a vitimização das mulheres e mais tempo afirmando o papel das
111
mulheres enquanto sujeitos históricos.

A documentação da realidade histórica das mulheres ecoou e contribuiu


para o discurso da identidade coletiva que tornou possível o movimento de
mulheres nos anos 70. O aumento da consciência acarretou a obtenção da
autonomia, de individualidade, e por isso, de emancipação. O movimento das
mulheres pressupôs a existência das mulheres como uma categoria social
definida.

Gênero foi o termo usado para teorizar a questão da diferença sexual e


esta categoria estendida à questão da “diferença dentro da diferença”. A
fragmentação da ideia universal de “mulheres” por raça, etnia, classe e
sexualidade estava associada a diferenças política sérias no interior do
movimento das mulheres. Grande parte da atual história a partir da perspectiva
de gênero está voltada para as preocupações contemporâneas da política
feminista, daí a argumentação relacionado à força e legitimidade do feminismo
como um movimento político. O uso do conceito gênero afirma a não existência
de uma identidade única para o que se chama genericamente mulheres, pois
desse modo, auxilia na compreensão da diversidade das condições femininas ao
longo da história, sobretudo nas relações onde se verifica uma hierarquia entre
homens e mulheres.

A questão das diferenças dentro da diferença trouxe a tona um debate


sobre o modo e a conveniência de se articular o gênero como uma categoria de
análise. Gênero presume uma oposição fixa entre os homens e as mulheres e
identidades (ou papéis) separadas para os sexos, o que operam consistentemente
em todas as esferas da vida social. Presume também uma correlação diretas entre

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as categorias sociais masculina e feminina a as atividades de sujeito dos homens


e das mulheres.

Vale ressaltar que sexo e gênero não são sinônimos, pois a palavra sexo
está ligada as diferenças anatômicas e fisiológicas entre homens e mulheres, e
gênero está ligado as diferenças entre homens e mulheres na sociedade em que
vivem, é exatamente a relação de poder existente um sobre o outro, independente
do sexo. O conceito de Gênero se contrapõe a visão que enfatiza as diferenças
112
biológicas, ou sexuais, entre homens e mulheres que naturalizavam a dominação
masculina e enfatizam as visões sobre o “lugar” determinado para as mulheres.

Joan Scott (2011) analisa gênero como sendo uma “realidade social
baseada no sexo”, ela determina o sistema de gênero como sendo “as relações
entre os sexos opera de acordo com e através das estruturas socioeconômicas
bem como das estruturas de sexo/gênero”.

As operárias objeto dessa pesquisa tiveram seu trabalho associado a


repetição gestual que deu origem a alcunha de “Vira-latas”. O termo acabou
simbolizando o papel e lugar destinado a elas naquele espaço social, bem como
apresentava um significado carregado de preconceito àquelas mulheres por
estarem em um espaço predominantemente masculino. Nesse viés pela análise
de Pierre Bourdieu (1990) a dominação através da divisão sexual se traduz tanto
na estruturação das modalidades de vivencia do espaço social, quanto nas
técnicas do corpo, nas posturas, maneiras, manutenção, o que o autor chama de
habitus, cristalizado no espaço social.

Nas sociedades pré-industriais, as mulheres realizavam diferentes


atividades como: afazeres domésticos, trabalhos no campo, costura, cozinha,
criação dos filhos. Muitas destas atividades não eram remuneradas; portanto não
eram tidas como Trabalho.

Nas sociedades capitalistas, o trabalho representa atividade


desenvolvida pelo homem, sob determinadas formas, para produzir riqueza.
Nesse contexto, as atividades realizadas pelas mulheres, no espaço doméstico,
não eram reconhecidas como formas de trabalho produtivo. Produziu-se uma

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“masculinização” daquilo que a economia reconhecia como trabalho, sendo


aquele realizado pelo homem (pai de família) já que o mesmo era remunerado.

As mulheres nunca foram alheias ao mundo do trabalho. Para suprir as


necessidades domésticas, a mulher pobre precisava trabalhar fora de casa e
arriscava-se a sofrer o pejo de ‘mulher pública’. O trabalho remunerado da
mulher trouxe, no século XIX, uma discussão em relação ao êxito dessas
atividades e a criação dos filhos. Michelle Perrot (1988) em sua obra “Os
113
Excluídos da História” destacou que:
Ela não tem acesso a dinheiro, a não ser pelos serviços miúdos
que sempre se esforça em fazer caber dentro dos interstícios
de tempo que lhe deixa a família: atividades comerciais,
venda em bancas ou cestos, que persiste apesar de todas as
regulamentações, que exigem cada vez mais alvarás e
autorizações – mais ainda, mais horas de faxina para fora,
lavagem de roupas, trabalhos de costura, tomar conta de
crianças, recados e entregas domésticas. (p. 190)

Estudiosos como Duby e Perrrot (1990) denominaram de ‘culto à


domesticidade’, a dedicação à família e aos afazeres da casa e, nesse viés, o
trabalho feminino era considerado informal e fortemente ligado ao espaço
privado, sendo assim as cooperativas de base familiar da indústria de confecção,
o chamado “trabalho de agulha” tinha esse caráter pois função permitia a
conciliação entre o trabalho assalariado e a domesticidade. Nesse sentido,
segundo Eric Hobsbawm (2001):
As indústrias domésticas conseguiram uma certa erosão das
diferenças convencionais entre o trabalho feminino e o
masculino, e acima de tudo uma transformação da estrutura e
da estratégia familiar (...) a maioria das indústrias domésticas
deixou de ser um empreendimento de família e tornou-se
apenas um tipo de trabalho mal pago que as mulheres podiam
fazer em casa, nas águas furtadas ou nos quintais. (pp. 277-
278)

Com o ingresso no universo fabril, deu-se a separação entre produção e


família e o trabalho feminino passou a ser mais expressivo. Com a mulher ‘fora
do lar’, questionou-se a compatibilidade de sua função doméstica com a de ser
mão de obra assalariada na manutenção de sua feminilidade (no caso, sua função
materna). Somava-se a isso a discussão sobre a possível competição com os

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homens por postos de trabalho, o que, segundo acreditavam, poderia tanto


masculinizar as mulheres quanto aumentar a crise de empregabilidade
masculina.

No século XIX, o discurso masculino tendia a apresentar a trabalhadora


como uma figura sem capacidade produtora e sem um reconhecimento social e
econômico. De acordo com Saffiot (1969), esse discurso desejava a supressão
pura e simples do trabalho feminino, invocando o papel de ‘guardiã do lar. O
114
advento do capitalismo representou, para a mulher, uma grande desvantagem,
pois ela passou a ser subvalorizada em suas capacidades. Segundo a visão
masculina, seus atributos estariam ligados, apenas, aos serviços domésticos e à
maternidade e, progressivamente a mulher foi marginalizada em funções
periféricas da produção.

A possibilidade para o trabalho feminino dava-se apenas em curtos


períodos da vida em função do casamento ou do nascimento dos filhos, e
justificava o confinamento das mesmas em postos não-especializados. Daí a
predominância de baixos salários e a ausência de um processo de
comprometimento de especialização profissional. Nesse sentido, as obrigações
domésticas e maternais mantinham-se como prioridades.

Associadas, pelos empregadores, à mão de obra barata, as mulheres


exerciam funções consideradas apropriadas para elas. Ser apropriado ou não para
as mulheres caracterizou a divisão sexual do trabalho, vista como “natural”, já
que atribuição dita feminina, de delicadeza, atenção, agilidade, era considerada
próprias dos afazeres domésticos.

As funções exercidas pelas mulheres lembravam ou se pareciam com o


tipo de atividade que estavam acostumadas a realizar. Muitas funções tidas como
masculinas exigiam força física, justificando a hierarquia dos sexos e, segundo
Saffioti (1969), no modo de produção capitalista, o sexo passou a ser um fator
de inferiorização da mulher e “a ideologia se encarregou de transformar a divisão
sexual do trabalho, em uma divisão ‘natural’ própria da biologia de cada sexo”.

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Com o surgimento das máquinas, a exigência de qualificação para


operá-las tornou-se independente da força física, como sugeriam anúncios de
empregos, enfatizando características inerentes ao sexo, como dedos delicados e
ágeis, paciência e perseverança tidos como atributos femininos. Deste modo,
esses aspectos eram utilizados pelos empregadores e atendiam a sede de
enriquecimento da burguesia, e foram percebidos por Marx (2000) em O Capital
sendo “o trabalho da mulher e da criança foi o primeiro brado da aplicação
115
capitalista na maquinaria” (p.157)

Um outro aspecto da divisão sexual do trabalho refere-se à diferença


salarial. Além das limitações dos postos de trabalhos ‘permitidos’ para as
mulheres na indústria, os rendimentos das operárias, comparados aos dos
homens, mesmo exercendo atividades similares, eram inferiores. Na medida que
a oferta de postos de trabalho para as mulheres é menor, a procura por esses
empregos é grande e a exploração dessa mão de obra se justificava, entre outros,
pela diminuição dos salários. Se os postos de trabalho oferecidos pudessem ser
preenchidos por homens ou mulheres, a contratação das trabalhadoras
significava normalmente economia para os empregadores, já que os salários
pagos poderiam ser menores.

A divisão sexual do trabalho permaneceu, apesar da inovação


tecnológica. Mesmo com a modernização de diversos setores industriais, a
eliminação de tarefas sujas, insalubres, pesadas permitiria uma ampliação da
participação feminina e a diminuição das discriminações nos locais de trabalho,
o que na realidade não aconteceu. Segundo Neves (2000), a relação entre
tecnologia e mão de obra feminina é ideológica, já que a qualificação é um fator
fundamental para o emprego. A qualificação da mulher estaria ligada aos
afazeres domésticos, atividades repetitivas e monótonas, enquanto as tarefas que
exigem maior qualificação estariam destinadas aos homens.

A fábrica era vista como perigosa, ‘antro de perdição’, bordel, lupanar,


enquanto a trabalhadora era vista com vítima indefesa. Essa visão estava
associada, direta ou indiretamente, à vontade de direcionar a mulher à esfera da

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vida privada.6 Existia a ideia de que a mulher que trabalhasse fora de casa
destruiria os laços familiares, pois não teria tempo para vigiar e educar os filhos,
deixaria de ser mãe dedicada, esposa carinhosa, sem falar das solteiras que se
desinteressariam pelo casamento e pela maternidade. Margareth Rago (2000)
acrescentou:
Nesse contexto, com a crescente incorporação das mulheres
ao mercado de trabalho, e à esfera pública em geral, o trabalho
feminino passou a ser amplamente discutido, ao lado de temas
relacionados à sexualidade: adultério, virgindade, casamento 116
e prostituição. Enquanto o mundo do trabalho era
representado pela metáfora do cabaré, o lar era valorizado
como o ninho sagrado que abrigava a ‘rainha do lar’. (p. 588)

O discurso patronal das vantagens do trabalho domiciliar, o qual


possibilitava à mulher estar próxima aos filhos, a casa, foi utilizado de certa
maneira para afastar a presença feminina do ‘perigo’ das fábricas e reforçando a
ideia do lar como lugar da mulher. O trabalho domiciliar dava a mulher uma
certa flexibilidade nos horários para realizar as obrigações domésticas; porém a
exigência do cumprimento dos prazos para as entrega das encomendas nas
fábricas, caracterizava uma exploração discreta desse tipo de força de trabalho,
já que, aparentemente, a capacidade de resistência desse grupo era pequena.
Essas mulheres, porém, não aceitavam com passividade essa dominação como
analisou Izilda Matos (2000):
A primeira vista pode parecer que as mulheres se submetiam
a esse discurso que lhes recusava a competência, a autoridade
e o direito a todos os níveis de emprego, remetendo-as aos
chamados ‘ ofícios femininos’, que elas poderiam realizar
sem remorsos, e sem perder, inclusive, a feminilidade.
Todavia não se poderia apenas esperar dessas mulheres
apenas conformismo e passividade, mas também resistência.
(p. 274)

Entre as décadas de 1950 e 1970, houve um avanço na industrialização


brasileira, e o parque industrial brasileiro passou a contar com a significativa
produção de bens de consumo duráveis, ampliando os setores fabris. Nesse
momento, com a utilização de novas tecnologias na indústria e, por

6
RAGO, Margareth. Do Cabaré ao Lar.: A Utopia da Cidade Disciplinar (1890-
1930)1. Ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

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consequência, a exigência de maior qualificação para realização das atividades,


as oportunidades de emprego para as mulheres diminuíram, já que estas sempre
estiveram na base da hierarquia do sistema fabril. Essa diminuição é percebida
quando comparamos o número de mulheres presentes na indústria têxtil com
outros ramos, nos quais a mão de obra feminina não era facilmente aceita.

As mulheres passaram a integrar o que Bruschini (2000) chama de


‘guetos ocupacionais’, nos quais muitas trabalhadoras se concentraram em um
117
pequeno número de ocupações, geralmente de baixo prestígio e remuneração. É
o caso das empregadas domésticas, professoras primárias, funcionárias de
escritórios, costureiras, balconistas, serventes, enfermeiras.

Na década de 1970, o perfil das mulheres trabalhadoras começou a


mudar diante do novo quadro econômico do país. A necessidade de trabalho para
ampliar a renda familiar não se restringiu apenas às camadas menos favorecidas,
mas a necessidade de ampliação do consumo, levou muitas mulheres da classe
média a buscar postos de trabalho.

Os cuidados com a família e com os afazeres domésticos, que eram


vistos como fatores que impediam a mulher de ingressar no mundo do trabalho,
não aparecem mais como uma barreira. Percebe-se essa alteração no perfil das
trabalhadoras, quando analisamos as idades: até o final dos anos 70, eram jovens,
solteiras e sem filhos. Pesquisas7 indicam uma mudança no perfil das
trabalhadoras nas décadas de 1980 e 1990: mulheres mais velhas, com idade
entre 25 e 44 anos, casadas e com filhos, são maioria no mercado de trabalho.

Segundo Bruschini (2000), diante da concorrência internacional, as


indústrias brasileiras se reestruturaram em relação ao emprego de tecnologias
mais modernas na produção. Passaram, portanto, a empregar menos, o que afetou
diretamente, a mão de obra feminina.

7
Ver: WAJNMAN, Simone. Quantas serão as mulheres: Cenários para a atividade
feminina. In: ROCHA, Maria Isabel Baltar da. Trabalho e Gênero: Mudanças,
permanências e desafios. Campinas: ABEP, NEPO/UNICAMP e
CEDEPLAR/UFMG/São Paulo: Ed.34, 2000. P69

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A situação das mulheres operárias, no Brasil, ao longo da história, foi


bem definida por Elizabeth Silva (2001):
Ser trabalhadora, na realidade brasileira, representa o desafio
de vencer obstáculos de conjunturas políticas e econômicas
que não tiveram como propósito reconhecer as mulheres
como sujeitos economicamente ativos, ora mantendo-as
excluídas do processo produtivo, ora explorando sua força de
trabalho, mas à sombra do homem trabalhador, e sob as
péssimas condições, sem uma substantiva valorização de seu
trabalho. (p. 61)
118

Esta realidade de exploração, exclusão e subordinação também pode ser


verificada em relação ás classificadoras de folhas de flandres da Companhia
Siderúrgica Nacional, como a pesquisa nos mostrou. Com as mudanças na
expansão da industrialização brasileira na primeira metade do século XX, na
Companhia Siderúrgica Nacional, a presença feminina era quase imperceptível,
pois sendo uma indústria pesada, a mão de obra masculina é predominante o de
nos demostra a ‘invisibilidade’ feminina na indústria de base, daí relevância da
pesquisa.

As mulheres, principalmente das camadas sociais menos favorecidas,


sempre contribuíam para a subsistência da família e completavam os
orçamentos, existindo, assim, uma conciliação entre a vida doméstica e as
atividades remuneradas, sendo assim o Mundo do trabalho um espaço também
feminino, apesar de indesejado pelos homens como nos mostra Eric Hobsbawn
(2008):
De fato a situação era frequentemente indesejável e um
número expressivo de mulheres casadas era forçado a
trabalhar por salários ou seu equivalente, embora a grande
proporção o fizesse em casa, isto é fora dos efetivos alcance
dos movimentos operários. (p.135)

As desvantagens sociais que o sexo feminino sempre enfrentou,


permitiu a sociedade capitalista à exploração da sua mais valia, através da
intensificação e extensão da jornada de trabalho e de salários mais baixos em
relação aos dos homens, o que é relativamente interessante para o processo de
acumulação do capital. Ainda para Marx (1996):

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Mr. E., fabricante, informou-me que em seus teares


mecânicos empregava exclusivamente mulheres, dando
preferência às casadas, e sobretudo, às mulheres casadas que
tinham em casa uma família que vivia ou dependia de seu
salário, pois estas eram muito mais ativas e cuidadosas que as
mulheres solteiras, ademais, a necessidade de garantir o
sustento de sua família as obrigava a trabalhar com mais
afinco. (p. 331)

Com o desenvolvimento industrial houve ênfase na transferência da


mulher no espaço doméstico para as fábricas, mas não houve efetiva 119

possibilidade de combinação entre trabalho produtivo e trabalho reprodutivo,


pois as mulheres só poderiam se inserir no mundo do trabalho durante curtos
períodos de suas vidas, pois precisariam conciliar os afazeres domésticos com
os cuidados dos filhos, o que para os capitalistas era visto como “prejuízo”, pois
as obrigações maternais e domésticas eram prioridades.

As “Vira- Latas”

O interesse no resgate da memória deste grupo de operárias da CSN foi,


uma tentativa de preencher mais uma lacuna na historiografia sobre a mulher
operária no Brasil. Contudo, o objetivo maior da pesquisa foi explicitar a
experiência de 'ser mulher' em um ambiente predominantemente masculino
como uma usina siderúrgica, e compará-la à outras análises já realizadas sobre a
mulher operária acrescentando novas abordagens sobre o assunto.

Mas porque um grupo tão pequeno de operárias 'mereceria' essa


atenção? Ao se tratar de um espaço físico e social, como CSN, que desde a sua
criação representou as aspirações de um Estado interventor refletido no controle
de seus funcionários, não apenas no interior da usina, a presença feminina,
embora era quase imperceptível, não poderia ser ignorada assim como suas
experiências enquanto trabalhadoras.

Entendemos que mesmo isoladas, esquecidas, essas mulheres fizeram


parte da história da Usina, e suas experiências não podem ser ignoradas. O
resgate da memória feminina, seja coletiva ou individual, é imprescindível para
se escrever a História, e como diria, Michelle Perrot sobre as mulheres, "Elas

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traçam um caminho que é preciso reencontrar. Uma outra história". (1988, p.


212)

A inserção do trabalho feminino em uma usina siderúrgica, considerada


pesada, nos remete a ideia da inclusão da mulher em um espaço masculino.
Porém, o trabalho realizado por essas operárias reforçou o estereótipo de
docilidade, delicadeza atribuído à mulher, como características inerentes ao
sexo. Ao mesmo tempo que estas mulheres estariam, segundo Andréa Puppin
120
(2001), "fora do lugar' em uma usina de base, foram alocadas em um espaço
exclusivamente feminino, sendo a Sala de Escolha, um 'gueto', quase invisível
dentro da usina.

A presença dessas mulheres era percebida com estranheza pelos


funcionários, e principalmente pela sociedade que não considerava a usina
siderúrgica com um lugar para elas. Ao serem questionadas sobre esse aspecto,
todas as entrevistadas alegaram que a usina era sim um lugar para mulher e
afirmavam seu papel, seu trabalho, sua identidade.

Estavam isoladas, não apenas geograficamente, pois a Sala de Escolha


encontra-se distante das unidades centrais da produção do aço, mas também da
construção da história do operariado da CSN. Desse modo, permaneceram
alheias às muitas transformações pelas quais passaram os operários.

Com gestos repetitivos e infindáveis ao classificar as folhas de flandres,


muitas operárias passaram cerca de trinta anos trabalhando na usina, e todo esse
tempo, para muitas, foi percebido, como se a vida e o trabalho, fossem uma coisa
só. 'Abraçadas' pelo caráter paternalista da CSN, apresentado como zelo à essa
minoria na fábrica, as operárias tinham seu trabalho destacado em publicações
da empresa, visitas. Porém o enfoque não era para elas, e sim para o produto com
o qual trabalhavam. Apesar da delicadeza no manuseio com as folhas, a
exploração do trabalho era uma realidade: toneladas de fardos classificados por
dia. Como aceitar o discurso do trabalho feminino como 'leve'?

Aliada à exploração de sua força de trabalho, as operárias da CSN ainda


sofriam o pejo de 'Vira-latas', alusivo à função que realizavam, mas que por

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muitas vezes apresentou um ar pejorativo, dentro ou fora da fábrica, que as


diminuíam como profissional e como pessoas.

A importância desse resgate histórico, deve-se também, ao progressivo


desaparecimento desse tipo de trabalho. Embora não extinto totalmente
(atualmente hoje existem apenas 10 classificadoras) o trabalho dessas operárias
é ainda importante para a CSN, pois não existem recursos tecnológicos que
substituam a visão e o tato 'treinados' dessas classificadoras.
121
Através da pesquisa, pode-se concluir que as operadoras de qualidade,
“Vira-latas”, desempenham exclusivamente uma função final da produção, que
exige atenção aos detalhes, organização e delicadeza, características atribuídas
às mulheres, pelas funções desempenhadas no lar, segundo o imaginário
masculino, contemplando os estereótipos destinados as mulheres, mantendo-as
em funções periféricas e de pouca qualificação, dessa forma legitimando a
hierarquia de gênero espaço fabril.

Ao analisar a o universo do capitalismo contemporâneo, Antunes


(2011) se dedica a questões chamadas por ele de “metamorfoses’ no mundo do
trabalho como a precarização, flexibilização, crise e em relação á presença
feminina, o autor enfatiza a necessidade de:
Apreender a dimensão da exploração presente nas relações
capital/trabalho e também aquelas opressivas presentes na
relação homem/mulher, de modo que a luta pela constituição
do gênero para si mesmo possibilite também a emancipação
do gênero mulher. (p. 51)

Os dados coletados demonstraram um perfil para mulheres que


ocupavam a função de “Vira-latas” na CSN. São elas, mulheres na faixa de 40
anos, chefes de família, viúvas, negras e pobres. Esse perfil não sofreu alterações
ao longo do tempo e diante do contexto de ‘feminilização’ do mundo do trabalho
que mostra suas marcas de exclusão por classe e etnia.
As operárias em questão não contestavam suas condições de trabalho e
sem a consciência de pertencimento à classe operária, mantiveram -se a margem
das discussões trabalhistas, em função do ‘lugar’ determinado historicamente a
elas, apesar das organizações de mulheres em todo o cenário nacional, das

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agitações sindicais na cidade mesmo no período e mesmo após a privatização da


empresa.
Os ‘novos olhares’ sobre o mundo do trabalho são alimentados
principalmente pela aproximação entra e a história, a antropologia e a sociologia.
As análises de micro-história, sociologia do trabalho, tem apresentado uma nova
interpretação sobre a história operária, considerando uma diversidade, segundo
Mattos (1998), presente nas diferenças entre trabalho formal, informal precário,
122
terceirizado, eventual, diferenças de gênero e devem ser ainda compreendidas
nos marcos da luta de classes.

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Press. N.Y., 1988. Tradução Mariza Corrêa. IFCH Unicamp. Cadernos


Pagu,1994.

ANEXOS

Foto 1. Classificadora de Folha de Flandres / “ Vira –latas”. Arquivo Central da CSN.

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Foto 2. Classificadora de Folha de Flandes. Revista Exame, 2001

125

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CRIANDO HÍBRIDOS: MEMÓRIA, RELIGIOSIDADE E GÊNERO

Nadia Maria Guariza*

Religião, religiosidade e História

Certeau (2006) afirma que há mais de três séculos a história religiosa


foi marcada por duas tendências: uma ligada a correntes espirituais que 126
estudavam a doutrina; e outra ligada às Luzes, que compreendia a Religião como
superstição. Nesta perspectiva, os temas ligados à religiosidade recebiam uma
leitura depreciativa de correntes historiográficas no século XIX, exceção feita a
historiadores românticos como Michelet, que se dedicavam ao estudo desses
fenômenos sociais.

O caráter racionalista de abordar as questões relativas à religiosidade,


segundo Jacqueline Hermann (1997), estava presente desde o Iluminismo,
quando alguns pensadores concebiam a existência de uma religião natural
própria da natureza humana. Na primeira metade do século XIX, a Etnografia
dedicou-se a inventariar costumes e práticas das chamadas sociedades naturais,
privilegiando os aspectos religiosos como um dos fatores determinantes e
explicativos dessas sociedades. A autora afirma que a concepção iluminista de
uma religião natural passou por dificuldades diante da diversidade encontrada
nos estudos etnográficos.

Se a História no século XIX procurou se omitir acerca das discussões


em relação à religião, a Etnografia analisava a religião de outras sociedades,
evitando a incômoda tarefa de tornar religiões próprias como o Catolicismo e o
Protestantismo objeto de estudo. Segundo Certeau (2006), o que torna possível
a relativização dos debates de outrora referentes à Religião é justamente o lugar
que ela ocupa atualmente na sociedade. Desta forma, uma historiografia religiosa
poderia fazer-se objeto de um novo exotismo, semelhante àquele que conduz o
etnólogo aos “selvagens” do interior ou aos feiticeiros franceses.

*
Unicentro

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Por causa desse deslocamento das religiões tradicionais na sociedade


ocidental, a religião tornou-se objeto e tornou-se pensável. O lugar-tempo do
fazer História cria topografias de interesses e a partir disso a Religião se torna
objeto. De qualquer forma, Certeau (2006) observa que a história da religião na
primeira metade do século XX não se beneficiou das discussões historiográficas.

Dominique Julia, em seu texto História religiosa (1998), publicado


originalmente em 1974, propõe alguns temas e abordagens que poderiam ser
127
desenvolvidos pelo historiador. A análise dos que foram eliminados pela
repressão da hierarquia e estudar as atitudes frente à vida e à morte, bem como
empregar parcialmente os métodos da Sociologia para procurar as continuidades
e as rupturas nos fenômenos religiosos e no território da Linguística e da
Semântica, e promover a análise dos discursos proposta por Foucault (1999) para
o discurso religioso.

Michel Lagrée, em seu texto intitulado História religiosa e história


cultural (1998), publicado originalmente em 1997, na coletânea Para uma
história cultural, pretende realizar um inventário da história religiosa
contemporânea, justamente porque a sua aproximação com a história cultural
não é unânime.

O autor aponta as grandes tendências da história da religião na escola


francesa no século XX, após a sua emancipação em relação à história
confessional. As duas tendências comentadas são a quantitativa e a qualitativa.
Nas últimas décadas, segundo Michel Lagrée (1998), com o esgotamento das
duas tendências, a escrita da História voltou-se para a cultura, bem como o
movimento de migrações para a França transformou a constituição religiosa da
população do país.

Neste sentido, verifica-se um deslocamento das temáticas tratadas pela


historiografia; pode-se afirmar que a ênfase poderia predominar sobre a doutrina,
a contabilização de práticas e a abordagem generalizante da história das
mentalidades. Com a virada cultural, a história da religião tornou-se a história
das práticas religiosas, da leitura religiosa, da hagiografia, da história da
laicidade, história das sociabilidades, dos movimentos e a história intelectual.

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Atas do II Encontro Nacional do GT Estudos de Gênero
Rio de Janeiro, 27 e 28 de outubro de 2016.

No Brasil, assistiu-se ao desenvolvimento dessas tendências em relação


aos estudos referentes à religião e religiosidade; os historiadores tenderam a
analisar mais o discurso institucional, enquanto as práticas religiosas, como as
devoções e os ex-votos, foram exploradas de maneira bem interessante pelos
antropólogos. Na Historiografia, recebe destaque o grupo de estudiosos ligados
ao Centro de Estudos de História da Igreja Católica na América Latina
(CEHILA), da Universidade de São Paulo, USP, a partir da década de 1970.
128
Alguns estudos desenvolvidos pelo CEHILA compreendiam que o
Catolicismo no Brasil se desenvolveu desde o período colonial de maneira
dicotômica entre a ortodoxia católica e catolicismo popular. Recentemente, à luz
dos conceitos da Nova História Cultural, sobretudo a ideia de circularidade
cultural, os estudos a respeito de religião e religiosidades passaram por uma
revisão, compreendendo de maneira mais fluída as relações entre as normas e as
práticas religiosas.

É nesse quadro que se inserem os estudos das religiões e das


religiosidades na perspectiva de gênero, além de analisar os discursos
normativos das instituições religiosas em relação ao público feminino, para
compreender as múltiplas apropriações dos discursos e a criação de formas
diversas de expressões e de práticas religiosas. Estas múltiplas apropriações e
práticas religiosas se tornam perceptíveis com a metodologia da história oral.

Memória, religiosidade e gênero: mulheres e suas narrativas no tocante à


participação em movimentos da Igreja Católica nas décadas de 1960 e 1970

Há algum tempo a polêmica em torno da objetividade da fonte oral foi


superada; afinal, todo documento é monumento, segundo Le Goff (1990), ou
seja, todos os documentos possuem intencionalidades. Contudo, deve-se estar
atento à especificidade de cada documento. No caso da fonte oral há uma
interferência direta do historiador em sua construção, porque o rememorar dos
entrevistados segue o fio condutor do roteiro de perguntas elaborado pelo
pesquisador.

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A riqueza da fonte oral reside na possibilidade de o pesquisador poder


analisar os significados subjetivos das experiências dos indivíduos (PORTELLI,
2003, p. 63-74); no caso dos estudos referentes às apropriações e às práticas
religiosas, a fonte oral fornece um material interessante para pensar como os
indivíduos criam a partir dos discursos normativos.

A fonte oral possibilita compreender como as mulheres criam sentido


ao seu passado e como elas constroem a sua memória. Sangster (2003, p. 88)
129
afirma que o rememorar das mulheres é diferente do rememorar do homem; elas
tendem a diminuir a importância de si e de suas atividades na narrativa e
incorporam a família em sua recordação.

A construção da memória também é influenciada pela posição que essas


mulheres ocupam na sociedade. Em minha tese intitulada Incorporação e
(re)criação nas margens: trajetórias femininas no catolicismo nas décadas de
1960 e 1970, foram entrevistadas mulheres que participaram e/ou ainda
participam de movimentos e de associações que possuem ligação com a Igreja
Católica na cidade de Curitiba (PR).

O perfil das entrevistadas é o mais variável possível nas associações


que foram criadas antes do Concílio Vaticano II (1962-1965), e que seguem o
modelo de um Catolicismo moralizante e caritativo. Encontramos mulheres de
classe média e alta que moram em bairros com maior infraestrutura, enquanto as
mulheres que participaram ou ainda participam das Comunidades Eclesiais de
Base (CEBs) moram na periferia da cidade, em situações precárias, e cenas
cotidianas permeadas pela violência e pelo trabalho.

As associações escolhidas para realizar as entrevistadas foram a


Arquiconfraria das Mães Cristãs, fundada na cidade em 1910, com as mães das
alunas do Colégio Nossa Senhora de Sion, reconhecido como um espaço de
formação para moças de famílias abastadas da cidade. E a Associação e Oficinas
de Caridade Santa Rita, fundada em Curitiba, em 1958, nas dependências da casa
de sua primeira presidente, Edith de França Alves, que morava no centro da
cidade e pertencia a uma família bastante reconhecida por sua proeminência na
história da cidade.

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Por outro lado, as mulheres que participaram ou participam das CEBs


migraram de outras partes do país, geralmente de áreas rurais, na década de 1960,
devido às dificuldades de inserção no mercado de trabalho com o processo de
mecanização da agricultura nesse período. Migram para Curitiba com a intenção
de procurar alternativas de sobrevivência que não encontram mais no campo.
Elas foram morar em regiões ainda pouco habitadas na década de 1960 na
cidade, como a Vila São Pedro; assim, não havia infraestrutura, como
130
saneamento básico, energia elétrica, etc.

As mulheres que participavam das associações partiam da ideia da


caridade; elas poderiam trabalhar fora de casa, contudo, não para sobreviver, e
dedicavam parte do seu tempo para as reuniões da associação e para o trabalho
caritativo, fazendo elas mesmas o que seria doado, como roupas de tricô para
recém-nascido, ou angariando doações. Mas o público que deveria ser atendido
ocupava justamente o lugar oposto delas, ou seja, eram os pobres.

Para essas mulheres, o pobre é o outro que precisa de sua ajuda,


enquanto que para as mulheres das CEBs aquele que precisa não era o outro, era
o vizinho que estava doente ou passando por dificuldades. Elas também
acreditavam que estavam doando o seu tempo pela comunidade. As reuniões
com a Prefeitura para reivindicar melhores condições para o bairro e a
organização de uma rifa para comprar a casa para as reuniões da comunidade
eram missões importantes.

É interessante observar que, apesar de possuírem perfis tão diferentes,


essas mulheres apresentam pontos em comum, como a compreensão da caridade
e da doação ao próximo ou para aquele que precisa. A caridade para elas é um
bem da salvação; a percepção delas está muito fortemente ligada ao caritas
católico. A partir do século XIX, a palavra caritas adquiriu a conotação da luta
contra a luxúria e o egoísmo; na encíclica Caritas, Leão XIII afirmava que o
caritas deveria estar na família, no clero e nas instituições. O pontífice lembrava
a importância da ajuda mútua motivada pelo santo amor para amenizar o
sofrimento dos pobres e informar o povo corretamente (GUARIZA, 2013, p. 1).

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Isso é mais visível nas associações anteriores ao Concílio Vaticano II.


A concepção quase que paternalista de atender aos pobres para atenuar os
malefícios do liberalismo e do socialismo, era uma ação embasada na Doutrina
Social da Igreja. Nas CEBs, que são movimentos organizados após o Vaticano
II, ainda se acredita na importância da ajuda mútua, contudo, não se pensa os
pobres como meros destinatários da bondade dos ricos, mas como agentes de sua
própria libertação, influenciados pela Teologia da Libertação.
131
Entretanto, não podemos nos prender aos objetivos da Igreja Católica
com estas associações e movimentos, porque as entrevistas demonstram como
as mulheres criaram outros significados a partir de suas intencionalidades.
Comparando os manuais das associações fundadas na primeira metade do século
XX verifica-se que eles enfatizam mais a moral do que a caridade, contudo, nas
atas e nas entrevistas das mulheres que participaram da Associação e Oficinas
de Caridade Santa Rita é notável que elas concedessem maior importância à
caridade do que aos aspectos morais. Elas adaptaram a fita da associação,
uniformizando-a para todas as associadas, independente do seu estado civil e
conviviam muito bem com mulheres divorciadas ou espíritas que integravam a
associação. A respeito do uso da fita, a entrevistada comentou:
Outra coisa que nós modificamos. Em São Paulo é assim, as
senhoras viúvas usam a fita roxa e medalha da santa, as
solteiras usam uma fita branca com medalha e as casas fita
vermelha. Nós padronizamos em Curitiba, porque nós
achamos, às vezes uma pessoa está solteira e já está com 50
anos, então ela ficar com a fitinha branca, ela vai ficar
constrangida. E a outra que muda da fita vermelha pra roxa
quando ficou viúva é uma coisa que maltrata. Nós achamos
melhor padronizar a fita, fita vermelha pra criança, pra velho,
pra quem for. (LACERDA, 2008)

Em outro ponto da entrevista ela afirmou que não importava a


orientação da Igreja, se é de Puebla ou não, o que importa é que seja uma igreja
voltada aos pobres. As entrevistadas da Arquiconfraria das Mães Cristãs
demonstravam maior preocupação com a questão moral e o respeito ao
Catolicismo. Isso se manifestava na crítica aos netos que se converteram a
religiões neopentecostais ou as filhas que se separaram porque não se submetem
à autoridade do marido, como se pode constatar na citação a seguir.

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E depois tivemos que aceitar na própria carne, porque as


minhas duas filhas são divorciadas (....) Então a gente vai (?)
a independência da mulher né. Mesmo você sentindo
intimamente a convivência com o casal que não se dá bem,
né, antigamente o primeiro sentido era fazer com que aquele
casal se reconstituí e etc etc. e hoje em dia não, eles apelam
pro divórcio com a maior facilidade né. O conceito já é bem
outro (RIBEIRO, 2007).

Mesmo em associações cujo parâmetro é um Catolicismo da


neocristandade, baseado na Doutrina Social da Igreja, no rigor moral e no 132

combate às outras religiões, é visível que as mulheres não recebem passivamente


as orientações da Igreja, criando apropriações a partir de outras experiências.

Enquanto que as mulheres que participavam das CEBs, um movimento


criado a partir da ideia da Igreja do povo, ou seja, devia-se apostar no
protagonismo da população pobre para compreender a sua situação e modificá-
la, não há manual, os religiosos iam até a comunidade e conversavam,
conheciam, criavam estratégias e agiam, orientando os seus trabalhos pastorais
a partir das diretrizes dos padres belgas, “ver, julgar e agir” e na Teologia da
Libertação. Não há manual que frise os aspectos morais a serem seguidos, a
comunidade era ouvida e a partir de suas necessidades os personagens bíblicos
eram ressignificados.

Novamente o que se observa é a complexidade da apropriação das


mulheres nas CEBs; elas tinham grupos de discussão bíblica, e quando indagadas
acerca deles, lembram espontaneamente de representações masculinas como
líderes de seu povo para a libertação, como Abraão, Moisés, Jesus, enquanto as
representações femininas pouco são mencionadas. Quando perguntado a respeito
de Nossa Senhora, elas remetem à tradicional representação de Maria como
corredentora e intermediária nas relações entre os seus filhos espirituais e seu
filho, Jesus. Como é perceptível na citação da narrativa de Irene
[...] Maria é a intercessora nossa; porque milagre mesmo é
Jesus que faz, só que ela é intercessora como mãe, vai lá pro
pai e diz; Ah, faça isso, o teu filho tá querendo, vai, vai, né
(tom de suplica); então a gente vê Maria assim, como
intercessora; se eu quero conversa direto com Jesus nada
impede, porque Deus é o nosso pai, né, mas se eu tenho aquela
devoção por Maria, eu pedi pra Maria me ajuda com uma

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família que tá entrando por um caminho errado, pedi a ajuda


de Maria: Me ajuda você que também foi mãe, me ajuda; a
gente sempre pede, a gente vê Maria como intercessora; e ama
demais. (COSTA, 2008)

Portanto, essas mulheres na ausência de um discurso referente às


lideranças femininas na Teologia da Libertação1 criaram híbridos entre a
mariologia tradicional e a Teologia da Libertação. Neste sentido, foram
provocadas por parte das entrevistadas situações interessantes, desde mulheres 133
que ainda mencionam Maria a partir da mariologia tradicional, justamente por
terem tido contato em suas comunidades rurais de origem, quanto outras
mulheres que, posteriormente, na década de 1980, participaram de formações.
Nesse período, as mulheres que participaram das pastorais e das CEBs
começaram a questionar o próprio papel das mulheres na sociedade. É o caso de
Lontina, que compreende que as mulheres podem ser exemplo de liderança e de
luta para os homens.
[...] porque você pode vê, se você observar bem, muitos
homens se espelham nas mulheres, né, eles muitas vezes te
admiram, as vezes te criticam, porque as vezes você faz bem,
você faz melhor que eles, né; o meu mesmo, ele fala, porque
eu chego todo mundo me conhece, todo mundo cumprimenta,
todo mundo dá beijinho, né, ele não, ele é mais fechado, então
o problema é dele, eu tenho essa visão pode se espelha em
mim... (LICHEWITZ, 2008)

Portanto, há uma distância entre o discurso normativo e teológico e as


apropriações e as práticas religiosas dessas mulheres. As entrevistas apontaram
para várias formas de consumo das normas e das propostas católicas. De acordo
com Certeau (1998), o consumidor cultural não é tão disciplinado, ele inclusive
cria novas formas de consumir os produtos culturais. Para o autor, os
consumidores seriam produtores desconhecidos de trilhas ilegíveis (CERTEAU,
1998, p.45); eles produzem, contudo, deixam poucos indícios. A fonte oral pode
fornecer mais pistas acerca da produção dos híbridos culturais dos consumidores
religiosos.

1
Vários estudos apontam ser essencialmente cristológico e que repudiou a mariologia
tradicional. AQUINO, 1997, COYLE, 1999, COUTO, 2002.

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A compreensão das mulheres referente aos papéis de mulheres e de homens

É interessante observar que há uma grande diferença entre os papéis de


mulheres e de homens nas associações e nos movimentos. Nas associações
anteriores ao Concílio Vaticano II, as associações se organizavam por idade,
estado civil e gênero, havendo grande distinção nos papéis dos associados. As
crianças, da primeira comunhão até a puberdade, poderiam participar da Cruzada 134
Eucarística, que pretendia incutir a frequência à missa e a comunhão. Depois, na
adolescência, os jovens eram divididos por gênero; as moças geralmente
ingressavam na União Pia das Filhas de Maria e os rapazes nas Congregações
Marianas. Cada qual ressaltava características que se esperava socialmente; as
moças sofriam uma vigilância maior em relação ao comportamento moral e
sexual.

Um indício disso é que depois de casadas as moças deveriam sair da


União Pia das Filhas de Maria, enquanto os rapazes poderiam permanecer na
Congregação Mariana. Como observamos, existiam associações, como as
Associação e Oficina de Caridade Santa Rita, que recebiam mulheres solteiras,
casadas e viúvas, mas as fitas demonstravam a que estado civil pertenciam e o
comportamento esperado para cada caso.

Neste sentido, devido a essa separação das associações por gênero, as


entrevistadas da Arquiconfraria das Mães Cristãs e da Associação e Oficina de
Caridade Santa Rita quando mencionam os homens se referem mais aos seus
maridos e aos seus filhos e não a companheiros associados. De maneira geral, as
entrevistadas demonstram que se dedicaram ao casamento e aos filhos, inclusive
abandonando o emprego quando descobriam que estavam grávidas, afinal elas
“não iriam jogar os seus filhos em creches” (FREITAS, 2005).

Os filhos eram a demonstração do seu êxito como mulheres; quando


eles não agiam de acordo com os parâmetros morais com que foram educados,
o que restava era lamentar, como o caso das filhas que se separaram e os netos
que saíram do Catolicismo. Lembrando que estas associações ressaltavam a

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responsabilidade das mães em educar catolicamente os filhos e dentro dos


quadros da moral cristã, por isso esses comportamentos demonstravam uma
falha em sua missão materna.

Por outro lado, as mulheres que participaram das CEBs vivenciaram


uma participação em movimentos que não distinguiam os integrantes, todos
eram convidados a participar, mulheres, homens, crianças, adolescentes. Nas
primeiras reuniões das CEBs na Vila São Pedro, em 1968, o padre convidou os
135
casais para participar e no início todos participavam. Contudo, à medida que a
Vila foi se modificando, criando novos espaços de sociabilidade, como clube
poliesportivo e bares, os homens começaram a participar menos nas CEBs,
permanecendo apenas as mulheres. Esse processo foi indicado pelas
entrevistadas como Ezilda, que observou:
[...] sempre tinha mais mulheres, porque os homens ... não têm
aquele pique, eu acho, ... e outros, sei lá, não se interessa, acha
mais cômodo chega do trabalho, já cansado, e as mulheres
participam e ainda vão na reunião, trabalham e vão na reunião,
e os homens já gostam mais de bar e outro, aí já tira o pique,
né. Aí as mulher continua lutando.... (HOFFMANN, 2008)

Lontina narra como se desenvolveu esse processo de diminuição de


homens e do aumento das mulheres nas CEBs e as conquistas delas que
permaneceram.
[...] Era toda semana, toda semana, depois a mulherada foi se
destacando mais, e os homens começaram a ficar pra trás,
foram parando né, então as mulherada, porque agora a maior
parte é mulher que tá trabalhando nas atividades, homem não
tem muito, não ... O padre que arrumou aquelas missionárias,
elas que vieram pra cá, eram 10 mulheres, e daí elas
começaram a fazer um movimento com as mulherada, que
tinha que ter saúde, tinha que ter escola, que tinha que ter isso
e ter aquilo, aí que começaram a organizar o posto de saúde,
tem até hoje, acho em 78 por aí; daí começou a cresce um
pouquinho, né; dando espaço, aí forno adquirindo, luz, rua,
não tinha luz, não tinha rua, era só campo, não tinha nada,
nada; daí comecemo a exigir da prefeitura, daí veio a luz, daí
veio s ruas, aí se começou a organizar; foi se organizando os
bairros, foi crescendo, e daí foi exigido a água e o esgoto; deu
muita briga, mas conseguimo, né (LICHEWITZ, 2008)

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Lourdes (COSTA, 2008), que era a entrevistada mais idosa, com oitenta
anos, comparava a questão dos trabalhos nas CEBs com a doação do tempo;
algumas mulheres não podiam doar o seu tempo, porque tinham muita coisa para
fazer, acumulando o trabalho fora de casa com as atividades da casa e da família.
Irene (COSTA, 2008) comentou que ser mulher era uma matemática difícil, a
mulher é cobrada se algo der errado em casa ou na família, sobretudo se
permanece muito tempo em atividades fora da casa. Nota-se que essas mulheres
136
tinham que trabalhar fora para manter o orçamento familiar, mesmo assim, eram
cobradas pelas obrigações de esposa e de mãe. Também, segundo Lourdes, havia
as mulheres que poderiam doar o seu tempo, mas não queriam, fazendo alusão à
geração mais nova que não se compromete com a comunidade e a Religião.
Porque a mulher que ajuda, é pessoas que podem doar o
serviço, que tem algumas que nem no domingo pode doar o
serviço, né, aquelas que não podem doar, algumas não
querem, porque têm algumas que não têm experiência de
religião, aqueles que não têm experiência de religião, eles não
acertam faze nada, então a gente que faz tempo que trabalha
na comunidade, a gente tem mais experiência, né. (COSTA,
2008)

Prosseguindo, Lourdes observa que o número de homens é menor


porque eles não têm tempo para doar, eles são o provedor do lar. Ou seja, mesmo
nas famílias em que as mulheres muitas vezes desempenharam o papel de
provedoras, como foi o caso de Lourdes, que, quando se mudou para Curitiba, o
marido não conseguiu emprego e ela ficou trabalhando da faxineira até adoecer
e não pôde mais trabalhar com produtos de limpeza. Ou sua filha Irene, que
começou a trabalhar bem jovem para ajudar o orçamento da família e continua a
trabalhar como costureira e ainda coordena a panificadora comunitária da CEB.
Mesmo assim, Lourdes (COSTA, 2008) acredita que o tempo do homem tem um
valor superior em comparação ao da mulher, que pode doar o tempo. Irene
(COSTA, 2008) observa que a mulher pode faltar ao trabalho para cuidar dos
filhos doentes, os homens não.

Como Bourdieu (1999) afirma, as atividades realizadas pelos homens


em nossa sociedade são valorizadas, enquanto as atividades associadas às
mulheres são menos valorizadas tanto simbolicamente quanto em remuneração.

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Contudo, há um preço a pagar pela posição de superioridade, o homem não pode


demonstrar fraqueza e nem fracassar. Lourdes (COSTA, 2008) indicou isso
quando comentou que seu marido não gostava de participar das reuniões nas
CEBs, porque não queria admitir publicamente que não sabia ler; por outro lado,
as mulheres podem arriscar mais, porque justamente não se espera muito delas.

Portanto, a dicotomia entre o masculino e o feminino permeia as


relações nas associações e nas CEBs. De acordo com Bourdieu (1999), a
137
Religião é um dos meios em que há a reprodução das relações hierárquicas entre
os gêneros. Poderíamos pensar que mesmo com as apropriações e as práticas
criadas a partir das normas, existem outras normas que estão para além da
própria religião, que orientam as relações entre homens e mulheres nesses
movimentos.

Considerações finais

A historiografia atual referente às religiosidades enfatiza a diversidade


e a circularidade cultural, o que promove o desenvolvimento de estudos que
analisam as formas criativas com que os indivíduos consomem os bens
religiosos. Davis (1997), ao estudar mulheres do século XVII, observa que as
margens que essas mulheres ocuparam permitem que elas possam construir
novas experiências diferentes dos cânones de sua época.

As mulheres na Igreja Católica, não obstante terem grande importância


numérica e de participação, não ocupam os lugares centrais na instituição. As
religiosas não são ordenadas, sendo assim, mesmo participando do espaço do
sagrado, elas não podem realizar o momento mais importante do ritual da missa,
que é a consagração da hóstia. No caso das leigas, elas estariam submetidas a
uma dupla hierarquia, por não serem agentes do sagrado e por serem mulheres.

Contudo, esse espaço destinado às mulheres na Igreja Católica não


impediu que elas criassem formas diversas de participação, muitas vezes indo
além do permitido. Neste sentido, a oralidade nos permite conhecer essas
histórias de reapropriação e de hibridações experimentadas por elas.

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138
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Nadia Maria Guariza, Curitiba, 18 dez. 2008.

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THOMSON, Alistair. The oral history reader. New York: Routtedge, 2003.

RIBEIRO, Maria Helena Lessa. Associada da Arquiconfraria das Mães Cristãs.


Entrevista concedida à Nadia Maria Guariza, Curitiba, 26 set. 2007.

SANGER, Joan. Telling our stories: feminist debates and the use oral history.
In: PERKS, Robert; THOMSON, Alistair. The oral history reader. New York:
Routtedge, 2003.

ISBN: 978-85-65957-07-6
Rio de Janeiro
Ed. Anpuh-Rio
Atas do II Encontro Nacional do GT Estudos de Gênero
Rio de Janeiro, 27 e 28 de outubro de 2016.

“DEMOCRACIA EN EL PAÍS Y EN LA CASA”: IDENTIDADE E


POLÍTICA NOS PERIÓDICOS FEMINISTAS CHILENOS NA
DÉCADA DE 1980

Júlia Glaciela da Silva Oliveira*

Em 1983, tiveram início as jornadas de protesto convocadas pelo


140
Comando dos trabalhadores do Cobre (CTC), responsável pelas primeiras
articulações de greves e protestos que eclodiram na década. Esta ação, a
princípio limitada, teve um efeito catalizador, fazendo com que outros setores da
sociedade civil aderissem de forma espontânea às jornadas. Em datas específicas
a população tomou as ruas e bairros com manifestações e barricadas que exigiam
melhores condições de vida e o retorno à via democrática. Foi neste contexto
que o movimento feminismo chileno reemergiu na cena pública em julho de
1983, ainda sob o signo do regime civil-militar1. As manifestações se
fortaleceram devido ao agravamento da crise econômica e social decorrente do
fracasso das medidas neoliberais implantadas pelo regime civil-militar. De
acordo com Susan Franceschet (2002), devido ao desemprego masculino, muitas
famílias se separaram e as mulheres assumiram a chefia da casa e, entre os anos
de 1982 e 1983, ápice da crise, 75% das mulheres estavam inseridas em ações
governamentais, como o Programa de Empleo Minino (MEP)2, que pagava de

*
USP.
1
Cabe ressaltarmos que o Chile apresentou uma particularidade. Com as fraudes
ocorridas no plebiscito de 1980, a nova Constituição conferiu legitimidade ao regime
vigente para continuar no poder, além de inserir no texto medidas que possibilitariam
decretar estado de emergência e estado de sítio, como ocorreu em 1986. A nova
Constituição também definiu o itinerário da abertura tutelada, com as regras e os prazos
para a sua conclusão. De acordo com o texto, Pinochet ficaria à frente do governo por
um período de oito anos e, após este período, a autoridade militar indicariam um
substituto, que seria submetido a plebiscito para a sucessão. Se aprovado, um novo
período de 8 anos se iniciaria do qual, ao final, se convocariam novas eleições livre.
Caso houvesse reprovação, novas eleições deveriam ser convocadas no prazo de um
ano. (MARTINS, 2000)
2
De acordo com a autora, o Programa Empleo Minino funcionou entre os anos de 1974
a 1978, atendendo de 2 a 6% da população economicamente ativa. Entre os anos de
1980 a 1984, o desemprego feminino praticamente dobrou, indo de 10.7% a 19%,
enquanto o masculino foi de 12.1% para 15,9%.

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40% a 60% do salário pelas atividades prestadas, no intuito de minimizar os


efeitos das crises, levando, ainda, à feminização da pobreza. Logo, o movimento
feminista que surge com a insígnia “Democracia en el país y en la casa”, exigia
não apenas o retorno à democracia, mas também uma redefinição da própria
noção de democracia a partir das assimetrias de gênero que incidiam no
cotidiano das mulheres, sobretudo na esfera doméstica e familiar.

No entanto, apesar de a visibilidade pública ocorrer neste período, a


141
retomada das discussões sobre a mulher, bem como próprio feminismo datam do
final dos anos de 1970, paradoxalmente, em um dos momentos de maior
repressão. Cabe ressalvarmos algumas particularidades da reorganização do
feminismo, como dos demais movimentos sociais e das produções intelectuais
de oposição no Chile. A reestruturação dos movimentos sociais ocorreu ao lado
da entrada das primeiras Organizações Não Governamentais (ONGs), que
chegaram ao país ainda na década de 1970. De acordo com Margarita Iglesias
(2010), as ONGs serviram como estratégia de trabalho para muitos profissionais
das classes médias e ainda como forma de organização social para grupos
intelectuais e antiditatoriais que se debruçaram em compreender a realidade
política chilena, sendo amparados por fundos de cooperação internacional. Para
a autora, foi neste contexto que os movimentos feministas retomaram a
militância política ligada, sobretudo, ao combate à ditadura e na defesa dos
Direitos Humanos.

Mario Durán (2010) avalia que a entrada das ONGs no país seguiu duas
direções, sendo a primeira constituída pela formação dos centros acadêmicos, a
exemplo dos “Círculos de Estudio de la Academia de Humanismo Cristiano”
que, posteriormente, se estendeu para Facultad Latinoamericana de Ciencias
Sociales (FLASCO); e a outra formada por instituições de apoio aos
movimentos populares, como SEDEJ (Servicio de Desarrollo Juvenil), SEPADE
(Servicio Evangélico para el Desarrollo) y también ECO (Educación y
Comunicaciones).

O feminismo está interligado com a primeira direção. Entre 1979 e


1983, a Academia de Humanismo Cristiano abrigou o Círculo de Estudios de la

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Mujer, composto por pesquisadoras das ciências sociais e militantes da ASUMA


(Asociación para la Unidad de las Mujeres). A Academia de Humanismo foi
fundada em 1975, por iniciativa da Igreja Católica, com o propósito de servir de
espaço para que grupos de intelectuais, desalojados das Universidades,
pudessem refletir sobre a situação política, econômica e social do país. O Círculo
de Estudios de la Mujer teve o apoio financeiro e físico da entidade por quatro
anos, promovendo oficinas, grupos de conscientização, seminários e debates em
142
torno das questões de gênero, além da publicação de um boletim homônimo
(RIOS; GODOY; GERRERO,2003).

Entretanto, com a retirada do apoio da Academia de Humanismo


Cristiano, em 1983, o Círculo de Estudios de la Mujer acabou se dividindo,
dando origem a novas instituições. De um lado formou-se o Centro de Estudios
de la Mujer (CEM), com um caráter mais acadêmico; e, de outro, a Casa de la
Mujer “La Morada”, em formato de ONG, cujo objetivo era exercer uma
militância, a partir de uma perspectiva de gênero. A ONG editou o boletim
homônimo, entre os anos de 1986 a 1987, sem uma periodicidade regular.

Ainda neste mesmo ano, foi retomado o Movimiento de Emancipación


de la Mujer Chilena, baixo a sigla MEMCH “83”. Esta organização foi criada
em 1935 e teve um papel importante na conquista do sufrágio feminino, além de
fazer importantes discussões sobre o papel social da mulher, organizando
tertúlias, e publicando o jornal La Mujer Nueva entre os anos de 1935 a 1941
(KIRKWOOD, 1986). A retomada do movimento contou com a participação de
duas de suas fundadoras iniciais, Elena Caffarena e Olga Poblete e tinha como
propósito construir uma militância autônoma e ligada aos movimentos
populares. Assim, o MEMCH”83” foi constituído por diferentes entidades como
o Movimento Feminista, MUDECHI (Mujeres de Chile), MOMUPO
(Movimiento de Mujeres Pobladoras) e Agrupación de Familiares de los
Detenidos Desaparecidos (AFDD), além de militantes do Partido Comunista e
líderes sindicais. A partir de junho de 1984, passou a editar o Boletina Chilena,
totalizando quatorze números até o ano de 1987. No entanto, para
compreendermos a insígnia “Democracia en el país y en la casa” que marcou a

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retomada do feminismo chileno à cena pública, precisamos retomar às


discussões realizadas anteriormente, especialmente, pela Federación de Mujeres
Socialista que, entre os anos de 1980 a 1984, publicou a revista feminista Furia.

A crise instaurada nas esquerdas, desde o golpe de 1973, levou à divisão


do Partido Socialista Chileno (PS). De acordo com Walker (1988), essa ruptura
foi marcada pelas tensões em torno do projeto político anterior e da renovação
das esquerdas marcada, sobretudo, pela revalorização da democracia,
143
culminando no projeto de “nuevo socialismo democrático”. Protagonizada por
Carlos Altamirano, esta ala do partido tomou como referência o pensamento
intelectual da nova esquerda europeia e as reflexões gramscinianas sobre a
democracia e foi composta por distintas organizações de esquerda, como o
MAPU (Movimiento de Acción Popular Unitaria) e o MAPU- Obrero
Campesino, além de intelectuais da esquerda. Posterioremnte, em 1984, essa
formação deu ensejo à Alianza Democrática, atuante como força de oposição ao
regime militar. Entre estes grupos figurava a Federación de Mujeres Socialista
que, apesar de aderir às concepções do “nuevo socialismo”, rompe com a
militância institucional partidária e passa a defender a autonomia do movimento.

A revista Furia circulou, de forma irregular, durante quatro anos,


totalizando seis números. Seus editoriais, textos analíticos e entrevistas eram
assinados por Adela H, Beatrice ou Julia, pseudônimos de militantes como o da
socióloga e militante Julieta Kirkwood. O periódico propunha refletir sobre a
condição feminina frente ao regime ditatorial, no qual as desigualdades e
discriminações tradicionalmente enfrentadas pelas mulheres se acirraram. Suas
publicações questionavam a origem da opressão feminina interlaçando as
questões de gênero a outros marcadores sociais, a exemplo das assimetrias de
classe e etnia. Também teceu, em todos os números, uma crítica mordaz à
relação da esquerda com o feminismo, como foi exposto em seu quinto editorial,
[…] ‘No hay feminismo sin democracia’ frase que encierra
otra manera de reafirmar la secuencia: ‘lucha contra la
dictadura y por la democracia, primero. El problema de la
mujer, después’. Que esta lógica tan precisa y justa del
‘después no se da exactamente así en la realidad, es un
sentimiento muy vivido para los grupos feministas de aquí y
de allá. (…) En la mirada al Después, nos encontramos en un

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punto en que no cabe duda razonable de que ni la democracia,


menos el socialismo, se construirán – no pueden ser
construidos – si mantenemos en reserva y diferido el
‘problema de la mujer’ (n.5, jul., 1983, p.2).

Nas páginas do periódico a crítica ao autoritarismo não como algo


relativo apenas ao Estado, mas inerente à sociedade chilena, foi um dos pontos
centrais de discussão. Esse autoritarismo estava imbricado nas instituições
sociais, como o Estado, Igreja e na família, local por excelência da reprodução e 144
interiorização dos papéis de gênero e, logo, das discriminações e opressões que
incidem sobre a mulher. Portanto, enfrentar o autoritarismo imerso nestas
relações era extremamente necessário ao projeto político democrático. Sendo
assim, dentro da perspectiva do periódico, não bastava findar o regime ditatorial
vigente ou resolver as questões econômicas, em uma recusa às prerrogativas
clássicas do marxismo; era preciso reexaminar as diversas instituições e
organizações que sustentam a ideologia patriarcal e autoritária.
[…] El autoritarismo y la discriminación constituyen una
realidad que va a más allá de las estructuras económicas y
políticas. El autoritarismo se da en la estructura familiar, en
cómo formamos a los niños, en las relaciones interpersonales,
en las organizaciones sociales y en los partidos políticos.
Transformar de manera real y profunda nuestra sociedad sólo
es posible si enfrentamos las expresiones de desigualdad y
dominación en todos los niveles. Esto no se desprende
automáticamente de la modificación de las estructuras
económicas (n.6, nov., 1984, p.31).

Tal análise acompanha as discussões estruturalistas a respeito da


interiorização da cultural dominante por meio do conceito de ideologia 3. Neste
aspecto, as feministas não mais localizavam, exclusivamente, na econômica as
explicações para as assimetrias sociais, enfatizando os sistemas de representação
que assegurariam, por meio de instituições civis e do Estado, os valores
ideológicos dominantes. Nesta análise, a psicologia ocupa um papel relevante,
uma vez que os indivíduos não internalizam essa ideologia de forma consciente.
Nesta chave interpretativa, Juliet Mitchell (2006) advoga que a mulher, assim

3
A respeito do conceito de ideologia ver: MOTA, L.;SERRA,C. A ideologia em
Althusser e Lacan: diálogos (im)pertinentes. Revista de Sociologia Politica. Vol.22, nº
50, abril/junho, 2014.

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como a família, “aparece como um objeto natural, mas é na verdade uma criação
cultural. Nada há de inevitável quanto à forma ou papel da família, a mais do
que quanto ao papel das mulheres. É função da ideologia apresentar estes tipos
sociais dados como aspectos da própria natureza” (2006, p.203). Igualmente, a
revista era tributária das reflexões da socióloga Julieta Kirkwood que asseverou
sobre a importância de se reconhecer o autoritarismo como um dado que estava
no cerne das experiências femininas.
145
[…] las mujeres reconocemos, constatamos, que nuestra
experiencia cotidiana concreta es el autoritarismo. Que las
mujeres viven- siempre han vivido – el autoritarismo en el
interior de la familia, su ámbito reconocido de trabajo y
experiencia. Que lo que allí se estructura e institucionaliza es
precisamiente la Autoridad indiscutida del jefe de familia, del
padre, la discriminación y subordinación de género, la
jerarquía y el disciplinamiento de un orden vertical, impuesto
como natural, y que más tarde se verá proyectado en todo el
acontecer social (1986, p.223).

É frente a esse contexto que as feministas defenderam a insignía


“Democracia en la casa y el país”. Para o movimento, que começava a dar
visibilidade às questões privadas como políticas, não bastava o retorno à
democracia, uma vez que esta não implicou na libertação da mulher; era
necessário combater e erradicar o autoritarismo em todas suas facetas, incluindo
dentro da militância de esquerda e de oposição naquele momento. Logo,
combinar feminismo com militância partidária foi compreendido, nestes
primeiros anos, como algo inviável, posto que, além das históricas tensões entre
as feministas e os partidos de esquerda chileno4; estes representavam a velha
política que não preteriu as demandas femininas em seus projetos anteriores.

Desde sua primeira edição, a revista Furia enfatiza como as questões


referentes ao universo do privado, ao não ser vislumbradas pela esquerda, foram
convertidas em questões políticas pela direita de maneira inversa, no apelo ao

4
Sobre a relação entre os partidos de esquerda e o movimento feminista chileno na
primeira metade do século XX ver: KIRKWOOD, Julieta. Ser politica en Chile: las
feministas y los partidos. Santiago: FLASCO, 1986, GAVIOLA Edda., MORENO,
Ximena, MIRA, Claudia. Queremos votar en las próximas eleciones: historia del
movimiento femenino chileno 1913-1952. Santiago: Centro de Análisis y Difusión de
la Condición de la Mujer, 1986.

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“eterno feminino”. Avalia que a ação das mulheres contra o gonverno da Unidad
Popular5, foi acionada pelo regime militar no intuíto de transformar as mulheres,
enquanto mães e esposas, como “bastiões” da nova nação. E este movimento foi
possível, pois, os partidos de esquerda nunca vislumbraram,de fato, a libertação
feminina, reservando às mulheres o mesmo lugar que a direita: na família, como
esposa e mãe.

Esse discurso também está presente no boletim La Morada. O


146
periódico, com formato diferente da revista socialista, tinha como principal
objetivo informar sobre cursos, palestras e exposições organizadas pelo
movimento feminista. A exemplo de seu editorial, em 1986, que convida as
mulheres para participarem das comemorações do Dia Internacional da Mulher
e lutar pela “democracia” em sua extensão à família.
Celebramos el 8 de marzo como el Día Internacional de la
Mujer en homenaje a las 60 obreras textiles que, habiéndose
declarado en huelga reclamando una jornada de 8 horas y un
salario similar al de sus compañeros varones, murieron
quemadas al ser incendiada la fábrica en que trabajan. Porque
no queremos que historias como ésta vuelvan a repetirse,
porque no queremos más discriminaciones entre hombres y
mujeres; porque queremos cambiar esta sociedad sexista y
autoritaria que nos impide ser personas, dueñas de decidir
nuestra propia historia, es que para nosotras las mujeres ¡cada
día es un 8 de marzo! EXIGIMOS DEMOCRACIA EN EL
PAÍS Y EN LA CASA! (s/n., fev.,1986, p.1).

Dada a distinção entre os projetos editoriais e políticos de ambos os


periódicos, por meio do La Morada, conseguimos acompanhar as discussões que
eram realizadas sobre sexualidade e controle de natalidade. Entre 1986 e 1987,
ao menos três seminários orientados para o tema foram anunciados, como o de
“Autoexamen y Anticonceptivos” e o de “Sexualidad”, que eram realizados uma
vez por semana, com oito a dez encontros. Em alguns anúncios foi apresentado

5
Em 1971, durante o governo da Unidad Popular, presidido por Salvador Allende, as
mulheres de classe média organizaram a “Marcha de las Cacerolas Vacías”, com o
intuito de protestar contra o regime vigente. Essa manifestação se espalhou por outras
cidades e, devido a sua expressividade pela mídia, levou à formação do Poder Feminino,
movimento constituído por militantes ligadas à Democracia Cristiana, além de mulheres
que nunca haviam participado da vida política. Os protestos organizados pelo grupo
contribuíram, de sobremaneira, para desestabilizar o governo de Allende e, em certa
medida, legitimar o golpe de 1973. VALENZUELA (1993)

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um pequeno resumo com a proposta temática, a exemplo do taller “La


Sexualidade no es sólo Maternidad”.
¿Qué es la sexualidad? Eso que te inquieta, que tantas veces
te preocupa; algo que te atrae, que te gusta pero que no te
acaba de convencer. Se trata de algo difícil de definir. Tiene
que ver con la salud. Con tu cuerpo. Con tu estado de ánimo.
Con tus ideas. Con las de otras personas. Con el sexo. En los
Talleres hablamos de nuestra experiencia, porque no
queremos seguir arrinconado el sexo en cuarto escuro (s./n,
dez, 1986, p.5).
147

Em outra ponta, o Boletina Chilena era direcionado às diversas


associações de mulheres, entre as quais figuravam lideranças sindicais e grupos
de mães e esposas de presos políticos. Deste modo, sua ênfase central está em
trazer à cena o movimento de mulheres como agente político, uma vez que estava
ausente do cenário público chileno desde os anos de 1950. Logo, apresentar as
mulheres como protagonistas, sobretudo na luta pelo retorno democrático e na
defesa de seus direitos, era um ponto dorsal no boletim. Em vários momentos, o
corpo editorial abriu espaço para que as pobladoras narrassem suas experiências,
relatando as dificuldades de conseguirem emprego, a má remuneração e a
situação de miséria. E, na quarta edição, a partir das declarações de militantes de
organizações femininas, destacou depoimentos da Comisión de Defensa de los
Derechos de la Mujer (CODEM) que enfatiza, justamente, a dupla opressão da
mulher trabalhadora.
[…] por generaciones y vamos descubriendo así que la mujer
es doblemente explotada, es la marginada de siempre. Yo soy
una obrera y ahí lo veo: desempeñando un trabajo incluso de
mejor calidad que los hombres, siempre los sueldos son
inferiores para la obrera. Comprobamos en la práctica esta
marginalización cotidiana. También fuimos descubriendo que
nos podíamos actuar sólo con las mujeres de población. Es la
más marginada, la que más sufre, pero ninguna mujer está
ajena a esta marginación. Hemos ido descubriendo que la
marginación de la mujer cruza todas las capas sociales y todos
los estilos de vida de la mujer (n.4, 1984, p.7)

Contudo, isso não impediu que publicasse excertos de textos que


afiançavam que eram as diferenças culturais que asseguram as formas de
opressão e discriminação contra as mulheres. Em 1986, a publicação de número
onze reproduziu um pequeno trecho de Margarita Cordero, militante

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dominicana, que havia sido publicado pela revista feminista latino-americana,


Mujer Fempress, editada pelo Instituto Latinoamericano de Estudios
Transnacionales (ILET). O trecho enfatiza, justamente, que “na cosa son las
diferencias naturales entre los sexos y otra muy distinta es la vigencia de
esquemas culturales sexistas en los cuales precisamos se apoyan las
discriminaciones contra la mujer” (n.11, may/jun., 1986, p.12).

Dada a sua aproximação com a militância dos desaparecidos políticos


148
e, por conseguinte, com a defesa dos Direitos Humanos, este boletim dedicou
atenção especial na denúncia das violações cometidas pelo Estado em relação às
mulheres através da seção intitulada “Para que nunca se diga: no lo sabía”. Nesta,
o boletim apresentou narrativas sobre espancamentos, torturas, estupros e
abortos, perpetuados pelo Estado contra os corpos femininos. Em 1984, esta
seção trouxe o relato de três de jovens estudantes que haviam sido presas e
torturadas e, ressalta, em dois, o uso do corpo feminino como alvo de ameaça da
violência sexual.
[…] Me llevaron a la misma sala vendada y cubierta sólo por
una frazada que la quitaron al pedirme que me acostara en la
colchoneta cerca de diez hombres y dos interrogadores, el
resto estaba para dar los golpes. En ese momento me pidieron
que abriera las piernas, lo que me terminó por descomponer.
No conformándose con eso el interrogador, que tenía una
luma en la mano, la puso entremedio de mis piernas,
amenazando con introducirla si no hablaba, en ese momento
se me borró la memoria y sólo me acuerdo cuando estaba de
pie recibiendo golpes para perder ‘la cría que tenía

[…] Fui víctima de tortura física y psicológica que paso a


mencionar: desnudez de mi cuerpo y groserías acompañadas
de golpes y manoseos (…) Otra de las torturas fue el llamado
por ellos ‘el submarino’; ahí me sumergieron reiteradas veces,
por varios segundos; cuando me encontraba bajo el agua uno
de ellos me introdujo los dedos en la vagina; me sacaron semi
inconciente y me siguieron interrogando en otra sala (n.4,
nov/dec., 1984, p.11)

Tais narrativas foram constantes no periódico, que tentava evidenciar a


violência do Estado contra as mulheres e articulá-las ao discurso dos Direitos
Humanos, ou seja, mostrar como as formas de tortura perpetradas pelo Estado
também apresentava nuances em relação à direcionada aos homens. De acordo

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com Susel Rosa (2015), nas ditaduras latino-americanas, o uso do corpo na


tortura, seja através do desparecimento, da disseminação da tortura ou dos
sequestros, atingiram os militantes em geral, mas “adquiriram um caráter
específico em relação às mulheres por meio da violência baseada no gênero
(2015, p. 315)”, pois, a tortura ocorreu por meio de estupro, mutilação,
humilhação, insultos e intimidações sexuais. O acionamento da maternidade
também foi um artifício utilizado pelos regimes ditatoriais para torturar as
149
mulheres, ameaçando-as de empreender as mesmas técnicas de violência em
seus filhos.

Essas reflexões e manifestações ocorreram paralelamente às disputas


entre as “feministas” e as “políticas”, termo cunhado por Julieta Kirkwood
(1986), e que seguiu norteando o debate sobre a incorporação das mulheres e
suas consignas nos partidos ou o fortalecimento do movimento autônomo como
mecanismo político. Essa diferenciação partia da descrença de muitas feministas
em relação aos partidos e, deste modo, as “políticas”, isto é, as mulheres que
optavam por militar no feminismo e no partido político, também eram vistas com
ressalvas pelas feministas autônomas. Estas criticavam as primeiras por
recorrem a uma velha tradição política que sempre postergara as especificidades
femininas. Contudo, Franceschet (2002) advoga que muitas militantes ao se
confrontarem com o dilema “autonomia versus integração”, rejeitaram a
estratégia autonomista e optaram pela “dupla militância” como método para
inserir as reinvindicações de gênero na agenda da transição.

Isso, no entanto, não quer dizer que a demanda das feministas foi
inserida nos novos partidos políticos. Segundo Valenzuela (1993), o Partido
Comunista propôs um programa voltado para os habituais “lugares” femininos,
como subsidio a maternidade e auxilio materno-infantil, além de uma permissão,
mas não estímulo, ao divórcio. Essa proposta pouco atendia às questões
femininas, sobretudo no que tange à desnaturalização dos papéis femininos e
redemocratização das atribuições domésticas e familiares. O Partido Socialista
renovado, por sua vez, que sofria de perto a pressão organizada das mulheres
socialistas, apresentou um projeto mais próximo aos interesses feministas,

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incluindo sanções à violência doméstica e conjugal, alteração das leis


trabalhistas, divórcio e a promessa de maior presença das mulheres na direção
(VALENZUELA, 1993).

A relação entre feministas, “políticas” e os partidos se acirraram durante


a campanha pelo “NO”, em 1987, momento em que as mulheres tiveram um
papel decisivo6. Representadas, sobretudo pela Concertación Nacional de las
Mujeres por la Democracia (CNDM), Valdés (1993) afiança que o movimento
150
organizado fez da bandeira pela democracia uma campanha pelo “NO” também
ao sexismo, as discriminações de gênero e ao autoritarismo presente na
sociedade chilena. Dado ao êxito da campanha, a autora avalia que este período
foi profícuo para as feministas pressionarem a Concertación por la Democracia
para que os temas das mulheres entrassem na agenda do novo governo. No
entanto, todo o protagonismo das mulheres, não resultou em uma adesão plena
de suas exigências pela Concertación.

Cabe pontuarmos que a transição democrática foi ancorada em um


“consenso” entre as novas forças políticas e o regime militar, portanto, trouxe
em seu bojo uma herança institucional do autoritarismo, aliada à Igreja Católica,
sendo, duplamente, inóspita às feministas. Além disso, o Chile apresenta uma
dupla especificidade em relação aos direitos postulados como emancipadores
femininos: o divórcio e o aborto que, ao lado da violência doméstica, foram
temas pouco abordados pelos periódicos. No que tange ao primeiro, vigorava
no país uma lei de 1884, na qual os chilenos poderiam anular o casamento no

6
Pela Constituição de 1980, Pinochet era obrigado a chamar um plebiscito e apresentar
a eleição de um único candidato escolhido por unanimidade pelos Chefes do Exército.
Para isso era necessário abrir os registrados eleitorais, o que ocorreu em 1987, momento
em que a oposição atuou fortemente com a campanha do registro e, posteriormente, a
campanha pelo “NO” que saiu vitoriosa, levando à eleições livres, como estava
acordada na Constituição. No entanto, há vários impasses em torno da maneira como as
eleições ocorreram, sobretudo em relação aos acordos feitos com o regime militar que
resultaram nas intituladas “leyes de amarre” que incluíram a permanência de
funcionários em cargos públicos, algumas privatizações, além de que Pinochet, caso
perdesse as eleições, seguiria como chefe do exército até 1998 (COLLIER; SATTER,
1996).

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civil, mas não se divorciarem7. Apesar de a prática existir, o impacto das relações
entre Estado e religião, fez com que o divórcio só fosse autorizado em 2004. Em
relação ao segundo ponto, o aborto, até 1989 havia uma lei, datada de 1930, do
governo de Carlos Ibáñez del Campo, que permitia o aborto terapêutico. O
método era permitido quando a gravidez colocava em risco a mulher ou a criança
e foi mantida, durante a reforma do Código Sanitária, em 1968, no governo de
Eduardo Frei. No entanto, Pinochet, que já adotava um discurso contrário à
151
prática; em setembro de 1989, revogou o artigo e referendou a lei nº 18.826, do
Código Penal, criminalizando toda ação cujo propósito seja provocar um aborto.
Frente aos acordos feitos na transição democrática, que teve amplo apoio dos
setores religiosos, o tema do aborto foi retirado da pauta política, bem como o
divórcio, indo na contramão das discussões e políticas públicas latino-
americanas sobre emancipação feminina e direitos reprodutivos.

Nesta trilha de pensamento, o editorial do Boletina, em 1989, que abriu


o novo projeto do MEMCH “83”8, trata, justamente, das frustrações do
movimento após a campanha exitosa pelo “NO”. Ao indagar o que teria
acontecido ao movimento feminista após a vitória do plebiscito, já que era
notória a ausência das mulheres e suas demandas no contexto político, afirma:
[…] Ha sido más fuerte el machismo: los cargos de
responsabilidad han quedado en manos de sus dueños
“naturales”, los hombres. Admitamos que sabíamos que esto
iba a ocurrir. Difícil, muy difícil, que a este joven movimiento
de mujeres, no si le valora y reconocerá por parte de quienes
desean recuperar el poder a través de una falsa reconciliación,
que oculte los dolores sin reparar las injusticias (n.1, 1989,
p.2)

Deste modo, podemos avaliar que, apesar da força que o movimento


conseguiu ao longo da década, na transição democrática as demandas femininas
não figuraram como centrais, isto é, as transformações almejadas, sobretudo nas
relações familiares, passaram ao largo das discussões políticas daquele

7
Para realizar a anulação, os cônjuges recorriam ao juiz e apresentavam três
testemunhas que pontassem erros no registro civil, como alteração na data de
nascimento de um dos noivos, endereço equivocado, etc.
8
A partir desta data o movimento passou a ser uma ONG, editando um novo periódico
intitulado La Boletina.

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momento. Contudo, gostaríamos de ressaltar uma peculiaridade dentro do


próprio feminismo chileno. Grande parte das discussões e reflexões das
feministas direcionou-se para as formas de opressão e assimetrias que eram
perpassadas dentro do núcleo familiar. Todavia, este núcleo familiar era
pensando dentro da lógica binária e heterossexual. Diferente de outros países
latino-americanos, como Brasil e Argentina, não encontramos no Chile
publicações de grupos homossexuais. Igualmente, não nos deparamos com
152
problematizações sobre a heternormatividade compulsória, debatida, neste
período, também como uma forma de opressão em outros países latino-
americanos.

A lacuna deste debate não implica na ausência de movimentos gays e


lésbicos, ao contrário, desde 1984, o coletivo lésbico feminista Ayuquelén
existia e realizava suas reuniões na sede da ONG La Morada. A decisão de
formar o grupo veio após o assassinato de Mónica Briones, uma jovem
espancada em praça pública por se assumir homossexual, e, também da
participação das militantes no II Encontro Feminista Latino Americano e do
Caribe, em 1983. Apesar disso, a visibilidade do movimento só ocorreu em 1987,
quando jornalistas da revista de oposição APSI solicitaram uma entrevista às
militantes, que foi concedida nas instalações da La Morada. Segundo Norma
Mogrovejo (2000) a publicação da entrevista9 gerou conflitos entre as feministas
que enviaram uma carta aos editores da revista explicando que o coletivo lésbico
era apenas mais um dos que compunham a ONG e que as entrevistadas deram
“un tratamiento superficial y sensacionalista que sólo contribuye a reforzar los
prejuicos existentes” (2000, p. 320). A partir dessas declarações e da posição de
Margarita Pisano, à época coordenadora da instituição, as relações entre o
Ayuquelén e a La Morada foram rompidas, nos levando a indagar sobre o porquê
da invisibilidade política da questão no feminismo chileno.

Em suma, a partir desta breve análise, podemos inferir que o movimento


feminista chileno, mesmo não sendo homogêneo, trouxe em comum o discurso

9
O artigo intitulado “Colectivo Ayuquélen: somos lesbianas por opción” foi publicada
no nº 206 da revista APSI, de 1987.

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da transformação dos tradicionais papéis de gênero dentro da família como uma


de suas principais bandeiras. Ao localizar o autoritarismo não como algo relativo
ao Estado, mas também intrínseco às práticas sociais que oprimiam as mulheres,
as feministas iluminaram as construções culturais que pesavam sobre as
identidades masculinas e femininas. Entretanto, com o objetivo de combater o
discurso que postulava a família como bastião da ordem e da moral chilena, o
feminismo acabou por acionar o papel tradicional da mulher para tratar de suas
153
lutas específicas. Se, por um lado, este recurso propiciou um fortalecimento
público do movimento, por outro não conseguiu sensibilizar o novo regime
democrático e construir uma representação política de gênero mais efetiva.

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La Morada, s/n.,fev.,1986.

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La Morada, s/n.,dez.,1986.

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GÊNERO E MEMÓRIA: A CONSTRUÇÃO DE HIERARQUIAS

Rafael Chaves Vasconcelos Barreto*

Introdução

Pensar a sociedade, sua construção e dinâmica, perpassa pelo


entendimento de seu elemento formador – o Ser Humano. Nesse sentido, pensar 156
o ser humano é uma tarefa difícil, porém instigante visto que, apesar de cada
homem e cada mulher serem únicos e diversos, essas diferenças em
determinados momentos são percebidas como algo que leva ao desequilíbrio do
conjunto, ou seja, da sociedade.

Observando a sociedade é possível perceber uma tentativa de


homogeneização onde se procura agrupar os indivíduos de acordo com suas
semelhanças levando, em determinados casos, a uma segregação daqueles que
não se enquadram nos grupos majoritários e/ou não se adequam a determinadas
normas criadas pelo corpo coletivo.

Desse modo é importante reparar que essa tentativa de homogeneização


leva à criação de categorias bem como de hierarquias que, se sobrepondo umas
às outras, criam grupos de indivíduos dotados de direitos e “privilégios”,
enquanto outros, não estabelecidos de acordo com essas normas historicamente
construídas, ficam à margem nesse conjunto e, em alguns casos, privados de
direitos.

Cabe ainda ressaltar que essa regulação imposta pela sociedade é


marcada por “escolhas” que vem sendo orientadas, dentre outros fatores, pela
memória coletiva da sociedade e seus costumes.

Nesse contexto, o presente trabalho visa analisar alguns elementos que


outras sociedades apresentam relativos à construção de uma das categorias
criadas pela sociedade – o gênero.

*
Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro.

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Estudar gênero perpassa por diversos elementos e questões como, por


exemplo, o uso do termo Homem para designar toda a espécie humana. Seria o
uso do termo Homem como representante da espécie humana uma simples opção
linguística ou seria o reflexo de uma hierarquia pautada em possíveis hierarquias
de gênero?

Partindo dessa questão será feita uma breve análise da construção dessa
categoria social tão complexa, buscando através da análise de alguns pontos
157
históricos como outras sociedades precursoras à nossa tratavam dessa questão.

A construção do binarismo

Para começar nossa discussão, é importante destacar que entendemos o


conceito de gênero como sendo algo construído socialmente, podendo ou não ter
uma relação de coerência e inteligibilidade em relação ao sexo, como nos mostra
Judith Butler (2003).

Nesse sentido a autora nos mostra que o sexo é representado pelo


caráter biológico, marcado pelo corpo do indivíduo1 no momento de seu
nascimento. Desse modo temos a criação de elementos vistos como constituintes
da categoria sexo, representados pelo macho e pela fêmea e, por sua vez, a
criação de dois perfis de gênero, o masculino e o feminino, que representam a
forma como o sujeito se apresenta na sociedade. A partir disso é possível
perceber que tanto sexo quanto gênero apresentam um modo de construção e
certa “oposição”, fazendo com que sexo e gênero sejam vistos de forma binária.

Desse modo é importante observar que esse binarismo de gênero


apresenta não só uma relação de oposição, mas também demonstra uma
hierarquia, percebida facilmente em nossa sociedade e que vem se perpetuando
ao longo dos anos.

1
Nesse momento não será levada em consideração a capacidade do indivíduo em
modificar seus caracteres biológicos, como por exemplo, intervenções possíveis através
de processos de transexualização. Tal processo modifica caracteres biológicos abrindo
questionamentos como o uso de tais procedimentos como forma de reforçar o binarismo.

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Apesar de atualmente esse tema fazer parte de muitas pautas de


discussão e alvo - mesmo que de forma discreta - de políticas públicas, podemos
observar a permanência de um discurso formador de gênero hierarquizado em
diversos momentos da história de inúmeras civilizações. Esses discursos
enfatizam a visão de uma posição inferior que tem atualmente na sociedade os
indivíduos que fogem do perfil masculino heteronormativo, ou seja, enfatizando
a “valorização que a cultura greco-judaico-cristã faz do homem viril, branco,
158
adulto, rico, monogâmico e heterossexual”, conforme no explica Alves (2004).

Podemos ainda, nesse contexto, analisar uma das metáforas mais


conhecidas pelos indivíduos que foi a formação do Universo, mostrada pela
Bíblia em seu livro da Gênesis. É importante considerar que a Bíblia é um dos
livros mais antigos da humanidade, tendo sido reescrita e traduzida diversas
vezes, utilizando em diversos momentos o recurso linguístico da metáfora, o que
proporciona ao leitor incontáveis formas de interpretações, permitindo muitas
vezes a ocorrência de interpretações extremistas.

Partindo disso, podemos observar a passagem bíblica da formação do


Universo, onde gostaria de ressaltar a criação do “Homem”, tendo sido Adão
criado primeiro, a partir da terra (o que dá a origem etimológica de seu nome –
Adão, oriundo segundo algumas interpretações da expressão Adam – do termo
hebraico, ADaMaH, que denota ‘terra fértil’2). Desse modo tivemos Adão criado
à imagem e semelhança de Deus.

Mas e Eva?

Essa teria sido criada após Adão, a partir de uma de suas costelas, o que
nos permite levantar inúmeras hipóteses e questionamentos. A primeira delas é
uma noção de “androginia constitutiva” (Buci-Glucksmann, 1984:181) partindo
do princípio de que Eva representaria a parte feminina retirada de Adão,
colocada na posição de outro. Essa posição de “outro”, representando assim a
alteridade também pode ser vista através de diversos ângulos. A parte feminina

2
Informação retirada de www.haroldoreimer.pro.br/genesis/Ge02.htm. Acesso em: 28
jun. 2011.

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vista como parte sensível do homem, responsável pelas percepções,


sensibilidade, ou seja, características regularmente caracterizadas como
femininas podem ser explicadas pela proximidade da costela com o coração, o
que nos faz caracterizar a mulher como dotada da emoção, enquanto o homem
traria a razão. Tal posição de certo modo já coloca nessa relação dual uma
hierarquia, visto que a mulher tanto por ser criada a partir do homem como por
não possuir razão, vive então uma dependência em relação ao homem e ao
159
mesmo tempo exclui do homem qualquer traço de sensibilidade.

Seguindo a história de Adão e Eva, temos o momento em que Eva,


desprovida (nesse contexto) de razão, mas provida de sensibilidade, se deixaria
seduzir pela serpente que porta o fruto proibido da árvore do conhecimento, e
ainda o oferece a Adão que também o come, fazendo com que ambos tenham
que se retirar do paraíso carregando para sempre esse “pecado original”, que
resultou de uma sobreposição da sensibilidade sobre a razão, visto que Eva teria
sido responsável por tal ato a partir dessa interpretação, conforme Alves (2004)
explica ao citar a seguinte parte do livro Gênesis:
Disse Deus à mulher, como castigo pelo pecado original:
Multiplicarei os teus trabalhos e teus partos. Darás a luz os
filhos com dor e estarás sob o poder do marido e ele te
dominará. (ALVES, 2004: 9)

O autor comenta ainda que a partir de então se instala no plano


simbólico a dominação masculina e a noção de mulheres como sendo um
segundo sexo. No entanto não é só nas culturas cristãs e islâmicas (pelo uso da
Bíblia e do Alcorão) que as mulheres podem ser vistas a partir de interpretações
hierárquicas. Visões ainda mais radicais sobre a mulher e o feminino podem ser
encontradas ao estudarmos a Grécia Antiga.

É importante frisar que, diferente da metáfora bíblica, na Grécia Antiga


a mulher era abertamente diferenciada do homem e posta numa relação
hierárquica onde somente os homens possuíam direitos visto que as mulheres,
conforme mostra Corino (2006) eram “encaradas como intelectual, física e
emocionalmente inferiores”. É possível observar esse traço de tratamento
quando Vernant (2000:155) relata uma passagem onde Penteu, um jovem rei, ao

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ser informado da derrota de seu exército para um grupo de mulheres, “encarna o


homem grego num de seus aspectos maiores”, sendo, dentre esses aspectos
“certo desprezo pelas mulheres, vistas, inversamente, como seres que se
abandonam com facilidade das emoções”. Desse modo, ainda nas palavras de
Vernant:
Penteu nutre a ideia de que o papel de monarca é manter uma
ordem hierárquica em que os homens estão no lugar que lhes
cabe, as mulheres ficam em casa, os estrangeiros não são
admitidos e em que a Ásia e o Oriente têm fama de ser 160
povoados por gente efeminada, habituada a obedecer às
ordens de um tirano, enquanto a Grécia é habitada por homens
livres. (VERNANT, 2000:155-156)

Desse modo vemos, que na monarquia de Penteu, os homens eram


livres e as mulheres ficam em casa. Na sociedade ateniense, segundo Corino
(2006) o papel cívico das mulheres era somente um: a reprodução. Feito isso seu
dever estava cumprido, pois ela não possuía paidea para transmitir, ou seja, não
possuía conhecimento, logo não podia frequentar as academias gregas. Tal
questão pode ser trazida para nossa realidade da qual, até o início do século XX
o acesso à educação era restrito ou mesmo vedado às mulheres em diversas
sociedades, como a brasileira, onde uma minoria tinha acesso às escolas
normalistas, sendo somente depois de algumas décadas instituídas escolas
mistas.

Partindo dessa breve explanação sobre a construção de binarismo


hierárquico, será possível, a seguir, pensar em uma visão mais ampla dos usos e
abordagens do feminino.

O feminino dionisíaco

Dando prosseguimento à nossa discussão, podemos analisar um


personagem grego bastante emblemático que pode nos ajudar a entender a
construção do feminino atual nesse contexto binário: o deus Dionísio.

Como nos mostra Vernant (2000), Dionísio é um deus a parte,


começando pela sua gestação, realizada na coxa de Zeus que fora transformada

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em útero para que Dionísio pudesse ser gestado após a morte de sua mãe Sêmele,
que fora consumida pela luminosidade flamejante e fulminante de Zeus. Desse
modo é possível observar uma primeira ambiguidade em Dionísio – ser gestado
no “ventre de um homem”.

Mas não é somente na sua gestação que a ambiguidade de gênero se


apresenta em Dionísio. O deus apresenta em parte, aspecto feminino, muitas
vezes, conforme mostra Vernant (2000), se vestindo de mulher com cabelos
161
compridos, dentre outras características então consideradas femininas para
aquela sociedade.

Desse modo Dionísio é colocado por Vernant (2000:144) como um


deus que representa “a figura do outro, do que é diferente, desnorteante,
desconcertante, anômico”. O autor ainda atribui à figura de Dionísio uma
misteriosidade, mostrando o deus como “aquele que não se pode captar, que não
se pode enquadrar” (2000:145).

Não obstante, temos na figura de Dionísio, características não somente


físicas em determinados momentos, como subjetivas, o que faz com que ele seja
portador, em um só corpo, do binarismo de gênero.

No entanto é importante discutirmos sobre que características seriam


essas capazes de marcar tão fortemente tal divisão, pautada cada vez mais por
aspectos subjetivos que pelo próprio corpo biológico, o que nos leva a entender
o que nos mostra Vernant (1991:21) ao relatar que:
(...) durante o período de crescimento, antes de darem o passo
decisivo, os jovens ocupam, como a deusa [Ártemis], uma
posição liminar, incerta e equivoca, na qual ainda não estão
claramente determinadas as fronteiras que separam os
meninos das meninas, os jovens dos adultos, os animais dos
homens. (Vernant, 1991:21-22)

Temos, portanto reforçada a ideia de gênero, como algo decisivo e


construído posterior ao nascimento.

Tendo em vista, portanto, que gênero se refere, segundo Alves (2004),


dentre outras questões, às práticas quotidianas, aos rituais e a tudo que constitui
as relações sociais, corroborando a visão de Butler (2003) que o classifica a partir

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dos significados culturais assumidos pelo corpo sexuado, podemos sugerir que
os aspectos subjetivos estariam ligados principalmente às ações do sujeito como
seus “códigos linguísticos e representações culturais” (Lauretis,1994 apud
Alves, 2004).

Portanto, da mesma forma que temos no campo filosófico a dualidade


apolíneo e dionisíaco, onde o dionisíaco aparece como sendo a parte do trágico,
representando a alteridade, podendo ser entendido como o feminino em oposição
162
ao masculino enquanto sujeito, polo positivo nessa dualidade.

Analisando as ações quotidianas que envolvem as relações de gênero,


podemos observar essa relação apolíneo/dionisíaca em determinadas questões
como a relação sexual, onde o homem, parte ativa é visto como atuante, intenso,
vivo, enquanto a mulher é mostrada como parte passiva, o que passa ainda a
ideia de sujeito que recebe a ação, que não atua, inerte e até mesmo apática,
como explica Alves (2004).

Trazendo a questão para o âmbito linguístico, Alves (2004) nos mostra


alguns exemplos dessa relação na língua portuguesa, como o significado de
alguns pares de palavras como pistolão – homem poderoso que faz indicações
ou recomendações; e pistoleira – sinônimo de ‘puta’.

Desse modo Alves (2004) nos faz retomar a realidade grega, onde
temos o homem público como o Homem de Estado, homem de prestígio,
enquanto a mulher pública seria vista com desprestígio, tendo muitas vezes o
significado de ‘mulher da vida’, meretriz, dentre outros. Desse modo a sociedade
grega demonstra na fala a destinação do espaço público (pólis) aos homens e o
espaço doméstico (òikos) às mulheres, situação que pode ser percebida em
inúmeras sociedades, embora ainda seja possível perceber tal discurso (com
menos intensidade) nos dias atuais onde muitas vezes a mulher é culpabilizada
por agressões e/ou abusos sofridos por estar portando vestimentas tidas como
“vulgares” pela sociedade.

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A negação do Apolíneo

Até o presente momento tratamos da construção binária homem/mulher


levando em consideração o que Butler (2003) chama de relação de coerência
entre sexo e gênero, ou seja, gênero masculino em relação ao homem e o
feminino correlacionado às mulheres. Nesse sentido a autora define como
gêneros inteligíveis:
(...) aqueles que, em certo sentido, instituem e mantem
relações de coerência e continuidade entre sexo, gênero, 163
prática sexual e desejo. (Butler, 2003:383)

No entanto, observando a sociedade é possível verificar que essa


relação de coerência não se dá entre todos os indivíduos, podendo ser observadas
manifestações de gênero contrárias, sob essa concepção, ao sexo biológico.

Tendo o feminino como dionisíaco, composto pela negação do


masculino, ou mesmo como nos traz Simone de Beauvoir, como sendo o lado
negativo, é possível perceber essa negação em indivíduos do sexo masculino.
Nesse sentido vemos nesses homens uma negação do apolíneo e a entrada desses
no mundo do dionisíaco. É importante notar que o mesmo não ocorre às avessas,
ou seja, em mulheres que negam a alteridade, a feminilidade, havendo nesse
sentido um predomínio do sexo [masculino] nessa hierarquia. Desse modo para
fazer parte do topo dessa hierarquia é preciso ser homem e masculino.

Entretanto é importante considerar que, por gênero se tratar de algo


construído socialmente, a interpretação dessa negação se torna uma tarefa
bastante difícil.

Analisando alguns aspectos discutidos ao longo do trabalho, é possível


verificar alguns pontos como inerentes ao feminino que são possíveis de se
encaixar ainda hoje como a sensibilidade, enquanto a razão e a virilidade
permanecem como inerentes à “natureza masculina”. No entanto atualmente
criamos categorias para segmentos de pessoas que consideramos diferentes da

3
Grifos meus

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maioria, como as pessoas que se relacionam afetivamente com outras do mesmo


sexo, o que pode ser considerada uma “invenção da homossexualidade”.

Tendo como foco principal a homossexualidade masculina, por se tratar


nesse contexto de uma negação do masculino, do apolíneo, vemos que inúmeras
são as características postas a esse indivíduo de modo a classificá-lo, resultando
em contrapartida em qualidades que são associadas a esse perfil tido como
desviante, tornando-o assim dionisíaco.
164
Desse modo a sociedade faz uma ligação da homossexualidade
masculina com o feminino, associando esse indivíduo à fraqueza, à passividade,
sendo assim desvalorizado na sociedade, o que pode ser facilmente percebido no
discurso hegemônico. Em muitos casos são usadas expressões como - “se ele
fosse homem” - para fazer referência a homens de orientação sexual
homoafetiva, o que reforça a ideia de que haveria negação do masculino nesses
casos.

Seguindo esse pensamento, podemos perceber a hierarquia que subjuga


os indivíduos que fogem à norma heteronormativa observando a maioria das
expressões consideradas agressivas (palavrões) usadas para desqualificar
alguém, por essas possuírem em sua maioria ligação sexual de dominação ativo
sobre passivo, refletindo a ideia de desqualificação do outro quanto a sua
masculinidade. No entanto as formas de negação da masculinidade, devido ao
seu caráter subjetivo, sofrem alterações ao longo do tempo e de acordo com as
sociedades.

Observando a sociedade grega, por exemplo, vemos que a valorização


do corpo, fator que hoje pode ser intimamente relacionada ao feminino e à
homossexualidade, era algo comum nas academias, dentre a filosofia mente sã,
corpo são. Vernant (1991) demonstra ainda a relação entre o uso de cabelos
longos e virilidade em determinadas sociedades gregas, por se associar tal
característica ao homem guerreiro, fazendo com que a mulher raptada para
casamento4 tivesse seus cabelos raspados como forma de extirpar qualquer traço

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Vernant (1991:58) explica uma tradição grega entre os lacedemônios de se casarem
raptando a noiva.

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de masculinidade, além de, segundo o autor, representar uma diferenciação


nítida [e necessária] entre a mulher e seu novo marido.

No entanto, o que nos dias atuais é considerada expressão de


homossexualidade, para os gregos era expressão de virilidade, sendo assim
incentivadas em muitos casos as relações afetivas entre homens. É importante
salientar que essa relação se dava de diferentes formas de acordo com os grupos
analisados, sendo em alguns casos permitida as relações que beiravam à
165
conjugalidade, contanto que não houvesse relação de submissão entre eles,
conforme relata Corino (2006). O autor revela ainda que entre os espartanos
essas relações eram incentivadas entre membros do exército, pois faria com que
lutassem com mais vigor em defesa de seus parceiros. Entre os atenienses,
segundo o mesmo autor, essas relações se davam nas academias para que
ocorresse a transmissão de conhecimento, logo essas relações se davam de
indivíduos mais velhos para os mais jovens, sendo chamada de paiderastia
(amor a meninos) onde, segundo Corino (2006) tal relação “tinha como
finalidade a transmissão de conhecimento do erastes [amante] ao eromenos
[amado]”. Tal expressão pode ser a origem ao termo pederastia.

Foucault (1997) mostra um diálogo entre favoráveis ao casamento entre


pessoas de sexos distintos e favoráveis ao casamento entre pessoas do mesmo
sexo na Grécia antiga. Tal relação era chamada de “amor socrático”.

É interessante perceber o discurso dos favoráveis ao amor socrático,


pois estes afirmam que o amor pelas mulheres nada mais seria que uma
inclinação da natureza, algo de certo modo biologizado, enquanto a relação entre
homens estaria cercada por algo maior do que uma inclinação natural, “um amor
além da natureza” (p.86), pois estaria ainda deslocado da prática sexual, pois esta
o ligaria à mulher pela necessidade biológica da procriação. Entretanto Foulcault
(1997) aponta para uma visão contrária a essa no discurso de Cáricles que dizia:
Em suma, o amor pelos rapazes é situado, alternadamente,
sobre os três eixos da natureza: como a ordem geral do
mundo, como estado primitivo da humanidade e como
conduta racionalmente ajustada a seus fins; ele perturba o
ordenamento do mundo, ocasiona condutas de violência e de
embuste e, finalmente, ele é nefasto para os objetivos do ser

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humano. Cosmológica, “política” e moralmente, esse tipo de


relação transgride a natureza. (Foucault, 1997:110)

Tal visão é muito próxima à utilizada por segmentos contrários à


relação entre homens em períodos como o da Inquisição onde a
homossexualidade era vista como pecado nefando que deveria ser duramente
reprimido e, posteriormente, no início do século XX quando passa a ser vista
como desvio, “inversão”, algo que deveria ser tratado, o que coloca a procriação
166
e o anti-natural como o discurso chave para a condenação de tais práticas, pois
essas levariam ao fim da espécie.

Desse modo tais discursos se tornaram hegemônicos ao longo dos


tempos, transformando a pederastia em algo condenável.

Reflexões finais

O presente trabalho buscou trazer uma contribuição para o


entendimento da construção do feminino enquanto outro – alteridade – em uma
visão de gênero binária e hierárquica.

Mais do que conclusões, é importante que tais considerações realizadas


ao longo do trabalho nos leve a refletir algumas questões que ainda são vistas
como problema em muitas sociedades e que encontram parte desses problemas
explicados através da análise do passado que é transmitido pelos indivíduos
constituindo sua memória coletiva.

Vivemos um período aonde questões como as relativas a gênero vem


ganhando visibilidade e levadas a discussão, fazendo com que esse seja um
momento de grandes avanços nesse sentido.

Nesse contexto as mulheres veem finalmente, depois de muitas lutas


principalmente por parte do movimento feminista bem como de mulheres como
Leila Diniz5 que ousaram quebrar o padrão estabelecido, conseguindo ganhar

5
Leila Diniz ficou famosa ao exibir sua gravidez de biquini na praia.

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espaço na pólis embora o espaço privado (òikos) ainda seja um espaço reservado
a elas pela negação dos homens em assumir papeis ditos “femininos”.

Estamos vivendo um período em que cada vez mais mulheres têm


ocupado o papel de chefes de família no Brasil, tendo elas segundo o IBGE
conseguido superar os homens em indicadores como o que se refere ao número
de anos de estudo. Um grande avanço visto que em um período de pouco menos
de um século somente uma pequena parte delas tinha acesso à educação formal.
167
Muitos avanços ainda são necessários para alcançar a tão sonhada e
cada vez menos utópica igualdade de gênero, sendo necessário que as mulheres
consigam alcançar os homens no que diz respeito à renda e, mais do que isso, no
respeito à mulher no campo simbólico, não devendo ser toleradas posturas onde
uma mulher violentada por estar circulando em determinada hora ou com
determinado tipo de roupa é vista como culpada por estar “induzindo tal ato”. O
desejo masculino ainda é posto como algo vindo do biológico, de sua natureza
enquanto homem, apresentado desse modo como justificativa para situações de
agressão e desrespeito às mulheres.

Do mesmo modo é importante que haja respeito àqueles que não


seguem o padrão tido como natural, quebrando o padrão masculino
heteronormativo. É fundamental que a sociedade perceba que tal padrão é algo
construído socialmente e de certo modo inventado pelo Homem, tão
questionável que não há um consenso quanto a um padrão homossexual, como
foi possível perceber ao longo do trabalho.

Desse modo, temos hoje grupos que lutam pela defesa da diferença, da
“apolinização” do outro, sendo interessante notar ainda algumas estratégias que
esse grupo utiliza como forma de tentar se salvar dessa perseguição da qual
sofrem. Entre elas é possível perceber a tentativa desses grupos em esconder sua
identidade, recorrendo ao conhecido “armário”. Desse modo diz-se que o
indivíduo homossexual que não assume sua identidade está “dentro do armário”,
devido principalmente pela homossexualidade ser ainda vista por muitos como
algo desviante, transgressor, o que faz com que o indivíduo homossexual seja

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alvo dos mais diversos tipos de agressão. Tal situação inibe em muitos casos que
o indivíduo exerça de forma livre a sua identidade.

Entretanto, estar no “armário” é ainda muito criticado principalmente


pelo movimento LGBTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais)
que observa tal postura como impedimento da visibilidade do grupo. No entanto,
de forma semelhante ao ocorrido com outros grupos que sofreram perseguição,
como os judeus, os homossexuais recorrem a essa estratégia para se livrarem de
168
agressões, muitas vezes no próprio lar.

No entanto é importante considerar a visão do movimento LGBTT ao


estimular o “coming out”, ou seja, a “saída do armário”, porque de fato
aumentaria a visibilidade desse grupo, ajudando na reivindicação de muitos
direitos que a eles são negados.

Nesse sentido devemos ponderar o limite entre a militância e a


segurança dos indivíduos, levando em consideração que, em determinados
momentos, a simples sobrevivência é uma forma de resistência e militância, o
que justifica a existência do “armário”, propiciando a espera de momentos
propícios para avançar nessa busca por igualdade.

Desse modo é importante refletir sobre as diferenças que existem em


nossa sociedade, respeitando o outro para que seja possível a construção de um
futuro apolíneo, livre de hierarquizações.

REFERÊNCIAS

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Janeiro: Textos para discussão – ENCE n.11, 2004.

BARRENECHEA, M. Espaço trágico: lugar das intensidades e das diferenças.


In: Costa, I. T. M e Gondar, J. (Org.). Memória e espaço. Rio de Janeiro: 7 letras,
2000.

BUCI-GLUCKSMANN, C. La raison Baroque: de Baudelaire à Benjamín.


Paris: Galilée, 1984.

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BUTHER, J. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de


Janeiro: Civilizacao Brasileira, 2003.

CORINO, L. C. P. Homoerotismo na Grécia Antiga - homossexualidade e


bissexualidade, mitos e verdades . Rio Grande: Biblos, 2006.

FOUCAULT, M. A mulher / os rapazes: História da sexualidade (extraído da


História da sexualidade v. 3). Trad. Maria Theresa da Costa Albuquerque. Rio
de Janeiro: Paz e Terra, 1997. 169

GONDAR, J. Lembrar e esquecer: desejo de memória. In: Costa, I. T. M e


Gondar, J. (Org.). Memória e espaço. Rio de Janeiro: 7 letras, 2000.

NIETZSCHE, F. O nascimento da tragédia. Trad. J. Guinsburg. São Paulo:


Companhia das Letras, 1992.

VERNANT, J-P. A morte nos olhos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

__________. O universo, os deuses, os homens. Trad. Rosa Freire d´Aguiar.


São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

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170
ST 1C
História e Gênero: Cultura,
Memória e Identidades

Coordenação
Profa. Dra. Lídia Possas
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A PERSISTÊNCIA DA VIOLÊNCIA CONTRA MULHERES NO


BRASIL: ALGUNS APONTAMENTOS SOBRE O GÊNERO NO
TEMPO PRESENTE

Paulo Brito do Prado*

A história do tempo presente deve ser guiada por


uma pesquisa no sentido de não ser mais um
171
Telos, mais um Kairos, não mais um sentido
preestabelecido, mas um sentido que emerge do
fato que lhe da origem.
François Dosse (2012, p. 20)

Feeling Good
Birds flying high you know how I feel. Sun in the
sky you know how I feel. Breeze driftin’ on by you
know how I feel. It’s a new dawn. It’s a new day.
It’s a new life. For me. And I’m feeling good
Nina Simone (1965)

Nossa situação contemporânea tem sido caracterizada pela herança de


elementos oriundos da sociedade colonial/escravista, que tomou por modelo a
família patriarcal, alicerçada na subalternização das mulheres em processos
produtivos e decisórios (Cf. DEL PRIORE, 2009; SOIHET, 1989). A “vitória”
da dominação masculina (Cf. BOURDIEU, 1999; CHARTIER, 1995) e o
excesso de violências contra as mulheres no presente são os elementos
instigadores deste estudo panorâmico e introdutório.
Talvez eu tenha maior “tranquilidade” para tecer narrativas históricas
acerca de temas e acontecimentos presentes – ainda que não me sinta deveras
sereno para manipular exclusivamente minhas impressões, memórias e

*
UFF.

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testemunhos1. Aspecto incômodo para historiadores famosos, a exemplo de Eric


Hobsbawn (1995) que confessou, em sua história do “breve século XX”, os
desconfortos ao manipular épocas às quais pertenceu. Segundo ele, este
“desassossego” se consolidou em função de ter acumulado “opiniões e
preconceitos sobre a época, mais como contemporâneo que como estudioso” (p.
07). Por conta disto deixou claras as suas “limitações” em lidar com o campo da
história contemporânea, e destacou a importância de, ao fazer a história do
172
próprio tempo de vida, operá-la “em relação a uma época conhecida apenas de
fora, em segunda ou terceira mão, por intermédio de fontes da época ou obras de
historiadores posteriores” (p. 07).
Concordo com Hobsbawn acerca da utilização de fontes2 diversas,
referências bibliográficas posteriores, um critério metodológico rígido e a
manutenção de certo “distanciamento” do “tempo presente” – que estranhamente
me pertence, embora não completamente3. Entretanto não acredito que seja
possível fazer “história a quente” (BÉDARRIDA, 2000, p. 220) totalmente “de
fora”. Entendo que “a historiografia [e os historiadores] não podem se isolar da

1
Quando destaco o uso hipotético de “minhas impressões, memórias e testemunhos”, é
evidente que não ignoro ser inviável basear-se, num trabalho de cunho científico, pura
e exclusivamente naquilo que testemunhei ao longo de uma trajetória. Aqui estou
pensando na história das sensibilidades, que se preocupa muito com “sensações”
capazes de tocar aquilo que se situa “além da elaboração intelectual, mas nunca se
separa dela” (GRUZINSKI, 2007, p. 07). Estou pensando numa história capaz de
incorporar novas fontes e novos formatos de fontes (Cf. ALMEIDA, 2011). Estou em
busca de uma operação histórica capaz de ver, revelada nas sensibilidades – tanto
minhas quanto das fontes – “a presença do eu como agente e matriz das sensações e
sentimentos”. (PESAVENTO, 2007, p. 14).
2
Entendo as fontes como “indícios de faltas” (Cf. ROUSSO, 1989) ou “ausências
presentes” que precisam ser categoricamente problematizadas.
3
Digo isto porque o “presente”, enquanto temporalidade me pertence tão somente em
fragmentos, e dele tenho apenas alguns episódios. Se recorrer às metáforas e tratá-lo
como uma “novela”, vou perceber tão logo sua incompletude. O presente, como uma
novela, esta repleto de cortes, interrupções, cesuras, acidentes de trajetória e espaços em
branco que impedem um reconhecimento totalizante. Diante desse “tempo” minhas
experiências e conhecimentos, as fontes e referencias que mobilizo não passam de
fragmentos organizados em uma “intenção narrativa” de caráter histórico. Este é um
aspecto que exige a busca de diferentes fragmentos do tempo – fontes – que permitam
a construção de sentidos que não sejam exclusivamente os meus. É necessário
reconhecer que “o documento histórico é raramente dócil, aberto ou fácil” (KARNAL;
TATSCH, 2009, p. 17), exigindo um exame criterioso que “à força de esforços titânicos,
permita extrair coisas que só aparecem de forma indireta” (p. 17).

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realidade que pretendem estudar [e que] a História do Tempo Presente (HTP)


deve adaptar-se mais rapidamente às novas tecnologias da informação”.
(ALMEIDA, 2011, p. 11)
Penso ser necessário, ao historiador do presente, fixar-se no “entre
lugar”, pois somente aí ele conseguirá elaborar estratégias de “subjetivação –
singular e coletiva – para dar vazão a novos signos de identidade e postos
inovadores de colaboração e contestação, no ato de definir a própria ideia de
173
sociedade” (BHABHA, 1998, p. 20), ou mesmo para compreender os novos
agrupamentos sociais, comportamentos, identidades, representações culturais, as
permanências de passados e suas mutações4.
Não creio que seja possível passar ao largo de preconceitos, impressões,
convicções, subjetividades e sensibilidades durante a construção de narrativas.
Ainda que haja controle teórico e metodológico, sempre permanecerão alguns
apontamentos caracterizadores daquele que operou a narrativa histórica. Ignorar
isto, é intuí-la de uma autonomia inexistente e, que tornaria difícil a explicação
daquilo que move os historiadores na escolha de temas a ser estudados (Cf.
LORIGA, 2012).
Imbuído por estas reflexões penso ser oportuna a epígrafe de François
Dosse (2012) no instante em que destacou dever ser a história do tempo presente
guiada não mais por finalidades, mas sim por oportunidades de análise acerca de
questões que, embora pareçam passadas, se fazem presentes e repetidamente
lampejam em nosso cotidiano. Aqui destaco questões relacionadas ao gênero, às
sexualidades e à persistência da violência contra as mulheres no Brasil5.

4
É evidente que ao propor tal exercício, ainda mais se estiver interessado em utilizar
fontes que não contam com a total fiabilidade da academia, o historiador, ou o
historiador do tempo presente, precisa criar métodos e técnicas para manipular, por
exemplo, registros virtuais da sociedade. Lembro a importante contribuição
metodológica de Fábio Chang Almeida (2011) que destaca ser necessário sinalizar de
que forma o material utilizado foi analisado e como estão sendo preservadas as
informações mencionadas. Além disso, ele ressalta ser um problema grave dos
historiadores que buscam compreender o presente, negligenciar as fontes digitais e a
Internet, pois isto “significa fechar os olhos para todo um novo conjunto de práticas, de
atitudes, de modos de pensamento e de valores que vêm se desenvolvendo juntamente
com o crescimento e popularização da rede mundial de computadores.” (p. 12).
5
Tomo de empréstimo o tema de redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem)
em 2015. A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira foi o

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As violências, em especial aquelas cometidas contra mulheres, serão


entendidas como kairos, ou “momentos oportunos” para fazermos um exame
preliminar de acontecimentos marcados pela dominação simbólica e física.
Remeter-me-ei a situações envoltas por manifestações polêmicas,
acontecimentos que referenciam questões sexuais e situações caracterizadas por
graves violências de gênero. Neste exame utilizarei exclusivamente as fontes
virtuais, disponíveis na Internet6. Os vídeos, artigos noticiosos e fotografias
174
utilizadas ao longo deste trabalho foram convertidos em documentos mp4, pdf e
jpg7 para serem arquivados em dispositivos de armazenamento (HD externo).
Acredito que esta seja uma alternativa para garantir a seriedade do trabalho e
permitir a perenidade da fonte para acesos posteriores. Destacamos esta
preocupação por serem as informações disponibilizadas na Internet portadoras
de um caráter efêmero onde “muitos sites são retirados do ar sem aviso prévio e
seu conteúdo pode ser perdido, visto à sua inexistência em outro suporte”.
(ALMEIDA, 2011, p. 16). Talvez seja aí um dos papeis de destaque do
historiador do tempo presente. Desenvolvendo uma espécie de “arqueologia de
salvamento”, ele “torna-se responsável pela análise e também pela preservação
da informação. Não fosse a sua intervenção, o documento poderia ser perdido
em caráter definitivo”. (p. 16).
Ao fazermos um percurso pelo tempo, verificamos que as mulheres
ainda são “silêncios” e “sombras da história” (DUBY; PERROT, 1991, p. 07).
O silêncio que as encobre em nebulosas e as violências que lhes afligiam ainda

ponto de debate exigido pelo Enem para que todos os estudantes da educação básica
dissertassem. Embora vários dados tenham sido incorporados à prova a fim de auxiliar
na produção dissertativa, o exame acabou envolvido em toda uma polêmica alimentada
por parcela da sociedade civil, caracterizada pelo ultraconservadorismo, que utilizou as
redes sociais (facebook, instagran, twitter) para manifestar sua insatisfação ao tema. Ao
longo do texto tentaremos traçar parte deste debate, evidenciando o avanço rápido do
conservadorismo e corroborando a vitória da “dominação masculina” que segue
subalternizando as mulheres e todos aqueles que não correspondem ao modelo
heteronormativo ditado por este campo de poder.
6
Destaco ter cruzado as notícias aqui utilizadas com outras e que a confiabilidade das
mesmas foi avaliada através de ferramentas oferecidas pela Internet. Para tal
averiguação utilizei a ferramenta WHOIS, conferi o protocolo IP das páginas e contatei
repórteres que produziram alguns dos artigos analisados.
7
São formatações para armazenamento de dados digitais em um disco, de modo que tais
dados possam ser acessados posteriormente.

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impedem a constituição de uma consciência de gênero que as instrumentalize


para combater os efeitos da dominação simbólica e masculina8. A constituição
de um mundo marcado pela “naturalização” de sua subalternidade tornou
“legítima”, se não habitual, a recorrência de violências a elas dispensadas (Cf.
SCOTT, 2008). O tempo se encarregou de “calcificar” hábitos sexistas e
misóginos que conseguimos detectar em situações presentes, a exemplo de
projetos de leis ultraconservadores, estratagemas políticas e mazelas de grupos
175
interessados em impedir debates sobre as questões de gênero9.
Antes de me debruçar nas fontes e nas temáticas elegidas para esta
análise, gostaria de explicar as razões que me levaram a trazer, na epígrafe, a
música Feeling Good10. Na verdade, gostaria de explicar por quais razões trouxe
a interpretação de Nina Simone11. Não é novidade que esta cantora foi
fundamental na luta da comunidade negra americana pelos direitos civis entre as
décadas de 1960 e 1970. Também não é novidade que Nina Simone foi defensora
dos direitos das mulheres negras nos Estados Unidos. Isto pode ser observado

8
É importante lembrar que a submissão feminina às violências de gênero não é uma
regra. Muitas mulheres se manifestaram contrárias aos abusos masculinos ao longo da
história (Cf. SOIHET, 1989; 2002). Também não ignoro a importante crítica realizada
por Mariza Correa (1999) ao trabalho de Pierre Bourdieu. Suas impressões são
fundamentais para operarmos esta categoria (dominação masculina) com maior
cuidado, de forma que não reforce naturalizações.
9
Destaco aqui os projetos nº1301/2015, nº 7180/2014, nº 7181/2014, nº 1859/2015 e nº
2731/2015 que tem como propósito majoritário impedir o debate de gênero na escola.
Existem algumas páginas na internet que também atuam numa espécie de “militância”
contrária à “ideologia de gênero”. Vale destacar que páginas como a do Observatório
Interamericano de Biopolítica e Revoltados On Line sempre trazem um discurso voltado
para a defesa do modelo heteronormativo de “família” imbuído por uma forte conotação
religiosa, de cunho cristão ultraconservador.
10
Feeling Good foi escrita pelos músicos ingleses Anthony Newley e Leslie Bricusse em
1964, mas sua maior projeção se deu após a interpretação de Nina Simone, em 1965.
11
Eunice Kathleen Waimon nasceu em 21 de fevereiro de 1933 na cidade de Tryon,
Carolina do Norte (EUA). Filha de pregadores evangélicos. Adotou o nome Nina
Simone para esconder dos pais a vida dupla. Trabalhava como cantora de blues em bares
noturnos e com os rendimentos desse trabalho mantinha a família e custeava o curso de
piano clássico na Juilliard School. Depois de rejeitada no Curtis Institute of Music (por
questões raciais) e percebendo o fim de suas economias acabou assumindo a
personalidade de cantora, tornando-se uma das mais importantes interpretes de blues e
jazz. Vale lembrar que suas músicas incorporaram o espírito da época, momento em que
Nina Simone militou em prol dos direitos civis da população negra americana e
defendeu os direitos das mulheres. Estas informações biográficas podem ser consultadas
no documentário What Happened, Miss Simone?

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em centenas de músicas de sua autoria, em biografias, filmes e documentários12.


Alguns talvez se perguntem, por que busquei expoentes da luta feminina nos
Estados Unidos para falar das mulheres brasileiras? Gostaria que
compreendessem serem as razões deste exercício o resultado de escolhas, daí
dizer no início ser quase impossível passar ao largo das subjetividades, ainda que
este trabalho pretenda uma análise racional. Acredito que o historiador não deve
apagar sua subjetividade, “ele deve aprender a reconhecê-la e a transformá-la em
176
uma fonte de conhecimento. Ele deve, sobretudo, descobrir a historicidade do
seu eu.” (LORIGA, 2012, p. 254). Poderia ter escolhido diferentes personagens
brasileiras13, afinal de contas nosso país é repleto de exemplos inspiradores.
Todavia a reverberação das músicas e da memória de Nina Simone é deveras
intensa para ser ignorada. Entendendo-a como “documento”, como registro de
uma época, à qual tenho familiaridade consigo pensar através dela. E pensando
através dela, consigo visualizar melhor a dura condição imposta às mulheres
brasileiras do tempo presente.
Nina Simone teve sua trajetória marcada por violências e por variações
de humor que a encaminharam para perturbações psíquicas, apesar disso insistiu
na necessidade de lutar por liberdade. Para ela, ser livre era não sentir medo.
Talvez seja este o ponto no qual encontrei relações entre ela, suas músicas e as
mulheres brasileiras: a busca de um mundo velho convertido num mundo novo,
onde todas vivessem sem medo, pudessem gozar da liberdade e a reproduzissem
na posse de seus corpos14.

12
GARBUS, Liz. What Happened, Miss Simone? [Biografia-Filme-Documentário].
Produção de Amy Hobby, Jayson Jackson, Justin Wilkes e Liz Garbus. Direção de Liz
Garbus. Estados Unidos. 2015, DVD, 102 minutos, colorido, som.
13
Poderíamos citar Carolina de Jesus e suas obras literárias; Caetana e sua luta pelo
direito de separação, ainda no Brasil Colônia (Cf. GRAHAM, 2005); Mãe Biu (Severina
Paraíso da Silva), responsável pela sobrevivência das tradições religiosas do terreiro
Nação Xambá (Cf. SHUMAHER; BRAZIL, 2013) e outra infinidade de exemplos.
14
Refiro-me à posse do corpo no sentido de ser decisão exclusiva das mulheres
decidirem o que fazer dele sem que, para isto, sofram com estereótipos, exclusões,
violências, retaliações ou anulações por parte das instituições de poder, historicamente
incumbidas, pela criação das representações sociais para os indivíduos. Aquelas que
tentavam escapar desses padrões eram execradas do convívio social. Conforme lembra
Rachel Soihet (1989) a quebra de padrões a elas atribuídos revela-se catastrófica: “As
mulheres que ousavam fugir à frigidez sexual, à dependência, à submissão,
mediocridade intelectual, apatia, eram degeneradas, masculinas, criminosas de alta

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Sua vontade de liberdade e o medo que exala de suas músicas não é


diferente daquilo que historicamente marca a trajetória das mulheres brasileiras:
o medo da violência de gênero. Outra questão que talvez apareça é o fato de
mencionar mulheres negras sem, a princípio, discutir profundamente as questões
de classe e raça15. Embora acredite que a violência de gênero, de um modo geral,
não escolhe classe ou raça, compreendo que as mulheres negras estão mais
propensas aos efeitos dessa violência16. Para isto basta passarmos os olhos pelas
177
descrições misóginas produzidas por Gilberto Freyre (1992) acerca das negras
africanas e nativas americanas, tomadas à força pelo homem da Colônia.
Olharmos a dura condição das mulheres negras no Brasil Império, encaradas
como “um misterioso pedaço de carne a ser dissecadas” (XAVIER, 2012, p. 67),
ou condenadas “irreversivelmente, a permanecer na inferioridade mental e
social.” (SOIHET, 1989, p. 132).
No tempo presente basta olhar os demonstrativos produzidos pela
Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres para identificar as grandes
vítimas da violência de gênero: as mulheres negras e as de classes subalternas17.
Mais que as mulheres brancas, as negras e pobres (Cf. SOIHET, 1989)
estão nas margens da sociedade. Elas estão nas margens da história. Elas estão

periculosidade. Eram despidas do santo sentimento da maternidade, único capaz de


neutralizar os traços negativos inerentes ao sexo feminino tais como a crueldade, a
vingança, a mentira, a vaidade, o ciúme, a inveja, etc., que, assim, emergem em toda
sua plenitude”. (p. 109).
15
Lembro os debates realizados por Joan Scott (2008) acerca das intersecções do gênero,
das classes e raças.
16
É importante problematizar se existem diferenças nas relações de gênero entre
populares e agentes pertencentes a outros segmentos sociais. Segundo Rachel Soihet
(2002) é relevante, “de início, acentuar o caráter complexo e contraditório da questão.
Os populares não constituem um bloco unívoco. A heterogeneidade impera em todos os
segmentos da sociedade. Além disso, não vivem isolados; o fenômeno da interpretação
cultural é uma realidade por todos reconhecida, ou seja, influências recíprocas ocorrem
entre os diversos grupos da sociedade. Essas trocas ocorrem não apenas entre
dominantes e dominados, de cima para baixo, e vice-versa, como também no sentido
horizontal, entre grupos pertencentes a classes sociais idênticas, mas apresentando
diferenças de cor, religião, geração, etc.” (p. 278).
17
Estudo intitulado #MENINAPODETUDO: como o machismo e a violência contra a
mulher afetam a vida das jovens das classes C, D e E, produzido por Énois Inteligência
Jovem em parceria com os institutos Vladimir Herzog e Patrícia Galvão. O material
produzido neste estudo deixa evidente que as mulheres de periferias estão mais
propensas a serem vítimas de violências de gênero.

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“longe dos centros de poder político, real, cívico e senatorial.” (DAVIS, 1997,
p. 195). O fato de estarem consideravelmente afastadas “dos centros formais de
aprendizagem e de instituições voltadas para a definição cultural” (p. 195) as
transforma em vítimas potenciais de homens violentos. Entretanto, o volume de
violências que atingem as mulheres contemporaneamente não tem passado
despercebido da opinião pública. Para sentirmos os excessos da dominação
masculina em nosso cotidiano e tomarmos conhecimento da quantidade de
178
mulheres vitimadas por crimes de gênero, basta ligarmos a televisão em canais
jornalísticos ou realizar pesquisas rápidas em nosso “oráculo virtual
contemporâneo”, o google, e vamos encontrar uma lista infindável de “mulheres
violentadas por seus machos, estupradas por seus patrões” (ALBUQUERQUE
JUNIOR, 2007, p. 95) ou friamente assassinadas pela simples razão de estarem
em lugares marginalizados e distantes dos centros políticos e cívicos: periferias
e subúrbios.
Um simples abrir de olhos nos permite testemunhar o fim trágico de
Claudia Silva Ferreira e Francisca das Chagas da Silva. Esses são dois
exemplos posteriores a um quadro aproximado de 25.637 mulheres negras
assassinadas no Brasil na última década. Esse quadro integra uma estimativa
total de 46.186 mulheres assassinadas entre os anos de 2003 e 201318. O fato de
as mulheres negras ocuparem mais da metade desse número é elemento
indiciador do caráter racial e classista na constituição do gênero e das violências
resultantes do excesso de poder entre os sexos no Brasil19.
Embora tantos dados e exemplos mereçam análise, destaco que não é
propósito deste trabalho discutir a dura condição das mulheres negras na

18
Essas informações foram retiradas de WAISELFISZ, Julio Jacobo. Mapa da Violência
2015: homicídio de mulheres no Brasil. Brasília: OPAS/OMS; Brasília: ONU Mulheres;
Brasília: SPM; Rio de Janeiro: Flacso, 2015.
19
Não foram encontrados dados numéricos que explicitassem a quantidade de mulheres
assassinadas nos anos 2014 e 2015. Percorri os Balanços produzidos pela Secretaria de
Políticas para as Mulheres da Presidência da República e Ministério das Mulheres, da
Igualdade Racial e dos Direitos Humanos (Extinta pelo atual governo, conforme
Medida Provisória n.º 726, de 12 de maio de 2016, assinada pelo presidente interino
Michel Temer), mas não os visualizei. Existem informações acerca das violências
sofridas por mulheres, mas não existe, em números, a quantidade de mulheres mortas
nestes dois últimos anos.

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sociedade brasileira contemporânea20. Isto demandaria tempo, pesquisa densa e


um suporte teórico ao qual conheço apenas parcialmente. Meu propósito é
evidenciar os problemas resultantes da interrupção do debate de gênero,
conforme aventado por parcela da sociedade civil representada em grupos,
páginas disponibilizadas na Internet (Revoltados On Line, Observatório
Iberoamericano de Biopolítica) e em projetos de lei que tramitam nas várias
Assembleias Legislativas e na Câmara dos Deputados. A interrupção desse
179
debate provocará, e já tem provocado efeitos colaterais prejudiciais à qualidade
de vida, principalmente, dos grupos de gênero excluídos da matriz
heteronormativa de poder. Isso pode ser testemunhado, por exemplo, na
persistência da violência contra as mulheres, no aumento de crimes de
homofobia21, na misoginia e na chamada “cultura do estupro”22. Acredito ter
chegado o momento de a comunidade acadêmica avançar neste debate, mas com
olhos no presente.
A fotografia de Roberto Setton23 é, dentre outros indícios, a
representação das incompreensões do gênero resultantes da interferência de

20
Para isso precisaria de um suporte teórico e metodológico específico e que me
permitisse percorrer os meandros da “classe” e da “raça” na construção do gênero. Seria
necessário conhecer mais profundamente os debates voltados especificamente para o
caso da violência de gênero contra mulheres negras.
21
Segundo relatório produzido pelo Grupo Gay da Bahia foram vitimas fatais da
homofobia no Brasil, nos últimos três anos (2013-2015), aproximadamente 956
indivíduos.
22
Acredito que os dois crimes de misoginia e violência contra as mulheres, mais
polêmicos, em âmbito institucional, no Brasil contemporâneo, tenham sido os casos do
adesivo colado na entrada do tanque de gasolina em que a presidenta Dilma Roussef
figurava com as pernas abertas, dando a ideia de que, no momento do abastecimento,
quando a bomba de gasolina ali colocada, penetrasse sexualmente a presidenta. O outro
caso seria o do deputado federal Jair Messias Bolsonaro (PSC-RJ) contra a deputada
federal Maria do Rosário Nunes (PT-RS) onde este teria dito, em assembleia na Câmara,
para a referida deputada que “não a estupraria porque ela não merecia”. Notícias do
julgamento do processo podem ser consultadas na página virtual do Tribunal de Justiça
do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) e na do Supremo Tribunal Federal (STF).
23
É fotografo e profissional free-lancer. Formou-se em fins da década de 1980 em
Cinema pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). Colabora e já colaborou
em publicações e editoriais para a Agência Estado, Editora Globo, Editora Abril, Portal
Uol, Jornalistas Livres, Grupo Folha, Grupo Glamurama e Jornal El País. Desenvolve
trabalhos pessoais na área da fotografia documental na cidade de São Paulo, como o
trabalho “Domingo” com curadoria de Eder Chiodetto, exposto na Pinacoteca do Estado
de São Paulo. Atualmente dedica seu trabalho ao fotojornalismo e à documentação do
cotidiano urbano de São Paulo.

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determinados agentes em debates necessários para a conscientização da


sociedade acerca de questões historicamente mal resolvidas. Entendo por
“questões mal resolvidas”, o gênero, sua constituição, as violências oriundas da
hierarquização/submissão sexual, as sexualidades, as normatizações, as
diferentes experiências derivadas das sexualidades e a construção de padrões
estético/sexuais. Se tivéssemos estas noções mais claras e não estivéssemos tão
apegados em naturalizações e crenças, talvez as violências de gênero não se
180
tornassem regra social. E talvez não testemunhássemos um aumento, em 2015,
por exemplo, de 136,6% no número de violências sexuais (estupro, assédio,
exploração sexual); de 165,27% no número de estupros registrados e de 300,39%
no de relatos de cárcere privado24. Talvez esses números sejam, em grande parte,
o estímulo para que as mulheres ocupem o cenário público brasileiro na
expectativa de, finalmente, se apropriarem de seus corpos.

Fig. 01 – Passeata contra Eduardo Cunha (Deputado Federal, PMDB) e a PL 5069, novembro
de 2015. Foto de Roberto Setton/Jornalistas Livres

Entre outubro e novembro de 2015, as principais avenidas do centro do


Rio de Janeiro foram tomadas por manifestantes, a maioria mulheres, que

24
Estes dados constam no Balanço 10 Anos produzido pela Secretaria de Políticas para
as Mulheres e Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos.
p. 10, 2015.

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reclamava, dentre diferentes pautas, o arquivamento do projeto de lei nº 506925


e a cassação do mandato de deputado do Senhor Eduardo Cosentino da Cunha
(PMDB-RJ). Manifestações semelhantes aconteceram em outras capitais
brasileiras, todavia a mobilização carioca tomou maior visibilidade em função
da pujante mobilização feminina e pela divulgação jornalística, feita,
principalmente na Internet.
No artigo produzido por Ricardo Targino, da Mídia Ninja, para os
181
Jornalistas Livres26 é possível verificar o impacto da manifestação. Em Quem
mandou mexer com as mulheres?, temos uma descrição panorâmica, no entanto
importante do movimento de mulheres contrárias às novas determinações de
atendimento para vítimas de estupro no Brasil. O artigo, que apresenta
linguagem mordaz, recorre, preliminarmente, ao corpo feminino e à disputa por
sua posse, destacando que “nenhuma mulher veio da costela de um homem, mas
todos os homens vieram do útero de uma mulher” (TARGINO, 2015). Aspecto
necessário de ser observado em função de questionar princípios ditados por uma
ordem masculina inscrita nos corpos através de “injunções tácitas, implícitas nas
rotinas da divisão do trabalho ou dos rituais coletivos ou privados (basta
lembrarmos, por exemplo, as condutas de marginalização imposta às mulheres
com sua exclusão dos lugares masculinos)” (BOURDIEU, 1999, p. 34). Segundo

25
O projeto de lei n.º 5069 proposto pelo deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ)
e outros acrescenta o art. 127-A ao Decreto-Lei n.º 2848, de 07 de dezembro de 1940 –
Código Penal. O texto do projeto se desdobra numa justificativa apegada num possível
lobby de instituições internacionais de pesquisa, organizações não governamentais e
empresas que, por sua vez, apegadas em teorias neo-maltusianas estariam tentando
controlar o crescimento demográfico mundial partindo das regiões subdesenvolvidas. O
texto todo parece uma grande “teoria da conspiração”, onde diferentes organizações
internacionais apoiadas por feministas tentariam estabelecer um controle da natalidade
no Brasil.. A proposta do acréscimo é criminalizar o aborto. Com sua aprovação, o
atendimento a vitimas de estupro se tornaria ainda mais difícil e servidores da área da
saúde teriam dificuldades em explicar, por exemplo, procedimentos que vitimas de
estupro deveriam tomar para evitar a gravidez. Depois das manifestações, o projeto foi
novamente discutido e alterações foram feitas em seu texto, permitindo assim o seu
prosseguimento. É importante notar no texto original da proposta a imagem negativa
atribuída ao feminismo, a dominação/tutela masculina sobre o corpo das mulheres e as
decorrências da criminalização do aborto: aumento de interrupções de gravidez ilegais
e a mortalidade de mulheres durante processos abortivos.
26
TARGINO, Ricardo. Quem mandou mexer com as mulheres? Jornalistas Livres, 15
de novembro de 2015.

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o articulista estaríamos em “plena ruína do patriarcado, quando todos os


privilégios são postos em xeque e os preconceitos se tornam definitivamente
velhos”. Momento no qual as mulheres estariam se “levantando” “para parir um
tempo novo para toda a humanidade” (TARGINO, 2015).
Durante a descrição do movimento de mulheres, o artigo recorre a
diferentes questões relacionadas ao contexto presente do Brasil. Ricardo Targino
lembra o aumento da violência contra as mulheres – principalmente as mulheres
182
negras – as polêmicas em torno da prova do Enem 2015 e o desastre ambiental
em Mariana (Minas Gerais). Entretanto, de uma forma geral, o tema central do
texto é a insatisfação feminina frente às práticas políticas e ao projeto do deputado
Eduardo Cunha.
Entre várias fotografias, algumas de autoria do fotografo Roberto
Setton27, verificamos diferentes mulheres e mães reclamando a propriedade de
seus corpos, solicitando o direito à liberdade e exigindo segurança para vivê-la
plenamente. As fotografias de mães carregando filhos, grávidas expondo a
barriga, mulheres com rostos e corpos pintados evidenciam estarem elas, ainda,
“deliberadamente afastadas da esfera política, colocadas nas margens de valores,
regras e instituições que a fundam e brevemente designadas como atrizes não
políticas ou atrizes ilegítimas” (SINEAU, 1994, p. 72). Aspecto que as forçou
tomar a cena pública e gritar em coro: “Nenhum passo atrás será permitido! A
pílula fica e Cunha sai” (TARGINO, 2015).
O fato de pintarem os rostos e expor partes do corpo, que
costumeiramente se espera estar cobertos por roupas, são medidas extremas que
evidenciam a vontade de tomar a posse do corpo e fazer com ele aquilo que
desejam. Elas desejam um corpo que seja todo delas, mas que lhes é negado em
função de serem consideradas, à luz de funções domésticas e reprodutivas,
“atrizes políticas parciais ou imperfeitas” (SCOTT, 2008, p. 102).
Mesmo que as mulheres tenham colocado em xeque a ordem simbólica
da dominação masculina, ditada por instituições de poder – leis, estado, igreja e
família – não é aconselhável esquecer terem sido as “vitórias” marcadas por

27
Aproveito para agradecer ao fotógrafo Roberto Setton por ter, gentilmente, autorizado
o uso das fotografias aqui utilizadas.

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duras disputas de poder e violências (Cf. CHARTIER, 1995; SOIHET, 1997)


que ainda não impediram o reconhecimento do homem “como um sujeito
humano neutro ou universal” (SCOTT, 2008, p. 99).
O homem persiste como arquétipo e isso coloca as mulheres numa
situação “bastante difícil de articular ou representar, porque sua diferença gera
desunião e representa um desafio à coerência” (p. 99).
O reconhecimento da diferença nas/das mulheres fez com que as
183
instituições de poder – controladas por homens – utilizassem a crença da
“igualdade na diferença” para rechaçar “a demanda das mulheres de uma total
igualdade humana com os homens” (p. 103), criando uma comunidade de
sentidos, composta por homens e mulheres, que compreendia o “ser mulher”
como inferior, e que por esta razão devia obediência à figura dominante: o
homem. Com a consolidação da burguesia no poder, entre os séculos XVIII e
XIX, a “construção da identidade feminina se enraizou na interiorização, pelas
mulheres, de normas enunciadas pelos discursos masculinos.” (CHARTIER,
1995, p. 40). Este fato correspondeu – e corresponde – a “uma violência
simbólica que supõe a adesão dos dominados às categorias que embasam sua
dominação” (SOIHET, 1997, p. 04). Houve, neste momento, uma “divisão de
papéis e uma rígida separação das esferas de atuação entre os gêneros: o
masculino na órbita pública e o feminino no âmbito privado” (SOIHET, 2002,
p. 280).
Os tentáculos da dominação masculina e violências de gênero, ai
instituídas, alcançam diferentes agentes – principalmente mulheres e a
comunidade LGBTT – do tempo presente. Isso tem se dado através dos projetos
de lei nº 1301/2015, nº 7180/2014, nº 7181/2014, nº 1859/2015, nº 2731/2015,
nº 5487/2016 e nº 867/2015 que impedem o debate de gênero, sexualidades e
diversidade nas escolas. Esses projetos pretendem instalar uma espécie de
“ditadura cristã” juridicamente legitimada. Todo e qualquer tema que abordar
questões de gênero, sexualidades e diversidades estarão proibidos e a
comunidade escolar permanecerá à revelia de líderes religiosos, interessados em
fomentar um único modelo sexual como padrão: o heteronormativo. As
mulheres, por sua vez, voltariam a ser “belas, recatadas, rainhas do lar e anjos

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tutelares” (Cf. DEL PRIORE, 2009) e estariam novamente sob o julgo da


dominação masculina e violências daí resultantes.
Apegado a todo este rol histórico de luta, é importante considerar não
ter sido exitoso o movimento das mulheres em 2015, salvo sua relevância política
e a momentânea liberalidade das mulheres ali presentes. Digo isto, pois o projeto
de lei, alvo das manifestações femininas, acabou aprovado pela Comissão de
Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) da Câmara dos Deputados. E
184
mesmo que alterações, resultantes da pressão popular e feminina tenham sido
feitas em seu texto original, o aborto persistiu tipificado como crime e o corpo
das mulheres silenciado.
Não estou minimizando a luta das mulheres em busca de direitos
políticos, pelo contrário, estou apenas destacando que o perfil positivo criado pelo
referido artigo em torno da mobilização feminina e a imagem “impressionista”
de uma “primavera feminina” devem ser observadas com cuidado, pois a
realidade é bem mais complexa que as descrições aí presentes.
Acredito ser fundamental entender que o poder e a cultura das mulheres
se constroem “no interior de um sistema de relações desiguais” (PERROT et. All,
2011. p. 15) sendo necessário observar de que forma elas “emulam” o
poder/dominação masculina. É preciso notar “como elas mascaram as falhas,
reativam os conflitos, balizam tempos e espaços, como, enfim, pensam suas
particularidades e suas relações com a sociedade” (p. 15). Talvez vendo essas
particularidades consigamos compreender os paradoxos, as modalidades de
dominação masculina e as violências que ocasionalmente não se resumem “a atos
de agressões físicas, decorrendo igualmente de uma normatização na cultura, da
discriminação e da submissão feminina” (SOIHET, 2002, p. 279).
O tempo presente é deveras marcado por problemas característicos
daquilo que se convencionou chamar de “cultura do estupro”. Mais uma vez
convido os leitores a abrirem o google para realizar pesquisas temáticas que lhes
permitirão testemunhar, por exemplo, ator dizer em rede nacional, num tom de
troça, relacionar-se sexualmente com uma mulher negra sem seu consentimento;
o estupro coletivo de quatro mulheres no Piauí (2015), as postagens e
publicações de caráter misógino do deputado federal Jair Messias Bolsonaro

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(PSC-RJ) acerca do tema da redação e pergunta do Enem 2015, projetos de lei


que impedem o debate de gênero na escola, ataques racistas contra artistas e
apresentadoras negras, adesivo misógino que expõe a presidenta Dilma Vana
Rousseff (PT-RS), estupro coletivo de uma jovem no Rio de Janeiro (2016),
novo estupro coletivo no Piauí (2016), crimes de misoginia praticados pelo
deputado federal Jair Messias Bolsonaro contra a deputada federal Maria do
Rosário Nunes (PT-RS), ministro da educação recebendo em seu gabinete, para
185
debater projetos voltados à educação, o grupo Revoltados On Line juntamente
com um ator pornô que assumiu ter estuprado uma mulher em cadeia nacional e
um aumento de canais conservadores no You Tube, onde pessoas postam vídeos
que atacam os movimentos feministas e estimulam a violência contra as
mulheres.
Na última década presenciamos um aumento considerável de crimes de
gênero estimulados, talvez, por permanências patriarcais na constituição das
relações entre os sexos, por mazelas políticas apoiadas por grupos religiosos de
matriz cristã e por um conservadorismo que tem criado estratégias interessadas
em interromper debates voltados às sexualidades e diversidades.
O projeto de lei n.º 1301/2015 acompanhado pelos projetos de
n.º 7180/2014, nº 7181/2014, nº 1859/2015, nº 2731/2015, nº 5487/2016 e n.º
867/2015 tentam impedir a discussão de gênero na escola, dentre diferentes
questões. Segundo seus propositores, o debate de gênero, identidade e
sexualidades, vistos por eles, como questões estritamente ideológicas, em nada
contribuiriam no processo de formação dos estudantes. Cabe perguntar aqui o
que seria ou não ideológico neste campo de disputas e interesses? Qual o aspecto
do gênero caberia ao professor ensinar? Apenas o modelo patriarcal e a vitória
da “potência masculina” sobre a “fragilidade feminina”? Como ignorar estas
questões, uma vez que vivemos em um país no qual dezenas de mulheres são
assassinadas diariamente? Como ignorar ser a identidade de gênero construída,
quando nos deparamos com crimes de misógina e homofobia
institucionalizados? De que forma os professores podem ensinar história, por
exemplo, e ignorar que diariamente dezenas de mulheres ou integrantes da
comunidade LGBTT são vitimas das violências de gênero? Acredito que tantas

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perguntas servirão para que reflitamos acerca dos problemas ocasionados por
estes projetos. Passo agora a mostrar, rapidamente, as alterações propostas por
cada um deles.

 Projeto de Lei n.º 1301/2015, proposto pelo deputado estadual


Luiz Fernando Machado (PSDB-SP).
“Dispõe sobre a criação, no sistema estadual de ensino, do Programa
186
Escola Sem Partido, visando à neutralidade política, ideológica e
religiosa do Estado”. Este projeto está em votação na Assembleia
Legislativa do estado de São Paulo e conta com forte apoio de parcela da
sociedade civil. Em suma, ele pretende impedir o trabalho do professor,
retroagindo as práticas de ensino para um modelo “bancário”, positivista
e alienante. A laicidade do ensino deixaria de existir e passaria a respeitar
exclusivamente aos princípios cristãos. Todos os temas que estiverem em
confronto com esta lei permaneceriam proibidos.

 Projeto de Lei n.º 7180/2014, proposto pelo deputado federal


Erivelton Lima Santana (PSC-BA). Licenciado em História pela
Universidade Católica de Salvador. Funcionário público no Tribunal de
Justiça da Bahia e diretor financeiro da Igreja Evangélica Assembleia de
Deus, Salvador, Bahia.
“Altera o artigo terceiro da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, de 20
de dezembro de 1996 (Lei n.º 9394-LDB)”. Caso seja aprovado, o artigo
terceiro da LDB viria acrescido do inciso “XIII – respeito às convicções
do aluno, de seus pais ou responsáveis, tendo os valores de ordem
familiar precedência sobre a educação escolar nos aspectos relacionados
à educação moral, sexual e religiosa, vedada a transversalidade ou
técnicas subliminares no ensino desses temas.” De uma forma geral, o
professor perderia a liberdade para ensinar e a autonomia, pois estaria
submetido a uma rede de controle que parte da família da criança e vai
dar em seus líderes religiosos. A laicidade do ensino deixaria de existir e

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passaria a respeitar exclusivamente os princípios cristãos,


especificamente aqueles defendidos pelas religiões neopentecostais.

 Projeto de Lei nº 7181/2014, proposto pelo deputado federal


Erivelton Lima Santana (PSC-BA).
“Dispõe sobre a fixação de parâmetros curriculares nacionais em lei com
vigência decenal e submete estes parâmetros curriculares às convicções
187
dos alunos, de seus pais ou responsáveis, tendo os valores de ordem
familiar precedência sobre a educação escolar nos aspectos relacionados
à educação moral, sexual e religiosa, vedada a transversalidade ou
técnicas subliminares no ensino desses temas.” Novamente a atividade
docente estaria sob o controle “panóptico” das instituições que
historicamente dominam – leis, estado, igreja e família – o indivíduo e
determinam a forma como deve agir no ambiente social.

 Projeto de Lei nº 1859/2015, proposto pelo deputado federal


Izalci Lucas Ferreira (PSDB-DF). Pedagogo e contador (Associação de
Ensino Unificado, Brasília) e presidente dos Estabelecimentos
Particulares de Ensino do Distrito Federal, Brasília. Existem outros
quinze proponentes.
“Acrescenta parágrafo único ao artigo terceiro da Lei de Diretrizes e
Bases da Educação, de 20 de dezembro de 1996 (Lei n.º 9394-LDB)”. O
artigo terceiro passaria a ter apenas o seguinte texto: “A educação não
desenvolverá políticas de ensino, nem adotará currículo escolar,
disciplinas obrigatórias, ou mesmo de forma complementar ou
facultativa, que tendam a aplicar a ideologia de gênero, o termo ‘gênero’
ou ‘orientação sexual’”. Isto significa que não se falaria mais em gênero
e nem em sexualidades. Os professores ignorariam que os estudantes e
todos, inclusive ele, são seres sexuados e que há um “nomadismo
indenitário”. Seriam instalados instrumentos de vigília e punição
institucionalizados. Falar em gênero, sexualidades e identidades sexuais
seria uma contravenção.

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 Projeto de Lei nº 2731/2015, proposto pelo deputado federal


Victorio Galli Filho (PSC-MT). Músico e médico veterinário (Pontifícia
Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, Minas Gerais)
e presidente da Comunidade Canção Nova Minas, Belo Horizonte, Minas
Gerais.
“Altera a Lei n.º 13005 de 25 de junho de 2014 que estabelece o Plano
188
Nacional de Educação (PNE)”. O artigo segundo desta lei passaria a ter
um parágrafo único que dispõe o seguinte: “É proibida a utilização de
qualquer tipo de ideologia na educação nacional em especial o uso da
ideologia de gênero e seus derivados, sob qualquer pretexto.” Novamente
seria aprovada uma medida restritiva, que impediria o debate em torno
da diversidade, conforme garantida na constituição. Este e todos os
projetos de lei abordados impediriam professores de ensinar e
silenciariam grupos historicamente marcados pela violência, pela
exclusão e pelo silêncio. Viveríamos uma espécie de ditadura
conservadora e cristã, uma vez que todos os projetos de lei se baseiam
em princípios cristãos e são propostos por líderes religiosos, ou adeptos
de religiões cristãs evangélicas.

 Projeto de Lei nº 5487/2016, proposto pelo deputado federal Eros


Biondini (PTB-MG). Professor de Teologia na empresa Faculdades
Evangélicas Integradas Cantares de Salomão – FEICS, Cuiabá, Mato
Grosso.
“Institui a proibição de orientação e distribuição de livros às escolas
públicas pelo Ministério da Educação e Cultura que verse sobre
orientação de diversidade sexual para crianças e adolescentes.” Em seu
artigo primeiro “fica proibido o Ministério da Educação e Cultura a
orientar e distribuir às escolas públicas que versem sobre orientação à
diversidade sexual de crianças e adolescentes, em consonância com a Lei
13005/2014 (PNE)”. Este projeto consolidaria toda uma estrutura de

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censura imposta por agentes que confundem a atuação política com suas
crenças religiosas.

 Projeto de Lei nº 867/2015, proposto pelo deputado federal Izalci


Lucas Ferreira (PSDB-DF).
Este projeto “inclui, entre as diretrizes e bases da educação nacional, o
Programa Escola Sem Partido”. Projetos semelhantes estão sendo
189
propostos em diferentes estados brasileiros. Com a aprovação deste
projeto se espera combater uma hipotética “doutrinação” que, segundo
seus proponentes, estaria sendo praticada por professores durante as
aulas. Este projeto utiliza o pressuposto de uma inventada “potência”
docente no exercício da “doutrinação” e ignora a inteligência dos
estudantes na tentativa de mascarar as suas reais intenções: alienar, por
meio de um discurso religioso, misógino, sexista e homofóbico e instituir
o controle dos corpos, pulsões e opções humanas.

Acredito que todos os dados apresentados mereçam ser encarados com


seriedade e cuidado. Espero que novos debates sejam realizados em torno das
problemáticas aqui apontadas. Tenho a convicção em destacar que a aprovação
de projetos, tais como os mencionados, só viria agravar ainda mais a dura
condição de violência ás quais mulheres e outros grupos de gênero estão
cotidianamente submetidos. A única diferença seria que, com aprovação dessas
leis, viveríamos em um país onde, culturalmente e juridicamente, se reconhece
por legítima a violência contra mulheres e agentes pertencentes à comunidade
LGBTT. Creio que vivemos no Brasil, uma “cultura do estupro” alimentada, em
sua vez na cultura machista, sexista, misógina e homofóbica. Destaco isso, pois
é exatamente o que os projetos de lei defendem como legitimo: o poder
masculino e a heteronormatividade branca e cristã. E isto não é apenas por conta
do texto dos projetos, mas também por seus propositores, ou devo ignorar ser
seus defensores agentes abusivos que não se intimidam em dizer, em rede
nacional, relacionar-se sexualmente com uma mulher sem seu consentimento?
Devo ignorar o aumento de casos de crimes de gênero? Devo ignorar serem os

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autores dos projetos, personalidades políticas muito comprometidas com suas


crenças religiosas? Devo ignorar a luta das mulheres para “sair” dos lugares de
dominação? Devo ignorar que todos, sem preconceito de classe, raça ou gênero,
têm o direito de viver e gozar da liberdade?
As proposições e acontecimentos mencionados ao longo do artigo
evidenciam diferentes questões que merecem maiores reflexões. Num mergulho
mais profundo podemos compreender que as manifestações de mulheres, os
190
projetos de lei e a mobilização de grupos contrários ao debate de gênero revelam
a ponta de um enorme iceberg que precisa ser discutido: as incompreensões do
gênero, as violências de gênero, as sexualidades e diferentes identidades sexuais.
Digo isto, pois temos experimentado diariamente um avanço rápido de
ideologias conservadores que pretendem esvaziar de significados as noções de
gênero enchendo-as de concepções estereotipadas e deturpadas. Vemos isto nas
publicações do Observatório Interamericano de Biopolitica, na ação do grupo
Revoltados On Line e nos projetos de lei que pretendem barrar uma suposta
“doutrinação” política/religiosa/sexual, por parte dos professores. Digo isso,
pois tenho acompanhado os ataques contemporâneos aos movimentos de
mulheres e feminismos, visto violências institucionalizadas contra as mulheres
em programas de televisão, no exame nacional do ensino médio e em ações de
personalidades políticas que deveriam agir de forma coletiva. A persistência da
violência contra as mulheres e as diferentes violências de gênero tem alimentado
uma cultura do medo que impede os variados agentes sociais de viverem e ser
livres. É por esta razão que tentei traçar alguns itinerários desta condição
presente. A expectativa é que novos debates aconteçam e que consigamos
converter este mundo velho em um mundo novo no qual todos possam viver sem
medo e livres.

REFERÊNCIAS

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BIOPOLITIA. Observatório Interamericano de Biopolitica. Disponível em:
http://biopolitica.com.br/index.php/cursos/40-voce-ja-ouviu-falar-sobre-a-
195
ideologia-de-genero. Acesso em 01 de junho de 2016. Obs. A página encontra-
se temporariamente suspensa. Durante a pesquisa visitei esta página algumas
vezes e vi dentre vídeos e documentos diversos um discurso misógino, machista
e fortemente intolerante às novas concepções familiares. A presença do discurso
cristão é uma característica expressiva. O combate à “ideologia de gênero”
parece ser o elemento estimulador da página virtual. Encontrei uma comunidade
no facebook, mantida pela mesma instituição.
BRANDINO, Géssica. Estupros coletivos e feminicídio: o caso de Castelo do
Piauí. Disponível em: http://www.compromissoeatitude.org.br/estupros-
coletivos-e-feminicidio-o-caso-de-castelo-do-piaui/. Acesso em 15 de maio de
2016.
BRASIL. Secretaria de Políticas para as Mulheres. Balanço 2014. Central de
Atendimento à Mulher: Disque 180. Brasília, 2015. Disponível em:
www.spm.gov.br. Acesso em: 01 jun. 2016 (adaptado).
BRASIL. Secretaria de Políticas para as Mulheres. Balanço 1º semestre de 2015.
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morta-arrastada-por-carro-da-pm/. Acesso em 02 de junho de 2016.
GOMES, Laís. Cris Vianna é vítima de racismo na internet, assim como Tais
Araújo. Foto da atriz em sua página oficial no Facebook foi alvo de comentários
preconceituosos. Assessoria diz que Cris vai tomar medidas legais cabíveis.
Disponível em: http://ego.globo.com/famosos/noticia/2015/11/cris-vianna-e-
vitima-de-racismo-na-internet-assim-como-tais-araujo.html. Acesso em 15 de
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encontrar Temer. Disponível em:
http://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,ministro-da-educacao-recebe-
alexandre-frota-nao-discrimino-ninguem--diz,10000053417. Acesso em 30 de
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REDE BANDEIRANTES. You tube. Agora é tarde 22/05/2014. Alexandre
Frota (íntegra) Vídeo (51 min 51 s). Disponível em:
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2016.

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https://www.youtube.com/user/revoltadosonline. Acesso em 02 de junho de
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RELATÓRIO 2015. Assassinato de LGBT no Brasil. Grupo Gay da Bahia
(GGB). Disponível em:
https://homofobiamata.wordpress.com/estatisticas/relatorios/. Acesso em 15 de
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06722. Acesso em 15 de nov. de 2015.
SANTANA, Erivelton. Projeto de lei nº 7181/2014. Disponível em
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ROSSI, Marina. O que já se sabe sobre o estupro coletivo no Rio de janeiro. A
polícia apontou sete suspeitos e dois deles estão detidos. A vitima deixou o Rio.
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no Brasil. Brasília: OPAS/OMS; Brasília: ONU Mulheres; Brasília: SPM; Rio
de Janeiro: Flacso, 2015. Disponível em:
http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2015/MapaViolencia_2015_mulheres.p
df. Acesso em 01 de maio de 2016.

#MENINAPODETUDO: como o machismo e a violência contra a mulher


afetam a vida das jovens das classes C, D e E. Estudo realizado pelo Énois
Inteligência jovem em parceria com os institutos Vladimir Herzog e Patrícia
Galvão. Disponível em: http://www.compromissoeatitude.org.br/enois-
inteligencia-jovem-faz-pesquisa-sobre-machismo-e-violencia-contra-jovens-e-
lanca-campanha-enois-02062015/. Existe nesta página um link que oferece

ISBN: 978-85-65957-07-6
Rio de Janeiro
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Atas do II Encontro Nacional do GT Estudos de Gênero
Rio de Janeiro, 27 e 28 de outubro de 2016.

acesso aos resultados da pesquisa. O leitor pode baixar infográfico, um arquivo


em pdf com informações da pesquisa e um vídeo com várias jovens de classes
subalternas.

199

ISBN: 978-85-65957-07-6
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Rio de Janeiro, 27 e 28 de outubro de 2016.

VIOLÊNCIA DE GÊNERO E A CULTURA DO ESTUPRO NO ESPAÇO


ACADÊMICO: VULNERABILIDADES E HISTÓRIA

Lidia M V Possas*

A temática emerge no contexto das atividades de comemoração dos 40


anos/ UNESP _ Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (1976-
200
2016)1 e das preocupações dos pesquisadores do Laboratório Interdisciplinar de
Estudos de Gênero/LIEG2 que aproveitam a data para não só (re)tomar a
trajetória histórica, mais as demandas que se colocam e avaliar as “agências”3
existentes paralelamente à sua participação acadêmica no país e internacional.

Uma das metas que está sendo debatida situa-se na urgência de garantir
efetivamente a inclusão social, de gênero e racial na vida acadêmica diante dos
inúmeros enfrentamentos e os conflitos que se fazem presentes no vivido dos
campi universitários

É evidente que uma gama de problemáticas socioculturais, econômicas


e políticas da sociedade brasileira e do país foram transportadas para o seu
cotidiano criando outras exigências inclusive curriculares, conceituais e
explicativas.

*
UNESP.
1
A UNESP é distribuída do litoral ao interior do Estado de São Paulo. Possui a
caraterística de ser multicampus atuando em 24 cidades paulistas. Conta com 134 curso
de Graduação (37.388 estudantes), 13.200 cursos de Pós-Graduação (13.2006
estudantes). Atua com 3.880 docentes titulados e mais de 7 mil funcionários distribuídos
em suas 34 unidades. Jornal Estado de São Paulo de 30/01/2016.
2
O LIEG foi fundado em 2010, na UNESP, campus de Marília, com a implementação
do Projeto de Politicas Publicas do Edital n. 20/2010 do Conselho Nacional do
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), intitulado “O impacto da(s)
Teoria(s) Feminista(s) na criação e implementação de Políticas Públicas no
enfrentamento à violência contra as mulheres: A proposta de alternativas frente ao
estudo comparativo das realidades distintas dos municípios de Marília-SP e Maringá-
PR” 2010-1014
3
Dentre as atividades propostas, salientando-se o trabalho do CEDEM/Centro de
Memória, participo de uma Mesa Redonda intitulada “Mulheres Intelectuais na
UNESP”, no dia 17/08 em São Paulo, Reitoria.

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Atas do II Encontro Nacional do GT Estudos de Gênero
Rio de Janeiro, 27 e 28 de outubro de 2016.

A violência de gênero4 e “a cultura do estupro”5 estão inseridas no


contexto de novas demandas, caracterizando as tensões e conflitos que são
gerados no cotidiano.

Com isso passei a observar a necessidade de debruçar-me sobre essa


realidade – o espaço acadêmico - como um campo de estudo, o que me exige
rever as ferramentas existentes realizando a crítica necessária diante da
produção do conhecimento cientifico que, dado as realidades complexas e
201
distintas vem debatendo uma maior autonomia intelectual, localizada, híbrida
que possibilitam introduzir novas perspectiva analíticas, e categorias dissonantes
libertando-as dos modelos e paradigmas explicativos dominantes. À exemplo
das teóricas feministas contemporâneas em sua revisão conceitual, a partir de
um “sul”, que é mais que o geográfico, tem realizado a desconstrução do olhar
do ocidente hegemônico e das tendências monolíticas emanadas pelo “norte”
(FRASER, 2007)6 o que me aproximou da construção de tradições acadêmicas
feministas “contra hegemônicas” de percepção do mundo, da atuação das
mulheres e das relações de gênero em contraponto com as propostas
(monolíticas) ocidentais (MOHANTY, 2010, p. 75).

4
Essa noção de violência de gênero entendida como violência dirigida à mulher, tem
sido alvo de discussão no Brasil desde o início dos anos de 1980, possuindo
complexidade devido as variações interpretativas e vozes. Constitui-se em um campo
teórico-metodológico sendo alvo das reivindicações do movimento feminista brasileiro
e internacional. Ela ocorre motivada pelas desigualdades baseadas na condição de sexo,
tendo no universo familiar as suas raízes devido que as relações de gênero se constituem
em relações hierárquicas. (ALMEIDA)
5
Por que falamos em “ cultura do estupro?
https://nacoesunidas.org/por-que-falamos-de-cultura-do-estupro/
Cultura do estupro” é um termo usado para abordar as maneiras em que a sociedade
culpa as vítimas de assédio sexual e normaliza o comportamento sexual violento dos
homens. Ou seja: quando, em uma sociedade, a violência sexual é normalizada por meio
da culpabilização da vítima, isso significa que existe uma cultura do estupro. “Mas ela
estava de saia curta”, “mas ela estava indo para uma festa”, “mas ela não deveria andar
sozinha à noite”, “mas ela estava pedindo”, “mas ela estava provocando” – estes são
alguns exemplos de argumentos comumente usados na cultura do estupro.
6
Estaria me aproximando de uma abordagem que se faz presente na academia, desde os
anos 70, sendo denominado de estudos pós-coloniais na medida em que revê as
especificidades das sociedades, das relações de poder partir do lugar dos sujeitos, sem
intermediações frente ao processo de globalização e da construção do capitalismo pelo
Ocidente. (BALESTRINI, 2013)

ISBN: 978-85-65957-07-6
Rio de Janeiro
Ed. Anpuh-Rio
Atas do II Encontro Nacional do GT Estudos de Gênero
Rio de Janeiro, 27 e 28 de outubro de 2016.

Portanto a minha proposta tem como ponto de partida uma revisão do


olhar epistemológico presente na história, de modo a garantir que uma revisão
das imagens e representações que temos de nossa realidade latino-americana,
inclusive acadêmica, me possibilitando sair da direcionalidade de relações de
poder convencionais produzidas pelas teorias existentes. Um dos exemplos dessa
postura intelectual está no conceito “do relativo subdesenvolvimento do Terceiro
Mundo” (que é nada menos do que injustificadamente o hibrido processo de
202
desenvolvimento com um caminho em separado tomado pelo Ocidente em seu
desenvolvimento do capitalismo ”). Esses pensamentos vêm sendo refletido
inclusive sobre as mulheres terceiro mundistas, como um grupo ou categoria
definida, a priori, que reforça estereótipos e as exclui:
[...] as religiosas (leia-se ‘não progressista’), orientadas para
a família (leia-se ‘tradicional’), menores legais (leia-se ‘elas-
são ainda-não-conscientes-de-seus-direitos’), analfabetas
(leia-se ‘ignorantes’), domésticas (leia-se ‘atrasadas’) e,
algumas vezes, revolucionárias (ler ‘o seu país-está-em-um-
estado-de-guerra-onde-há-que-lutar!’). “Isso é como a
‘diferença de terceiro mundo’ é produzida” (MOHANTY,
1984, p. 352)

Pretendo me colocar na contramão dessa perspectiva e observar os


conflitos existentes e as relações de gênero que são muitas vezes sutis, de várias
ordens e nuances. No espaço universitário, vivenciamos nas relações cotidianas
praticas essencialmente misóginas, conservadoras, elitistas contraditórias que
acabam sendo excludentes e não condizem com os discursos e a retorica de uma
autonomia endógena, um espaço de pessoas “ esclarecidas”. As transformações
do mundo contemporâneo, os avanços políticos e sociais obtidos por aqueles que
durante muito tempo foram considerados os silenciados, agora, são sujeitos de
direito e de representatividade. As “minorias”7 alçaram conquistas inéditas,

7
As minorias sociais são as coletividades que sofrem processos de estigmatização e
discriminação, resultando em diversas formas de desigualdade ou exclusão sociais,
apesar de constituírem a maioria numérica da população. Nesse sentido incluem além
das mulheres, os negros, indígenas, imigrantes, homossexuais, trabalhadores do sexo,
idosos, moradores de vilas (ou favelas), portadores de deficiências, obesos, pessoas com
certas doenças, moradores de rua, ex-presidiários.

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embora ainda enfrentem situações onde são consideradas como “diferentes” e,


portanto, sem a devida legitimidade pelos saberes dominantes.

Situando o lugar do discurso em que me coloco, pretendo aproximar-


me dessas complexidades e contradições com um estudo abordando as práticas
sociais e a violência de gênero8 vivenciadas no ambiente universitário – UNESP
– analisando, o que estou entendendo por conflitos gerados pela presença de
comportamentos sexistas, misóginos e naturalizados da “cultura do estupro”. 9
203
As feministas norte-americanas pós-coloniais vêm defendendo vários
movimentos na perspectiva do dismantle rape culture (GILMORE, 2011).10

Durante minha experiência docente (1995-2016), tive a oportunidade


de ouvir muitas falas de estudantes e as razões do(s) silêncio(s) que de certa
maneira “imobilizavam” as vítimas de violência, sendo o medo, a exposição
pública que levaram algumas delas a opção de abandonar a vida universitária.
Penso em penetrar mais a fundo nas distintas narrativas e depoimentos das
“vítimas/sobreviventes” decorrente desse tipo de violência incluindo os
comportamentos e valores observados nas atividades estudantis como os trotes

8
Nessa proposta, constitui-se de um campo teórico-metodológico que se fundamenta
nos estudos da opressão e dos conflitos que marcam a vida das mulheres de classes,
raças, religiões, culturas diferentes e para além de uma visão binária e reducionista
entre os sexos, em consonância os movimentos feministas pós –coloniais que levam
em consideração as dimensões micropolíticas, de subjetividades e de lutas específicas,
quanto aos contextos macropolíticos dos sistemas políticos e econômicos globais sem
descuidar de análises particulares, singulares. MATOS, M., 2010.
9
A expressão "cultura do estupro" é utilizada desde anos 70, para indicar a existência
de um ambiente onde esse tipo de crime, de violência em relação à mulher torna-se
naturalizado, justificado pela presença de uma cultura ( valores e normas) que confirma
a desigualdade social existente entre homens e mulheres, sendo estas vistas como
indivíduos inferiores e, muitas vezes, como objeto de desejo e de propriedade do homem
-- o que autoriza, banaliza ou alimenta diversos tipos de violência física e psicológica,
entre as quais o estupro. "Ela provocou”, “ela estava de saia curta”, “ela não deveria
sair sozinha”, “ela não deveria estar na rua naquela hora”, “ela não deveria ter bebido”
ou “ela é uma mulher fácil” -- quando surge esse tipo de comentário que coloca em
dúvida a denúncia da vítima, estamos diante de um traço da famigerada cultura do
estupro”. Cultura do estupro: Você sabe de que se trata. Carolina Cunha em 6/06/2016.
http://vestibular.uol.com.br/resumo-das-disciplinas/atualidades/discussao-o-brasil-
vive-em-uma-cultura-do-estupro. Acesso em julho de 2016
10
GILMORE, Stephanie. On The Issues Magazine , Wednesday, 09 February 2011.
http://truth-out.org/archive/component/k2/item/94414:disappearing-the-word-rape.
Acesso em 2/07/2016

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(proibidos na UNESP, porém mantidos com outras significações e práticas), as


festas e os relacionamentos “relâmpagos” (o ato de ficar com...). Por que persiste
essa espécie de violência, seja física ou psicológica, e quais as razões em um
ambiente acadêmico e com uma população de formação superior? Que
alternativas são possíveis de observar? Como enfrentam a vulnerabilidade frente
a frequente retaliação e a permanência de assédio e até de agressões? Como a
UNESP tem convivido e enfrentado as tensões e os conflitos de relação de
204
gênero, nesses 40 anos de uma trajetória?

Para obter a concretude do que estou problematizando fiz um


levantamento inicial de notícias em distintos sites e revistas online que
divulgavam casos: “Como as universidades brasileiras abafam os casos de
assédio sexual”11; “Alunas da Rural relatam casos de estupro na universidade”12;
“O que está por trás da violência dentro das universidades?”13e “Fórum Fale sem
Medo: Violência contra mulheres no ambiente universitário”14.

Desde 2014, o documentário The Hutting Ground15 chamou a minha


atenção ao colocar em evidência os casos de estupro nas principais universidades
americanas. As relações de gênero e de poder praticadas pelas conhecidas

11
Revista Galileu -
http://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2016/02/rompendo-o-silencio-
vitimas-de-violencia-nas-universidades-brasileiras-contam-suas-experiencias.html.
Acesso 3/2016
12
Ver http://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2016-04-04/alunas-da-rural-relatam-casos-
de-estupro-na-universidade.html. Acesso 3/2016
13
A revista Veja divulgou uma matéria com vários depoimentos. Uma estudante
perante a Assembleia Legislativa/SP denunciou que tinha “sido estuprada em 2011 e
que, na ocasião, procurou a direção do curso. Em resposta, membros da diretoria teriam
tentado convencê-la a não denunciar o crime.http://veja.abril.com.br/educacao/o-que-
esta-por-tras-da-violencia-dentro-das-universidades/ Acesso em março/2015
14
O Instituto Avon, contando com a parceria do Instituto Patrícia Galvão, Ministério
Público de São Paulo, Defensoria Pública de São Paulo e Ministério das Mulheres,
Igualdade Racial e Direitos Humanos, promoveu a terceira edição do FÓRUM FALE
SEM MEDO. São Paulo, 3 de dezembro de 2015.
http://www.compromissoeatitude.org.br/instituto-avon-promove-forum-fale-sem-
medo-violencia-contra-a-mulher-no-ambiente-universitario-sao-paulo-03122015/
Acesso janeiro/2016.
15
Esse documentário tornou-se referência de estudo e, principalmente de denúncia
frente os casos de abusos e violência sexual nos campos e fraternidades norte
americanas. Ver crítica ao filme no Plano crítico. http://www.planocritico.com/critica-
the-hunting-ground/. Acesso março de 2016.

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“fraternidades” (clubes esportivos e preferencialmente masculino) tinham um


caráter violento e machista . E o mais relevante foi o descaso frente as tentativas
de denuncia das vitimas ( geralmente moças) pelas autoridades locais e
instituições de ensino. Recentemente para enfrentar essa situação as estudantes
organizaram vários coletivos dando visibilidade aos relatos e as experiências
traumáticas vividas pelas jovens e que tiveram repercussão na imprensa e em
vários campi, com a adesão e ampliação de uma rede e contatos.
205
É evidente que reconheço as especificidades da realidade e a estrutura
das universidades situadas ao Norte, distintas de nossas universidades no
hemisfério Sul/Brasil. No entanto observei que, nos últimos anos as denúncias
de estudantes brasileiras, em vários estados da federação, ganharam força e
significado com a organização de resistências e o apoio de procuradoras e
advogadas das vítimas.

Um levantamento “inédito” do Instituto Avon ao Data Popular foi


realizado em cinco regiões do Brasil, sendo ouvidos 1,8 mil estudantes e chegou-
se a seguinte afirmação: “Quase 70% das mulheres já sofreram violência em
universidades”16.

Foi justamente diante dos depoimentos de várias estudantes brasileiras,


em momentos diferentes que senti o que o historiador chama de “fato histórico”.
Para mim há o fato quando sugere a presença de muitas memórias, muitos
testemunhos. Portanto, há provas/documentais que alguma coisa aconteceu e
que possui uma memória vivida, com testemunhos oculares. Porém poderá ficar
hibernando nos registros escritos, iconográficos ou orais se historiadoras
sensíveis aos ruídos e, ao próprio oficio não enfrentarem a tarefa de criar o fato,
investigando. (RICOEUR, 2007, p. 189).

16
A reportagem que veiculou o resultado da pesquisa dizia ainda mais: “violência contra
as mulheres ainda não exorcizou o fantasma da desigualdade de gênero”.
h.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2015/12/quase-70-das-mulheres-ja-sofreram-
violencia-em-universidades-mostra-pesquisa-4921846.html . Acesso em janeiro/2016.
O III Fórum Fale Sem Medo realizado em São Paulo, pelo Instituto Avon -
dezembro/2015 evidenciou um panorama critico e de violências com as narrativas das
jovens presentes. Contou com a participação de varias autoridades, promotoras,
feministas e movimentos de direitos humanos. Ver
https://www.youtube.com/user/falesemmedo

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O fato não está na simples narração. É sempre construído, a partir de


um lugar, por procedimento documental, epistemológico e proposicional
visando a qualificação veritativa da prova documental e não será encontrado nos
níveis da explicação, segundo Ricoeur (2007)17.

Ele se distingue sensivelmente daquilo que percebo por


“acontecimento” Novamente me referencio em Ricoeur (2007) quando nos
lembra que a recuperação do acontecimento é sempre bem-vindo, pois ele é
206
justamente sobre “a coisa que se fala, e principalmente “a propósito de que”.
(POSSAS, 2014) Assumo com a equipe do Laboratório Interdisciplinar de
Estudos de Gênero/LIEG, na UNESP, campus de Marília essa tarefa de
construção histórica, pois este é um tema recorrente e o mais importante: tem
uma história.

Na UNESP, em outubro de 2010 a comunidade unespiana foi


surpreendida pelo “rodeio de gordas” que provocou significativo desconforto à
imagem da Universidade, no evento cultural e esportivo que reúne estudantes
dos campi da UNESP, o InterUNESP (ou apenas Inter). Anunciado à época
como o maior da modalidade no país, o Inter teria reunido, na cidade de
Araraquara, cerca de 15 mil universitárias/os de 23 campi da universidade. Ao
ser entrevistado, um dos organizadores do "rodeio" e criador de uma comunidade
sobre o tema, no Orkut18, disse que o desafio teria sido "só uma brincadeira".
Quer representações estariam em jogo nessa “brincadeira”?

Em depoimento ao jornal Folha de São Paulo (2010) a advogada de uma


das jovens agredidas afirmou que sua cliente estaria profundamente abalada

17
Paul Ricoeur, A memória, a historia, o esquecimento. Campinas Editora da
UNICAMP, 2007, p. 189-192
18
Várias matérias podem ser encontradas a respeito. A pesquisa prévia remeteu a uma
mesma fonte, o jornal Folha de São Paulo. Em algumas delas existe a afirmação de que
a página no Orkut foi criada 4 dias depois de terminado o InterUNESP e que lá estariam
as regras para os próximos desafios, inclusive com premiações para os que se
destacassem. http://www.brasil247.com/pt/247/brasil/13848/Preconceito-contra-
gordas-agora-%C3%A9-crime.htm Em outra fonte (CARRIEL, 2010) há a menção de
que a comunidade existia desde 2006 e que à época em que foi excluída possuía 23
membros. Por sua riqueza informativa e de modo a compor os dados necessários para a
realização da pesquisa, fontes jornalísticas e de redes sociais virtuais, como as citadas
ao longo do projeto, serão utilizadas também como corpus documental.

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psicologicamente e sem condições de retornar às aulas. “Teme ficar conhecida


como ‘a gorda do rodeio'", teria dito à época. Os organizadores do “rodeio” eram
“colegas” do mesmo campus. Não teria sido a jovem a única vítima, mas muitas,
diretamente (cerca de 50 a 60) e outras indiretamente atingidas. A menina diante
da dor pelo ocorrido naquele momento, levou-a a abandonar os espaços comuns
da universidade, as rotinas de aulas e os trabalhos, receosa de que não houvesse
algum tipo de receptividade e garantia de defesa por direito. Uma sindicância foi
207
aberta pela direção do campus de Assis, acompanhada dos olhares da imprensa
e de alunas/os que protestaram contra o ocorrido. Após consulta aos
instrumentos legais de que dispunha, a instituição deliberou sobre a punição:
“suspensão de dois alunos por apenas cinco dias das atividades escolares”.

Apesar de ter sido relatado como um caso isolado, ocorrido fora das
dependências da universidade, outras agressões movidas por preconceito contra
mulheres consideradas acima do peso são relatadas por universitários. Mayara
Curcio (2010), aluna do campus de Assis, externou sua indignação em um blog
ao se posicionar sobre a agressão envolver pelo menos dois alunos do mesmo
campus, no caso futuros psicólogo e professor.

Uma matéria divulgada sobre o ocorrido entre discentes da Faculdade


de Medicina de Botucatu/UNESP é sintomática de que existe uma situação social
e educacional que se apresenta fora do controle da própria instituição, das
autoridades competentes e da sociedade: “Apontada como uma das mais
violentas de SP, Unesp de Botucatu ainda registra trote da Klu Klux Klan e atos
misóginos.”19
Apologia ao estupro segue firme, denuncia coletivo
Em entrevista à Rede Brasil Atual, a estudante Marina
Barbosa, da Faculdade de Medicina da UNESP de Botucatu e
integrante do Coletivo Genis, afirmou que a apologia ao
estupro e a misoginia seguem sendo registradas na instituição,
mesmo depois da CPI que aconteceu na Alesp. “A maioria das
letras (da bateria) é bastante machista, pornográficas,
obscenas ou homofóbicas (...). Eles ofendem as meninas das

19
http://www.brasilpost.com.br/2015/03/30/unesp-botucatu-klu-klux-
klan_n_6968590.html Acesso em 20/08/2015.

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outras faculdades, falam que vão estuprar as meninas das


outras faculdades”, comentou Marina.20 (grifos no original)

Situação como essas tem se tornando cada vez mais visíveis,


principalmente devido a divulgação das mídias e das redes e com isso observo
que para contrapor o discurso naturalizado, emerge o ativismo de “coletivos” 21
para enfrentar esse e todo tipo de exclusão e estereótipos de desigualdade.

Nesse sentido sinto que há a urgência de rever o colonialismo jurídico 208


presente em nossas instituições e que recentemente vem sido denunciado pelas
tendências do feminismo acadêmico e contemporâneo frente aos estudos pós-
coloniais (ADELMAN, 2009; PISCITELLI, 2016), principalmente as narrativas
femininas de subalternização (BIDASSECA, 2011)22. Pretendo ficar atenta aos
“sujeitos racializados, sexualizados e colonizados e os espaços desses sujeitos
em diferentes discursos”.

É evidente que há uma historicidade a ser buscada e analisada. Essas


situações de agressões, estupro não nasceram de uma tabula rasa, mas
evidenciam uma longa permanência de práticas de abuso, de violência de gênero,
como do descaso e, principalmente a impunidade dos agressores, mesmo com a

20
A CPI de que trata o trecho citado refere-se à “CPI das Universidades” instalada pela
Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) em dezembro de 2014 e concluída em
março de 2015. Produziu um relatório de 194 páginas “nas quais foi relatado uma série
de barbaridades vividas no mundo acadêmico paulista. Alguns dados espantam”.
Disponível em: http://www.brasilpost.com.br/2015/03/13/cpi-universidades-
sp_n_6863322.html O referido relatório também está sendo utilizado como fonte
documental para a pesquisa.
21
São grupos de jovens universitários ingressantes nas universidades para chamar a
atenção para problemas ainda não reconhecidos nas agendas prioritárias, como o de dar
visibilidade à luta das mulheres, dos homossexuais . Ver Luisa Scherer, do Coletivo
Jornalismo sem Machismo (UFSC) e com a Julia Dolce, do 3 Rosas (PUC-SP.)
Segundo elas “a empatia que rola dentro dos coletivos faz com que cada participante
se sinta amparada e empoderada. http://capricho.abril.com.br/vida-real/tudo-voce-
precisa-saber-coletivos-feministas-942780.shtml. Acesso em abril de 2016
22
BIDASSECA, Karina "Mujeres blancas buscando salvar a mujeres color café":
desigualdad, colonialismo jurídico y feminismo postcolonial. Andamios. Revista de
Investigación Social, vol. 8, núm. 17, sep-dic., 2011, pp. 61-89. Nesse artigo autora
investe na teoria das vozes . Ressalta um aspecto que há continuos intentos de algunas
voces feministas de silenciar a las mujeres de color/no blancas o bien, de hablar por
ellas.

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Lei Maria da Penha (2006) que tornou crime todo ato de violência contra as
mulheres.

As práticas e as relações estudantis, de docentes e funcionários


vivenciadas na Universidade, sem que ela enfrente de maneira mais assertiva,
tem um caráter de manutenção das oposições binárias e hierárquica do masculino
e feminino, de confronto das identidades múltiplas que no cotidiano acabam por
aprofundar as desigualdades provenientes de vários marcadores sociais como de
209
gênero, classe, de raça, de sexualidade, de confissão religiosa e partidária.

Aprofundar as análises de como as raízes de gênero de nossa cultura


ocidental baseada na hegemonia branca, masculina, heterossexual e cristã
transformaram os demais em diferentes, com o sentido de desiguais, fora da
“norma”, sem legitimidade de uma fala ou de serem ouvidos. Há de maneira
velada ou mesmo explicita impedimento das diferentes corporificações que sem
chance de uma existência válida na denominada normalidade, são apenas os
subalternos, o colonizado e irremediavelmente heterogêneo (SPIVAK, 2010:
55-56).

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210

ST 2
Corpo, Violência de Gênero e
História

Coordenação
Profa. Dra. Maria Beatriz Nader
(UFES)

Profa. Dra. Juçara Luzia Leite


(UFES)

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A VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES IDOSAS EM DENÚNCIAS:


O CASO DA DEAM E DA DAPPI DE VITÓRIA – ES, 2002 – 2012

Alex Silva Ferrari*

Luciana Silveira**

Introdução
211
Há algumas décadas, o estado do Espírito Santo e, em especial, a
capital, Vitória, tem se destacado no cenário nacional pelos altos índices de
violência. Maria Beatriz Nader (2009) relaciona o fenômeno ao crescimento
demográfico ocorrido a partir dos anos de 1970, quando foram implementados
os Grandes Projetos Industriais no estado. A instalação da população que
chegava em Vitória, atraída pelas ofertas de trabalho nas indústrias recém-
surgidas, num espaço reduzido e em condição social desigual promoveu,
segundo a autora, um quadro de violência nunca antes experimentado pelos
moradores de Vitória.

E, apesar dessa violência atingir aos mais diversos grupos sociais, o


estado e a capital lideram, principalmente, os índices relacionados a algumas
manifestações específicas do fenômeno. Segundo dados do Mapa da Violência
publicado pelo Instituto Sangari no ano de 2014, o estado tem a segunda maior
taxa de assassinatos do país. Quanto ao feminicídio, a unidade federativa do
Espírito Santo ocupa o primeiro lugar do ranking. A cidade de Vitória também
está na primeira posição em comparação com as outras capitais brasileiras no
que diz respeito ao assassinato de mulheres.

Diante disso, no ano de 2008, o Laboratório de Estudos de Gênero,


Poder e Violência da Universidade Federal do Espírito Santo (LEG-UFES)

*
Mestre em História pelo Programa de Pós-Graduação em História Social das Relações
Políticas da Universidade Federal do Espírito Santo. Integrante do Laboratório de
Estudos de Gênero, Poder e Violência (LEG-UFES).
**
Mestra em História pelo Programa de Pós-Graduação em História Social das Relações
Políticas da Universidade Federal do Espírito Santo. Integrante do Laboratório de
Estudos de Gênero, Poder e Violência (LEG-UFES).

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iniciou o projeto de Mapeamento da Violência Contra a Mulher em Vitória - ES


com o objetivo de compreender as características que envolviam os casos de
agressões às mulheres na cidade. Diferentemente da pesquisa anteriormente
citada, o projeto do LEG-UFES focou na modalidade de violência não letal, que
consiste em ameaças e/ou agressões de natureza física, psíquica e moral.

Esse mapeamento iniciou-se no final do ano de 2008 e estendeu-se até


o ano de 2014, foi executado em duas partes, e envolveu cerca de vinte
212
pesquisadoras e pesquisadores, todos oriundos dos cursos de graduação e pós-
graduação em História da UFES. A primeira parte do projeto consistiu na cópia
do conteúdo dos BOs para uma ficha confeccionada exclusivamente para essa
função. Já a segunda parte consistiu na inserção das informações coletadas em
um banco de dados do Microsoft Access, também confeccionado para atender as
necessidades do projeto, permitindo a catalogação e análise de todos os registros.
Ao final, o mapeamento catalogou 12.255 casos registrados na DEAM/Vitória
entre os anos de 2002 e 2010.

No ano de 2012, tendo em vista ampliar o mapeamento em andamento


na DEAM, iniciou-se o levantamento dos dados referentes aos boletins de
ocorrência registrados na Delegacia de Atendimento e Proteção à Pessoa Idosa
de Vitória, a DAPPI, também conhecida como Delegacia do Idoso. O objetivo
era tratar de uma questão muitas vezes invisibilizada quando se trata de discutir
a violência de gênero que é a violência contra as mulheres idosas, especialmente
a praticada pelos filhos e netos.

O período de coleta das fontes na DAPPI foi de março de 2012 a maio


de 2013. Durante esse tempo, procedeu-se a transcrição das fontes referentes aos
anos de 2010 a 2012, que correspondem aos dois primeiros anos de existência
da delegacia. Para tanto, serviu-se das fichas criadas para o registro dos dados
da DEAM, com algumas adaptações, uma vez que os boletins das duas
instituições possuem algumas diferenças nas suas estruturas.

No presente trabalho, propõe-se uma análise comparativa das


ocorrências registradas na DEAM dos anos de 2002 a 2010, em que as vítimas
são mulheres idosas, e os casos registrados na DAPPI, durante os anos de 2010

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e 2012, de modo a perceber possíveis aproximações e especificidades dos dados


e da forma de tratamento dos casos atendidos.

A Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher da capital do


estado do Espírito Santo tem como função o recebimento de denúncias e
investigação de casos de violência contra a mulher, desempenhando um papel
de suma importância para esse que é um problema social de destaque no Espírito
Santo.
213
Ao revisitar a história da DEAM/Vitória, Nader (2010) destaca que no
ano de sua inauguração, 1985, quando ainda se chamava Delegacia
Especializada no Atendimento à Mulher do Espírito Santo (DEAM/ES), a
delegacia especializada de Vitória funcionou numa sala da superintendência da
Polícia Civil do estado, onde não só era de difícil acesso para as vítimas, mas
também a execução das atividades judiciais era feita dentro de condições
mínimas. Esse quadro só mudou no ano de 2003, quando a unidade foi
transferida para um espaço físico próprio e independente, que consiste em uma
casa residencial adaptada para funcionar como delegacia.

A DAPPI, por sua vez, constitui-se na primeira e única delegacia


especializada do tipo do Estado. É de criação mais recente, datando de 02 de
setembro de 2010, passando a funcionar em dezembro de 2010. Por isso, as
fontes aqui utilizadas referem-se mais especificamente ao período de dezembro
de 2010 a dezembro de 2012.

Com a criação da DAPPI, foi extinto o Núcleo de Proteção e


Atendimento à Terceira Idade (NUPATI), que segundo Lizete de Souza
Rodrigues (2006), tinha sede na Delegacia da Mulher de Vitória e contava com
o apoio do serviço de Disque Denúncias, através do qual realizava o
levantamento dos delitos e o encaminhamento para exames, laudos médicos,
atendimento psicossocial e para outros órgãos competentes.

A DAPPI está localizada em Vitória, mas atende, além da capital do


estado, a todos os demais municípios que compõem a Região Metropolitana da
Grande Vitória, a saber, Cariacica, Fundão, Guarapari, Serra, Viana e Vila Velha

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e, por vezes, algumas cidades do interior. O seu trabalho principal consiste em


receber denúncias de crimes praticados contra pessoas idosas, homens e
mulheres, entendidas nesse contexto como aquelas que possuem 60 anos ou
mais. Está instalada no térreo do prédio da Chefatura da Polícia Civil, localizado
no Bairro de Santa Luiza, em um espaço de 25 m2, que, segundo informações
dos funcionários, anteriormente, funcionava como um almoxarifado. Ou seja,
assim como a DEAM em seus primeiros anos de existência, não possui espaço
214
próprio.

Análise das denúncias registradas na Delegacia Especializada no


Atendimento à Mulher e na Delegacia de Atendimento e Proteção à Pessoa
e Idosa de Vitória – ES, 2002 – 2012

Na cidade de Vitória, no período entre os anos de 2002 e 2010 (recorte


ao qual se limita o levantamento feio pelo LEG-UFES), a DEAM/Vitória
registrou 12.255 casos de violência contra as mulheres que residiam na cidade.
Esse número pode ser considerado expressivo, já que o censo da Fundação
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) do ano de 2010 apontou
que a capital do estado contava com aproximadamente 327 mil habitantes, dos
quais aproximadamente 128 mil eram mulheres que tinham entre 18 e 65 anos
(faixa etária atendida pela delegacia especializada). Pode-se concluir que no
período analisado aproximadamente 9,5% da população feminina de Vitória foi
vítima de violência, destacando que esse percentual diz respeito apenas às
mulheres que registraram o fato na delegacia especializada, sendo importante
enfatizar o alto índice de subnotificação desses casos.

Ao selecionar os casos nos quais os atos de violência denunciados


foram cometidos contra mulheres acima de sessenta anos observa-se um total de
214 casos, o que corresponde a, aproximadamente, 1,74% do total de denúncias.
A princípio esses números não parecem expressivos devido a sua baixa
representatividade diante das denúncias feitas por mulheres nas demais faixas
etárias, grande maioria dos registros. Todavia, faz-se necessário que outros
fatores sejam considerados no estudo desses números como, por exemplo, a

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invisibilidade dessas mulheres e as dificuldades que elas enfrentam na busca da


denúncia da violência sofrida.

No que diz respeito ao levantamento realizado na DAPPI, foi


contabilizado um total de 719 boletins de ocorrência, referente ao período de
dezembro de 2010 a dezembro de 2012. A princípio, esse número também pode
parecer reduzido, entretanto, é preciso evidenciar alguns fatores para que se
compreenda o seu alcance. Em primeiro lugar, a existência da DAPPI ainda não
215
é amplamente conhecida pela população capixaba. Acredita-se que desde a sua
inauguração, os casos de violência contra os idosos e idosas passaram a ser
melhor divulgados, sendo frequentes notícias nos jornais locais a esse respeito,
contudo, está longe do ideal e o fato de situar-se dentro do prédio da Polícia
Civil, sem um espaço próprio que a torne mais visível, também dificulta o acesso
à instituição.

Ademais, a delegacia atende a um público bastante específico, pessoas


a partir dos 60 anos, que, em determinados casos, possuem debilidades físicas e
psíquicas, impossibilitando sua locomoção até a delegacia. Por tudo isso e outros
elementos a serem explorados mais adiante, é preciso destacar que esse número,
apesar de significativo, não corresponde a dimensão real do fenômeno da
violência contra idosos e idosas, dimensão essa desconhecida dada a
subnotificação dos casos.

Daquele total, 711 boletins estão distribuídos pelos sete municípios que
compõem a Região Metropolitana da Grande Vitória, a saber, Vitória, Vila
Velha, Cariacica, Serra, Viana, Guarapari e Fundão, sendo que os quatro
primeiros lideram com os números com respectivamente, 305, 154, 136 e 101
boletins registrados. Os outros oito boletins correspondem aos municípios que
não fazem parte da jurisdição da DAPPI, localizados nas regiões norte e sul do
estado, como é o caso de Castelo, Mimoso do Sul, São Mateus e Cachoeiro de
Itapemirim, dado que demonstra que há uma demanda por esse tipo de serviço e
por novas unidades da Delegacia do Idoso no Espírito Santo.

O enfoque desse trabalho é sobre a cidade de Vitória e seus 305 boletins


registrados durante o período de dezembro de 2010 até dezembro de 2012, em

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especial, aqueles em que as vítimas são mulheres. Vale salientar que do primeiro
para o segundo ano de existência da DAPPI ocorreu um aumento de cerca de
13% no número de registros, o que não quer dizer que tenha ocorrido um
aumento da violência contra os idosos e idosas, mas que casos de violência
contra idosos e idosas começaram a ser denunciados.

Ao se analisar os boletins de ocorrência registrados em Vitória, uma


primeira classificação introduzida foi a por sexo das vítimas. As mulheres
216
aparecem enquanto vítimas em 205 dos 305 boletins de ocorrência registrados
pela DAPPI referentes à cidade de Vitória, ou seja, mais de 67% do total. Os
homens figuram enquanto vítimas 96 denúncias e, em 4, a DAPPI foi procurada
pelo casal ou por um dos cônjuges para denunciar a violência que ambos vinham
sofrendo, especialmente, por parte do filhos e netos. Nesses casos, o investigador
responsável pelo atendimento registrou apenas um boletim para as duas vítimas.

Assim, é possível observa que, no período de dois anos, a DAPPI


registrou, proporcionalmente, mais denúncias de violência contra mulheres
idosas (205) do que a DEAM/Vitória, que no período de nove anos registrou 214
ocorrências. Nesse ponto, retoma-se a questão da invisibilidade da mulher idosa
citada anteriormente. Acredita-se que antes da criação de delegacias
especializadas em atendimento ao idoso(a), tais casos eram menosprezados, por
se diluírem no universo de ocorrências registradas em delegacias comuns ou
DEAMs, das quais as denúncias que ganham realce são aquelas em que a vítima
é jovem, o que de certa forma pode contribuir para o desestímulo à denúncia e a
subnotificação.

Além disso, deve-se citar que, por meio da observação do cotidiano da


DAPPI, no período de levantamento dos dados, foi possível perceber que não
foram raros os episódios em que mulheres chegaram à DAPPI encaminhadas
pela DEAM, sob o argumento de que após fazerem 60 anos só poderiam ser
atendidas na primeira. Entende-se aí uma necessidade de centralizar as
denúncias, contudo, fica o sentimento de que a DEAM não é mais o lugar dessas
mulheres, pois passam a ser definidas somente pela sua condição de idosa e não
de mulher, numa atitude de nivelamento da experiência do envelhecimento para

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homens e mulheres. Não surpreenderia, inclusive, se algumas dessas mulheres


desistissem da denúncia no trajeto de uma delegacia a outra, o que talvez
tornasse o número referente à DAPPI até maior.

Com relação à idade das vítimas, tanto nos casos da DEAM quanto da
DAPPI, percebe-se que tratam-se de mulheres pertencentes a todas as faixas
etárias, dos 60 aos 94 anos, com uma maior concentração nas primeiras idades
da velhice. Concorrem para tanto, não só o fato de existirem mais mulheres
217
idosas nessas faixas etárias em Vitória, como por possuírem melhores condições
de se dirigirem até a delegacia. O que faz com que as próprias vítimas se
qualifiquem também enquanto noticiantes na maioria das denúncias. Nas
demais, devido à idade avançada da vítima, dificuldade de locomoção, por
motivo de doença e outros, o noticiante é um terceiro, como um parente ou um
vizinho.

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Tabela 1 – Idade das mulheres idosas vítimas de violência – DEAM/Vitória e DAPPI

Faixa etária DEAM (2002 - 2010) DAPPI (2010 - 2012)


60 – 64 anos 99 38
65 – 69 anos 57 46
70 – 74 anos 25 31
75 – 79 anos 21 31
80 – 84 anos 08 20 218
Acima de 85 anos 04 9
Não fornecido - 21
Total 214 1961

Fonte: Sistematização dos pesquisadores, a partir dos dados dos boletins da DEAM/Vitória e
da DAPPI.

Vale ressaltar que a estrutura dos boletins da DAPPI não segue um


padrão, sendo frequente a presença de determinados dados em alguns registros
e em outros não, ao menos de forma clara e evidente. Por exemplo, quando a
idade da vítima não é apresentada durante sua caracterização, mas no histórico
do fato, ao fim do boletim, o que torna uma leitura preliminar da fonte
indispensável. Nos casos em que falta a idade, mas consta a data de nascimento,
essa informação é facilmente depreendida tendo como referência o ano de
registro do boletim. Mas, existem aqueles casos em que as informações
simplesmente não são encontradas em qualquer parte do boletim, tornando-se o
“não fornecido”, como irá se observar, um elemento constante das tabelas
subsequentes.

1
Em nove dos boletins analisados, a idade não corresponde a do público a ser atendido
pela DAPPI, superior a 60 anos. O que explica que o total apresentado na tabela não
corresponda ao mencionado antes, ou seja, 205 boletins de ocorrência. Constatou-se que
essas denúncias correspondiam a situações de perda e extravio de documento e perda
de aparelho celular, ou seja, serviu-se da Delegacia de Atendimento e Proteção à Pessoa
Idosa de Vitória como uma delegacia comum, afastando-a de suas competências.

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Outros dados que se considera imprescindíveis para um perfil mais


completo dos envolvidos como cor e escolaridade, aparentemente, não são itens
obrigatórios nos boletins da DAPPI. Somente no manuscrito este campo está
presente, em relação ao autor, mas em raros casos é preenchido. Chama-se a
atenção, principalmente, para o campo cor ou etnia que inexiste na
caracterização das vítimas nos boletins de ocorrência. Esse dado é especialmente
importante levando-se em consideração a invisibilidade social e política da
219
mulher negra e da violência racial (LINDOSO, 2004).

Por isso, os dados apresentados na Tabela 2 dizem respeito apenas aos


boletins de ocorrência da DEAM, sendo essa informação obtida por meio da
autodeclaração da vítima. Considerando que, conforme consta no Dossiê
Mulheres Negras (MARCONDES et al, 2013), a população negra é composta
por pessoas que declaram ter a cor da pele preta e parda, os boletins de ocorrência
registrados na DEAM/Vitória se equivocaram ao descrever a cor dos envolvidos
baseando-se nas alternativas branca, parda e negra, quando deveriam ter
utilizado, na nomenclatura desse campo, as opções branca, parda e preta.

Tabela 2 – Cor das mulheres idosas vítimas de violência – DEAM/Vitória, 2002 – 2010

Cor Vítima
Branca 105
Negra 18
Parda 86
Não fornecido 05
Total 214

Fonte: Sistematização dos pesquisadores, a partir dos dados dos boletins de ocorrência da
DEAM/Vitória.

De todo modo, chama atenção o fato das mulheres idosas brancas


aparecerem mais enquanto vítimas nos boletins da DEAM do que as pretas e
pardas, ainda que com uma margem de diferença reduzida, especialmente, em

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relação às últimas. Poder-se-ia conjecturar que tal predominância seja, em


primeiro lugar, uma consequência da dificuldade de acesso aos serviços do
Estado e de uma maior longevidade dentre as pessoas brancas do que negra. O
que parece se confirmar a partir de dados do projeto “Retrato das desigualdades
de gênero e raça”, desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada,
IPEA, (tabela 3).

220
Tabela 3: População feminina e sua distribuição segundo cor/raça aos 60 anos ou mais - Brasil,
2002 e 2012

Cora/Raça 2002 2012

Branca 5.676.513 7.819.896

Preta 590.659 1.116.559

Parda 2.783.917 4.953.593

Amarela 73.297 121.017

Indígena 16,475 33.910

Total 9.140.861 14.044.975

Fontes: dados do projeto “Retrato das desigualdades de gênero e raça” do IPEA, sistematizados
pelos pesquisadores.

Os números da tabela 3 apresentam não só uma tendência geral de


aumento da população idosa feminina em todos os grupos de cor/raça, como uma
maior concentração da população feminina com 60 anos ou mais na categoria
“Branca”, concentração que equivale a um número maior do que o das demais
categorias somadas. E ainda que tais dados sejam baseados na forma como as
pessoas se veem, ou seja, na autodeclaração, não se pode perder de vista os
índices de violência que vitimizam a juventude negra e a dificuldade de acesso
da população negra aos serviços de saúde e infraestrutura social, que terminam
por contribuir para que essa tenha uma menor expectativa de vida em relação à
população branca, como apontado no Dossiê “Mulheres Negras” (2013).

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Em relação à escolaridade, a análise tornou-se bastante comprometida,


uma vez que a coleta desse dado não ocorreu por todo o período. Até o ano de
2007, essa não era uma informação requerida da vítima no momento da
denúncia. Os resultados apresentados na Tabela 4 demonstram como essas
informações aparecem de forma vaga na análise dos dados dos boletins de
ocorrência.

221
Tabela 4: Escolaridade das mulheres idosas vítimas de violência e dos autores –
DEAM/Vitória, 2002 - 2010

Escolaridade Vítima
Analfabeta 19
Fundamental Completo 12
Fundamental Incompleto 74
Médio Completo 26
Médio Incompleto 07
Pós-graduada 03
Superior Completo 16
Superior Incompleto 01
Não fornecido 56
Total 214

Fonte: Sistematização dos pesquisadores, a partir dos dados dos boletins de ocorrência da
DEAM/Vitória.

Mais de 38% das mulheres que procuraram pela DAPPI durante o


período de dezembro de 2010 até dezembro de 2012, são viúvas (Tabela 5), o
que pode ser justificado pela já mencionada longevidade feminina, que é maior
do que a masculina, como também pelo costume dos homens de casarem-se com
mulheres mais jovens, vindo a falecer antes delas. Em seguida, aparecem as

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casadas, com 22%, nas quais incluem-se também as amasiadas, as divorciadas,


com 10%, e as solteiras, com 8%.

Já nos boletins da DEAM, a diferença entre mulheres casadas e viúvas


é proporcionalmente menor, sendo que o número das casadas supera o das
viúvas.

Tabela 5: Estado civil das mulheres idosas vítimas de violência e dos autores – DEAM/Vitória 222
e DAPPI, 2002 - 2012

Estado civil DEAM/Vitória DAPPI

Casada 70 46

Divorciada 27 22

Separada 09 -

Solteira 41 18

Viúva 65 78

Não fornecido 02 41

Total 214 205

Fonte: Sistematização dos pesquisadores, a partir dos dados dos boletins de ocorrência da
DEAM/Vitória e DAPPI.

É importante lembrar que essas mulheres, nascidas entre as décadas de


1920 e 1950, foram educadas sob a égide de uma ideologia de gênero que
instituía o casamento e a maternidade como o destino feminino. Após as
transformações econômicas e sociais ocorridas nas primeiras décadas do século
XX, como o declínio da família patriarcal, tal ideia foi travestida de uma nova
roupagem (BESSE, 1999), mas até, pelo menos, os anos de 1970, o matrimônio
continuou a ser visto como uma forma de garantir status e segurança econômica,
inclusive entre as mulheres capixabas (NADER, 2008). Dessa forma, não é de

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se surpreender que o vínculo conjugal esteja presente de alguma forma na vida


da maior parte delas, seja no passado ou no presente.

As informações sobre a profissão das vítimas presentes nos boletins da


DAPPI são imprecisas 67 delas se declararam aposentadas e 26, pensionistas
(Tabela 6), de modo que não é possível identificar qual função desempenharam
antes de adquirir o benefício. Considerando que as pensionistas recebam o
benefício em razão do óbito do cônjuge e não tenham declarado outro tipo de
223
vínculo empregatício, é possível que dependessem economicamente dele. De
qualquer maneira, o fato da profissão “do lar” aparecer em terceiro lugar e dentro
do grupo de “outros” ainda identificar-se exemplos como doméstica, copeira,
merendeira e até professora demonstra que a educação que receberam também
influenciou em suas oportunidades de trabalho.

Contudo, percebe-se que há uma diferença entre o perfil profissional


das mulheres que procuraram a DEAM/Vitória e as que se encaminharam até a
DAPPI, conforme pode se verificar na Tabela 6:

Tabela 6: Profissão das mulheres idosas vítimas de violência – DEAM/Vitória, 2002-2010;


DAPPI 2010-2012

Profissão da Vítima DEAM/Vitória DAPPI

Nº de Ocorrências Nº de
Ocorrências

Açougueira 01 -

Administradora 01 -

Advogada/Bacharel em direito 04 -

Agente de 01 -
polícia/investigação/presídio

Agente fiscal 02 -

Ajudante de cozinha/padaria 01 -

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Aposentada 66 67

Artista Plástica 01 -

Assistente social e técnica 02 -

Autônoma 04 -

Auxiliar Administrativo e de 01 -
contabilidade 224

Auxiliar de decoração 01 -

Auxiliar de enfermagem 02 -

Auxiliar de serviço gerais 08 -

Cabelereira e manicure 02 -

Comerciante 04 -

Copeira 01 -

Corretora de vendas 01 -

Costureira 11 -

Desempregada 03 -

Diarista 01 -

Do lar 51 10

Doméstica 06 -

Faxineira 02 -

Funcionária pública 08 04

Manicure 01 -

Maquinista 01 -

Médica/dentista/cirurgiã 01 -

Merendeira 01 -

Passadeira 01 -

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Pensionista 05 26

Pescadora 02 -

Professora 07 -

Recicladora 01 -

Salgadeira 01 -

Servidora Pública 02 - 225

Sucateira 01 -

Técnica de enfermagem 02 -

Vendedora ambulante e autônoma 01 -

Outros 00 12

Não fornecido 02 86

Fonte: Sistematização dos pesquisadores, a partir dos dados dos boletins de ocorrência da
DEAM/Vitória e DAPPI.

Nas denúncias feitas na DEAM/Vitória constatou-se que há maior


incidência de mulheres idosas que ainda permanecem no mercado de trabalho,
ao passo que há uma queda nesses números no compartivo com os registros da
DAPPI. É seguro afirmar que, de modo geral, no perfil da mulher que procura a
DEAM/Vitória para realizar uma denúncia predominam os números de vítimas
que estavam ativas no mercado de trabalho. Segundo o levantamento do
LEG/UFES, aproximadamente 70% das denúncias feitas da DEAM/Vitória
entre os anos de 2002 e 2010 traziam vítimas que exerciam profissões
remuneradas. Essa porcentagem diminui vertiginosamente quando selecionamos
os casos em que a vítimas tinham mais de 60 anos de idade, conforme exposto
na tabela acima, mas ainda é um número superior ao apresentado pelos registros
da DAPPI.

Por fim, procedeu-se à análise do vínculo entre vítimas e autores.


Conforme se observa na Tabela 7, há um grande número de pessoas sem grau de

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parentesco com a vítima, como desconhecidos, vizinhos, conhecidos e


instituições2. Entretanto, ao somar-se os casos em que os autores possuem algum
grau de parentesco com a vítima, como filhos, netos, cônjuges, genros, noras,
sobrinhos, irmãos e até mesmo os “múltiplos” onde enquadram-se as denúncias
que apresentam mais de um autor, com diferentes tipos de vínculo, conclui-se
que a violência contra mulheres idosas é praticada, predominantemente, em
âmbito familiar e doméstico.
226
Tal conclusão corrobora o paradoxo, compartilhado por Nader (2007,
p. 9), de que “o lugar que melhor deveria proteger suas mulheres, do ponto de
vista das relações de gênero, envolvendo afetividade e segurança, é o que as trata
pior”. Além disso, o receio em denunciar ou levar o caso adiante é muito grande
e a coerção sofrida na relação familiar com o autor da violência, o medo do
rompimento dos vínculos familiares, do abandono e da solidão, implica numa
resistência à denúncia das violências sofridas, contribuindo para a
subnotificação.

Poder-se-ia conjecturar que os cônjuges não aparecem tanto enquanto


agressores, pois muitas dessas mulheres são viúvas, entretanto, isso não quer
dizer que não exista a violência conjugal contra mulheres idosas. Inclusive, nos
boletins da DEAM, os casos em que os autores são cônjuges e ex-cônjuges são
mais numerosos que os casos que os filhos figuram como autores. Outra hipótese
é que a manifestação da violência de gênero em idade mais avançada seja
também uma continuidade de violências vivenciadas em épocas anteriores. Ou
seja, o fato das mulheres estarem denunciando naquele momento uma violência
filial, não as livra de terem sofrido anteriormente ou talvez até pela vida toda a
violência conjugal.

Todavia, é traço característico da violência contra mulheres idosas, que


a diferencia da violência praticada em outras etapas da vida da mulher, a
predominância de gerações consanguíneas, tal como filhos e netos, enquanto
agressores.

2
Instituições como bancos e hospitais que se recusam ou se omitem com relação aos
cuidados e direitos básicos da idosa.

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Tabela 7: Vínculo entre a vítima e o autor – DEAM/Vitória, 2002 – 2010; DAPPI, 2010-2012

Vínculo DEAM/Vitória DAPPI

Filho(s) e Filha(s) 51 44

Desconhecidos 01 32

Vizinho(s) e vizinha(s) 05 27 227


Cônjuge e ex-conjuge 59 16

Conhecidos 1 14

Genro e ex-genro, nora e ex- 17 12


nora

Instituição - 6

Múltiplos 03 6

Sobrinho(s) e sobrinha(s) 07 5

Neto(s) e Neta(s) 10 4

Irmão(s) e irmã(s) 14 4

Parentes indiretos 10 -

Outros 26 -

Não fornecido 11 35

Total 214 205

Fonte: Sistematização dos pesquisadores, a partir dos dados dos boletins de ocorrência da
DEAM/Vitória e DAPPI.

Considerações finais

Apesar da variedade de dados fornecidos pelos boletins das duas


delegacias especializadas, na análise aqui apresentada alguns dados não foram
utilizados por, entre outros motivos, se mostrarem inconclusivos. É o caso do

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local de moradia da vítima. A cidade de vitória conta com aproximadamente


oitenta bairros que se dividem, atualmente, em nove regiões administrativas e a
diversidade encontrada, não só nessas regiões como também nos bairros, impede
que seja traçado um perfil socieconômico da população que ali habita, fazendo
com que uma análise a partir do local de moradia dessas mulheres se torne
inconclusiva ou, no mínimo, problemática.

A omissão dos dados faz pensar ainda que o próprio trabalho de


228
investigação das denúncias pode ser prejudicado, caso, por exemplo, o policial
responsável pela apuração do fato não seja o mesmo responsável pelo registro
da ocorrência. Conjectura-se que a ausência de dados que caracterizam não
somente a vítima, mas, especialmente, os autores(as), seja resultado de uma
dinâmica complexa que envolve tanto a negligência e o despreparo dos
profissionais designados para essas delegacias, dos quais se espera um
tratamento especializado, como da descrença em relação ao desdobramento das
denúncias, haja visto que um número reduzido delas dá origem a inquéritos
policiais. Tal realidade pode ser explicada pela ineficiência da lei em reprimir
casos de abusos contra idosos e pelo desejo das vítimas e/ou noticiantes de não
levar o caso adiante. Nesse sentido, uma possibilidade de pesquisa seria a de
avaliar a aplicabilidade da lei na experiência da delegacia a partir de
depoimentos dos policiais civis e dos usuários e usuárias da instituição, bem
como a análise dos desdobramentos das denúncias nas instâncias judiciais.

REFERÊNCIAS

BESSE, Susan K. Modernizando a desigualdade: reestruturação da ideologia de


gênero no Brasil. São Paulo: EdUSP, 1999.

FREITAS, Lúcia. Representações de papeis de gênero na violência conjugal em


inquéritos policiais. Cadernos de Linguagem e Sociedade, 12(1), 2011, p. 128-
152. Disponível em: <www.periodicos.unb.br>. Acesso em: 28 nov. 2014.

LINDOSO, Mônica Bezerra de Araújo. A violência praticada contra a mulher


idosa e os direitos humanos. In: Direitos Humanos no cotidiano jurídico. São

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Paulo: Centro de Estudos da Procuradoria Geral do Estado, 2004. (Séries


Estudos n. 14). Disponível em: <www.pge.sp.gov.br>. Acesso em: 22 jun. 2013.
P. 71-101.

MARCONDES, M. M. et al. (org.). Dossiê mulheres negras: retrato


dascondições de vida das mulheres negras no Brasil. Brasília: Ipea, 2013.

NADER, Maria Beatriz. Paradoxos do progresso: a dialética da relação mulher,


casamento e trabalho. Vitória: Edufes, 2008. 229

___________. Cidades, aumento demográfico e violência contra a mulher: o


ilustrativo caso de Vitória-ES. Dimensões: Revista de História da UFES, Vitória,
n. 23, p. 156-171, 2009.

___________. Mapeamento e perfil sócio-demográfico dos agressores e das


mulheres que procuram a Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher
Vitória (ES). 2003-2005. Fazendo Gênero. Florianópolis, p. 1-8, ago. 2010, p. 2.
Disponível
em:<http://www.fazendogenero.ufsc.br/9/site/anaiscomplementares#M>.
Acesso em: 1 jan. 2015.

RODRIGUES, Lizete de Souza. A Política Nacional do Idoso: o caso de Vitória


(1994-2004). Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História
Social das Relações Políticas. Centro de Ciências Humanas e Naturais,
Universidade Federal do Espírito Santo. 2006. Disponível em:
<www.historia.ufes.br>. Acesso em: 22 jun. 2013.

WAISELFISZ, J. J.. Mapa da violência: homicídios e juventude no Brasil. Rio


de Janeiro: CEBELA/FLACSO, 2014. Disponível em
<http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2014/Mapa2014_AtualizacaoHomicid
ios.pdf> Acesso em 25 de jan. de 2015.

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CORPOS MARCADOS, CRIMES SILENCIADOS: VIOLÊNCIAS


SEXUAIS NO CONFLITO ARMADO COLOMBIANO

Ana Taisa da Silva Falcão*

A Colômbia passa, neste momento, por mais uma tentativa de


estabelecimento de um acordo de paz e fim do conflito armado. Como afirmou
230
o próprio Presidente, Juan Manuel Santos, nuestro deber principal para
construir la paz es proteger los derechos de las víctimas… Sus derechos a la
justicia, a la verdad, a la reparación y a que nunca más se vuelvan a repetir las
atrocidades que sufrieron1. É um momento em que as atenções nacionais e
internacionais se voltam para a Colômbia, o que faz de trabalhos como o que
estamos apresentando aqui, uma ferramenta importante para que espaços
acadêmicos fora da Colômbia possam também discutir os acordos pós-conflito,
com o rigor teórico e metodológico que a historiografia pode oferecer.

A partir da observação da violência sexual em tempos de guerra como


um fenômeno histórico, partimos para o estudo de caso no conflito armado
colombiano, destacando os seguintes pontos: 1) a violência sexual e
deslocamento forçado de mulheres no marco do conflito armado, 2) as histórias
de vida de mulheres vítimas de violência e/ou deslocamento forçado como
crimes cometidos no conflito armado2.
Compreender a violência de gênero e enfrentá-la é um
fenômeno de ampla complexidade. É fundamental conhecer
seu devir histórico, suas diferentes formas, interconexões e

*
Doutoranda em História Social pelo Programa de Pós-Graduação em História Social
da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGHIS-UFRJ). Mestre em História
Política pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade do Estado do
Rio de Janeiro (PPGH-UERJ).
1
Juan Manuel Santos. 24 de agosto de 2016. Discurso do Presidente após o anúncio do
acordo final entre governo e as FARC-EP. Bogotá. O discurso inteiro pode ser lido em:
http://es.presidencia.gov.co/discursos/160824-Alocucion-del-Presidente-Juan-Manuel-
Santos-sobre-el-Acuerdo-Final-con-las-Farc
2
Para efeitos desta pesquisa e, destacamos que um dos nossos principais horizontes
teóricos que se assenta na busca por apresentar os elementos socioeconômicos do
conflito armado desde a ofensiva contrainsurgente das elites colombianas, a fim de
garantir do desenvolvimento capitalista no país, violando a população economicamente
mais vulnerável.

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interdependências, seus contextos, as respostas que tem dado


a política pública e as que tem apresentado a sociedade civil
– em particular o movimento de mulheres e feministas –, e a
normatividade e a legislação tanto nacional como
internacional para preveni-la e sancioná-la. Cabe sinalizar que
nas diferentes expressões do feminismo se encontram apostas
teóricas e políticas para revelá-la. Entre elas, são importantes
as que relacionam os âmbitos privado e público. Assim
mesmo, nos contextos exacerbados pela presença de conflitos
armados, as manifestações de violência para a vida das
mulheres são agudas e nosso país é exemplo disso3.
231
O caminho seguido para apresentar este problema fundamenta-se no
levantamento da memória das mulheres vítimas do conflito e/ou deslocamento
forçado, organizadas em movimentos de mulheres e de deslocados4. Nos
interessa saber se (e como) os movimentos de mulheres e as organizações de
deslocados forçados tem contribuído para pressionar o Estado a efetuar respostas
institucionais que visem a reparação dos atos violadores, bem como a superação
das estruturas desiguais daquele país5.
La magnitud de la violencia sexual contra las mujeres,
relacionada con el conflicto en Colombia, no ha sido aún
entendida completamente. Es un crimen con un alto nivel de
sub-registro. Cuando es denunciado las mujeres encuentran
grandes obstáculos para acceder a la justicia, incluyendo
altísimos niveles de impunidad. Sin embargo, a pesar de estos

3
LEÓN, Magdalena. Bibliografias sobre Violencia de Género. Bogotá: Fundo de
Documentacion Mujer y Género “Ofélia Uribe de Acosta”, Escuela de Estudios de
Género, 2011, p.5.
4
Para a realização deste trabalho, durante o período de 9 a 26 de agosto de 2016,
estivemos em contato direto com mulheres vítimas de violência e deslocamento forçado
que são atendidas pela ANDESCOL. Durante este período levantamos cerca de 5 horas
de gravação, divididas em 18 entrevistas. É de nosso interesse, assim como da própria
organização, que não possui um fundo documental das pessoas que são usuárias dos
seus serviços, de darmos seguimento ao levantamento de memória das vítimas que
iniciamos durante estas primeiras visitas.
5
No dia 24 de agosto de 2016, o governo de Juan Manuel Santos e representantes das
Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (FARC-EP)
assinaram o último comunicado conjunto da Mesa de Negociações, em Havana, com o
acordo final do conflito armado entre governo e as FARC. A partir desse momento, tem
início a corrida pelo Plebiscito que vai referendar (ou não) o Acordo Final. Sendo o SIM
o vencedor do referendo, tem início um processo de acordos pós-conflito, com
implementação de políticas públicas de garantias de não repetição, dentre elas, os
julgamentos dos crimes contra os direitos humanos ocorridos durante o conflito armado.
O Texto integral do Acordo Final de Havana pode ser lido em:
https://www.mesadeconversaciones.com.co/sites/default/files/comunicado-conjunto-
93-la-habana-cuba-24-de-agosto-de-2016-1472079906.pdf

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obstáculos y el gran costo personal, las mujeres colombianas


están alzando su voz y exigiendo el derecho a la verdad, la
justicia, la reparación y garantía de no repetición. Al alzar su
voz, ellas se enfrentan con amenazas y riesgos a su integridad
física y la de sus familias. Estos riesgos se extienden a las
defensoras de quienes apoyan a los sobrevivientes. Sin
embargo, sin el apoyo y el trabajo dedicado de las defensoras
y las organizaciones que ellas representan, ninguno de estos
casos sería juzgado6.

A contradição entre a alta produção de relatórios, informes e trabalhos 232


acadêmicos sobre a violência sexual e deslocamento forçado, de um lado, e os
altos índices de subnotificação e impunidade para tais crimes, de outro, segue
ainda carente de maiores investigações interessadas em observar o caráter
histórico dessa contradição entre teoria e prática. Outro elemento, igualmente
contraditório, muito presente nas narrativas das mulheres sobre suas
experiências enquanto vítimas de violação e/ou deslocamento forçado é a
questão da pobreza, antes e depois de seu contato com a violência. O que nos
leva a reforçar a importância de se debater as origens da violência na Colômbia
a partir da análise da promoção e manutenção da desigualdade decorrentes do
desenvolvimento capitalista nos países de capitalismo hipertardio, dependente e
periférico7.

6
SISMA MUJER; ABCOLOMBIA; USOC. Colombia: mujeres, violencia sexual en el
conflicto y Proceso de Paz. Noviembre de 2013, p.1.
7
Característica do processo de acumulação capitalista em toda a América Latina, com
pequenas diferenças ligadas às especificidades locais de cada país, que, de um modo
geral, são países que introduziram-se no sistema capitalista internacional de maneira
associada aos países de capitalismo central. Tal associacionismo colocou nossas elites
regionais na posição de “acionistas minoritários” dentro da lógica do capital
multinacional e associado, cumprindo a função de mantenedores da lógica – histórica –
colonialista através do controle das classes trabalhadoras, com ofensivas
contrainsurgentes, lançando mão do aparelho do Estado e de seus exércitos privados
para tentar inviabilizar as lutas operárias contra a exploração e desigualdade. Para saber
mais sobre a opção burguesa latino-americana pela via contrainsurgente, ver:
ESTRADA ÁLVAREZ, Jairo. Transformaciones del capitalismo en Colombia.
Dinámicas de acumulación y nueva realidad. In: ASTORGA (2012). Y ESTRADA
ÁLVARES, Jairo. Acumulación capitalista, dominación de clase y rebelión armada.
Elementos para una interpretación histórica del conflicto social y armado. Informe
Comisión Histórica del Conflicto y sus Víctimas. Habana. Febrero, 2015.
FERNANDES, F. A revolução burguesa no Brasil: ensaio de interpretação
sociológica. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1976. LEMOS, Renato. Contrarrevolução e
ditadura: ensaio sobre o processo político brasileiro pós-1964. In: Marx e o Marxismo.
V.2, n.2, jan/jul 2014. VEGA, Renán. Injerencia de los Estados Unidos,

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Violência sexual: na guerra ou na paz, esse ato de extrema brutalidade


segue como um dos crimes mais silenciados de todo o mundo. Na busca por
tentar compreender esse fenômeno, o presente trabalho parte de uma perspectiva
teórica amparada no gênero como categoria analítica, pois, “se as mulheres são
violadas na guerra por serem mulheres e são violadas nas ruas, nos lares, por
serem mulheres, o fio condutor dessa violência é o gênero”8. Em termos teórico-
metodológicos, consideramos a utilização da categoria gênero, para descrever os
233
processos de violência sexual em tempos de guerra, um recurso de extrema
importância, pois procura dar conta das continuidades e descontinuidades da
desigualdade entre homens e mulheres. Trata-se, portanto, de um esforço
epistemológico de (re)pensar discursos identitários consolidados cultural e
socialmente. Em outras palavras, encaramos o desafio de “pensar na importância
da sexualização do discurso historiográfico9”.

Porém, a desigualdade de gênero, sozinha, é insuficiente para dar conta


dos processos de mercantilização da guerra (e por que não, da “paz”?) e dos
corpos das mulheres, em especial das mulheres negras, pobres, indígenas e
campesinas. Por esse motivo, violência sexual e deslocamento forçado são
conceitos acompanhados, aqui, de forte subsídio teórico com base nas categorias
desigualdade social, desenvolvimento capitalista, concentração fundiária,
conflitos de classe, colonialismo e racismo.

O enfoque de gênero e raça/etnia na análise dos deslocamentos


compulsórios no marco do conflito armado colombiano se explica: devemos nos
apoiar numa percepção das consequências da Colonização para os processos de
violência contra as mulheres, especialmente as mulheres negras e indígenas na
contemporaneidade. Para nós, a violação das mulheres, a criminalização e
marginalização dos povos indígenas e afrocolombianos resultam da manutenção

contrainsurgencia y terrorismo del Estado. In: Informe de la Comisión Histórica del


Conflicto y sus Víctimas. Habana, 2015.
8
THEMIS – Assessoria Jurídica e Estudos de Gênero. Da Guerra à Paz: os Direitos
Humanos das Mulheres. Instrumentos Internacionais de Proteção. Porto Alegre, 1997,
p.5.
9
RAGO, Margareth. “Descobrindo historicamente o gênero”. In: Cadernos Pagu, n. 11,
pp. 89-98, 1998, p. 90.

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das estruturas coloniais, em que os processos de “racialização” e “sexualização”


dos corpos femininos se convertem em violência sexual no marco do conflito
armado10. Ou seja, a violência sexual contra as mulheres, especialmente
indígenas e afrocolombianas não é entendida aqui como uma invenção do
conflito armado; ela é, outrossim, a continuação de uma dominação histórica dos
seus corpos.

No que tange às questões estritamente militares, dois conceitos são


234
fundamentais para o desenvolvimento desta pesquisa. São eles: arma e guerra.
Cada qual apresentará seus respectivos desdobramentos de acordo com a
violência perpetrada contra as mulheres que serão estudadas. Sobre a noção de
guerra, dialogando com Clausewitz (1979), esta tem como “propósito imediato,
derrubar seu oponente de modo a torná-lo incapaz de oferecer qualquer
resistência. A guerra é, pois, um ato de violência destinado a forçar o inimigo à
nossa vontade”11. Compreendemos assim, a guerra como uma sucessão de atos
violentos que atendem a um objetivo pré-determinado. Sobre este ponto e
dialogando com a concepção de guerra como um mal necessário em Kant,
Bobbio (2003) nos apresenta a noção de guerra como “um mal que deve
acontecer não porque é o efeito de uma causa, mas porque é o meio para atingir
um fim desejável”12. Tanto em Clausewitz, quanto na análise de Norberto
Bobbio, a guerra é um meio pelo qual se objetiva atingir um propósito final.
Lança-se mão do recurso irrestrito da violência para submeter o inimigo aos seus
interesses. E o propósito da guerra é, em geral, um propósito político, pois,
segundo Clausewitz, a guerra é um meio pelo qual a política se manifesta. Tanto
as táticas quanto as estratégias empregadas no teatro da guerra objetivarão atingir
o propósito político pelo qual os inimigos iniciaram um embate violento.
Se trata de violación étnica como una política oficial de
guerra: no solo como una política del placer masculino
desenfrenado; no solo como una política para envilecer,
torturar, humillar, degradar y desmoralizar a la otra parte; no
solo como una política de hombres que intentan ganar

10
SALDARRIAGA FLÓRES, 2013, p. 26-7
11
CLAUSEWITZ, Carl Von. Da Guerra. São Paulo: Martins Fontes, 1979, p.73. (Grifo
do autor).
12
BOBBIO, Norberto. O problema da guerra e as vias da paz. São Paulo: Editora
UNESP, 2003, p. 89.

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ventajas y espacio frente a otros hombres. Se trata de


violación por orden superior: no fuera de control, sino bajo
control. Se trata de violación hasta la muerte y la masacre,
para matar o hacer que las víctimas prefieran estar muertas.
Se trata da violación como exilio forzoso, para obligar a
abandonar el hogar y no regresar jamás13.

Por “arma”, compreendemos os diversos meios violentos pelos quais a


guerra se manifesta, com o objetivo de derrotar o inimigo, de anular as suas
possibilidades de defesa. Isto porque, “a guerra é um ato de força e não existe 235
qualquer limite lógico para o emprego desta força14”. Em outras palavras, todos
os “meios”, entendidos aqui como “armas”, são empregados desde que seu
intuito seja destruir o inimigo.

Logo, se a guerra é uma luta armada travada no interior de uma unidade


política – no caso colombiano, um Estado – e arma é todo o meio utilizado com
a intenção de agredir e/ou eliminar fisicamente o inimigo, tentaremos comprovar
com este trabalho que a forma como as mulheres colombianas, em especial as
indígenas e afrocolombianas, são violentadas neste conflito armado – através da
utilização sistemática da violência sexual –, pode ser caracterizada como uma
arma de guerra. Sendo assim, os corpos dessas mulheres se transformam num
campo de batalha, principalmente porque as agressões sexuais partem de todos
os lados e, ao mesmo tempo, seus corpos também se configuram como espólio
de guerra.

A disputa geopolítica no território colombiano, em busca de


concentração de terras, seja para sua utilização como rota do narcotráfico, como
propriedade dos terratenientes, ou para o acirramento do capitalismo
extrativista, onera as comunidades campesinas através da prática do
deslocamento forçado. Em função disso, pretendemos comprovar que o
deslocamento se dá a partir da violação sexual das mulheres ou perigo de que ele
ocorra. Isso porque é notório o caráter político e estratégico que as violências
sexuais cometidas contra as mulheres alcançam, pois os combatentes lançam

13
MACKINNON, Catherine A. “Crímenes de Guerra, Crímenes de Paz”. RAWLS,
John; RORTY, Richard. De los Derechos Humanos, Trota, 1998, p. 94.
14
CLAUSEWITZ, 1979, p. 77.

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mão da prostituição forçada, da escravidão sexual, do abuso sexual, do estupro


etc., com o objetivo de semear o terror nas comunidades a fim de forçar a fuga
de zonas geograficamente estratégicas, ou mesmo para a apropriação dessas
terras para aumentar os latifúndios15.

Desse modo, supomos que os processos de justiça e reparação que se


implementaram até o momento, ao dar ênfase na violência pela violência,
hipertrofia o conflito armado desde sua capacidade de violação, jogando luz nos
236
“soldados” dos grupos armados e nas violações dos direitos humanos que
cometeram, ao mesmo tempo que, como consequência dessa caçada aos
violadores, invisibiliza e, logo deixa impunes os financiadores da violência16. Ou
seja, cremos que os processos de judicialização da violência do conflito armado,
apesar de contribuírem para a visibilização dos crimes de guerra, transforma o
conflito e suas práticas violadoras em um fim em si mesmo, não procurando
resolver os problemas estruturais (de desigualdade de classe, gênero e raça) e as
lógicas econômicas que criam e mantém conflitos armados.

Violência contra a mulher no conflito armado: processos de violação e


memória

Há um esforço por parte de intelectuais17 e defensores dos Direitos


Humanos18 de denunciar as violações dos direitos das mulheres na Colômbia e

15
ANISTIA INTERNACIONAL, 2011, p. 5.
16
Soma-se a essa “empresa” de capital criminal o financiamento, manutenção e
reprodução do conflito armado, gerando terror, força de trabalho ilegal e violência
sistemática contra a população civil. Para uma visão mais ampla que quem são e como
atuam os grandes empresários das guerras, ver: VEGA CANTOR, Renán. Los
economistas neoliberales: nuevos criminales de guerra. El genocidio económico y
social des capitalismo contemporáneo. Bogotá: Impresol, 2010.
17
Para a realização deste artigo destacamos dois trabalhos em especial: MEERTENS,
Donny. Ensayos sobre tierra, violencia y género: hombres y mujeres en la historia rural
de Colombia (1930-1990). Universidad Nacional de Colombia, Centro de Estudios
Sociales, 2000; e YEPES, Olga Cecilia Restrepo. “¿El silencio de las inocentes?:
Violencia sexual a mujeres en el contexto del conflicto armado”. In: Opinión Jurídica,
vol. 6, n. 11, pp. 87-114, enero-junio de 2007.
18
O volume de trabalhos realizados por organizações colombianas (estatais ou ONGs)
e internacionais é vasto, mas destacamos aqui alguns estudos especiais: ACNUR.
Desplazamiento Forzado en Colombia: derechos, acceso a la justicia y reparaciones.

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oferecer propostas teóricas e metodológicas de se compreender e enfrentar a


violência sexual. As pesquisadoras colombianas intensificam sua participação
nos debates sobre o conflito armado, a partir da década de 1990, com o objetivo
de denunciar as violações dos direitos humanos das mulheres, em que a violação
de seus corpos se converte em objetivo militar. Num contexto em que o conflito
armado modifica suas estratégias de combate, deixando o ataque direto entre
combatentes a segundo plano, passando a priorizar a disseminação da violência
237
contra a população civil, “as mulheres deixam de ser só objeto de agressão
sexual, e passam a ser tanto objetivo militar como de colonização física19”.

Numa pesquisa realizada entre os anos de 2001-200920, em diversos


municípios em que havia a incidência de grupos armados em conflito, seja
exército, polícia, insurgência ou paramilitares, foi constatado que cerca de
489.687 mulheres foram vítimas de alguma forma de violência sexual durante
os nove anos do estudo.

Se trata de um tipo de violência que, em tempos de paz ou de guerra,


sua quantificação é frequentemente difícil, pois em geral as vítimas tendem, por
medo, estigmatização ou ameaça, a não denunciarem o ocorrido. Existem
diversos relatórios e trabalhos publicados na Colômbia sobre a violência sexual
no conflito armado, todos afirmam, entretanto, que as limitações relacionadas à
subnotificação da violência sexual ainda é uma barreira a se enfrentar.

Num estudo que aponta a incidência da violência sexual no conflito


armado, de 1985 até 2013, com base no Registro Único de Vítimas (RUV),
apenas 1.754 mulheres declararam ter sofrido violência sexual.
Las 1.754 víctimas incluidas en el RUV (733 entre 1985 y
2012, más 821 sin año de ocurrencia identificado) contrastan
con las 96 confesadas por los paramilitares en sus versiones
libres en el marco de la Ley 975 del 2005 y las 142

Colombia, 2007; ANISTIA INTERNACIONAL, 2004, op. cit.; e GMH. ¡Basta ya!
Colombia: Memorias de guerra y dignidad. Bogotá: Imprensa Nacional, 2013.
19
CORREAL, Diana Gómez; OBREGÓN, María Emma Wills. “Los movimientos
sociales de mujeres (1970-2005). Innovaciones, estancamientos y nuevas apuestas”. In:
ASTORGA, p. 271.
20
CAMPAÑA - Violaciones y otras violencias: saquen mi cuerpo de la guerra.
Violencia sexual en contra de las mujeres en el contexto del conflicto armado. Primera
Encuesta de Prevalencia - Resumen ejecutivo, 2011, p.9.

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documentadas por varias organizaciones de Derechos


Humanos para el Anexo Reservado del Auto 092 del 2008 de
la Corte Constitucional sobre violencia sexual21.

Apesar dos números sobre violência sexual seguirem subnotificados e


com altos índices de impunidade para os violadores, as iniciativas de memória
demonstram que, fora do ambiente oficial de denúncia, as mulheres se sentem à
vontade e desejam falar de suas experiências de violação. Tomamos como
exemplo o testemunho de uma das mulheres vítimas de violação e deslocamento 238
forçado que nos cederam suas histórias de vida.
Em 2005 sofri meu segundo deslocamento forçado, foi num
domingo de agosto, quando por volta das cinco da tarde
chegaram três homens encapuzados em nossa casa e eu estava
com minha filha de 14 anos. Meus outros filhinhos não
estavam na casa no momento. Foi quando chegaram os
homens encapuzados e me levaram para fora, onde ficavam
as bananeiras e eu fui violada... E a minha filha, quando eu
voltei para a casa, também havia sido violada. No dia
seguinte, juntamos nossas coisas e nos mudamos para um
vilarejo rio acima22.

As experiências de violação e, muitas vezes consequentemente,


deslocamento forçado de mulheres compõem um conjunto de violações dos
direitos humanos cometidos durante o conflito armado. No caso que citamos
acima, a vítima reconheceu seus violadores como membros de um grupo
paramilitar do Departamento de Meta. Casos como este são muito frequentes
quando se faz um levantamento do conflito desde os testemunhos das vítimas,
sem estigmatiza-las.

Observando o exemplo de outros países que passaram por processos


pós-conflito e de reparação às vítimas, como Guatemala23 e Peru24, podemos

21
GMH. ¡Basta ya! Colombia: Memorias de guerra y dignidad. Bogotá: Imprensa
Nacional, 2013, p.78.
22
Entrevista cedida à autora no dia 21 de agosto de 2016. Bogotá.
23
Sobre a violência sexual na guerra guatemalteca, ver: FULCHIRÓN, Amandine. “La
denuncia de la violencia sexual cometida durante la guerra en Guatemala”, presentada
en Seminario de LASA, San José, Costa Rica, marzo, 2006.
24
O recorte de gênero do relatório da Comissão da Verdade do Perú, especificamente
sobre as mulheres que foram vítimas de violência sexual, pode ser lido em:
http://www.cverdad.org.pe/ifinal/pdf/TOMO%20VI/SECCION%20CUARTACrimen

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levantar a hipótese de que os trabalhos da Comissão da Verdade25 na Colômbia


podem apresentar respostas mais eficientes ao problema da violência sexual que
segue, inclusive, com um alto índice de impunidade.

Deslocamentos forçados femininos: resistência em novos espaços


geográficos

Para tratar do conceito de deslocadas, nos baseamos na definição 239

estabelecida na Colômbia pela Lei 387, de 1997, aprovada pelo Congresso da


República, na qual deslocada é
Toda pessoa que se tenha visto forçada a migrar dentro do
território nacional abandonando sua localidade de residência
ou atividades econômicas habituais, porque sua vida, sua
integridade física, sua segurança ou liberdade pessoais foram
vulneradas ou se encontram diretamente ameaçadas, por
ocasião de qualquer das seguintes situações: conflito armado
interno, distúrbios ou tensões internas, violência
generalizada, violações massivas dos Direitos Humanos,
infrações ao Direito Internacional Humanitário e outras
circunstâncias emanadas das situações anteriores que possam
alterar drasticamente a ordem pública26.

es%20y%20violaciones%20DDHH/FINALAGOSTO/1.5.VIOLENCIA%20SEXUAL
%20CONTRA%20LA%20MUJER.pdf.
25
A Comissão da Verdade é um dos mecanismos extrajudiciais criados para garantir a
investigação e posterior reparação dos crimes contra os Direitos Humanos praticados
no conflito armado, que inciará seus trabalhos no marco dos acordos pós-conflito com
as FARC-EP. Essa Comissão da Verdade faz parte do Acto Legislativo 1º del 2012. Ver:
http://www.alcaldiabogota.gov.co/sisjur/normas/Norma1.jsp?i=48679. Igualmente
importante é a Ley 975 del 2005. Ver: http://www.fiscalia.gov.co/jyp/wp-
content/uploads/2013/04/Ley-975-del-25-de-julio-de-2005-concordada-con-decretos-
y-sentencias-de-constitucionalidad.pdf. A lei 975/2005, conhecida como “ley de justicia
y paz, [foi o] marco legal que regió los acuerdos entre el gobierno y los grupos
paramilitares, creó una complexa institucionalidad de transición que incluyó una
comisión de la verdad con funciones relacionadas con la reparación de las víctimas y
la reintegración de los desmovilizados”. JARAMILLO, Isabel Cristina. Las formas
institucionales para buscar la verdad estructural: a propósito de la creación de una
(otra)comisión de la verdad em Colombia. GARCÍA, Helena Alviar; JARAMILLO,
Isabel Cristina (orgs). Perspectivas jurídicas para la paz. Bogotá: Ediciones Uniandes,
2016, p.439.
26
Lei 397, de 18 de junho de 1997. Disponível em:
http://www.secretariasenado.gov.co/senado/basedoc/ley/1997/ley_0387_1997.html.

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Do mesmo modo que os processos de deslocamento respondem às


mudanças nas configurações do conflito armado, que por sua vez,
"historicamente se associa com a migração forçada dos habitantes de uma
determinada região ou localidade27". Ou seja, conflito e deslocamento forçado
mantém uma relação mútua e constante de interação, o que gera, com muita
frequência, novos ciclos de deslocamento de populações já deslocadas.

Em entrevistas realizadas com mulheres deslocadas forçadamente pela


240
violência, para a realização deste projeto, o tema dos múltiplos deslocamentos
foi uma constante. Dois tipos de deslocamento apareceram com mais frequência:
1) pela pobreza e, consequentemente, necessidade de buscar emprego em outras
localidades, que em geral eram os primeiros deslocamentos dessas mulheres e;
2) pela violência, seja através de ameaças diretas à vida das mulheres ou sua
família, seja pela morte de parentes pelo conflito, ou por massacres coletivos em
suas cidades. Em alguns casos, a mesma pessoa havia passado por cerca de
quatro deslocamentos, somando a procura por trabalho e a fuga da violência28.

As narrativas demonstram que o deslocamento forçado na Colômbia já


assumiu um caráter vicioso, que, acima de tudo, afeta aos mais pobres, os mais
vulneráveis, aqueles que ao fim e ao cabo, não estão ligados diretamente ao
conflito armado, mas que, por serem reincidentemente violados por ele, fogem
de um lugar ao outro em busca de paz. As cifras do deslocamento variam
frequentemente, mas estima-se em torno de três a quatro milhões o número de
pessoas deslocadas forçadamente ao longo dos últimos 30 anos. Destes quatro

27
MEERTENS, 1997, p.1.
28
As entrevistadas habitam em bairros cujas casas foram entregues pelo governo
colombiano em 2015, que ficam em áreas bem distantes do Centro de Bogotá. Um
conjunto se chama Margaridas e outro, dome do bairro, inclusive, chama-se Porvenir.
Das 18 entrevistadas, 12 haviam de deslocado forçadamente pela violência mais de uma
vez, oito haviam saído de suas casas migrado para outras cidades a procura de emprego,
ainda na adolescência, sendo vítimas de deslocamento forçado pela violência já fora de
seus lugares de origem. Apenas uma havia mudado de cidade para estudar. A maioria
delas não chegou a completar o Ensino Fundamental; uma nunca frequentou a escola, é
analfabeta; e outra frequentou, mas tão pouco que também não é alfabetizada. Antes do
deslocamento, cerca de metade das entrevistadas trabalhava com plantação de alimentos
e a outra metade como domésticas, com exceção de uma – que vendia ouro – mas, já na
condição de deslocamento forçado, em Bogotá, apenas uma – a que vendia ouro – não
trabalhou como doméstica.

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milhões, cerca de 70% são pessoas de origem campesina, indígena e


afrocolombiana29.
As comunidades negras ou afrocolombianas são titulares do
direito especial ao território, este é um dos direitos [...] dos
mais afetados pelo deslocamento. Para a população
afrocolombiana o território é um elemento central de sua
cultura e sua identidade étnica, por esta razão, o deslocamento
de que são vítimas atenta contra sua existência como grupo
étnico30.
241
Para as mulheres afrocolombianas, a experiência de deslocamento
forçado, que se conjuga com o deslocamento pela pobreza, tem especiais
características de (históricas) violências raciais. A indigência é outro ponto
presente nas narrativas, como por exemplo o caso de Violeta31, mulher negra,
jovem, mãe de três filhos meninos, que nasceu no Departamento de Chocó, lugar
de forte ascendência afrodescendente. Violeta viveu em seu município até os 16
anos com seus avós (seu pai abandonou a família muito cedo e sua mãe foi viver
em outra cidade, para trabalhar). Em seu relato, a pobreza é uma presença
constante, porque “ali se aguentava muita fome, passávamos muita fome,
inclusive perdi minha irmã para a fome, pois teve uma forte anemia, depois
leucemia32”. Quando ocorreu seu processo de deslocamento pela violência,
Violeta estava grávida e com um filho pequeno. Ao chegar em Bogotá, dormiu
na rua com seu filho e grávida por dois dias, sem comida. Em seu depoimento,
Violeta nos contou que viu muitas mulheres na mesma condição que a sua, na
rua, com seus filhos.
Si se tiene en cuenta que un 48 % de los desplazados eran
pequeños propietarios, que un 43 % carecían de propiedades
(CODHES, 1997), y que en muchos casos debieron
abandonar sus pocas pertenencias o venderlas a precios

29
ACNUR. Desplazamiento Forzado en Colombia: derechos, acceso a la justicia y
reparaciones. Colombia, 2007. p. 28.
30
SALDARRIAGA FLÓRES, Nora Isabel (org). Mujer, negra y desplazada: triple
victimización en Colombia. Medellín: Ediciones UNAULA, 2013, p. 15-16.
31
Nome fictício. Todos os nomes das entrevistadas foram modificados para sua
segurança e de suas famílias. Suas regiões de origem, no entanto, são verdadeiras.
32
VIOLETA. Entrevista cedida à autora em 20 de agosto de 2016. Bogotá.

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irrisorios, no es de extrañar que queden obligados a insertarse


en la ciudad en condiciones de absoluta pobreza33.

A conjunção entre violência e pobreza na realidade das mulheres


deslocadas necessita de estudo aprofundado sobre os processos de violação e
deslocamento forçado feminino no conflito armado colombiano, desde a
observação de suas memórias e percepções sobre estes eventos, comparadas com
os programas de assistência (governamentais e não-governamentais), reparação
242
e justiça. É necessário que se observe até que ponto os programas de reparação
e justiça tem alçado contribuir para a transformação da condição de deslocadas,
logo, envoltas em pobreza e, em alguns casos, indigência das mulheres na
Colômbia. Quando dizemos transformação da sua situação de pobreza, não nos
referimos apenas às políticas de assistência e/ou ajuda humanitária. Queremos
saber se há projetos que efetivamente tem por objetivo contribuir para o
desenvolvimento socioeconômico deste setor da sociedade.

Conclusão: o caráter econômico do conflito armado

Como já foi exposto, este trabalho representa um ensaio, um compilado


de ideias iniciais sobre um tema ainda em processo de pesquisa: o conflito
armado colombiano e suas implicações para os corpos das mulheres.
Introdutório e ainda inacabado, este ensaio levanta hipóteses acerca das
especificidades da política e economia colombianas que servem de pano de
fundo para o conflito mais antigo do nosso continente, que por sua vez viola de
forma sistemática, através da violência sexual e do deslocamento forçado, a
milhões de mulheres.

Não é possível esboçar conclusões sobre os desdobramentos num


cenário de pós-conflito do que foi exposto neste momento, mas em linhas gerais,
podemos apontar caminhos interpretativos e, com muito cuidado, algumas
conclusões preliminares. Para compreender o processo de acumulação de capital

33
BELLO, Martha Nubia. Las familias desplazadas por la violencia: un tránsito abrupto
del campo a la ciudad. Revista de Trabajo Social. No. 2. Bogotá, 2000, pp.113-123,
p.115.

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na Colômbia, é necessário levar em consideração a associação existente entre as


dinâmicas de acumulação (de terras e de capital) e o uso irrestrito da violência,
que produz “uma maquinaria do terror, da morte e do extermínio físico e moral,
produzindo o disciplinamento e o controle social baseado na violência”34.

A associação entre o capital nacional e o capital internacional se dá


mediante duas vias, que caminham lado a lado, sendo, por um lado, a
manutenção da dependência econômica frente ao capital estrangeiro e suas
243
respectivas alianças estratégicas com os Estados Unidos, seja pela entrada de
capital de empresas americanas ou pela entrada de capital militar, com a desculpa
de combater os “inimigos internos”. Por outro lado, temos o desenvolvimento de
uma economia cada dia mais voltada para as atividades ilícitas do capital, a
saber: o tráfico de pessoas, drogas e armas, bem como a extração ilegal de
recursos naturais. Soma-se a essa “empresa” de capital criminal o financiamento,
manutenção e reprodução do conflito armado, gerando terror, força de trabalho
ilegal e violência sistemática contra a população civil.

Diversos são os motivos para a existência – a longa existência – do


conflito armado na Colômbia. É importante lembrar que inúmeras estratégias
dos atores armados e/ou políticos são responsáveis pelo desencadeamento do
conflito e sua posterior manutenção e reprodução. “Por exemplo: a questão
agrária, a debilidade institucional, a profunda desigualdade de renda, a tendência
ao uso simultâneo de armas e urnas ou a presença precária ou, em algumas
ocasiões, traumática do Estado nas muitas regiões do território nacional”. Todos
estes elementos, juntos, garantem o que um dos relatores da Comissão Histórica

34
ESTRADA ÁLVARES, Jairo. Op. Cit., p.128.

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do Conflito e suas Vítimas35, o professor Leongómez, chamou de “postergação


indefinida de mudanças necessárias”36.

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35
A CHCV tem como origem um acordo entre os representantes do Governo
colombiano e os delegados das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC-
EP), adotado em 5-10-2014 pela Mesa de Diálogos em Havana. A Comissão foi formada
com a missão de produzir um informe sobre as origens e as múltiplas causas do conflito,
os principais fatores e condições que tem facilitado ou contribuído para a sua
persistência, bem como os efeitos e impactos do mesmo sobre a população. O Informe
completo pode ser acessado em: https://www.mesadeconversaciones.com.co/comision-
historica.
36
LEONGÓMEZ, Eduardo Pizarro. Una lectura múltiple y pluralista de la historia.
(Relatoría). Informe de la Comisión Histórica del Conflicto y sus Víctimas. Havana,
2015, p.6.

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DA CONSTRUÇÃO DOS SABERES À PRÁTICA – REFLEXÕES


DECOLONIAIS SOBRE A VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA NO BRASIL

Inara Fonseca*

Introdução
Na manhã seguinte do parto o médico passou na porta da
enfermaria e gritou: ‘Todo mundo tira a calcinha e deita na 249
cama! Quem não estiver pronta quando eu passar vai ficar sem
prescrição!’. A mãe da cama do lado me disse que já tinha
sido examinada por ele e que ele era um grosso, que fazia
toque em todo mundo e como era dolorido. Fiquei com medo
e me escondi no banheiro. E fiquei sem prescrição de remédio
pra dor. P. atendida na ala do serviço público da Maternidade
Pró-Matre de Vitória-ES. (PARTO DO PRINCÍPIO –
MULHERES EM REDE PELA MATERNIDADE ATIVA,
2012: 137)

Violência de gênero no parto e aborto, violência no parto, abuso


obstétrico, violência institucional de gênero no parto e aborto, desrespeito e
abuso, crueldade no parto, assistência desumana/desumanizada, violações dos
Direitos Humanos das mulheres no parto, abusos, desrespeito e maus-tratos
durante o parto são termos utilizados para descrever as violências ocorridas na
assistência do ciclo gravídico-puerperal ou do abortamento.

Diversas pesquisadoras brasileiras (Hotimsky, 2002, 2007; Aguiar,


2010; Diniz, 2015; Tesser et al, 2015) têm apontado os muitos abusos que as
mulheres suportam no momento do parto. Apesar dos avanços nas discussões,
no Brasil a violência obstétrica não é tipificada em lei sendo a definição proposta
pela legislação aprovada na Venezuela, primeira latino-americana com esse teor,
a que será utilizada neste trabalho. Assim, temos que:
Entende-se por violência obstétrica a apropriação do corpo e
dos processos reprodutivos das mulheres por profissional de
saúde que se expresse por meio de relações desumanizadoras,
de abuso de medicalização e de patologização dos processos
naturais, resultando em perda de autonomia e capacidade de

*
Jornalista. Mestre em Estudos de Cultura Contemporânea pela Universidade Federal
de Mato Grosso. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Cultura
Contemporânea da Universidade Federal de Mato Grosso. Bolsista CAPES.

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decidir livremente sobre seu corpo e sexualidade, impactando


negativamente na qualidade de vida das mulheres (Tradução
da autora, República Bolivariana de Venezuela, 2007: 30).

De acordo com a pesquisa Mulheres brasileiras e gênero nos espaços


públicos e privados - 2010, realizada pela Fundação Perseu Abramo, uma em
cada quatro mulheres no Brasil sofre algum tipo de violência no momento de
parirem. Diniz (2015) aponta que o levantamento e a divulgação dos dados foram
um divisor no país, já que após a publicação o termo violência obstétrica saiu da 250
esfera acadêmica e ganhou visibilidade midiática. A autora também destaca que
o debate sobre a temática é considerado recente e permeado de imprecisões,
sendo necessária a ampliação das pesquisas e abordagens sobre.

Este trabalho é parte de uma pesquisa de doutorado, ainda em


andamento, e tem como objetivo demonstrar como a construção de um saber
obstétrico eurocentrado é fundamental para constituição do cenário de violência
de gênero institucional enfrentado pelas mulheres grávidas no Brasil. Para isso,
tratamos do desenvolvimento da prática obstétrica dialogando com alguns
conceitos derivados da perspectiva decolonial e da crítica feminista através da
revisão bibliográfica.

Nos últimos 10 anos, a Medicina Baseada em Evidências tem


desenvolvido estudos profícuos na tentativa de deslegitimar algumas práticas
enraizadas nos saberes obstétricos (reproduzidos pela maioria das faculdades de
Medicina), como a episiotomia, e de propagar novas alternativas para as práticas
de parturição. Entretanto, há poucas pesquisas que tentem compreender a
realidade da violência obstétrica brasileira a partir dos estudos decoloniais, ou
seja, relacionando o modelo de assistência ao parto contemporâneo com a
racionalidade técnica fruto de uma subjetividade eurocentrada.

A colonialidade do poder

Dussel (1992) explica que o primeiro momento da constituição


histórica da Modernidade deu-se entre 1492 e 1636. Para o filósofo, ao tratar do
fato Habermas comete um equívoco ao apontar que apenas a Revolução

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Francesa, a Reforma Protestante e o Iluminismo foram constitutivos da


Modernidade. Dussel defende que foi justamente o descobrimento e a conquista
da América que permitiram a constituição do ego moderno.

De acordo com Dussel, antes do descobrimento, o mundo para a Europa


Ocidental se dividia em três partes: Europa-África-Ásia. Sendo a segunda, na
perspectiva eurocêntrica e racista, indigna de constar na história universal devido
ao caráter bruto que sua população se encontrava e a última em processo de
251
desenvolvimento. É entre 1502 e 1506 que, ao descobrir uma quarta parte na
Terra, a Europa “produz uma autointerpretação de si mesma” (DUSSEL
1992:41) – de provinciana e renascentista, ela torna se moderna. Assim, com o
surgimento da Modernidade, a Europa Ocidental constitui-se como centro do
mundo e coloca todas as demais culturas como periféricas.

Quijano (2005) afirma que três fatores colaboraram para esse


eurocentramento: 1) controle do ouro das colônias na América que assegurava
uma posição de privilégios; 2) vantajosa localização na vertente do Atlântico por
onde eram feitas as rotas do mercado mundial; 3) controle do mercado mundial
(capital comercial, trabalho e recursos de produção) devido a progressiva
monetarização que os metais preciosos da América estimulavam e permitiam.
Do eurocentramento, surgia uma relação assimétrica entre o centro e as demais
periferias, tanto na produção de conhecimento como na distribuição do poder.

A noção de colonialidade do poder, conceito criado por Quijano (1989),


é amplamente utilizada pelos autores decoloniais para denunciar a persistência
de estratégias de dominação coloniais após o fim do processo de colonização dos
países da América Latina. De acordo com Castro-Gómez e Grosfoguel (2007) o
conceito decolonial surge para transcender o discurso de que com o fim das
administrações coloniais ocorre a transformação das antigas colônias em Estado-
nação.
A expressão “colonialidade do poder” designa um processo
fundamental de estruturação do sistema-mundo
moderno/colonial, que articula os lugares periféricos da
divisão internacional do trabalho com a hierarquia étnico-
racial global e com a inscrição de migrantes do Terceiro
Mundo na hierarquia étnico-racial das cidades metropolitanas

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globais. Os Estados-nação periféricos e os povos não-


europeus vivem hoje sob o regime da “colonialidade global”
imposto pelos Estados Unidos, através do Fundo Monetário
Internacional, do Banco Mundial, do Pentágono e da OTAN.
As zonas periféricas mantêm-se numa situação colonial, ainda
que já não estejam sujeitas a uma administração colonial.
(GROSFOGUEL, 2008:16)

Os estudos decoloniais apontam que se a política imperialista de


colonização se findou, as estratégias de relações de poder produzidas por ela
252
permanecem na América Latina. Shohat e Stam (2006) ao tratar do
eurocentrismo contemporâneo convergem com a perspectiva decolonial ao
afirmarem a existência de resíduos do discurso colonialista na atualidade. Para
Shohat e Stam o discurso colonial presente hoje, principalmente na América
Latina, funciona como “regimes de verdades (..) encapsulados em estruturas
institucionais que excluem certas vozes, estéticas e representações” (Idem:44).
Assim como na teoria decolonial, os autores apontam que a vozes
subalternizadas são justamente aquelas alvo do racismo - ancorado em estruturas
materiais e inserido em configurações de história de poder.

De acordo com Quijano a noção de poder que temos hoje se relaciona


com a consolidação da América como o primeiro espaço/tempo de um padrão
de poder de vocação mundial. O autor explica que a constituição da América e
o desenvolvimento do capitalismo colonial/moderno e eurocentrado estruturam
a colonialidade do poder, pois elementos coloniais da forma de distribuição do
poder passam a ter um alcance mundial. Com os dois processos históricos
convergidos e associados estabelece-se a raça (suposta distinção na estrutura
biológica que coloca uns em função de superioridade em relação a outros) como
eixo fundamental do novo padrão de poder. Para Quijano, a ideia de raça,
constituída dentro da relação Europa/centro→colônia/periferia, legitimou e
reforçou as relações de dominação e exploração impostas pelas conquistas
europeias, possibilitando assim a formação de hierarquias entre os saberes
específicos de cada grupo racial. Utilizaremos os argumentos derivados da
colonialidade do poder não para falar de raça, mas de uma das relações de poder
mais antigas: a dominação de gênero, exposta aqui através da análise do modelo

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hegemônico de assistência ao parto e sua relação com o quadro de violência


obstétrico existente no Brasil.

O eurocentrismo na colonialidade do parto

Historicamente, as práticas de parturição nem sempre estiveram


centralizadas. Robbie Davis-Floyd (1984) narra que apenas no século XVIII,
acompanhando uma série de transformações na atenção à saúde de um modo 253

geral, o parto começa a ser vivenciado através da lógica do pensamento científico


ocidental. Até então, os partos eram uma experiência feminina, na qual as
mulheres eram auxiliadas por outras mulheres (parteiras, mães, irmãs, amigas,
etc.) através de chás, rezas, massagens e rituais próprios de cada cultura. Nesse
cenário, o parto era um evento privado, familiar e exclusivista (homens não eram
bem-vindos) e os conhecimentos eram repassados para cada mulher através da
história oral e da memória, ou seja, através da própria prática. O parto, portanto,
era encarado como uma questão biológica, social e cultural.

Com advento da modernidade, é estabelecida uma ordem “correta e


natural” para parir instituindo-se assim uma hierarquização dos saberes. Brigitte
Jordan (1993) explica que o saber obstétrico, originário das primeiras faculdades
de Medicina europeias, inseriu-se na sociedade de forma autoritária
deslegitimando e desautorizando outras formas de conhecimento. De acordo
com Brenes (1991), o conhecimento obstétrico apropriou-se do saber tradicional
das parteiras, para logo depois bani-las da assistência ao parto corroborando para
a hierarquização dos saberes e propagação da racionalidade técnica
eurocentrada.

Assim como a história do desenvolvimento da clínica médica obstétrica


europeia é marcada por violências e relações assimétricas, a da brasileira
também é por estratégias de dominação. Del Priori (1993) narra que o modelo
civilizatório de normatização dos corpos femininos é feito no Brasil Colônia
majoritariamente através dos discursos e das práticas da Igreja e dos médicos.
Com a necessidade de dominar a colônia, o modelo europeu é transportado para

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o Brasil, “o trópico dos pecados”, e para as mulheres a maternidade torna-se


sinônimo de remissão. No âmbito das práticas de parturição, o parto com mínimo
de dor e com o corpo nu das mulheres indígenas é associado ao pecado. A autora
narra que o discurso religioso era apoiado pelo normativo médico que ao estudar
o funcionamento do corpo da mulher compreendia que ele servia apenas para
um propósito: procriar. E gerar de uma maneira específica, circunscrita nas
práticas morais e éticas desenvolvidas pela ciência europeia.
254
Dussel (1992) aponta que a colonização da vida cotidiana da população
indígena foi o primeiro processo europeu de modernização. Os ataques aos
saberes locais eram a prática necessária para a conquista e a domesticação do
modo como os nativos viviam e reproduziam a vida humana. Era necessário
alienar o Outro como o Mesmo para dominá-lo. Mignolo (2010:12) aponta que
a matriz colonial do poder “é uma estrutura de níveis entrelaçados”, assim há
colonialidade em vários níveis, incluindo nos saberes. A colonialidade do saber
está diretamente ligada com a dimensão epistemológica. Quijano explica que
para legitimar a epistemologia colonial eurocentrada os colonizadores exerceram
operações para o controle das subjetividades: 1) expropriaram as populações
colonizadas; 2) reprimiram as formas de produção de conhecimento dos
colonizados; 3) forçaram a aprender a cultura dos dominantes.

A expansão do colonialismo europeu expandiu a perspectiva


eurocêntrica do conhecimento e com ela a naturalização das relações coloniais
entre europeus e não europeus. Assim, a epistemologia colonial se espalha: a
perspectiva europeia racionalista deve se impor a outras visões de mundo. O
processo de invisibilidade e alienação das formas de existências não-europeias
(indígenas e negros) é fundamental para compreensão de como ainda hoje
admitisse a “ideologia eurocêntrica sobre a modernidade como uma verdade
universal” (Quijano, 2005:24). Da colonização construiu-se a América Latina
atual que embora jamais se constituirá como o Mesmo insiste em identificar-se
com o ideal eurocentrado. Excluindo e deslegitimando as práticas cotidianas das
populações a margem do sistema mundo patriarcal e capitalista, ainda que novas

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identidades ditas nacionais tenham sido assumidas com o fim do período


colonial.

No caso do parto, com o eurocentrismo “como modo de produção e de


controle da subjetividade e, em especial, do conhecimento” (QUIJANO,
2005:10), a experiência da parturiência torna-se engendrada pela racionalidade
técnica e quaisquer outras vias que não sejam a medicalização no parto são
reprimidas. O reflexo dessa lógica é claramente visualizado nos dados
255
estatísticos sobre as práticas de parto no Brasil. Ainda que sejamos fruto da
mistura de raças, a diversidade de saberes na partenagem desaparece quase que
totalmente para reinar nos espaços públicos ou privados a biomedicina. Saberes
científicos desenvolvidos no início da obstetrícia se perpetuam e ao mesmo
tempo se atualizam com novas práticas cada vez mais tecnocráticas, como a
cirurgia cesariana como método mais seguro de parturição.

De acordo com o Estado Mundial de la infancia 2014, pesquisa


realizada pelo Fundo das Nações Unidas pela Infância (UNICEF), e com a
Pesquisa Nacional sobre Parto e Nascimento Nascer no Brasil, realizada pela
Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), vinculada ao Ministério da Saúde e
divulgada em 2014, o Brasil é campeão mundial em cesárea com
aproximadamente 50% dos nascimentos mediante essa prática na esfera pública.
Em clínicas privadas, os nascimentos por cesárea alcançam cerca de 90%. A
realidade brasileira acompanha a de quase toda América Latina, o México, por
exemplo, fica em 2º lugar no ranking das cirurgias cesáreas com 46%, seguido
pela Columbia (44%) e pela República Dominicana (42%).

No Brasil, de acordo com Abramo (2010), 25% da população feminina


passou algum tipo de violência durante a assistência ao parto. Das que pariram
na rede pública 27% sofreram violência, na rede privada 17% e em ambas 31%.
Entre as causas para os altos índices de violência durante a assistência ao parto
aparecem o grande número de cesarianas e a formação dos profissionais. Sobre
ambos aprofundaremos nos próximos tópicos.

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A cesariana: uma invenção da modernidade

Odent (2004) narra que em seu nascimento a cesariana foi vista como
um recurso tecnológico incrível para salvamento da vida de mães e bebês, porém
a técnica era somente utilizada quando a parturiente possuía alguma questão
patológica que impedisse o parto via vaginal. As primeiras cesarianas não eram
vistas como seguras: a incisão clássica era vertical (de dois centímetros abaixo
do umbigo até dois centímetros acima do osso pubiano) e tinha sérios riscos de
256
infecção, obstrução intestinal e sangramentos uterinos em gestações posteriores.
O ponto de virada desse imaginário deu-se a partir da 2ª Guerra Mundial com a
corrida pelo desenvolvimento tecnológico. Descobriu-se por volta da década de
50, uma nova técnica (incisão transversal ou corte de segmento inferior uterino)
e a cirurgia cesárea se desenvolveu rapidamente acompanhando as mudanças
que ocorreram na própria medicina.

Além dessa mudança, o desenvolvimento dos primeiros antibióticos, de


métodos analgésicos mais seguros e a substituição de tubos de borracha por
plásticos nas transfusões colaboraram também para a criação do imaginário
social de uma cirurgia segura. De acordo com Odent, a técnica utilizada na
cesariana hoje permanece semelhante a desenvolvida em 1950.

A partir dessas transformações, Odent narra que progressivamente a


cirurgia passou de uma operação de salvamento para algo rotineiro. De
importâncias faculdades de medicina de Londres e da América do Norte
obstetras discursavam em favor da cesariana alegando ser um salto evolutivo
para a humanidade.

No Brasil, Rezende (1984: 37) narra que até 1915 a cirurgia cesariana
era realizada raramente e à maneira clássica, ou seja, incisão vertical. Devida à
escassez do procedimento o autor explica haver pouco material documentado
sobre a técnica. É com o surgimento das escolas de obstetrícia que a cesariana
se desenvolve e popularizasse. A fundação da Maternidade do Rio de Janeiro,
em 1904, é apontada como um marco que impulsiona à “modernização da
assistência obstétrica” (Rezende 2006: 102). Acompanhando o desenvolvimento

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europeu é em 1955 que a primeira cesariana por incisão vertical (ou de


Pfannestiel) é realizada no Brasil.

Com os resultados positivos da nova técnica praticada pela equipe da


Maternidade do Rio de Janeiro, é propagada a ideia pelos médicos de que “a
cesárea abdominal atingiu as culminâncias de aperfeiçoamento técnico”.
(Rezende 1987: 858). O autor segue a narrativa argumentando ser a cesariana
uma evolução linear, progressista e racional sendo, portanto, óbvia sua ampla
257
utilização. A difusão da cirurgia e as transformações biomédicas das práticas são
apresentadas como etapas de um processo evolutivo previsível e necessário. É o
parto cirúrgico o adequado para os novos tempos modernos. O parto via vaginal
é coisa do “passado”. Não é válido para as novas mulheres civilizadas e equipe
médica que fiquem nas mãos da imprevisível natureza. São construídas
palatinamente subjetividades diferenciadas para cada procedimento. A cirurgia
representaria o moderno, o higiênico, o seguro. O parto vaginal o primitivo, o
sujo, o caos.
A velha arte dos partos transfigurou-se, e tendo-se despojado
da operatória de arrancamento, seu outrora campo único,
limitou os atos extrativos, disciplinou-os e deu-lhes
suavidade. A espera resignada e fatalista do parto vaginal
pôde ser derrogada com o desenvolvimento da fisiopatologia
da contração uterina que permitiu governá-lo, encurtar-lhe as
fases, monitorá-lo, induzi-lo; mediante o aperfeiçoamento da
anestesiologia, tornando-o indolor, e, através dos préstimos
da operação cesariana, cristalizada em técnica de
simplicidade extrema (REZENDE 2006: 2).

Em 1977, o debate sobre a cesariana eletiva entra em cena e é


justamente na América Latina que a cirurgia por agendamento tem sua origem.
Odent chama atenção para o fato de que são nos países da América Latina, com
destaque para o Brasil, que as cesarianas elevaram-se mais rapidamente. O
intelectual enxerga uma ligação entre o fato com a perseguição sofrida pelas
parteiras desses locais.

Cardoso (2015) explica que Lélia Gonzalez se aproxima do pensamento


decolonial ao criticar a ciência Ocidental como a única autorizada enquanto

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saber. Para a intelectual, a hierarquização dos saberes é justamente fruto do


modelo universal eurocentrado (e, por conseguinte, branco).
Disto decorre que a explicação epistemológica eurocêntrica
conferiu ao pensamento moderno ocidental a exclusividade
do conhecimento válido, estruturando-o como dominante, e
inviabilizando, assim, outras experiências do conhecimento.
Segundo a autora, o racismo se constituiu “como a ‘ciência’
da superioridade eurocristã (branca e patriarcal), na medida
em que se estruturava o modelo ariano de explicação”.
(CARDOSO 2015: 971)
258

Fica claro que a construção sócio-histórica da clínica médica obstétrica


acompanhou a lógica de dominação racial colonial. A partir do exposto podemos
afirmar que as práticas hegemônicas de assistência ao parto constituem um saber
autoritário (Jordan, 1993; Davis-Floyd, Sargent, 1997) e excludente de outras
práticas. O saber autorizado, o da biomedicina, é parte constituinte da formação
médica – tida como uma das causas da violência obstétrica no Brasil.

O parto e a colonialidade de gênero


“Vou dar logo no cu!” Fala de um médico plantonista em
resposta a um pedido realizado no meio da noite para
prescrição de medicação para dor na cicatriz da episiotomia.
Prescreveu um anti-inflamatório via retal. Maternidade Pró-
Matre, Vitória-ES. (PARTO DO PRINCÍPIO – MULHERES
EM REDE PELA MATERNIDADE ATIVA, 2012: 138)

No ano de 2000 dois importantes fatos ocorreram para o possível


melhoramento da condição das mulheres grávidas brasileiras: 1) o Brasil, junto
com mais 189 países, assinou o compromisso de redução de 75% da mortalidade
materna até 2015; 2) políticas públicas de humanização a assistência da saúde
sexual e reprodutiva das mulheres começaram a ser instauradas e incentivadas
pelo Ministério da Saúde. Entretanto, o impacto dessas iniciativas não assume
materialidade visto que permanecemos com elevadas taxas de mortalidade
materna e de violência obstétrica. De um lado temos, entre 2000 e 2009, um
coeficiente de mortalidade materna no país de 65,13 mortes maternas a cada 100
mil nascidos vivos, sendo o parto e o puerpério responsáveis por 17,1% dos
óbitos maternos (FERRAZ e BORDIGNON, 2012). Do outro, humilhações,

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constrangimentos, procedimentos médicos sem autorização, negligências,


mordaça e restrição de informações no cotidiano das práticas de parturição
brasileiras.

Davis-Floyd assinala que, na Modernidade, o parto deixa de ser


vivenciado como um ritual de passagem, o qual acarreta transformações
corporais, familiares e sociais, para se restringir à dimensão biológica. Essa
visão anatomopatológica imposta ao longo dos últimos séculos, principalmente
259
no Ocidente, através de políticas estatais e do desenvolvimento da clínica
médica, transforma o hospital no único local para o momento do parto. Se a
instituição do hospital como local oficial da assistência ao parto pode ser
considerada um dispositivo de colonialidade do saber (na medida que colabora
na produção e manutenção da hierarquização dos saberes), também pode ser de
colonialidade de gênero.

Ao normatizar e engendrar o corpo feminino num modelo único


inventando a partir de um imaginário eminentemente masculino, embora se
afirme científico, o médico torna-se protagonista do evento e não a mulher. Uma
relação assimétrica entre curador e paciente é então estabelecida. Vale ressaltar
que a mulher durante anos não teve espaço dentro das universidades, assim o
desenvolvimento do conhecimento médico especializado obstétrico foi
eminentemente masculino.

A antropóloga também argumenta que o atual modelo hegemônico,


intervencionista e tecnocrático, no campo da parturição reproduz a lógica do
patriarcado: construindo o imaginário social do corpo da mulher como um ente
fraco que necessita da intervenção e controle da tecnologia masculina. Assim, o
nascimento passa para o controle do homem branco médico, as intervenções no
corpo feminino são legitimadas e práticas que desfavorecem a parturiente são
instauradas sendo propagadas até hoje. Davis-Floyd demonstra que muitas das
práticas obstétricas que ocorrem rotineiramente nos hospitais não são
cientificamente eficazes, mas sim rituais simbolicamente fortes que reafirmam o
domínio da ciência masculina. Como exemplo, temos a posição litotômica
(mulher deitada de costas com as pernas erguidas e abertas) a qual, se facilita

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que o médico apare o bebê no momento do expulsivo no parto normal, em nada


favorece a parturiente, já que a força da gravidade ajudaria a mulher grávida a
expelir o bebê caso ela estivesse de cócoras ou em pé.

Se as relações de poder foram instauradas no campo da parturição tanto


para as mulheres do centro (europeias) quanto para as da periferia (latino-
americanas), por que as realidades obstétricas se diferem tanto? Por que nas
estatísticas sobre cirurgias cesarianas e violência obstétrica os países da América
260
Latina ocupam os primeiros lugares?

Lugones (2014) afirma que a dicotomia central da Modernidade


colonial se localiza na hierarquia dicotômica entre o humano e o não humano.
No processo de colonização toda a população indígena e negra era vista como
animais bestializado, ou seja, não humanos. A autora explica que a leitura do
colonizador dos corpos se dava pelo dimorfismo aparente da forma, assim os não
humanos poderiam ser machos ou fêmeas, mas não se atualizavam em homens
e mulheres.
Começando com a colonização das Américas e do Caribe,
uma distinção dicotômica, hierárquica entre humano e não
humano foi imposta sobre os/as colonizados/as a serviço do
homem ocidental. Ela veio acompanhada por outras
distinções hierárquicas dicotômicas, incluindo aquela entre
homens e mulheres. Essa distinção tornou-se a marca do
humano e a marca da civilização. Só os civilizados são
homens ou mulheres. Os povos indígenas das Américas e
os/as africanos/as escravizados/as eram classificados/as como
espécies não humanas – como animais, incontrolavelmente
sexuais e selvagens. O homem europeu, burguês, colonial
moderno tornou-se um sujeito/ agente, apto a decidir, para a
vida pública e o governo, um ser de civilização,
heterossexual, cristão, um ser de mente e razão. A mulher
europeia burguesa não era entendida como seu complemento,
mas como alguém que reproduzia raça e capital por meio de
sua pureza sexual, sua passividade, e por estar atada ao lar a
serviço do homem branco europeu burguês. (LUGONES,
2014: 936)

Ao apontar a não humanidade da população colonizada a autora


defende que “a consequência semântica da colonialidade do gênero é que
“mulher colonizada” é uma categoria vazia: nenhuma mulher é colonizada;
nenhuma fêmea colonizada é mulher” (LUGONES, 2014: 939). Se Beauvoir

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(1980) enunciava que torna-se mulher através da construção social, Lugones


surge afirmando que indígenas, negras, latino-americanas sequer se enquadram
na categoria universal de mulher, sendo necessária a criação de outra categoria
para as especificidades das mulheres que passaram pelo processo de
colonização.

Lugones (2008) cita estudos sobre tribos nativo-americanas


ginecocráticas focadas no espiritual nas quais a fêmea é altamente valorizada
261
pois simboliza o princípio da deidade feminino, como consequência desse
pensamento a equidade entre os sexos era preservada. La Vieja Mujer Araña, La
Mujer Maíz, la Mujer Serpiente, la Mujer Pensamiento son algunos de los
nombres de creadoras poderosas. (Lugones, 2008:89). Além das sociedades
ameríndias, a autora também traz uma pesquisa sobre a sociedade africana
Yoruba, onde não havia um sistema de gênero institucionalizado tendo surgido
apenas após a colonização relações de gênero binárias e hierárquicas. Antes, os
corpos femininos e masculinos podiam ser obinrin ou okunrin não sendo
construídos biologicamente.

A autora traz os exemplos para demonstrar como, antes da colonização,


muitas sociedades não se organizavam socialmente através da lógica de gênero.
O que nos leva considerar que se o patriarcado foi fundamental para
desenvolvimento e constituição do capitalismo na sociedade europeia, a
colonização foi fundamental para o desenvolvimento e constituição do
patriarcado em muitas sociedades da América Latina que tiveram, assim, suas
bases estruturais modificadas. Lugones aponta que rapidamente os machos
colonizados incorporaram a lógica de gênero do colonizador e passaram a
subjugar aquelas que seriam pares. Dentro de uma conjuntura de opressão seria
a oportunidade dos homens não humanos estabelecerem uma relação de poder e,
quem sabe, se atualizarem em homens.
Com a dominação colonial, as tribos ginecocráticas sofrem
transformações importantes, e chegam a ser destruídas para se
tornarem tribos patriarcais. As mudanças nas bases das
instituições vigentes, causam impactos extremamente
negativos, que podem ser a dizimação de populações pela
fome, doenças, e rompimento das estruturas sociais,

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espirituais e econômicas. (LUGONES, 2007, p. 199, tradução


minha).

Para nós o pensamento de Lugones parece fundamental para uma


compreensão da realidade obstétrica atual. Com o eurocentrismo como
subjetividade hegemônica, fica claro que a colonialidade do poder, do saber e do
gênero se materializam diariamente no Brasil. Suspeitamos, e usamos o verbo
em face do caráter ainda inicial da pesquisa, que as fêmeas latino-americanas
262
ainda não se atualizaram em mulheres. Talvez essa hipótese explicasse a
naturalização sistêmica da violência obstétrica (e de outras formas de violência),
do controle dos corpos femininos e da mercantilização do parto através das
cirurgias cesarianas. Muito tem sido produzido a respeito do papel da formação
dos médicos para a propagação e manutenção das violências obstétricas,
acreditamos que uma mudança real só se dará se começarmos a discutir a raiz
dos eixos que norteiam nossa subjetividade científica colonizada.

De acordo com Haraway (1995) a pretensa objetividade do saber


científico qualifica as pontuações de mulheres, principalmente feministas, como
o saber dos “Outros” e o dos homens, “masculinistas”, o saber “Mesmo”. Assim,
o privilégio de um ponto de vista universal estaria com eles, os homens. Kunzru
(2016), em entrevista com Haraway, narra que a autora enxerga um viés
masculinista da cultura científica. Para Haraway as questões políticas, incluindo
as das mulheres, estão corporificadas na tecnocultura. “A tecnologia não é
neutra. Estamos dentro daquilo que fazemos e aquilo que fazemos está dentro de
nós. Vivemos em mundo de conexões – e é importante saber quem é que é feito
e desfeito”. (Kunzru 2016:32). Enquanto o único saber autorizado na obstetrícia
for o biomédico, construindo em uma lógica de dominação racial e de gênero,
permaneceremos não-humanas.

Considerações finais

Os estudos sobre as práticas de parturição demonstram que


aparentemente a violência obstétrica no Brasil não diferencia classe ou idade:
basta que seja fêmea. Estatisticamente, o país é campeão em cirurgias cesarianas

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e em violência obstétrica tendo o fato sido classificado pela Organização


Mundial da Saúde (OMS) como epidêmico. Apesar dos dados, a naturalização
do saber biomédico como única alternativa legítima tem fortalecido a
racionalidade técnica dentro das práticas de assistência ao parto, na medida que
contribui para um processo de “patologização” do parto através da construção
de uma cultura de medo que desqualifica o corpo feminino como sujeito de sua
própria experiência.
263
Através do cruzamento das perspectivas antropológicas e decoloniais,
fica claro que: 1) o modelo hegemônico de assistência ao parto impossibilita a
diversidade de experiências e simbolismos relativos a tal evento; 2) a
biomedicina pode ser compreendida como um projeto de colonialidade e,
portanto, produtora de assimetrias e relações de poder; 3) a colonialidade do
gênero se materializa no cotidiano das práticas de parturição colaborando para
naturalização da violência obstétrica.

Um provérbio africano afirma que “até que os leões tenham seus


próprios historiadores, as histórias de caça continuam glorificando ao caçador”.
Dialogando com Davis-Floyd, acreditamos ser necessário construir novas
perspectivas teóricas-práticas de assistência ao parto que valorizem o
conhecimento da mulher sobre o seu próprio corpo e a diversidade de saberes
existentes, descolonizando as relações de gênero e de saberes. Mais, se o
eurocentrismo – como estratégia de dominação colonial – permanece nas
obscurecências da Modernidade faz se mais do que necessário construir uma
teoria de gênero crítica não-eurocentrada. Só será possível despatriarcalizar, se
primeiro nos descolonializarmos.

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E ESSE CORPO, DE QUEM É? O ABORTO NO BRASIL E O DEBATE


SOBRE SUA DESCRIMINALIZAÇÃO

Marcela Boni Evangelista*

Iniciando a discussão

A pergunta que nos motiva nesta reflexão é permeada por interessantes 267
paradoxos. Ao questionarmos: “E esse corpo, de quem é?” nos dirigimos às
mulheres e é sobre este ponto de vista que pretendemos tratar a temática do
aborto. Importante enfatizar, contudo, que a mesma pergunta feita aos homens
ou pessoas que se definem por outros recortes de gênero guarda importantes
aspectos, os quais não serão trabalhados nesta ocasião. Nosso tema norteador é
o aborto, mais estritamente os chamados abortos induzidos ou provocados.
Aborto é aquilo que é eliminado quando da interrupção de
uma gravidez. O processo que resulta no aborto chama-se
abortamento. A interrupção da gravidez pode se dar por
causas naturais, os chamados abortos espontâneos, ou por
ação voluntária da mulher, ajudada ou não por outra pessoa.
Nestes casos, fala-se em aborto provocado ou induzido.
(VILLELA & BARBOSA, 2011, p. 11)

Neste sentido, acionamos esta experiência na medida em que envolve o


pressuposto da tomada de decisão, o que requer o agenciamento sobre o próprio
corpo. Corpo este que teoricamente pertenceria às mulheres. No entanto, se
atentarmos para a concretude das experiências de aborto e seu estatuto de crime
na sociedade brasileira, verificamos contradições, algumas das quais serão aqui
esboçadas.

O impedimento de sua realização por mecanismos legais, em primeiro


momento, destitui as mulheres do poder de decidir sobre o que acontece em seus
corpos. Mas não se trata unicamente de aspectos legais ou judiciais. Questões
como a religiosidade, a ética, a educação moralizante de uma sociedade

*
Doutoranda no Programa de História Social da Universidade de São Paulo (FFLCH-
USP) e bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

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patriarcal, além das relativas às relações de gênero, são elementos que compõem
um cenário de restrições ao domínio do próprio corpo pelas mulheres.

Partiremos de dois paradoxos. O primeiro emerge da existência de um


corpo individual que, entretanto, é dominado pelo Estado e por elementos que
integram uma educação moralizante que prevê a existência de papeis sociais
específicos para mulheres e homens. O segundo ilumina uma situação em que
ao mesmo tempo em que se retira da mulher a liberdade de decidir pela
268
interrupção voluntária da gravidez (IVG), confere a ela responsabilidade
irrestrita nos cuidados com métodos contraceptivos e com a prole.

Sendo assim, a pergunta que parecia simples encontra inúmeros


entraves para ser respondida. Mesmo a mulher que brada a máxima “meu corpo,
minhas regras” convive com uma realidade social em que este posicionamento
não é suficiente para que haja a garantia de que tem total controle sobre seu
corpo. São exemplares as represálias direcionadas para grupos feministas que
levantam esta bandeira, alvos de críticas e mesmo ações violentas por parte de
grupos opositores. E o que dizer em relação às mulheres que não compartilham
desta agenda militante? É possível que encontrem ainda maiores dificuldades
para fazer valer ações e decisões que destoam do que é considerado normativo.
Independente disso, vivemos uma realidade em que a prática de abortos
induzidos se mantém em números exorbitantes, ainda que os dados partam de
estimativas, já que não existem registros oficiais.
Um estudo recente sobre a magnitude do aborto no Brasil
estimou que 1.054.242 abortos foram induzidos em 2005. A
fonte de dados para esse cálculo foram as internações por
abortamento registradas no Serviço de Informações
Hospitalares do Sistema Único de Saúde. (MINISTÉRIO DA
SAÚDE, 2009, p.14)

Não pretendemos oferecer conclusões ou respostas fáceis, mas antes


adentrar ainda mais este universo de contradições que se projeta nas experiências
individuais. Ou seja, cada história permite entrever paradoxos, o que ilumina ao
invés de obscurecer o que nos trazem as experiências sobre aborto.

E qual o caminho a ser trilhado?

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Utilizamos o suporte teórico e metodológico da história oral para


acionar as experiências de mulheres sobre o aborto induzido, através de
entrevistas de história de vida, o que significa considerar menos as informações
objetivas do que os processos de construção narrativa envoltos por
subjetividades (MEIHY & HOLANDA, 2010, MEIHY & RIBEIRO, 2011).

Além disso, lançamos mão de elementos da História e suas discussões


atentas à crítica aos universalismos e à ideia de um suposto sujeito universal cujo
269
molde atravessaria as temporalidades. Como ilumina Maria Odila Leite da Silva
Dias
Libertar-se de categorias abstratas e de idealidades universais
como “a condição feminina” é uma preocupação que
decididamente enfatiza o interesse em desconstruir valores
ideológicos e em perseguir trilhas do conhecimento histórico
concreto que, reduzindo o espaço e o tempo a conjunturas
restritas e específicas, permitem ao estudioso a re-descoberta
de papeis informais, de situações inéditas e atípicas, que
justamente permitem a reconstituição de processos sociais
fora do seu enquadramento estritamente normativo.
Documentar o atípico não quer dizer apontar o excepcional,
no sentido episódico ou anedótico, mas justamente encontrar
um caminho de interpretação que desvende um processo
importante até ali invisível, por força da tonalidade restrita
das perguntas formuladas tendo em vista estritamente o
normativo. Encontrar a trilha e a perspectiva que ilumina a
terceira margem do rio é um modo de renovar o conhecimento
e nunca é bastante chamar atenção para o quanto podem ser
renovadores os estudos feministas. (DIAS, 1992, p. 40)

Aceitamos, neste sentido, o trato com as subjetividades e contradições


inerentes à concretude das experiências vividas, buscando estabelecer conexões
com outros momentos históricos e como estes se projetam na
contemporaneidade, considerando suas transformações.

No que diz respeito aos significados do corpo feminino - nosso ponto


de partida - é inegável a verificação da manutenção de concepções construídas
ao longo do tempo, como é o caso do papel social de mães atribuído às mulheres.
Evidentemente este estatuto apresenta mudanças em diferentes conjunturas e
temporalidades. A nós interessam especialmente as transformações

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impulsionadas pelos movimentos feministas, sobretudo, a partir da segunda


metade do século XX.

O debate sobre o corpo que desde então vem tomando forma esteve
fortemente presente na agenda feminista e dos movimentos de mulheres. A luta
pelo direito à autonomia dos corpos femininos encontrou, no entanto,
abordagens distintas e, por vezes, contraditórias mesmo no âmbito destes
movimentos.
270
A centralidade do corpo é vista em diversos momentos. A
popularização da pílula como método anticoncepcional garantiu a ampliação do
controle sobre o número de filhos, ainda que seu uso não tenha sido desde o
princípio feito da maneira adequada por todas as adeptas. No entanto, a
possibilidade de escolha diante da maternidade gradativamente permitiu às
mulheres novos espaços de atuação dentro e fora do ambiente doméstico.

O planejamento familiar pode também ser considerado integrante desta


tendência, uma vez que estabelece condições para a discussão sobre o acesso à
informação por parte das mulheres no que diz respeito à saúde reprodutiva e,
consequentemente, ao número de filhos. O objetivo desta proposta, importa
lembrar, se refere ao contexto familiar e na maioria dos casos se dirige às
mulheres de baixa renda, supostamente necessitadas de conhecimentos e,
principalmente, controle da natalidade.

Finalmente, chegamos ao aborto. Embora permanentemente na agenda


dos movimentos feministas, apresenta abordagens diversas, que merecem maior
atenção. Duas vertentes nos parecem centrais (Birolli, 2014): a primeira lida com
o aborto a partir da perspectiva da saúde reprodutiva e se alinha aos pressupostos
do planejamento familiar. Seria, deste modo, alternativa para garantir o
equilíbrio necessário à vida familiar, onde a mulher mantém seu papel voltado à
maternidade. Assim, diante do número de filhos ou das condições materiais para
receber mais um, o recurso ao aborto se mostraria uma alternativa válida.

Outra corrente defende a ideia de liberdade e autonomia sexual e, neste


sentido, se refere a um uso libertário do corpo no que diz respeito à atividade

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sexual e às experiências relacionadas à sexualidade já mais distanciadas da ideia


de reprodução e de família. O fato é que temos o corpo como protagonista de
conflitos, debates e discussões íntimas, mas também de âmbito social e coletivo,
o que complexifica a pergunta que nos serve de mote. Afinal, a quem pertence
este corpo?

É neste espaço contraditório por natureza, que se dá a experiência do


aborto. Território de disputa que envolve interesses que se estendem do nível
271
pessoal ao estatal. Em qualquer destes âmbitos entrevemos a produção de
discursos que buscam legitimar ou não o direito das mulheres sobre a decisão
relativa ao aborto.

Para estabelecer a presente reflexão nos basearemos em experiências de


mulheres que optaram pela interrupção voluntária da gravidez. Quais são suas
motivações e como operam com as consequências práticas e simbólicas da
decisão tomada? De que maneira lidam com seu próprio corpo e como
verbalizam suas reflexões observadas em perspectiva a partir da entrevista de
história de vida?

Amelinha

A clandestinidade que marcava os corpos sob a ditadura. O aborto


seguro em meio à clandestinidade.
Fiquei longo tempo na clandestinidade e foi nessa época que
fiz um aborto. Tive a necessidade de fazer. Tinha dois filhos
e era clandestina! Não havia razão para ter mais um filho, eu
via que não tinha condições objetivas para criar uma criança.
Mal conseguia criar os dois que tinha, imagine mais um! Um
companheiro médico fez o aborto em mim em uma casa, com
todas as condições e me deu toda a atenção necessária.

O paradoxo da vida em democracia sujeita aos riscos da criminalização.


Fiz um aborto seguro embora vivesse na clandestinidade! O
paradoxo é que hoje vejo mulheres precisando fazer um
aborto e tendo que fazer de forma insegura e clandestina,
mesmo sabendo que vivemos uma democracia! Ainda assim,
o aborto continua clandestino! Algo que deveria ser entendido
como um direito humano fundamental é realizado na
clandestinidade! No meu caso, o aborto foi clandestino

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porque eu era clandestina! A vida nos havia empurrado para


isto, a ditadura não permitia que fosse diferente. Hoje vejo
mulheres enfrentando a mesma ditadura, mas em outro
sentido, precisando fazer clandestinamente o aborto e
sofrendo gravíssimas consequências!

A militância que busca libertar os corpos das mulheres através do


conhecimento que leva ao empoderamento.
No caso do aborto, fiz várias campanhas em escolas! É
importante que isso faça parte da educação. Por exemplo, 272
esses dias, fui com meu marido ao oftalmologista para ver a
situação da catarata e a médica falou que se ele quisesse
operar, ela faria a cirurgia. Mas, na opinião como médica, ela
não o faria agora porque ele precisaria melhorar o diabetes
para ter uma cicatrização mais adequada. Quer dizer, o corpo
é dele. Ele é quem decide se vai operar agora ou não.
No que diz respeito ao aborto, eu nem queria discutir. É uma
questão de foro íntimo e não o Estado que deve legislar. Se
uma pessoa está grávida e entende que não pode levar adiante
a gravidez, faz-se um aborto com todas as condições para sua
saúde física e mental. A gente precisa discutir isso melhor. É
um assunto de foro íntimo, mas deve ser tratado também do
ponto de vista social e político. Ou seja, é preciso garantir que
se fale sobre o assunto sem sofrer ameaças ou ser
criminalizada. Porque agora nem falar sobre o assunto é
permitido!
Num momento com tanto meio de comunicação como
celulares, e-mails é um absurdo que não se possa falar sobre
aborto. Uma pessoa que precisa recorrer ao aborto não pode
falar sobre isso porque pode ser ameaçada e acaba se
arriscando em clínicas clandestinas, como aconteceu com a
Jandira. Quem atendeu essa moça? Com certeza gente de má
índole porque esconder o corpo de uma pessoa, para mim, é
uma maldade, uma perversidade que não tem classificação!
Esconder o corpo é como tirar a humanidade da pessoa! Mas,
estas pessoas não são chamadas de bandidos! A mulher que
faz aborto é...

Deborah

Um corpo em busca de complemento. A solidão como porta de entrada


para uma vulnerabilidade que leva ao risco do não planejado.
Quando soube que estava grávida, o pior foi a decepção do
fato literalmente concebido... O cara disse que o máximo que
poderia fazer era visitar uma vez por mês e ligar de vez em
quando. Por um lado eu queria para poder segurar ele... Por
outro, via que não tinha a estrutura que eu queria. Ainda não
era totalmente independente e, se voltasse grávida para São

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Paulo, teria que morar na casa do meu pai, coisa que ele
jamais admitiria. Tinha a opção de tirar porque não queria
decepcionar meu pai, mas também não queria ter um filho de
um babaca!

As sensações físicas e as marcas sentimentais.


Quando minha menstruação atrasou, fiz vários testes. Sabia
que podia ser porque já não estava tomando remédio e pedia
para ele não gozar dentro, mas ele insistia. Atrasou uma
semana, fiz teste de farmácia e quando deu positivo não
acreditei! Pensei: “Está errado!”. Até que a ficha caiu... Liguei 273
para ele, que perguntou se eu queria ter e, se quisesse, ele não
poderia ficar comigo... Aí tomei a decisão de tirar.
Ele foi ao médico comigo e lá o ginecologista deu parabéns e
aquele “blá blá blá”... Quando saímos do consultório, disse
que não queria ter se fosse nessa situação, que para mim não
era satisfatória, e ele correu atrás do remédio, o Citotec...
Perguntou para o pessoal do trabalho e todo mundo ficou
sabendo... Mas ele acabou conseguindo.
Quando chegou o remédio, apliquei como tinham falado. Mas
o processo todo envolve muita dor! Cólicas absurdas! Para
aliviar, tomei banho e vi o embrião, porque sangra bastante,
absurdamente! Tanto que quando fizeram a curetagem,
falaram que não tinha mais nada. Graças a Deus, deu tudo
certo! Felizmente, tinha convênio em hospital particular, o
que é uma segurança a princípio, para não deixar nenhuma
sequela grave.
No dia seguinte [...] Ele me acompanhou – era o mínimo que
podia fazer – e depois, quando saímos de lá, ele foi para um
bar beber... Isso porque ele tem dois filhos!

O corpo que almeja o futuro de uma família ideal.


Penso no futuro, e próximo, que fique claro! Quero ter uma
família, conseguir alguém legal, companheiro, constituir uma
família... Mas a família certa, com companheiro de verdade,
aquele que vive junto, curte junto e quando eu estiver para
baixo, ele me erga, e quando estiver feliz, ele compartilhe.
Mas, sei que é beeeeem difícil!

A reflexão e a dúvida sobre o futuro. Como será quando outro filho


vier?
Essa é uma situação que precisa ser muito bem pensada
porque levamos para o resto da vida. Pode ter sequelas físicas,
como não poder ter mais filhos ou mesmo perder o útero! Mas
também de não saber lidar quando outro filho nascer... “Será
que vou me sentir mal porque já tirei um? Será que quando
nascer vai vir o arrependimento? Olha o que eu fiz!” Não sei
nem dizer qual pode ser o sentimento... Caso tenha um filho,

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não consigo imaginar se vou amar duplicado ou vou me sentir


extremamente mal pela atitude anterior... Sei que não é uma
atitude correta, mas naquele momento era a decisão mais
adequada, sem dúvida! O futuro se encarregará de trazer o que
tiver de ser... Tenho certeza que, como em tudo que faço, darei
o melhor de mim!

Vanessa

Desde garota, antenada em relação ao corpo e à sexualidade. Menos


pela mãe e irmãs do que pelas revistas direcionadas ao público adolescente. 274

Assim construiu terreno seguro para iniciar a vida sexual, sempre amparada por
métodos preventivos.
Minha consciência vinha das revistas que a gente lia na época,
Capricho, Atrevida, que não lembro se eram semanais ou
mensais, mas eu comprava todas! E o que eu sabia vinha daí!
Depois tive um namorado que fiquei por uns cinco anos e ele
era mais velho... Eu tinha 16 e ele uns 22 anos. Começamos a
ter relações, claro, e sempre tive esse cuidado de usar
camisinha... Lembro que depois da minha primeira relação fui
ao ginecologista... Muito por causa das orientações dessas
revistas, porque minha mãe não conversava esses assuntos
comigo... As revistas falavam que depois da primeira relação
precisava fazer exame Papanicolau e marquei sozinha minha
primeira consulta... Comecei a tomar pílula, mas como
esquecia, passei para a injeção... Depois de um tempo voltei
para a pílula... Mesmo com irmãs mais velhas, essas
conversas não rolavam...

Tal preocupação foi relaxada com a estabilidade do namoro em idade


um pouco mais avançada. Instabilidade no uso do método e a sensação de que
“comigo não vai acontecer...”. Mas aconteceu! E sem muita dúvida, em função
da situação financeira pouco estável, o aborto seria a decisão adequada.
Depois de brigas com meu namorado da época, acabamos
terminando. Em uma festa acabei ficando com o meu atual
namorado, que até então era meu amigo... Não sei quanto
tempo depois de namoro, a gente já não estava tomando
muitos cuidados com relação à gravidez... Como nas minhas
relações anteriores eu sempre esquecia de tomar o remédio,
passava meses sem tomar e depois começava de novo, chegou
um momento que parei de vez... Achava que não ia
engravidar... Olha que idiota! De onde tirei essa ideia?!
Eu ficava naquele método do coito interrompido, até que um
dia acabou acontecendo... Desconfiei porque a menstruação
atrasou... A gente usava esse método, mas às vezes passava...
Bem irresponsável mesmo... Não cheguei a tomar nem a

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pílula do dia seguinte porque estava naquelas de que não ia


acontecer nada, totalmente despreocupada... Totalmente
irresponsável! Diferente de quando eu tinha 16 anos!
Estava com 24 anos e quando desconfiamos lembro que nem
quis fazer o teste de farmácia que, na época, falavam que era
duvidoso. Fui direto ao hospital e o resultado do exame de
sangue foi positivo! Quando a médica viu minha cara de
decepção, até tentou dar uma força porque estava numa idade
bacana e poderia ser bom...
Meu namorado tinha ido comigo, mas ficou esperando lá
fora... Quando eu saí e ele viu minha cara de decepção, saímos
de perto das pessoas e eu chorei... Chorei porque não queria 275
ter um filho naquele momento. Já tinha até falado para ele que
eu queria tirar se fosse esse o resultado...

Tentativas frustradas e o corpo em sofrimento a cada equívoco nos


métodos abortivos. Isto certamente as revistas não explicavam. E o tempo
passava...
Naquele mesmo momento falei isso e ele não se contrapôs.
Ele apoiou porque também não queria... A gente já tinha
ouvido falar daquele remédio Citotec e a questão era como
arrumar! Ele conversou com uns amigos e um deles falou que
conseguia porque trabalhava em hospital...
A gente pagou a quantia estipulada e pegamos o remédio...
Fui tomar o remédio em casa e não queria que ninguém da
minha família soubesse! Lembro que ainda tomei um chá que
me fez passar muito mal! Vomitei muito! Era um chá abortivo
que, teoricamente, ajudaria, mas passei mal e vomitei muito!
E o remédio não fez nenhum efeito! Não sei se fiz errado ou
se o remédio era falso, mas, enfim, não fez efeito... Não
lembro nem se o remédio vinha em uma caixinha... Era tanta
ansiedade! Mas não parecia algo falsificado quando
compramos. Achei muito estranho não fazer nenhum efeito,
nenhuma cólica, nada... Só fiquei vomitando...
Então decidi que deveria contar para minha mãe... Teria que
contar porque não queria mesmo ter um filho... E foi muito
difícil arrumar esse dinheiro porque a gente vivia muito duro!
A situação era realmente muito apertada e decidimos que não
era o momento. Contei para a minha mãe e disse que não
queria ter um filho, essas coisas... E foi uma amiga dela que
arrumou outro remédio... Era o mesmo Citotec, mas dessa vez
eu teria que tomar um via oral e o outro deveria inserir na
vagina, coisa que não fiz da primeira vez...
Tivemos que pedir dinheiro emprestado. Ele pediu para o
irmão dele, porque a gente não tinha, e eu falei para a minha
mãe. Então, foram duas pessoas da família que ficaram
sabendo, mas que não se opuseram. Pelo contrário! O irmão
do meu namorado foi correndo no banco tirar dinheiro e
minha mãe ficou desesperada, dizendo que eu tinha que fazer
isso mesmo... Acabei fazendo isso em casa...

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Foi uma experiência horrível! De muita dor! Imagino que seja


como a dor do parto! A contração era tão forte que nem
consigo explicar! Uma dor muito grande! E ainda solta o
intestino, então ficava no banheiro o tempo todo com aquela
dor, suando muito e saía sangue... Achava que ia morrer! Foi
tão, tão ruim que não gosto nem de lembrar!!! Tentei apagar
isso da minha memória... Mas não deu...

O aborto incompleto e a necessidade de recorrer ao serviço público de


saúde. Espaço onde seu corpo não mais lhe pertence, tornando-se lugar de
276
disputa de poderes médicos. A agressão sofrida demonstra a vulnerabilidade à
qual estão sujeitas muitas mulheres... Além disso, o expressivo despreparo do
corpo médico para atender à situação.
E não acabou aí... Senti que não tinha acontecido
completamente... Voltei para São Paulo e fui ao HU... Não
tinha convênio médico e pensei que se fosse em algum
hospital público na minha cidade, não seria atendida. No HU,
por ser aluna, seria atendida... Falei que tinha tido um
sangramento durante a noite e me levaram para um ultrassom.
Fui atendida por duas médicas super legais que falaram que
eu não poderia mais usar calça jeans, me deram conselhos
como se eu fosse mãe... Fiquei me sentindo mal porque já
sabia... Fizeram o ultrassom e viram o feto, ou embrião, tinha
um mês, não sei como se fala... Enfim, viram que não tinha
mais vida, não respirava mais, não tinha batimentos... Elas
perceberam nessa hora que eu tinha provocado alguma coisa,
até porque deve acontecer vários casos...
Me mandaram para outra médica para fazer outro
procedimento para ter certeza. Essa médica nem olhou na
minha cara! Eles ficam muito bravos com isso! Ela nem olhou
na minha cara e falou: “Já tá morto mesmo”, e assinou um
papel... Pensei até que teria que fazer um teatrinho, mas
ninguém me perguntou nada... Tiraram as próprias
conclusões...
E se não tivesse sido como foi? O tratamento seria o mesmo?
Fiquei pensando nisso...
Mas, como não saiu, eu teria que fazer aquela curetagem,
então fui internada no mesmo dia. O procedimento era o
mesmo que tentei fazer... Tomar o Citotec e inserir na vagina
para ver se saía sozinho... Fiquei lá durante a noite e tinha
muito sangramento e chorava muito! As pessoas mais legais
eram as auxiliares de enfermagem que me ajudavam a tomar
banho, me apoiavam e davam um apoio moral...
De repente veio um médico... O mais escroto dos médicos!
Acho que é aquele que vai vendo todos os pacientes... Ele foi
ver... Ah o que é isso... Ele foi colocar o dedo na minha
vagina, achei que ele ia fazer o exame de toque ou coisa
assim... Mas estava tão dilatado que ele colocou a mão inteira!

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Ele tirou o feto, ou o embrião, e nesse momento eu fechei


meus olhos... Mas ele queria porque queria me mostrar... E
ele falava: “Olha aqui seu filho! Olha aqui!”. Eu não abri os
olhos, não olhei... Mas ele queria me mostrar! Olha, que
violência!
Um lugar onde deveria ter gente preparada, mas onde eles
abominam! Para mim foi um momento de muito sofrimento!
Apesar dessa dor, posso dizer que não me arrependi... Mas
também não sei se quase não morri...

Algumas reflexões 277


Três histórias... Trajetórias muito distintas em relação à temporalidade,
mas também aos universos vivenciados por suas protagonistas. Estas, em maior
ou menor medida, envolvidas nos debates políticos de seu tempo, apresentam
em comum a necessidade de interromper uma gravidez não desejada ou
planejada.

Fica claro que, a despeito das contingências, suas vidas são atravessadas
por uma estrutura que foge ao seu domínio no que diz respeito ao que fazer diante
da necessidade do aborto. Primeiramente, pois paira sobre suas histórias um
conjunto de leis e normas sociais que, independente de suas vontades,
influenciam suas decisões. Seja em termos práticos, como o acesso aos métodos
para viabilizar a interrupção da gravidez, seja no nível da intimidade e das
convicções pessoais, que implica em complexos dilemas envolvendo questões
morais e éticas.

A história de Amelinha, cuja participação política é incontestável,


mostra o paradoxo do aborto em contexto democrático. Tendo sido sua
experiência pessoal sob a ditadura, teve acesso à segurança do procedimento
realizado por um companheiro gabaritado para tal. Sua atuação intermitente
chega aos nossos dias apontando que, mesmo na democracia, a clandestinidade
é determinante e explica tristemente os números de mortes e sequelas para as
mulheres que recorrem ao aborto. Sua luta denota a necessidade de ressignificar
estas experiências.

Deborah viveu a situação da gravidez não planejada em outro contexto


político. Sua condição social garantiu o acesso aos cuidados pós aborto. Mas a

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experiência começou de forma ilegal, com a aquisição do Citotec. Apesar da


ilegalidade, é visível a facilidade de acessar esta alternativa. O seu caso, contudo,
apresenta dilemas diferentes, mais íntimos que coletivos. A relação com o
companheiro e o desejo de construir uma família nos moldes considerados por
ela adequados são os componentes de sua reflexão. O que aconteceu com seu
corpo não parece ser a maior preocupação. O incômodo se projeta para o futuro
e questões morais surgem como centrais. O que seu corpo sentirá em nova
278
experiência é determinante de suas atitudes e expectativas, acenando para uma
complexa interpretação da experiência vivida. Sua história é prenhe de
elementos que atentam para a restrição da liberdade sobre o corpo. Se foi livre
para decidir, não parece confortável com a decisão. Seu corpo lhe pertenceu
naquele momento, mas continua à mercê de convicções que se operam a partir
de uma ética condicionada por normas sociais do que é certo ou errado.

O caso de Vanessa, embora tenha vivido o aborto já passada a


adolescência, remete a um universo de sensações que resgatam este período.
Afinal, construiu seu arsenal de precauções bastante jovem e consciente de suas
supostas responsabilidades. Embora não seja nosso foco, o papel desempenhado
pelas publicações voltadas para este público sugere sua relevância e mesmo
eficácia. De maneira muito clara, contudo, imprime em nossa reflexão algo
bastante comum, que é a crença de que as coisas só acontecem com os outros ou
mesmo que métodos pouco ortodoxos, como o coito interrompido, são
suficientes para evitar a gravidez.

O ponto crucial de sua experiência é, contudo, a situação a que muitas


mulheres se encontram expostas quando praticam o procedimento do aborto por
conta própria. Mais uma vez o acesso ao Citotec se mostra a alternativa mais
prática e eficaz em nossos dias. A falta de instruções de como proceder mostra,
entretanto, que não temos tanta informação quando o assunto é o aborto.

A necessidade de recorrer ao serviço público de saúde nos parece, neste


caso, o maior entrave. Diante de um saber de poucos, ficam expostas às relações
de poder ali estabelecidas. O corpo médico, o qual deveria atuar independente
de percepções pessoais, configura em nossa análise a ampla falta de poder sobre

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o próprio corpo quando enfrentando os detentores do poder sobre a saúde.


Encontramo-nos diante de uma vítima daqueles que deveriam materializar o
socorro e o cuidado. A arbitrariedade e a violência vivida por esta mulher, que
reproduz tantas outras experiências, problematiza de maneira profunda nossa
pergunta inicial. Neste caso, há a explícita falta de domínio e controle sobre o
próprio corpo que, a despeito de uma decisão tomada de maneira supostamente
livre, se encontra diante de questionamentos e violações que extrapolam o nível
279
pessoal que inicialmente pensamos envolver o aborto. O corpo da mulher
definitivamente não lhe pertence quando está diante do outro...

Este “outro” pode ser um, pode ser muitos... O Estado, o companheiro,
o médico... Ainda que a decisão seja tomada e encontre apoio, não garante que
sua vida esteja livre de riscos, preconceitos e julgamentos...

Ainda assim, milhares de mulheres seguem decidindo pelo aborto.


Como dizer, então, que este corpo não lhes pertence? É necessário pensar na
possibilidade de desvitimizar estas mulheres que desafiam os poderes
estabelecidos, mesmo com tantas dificuldades e dilemas...

Finalizamos menos com uma conclusão ou ponto final do que com uma
sugestão para refletir sobre o tema do aborto na contemporaneidade. Afinal, esse
corpo, de quem é?

REFERÊNCIAS

BIROLI, Flávia. O debate sobre aborto. In: MIGUEL, Luis Felipe. BIROLI,
Flávia. Feminismo e Política. São Paulo: Boitempo, 2014.

DIAS, Maria Odila Leite da Silva. Teoria e método dos estudos feministas:
perspectiva histórica e hermenêutica do cotidiano. In: COSTA, Albertina de
Oliveira. BRUSCHINI, Cristina. Uma questão de gênero. Rio de Janeiro: Rosa
dos Tempos; São Paulo: Fundação Chagas, 1992.

MEIHY, José Carlos Sebe Bom. HOLANDA, Fabíola. História oral. Como
fazer, Como pensar. 2 ed. São Paulo: Contexto, 2010.

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MEIHY, José Carlos Sebe Bom. RIBEIRO, Suzana Lopes Salgado. Guia prático
de história oral. São Paulo: Contexto, 2011.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. 20 anos de pesquisas sobre aborto no Brasil.


Brasília: Ministério da Saúde, 2009.

VILELLA, Wilza. OLIVEIRA, Eleonora Menicucci de. SILVA, Rosalina


Carvalho. Aborto e saúde mental. Direito de decidir. Múltiplos olhares sobre o
aborto. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2008. 280

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GÊNERO E HISTÓRIA ORAL: UM ESTUDO DA PROSTITUIÇÃO EM


CARAPEBA (1960-1980)

Maria Beatriz Nader

Mirela Marin Morgante**

Em finais da década de 1960, a cidade de Vitória vivia um período de 281


crescimento demográfico e urbano, em uma dinâmica de modernização da
economia capixaba. As indústrias se desenvolviam, cresciam os serviços
terciários e as atividades do Porto de Vitória e do Porto de Tubarão eram
intensas. Incentivos fiscais foram postos em ação para atrair investimentos
estatais e estrangeiros, aumentando ainda mais o parque industrial de Vitória
(NADER, 2008). Com a Política Nacional de Erradicação dos Cafezais, grande
contingente populacional advindo do interior capixaba se estabeleceu na capital,
atraídos pelas possibilidades de trabalho que as indústrias nascentes ofereciam
(SIQUEIRA, 2010).

A população de Vitória crescia consideravelmente e o governo estadual


de Cristiano Dias Lopes Filho (1967-1971) empreendia um verdadeiro processo
de modernização do estado e de sua capital. As ruas do centro de Vitória eram
cada vez mais frequentadas, principalmente por pessoas com razoável poder
aquisitivo, que iam fazer compras e se divertir nos estabelecimentos modernos
da capital (NADER, 2008). Conforme a revista Espírito Santo Agora, em uma
publicação de janeiro de 1982, na perspectiva de afastar do convívio cotidiano
da sociedade aquilo que ela mesma criou de ruim, de "limpar" a cidade, o
governador decidiu confinar as prostitutas em uma região específica afastada do


Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História
Social das Relações Políticas da Universidade Federal do Espírito Santo. Coordenadora
do Laboratório de Estudos de Gênero, Poder e Violência (LEG/UFES). E-mail:
marxis@terra.com.br
**
Doutoranda em História Social das Relações Políticas na Universidade Federal do
Espírito Santo. Vitória, Brasil. Integrante do Laboratório de Estudos de Gênero, Poder
e Violência (LEG/UFES). Orientadora: Prof.ª Dr.ª Maria Beatriz Nader. E-mail:
mirela_marin_@hotmail.com

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centro, chamada de São Sebastião e muito conhecida na época como "Carapeba".


Hoje o local se situa no bairro de Novo Horizonte, no município da Serra (ES).

Ao que parece, assim que Cristiano Dias Lopes entrou no governo do


estado em 1967, baixou um decreto expulsando as prostitutas e as donas de
"pensão alegre" do centro de Vitória. Tal fato é narrado pelas memórias das
mulheres que exerceram o meretrício em São Sebastião e de outras pessoas que
viveram no período tanto freqüentando a região quanto ouvindo falar a respeito,
282
e, ainda, por uma reportagem jornalística produzida e dirigida por Amylton de
Almeida em 1978 no local. Maria José Marques, ex-prostituta de São Sebastião
cuja memória será foco privilegiado de análise deste artigo, também relata esse
processo de expulsão das meretrizes do centro. Chamada normalmente apenas
por Zezé, ela relata que teve que sair da boate 78 que trabalhava no centro, pois
os policiais tiraram as "donas de casa" de lá, de maneira que ela precisou
encontrar outro local de trabalho. Mas ela não se direcionou imediatamente São
Sebastião. Foi para uma boate chamada Casa Nova, em Jardim Camburi, onde
hoje – segundo relata – é o Banco do Brasil. Contudo, a Casa Nova também não
podia existir naquele local e acabou tendo que fechar as portas. Assim, Zezé foi
para São Sebastião – também chamado de Carapeba –, diretamente para a boate
de uma cafetina que se chamava Ivanilde.

Estabeleceu-se em São Sebastião um verdadeiro "território do prazer"


– como se refere Margareth Rago (1991) –, concentrando diversas casas de
prostituição, boates, bares e pequenos dormitórios de algumas mulheres
meretrizes. Mas, em princípios da década de 1980, o projeto de confinamento da
prostituição em São Sebastião iniciou um processo de decadência. As ruas
centrais de Vitória voltaram a ser frequentadas por protitutas e São Sebastião já
não era a única região concentradora das atividades que envolviam o mercado
do sexo (ESPÍRITO SANTO AGORA, 1982). Segundo a narrativa de Zezé, com
chegada da Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST) próxima da região, as
famílias começaram a se estabelecer por ali e a prostituição em São Sebastião
foi acabando, dando origem ao bairro de Novo Horizonte. Como ela diz: "eles
tiraram São Sebastião e colocaram Novo Horizonte".

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O ideal de confinamento da prostituição não conseguiu adentrar a


década de 1980, evidenciando o fracasso da tentativa de instituir e delimitar as
fronteiras da "zona boêmia", como era chamada a região. Em finais dos anos de
1980, o "território do prazer" de São Sebastião estava em pleno processo de
extinção e as mulheres que aí exerciam a prostituição tiveram que procurar
alternativas de sustento.

Não foi somente em Vitória onde houve o afastamento das zonas de


283
prostituição dos centros urbanos, tendo como parâmetro um ideal de
higienização e de ordenamento social cujo foco primeiro era a prostituição. Esse
fenômeno acompanhou o final do século XIX e todo o decorrer do século XX
em diversas cidades brasileiras, em conformidade com o avanço da urbanização
nos respectivos locais. São Paulo (RAGO, 1991), Rio de Janeiro (LEITE, 2005),
Londrina (BENATTI, 1996), Itajaí (SANSONOWICZ, 2010) e Florianópolis
(FERRARI, 2008), são alguns exemplos de cidades onde houve o confinamento
da prostituição em um território específico geralmente afastado dos centros
urbanos, em um verdadeiro imbricamento entre territorialidade e exclusão social
proporcionada pela configuração de uma nova "geografia do prazer".

Em diversas cidades brasileiras ao longo do século XX, mas


principalmente a partir de 1950, assistiu-se a uma dinâmica de regulamentação
e intervenção por parte do poder público sobre o mundo da prostituição. Pautado
em um projeto de ordenamento social, cujos princípios básicos eram a
higienização do centro das cidades e a garantia da moral e dos bons costumes da
família burguesa, o poder público confinou a prostituição em territórios
específicos, geralmente afastados dos centros urbanos e pouco habitados, onde
era possível exercer o controle médico e policial. Magali Engel (2004) explica
que, principalmente a partir de finais do século XIX, a medicina social brasileira
manifestou uma preocupação crescente com a sexualidade, tratando de temas
como o amor, o casamento, a prostituição e o aborto. Essa "vontade de saber do
cientista" se inseria em uma busca de normatização da vida cotidiana das
cidades, por meio da definição dos limites de uma "sexualidade sadia", do
controle e da disciplinarização dos corpos e dos comportamentos sexuais.

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É evidente que tais mecanismos de controle social tinham como base


uma concepção biologizante de gênero, de naturalização dos papéis sociais de
mulheres e de homens na sociedade brasileira. Mas os porta-vozes do corpo
social sadio não apenas se inspiravam no gênero enquanto categoria essencialista
e dual, como também auxiliavam sistematicamente no processo de construção e
reconstrução das identidades de gênero binárias. A medicina social apropriava-
se da naturalização do gênero, forjando distinções entre os sexos de maneira a
284
impelir os sujeitos sociais a buscarem continuamente sua identificação de
gênero, que estava estritamente relacionada com a organização social como um
todo.

Nesse sentido, o ideal de identidade feminina compreendia o papel


social de boa esposa, mãe e dona de casa, enquanto os homens deveriam se
adaptar ao seu papel de provedor econômico da família, um ser ativo, viril e
racional. Nessa construção sempre relacional de gênero qualquer identidade que
fugisse à norma seria considerada como doente e transgressora. Daí a
prostituição ser considerada uma doença social, verdadeira afronta à moralidade
pública, uma completa distorção do papel social feminino, uma depravação, uma
decadência, um perigo urbano. Mas também, necessária, lugar privilegiado de
exercício da atividade viril masculina, espaço ao mesmo tempo de preservação
da moral e dos bons costumes das mulheres honradas. Como salienta Simone de
Beauvoir (1980), na visão masculina historicamente construída sobre a mulher,
esta não é considerada de maneira positiva, mas de forma negativa, é o outro e,
enquanto tal é o mal, que é, contudo, necessário ao bem. Por meio desse outro,
o homem ascende ao todo, mas também se separa do todo "[...] é a porta do
infinito e a medida de minha finidade. É por isso que a mulher não encarna
nenhum conceito imoto; através dela realiza-se sem cessar a passagem da
esperança ao malogro, do ódio ao amor, do bem ao mal, do mal ao bem"
(BEAUVOIR, 1980).

A proposta deste artigo se insere precisamente na percepção e na


vivência de uma ex-prostituta acerca dessas contradições de gênero construídas
e reproduzidas por uma sociedade de dominação masculina. Como afirma Roger

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Chartier (1990, p. 59), os mecanismos de disciplinarização de corpos, condutas


e pensamentos não submete o sujeito "[...] à todo-poderosa mensagem ideológica
e/ou estética que supostamente o deve modelar". Há espaço para uma
reapropriação, uma reinterpretação ou mesmo uma resistência aos discursos. É
aí que incide o lugar de articulação entre as subjetividades dos sujeitos e as
representações, as práticas e as posições-de-sujeito construídas pelos porta-
vozes dos ideais da burguesia: médicos, sanitaristas, policiais e criminólogos. É
285
nessa dinâmica de formatação discursiva e simbólica das relações de gênero e
suas reinterpretações pelos agentes sociais, que deve ser pensada a história de
vida, carregada de subjetividades, de uma ex-meretriz da zona de confinamento
da prostituição na segunda metade do século XX, na Região Metropolitana de
Vitória.

Para tanto, a história oral será utilizada como fonte e método de


pesquisa, na modalidade da história oral de vida ou relato biográfico. Essa é uma
particularidade relevante da pesquisa, haja vista que a maioria dos estudos sobre
a prostituição no Brasil se utilizou de fontes como periódicos, discursos médicos
e criminológicos, documentos oficiais e algumas entrevistas com pessoas que
vivenciaram o período de territorialização da prostituição, mas muito
dificilmente foram entrevistadas as próprias prostitutas. Como salienta José
Carlos Sebe B. Meihy (2015, p. 76), é necessária a "[...] inclusão das vozes das
prostitutas no concerto analítico que preza seus testemunhos. Sob a pena de ser
mais um 'cruel silenciamento', a historiografia, sem o protagonismo dos
implicados nessa atividade, é passível de se tornar 'outro' – mais um – discurso
autoritário".

Nesse sentido, elegemos o testemunho da Maria José Marques, a Zezé,


para analisarmos a subjetividade representativa de uma mulher que exerceu o
meretrício em uma região formatada especificamente para este fim, nos anos de
1960. Sua trajetória de vida será esboçada, em um constante paralelo com as
normatizações sociais da época e levando-se em consideração a natureza
infindável, variável, artificial e parcial das fontes orais (PORTELLI, 1997).

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História oral de vida de uma ex-prostituta de Carapeba

Maria José Marques nasceu em 1947 em Alpercata, interior de


Governador Valadares. Foi a primeira filha mulher de 4 irmãs e nasceu depois
de 2 irmãos. Sua mãe era costureira, e morreu quando tinha 9 anos, com um
neném na barriga. Ela diz que a parteira que a matou pois não sabia fazer o parto.
Não poderia ter sido por uma questão de falta de recurso, afinal, na roça muitas 286
mulheres tinham até 15 filhos, porque a mãe dela não poderia? Ela demonstra
uma inconformidade com a morte da mãe. Quanto ao pai, era agricultor. Zezé
diz que ele era muito "sem vergonha", depois da morte da mãe passou a se
relacionar com uma mulher casada que morava perto de onde moravam. Além
disso, ela descobriu depois de bastante tempo que o pai teve duas filhas com a
avó dela. E acrescenta: "na roça as mulheres são iguais éguas minha filha, não
estão nem aí. Não pode ver uma pica dura. Isso pode falar?".

Certo dia, o pai deu algumas facadas em um homem e teve que fugir da
polícia. Ele então foi para central de Mantena, trabalhar como meeiro na roça.
Não pôde levar as crianças porque saiu com pressa, fugindo da polícia, mas
mandou alguém para buscá-las. Quando chegou lá, ele começou a se relacionar
com uma mulher. Zezé então decidiu ir embora, porque ela e os irmãos não
gostavam dessa mulher, e voltou a morar em Governador Valadares. De acordo
com ela, foi lá que ela "se achou", era uma menina e se formou, deixando de ser
virgem. Ao que parece, foi nesse período que os irmãos foram se separando, e
cada um foi para um local distinto, muitos foram para o Mato Grosso. "Depois
foi separando tudo, tudo acaba né." Percebe-se uma nostalgia, um lamento, uma
saudade do período em que vivia com os irmãos e a família.

Nota-se em Zezé um sentimento dúbio em relação ao pai. Ora ele era


"sem-vergonha", bebia muito, tratava mal a família, ora era um bom pai. Qual
seria o ideal de paternidade que permeia a subjetividade de Zezé? Beber, tratar
mal as crianças e a mãe, dar facadas em um homem, fugir da polícia, manter
relações sexuais indiscriminadamente, deixar que as crianças fossem embora do
lar e se separassem, esses aspectos não parecem influir na boa reputação que o

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pai teve aos olhos dela. Simplesmente por ele estar presente, não agredir
fisicamente a mãe e os filhos (porque os irmãos moravam perto) e trabalhar no
sítio e depois como meeiro, parece ter sido suficiente para Zezé ter guardado
uma recordação positiva do pai. Há uma naturalização dos papéis sociais de
gênero na narrativa de Zezé, como se fosse natural o comportamento paterno, na
mesma medida em que há uma culpabilização sobre a mulher pela sexualidade
aflorada do pai: "na roça as mulheres são iguais éguas minha filha, não estão
287
nem aí. Não pode ver uma pica dura". O motivo pelo qual a "pica estava dura"
ela não questiona.

Não foi possível delinear com clareza a trajetória de Zezé em


Governador Valadares, mas alguns elementos ficaram perceptíveis. Ela teve sua
primeira relação sexual com um médico que era bem mais velho, mas era bonito
e ela não se esquece do nome: Gilberto. Com ele, acabou engravidando, mas por
conta de ter ido para um hotel de prostituição, o médico não quis levar adiante o
relacionamento, motivo pelo qual ela diz que era para ela ter sido rica, mas que
não se arrepende de nada. Zezé diz que o conheceu quando estava atravessando
a ponte para ir para a casa onde trabalhava, ele veio a cavalo ou de carro e ela
pulou para dentro. "Eu era nova e era o capeta".

Fica evidente a idealização romântica de Zezé do encontro com esse


médico, aspecto característico das memórias sempre ressignificadas. Além
disso, Zezé culpa a mulher mais uma vez pelo comportamento masculino,
quando diz de maneira bastante natural que ele não quis assumir o filho por ela
estar se prostituindo. Provavelmente, ela já o fazia antes de conhecê-lo. Zezé
assume em diversos momentos de sua narrativa os estereótipos de gênero.

No hotel, ela diz que conheceu uma dona de boate de Vitória da


Conquista, que pegou ela e outras mulheres e levou para outro hotel nesta cidade.
Na época ela estava grávida de poucos meses do segundo filho, mas ela era muito
jovem e, conforme salienta, "dona de casa gostava de menininha, não gostava de
mulher velha não". Nesse período, ela teve dois filhos, um morreu e o outro ela
deu para uma mulher quando ele era bem pequeno. Ela diz que não gosta de falar

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do outro filho que teve, ninguém soube da existência dele. As pessoas sabiam
que ela teve um que faleceu, e não do outro que ela deu quando era bem novinho.

De Governador Valadares, Zezé foi para Colatina. Ela conta que uma
mulher a viu trabalhando no parque e quis levá-la para Colatina. Ela ficou
devendo para a mulher o valor da passagem e da diária. Mas Zezé não quis ficar
em Colatina, uma amiga a chamou para ir para Vitória, pois lá seria possível
ganhar em dólar com os estrangeiros. Então, elas fugiram de trem de madrugada,
288
caso contrário a mulher não deixaria elas saírem por conta da dívida.

Em Vitória, Zezé foi morar e trabalhar na rua General Osório, em uma


boate chamada 78, cuja dona se chamava Dalila. Ela diz que não gostava muito
de lá porque tinham muitos marinheiros. Eles eram bonitos, mas muito
bagunceiros e queriam manter relações sexuais com ela gratuitamente, de
maneira que ela não conseguia ganhar dinheiro suficientemente.

Até que a boate 78 teve que fechar as portas e Zezé precisou arranjar
outro local para trabalhar. Ela apresenta dois fatores para o fechamento da boate
no centro: primeiro, eles tiraram as donas de casa do centro e mandaram todas
para São Sebastião, segundo, porque a filha de Dalila era muito bonita e cobiçada
por um policial (policial era ruim naquela época). Contudo, ela não queria ficar
com ele, o que fez com que o policial mandasse fechar a boate.

Zezé foi então para uma boate chamada Casa Nova, em Jardim
Camburi. Mas também fecharam lá porque não podia ter boate naquele local.
Assim, Zezé foi para São Sebastião, diretamente para a boate da Ivanilde,
"aquela velha muchibenta. Mas ela era linda, linda, parecia uma bonequinha, de
louça. Como a pessoa acaba, né". De acordo com ela, Ivanilde era dona e também
"pegava homem". Só mulheres poderiam ser donas de boate, aos homens era
interditado.

Os estereótipos de gênero e de geração estão presentes a todo momento


na fala de Zezé. Ela se refere à velhice como um momento de degradação física
e psicológica sem se dar conta que ela também está enfrentando esse período na
vida e ainda em uma cadeira de rodas. Ela faz questão de frisar que a dona da

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boate também se prostituía, ela não estava ilesa dessa condição que ela
enfrentava, apesar de ser dona.

A boate da Ivanilde era freqüentada por muitos estrangeiros, tinha um


cozinheiro homossexual e muitas mulheres trabalhando. Ela buscava as
mulheres na Bahia, negras provavelmente, e fazia um embelezamento nelas. À
noite, Zezé conta que não as reconhecia, "pareciam umas bonecas". Depois, as
meninas precisavam pagar para a Ivanilde, segundo a Zezé, logo que saíam de
289
um programa realizado em um dos quartos da boate. Mas o caso de Zezé foi
diferente, ela chegou por iniciativa própria na boate e não ficou com dívidas com
a cafetina. Nesse momento da entrevista, Zezé demonstra preocupação em não
mostrarmos o que ela nos contou para a Ivanilde.

Zezé conta que a cafetina controlava bastante as mulheres da boate. Não


deixava elas ficarem com qualquer homem, queria que elas consumissem
bebidas alcoólicas para dar lucro para a casa – que não fosse cerveja, pois não
era lucrativo, teria que ser bebidas do tipo rum com coca-cola ou gim com fanta
– e instituída a obrigação das meninas ficarem no salão até o horário de fechar a
boate, às 2, 3 horas da madrugada. Além disso, Ivanilde brigava com as mulheres
no salão, como Zezé relata: "tinha mulher lá que ela arrancava a peruca dela,
deixava a mulher de pico de fora no meio do salão, quando o salão estava assim
de gente". Para Zezé, a cafetina ainda roubava os homens das mulheres, "sem
vergonha ela". Apesar disso, Zezé diz que se dá bem com a Ivanilde. O prédio
da Ivanilde que era boate, hoje são quitinetes alugadas para famílias ou pessoas
isoladas.

Zezé não nos relata muito como ela mesma se portava no salão da boate
em Carapeba, o que sentia, como vivia. A única narrativa que faz em primeira
pessoa é do momento do boteco, em que saía para beber com uma amiga. Mas
do cotidiano no salão, antes de descer para o salão, seus sentimentos, ela omite
ou negligencia. Se refere a "elas", como se ela mesma não fizesse parte daquilo,
como se fosse diferente. E ela acredita mesmo que era diferente das demais, pois
não devia nada à cafetina, se considerava auto-suficiente, independente.

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Os estrangeiros chegavam na boate e davam muito lucro para as


prostitutas. Elas podiam mesmo sair com eles, pegavam o taxi e saíam da boate.
Claro, o estrangeiro deveria pagar um valor para a cafetina para poder levar uma
de suas mulheres para fora da boate. Zezé conta que "os gringos que você botasse
a mão nele, ninguém mais punha, aquele era seu". Eles levavam as mulheres para
hotéis: "nós íamos para os hotéis mais os gringos, mas tinha que pagar para sair".
"A gente ia de taxi. Às vezes iam dois casais, quando os gringos tinham amigos".
290
Zezé conta que os estrangeiros eram muito bonitos, em alguns casos ela
tinha até vergonha de entrar em restaurante com eles. Acrescenta que já namorou
o Gerson Camata. Mas apesar de serem bonitos, Zezé diz que não sentia prazer
na relação sexual com os estrangeiros, só pensava no dinheiro que iria conseguir.
Ela acrescenta que era muito nova, não sabia o que era sentir prazer e excitação.
E conclui: "hoje que eu sinto tesão, agora é tarde".

Quando se refere aos momentos de saídas com os estrangeiros, Zezé


utiliza a primeira pessoa, demonstrando um papel ativo nessas dinâmicas.
Diferentemente dos processos que ocorriam nos salões e nos quartos da boate,
quando se trata das saídas de São Sebastião, Zezé torna-se sujeito. Torna-se
alguém que se diverte, ganha dinheiro, anda de taxi. Uma pessoa como outra
"qualquer", mas não uma prostituta. Parece que seu problema em se colocar
como sujeito ativo dentro de São Sebastião, de falar em primeira pessoa, se
relaciona à uma problemática em se identificar com a prostituição, em se encarar
positivamente como uma prostituta naquela época.

Quanto ao ato sexual propriamente dito, Zezé diz que os estrangeiros


não queriam sacanagem, mas os brasileiros sim, eles diziam tudo o que queriam
que elas fizessem com o pagamento que iria dar. Não obstante a afirmação de
que os estrangeiros não queriam sacanagem, Zezé diz em outro momento que os
gregos gostavam de manter relações sexuais pelo ânus e preferiam as mulheres
brancas com bunda grande e não mulheres da cor dela. Quanto aos japoneses,
ela diz que eles tinham o órgão sexual de pequeno porte. Em outra boate
chamada Atlântica, Zezé diz que só aceitavam as mulheres que fossem

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"completas", ou seja, que praticassem a sexualidade sem limites, utilizando as


artimanhas eróticas necessárias ao ofício.

Zezé conta essas questões como uma espécie de curiosidades. Ela mais
uma vez não se coloca na narrativa, não diz o que fazia e o que não fazia. Faz
questão de se manter fora da narrativa que ela mesma produz.

As ruas de Carapeba eram particularmente movimentadas na época da


CST, nas sextas-feiras, quando os homens estavam indo viajar para a casa de 291
suas esposas e passavam por ali antes. Os ônibus iam pegar esses trabalhadores
e fazer esse trajeto. Nos outros dias, os homens não podiam transitar pelas ruas
durante o dia, "se não a polícia metia o cassete". Somente na parte da noite lhes
era permitido circular pela região. Quanto às mulheres, podiam andar livremente
durante o dia e à noite teve épocas em que era proibido sair na rua depois das 22
horas.

Em certo momento, Zezé começou a namorar quem viria a ser seu


marido durante cerca de 30 anos. Ele era taxista, "grandão" e bonito, ficava com
as mulheres e era temido por elas. Zezé continuou a trabalhar na boate da
Ivanilde, mas começou a morar fora, em uma casa alugada, porque "morar em
boate naquela época e ter amante não dava não. Eu tinha que pagar o quarto toda
vez que ele entrava". Foi depois de bastante tempo junto com ele que Zezé
engravidou e teve seu filho. Com ele, Zezé diz que sentiu prazer na relação
sexual, assim como com outros homens que teve antes dele, exceto com os
estrangeiros.

Mas Carapeba chegou ao fim e Zezé saiu de lá com o marido. Ela diz
que não foi somente por ter acabado a zona que ela saiu, mas também porque o
marido a tirou de lá: "ele falou para mim: não, vamos parar e me tirou de lá".

Zezé atribui o término de Carapeba à chegada da CST, pois começaram


a chegar e se estabelecer as famílias, originando o nome de Novo Horizonte no
bairro. "Eles tiraram São Sebastião e colocaram Novo Horizonte". Segundo ela,
depois que se tornou Novo Horizonte, se a polícia pegasse um homem andando
por lá durante o dia eles retaliavam.

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Rio de Janeiro
Ed. Anpuh-Rio
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É interessante notar que Zezé emprega a terceira pessoa sempre que se


refere as medidas que foram tomadas para fundar ou acabar com São Sebastião,
ou para aquilo que foge de sua capacidade de entendimento. Ela não sabe quem
criou a zona e nem quem acabou com ela. As explicações de caráter político-
institucional não existem em seu leque de possibilidades de compreensão. Para
entender um fenômeno ela se refere à questões de âmbito privado, como quando
acabou a boate 78 no centro de Vitória, como quando o marido tirou ela de São
292
Sebastião. Tal análise reflete um campo de possibilidades disponíveis às
mulheres de sua época, que não sabiam ler e escrever e eram pobres. O próprio
gênero feminino foi construído como estando em um mundo a parte do
masculino, voltado para o privado, para a família, para as motivações
psicológicas, diferentemente do mundo dos homens, público, racional, viril.

Ela faz questão de se mostrar diferente das prostitutas de São Sebastião,


ela não brigava com outras mulheres, não apanhava de homens, não devia nada
para a cafetina. No entanto, no decorrer da narrativa ela vai se revelando, conta
um caso em que brigou com uma mulher por causa de um homem, conta que
apanhava, que tinha que se esconder da cafetina.

Hoje Zezé diz que não está "nem mais feliz, nem menos feliz. Eu pra
mim eu vivi tudo o que eu tinha pra viver, mas ainda tenho muito o que viver".

Considerações finais

Ciente das possibilidades e dos inconvenientes da História Oral, da


mesma forma que de seu caráter valoroso para a História do Tempo Presente, do
Cotidiano e das Mulheres, estas também enquanto parte dos "esquecidos da
história", o estudo aqui desenvolvido a utilizou como fonte e método de
pesquisa. Especificamente, realizou uma aproximação analítica com a história
oral de vida de uma ex-prostituta de São Sebastião, atentando-se para o aspecto
subjetivo, para as versões individuais dos fatos da vida. É uma narrativa de
memória sujeita às contradições, imprecisões e ajustes característicos da fala e
da lembrança, de maneira que as narrativas "[...] apenas se inspiram em fatos,

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mas vão além, admitindo fantasias, delírios, silêncios, omissões, distorções”


(MEIHY; HOLANDA, 2007, p. 34).

A memória de Zezé evidencia mesmo como é difícil estabelecer as


fronteiras entre o individual e o grupo, como salientou Alessandro Portelli
(1997), como a "verdade" pessoal pode coincidir com a imaginação
compartilhada. Mas a presença constante de estereótipos de gênero, de geração
e de classe social na narrativa de Zezé demonstra em que medida sua
293
subjetividade coincide com um imaginário social que está em consonância com
os princípios da dominação masculina. Mas tais estereótipos entram em
contradição com a sua vivência pessoal da prostituição e mesmo da velhice e da
pobreza. Ela então procede se distanciando do que ela mesma considera
reprovável e atribui aos outros os estereótipos. Ao mesmo tempo, Zezé não se
nega em falar sobre o assunto. Assume seu passado e seu presente. Fala palavras
de baixo-calão e critica a sociedade.

Seria necessário aprofundar na análise da história de vida de Zezé,


assim como de sua inserção dentro do "território do prazer" de São Sebastião.
Mas de qualquer forma, foi possível uma aproximação analítica frutífera, que
estabeleceu as relações entre os acontecimentos propriamente ditos, o referencial
teórico e metodológico, as pesquisas elaboradas sobre a temática e a história oral
de vida propriamente dita.

REFERÊNCIAS

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Nova Fronteira, 1980.

BENATTI, Antonio Paulo. O centro e as margens: boemia e prostituição na


'capital mundial do café' (Londrina: 1930-1970). 1996. 241f. Dissertação
(Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História,
Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 1996.

CHARTIER, Roger. A história cultural:entre práticas e representações. Rio de


Janeiro: Bertrand Brasil; Lisboa: Difel, 1990.

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ENGEL, Magali. Meretrizes e doutores: saber médico e prostituição no Rio de


Janeiro (1840-1890). São Paulo: Editora Brasiliense, 2004.

FERRARI, Maryana Cunha. Vila Palmira: prostituição e memória na grande


Florianópolis nas décadas de 1960 a 1980. 2008. 126f. Dissertação (Mestrado
em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal
de Santa Catarina, Florianópolis, 2008.

LEITE, Juçara Luzia. República do Mangue: controle policial e prostituição no 294


Rio de Janeiro (1954-1974). São Caetano do Sul: Yendis Editora, 2005.

MEIHY, José C. S. B.; HOLANDA, Fabíola. História oral: como fazer, como
pensar. São Paulo: Contexto, 2007.

MEIHY, José C. S. B. Prostituição à brasileira: cinco histórias. São Paulo:


Contexto, 2015.

NADER, Maria Beatriz. Paradoxos do Progresso: a dialética da relação mulher,


casamento e trabalho. Vitória: EDUFES, 2008.

PORTELLI, Alessandro. “O que faz a história oral diferente”. Proj. História,


São Paulo, n. 14, p. 25-39, fev.1997.

SANSONOWICZ, Onice. Dona Josefa mudou-se. Aqui mora família – códigos


e práticas da prostituição em Itajaí (SC) nas décadas de 1950 a 1980. In:
FÁVERI, Marlene de; SILVA, Janine Gomes da; PEDRO, Joana Maria (Orgs.).
Prostituição em áreas urbanas: histórias do tempo presente. Florianópolis:
Editora UDESC, 2010.

SIQUEIRA, Maria da Penha Smarzaro. Industrialização e empobrecimento


urbano: o caso da Grande Vitória – 1950-1980. 2. ed. Vitória: Grafitusa, 2010.

TREVISAN, Luiz (Org.). Os filhos do arbítrio: prostituição nas ruas, ecos da


incorporação, o "tititi" do verão. Espírito Santo Agora, Vitória, ano XI, n. 64,
p. 1-82, jan.1982.

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HIGIENIZANDO A FEMINIDADE: ESPOSAS, MÃES E


INFANTICIDAS ATRAVÉS DOS DISCURSOS MÉDICOS NO RIO DE
JANEIRO, 1834 – 1924

Jhoana Gregoria Prada Merchán*

Introdução
295
Os discursos médicos ilustrados do século XVIII que foram criados na
Europa e que logo se trasladam a suas colônias americanas, assim como os de
produção própria, começaram a difundir-se graças a jornais, manuais y literatura
com a intenção de estabelecer uma renovada mirada à feminidade, sentenciando-
a como hegemónica e universal. Com esse novo matiz, se começou por
enquadrar à mulher em seu próprio corpo, especialmente em seu órgão
reprodutor: o útero. Este órgão serviu para explicar o comportamento feminino
e assumira-o como altamente instável e imaginativo, donde ao mesmo tempo as
discussões sob as doenças da mulher como a histeria, loucura e incluso a
criminalidade também foram definidas e relacionadas com as mudanças
originadas em seus órgãos reprodutivos.

Baseando-se em um fato biológico, os médicos interpretaram a função


feminina para com a sociedade por meio da maternidade como uma circunstância
natural. Por essa razão, cresceu o interesse por tentar instruir à mulher sob a
melhor forma de exercer seu papel para contribuir com o progresso e a nova
ordem social. Neste sentido, não todas as mulheres eram boas mães, pois ainda
que algumas tinham a capacidade de parir, não todas eram verdadeiramente
mães, coisa que só se completaria com a existência do sentimento maternal e a
lactação.

A mãe ilustrada foi preparada para configurar a família moderna


burguesa, que separou igualmente as funções dos espaços públicos e privados,
confirmando-se ainda mais a diferenciação sexual e onde também deviam

*
PPGHIS/UFRJ/Bolsista Capes.

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prevalecer os sentimentos e o cuidado dos filhos no interior do lar dirigido


estritamente por indivíduos femininos. Deste modo, os médicos se converteram
em pedagogos sociais que abandeiravam uma sociedade amplamente higiênica
com componentes higiênicos, intervindo para isso em temas tão íntimos ou tão
privados como o sexo entre os casais. A mulher se converteu no centro de
atenção destes especialistas, porque através de ela se originava a reprodução de
indivíduos que deviam ser considerados como úteis e saudáveis. Portanto, a ideia
296
principal dos denominados discursos higiênicos foi a de evitar os chamados
“males sociais” dentro dos quais se incluíam as altas taxas de mortalidade
infantil e os crimes como o aborto e os infanticídios.

Questões de mulher
A especialíssima tarefa que ela é chamada a executar na
grande obra da constituição das sociedades, justifica
plenamente a extrema importância que se deve ligar ao seu
estado bastante complexo visto que a ele se prendem muitos
(porque não dizer todos?) problemas sociais (ARAUJO, 1883,
p 7).

O grande interesse dirigido ao estudo da mulher, fixou sua atenção


basicamente em sua função social entendida como reprodutora. Precisamente, é
o aspecto biológico e as mudanças que se produzem no corpo feminino os que
genrearam discussões sob a forma “higiênica” de fazer de aquelas boas esposas,
mas sobretudo boas mães, sem deixar de lado o obsessivo interesse pela relação
moral que acarreavam todas essas transformações durante o processo de
crescimento feminino.

As cargas que se lhe impuseram, foram tais, que basicamente se


estabeleceu que seu comportamento físico e sobretudo moral determinariam o
progresso e futuro da sociedade. Os médicos, especialmente, foram aqueles que
se enfocaram na pedagogia da higiene para intervir, orientar e dirigir os
processos sociais fundamentados na definição de “sociedade higiênica”, que,
portanto, continha cidadãos higiênicos que ratificariam uma reprodução social e
biológica o mais perfeita possível. Desta forma, o médico se apropriou do

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discurso moralizador em favor de conter os chamados “males sociais” e


pretendendo a ansiada “sanidade social”.

Dentro dessa “sociedade higiênica”, seus componentes mais


importantes não podiam deixar de ser higiênicos, assim, a família e o casamento,
se perceberam como principais objetivos a regulamentar através do discurso
médico. A preocupação destes, cresceu a partir da segunda metade do século
XIX no Brasil, onde os debates e discussões sob tais assuntos se fizeram
297
evidentes dentro das Faculdades de Medicina das Universidades Federais do Rio
de Janeiro e da Bahia, ademais da Academia Imperial de Medicina. O
estabelecimento e separação das funções sexuais dentro da sociedade deu como
resultado a intervenção e definição do destino feminino como imposto pela
natureza e confirmado pela sociedade.

O florescimento feminino: a puberdade

O casamento, a família e a maternidade adquirem um novo matiz de


interpretação, conservando certos aspectos tradicionais acerca de sua conceição
e ao mesmo tempo se adicionam novos elementos considerados como
apropriados para o melhor desenvolvimento social em função da reprodução
biológica. Primeiramente, o casamento, como tradicionalmente se concebeu,
seguiu atendendo-se como monogámico e de união permanente.
Equivalentemente, continuou interpretando-se como a base da sociedade e por
outro lado, esse novo matiz incluiu questões como um casamento mais por
afinidade e não por interesse, além de procurar um balance na idade do casal,
baseada logicamente numa idade positiva para a reprodução.

Ao mesmo tempo, o casamento foi exposto como uma forma de união


que só trazia benefícios para ambos sexos, mais especialmente para a mulher,
englobando neste sentido melhoramentos físicos e morais. O casamento se viu e
utilizou como remédio para muitas atitudes consideradas como desviadas tais
como a masturbação, a depravação, o celibato, a histeria e certas doenças
entendidas como de exclusividade feminina como as desordenes produzidas em

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seu organismo como consequência das alterações e transformações ocorridas em


seu útero.

Com referência a essas desordenes, a puberdade foi como uma etapa


física e moral muito importante para a mulher. Esse período se relacionou
intimamente com a diferencia sexual que representa a mulher e que a fazia apta
para a reprodução biológica. Durante a puberdade, se descreveu às mulheres
como altamente instáveis, pois estas experimentavam diversos sintomas do
298
“chamado da natureza”; ali, ela sofria de exaltações, palidez, aparecimento de
sua primeira menstruação, náuseas, sincopes, suores, melancolia, sentimentos
suicidas, entre outros.

Ante o aparecimento da puberdade, a mulher começava a sentir


interesse-desejo pelo sexo oposto, o que implicava que em ela também deviam
nascer sentimentos de amor e pudor. Igualmente, este período se considerou
como o causante de certas doenças como a histeria, ninfomania e loucura, razão
pela qual se pensou que a excessiva exposição de aquelas à sociedade e sua
assistência a espetáculos que representassem paixões, a música, a leitura de
romances e novelas podiam ser perniciosas. (ROHDEN, 2001, p. 122).

Conjuntamente com a puberdade, a menstruação foi classificada como


ponto chave dessa transformação natural. Este fluxo se descreveu com vários
nomes, tais como regras, luas, flores, purgações, trabalhos, épocas ao mesmo
tempo determinou a boa ou má saúde feminina (ROHDEN, 2001, p.121-122).
Períodos menstruais irregulares foram atribuídos como a causa de diversos
desordenes físicos e intelectuais; pelo contrário, períodos normais significavam
o primeiro passo para a realização de uma mãe sã. Para os médicos, a chegada
da primeira menstruação era de suma importância, tanto, que aconselhavam que
não podia ser antecipada ou tardia, por isso, foram várias as indicações
higiênicas dirigidas às adolescentes com a finalidade de que tiveram um
completo desarrolho de seu sistema reprodutivo.

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Esposa e mãe por excelência

O elemento essencial para compreender que uma mulher estava


capacitada para o casamento foi sem dúvida a puberdade. Ter uma puberdade
perfeita-completa era considerada a época ideal para o casamento, com idade
aconselhável que variava entre os 18 e 25 anos. O relevante e no que os
especialistas concordavam era na realização de um exame pré-nupcial para
avaliar se a mulher estava completamente pronta para esse estado. Para
299
(VIANNA, 1852), se consideraram indispensáveis para a união os seguintes
requisitos: a) idade, b) disposições anatômicas dos órgãos reprodutores, c) estado
psicológico normal dos contraentes, d) legitimidade da pessoa, e) certeza de sexo
y f) educação moral, sobretudo nas mulheres.

O casamento foi de tal relevância para a reprodução social que os


médicos intervieram com seus discursos higiênicos e marais em assuntos tão
íntimos do casal como o sexo marital. Ressaltavam a importância desta união,
os benefícios que trazia, suas desvantagens e como devia ser o ideal de
casamento higiênico. Propuseram teorias em função do porquê devia ser
impedido em alguns indivíduos com doenças como a loucura, sífilis,
tuberculoses, aneurismas, deformações e porquê era recomendável para outros
quando este curava o melhorava certas atitudes nervosas, muito mais nas
mulheres.

Do mesmo modo, (VIANNA, 1842) propõe que o casamento fazia com


que pouco a pouco os sintomas da histeria feminina desapareceram e com isso a
mulher podia chegar a seu cometido de esposa virtuosa e mãe. Contrariamente,
(ROZA, 1876) expõe que o casamento é o fundamento da família e a base da
sociedade, e por essa razão: “A mulher histérica é absolutamente incompatível
com a união conjugal; abstraindo mesmo da fatal herança que legaria a sua prole,
evidentemente estaria acima de suas forças, o papel nobre e digno de mãe de
família” (ROZA, 1876 p.72). Contudo, propõe o seguinte: “A estatista oferece a
influência benéfica do casamento sobre a mortalidade, a natalidade, a
criminalidade, a alienação mental e a tendência ao suicídio” (ROZA, 1876 p. 4).
De acordo com (LISBOA, 1870):

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Quase todos os práticos são acordes em considerar as afeções


histéricas, que se manifestam nas virgens e nas viúvas, como
consequência da privação do casamento. Com efeito é de
intuição, que as mulheres, principalmente as bem casadas, são
ordinariamente isentas de tais afeções, ao passo que elas são
muito comuns nos lugares onde existe o voto de castidade, por
exemplo, nos conventos... em todos estes casos o casamento
é de utilidade manifesta; e talvez seja ele o único remédio
capaz de debelar tão grandes males (LISBOA, 1870, p. 4).

Como se aprecia, havia contradições entre os médicos em quanto ao 300


benefício ou não que podia produzir o casamento, especificamente na cura de
algumas doenças consideradas quase sempre de exclusividade feminina como a
loucura e a histeria. A pesar de isso, a maioria dos especialistas consultados
tinham grandes expectativas em quanto ao proveito do casamento, não só como
um ente reparador de males físicos, senão também os de caráter moral. Por essa
razão, uma mulher apta biologicamente para a reprodução tinha seu estado ideal
dentro da união conjugal, despreciando-se, ao mesmo tempo aquelas cuja
castidade e seu estado de solteira as impossibilitava em teoria da honrosa tarefa
de ser mãe.

Sendo o casamento o fio condutor até a mais preciosa tarefa feminina,


se esperava que dentro de ele ocorresse a “milagre” de converter-se em mãe: “A
mulher como personificação mais grandiosa das razoes de ser da Humanidade,
tem como sagrada, e mais de todas, a sublime condição de ser mãe”
(CARVALHO, 1924 p. 11). Ao mesmo tempo, a maternidade se assume como
bandeira para propiciar e determinar –através da intervenção do Estado- a
diferenciação dos sexos e seu papel para com a sociedade. A maternidade,
adquire tanta vantagem que se relaciona diretamente com o progresso e a
civilização da pátria. O compromisso das mães com o Estado estava selado com
esse nobre lavor de criar e educar a uns filhos capazes de desenvolvesse
socialmente como homens e mulheres úteis ao país: “A defesa da maternidade é
a defesa da Pátria e da raça; é a defesa da humanidade na sua existência mais
vital, na sua verdadeira essência, no seu todo principal [...]” (CARVALHO, 1924
p. 13).

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De acordo com a medicina, a mulher tinha que receber um tipo de


educação adequada a sua futura ocupação de esposa, porém muito mais de mãe.
Se promove e exige o florescimento do amor maternal, que conjuntamente com
a lactação deviam ser fatos primordiais no cuidado dos filhos. A lactação foi de
tão grande proporção, que também podia julgar-se como imprudente ou negativa
de acordo ao tipo de mulher que amantasse, chegando ao ponto de atribuísse-lhe
vícios e perversões.
301

Mulher, criminal em potência

Para meados do século XIX, muitos especialistas começaram a


preocupar-se por como entender o crime. A partir desse momento, se instaurou
a teoria da “degenerescência” que entendeu o crime como o resultado de um
psiquismo, de uma perturbação mental que finalmente conduzo ao entendimento
do mesmo como fruto de uma natureza individual. O crime começou a julgar-
se como produto de uma doença e como atributo pessoal. Assim, se relacionaram
os comportamentos delitivos a um certo biodeterminismo aprimorado pelas
teorias da Escola Positiva o Escola Antropológica do Direito.

O crime feminino se entendeu como uma patologização de seu


comportamento, onde ao mesmo tempo se começa a explicar as diferencias entre
os homens e as mulheres com base em seus órgãos sexuais. Em função disso, se
concebeu à mulher como um ser dominado pelos seus órgãos de reprodução
sexual: os ovários e o útero. Precisamente, a partir do século XIX, graças ao
campo da ginecologia, se começou a vincular os distúrbios ginecológicos com
os mentais. Essa ideia também se fiz presente no campo psiquiátrico, que
estipulou definições sob o comportamento patológico feminino como causa
fisiológica e anatômica das mulheres.

Durante este século, também se abrem debates sob doenças como a


histeria, apreciada como a consequência de uma instabilidade nos órgãos sexuais
femininos. De tal modo, a histeria se assumiu como um padecimento que afetava
maioritariamente às mulheres, e a mulheres solteiras ou viúvas especialmente. A

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sexualidade foi o elemento de maior importância para que, por exemplo, os


seguidores da teoria da alienação pensassem a ideia da histeria como
potencialmente feminina. Portanto, partiam do preceito de que o desejo sexual
feminino era nulo, e tomavam essa consideração para estabelecer condutas
normais ou patológicas (RINALDI, 2015, p. 75).

Já para finais do século XIX, algumas teorias médicas apontavam a que


a atividade sexual trazia benefícios no tratamento da histeria. Igualmente,
302
também se pensava que a falta de ela podia desencadear o histerismo. A ideia
proeminente, era que a mulher devido a sua natureza estaria mais próxima à
loucura em comparação com seus pares masculinos, sendo o elemento principal
desencadeador da histeria o ciclo menstrual. Ao mesmo tempo, a gravidez, o
parto e o pós-parto foram considerados estados durante os quais as mulheres
eram mais propensas a desenvolver desequilíbrios mentais.

Precisamente, os profissionais do direito e da medicina no Brasil, ao


momento de entender e debater a criminalidade feminina, se basearam na ideia
de que a “natureza feminina” podia determinar um comportamento perigoso.
Estes especialistas pensavam que as alterações fisiológicas das mulheres podiam
afetar seus nervos, conduzindo-as ao crime. Especialmente, durante a fase
reprodutiva, o corpo feminino sofria tais alterações que induziam basicamente a
um corpo perigoso e instável, que de acordo com alguns de eles, só era possível
achar sua redenção através do exercício da maternidade.

A desordem do parto e o infanticídio

A loucura puerperal foi um tema amplamente discutido, sobretudo para


finais do século XIX e princípios do XX. Este estado, considerado tão delicado
para a mulher recebeu vasta atenção por parte dos médicos-legistas em função
dos distúrbios que se apresentavam na mulher grávida, parturiente ou pós-
parturiente que podia conduzi-a muitas vezes ao crime, especialmente ao
infanticídio. Para (FRANCO, 1877) a loucura puerperal podia manifestar-se:
[...] durante a prenhes, no momento do parto, após o
delivramento, e durante o aleitamento; compreende assim o

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conjunto das perturbações mentais que podem ter lugar nas


três diferentes fases das funções geradoras –gestação,
parturição e lactação. Entre os casos de loucura puerperal os
que se desenvolvem depois do parto são os mais numerosos
(FRANCO, 1877, p. 38).

De acordo com este mesmo autor, a loucura puerperal tinha dois tipos
de causas: a) as predisponentes, onde se incluem a herança, anemia, estado moral
da mulher, estados anteriores de loucura, idade e sexo da conceição –sobretudo
303
quando era masculino era mais predisponente- y b) as ocasionais, tais como, ação
simpática do útero, emoções morais, lactação, eclampsia, primeira menstruação
despois do parto, ação mecânica do útero, dor, lóquios, cloroformização
(anestesia). Igualmente, expressa que a loucura puerperal podia manifestar-se
em três formas: a) mania, que incluía sintomas como insônia, ideias falsas,
delírios e atos agressivos, b) melancolia, onde a mulher podia experimentar um
sentimento de tristeza e depressão, y c) monomania, apresentando a mãe ideias
únicas ou de um único tipo.

Os debates médicos sob a loucura puerperal, incluíram os efeitos


nocivos ou não que a educação podia ter na mulher e deste modo desenvolver
com mais facilidade um estado de alteração mental. Para alguns autores como
(SANTOS, 1878) a educação feminina era predisponente à histeria:
É de importância capital a educação, considerada como causa
predisponente das manifestações histéricas[…] A educação,
que recebe, em geral a mulher, nela determina a ociosidade
plástica e a atividade espiritual, existência essa que actua de
modo desfavorável sobre seu organismo (SANTOS, 1878, p.
28).

Concorda com isso (ARAUJO, 1883), formulando o seguinte: “A


educação é uma causa predisponente geral de loucura, isso é incontestável e se
revela nas mulheres em que esse efeito da educação física e moral chamado
nervosismo é muito fácil de verificar” (ARAUJO, 1883, p. 55). Se põe de
manifesto que uma mulher durante um estado de loucura puerperal está movida
por um sentimento de excessiva paixão. Contudo, era especialmente a mulher
que se encontrava em um estado de gravidez ou de pós-parto a que era mais
vulnerável a desordenes emocionais: “A mulher prenhe pode sentir-se impelida

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a vários atos estranhos. A mulher parida e a que aleita sente-se impelida a matar
e de preferência ao recém-nascido [...]” (ARAUJO, 1883, p. 69).

Para alguns destes autores, as mulheres que se achavam baixo o efeito


da loucura puerperal estavam alienadas e a alienação metal eximia à acusada de
total responsabilidade. Portanto, a loucura puerperal e seus efeitos podiam serve-
lhe perfeitamente como atenuante a uma infanticida. Pelo contrário, outros
criticavam fortemente as mães que assassinavam a seus filhos:
304
A mulher, cuja organização se presta tão admiravelmente ao
amor maternal, ao instinto de conservação de sua prole,
também pode ser como os demais homens, a monstruosa
infanticida a mentirosa desvergonhada, e a egoísta que com
subterfúgios busca espoliar ao condenar ao imerecido opróbio
(AZEVEDO, 1852, p. 3).

O tema do infanticídio e suas infanticidas foi um assunto bastante


debatido com calorosas discussões e afirmações bem contundentes em
reprovação moral por este tipo de crime. Não é de estranhar-se que isso haja sido
assim, pois é bem sabido que delitos desta natureza sempre criam consternação
devido a sua tipicidade tão excepcional onde a atuação criminal da mãe se julga
e se compadece, mas também se reprova a morte de uma criatura recém-nascida:
O mundo acusa a mulher de haver matado o fruto de sua
maternidade –é um crime, um crime horrendo! Que fazer? O
Juiz não crê nas lagrimas sentidas de aquela que se defende
de monstruosa arguição; acorde o médico; vê, examina,
interroga e pensa; seus gestos, sua placidez, sua mudez e
ansiosamente interroga pela mãe que implora perdão: o
médico em fim da a sentença divina, o juiz a sanciona com a
da humanidade (AZEVEDO, 1852, p. 8).

Precisamente, se nota dentro destas discussões que o infanticídio foi um


tema escabroso e de difícil comprovação; para o médico, ressaltavam algumas
impressões no Código Criminal Brasileiro de 1830 quando não se especificava
o tempo em que se devia considerar uma criança como recém-nascida, atendendo
a que o infanticídio se precisou como a morte dada de forma violenta a um
recém-nascido. Assim, resultava uma ação bastante complicada para os
médicos-legistas comprovar um infanticídio:
É por sem dúvida difícil e melindrosa a posição do médico-
legista, sempre que tem que emitir o seu juízo em um caso de

ISBN: 978-85-65957-07-6
Rio de Janeiro
Ed. Anpuh-Rio
Atas do II Encontro Nacional do GT Estudos de Gênero
Rio de Janeiro, 27 e 28 de outubro de 2016.

infanticídio; ele porém deve sempre ter uma das mãos na


balança da justiça e na outra o grande livro da ciência
(CARVALHO, 1870, p. 14).

Para os médicos era de suma importância a autopsia que realizavam nos


recém-nascidos para poder determinar se a criatura era de nove meses ou menos,
se havia nascido recentemente, se era completamente saudável, se nasceu vivo
ou não e qual teria sido a causa de sua morte, e por tanto estabelecer se houve ou
não infanticídio. Ao mesmo tempo, se lhe presentavam dificuldades ao avaliar à 305
acusada porque deviam determinar se a mesma havia estado gravida, se havia
tido um parto recente e comprovar a ligação de uma criança assassinada com sua
suposta mãe infanticida. Essa delicada tarefa se fazia já o suficientemente
espinhosa para o médico-legista que argumentava que era muito mais trabalhoso
determinar tais fatos quando o cadáver do recém-nascido se encontrava em
avançado estado de putrefação.

Equivalentemente, se contavam como causas dos infanticídios a honra,


a miséria e a escravidão, por isso se recomendava uma boa educação religiosa e
moral como os meios mais eficazes para evitar tais atos. Desta forma, o tema da
educação feminina entra em discussão; para alguns especialistas era prejudicial
porque podia alentar a loucura e a histeria, e para outros era benéfica para evitar
crimes geralmente ocorridos por causa das perturbações mentais como os
infanticídios.

Outro ponto que se põe em evidencia ao analisar as teses é que os


infanticídios eram apreciados como crimes comuns na cidade de Rio, embora
também reconheciam a dificuldade para descobri-os e muito mais para julga-os:
“Podendo-se considerar o infanticídio uns dos crimes mais frequentes na
sociedade; é com tudo um de aqueles que mais facilmente escapam a ação da
justiça” (CARVALHO, 1870, p. 14).

Consequentemente, se deduzia que os infanticídios eram habituais


porque era frequente achar muitos infantes nas ruas e em outros lugares da
cidade. Quando esses recém-nascidos eram achados mortos, a polícia era
acionada e os enviavam ao necrotério para fazer os exames que quando

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revelavam uma morte sobrevinda de um crime, geralmente não se descobriam


aos culpáveis. Se contrariamente