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arquitetura

aracajuana:

a imposição do tempo

arquitetura aracajuana : a imposição do tempo EDER DONIZETI DA SILVA ADRIANA DANTAS NOGUEIRA

EDER DONIZETI DA SILVA ADRIANA DANTAS NOGUEIRA

arquitetura aracajuana : a imposição do tempo EDER DONIZETI DA SILVA ADRIANA DANTAS NOGUEIRA

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE

reitor

Angelo Roberto Antoniolli

vice-reitora

Iara Maria Campelo Lima

EDITORA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE

coordenador do programa editorial

Péricles Morais de Andrade Júnior

coordenadora gráfica

Germana Gonçalves de Araújo

conselho editorial

Antônio Martins de Oliveira Junior Aurélia Santos Faraoni Fabiana Oliveira da Silva Germana Gonçalves de Araújo Luís Américo Silva Bonfim Mackely Ribeiro Borges Maria Leônia Garcia Costa Carvalho Martha Suzana Cabral Nunes Péricles Morais de Andrade Júnior (Presidente) Rodrigo Dornelas do Carmo Samuel Barros de M. Albuquerque Sueli Maria da Silva Pereira

Samuel Barros de M. Albuquerque Sueli Maria da Silva Pereira Cidade Universitária Prof. José Aloísio de

Cidade Universitária Prof. José Aloísio de Campos CEP 49.100 – 000 – São Cristóvão – SE. Telefone: 2105 – 6922/6923. e-mail: editora@ufs.br www.editora.ufs.br

EDER DONIZETI DA SILVA ADRIANA DANTAS NOGUEIRA

arquitetura aracajuana:

a imposição do tempo

EDER DONIZETI DA SILVA ADRIANA DANTAS NOGUEIRA arquitetura aracajuana : a imposição do tempo São Cristóvão/SE

São Cristóvão/SE

2018

Este livro, ou parte dele, não pode ser reproduzido por qualquer meio sem autorização escrita da Editora.

Este livro segue as normas do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, adotado no Brasil em 2009.

projeto gráfico, capa e diagramação

Alana Gonçalves de Carvalho Martins

ilustrações de capa

1º plano: Solar dos Rollemberg, aquarela, 2016; 2º plano: casa na rua Itabaiana, 983 (demolida em 2014). Artista: Adriana Dantas Nogueira.

revisão ortográfica

Amanda Matos Santos Andréa Machado da Cunha

ficha catalográfica

Biblioteca Central – Universidade Federal de Sergipe

S586a

Silva, Eder Donizeti da Arquitetura aracajuana : a imposição do tempo [recurso eletrônico] / Eder Donizeti da Silva, Adriana Dantas Nogueira. – São Cristóvão : Editora UFS, 2018. 214 p. : il.

ISBN: 978-85-7822-628-2 (Disponível em: http://www.livraria.ufs.br/)

1. Arquitetura – Sergipe – História. 2. Arquitetura moderna

– Séc. XIX – Sergipe. 3. Arte Decô (Arquitetura) – Sergipe. I. Nogueira, Adriana Dantas. II. Título.

CDU 72(813.7)(091)

SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO, 6

INTRODUÇÃO, 8

CAPÍTULO

CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO

CAPÍTULO

CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO

CAPÍTULO

6 INTRODUÇÃO, 8 CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO Culto à Linha, 15 Senso de Massas em Movimento, 18

Culto à Linha, 15

Senso de Massas em Movimento, 18

Simbolismos, 21

Rotina Vazia da Arquitetura, 30

Ruptura e não ruptura com as tradições, 37

Originalidade e não originalidade da forma, 55

Independência e/ou dependência de conceitos estéticos, 102

1

2 Destituição e a não destituição de preocupação ideológica, 88

3 Armazéns/Depósitos/Estiva, 135

Armazéns de secos e molhados, 126

Casas Comerciais/Farmácias, 129

Palácios, 136

CONSIDERAÇÕES FINAIS, 206

Palacetes/Residências, 139

Minipalacetes/Residenciais, 143

Fábricas, 147

Escritórios (comissões/designações/fazendas/ exportações), 150

Lojas de Ferragens, 152

Casa/Comércio, 153

Hotéis/Pensões, 156

Edificações Religiosas, 157

Escolas ou Instituições de Ensino, 160

Mercados Municipais, 161

Chácaras/Chalés/Vilas, 167

Sobrados/Residências – Neocoloniais; Art Déco; Proto e Modernistas, 170

Palácios/Palacetes/Monumentos – Art Déco e Art Nouveau, 186

Armazéns/Casas/Comércios – Art Déco, 193

Estação Ferroviária, 194

Religiosas – Art Déco, 196

Hospitais – Eclético/Art Nouveau, 197

Terminal Rodoviário, 198

Casas Unifamiliares – Art Déco; Neocoloniais e Modernista, 199

Instituições de Ensino e Prédios Públicos – Art Déco e Modernista, 201

Cinemas/Restaurantes, 203

APRESENTAÇÃO

Surgida na segunda metade do século XIX, Aracaju é uma cidade com características modernas, baseadas no formato de tabuleiro xadrez, com suas ruas e avenidas retas que, ao longo do tempo, foram sendo en- riquecidas pelas mais diversas tendências arquitetônicas vigentes, acom- panhando o que ocorria em outras cidades brasileiras. Embora nos seus primeiros cinquenta, a cidade tenha enfrentado dificuldades para se de- senvolver, o alvorecer do século XX traz novas perspectivas para a cidade que se consolida como capital do Estado de Sergipe. Como uma cidade de origem recente, Aracaju guarda na sua pai- sagem imagens de diferentes épocas e de traços arquitetônicos fruto de influências de pessoas e grupos que aqui se estabeleceram e ajudaram a marcar a cidade com suas construções. De fato, não há um estilo predo- minante, mas uma diversidade de estilos e de tendências arquitetônicas que mostram a complexidade do movimento da população e do poder público, no sentido de contribuir para a formação da paisagem da cidade. Arquitetura Aracajuana: a imposição do tempo é a obra que Eder Donizeti da Silva e Adriana Dantas Nogueira, dois arquitetos dedicados aos estudos urbanos, trazem para brindar a cidade com um tema muito pouco estudado. Os autores fazem uma reflexão teórica sobre os conceitos histó- ricos de Arquitetura e Urbanismo, destacando pontos importantes que explicam as formas presentes na cidade, assim como enfatizam a diversi- dade e complexidade apresentadas pelos imóveis remanescentes, deta- lhando os diversos movimentos, por vezes, antagônicos. O ponto alto da obra é o terceiro capítulo, intitulado Formas Tipo- lógicas, ponto no qual os autores apresentam de forma detalhada as

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diversas formas, com um conjunto de informações, acrescidas de rico acervo fotográfico. Neste capítulo, merecem destaque os Armazéns de Secos e Molhados, Casas comerciais, Hospitais, Palácios e Palacetes, assim como residências de diferentes padrões e estilos, entre outros. Esse resgate feito pelos autores é de suma importância, tendo em vista que não tem sido prática da população a manutenção do seu pa- trimônio que tem sido destruído para dar lugar a construções de pouco significado, além de apagar a memória da cidade. Os autores Eder Donizeti e Adriana Nogueira, assim como o Depar- tamento de Arquitetura e Urbanismo (DAU) e Departamento de Artes Visuais e Design (DAVD) da Universidade de Sergipe, estão de parabéns pela excelente contribuição que oferecem à cidade, que é presenteada por tão vasto conhecimento que enriquece o seu patrimônio.

Aracaju, 20 de julho de 2017.

Profa. Dra. Vera Lucia Alves França

Universidade Federal de Sergipe

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INTRODUÇÃO

A história tem se voltado para o registro do passado de forma mais diversa, a ponto de o conhecimento sobre o patrimônio ser capaz de abarcar a pluralidade cultural do nosso imenso país. No período colonial brasileiro, os núcleos de povoamento tive- ram uma função de “esteios de dominação do Estado” e de “expansão da cristandade”. Esses núcleos de povoamento possuíam, em seus espa- ços urbanos, materializações dessas funções; neles havia edifícios sim- bólicos do poder, como igrejas, câmara, pelourinho, cadeia pública, etc. Um exemplo é São Cristóvão, núcleo de povoamento colonial e primeira capital de Sergipe Del Rey, tombada como Patrimônio da Humanidade. Suas ruas principais e praça têm uma sintonia direta com a história do Brasil no processo não apenas de expansão do território brasileiro, bem como no que se refere ao modelo de universo urbanístico português nos três primeiros séculos de colonização. Essas materializações dos núcleos de povoamento não permanece- ram imutáveis. Outros símbolos emergiram dando novas caras às cida- des no Brasil Imperial e Republicano. O pelourinho é um exemplo típico de símbolo desse passado do país que não mais existe nos espaços físicos de muitas cidades brasileiras. Mas, muitas delas não perderam somente um ou outro símbolo desse passado. Algumas receberam a sentença de que não mais poderiam ser sede das Províncias ou não mais poderiam exercer determinadas funções. Elas, diante de tal situação, ficaram isola- das, em processo contínuo de decadência na região. Em contrapartida, no fluxo das vicissitudes históricas, outras emergiam a partir de novas funcionalidades, de novos símbolos.

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Aracaju se enquadra dentro dessas novas cidades que surgiram

diante de novas funções e novos símbolos no século XIX no Brasil. Com

a República (no século XX), ela recebeu mais símbolos e os materializou

nos seus espaços físicos, reforçando mais ainda suas funcionalidades e as sintonias com o país. As cidades são estruturas urbanas multifacetadas, formadas por ar- ranjos dos espaços organizados e não organizados, mas que, na sua con- dição humana, seguem um ordenamento de uso e adaptações ao longo da história, sobrepondo-se, destruindo-se e reconstruindo-se, transfor- mando-se. Esse conjunto de vida tem como cerne de sua essência a for- ma, o espaço e a ordem materializados na sua arquitetura. Essa arquitetura que se transforma e é transformada carrega, ao longo do tempo, todos os anseios, expectativas, esperanças resignadas e atuantes nos objetos que irão ser os atratores e portadores do modo de viver das pessoas de uma certa época.

O tempo, apesar de possuir momentos mais expressivos e “agita-

dos” de “mudanças”, acusa nas edificações essas transformações, refle- tindo e condensando nas “pedras volumes e massas” que edificam as memórias de uma geração, de um povo, de uma nação. Estes espaços, remanescentes isolados ou em conjunto, tomam para si uma natural e constante tensão entre mudar, transformar ou manter-se como uso e aceitação de um determinado momento na história. As cidades são possuidoras de todas essas e outras inúmeras ar- gumentações representativas em cada período, modo e mentalidade de

vida de uma cultura, acondicionadas nas edificações que as caracterizam

e produzem suas espacialidades, representando a formação de um con-

texto cultural urbano e arquitetônico mais amplo, processando arranjos e, naturalmente, se definindo como objetos materiais e imateriais carre- gadores de juízos de valores humanos históricos e estéticos.

A determinação de um período em que essas transformações têm

início e têm um possível final carregam as naturais dificuldades da con- tinuidade de vida humana, agenciadas pela diversidade e complexidade

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representativas de modelos, esvaziamentos, símbolos, movimentos, cultos presentes nos espaços do viver em conjunto, os quais o homem chamou de cidades. Entretanto, é possível perceber homogeneidades em certos períodos, percebidos por elementos de importância transfor- madora dentro de um sistema, tais como: a transição da vida rural para a vida urbana e seus embates ideológicos; novas tecnologias construtivas e a busca de conforto; rupturas e não rupturas com as tradições; presença de originalidade e não originalidade nas massas constituídas do espaço urbano, enfim, na “remodelação” do pensamento urbano. Desta forma, podem ser demarcados períodos temporais que re- presentam transformações urbanas expressivas na formação das espa- cialidades das cidades de uma determinada cultura, a partir do entendi- mento de como as edificações e seus conjuntos foram sendo utilizados, construídos e reconstruídos, mediante um pensamento humano mais solidificado, naquele momento que, mesmo conduzido dentro de regras gerais, provocava, naturalmente, a inquestionável natureza humana da individualização personalizada. Este trabalho teórico-conceitual-reflexivo aponta para o entendi- mento de uma época, um período em comum, capaz de demonstrar as transformações que as cidades brasileiras sofreram nesta continuidade, produzida pela natural condição de formação da espacialidade urbana. Para isso, toma-se como exemplo uma cidade, não apenas possuidora de um significado acondicionado por um momento arquitetônico mais expressivo, mas também de um arranjo mais complexo que expressa e representa variações de estilos arquitetônicos, os quais coexistiram e se alimentaram dos processos humanos agenciadores e formuladores da espacialidade urbana nacional de uma época. A cidade de Aracaju, no Estado de Sergipe, seria possuidora dessa representatividade arquitetônica complexa e diversa de um período de transformação, em que as cidades brasileiras sofreram de forma intensa, da metade do século XIX até a metade do século XX, pois foram consti-

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tuídas, formatadas e arregimentadas nas transformações da mentalidade de vida, produtoras e reprodutoras das edificações e de seus usos. Visando salvaguardar a memória e identidade de Aracaju, a partir da demonstração do que seus remanescentes urbanos e arquitetônicos representam, em conjunto e de forma isolada, e por meio das “Trans- formações sofridas pelas Cidades Brasileiras do final do Século XIX até a metade do Século XX”, é que se construiu um modelo de pensamento reflexivo baseado na “ressignificação” de conceitos presentes e expres- sivos nesta época. Tais conceitos dizem respeito à “Rotina Vazia da Arquitetura Brasileira”, com significância no Ecletismo; às “Simbologias” remanescentes das Arquiteturas Ecléticas; à Art Nouveau; à Art Déco e Modernista que este período materializou; ao “Senso de Massas em Movimento”, caracterizado pela disputa entre os volumes historicistas X geométrico, da função X a beleza; ao “Culto à Linha”, definida em uma cultura ortogonal pretensamente “enfeitada” no Ecletismo e “desenfei- tada” no Modernismo. Todas essas questões, presentes na formação das cidades brasilei- ras, são entrecruzadas na ressignificação final denominada “Complexa e Diversa Tipologia Arquitetônica”, em que se desconstrói e se reconstrói o entendimento do juízo de valor histórico, estético e humano das edifica- ções e de seu uso tipológico, associado às suas considerações simbólicas, tendo como referência os remanescentes urbanos e arquitetônicos da cidade de Aracaju, demonstrando a necessidade indiscutível de se pro- teger o conjunto significativo patrimonial desta representação de estilos que ainda coexistem e representam uma cultura arquitetônica nacional do final do século XIX até a metade do século XX.

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CAPÍTULO 1

ARACAJU:

arquitetura e urbanismo, conceitos históricos, teóricos e perceptivos do espaço

     
     
     
     
     
     

As cidades são estruturas urbanas multifacetadas formadas por ar- ranjos do espaço organizados e/ou não organizados, mas, que, na sua condição humana, seguem um ordenamento de uso e adaptações ao lon- go da história, sobrepondo-se, destruindo-se e reconstruindo-se, trans- formando-se. Essse conjunto de vida tem como cerne de sua essência a forma, o espaço e a ordem materializada na sua arquitetura. Essa arqui- tetura que se transforma e é transformada carrega, ao longo do tempo,

todos os anseios, expectativas, esperanças resignadas e atuantes nestes objetos (edificações) que irão ser os atratores e portadores do modo de viver das pessoas de uma época.

O tempo, apesar de possuir momentos mais expressivos e “agita-

dos” de “mudanças”, acusa nas edificações essas transformações, refle- tindo e condensando nas “pedras, volumes e massas” que edificam as memórias de várias gerações, de um povo, de uma nação. Estes espaços remanescentes, isolados ou em conjunto, tomam para si uma natural e constante tensão, entre mudar, transformar ou manter-se com o uso e

aceitação de um determinado momento na história e da mentalidade de vida de uma cultura.

A determinação de um período, no qual estas transformações

têm início e possível fim, carrega dificuldades próprias da continuidade de vida humana agenciadas pela diversidade e complexidade represen- tativas de modelos, esvaziamentos, simbolismos, movimentos, cultos; presentes nos espaços do viver em conjunto que o homem chamou de cidades. Entretanto, junto a uma inquestionável natureza humana de individualização personalizada é possível perceber homogeneidades, constituidas por elementos de importância transformadora dentro de um sistema; como a transição da vida rural para a vida urbana; as novas tecnologias, a busca pelo conforto; rupturas e não rupturas com as tradi- ções; presença de originalidade e não originalidade nas massas edificadas do espaço, enfim, em uma “ressignificação” do pensamento urbano. Este livro aponta para o entendimento de uma época, de um perío- do em comum, capaz de demonstrar as transformações que as cidades

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brasileiras sofreram nesta continuidade produzida pela natural condição de formação dos espaços urbanos do final do XIX até metade do século XX. Para isto, toma como exemplo a cidade de Aracaju/SE, não apenas possuidora de significados acondicionados por um único momento arqui- tetônico expressivo, mas de um arranjo mais complexo que expressa e re-

presenta variações de “estilos” arquitetônicos que acabaram por coexistir

e capaz ainda de representar de forma intensa essas transformações. Buscando agregar bases teóricas “protecionistas”, visando salva- guardar a memória e identidade de Aracaju, demonstrando que seus re- manescentes urbanos e arquitetônicos representam, em conjunto e de forma isolada, transformações sofridas pelas cidades brasileiras do final do século XIX até metade do século XX, oferta-se um modelo de leitura histórica da arquitetura baseado na “ressignificação” de conceitos ainda presentes, como: a “Rotina Vazia da Arquitetura”, com significância no Ecletismo; os “Simbolismos” remanescentes das arquiteturas Ecléticas, Art Nouveau, Art Déco e Modernista; o “Senso de Massas em Movimento”, caracterizado pela disputa entre volumes historicistas x geométricos e da função x beleza; do “Culto à Linha”, definido em uma cultura espacial

e arquitetônica geométrica, pretensamente “enfeitada” no Ecletismo e

“desenfeitada” no Modernismo. Todas essas questões, que comparecem na formação de outras ci- dades brasileiras, como a exemplo de Teresina, Belo Horizonte, Goiania, Brasília e Palmas, são entrecruzadas numa “ressignificação” denominada “ARQUITETURA ARACAJUANA: a imposição do tempo”, em que se des- contrói e se reconstrói o entendimento do juÍzo de valor histórico, estéti- co e humano das edificações e de seu uso “tipológico”, associado a consi- derações simbólicas, tendo como referências os remanescentes urbanos

e arquitetônicos da cidade de Aracaju até o ano de 2014. Sendo assim,

demonstramos a necessidade de se proteger um conjunto edificado ainda existente e que se configura como um representante importante de uma Cultura Arquitetônica Nacional, caracterizado num determinado período histórico, ou seja, do final do século XIX até a metade do século XX.

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Culto à Linha

Aracaju pode ser incluída na temática de Cidades Projetadas que começam a surgir na metade do século XIX e que tem como exemplos, entre outros, as “novas capitais”, como Teresina e Belo Horizonte, as quais são representativas de uma cultura de “Linha Reta”, ou do que se prefere, em arquitetura, designar de Culto à Linha (CHOAY, 1997, p. 23), que também se expressa em cidades como Goiânia, Brasília e Palmas. Entretanto, a sensação/fruição (CHOAY, 1999, p. 11) que esse conjun- to de Aracaju transmite, própria de sua paisagem urbana, extrapola essa única condição determinista, ou seja, Aracaju modela uma diversidade na sua atmosfera urbana que inclui resíduos polifônicos de uma arqui- tetura representativa de vários estilos associados ao traçado ortogonal. O traçado retilíneo também recebe e absorve a dificuldade de implantação imposta pelo mangue e pelo Rio Sergipe, que a cerceia e a delimita como condição geográfica, absorvendo-a, refletindo-a e ma- terializando-a. O mangue “cria” certa dificuldade para as construções, asssim, Aracaju parte para uma busca tanto de contraposição quanto de simbiose com a natureza que moldam sua arquitetura, ao mesmo tempo de identidade única e original, que contribui para a evolução e o cresci- mento urbano da cidade (Figura 1).

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B A Figura 1: A – Vista geral de Aracaju, do rio Sergipe e do

B

B A Figura 1: A – Vista geral de Aracaju, do rio Sergipe e do Mar.

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Figura 1: A – Vista geral de Aracaju, do rio Sergipe e do Mar. B – Centro Antigo de Aracaju – Culto à Linha Reta. Fonte: Pedro Leite, 2011.

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A escolha da implantação de Aracaju se deu de forma bem intri-

gante, pois em 17 de março de 1855, por meio da resolução n. 413, san- cionada pelo então Presidente da Província, Inácio Joaquim Barbosa, o antigo povoado Santo Antônio do Aracaju passa à categoria de cidade

e imediatamente passa a ser a capital do Estado (NASCIMENTO, 1981,

p. 85). A localização da cidade foi, sobretudo, um marco de uma atitu-

de progressista em relação as demais vilas e cidades existentes no Brasil. Pode-se dizer que, somente considerando as características que envolve- ram o traçado da cidade e sua topografia, a formação urbana e humana superaram praticamente todas as dificuldades impostas pela natureza. Aracaju pode ser percebida como uma forte relação entre o espaço natural e o espaço construído. A sua imagem de superfície muito plana, porções de áreas alagáveis, um grande rio às suas margens destacando

a linha sinuosa da Av. Ivo do Prado (Rua da Frente), a qual acompanha a

curvatura do rio, são características que persistem na força provocadora da sua imagem urbana e que condicionam semelhanças à implantação

de outras cidades brasileiras que possuem rios/mares como berço de seu nascimento (LYNCH, 2011, p. 11).

O projeto do traçado de Aracaju também veio carregado de preo-

cupações ideológicas saturadas por questões políticas e econômicas, cujas ações de implantação se constituíram de extrema complexidade, em um jogo de contraposição entre implantar uma cidade independente de quaisquer tradições estéticas e/ou manter as tradições urbanas colo- niais (NUNES, 2006, p. 127). Neste ponto, entende-se a própria essên- cia da diversidade existente no conjunto remanescente de Aracaju; essa diversidade é constituída por um Traçado Retilíneo, simples, geométri- co, que ao mesmo tempo que propõe rompimento com a tradição da implantação das cidades anteriormente erigidas no Brasil, recebe como “enfeites” complementos de uma arquitetura Eclética.

O embate entre o passado e o novo é perceptível e materializa-se

na sobreposição de um Senso de Massas em Movimento, constituído de formas historicistas, sinuosas, caracterizadas na arquitetura Eclética “versus”

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um desenho de malha perpendicular geométrica de formato “xadrez’, que irá representar um modelo nacional e internacional de urbanismo, marcado por um Culto à Linha Reta, representativo das transformações impostas pelos paradigmas higienista e, posteriormente, modernista (SITTE, 1992, p. 95). Esse modelo Traçado Retilíneo X Formas Tradicionais vem carregado de uma quantidade enorme de elementos extras, expressos na sua es-

pacialidade urbana, os quais representam a intenção ou a não intenção de rompimento do novo, que desaguaram nas transformações urbanas de uma cidade constituída por uma eterna disputa entre a natureza e

o construído, entre a cidade e o rio, a cidade e o mangue, o natural e o artificial. Desta forma, em Aracaju, os remanescentes arquitetônicos

e seu Culto à Linha, representam mais do que um modelo de traçado,

representam um conjunto de variabilidades somadas e constituíram as mudanças sofridas pelas cidades no Brasil no final do século XIX até a primeira metade do século XX. A Diversidade e a Complexidade se expressam não exatamente e exclusivamente no Traçado (Quadrado de Pirro), mas na associação com outras questões teóricas, como o SENSO DE MASSAS EM MOVIMENTO, que representa a disputa/amálgama entre as formas historicistas, as for- mas sinuosas, as formas geométricas, que também estão presentes na constituição da formação do espaço urbano no Brasil daquela época e que, em Aracaju, possuem ainda intensa representação.

Senso de Massas em Movimento

As formas arquitetônicas são constituídas pelo Volume e Massa, em que o Volume pode ser considerado tanto como uma porção de espaço contido e definido por planos, ou por uma quantidade de espaço ocupa- do pela Massa de um ou mais edifícios (CHING, 1999, p. 29), contudo, a forma arquitetônica é o conjunto de contato entre a Massa e o Espaço, e essas formas em conjunto possuem texturas, materiais, modulações de

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luz e sombra, cor, que se combinam constituindo uma qualidade indelé- vel de identidade daquela cidade.

O Movimento de Massas é composto por todos os componen-

tes da arquitetura explorados pelos arquitetos ao longo do tempo na composição natural ou artificial da paisagem. Às vezes, o Movimento de Massas são fragmentos ou parcelas remanescentes que possuem ou

introduzem na paisagem urbana sensações sobre o observador-fruidor, dando àquele espaço um caráter de diferenciação e possibilidade de ser portador de memórias e condensar identidade àquela comunidade (CULLEN, 1971, p. 11).

O Senso de Massas em Movimento poderia ser o que se denomina

“DNA” urbano, ou seja, tome-se como exemplo a cidade de Veneza, re- pleta de canais, vias de água, a relação espacial que o conjunto de casas, igrejas, palácios, os volumes, as massas (etc.) possui no Espaço e trans- mite a pura e indiscutível relação com a água que se torna sua essên- cia. Assim, muitas cidades são reconhecidas dentro de características/

qualidades/(im)perfeições originais que ao mesmo tempo que lhes dão personalidade, as colocam ou as aproximam de outras cidades portado- ras de várias similaridades. Essas aproximações dos espaços/volumes/ massas explicaria, no senso comum, por que certos locais fazem lembrar, rememorizar outros, e por que certas cidades fazem lembrar outras. Portanto, toda cidade possui uma forma que condiciona massas, existindo uma indissociável relação com os elementos naturais, como o rio, o mar, vales e montanhas, é o caso de Aracaju com o rio Sergipe, ou seja, apesar de seguir o Culto à Linha (traçado projetado), a implantação respeitou, materializou e cultivou um crescimento ao longo do rio, em que as edificações marcam ou são marcadas por essa relação. Essa condi- ção, esse Senso de Massas em Movimento, identificável em alguns conjun- tos remanescentes de Aracaju, podem também ser verificados compara- tivamente, no seu conceito mais amplo, a outros conjuntos pertencentes a cidades de origem portuárias fluviais brasileiras.

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Indicativo marcante da diversidade, o Senso de Massas em Movi- mento apresenta outras variáveis possíveis de serem apreciadas dentro de sua complexidade, como por exemplo, o que se pode chamar em Aracaju de uma demonstração desafiadora de individualidades, marcada pelo heroísmo de implantar uma cidade e suas edificações em terrenos

que apresentavam severas restrições geográficas. Essa questão está re- batida no tamanho, na forma, na tipologia, no conjunto que materializa

a própria espacialidade urbana, nas técnicas e materiais que serão utili- zados para vencer essas dificuldades impostas pelo terreno úmido e de pouca estabilidade, fazendo com que até hoje sejam respeitados padrões

e rotinas construtivas de outros tempos (Figura 2).

B

e rotinas construtivas de outros tempos (Figura 2). B A Figura 2: A – Mercado Antônio

A

e rotinas construtivas de outros tempos (Figura 2). B A Figura 2: A – Mercado Antônio

Figura 2: A – Mercado Antônio Franco e Thales Ferraz. Fonte: Pedro Leite, 2011. B – Praça Fausto Cardoso, edificações de vários estilos: Modernismo, Art Déco, Ecletismo. O Senso de Massas em Movimento. Fonte: Donizeti da Silva, 2013.

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Desta forma, pode-se perceber a natureza diversa e complexa do conjunto remanescente de Aracaju, ou seja, ao mesmo tempo que se constitui um traçado reto, simples, geométrico, que propõe um rom- pimento com a tradição da implantação das cidades até então erigidas no Brasil, um “jeito novo”, uma nova cidade, constrói-se nos moldes da tradição da arquitetura Historicista Eclética. Todavia, vão ocorrendo sobreposições, adaptações, reconstruções. Em alguns pontos, mesmo sofrendo com a força da natural condição de mudança imposta pelo tem- po e suas variáveis, a cidade resultou em conjuntos apreciáveis de grande significação, de conjuntos de variabilidades que se somaram, constituí- ram e materializaram todas as mudanças sofridas naquela cidade e que são capazes de demonstrar a “disputa” do espaço sofrida pelas cidades brasileiras ao longo de várias décadas.

Simbolismos

O símbolo é um objeto que representa outro de forma analógica

ou convencional, um sinal através do qual entende-se o design de um objeto e sua representação na sociedade da qual faz parte (JAPIASSÚ; MARCONDES, 1996, p. 248). A arquitetura remanescente de Aracaju,

como é da natureza do conjunto que carrega juízos de valores reconheci- dos, possui inúmeros simbolismos.

O conceito contido no Simbolismo associa-se aqui ao de represen-

tação das mentalidades, das mudanças de vida, das formas de pensar e agir que se materializam nas edificações e que são resultado das transfor- mações que a cidade sofre/opera/destrói/reconstrói/sobrepõe, bem como no que permanece e se torna juízo de valores históricos e estéti- cos; significados, maneiras de saber fazer e usar, extrapolando o material

e persistindo na memória, lembrado por objetos que são mantidos ou se mantém heroicamente durante essas transformações de longo prazo. Na arquitetura de Aracaju, esse Simbolismo não se apresenta ape- nas nas ideologias do Ecletismo, pois não se finda como propósito de

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uma modernidade, ele alimenta e conjuga sistemas de ideias que irão conviver com o Art Nouveau, com o Art Déco, recebendo contraposi-

ções mais expressivas com o “protomodernismo” e, especialmente, com

a arquitetura Modernista, tornando a cidade um campo de disputas de

espacialidade em uma convivência na qual não se pode distinguir um conjunto homogêneo de estilo. A diversa e complexa arquitetura remanescente de Aracaju pode

ser determinada não apenas pelo Culto à Linha (Quadrado de Pirro),

mas

por um “amadurecimento” no momento da virada entre os séculos

XIX

e XX, partindo de uma busca de afirmação a partir do conceito de

“Remodelação Urbana” (Ecletismo), indo ao encontro da afirmação de

uma “Mentalidade de Vida” (Art Nouveau; Art Déco; Modernismo). Desta

forma, o início dos Simbolismos é baseado no Modo/Gosto de viver “afran- cesadamente” representado pela “tipologia” eclética CASA/COMÉRCIO

e se desdobra a partir da industrialização tardia e da própria afirmação da individualidade buscada pelo século XX, atingindo uma pretensa menor

ou maior personalização no Art Déco, que desaguará em uma “maturi- dade” espacial urbana/arquitetônica, ou seja, nas regras da Arquitetura Modernista, que se expressa como modelo internacional, mas antes ex- perimentando e produzindo edificações heterogêneas e difíceis de serem identificadas, às vezes denominadas de protomodernistas (Figura 3). Nas edificações Ecléticas, além das habituais regras decorativas classicistas, as invenções Simbólicas são muito aplicadas, uma das mais comumente apresentadas nos frontões triangulares de construções “des-

policiadas” (LEMOS in FABRIS, 1987, p. 75) são as Estrelas de cinco pontas,

que representam as Casas Comerciais, localizadas sempre no tímpano

triangular do frontão neoclássico da construção; esse elemento decora-

tivo (estrela de cinco pontas) pode ser verificado constantemente nas

edificações dos bairros centrais de Aracaju. Outra questão Simbólica presente nas construções ecléticas dos primeiros anos do século XX é encontrada na maioria das edificações, especialmente as de tipologia chamadas de Palácios/Palacetes, que são as

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Escadarias localizadas na entrada principal da edificação. Esta mesma sim- bologia é encontrada na entrada das construções com finalidades educa- cionais. A grande escadaria frontal, às vezes também localizada interna- mente, representa a superioridade daqueles que habitam ou trabalham

no imóvel sobre as pessoas da rua, portanto, estão num plano “mais ele-

vado” do que os que não pertencem àquele modo de viver ou usar. Nas platibandas dessas mesmas construções que agora escondem novas soluções técnicas para as coberturas, podem ser vistos vasos, pi- nhões, ânforas, estátuas, fruteiras e as famosas “compoteiras”, contudo, são as estátuas representando “índios” que serão de uma personalização simbólica admirável, um dos maiores exemplos está na Ponte do Impe- rador, na antiga Rua da Frente (PORTO, 2011, p. 79). Também em edifi- cações Art Déco podem ser verificados elementos ornamentais geomé- tricos que fazem alusão a representações decorativas indígenas, como as ornamentações em formas de seta acima das janelas do Arquivo Público do Estado de Sergipe, ou mesmo, no nome referenciando simbologias

indígenas como no Palácio Serigy, na Praça General Valadão. Uma das representações SIMBÓLICAS mais interessantes do Art Déco de Aracaju é o Sobrado n. 707 na Rua Pacatuba, projeto do alemão H. A. Von Altenesch; suas linhas remetem à forma de um navio/barco.

A inspiração náutica nas execuções das edificações Art Déco foram

muito praticadas, como no Teatro de Goiânia (uma das representações mais significativas desse estilo no Brasil). O desenho desse edifício da Região Centro-Oeste imita um transatlântico ancorado e as janelas são em formas de escotilhas com superfícies curvas e linhas aerodinâmicas (BLUMENSCHEIN, 2004, p. 48), sendo seu conjunto fiel ao utilizado em cinemas e rádios. A edificação de Aracaju, apesar da tipologia residen- cial, procura tirar partido desse conceito simbólico naútico, inclusive nas janelas e nos ornamentos na forma de escotilhas que “povoam” o guar- da-corpo do pavimento superior, a cor empregada, azul marinho, é uma das cores mais uzadas pelo estilo, juntamente com o verde claro, tons pastel amarelados, os tons de cor ocre e pó de pedra (mica) também são usados no acabamento do reboco.

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C F G A D H B E Figura 3: A – Ponte do Imperador;
C F G A D H B E Figura 3: A – Ponte do Imperador;
C F G A D H B E Figura 3: A – Ponte do Imperador;
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C F G A D H B E Figura 3: A – Ponte do Imperador; B

B

C F G A D H B E Figura 3: A – Ponte do Imperador; B

E

C F G A D H B E Figura 3: A – Ponte do Imperador; B

Figura 3: A – Ponte do Imperador;

B – Casa Art Déco; C – Relógio do Mercado Antônio

Franco; D – Rodoviária Luiz Garcia; E – Solar dos Rollemberg; F – Casa Eclética/Art Nouveau “cara de

Inseto”; G – Mescla Neocolonial/Missões;

H – Instituto de Tecnologia – “Protomodernismo”.

Fonte: Donizeti da Silva, 2013.

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A arquitetura que se estabelece de 1930 até 1960 em Aracaju pro- põe um capítulo final de transformações urbanas iniciadas no final do século XIX, uma vez que atinge a partir do Art Nouveau e do Art Déco, conceitos SIMBÓLICOS como beleza, conforto, sofisticação, segurança, conveniência, propriedade, pretenso “pertencimento”, ou seja, a “ade- quação” das partes à concepção de cada coisa individualmente é muito importante para a beleza do todo. Tal referência simbólica é encontrada especificamente no Art Déco, onde a construção de cada parte é delimitada e regulamentada pela função que o objeto irá desempenhar. A casa ou a edificação deveria de- monstrar plena adequação entre as partes – estrutura e beleza em co- nexão e servir à sua função (PEVSNER, 1981, p. 9). Já nas decorações Art Nouveau, as flores nos gradis e nas entradas das construções ganham conotações estilizadas simbólicas que, às vezes, nos remetem a arranjos repetitivos marinhos. Entretanto, a grande repetição adentra nas ques- tões de reinvenções Rocaille, num misto de revival eclético com inspi- rações personalizadas, como na Platibanda do Hospital Gabriel Soares ou mesmo no exemplo mais expressivo de Aracaju que é o Casarão dos Rollemberg (PORTO, 2011. p. 38). Há também exemplos mais pitores- cos, como a fachada com “Cara de Inseto” da Rua Campos, n. 499. Para que a Arquitetura atingisse a condição Simbólica plenamen- te Moderna, como fundamentalmente nova e diferente, foram necessá- rias novas condições sociais e novos materiais de construção no Brasil (DORFLES, 1971, p. 14). Mas, em Aracaju, isso não significava que ela não fosse uma continuação e uma derivação daquela arquitetura existen- te. A arquitetura moderna se fundamentou inicialmente em debates e era subsidiada pelos conceitos de praticidade e economia, arquitetura de volumes, linhas simples, poucos elementos decorativos, nada de masca- rar a estrutura do edifício (SEGAWA, 1997, p. 44). Assim, entre 1910 e 1930, no Brasil (e em Aracaju) não se deixou de ter obras modernizadoras, no entanto, mesmo tendo Warchavchik como pioneiro, as arquiteturas desse período também foram chamadas

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de “Modernas”, “cubistas”, “futuristas”, “comunistas”, “judias”, “estilo 1925”, “estilo caixa d’água” e, por que não, “protomodernistas”, como

o Instituto de Tecnologia e Pesquisa de Sergipe, edificado em 1947, no bairro São José, em Aracaju. As plataformas da Modernidade foram definidas no Brasil por Lúcio Costa, tendo a engenheira Carmem Portinho como grande entusiasta.

O grande marco foi a sede do Ministério da Educação e Saúde, iniciado

em 1937 e terminado em 1942 (SEGAWA, 1997, p. 81). Em Aracaju,

um dos maiores representantes Simbólicos da arquitetura Modernista é

o Terminal Rodoviário Luiz Garcia, inaugurado em 31 de março de 1962

(a maioria das cidades brasileiras desconheciam essa tipologia até a dé- cada de 1960), pois significou mais do que um local de viagens, marcou

a regulamentação de critérios de localização e a inserção de novas leis

de uso e parcelamento do solo, bem como novas tecnologias constru- tivas, além do desmanche, para sua implantação, do Morro do Bomfim (PORTO, 2011, p 118). Simbolicamente, as características que podem ser encontradas no Terminal Luiz Garcia não se remetem apenas a conceitos como a busca do aperfeiçoamento funcional dos serviços urbanos, mas, ao princípio gerador de volumes simples e traçados volumétricos reguladores que se concentram na proposta de poder “ver o interior”, nem tanto pelo uso do vidro, mas pelo conceito do exterior se tornar uma projeção do interior, no qual as edificações parecem ser objetos construídos em série, ou seja, repetem as mesmas soluções, uma vez que se baseiam no pressuposto do espaço como “máquina” (BENÉVOLO, 2001, p. 430). O Terminal Luiz Garcia poderia ser inserido em um capítulo à par- te chamado de O Concreto Armado e a Pré-fabricação em Aracaju; não se pode precisar quando começou a pré-moldagem na construção, contudo, no Brasil, a firma dinamarquesa Christiani-Nielsen executou em 1926 o Hipódromo da Gávea no Rio de Janeiro (VASCONCELOS, 2002, p. 153). No Terminal Luiz Garcia de Aracaju, os pilares em forma de grandes brises ou “aletas” invertidas nas fachadas são uma das execuções personalizadas

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modernistas mais interessantes da arquitetura brasileira. A referida edifi- cação segue os conceitos modernistas de Planta-Fachada-Livre. O Terminal empreendeu esforços de aprimoramento dos cálcu- los estruturais e dos materiais pertinentes à realização da obra e serviu como exemplo das técnicas e preceitos que eram desenvolvidos nos canteiros de obras, porém, sua maior contribuição Simbólica foi o de representar uma nova mentalidade de vida moderna, uma vez que pos- sibilitou o crescimento urbano pautado na troca do transporte maríti- mo/ferroviário para o rodoviário, além de permitir a expansão da malha urbana de Aracaju. Em Aracaju, até 1910, ocorre uma coexistência de estilos. A partir da Primeira Guerra Mundial, nas cidades brasileiras, torna-se reconhecí- vel nessa coexistência uma contraposição ao Ecletismo, denotado por um estilo denominado Neocolonial, o qual pode ser dividido em dois grupos:

o Neocolonial Luso-Brasileiro e o Neocolonial Hispano-Americano, tam- bém chamado de Missões. Apesar de o senso comum dizer que o Neo-

colonial teria se originado no Brasil, ele teve origem os Estados Unidos, a partir do final do século XIX nas áreas colonizadas por espanhóis, como a Califórnia, Novo México, Arizona, Texas e a Flórida. A ideologia marcante do Neocolonial no Brasil está associado à retomada de uma cultura local, própria, de busca da “identidade” nacional, contrapondo-se ao exagera- do prestígio do uso dos revivais historicistas europeus. Como no Jardim América da cidade de São Paulo, os bairros vizi- nhos à área central de Aracaju, por volta de 1930, pertencentes naquela época à classe média alta, ainda possuem inúmeros remanescentes de construções neste estilo, às vezes denominadas de casas com alpendres. Este estilo Neocolonial/Missões é facilmente encontrado na área históri- ca central da cidade de João Pessoa, Estado da Paraiba, no Nordeste bra- sileiro. Entender como o estilo Missões ganhou tanta popularidade no Brasil, como também nas construções da década de 1930 em Aracaju,

é compreender os Simbolismos que esse tipo de arquitetura expressava

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e que estava ligada às transformações do modo de viver agenciados pela

cultura norte-americana de Hollywood, ou seja, no American way of life. Um bom exemplar de tipologia Sobrado, estilo mesclado entre Neocolonial/Missões, pode ser apreciado na Av. Ivo do Prado, n. 896. Nessa edificação pode-se verificar o telhado em quatro águas, o que de- nota uma carcterística luso-brasileira, entretanto, o elemento marcante são os arcos com bases largas, utilizados na américa hispânica, influên- ciada pela arquitetura árabe e alterados para cumprir a função de dar passagem a “mulas” que transportavam cargas dos dois lados. Outras características se ligam aos torreões circulares com beirais e às janelas com gradis de ferro batido com motivo árabes. Em conjunto com os Mercados Municipais, as fábricas são para uma cidade representações carregadas de grande Simbolismo. A principal ati- vidade industrial da cidade de Aracaju por volta de 1900 foi a produção de tecidos. Nesse contexto, destaca-se como edificação remanescente a Fábrica Confiança (Ribeiro Chaves) no bairro Industrial.

A tipologia construtiva das fábricas, em específico, da Fábrica Confiança, tem sua composição e funcionalidade importada nos mol- des ingleses, ou seja, formas em grandes galpões com oitões triangula- res influenciaram a construção de modelos de casas pertencentes aos chamados conjuntos de Vilas Operárias, como os da Vila Queiroz no centro de Aracaju. Portanto, existe no Ecletismo um dualismo conceitual Simbólico, em que por um lado todas as tipologias utilizam o mais variado repertório

de revivais historicistas, recheando a cidade de “neos”, e, por outro lado,

a Fábrica como novo componente material e imaterial, impregnando de

vida a mentalidade de uma época e se transformando na grande represen- tação urbana de uma cidade moderna, filha da sociedade industrial. Outro elemento urbano marcante são os Mercados Municipais pre- sentes nas cidades desde tempos remotos. Em cada época, naturalmen- te, tais mercados acondicionam funções intensas, como por exemplo, no período romano, em que havia a venda de mercadorias das mais variadas

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ordens e as escriptorias para negociação dessas produções, as quais eram chamadas de “Foro Boario e Foro Olitorio” (BENÉVOLO, 1999, p. 139). No Nordeste brasileiro, as tradições de feiras e locais de comercia- lização dos mais variados produtos determinaram locais de valor patri- monial expressivo, que se tornaram, na maioria das vezes, vizinhos dos Mercados Municipais, ou até mesmo, os próprios locais de implantação dessas edificações. Esta tipologia que marcou as transformações urbanas das cidades brasileiras na virada do século XIX para o XX, teve como exemplo signifi- cante o Mercado Municipal de São Paulo. No caso de Aracaju, o Simbo- lismo do Mercado local estaria mais próximo à representação cultural e geográfica do Mercado Ver-O-Peso da cidade de Belém do Pará. Obvia- mente, guardadas as questões Simbólicas locais, não seria exatamente a arquitetura Eclética que aproximaria essas duas edificações, mas sim sua personalização, ou seja, mais especificamente, as suas implantações nas margens de rios, os respectivos “sabores e odores” e as relações de vizi- nhança que delas “exalam”. No Mercado de Aracaju, especificamente no mais antigo, o Antônio Franco, o objeto que mais representa simbolicamente a nova vida urba- na é o Relógio, que marca o ritmo do tempo, a hora de chegada e parti- da das embarcações, do trem, do comércio, constituindo o ponto focal dessa edificação e da cidade existente naquele momento. No Mercado não apenas se comprava, mas também se conhecia e se deixava co- nhecer, local onde muitos relacionamentos aconteciam, ocasionando posteriores casamentos; no qual as notícias do mundo social da época fervilhavam a espera de embarcar nos vapores que ancoravam no em- barcadouro logo à frente. O conjunto eclético de Aracaju do início do século XX, formado pelos mercados Antônio Franco e Thales Ferraz, que foram inspirados (o primeiro) num pastiche de colagens neorrenascentistas, justapondo elementos amaneirados, chama atenção devido à desproporcionalidade do Relógio em contraposição à predominância da horizontalidade do

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corpo da edificação em forma de claustro. No Thales Ferraz (1940), ape- sar das descaracterizações provocadas nas “reinvenções” de anos recen- tes, encontra-se um Neocolonial tardio ao gosto das Missões e uma série de inserções ecléticas inspiradas em composições medievalistas afran- cesadas; contudo, a representação Simbólica de ambos está no pontuar o ritmo de vida da cidade, como uma pintura, a persistência da memória (CHAUÍ, 1999, p. 9).

Rotina Vazia da Arquitetura

Um dos conjuntos remanescentes mais significativos presentes na área histórica central de Aracaju e nos bairros vizinhos ao Centro é constituído pela arquitetura Eclética. Neste modelo de “ressignificação” (NORA, 1993, p. 7-28), a justificativa da essência destas construções realizadas entre 1860 a 1930 se assenta sobre a “denominação” atri- buída por vários arquitetos a esse período como de uma “Rotina Vazia na Arquitetura”, ou seja, significa que, nesse momento, os arquitetos e, especialmente, os engenheiros responsáveis pelas edificações, primeiro levavam em conta a estrutura adequada àquela função e os requisitos técnicos construtivos, acrescentando um “pouco” de arte à fachada, a partir de modelos/padrões baseados em um livro ou catálogo de estilos históricos (REIS FILHO, 1987, p. 61). Ressignificar vem da palavra Significado ou seja, a teoria do signifi- cado da linguagem examina os vários aspectos de nossa compreensão das palavras e expressões linguísticas e dos signos em geral, um desses aspectos centrais é a relação de referência, que é um dos elementos constitutivos do significado. Desta maneira, por trás de simples pedras há entendimentos mais do que meramente técnicos, há entendimentos de mentalidades de vida e comportamentos que se materializam através das edificações e no seu uso (JAPIASSÚ; MARCONDES, 1996, p. 247). Outra característica marcante do Ecletismo em Aracaju é a ma- nifestação diversa e complexa das edificações, fruto de uma constante

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inquietude intelectual que marca singularidades e individualidades ex- pressivas. Apesar de traços de arquitetos ou estilos de outros países, como por exemplo, o neorrenascimento dos mestres Italianos que por aqui passaram por volta de 1920, como Bellando Bellandi e Antonio Frederico Gentil, presentes na reforma e alteração de várias edificações locais, os remanescentes Ecléticos demonstram personalizações de uma nova clientela burguesa que se instalava na cidade (PORTO, 2011, p. 39). De acordo com Jussara da Silveira Derenji (1998, p. 23) a “imigração ita- liana, nesse período, constitui um fenômeno de massa e adquiriu dimensões inéditas no país”. Em Aracaju, essa “condição” é encontrada em edificações rema- nescentes que representam construções alçadas como monumentais, como o Prédio da Delegacia do Ministério da Fazenda, o Palácio Olimpio Campos, o Palácio Fausto Cardoso, o Palácio Inácio Barbosa, o Edificío do Memorial Judiciário, a Cúria Metropolitana, a Matriz N. S. da Conceição e muitos outros. No entanto, ao percorrer as ruas dos bairros centrais de Aracaju, como as ruas Itabaianinha/Itabaiana e João Pessoa, evidencia- -se um conjunto de construções civis, altamente representativas deste chamado Esvaziamento e marcante como presença de remodelações de influência italiana em Sergipe (Figura 4).

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A B C D E F G H I Figura 4: A – Prédio da
A B C D E F G H I Figura 4: A – Prédio da
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A
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A B C D E F G H I Figura 4: A – Prédio da Delegacia

I

Figura 4: A – Prédio da Delegacia do Ministério da Fazenda;

B

– Palácio Olímpio Campos; C – Palácio Fausto Cardoso;

D

– Palácio Inácio Barbosa; E – Edifício do Memorial Judiciário;

F

– Cúria Metropolitana; G – Matriz N. S. da Conceição;

H

– Rua Itabaianinha/Itabaiana – Batalhão da Polícia Militar;

I – Rua João Pessoa. Fonte: Donizeti da Silva, 2013.

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No conjunto eclético remanescente de Aracaju, podem-se distin- guir, como em outras cidades brasileiras portadoras deste tipo de pa-

trimônio Eclético, quatro tipos gerais de cultura arquitetônica que dão significado ao conceito de “Esvaziamento”:

a) edificações com composições estilísticas baseadas na adoção

imitativa (não original) de formas do passado, das quais se per- cebem predominância de formas neogregas (como os Palácios Olímpio Campos e Fausto Cardoso) e também neogóticas (como a Catedral Metropolitana);

b) construções de historicismos tipológicos (não originais), volta-

das para uma finalidade específica, como públicas, escolares, lazer etc., que empregam o classicismo, o neobarroco e o neorrenascen-

tismo (como os prédios da Delegacia do Ministério da Fazenda, do Palácio Inácio Barbosa, do Cúria Metropolitana, do Memorial do Poder Judiciário de Sergipe e do Batalhão da Polícia Militar etc.);

c) edificações de menor porte que procuram imitar as soluções

empregadas nas construções monumentais ou de maior impor- tância na cidade, ou seja, cópias de menor tamanho (originais) e

que empregam ornamentações e soluções tipológicas de “neos” variados (Imóveis nas várias ruas centrais de Aracaju, como nas ruas Itabaianinha/Itabaiana e João Pessoa);

d) edificações formadas por feições denominadas de pastiches com-

positivos possuidoras de grande margem de soluções inventivas, às vezes comentada por estudiosos como de “mau gosto” e chamadas de bricolagens (FABRIS, 1987, p. 15), presentes em várias ruas da área central e bairros vizinhos ao Centro.

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Importante ressaltar que nos remanescentes ecléticos da área cen- tral de Aracaju e bairros vizinhos ainda se pode verificar os conceitos ideológicos que determinaram a maneira de viver das pessoas daquela época, ou seja, apesar das grandes mudanças, adaptações, destruições, esses remanescentes agregados, juntamente com toda a Diversidade e Complexidade, permitem reconhecer praticamente todas as transfor- mações sofridas pelas cidades brasileiras do final do século XIX até a metade do século XX.

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CAPÍTULO 2

REMANESCENTES:

diversidade e complexidade

     
     
     
     
     
     

Pode parecer simplista e suficiente a explicação do por que preser-

var o Traçado de Pirro em Aracaju como representação do “Culto à Linha” dentro de um modelo de implantação urbanística no Brasil. Por outro lado, essa aparente simplicidade teórica agrega uma fragmentalidade de objetos possuidores de uma riqueza Diversa e Complexa, representativas da própria disputa entre as formas históricas X as formas sinuosas X as formas geométricas X paisagem natural e que, apresentam os princípios arquitetônicos que nortearam a constituição das cidades da metade do

XIX até metade do XX, expressando grande intensidade de transforma-

ções do modo, gosto e necessidades de vida. Essa grande intensidade de transformações, possíveis de serem ain- da “fruídas” no conjunto remanescente dos bairros centrais de Aracaju, apresentam aspectos conceituais variados, que “modelam” represen- tatividade nacional, ou seja, podem-se observar, nas características da arquitetura remanescente aracajuana, vários conceitos arquitetônicos marcantes da transição urbana sofrida pelas cidades nacionais da metade

do século XIX até a metade do século XX, como por exemplo: 2.1. Rup- tura e não ruptura com as tradições; 2.2. Originalidade e não originalidade da forma; 2.3. Destituição e a não destituição de preocupação ideológica; 2.4. Independência e/ou dependência de conceitos estéticos, entre outras. Dentro das referidas questões, podem ser ainda observadas ou-

tras variáveis como: a) a busca de harmonizar o construído ou de não

harmonizar o construído com o natural (rio, mangue, mar); b) formas/ volumes orgânicos e não orgânicos de inspiração, modulando massas

em movimento; c) uso de cores e texturas pertencentes e não perten-

centes a estilos concisos (o jogo de cores); d) desenvolvimento e não de-

senvolvimento de novos materiais e técnicas construtivas (ferro/vidro/ concreto); e) edificações que articulam o interior com o exterior na sua função e forma; f) rebatimento e/ou continuidade do Culto à Linha na evolução urbana da cidade (vitória ou derrota do Quadrado de Pirro); g) desenho figurativo na tipologia construtiva fruto ou não de uma indi- vidualidade ou personalização criativa; h) aspecto simbólico estrutural e

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as provocações entre as construções e as ondulações do rio/cidade das águas; i) aparecimento marcante de uma arquitetura “grotesca” como foi chamado o neocolonial por parte dos modernistas etc. Esses conceitos listados acima “ressignificam” o entendimento de o porquê preservar os remanescentes do conjunto arquitetônico dos Bairros Centrais de Aracaju, uma vez que, mais do que indicar e/ ou mostrar que esse conjunto é marcado pela arquitetura “dita” em “es- tilos” Eclético (neoclássico/neogótica/neocolonial/outros revivais), Art Nouveau, Art Déco, Protomodernista e Modernista, eles expressam modelos identificáveis como pertencentes a uma Cultura Arquitetônica Nacional e, especialmente, representativos da maneira de viver e fazer uso das edificações destas épocas.

Ruptura e não ruptura com as tradições

Sabendo que o espírito da época (metade do século XIX), diferen- te dos modelos urbanos coloniais anteriormente aplicados, estava do- minado por um culto ao geométrico, especialmente na condição aca- dêmica e prática dos engenheiros europeus e brasileiros. A pergunta é:

teria ocorrido uma total ruptura com a tradição de se fazer arquitetura e urbanismo no Brasil, e isso pode ser expresso nos remanescentes da cidade de Aracaju? Em Aracaju, então, na prática, tem-se um traçado retilíneo, quadra- do/ortogonal, diferente do traçado das cidades coloniais, entretanto, sua arquitetura se vê “recheada” de construções historicistas, numa paradoxal realidade entre romper e manter as tradições (Figura 5). Essa mesma con- dição poderá ser verificada em muitas outras cidades nacionais; um dos locais mais representativos dessa condição é a cidade de Belo Horizonte, com traçado retilíneo e construções ecléticas (LEME, 1999, p. 222).

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A B Figura 5: A – Mapa de S. Cristóvão/SE de 1850 (cidade fundada em

A

A B Figura 5: A – Mapa de S. Cristóvão/SE de 1850 (cidade fundada em 1589

B

Figura 5: A – Mapa de S. Cristóvão/SE de 1850 (cidade fundada em 1589 – 4 ª cidade mais antiga do Brasil –, primeira capital da Província de Sergipe, com modelo urbanístico colonial brasileiro). Fonte: AZEVEDO, Paulo Ormindo David de. (Coord.) Plano Urbanístico de São Cristóvão. Vols. II e III. Grupo de restauração e renovação arquitetônica e urbanística. FAU-UFBA, Salvador, 1980. B – Aracaju, cidade criada para ser a nova capital da província em 1855 em substituição a S. Cristóvão. O Plano de Pirro e as atividades principais em 1857 (Planta de Pereira da Silva). Novo modelo de urbanismo – Culto à Linha. Fonte: Porto (1945. p. 49).

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Na composição inicial da malha urbana de Aracaju, havia uma tipo- logia geométrica (diferente dos traçados urbanos coloniais), que tentava dialogar e não conseguia com uma arquitetura Eclética, composta por edificações típicas do final do século XIX no Brasil. Portanto, temos, no conjunto remanescente da arquitetura de Aracaju, a possibilidade de dar às futuras gerações o vislumbrar objetivo da tensão ocorrida e materia- lizada nas áreas históricas urbanas das cidades brasileiras na transição entre os séculos XIX e XX, a partir da qual, verifica-se, naquele momento, uma disputa entre passado e presente. Desta forma, não se trata apenas de uma edificação, e sim de uma relação entre essa edificação (Ecletismo) x composição de traçado (geometrismo), ou seja, de uma representação da Construção da Espacialidade em Disputa, principal característica das cidades mundiais e especificamente brasileiras, que se acalora na transi- ção do século XIX para o XX, documentada e tão bem demonstrada pelas mudanças impostas pelos engenheiros desse período, como no exemplo de Pereira Passos nas intervenções urbanas no Rio de Janeiro. Sendo assim, o ideário construtivo em Aracaju permeava uma dis- puta entre o passado e o presente, entre o Ecletismo e o Traçado orto- gonal e retilíneo, natural a algumas cidades brasileiras daquele período. Entretanto, soma-se a esse ideário outra questão capaz de ilustrar essa tensão entre romper e não romper com as tradições, ou seja, quando se analisa a arquitetura remanescente do conjunto central de Aracaju, exemplificado em edificações como o Palácio do Governo e o Prédio da Delegacia do Ministério da Fazenda, observam-se as ornamentações posteriormente inseridas pela missão italiana e que apesar de produzir um “rejuvenescimento” da edificação frente a sua forma original mante- ve um desalinhamento com a composição espacial retilínea. Estas alterações posteriores nas edificações demonstram clara- mente que, apesar do espírito construtivo da época estar buscando novas representações estéticas, as edificações ainda mantêm como conceito de beleza os revivalismos materializando estéticas contrarias a geometrização imposta pelo Culto à Linha do Quadrado de Pirro; ou seja,

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tais edificações, apesar de receber, no início do século XX, ampliações de ornamentação italianizadas e depois do Art Nouveau, mantem sua com- posição historicista, caracterizando plenamente o que se denomina de Ruptura e não Ruptura com as tradições, num jogo de significados que ao mesmo tempo buscam mudanças mas não conseguem romper com o passado e, da qual, os remanescentes arquitetônicos de Aracaju são grandes representantes (Figura 6).

A

de Aracaju são grandes representantes (Figura 6). A B Figura 6: A – Palácio do Governo

B

Figura 6: A – Palácio do Governo (Olímpio Campos); B – Prédio da Antiga Delegacia do Ministério da Fazenda. Fonte: Donizeti da Silva, 2014.

do Ministério da Fazenda. Fonte: Donizeti da Silva, 2014. 40 | 214 arquitetura aracajuana : a

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Outros exemplos arquitetônicos remanescentes em Aracaju que marcam essa tensão de Ruptura e não Ruptura são as construções re- ligiosas de influência neogótica, representadas pelas três Igrejas mais antigas da Cidade: a Igreja de São Salvador, a Catedral Nossa Senhora da Conceição e a Igreja de Santo Antônio (Figura 7). Essas três edificações sofreram alterações nas suas concepções ini- ciais, recebendo elementos compositivos do Ecletismo. A Catedral de Aracaju, por sua vez, é uma representação ímpar des- sa busca de Ruptura e não Ruptura com as tradições, materializada por um objeto construído/alterado/transformado, ou seja, é uma edifica- ção Eclética, marcante no Neogótico. Sua forma e elementos primários constitutivos (janelas e portas ogivais), assim como sua torre e frontis- pício que buscam alinhavamento com a verticalidade do gótico flame- jante (obviamente, guardando “grandes diferenças monumentais”), bem como, o seu interior, nas reproduções pintadas de abóbadas, lembrando nervuramentos estruturais, representam soluções que marcam a tradi- ção de se construir igrejas daquela época no Brasil. Entretanto, apesar de mostrar tradição religiosa construtiva deste período é contrária ao traçado retilíneo das praças e ruas que formam o Plano de Pirro; o estilo da edificação contraposta ao geométrico traçado retilíneo do projeto de Aracaju, apenas se aproxima da forma reta em alterações na cúpula em flecha assente na torre, realizada por volta de 1936, em estilo Art Déco (NASCIMENTO, 1981, p. 94).

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A B C Figura 7: A – Catedral de Aracaju, Paróquia N. S. da Conceição,

A

B

C

A B C Figura 7: A – Catedral de Aracaju, Paróquia N. S. da Conceição, na
A B C Figura 7: A – Catedral de Aracaju, Paróquia N. S. da Conceição, na

Figura 7: A – Catedral de Aracaju, Paróquia N. S. da Conceição, na Praça Olímpio Campos, 228, centro de Aracaju; B – Igreja de São Salvador na Rua de Laranjeiras, 66, no centro de Aracaju, foi edificada em 1857, mas reformada em 1911; C – Igreja de Santo Antônio na Colina de Santo Antônio, localizada na Praça Siqueira de Menezes no Bairro de Santo Antônio. Fonte:

Donizeti da Silva, 2013 (A), 2014 (B e C).

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Outra questão que chama a atenção na referida edificação é sua im- plantação nesta espacialidade geométrica, na “cabeça” da Praça Olímpio Campos, marcando um tipo de “eixo monumental” entre o rio (essên- cia da origem urbana de Aracaju), o poder (Palácios do Governo) e a re- ligiosidade (presença de Deus na cidade-catedral). Assim, temos os três elementos tradicionais e representativos da espacialidade urbana de qual-

quer cidade (água, política e religião) (Figura 8). No entanto, seu posicio- namento rompe com a tradição de hierarquia espacial das cidades que vêm desde tempos da antiguidade, pois antes, em primeiro plano vinha

a religiosidade, depois a política. As novas cidades “projetadas/planeja-

das”, a partir da metade do século XIX, começam a colocar as edificações relacionadas à política em posição hierárquica mais expressiva do que as construções religiosas. Os três elementos mencionados (água, política e religião), que compõem a arquitetura das praças centrais de Aracaju, demonstram essa questão, especialmente a Catedral de Aracaju que foi implantada

atrás dos Palácios do Governo que ficam como primeiros vizinhos do Rio

e vistos primeiro ao olhar de quem chega à cidade. Portanto, a Catedral

de Aracaju é capaz de representar a Ruptura e a não Ruptura com as tra- dições construtivas no Brasil, bem como, guardadas as devidas propor- ções, pode ser comparada à Catedral Paulistana da Sé, que é representa- tiva dessa mesma condição teórica da arquitetura brasileira, a partir da metade do século XIX e início do XX.

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Figura 8: Vista do conjunto das três praças: em primeiro plano, o Rio Sergipe e a Praça Fausto Cardoso, local dos Palácios do Governo; ao centro, a Praça Almirante Barroso, e, ao “fundo”, a Praça Olímpio Campos com a Catedral Metropolitana. Fonte: Pedro Leite, 2011.

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Uma das mais expressivas representações das mudanças ocorridas nas cidades brasileiras entre os séculos XIX e XX foram as alterações im- postas pelos novos “gostos”, vindos especialmente da França. Mudanças econômicas e sociais (paradigma higienista/paradigma modernista) provocaram uma continuidade de alterações na espacialidade urbana de forma intensa, a qual se estenderia além da metade do século XX. Em Aracaju, essas mudanças podem ser verificadas e ainda fruídas em vários remanescentes isolados ou em conjuntos de edificações em várias ruas da área central e vizinhanças (Figura 9), conforme avaliação descrita em Relatório do IPHAN/SE realizado em 2010:

O rebuscamento das fachadas também afetou as novas construções, bem como as casas e lojas comerciais do Centro, muitas das quais teriam as fachadas reformadas por conta da moda, enquanto man- tinham o interior e distribuição dos cômodos do partido original (IPHAN/SE, 2010a, p. 13 e 14).

cômodos do partido original (IPHAN/SE, 2010a, p. 13 e 14). A B Figura 9: A –

A

do partido original (IPHAN/SE, 2010a, p. 13 e 14). A B Figura 9: A – Edificação

B

Figura 9: A – Edificação eclética na Rua João Pessoa no centro de Aracaju; B – Edificação na Av. Ivo do Prado, tipologia de casa comercial com a tradicional platibanda com a estrela de cinco pontas (ornamento simbólico muito encontrado nos remanescestes de Aracaju). Fonte: Donizeti da Silva, 2013.

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Mas, na maioria das cidades brasileiras, tanto nas novas capitais, como nas cidades do interior do Brasil, como Ribeirão Preto no Estado de São Paulo, podem-se verificar essas transformações impostas pelas mudanças econômicas, sofridas com a alteração de ciclos econômicos, que levavam a variação brusca de quem detinha o poder econômico e, consequentemente, a mudança ornamental/funcional de suas edificações (SILVA, 2011, p. 29). Desta forma, as edificações eram alteradas, inicialmente impondo modeloshistoricistasedepoismodelosornamentais,comooArtNouveau. Essas alterações também vinham condicionadas às novas propostas higie- nistas que dominavam o período. A grande questão da ruptura completa com as tradições ficava representada nas edificações pela mudança apenas das fachadas e manutenção das tipologias funcionais interiores, a questão é que, rapidamente, ocorre à vitória das novidades/exigências/viver sobre as tradições, e, também, as alterações no espaço interior das edificações acompanham o mesmo ritmo das alterações propostas nas fachadas. O grande exemplo é a transformação dos espaços interiores em espaços comerciais formados por grandes vãos abertos destinados a guardar mercadorias e que, no caso de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, era para guardar café. Já no caso de Aracaju, o Porto marítimo irá impor a necessidade de espaços para guardar as mercadorias que vinham do interior e que iriam esperar seu embarque, assim, várias construções transformaram-se em conjuntos de armazéns (Figura 10). Era como se a espacialidade urbana sofresse a migração dos antigos “trapiches” do in- terior, como os da cidade de Laranjeiras para Aracaju. Essa seria uma das principais tensões entre a Ruptura e a não Ruptura com as tradições, ou seja, novas “peles” construídas (espaços interiores), ocupando antigos “corpos” estruturais ecléticos (grandes armazéns para depósitos).

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A B Figura 10: A – Av. Otoniel Dória (antiga Av. Rio Branco/Rua da Aurora),

A

A B Figura 10: A – Av. Otoniel Dória (antiga Av. Rio Branco/Rua da Aurora), edificação

B

Figura 10: A – Av. Otoniel Dória (antiga Av. Rio Branco/Rua da Aurora), edificação da tipologia armazéns, em frente ao Mercado Antônio Franco e antigo cais do porto do Rio Sergipe; B – Edificação na tipologia de armazéns na Rua Santa Rosa, nas proximidades dos Mercados (Antônio Franco, Thales Ferraz e Albano Franco) e do antigo cais do porto do Rio Sergipe. Fonte: Donizeti da Silva, 2014.

Assim, Aracaju é capaz de representar, dentro das temáticas a se- rem preservadas no Brasil, as transformações impostas às edificações na transição do século XIX para o XX, ocorrida na espacialidade da maioria das cidades brasileiras desse período. Essas transformações do espaço interior das edificações, hoje, aco- modam outras questões comerciais, como lojas e comércios variados, além de lojas de departamentos. Mas, ainda são capazes de demonstrar, não apenas pela ornamentação de suas fachadas, mas pela espacialida- de de seu interior, juízo de valores a serem protegidos na construção da identidade local e nacional. Dentro dessa diversidade, também encontramos várias constru- ções de moradia mais simples e também construções mais expressivas e ocupadas pela elite naquela época. Esses remanescentes mais elitistas também são descritos no Relatório do IPHAN/SE de 2010:

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As exceções foram as residências da elite em que os interiores fo- ram redecorados de forma exuberante com destaque para as pin- turas artísticas parietais. O melhor exemplo dessa arquitetura é o Casarão da família Rollemberg, que fica na orla do bairro São José, e foi restaurado recentemente para ser sede da Ordem dos Advoga- dos do Brasil em Sergipe. (IPHAN/SE, 2010a, p. 13 e 14).

São nessas construções denominadas “mais elitistas” que se en- contram outros condicionantes marcantes da Ruptura e da não Ruptura. Os novos representantes da economia, como os comerciantes/indus- triais, mesmo migrados das representatividades agrícolas, passam a ocu- par destaque no cenário local. Isso vai acontecer na maioria das cidades brasileiras e será o estopim, inclusive, para as propostas das novas capi- tais de Províncias e Estados do Brasil. No caso de Aracaju, as edificações irão demonstrar essa ruptura rela- cionada às mudanças que então se processavam pelo Brasil. As edificações receberam ornamentações variadas ainda remanescentes dos revivais historicistas, mas, rapidamente, irá se impor o gosto pelo Art Nouveau. O casarão da família Rollemberg é exemplar digno e marcante das trans- formações impostas à arquitetura nacional do período em análise. O que está no foco da “ressignificação” do olhar preservacionista é que, em Aracaju, essa arquitetura, representada por objetos do final do século XIX e início do XX, possui todos os “ingredientes” marcantes do que então ocorria nas cidades brasileiras daquele momento e, portanto, é possuidora de uma dignidade ímpar a ser preservada no contexto nacional. Entre essas condições teóricas representativas podemos encontrar no conjunto remanescente de Aracaju os conceitos mais relevantes da formação da espacialidade urbana nacional daquela época, como: a) tudo tinha que estar pronto o mais rápido possível; b) ocorrência, portanto, de uma revolução de métodos construtivos; c) os proprietários e constru- tores abusam de novos materiais e de fórmulas originais; d) as cidades recebem “avanços”, a partir dos estudos da engenharia e dos paradigmas

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higienista/modernista e, consequentemente, desenvolvimento tecno- lógico; e) as edificações passam a representar e materializar o fortale- cimento de uma burguesia. Contudo, todos esses aspectos se mistu- ram às maneiras tradicionais e às “fórmulas” antigas do “saber fazer” e construir (Figura 11). Em cada edificação ficam evidentes que ocorrem diferenciações que têm nessas condições descritas acima seus trilhos condutores, en- tretanto, natural a este momento urbano nacional e mundial, o conjunto remanescente e proponente a ser preservado de Aracaju é formado por um conjunto de ambiguidades, variações, diversidades que dialogam e não dialogam com o conjunto urbano como um todo, que se integram e se desassociam neste conjunto chamado de área histórica central, mas que, no entanto, perfazem objetos capazes de representar a Ruptura e a não Ruptura com as tradições. Entre essas ambiguidades, variações, diversidades, complexidades, encontram-se no conjunto remanescente de Aracaju edificações carac- terizadas pelo estilo Chalé (Figura 12), específico daquele momento do início do século XX (comuns na cidade do Rio de Janeiro), ainda dentro do Ecletismo, mas concorrendo para novas formulações arquitetônicas providas por novos “gostos”, como a associação com a Art Nouveau. O relatório do IPHAN/SE de 2010 indica esse conjunto da seguinte forma:

Nas décadas de vinte e trinta, também surgem outros padrões arquitetônicos de influência europeia. São edificações de dois pavimentos para os senhores de posses com feições de chalés europeus que foram construídos no Centro e no bairro São José. O destaque é o conjunto de quatro chalés consecutivos na primeira quadra da Rua de Estância (IPHAN/SE, 2010a, p. 14).

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A B G C D Figura 11: A – Sobrado Eclético na Rua João Pessoa
A B G C D Figura 11: A – Sobrado Eclético na Rua João Pessoa
A B G C D
A
B
G
C
D

Figura 11: A – Sobrado Eclético na

Rua João Pessoa – comércio no térreo

e

residência no primeiro pavimento;

B

– Associação Comercial próximo ao

Mercado Antônio Franco – Ecletismo mais Art Nouveau; C – Solar dos Rollemberg –

Eclestismo mais Art Nouveau;

D – Instituto Parreiras Horta – Ecletismo

Islâmico; E – Hospital Gabriel Soares – Ecletismo mais Art Nouveau; F – Cúria Metropolitana – representação de uma nova burguesia urbana; G – Arquivo Memorial do Judiciário – representação das novas burguesias/poder urbanas do início do século XX; H – Casarão da Av. Barão de Maruim – Atual Sede do IPHAN/ SE ; reresentação de novas soluções sanitaristas, técnicas e de implantação no lote. Fonte: Donizeti da Silva, 2013.

E

de implantação no lote. Fonte: Donizeti da Silva, 2013. E F H 50 | 214 arquitetura

F

implantação no lote. Fonte: Donizeti da Silva, 2013. E F H 50 | 214 arquitetura aracajuana

H

implantação no lote. Fonte: Donizeti da Silva, 2013. E F H 50 | 214 arquitetura aracajuana

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Figura 12: Conjunto de Chalés e um sobrado eclético na Rua Estância. Fonte: Donizeti da

Figura 12: Conjunto de Chalés e um sobrado eclético na Rua Estância. Fonte: Donizeti da Silva, 2014.

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Neste momento (primeiras décadas do século XX), o conjunto ur- bano de Aracaju chega ao que se pode chamar de “tensão máxima de ruptura”, ou seja, é quando ainda se promovem edificações historicistas, mas novas propostas começam a sobrepujá-las, não apenas com a acen- tuação do emprego de ornamentações Art Nouveau, mas também com as propostas definidas pela industrialização, a partir da década de 1930, a qual se almeja e se materializa nas representações arquitetônicas do Art Déco (Figura 13). O Relatório produzido pelo IPHAN/SE (2010a) comenta e exemplifica essa questão a partir dos remanescentes edifica- dos que pleiteiam proteção:

A partir do final da década de trinta, exemplares de um novo es- tilo arquitetônico começam a ser produzidos na cidade. Com o Art-Déco, os ornamentos ecléticos são substituídos por motivos geométricos e as fachadas ganham novas formas. Desse período são destaques o prédio do Palácio Serigy, atual sede da Secretaria Municipal de Saúde, localizado na Praça Gen. Valadão, e o prédio do Arquivo Público do Estado de Sergipe, sito à Praça Fausto Cardoso, projetado pelo engenheiro civil alemão Arendt von Altenesch, res- ponsável também pela laje de cobertura da Ponte do Imperador, desde aquela época considerada monumento urbano, e várias ou- tras edificações (IPHAN/SE, 2010a, p. 15).

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B C   A D E F Figura 13: A – Sobrado Eclético com acréscimos

B

B C   A D E F Figura 13: A – Sobrado Eclético com acréscimos da

C

B C   A D E F Figura 13: A – Sobrado Eclético com acréscimos da
 
 
 

A

D

E

F

Figura 13: A – Sobrado Eclético com acréscimos da Art Nouveau, Solar dos

Figura 13: A – Sobrado Eclético com acréscimos da Art Nouveau , Solar dos

Rollemberg, atual Sede da OAB, localizado na Av. Ivo do Prado no Bairro São José; B – Solar dos Rollemberg, Eclestismo + Art Nouveau, fachada lateral;

C

– “Casa Barco”, Art Déco, na Praça Camerino, Bairro São José; D – Laje de

cobertura da Ponte do Imperador, em frente à Praça Fauto Cardoso, no Centro.

É

exemplo do Art Déco com colunas Neo-egípcias palmiformes estilizadas;

E

– Palácio Serigy, na Praça General Valadão, atual sede da Secretária da

Saúde. Observa-se, nessa edificação, uma ruptura do poder materializada pela

arquitetura Art Déco; F – Prédio do Arquivo Público do Estado de Sergipe, sito

à

Praça Fausto Cardoso, projetado pelo engenheiro civil alemão Arendt von

Altenesch; G – Antigo Cine Palace, representação Art Déco do “modo e gosto” de viver da sociedade da década de 1930-50, inspirada nos filmes de Holywood, localizado na Praça Fausto Cardoso; H – Igreja de N. S. Menina na Rua Itabaiana, representante do Art Déco religioso. Fonte: Donizeti da Silva, 2013.

G

H

Déco religioso. Fonte: Donizeti da Silva, 2013. G H 53 | 214 arquitetura aracajuana : a

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Aracaju mantém ainda esse conjunto remanescente representati- vo, essa atmosfera de espacialidade comum às cidades brasileiras daque- le período; mas, qual é o conceito marcante disso na formação do urba- nismo nacional e de suas cidades? Questão que Aracaju diz representar. Esse conceito é o que se denominou aqui de “Fuga do Modo de Produção Comum associado à Realidade Industrial que se impõe”, e é isso que Aracaju preservou e quer proteger em face à provável perda que também está acontecendo na maioria das cidades brasileiras. Esse conceito de perda representa uma busca constante pela adaptação das edificações a uma nova vida cotidiana, as mudanças sociais que se im- põem e se materializam nos espaços arquitetônicos pela aceleração da vida moderna, a busca desenfreada para acabar com as repetições em constante embate com as técnicas construtivas artesanais, bem como a intensificação do uso de novos materiais e de um grande indicativo da “vitória” do Culto à Linha na evolução urbana brasileira, presente na maioria das propostas de suas “novas” cidades. É neste momento que Aracaju encontra esse aspecto de ruptura com as tradições, também comum a outras cidades nacionais. A diferen- ça, por exemplo, entre o conjunto Art Déco que se intensifica e se massi- fica em outras cidades, como em Goiânia, é que o remanescente arquite- tônico de Aracaju é Diverso e Complexo e capaz de misturar, quase que de forma homogênea, essas ambiguidades e variações, provocando uma integração que se perfaz em duas bases expressivas, ou seja, a arquitetu- ra remanescente de Aracaju se torna o reflexo do desejo de seus morado- res e demonstra uma sobreposição simbiótica com a natureza. Portanto, mais do que apenas demonstrar a “tensão” da busca de ruptura com as tradições (questão que esteve presente na maioria das cidades nacionais daquele momento), Aracaju condensa essa ruptura e guarda em todo o seu conjunto essas representações de forma mesclada. Contudo, esta tipologia Diversa e Complexa da arquitetura de Aracaju não é apenas representada pela Ruptura e não Ruptura com as tradições, ela também é representada pela Originalidade e não Originalidade da

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forma. Esta condição apresentada no Ecletismo, que vem munida de co- lagens dos revivais historicistas, ocorre como grande proposta nas várias regiões do Brasil, acrescentando simbolismos naturalistas nos elemen- tos decorativos das fachadas, como índios, frutas e temas locais. No entanto, quando se observa a atmosfera urbana propiciada pelo conjunto remanescente da arquitetura de Aracaju, buscando uma “res- significação” conceitual para justificar sua proteção, encontra-se não apenas no Ecletismo, mas também nas edificações do Art Déco, a tran- sição arquitetônica que se acredita pertencer a um momento expressivo de disputa na construção da espacialidade urbana nacional. Portanto, o Ecletismo, o Art Déco e as construções de dois pavimentos realizadas no centro e no bairro São José, chamadas de Chalé, como os da Rua de Estância, exemplificam um conjunto que conceitua a disputa da ruptura e da não ruptura com as tradições, mais que propiciam também trans- cender o entendimento do uso das edificações remanescentes daquele momento para a “fruição” da Originalidade e não Originalidade da forma.

Originalidade e não originalidade da forma

Uma característica inerente à arquitetura é sua condição de perten- cer a um determinado estilo, originar-se em uma região, lugar ou país e influenciar outros locais. Mas esta condição não ocorre apenas em uma via de mão única, ou seja, ao mesmo tempo que a arquitetura influencia, ela é influenciada por condicionantes, que são as “necessidades”. Desta forma, a geografia, a economia, a política, os materiais locais, o clima, as técnicas disponíveis naquela região, enfim, a cultura local pode al- terar uma arquitetura originalmente trazida de um lugar e acrescentar elementos que a tornam reconhecíveis como sendo, especialmente, da- quela região, tomando e abrindo caminho para o que se denomina de identidade arquitetônica. A partir de 1980, inicia-se no Brasil um interesse teórico aos estilos denominados Neoclassicismo (Império) e Ecletismo (FABRIS, 1987, p. 03).

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Esse interesse se formava em virtude da maior parte dos remanescentes urbanos das cidades brasileiras possuírem um conjunto edificado rema- nescente desses estilos e que representava a grande mudança social, eco-

nômica e política, sofrida pelo Brasil na virada do século XIX para o XX e que se estendeu até meados de 1950. Estas áreas históricas urbanas das cidades brasileiras, como do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, eram exemplos importantes da arqui- tetura e urbanismo nacional e, naquele momento (1980), sofriam grande destruição por parte da especulação imobiliária, acionando por parte de vários “atores” uma retórica da perda (GONÇALVES, 1996, p. 31). Esse interesse não ficou apenas retido geograficamente a essas três cidades citadas, ele se estendeu pela maioria das cidades do Brasil – política de preservação –, uma vez que todas possuem como espacia- lidade urbana o Ecletismo decorrente do final do século XIX e início do

XX e, dentro dessa temática, objetos materiais, ou seja, uma arquitetu-

ra edificada que representa sinônimo de modernidade e modernização

das

cidades nacionais. O conjunto remanescente do Centro e dos bairros vizinhos ao Cen-

tro

de Aracaju possui objetos de valor histórico e arquitetônico que re-

presentam o que se chama de “Mentalidade de uma Época”, propiciada pela implantação de um projeto de traçado urbano (Quadrado de Pirro), mais edificações que rechearam suas ruas ao logo dos anos, formadas

inicialmente pelo Ecletismo e seus “neos”, acrescidos pela Art Nouveau e, posteriormente, pelo Art Déco, Proto e Modernismo. Esse conjun-

to remanescente pode ser caracterizado no mínimo de duas formas:

1) Como repetição de padrões copiados de outros locais; 2) Como ele- mentos possuidores de originalidade que podemos chamar de invenções locais. Contudo, é a mistura entre essas duas condições que formam uma DIVERSA e COMPLEXA representatividade arquitetônica e urbanística. Para que possamos “ressignificar” o sentido da Originalidade e da não Originalidade desse conjunto remanescente da área histórica central de Aracaju e de seus bairros vizinhos, se torna necessário, inicialmente,

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um entendimento comparativo entre o Ecletismo realizado na Europa, no Brasil e em Aracaju. O interessante é considerar que o traçado de Aracaju, na sua “modernidade”, vinha carregado da ideologia marcante da época, por provocar uma derrota de “inimigos” considerados tradicionais, no caso, o urbanismo “impossibilitador” do “progresso”, representado pela lo- calização e espacialidade da cidade de São Cristóvão (antiga capital de Sergipe). Essa ideologia seria praticada com mais “entusiasmo” futura- mente no Brasil, nas cidades de Belo Horizonte, Goiás, Brasília e Palmas. No entanto, naquele momento, apesar da ideologia marcante do progres- so assumir as “rédeas” do traçado de Aracaju, a Arquitetura era feita de um historicismo revivido nos elementos decorativos inspirados e re- sultantes da Belle Epoque parisiense da metade do XIX, que alimentava gostos, sabores e odores. Esse “gosto” e “sabor” que depois foi alcunhado e, pejorativamen- te, tratado nas correntes modernista como inimigo (Ecletismo), que recheou todo o Traçado de Pirro de Aracaju, se estendendo as outras cidades nacionais, que eram embaladas pela mentalidade da época, ali- cerçada e condicionada pelo progresso. Desta forma, por quase 50 anos (1930 até 1980), esses conjuntos ficaram sendo tratados como não possuidores de valores patrimoniais, até que, movido pela ampliação de um “problema” de identidade e memória mais diversa e complexa, a política nacional de preservação se debruçou sobre o tema. Naturalmente, essa temática – cidade do final do XIX até metade do XX – nos representa, ou seja, as cidades brasileiras, na sua maioria (áreas históricas urbanas), são formadas por um patrimônio histórico-monu- mental resultante de uma estrutura urbana e de edificações do final do século XIX, do início do XX até sua metade, que tem uma série de des- dobramentos/transformações/reconstruções/destruições físicas urba- nísticas, como suas principais características e alicerce cultural do mate- rial representativo de nosso meio de vida urbano nacional. Desta forma, podemos confirmar a imperativa necessidade de proteger esse conjunto

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remanescente do Bairro Central de Aracaju, formado especialmente pelo conjunto dos Mercados; das três praças centrais e das edificações isoladas nos bairros vizinhos ao Centro. Por meio do conceito reflexivo de “ressignificar” a importância do conjunto remanescente de Aracaju, encontra-se a possibilidade de apro- fundamento de várias temáticas da arquitetura nacional. Esse conjunto representa além de uma mera questão de imitação (não originalidade), também um modo de vida movido por uma dialética constante entre a

razão da arquitetura e as razões éticas, sociais e políticas de uma classe burguesa em ascensão, que culminaram em uma espacialidade origi-

nal,

a qual acabou determinando o período que vai da metade do século

XIX

até a metade do XX, tendo origem na crise da época clássica até o

abandono e derrota total de qualquer referência aos estilos históricos (FABRIS, 1987, p. 10). Portanto, Aracaju e seu conjunto remanescente central, espe- cialmente os Mercados e seu entorno (Antônio Franco; Thales Ferraz e Albano Franco), o conjunto das três praças e seu entorno (Fausto Cardoso; Almirante Barroso e Olímpio Campos) e várias edificações isoladas e em conjunto dos bairros vizinhos ao centro (Santo Antônio; Industrial; São José; Cirurgia; Getúlio Vargas; Siqueira Campos; etc.) representam, dentro do contexto das transformações arquitetônicas e urbanas sofridas pelas cidades brasileiras, conceitos representativos da diversidade e complexidade heterogênea da vida nacional. Se esse con- junto remanescente não for protegido, não haverá mais a possibilidade de “fruição” por parte das gerações futuras. Sobre o Ecletismo em Aracaju, comparado a outras cidades brasi- leiras e mundiais, os objetos aqui remanescentes também se enquadram como temática de representação patrimonial, ou seja, em todos os locais esses revivais buscaram se direcionar para uma questão de “Estilo Nacio- nal”. Na Itália, o Ecletismo se expressou mais através do Neorromântico ou do Neorrenascimento; já na França e na Inglaterra, por meio do Neo- gótico. Nesses locais, independente do historicismo buscado, todos

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queriam encontrar ou afirmar patriotismo e a busca das próprias raízes. No Brasil e em Aracaju, não foi diferente. Assim, aqui se pode verificar, jun- to aos vários “neos” não originais, elementos como frutas tropicais extraí- das da cultura local, como os índios acima dos capitéis do pórtico de entra- da da Ponte do Imperador, na frente da Praça Fausto Cardoso (Figura 14). Outra característica marcante do Ecletismo em Aracaju é a mani- festação diversa e fragmentária de edificações, fruto de uma constante in- quietude intelectual, que marca singularidades e individualidades expres- sivas, mas que, apesar da possibilidade de reconhecer traços individuais de arquitetos ou estilos de outros países (como por exemplo, o neorre- nascentismo de arquitetos ou mestres italianos que por aqui estiveram presentes, por exemplo, na ornamentação do Palácio Olímpio Campos ou no afrancesamento da Cúria Metropolitana (Figura 15), essa mesma arquitetura representa o conceito nacional vigente nas cidades da época. Sendo assim, a arquitetura não poderia mais ser patrimônio de poucos mestres e deveria ceder às novas exigências da produção de massa e a um novo modelo de profissional: O Projetista (FABRIS, 1987, p. 12).

de profissional: O Projetista (FABRIS, 1987, p. 12). Figura 14: Ecletismo nas colunas da entrada da
de profissional: O Projetista (FABRIS, 1987, p. 12). Figura 14: Ecletismo nas colunas da entrada da
de profissional: O Projetista (FABRIS, 1987, p. 12). Figura 14: Ecletismo nas colunas da entrada da
de profissional: O Projetista (FABRIS, 1987, p. 12). Figura 14: Ecletismo nas colunas da entrada da

Figura 14: Ecletismo nas colunas da entrada da Ponte do Imperador, encimada por elementos indígenas – muito utilizados no Ecletismo e no Art Déco em Aracaju. Fonte: Donizeti da Silva, 2013/2017.

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A B Figura 15: A – Palácio Olímpio Campos na Praça Fausto Cardoso – Ecletismo
A B Figura 15: A – Palácio Olímpio Campos na Praça Fausto Cardoso – Ecletismo

A

A B Figura 15: A – Palácio Olímpio Campos na Praça Fausto Cardoso – Ecletismo com
A B Figura 15: A – Palácio Olímpio Campos na Praça Fausto Cardoso – Ecletismo com
A B Figura 15: A – Palácio Olímpio Campos na Praça Fausto Cardoso – Ecletismo com

B

A B Figura 15: A – Palácio Olímpio Campos na Praça Fausto Cardoso – Ecletismo com

Figura 15: A – Palácio Olímpio Campos na Praça Fausto Cardoso – Ecletismo com Neorrenascimento ornado por deusa grega da vitória encimando platibandas laterais; B – Cúria Metropolitana – Ecletismo afrancesado com cúpula em escama e platibanda com compoteiras. Fonte: Donizeti da Silva, 2013/2017.

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Então, como na maioria das cidades brasileiras da época, a arqui- tetura de Aracaju colocou-se sob as égides de regras concretas e meto- dologias baseadas nas ornamentações “neos”, fato que se pode atribuir como portador de um conceito de não originalidade, ao mesmo tempo, que se incidia sobre os projetistas locais uma necessidade intensa de li- berdade prática criadora, apesar de fortemente assistida e policiada pela teoria. Mas, essa aparente contradição Originalidade X Não Originalidade pode ser visualizada como a própria essência do Ecletismo, ou seja, de que esse antagonismo é na verdade a constituição de sua natureza. É nesse antagonismo ou pretensa disputa que o conjunto rema- nescente de Aracaju demonstra a questão da busca da modernidade e do progresso (especialmente movido pelo anseio da melhoria de con- dições de vida e conforto). Desta forma, as edificações remanescentes de Aracaju mostram melhorias técnicas e higienistas, como no conjunto de Palacetes no entorno das praças centrais (Palácio Fausto Cardoso, da Assembleia, da Justiça e Inácio Barbosa – Figura 16), nas edificações de escolas no entorno das Praças Centrais (Colégio Jackson Figueiredo e a Antiga Escola Normal – Figura 17) e nos imóveis ecléticos com novas soluções tipológicas – telhados, hidráulica, insolação e ventilação (Rua Santo Amaro n. 05, 09 e 13 – Figura 18). Todos representativos de uma nova clientela burguesa que se instaurava na cidade, situação urbana também capaz de ser vista em muitas outras cidades nacionais.

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A B G C D H E F Figura 16: A – Palácio Fausto Cardoso;
A B G C D H E F Figura 16: A – Palácio Fausto Cardoso;
A B G C D H E F Figura 16: A – Palácio Fausto Cardoso;
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A B G C D H E F Figura 16: A – Palácio Fausto Cardoso; B

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Figura 16: A – Palácio Fausto Cardoso; B – Palácio da Assembleia, atual Câmara de Vereadores; C – Palácio da Justiça; D – Palácio Inácio Barbosa, Prefeitura de Aracaju. Fonte: Donizeti da Silva, 2013.

Figura 17: E – Colégio Jackson Figueredo na praça Olímpio Campos; F – Antiga Escola Normal, atual Centro de Artesanato, na Praça Olímpio Campos. Fonte: Donizeti da Silva, 2014.

Figura 18: G e H – Rua Santo Amaro, 05, 09 e 13; imóveis na esquina da Praça Olímpio Campos. Fonte: Donizeti da Silva, 2014.

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No conjunto eclético remanescente de Aracaju podemos distin-

guir, como nas outras cidades brasileiras portadoras desse tipo de patri- monialidade, quatro tipos gerais de cultura arquitetônica:

1 – construções dentro de uma composição estilística baseada

na adoção imitativa (“não original”) de formas do passado, das quais se percebe a predominância de formas neoclássicas (Palácio Olímpio Campos e Palácio Fausto Cardoso) e também relacionadas ao neogótico (Catedral Metroplolitana de Aracaju) – (Figura 19);

2 – construções de um historicismo tipológico (“não originais”), as

quais eram sempre voltadas para um estilo orientado para uma finalidade, como funções públicas, escolas, lazer etc., e que vão empregar o classicismo, o neo-barroco e o neorrenascentismo

(Prédio da Delegacia do Ministério da Fazenda; Procuradoria Geral

– Palácio da Justiça; Camâra de Vereadores de Aracaju; Palácio

Inácio Barbosa, Cúria Metroplolitana; Colégio Jackson Figueiredo; Memorial do Poder Judiciário de Sergipe etc.) – (Figura 20);

3 – edificações de menor porte que procuram imitar as soluções empregadas nas edificações mais monumentais ou de maior im-

portância na cidade, ou seja, cópias de menor tamanho (“originais”)

e que empregam ornamentações e soluções tipológicas de “neos”

variados, mas que fazem lembrar as edificações mais importantes e marcantes do entorno e vizinhança mais correlata (imóveis à esquina da Praça Olímpio Campos: Rua Santo Amaro, 05, 09 e 13; imóvel na Praça Olímpio Campos, 673/681; imóvel na Praça Olímpio Cam- pos, 619, e na Travessa Benjamim Constant, 68, etc.) – (Figura 21);

4 – edificações formadas por feições denominadas de pastiches com-

positivos, possuidoras de grande margem de soluções inventivas, às

vezes comentada por outros estudiosos como de “mau gosto”, às ve- zes também chamadas de bricolagens (FABRIS, 1987, p. 15), mas que sempre são capazes de demonstrar questões técnicas construtivas

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interessantes e avançadas. um dos exemplos mais marcantes des- ta originalidade é expressa pela espacialidade edificada no Mercado Antônio Franco, especialmente entre o ecletismo conservador e va- riado de “neos” que compõem as edificações, em contraponto com a solução arquitetônica de colagens variadas e inventivas, às vezes desproporcionais, como a torre do relógio central Figura 22).

como a torre do relógio central Figura 22). A B C Figura 19: A – Palácio
como a torre do relógio central Figura 22). A B C Figura 19: A – Palácio

A

B

C

Figura 19: A – Palácio Olímpio Campos, “segunda metade do século XIX, reformado no início do século XX pela missão artística italiana”; B – Palácio Fausto Cardoso (antiga Sede da Assembleia Legislativa). Construção da segunda metade do século XIX, passando por reforma no início do século XX; C – Catedral Metroplolitana, séc. XIX, passando por reformas no início do séc. XX. Fonte: Donizeti da Silva, 2013, 2014 e 2017, respectivamente.

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  B C D A E F G Figura 20: A – Prédio da Delegacia do
  B C D A E F G Figura 20: A – Prédio da Delegacia do

Figura 20: A – Prédio da Delegacia do Minsitério da Fazenda, segunda metade do século XIX. Propriedade do Ministério da Fazenda; B – Procuradoria Geral, Palácio da Justiça; C – Câmara de Vereadores de Aracaju, segunda metade do século XIX; D – Palácio Inácio Barbosa, Prefeitura de Aracaju; E – Cúria Metropolitana, Arquitetura religiosa da segunda metade do século XIX, passando por reformas no início do século XX; F – Colégio Jackson Figueredo; G – Memorial do Poder Judiciário de Sergipe. Fonte: Donizeti da Silva, 2014 (B, C, D, E e G) e 2017 (A e F).

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A B C D E F Figura 21: A – Casa na Rua Santo Amaro
A B C D E F Figura 21: A – Casa na Rua Santo Amaro
A B C D E F Figura 21: A – Casa na Rua Santo Amaro
A B C D E F
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A B C D E F Figura 21: A – Casa na Rua Santo Amaro (Praça

Figura 21: A – Casa na Rua Santo Amaro (Praça Olímpio Campos), 05; B – Casas na Rua Santo Amaro, 09 e 13; C – Casa na Praça Olímpio Campos, 673/681 (padaria); D – Casa na Praça Olímipio Campos, 619; E – Casa na Travessa Benjamin Constant, 68; F – Rua Itabaiana, 876. Fonte: Donizeti da Silva, 2014.

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A Figura 22: A – Vista geral da área dos Mercados de Aracaju, Centro; B

A

Figura 22: A – Vista geral da área dos Mercados de Aracaju, Centro; B – Vista geral do Mercado Antônio Franco pela Av. Ivo do Prado; C – Relógio do Mercado Antônio Franco; D – Interior do Mercado Antônio Franco. Fonte: Donizeti da Silva, 2013 (C), 2014 (B), 2017 (A e D).

C

Donizeti da Silva, 2013 (C), 2014 (B), 2017 (A e D). C B D 67 |
Donizeti da Silva, 2013 (C), 2014 (B), 2017 (A e D). C B D 67 |

B

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Donizeti da Silva, 2013 (C), 2014 (B), 2017 (A e D). C B D 67 |

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Independente dessas especificidades da arquitetura remanescente

de Aracaju, os conceitos temáticos e sintomáticos que caracterizam essa arquitetura como temática nacional e representativa de um modo de via, ou melhor, de uma Mentalidade de Época, podem ser assim registradas:

a) que a arquitetura Eclética remanescente de Aracaju demonstra,

como em outras cidades nacionais deste período, que cada “cópia”, cada “réplica”, ou melhor, que cada “tentativa” produziu uma ar- quitetura própria e, ao mesmo tempo, contraditória, o que se pode chamar de protótipo do século XIX, conceito que também se es- tendeu a outras tipologias construtivas até a metade do século XX;

b) que a arquitetura eclética remanescente de Aracaju demonstra,

como nas demais cidades nacionais, uma criatividade que sofria com regras de erudição, por isso havia projetos cheios de prudên- cia e timidez plástica/artítica, mas que não impediam grandes so- luções técnicas (prova do que se denominou de esvaziamento da arquitetura ou rotina vazia;

c) o conjunto eclético remanescente de Aracaju é capaz de repre-

sentar o que foi chamado por muitos teóricos de Dualismo, existen- te entre engenheiros e arquitetos (FABRIS, 1987, p. 16). Entretan- to, esse mesmo dualismo será responsável, mais à frente (1950), pelos avanços e relações encontradas entre a técnica/cálculo e a construção de edificações da arquitetura moderna/contemporâ- nea (nota-se essa provocação da paisagem urbana de Aracaju quan- do se compara a edificação eclética horizontal do Mercado Antônio Franco/Thales Ferraz versus a verticalidade do edificio modernista “Maria Feliciana”, Prédio do Estado de Sergipe – Figura 23).

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Figura 23: Mercado Thales Ferraz e ao fundo o Edifício Maria Feliciana – diversidade e

Figura 23: Mercado Thales Ferraz e ao fundo o Edifício Maria Feliciana – diversidade e complexidade na Arquitetura. Fonte: Donizeti da Silva, 2017.

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A Originalidade e a não Originalidade presentes nos remanescen- tes Ecléticos de Aracaju também podem ser inseridos em uma especi- ficidade temática da arquitetura nacional da época, ou seja, na mudan- ça/evolução da tecnologia das construções e da modernidade da casa (FABRIS, 1987, p. 16). Dentro da questão das composições estilísticas, do historicismo ti- pológico, das cópias de menor tamanho e dos pastiches compositivos, encontram-se, no conjunto eclético remanescente de Aracaju, cons- tantes dúvidas que fizeram parte de toda arquitetura nacional, as quais rechearam as cidades do final do século XIX e se estenderam até a meta- de do XX. Tais dúvidas surgiram em função das discussões trazidas pelo confronto comparativo da “nova” construção com os modelos propostos pelos revivalismos. Somou-se a isso, a comparação da proposta eclética às construções típicas da região. Independente da escolha de qual era a melhor solução, ou a mais “original”, os tratados renascentistas e do clas- sicismo se tornaram expressivamente conhecidos e debatidos. Em Aracaju, esses ornatos de diferentes épocas podem ser verifica- dos nas construções Ecléticas remanescentes. Entretanto, mesmo sofren- do introduções de ajustes e elementos locais na busca de uma identidade arquitetônica local, estas edificações compõem representações ímpares no quadro da arquitetura nacional, como por exemplo, a edificação do atual Arquivo Judiciário (Figura 24). A referida edificação emprega, além dos ornamentos clássicos e renascentistas como “pele” decorativa, signi- ficante proposta técnica higienista/sanitarista com a introdução de um porão para servir como camada de ar de amortecimento às umidades que vinham do solo, bem como do recuo lateral e entrada lateral para permitir uma melhor condição de “conforto ambiental”(iluminação e ventilação laterais naturais, além, é claro, de ajardinamento lateral).

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Figura 24: Memorial do Arquivo Judiciário de Sergipe; percebe-se a elaboração dos porões, entrada e
Figura 24: Memorial do Arquivo Judiciário de Sergipe; percebe-se a elaboração dos porões, entrada e

Figura 24: Memorial do Arquivo Judiciário de Sergipe; percebe-se a elaboração dos porões, entrada e ajardinamento lateral, bem como, adoção de novos tipos de janelas com a preocução da iluminação e ventilação (paradigma sanitarista/higienista). Fonte: Donizeti da Silva, 2013.

Quando, no século XIX, as edificações se afastaram uma das outras, novas necessidades técnicas foram adotadas, como pode-se observar as coberturas/telhados, como calhas, rufos e condutores, uma vez que há o uso de platibandas e não mais beirais nos telhados do Arquivo Judiciário. Em outras edificações, apareceram diagonais que quebram a platibanda e que provocam a necessidade de rincões expressivos, como no telha- do do Prédio da Delegacia do Ministério da Fazenda (Figura 25). Assim, caixas de passagem, caixas de coleta de águas pluviais e inúmeras outras questões tecnológicas foram implantadas na lateral do recuo executado. Também nas esquadrias, nas portas e janelas foram praticadas questões de novas técnicas de vidros e ferragens (REIS FILHO, 1987, p. 43; 63). Todas as construções ecléticas descritas nos remanescentes de Aracaju contêm essas questões que devem ser preservadas e protegidas pelo Governo Federal.

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Figura 25: Prédio da Antiga Delegacia do Ministério da Fazenda, com detalhe da platibanda com
Figura 25: Prédio da Antiga Delegacia do Ministério da Fazenda, com detalhe da platibanda com

Figura 25: Prédio da Antiga Delegacia do Ministério da Fazenda, com detalhe da platibanda com “quinas” em diagonais, demonstrando a necessidade de novas técnicas para execução dos telhados. Fonte: Donizeti da Silva, 2017.

Uma situação expressiva como representação da arquitetura na- cional é entender que os remanescentes Ecléticos de Aracaju propiciam a possibilidade de entender uma Mentalidade Construtiva e Humana da Época. Ou seja, na tipologia que se definiu como cópias de menor tama- nho, e que Reis Filho melhor definiu como “Miniaturas dos Palacetes” (REIS FILHO, 1987, p. 64), encontra-se uma atenção aos elementos da construção, aos materiais e às técnicas construtivas. Essa atenção irá mol- dar uma das características mais especificas da arquitetura modernista no Brasil, isto é, o interesse pelo equilíbrio entre a técnica e a beleza, entre a estrutura e a forma, entre o novo e o antigo. Esses remanescentes, representação de pequenos palacetes, em Aracaju, podem ser vistos na Rua Itabaiana, na casa 208; na Rua de Santo Amaro, nas casas 5, 9 e 13; na Avenida Ivo do Prado, 130, 226, 232 e 246, especialmente, nos bairros vizinhos à área histórica central de Aracaju, como no Bairro São José, na esquina da Rua Itabaiana com a Rua Senador Rollemberg (Figura 26).

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A B C B D E F G Figura 26: A – Praça Olímpio Campos,
A B C B D E F G Figura 26: A – Praça Olímpio Campos,
A B C B D E F G Figura 26: A – Praça Olímpio Campos,
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A B C B D E F G Figura 26: A – Praça Olímpio Campos, 208;
A B C B D E F G Figura 26: A – Praça Olímpio Campos, 208;

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Figura 26: A – Praça Olímpio Campos, 208; B e C – Santo Amaro, 05; 09 e 13; D – Av. Ivo do Prado, 130; E – Av. Ivo do Prado, 226 e 232; F – Av. Ivo do Prado, 246; G – Residência na esquina da Rua Itabaina com S. Rollemberg, Bairro São José. Fonte: Donizeti da Silva, 2013 (A), 2014 (B, C, D, E e G), 2017 (F).

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Uma das questões de maior importância a ser preservada na arqui- tetura são as técnicas de desenho que resultam nas ornamentações e no próprio volume da edificação. As construções ecléticas têm o volume inspirado na geometria mongena (FABRIS, 1987, p. 17), e esta forma recebe inúmeras ornamentações e decorações revivalistas. Nos remanescentes das construções Ecléticas de Aracaju, encon- tram-se modinaturas de vários “neos” (agulhas, capelas, absides, festões, guirlandas, coroamentos, cartelas, pinhões, corucheús, escamas, frisos, gárgulas, volutas, medalhões etc.), janelas de arco, de timpano triangular, de timpano cimbrado, com bossagens maneiristas, platibandas com co- roamentos de vasos, estátuárias etc. Nas fachadas, também, encontram- -se vários elementos do Renascimento, como as janelas com frontões triangulares e/ou cimbrados. A exemplo dessa composição relacionada às ornamentações, a Pon- te do Imperador demonstra um originalidade de interesse, uma vez que, sobre os grandes pilares do pórtico de entrada, coroam estatuárias com tema indígena e, sustentando a laje Art Déco, com colunas neo-egípcias estilizadas. Já na platibanda do atual Prédio da Delegacia do Ministério da Fazenda, percebem-se pequenas urnas cinérias ou vasos, mas o que cha- ma a atenção na composição do desenho é a grande curvatura na plati- banda no centro da edificação, enfeitada por um medalhão em alusão à ideologia da república/progresso. O Coreto da Praça Fausto Cardoso, além de exibir uma cobertura em forma de chapeú bulboso, possui ré- plicas de pequenas colunas com capitéis inpirados na ordem jônica. Em meio à simplicidade da forma geométrica do Palácio Fausto Cardoso, des- tacam-se as meias sacadas com guarda-corpo inspirado nas baulastradas romanas, num simulacro neo-barroquizado. Já o antigo Palácio Provincial (Palácio Olimpio Campos) é uma das representações de colagens ecléti- cas mais expressiva do conjunto das três praças que pleiteam a proteção. Nele se arrigimentam vários ornamentos classicistas, entretanto, essa mesma tentativa de réplica disvirtuada direciona-se a uma originalidade de forte individualidade, tendendo para um ecletismo local (Figura 27).

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  A B C D   E F G H Figura 27: A – Colunas ecléticas
  A B C D   E F G H Figura 27: A – Colunas ecléticas

Figura 27: A – Colunas ecléticas encimadas por esculturas indígenas na Ponte do Imperador; B – Colunas neo-egípcias estilizadas, sustentando a laje da Ponte do Imperador – Art Déco; C – Urna cinéria compondo a fachada da Antiga Delegacia do Ministério da Fazenda; D – Platibanda com Brasão da República na platibanda central do prédio da Delegacia da Fazenda; E – Coreto eclético da Praça Fausto Cardoso; F – Coluna em estilo jônico amaneirado; G – Ecletismo do Palácio Fausto Cardoso, com baulastradas por toda a sua extensão; H – Colagens renascentistas e clássicas por toda a fachada do Palácio Olímipio Campos. Fonte: Donizeti da Silva, 2013 (A, B, E, G e H), 2017 (C, D e F).

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As ornamentações que compõem as fachadas das edificações re- manescentes de Aracaju formam um conjunto de objetos de extremo valor escultórico e decorativo, representativo da Mentalidade Ornamen- tal da Época no Brasil. Sendo assim, a formação dos arquitetos deveria transitar não apenas pelo campo da estrutura, mas também pelo campo das belas artes e do desenho. Se houver a possibilidade de uma indicação de que o conjunto ar- quitetônico Eclético de Aracaju carrega em si a ideia e a inspiração do conhecimento das arquiteturas do passado, inseridas por questões culturais locais, e que isso resultou não apenas em simulacros, mas na produção de diversidade e complexidade construtiva de significância, poderia ser reconhecido que a maioria das edificações ecléticas rema- nescentes e que pleiteam proteção demonstram grande Originalidade Construtiva, mesmo atendendo a um receituário de réplicas revivalistas. Exemplos desse ecletismo diferenciado, carregado de Originali- dade, pode ser verificado no Palácio da Justiça na Praça Fausto Cardoso. Nessa edificação, chama atenção a volumetria, composta por três massas corpóreas, sendo que as massas laterais são rebatimentos/espelhamen- tos idênticos das formas e ornamentos, e a parte central se desarticula das laterais em um jogo de saliências e reentrâncias volumétricas, inclu- sive no pavimento superior que salta à frente do inferior e é sustentado por cachorros (mãos francesas) sobre a portada principal. Tal originali- dade da forma também é verificada na própria decoração da platibanda, na qual, nas laterais, apesar de chamar a atenção o grande tímpano ar- redondado com medalhão circular ao centro, os elementos que se des- tacam, numa desproporcionalidade evidentende, são os vasos ou urnas cinerárias que encimam a fachada do volume central. Nos dois corpos laterais da edificação, no pavimento superior, chamam a atenção o design das janelas que, na parte superior, seguem a curvatura do tímpano em arco da platibanda (Figura 28). A réplica em menor escala desse Palá- cio pode ser visto no entorno da Praça Olímpio Campos, na casa 208 (Observações visuais realizadas por Eder Donizeti da Silva, 2013).

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A B Figura 28: A – Palácio da Justiça na Praça Almirante Barroso; detalhes das

A

A B Figura 28: A – Palácio da Justiça na Praça Almirante Barroso; detalhes das laterais,
A B Figura 28: A – Palácio da Justiça na Praça Almirante Barroso; detalhes das laterais,
A B Figura 28: A – Palácio da Justiça na Praça Almirante Barroso; detalhes das laterais,

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Figura 28: A – Palácio da Justiça na Praça Almirante Barroso; detalhes das laterais, platibandas, parte superior sustenta por “cachorros” (mísula); B – Casa na Praça Olímpio Campos, 208, com platibandas imitando a forma da platibanda do Palácio da Justiça. Fonte: Donizeti da Silva, 2014.

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O Palácio Inácio Barbosa, no entorno da Praça Olímpio Campos, é um exemplar de originalidade interessante, uma vez que, apesar da simplicidade de ornamentações, demonstra, como o Palácio da Justiça, uma composição de massas e formas, num jogo de saliência e reentrân- cias, de movimentação, com uma colagem de pilastras classicistas dig- nas de nota, despropocinalizada de um Palladianismo inspirador, além

dos desenhos das janelas que se diferenciam na parte térrea da superior.

A parte superior possui janelas de inspiração colonial, nas quais, in-

clusive, se mantém uma tradição de construção portuguesa, em que

as vergas laterais e superiores ou ombreiras são pintadas com cores

diferentes da massa total da edificação, sobressaindo-se. Já as janelas da pavimentação térrea, apesar de retangulares e encaixadas como se fossem um baixo relevo, têm como destaque a ornamentação colocada acima da verga em forma de um tipo de guirlanda classicista bem simples. Na parte superior, coroando as laterais da platibanda, destacam-se duas aves (aguias), fazendo lembrar o edifício Eclético da Antiga Estação de

Trens na cidade do Recife (Pernambuco), representativo do progresso e

da

tecnologia. No entanto, a grande inspiração vem do Palácio do Catete,

no

Rio de Janeiro, que ficou conhecido como Palacete das Águias, um dos

maiores exemplares da Arquitetura Neoclássica no Brasil (Figura 29).

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arquitetura aracajuana : a imposição do tempo Figura 29: Colagens de pilastras ao gosto Palladiano
arquitetura aracajuana : a imposição do tempo Figura 29: Colagens de pilastras ao gosto Palladiano
arquitetura aracajuana : a imposição do tempo Figura 29: Colagens de pilastras ao gosto Palladiano

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Figura 29: Colagens de pilastras ao gosto Palladiano no Palácio Inácio Barbosa na Praça Olímpio Campos; detalhe da águia na quina da platibanda lateral. Fonte:

Donizeti da Silva, 2014.

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Uma das edificações Ecléticas mais interessantes do conjunto re- manescente das três praças é a antiga Residência Vitorino Mandarino (Cúria Metropolitana), que poderia facilmente ser incluída como um dos representantes mais expressivos do Ecletismo brasileiro na tipologia dos pastiches poliestilísticos, uma vez que exemplifica todas as alterações téc- nicas construtivas impostas durante o paradigma higienista/sanitarista, como: as entradas laterais (afastamento dos vizinhos); a técnica constru- tiva inovadora dos telhados; o espaçamento diferenciado das funções do interior, evidenciando o mundo dos homens e o mundo das mulheres (escritório/áreas íntimas/sociais e serviços). Já na ornamentação da es- trutura, pode-se vislumbrar uma polifonia ornamental, que mal os olhos podem apreciar num único relance, desde a massa principal do volume de esquina, que causa uma desproporção no corpo da edificação e que é encimada por uma cúpula de forma afrancesada, recoberta por telhas em forma de escamas de peixe, até a platibanda recheada por uma série de ornamentações, que vão desde vasos a festões e todo o corpo da fachada enfeitado por um grande número de modinaturas e sobrecarregado de elementos decorativos (Figura 30).

e sobrecarregado de elementos decorativos (Figura 30). Figura 30: Residência Nicola Mandarino – Cúria
e sobrecarregado de elementos decorativos (Figura 30). Figura 30: Residência Nicola Mandarino – Cúria

Figura 30: Residência Nicola Mandarino – Cúria Metropolitana –, na Praça Olímpio Campos, detalhe da cúpula e modinaturas afrancesadas, estilo rococó. Fonte: Donizeti da Silva, 2017, direita 2014.

rococó. Fonte: Donizeti da Silva, 2017, direita 2014. 80 | 214 arquitetura aracajuana : a imposição

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Segue esse mesmo estilo afrancesado, num neoclassicismo dig- no das contruções francesas de 1900, o Memorial do Poder Judiciário de Sergipe, no qual se destaca o jogo de pilastras clássicas com grande re- petição no ritmo, tanto na parte térrea quanto na superior, chamando a atenção o trabalho de floreal em ferro martelado das sacadas falsas das janelas (Figura 31).

ferro martelado das sacadas falsas das janelas (Figura 31). Figura 31: Memorial do Poder Judiciário, jogo
ferro martelado das sacadas falsas das janelas (Figura 31). Figura 31: Memorial do Poder Judiciário, jogo
ferro martelado das sacadas falsas das janelas (Figura 31). Figura 31: Memorial do Poder Judiciário, jogo

Figura 31: Memorial do Poder Judiciário, jogo de pilastras em ritmo repetido; trabalho floreal em ferro martelado nas sacadas falsas. Fonte: Donizeti da Silva, 2017.

A Catedral Metropolitana retrata a lição feita na arquitetura brasi- leira do final do século XIX, no jeito e na possibilidade técnica disponível de se fazer Igrejas na época, ou seja, é capaz de demonstrar a essência das questões neogóticas aplicadas no Brasil, que demonstravam o domí- nio de se erguer edifícios em um único bloco. Outra lição apreendida e possível de ser verificada nessa edificação é a relação estrutura-decora- ção, dentro de um princípio ideológico de economia. Assim, no interior, não se veem as abóbadas nervuradas, mas sim uma grande abóbada de berço, na qual a pintura decora o nervuramento e ornamenta o interior da edificação (fingidos). Mesmo com esta simplicidade estrutural, ainda

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dominam a “pele/fachada” os arcos ogivais das janelas e se impõem com supremacia sobre o corpo da edificação o volume verticalizado das duas torres em forma de grandes setas. Chama atenção a argamassa de reves- timento (reboco) das cúpulas em forma de setas, uma vez que refletem em pequenos grãos de areia (pó de pedra ou mica) um brilho, ao serem expostas ao sol, fazendo lembrar os materiais empregados no período Art Déco, nas paredes das edificações que formavam jogo de sombras e reflexos (Figura 32), como os utilizados no edifício dos Correios, na cida- de de Penedo (Alagoas), e muito presentes no conjunto Art Déco tomba- do pelo IPHAN na cidade de Goiânia (Goiás).

Déco tomba- do pelo IPHAN na cidade de Goiânia (Goiás). Figura 32: Catedral metropolitana de Aracaju,
Déco tomba- do pelo IPHAN na cidade de Goiânia (Goiás). Figura 32: Catedral metropolitana de Aracaju,
Déco tomba- do pelo IPHAN na cidade de Goiânia (Goiás). Figura 32: Catedral metropolitana de Aracaju,

Figura 32: Catedral metropolitana de Aracaju, Praça Olímpio Campos, detalhe da Torre em concepção de revestimento Art Déco – pedras vítreas. Fonte: Donizeti da Silva, esquerda e centro 2013, direita 2017.

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Outra edificação de grande destaque na Praça Olímpio Campos é

o da Antiga Escola Normal que faz uma tentativa de cópia do Petit Palais, do arquiteto Charles Giraut, em Paris, em 1900, mas de forma inventiva

e com originalidade. Ou seja, é uma construção que se enquadra na ti-

pologia das edificações realizadas para abrigar as grandes exposições da- quele período e, portanto, merecem destaque na constituição do espaço urbano nas cidades brasileiras. O Edifício da Antiga Escola Normal possui uma horizontalidade que predomina em todo o seu volume de massa, em seu interior encontra-se um pátio que faria alusão a um jardim, uma área de convivência; nas suas extremidades dominam cúpulas afrance- sas, bem como no centro da edificação, a cúpula central, destaca-se do volume horizontal. Nas laterais dessa cúpula, podem-se ver elementos clássicos (tímpanos triangulares), bem como pilastras com capitéis em estilo neo-coríntio, ornando a ombreira da entrada principal, que provo- ca um encaminhamento a partir da escadaria que a centraliza interna- mente. No “claustro” ou pátio interior se destacam varandas sustentadas

por colunas de ferro floreais, bem como o guarda-corpo dessas varandas, as quais se remetem ao Art Nouveau, numa forte referência à Arquite- tura do Ferro no Brasil (Figura 33).

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Figura 33: Antiga Escola Normal – atual Centro de Artesanato –, com cúpulas afrancesadas e
Figura 33: Antiga Escola Normal – atual Centro de Artesanato –, com cúpulas afrancesadas e
Figura 33: Antiga Escola Normal – atual Centro de Artesanato –, com cúpulas afrancesadas e
Figura 33: Antiga Escola Normal – atual Centro de Artesanato –, com cúpulas afrancesadas e
Figura 33: Antiga Escola Normal – atual Centro de Artesanato –, com cúpulas afrancesadas e
Figura 33: Antiga Escola Normal – atual Centro de Artesanato –, com cúpulas afrancesadas e

Figura 33: Antiga Escola Normal – atual Centro de Artesanato –, com cúpulas afrancesadas e tímpanos triângulares; interior em ferro martelado em estilo floreal – Art Nouveau. Fonte: Donizeti da Silva, 2013.

Em grande número, nas edificações ecléticas remanescentes, na área das praças e no entorno dos mercados, verificam-se pastiches e bricolagens. Também chama a atenção elementos medievalistas, como as bossagens nas laterais das quinas das construções, como no caso das pilastras do Mercado Antônio Franco e do Prédio da Loja Maçônica Cotinguiba, que se repetem em vários sobrados ecléticos na área e nos bairros vizinhos ao centro, como no Solar dos Rollemberg, no Bairro São

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José. Essas são as marcas expressivas da arquitetura eclética da Antiga Alfândega de Aracaju, na qual as “pedras” e ou “falsos ornamentos” que compõe as laterais e arremates das pilastras se destacam, demonstran- do um domínio por uma das técnicas construtivas/enfeites das mais antigas: a estereotomia (arte de cortar e assentar pedras). Nesse caso,

o desenho possui uma originalidade ímpar, uma vez que as “pedras” zi-

guezagueiam, formando um jogo de desalinhamento/alinhamento que não faz lembrar as “rusticações” típicas do período medievo, presentes nos calabouços das masmorras dos castelo europeus que deram origem

a esse padrão revivalista (Figura 34). Esse desenho de embossamento das pilastras também pode ser vis- to em várias edificações da Avenida Ivo do Prado, como no sobrado, 352. Às vezes, essa decoração adentra nas tipologias neocoloniais e resultam em exemplos ditos por alguns como de mau gosto (FABRIS, 1987, p. 8), como no caso do imóvel na mesma Avenida, 312 (Figura 35).

Figura 34: A – Assentamento das “pedras/ornatos’ nas quinas laterais do Mercado Antônio

Franco; B – Edifício da Loja Maçonica Cotinguiba do início do século XX, a Loja se instalou em Sergipe em 1887; C – Solar dos Rollemberg, início do século XX; D – Assentamento em ziguezague das pedras nas quinas laterais da Antiga Alfândega de Aracaju. Fonte: Donizeti da Silva,

2013

(A e C), 2014 (B),

2017

(D), considerada uma das

primeiras edificações da cidade.

A

considerada uma das primeiras edificações da cidade. A B C D 85 | 214 arquitetura aracajuana

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considerada uma das primeiras edificações da cidade. A B C D 85 | 214 arquitetura aracajuana

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considerada uma das primeiras edificações da cidade. A B C D 85 | 214 arquitetura aracajuana

D

uma das primeiras edificações da cidade. A B C D 85 | 214 arquitetura aracajuana :

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A B Figura 35: A – Edificação na Av. Ivo do Prado, 352, estilo eclético

A

A B Figura 35: A – Edificação na Av. Ivo do Prado, 352, estilo eclético do

B

Figura 35: A – Edificação na Av. Ivo do Prado, 352, estilo eclético do início do século XX; B – Edificação neocolonial hispano-americana, de meados do século XX, na Av. Ivo do Prado, 312. Fonte: Donizeti da Silva, 2014.

A mesma questão decorativa se repete por muitos outros locais e objetos ecléticos remanescentes, mas com variações, como é o caso da parte inferior da construção da Antiga Faculdade de Direito (CULTART), na qual se tem um trabalho de aparelhamento determinador de um de- senho das linhas das pedras fazendo alusão ao medievo, sobre as quais se encimam pilastras com caneluras bem finas no fuste, que terminam em capitéis revivalistas jônicos. Esses mesmos detalhes de bossagem (rusti- cação) podem ser verificados no edifício ocupado pelo Hospital Gabriel Soares, 690, na Rua Itabaiana (Figura 36).

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A Antes da análise do conjunto remanescente de edificações Art Déco em Aracaju (1930 a

A

Antes da análise do conjunto remanescente de edificações Art Déco em Aracaju (1930 a 1950), torna-se necessário revisitar algumas

questões relacionadas à implantação da arquitetura no início do século

XX até sua metade. A maioria das edificações desse conjunto pertencem

duas tipologias ou seja, as construções em formas de chalés e as neocolo- niais, mas, por uma questão de diversidade e complexidade, não deixam

de estar incluídas no período em que predominou a arquitetura eclética.

O que promove esse conjunto remanescente de Aracaju a ser iden- tificado como portador de juízo de valor histórico e estético dentro da arquitetura brasileira? Para responder a essa questão, toma-se como prin- cípio que esse conjunto remanescente denominado de chales e sobrados neocoloniais representa uma sociedade, que, conforme as orientações de Nestor Goulart Reis Filho (Quadro da Arquitetura no Brasil, 1987, p. 53), revela forte compromisso com o passado recente e com a forma de viver urbana do século XIX, apesar da busca pela quebra das tradições e da des- tituição das ideologias (quebra representada, inclusive, pelo Traçado de Pirro). Juntamente com os chales e sobrados neocoloniais, entre 1920 a 1940, em Aracaju, também tiveram destaque os edifícios comerciais e as Vilas Operárias. Entretanto, tratemos, primeiro, da justificativa para a pre-

servação dos chales e sobrados neocoloniais no conjunto remanescente.

B

e sobrados neocoloniais no conjunto remanescente. B Figura 36: A – O edifício eclético em estilo

Figura 36: A – O edifício eclético em estilo neoclássico CULTART, que foi uma antiga escola inaugurada em 1917; B – Hospital Gabriel Soares, na Rua Itabaiana, 690. Edificação eclética do início do século XX, com acréscimos ornamentais do Art Nouveau (rocaille). Fonte: Donizeti da Silva, 2014 (B), 2017 (A).

( rocaille ). Fonte: Donizeti da Silva, 2014 (B), 2017 (A). 87 | 214 arquitetura aracajuana

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Destituição e a não destituição de preocupação ideológica

Nos remanescentes ecléticos da área histórica central ainda se pode verificar, em muitas edificações, os conceitos ideológicos que determina- vam a maneira de viver das pessoas daquela época, ou seja, as edificações continuam geminadas, e ainda, apesar das mudanças progressistas que se buscavam, era possível ver os compromissos com um passado rigida- mente colonial e escravocrata. As grandes alterações construtivas relacionadas a uma pretensa industrialização só se fariam presentes nas edificações de Aracaju a par- tir da Primeira Grande Guerra. As edificações ecléticas, por exemplo, da Rua João Pessoa, possuem características que colocam esse conjunto como representação das Transformações ocorridas nas Cidades Brasileiras entre os Séculos XIX e XX, ou seja, a implantação da edificação no lote ur- bano segue a rigidez da parede lado a lado, das edificações de tipologias de dois pavimentos, em que na parte térrea se instalava o comércio, e, no andar superior, se acomodava a família do proprietário do negócio. Em muitos desses sobrados ecléticos, funcionavam inicialmente depó- sitos de caixas de açúcar, posteriormente, foram adaptados para servir a essa ideologia construtiva da mentalidade da época, ou melhor, Casa e Comércio (Figura 37).

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Figura 37: Conjunto de sobrados ecléticos do início do século XX de uso CASA E
Figura 37: Conjunto de sobrados ecléticos do início do século XX de uso CASA E
Figura 37: Conjunto de sobrados ecléticos do início do século XX de uso CASA E
Figura 37: Conjunto de sobrados ecléticos do início do século XX de uso CASA E
Figura 37: Conjunto de sobrados ecléticos do início do século XX de uso CASA E
Figura 37: Conjunto de sobrados ecléticos do início do século XX de uso CASA E

Figura 37: Conjunto de sobrados ecléticos do início do século XX de uso CASA E COMÈRCIO na Rua João Pessoa – Centro. Fonte: Donizeti da Silva, 2014.

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Nestor Goulart Reis Filho (1987, p. 54) descreve a ideologia de im- plantação das cidades no início do século XX:

Belo Horizonte, surgindo com o século, teria código ainda com a exigência de alinhamento das construções com a via pública. To - davia, seu plano, concebido para circulação de veículos de tração animal, já apresentava um sistema viário amplo e claro.

Então, Aracaju possui um plano de sistema viário amplo e, claro, no final do XIX e início do XX, como Belo Horizonte, no entanto, as constru- ções seguiam antigas sínteses de implantação e relacionamento, como por exemplo, a implantação das edificações lado a lado, sem recuos la- terais, contrárias ao que se pretendia a partir do paradigma sanitarista. Outros exemplos de implantação de edificações ecléticas dentro dessa ideologia das tradições coloniais são representados pelo conjunto de edificações na Área dos Mercados (Figuras 38 e 39), nos Sobrados da Avenida Otoniel Dória (Av. Rio Branco – Figura 40) e também nos imó- veis localizados na Rua Santa Rosa (Figura 41), na Rua José Prado Franco (Figura 42), no Beco dos Cocos (Figura 43) e como visto, anteriormente, na Rua João Pessoa.

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Figura 38: Vista da área dos Mercados e entorno do 28º andar do edifício Maria Feliciana; em primeiro plano o Mercado Antônio Franco (Relógio Central), Thales Ferraz e Albano Franco, ao fundo o rio Sergipe. Fonte: Donizeti da Silva, 2017.

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A C B Figura 39: A – Vista do sobrado da rede G. Barbosa entre

A

A C B Figura 39: A – Vista do sobrado da rede G. Barbosa entre os
A C B Figura 39: A – Vista do sobrado da rede G. Barbosa entre os
A C B Figura 39: A – Vista do sobrado da rede G. Barbosa entre os

C

A C B Figura 39: A – Vista do sobrado da rede G. Barbosa entre os
A C B Figura 39: A – Vista do sobrado da rede G. Barbosa entre os

B

Figura 39: A – Vista do sobrado da rede G. Barbosa entre os Mercados Thales Ferraz e Albano Franco, na Rua José Prado Franco;

B – Vista da Rua José Prado Franco, em primeiro plano a Associação Comercial, ao fundo,

o antigo Colégio Nossa Senhora de Lourdes,

ambos em frente ao Mercado Antônio Franco. Fonte: Donizeti da Silva, 2013 (B), 2017 (A).

Figura 40: C – Sobrados ecléticos na Av. Otoniel Dória (Av. Rio Branco). Fonte: Donizeti da Silva, 2014.

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A B Figura 41: A – Imóveis ecléticos na Rua Santa Rosa, entorno dos Mercados.
A B Figura 41: A – Imóveis ecléticos na Rua Santa Rosa, entorno dos Mercados.
A B Figura 41: A – Imóveis ecléticos na Rua Santa Rosa, entorno dos Mercados.
A B Figura 41: A – Imóveis ecléticos na Rua Santa Rosa, entorno dos Mercados.

A

A B Figura 41: A – Imóveis ecléticos na Rua Santa Rosa, entorno dos Mercados. Fonte:
A B Figura 41: A – Imóveis ecléticos na Rua Santa Rosa, entorno dos Mercados. Fonte:
A B Figura 41: A – Imóveis ecléticos na Rua Santa Rosa, entorno dos Mercados. Fonte:

B

A B Figura 41: A – Imóveis ecléticos na Rua Santa Rosa, entorno dos Mercados. Fonte:
A B Figura 41: A – Imóveis ecléticos na Rua Santa Rosa, entorno dos Mercados. Fonte:

Figura 41: A – Imóveis ecléticos na Rua Santa Rosa, entorno dos Mercados. Fonte: Donizeti da Silva, 2014.

Figura 42: B –Imóveis ecléticos na Rua José Prado Franco na frente/próximo do Mercado Antônio Franco e entorno (percebe-se a “imposição do tempo”). Fonte: Donizeti da Silva, 2014.

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Figura 43: Imóveis Art Déco/ecléticos no logradouro conhecido como Beco dos Cocos. Fonte: Donizeti da
Figura 43: Imóveis Art Déco/ecléticos no logradouro conhecido como Beco dos Cocos. Fonte: Donizeti da

Figura 43: Imóveis Art Déco/ecléticos no logradouro conhecido como Beco dos Cocos. Fonte: Donizeti da Silva, 2014.

O que ocorreu nas cidades brasileiras, inclusive em Aracaju, foi um progressivo aumento populacional, o que provoca uma busca por solu- ções construtivas mais confortáveis e, especialmente, localizadas fora deste perímetro de comércio e poder mais intenso. Essas novas cons- truções deveriam demonstrar um novo estilo de vida, prático, elegante, refinado e, especialmente voltado para o conforto. Na área central de Aracaju (conjunto das três praças e dos merca- dos) surgiram bairros periféricos (vizinhos ao centro), nos quais se de- senvolveu, aos poucos, o que aqui se denominou de Destituição e a não Destituição de preocupação ideológica. Esta “ressignificação” pode ser analisada pelos exemplos de chalés e sobrados neocoloniais remanes- centes, presentes nas seguintes localidades: Av. Ivo Do Prado no Bairro São José, no Imóvel 312, no conjunto dos Três Chalés na Rua Estância, 53, 63 e 87; na Vila Carmem, localizada na Av. Ivo do Prado; nos chalés da Rua Itabaiana, 783, 852 e 864; no neocolonial, na Rua Riachuelo, 431, 439, 455 e, 496, e na Rua Campos (Figura 44).

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Figura 44: (Da esquerda para direita) – Sobrado neocolonial na Av. Ivo do Prado, 312,
Figura 44: (Da esquerda para direita) – Sobrado neocolonial na Av. Ivo do Prado, 312,
Figura 44: (Da esquerda para direita) – Sobrado neocolonial na Av. Ivo do Prado, 312,
Figura 44: (Da esquerda para direita) – Sobrado neocolonial na Av. Ivo do Prado, 312,
Figura 44: (Da esquerda para direita) – Sobrado neocolonial na Av. Ivo do Prado, 312,
Figura 44: (Da esquerda para direita) – Sobrado neocolonial na Av. Ivo do Prado, 312,
Figura 44: (Da esquerda para direita) – Sobrado neocolonial na Av. Ivo do Prado, 312,
Figura 44: (Da esquerda para direita) – Sobrado neocolonial na Av. Ivo do Prado, 312,
Figura 44: (Da esquerda para direita) – Sobrado neocolonial na Av. Ivo do Prado, 312,
Figura 44: (Da esquerda para direita) – Sobrado neocolonial na Av. Ivo do Prado, 312,
Figura 44: (Da esquerda para direita) – Sobrado neocolonial na Av. Ivo do Prado, 312,
Figura 44: (Da esquerda para direita) – Sobrado neocolonial na Av. Ivo do Prado, 312,

Figura 44: (Da esquerda para direita) – Sobrado neocolonial na Av. Ivo do Prado, 312, no Bairro São José; Sobrados neocoloniais na Rua de Estância, 53, 63 e 87; Vila Carmem ao lado do CULTART na Av. Ivo do Prado, 646; Chalés na rua Itabaiana, 783, 852 e 864; Sobrados neocoloniais, rua Riachuelo, 431 e 439; rua Richuelo, 455; Sobrado neocolonial na rua Campos, 496. Fonte: Donizeti da Silva, 2014.

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O que promove essas construções em Aracaju e nas outras cidades brasileiras é o que Reis Filho (1987, p. 54) denominou de uma tentativa de reconciliação entre a vida urbana e a vida rural, entre a ideologia do campo e a ideologia da cidade. Até que ponto pode-se dizer que esses remanescentes presentes nos Bairros Centrais de Aracaju são capazes de demonstrar a Mentali- dade de Vida de uma Época? No início do século XX, preocupava-se que as construções representassem ou fossem as herdeiras conceituais e construtivas das chácaras coloniais, na tentativa inglória de reconciliar o homem com a natureza e contra os excessos urbanos produzidos pela concentração de atividades e edificações nos espaços denominados de Praças Centrais e Entorno dos Mercados. Se na Europa se buscava no gótico a principal inspiração para a pro- dução de residências confortáveis (FABRIS, 1987, p. 22), em Aracaju e no Brasil, o melhor a fazer era buscar nos revivalismos das casas colo- niais e nas chácaras o conforto perdido nas construções enfeitadas do Ecletismo. Não que apenas fossem uma questão estética, ao contrário, se tratava de uma questão relacionada ao bem viver, às possibilidades de reencontrar os prazeres da vida rural perdida em detrimento da vida urbana, perda já declarada nos poemas escritos por John Ruskin, um sé- culo antes, na Inglaterra (RUSKIN, 1996, p. 3 e 6). Portanto, a principal ideologia buscada pelos arquitetos da época era aliar, numa mesma cons- trução, uma chácara e um sobrado, o mundo rural travestido no urbano. Os arquitetos paulistas, por exemplo, no Bairro dos Campos Elíseos, em São Paulo, optavam pelos porões altos e programas internos mais complexos, jardins amplos ao redor das casas e acomodações para a cria- dagem; Reis Filho (1987, p. 56) escreve esse novo momento ideológico representado pelas construções em São Paulo, no Brasil e, consequente- mente, também presentes em Aracaju:

É também essa época das primeiras experiências arquitetônicas mais atualizadas, que se iniciam com a introdução do Art Nouveau e pas- sando pelo Neo-Colonial iriam conduzir ao movimento modernista.

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O resultado mais expressivo dessas mudanças em Aracaju foi o da renovação da implantação da edificação no lote, ou seja, bem diferente da implantação lado a lado verificada nas áreas das praças e dos mercados. Neste ponto, a Vila Penteado de 1903, em São Paulo, servirá de exemplo e influenciará inúmeras construções remanescentes em Aracaju, como a Vila Carmem e o Solar dos Rollemberg (Figura 45).

como a Vila Carmem e o Solar dos Rollemberg (Figura 45). A B Figura 45: A

A

como a Vila Carmem e o Solar dos Rollemberg (Figura 45). A B Figura 45: A

B

Figura 45: A – Vila Carmem e B – Solar dos Rollemberg, exemplos de construções de mesmo período buscando a destituição e a não destituição de uma ideologia. Fonte: Donizeti da Silva, 2013/2014.

Os sobrados neocoloniais e chalés remanescentes em Aracaju pos- suem características que são representações ímpares da arquitetura das cidades no início do século XX, ou seja, apresentam uma implantação ao centro de uma quadra, ou melhor, de um lote, que apresentam (nas late- rais, nos fundos e na frente) ajardinamento no estilo francês. Entretanto, no cerne de “fazer”, a ideologia das construções coloniais permanece com os velhos recursos de uma chácara e por que não dizer de uma casa- -grande rural. Também se veem pés direitos elevados, às vezes com cinco

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metros, o que dá a essas construções sua principal característica: posição de domínio no entorno e predominância do volume sobre a vizinhança. Essas construções remanescentes de Aracaju (chalés e sobrados neocoloniais) representam a arquitetura residencial brasileira do perío- do entre as duas grandes guerras mundiais e, possuem, como principais destituições de ideologias, entre outras, a preocupação de isolar a casa em meio a um jardim, o desaparecimento de hortas e pomares com sua redução simbólica a algumas árvores frutíferas. Essas características po- dem ser reconhecidas como integrantes de uma cultura arquitetônica nacional no início do século XX. Na referida época, também surgem conjuntos de habitações populares com formas especiais de implantação, compostas por fileiras de casas pequeninas, edificadas ao longo de um terreno mais profundo. Essa tipologia pode ser ainda encontrada no conjunto remanescente de Aracaju na Vila Queiroz, conjunto de casas que se abrem para uma ruela (Figura 46). Em São Paulo, muitas dessas Vilas chamadas de “Operárias” foram exemplos marcantes de cortiços no início do século XX, especial- mente, após a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929.

mente, após a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929. arquitetura aracajuana : a imposição

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Figura 46: Vila Queiroz, vila na área central de Aracaju, no início do século XX. Fonte:

Donizeti da Silva, 2014.

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No urbanismo e na arquitetura brasileira, uma das ideologias que se quebram, em meados de 1920, está ligada à crescente separação entre os locais de residência e trabalho. Os dois exemplos tipológicos que já fo- ram mencionados – Chalés e sobrados neocoloniais – representam muito bem esta destituição ideológica em comparação aos conjuntos de sobra- dos ecléticos ainda remanescentes em toda a área mais central da cidade. Importante é descrever que o conjunto arquitetônico remanescen- te de Aracaju, na sua totalidade, ainda é capaz de demonstrar essa desti- tuição e não destituição ideológica. Isso é possível através da comparação dos sobrados ecléticos remanescentes nas áreas das três praças e na área dos mercados com o conjunto de chalés e sobrados neocoloniais implan- tados nos bairros vizinhos ao centro. Se nas cidades do Rio de Janeiro e, especialmente, em São Paulo, mui- tos desses exemplares foram demolidos para dar lugar a edificações mais verticalizadas – como estacionamentos, lojas de departamentos e outros paradigmas modernistas –, em áreas urbanas centrais de cidades como Recife, Fortaleza e, especialmente, de menor porte, como Aracaju, João Pessoa e Teresina, ainda nos é possível fruir dessa atmosfera de disputa entre a destituição de uma ideologia e sua manutenção, entre a disputa de um mundo rural versus um mundo urbano. Em Aracaju, essa atmos- fera ainda permanece como representação marcante das Transformações sofridas pelas Cidades Brasileiras entre os Séculos XIX e XX, a qual se espera proteger, para que possa ser apreciada materialmente e não apenas atra- vés de fotografias antigas, como é o caso da Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro (FABRIS, 1987, p. 61). O que se quer argumentar é que existem duas ideologias marcantes relacionadas às edificações remanescentes de Aracaju: uma caracterizada pela ideologia colonial representada pelos sobrados ecléticos na área cen- tral de Aracaju; outra destituída dessa ideologia, representada por uma tentativa de ruptura com a questão colonial, mas que necessita dela para sua materialização, uma vez que o homem urbano dessa época iria buscar uma identidade perdida no passado colonial. Na arquitetura urbana, esse

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passado rural perdido seria representado pelas edificações no estilo cha- lé/chácaras e sobrados neocoloniais e, claro, disponíveis apenas para as pessoas de condições econômicas mais expressivas. Para os menos favo- recidos, sobravam, na melhor das hipóteses, as Vilas Operárias. Desta forma, percebe-se uma espacialidade urbana de extrema Complexidade e Diversidade, ou seja, neste primeiro terço do século XX em Aracaju, presencia-se, na questão da destituição ou não de ideolo- gias, não uma dualidade, mas sim situações que se entrecruzam e se emaranham e que podem ser exemplificadas mediante três ideologias.

A primeira ideologia é formada pelos conjuntos urbanos arquitetô-

nicos de sobrados ecléticos Comércio/Casa, expressivos nas ruas do en- torno dos Mercados e na área histórica central, como na Rua João Pessoa e na Av. Rio Branco. Essas construções materializam uma vida urbana em franco progresso e adensamento. Entretanto, são mais representa- tivas do modo de viver dos imigrantes europeus, não que os locais não tivessem assimilado esse modo de vida, contudo, se ressentiram de seu

passado. Apesar da modernidade imposta por uma nova capital, nota-se que, até os dias de hoje, as áreas dos Mercados Antônio Franco, Thales Ferraz e Albano Franco carregam essa atmosfera do “jeito de negociar do passado”, da vida que tem um ritmo de tempo diferente, que exala sabores, odores não identificáveis em outras áreas da cidade moderna.

A segunda ideologia se refere aos Chalés e às edificações Neocolo-

niais, implantados nos bairros vizinhos ao Centro, como nas Ruas Estância, Riachuelo, Itabaiana e Campos, bem como na Av. Ivo do Prado. Essas construções carregam a “ideia” de um modo de vida rural, ou seja, as pessoas, por mais que almejassem o progresso, se ressentiam, na sua me-

mória e realidade, acreditavam que haviam perdido algo, o jeito de viver do campo, os prazeres de uma vida rural – com quintal, pomares, uma grande cozinha –, a liberdade da individualidade etc. Ruskin (1996) já havia descrito esse imaginário perdido como pitoresco das casas de cam- po inglesas. Portanto, esse homem local, mas abastado ou com melhores recursos, passou a procurar a periferização e a construção dessa ideia por

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meio da reprodução de casas com as tipologias coloniais/fazenda, toda- via, com um conforto que poderia ser apenas oferecido no meio urbano. Tais construções, apesar dos inúmeros avanços tecnológicos, não conse- guiram se destituir da ideologia do morar no campo. A terceira ideologia imposta é a da industrialização que, no Brasil, apesar de tardia, associou-se ao comércio e se materializou em bairros chamados de industriais, como no caso do Bairro Industrial de Aracaju, que fica próximo ao centro. Nesse Bairro, foram implantadas, além de grandes indústrias – como as Fábricas de tecido Sergipe Industrial, em 1884, e Confiança, em 1907, edificações de tipologias conhecidas como de Vilas Operárias. Entretanto, essa ideologia também pode ser vista em outras partes da área central de Aracaju, como na Vila Queiroz. Essas edificações, apesar de buscarem uma vida urbana/industrial, materiali- zavam características de edificações das fazendas (vilas de agricultores – as famosas “colônias”), ou seja, casas enfileiradas, repetindo o tipo (iguais) sem distinção e identidade, a não ser quando um morador re- solvia acrescentar algum pequeno ornamento identificador de sua per- sonalidade no oitão da fachada, caso raro, pois todos os operários na ideologia industrial tinham que ser tratados do mesmo jeito. Contudo, os serviços hidráulicos tinham que ser comunitários, como o tanque de lavar roupas, que servia a todos os moradores de forma conjunta, e o lazer, realizado no pátio ou local comum, vigiados, agora não mais pelos olhares do capataz, mas pelo encarregado da fábrica ou chefe de turma que também morava no local. Essas três ideologias, diferentes, complexas e diversas, coexistem simultaneamente neste conjunto ainda remanescente de edificações na cidade de Aracaju, ou seja, nos sobrados Comércio/Casas, nas edifica- ções estilo Chalé/Chácaras/Neocoloniais e nas pequenas Vilas Operá- rias. Mas, o que aproximaria essas ideologias formadoras da espacialidade urbana local? A resposta é que se destituiu e não se destituiu a Ideologia, isto é, simultaneamente se buscava uma nova vida urbana, mas não se conseguia mudar o jeito típico e próprio de morar das fazendas, o gosto

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e a mentalidade rural colonial, representados, entre outros aspectos ma- teriais, pelas cozinhas grandes, pelas varandas, pelos quintais. Contudo, esse modo de construir não era mais viável na cidade, portanto, ocor- reram “simulacros construtivos urbanos”, a partir dos quais essas três ideologias, representadas por esses modelos edificados, se interligaram, dialogaram e se amalgamaram. Essa mistura, que vai do início do século XX até quase sua metade, em Aracaju, produziu uma verdadeira diversi- dade e complexidade de urbanidade. A grande questão é que muitas cidades brasileiras, que tiveram as mesmas situações relativas à destituição ou não dessa preocupação ideológica na formação da sua espacialidade, não conseguiram manter integralmente esse conjunto patrimonial representativo. Aracaju ainda o mantém, podemos vê-lo materialmente edificado nos seus remanescen- tes, nesse caso, formado pelos sobrados Comércios/Casas, pelos Cha- lés/Sobrados Neocoloniais e pelas pequenas Vilas Operárias. Porém, se esse conjunto patrimonial não for protegido, apenas restará às futuras gerações conhecê-lo através de livros e fotos, bem como, não entender o que foi esse “modo de viver, morar e construir” das cidades brasileiras no final do século XIX ao início do século XX.

Independência e/ou dependência de conceitos estéticos

Os conceitos estéticos que se tornaram regras na transição do século XIX para o XX na arquitetura e urbanismo nacional estavam as- sentados sobre algumas regras, como por exemplo, na “Remodelação” da cidade do Rio de Janeiro, como Capital Federal (exemplificando essa regra). Nessas transformações urbanas, os pontos culminantes foram as obras do Ecletismo, sendo que, a partir desse mesmo “ideal” de reno- vação, ocorre um esvaziamento de significados provocado, entre vários motivos, pela necessidade do construir rapidamente, como foi o caso de Belo Horizonte.

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Muitas cidades processaram modelos agenciados por novos ins-

trumentos jurídicos, administrativos e financeiros, que viabilizaram as transformações em andamento, como no caso de São Paulo. Desta for-

ma, na maioria das cidades, ocorre um amplo procedimento de demo-

lições, desmontes e aterros, como no Rio de Janeiro e em São Paulo; as obras ditas de grande envergadura foram produzidas no Rio de Janeiro,

em São Paulo e em Belo Horizonte. Uma das principais situações urbanas foram as aberturas de portos, de novas avenidas, além do alargamento e complementação de um sistema de ruas (FABRIS, 1987, p. 23). As palavras-chave desse momento de transição entre os séculos

XIX e XX são: modernizar, embelezar e sanear, ou seja, dar credibilidade

ao um novo sistema, a República e estas cidades, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo, são os grandes exemplos nacionais. Para entender como o conjunto arquitetônico e urbanístico re- manescente da área central e bairros vizinhos ao centro de Aracaju são capazes de representar esses conceitos estéticos presentes na “remode- lação”, os quais determinaram a espacialidade urbana nacional daquele período, pode-se fazer um comparativo entre os itens descritos acima com o que foi implantado nessa cidade. É necessário atentar para o fato de que nessa “Ressignificação”, devem ser observadas as questões de si- milaridades e não semelhanças com outras localidades de importância no Brasil (como as transformações sofridas no Rio de Janeiro, no Gover- no de Rodrigues Alves, em 1903-1906; a criação da cidade de Belo Hori- zonte; as intervenções urbanas em São Paulo) e, que aqui se denominou de Independência e/ou dependência de conceitos estéticos. Em relação ao conceito Remodelação das Cidades Nacionais, Aracaju

já nasce dentro desse preceito, ou seja, um projeto que pretende – a par- tir de um novo modelo urbano estético, que possui o traçado retilíneo ortogonal de suas quadras – a materialização de um desejo real de “in- dependência” sobre os modelos urbanísticos portugueses, implantados

nos três primeiros séculos no Brasil.

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Esse traçado retilíneo de Aracaju na Avenida Otoniel Dória (Av. Rio Branco), em frente ao Rio Sergipe (Figura 47); trata-se da possibilidade de todo um “aformoseamento”, mesmo modelo urbanístico aplicado no Rio de Janeiro e criticado pelas palavras do poeta Olavo Bilac em crôni- cas daquela época:

Confesso que só acreditarei na influência que a arquitetura da Ave- nida há de ter no aformoseamento do Rio, quando vir a architetura e o estylo das primeiras casas novas. (FABRIS, 1987, p. 54)

Desta forma, Aracaju, seus remanescentes centrais e os bairros vi- zinhos, representam o modelo de urbanismo presente na virada do sécu- lo XIX para o XX no Brasil, ou seja, objetos com juízos de valores estéticos possuidores de uma independência urbanística, pois, diferente do Rio de Janeiro, que propõe uma remodelação a partir do existente, Aracaju já ousa nascer livre dos conceitos estéticos urbanos do período colonial/ imperial. Entretanto, ela acaba também representando uma Dependên- cia desses mesmos modelos de remodelação, como o Rio de Janeiro, a partir do uso e implantação do mesmo ecletismo e dos conceitos urba- nísticos carregados da “Bella Époque”, praticados naquela arquitetura e na das demais cidades brasileiras, como em Belo Horizonte e São Paulo.

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Figura 47: Vista do Rio Sergipe banhando Aracaju; o “aformoseamento” da cidade se daria a

Figura 47: Vista do Rio Sergipe banhando Aracaju; o “aformoseamento” da cidade se daria a partir dessa relação. Fonte: Donizeti da Silva, 2013.

Se no Rio de Janeiro se abrem grandes avenidas, como a Avenida Central, em Aracaju, a pretensão é que a cidade já nasça com essa dis- posição urbana, especialmente no que se refere ao conceito de ruas lar- gas, como ocorreu na Avenida Barão de Maruim. Contudo, a semelhança construtiva se dará na liberdade dada aos construtores na aplicação de revivais, tanto no Rio de Janeiro quanto em Aracaju. Observa-se uma grande semelhança construtiva das edificações desse período entre Aracaju e o Rio de Janeiro, na disposição legal de determinação construtiva de que o mínimo de comprimento da fachada

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para as edificações das avenidas não deveria ser menor do que 10 metros (FABRIS, 1987, p. 56). Sendo assim, pode-se observar que foram construí- dos em Aracaju, modelos semelhantes àqueles propostos no Rio de Janeiro. Um dos exemplos mais marcantes desse aspecto edificado é repre- sentado em Aracaju pela Sede da Superintendência do IPHAN de 1914, no Bairro São José, e pela Sede da OAB/Palácio da Cidadania (Casarão dos Rollemberg), também no início do XX. Inclusive, neste último exemplo, pode-se notar o uso das criticadas “compoteiras” encimando as platiban- das, que deveriam, pela visão dos críticos da época, não mais fazer parte do remodelamento carioca e que, apesar das avassaladoras críticas con- trárias, acabaram sendo vitoriosas como ornamentos nacionais e enfeita- ram muitos dos sobrados e chácaras/chalés edificados em várias cidades brasileiras. Como representação também dessa remodelação, em Aracaju, pode-se mencionar a Vila Carmem e o CULTART, na Av. Ivo do Prado, e inúmeros outros casarões e minipalacetes da área central (Figura 48).

B

casarões e minipalacetes da área central (Figura 48). B C A   Figura 48: A –
casarões e minipalacetes da área central (Figura 48). B C A   Figura 48: A –

C

casarões e minipalacetes da área central (Figura 48). B C A   Figura 48: A –

A

 

Figura 48: A – Sede da Superintendência do IPHAN/SE, na Av. Barão de Maruim;

B

– Sede da OAB – Casarão

dos Rollemberg na Av. Ivo do Prado; C – Vila Carmem;

D

– Centro de Cultura e Arte da

UFS – CULTART, na Av. Ivo do Prado. Fonte: Donizeti da Silva, 2013 (B), 2014 (A, C e D).

D

Fonte: Donizeti da Silva, 2013 (B), 2014 (A, C e D). D 106 | 214 arquitetura

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Outro aspecto do conceito estético de “Remodelação” se insere no que se pode chamar de “artificialidade construtiva”, presente nas obras ecléticas e na natureza de seu esvaziamento construtivo. Neste ponto, é possível relacionar o espaço urbano de Aracaju com o de Belo Horizonte, ou seja, Belo Horizonte apresentou na sua construção inúmeros proble- mas relacionados à escassez de recursos e à prédios que jamais foram concluídos, bem como à utilização de algumas edificações inicialmente pensadas ou projetadas para abrigar uma finalidade e depois passaram a abrigar outras funções. Então, quais pontos específicos ou edificações/ conjunto definem as semelhanças construtivas do espaço urbano ecléti- co dessas duas cidades? A dificuldade de implantar Aracaju é semelhante à dificuldade de implantar Belo Horizonte no que concerne à falta de recursos e a depen- dências externas, especialmente, com outras capitais, bem como ao que se pode denominar de Heroismo Urbano. Os palacetes implantados em Belo Horizonte, na sua maioria, do mesmo período dos implantados em Aracaju, por volta de 1914 (Palácio Olímpio Campos em Aracaju), apli- cam os mesmos conceitos ecléticos. Se Belo Horizonte é extremamente dependente, naquele período, de São Paulo e Rio de Janeiro, Aracaju é extremamente dependente de Recife e Salvador. Outro aspecto importante representativo de uma cultura urbana de transição do século XIX para o XX, ainda possível de ser registrada nos remanescentes de Aracaju, é que cada edificação, desse período, tem como mensagem dar uma ênfase tipológica, ou seja, cada edifício tem que, facilmente, ser reconhecido pela sua função: o Museu, a Ópera, o Banco e especialmente o Palácio do Governo. Nesse contexto, na organização da espacialidade urbana, infeliz- mente, em Aracaju, faltou um teatro, apesar dos projetos de papel exis- tentes. Entretanto, num primeiro momento, apesar de ser fator que afasta Aracaju do modelo urbano nacional da época, no qual se inclui- ria Belo Horizonte, a não construção do teatro, por outro lado, também

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aproximaria Aracaju do modelo urbano da época, uma vez que, em mui- tas cidades nacionais daquele momento, muitas das edificações pensa- das e projetadas acabaram não ”saindo” do papel, exemplos desse caso podem ser vistos na própria Belo Horizonte, como o Palácio do Con- gresso, que nunca foi edificado. Esse aspecto do projeto e a sua não exe- cução devido a inúmeras impossibilidades são fatores que norteiam e compõem o urbanismo das cidades implantadas no final do XIX e início do XX no Brasil (FABRIS, 1987, p. 115). Acredita-se que a não construção do teatro municipal em Aracaju, naquele período, suscita aspectos que devem ser “ressignificados”, como por exemplo, o de que, no âmbito do conceito de embelezamento, os tea- tros eram monumentos importantíssimos na remodelação das cidades como a do Rio de Janeiro e que, nesta localidade, o teatro foi executado de maneira a observar os estilos da renascença francesa, e com variações de mourisco e modernização do estilo clássico levado pela questão de economia, tendo o modelo de Garnier da Ópera de Paris o propulsor de todo o entendimento construtivo. Já em Aracaju, justifica-se a não cons- trução pela falta de recursos econômicos, entretanto, observa-se que es- ses mesmos recursos não faltaram para a edificação do Palácio Olímpio Campos, que, na sua essência construtiva, teria a atribuição prática de representar, na sua composição, uma teatralidade do poder e compor, no conjunto das três praças (Fausto Cardoso; Almirante Barroso e Olímpio Campos), o conceito de embelezamento urbanístico que aqui se identifi- ca como independência estética no conceito de sua implantação, uma vez que se difere de outros conjuntos nacionais daquele período. Atentando minuciosamente para a disposição espacial de Aracaju em combinação com suas edificações, pode-se verificar, a partir dos seus remanescentes, uma organização representativa arquitetônica eclética possível de ser reconhecida em outras cidades brasileiras, modelo urba- no buscado naquele período por muitas das cidades nacionais. Percebe-se, portanto, que existe uma lógica de organização urbana, uma ordem hie- rárquica, funcional e social das cidades e das disposições e atributos das

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edificações, uma vez que, nas avenidas e ruas da área central de Aracaju, encontravam-se casarões que seriam ou se tornariam sedes do poder então estabelecido ou de seus representantes, numa arquitetura de pre- valência classicista (neorrenascentista italiana e francesa e de Segundo Império) como o Ministério da Fazenda; o Sobrado da Rede GBarbosa;

o Antigo Colégio Ateneuzinho; a Casa do Advogado Carvalho Neto

– OAB; a Loja Maçônica Cotinguiba; o Casarão dos Rollemberg; o CULTART – Antiga Faculdade de Direito (Figura 49).

o CULTART – Antiga Faculdade de Direito (Figura 49). A D F E G Figura 49:

A

o CULTART – Antiga Faculdade de Direito (Figura 49). A D F E G Figura 49:
o CULTART – Antiga Faculdade de Direito (Figura 49). A D F E G Figura 49:

D

o CULTART – Antiga Faculdade de Direito (Figura 49). A D F E G Figura 49:
o CULTART – Antiga Faculdade de Direito (Figura 49). A D F E G Figura 49:

F

o CULTART – Antiga Faculdade de Direito (Figura 49). A D F E G Figura 49:

E

CULTART – Antiga Faculdade de Direito (Figura 49). A D F E G Figura 49: A

G

Figura 49: A – Prédio da Delegacia do Ministério da Fazenda; B – Sobrado da Rede GBarbosa; C – Antigo Colégio Ateneuzinho, na Av. Ivo do Prado – Edificação eclética inaugurada em 13 de agosto 1926 para ser sede do Atheneu D. Pedro II, depois renomeado Colégio Atheneu Sergipense; D – Casa do Advogado Carvalho Neto

– Sede da OAB na Rua Boquim, Centro; E – Loja Maçônica Cotinguiba, início do

século XX, embora a Loja tenha sido fundada em 1887; F – Casarão dos Rollemberg;

G – CULTART. Fonte: Donizeti da Silva, 2013 (A e F), 2014 (B, C, D, E) 2017 (G).

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Nas ruas secundárias da área central comercial de Aracaju, também se encontram remanescentes edificados que demonstram essa organi-

zação espacial representativa d