Você está na página 1de 21
A SEGURANCA GLOBAL MULTIDIMENSIONAL RAFAEL DUARTE VILLA Desde 0 inicio do pés-Guerra Fria a preocupagio estratégico- militar tem recuado no cendrio das discusses internacionais e outras dimensdes, como a econémica e a ecoldgica, passam a ocupar um espago mais amplo no debate politico-académico. Em outros termos, consolidam- se novos fendmenos de seguranga antes ocultos e dilufdos pelo debate em torno da Guerra Fria, durante a qual a discussio se centrava nas preocu- pages derivadas do confronto Leste-Oeste. No plano especffico, esses fenémenos s4o a concorréncia econdmica-tecnolégica, os desequilibrios ambientais, a exploso populacional, as migracGes internacionais e o nar- cotrdfico. Esses novos processos tém como singularidade a sua natureza social, isto &, sua especificidade reside antes no funcionamento de uma sociedade civil cada vez mais transnacionalizada do que no préprio Estado, © que possibilita que atores néo-estatais, como grupos ecoldgicos, de di- reitos humanos e de direitos reprodutivos, entre outros, surjam como cons- ciéncias criticas em torno dos mencionados fenémenos. Dessa forma, a natureza social tanto dos novos fendmenos quan- to dos agentes transnacionais decorre do surgimento de uma nogdo de seguranga internacional diferente da tradicional vi nacional de natureza estratégico-militar, centrada no Estado e procurada via acréscimo de poder relativo. Sob o ponto de vista conceitual, a natureza especificamente transnacional e social dos processos e dos agentes implica renunciar & apreensio ¢ andlise desta nova nogo de seguranga internacional a partir da perspectiva teérica realista, mais apropriada para a compreensiio de relagGes interestatais puras. Em conseqiiéncia, a férmula conceitual alter- nativa de seguranga internacional parece atender ao surgimento de um tipo ideal de seguranga global multidimensional (SGM). Global porque a inter- 100 LUA NOVA N° 46 — 99. dependéncia e transnacionalizagdo dos novos fendmenos de seguranga per- mite a0 conceito abranger significados néio apenas localizados, mas pla- netérios. Multidimensional porque nao se constitui s6 de contetido estraté- gico-militar, mas também de outros contetidos transnacionais, como explosio demogrdfica, desequilibrios ecolégicos e migragdes interna- cionais, que fazem com que a seguranga internacional seja encarada sob diferentes angulos. Porém, o mais relevante, do ponto de vista conceitual, € que o surgimento de uma nogao de seguranga global multidimensional acaba atingindo a unidade de andlise fundamental do realismo: 0 Estado. Nas paginas deste artigo se tenta esbogar algumas notas introdutérias em relagio 4 forma com isso acontece. Como passo necessdrio, entretanto, retornaremos, numa primeira parte deste artigo, a0 conceito realista, para avaliar de forma mais conceitual o que significa a inadequacao realista em relagdo aos fenémenos sociais globais no pés-Guerra Fria. REALISM: INADEQUACAO E REARTICULACAO, Que condigées satisfazem ou conduzem A emergéncia de novas formulas teéricas no campo das ciéncias humanas? Que significa dizer que uma teoria permanece A altura de seu tempo? Para esses dois problemas genéricos e amplos dificilmente se encontra uma resposta facil ou total- mente adequada. Em primeiro lugar, quando um conceito é ultrapassado pelos fatos, a sua disfuncionalidade nao indica, a priori, uma completa inadequacao da teoria, mesmo porque os conceitos dificilmente dao conta de todo o universo do fenémeno, persistindo quase sempre algumas “anomalias”. Como demonstra Huntington em seu polémico artigo “Choque de civilizagses”, a existéncia anémala do cisma sino-soviético nao invalidava o paradigma da Guerra Fria, centrado na andlise de uma realidade internacional bipolarizada nos planos politico, econémico e mi- litar opondo Estados Unidos e Unido Soviética, embora 0 confronto se desse de forma indireta nos cendrios do Terceiro Mundo!. Em segundo, o surgimento de um novo fato ou um processo nfo articulado de imediato por um conceito hegeménico leva necessariamente | Samuel Huntington, “Choque das civilizagdes”. Politica Externa 2 margo de 1994: 121-2. Para uma andlise do “paradigma das civilizagdes” proposto de Huntington consultar: José R. Novaes Chiappin. “O paradigina das civilizagdes, o realismo politico e a nova estratégia de contengio". Estudas Avangadas (cole¢do documentos), 28, (novembro, 1996): 47-62 € tam- bém “6 Paradigma de Huntington € o realismo politico", Lua Nova n° 34/1994: 37-53, A SEGURANCA GLOBAL MULTIDIMENSIONAL 101 & emergéncia de um outro conceito mais adequado? De novo a resposta nado & to simples, como poderia sugerir a pergunta. A emergéncia de novos fendmenos nao pode ser tomada, automaticamente, como referéncia abso- luta de mudangas ou inadequagao dos conceitos. Nem mesmo quando uma comunidade cientifica discorda de uma escolha técnica ou metodoldgica para encarar a parte descritiva ou analitica de um problema pode-se inter- pretar essa discordancia como um enfraquecimento intrinseco do conceito: a falta de uma interpretacao padrdo ou de uma redugdo a regras que gozem de unanimidade absoluta nfo impedem que um conceito oriente a pesquisa?, e 0 fato de existirem escotas com posturas metodoldgicas dife- rentes acerca do mesmo objeto comprova essa idéia, Assim, nao é dificil hoje, no campo das relages internacionais, encontrar quem pretira falar de neo-realismo, em oposi¢ao ao realismo classico ou tradicional. Isso sig- nifica que as duas correntes podem funcionar adequadamente, sem que haja necessidade de um consenso tdcito e/ou normativo absoluto sobre as razdes do emprego de algumas regras de apreens4o dos significados cul- turais dos processos hist6ricos, ou ainda que seja necessdrio uma raciona- lizagao amplamente normativa ou explicita. Contudo, isso nao significa que as ciéncias humanas sobrevivam com base em acordos informais sobre regras de procedimento metodoldgi- cos e epistemol6gicos: essa constatagdo sugere que alguns dos tipos ideais utilizados pelas ciéncias humanas ou algumas de suas técnicas qualitativas € quantitativas atendam ao que Aron chama “‘o ndo-acabamento essen- cial”, Isto é, na medida em que a realidade hist6rica apresenta novos sig- nificados passiveis de reproducao, ela talvez possa ser apreendida me- diante a construgao de novos tipos ideais. Como reforgaria Weber, “nisto, de modo nenhum, se expressa um cardter errOneo da intengio de criar sis- temas conceituais por qualquer ciéncia (...) Antes, aqui se exprime o fato de que, nas ciéncias da cultura humana, a construgio dos conceitos depende do modo de propor os problemas, e de que esses tiltimos variam de acordo com o contetido da cultura”*. Caso 0 conceito nao consiga recobrir adequadamente os signifi- cados do novo individuo histérico, pode-se pensar, enti, que ele é inade- 2 Thomas Kuhn. A estrutura das revolugdes cientificas. Sio Paulo, Editora Perspectiva, 1994, 2.69. 3° Raymond Aron. As etapas do pensamento socioldgico. Brasilia, Martins Fontes/Universidade de Brasilia, 1982. Pp. 475-6. 4 Max Weber. Metodologia dus ciéncias sociais. Campinas, UNICAMP/ Cortez Editora, 1992. Pp. 139-40,