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DIPLOMACIA APLICADO

PORTUGUÊS
AULA 22

Texto I: Menino de engenho (fragmento)


José Lins de Rego

1 Todos os retratos que tenho de minha mãe não me dão nunca a verdadeira fisionomia que eu guardo dela — a doce fisionomia
daquele seu rosto, daquela melancólica beleza de seu olhar. Ela passava o dia inteiro comigo. Era pequena e tinha os cabelos
pretos. Junto dela eu não sentia necessidade dos meus brinquedos. D. Clarisse, como lhe chamavam os criados, parecia mesmo
uma figura de estampa. Falava para todos com um tom de voz de quem pedisse um favor, mansa e terna como uma menina de
internato. Criara-se em colégio de freiras, sem mãe, pois o pai ficara viúvo quando ela ainda não falava. Filha de senhor de
engenho, parecia mais, pelo que me contavam dos seus modos, uma dama nascida para a reclusão.
2 À noite ela me fazia dormir. Adormecer nos seus braços, ouvindo a surdina daquela voz, era o meu requinte de sibarita pequeno.
3 Ela me enchia de carícias. E quando o meu pai chegava nas suas crises, exasperado como um pé de vento, eu a via chorar e
pronta a esquecer todas as intemperanças verbais, do seu marido. Os criados amavam-na. Ela também os tratava com uma
bondade que não conhecia mau humor.
4 Horas inteiras eu fico a pintar o retrato dessa mãe angélica, com as cores que tiro da imaginação, e vejo-a assim, ainda tomando
conta de mim, dando-me banhos e me vestindo. A minha memória ainda guarda detalhes bem vivos que o tempo não conseguiu
destruir.
5 O seu destino fora cruel: morrer como morreu, vítima de um excesso de cólera do homem que tanto amara; e depois, ela, cheia
de pudor e de recato, a encher as folhas de sensação com o seu retrato, com histórias mentirosas de sua vida íntima.
6 A morte de minha mãe me encheu a vida inteira de uma melancolia desesperada. Por que teria sido com ela tão injusto o destino,
injusto com uma criatura em que tudo era tão puro. Esta força arbitrária do destino ia fazer de mim um menino meio cético, meio
atormentado de visões ruins.

In: José Lins do Rego. Menino de engenho. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1956.p.25-26)

Questão 1
Julgue as afirmativas a seguir, considerando o sentido e a estrutura do texto I.

I. A conjunção “e” foi empregada com o mesmo valor aditivo nos trechos “eu a via chorar e pronta a esquecer todas as
intemperanças verbais, do seu marido” (3º parágrafo) e “vejo-a assim, ainda tomando conta de mim, dando-me banhos
e me vestindo” (4º parágrafo).
II. Pode-se inferir da leitura do texto que a “doce fisionomia” da mãe, que o narrador guarda na memória, é bastante subjetiva
e deve-se ao fato de ele, durante muito tempo, tentar reconstruir “o retrato dessa mãe angélica”, em sua mente, usando a
imaginação.
III. Predomina no texto a função emotiva da linguagem, o que é pressuposto do gênero textual a que pertence o fragmento
destacado no texto I, a narrativa de memórias.
IV. A crueldade do destino, a que se refere o narrador no quinto parágrafo, é construída a partir de duas antíteses que cercam a
história da morte de sua mãe: amor e ódio; pudor e traição.

Questão 2
No que concerne ao emprego dos verbos no texto I, julgue as afirmativas subsequentes.

I. Identifica-se incorreção gramatical na passagem “D. Clarisse, como lhe chamavam os criados,” (1º parágrafo), visto que a
forma verbal “chamavam” é transitiva direta, não permitindo o emprego do pronome oblíquo “lhe”.
II. A passagem “Criara-se em colégio de freiras, sem mãe, pois o pai ficara viúvo quando ela ainda não falava.” (1º
parágrafo) poderia ser reescrita como Tinha-se criado em colégio de freiras, sem mãe, pois o pai tinha ficado viúvo quando
ela ainda não falava, sem acarretar modificações semânticas ou gramaticais ao período.
III. Em “e vejo-a assim, ainda tomando conta de mim, dando-me banhos e me vestindo.” (4º parágrafo), verifica-se que os
verbos destacados apresentam transitividades distintas, uma vez que o pronome “me” constitui o objeto indireto na primeira
ocorrência, e o objeto direto na segunda.
IV. Na passagem “Esta força arbitrária do destino ia fazer de mim um menino meio cético” (6º parágrafo), o verbo “fazer”
deve ser considerado transitivo indireto predicativo.
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Texto II: Menino de engenho
João Ribeiro

1 Eis um romance que não podemos aconselhar a todos os leitores. É um livro de naturalismo feroz, que talvez repugne às
almas tímidas e às leitoras da Bibliothèque Rose.
2 Feita essa restrição, ditada cum grano salis, devemos dizer que não é para nós a advertência. Achamos o livro admirável e
digno do entusiasmo que vai despertar entre os leitores circunspectos sem antiquados preconceitos, um tanto deslocados
do nosso tempo.
3 É a história exata e natural de uma criança, órfã de pai e mãe, e naturalmente mal criada; ou sem os poderosos freios de
repressão familiar. É possível mesmo admitir que o Menino do Engenho não tem muita culpa nessa autobiografia que faz do
momento que nasceu até os doze anos de idade.
4 Nesse tempo viu muita coisa, aprendeu o bem e o mal, quais se lhe antolharam na vida e adquiriu talvez uma precocidade
terrível acerca dos "assuntos proibidos", mas inevitáveis. A pintura é magistral e verdadeira. Quem quer que conheça os
nossos costumes, só por hipocrisia ou afetação pode negar o espetáculo das superstições, dos vícios degradantes e dos
aspectos da vida rural, que se escondem na idade viril, mais tarde, ao sabor das conveniências sociais e domésticas.
5 O autor, porém, não guarda esses recônditos segredos nas páginas do livro. O seu destemido naturalismo apresenta-se-nos
à luz do sol, qualquer que seja a inconveniência das verdades.
6 O menino, cuja história é narrada no livro, acaba viciado, avariado, aos doze anos, no momento de entrar para o colégio.
Chega ao internato com a experiência da rua terrível. Que será dele, ou dos outros rapazes, quando com eles entrar em
convivência? Eis o que o romance não nos diz, porque é apenas a história da infância, antes de qualquer paixão juvenil.
Pode ser que a autobiografia venha a ser continuada, mas a narrativa termina definitivamente no período infantil.
7 Ora, nesse breve lapso de tempo, assistimos a coisas surpreendentes, ao vício de "barranquear os animais", como se diz no
Sul, e a libido de uma professora que acaricia com mais volúpia que ternura a criança de oito anos a quem ensina a ler, e
como se vê otras cositas mas. Puro Freud.
8 Há cenas de profunda emoção da vida dos escravos, do "tronco" e dos castigos bárbaros do outro tempo ainda não muito
distante.
9 A pintura da "enchente" do rio é uma das mais belas que temos lido, assim como a do "lobisomem", superstição vulgar em
todo o Brasil. O romance passa-se na zona fronteiriça entre Pernambuco e Paraíba, como o acusam as paisagens e a vida
dos engenhos de açúcar.
10 São muitos na região os bandidos, mas também há almas puras e angélicas, que o romance não esquece, para honra da
espécie humana.
(...)
11 Quanto a nós, achamos que esse livro é um dos tipos de "brasilidade" da nossa literatura. Nele não há a preocupação do
regionalismo, é a expressão viva da linguagem do Norte, alheia ao vernaculismo de artifício da literatura corrente.
12 É um livro de primeira ordem.
Jornal do Brasil, 8-9-1932

Questão 3
Com base nas ideias contidas no texto II, julgue as afirmativas abaixo.

I. Pode-se depreender da leitura total da crítica que o autor acaba por desaconselhar a leitura do livro Menino de Engenho, pelo
excesso de violência e de “assuntos proibidos” (4º parágrafo).
II. No terceiro parágrafo, o emprego do itálico ressalta o nome do livro a que o autor faz alusão em seu ensaio.
III. A ideia de indeterminação está presente no trecho “qualquer que seja a inconveniência das verdades” (5º parágrafo),
mas não no trecho “Que será dele, ou dos outros rapazes, quando com eles entrar em convivência?” (6º parágrafo)
IV. Segundo o autor, não se pode negar a veracidade dos fatos narrados no romance, visto que esses fatos constituem antigos
costumes da região em que se passa a história, o que é sabido por todos.

Questão 4
Acerca dos aspectos relativos à sintaxe do texto II, julgue as afirmativas que seguem.

I. Nos trechos “Pode ser que a autobiografia venha a ser continuada, mas a narrativa termina definitivamente no período
infantil.” (6º parágrafo) e “Quanto a nós, achamos que esse livro é um dos tipos de ‘brasilidade’ da nossa literatura.” (11º
parágrafo), a conjunção integrante “que”, nas duas ocorrências, inicia orações subordinadas de classificações sintáticas
distintas.
II. Em “O seu destemido naturalismo apresenta-se-nos à luz do sol, qualquer que seja a inconveniência das verdades.”
(5º parágrafo), o termo “se” é classificado como parte integrante do verbo, não exercendo, portanto, função sintática.
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III. O período “São muitos na região os bandidos, mas também há almas puras e angélicas, que o romance não esquece,
para honra da espécie humana.” (10º parágrafo) é misto, ou seja, formado por coordenação e por subordinação e apresenta
três orações, respectivamente, uma oração coordenada assindética, uma oração coordenada sindética adversativa, que serve
de principal à oração subsequente, e uma oração subordinada adjetiva explicativa.
IV. A reescrita do trecho “Ora, nesse breve lapso de tempo, assistimos a coisas surpreendentes,” (Texto II – 7º
parágrafo) como Ora, nesse breve lapso de tempo, coisas surpreendentes foram assistidas por nós não alteraria o
sentido do trecho original e não estaria em desacordo com a norma padrão da língua.

Questão 5
Julgue os itens que seguem, considerando os aspectos linguísticos e gramaticais dos textos I e II.

I. O vocábulo grifado, no trecho “A pintura da ‘enchente’ do rio é uma das mais belas que temos lido, assim como a do
‘lobisomem’, superstição vulgar em todo o Brasil.” (Texto II – 9º parágrafo), é um pronome demonstrativo; por esse motivo,
ele não pode ser suprimido, sem acarretar prejuízo semântico ao texto.
II. O termo “surdina”, presente em “Adormecer nos seus braços, ouvindo a surdina daquela voz, era o meu requinte de
sibarita pequeno.” (Texto I – 2º parágrafo), poderia ser substituído pelo termo ao longe, com as devidas adaptações, sem que
houvesse alterações de sentido para o texto.
III. No período “Achamos o livro admirável e digno do entusiasmo que vai despertar entre os leitores circunspectos sem
antiquados preconceitos, um tanto deslocados do nosso tempo.” (Texto II – 2º parágrafo), os termos “preconceitos” e
“deslocados” são compostos pelo mesmo processo de formação, a derivação prefixal.
IV. As palavras destacadas em “Pode ser que a autobiografia venha a ser continuada” e em “A pintura da ‘enchente’ do
rio é uma das mais belas que temos lido, assim como a do ‘lobisomem’” (Texto II – 9º parágrafo) são formadas,
respectivamente, por composição por justaposição e composição por aglutinação.
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GABARITO:

1. ECCC
2. ECCC
3. EEEC
4. CECE
5. CEEC