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OPINIÃO PÚBLICA E AUDIÊNCIAS 539

Processos cognitivos, cultura e estereótipos sociais


Rosa Cabecinhas1

“The pictures inside the heads of these Lippmann debruça-se sobre a forma como
human beings, the pictures of a cultura nos fornece os elementos para
themselves, of others, of their needs, ‘recortar’ a realidade em elementos signi-
purposes, and relationship, are their ficativos, conferindo-lhe nitidez, distintivi-
public opinions. Those pictures which dade, consistência e estabilidade de signifi-
are acted upon by groups of people, cado. O autor reflecte sobre as limitações
or by individuals acting in the name humanas no processamento da informação e
of groups, are Public Opinion with sobre a forma como os preconceitos intro-
capital letters”. duzem enviesamentos na selecção, interpre-
Walter Lippmann, 1922 tação, memorização, recuperação e uso da
informação. Neste sentido, podemos consi-
1. Introdução derar que esta obra de Lippmann constitui
um primeiro esboço de uma área de estudo
Em 1922, o jornalista e analista político hoje dominante no seio da psicologia social:
Walter Lippmann publica Public Opinion, a cognição social.2
uma obra que analisa como as pessoas
constroem as suas representações da reali- 2. Imagens e clivagens: as funções dos
dade social e de que forma essas represen- estereótipos sociais
tações são afectadas tanto por factores in-
ternos como externos. Segundo Lippmann, Lippmann (1992/1961) é considerado o
as ‘representações’ – the pictures inside the fundador da conceptualização contemporânea
heads – funcionam como ‘mapas’ guiando dos estereótipos e do estudo das suas fun-
o indivíduo e ajudando-o a lidar com infor- ções psicossociais (e.g., Ashmore e DelBoca,
mação complexa, mas também são ‘defesas’ 1981; Marques e Paéz, 2000). O termo
que permitem ao indivíduo proteger os seus ‘estereótipo’ já existia desde 1798, mas o seu
valores, os seus interesses, as suas ideolo- uso corrente estava reservado à tipografia,
gias, em suma, a sua posição numa rede de onde designava uma chapa de metal utiliza-
relações sociais. As representações não são da para produzir cópias repetidas do mesmo
o espelho da realidade, mas sim versões hiper- texto (Stroebe e Insko, 1989). O termo
simplificadas da realidade. também já era usado de forma esporádica nas
As representações nunca são neutras, pois ciências sociais para denotar algo ‘fixo’ e
dependem mais do observador do que do ‘rígido’, o que se prende com a origem
objecto, já que este define primeiro e vê etimológica da palavra: stereo que, em gre-
depois: go, significa ‘sólido’, ‘firme’.
Por analogia, Lippmann salientou a ‘ri-
“For most part we do not first see, gidez’ das imagens mentais, especialmente
and then define, we define first and aquelas que dizem respeito a grupos so-
then see. In the great blooming, ciais com os quais temos pouco ou nenhum
buzzing confusion of the outer world contacto directo. A visão dos estereótipos
we pick out what our culture has como algo rígido caracterizou muitos dos
already defined for us, and we tend estudos posteriores sobre esta temática. No
to perceive that which we have entanto, o autor não descurou a possibi-
picked out in the form stereotyped lidade de mudança dos estereótipos e sa-
for us by our culture” (Lippmann, lientou o carácter criativo da mente huma-
1922/1961: 81) na.
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Lippmann conceptualizou os estereótipos powerfully direct the play of our attention,


como resultantes de um processo ‘normal’ and our vision itself” (1922/1961: 16).
e ‘inevitável’, inerente à forma como pro- Lippmann salienta o papel activo do
cessamos a informação, mas a maior parte indivíduo na construção dos estereótipos que
dos estudos empíricos realizados até aos anos são sempre ‘selectivos’ e ‘parciais’ (1922/
cinquenta caracterizaram os estereótipos 1961: 80). Na sua análise encontramos ele-
como um tipo inferior de pensamento, situ- mentos sobre as funções psicossociais dos
ando-os no domínio do ‘patológico’: estes estereótipos, que viriam a ser desenvolvidas
seriam projecções de fantasias indesejáveis, e estudadas empiricamente algumas décadas
deslocamentos de tendências agressivas para depois por Allport (1954/1979), que liga
os membros de outros grupos, ou subprodutos explicitamente os estereótipos ao processo
de síndromes de personalidade associadas ao de categorização, e por Talfel (1969) que,
autoritarismo e intolerância (e.g., Adorno, pela primeira vez, explicita as suas funções
Frenkel-Brunswick, Levison e Sanford, 1950; cognitivas e sociais, integrando-as num
Rockeach, 1948). Assim, algumas das ideias modelo explicativo das relações intergrupais.
inovadoras de Lippmann foram negligenci- Relativamente às funções cognitivas,
adas pela grande maioria das investigações Lippmann (1922/1961: 81-95) salienta a
efectuadas nas três décadas seguintes sobre ‘economia de esforço’, as necessidades de
estereótipos, só sendo recuperadas e ampla- ‘definição’, ‘distinção’, ‘consistência’ e
mente desenvolvidas a partir dos trabalhos ‘estabilidade’. No que respeita às funções
de Bruner, Allport e Tajfel. sociais, o autor enfatiza o papel dos este-
Lippmann (1922/1961) define os estere- reótipos na ‘defesa’ dos interesses do in-
ótipos como imagens mentais que se inter- divíduo:
põem, sob a forma de enviesamento, entre
o indivíduo e a realidade. Segundo o autor, “The systems of stereotypes may be
os estereótipos formam-se a partir do siste- the core of our personal tradition, the
ma de valores do indivíduo, tendo como defenses of our position in society.
função a organização e estruturação da re- (…) In that world people and things
alidade: have their well-known places, and do
certain expected things. We feel at
“For the real environment is altogether home there. We fit in. We are
too big, too complex, and too fleeting members” (Lippmann, 1922/1961:
for direct acquaintance. We are not 95).
equipped to deal with so much
subtlety, so much variety, so many Um dos motivos que explicaria o ca-
permutations and combinations. And rácter ‘fixo’ dos estereótipos seria precisa-
although we have to act in that mente a necessidade do indivíduo proteger
environment, we have to reconstruct a sua definição da realidade:
it on a simpler model before we can
manage with it. To traverse the world “any disturbance of the stereotypes
men must have maps of the world” seems like an attack upon the
(Lippmann, 1922/1961: 16) foundations of the universe. It is an
attack upon the foundations of our
Interrogando-se sobre os factores que universe, and, where big things are
contribuiriam para o que “the pictures inside at stake, we do not readily admit that
so often misleads men in their dealing with there is any distinction between our
the world outside”, Lippmann aponta limi- universe and the universe. (…) A
tações externas – a censura e a falta de pattern of stereotypes is not neutral.
contacto directo – e limitações internas: “this (…) It is the guarantee of our self-
trickle of messages from the outside is respect; it is the projection upon the
affected by the stored up images, the world of our own sense of our own
preconception, and the prejudices which value, our own position and our own
interpret, fill them out, and in their turn rights. The stereotypes are, therefore,
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highly charged with the feelings that and openminded, the novelty is taken
are attached to them. They are the into the picture, and allowed to modify
fortress of our tradition, and behind it. Sometimes, if the incident is
its defense we can continue to feel striking enough, and if he has felt a
ourselves safe in the position we general discomfort with his
occupy” (Lippmann, 1922/1961: 96). established scheme, he may be shaken
to such an extent as to distrust all
É precisamente pelo seu papel na manu- accepted ways of looking at life”
tenção do sistema de valores do indivíduo (Lippmann, 1922/1961: 100).
e do statu quo, que os estereótipos dificil-
mente são abalados por informação incon- Estes aspectos viriam a ser estudados
gruente com os mesmos. algumas décadas mais tarde por Allport
(1954/1979) e amplamente demonstrados por
“There is nothing so obdurate to estudos em cognição social. O autor salienta
education or to criticism as the o carácter rígido dos estereótipos e o facto
stereotype. It stamps itself upon the de estes constituírem imagens demasiado
evidence in the very act of securing ‘generalizadas’ e ‘exageradas’ que descuram
the evidence. (…) If what we are a variabilidade dos membros dos outros
looking at corresponds successfully grupos e negam a sua individualidade
with what we anticipated, the (Lippmann, 1922/1961: 116).
stereotype is reinforced for the future Este aspecto foi empiricamente demons-
(pp.98-99). (...) For when a system trado pelos estudos sobre o efeito de acen-
of stereotypes is well fixed, our tuação – a tendência para exagerar as
attention is called to those facts which semelhanças entre os membros da mesma
support it, and diverted from those categoria social e para acentuar as diferenças
which contradict” (Lippmann, 1922/ entre membros de categorias diferentes (Tajfel
1961: 119). e Wilkes, 1963) – e sobre o efeito de
homogeneidade do exogrupo – a tendência
Neste sentido, Lippmann faz referência de perceber o grupo dos outros como mais
ao que posteriormente se veio a designar homogéneo do que o grupo de pertença
como ‘profecias auto-confirmatorias’ (Merton, (Quattrone e Jones, 1980).3
1949/1968), amplamente demonstradas pelos Lippmann debruçou-se ainda sobre o
estudos em cognição social (e.g., Hamilton, poder dos ‘rótulos’ e os seus efeitos nefastos
1979). Quando um membro de determinado na percepção das pessoas: “They are too
grupo age de forma contraditória ao estere- empty, too abstract, too inhuman” (1922/
ótipo, Lippmann considera que, na maior 1961: 160). Na perspectiva do autor, só uma
parte das vezes, este membro passa a ser visto longa educação crítica permitiria aos indi-
como uma excepção, mantendo-se o estere- víduos tomarem consciência do carácter
ótipo intacto. Este só é abalado se o indi- diferido e subjectivo da respectiva apreensão
víduo ainda tiver alguma flexibilidade de da realidade social (p.126). Embora salien-
espírito ou se a informação incongruente for tando o papel da educação – “the supreme
demasiado impressionante para ser ignorada: remedy”(p.408) – Lippmann considera os
estereótipos inevitáveis:
“If the experience contradicts the
stereotype, one of two things happens. “Yet a people without prejudice, a
If the man is no longer plastic, or if people with altogether neutral vision,
some powerful interests make it highly is so unthinkable in any civilization
inconvenient to rearrange his of which it is useful to think, that no
stereotypes, he pooh-poohs the scheme of education could be based
contradiction as an exception that upon that ideal. Prejudice can be
proves the rule, discredits the witness, detected, discounted, and refined, but
finds a flaw somewhere, and manages so long as finite men must compress
to forget it. But if he is still curious into a short schooling preparation for
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dealing with a vast civilization, they atribuições de traços de personalidade, ba-


must carry pictures of it around with seando-se neste processo de correspondên-
them, and have prejudice” (1922/ cia. Esta técnica não teve, contudo, grande
1961: 120). sucesso na altura, só vindo a ser recuperada
muito mais tarde (Leyens et al., 1994).
Esta concepção sobre a inevitabilidade dos Durante as primeiras décadas do estudo
estereótipos, porque inerentes ao funciona- dos estereótipos, a técnica mais utilizada foi
mento cognitivo normal, só começou a ser a lista de adjectivos (Katz e Braly, 1993).
sistematicamente analisada pelas investiga- Antes de nos referirmos aos estudos destes
ções da Nova Vaga no estudo dos estereó- autores, parece-nos necessário abrir um breve
tipos (e.g., Bruner, 1957). Outros dos aspec- parêntese a propósito de alguns estudos
tos enfatizados por Lippmann foi o facto do clássicos sobre discriminação social realiza-
senso comum, na maior parte dos casos, não dos no âmbito do modelo das atitudes.
procurar infirmar as suas hipóteses, mas sim Numa época caracterizada por um grande
confirmá-las: “in the codes that come fluxo migratório de grupos de origem asi-
unexamined from the past or bubble up from ática e europeia para os EUA, Bogardus
the caverns of the mind, the conception is (1928) estudou as ‘atitudes raciais’ dos
not taken as an hypothesis demanding proof americanos a partir de uma Escala de Dis-
or contradiction, but as a fiction accepted tância Social. Os participantes (americanos
without questions” (1922/1961: 122-123). brancos) deveriam indicar as suas atitudes
A delimitação das condições em que os face a diversos grupos raciais, étnicos e
indivíduos enveredam pela confirmação religiosos (por exemplo: franceses, indianos,
automática das hipóteses ou em que encetam judeus, chineses, ingleses, negros, etc.), numa
processos de infirmação das mesmas cons- escala de sete pontos, ordenados da menor
titui um aspecto central na pesquisa actual distância à maior distância social: ‘casaria
sobre os estereótipos (e.g., Snyder, 1981). com um membro deste grupo’; ‘aceitaria
Lippmann considera que as pessoas ‘ig- como amigo íntimo’; ‘aceitaria como vizi-
norantes’ têm maior tendência para efectu- nho do lado’; ‘aceitaria como colega de
arem estas generalizações acriticamente do escritório’; ‘aceitaria como conhecido’; ‘ape-
que as ‘cultas’, mas recorda que todos nas como turista no país’; ‘excluí-los-ia do
possuímos estereótipos, uma vez que país’ (Lima, 1993/2000: 198).
“inevitably our opinion cover a bigger space, O estudo revelou que os participantes
a longer reach of time, a greater number of rejeitavam, sobretudo, os grupos de origem
things, than we can directly observe” (1922/ asiática e africana, preferindo os imigrantes
1961: 79). Todos os seres humanos são como de origem europeia, principalmente os anglo-
os prisioneiros da caverna de que nos fala saxónicos e os nórdicos. Esta hierarquização
Platão, no Sétimo Livro da A República. dos grupos estava em perfeita consonância
com os estudos do ‘racismo científico’ re-
3. Imagens a Preto e Branco: O poder dos alizados no século XIX e início do século
estereótipos sociais XX, testemunhando o carácter normativo do
racismo nesse período nos EUA e na Europa.
O estudo empírico dos estereótipos co- No início da década de quarenta, Hartley
meçou pouco depois da publicação da obra efectuou um estudo sobre o preconceito em
de Lippmann. Ainda na década de vinte, relação a 49 grupos-alvo utilizando a escala
fortemente influenciado pela definição dos de Bogardus. Para além dos grupos-alvo
estereótipos como ‘pictures inside our heads’, presentes no estudo precedente, Hartley ave-
Rice (1926-1927; referido por Oakes, Haslam riguou o preconceito em relação a grupos
e Turner, 1994) realizou um estudo em que políticos (nazis, socialistas, comunistas, etc.)
apresentou aos participantes uma série de e a três grupos fictícios: Danarean, Pirenean
fotografias de pessoas pertencentes a dife- e Wallonian (1946/1969: 5).
rentes grupos sociais. Estes efectuaram fa- Os resultados indicadores de maior dis-
cilmente correspondências entre as fotogra- tância social foram obtidos pelos grupos
fias e os ‘social types’ e procederam a políticos “extremistas” (nazis, fascistas e
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comunistas), logo seguidos dos grupos étni- nível comportamental e, simultaneamente,


cos minoritários – judeus, negros, turcos, uma expressão de intolerância ao nível
árabes, chineses, hindus, mexicanos, imigran- atitudinal, pelo que foram interpretados como
tes da Europa de Leste (romenos, russos, reflectindo uma inconsistência entre atitudes
lituânios, etc.), e imigrantes da Europa e comportamentos (Lima, 1993/2000). Para
Mediterrânica (gregos, italianos e portugue- além da importância deste aspecto, interessa-
ses). Mais uma vez, os imigrantes anglo- nos salientar outro: este estudo demonstra
saxónicos e nórdicos (irlandeses, ingleses, claramente o carácter normativo da discri-
alemães, dinamarqueses, etc.) obtiveram minação racial nos EUA nos anos 30. Nesta
resultados indicadores de menor distância altura, havia um forte preconceito contra os
social, e o grupo de pertença foi o único a chineses, sendo comum os restaurantes e lojas
ocupar o topo da escala. terem uma placa à porta com a seguinte
O aspecto mais curioso deste estudo é inscrição: “É proibida a entrada a cães e a
que os três grupos fictícios obtiveram resul- chineses”.
tados idênticos aos dos grupos étnicos ‘in- A discrepância entre atitudes e compor-
desejáveis’, indicadores de grande distância tamentos está bem ilustrada empiricamente
social, isto é, a simples evocação de um grupo por réplicas do estudo de LaPierre. Por
desconhecido, logo minoritário e eventual- exemplo, Kutner, Wilkins e Yarrow (1952)
mente perigoso, levou os participantes a replicaram este estudo de LaPiere usando
rejeitar esses grupos. Estes resultados de- como grupo-alvo os negros, tendo obtido
monstram que o preconceito não está direc- resultados idênticos. De referir, no entanto,
tamente ligado ao nível de conhecimento dos que o estudo foi realizado com três jovens,
grupos-alvo em causa e são indicadores do duas brancas e uma negra, “bem vestidas
carácter normativo da discriminação social e bem educadas” (p.649). Assim, tanto neste
nesta época, já que os participantes não estudo como no anterior, o estatuto social
hesitaram em discriminar com base num percebido das pessoas-alvo poderá ter tido
simples rótulo evocativo de minoria étnica. forte impacto nos resultados.
No início do estudo das atitudes, estava Apesar das críticas iniciais ao método de
implícita a consonância entre atitudes e questionário, esse foi, sem dúvida, o mais
comportamentos, pressupondo-se que as popular no estudo dos estereótipos, pelo
atitudes eram boas preditoras do comporta- menos até à ‘revolução cognitiva’. O método
mento. No entanto, o poder preditivo das mais utilizado foi o da ‘lista de adjectivos’,
atitudes, avaliadas por questionários, foi desenvolvido por Katz e Braly (1933; 1935).
questionado por LaPiere, num estudo clás- Os autores construíram uma lista de 84 traços
sico sobre preconceito racial. de personalidade, seleccionados a partir da
LaPiere, um psicólogo social americano imprensa e da literatura da época e/ou for-
branco, viajou pelos EUA acompanhado por necidos por uma amostra de 100 estudantes
um casal de chineses, bem parecidos e bem universitários (americanos brancos) nas
vestidos, muito sorridentes e com um “inglês descrições de dez grupos: alemães, ameri-
sem pronúncia” (1934: 232). O autor foi canos, chineses, ingleses, irlandeses, italia-
anotando as reacções dos funcionários dos nos, japoneses, judeus, negros e turcos.
diversos estabelecimentos hoteleiros. Nesta Katz e Braly (1933) pediram a uma outra
viagem foram recebidos em 66 hotéis e em amostra de 100 estudantes universitários para
184 restaurantes e cafés, tendo apenas so- seleccionarem os cinco traços mais típicos
frido uma recusa num hotel. Algum tempo de cada um dos dez grupos-alvo referidos.
depois foi enviada uma carta a cada um destes Não surpreendentemente para a época, os
estabelecimentos, perguntando se aceitariam ‘americanos’ (referindo-se aos americanos
chineses como clientes. Das respostas rece- brancos) foram considerados empreendedo-
bidas, 92% eram negativas, tendo as restan- res, inteligentes, materialistas, ambiciosos e
tes afirmado que dependeria das circunstân- progressistas, enquanto os ‘negros’ foram
cias. considerados supersticiosos, preguiçosos,
Estes resultados mostraram que é possí- despreocupados, ignorantes e musicais. As-
vel haver uma manifestação de tolerância ao sim, ao grupo de pertença (americanos) foram
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atribuídas características positivas, Contudo, uma segunda réplica do mesmo


consonantes com o chamado ‘sonho ameri- estudo na Universidade de Princeton reali-
cano’, enquanto que aos ‘negros’ foram zada nos anos sessenta (Karlins, Coffman e
atribuídas características negativas que Walters, 1969) produziu resultados que
contrariavam os valores dominantes da so- desiludiram os psicólogos sociais. Embora o
ciedade americana, justificando assim a sua conteúdo de alguns estereótipos tivesse
exclusão social. Outro aspecto importante sofrido alterações e se apresentasse global-
ressalta dos resultados: o estereótipo sobre mente mais positivo, aos ‘americanos’ e aos
os ‘negros’ é muito mais uniforme do que grupos de origem europeia continuavam a
o estereótipo sobre os ‘americanos’, sendo ser associados atributos com grande
relativamente a este grupo que existe menor desejabilidade social, consonantes com os
consenso entre os participantes. Assim, mais valores da sociedade americana, enquanto que
uma vez se verifica que o elevado consenso aos grupos minoritários de origem africana
dos estereótipos não está ligado ao maior e asiática continuavam a ser associados
nível de contacto com os grupos-alvo em atributos socialmente indesejáveis.
causa, já que os estudantes em questão ti- Verificou-se igualmente um incremento da
nham pouco ou nenhum contacto directo com consistência dos estereótipos face a algumas
os grupos sobre os quais havia maior con- minorias étnicas, contrariando a tendência
senso. Katz e Braly (1933; 1935) consideram observada nos anos 50. Em contrapartida, o
os estereótipos como um fenómeno estereótipo dos ‘americanos’ foi o que apre-
sociocultural. Para os autores, os estereóti- sentou menor consistência, confirmando os
pos são crenças transmitidas pelos agentes resultados dos anos 30. No que respeita ao
de socialização (família, escola, meios de estereótipo dos ‘negros’, os autores fazem a
comunicação social, etc.), o que explica o seguinte observação:
consenso dos estereótipos face aos diversos
grupos sociais, a sua independência do “The most dramatic and consistent
conhecimento ‘real’ dos membros desses trend over then 25- years period has
grupos e a sua dependência do contexto been the more favorable
histórico e cultural. characterization of the Negro. [...]
Uma réplica do estudo de Katz e Braly, The ‘new view’ of the Negro focuses
realizada no início dos anos cinquenta, na on the term ‘musical’ (47%) and
mesma universidade (Gilbert, 1951), indica- includes ‘pleasure loving’ (26%),
va um declínio na consistência dos estere- ‘ostentatious’ (25%), and ‘happy-go-
ótipos face a certas minorias, nomeadamen- lucky’ (27%). This image would
te os ‘negros’ e os ‘judeus’. Este “fading appear to be more innocuous modern
effect” foi atribuído à difusão de imagens counterpart of the minstrel figure,
mais tolerantes desses grupos nos mass media, probably reflecting the success of
a uma maior popularidade das ciências Negroes in the popular entertainment
sociais entre os estudantes e ainda ao facto world supported by teen-age and
da composição sociológica dos estudantes de collegiate audiences. Certainly, the
Princeton ser menos elitista do que a da Civil Rights movement of the past
década de 30. decade has strongly influenced the
Segundo Gilbert (1951), os estudantes present generation of college
tornaram-se mais ‘sofisticados’ e ‘objectivos’ students” (Karlins et al, 1969: 8).
tendo relutância em efectuar generalizações
infundadas acerca de outros grupos, o que Mas, se analisarmos o conteúdo do es-
conduziu o autor a um certo optimismo. tereótipo dos ‘negros’ à luz dos valores da
Replicações realizadas por outros autores sociedade ocidental, constatamos que esta
noutros locais na década de 50 pareciam ‘nova visão’ dos negros corresponde mais a
confirmar o declínio dos estereótipos, mos- uma mudança facial do que profunda, já que
trando que estes não eram ‘rigídos’, mas a este grupo são negadas as características
‘flexíveis’, isto é, sensíveis às mudanças sociais instrumentais necessárias para participarem
ocorridas depois da II Guerra Mundial. no desenvolvimento e progresso da socieda-
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de, sendo-lhes atribuídas características ex- significa que o preconceito tenha desapa-
pressivas e exóticas, o que, embora apresen- recido, pois, como os próprios autores sa-
tando uma conotação positiva nas camadas lientam, alguns dos resultados obtidos “are
juvenis, continua a retirar-lhes o estatuto de too good to be true” (Karlins et al., 1969:
pessoa adulta, responsável e com capacidade 11).
de realização. De salientar que este padrão Nesse sentido, os autores salientaram a
de resultados continua a ser encontrado hoje necessidade de distinguir entre estereótipo
em dia em estudos realizados em diversos pessoal, fenómeno psicológico, e estereótipo
países ocidentais relativamente às minorias social, fenómeno cultural:
de origem africana (e.g., Cabecinhas, 2002).
No estudo realizado por Karlins e cola- “we may refer to a single individual’s
boradores (1969) constatou-se, mais uma vez, assignments as his personal stereotype
que o grau de consenso dos estereótipos sobre and the consensual assignment of a
determinado grupo não está directamente given population of judges as a social
ligado ao grau de preconceito exibido em stereotype. (...) The absence of a
relação a esse grupo. Comparando os seus traditional pattern of stereotyping may
resultados com os de Gilbert (1951), os not indicate a decline of stereotyping
autores salientam: itself, but perhaps the formation of a
revised social consensus” (Karlins et
“the apparent ‘fading’ of social al., 1969: 3; itálico no original).
stereotypes in 1951 is not upheld as
a genuine overall trend. Where Os resultados de um estudo realizado por
traditional assignments have declined Sigall e Page (1971) são bem elucidativos
in frequency they have, in the long das pressões normativas que deram origem
run, been replaced by others, resulting
aos ‘novos racismos’. Os autores
in restored stereotypes uniformity. (...)
complementaram o uso da tradicional lista
A feature of this data which is still
de adjectivos com uma manipulação expe-
impressive is the extent to which ‘new’
rimental. Numa das condições os participan-
stereotypes resemble previous ones.
tes respondiam simplesmente (condição
Paradoxically enough, the changes
controlo) e na outra (bogus pipeline) eram
which have occured stand out
informados que o experimentador detinha
because so much has remained the
uma medida fisiológica infalível capaz de
same. Uniformity and favorableness
medir a atitude, uma espécie de ‘detector de
scores correlate significantly across
the three generations of students. The mentiras’. Os autores compararam os este-
collections of traits selected to reótipos dos participantes (americanos bran-
characterize specific groups are very cos) face aos americanos e aos negros, nas
much alike from one generation to the duas condições de resposta. Verificou-se que
next, though the relative popularities na condição bogus pipeline o estereótipo
of those traits have been thoroughly relativo aos ‘americanos’ era mais favorável
rearranged. A great deal of change e o relativo aos ‘negros’ mais desfavorável
consists of a shift of emphasis in the do que na condição controlo, isto é, o
already existing picture” (Karlins et favoritismo pelo grupo de pertença aumen-
al., 1969: 14; itálico nosso). tou quando os participantes julgavam que a
sua ‘verdadeira atitude’ estava a ser medida
Como os autores referem, o conteúdo dos através de um instrumento infalível. Sigall
‘novos estereótipos’ é mais consistente com e Page consideram este resultado “as
as “atitudes mais liberais” da sociedade relatively distortion-free, as more honest and
americana, como demonstrado em diversos ‘truer’ than rating-condition responses”
estudos nos anos 60. A esse propósito, os (p.254; citados por Oakes et al., 1994), o
autores citam Triandis e Vassiliou (1967: que sugere que os estudos com base na lista
238): “it is no longer appropriate to be de adjectivos, sobretudo os realizados a partir
prejudice toward other groups”. Isso não do momento em que se tornou contra-
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normativo discriminar, subestimam os este- exist a consistent and negative


reótipos negativos e o preconceito. contemporary stereotype of Blacks
Numa revisão sobre as mudanças ocor- (p.1139). (…) The stereotype has
ridas na expressão dos estereótipos relativa- remained stable through the years (in
mente aos ‘negros’, Dovidio e Gaertner consistency and valence, not
(1991) afirmam: “adjective checklist studies, necessarily in specific content),
in which respondents are asked to select traits whereas personal beliefs have
that are the most typical of particular racial undergone a revision” (Devine e
or ethnic categories, indicate that negative Elliot, 1995: 1141).
stereotypes are consistently fading” (p.202).
No entanto, os autores salientam que a Na perspectiva dos autores, enquanto o
evolução observada no conteúdo e na con- estereótipo cultural dos ‘negros’ é consisten-
sistência dos estereótipos pode decorrer mais te e muito negativo, as crenças pessoais são
de uma maior sensibilidade às normas so- muito mais positivas, especialmente as cren-
ciais anti-discriminação do que de uma ver- ças pessoais dos participantes que demons-
dadeira mudança nos estereótipos. tram uma atitude favorável aos negros na
No entanto, esta interpretação de carácter Escala de Racismo Moderno (MRS). Segun-
normativo é recusada por autores da pers- do os autores, a comparação dos resultados
pectiva da cognição social, que interpretam obtidos pelos participantes muito e pouco
estes resultados estabelecendo uma clara preconceituosos na MRS apoia o modelo
distinção entre crenças pessoais e estereó- dissociativo de Devine (1989), segundo o qual
tipos culturais (e.g., Devine, 1989; Devine “high- and low-prejudiced individuals both
e Elliot, 1995). possess the same stereotype of Blacks but
Numa ‘revisitação da triologia de that the stereotype is only endorsed by the
Princeton’, Devine e Elliot (1995: 1142) former group of individuals” (Devine e Elliot,
introduziram algumas alterações no procedi- 1995: 1145). No entanto, em determinadas
mento com vista a colmatar algumas “falhas circunstâncias (por exemplo, nas situações de
metodológicas” dos estudos precedentes. sobrecarga de informação) pode haver uma
Partido da lista de adjectivos de Katz e Braly ‘contaminação mental’ pelos estereótipos,
(1933) efectuaram as seguintes alterações: levando os indivíduos não preconceituosos
introduziram novos adjectivos com o objec- a ser influenciados por estes, uma vez que,
tivo de actualizar a referida lista (esses tendo sido aprendidos ao longo do processo
adjectivos foram os seguintes: “athletic, de socialização, estão armazenados na me-
criminal, hostile, low intelligence, poor, mória, interferindo nos processos cognitivos
rhythmic, sexually perverse, uneducated, and dos indivíduos, a não ser que estes estejam
violent”); os participantes responderam duas permanentemente vigilantes a uma possível
vezes à referida lista, uma vez tendo em conta ‘contaminação mental’ e procurem evitá-la
as suas ‘crenças pessoais’ e outra partindo activamente, o que exige grande esforço
dos ‘estereótipos culturais’ (efectuadas em cognitivo e motivação.
ordem contrabalançada); e, finalmente, os No nosso entendimento, esta interpreta-
participantes responderam a uma “nonreactive ção, baseada na clara separação entre ‘cren-
measure of anti-Black attitudes” que consis- ças pessoais’ e ‘estereótipos culturais’ e
tia na Escala de Racismo Moderno (Modern pressupondo que quando os indivíduos ‘não
Racism Scale) de McConahay (1986). Com- preconceituosos’, em situações de grande
parando as respostas dos participantes nas carga cognitiva (Devine, 1989), associam
condições de “stereotype assessment” e mentalmente características negativas aos
“personal belief assessment”, os autores negros porque sofrem uma ‘contaminação
salientam: mental’ pelos ‘esteótipos culturais’ é inacei-
tável, pois não se coaduna com a
“In contrast to the commonly conceptualização dos estereótipos sociais
espoused fading stereotype enquanto ‘representações sociais’ (Moscovici,
proposition, data suggest that there 1988).4
OPINIÃO PÚBLICA E AUDIÊNCIAS 547

Se os estereótipos culturais existem, mas geralmente se consideram menos racistas do


não estão na cabeça de ninguém, ou de quase que a média das pessoas do seu grupo de
ninguém, onde se encontram então? E se não pertença (e.g., Miranda, 2001), podem ser
estão na cabeça das pessoas ‘não interpretados como uma manifestação do
preconceituosas’ porque é que estas têm que efeito Primus Inter Pares (Codol, 1975).
ter energia mental disponível e motivação Conhecendo as normas sociais de não
para não se deixar influenciar por eles? discriminação, os indivíduos tendem a apre-
Na nossa perspectiva, os resultados de sentar-se de forma mais consonante com
diversos estudos indicando crenças pessoais essas normas do que os restantes membros
mais positivas do que os estereótipos sociais da sociedade em que se encontram, o que
(e.g., Devine e Elliot, 1995; Garcia-Marques, consiste numa forma de obter distintividade
1999; Vala, Brito e Lopes, 1999) assim como pessoal através da adesão a normas social-
os estudos que indicam que as pessoas mente valorizadas.
548 ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO – Volume IV

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OPINIÃO PÚBLICA E AUDIÊNCIAS 549

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Na altura, esta expressão não captou a atenção
The perception of variability within ingroups
dos investigadores, que a consideraram demasi-
and outgroups: Implications for the law of ado vaga e imprecisa (Leyens, Yzertyt e Schadron,
small numbers. Journal of Personality and 1994: 15). Esta designação só viria a tornar-se
Social Psychology, 38,141-152. corrente nos anos oitenta, quando a perspectiva
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3
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estrutura das relações entre os grupos (e.g., Lorenzi-
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Livros Horizonte. estratificados segundo critérios socialmente valo-
Tajfel, H., e Wilkes, A. L. (1963). rizados e traduzindo uma determinada ordem nas
Classification and quantitative judgement. relações intergrupais. Neste sentido, existe uma
coincidência conceptual entre estereótipos sociais
British Journal of Psychology, 54, 101-114.
e representações sociais. No entanto, o conceito
Vala, J., Brito, R., e Lopes, D. (1999a). de representação social é mais amplo do que o
Expressões dos racismos em Portugal. Lis- de estereótipo social, uma vez que o primeiro
boa: Instituto de Ciências Sociais. abrange todo o tipo de representações indepen-
dentemente do seu objecto, desde que estas sejam
partilhadas no seio de determinado grupo social,
_______________________________ enquanto que o segundo se restringe às represen-
1
Universidade do Minho. tações sobre grupos humanos.