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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE RORAIMA

PRÓ-REITORIA DE ENSINO E GRADUAÇÃO


CURSO DE LETRAS - LITERATURA

SÂMIA TAYANNE DE SOUSA ARAÚJO

A REPRESENTAÇÃO DA SOLIDÃO E DO SONHO EM NOITES BRANCAS, DE


FIODÓR DOSTOIÉVSKI

Boa Vista, RR
2018
SÂMIA TAYANNE DE SOUSA ARAÚJO

A Representação da Solidão e do Sonho em Noites Brancas, de Fiodór Dostoiévski

Monografia apresentada como pré-requisito para


conclusão do Curso de Licenciatura em Letras
com habilitação em Literatura do Centro de
Letras da Universidade Estadual de Roraima.
Orientadora: Prof. Dr. Rosidelma Fraga

Boa Vista, RR
2018

Monografia apresentada como pré-requisito para


conclusão do Curso de Licenciatura em Letras
com habilitação em Literatura do Centro de
Letras da Universidade Estadual de Roraima.
Defendida em XXdeNovembrode 2018 e
avaliada pela seguinte banca examinadora:

____________________________________________
Profa. Dra. Prof. Dr. Rosidelma Fraga
Orientadora/Curso Letras - UERR

____________________________________________
Prof XXX
Curso XXX

____________________________________________
Prof. Dr. XXXXX
Dedicatoria
AGRADECIMENTOS
EPIGRAFE
RESUMO
abstract
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 10
1 A REPRESENTAÇÃO DA SOLIDÃO ................................................................... 13
1.2 Solidão em Noites Brancas ....................................................................................... 19
2 A REPRESENTAÇÃO DO SONHO ....................................................................... 25
2.1 O tipo sonhador em Dostoievski .............................................................................. 26
2.3 Nastienka: a representação do sonho e a quebra da solidão ..................................... 30
3. Observações sobre o existencialismo na obra ........................................................ 33
CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................................... 36
REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO ......................................................................... 37
Commented [df1]: Ver numeração
10

INTRODUÇÃO

Discutir a solidão na atualidade é tarefa árdua, visto que hoje é cada vez mais
comum uma exposição do ser das mais diversas formas, especialmente com o avanço da
tecnologia e o intenso uso das redes sociais, onde nunca se está “só”. Assim, estar só em
meio ao dia a dia é um sentimento na contramão do meio tecnológico em que vivemos,
que é o compartilhamento da vida em todos os instantes.
Mesmo diante de tal configuração social, é imprescindível lembrar que enquanto
existência o ser humano nasce e morre sozinho, assim, como vive a maior parte de suas
experiências internas de maneira solitária, e quando utilizamos esses termos fazemos
referência ao ser individual, onde os sentimentos e emoções são percebidos apenas por
quem os sente.
A solidão é tema recorrente no meio literário, sendo desenvolvido em múltiplas
facetas por autores das mais diversas escolas literárias, perpassado obras dos oitocentos
ou contemporâneas, clássicas ou obscuras, de maior ou menor complexidade narrativa,
onde acaba por ser associada a diversas situações como doenças, que são comumente
carregadas de fobia social. Noutros casos, a solidão se mostra apenas como um recurso
de autoconhecimento ou, em algumas vezes, como exposição da ideologia do próprio
escritor.
Um autor que conseguiu com maestria traçar o sentimento da solidão em seus
escritos foi o russo Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski (1821-1881), que em obras
atualmente consideradas clássicas, tais como O Idiota, Crime e Castigo e Memórias de
Subsolo, desenvolveu narrativas nas quais o leitor é convidado, junto a personagens, a
vivenciar a solidão. O jogo de apresentar o sentimento através das experiências de outra
existência dobra-se sobre si mesmo, uma vez que o leitor da obra só é capaz de
experimentar a solidão justamente no momento em que não está só, posto que
acompanhado do personagem.
Em seu romance Noites Brancas, Dostoievski nos apresenta a solidão de um
homem que não possui nome, família, amigos e nem nada, excetuando o trabalho e
algumas necessidades básicas, que o atasse a compromissos sociais, apenas se
autoidentificando como "sonhador". Um homem que vive isolado e busca pelas ruas da
cidade de São Petersburgo suas emoções e histórias, uma vez que se identifica mais com
o imaterial do que com as próprias pessoas à sua volta. A tragédia existencial é vista a
partir de um narrador, que sendo também o personagem principal do enredo, expõe sua
11

vida, medos e desejos ao leitor que pode se indagar sobre sua própria solidão. Já a
expressão que dá nome à obra, mais que simples fenômeno geográfico, pode ser
entendida como uma acurada descrição visual e artística da existência levada pelo
personagem sem nome. Noite branca (белаяночь, biélaianotch) é o nome em russo de
um fenômeno que acontece nas altas latitudes durante o verão, quando devido à
curvatura da superfície terrestre e à inclinação do eixo planetário, o céu é iluminado
pela luz solar mesmo à noite.
Para descrever como o sentimento de solidão é apresentado na obra, esta
pesquisa é organizada em três partes, a primeira concentra-se nos conceitos de solidão
elaborados a partir da filosofia e da sociologia. Para a construção do primeiro ponto de
objetivo específico tratado no capítulo inicial mostram-se preciosas as contribuições de Commented [df2]: Vc não disse quais são os objetivos
específicos
Abbagnano (2005), Klein (1995), Demo (1995), sempre partindo do princípio da
representatividade desse sentimento. Dentro deste aspecto é possível citar Heidegger
(2007) que apresenta o conceito de solidão com uma base filosófica e Comte-Sponville
(2003) retratando a temática a partir da ótica social.
A segunda parte aborda o segundo objetivo específico e trará considerações
sobre a figura do sonhador e a representação do sonho em Noites Brancas, a partir do
conceito expresso pelo personagem principal, assim como sua autodenominação como
“sonhador”. O sonho, facilmente observado em diversos textos do autor, ganha destaque
nessa novela, assim, o segundo capítulo dialoga sobre como o sonho pode ser
facilmente observado em diversos textos de Dostoiévski ganhando destaque em Noites
Brancas, subintitulado como “Recordações das Memórias de um Sonhador”, sendo esse
um dos motes da trama desenvolvida em São Petersburgo.
A terceira e última parte visa pontuar breves observações acerca de traços
existencialistas na obra, partindo da análise de características do personagem principal,
fundamentado em sua não nomeação na obra, o que abre espaço para reflexões sobre a
solidão e o sonho, expressos de tal forma que o leva a ignorar a própria identidade ou
não se identificar com ela. Dessa forma, o último capítulo vem analisar o terceiro
objetivo específico desse trabalho, ou seja, a busca existencialista que dá um ar de
mistério à trama. Traçada a partir da não nomeação do personagem principal, esse ponto
da pesquisa gera indagações como "porque apenas se identificar como sonhador?", ou
"ele não dizer um nome, quer dizer que ele mesmo não se aceita ou não se identifica
com o que é?".
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Diante do exposto, e na tentativa de esclarecer como se dá à representatividade


da solidão e do sonho no trabalho do autor, assim como à contemporaneidade da obra,
essa pesquisa vem analisar essa relevância social e ideológica que o sentimento e a
sensação tomam na obra, como se desenvolve e de que maneira pode ser identificado
literariamente. Quanto à relevância social, o trabalho visa contribuir para a reflexão
sobre a obra de Fiodor Dostoiévski, a fim de gerar questionamentos sobre as ideias
expressas na obra e buscar elementos para reflitam sobre a solidão e o sonho, com o
intuito de instrumentalizar o leitor para pensar a solidão contemporânea ao traçar as
características de uma solidão oitocentista.
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1. A REPRESENTAÇÃO DA SOLIDÃO

Para pensar sobre a solidão é necessário inicialmente estabelecer um conceito


sobre este sentimento. A origem etimológica da palavra surge do Latim solus, que faz
menção a estar só consigo mesmo, a se sentir solitário. O Dicionário Aurélio (2005)
define solidão como o estado do que está só; lugar solitário; isolamento; lugar
despovoado. Já o Dicionário de Filosofia, de Nicola Abbagnano (2000), apresenta um
conceito mais abrangente:

Solidão: isolamento ou busca de melhor comunicação. No primeiro sentido, a


solidão é a situação do sábio, que, tradicionalmente, é autárquico e por isso se
isola em sua perfeição. Afora esse ideal, o isolamento é um fato patológico: é
a impossibilidade de comunicação associada a todas as formas de loucura.
Em sentido próprio, contudo, a solidão não é isolamento, mas busca de
formas diferentes e superiores de comunicação: ”Não dispensa os laços com
o ambiente e a via cotidiana, a não ser em vista de outros laços com homens
do passado e do futuro, com os quais seja possível uma forma nova ou mais
fecunda de comunicação. O fato de a solidão dispensar esses laços é, pois,
uma tentativa de libertar-se deles e ficar disponível para outras relações
sociais (ABBAGNANO 2000, p. 14)

Dos textos classificados hoje como clássicos aos contemporâneos a solidão é um


tema recorrente na literatura. Retratamos neste capítulo a subjetividade desse
sentimento que pode habitar qualquer ser humano e que está presente no dia a dia de
muitos, fazendo com que o abstrato seja delineado de maneira palpável e real. Existem
muitos debates em relação ao conceito de solidão permanecer ligado ao estar sozinho de
maneira física, pois é cada vez mais comum o sentimento se manifestar em meio ao
convívio social, ou seja, o fato de estar só não está desassociado do sentimento de
solidão interna do individuo, como afirma Klein:

Por sentimento de solidão não desejo me referir à situação objetiva de estar


privado de companhia externa. Refiro-me ao sentimento intimo de solidão –
o sentimento de estar só independentemente de circunstâncias externas, de
sentir- se solitário mesmo quando entre amigos ou recebendo amor. Esse
estado de solidão interna, eu acredito resultar do anseio do onipresente de um
estado interno perfeito inatingível. (KLEIN 1975, p. 133).

Sentir a solidão não depende de outro indivíduo a não ser do próprio que a tem,
ou seja, para se sentir solitário não é necessária a falta de comunicação com os demais
ou a exclusão do convívio social. Segundo Comte-Sponville, a solidão não deve ser
vista pelo prisma de um isolamento social como a falta de relações de comunicação com
outros indivíduos, amigos, ou parceiros afetivos, portanto, a solidão é o estado natural
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do ser humano, sendo, desta maneira, a condição, “o preço por ser si mesmo” (COMTE
-SPONVILLE, 2003, p. 564). A afirmação é feita com base no princípio de que o
homem nasce e morre só e no decorrer da vida vive suas experiências sensoriais de
forma única e extremamente individual.
Segundo o filósofo alemão Heidegger (2007), estar só é uma condição inata a
todo o ser humano, cabendo a cada ser viver experiências idiossincráticas ao longo da
vida, de maneira única e individual no mundo. Dentro de uma visão existencialista
apresenta a teoria do “ser-si”, que influencia as ações do ser:

Se a presença só é ela mesma existindo, a consciência desse ser-si mesmo


assim como a sua possível ‘inconsistência’ exigem uma colocação
ontológico-existencial da questão....” e “.... É na análise do modo de ser em
que a presença se mantém, numa primeira aproximação e na maior parte das Commented [df3]: Não entendi essas aspas
vezes, que se deve buscar a resposta da questão do quem da presença
cotidiana. A investigação orienta-se pelo ser-no-mundo cuja constituição
fundamental também determina todo e qualquer modo de ser da presença
(HEIDEGGER, 2007, p. 173).

Dentro de uma óptica ontológica a solidão não pode ser desassociada do ser,
visto que é imposto por sua natureza. Assim, não cabe ao homem escolher ter ou não ter
o sentimento de solidão, apenas cabendo exprimi-lo ou não.
O campo sociológico defende que há dois tipos de indivíduos sociais. O isolado,
solitário e outro que convive socialmente entre outros. O homem que vive em grupo
apresenta características comportamentais e culturais diferentes. Essa ciência afirma
ainda que a personalidade tem sua formação com base em influências do contexto social
em que o sujeito esta inserido. Demo (1995) consegue conceituar essa teoria quando
afirma que “viver é quase somente conviver”. O isolamento humano, isto é, a
inexistência de comunicação entre grupos gera o Homo Ferus, definido
sociologicamente como um “animal” que não passou por todos os processos “comuns”
de socialização, o que o leva a ter ações e ideias diferentes em relação à personalidade
social.
Sob o prisma sociológico a solidão passa a ser uma escolha, um ato consciente e
não um sentimento inato. Cabe ao homem decidir se será solitário ou não e isso implica
em uma relação social estabelecida com os demais a sua volta. O filósofo francês Jean
Paul Sartre (1943) fala que “O homem por si só não pode se conhecer em sua totalidade. Commented [df4]: Numero da página

Só através dos olhos de outras pessoas, pode reconhecer neles o que têm de igual. E
15

cada um precisa desse reconhecimento”. Dessa maneira, para um conhecimento


individual é necessário estar só, mas ao mesmo tempo dispor de outras presenças.
O sentimento de solidão, com base nos aspectos ontológicos e sociológicos,
retratando olhares quanto à significação instintiva ou voluntária pode ser representada
na literatura que, neste trabalho, buscar-se-á evidenciar na obra do escritor russo Fiódor
Dostoiévski, especificamente na novela Noites Brancas.

1.1 O SENTIMENTO EM DOSTOIÉVSKI

Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski nasceu em Moscou em 1821 e foi um dos


autores mais influentes da literatura russa, integrando o cânone da literatura universal.
Após a morte de sua esposa, o pai de Dostoieviski é acometido por uma profunda
melancolia, e é nessa fase que o jovem é enviado para a Escola de Engenharia de São
Petersburgo, onde ingressa na carreira militar. Esse período é marcado pela sua
aproximação do universo literário, por meio das obras de William Shakespeare, Victor
Hugo e Honoré de Balzac (do qual foi tradutor), dentre tantos outros.
No ano de 1844, o jovem se desliga da carreira militar e passa a se dedicar à
escrita, é nessa altura que vemos o nascimento de sua primeira obra, a novela Gente
Pobre, publicada em 1946 no Almanaque de Petersburgo e aclamada pela crítica
literária, especialmente por Vissarion Belinski (1948):

Veja bem, é a primeira tentativa de romance social entre nós e, melhor ainda,
está escrito da maneira como os artistas geralmente fazem, isto é, sem sequer
suspeitar do que resultará do trabalho. O material é simples: trata de pessoas
simplórias e de bom coração que acreditam que amar o mundo inteiro é um
prazer extraordinário e uma obrigação de todos. Elas não conseguem
entender coisa alguma quando a roda do destino, com suas leis e seus
regulamentos, atropela-as, sem a menor explicação, deixando-as de pernas e
ossos quebrados (BELINSKI 1948, p. 34).

A partir dessa publicação, Belinski destaca Dostoievski como uma revelação da


literatura russa e introdutor do movimento Realista na Rússia (mesmo após a publicação
de O Capote, de Gogól, em 1842, onde já se podia notar a tentativa de um romance
social). Em Gente pobre é possível notar o primeiro traço do sentimento de solidão nas
obras do escritor. Makar Alieksiêivitch Diévuchkin é um homem de meia idade que se
corresponde com sua vizinha, Varvara Alieksiêievna Drobrosiólova, os dois conversam
16

por meio de cartas que acabam exprimindo a solidão de ambos, como é possível notar
em uma correspondência de Varvara para Makar:

A solidão, às vezes, entristece-me, sobretudo à hora do crepúsculo, quando


me encontro sozinha em casa. Se Fédora sai, às compras ou a qualquer coisa,
fico para aqui a pensar e a recordar o passado — as alegrias e as tristezas —,
pois tudo perpassa diante de mim como uma nuvem. Surgem outra vez na
minha frente os rostos conhecidos — parece-me vê-los, acordada, como se
fosse em sonhos-, sendo frequente ver a mamã... E o que eu sonho! Penso
que a minha saúde está abalada. Sinto-me tão fraca! De manhã, ao levantar-
me da cama, achei-me muito mal, e esta aborrecida tosse não há forma de me
passar! Pressinto — sei-o bem — que pouco durarei. Quem me acompanhará
à última morada? Quem chorará por mim? E se morrer numa casa estranha,
no meio de desconhecidos? Meu Deus, como esta vida é triste, Makar
Alexeievitch!" (DOSTOIEVSKI, 2009, p. 73).

Seu segundo romance, O Duplo, 1846, apresenta outro personagem com


características de isolamento que são facilmente interligadas a solidão. A história conta
episódios da vida de Yákov Pietróvitch Golyádkin, conselheiro titular, solitário e que
vive entre os paradoxos filosóficos como o bem e do mal e o amor e o ódio; expressões
que ficam claras através da duplicidade de sua personalidade diante sua solidão:

Pois bem, de uma feita, numa quinta-feira, não suportando mais a minha
solidão e sabendo que, nesse dia, estava fechada a porta de Antón Antônitch,
lembrei-me de Símonov. Enquanto subia a escada para o quarto andar, onde
ele morava, ia justamente pensando que esse cavalheiro já se cansava da
minha companhia e que eu ia em vão a sua casa. Mas, como sempre ocorria,
tais considerações pareciam impelir-me, ainda mais, para uma situação dúbia
e, por isto, entrei. Havia quase um ano que eu vira Símonov pela última vez."
(DOSTOIEVISKI 2011, p. 46).

A obra acaba por não ser bem aceita e recebe diversas criticas negativas,
especialmente feitas por Belinski.Toda a expectativa que o critico russo projeta em
Dostoievski é frustrada com a publicação de O Duplo,que tem uma aceitação inversa à
obra anterior. O enredo contém características fantásticas, que fogem do realismo e
recorre a elementos psicológicos, colocando em questão temas como a loucura e
sentimento de solidão, o que leva a consciência humana a despertar os mais diversos
conflitos.
No ano seguinte, 1847, publica A Senhoria, onde conta a história de um
protagonista, Vassíli Ordínov, que passa dois anos solitários em um quarto, como o
próprio autor afirma: "Meteu-se lá [no quarto] como num mosteiro, como se renegasse o
mundo. Bastaram-lhe dois anos para se asselvajar por completo" (DOSTOIÉVSKI,
2006, p. 64). Com o desaparecimento de sua senhoria, ele precisa sair e buscar novos
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senhores. Essa experiência o leva a embates quanto a sua alienação em relação ao


mundo. É nesse momento que Dostoievski nos exibe pela primeira vez a figura concreta
do “sonhador”, que ganha definição em sua obra seguinte.
A Senhoria vem na contramão do movimento realista e volta com elementos do
romantismo, "justamente num momento em que Belínski, empenhado no
desenvolvimento da ‘escola natural’, travava uma luta tenaz contra o romantismo ou
qualquer tentativa de ressuscitá-lo" (BIANCHI, 2006, p. 106). O comentário mais
acentuado era exatamente quanto a distância em que A Senhoria, repleto de idealismo
romântico, se colocava de Pobre gente, tão humanístico e realista. Quando a sua
desaprovação sobre essa obra o crítico russo afirma um trabalho em contraposição ao
romance social, marcado pela "fidelidade à consciência romântica, quando a literatura
russa entrava numa nova fase tão rica de seu desenvolvimento" (BELÍNSKI apud
BIANCHI, 2006, p. 107).
O evento climático que dá nome à obra, que cobre a cidade de São Petersburgo,
durante alguns meses, serve de inspiração para o título da narrativa Noites Brancas,
publicada em 1948. A neblina envolve o enredo em um clima de mistério e exprime a
solidão em sua essência, se manifestando com características ontológicas e sociais nos
personagens, especificamente no protagonista. O narrador, que também é o personagem
principal, vive sozinho em um quarto alugado na cidade de São Petersburgo, não possui
família ou amigos com quem converse, até que em uma noite conhece Nastienka, uma
jovem pela qual se apaixona. Com ela, ele divide um pouco de seus pensamentos e a
própria solidão, que permeia o enredo da obra.
Em Noites Brancas o autor aprimora a figura do sonhador, exposta em A
Senhoria, e brinca com a não nomeação desse protagonista, sendo identificado durante
toda narrativa, apenas como “sonhador”, caracterizando essa imagem em seu texto. A
figura do sonhador será analisada nos próximos capítulos. As obras citadas até esse
momento, assim como todo o trabalho de Dostoievski publicado até o ano de 1849,
refletem o princípio de sua trajetória, marcada pelo período antes de sua prisão na
Sibéria. Engajado no movimento democrático que combatia o regime de Tsar Nicolau I,
em 1847, o escritor passou a integrar um grupo socialista revolucionário, denominado
Círculo de Pietrachévski, participação essa que o levou, em 1849, a ser julgado e
condenado com a pena de morte, que acabou sendo revogada a nove anos de prisão na
Sibéria, cumprindo cinco da sentença no presídio de Omsk, de onde saiu em 1854.
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As experiências vivenciadas na prisão são relatadas em suas primeiras obras


após o cumprimento da pena. Os livros Recordações da Casa dos Mortos, de 1861, e
Memórias do Subsolo, 1864, são narrativas que apresentam trechos extremamente
solitários, embasados no período de isolamento compulsório no cárcere. É durante a
década de 1860, com a publicação das obras Crime e Castigo e O Idiota que
Dostoievski adquire ainda mais destaque como escritor. A primeira, lançada em 1867,
conta a história de Raskólnikov que comete um assassinato e acaba tendo que lidar com
as consequências, especialmente o perturbador sentimento de culpa. Já em O Idiota, a
personagem principal é a jovem Nastássia Filipóvna. Baseado em uma história real, o
livro leva o leitor a conhecer como a moça incendeia a casa da família.
A literatura dostoieviskiana produzida após seu período de isolamento
obrigatório nos mostra o amadurecimento do caráter psicológico na sua escrita. Seu
último livro, Os Irmãos Karamazov, é considerada a obra prima da literatura de
Dostoievski, citada por Sigmund Freud (2006) como "o maior romance já escrito". O
enredo envolve os irmãos Dmitri, Ivan e Aliócha, três personalidades completamente
distintas, e retrata questões psicológicas, sociais e existencialistas. Foi o ultimo livro
escrito pelo autor que morreu em 1881.
Em toda sua obra, Dostoievski expressa literariamente questões universais da
existência humana, temas esses tão contemporâneos a exemplo da solidão. As reflexões
trazidas em seus romances influenciam várias áreas da Literatura, Psicologia, e
Filosofia, tendo expressão em movimentos como a psicanálise, o existencialismo, dentre
outros:

Podemos entender que a obra do escritor russo tem ampla ligação com a
contemporaneidade, pois os problemas que ele suscita em sua produção
literária estão diretamente ligados à nossa condição nos tempos modernos: as
suas obras, verdadeiras criações artísticas, abrangem um vasto campo do
conhecimento humano. Sua obra, interessando-nos, enormemente, como
fonte de reflexão nas ciências humanas e emtudo aquilo que a razão
dominante foi capaz de criar. (HONORIO, 2015, p. 23).

Dentro dessa perspectiva dialogamos sobre como Dostoievski consegue transpor


elementos tão contemporâneos e ao mesmo tempo, tão universais do ser humano como
o sentimento de solidão, analisado aqui através do texto de Noites Brancas.
19

1.2 SOLIDÃO EM NOITES BRANCAS

A solidão é um sentimento que corre além do concreto, assim, pode ser retratado
de diversas maneiras e com características diferentes atribuídas no contexto literário a
um personagem, um cenário ou um tempo. Essa representação do sentimento fica nítida
em Noites Brancas. Em seu primeiro contato com o leitor, o narrador fala:

Desde bem cedo começou a me afligir uma tristeza singular. Pareceu-me de


repente que eu, um solitário, estava sendo abandonado por todos e que todos
se afastavam de mim. Claro, qualquer um teria o direito de perguntar: mas
quem são esses todos? Porque já faz oito anos que moro em Petersburgo, e
não consegui estabelecer quase nenhuma relação. Mas pra quê preciso de
relações? Eu já conheço toda Petersburgo sem isso; aí está por que me
parecia que todos me abandonavam quanto toda Petersburgo se levantou e
partiu de repente para o campo. Comecei a ter medo de ficar sozinho e vaguei
durante três dias inteiros pela cidade numa tristeza profunda, sem entender
absolutamente o que se passava comigo. (DOSTOIEVSKI 2008, p. 08).

A história se passa durante o mês de junho ou julho (não é possível definir a


cronologia temporal exata na obra) quando a cidade de São Petersburgo passa pelo
solstício de verão. Com o posicionamento do sol no horizonte, os dias se estendem,
sendo mais longos e a cidade ganha luminosidade durante a noite, o que faz o surgir
uma espécie de neblina. Esse fenômeno climático é chamado de Noites Brancas e
nomeia a novela de Dostoievski, lançada no ano de 1848:

O título foi inspirado naquelas noites de verão – que, em São Petersburgo,


eram chamadas exatamente de “noites brancas” – quando o sol se põe muito
tarde, por volta das nove da noite, e surge muito cedo, o que provoca uma
atmosfera encantada, um sugestivo clarão de aurora boreal. Um ambiente
adaptado, como se vê, para preparar a aparição e o drama do protagonista, um
sonhador. A situação de tal protagonista tem também um caráter
autobiográfico. Reflete o período no qual o autor, juntamente com seu irmão,
lia muito dia e noite, dedicando-se insaciavelmente a todos os tipos de livros
e, perdendo, juntos, qualquer contato com a realidade. Uma vida que virava
sonho, vício, doença mental, e que anulava qualquer contato com os outros.
Um intelectual pobre, nas margens da sociedade, atarefado com uma tarefa
sem sentido, imerso no círculo vazio dos seus paraísos artificiais. (RENZI
2007, p. 43).

Vale ressaltar que Noites Brancas se aproxima muito dos textos da escola
Romântica. Recheado de elementos como a idealização do ser amado, exaltação a
natureza e a fuga da realidade, vista aqui na figura do “sonhador”. Em relação ao
romantismo é interessante esclarecer:
20

Fundamental característica do Romantismo é a busca pela liberdade


autêntica, que, numa ruptura com a tradição neoclássica, apresenta caráter
revolucionário. Por meio da renovação de temas e ambientes, por contraste
ao Século das Luzes, os românticos preferem os ambientes noturnos e
sinistros, venerando as histórias fantásticas e extraordinárias. O desejo de
liberdade do indivíduo, das paixões e dos instintos que representa este sujeito
está marcado no subjetivismo e na imposição do sentimento sobre a razão.
(CARNEIRO, 2009, p. 38).

O romance é narrado em primeira pessoa por um jovem solitário, de quem


desconhecemos o nome, e que vive na oitocentista São Petersburgo e estabelece uma
relação íntima com a cidade, conhece as expressões sentimentais de ruas e casas, mas
não possui a mesma relação com as pessoas, até que uma noite ao caminhar pela cidade,
conhece aquela que virá a ser sua amada.
O encontro inicial é marcado por um ato de heroísmo, que caracteriza o
romantismo na obra. Encostada no parapeito da ponte sobre o rio Nievá (um dos
principais pontos turísticos naturais da cidade), a jovem Nastienka chama a atenção do
narrador, que a vê sozinha e pensativa. Ele pensa em caminhar até ela, mas em seguida
desiste, no entanto, não hesita se aproximar ao ver um homem bêbado ir importuná-la.
Após o ato de defesa heroica, notamos o nascimento da relação afetiva e o início das
noites que iram envolver a paixão que o narrador sentirá pela mocinha.
Naquela noite, a Nastienka estava no cais à espera de seu amado, que
supostamente estava retornando após um ano de viagem. Os dois se conheceram na
pensão de sua avó e antes de partir o jovem deixou marcado seu reencontro com a
donzela. Triste pelo não aparecimento de seu amante e ao mesmo tempo agradecida pela
proteção do protagonista, ela dá início a um diálogo com o narrador, que logo no
princípio da conversa admite para a moça sua dificuldade em se aproximar das mulheres
e destaca o sentimento de solidão, enquanto homem, e seu sonho de ter uma amada,
além da idealização e esperança de com isso se sentir menos solitário:

Apenas sonho todo dia que cedo ou tarde encontrarei alguém enfim. Ah, se a
senhorita soubesse quantas vezes fiquei apaixonado dessa forma!... — Mas
como, por quem foi? — Ora, por ninguém, por um ideal, por aquela que me
aparecia em sonho. Crio romances inteiros em meus devaneios. Oh, a
senhorita não me conhece! Na verdade não posso negar que encontrei duas
ou três mulheres, mas que mulheres eram elas? Eram umas donas de casa
que... Mas vou fazê-la rir. Vou dizer-lhe que já vezes pensei em falar assim,
sem cerimônia, com alguma aristocrata na rua. Entenda-se: quando ela
estivesse sozinha. Claro, falar de um modo tímido, respeitoso e apaixonado;
dizer que estou morrendo sozinho.” (DOSTOIEVISKI 2009, p. 17).
21

É visível a vontade emergente de eliminar, pelo menos uma parte, do sentimento


de solidão. Após 26 anos de quase nenhum convívio social, o protagonista sente a
necessidade de compartilhar seus sentimentos, tanto que pede a Nastienka que o escute
nem que seja por compaixão e que depois de lhe ouvir diga algumas palavras:

Afinal aquilo que tenho a pedir-lhe se reduz a que me permita dizer-lhe duas
palavras fraternas, e a que me dedique um pouco de compaixão e não me
afaste do seu lado logo no primeiro momento, e que acredite na minha
palavra, e que tenha a paciência de ouvir o que tenho para lhe dizer... e se
levar tudo para a brincadeira, tanto faz! Mas que me conceda pelo menos
alguma esperança e me diga duas palavras, quando nada para trazer um
pouco de alegria ao meu espírito, ainda que nunca mais nos tornemos a ver
(DOSTOIEVSKI 2009, p. 25).

O pedido do protagonista é um suplica pelo compartilhamento de um momento


de atenção para que ele possa falar o que calou durante toda sua vida. Qualquer minuto
que seja já o fará feliz, pois ele desconhece desse estado de companhia, da relação de
amizade, dos diálogos.
Na segunda noite, os jovens se encontram no mesmo local e Nastienka propõe
que eles contem suas histórias para possam se conhecer melhor. Surpreso, o
protagonista diz à jovem que não possui uma biografia, e essa afirmativa se faz com
base em sua solidão. O fato de se manter isolado do convívio social, seja por sua
timidez ou outros fatores, o leva a pensar que não construiu uma história, portanto, não
há muito para contar. Nesse momento o personagem configura sua solidão com sentido
sociológico, e parte do princípio de que é necessária a interação entre os indivíduos para
a formação de sua própria identidade:

- Bem, vejamos: que espécie de homem é você? Vamos, comece, fale, conte-
me a sua história.
- História! — exclamei eu assustado — Minha história? Mas quem lhe disse
que eu tenho uma história? Eu não tenho história nenhuma...
- Não tem outro remédio senão tê-la... Como podia viver neste mundo sem ter
uma história? - respondeu ela a rir.
- Pois, creia-me, eu não tenho história nenhuma! Porque tenho vivido para
mim próprio, como costuma dizer-se, só, completamente só, sempre só,
completamente só. Sabe o que significa “só”? Pois é isso mesmo...
(DOSTOIEVSKI 2009, p. 35).

Nesse momento do enredo é que o protagonista começa a se descrever. Esse


ponto demonstra o instante em que seu sentimento de solidão se confunde com o sonho.
O personagem, até aqui, não é identificado nominalmente de nenhuma maneira, ou
seja, nem o leitor e nem Nastienka sabem seu nome, no entanto, para contar um pouco
22

sobre de sua vida para a moça ele se define como um “tipo”, um “sonhador”. A
definição de sonhador é dada pelo próprio narrador com a finalidade de fazer com que
se entenda minimamente o sentimento que o envolve. É de suma importância tal
definição para que se perceba o universo em que ele está inserido. Sua solidão se
mistura a uma dada alienação do mundo exterior e das pessoas a sua volta, visto que o
“tipo” sonhador tem sua própria realidade munida de fantasias:

Um sonhador — para explicar-me mais concretamente não é um homem,


fique sabendo, mas uma criatura de sexo neutro. Geralmente o sonhador
costuma viver fora do mundo, num canto retirado, como sé se escondesse da
luz do dia, e, uma vez instalado no seu esconderijo, vive e cresce nele tal
como o caracol na sua concha, ou pelo menos pode dizer-se que é parecido
com esse animalejo singular, que é ambas as coisas, o animal e sua própria
morada, e ao qual chamamos tartaruga. (DOSTOIEVISKI 2009, p. 40).

A segunda noite é fortemente marcada pela definição do sonhador. Para falar de


si, o protagonista explica toda a atmosfera que abraça essa figura e caracteriza esse
“tipo”. Ao longo do diálogo o herói se transforma em narrador de sua própria história,
passa a referir alguns pontos em terceira pessoa, como se estivesse sendo personagem
de si mesmo. Coloca entonações poéticas ao falar sobre o encontro inesperado com a
moça e resume toda trajetória de sua vida a um único momento de felicidade, a noite
que conhece Nastienka, o que pra ele mais parece sonho do que realidade. Sonho esse
que o faz questionar como serão os próximos momentos sem a presença de sua amada,
pois agora descoberto a sensação de companhia, a experiência de compartilhar
sentimentos, ele percebe que sua vida irá voltar à completa solidão no momento em que
Nastienka não estiver mais presente. É visível neste ponto o sentimento de felicidade
associado a um não isolamento:

Agora que estou sentado a seu lado e que falo com você, infunde-me um
extraordinário desalento pensar no que há de vir, pois na vida que tenho ainda
à minha frente... apenas vejo solidão, e de novo essa vida ociosa, inútil e
aborrecida. E que hei de eu sonhar então que seja mais belo do que a vida,
depois de ter realmente gozado aqui, ao seu lado, instantes tão felizes? Oh,
bendita seja, minha amiga encantadora, por não me ter afastado logo às
primeiras palavras! É graças a isso que eu posso dizer que, pelo menos, ainda
tive duas noites felizes na minha vida! (DOSTOIEVSKI 2009, p. 57).

Nástienka também se mostra romântica e sonhadora. Vive na casa de sua avó,


que funciona como uma espécie de pensão, e passa a maior parte dos dias presa por um
alfinete a barra da saia da avó cega e na companhia de uma criada surda. Apesar do
convívio familiar, a jovem compartilha do mesmo sentimento do narrador, a solidão:
23

Agora nunca mais estaremos sós pois, aconteça o que acontecer, havemos de
ser sempre amigos. Escute: eu sou uma pessoa inculta; não estudei muito,
embora a minha avó me tenha arranjado professores; mas acredite, eu o
compreendo muito, muito bem, pois tudo isso que me contou também eu o
sentia quando estava sentada perto de minha avó. (DOSTOIEVSIKI 2009, p.
34).

O último contato entre Nastienka e o narrador acontece em uma manhã. A idéia


que surge dentro desse cenário é o do despertar do sonho vivido pelo narrador nas noites
anteriores. O retorno do homem pelo qual a jovem é apaixonada faz ela deixar o herói e
seguir para se entregar ao amado. Abandonado pela moça, o protagonista volta a ser um
ser isolado, envolto no mesmo ciclo que existia antes da passagem de sua amante, ou
seja, volta ao seu quarto mofado de paredes envelhecidas e sua vida monótona e
solitária, que agora ganha mais tristeza, transfigurada na imagem do ambiente a sua
volta:

Vi empalidecerem as cores das paredes, descobri novas teias de aranha em


todos os cantos. Não sei por que, quando relanceei a vista através da janela,
pareceu-me que o prédio fronteiro também envelhecera e que se tinha posto
mais escuro e arruinado, que o estuque das pilastras estava todo gretado, que
as cornijas se fendiam e enegreciam, e que as janelas estavam cheias de
manchas e de sujidade.” (DOSTOIEVISKI 2009, p 126).

A solidão vivida pelo protagonista de Noites Brancas acaba entrando em


contraste com a própria observação de Dostoievski quanto ao sentimento. Bakhtin
(2010) reflete sobre o sentimento que permeia a literatura do autor:

Ele afirma a impossibilidade da solidão, da solidão ilusória. O próprio ser do


homem (tanto interno como externo) é convívio mais profundo [...] Ser
significa ser para o outro e, através dele, para si. O homem não possui um
território interior soberano, está todo e sempre na fronteira, olhando par, a
dentro de si ele olha o outro nos olhos ou com os olhos do outro.
(BAKHTIN, 2010, p. 322-323).

O que vemos nessa novela é exatamente esse embate em relação à solidão. O


sentimento é perceptível da primeira à última página do livro. Às vezes aparece com
cunho sociológico ao associar a solidão diretamente ao convívio social e ao isolamento.
Noutras, o sentimento aparece intrínseco como parte natural do protagonista, não
dependente do comportamento de distância, e nem mesmo da sensação de felicidade,
pois para ele é possível estar só e feliz. O uso do sentimento como recurso de
autoconhecimento é ressaltado, posto que a partir da experiência com Nastienka, o
24

protagonista passa a realizar uma autoanálise de sua personalidade ao se denominar um


sonhador, dividindo com seu espectador, seu olhar sobre si mesmo.
25

2. A REPRESENTAÇÃO DO SONHO

Durante o sono, podemos ter a sensação de viver alguma situação comum ao


nosso cotidiano como estar cozinhando, correndo, lendo um livro ou ainda vivenciar
uma cena inusitada, como pensar que é uma borboleta, isto é, podemos manifestar as
mais diversas ações criativas, e a esse reflexo da mente denominamos sonho. As
sensações visuais experimentadas durante o estado de sonolência podem ser entendidas
como atos de desejos, reflexo de pensamentos e utopias. O dicionário Houaiss (2001)
afirma que sonho é “um conjunto de imagens, pensamentos ou fantasias que se
apresentam à mente durante o sono”. Para o dicionário Michellis o sonho é definido Commented [H5]: Número de página

como:

1 Ato ou efeito de sonhar. 2 MED Conjunto de sensações, percepções e


representações mais ou menos realistas, geralmente visuais, que aparecem
durante o sono, de caráter confuso e incoerente. 3 Conjunto de pensamentos,
imagens, ideias e fantasias que se experimenta enquanto se dorme. 4 Ato,
objeto ou pessoa vista ou imaginada durante o sono. 5 POR EXT Sequência
de ideias vãs e incoerentes às quais o espírito se entrega; devaneio, fantasia.
6 POR EXT Coisa, plano ou desejo sem fundamento, utópico; fantasia,
utopia. (MICHELLIS, 1998).

Dentro do campo da Psicologia, os sonhos refletem desejos, medos, vontades e


outros sentimentos complexos da psique humana e são manifestações que ocorrem no
momento do sono, ou seja, são reflexos da inconsciência expressos ao dormir e que
podem ter interferência do contexto no qual o sonhador está inserido. Jung diz que

O sonho não é o resultado, como os outros conteúdos da consciência, de uma


continuidade claramente discernível, lógica e emocional da experiência, mas
o resíduo de uma atividade que se exerce durante o sono. [...] Um observador
atento, todavia, descobrirá sem dificuldade que os sonhos não se situam
totalmente à margem da continuidade da consciência, porque em quase todos
os sonhos se podem encontrar detalhes que provêm de impressões,
pensamentos e estados de espírito do dia ou dos dias precedentes. [...] É
provavelmente por causa desta conexão mais ou menos frouxa com os
demais conteúdos de consciência que os sonhos são extremamente fugazes
quando se trata de recordá-los. […] Este comportamento singular quanto à
reprodução se explica se considerarmos a qualidade das ligações das
representações que emergem no sonho. Ao oposto da sequência lógica das
ideias, que podemos considerar como uma característica especial dos
processos mentais conscientes, a combinação das representações no sonho é
essencialmente de natureza fantástica. [...] É a esta característica que os
sonhos devem o qualificativo vulgar de absurdos. Mas, antes de formular
semelhante julgamento, é preciso ter presente que o sonho e seu contexto
constituem algo de incompreensível para nós (JUNG, 2012, p. 443:446).
26

O fato é que os sonhos sempre acompanharam o ser humano de maneira


individual e possuem uma trajetória histórica e cultural. Na Grécia Antiga, os filósofos
Heráclito e Aristóteles afirmavam que os sonhos são representações, assim, refletem um
elemento interligado a individualidade do ser, ao seu íntimo, seu interior. Na Bíblia, os
sonhos são registrados como forma de apresentar um acontecimento, dentre outros
eventos sobrenaturais e proféticos, sendo visto como uma forma eficaz de comunicação
entre Deus e seus profetas. Com o destaque da corrente Positivista no século XIX, os
sonhos passam a ser vistos de maneira mais orgânica e como um processo biológico. A
investigação em relação ao caráter psicológico se dá em seguida, especialmente com
estudos realizados por Sigmund Freud e Carlos Jung.
Ao trabalhar a perspectiva do sonho dentro da obra literária, vamos considerar o
conceito interligado a ideia de fantasia, desejo e utopia, assim, enquanto estivermos
refletindo sobre esse termo, faremos menção à idéia mais subjetiva e não sua aplicação
primária como ato involuntário relacionado ao sono. Expostas essas definições,
podemos pensar o sonho como um ato que abrange imaginação e o uso da criatividade,
mesmo que o processo mental envolva ações não calculadas.
Sendo o sonho uma ação, existe um sujeito que a pratica e a esse indivíduo
chamamos de sonhador. Ao sonhador cabe a construção de um novo universo dentro da
narrativa literária apresentada ao leitor inicialmente, isto é, o sonhador possui a
capacidade de parir um mundo, dentro de outro mundo. É um tipo que possui a
possibilidade de criação de um novo autoenredo a partir de seu próprio campo de visão.
Essa óptica pode se tornar sua verdadeira realidade, ou simplesmente representar uma
fuga de que de fato vive e que, por algum motivo, o personagem buscar esquecer ou
deixar a margem.
A partir do título Noites Brancas, vamos tecer observações quanto ao emprego
do termo sonho na narrativa e analisar a dualidade estabelecida pelo seu uso, visto que o
sonho pode ser representado por fantasia, ilusão e impossibilidade de concretude, no
entanto, é necessário afirmar também que é um evento físico e psicológico passível de
ser vivenciado por cada individuo de forma única.

2.1 O TIPO SONHADOR EM DOSTOIEVSKI

Um destaque na literatura de Dostoiévski é a multiplicidade de seus


personagens. Em sua prosa é possível observar diferentes tipos que acabam adquirindo
27

características idiossincráticas. São prostitutas, assassinos, solitários, loucos e


sonhadores entre outras figuras que, dotadas de poesia, apresentam ao leitor reflexões
sobre a psique humana.
Concentramo-nos aqui na figura do sonhador, notada em diversos textos de
Dostoievski. Sua primeira menção clara é apresentada na publicação de A senhoria,
1846, onde o protagonista Ordinov fala sobre sua percepção de mundo através do olhar
de um sonhador, ou seja, uma figura que expressa ideias relacionadas à utopia e
fantasia, uma espécie de fuga a sua realidade, representada pelo isolamento do
personagem, e que o leva a um processo de alienação do mundo em que está inserido.
Bértolo diz que

Em A Senhoria, Ordínov era um indivíduo incapaz de se dar conta do seu


estatuto de ‘sonhador’. Aquilo a que se assistia, pelo contrário, eram as
aventuras de um homem que, mais do que agir, reagia a estímulos, fossem
eles reais (a mulher que aparece na igreja, e que desperta nele a paixão) ou
fantásticos (a narrativa que a mulher conta). Esta desconsciencialização da
personagem tornava-a o perfeito estudo de caso do tipo social que
Dostoiévski procurava examinar, pois representava o ‘sonhadorismo’ levado
ao extremo da alienação da realidade. (BÉRTOLO 2014, p. 03)

No entanto, é dentro da obra Noites Brancas, 1848, que esse tipo é caracterizado
e tem seu olhar explorado pelo escritor russo. Lançado com o subtítulo de romance
sentimental das memórias de um sonhador, inicialmente a narrativa nos apresenta seu
protagonista como um sonhador, especialmente pelo próprio personagem se denominar
assim, e essa informação ser explícita ao leitor como forma de reconhecimento do
personagem principal, se tornando um elemento de identificação do protagonista.
A narrativa se passa em um curto espaço de tempo, cronologicamente temos a
passagem de quatro noites nebulosas, que são misticamente envoltas pela fantasia da
história de um homem que sonha com um universo que não possui e através do sonho
tem a possibilidade de viver além da realidade cotidiana. Sonha com a mulher amada,
com amigos e toda uma vida que existe em seu imaginário de maneira abstrata. Porém,
uma noite por acaso acaba por conhecer a mocinha e a partir daí é questionado sobre
quem ele é e sobre qual sua história. Ao lançar um olhar sobre si mesmo, logo em seu
primeiro diálogo com Nasthienka, o protagonista – narrador se define como sonhador:

Sou um sonhador, mal conheço a vida real, e um momento como este é tão
difícil de conseguir para mim, que me seria absolutamente impossível não
estar continuamente a evocá-lo nos meus sonhos. Esta noite vou passá-la toda
28

inteira sonhar com você. Esta noite? Toda a semana, todo o ano!
(DOSTOIEVSKI, 2009, p. 29).

A afirmação do sonhador é feita a partir do primeiro contato com Nastienka. Um


momento simples quando nosso protagonista conhece uma jovem e tem a oportunidade
de conversar com ela, algo que para ele parece tão remoto e distante e que, talvez por
isso, deva ser aproveitado com a maior intensidade possível. A aproximação e o diálogo
com outra pessoa, assim como a troca de informações sentimentais, causa no narrador
uma sensação ainda não experimentada, o que alimenta dentro dele a ânsia por mais.
No segundo encontro entre os personagens Nastienka questiona ao narrador
sobre sua história e quem é ele, afinal ela quer entender o que pensa o sonhador. A
afirmação do protagonista-narrador é a de que não possui uma história, pois é um
homem solitário e isso faz com que ele não tenha o que contar. Nesse momento se
define como um tipo “um indivíduo original. Uma espécie de misantropo cômico —
disse-lhe eu e não pude deixar de rir-me também. — Simplesmente há... como hei de
dizer? Há caracteres. Uma coisa: sabe o que é um sonhador?” (DOSTOIEVSKI, 2009,
p. 37).
Para explicar sobre o sonhador, o protagonista primeiro descreve o meio que o
cerca, o universo que é criado por esse tipo. Tal fato acaba por exprimir a relação que o
sonhador estabelece com o ambiente a sua volta e expressa como a criação de um
espaço individual é necessário para a apropriação do sonho.

Há aqui em Petersburgo certos recantos verdadeiramente estranhos, que


Nasthienka talvez não conheça. Dir-se-ia que nunca neles bate o sol que
brilha para todos os petersburgueses, mas sim outro sol diferente, que foi
criado só para eles, e que, dir-se-ía que brilha ali também de uma maneira
diferente, com um fulgor que não existe em parte alguma deste mundo.
Nesses cantos de que falo, Nasthienka, parece que se agita outra vida, uma
vida que não se assemelha de maneira alguma àquela que nos rodeia, como
só poderia existir em um reino distante de muitos milhares de léguas, porém
jamais aqui entre nós e nestes nossos tempos tão graves, gravíssimos. Mas,
precisamente, essa vida é apenas uma mistura de algo de puramente
fantástico, de um ideal fervoroso e, ao mesmo tempo, apesar disso — e
infelizmente, querida Nástienhka — de uma obscura rotina e de habitual
monotonia, para não chamar-lhe vulgar, vulgar até ao desespero.
(DOSTIEVSKI, 2009, p. 38-39).

O narrador nos descreve o ambiente habitado pelos sonhadores e afirma que,


para eles, existe uma outra realidade muito diferente da vida real, um espaço com
características fantásticas, típicas do estado de sonho encontrado durante o sono, e ao
mesmo tempo, um tanto que munida de um sentimento de desespero, que interligamos a
29

sensação de solidão e da busca por sanar esse sentimento. Após falar sobre o ambiente,
o narrador sente-se à vontade para conceituar o próprio sonhador, figura a qual se
identifica a ponto de se denominar. É nesse momento em que o tipo sonhador ganha
uma classificação própria, onde é caracterizado:

Nesses recantos vivem homens estranhos... seres desses a que as pessoas


chamam sonhadores. Um sonhador — para explicar-me mais concretamente
— não é um homem, fique sabendo, mas uma criatura de sexo neutro.
Geralmente o sonhador costuma viver fora do mundo, num canto retirado,
como sé se escondesse da luz do dia, e, uma vez instalado no seu esconderijo,
vive e cresce nele tal como o caracol na sua concha, ou pelo menos pode
dizer-se que é parecido com esse animalejo singular, que é ambas as coisas, o
animal e sua própria morada, e ao qual chamamos tartaruga.
(DOSTOIESVKI 2009, p. 39-40).

É possível notar a representação do estado de sonho como fuga da realidade, ou


como forma de criar uma realidade paralela com base nos sonhos, no sentimento de
satisfação e felicidade encontradas neles. Esse mundo é criado como consequência de
seu isolamento, pois aqui o sonhador antes de tudo é um ser solitário. Há um
deslocamento do ambiente real e da socialização com outras pessoas e uma retirada em
rumo a seu casulo, a sua concha, representada pelo sonho, camada de proteção criada
para lidar com a solidão. São nos momentos de sonho que o personagem vivencia a
felicidade:

É já escuro no seu quarto e ele tem a alma triste e vazia. À sua volta
desvaneceu-se todo um império de sonhos: secretamente, sem ruído, sem
deixar provas, como só um sonho pode desvanecer-se, e ele nem sequer
poderia contar aquilo que viu. Mas um obscuro sentimento que começa a
agitar-se no seu coração, pouco a pouco lhe vai infundindo um novo anseio,
afagando, sedutor, a sua fantasia e, sem querer, aí volta à sua frente uma nova
cavalgada de visões. Reina o silêncio no pequeno quarto; a solidão e o ócio
acariciam a sua imaginação que, suavemente, começa a esquentar-se (...). Um
novo sonho, uma nova felicidade! (DOSTOIEVSKI 2009, p. 48-49).

A satisfação gerada pelo sonho preenche todas as lacunas sentimentais que o


sonhador possa ter naquele momento. O do sonho é um instante de felicidade criado
pelo tipo e que, por um espaço de tempo, passa a ser sua realidade:

E ele nada deseja porque paira acima de todos os desejos, porque já os tem
todos, porque já está repleto e é o próprio artista da sua vida, e pode a todo
instante modelá-la à sua vontade. E surge tão fácil tão naturalmente, esse
fantástico mundo de fábula, como se tudo não fosse senão uma invenção do
cérebro. Na verdade somos frequentemente tentados a acreditar que toda essa
vida não é urna criação da sensibilidade, nem um caprichoso jogo
insubstancial ou uma invenção enganadora, mas uma autêntica realidade,
30

uma coisa que existe realmente, algo de real e de palpável (DOSTOIESKI,


2009, p. 51-52).

2.3 NASTIENKA: A REPRESENTAÇÃO DO SONHO E A QUEBRA DA SOLIDÃO

O momento de encontro entre o narrador-protagonista e Nastienka é marcado


pela descoberta do amor pelo personagem principal. Além do não convívio social,
representada por sua solidão, a timidez também não o permitia ter segurança para uma
aproximação com as mulheres, tal fato é afirmado e ao mesmo tempo ultrapassado ao
primeiro contato com a mocinha do enredo:

Não muito longe de mim acabava de descobrir uma figura de mulher; estava
de pé e apoiava os cotovelos no parapeito da muralha, e parecia absorvida na
contemplação das águas turvas do canal (...)Meu Deus! O meu coração teve
um pressentimento. Por muito tímido que eu seja com as mulheres, naquele
caso... é que as circunstâncias eram tão singulares! (DOSTOIEVSKI, 2009,
p. 19)

Nastienka substancializa o sonho. É a materialização da mulher ideal e a


chegada do amor. O sonhador vê na figura da jovem a oportunidade de compartilhar sua
história (ou melhor, seu sonho com alguém), de falar e dividir tudo aquilo que sempre
quis, mas que, no entanto, não tinha tido oportunidade. Há nele a sede de poder, por
fim, aproveitar aquele instante ao lado da amada.
No intervalo entre a primeira e a segunda noite, o sonhador já se vê
completamente entregue ao sentimento que nutre por Nastienka e declara que já a
conhecia (de seus sonhos e imaginação):

Querida Nástienhka, agora que nos os dois nos voltamos a encontrar depois
de uma tão grande separação — porque eu já a conheço desde há muito
tempo, querida Nástienhka, pois já há muito que ando à procura de alguém...
(...) agora abriram-se mil torneiras na minha cabeça e tenho que vazar o meu
coração numa torrente de palavras, se não quiser que elas me afoguem
(DOSTOIEVSKI 2009, p. 44).

Nastienka aparece em meio à neblina, como em um momento de delírio do


nosso sonhador. A névoa que envolvia a cidade, juntamente com o momento de
felicidade vivido pelo sonhador na manhã de seu encontro com a mocinha, lhe causa a
sensação de contentamento, que atingi sua plenitude no instante em que se depara com a
jovem. E que atípico seria o sentimento de felicidade para quem vivia solitário entre
paredes mofadas? O quanto é irreal a um homem extremamente tímido o contato com
31

uma mulher? O quão utópico é para um solitário sonhador se tornar herói e salvar a
mocinha em apuros?
Até então, os momentos sociais que envolvem o protagonista são os que ele
interage com a cidade e não com pessoas. Os homens de São Petersburgo são
conhecidos do narrador por observação, ele sabe seus trejeitos, fisionomias, os
caminhos que traçam, no entanto, não estabelecem comunicação ou uma relação de
amizade com essas pessoas. “E para que quereria eu os amigos? Eu sou amigo de toda a
cidade de São Petersburgo (DOSTOIÉVSKI, 2008, p. 11). E prossegue: ―
Evidentemente que os outros não me conheciam; mas eu... eu os conheço. Conheço-os
até muito bem; tenho estudado as suas fisionomias” (DOSTOIÉVSKI, 2008, p. 12).
Sobre a cidade a relação é descrita com detalhes, como se cada prédio fosse uma pessoa,
um ser com o qual o sonhador pode conversar e se relacionar verdadeiramente:

Também conheço os edifícios. Quando passo diante deles, dir-se-ia que cada
um dos prédios mal me vê põe-se logo a correr, avança dois passos à frente,
me olha por todas as suas janelas e me diz: “Bom dia, aqui estou! Como tem
passado? Eu felizmente estou bem, mas para o mês de maio vão acrescentar-
me outro andar.” Ou então: “Bom dia! Como está? Sabe uma coisa? Amanhã
vão rebocar-me a fachada.” Ou, finalmente: “Olhe, houve fogo e estive quase
a ficar todo queimado... Se soubesse o susto que eu tive!” E outras coisas do
gênero. É claro que tenho os meus favoritos entre eles e até alguns bons
amigos. Um deles vai ser revisto por um arquiteto neste verão; vai reconstruí-
lo e pô-lo como novo. Terei infalivelmente de passar por ali todos os dias
para que o meu amigo não me pareça depois um desconhecido, Deus o livre
de uma coisa dessas! (DOSTOIEVSKI 2009, p.27).

Até o aparecimento de Nastienka a única pessoa com quem o sonhador troca


poucas palavras é Matriona, a senhora que cuida de seu quarto de aluguel, porém o
pouco diálogo que existe diz respeito a teias de aranhas que surgem no quarto do
protagonista e dão ao ambiente um ar de abandono e tristeza. A vida ganha outros ares
partir de Nastienka e é nesse instante que o sonho se concretiza e ganha aspecto real,
onde há a quebra do ciclo solitário de nosso protagonista. O sonhador vive isolado, em
um mundo onde são raros os momentos de felicidade, já com a moça o sonhador deixa
de ser apenas um jovem sozinho que ronda pela cidade e passa a ser o herói de um
romance.
Narrado em primeira pessoa, a história do sonhador nasce a partir de encontros e
o primeiro de todos é do sonhador com seu leitor. O próprio enredo do livro começa
com uma conversa entre o narrador-protagonista e o leitor. E tom de nostalgia, como
uma lembrança ou um sonho vivido, a historia é contada utilizando o discurso direto. O
32

sonhador é o sujeito do enunciado, como se percebe no inicio da narrativa “Era uma

noite prodigiosa, uma noite como só vemos quando somos jovens, leitor querido”
(DOSTOIEVSKI, 2008, p. 08).
Ao desenvolver o enredo para o leitor, o protagonista-narrador cria para si um
personagem, onde pode contar sua história a partir de outra perspectiva, a do sonhador.
É ele o sujeito do sonho, é quem é inserido em um mundo mágico e tem um universo
construído para sustentar sua história. A fala passa a ser mais poética e com
características romanescas, o que gera a possibilidade de criar um romance dentro de
outro romance e dar ênfase a multiplicidade no discurso de Dostoievski e sua polifonia.
“Dentro do plano artístico de Dostoiévski, suas personagens são, em realidade, não
apenas objetos do discurso do autor, mas os próprios sujeitos desse discurso diretamente
significante (BAKHTIN, 2010, p. 04).”
Através da construção de um universo romântico, Dostoievski apresenta
Nastienka como o sonho concretizado do narrador. Se antes o sonhador tinha como
companheira a solidão, agora ele vivencia a esperança de um amor romântico. Dentro
da construção de Noites Brancas nasce a figura do homem que é envolto por seu sonho
em cada detalhe, seja desde o título de seu enredo que remete a neblina e a imagem
turva que pode ser associada às sensações visuais registradas durante o sono, ou até
mesmo a não nomeação de seu protagonista.
33

3. OBSERVAÇÕES SOBRE O EXISTENCIALISMO NA OBRA

A corrente filosófica existencialista surge em meados do século XIX e ganha


destaque no século XX. Ao questionar ao homem sobre sua existência, ela coloca em
voga interrogações a partir do comportamento humano e sua tomada de consciência
sobre a construção de sua trajetória a partir de escolhas próprias. Dentro dessa
perspectiva, ninguém além do homem é capaz de traçar seu próprio caminho.
O existencialismo teve uma forte expressão literária, utilizando o estudo de
romances para a fundamentação de pesquisas filosóficas. É possível recolher vários
traços dessa escola nas obras de Dostoievski, que influenciaram autores como Nietzsche
e Sartre. O conceito expresso na filosofia se transpõe na literatura, o que possibilita que
os leitores possam refletir com base em suas próprias interpretações sobre definições
expressas a partir de construções narrativas, que abordam situações cotidianas e tratam
da complexidade da existência humana, como afirma Nuto:

Nenhum escritor teve tanta influência na filosofia moderna quanto


Dostoiévski. Entre os admiradores da obra do grande romancista russo,
figuram nomes dos mais importantes da Filosofia: Nietzsche, Heidegger e
Sartre. Esses filósofos, dentre outros, discutem questões vivenciadas pelos
personagens de Dostoiévski e reconhecem a influência do autor. Por isso,
sem ser tecnicamente um filósofo, Dostoiévski é considerado fundamental
para a corrente filosófica conhecida como Existencialismo (NUTO, 2011, p.
02).

Dentro da mesma óptica ainda ressalta:

A obra de Dostoiévski relaciona-se com o Existencialismo por nos apresentar


dilemas plenamente humanos. O fluxo de consciência, recurso literário que é
usado para expor o complexo processo de reflexão do personagem está
presente em toda a obra, envolvendo-nos mais profundamente com os
problemas vividos pelo narrador em primeira pessoa [...]. Se contradizer e
não saber lidar com nossas fraquezas é demasiado humano, e são expostas as
contradições da modernidade na obra (NUTO, 2011, p. 12).

O existencialismo é um processo filosófico humanista que, de modo geral,


conscientiza o ser humano de sua própria solidão. Por este motivo, e pela ausência
concreta da determinação divina (que o existencialismo rechaça), este processo político-
filosófico aponta na direção da autonomia humana, ao mesmo tempo em que condena o
homem à náusea do existir sabendo-se só e responsável por cada um de seus atos.
No entanto o personagem sonhador de Dostoiévski, conquanto viva amargurado
pela solidão, também a vive de modo eufórico, optando pela fantasia como forma de
34

escapar à solidão social em que está imerso. Numa sociedade erguida em torno de
regras muito rígidas de relacionamento, criando um meio sisudo e pouco afeito às
relações sociais, cumprimentar o outro significa um certo convívio íntimo,
diferentemente de nossos dias, não polidez.
Essa rigidez, depois substituída pelo sorriso fácil das cocotes da belle époque
parisiense (e moscovita), ajuda a construir um ambiente em que o personagem central
ora é determinado pelo meio, ora se vê diante de suas próprias opções (abordar ou não a
mocinha, por exemplo, ou confessar ou não seu modo de ser), prenunciando o ser
existencial, que sofre diante do ter que optar, do qual nos falará Sartre, mais de sessenta
anos depois, em seu constructo teórico:

A solidão do homem aparece como um tema fundamental do existencialismo:


ele não tem qualquer socorro a esperar de um Deus qualquer visto que ela
não pode existir do ser anterior a sua própria existência. Em consequência, o
homem está abandonado, obrigado a assumir sua própria liberdade,
“condenado a ser livre”, como afirma Sartre em O Ser e o Nada/L’être et le
neant. Ele vai de si desde o momento em que, o homem se encontra obrigado
a escolher uma essência que lhe engaje, sem qualquer possibilidade de evitar
a escolha: “A liberdade é de escolha, mas não liberdade de não escolher. Não
escolher, com efeito, é escolher não escolher. De onde a absurdidade da
liberdade que força nossa responsabilidade aos olhos do mundo” (SARTRE,
1943, p. 561).

É de sobrelevar o fato de o protagonista-narrador não possuir uma nomeação


própria, sendo motivo de questionamentos ao pensarmos até que ponto sua não
nomeação é um reflexo de uma negação do sujeito real ou, até mesmo, surge com
embasamento na inconsciência da construção do ser, visto que o personagem considera
não ter uma história até o momento em que começa a conviver com Nastienka. É nesse
momento que é possível suscitar perguntas como até que ponto o protagonista se
identifica com seu modo de ser. O personagem não citar seu nome e apenas se definir
como sonhador seria o retrato de sujeito que ainda não tomou conta de sua realidade.
Sua solidão e isolamento do convívio social se dão inconscientemente ou não.
Imperte, que o narrador vive em um sonho, que atinge seu ápice quando ele
conhece e se apaixona por Nastienka. No entanto, é exatamente no instante em que o
romance se desenrola que ele se vê questionado sobre sua existência, sua construção e a
partir daí faz escolhas que determinam o resto de sua vida. Quando se predispõe a
ajudar a mocinha a conseguir se encontrar com seu esperado amante ele faz uma opção.
Ao aceitar o abandono da amada que o deixa para se casar com outro, ele faz outra
opção, a de ser de fato um sonhador solitário. A consciência é perceptível através da
35

própria análise do personagem, que após receber a carta de despedida de Nastienka,


percebe o sonho vivido e a realidade configurada em sua solidão:

Talvez que a culpa de tudo isto a tivesse aquele raio de sol que de súbito
surgiu por entre as nuvens, para logo depois voltar a esconder- se por detrás
de outra ainda mais escura, anunciadora de chuva, de tal maneira que todas as
coisas se tornaram ainda mais lôbregas e mais sombrias... Ou seria que os
meus olhos divisaram o meu futuro e nele viram algo de árido e de triste, algo
semelhante a mim mesmo, ao que eu sou agora, àquilo que serei dentro de
quinze anos, neste mesmo quarto, igualmente só (DOSTOIEVSKI, 2009, p.
127).

A manhã em que se encerra a narrativa é como um acordar, um despertar do


sonho, e o próprio narrador adquire consciência disso “as minhas noites acabam com
uma manhã” (DOSTOIEVSKI, 2009, p. 123), isto é, a representação da consciência da
existência, vista na obra como o ápice do momento de reflexão do narrador e sua
aceitação como sujeito, que traça seu caminho e determina sua trajetória com
fundamento em suas escolhas e que com base nelas irá viver o resto da vida, consciente
de sua construção como indivíduo.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS

É notória a contribuição dos textos de Dostoievski para o cânone da literatura


clássica universal. Por meio de suas narrativas oitocentistas é possível refletir sobre
diversos aspectos humanos comportamentais e psíquicos, e identificar temas tão
contemporâneos como a solidão, através da expressão íntima dos pensamentos de seus
personagens. Escrito em 1848, Noites Brancas possui características do romantismo, se
diferenciando de outras obras do escritor, por apresentar a delicadeza de um texto leve
mas que, no entanto, suscita questões profundas sobre o indivíduo.
A novela que tem seu início em uma noite é finalizada em uma manhã,
configurando a idéia de sonho, de despertar, com a ruptura entre o real e o irreal, aqui
visto como ponto de percepção da existência, das escolhas feitas e da construção e
aceitação do próprio eu. Diante do exposto, fica evidente a relação do protagonista com
o sentimento de solidão que o acompanha da primeira até a última página da narrativa.
É na solidão que se baseiam todos os outros aspectos discutidos nesse trabalho, como o
sonho e a expressão dos primeiros traços existencialistas que compõem o texto.
Nesse sentido, é possível afirmar que Noites Brancas é uma obra repleta de
contemporaneidade, pois, a partir da literatura coloca em evidência temas tão em voga
na sociedade atual, como a solidão e o sonho (como fuga e construção de uma realidade
paralela), ambos tão perceptíveis em uma sociedade cada vez mais conectada
digitalmente. Commented [df6]: Retome os conteúdos dos capítulos.
No primeiro capítulo vimos
Nos egundo.....
Amplie para pelo menos duas páginas e meia.
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